28 de agosto de 2016

O tabuleiro de xadrez quebrado: Brzezinski desiste do Império

Mike Whitney

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / O principal arquiteto do plano de Washington para governar o mundo abandonou o esquema e, agora, fala de construir laços com Rússia e China. Embora o artigo de Zbigniew Brzezinski na revista The American Interest, intitulado "Para um Realinhamento Global" tenha sido praticamente ignorado na mídia, ele mostra que poderosos membros do establishment produtor de projetos políticos já não creem que Washington conseguirá vencer, no esforço para ampliar a hegemonia dos EUA no Oriente Médio e na Ásia. Brzezinski, principal propositor dessa ideia e quem traçou o rascunho da expansão imperial em seu livro de 1997, O Grande Tabuleiro de Xadrez: Primazia Americana e seus Imperativos Geoestratégicos, rendeu-se e clama agora por uma revisão dramática de toda a estratégia. Aqui está um trecho do artigo da The American Interest:

"À medida que a sua era de dominação global termina, os Estados Unidos precisam assumir a liderança no realinhamento da arquitetura de poder global. 
Cinco evidências básicas relacionadas à emergente redistribuição do poder político global e o violento despertar político no Oriente Médio assinalam a chegada de um novo realinhamento global. 
A primeira dessas evidências é que os EUA ainda são a mais poderosa entidade politicamente, economicamente e militarmente, mas, dadas complexas mudanças geopolíticas nos equilíbrios regionais, os EUA já não são a potência globalmente imperial." ("Para um Realinhamento Global", Zbigniew Brzezinski, The American Interest)

Repito: os EUA "já não são a potência global imperial". Compare-se essa avaliação e o que Brzezinski disse anos antes, no O Grande Tabuleiro de Xadrez, que os EUA eram "poder primordial do mundo".

"(...) A última década do século 20 testemunhou uma mudança tectônica nos assuntos do mundo. Pela primeira vez em todos os tempos, uma potência não eurasiana emergiu, não só como árbitra chave nas relações de poder eurasianas, mas também como potência excepcional máxima do mundo. A derrota e colapso da União Soviética foi o passo final na rápida ascensão de uma potência no Hemisfério Ocidental, os EUA, única e, realmente a primeira verdadeira potência global," (O Grande Tabuleiro de Xadrez: Primazia Americana e seus Imperativos Geoestratégicos", Zbigniew Brzezinski, Basic Books, 1997, p. xiii).

Aqui está mais do artigo no The American Interest:

"A nova realidade global foi o decisivo aparecimento da América na cena mundial como, simultaneamente, o mais rico e militarmente o jogador mais poderoso. Durante a última parte do século 20, nenhum outro poder sequer chegou perto. Essa época está terminando agora." ("Para um Realinhamento Global", Zbigniew Brzezinski, The American Interest)

Mas por que "essa época está terminando agora"? O que mudou desde 1997, quando Brzezinski referiu-se aos EUA como o "poder primordial do mundo"?

Brzezinski aponta a ascensão de Rússia e China, a fraqueza da Europa e o "violento despertar político dos muçulmanos pós-coloniais" como causas mais próximas dessa virada repentina. Os comentários sobre o Islã são particularmente instrutivos, posto que há ali uma explanação racional para o terrorismo, não a típica conversa fiada dos governos sobre "odeiam nossas liberdades". Para seu crédito, Brzezinski vê o surto de terror como "eclosão de ressentimentos históricos" (por "profunda sensação de injustiça") não como a violência gratuita de psicopatas fanáticos.

Naturalmente, em um artigo curto, de 1.500 palavras, Brzezinski não pode recobrir todos os desafios (ou ameaças) que os EUA podem vir a enfrentar no futuro. Mas é claro que está muito preocupado com o fortalecimento de laços econômicos, políticos e militares entre Rússia, China, Irã, Turquia e outros estados centro-asiáticos. Esta é a sua principal área de preocupação, na verdade, ele até antecipou este problema em 1997, quando ele escreveu O grande tabuleiro de xadrez. Eis o que ele disse:

"A partir de agora, os Estados Unidos podem ter de determinar como lidar com coalizões regionais que procuram empurrar a América fora da Eurásia, ameaçando assim o status dos Estados Unidos como uma potência global." (p.55). 
"... Para colocar em uma terminologia que remonta à era mais brutal dos antigos impérios, os três grandes imperativos da geoestratégia imperial são impedir o conluio e manter a dependência de segurança entre os vassalos, manter os clientes dóceis e protegidos, e impedir que os bárbaros se mantenham juntos." (p.40)

"... impedir o conluio... entre os vassalos." Isso diz tudo, não é?

A política externa temerária do governo Obama, particularmente as ações que derrubaram os governos na Líbia e na Ucrânia, acelerou muito gravemente o ritmo em que se formaram essas coalizões anti-americanas. Em outras palavras, os inimigos de Washington surgiram em resposta ao comportamento de Washington. Obama só pode culpar a si mesmo.

O presidente Vladimir Putin da Federação Russa respondeu à ameaça de instabilidade crescente na região e ao movimento de empurrar forças da OTAN para cima das fronteiras russas, e fortaleceu alianças com países no perímetro russo e por todo o Oriente Médio. Ao mesmo tempo, Putin e seus colegas nos países BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) estabeleceram um sistema bancário alternativo (Banco dos BRICS e BAII), que eventualmente desafiará o sistema dominado pelo dólar que é a fonte do poder global dos EUA. Eis por que Brzezinski tratou de fazer meia-volta rápida e abandonar o plano da hegemonia dos EUA: porque está preocupado com os perigos de um sistema não baseado no dólar, que surja entre países não alinhados e em desenvolvimento e que substitua o oligopólio do banco central mundial. Se acontecer, então os EUA perderão o controle que ainda mantêm sobre a economia global e terá fim o sistema de exploração viciosa da natureza e do trabalho dos mais pobres hoje vigente.

Infelizmente, a abordagem mais cautelosa de Brzezinski não será considerada pela candidata Hillary Clinton, que se aproxima da presidência dos EUA e que é crente obcecada da viabilidade de alguma expansão imperial pela força das armas. Foi Clinton quem introduziu o movimento "de pivô" no léxico estratégico, em discurso de 2010, intitulado "O século do Pacífico Americano". Eis um excerto daquele discurso, publicado na revista Foreign Policy:

"Com a guerra do Iraque já em recessão, e os EUA retirando seus soldados do Afeganistão, os Estados Unidos estão em um ponto de pivô. Ao longo dos últimos dez anos, alocamos recursos imensos naqueles dois teatros. Nos próximos dez anos, temos de ser inteligentes e sistemáticos sobre onde investir tempo e energia, de modo a nos posicionar do melhor modo para manter nossa liderança, proteger nossos interesses e promover nossos valores.Uma das tarefas mais importantes da política americana na próxima década será, portanto, firmar-se em investimento substancialmente ampliado – diplomático, econômico, estratégico, e outros – na região da Ásia-Pacífico...
Aproveitar o crescimento e o dinamismo da Ásia é central para os interesses econômicos e estratégicos dos EUA e prioridade chave para o presidente Obama. Abrir mercados na Ásia oferece aos EUA oportunidades sem precedentes para investimento, comércio e acesso a tecnologia de ponta... As empresas americanas [precisam] explorar a vasto e crescente base de consumidores da Ásia... 
A região já gera mais de metade da produção global e quase metade do comércio global. Quando nos empenhamos para alcançar o objetivo do presidente Obama, de duplicar as exportações até 2015, estamos à procura de oportunidade de mais e mais negócios na Ásia... e de nossas oportunidades para investir nos dinâmicos mercados asiáticos." ("O século do Pacífico Americano", Secretária de Estado Hillary Clinton", Foreign Policy Magazine, 2011)

Compare-se o discurso de Clinton e os comentários de Brzezinski em O Grande Tabuleiro de Xadrez, 14 anos antes:

"Para a América, o principal prêmio geopolítico é a Eurásia ... (p. 30). .... Eurásia é o maior continente do globo e geopoliticamente axial. Potência que domine a Eurásia também controlará duas das três regiões mais avançadas e economicamente mais produtivas do globo... Cerca de 75% da população do mundo vive na Eurásia, e a maior parte da riqueza física do mundo está lá, seja nas suas empresas seja no subsolo. A Eurásia gera 60% do PIB mundial e cerca de ¾ dos recursos de energia conhecidos do planeta." (p. 31).

