24 de abril de 2017

"A esquerda francesa é hoje um campo em ruínas"

O Novo Partido Anticapitalista (NPA), que obteve 1,1% no primeiro turno das eleições presidenciais, recusa-se a dar instruções para votar e não deve apresentar candidatos legislativos em junho. Mas ele espera emergir "uma nova força à esquerda."

Pierre Carrey


Philippe Poutou no estúdio da France 2, 20 de abril de 2017. Boris Allin para o Libération.

Tradução / “É a pior eleição que já vivi", diz Alain Krivine, 75 anos, um dos líderes do Novo Partido Anticapitalista (NPA). Ele não está tão impressionado com a pontuação na primeira rodada da corrida presidencial de 2017, mas com as confusões, reviravoltas, hesitações e enganações que marcaram a campanha e acabam infiltrando a sociedade em suas camadas mais profundas. "Em Saint Denis, cruzamos com pessoas que diziam: ‘Preferimos Poutou mas vamos votar em Macron porque ele é mais confiável’. Outros diziam: ‘Será o carteiro [Olivier Besancenot, ex-candidato pelo NPA] ou Marine [Le Pen]". Este é o resultado de cinco anos de Sarkozy mais cinco anos de Hollande: as pessoas estão perdidas".

No domingo à noite, os militantes do NPA se reuniram em um circo-cabaré de Paris, le Zèbre, com luzes laranja, cortinas grená, e, sobre o palco, afastados esperando o próximo espetáculo, um trapézio, um manequim de um homem dormindo e um globo espelhado. Eles tentam se transmitir alegria e coragem, como bons militantes que não se deixam abater apesar do 1,1% registrado por Philippe Poutou no primeiro turno – pior do que o 1,5% obtido em 2012. Mas há, no fundo de cada um, o sentimento de tristeza e um toque de ansiedade.

"Um voto de classe"

A reflexão que aparece com frequência nas conversas é: "A esquerda é hoje um campo em ruínas". Não se referem apenas ao NPA, mas também ao Partido Socialista, que foi massacrado, obtendo apenas 6,35% dos votos, e ao movimento France Insoumise (França Insubmissa), de Jean-Luc Mélenchon, que não se qualificou para o segundo turno (ficando em quarto lugar, com 19,62%), apesar de uma dinâmica promissora. Somados, os resultados revelam que, concretamente, menos de 30% dos eleitores franceses deram seu voto para a esquerda.

"E ainda não acabou”, avalia Julien Salingue. “Podemos ter agora um voto de classe no segundo turno, com Marine Le Pen de um lado, denunciando os excessos da globalização, e Emmanuel Macron do outro, na defesa dos bancos e do setor financeiro. Isso deve reforçar a conquista de algumas das classes populares por Le Pen. Esse confronto pode perturbar ainda mais os eleitores e complicar possíveis projetos futuros entre as forças de esquerda".

Philippe Poutou, candidato pelo movimento, equiparou os dois candidatos em seu discurso após o resultado, transmitido ao vivo do Zèbre. Ele se recusa a tomar posição em um duelo que opõe um Front National "tão capitalista e cheio de escândalos quanto os outros" à organização En Marche "herdeira direto dos bancos e de François Hollande." Assim, o NPA não indicará voto para o segundo turno. Mesmo que "entenda" que alguns eleitores possam apoiar Emmanuel Macron para barrar o projeto de Marine Le Pen.

Mais tarde, no estúdio do canal France 2, antes de tirar uma semana de férias para depois voltar à fábrica, Poutou rompia a unanimidade dos principais partidos em torno de Macron, dizendo três vezes lamentar que este estivesse cercado por tanta gente "nefasta".

"Um novo Nuit Debout"

O essencial para esta franja da esquerda anticapitalista se situa além da eleição presidencial. Philippe Poutou, 50 anos, operário na fábrica da Ford em Blanquefort (Gironde), que não será candidato novamente em 2022, esboçou um plano de ação em seu discurso: "mobilizar a juventude" "retomar as ruas" e criar "uma nova força para nos representar."

O primeiro encontro está marcado para 1º de Maio, Dia do Trabalho. A seis dias do desfecho desta eleição presidencial, o NPA deseja reunir muitos manifestantes, unificados e provenientes de vários sindicatos, partidos e associações. O objetivo é dar esperança aos cidadãos de esquerda que não estão seduzidos por Emmanuel Macron e buscam justiça social. "Precisamos de um novo Nuit Debout", diz Christine Poupin, porta-voz do NPA. Em coro, a sala do Zèbre grita "Greve geral!", estratégia sobre a qual os sindicatos e os partidos tradicionais não entram em acordo desde 1968 em escala nacional. Alain Krivine se mostra otimista. "Maio de 1968 teve efeitos tardios, como a vitória de Mitterrand, em 1981. Não me oponho às eleições, desde que validem um movimento de base. Em cinco anos, tivemos o Nuit Debout e as manifestações contra a lei El Khomri. É preciso ter esperança nos desdobramentos dessas mobilizações e não desperdiçar as que estão por vir".

"Vamos em frente"

Quanto à "nova força" da esquerda, poderia passar por alianças com outros movimentos políticos, como a Lutte Ouvrière (LO), que havia aceitado apresentar listas conjuntas nas eleições europeias de 1999, a France Insoumise (França Insubmissa), que reúne a maior parte dos votos progressistas hoje. Os militantes do NPA, no entanto, mostram-se reservados sobre as chances desta aproximação, lamentando o percurso "egocêntrico" e "vertical" escolhido por Jean-Luc Mélenchon, que propõe que se aliem a ele sem, no entanto, parecer disposto a criar um plataforma mais ampla.

Paradoxo desta eleição: os eleitores do NPA reunidos no domingo em Paris zombam de Mélenchon quando este ironiza na TV os "midiocratas" e os "oligarcas", mas muitos lamentam que ele não tenha ido para o segundo turno. Sua qualificação representaria "uma mudança radical", imaginava Besancenot na semana passada, em entrevista à revista Regards e, nesse caso, “tudo teria que ser rediscutido."

Enquanto espera reformular uma oposição de esquerda, o Novo Partido Anticapitalista não deve apresentar candidatos às legislativas de 11 e 18 de junho, como tinha feito nas regionais em 2015. Uma decisão sobre o assunto deve ser tomada na segunda-feira à noite. O que esfria o NPA é a pontuação de Philippe Poutou, metade dos 2% esperados, sugerindo fracos resultados na corrida legislativa. As despesas de campanha de uma organização política só são reembolsadas se esta ultrapassa a marca de 1% em pelo menos 50 eleições. "Uma circunscrição representa entre € 3mil e 4mil de gasto mínimo, e se apresentarmos cem candidatos, são € 400mil", calcula um membro do NPA. Ele conclui: "Vamos em frente. Há sempre outras maneiras de se fazer ouvir. Continuamos a acreditar”.

Professores na linha de frente

Paul Bentley

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

De Buenos Aires a Toronto, os professores estão envolvidos em uma longa guerra para defender a educação pública e resistir ao lento desmantelamento das condições decentes de trabalho que alcançaram durante a primeira era do pós-guerra. Ao fazê-lo, estão estabelecendo o ritmo para outras lutas da classe trabalhadora contra a privatização e condições de trabalho cada vez mais precárias.

É a força dos professores como uma massa insubstituível de trabalhadores concentrados em condições de trabalho semelhantes a fábricas que os transformaram em um proletariado pós-moderno. Em muitos casos, isso vai contra suas próprias inclinações, pois o professor é, por natureza, apegado a condições ordenadas na sala de aula; e prefere a criatividade sobre o conflito político.

Mas os professores agora são obrigados pelas circunstâncias a superar suas inibições. Sua força muito fez deles o principal alvo da agressão corporativa em instituições socializadas.

E o professor deve alimentar sua família como todo mundo. Ele anseia por essa mesma ordem e previsibilidade na sua vida familiar que ele se empenha em construir na sala de aula.. Assim, ele não pode fechar os olhos às taxas de inflação de mais de 40% quando confrontadas com aumentos salariais de apenas 19%, como oferecido hoje pelo Governo da Argentina.

É por isso que nos protestos em curso os professores argentinos estão bloqueando o trânsito, criando uma "escola de tenda" livre em frente ao prédio do Congresso, e empurrando as datas de início das aulas para mais tarde. Da mesma forma, no Chile, milhares de professores também foram às ruas em abril para condenar a falta de ação da presidente Michelle em relação às reformas prometidas para o sistema educacional proibitivo e privatizado do país.

No México, os professores estão tomando medidas contra o "Gasolinazo", uma caminhada em curso em todo o país contra os preços do gás implementado pelo Presidente Peña Nieto. Para chegar ao trabalho o professor deve viajar de carro. A Coordinadora Nacional de Trabajadores de la Educación (CNTE) se juntou aos "normalistas", instrutores de professores, para liderar protestos em massa contra preços e privatização, como o sequestro temporário de ônibus e carros para bloquear o trânsito em Oaxaca no dia 18 de abril.

A Barbados Secondary School Teacher’s Union (BSTU), por sua vez, liderou uma "Marcha pelo Respeito" de centenas de professores e seus apoiadores no dia 6 de abril. Os membros do BSTU argumentam que a marcação recentemente atribuída de testes padronizados nacionais não faz parte de seus contratos e, portanto, o ministério está exigindo trabalho não remunerado de professores já mal pagos.

No início do mês passado, nos Estados Unidos, os sindicatos de professores de Seattle a Chicago realizaram votações sobre a realização ou não de uma greve de um dia no primeiro dia de maio para, como disse a Chicago Teachers Union (CTU): "Resistir ao Racismo, Reconstruir a Comunidade". Embora a decisão tenha sido contra uma greve, a CTU vai adiante com ação de massa no dia 1º de maio, e insistem no direito de seus membros, "usar um de seus Dias Úteis de Negócios ou um dia não pago '0 Dia'", para participar das atividades do Primeiro de Maio.

Enquanto isso, aqui no Canadá a luta continua com a Aprovação do Projeto de Lei 92, a Lei de Emendas Coletivas da Junta Escolar, (SBCBA) pela Legislatura de Ontário. Por um lado, o SBCBA permite a aprovação de acordos favoráveis ​​alcançados com professores de Ontário em que ganham aumentos salariais de 4% ao longo de dois anos, e compensação pela supressão ilegal de seu direito à greve em 2012.

Por outro lado, isso ocorre ao custo de medidas sutis associadas ao projeto de lei que enfraquecem a democracia sindical ao impor uma negociação centralizada e exigências de notificação precoce não razoáveis ​​antes que qualquer ação de greve possa ser tomada no futuro.

Além disso, o curto período de dois anos para o novo contrato de "extensão" com professores de Ontário os prepara para um confronto perigoso com um governo recentemente eleito, provavelmente conservador, que, tão cedo em seu mandato, não estará inclinado a ser quase tão generoso.

Ainda assim, o acordo com professores de Ontário, que foi ratificado por uma forte maioria de professores em 7 de abril, aumentou a parada para o governo de Ontário nas negociações com outros sindicatos. Eles devem agora atender o precedente estabelecido pelos professores de barganha sem concessão, e um aumento dos salários que acompanha a inflação.

Esperamos que os professores e outros trabalhadores da Argentina tenham a mesma sorte.

23 de abril de 2017

A ocupação militar do Haiti

Yves Engler

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Na semana passada, o Conselho de Segurança da ONU finalmente votou para acabar com sua ocupação militar no Haiti. Instigado pelos EUA, França e Canadá, a MINUSTAH foi responsável por inúmeros abusos durante os últimos 13 anos.

Ao mesmo tempo em que o Conselho de Segurança votou para retirar sua força militar (um contingente policial permanecerá), a Associated Press publicou uma investigação aprofundada confirmando o abuso sexual generalizado por tropas da ONU no Haiti. Os soldados estrangeiros tiveram relações sexuais com menores, rapazes foram sodomizados e meninas jovens estupradas. Um relatório interno da ONU descoberto por AP implicou 134 tropas do Sri Lanka em um aro de sexo que explorou nove crianças de 2004 a 2007. Nenhum dos soldados da MINUSTAH foram presos.

No início de 2012, imagens de vídeo vieram à luz de cinco soldados uruguaios agredindo sexualmente um haitiano de 18 anos. Nesse caso também os soldados foram mandados para casa, mas ninguém foi punido.

No momento em que Haïti Liberté se queixava, "há também casos quase mensais de soldados da ONU que agridem sexualmente os menores haitianos, todos os quais ficaram impunes." De acordo com o Acordo de Forças de Estado assinado entre a ONU e o governo golpista de 2004-06, a MINUSTAH não está sujeitas às leis haitianas. Na pior das hipóteses, os soldados são mandados para casa para julgamento. Apesar de ter cometido inúmeros crimes, muito poucos soldados da MINUSTAH foram levados a julgamento em casa.