Os objetivos estratégicos são idênticos, a única diferença é que Brzezinski fez, no século 21, uma correção de curso, consideradas as circunstâncias mutantes e a crescente resistência em todo o mundo contra os abusos, a dominação e as sanções de que os EUA são agentes. Ainda não chegamos ao fundo do poço do primado dos EUA, mas o fundo do poço aproxima-se rapidamente e Brzezinski sabe disso.

Bem diferente dele, Clinton continua obcecadamente dedicada a ampliar a hegemonia dos EUA na Ásia. Não compreende os riscos que essas ações criam para o país e para o mundo. Vai persistir nas intervenções, até que o monstro bélico dos EUA seja detido e paralisado – o quê, a julgar pela retórica hiperbólica da candidata, acontecerá logo, provavelmente ainda no seu primeiro mandato.

Brzezinski apresenta um plano racional, embora autoindulgente, para desescalar, minimizar conflitos futuros, evitar conflagração nuclear e preservar a ordem global. (Também conhecido como: O "sistema dólar"). Mas a sanguinária Hillary vai seguir o seu conselho?

Sem change.

26 de agosto de 2016

Provocando uma guerra nuclear pela mídia

John Pilger

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Mirko / shutterstock.com


Tradução / Um homem acusado do pior dos crimes – um suposto genocídio de repercussão global – foi julgado inocente, mas o fato não virou manchete. Nem a BBC, nem a CNN cobriram. The Guardian permitiu um breve comentário. O fato foi enterrado ou suprimido, compreensivelmente. Ele deixaria muito claro como os senhores do mundo governam.

O Tribunal Criminal Internacional para a Ex-Iugoslávia (ICTY, na sigla em inglês) absolveu o falecido presidente sérvio, Slobodan Milosevic, dos crimes de guerra cometidos durante a guerra com a Bósnia (1992-95), incluindo o massacre de Srebrenica.

Longe de conspirar com o condenado líder sérvio-bósnio Radovan Karadzic, Milosevic na verdade “condenou a limpeza étnica”, opôs-se a Karadzic e tentou deter a guerra que desmembrou a Iugoslávia. Escondida perto do final de um julgamento de 2.590 páginas sobre Karadzic, em fevereiro passado, esta verdade além disso demole a propaganda que justificou o ataque ilegal da OTAN à Sérvia, em 1999.

Miloservic morreu de ataque cardíaco em 2006, sozinho em sua cela em Haia, durante o que foi um falso julgamento por um “Tribunal Internacional” inventado pelos norte-americanos. A cirurgia que poderia ter salvo sua vida foi negada; sua saúde piorou e foi monitorada – mas mantida em segredo – por funcionários dos EUA, conforme revelou o WikiLeaks.

Milosevic foi vítima de uma propaganda de guerra que hoje corre solta por nossas telas e jornais e acena com grande perigo para todos. Ele foi o protótipo do demônio, vilipendiado pela mídia ocidental como o “açougueiro dos Balcãs”, suposto responsável por um “genocídio”, especialmente na província iugoslava separatista de Kosovo. O primeiro ministro britânico Tony Blair disse isso, invocou o Holocausto e demandou ação contra “esse novo Hitler”. David Scheffer, o embaixador-itinerante dos EUA para crimes de guerra declarou que um número tão vasto quanto “225.000 homens da etnia albanesa, entre 14 e 59 anos” poderiam ter sido assassinados pelas forças de Milocevic.

Essa foi a justificativa para o bombardeio da OTAN, encabeçado por Bill Clinton e Blair, que matou centenas de civis em hospitais, escolas, igrejas, parques e estúdios de televisão e destruiu a infraestrutura econômica da Sérvia. Ele foi descaradamente ideológico; em uma notória “conferência de paz” em Rambouillet, na França, Milosevic foi confrontado por Madeleine Albright, a secretária de Estado norte-americana que alcançaria a infâmia com seu comentário de que a morte de meio milhão de crianças iraquianas “valeu a pena”.

Albright fez a Milošević uma “oferta” que nenhum líder nacional poderia aceitar. A menos que ele concordasse com a ocupação militar estrangeira de seu país, com as forças de ocupação “excluídas do processo legal”, e com a imposição de um “livre mercado” neoliberal, a Sérvia seria bombardeada. Isso estava escrito em um “Apêndice B”, que a mídia não leu ou suprimiu. O objetivo era esmagar o último Estado “socialista” independente.

Assim que a OTAN começou o bombardeio, teve início uma debandada de refugiados do Kosovo “fugindo de um holocausto”. Quando ele terminou, equipes policiais internacionais baixaram no Kosovo para exumar as vítimas. O FBI não conseguiu encontrar uma única vala comum e voltou pra casa. A equipe forense espanhola fez o mesmo, seu líder com raiva denunciou “uma pirueta semântica pelas máquinas de propaganda de guerra”. A contagem final dos mortos no Kosovo foi de 2.788. Isso inclui combatentes dos dois lados e sérvios e ciganos assassinados pela Frente de Liberação de Kosovo, pró-OTAN. Não houve genocídio. O ataque da OTAN foi uma fraude e um crime de guerra.

Apenas uma fração dos norte-americanos soube de que os mísseis “precisamente guiados” não atingiram alvos militares, mas civis, inclusive os estúdios jornalísticos da Rádio e Televisão Sérvia, em Belgrado. Dezesseis pessoas foram mortas, incluindo operadores de câmera, produtores e um maquiador. Blair descreveu os mortos, profanamente, como parte do “comando e controle” da Sérvia. Em 2008, a procuradora do Tribunal Criminal Internacional para a Ex-Iugoslávia, Carla Del Ponte, revelou que foi pressionada para não investigar os crimes da OTAN.

Esse foi o modelo para as invasões subsequentes de Washington no Afeganistão, Iraque, Líbia e, dissimuladamente, na Síria. Todas podem ser classificadas como “crimes supremos” segundo os padrões do Julgamento de Nuremberg; tudo depende da propaganda na mídia. Enquanto o jornalismo tabloide desempenhava seu papel tradicional, foi o jornalismo supostamente sério, com credibilidade, frequentemente liberal, o mais efetivo. Vale lembrar a promoção evangélica, pelo The Guardian, de Blair e suas guerras; as mentiras incessantes sobre as armas de destruição em massa não-existentes de Saddam Hussein no Observer e o New York Times e o toque de clarim certeiro da propaganda governamental pela BBC, no silêncio de suas omissões.

Na época do bombardeio, Kirsty Wark, da BBC, entrevistou o general Wesley Clark, comandante da OTAN. A cidade sérvia de Nis acabava de ser pulverizada com uma penca de bombas norte-americanas, matando mulheres, velhos e crianças num mercado ao ar livre e num hospital. Wark não fez uma única pergunta sobre isso, ou sobre qualquer outra morte de civis.

Outros foram ainda mais cínicos. Em fevereiro de 2003, dia seguinte àquele em que Blair e Bush tocaram fogo no Iraque, o editor de política da BBC, Andrew Marr, ficou na Downing Street, a sede do governo britânico, e fez o que equivalia a um discurso de vitória. Excitado, contou a seus telespectadores que Blair havia “dito que eles seriam capazes de tomar Bagdá sem um banho de sangue, e que no final os iraquianos iriam celebrar. E em ambos os pontos, provou estar definitivamente correto.” Hoje, com um milhão de mortos e uma sociedade em ruínas, as entrevistas de Marr na BBC são recomendadas pela embaixada dos EUA em Londres.

Os colegas de Marr alinharam-se para declarar que Blair estava “vingado”. O correspondente da BBC em Washington, Matt Frei, disse: “Não há dúvida de que o desejo de fazer o bem, levar os valores da América para o resto do mundo, e especialmente ao Oriente Médio... está agora cada vez mais ligado com o poder militar.”

A reverência aos Estados Unidos e seus colaboradores como uma força benigna que “faz o bem” corre solta no jornalismo do establishment ocidental. Ele assegura que a atual catástrofe na Síria é culpa exclusiva de Bashar al-Assad, que o Ocidente e Israel há muito conspiram para derrubar, não por qualquer preocupação humanitária, mas para consolidar o poder agressivo de Israel na região. As forças jihadistas articuladas e armadas pelos EUA, Grã Bretanha, França, Turquia e seus procuradores da “coligação” servem a esse fim. São eles que administram a propaganda e vídeos que se transformam em notícias nos EUA e na Europa, e providenciam acesso a jornalistas e garantem a “cobertura” totalmente parcial da guerra civil da Síria.