Além do abuso sexual, o desprezo da ONU pela vida haitiana causou um grande surto de cólera, que deixou 10 mil mortos e quase um milhão de doentes. Em outubro de 2010, uma base das Nações Unidas no centro do Haiti despejou imprudentemente esgoto, incluindo as fezes de novas tropas nepalesas, em um rio onde as pessoas bebiam. Isso introduziu a doença transmitida pela água no país. Mesmo depois do surto mortal de cólera, as forças da ONU foram apanhadas a depositar esgotos em vias navegáveis ​nas quais os haitianos bebiam. Enquanto se desculparam parcialmente por introduzir a cólera no país, a ONU não conseguiu compensar as vítimas de sua imprudência ou mesmo gastar as somas necessárias para erradicar a doença.

"Imagine se a ONU fosse para os Estados Unidos e violasse crianças e levasse cólera", disse Mario Joseph, um proeminente advogado haitiano. "Os direitos humanos não são apenas para os brancos ricos."

Esses abusos não são conseqüências infelizes de um esforço bem intencionado de manutenção da paz. Pelo contrário, a MINUSTAH foi criada para consolidar as políticas antidemocráticas dos EUA, França e Canadá e usurpar a soberania haitiana.

Quando ex-soldados haitianos varreram o país matando policiais em fevereiro de 2004, o Conselho de Segurança da ONU ignorou o pedido do governo eleito de manter forças de paz para restaurar a ordem em um país sem um exército. A Comunidade do Caribe (CARICOM) convocou o Conselho de Segurança a desdobrar uma força-tarefa militar de emergência para auxiliar o governo eleito e, em 26 de fevereiro, três dias antes da remoção do presidente Jean-Bertrand Aristide, o Conselho Permanente da Organização dos Estados Americanos pediu ao Conselho de Segurança da ONU para "Tomar urgente todas as medidas necessárias e apropriadas para enfrentar a deterioração da situação no Haiti.". Este apelo por assistência foi categoricamente rejeitado pelas nações mais poderosas do mundo, mas imediatamente após as tropas dos EUA / França / Canadá derrubar o governo eleito o Conselho de Segurança aprovou uma moção pedindo intervenção para estabilizar o Haiti.

Imediatamente após os fuzileiros navais dos Estados Unidos levarem Aristide do país em 29 de fevereiro de 2004, 2000 soldados americanos, franceses e canadenses estavam no terreno no Haiti. Durante anos, um contingente policial canadense dirigido pela MINUSTAH e por seis meses 500 soldados canadenses fizeram parte da missão da ONU que apoiou a repressão violenta do governo golpista (2004-2006) contra manifestantes pró-democracia. A força da ONU também matou dezenas de civis diretamente na pacificação de Cité Soleil, um bastião de apoio a Aristide. O pior incidente foi em 6 de julho de 2005, quando 400 soldados da ONU, apoiados por helicópteros, entraram no bairro densamente povoado.

Testemunhas oculares e vítimas do ataque alegaram que os helicópteros da MINUSTAH dispararam contra os moradores durante a operação. O papelão e as casas de parede de estanho ondulado não eram páreo para o armamento pesado das tropas, que disparou "mais de 22 mil cartuchos de munição", de acordo com um arquivo da embaixada dos EUA liberado através de um pedido de Liberdade de Informação. O ataque deixou pelo menos 23 civis mortos, incluindo numerosas mulheres e crianças. A ONU afirmou inicialmente que eles apenas mataram o líder da "gang" Dread Wilme. (Imagens gráficas de vítimas morrendo em câmera podem ser vistas no Haiti de Kevin Piña: We Must Kill the Bandits.)

Durante o auge da violência, os diplomatas canadenses pressionaram a MINUSTAH a se manter firme. No início de 2005, o chefe da missão da ONU, general Augusto Heleno Ribeiro, disse a uma comissão parlamentar no Brasil que "estamos sob extrema pressão da comunidade internacional [citando especificamente o Canadá, a França e os EUA] para usar a violência". Claude Boucher pediu abertamente uma maior violência da ONU na favela pró-Aristide de Cité Soleil.

É bom que soldados da ONU sejam logo removidos do Haiti. Os haitianos, no entanto, continuarão a sofrer as conseqüências da MINUSTAH por anos.

21 de abril de 2017

É hora do "Estado Profundo" de novo

Fred Nagel*

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Sempre que há conflitos óbvios dentro da classe dominante, o conceito de um Estado Profundo é trazido à tona para explicar por que nosso governo parece estar se despedaçando. Quando a retórica cansada do nosso sistema de dois partidos não pode nos trazer a uma catarse satisfatória, há sempre o deus ex machina de grandes conspirações e governantes ocultos.

A verdadeira natureza de nossa opressão, no entanto, tem estado à vista por décadas, embora assiduamente evitado por muitos de nossos meios de comunicação. A criminalidade da CIA e do FBI é um exemplo disso. Ambas as agências estão muito além da supervisão do Congresso. Os truques sujos, o assédio político e a espionagem ilegal levados a cabo pelo FBI, bem como os assassinatos estrangeiros, os golpes políticos e a vigilância maciça da CIA só foram investigados uma vez, e isso foi durante as audições do Comitê da Igreja de 1975. As audiências expuseram a ilegalidade do FBI e da CIA, mas fizeram pouca diferença na responsabilização de longo prazo de ambas as agências, apesar da criação do Comitê Seleto de Inteligência do Senado dos EUA.

Trinta e dois anos depois, o senador Jay Rockefeller, então presidente do Comitê de Inteligência do Senado, foi questionado sobre o progresso que sua organização havia feito para descobrir as operações secretas das agências de inteligência do país. Em exasperação, ele disse a um jovem repórter freelance, "Você não entende o modo como a inteligência funciona? Você acha que, por ser presidente do Comitê de Inteligência, eu apenas digo 'Eu quero isso, me dê'? Eles o controlam. Todas as coisas. Todas as coisas. O tempo todo."

Truques sujos, no entanto, realmente não somam o poder que muitos atribuem ao Estado Profundo. Matar líderes estrangeiros como Patrice Lumumba, Presidente da República Democrática do Congo, ou filmar quartos de hotel de Martin Luther King, chantageá-lo e pressioná-lo para cometer suicídio são atos criminosos. Mas eles realmente não destroem o primado de nossa democracia básica. O assassinato de Martin Luther King, no entanto, é diferente. Assim como os assassinatos de outros líderes progressistas da década de 1960 que desafiaram o poder entrincheirado do estado de segurança nacional: Fred Hampton, Malcolm X, Robert Kennedy e, claro, o próprio presidente John Kennedy.

JFK estava determinado a colocar a CIA sob seu controle, até o seu assassinato em Dallas. Quer ele tenha ou não tenha realmente dito que queria "dividir a CIA em mil pedaços e espalhá-los aos ventos", como relatado pelo New York Times em 1966, sua frustração e raiva com a CIA estão bem documentadas. Assim, a sua escolha foi usar o Comitê Nacional para uma Política Nuclear Saudável (SANE, na sigla em inglês) para negociar com Nikita Khrushchev durante o perigoso impasse nuclear. Seriam essas ameaças à dominação da CIA o suficiente para atrair seus assassinos?

A retirada do FBI de Richard Nixon é igualmente destrutiva para a nossa forma constitucional de governo. "Deep Throat", a fonte oculta de informações sobre os laços de Nixon com os ladrões de Watergate, não era outro senão o Diretor Associado do FBI, Mark Felt. Tanto Bob Woodward quanto Carl Bernstein, os repórteres do Washington Post que expuseram as ofensas ilegais de Nixon, admitiram que foram alimentados com a informação crítica por Felt. Nixon tinha nomeado um aliado, L. Patrick Gray, como diretor interino do FBI em uma tentativa de colocá-lo sob seu controle. Felt agiu sozinho, ou o impeachment de Nixon foi orquestrado pela agência?

Se a CIA e o FBI foram cúmplices na derrubada de presidentes e no assassinato de líderes populares americanos, então todas as apostas estão desativadas. Não há democracia, apenas terror dirigido pelo Estado Profundo. O fato de que o povo americano nunca recebe informações suficientes para distinguir os truques sujos dos assassinatos do Estado Profundo e a remoção dos presidentes eleitos, é um câncer crescente em nosso corpo político.

A existência de um grande poder de decisão além de qualquer processo democrático é preocupante. Mas a falta de qualquer responsabilidade perante as pessoas e a pura criminalidade do pouco que foi descoberto leva inevitavelmente à ilegitimidade do Estado aos olhos da maioria dos cidadãos.

O poder imenso e incontrolado das grandes corporações e de seus proprietários bilionários é outra fonte de questionamentos sobre nossa atual forma de governo. Existe uma agência federal que não está sob algum tipo de controle corporativo? Centenas de milhões em dinheiro ilegal têm inundado nosso processo eleitoral. O Congresso e o presidente são apenas vagamente responsáveis ​​perante os eleitores, porque a sua própria existência no cargo depende deste fluxo de dinheiro, em grande medida não rastreável.

Vimos os planos de Trump de cortar drasticamente a Agência de Proteção Ambiental e expor os cidadãos americanos a ainda mais poluição e a destruição acelerada do nosso habitat natural. Sob Obama, a criminalidade foi um pouco mais sutil. Um relatório de cinco anos da EPA sobre o efeito do fracking sobre a água potável da nação foi simplesmente alterado no final para apoiar a continuação desta forma de extração de gás natural. Quem ordenou que a conclusão científica fosse alterada? Ninguém além dos principais funcionários da EPA depois de se reunir com conselheiros-chave do presidente Obama. O domínio dos interesses das grandes empresas é bem-vindo por ambas as partes do establishment.

Os milhões corporativos compram exércitos de lobistas, analistas de think tanks, comentaristas de mídia e cientistas dispostos. Hidden campaigns attempt to neutralize opposition though dirty tricks and “astroturf” corporate supporters. Then there is the government to industry employment pipeline, the best way for politicians and their crony colleagues to cash in after they sell out.

O mais pernicioso desses lobbies são os das grandes petrolíferas, grandes agricultores, grandes farmacêuticas, grandes bancos e, claro, a indústria de defesa. As despesas militares estão perto da metade do orçamento nacional, e Lockheed Martin, Boeing e General Dynamics têm todos os seus "conselheiros" que se sentam no Pentágono planejando novas guerras para o povo americano pagar. Com 800 bases militares estrangeiras e assassinatos de drones sendo conduzidos em pelo menos sete países, os Estados Unidos são vistos consistentemente como "a maior ameaça à paz mundial" em pesquisas internacionais. Enquanto este país move seus exércitos e mísseis cada vez mais para perto da Rússia e de China, as possibilidades de um Armageddon nuclear aumentam junto com os lucros para fabricantes de armas dos EUA. A continuação da vida na terra nunca faz parte da equação lucrativa.

As grandes corporações tiveram tanto êxito em dominar a tomada de decisões governamentais que as nações estrangeiras tomaram conhecimento. Duas teocracias extremistas e racistas, Arábia Saudita e Israel, estabeleceram a maior influência em Washington. Os sauditas deram à Fundação Clinton 10 milhões para o acesso a novos aviões a jato, que eles usaram para realizar uma guerra genocida contra um levante xiita no vizinho Iêmen. E Israel realizou uma brutal ocupação de 50 anos de terras palestinas e a opressão do apartheid de 5 milhões de pessoas, todas com ajuda militar dos EUA e proteção dos EUA nas Nações Unidas.

Durante o recente massacre utilizando alta tecnologia em Gaza, mais de 500 crianças palestinas foram assassinadas. Muitos foram incinerados por lasers e bombas de fósforo branco enquanto se escondiam nas escolas da ONU. Mas o nosso Congresso pagou os sicofantes do Lobby, votou para que Israel tivesse o direito de "se defender" destruindo a única usina de energia de Gaza, bem como 18.000 de suas casas. Israel perdeu apenas uma casa.

O único grupo de interesse nos Estados Unidos que tem o poder de fazer a crítica pública ilegal é o Lobby de Israel. Expressemos a condenação do Estado de apartheid de Israel e podemos perder nosso trabalho ou sermos adicionado a uma lista negra do governo. Advogar pelos direitos de 5 milhões de palestinos oprimidos pode em breve tornar-se completamente ilegal. A Exxon Mobile, a Lockheed Martin ou a Monsanto jamais teriam influência nas capitais dos Estados Unidos ou em Washington para fazer críticas públicas contra a lei? O Lobby de Israel, com seus profundos laços financeiros, de alta tecnologia e religiosos com os EUA, é o melhor exemplo de como nossa forma constitucional de governo foi infiltrada e subvertida. Até mesmo a Primeira Emenda está à venda.

De fato, precisamos continuar falando sobre o Estado Profundo quando as forças antidemocráticas em nosso país estão bem claras? Há certamente os bilionários excêntricos e secretos como os irmãos Koch, Robert Mercer, e Haim Saban que coloca pás de centenas de milhões em nosso sistema supostamente democrático. Sim, temos uma kleptocracia de múltiplas camadas com a sua quota de canais secretos e sujos.