Agora, Aleppo está no noticiário. A maioria dos leitores e telespectadores não saberão que a maior parte da população da cidade vive na parte ocidental, controlada pelo governo. Que eles sofrem bombardeio diário de artilharia da Al-Qaeda, patrocinada pelo ocidente – isso não é notícia. No dia 21 de julho, bombas francesas e norte-americanas atacaram um vilarejo pró-governo na província de Alepo, matando mais de 125 civis. O fato foi noticiado na página 22 do Guardian; não havia fotos.

Tendo criado e subvencionado o jihadismo no Afeganistão nos anos 1980, na Operação Ciclone – uma arma para destruir a União Soviética – os EUA estão fazendo algo semelhante na Síria. Como os Mujahideen afegãos, os “rebeldes” são os soldados dos Estados Unidos e da Grã Bretanha. Muitos lutam pela Al-Qaeda e suas variantes; alguns, como o Frente aql-Nusra, renomearam-se para adequar-se à sensibilidade norte-americana relacionada ao 11 de Setembro. A CIA os opera, com dificuldade, assim como opera jihadistas em todo o mundo.

O objetivo imediato é destruir o governo em Damasco, o qual, segundo as pesquisas mais confiáveis (YouGov Siraj), a maioria dos sírios apoiam, ou ao menos busca nele proteção, a despeito da barbárie em suas sombras. O objetivo de longo prazo é negar à Rússia um aliado chave no Oriente Médio, como parte de uma guerra de atrito da OTAN contra a Federação Russa, para ao final tentar destruí-la.

O risco nuclear é óbvio, embora suprimido pela mídia no “mundo livre”. Os que escrevem os editoriais do Washington Post, tendo promovido a ficção das armas de destruição em massa (WMD, na sigla em inglês) no Iraque, demandam que Obama ataque a Síria. Hillary Clinton, que regojizou-se publicamente por seu papel de carrasco durante a destruição da Líbia, tem indicado repetidamente que, como presidente, ela “irá além” de Obama.

Gareth Porter, um jornalista samizdat baseado em Washington, revelou recentemente os nomes daqueles que provavelmente ocuparão o gabinete de Hillary, que planeja um ataque à Síria. Todos têm histórias beligerantes na Guerra Fria. O ex-diretor da CIA, Leon Panetta, diz que “o próximo presidente terá de considerar o aumento de forças especiais em terra”.

O que é mais notável sobre a propaganda de guerra, agora em maré cheia, é seu absurdo e familiaridade patentes. Estive revendo os filmes de arquivo de Washington nos anos 1950, quando diplomatas, servidores civis e jornalistas sofriam caça às bruxas e foram arruinados pelo senador Joe McCarthy por desafiar as mentirar e paranoia sobre a União Soviética e a China. Como um tumor que ressurge, o culto anti-Rússia retornou.

Na Grã Bretanha, Luke Harding, do Guardian, lidera os odiadores da Rússia de seu jornal, numa corrente de pseudo-jornalismo que atribui a Vladimir Putin toda iniquidade da Terra. Quando o vazamento dos Panama Papers foi publicado, a primeira página falava de Putin e havia uma foto do Putin. Não importa que Putin não fosse mencionado em lugar nenhum nos vazamentos.

Como Milosevic, Putin é o Demônio Número Um. Foi Putin que derrubou um avião da Malásia sobre a Ucrânia. Manchete: “No que me diz respeito, Putin matou meu filho”. Nenhuma evidência foi exigida. Putin foi culpado pela derrubada, em 2014, do governo eleito em Kiev, executada, segundo está documentado, por Washington. A campanha de terror subsequente, feita pelas milícias fascistas contra a população de língua russa da Ucrânia, foi o resultado da “agressão” de Putin. Impedir que a Crimeia se tornasse uma base de mísseis da OTAN e proteger a maioria da população russa, que votou num referendo pela reunificação com a Rússia – da qual a Crimeia havia sido separada – foram outros exemplos da “agressão” de Putin. Difamação pela mídia torna-se inevitavelmente guerra pela mídia. Se eclodir uma guerra contra a Rússia, planejada ou por acidente, os jornalistas terão grande parte da responsabilidade.

Nos EUA, a campanha anti-Rússia foi elevada a realidade virtual. Paul Krugman, colunista do New York Times e um economista que recebeu um Prêmio Nobel, chamou Donald Trump de “candidato siberiano” – porque Trump é um homem de Putin, dizem. Trump ousou sugerir, num raro momento de lucidez, que a guerra com a Rússia pode ser uma má ideia. De fato, ele foi além e tirou o envio de armas norte-americanas à Ucrânia da plataforma do Partido Republicano. “Não seria ótimo se nos déssemos bem com a Rússia”?, perguntou ele.

Essa é a razão por que o establishment liberal belicista o odeia. Seu racismo e arenga demagoga não têm nada a ver com isso. Os registros de racismo e extremismo de Bill e Hillary Clinton podem superar o de Trump qualquer dia. (Nesta semana acontece o 20º aniversário da “reforma” do sistema de bem-estar social de Clinton, que desencadeou uma guerra contra os afro-americanos.) Quanto a Obama: enquanto a polícia norte-americana mata seus companheiros afro-americanos, a grande esperança na Casa Branca nada fez para protegê-los, nada para aliviar seu empobrecimento, enquanto mantém quatro guerras vorazes e uma campanha de assassinatos sem precedentes.

A CIA exigiu que Trump não seja eleito. Os generais do Pentágono exigiram que ele não seja eleito. O pró-guerra New York Times – tomando um fôlego de sua implacável difamação de Putin – exige que ele não seja eleito. Algo acontece. Essas tribunas da “guerra perpétua” estão apavoradas com o fato de que o multibilionário negócio da guerra, pelo qual os Estados Unidos mantêm seu domínio, será abalado se Trump fizer um acordo com Putin, depois com Xi Jinping da China. Seu pânico com a possibilidade do maior poder do mundo falar sobre paz – ainda que improvável – seria a maior das comédias, não fossem as questões tão terríveis.

“Trump adoraria Stalin!”, vociferou o vice-presidente Joe Biden num comício para Hillary Clinton. Com a concordância de Hillary, ele gritou: “Nunca nos dobramos. Nunca nos curvamos. Nunca nos ajoelhamos. Nunca cedemos. É nossa a última palavra. Isso é quem somos. Somos a América”.

Na Grã Bretanha, Jeremy Corbyn também provocou histeria nos decisores-de-guerra do Partido Trabalhista e numa mídia empenhada em destruí-lo. Lord West, um ex-almirante e ministro trabalhista, disse bem. Corbyn estava assumindo uma “ultrajante” posição antiguerra “porque leva as massas irracionais a votar com ele”.

Num debate com Owen Smith, que desafia sua liderança no Partido Trabalhista, Corbyn foi questionado pelo moderador: “Como você agiria num caso de violação, por Vladimir Putin, de um estado-membro da OTAN?”

Corbyn respondeu: “Para começar, seria preciso tentar evitar que isso acontecesse. Construiria um bom diálogo com a Rússia… Tentaríamos introduzir uma desmilitarização das fronteiras entre a Rússia, a Ucrânia e os outros países entre a Rússia e a Europa Oriental. O que não podemos permitir é uma catastrófica série de aumentos das tropas em ambos os lados, que só podem nos levar a um grande perigo.”

Pressionado a dizer se ele autorizaria uma guerra contra a Rússia “se você tivesse que”, Corbyn respondeu: “Não pretendo ir à guerra – o que desejo é chegar a um mundo em que não precisemos fazer guerra”.

A linha das perguntas deve muito à ascensão dos decisores-de-guerra liberais na Grã Bretanha. O Partido Trabalhista e a mídia ofereceram a eles muitas oportunidades de carreira. Por algum tempo, o tsunami moral do grande crime do Iraque deixou-os se debatendo. Suas inverdades foram um constrangimento temporário. A despeito do Relatório Chilcot e a montanha de fatos comprometedores, o ex-ministro Tony Blair continua a ser sua inspiração, porque ele teria sido um “vencedor”.

O jornalismo e os acadêmicos dissidentes têm sido, desde então, banidos; e as ideias democráticas, esvaziadas e preenchidas com “políticas identitárias”, que confundem gênero com feminismo e angústia pública com libertação, enquanto ignoram intencionalmente a violência de Estado e os lucrativos armamentos que destroem incontáveis vidas em lugares distantes, como o Iêmen e a Síria – e acenam para uma guerra nuclear na Europa e através do mundo.

O mobilização comovente de pessoas de todas as idades em torno da espetacular ascensão de Jeremy Corbyn antecipa isso, até certo ponto. Sua vida foi dedicada a iluminar o horror da guerra. O problema para Corbyn e seus apoiadores é o Partido Trabalhista. Nos EUA, o problema dos milhares de seguidores de Bernie Sanders era o Partido Democrata, para não falar da sua traição final por sua grande esperança branca. Nos Estados Unidos, morada dos grandes movimentos de direitos civis e antiguerra, são o Black Lives Matter e as mulheres pela paz do Codepink que estabelecem as bases para uma versão moderna destas lutas.

Pois somente um movimento que ocupe cada rua e atravesse fronteiras e não desista pode deter os belicistas. No ano que vem, completará um século desde que Wilfred Owen escreveu algo que todo jornalista deveria ler e lembrar.

Se você pudesse ouvir, a cada sobressalto, o sangue
Vir borbulhando dos pulmões de espuma corrompida
Obsceno como câncer, amargo como o que se regurgita
De chagas vis, incuráveis em línguas inocentes,
Meu amigo, você não iria contar com tanto entusiasmo
Às crianças ardentes por alguma glória desesperada,
A velha mentira: Dulce et decorum est
Pro patria mori.

23 de agosto de 2016

Encruzilhada perigosa: EUA invade a Síria, e avisa a Rússia...

Eric Zuesse

Global Research: Centre for Research on Globalization

Tradução / Na segunda-feira, 22 agosto, o governo dos Estados Unidos – que luta para derrubar o governo legal e internacionalmente reconhecido da Síria – anunciou oficialmente que forças militares dos EUA na Síria continuarão a ocupar terra síria, não importa o que diga o governo sírio, e derrubarão quaisquer aviões sírios que sobrevoem forças dos EUA ali.

Como noticiou ontem Al-Masdar News:

"O Pentágono anunciou que os EUA estão prontos para abater aviões sírios e russos que o Pentágono entenda que ameaçam conselheiros militares norte-americanos que, nos termos da lei internacional, operam ilegalmente no norte da Síria. 
Na sexta-feira, o porta-voz do Pentágono Capitão Jeff Davis disse que jatos norte-americanos tentaram interceptar aviões sírios para proteger conselheiros norte-americanos que operam (ilegalmente) com forças curdas na Síria, depois que o governo sírio bombardeou áreas de Hasakah, quando a polícia curda iniciou ataque contra a Força de Defesa Nacional."

Na segunda-feira, outro porta-voz do Pentágono, Peter Cook, disse:

"'Continuaremos a avisar o regime sírio para que se mantenha bem longe dessas áreas. 
Defenderemos nosso pessoal em campo e faremos o que tiver de ser feito para defendê-los', disse Cook aos jornalistas."

Significa que o governo dos EUA não permitirá que o governo sírio expulse ou elimine por qualquer outro meio as forças dos EUA que operam ilegalmente na Síria. O governo sírio não convidou forças dos EUA para agir em território sírio, mas agora os EUA estão forçando o governo sírio a afirmar a própria soberania sobre as áreas onde estão localizadas tropas dos EUA.

Al-Masdar continuou:

"Pressionado para oferecer mais informações sobre a Rússia, Cook deixou bem claro que os EUA atacarão também jatos russos que operam legalmente em território sírio, por convite do governo sírio, com sua aprovação e em ação coordenada com os sírios. 
Se ameaçarem forças dos EUA sempre temos o direito de defender nossas forças', disse Cook."

Significa que os EUA não só estão em guerra contra o legítimo governo da Síria, mas, também estarão rapidamente em guerra contra forças russas, se a Rússia (cuja ajuda o governo sírio solicitou) ajudar forças sírias que sejam atacadas na Síria por forças dos EUA – que estão ilegalmente em território sírio.

Há ali 300 norte-americanos, dos quais 250 foram mandados para a Síria dia 24 de abril para trabalharem como conselheiros de outras forças militares ilegais que atuavam na Síria.

A vasta maioria das forças militares ilegais na Síria são jihadistas contratados pelos governos saudita e qatari, que receberam armas norte-americanas para derrubar o governo sírio. As demais forças ilegais ativas na Síria são curdos, apoiados pelo governo dos EUA para fracionar o território sírio e criar ali um estado curdo, na porção nordeste do território sírio.

O principal objetivo dos EUA na Síria sempre foi derrubar o governo sírio, do Partido Baath, secular. Muitos árabes insistem na Xaria, ou Lei Islâmica, mas os árabes sírios são exceção. O Partido Baath sempre foi apoiado pela maioria do povo sírio, inclusive pela maioria dos árabes sírios. Há forte oposição à Xaria, na sociedade síria. A Síria sempre foi a nação mais secular no Oriente Médio.

Por exemplo, quando das primeiras pesquisas patrocinadas pelo ocidente e realizadas na Síria, depois do início, em 2011, da importação de jihadistas para lutar na Síria, aquelas pesquisas mostraram que 55% dos sírios queriam que Bashar al-Assad (atual líder do Partido Baath) permanecesse como presidente da Síria, e "82% consideram acertada a avaliação de que o 'Estado Islâmico é um grupo criado pelos EUA e outros países estrangeiros'." Apenas "22% entendiam que o 'Estado Islâmico é uma influência positiva'", e esse foi o mais baixo grau de aprovação, pelos sírios, a qualquer das afirmativas que lhes foram apresentadas, com exceção dos "21% que afirmaram que 'preferem a vida hoje, do que quando Assad governava em paz'". – Implica dizer que a maioria dos sírios entende que a vida era melhor antes de os jihadistas patrocinados pelos EUA chegarem à Síria para derrubar o presidente Assad.

Evidentemente, se "82% da população entende que o Estado Islâmico é um grupo criado fora da Síria", bem poucos sírios apoiam os 300 militares norte-americanos que estão lá. Não apenas os EUA estão lá como invasores, mas (e especialmente os jihadistas que os EUA apoiam na Síria e que são a maior parte das forças invasoras) tornaram a vida muito pior (e desgraçadamente mais curta) para virtualmente todos os sírios.

A mesma pesquisa descobriu que "70% opõe-se à divisão do país". Consequentemente, a maioria ampla dos sírios opõem-se aos separatistas curdos.

A partir de agora, o governo sírio enfrenta a posição pouco confortável de ter invasores no próprio território, e de já ter sido avisado de que um desses grupos invasores – os EUA – fará guerra total até a completa devastação, se a Síria levantar-se para expulsá-los.

A Rússia também foi ameaçada pelos EUA de que se, como aliada da Síria, tomar qualquer medida para expulsar ou imobilizar os invasores norte-americanos, os EUA também entrarão em guerra contra a Rússia.

O governo dos EUA desafiou o governo russo. Talvez a estratégia seja forçar o presidente Putin ou a recuar, e abandonar o aliado sírio, ou a lançar ataque nuclear contra os EUA. Se Putin recuar perderá pelo menos parte significativa do apoio que tem da população russa (hoje superior a 80% nas mais recentes pesquisas, inclusive nas pesquisas pagas pelo ocidente). Talvez seja essa a estratégia de Obama: tirar Vladimir Putin do poder – o que talvez aconteça, se os EUA conseguirem derrubar Bashar al-Assad.

Como Seymour Hersh relatou, em 7 de janeiro de 2016,

"a Agência de Inteligência de Defesa (AID) e o Comando do Estado Maior das Forças Conjuntas dos EUA, então [no verão de 2013] lideradas pelo general General Martin Dempsey, avaliavam que a queda do regime de Assad não era desejável, porque levaria ao caos e, potencialmente, à tomada da Síria por extremistas jihadistas, praticamente o mesmo que então estava acontecendo na Líbia."

Por isso, Dempsey saiu e o tenente-general Michael Flynn, diretor da AID entre 2012 e 2014 foi demitido.

"Os relatórios da AID, disse [Flynn], 'sofreram terrível rejeição' do governo Obama. 'Senti como se não quisessem ouvir a verdade'."

Hoje, Flynn é conselheiro para política exterior do candidato dos Republicanos à presidência Donald Trump, que está sendo criticado pela candidata Clinton dos Democratas, considerado 'muito mole' contra a Rússia e insuficientemente empenhado na meta dos EUA, de derrubar Assad.

21 de agosto de 2016

O que significa quando os falcões de guerra dizem: "Trump Nunca"?

Os inimigos do meu inimigo podem ser criminosos de guerra

Rebecca Gordon

TomDispatch

Tradução / Não é todo dia que Republicanos publicam carta aberta para informar aos eleitores que o candidato deles à presidência dos EUA não pode chegar à Casa Branca. Seja como for, esse tipo de coisa tem acontecido cada vez mais frequentemente. O mais recente é o caso de 50 representantes do aparelho de segurança, homens – e umas poucas mulheres – que trabalharam nos governos Republicanos de Ronald Reagan a George W. Bush. Todos muito preocupados com Donald Trump.