Mas pensar que está completamente escondido nos faz esquecer o óbvio. Temos vivido com a corrupção de nossos ideais democráticos por décadas. E agora a transição do neoliberalismo para uma forma de ultra-corporativismo está sendo feita bem na frente de nossos olhos. Não vamos desperdiçar nosso tempo especulando sobre o Estado Profundo. Vemos a maquinaria da vigilância e da repressão em primeira mão, e embora não possamos estar cientes de todas as suas maquinações secretas, sabemos o suficiente para unir a resistência enquanto pudermos.

* Fred Nagel é um veterano dos EUA e ativista político cujos artigos aparecem na Z Magazine, Mondoweiss, Global Exchange e War Crimes Times (uma publicação da Veterans For Peace). Ele também apresenta um programa no Vassar College Radio, WVKR (classwars.org).

18 de abril de 2017

Votar ou reinventar a política

Em um artigo no "Le Monde", o filósofo acredita que o voto só reforça o conservadorismo. Em vez disso, ele defende "reinventar o comunismo."

Alain Badiou

Le Monde


Tradução / Muitos eleitores ainda estão indecisos sobre a iminente eleição presidencial. Eu consigo entender o porquê. Não é tanto que os programas dos candidatos considerados elegíveis sejam obscuros ou confusos. Não é tanto – para usar uma formulação que usei certa vez com Sarkozy e que gozou de certo sucesso – que precisemos nos perguntar “em nome do que eles falam.” Na verdade, tudo isso está bastante evidente.

Marine Le Pen é a versão modernizada – e portanto feminizada – do que a extrema-direita francesa sempre foi, dévouée au capitalisme et à la propriété privée sur le fond, mais démagogiquement populiste, nationaliste à la petite semaine, xénophobe et boutiquière.

François Fillon é o burguês provincial católico intolerante, totalmente inconsciente do que é viver fora de seu ambiente rançoso, e cuja filosofia, ou orçamento pessoal, equivale a "poupar cada centavo". Sinon qu’il n’est pas regardant sur la provenance de ses propres sous, et par contre d’une intransigeance et d’une avarice sordides quand il s’agit des dépenses budgétaires, et donc des sous des autres, et surtout des sous des pauvres. Benoît Hamon est le représentant timide, quelque peu étriqué, du « socialisme de gauche », détermination qui a toujours existé, bien qu’elle soit plus difficile à identifier et découvrir que l’Arlésienne, sinon par sa différence in-différente d’avec le socialisme colonial et musclé des Lacoste ou des Valls.

Jean-Luc Mélenchon – certamente o menos desagradável – é no entanto a expressão parlamentar do que chamamos hoje de esquerda “radical”, na fronteira precária entre o velho socialismo fracassado e um comunismo espectral, misant sur l’éloquence « à la Jaurès » et sur une énergie partagée à la bonne franquette pour masquer qu’au pouvoir, il ne ferait que ce qui est déclaré possible par nos vrais maîtres, et donc presque rien de ce qu’il annonce à son de trompe.

Emmanuel Macron, lui, est une créature sortie du néant par eux, nos vrais maîtres, les plus récents, ceux qui ont acheté, par précaution, tous les journaux, les capitalistes de la dernière vague, ceux de la mesquine « révolution » informatique et de ses bas-côtés. Il porte beau, ce faux jeune, et s’il croit et dit que la Guyane est une île ou que le Pirée est un homme, ce n’est que parce qu’il sait que parler n’a jamais engagé personne dans le camp qui est le sien, et que, comme on disait dans le Midi du vieux socialisme de cassoulet, « il est bien pôvre, celui qui ne peut pas promettre ».

Alors, obscurément, ceux qui hésitent sentent que dans ce théâtre de rôles anciens et connus, la conviction politique, la révolte, la demande populaire, une dangereuse situation mondiale presque au bord de la guerre, le malheur planétaire de centaines de millions de gens, que tout cela ne compte guère, ou n’est qu’un prétexte pour de fallacieux effets de manche.

Por isso, é útil começar pela seguinte questão: o que é política? E o que é uma política identificável, declarada?

Uma política sempre pode ser definida a partir de três elementos. Primeiro, a massa de pessoas comuns, com o que pensam e fazem. Chamemos isso de “o povo.” Em seguida, as várias formações coletivas: associações, sindicatos e partidos – em suma, todos os grupos capazes de ação coletiva. Finalmente, os órgãos do poder estatal – congressistas, governo, exército, polícia – mas também os órgãos do poder econômico e midiático (uma diferença que se tornou quase imperceptível), ou tudo o que chamamos hoje – com um termo ao mesmo tempo pitoresco e opressor – “aqueles que decidem”.

Uma política sempre consiste em perseguir objetivos pela articulação destes três elementos. Assim, podemos ver que no mundo moderno – de modo geral – há quatro orientações políticas fundamentais: fascista, conservadora, reformista e comunista.

As orientações conservadoras e reformistas constituem o bloco parlamentar central nas sociedades capitalistas avançadas: a esquerda e a direita na França, os republicanos e democratas nos Estados Unidos, conservadores e trabalhistas no Reino Unido, democratas-cristãos e social-democratas na Alemanha, etc. O que essas duas orientações têm em comum é que afirmam que o conflito entre elas – especificamente a articulação desses três elementos – pode e deve permanecer nos limites constitucionais aceitos por ambas. Em outras palavras, o poder de alternância de um após o outro da tendência central é o modo de perpetuação, com pequenas alterações nas nuances de um consenso de base.

O que as duas outras orientações – fascista e comunista – tem em comum, apesar da radical oposição entre seus objetivos, é que elas defendem que o conflito entre os diferentes partidos sobre a questão do poder estatal é tendencialmente irreconciliável: não pode se restringir a um consenso constitucional. Eles se recusam a integrar na sua concepção de sociedade e do Estado os seus objetivos conflitantes ou apenas diferentes do seu.

Bien entendu, les objectifs de ces deux tendances sont – contrairement à ce qui règle le duo conservatisme/réformisme – totalement opposés. Le fascisme est un capitalisme d’Etat greffé sur le mythe d’une identité collective, raciale, nationale religieuse, culturelle, supérieure à toute autre. Le communisme entend, lui, briser le droit bourgeois, limiter de façon drastique la propriété privée des moyens de production, et s’adresse, hors identité fermée, à l’humanité tout entière. Mais l’un et l’autre s’opposent, au sein des opinions répandues dans le peuple, au bloc consensuel central.