Eles acham que devemos ser alertados para o fato de que o porta-bandeiras republicano "não tem o caráter, valores e experiência para ser presidente."

Provavelmente é verdade, mas vindo de quem vem, pode ser ainda pior. Entre os signatários estão, além de outros, o homem que serviu como consultor jurídico no gabinete de Condoleezza Rice quando ela dirigiu o Conselho de Segurança Nacional (John Bellinger III); um dos diretores da CIA de George W. Bush, que também presidiu a Agência de Segurança Nacional (Michael Hayden); um embaixador do governo Bush à ONU e ao Iraque (John Negroponte); um arquiteto da política neocon para o Oriente Médio adotada no governo Bush e que levou à invasão do Iraque, o qual, desde então, trabalha como presidente do Banco Mundial (Robert Zoellick). Em resumo, dada a história da "guerra global ao terror", aí está lista de criminosos de guerra potenciais, que ainda detêm muito poder.

A carta continua: "Ele enfraquece a autoridade moral dos EUA como o líder do mundo livre."

Aí está uma frase que se tem de desembrulhar atentamente.

O que é o "mundo livre"?

Comecemos pelo final: "líder do mundo livre". Era como muitos jornalistas chamavam o presidente dos EUA e, não raras vezes, o país como tal, durante a Guerra Fria. Entre o fim da II Guerra Mundial e o colapso da União Soviética, o "mundo livre" incluía todos os países anglófonos fora da África e algumas ditaduras latino-americanas, além da Europa Ocidental, a América do Norte e nações como Filipinas, que tiveram relacionamento colonial com os EUA.

A URSS liderava o que, por essa lógica, seria o mundo não livre, onde se reuniam os países do Pacto de Varsóvia na Europa Oriental, as nações "cativas" do Báltico, Lituânia, Latvia e Estônia, a República Popular da China (durante parte do período), a Coreia do Norte e, claro, Cuba. Americanos que cresceram nesses anos sabiam que as pessoas que viviam atrás da "Cortina de Ferro" não eram livres. Viam-se cartazes em ônibus e anúncios dos serviços públicos pela TV pedindo doações para a Radio Free Europe [Rádio Europa Livre], às vezes ilustrados com filmes nos quais se via um adolescente pálido, com uma coroa de correntes de ferro.

Não tenho absolutamente nenhuma dúvida de que ele e seus compatriotas da Europa Oriental estavam longe de ser livres. Interrogo-me, no entanto, quão livre seus homólogos brasileiros, argentinos, chilenos, filipinos das ditaduras apoiadas pelos americanos se sentiam.

Os dois grandes adversários, com os países de suas respectivas esferas de influência, eram frequentemente chamados Primeiro Mundo e Segundo Mundo. Os governantes desses mundos tratavam o resto do planeta – o Terceiro Mundo – como tabuleiro de xadrez sobre o qual moviam seus exércitos à distância, exércitos com poder delegado e sobre os quais às vezes miravam os respectivos mísseis. Alguns países no Terceiro Mundo recusaram-se a servir de peões no jogo das superpotências e criaram um Movimento dos Não Alinhados (MNA), que tentaram tecer uma via entre Cila e Caribdis – naquele momento, EUA e União Soviética.

Entre os seus fundadores haviam alguns dos grandes nacionalistas do Terceiro Mundo: Sukarno da Indonésia, Jawaharlal Nehru da Índia, Kwame Nkrumah de Gana, e Gamal Abdel Nasser do Egito, além do presidente da Iugoslávia, Josip Broz Tito.

Outros países não tiveram a mesma boa sorte. Quando os EUA tomaram da França o (malsucedido) projeto de derrotar a luta anticolonial do Vietnã, o povo foi informado de que a guerra que se seguiu, com bombardeios massivos, muito napalm e Agente [desfolhante] Laranja contra uma sociedade de camponeses significaria o avanço da liberdade contra as forças da escravidão comunista. A América Central também serviu de campo de batalha da Guerra Fria, com Washington comandando guerras à distância durante a década de 1980 na Guatemala, El Salvador e Nicarágua, onde camponeses pobres insistiram que tinham direito de ser tratados como seres humanos, e foram muito frequentemente assassinados brutalmente para que não criassem problemas. Além disso, os EUA financiaram, treinaram e armaram uma ditadura militar em Honduras, onde John Negroponte – um dos signatários da carta anti-Trump – serviu como embaixador dos EUA de 1981 a 1985.

A União Soviética, sabe-se, já se foi há muito tempo, mas o "mundo livre", parece, continua, e é por isso que funcionários dos EUA não raras vezes ainda se referem a todos nós como líder dele – expressão que só faz sentido, claro, no contexto de dois mundos divididos entre si e em duelo. Mas em planeta pós-soviético, é difícil saber que configuração geográfica corresponde(ria) hoje ao "mundo não livre". Serão (como Donald Trump diria) todos os que vivem sob regimes muçulmanos ou árabes? Ou será tudo que se reúna sob esse fenômeno amorfo que chamamos de "terrorismo" ou de "terrorismo islamista", que pode às vezes chegar até o "mundo livre" e massacrar inocentes em San Bernardino, Califórnia, Orlando, Florida, ou em Nice, França? Ou será alguma velha União Soviética, que voltaria reencarnada na Rússia de Vladimir Putin ou, talvez, numa China capitalista controlada por Partido Comunista?

Confrontados com a perda de um antagonista primário e a confusão em que o planeta mergulhou, George W. Bush foi forçado a reduzir o "império do mal" (a União Soviética), como dizia Reagan, a três "estados párias", Iraque, Irã e República Popular Democrática da Coreia ("Coreia do Norte"), os quais, em discurso memorável ao Congresso, ele reuniu num só "eixo do mal." A primeira dessas mentiras já está praticamente em ruínas; com a segunda, sentamos recentemente e assinamos um tratado nuclear; e a terceira parece incapaz até de alimentar a própria população. Para felicidade de todo o "mundo livre", o governo Bush ainda tinha inimigos de reserva aos quais recorrer. Em 2002, John Bolton, então subsecretário de Estado (e mais tarde embaixador dos EUA na ONU), acrescentou outro grupo "além do eixo do mal" – Líbia, Síria e Cuba. Dos três, só Cuba e Síria ainda são nações operantes.

É preciso destacar que os 50 representantes Republicanos e estrelas da máquina de segurança dos EUA que denunciaram Donald Trump em termos da Guerra Fria estão, eles mesmos, em extraordinária companhia... do próprio Donald Trump (o qual, recentemente, num discurso, invocou práticas norte-americanas da Guerra Fria como base de sua própria política externa, caso seja eleito).

"Ele enfraquece a autoridade moral dos EUA..."

Depois de suas guerras de século 21, de seus "pontos negros" e de Guantánamo, dentre outros desenvolvimentos da atualidade, é difícil imaginar "autoridade moral" mais fraca do que a que resta hoje aos EUA. Primeiro, demos ao mundo oito anos de invasões e ocupações ilegais por ordem de George W. Bush, no Afeganistão e no Iraque, além dos pontos negros de tortura da CIA, das técnicas de tortura chamadas "de interrogatório estimulado", e de um programa absolutamente ilegal de sequestros globais de suspeitos de terror (alguns dos quais comprovadamente inocentes). Sob governo do presidente Obama, trocamos as técnicas de interrogatório estimulado pelo uso "estimulado" de assassinatos por drone (outra vez à margem de qualquer lei, da guerra ou outra, e aprovados exclusivamente nos termos de documentos formalmente legais que o Departamento de Justiça dos EUA produziu para legalizar aqueles crimes).

Quando Barack Obama assumiu o poder em janeiro de 2009, sua primeira ordem executiva extinguiu o programa de torturas da CIA e fechou os "pontos negros" da mesma agência espalhados pelo mundo. Muitos tiveram a impressão de que a fibra moral dos EUA poderia estar-se fortalecendo. Mas quando se tratou de levar os torturadores aos tribunais... Obama surgiu com a ideia de que o país deveria "olhar para a frente, não para trás". E o Departamento de Justiça desistiu de processar os torturadores. É difícil para um país manter a própria autoridade moral no mundo, se se recusa a aplicar a própria autoridade moral dentro de casa.

Dois dos signatários da carta em que manifestam tanta preocupação com o efeito Trump sobre a autoridade moral dos EUA são, eles mesmos, atores protagonistas do "enfraquecimento" da autoridade moral dos EUA, consequência de seu envolvimento no programa de torturas da CIA: John Bellinger III e Michael Hayden.

O dia 26 de junho é o Dia Internacional da ONU de Apoio a Vítimas de Tortura. Para marcar esse dia em 2003, o presidente Bush emitiu a seguinte declaração: "Tortura, onde quer que ocorra, é uma afronta à dignidade humana. Os EUA comprometem-se com a eliminação mundial da tortura, e lideramos essa luta com nosso exemplo."

A matéria publicada no Washington Post sobre o discurso do presidente trazia também uma citação do vice-secretário de Imprensa da Casa Branca Scott McClellan, que assegurava que todos os prisioneiros do governo dos EUA estariam sendo tratados "com humanidade". John Rizzo, que trabalhava então como vice-conselheiro geral da CIA, telefonou a John Bellinger, assessor jurídico de Condoleezza Rice, para manifestar sua preocupação com o que o presidente e McClellan haviam dito.

O problema estava em que – como Rizzo e seu chefe, o diretor George Tenet da CIA, sabiam muito bem – muitos detidos (alguns clandestinamente) pela CIA não estavam de modo algum sendo tratados com humanidade. Estavam sendo torturados e, de vários modos, estavam sendo submetidos a maus tratos. A CIA queria ter certeza de que ainda contava com apoio e aprovação da Casa Branca para seu programa de "interrogatórios reforçados", porque não queria que seus agentes fossem apanhados com a arma do crime, caso a verdade viesse à tona. Queriam também que a Casa Branca acabasse com aquela conversa sobre tratamento humano a prisioneiros.

De acordo com um memorando interno da CIA, George Tenet marcou uma reunião no dia 29 de julho de 2003 no gabinete de Condoleezza Rice, para receber a indispensável garantia de que a CIA teria cobertura no caso de a verdade das torturas vir à tona. Nessa reunião, Bellinger desculpou-se em nome de todo o governo; explicou que o secretário da Casa Branca "fugira do script", que retomara inadvertidamente "velhos itens de declarações públicas". Também "prometeu que cuidaria para que o gabinete de imprensa da Casa Branca não voltaria a fazer declarações sobre aquele assunto; que se limitaria a repetir que os EUA cumprem seus deveres em estrita obediência à lei norte-americana."

Na mesma reunião, o conselheiro-chefe de Tenet, Scott Muller, distribuiu pacotes de prints de slides de PowerPoint mostrando em detalhes as técnicas de interrogatório reforçado, inclusive a simulação de afogamento, para que todos os presentes, Bellinger e também Rice, compreendessem perfeitamente o que ele estava encarregado de ocultar.

Isso, como amostra da "autoridade moral" de John Bellinger III.

Quanto a Michael Hayden (que ocupou vários cargos no aparelho de segurança nacional), um dos seus primeiros atos como diretor da CIA foi aprovar em 2005 a destruição de videoteipes das sessões, na agência, de simulação de afogamento. Numa carta a empregados da CIA, Haydeb escreveu que as fitas só foram destruídas "depois de confirmado que não mais interessavam à inteligência nem teriam qualquer serventia em inquéritos internos, legislativos ou policiais."

Claro, destruir as fitas também significava que elas nunca estariam disponíveis para qualquer futura consulta legislativa ou judicial. A carta continua,

"À parte já não terem qualquer valor para a inteligência... as fitas representavam grave risco de segurança. Caso algum dia vazassem, permitiriam identificar seus colegas da CIA que trabalharam no programa, expondo-os, e suas famílias, à retaliação pela al-Qaeda e simpatizantes."

Difícil é saber se Hayden temia mais a al-Qaeda ou a lei norte-americana. Pelo sim, pelo não, deu cabo de todas as provas e privou a opinião pública – e algum investigador futuro – de provas crucialmente decisivas de mais de um crime.

Hayden também perpetuou a mentira segundo a qual a primeira vítima da CIA, de simulação de afogamento, Abu Zubaydah – submetido à tortura por simulação de afogamento escandalosas 83 vezes – seria agente crucial da al-Qaeda e que teria fornecido toda a informação que a CIA reuniu de fontes humanas, sobre a al-Qaeda. Mentira. Zubaydah na verdade jamais foi membro da al-Qaeda. Nos anos 1980, comandou um campo no Afeganistão para os mujahedin, a força que os EUA apoiavam contra a ocupação do país pelos soviéticos: era, isso sim, um dos "combatentes da liberdade" de Reagan.

Bellinger fez mais, adiante, mantendo viva a mentira sobre Abu Zubaydah, ao argumentar em 2007 em nome da sua chefa, Condoleezza Rice, que Guantánamo devia ser mantida em funcionamento. Aquela prisão, disse ele, "serve a objetivo muito importante, para deter e prender indivíduos extremamente perigosos [como] Abu Zubaydah, gente que participou do planejamento do 11/9."

"Ele parece carecer de conhecimentos básicos sobre e crença na Constituição dos EUA, nas leis norte-americanas e nas instituições dos EUA ..."

Essa é a linha seguinte da carta aberta das autoridades dos Republicanos, e talvez seja avaliação correta de Donald Trump. Mas é mais do que simples ironia que a carta tenha sido assinada por Michael Hayden, homem que, além de apoiar o projeto de tortura da CIA, supervisionou o programa de vigilância secreta da Agência de Segurança Nacional pós 11/9. Por aquele programa, o governo dos EUA gravou telefonemas, textos e comunicações por internet de número desconhecido de pessoas, dentro e fora dos EUA – sempre sem mandato judicial.

Talvez Hayden acredite na Constituição, mas, na melhor das hipóteses, será fé bem seletiva. Afinal, a incômoda 4ª Emenda, por exemplo, protege

"o direito das pessoas à segurança, no corpo, no lar, em documentos, em papéis e efeitos, contra revistas e confiscos ilegais, que não será violado; e não se emitirão mandados, senão com causa provável bem definida, apoiada em juramento, ou em afirmação e, especificamente, que descreva o local a ser revistado e a pessoa ou bens a serem recolhidos."

Hayden tampouco dá qualquer sinal de crer nas leis e instituições dos EUA, no mínimo no que tenha a ver com a [lei] Foreign Intelligence Surveillance Act de 1978, que estabelece que as cortes secretas devem emitir o mesmo tipo de mandado que o programa de Hayden jamais cuidou de obter.

John Negroponte é outro dos signatários que têm longa história de infringir leis norte-americanas e desobedecer ao Congresso que as aprova. Quando foi embaixador em Honduras, Negroponte ajudou a desenvolver um exército assassino chamado "contra", que os EUA armaram e treinaram para derrubar o governo da vizinha Nicarágua. Durante aqueles anos, ajudar os contras era prática ilegal, nos termos da lei norte-americana. Era explicitamente proibido, pelas chamadas Emendas Boland, mas não importa. "A segurança nacional" estava em jogo.

Por falar em Constituição, é útil passar os olhos pelo Artigo 6, que determina que "todos os tratados feitos ou que venham a ser feitos, sob a autoridade dos EUA, devem ser a lei suprema da terra." Entre esses tratados está, por exemplo, o pacto Kellogg-Briand de 1928, de não agressão (e cuja violação foi a primeira acusação feita contra os oficiais nazistas julgados em Nuremberg). E o Artigo 51 da Carta da ONU, que só admite ação militar "se ocorrer ataque armado contra país membro da ONU."

Em 1998, Robert Zoellick, outro daqueles 50 Republicanos que estão abertamente denunciando Trump, assinou uma outra carta, bem diferente, na qual advoga a favor do fim daqueles tratados. Como associado ao Projeto para um Novo Século Americano, Zoellick foi um dos que exigia que o então presidente Bill Clinton ordenasse "complemento total de esforços diplomáticos, políticos e militares" para "remover Saddam Hussein do poder." Seria apenas o primeiro passo de campanha mais ampla para criar uma Pax Americana no Oriente Médio. Na carta de 1998, insistia em que Clinton não perdesse tempo com tentar obter uma Resolução do Conselho de Segurança, porque "a política norte-americana não pode continuar esmagada por uma insistência nefasta em obter unanimidade no Conselho de Segurança da ONU."

"Ele é incapaz ou não tem vontade de separar a verdade da mentira..."