Pode ser chamado de “parlamentarismo” a forma dominante do Estado no que é comumente chamado de Ocidente, a organização do poder que assegura a conservadores e reformistas uma hegemonia compartilhada – mediada pela máquina eleitoral, os partidos e sua clientela – que elimina em todos os lugares qualquer perspectiva séria dos fascistas ou comunistas tomarem o poder do estado.

Isto implica que existe um terceiro termo, uma poderosa base contratual comum, ao mesmo tempo externa e interna às duas orientações principais. É claro que em nossas sociedades, esta base é o capitalismo liberal. Liberdade ilimitada de empresa e enriquecimento, respeito absoluto da propriedade privada – garantida pelo sistema judiciário e pela polícia – confiança nos bancos, educação dos jovens sob o disfarce de “democratizar” a concorrência, apetite de “sucesso”, afirmações repetidas do caráter nocivo e utópico da igualdade: tal é a matriz das liberdades consensualmente estabelecidas. Estas são as liberdades que os tais partidos dominantes mais ou menos tacitamente se comprometem a garantir perpetuamente.

O desenvolvimento do capitalismo pode trazer algumas incertezas quanto ao valor do consenso parlamentar, e à confiança atribuída – durante o ritual eleitoral – aos “grandes” partidos conservadores ou reformistas. Isso é especialmente verdadeiro no caso da pequena-burguesia que tem seu status social ameaçado, ou em regiões de classe trabalhadora devastadas pela desindustrialização. Este é o caso no Ocidente - Estados Unidos e Europa, onde podemos observar uma espécie de decadência em face do poder ascendente dos países asiáticos. Essa crise subjetiva atual favorece sem dúvida orientações fascistas, nacionalistas, religiosas, islamofóbicas, e beligerantes, porque o medo é um mau conselheiro, e essas subjetividades marcadas pela crise são tentadas a se apegar a mitos identitários. Sobretudo, porque a hipótese comunista emergiu terrivelmente enfraquecida do fracasso histórico de todas as suas versões estatizantes, especialmente a URSS e a República Popular da China.

Les tenants intellectuels du consensus parlementaire, tant les conservateurs éclairés que les réformistes réalistes, tout ce qui va de Fillon à Mélenchon en passant par Macron et Hamon, nous supplient de voter « utile » pour barrer la route au proto-fascisme désormais installé dans le paysage. Mais qui a ouvert cette route ? Qui, par des campagnes ignorantes, acharnées, persécutrices, s’est employé à identifier l’orientation communiste à un crime ? Qui nous a enjoint de penser qu’une Idée égalitaire, le motif d’une émancipation de l’humanité toute entière, rompant avec une dizaine de millénaires de dictature de la propriété privée, pouvaient et devaient être jugés sur soixante ans d’expérimentations étatiques localisées, entre 1917 (révolution russe) et 1976 (échec définitif de la révolution culturelle chinoise) ?

Parlons de la répression de l’insurrection au Cameroun, avec les têtes des victimes exposées au seuil des villages. N’oublions pas les trente mille ouvriers morts sur le pavé de Paris lors de la répression de la Commune par ces parfaits démocrates qu’étaient messieurs Jules Ferry et Jules Favre. Et qu’on n’oublie surtout pas non plus que la seule première guerre mondiale, à partir des seuls Etats occidentaux et démocratiques, et pour des enjeux répugnants de rivalité impériale, créa l’époque où les morts à la guerre devaient désormais se compter par dizaines de millions. Qu’on se souvienne des atroces listes de jeune mortspour-rien qui composent de sinistres monuments dans le moindre de nos villages.

Oui, comparons, concluons. Le fléau de la balance ira invinciblement du côté de l’expérience communiste, laquelle, contre l’oligarchie minuscule qui cumule des profits extorqués, annonce, depuis très peu de temps, et dans la première grande vision étayée sur le réel, une libération de l’humanité tout entière. Quelques décennies de tentatives, brutalement encerclées et attaquées, ne peuvent convaincre quelqu’un de bonne foi qu’elles suffisent à annuler cette promesse et nous contraignent à y renoncer pour toujours.

Alors, voter ? Soyons, sur le fond, indifférent à cette demande de l’Etat et de ses organisations. On peut voter pour le moins pire, on peut ne pas voter par principe : c’est l’indifférence qui est en tout cas la bonne subjectivité. Car nous devrions désormais tous le savoir : voter, ce n’est jamais que renforcer, contre une autre, une des orientations conservatrices du système existant. Ainsi, ramené à son contenu réel, le vote est une cérémonie qui dépolitise les peuples. Analisado em seus reais conteúdos, o voto é uma cerimônia que despolitiza o povo. Devemos começar por re-estabelecer em todos os lugares a visão comunista do futuro. Militantes convictos devem discutir seus princípios em todos os contextos populares do mundo. Como propôs Mao, devemos “dar ao povo, em sua especificidade, o que ele nos dá em meio à confusão.” Oui, recommençons le communisme, au ras de la fusion entre son Idée et l’existence populaire. Ou seja, fazer política.

17 de abril de 2017

Festividades de Israel destacarão 50 anos de vergonha

Jonathan Cook diz que as comemorações iminentes de Israel deveriam acabar com qualquer confusão de que a ocupação é temporária

Jonathan Cook

The National

Uma vista geral do assentamento Judeu de Ateret ao oeste da cidade de Ramallah na Cisjordânia ocupada. Abbas Momani/AFP

Israel fará celebrações pródigas nas próximas semanas para marcar o 50º aniversário do que chama de "libertação da Judeia, Samaria e as Colinas do Golã" - ou o que o resto de nós descreve como o nascimento da ocupação.

O evento central ocorrerá em Gush Etzion, ao sul de Jerusalém. O "bloco" de assentamento da Cisjordânia desfruta de amplo apoio em Israel, não menos importante porque foi estabelecido há muito tempo pelo supostamente esquerdista Partido Trabalhista, agora liderando a oposição.

O jubileu é um poderoso lembrete de que, para os israelenses, a maioria dos quais nunca conheceu um tempo antes da ocupação, o domínio de Israel sobre os palestinos parece tão irreversível quanto as leis da natureza. Mas a extravagância das festividades também ressalta o crescimento, ao longo de cinco décadas, da autoconfiança de Israel como ocupante.

Documentos encontrados neste mês nos arquivos de Israel revelam que, quando Israel capturou Jerusalém Oriental em 1967, sua primeira preocupação foi enganar a comunidade internacional.

O Ministério das Relações Exteriores ordenou que os embaixadores de Israel descaracterizassem sua anexação ilegal de Jerusalém Oriental como uma simples "fusão municipal". Para evitar represálias diplomáticas, Israel alegou que era necessário facilitar a prestação de serviços essenciais à população palestina ocupada.