É o que se lê na carta que, mais uma vez, oferece caracterização de Trump que parece bem justa, uma vez que o candidato tem dito com frequência que o presidente Obama jamais provou ser nascido nos EUA, e que mais de uma vez repetiu a história já há muito tempo desmentida de que na Morro Rebellion, 1899-1913, nas Filipinas, o general John J. Pershing teria usado balas molhadas em sangue de porco para executar insurgentes muçulmanos. (E isso só para arranhar levemente a superfície da espantosa pouca disposição que Trump manifesta para separar verdade e mentiras.) Mas... O que dizer sobre separar verdade e mentiras, no passado dos signatários da carta contra Trump?

Clinton nunca acreditou muito na proposta do Projeto do Novo Século Americano, mas poucos anos depois dele, George W. Bush abraçou a ideia. E os funcionários de seu governo imediatamente desencadearam sua campanha de mentiras sobre as armas de destruição em massa de Saddam, sobre o bolo amarelo de urânio do Niger, sobre "armas fumegantes" que se poderia vir a descobrir que seriam "nuvens em forma de cogumelo" (presumivelmente sobre cidades norte-americanas), e todos esses itens viriam a servir como pretexto para a invasão ilegal do Iraque, obra daquele governo Bush.

O governo Bush não se limitou a mentir ao povo norte-americano. O embaixador dos EUA à ONU, John Negroponte, foi mandado mentir também ao Conselho de Segurança. A Resolução n. 1441 do Conselho de Segurança foi a última de várias que exigiam que o Iraque aceitasse as inspeções pela United Nations Monitoring, Verification, and Inspection Commission (UNMOVIC) e pela Agência Internacional de Energia Atômica. Alguns membros do Conselho de Segurança, especialmente Rússia e França, não estavam convencidas de que a Resolução 1441 devesse ser aprovada, temendo que os EUA a interpretassem como licença para invadir. Então, nas discussões antes da votação, Negroponte garantiu ao Conselho de Segurança que "a resolução não contém 'gatilhos ocultos' nem qualquer 'automaticidade' relacionada ao uso de força. Se houver outra quebra de confiança no Iraque, reportada ao Conselho pela UNMOVIC, a Agência Internacional de Energia Atômica ou por qualquer estado-membro, o assunto retornará ao Conselho para ser discutido." O embaixador britânico usou palavras quase idênticas a essas para garantir que, antes de atacarem o Iraque, EUA e Grã-Bretanha voltariam a pedir a bênção do Conselho de Segurança.

Absolutamente nada disso aconteceu desse modo. Em 24 de fevereiro de 2003, Washington e London levaram ao Conselho de Segurança uma resolução para guerra. Quando ficou claro que dois dos membros permanentes França e Rússia vetariam a resolução se chegasse a ser votada, Bush (em ação combinada com o primeiro-ministro britânico Tony Blair) decidiu retirar a resolução. "Todos nós concordamos", escreveu ele em suas memórias, que "o caminho diplomático tinha chegado ao fim."

Assim os EUA avançaram na trilha predefinida rumo à guerra e ao desastre no Iraque, caminho que depois de muitas idas e vindas, muitos fracassos, muita destruição, levaria a Donald Trump.

E é o que basta, em matéria de cumprir promessas e separar "a verdade da mentira."

Os inimigos do meu inimigo

Tenham em mente que o que aqui se examinou é apenas uma pitada do curriculum vitae de 50 Republicanos luminares da política exterior e da segurança nacional que decidiram comprar a briga com The Donald.

Com alguma sorte, entre a conclamação indireta para que sua adversária seja assassinada, e as recentes notícias sobre seu sombrias conexões na Ucrânia do seu diretor de campanha Paul Manafort, alcançamos o Peak Trump. Com apoiadores desertando por todos os lados, é possível que não tenhamos Trump para chutar por aí por muito tempo.

Mas não devemos esquecer que o partido que tornou Trump possível é também o lar dos trapaceiros, mentirosos e criminosos de guerra agora ansiosos para deserdá-lo. Os inimigos de nosso inimigo não são nossos - ou do mundo - amigos.

Mas não podemos esquecer que o partido que tornou possível o Trump de hoje, também é valhacouto de escroques, mentirosos e criminosos de guerra hoje ansiosos por livrar-se dele. Os inimigos do nosso inimigo não são nossos amigos – nem são amigos do mundo.

14 de agosto de 2016

A lógica do capitalismo neoliberal

Prabhat Patnaik


Tradução / O capitalismo é um sistema "espontâneo" no sentido de que a sua dinâmica se caracteriza pelo desdobramento de certas tendências imanentes, tais como a mercantilização de tudo, a destruição da produção pré-capitalista e o processo de centralização do capital. Levanta-se a questão: qual é o papel do Estado nesta dinâmica espontânea do capitalismo? Em geral o Estado numa sociedade capitalista ajuda esta dinâmica, removendo entraves e acelerando a operação das suas tendências imanentes. Entretanto pode haver certas conjunturas históricas em que a correlação de forças de classe é tal que o Estado pode ter de atuar para restringir a espontaneidade do capitalismo.

A conjuntura do pós guerra foi uma dessas, quando o enorme crescimento do campo socialista, o surto de confiança da classe trabalhadora nas metrópoles e a ascensão das lutas anti-coloniais de libertação no terceiro mundo, conjugaram-se para colocar uma séria ameaça à própria existência do sistema. A descolonização e a instituição da intervenção do Estado na "administração da procura" para assegurar altos níveis de emprego nas metrópoles (a qual assumiu mesmo a forma de medidas de Estado Previdência nos países da Europa onde a ameaça socialista era mais séria), foram caminhos pelos quais o sistema enfrentou esta ameaça existencial, com o Estado capitalista a atuar em certa medida para restringir a espontaneidade do sistema, embora de modo algum para eliminá-lo (pois isso é impossível enquanto o sistema existe). Além disso, nas economias descolonizadas, os Estados que se constituíram fora da [comunidade] de países socialistas, embora de caráter burguês no sentido de promover o desenvolvimento capitalista, devido à herança da luta anti-colonial também atuaram para restringir a espontaneidade do sistema.

Mas a própria centralização do capital verificada durante este período criou acumulações financeiras maciças cujo impulso para abolir fronteiras nacionais que restringiam sua liberdade de movimento inaugurou o atual regime de globalização que se caracteriza pela globalização do capital e, acima de tudo, da finança. O Estado-nação sob este regime perde sua autonomia face à globalização da finança, uma vez que qualquer movimento da sua parte para atuar de uma maneira oposta às exigências da finança provoca uma fuga financeira e portanto uma crise interna. Portanto, os Estados-nação de fato mais uma vez promoveram, ao invés de restringir, as tendências imanentes do capital. As políticas através das quais eles assim o fazem são aquilo a que chamamos as políticas neoliberais. O neoliberalismo, em suma, restaura a "espontaneidade" do capitalismo. Encarar o Estado neoliberal como a "retroceder" em favor do "mercado" é enganoso – o Estado atua de acordo com as exigências do capital financeiro internacional e da oligarquia corporativa-financeira interna integrada com ele e, com isso, ajuda a "espontaneidade" do sistema.

Assalto à pequena produção

Uma vez que uma importante tendência imanente é a destruição da pequena produção pré-capitalista, esta reafirmação da "espontaneidade" do sistema capitalista mostra-se, inter alia, como um assalto à pequena produção, incluindo a agricultura camponesa, por toda a parte. A crise agrária e os suicídios de camponeses que assistimos na Índia na era neoliberal são simplesmente a expressão deste assalto. Eles ocorrem não porque a agricultura seja "abandonada" sob a administração neoliberal, como habitualmente se pensa, mas por causa desta mesma administração.

Os mecanismos através dos quais se verifica este assalto à pequena produção constituem o que Marx chamou o processo de "acumulação primitiva de capital". Se bem que a acumulação primitiva seja logicamente distinta, e ocorra historicamente antes, do que se pode chamar a acumulação "normal" de capital estudada pormenorizadamente no Capital, ela não está confinada só ao período anterior àquele em que o capitalismo se pôs de pé. Ao contrário, ela ocorre através de toda a história do capitalismo, utilizando colonialismo como sua arma principal, como Marx observou nos seus escritos sobre a Índia. O Estado colonial efetuou esta acumulação primitiva a expensas dos pequenos produtores através dos processos paralelos de "drenagem de excedente" e "desindustrialização", ao passo que o Estado neoliberal utiliza outros instrumentos (como vemos abaixo), mas a sua manifestação na forma de uma crise da pequena produção permanece a mesma. Em suma, a atual crise agrária é uma re-emergência, embora sob circunstâncias mudadas, da prolongada crise agrária da era colonial que fora interrompida por algum tempo durante a era dirigista.