Curiosamente, aqueles que redigiram a ordem consideraram improvável que ela tivesse êxito. Os Estados Unidos já haviam insistido que Israel não cometeria movimentos unilaterais.

Mas, em meses, Israel havia despejado milhares de palestinos da Cidade Velha e destruído suas casas. Washington e a Europa vêm fechando os olhos para tais ações desde então.

Um dos slogans prediletos favoritos do movimento sionista foi: "Dunam após dunam, cabra após cabra". A apreensão de pequenas áreas de território medido em dunams, a demolição do estranho lar e a destruição gradual de animais pastoreados afastariam lentamente os palestinos da maior parte de suas terras, "libertando-a" para a colonização judaica. Se fosse feito de forma fragmentada, as objeções do exterior permaneceriam abafadas. Isso provou-se uma fórmula vencedora.

Cinquenta anos depois, a colonização de Jerusalém Oriental e da Cisjordânia está tão arraigada que uma solução de dois Estados não passa de um sonho.

No entanto, o presidente dos EUA, Donald Trump, escolheu este momento desfavorável para enviar um enviado, Jason Greenblatt, para pôr fim ao conflito palestino-israelense.

Em uma resposta de "boa vontade", o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, revelou uma estrutura para a construção de assentamentos. É exatamente o tipo de fórmula para a enganação que ajudou Israel a consolidar a ocupação desde 1967.

Netanyahu diz que a expansão será "restrita" aos assentamentos "previamente desenvolvidos", ou áreas "adjacentes", ou, dependendo do terreno, "terras próximas" a um assentamento.

Peace Now aponta que os assentamentos já têm jurisdição sobre cerca de 10 por cento da Cisjordânia, enquanto muito mais é tratado como "terra do Estado". A nova estrutura, diz o grupo, dá aos colonos uma luz verde para "construir em todos os lugares".

A Casa Branca de Trump deu de ombros. Uma declaração após o anúncio de Netanyahu julgou que os assentamentos não eram "impedimento para a paz", acrescentando que os compromissos de Israel com os governos anteriores dos EUA seriam tratados como questionáveis.

Efetivamente, os EUA estão limpando a ardósia, criando uma nova linha de base para negociações depois de décadas de mudanças israelenses despojando os palestinos de território e direitos.

Embora nada disso seja um bom presságio, os líderes do Egito e da Jordânia se encontraram com Trump este mês para pressionar por novas negociações entre Israel e os palestinos. A Casa Branca está se preparando para receber o presidente palestino, Mahmoud Abbas.

Alguns palestinos seniores estão corretamente cautelosos. Abbas Zaki, um líder do Fatah, teme que Trump tente impor uma solução regional aos Estados árabes, sobre a cabeça de Abbas, com o objetivo de "eliminar completamente a causa palestina".

David Ben Gurion, pai fundador de Israel, teria dito uma vez: "O que importa não é o que os goyim [não-judeus] dizem, mas o que os judeus fazem".

Durante quase um quarto de século, os acordos de Oslo penduravam uma cenoura de paz ilusória que distraía a comunidade global, já que Israel quase quadruplicou sua população de colonos, tornando irrealizável até mesmo um estado palestino altamente circunscrito.

Agora, este plano de jogo está prestes a ser revivido com uma nova forma. Enquanto os EUA, Israel, Jordânia e Egito concentram-se na tarefa sem esperança de criar um quadro regional para a paz, Israel será mais uma vez deixado em paz para apreender mais dunams e mais cabras.

Em Israel, o debate não é mais apenas sobre a construção de casas de colonos, ou sobre quantas podem ser justificadas. Os ministros do governo argumentam, em vez disso, sobre o melhor momento para anexar vastas áreas da Cisjordânia associadas aos chamados blocos de assentamentos como Gush Etzion.

As comemorações iminentes de Israel devem colocar sob suspeição qualquer confusão de que a ocupação ainda é considerada temporária. Mas quando a ocupação se torna permanente, ela se metamorfoseia em algo muito mais feio.

É tempo de reconhecer que Israel estabeleceu um regime de apartheid e um que serve como veículo para o incremento da limpeza étnica. Se houver negociações, acabar com esse ultraje deve ser sua primeira tarefa.

Se Trump se preocupa tanto com bebês sírios, por que ele não está condenando os rebeldes que mataram crianças?

Dezenas de crianças foram mortas na Síria neste fim de semana, mas cadê a lamentação do Presidente dos Estados Unidos sobre como eles são "lindos", quanto mais a ação? Onde estão as denúncias da UE e do Reino Unido? O Ocidente deve reagir com igual indignação quando são os xiitas que são vítimas do terrorismo. Ou simplesmente não nos importamos?

Robert Fisk

The Independent

Tradução / Falamos da mãe de todas as hipocrisias. Algumas crianças sírias mortas importam, penso. Outras não. Um assassinato em massa duas semanas atrás matou crianças e bebês e levou nossos líderes a mais justa indignação. Mas o massacre deste final de semana na Síria matou ainda mais crianças e bebês – e mesmo assim não gerou mais que silêncio daqueles que antes bradaram pela salvaguarda de nossos valores morais. Por que desta vez não?

Quando um ataque com gás na Síria matou mais de 70 civis em 04 de abril, incluindo bebês e crianças, Donald Trump ordenou um ataque com mísseis contra a Síria. O país aplaudiu. A imprensa também. Da mesma forma grande parte do mundo. Trump chamou Assad de “mau” e “um animal”. A união Europeia condenou o regime sírio. O governo britânico chamou o ataque de “bárbaro”. Quase todos os líderes ocidentais afirmaram que Assad deveria ser removido do poder.

Desta vez, quando um homem bomba atacou um comboio de refugiados civis nas proximidades de Alepo, matando 126 sírios, mais de 80 deles crianças, a Casa Branca manteve silêncio. Mesmo sabendo que o total de mortes foi maior, Trump não se lamentou nem mesmo no twitter. A marinha dos Estados Unidos sequer lançou um disparo simbólico na direção da Síria. A União Europeia se fingiu de tímida e não quis dizer nem uma palavra. Aquela conversa de “barbarismo” foi sufocada no ninho no governo britânico.

Será que ninguém no ocidente tem o menor senso de vergonha? Que insensibilidade terrível. Que desgraça. É ultrajante que a nossa compaixão seja direcionada, assim que percebemos que talvez este último massacre não mereça nossa compaixão e nossas lágrimas na medida que o massacre anterior mereceu. Na realidade, não se derramou uma única lágrima para os 126 sírios – quase todos civis – que foram mortos nas imediações de Alepo, pois eram muçulmanos xiitas que estavam sendo evacuados de duas vilas em poder do governo (isto é, de Assad), no norte da Síria. O assassino era obviamente oriundo da Al Nusra (Al Qaeda), ou de um dos grupos “rebeldes” que nós, ocidentais, armamos – ou talvez ainda do próprio Estado Islâmico – e assim, esses mortos não são dignos de nossa compaixão.

A ONU, como sempre caindo pelas tabelas dos palcos mundiais, falou. O último ataque foi “um novo horror”. O papa Francisco chamou o ataque de “ignóbil”, e rezou pela nossa Síria “amada e martirizada”. E mesmo tendo sido criado por um pai eminentemente anticatólico, penso que os papas vão bem nestes assuntos, especialmente Francisco: “Bom e velho Papa”. Ora bolas, até mesmo o quase inexistente “Exército Sírio Livre” opositor de Assad até a medula, condenou o ataque como sendo “terrorista”.

Mas era só isso. E eu me lembrei de todas aquelas histórias sobre como Ivanka Trump, como mãe, tinha ficado especialmente emocionada com a fita de vídeo de Khan Shaykoun, no local do ataque químico em 4 de abril, e tinha instado seu pai a fazer algo sobre isso. E foi então Federica Mogherini, a "Alta Representante" da UE para as Relações Exteriores e a Política de Segurança, que descreveu o ataque como "terrível" - mas insistiu que ela falou "em primeiro lugar como mãe". Está certo, também. Mas o que aconteceu com todos os seus sentimentos maternos - e os de Ivanka - quando as fotos vieram do norte da Síria neste fim de semana de bebês explodidos e crianças empacotados em sacos plásticos pretos? Silêncio.

Não restaram dúvidas sobre a deliberada, a crueldade vil do ataque de sábado. O homem bomba se aproximou dos refugiados com um carrinho de biscoitos para crianças e batatas fritas – aproximando-se de pessoas, devo acrescentar, que eram civis xiitas que estavam passando fome debaixo do cerco de rebeldes que se opõem a Assad – (e claro, que foram armados por nós). Mesmo assim, eles não contam. Seus “lindos bebezinhos” – estou citando Trump sobre o ataque anterior com gás – parecem não merecer nossos sentimentos. Por que são xiitas? Por que os culpados pelo massacre estão associados intimamente conosco, ocidentais? Ou porque – e aqui está o ponto – eles foram vítimas do tipo errado de assassino.

Tudo o que queremos agora é culpar o “mau”, o “animal”, o “brutal” Assad, que foi o primeiro “suspeito” de ter desfechado o ataque de gás em 04 de abril (cito nada mais, nada menos que The Wall Street Journal) e que em seguida foi rapidamente acusado pelo ocidente inteiro de total e deliberada responsabilidade pelo massacre com gás. Ninguém deveria questionar a brutalidade, a tortura e a massiva opressão do regime. Porém há, na verdade, sérias dúvidas sobre a responsabilidade de Assad pelo ataque de 04 de abril – que ele, previsivelmente, negou – mesmo entre árabes que odeiam de morte seu regime político Baathista e tudo aquilo que ele representa.

Até mesmo o escritor israelense de esquerda mas dificilmente pró-Síria Uri Avneri - brevemente, em sua vida, um detetive - perguntou por que Assad deveria cometer tal crime quando seu exército e seus aliados estavam ganhando a guerra na Síria, quando um ataque desse tipo com certeza causaria problemas para o exército e o governo russo, e quando poderia mudar as atitudes cada vez mais amenas do ocidente com ele, de volta para a opção de apoiar a queda de seu regime de governo.

A alegação do regime de Assad é que a Síria realmente realizou um ataque que explodiu um estoque de armas da Al Nusra em Khan Shaykun (ideia adotada também pelos russos), poderia ser facilmente negada se os americanos não tivessem usado precisamente a mesma desculpa para a morte de mais de uma centena de civis iraquianos em Mosul em março; os EUA sugeriram que o bombardeio de um transporte de armas do Estado Islâmico pode ter causado a morte dos civis.

Acontece que isso nada tem a ver com o massacre muito mais sangrento que ocorreu no sábado, atingindo o comboio que se dirigia para o leste de Alepo. Estas vítimas faziam parte de procedimento padrão de troca massiva de reféns entre o governo sírio e seus oponentes, nos quais os oponentes sunitas das vilas cercadas pelo governo sírio ou seus aliados são mandados para Idlib e outras áreas em mãos dos “rebeldes”, garantindo em troca livre passagem para os habitantes xiitas daquelas vilas cercadas pelos “nossos” rebeldes, pela Al Nusra e pelo Estado Islâmico, que permitem que eles deixem as vilas em direção às áreas seguras das cidades sob controle governamental. Essas pessoas foram as vítimas do ataque de sábado pelo homem bomba; era xiitas das vilas de al-Foua e Kfraya, bem como vários combatentes governamentais, a caminho do que – para eles – seria a segurança de Alepo.

Se estes procedimentos constituem ou não uma maneira de fazer uma limpeza étnica, outra acusação dos inimigos de Assad, é um ponto controverso. O grupo Al Nusra não foi exatamente convincente nem se empenhou para que os habitantes de al-Foua e Kfraya ficassem nnos locais, porque tinha interesse na volta de seus combatentes que se encontravam cercados pelo governo nas cidades sob ataque do exército sírio. No mês passado, o governador de Homs solicitou aos sunitas que permanecessem na cidade, em vez de tomar os comboios “rebeldes” que demandavam Idlib. Mas estamos falando de uma guerra civil e esses conflitos lamentáveis dividem cidades e povoados por gerações. Basta ver o que acontece no Líbano, 27 anos depois do final da guerra civil que aconteceu naquele país.

Mas o que prova de uma vez por todas a nossa participação inegável nesta guerra imoral, injusta e aterrorizante é a nossa reação aos dois massacres de inocentes. Choramos e lamentamos e chegamos a desfechar um ataque com mísseis por causa daqueles “lindos bebezinhos” os quais acreditávamos terem sido vítimas do governo Assad. Mas quando os bebês xiitas, tão humanos quanto os sunitas, foram despedaçados neste final de semana, Trump não poderia ser mais indiferente. Já aquele espírito maternal demonstrado por Ivanka e Federica parece ter secado em seus espíritos.

E afirmamos que a violência no Oriente Médio não tem nada a ver conosco.