Não [significa] que na era dirigista não houvesse acumulação primitiva de capital: a expulsão de arrendatários (tenants) que assinalou a transição rumo à agricultura capitalista da variedade junker durante este período foi um exemplo óbvio disto. Mas isto foi acumulação primitiva a verificar-se dentro da economia agrária, não infligida pelo grande capital a partir de fora. Agora, verifica-se além disso que tal acumulação primitiva infligida a partir de fora pelo grande capital e pelo Estado neoliberal (o qual ao invés de aparentemente pairar acima das classes e cuidar dos interesses de "todos" torna-se preocupado acima de tudo com a promoção dos interesses da oligarquia corporativo-financeira). Pode-se pensar que quanto a isto não há necessidade de distinguir entre a era dirigista e a era neoliberal uma vez que a acumulação primitiva ocorre sob ambas. A questão entretanto é que a acumulação primitiva da espécie que se verifica neste último período é sobreposta à acumulação primitiva verificada durante o período anterior, a qual também continua no período posterior. É isto que explica a virulência da crise agrária de hoje.

O assalto à agricultura camponesa assume duas formas. Uma, constituindo acumulação primitiva em termos de "fluxo", implica um esmagamento de rendimentos da agricultura e portanto da lucratividade (tal como o que o sistema fiscal efetuou no período colonial). A outra, constituindo acumulação primitiva em termos de "stock", implica uma transferência de ativos dos camponeses a preços vis ("throwaway"), muitas vezes sem o seu consentimento, para corporações e desenvolvedores imobiliários para projetos de "infraestrutura" ou "industriais" (além das transferências que se verificam dentro da economia agrária para latifundiários). Mesmo quando é obtido consentimento, ele não é de todos os produtores dependentes de um lote de terra particular; a compensação não é paga igualmente a todos os produtores. Aqueles que são excluídos perdem evidentemente seus direitos sobre a terra em troca de nada (incluindo direitos costumeiros) e são as vítimas óbvias da acumulação primitiva em termos de "stock".

Esta última questão tem sido muito discutida; vamos portanto concentrar-nos nela. Um certo número de medidas tomadas pelo regime dirigista para melhorar a resiliência e lucratividade da agricultura foi desfeito sob o regime neoliberal, esmagando o campesinato até o ponto em que mesmo a reprodução simples se torna impossível para grande número deles, resultando em suicídios de camponeses (mais de 200 mil na última década e meia). Entre estas estão: acabar o isolamento da agricultura camponesa das vicissitudes das flutuações de preços do mercado mundial que o dirigismo proporcionava por meio de tarifas e restrições quantitativas; colocar camponeses em contacto direto com multinacionais do agro-negócio e corporações internas sem a almofada protetora do Estado; fazer subir preços de inputs através da retirada de subsídios do Estado, exigido pelo fato de que recursos orçamentais fluem cada vez mais para grandes corporações; reduzir a investigação e desenvolvimento agrícola em instituições públicas; terminar serviços públicos de extensão agrícola; cortes severos no investimento público na agricultura; uma retirada progressiva de crédito institucional para o setor de modo a que camponeses tenham de contrair empréstimos a taxas exorbitantes de uma classe de novos usurários; e privatização de serviços essenciais como educação e saúde o que os torna inacessíveis para trabalhadores rurais. Também se podem listar medidas semelhantes que afetam outros segmentos de pequenos produtores: pescadores, artesãos, fiadores e tecelões.

A acumulação primitiva de capital que destrói a pequena produção e liberta trabalhadores para o desemprego não teria provocado o sofrimento que provocou se aqueles "libertados" pela sua destruição houvessem sido absorvidos significativamente dentro do "exército de trabalho ativo". Eles não o foram e a razão para isso está na remoção de outra restrição à "espontaneidade" que o dirigismo havia imposto, nomeado sobre o ritmo da mudança tecnológica e estrutural. Em consequência a taxa de crescimento da produtividade do trabalho tem sido tão alta que, apesar das taxas de crescimento aparentemente altas do PIB, a taxa de crescimento do emprego tem sido demasiado diminuta para absorver sequer o crescimento natural da força de trabalho, muito menos os pequenos produtores deslocados à procura de empregos. Certamente o crescente desemprego relativo provocado por isto não se manifestou como tal: ele assumiu a forma de uma proliferação de emprego precário, emprego em tempo parcial, emprego intermitente e desemprego disfarçados (muitas vezes camuflado como "micro empreendedorismo"). O racionamento de emprego em grande medida apagou a própria distinção entre exércitos de trabalho ativos e de reserva como entidades separadas. Isto por um lado resultou numa proliferação do lumpen proletariado e por outro numa estagnação ou mesmo declínio dos salários reais dos trabalhadores organizados.

Mesmo que tomemos o período 2004-05 a 2009-10 que supostamente testemunhou crescimento rápido do PIB e que limitemos a nossa atenção ao que o NSS chama de "status habitual" do emprego como um indicador aproximado do emprego correto, descobrimos que a taxa de crescimento de tal emprego foram uns meros 0,8 por cento ao ano, bem abaixo da taxa de crescimento da própria população (e portanto, aproximadamente, da força de trabalho natural) ainda que ignoremos os pequenos produtores deslocados à procura de emprego. Segue-se portanto que para os trabalhadores como um todo, incluindo trabalhadores agrícolas, camponeses e pequenos produtores e trabalhadores de colarinho não branco, tem havido uma deterioração absoluta das condições de vida reais sob o neoliberalismo. Isto se deve ao fato de que a característica essencial de um regime neoliberal é infligir um processo virulento de acumulação primitiva de capital numa situação de geração de emprego diminuta, o qual também foi exatamente o caso sob o regime colonial.

O paralelo com a crise agrária do período colonial fica sublinhado se olharmos os números da produção cerealífera. A produção líquida média anual per capita de cereais no quinquênio 1897-1902 foi de 201,1 quilogramas para a "Índia Britânica", a qual declinou para 146,7 no quinquênio 1939-44 (os números subsequentes são afetados pela partição). Isto foi um declínio maciço, de mais de 25 por cento, o qual mostra a severidade da crise agrária. No entanto este declínio foi revertido e houve uma melhoria no período pós independência, até o início da "liberalização": o número para a União Indiana como um todo ascendeu para 178,77 kg no triênio concluído em 1991-92. Contudo, o período da "liberalização" assistiu mais uma vez a um declínio: a produção cerealífera líquida anual per capita do triênio acabado em 2012-23 (a qual é comparável com a do triênio anterior) foi de 169,52 kg.

Significativamente, o declínio na disponibilidade líquida per capita de cereais também acompanhou este declínio da produção, o que demonstra a afirmação feita anteriormente acerca da deterioração das condições de vida dos trabalhadores como um todo. A produção líquida anual per capita de cereais, a qual é definida como produção líquida menos exportações líquidas menos acréscimos líquidos a stocks (embora por razões práticas só stocks do governo sejam considerados), ascendeu de 152,72 kg no quinquênio 1951-55 para 177 kg no quinquênio terminado em 1991-92. Para o triênio terminado em 2012-13, este número desceu para 172,1 kg.

Declínio da absorção alimentar

Este declínio na absorção alimentar que estes números sugerem também é confirmado pelos números da ingestão de calorias per capita. A percentagem da população rural com acesso a menos de 2200 calorias por pessoa por dia (a qual é a referência para definir pobreza rural) aumentou de 58,5 em 1993-94 (o primeiro inquérito NSS do período de "liberalização" para 68 em 2011-12. A percentagem de população urbana com acesso a menos de 2100 calorias por pessoa por dia (a referência para definir pobreza urbana) aumentou de 57 em 1994-94 para 65 em 2011-12. Em termos de fome, a Índia agora classifica-se abaixo da África sub-Saariana e também no que a ONU chama "os países menos desenvolvidos" ("the least developed countries, LDCs"). O fato da fome crescente contradiz afirmações oficiais acerca do declínio da pobreza, mas isto não é surpreendente uma vez que as afirmações oficiais baseiam-se num método espúrio de estimar a pobreza. Este método define uma "linha de pobreza" para o ano base como um nível de referência da despesa (à qual as normas de calorias são cumpridas) e então atualiza-o para anos posteriores utilizando um índice de preços no consumidor a fim de estimar quantas pessoas caem abaixo desta linha. Tais índices de preços no consumidor, contudo, subestimam seriamente a inflação de preços real: eles não levam em conta o aumento no custo de vida devido à privatização de serviços essenciais como educação e cuidados de saúde.

A ascensão do PIB per capita numa situação de absoluta deterioração das condições de vida dos trabalhadores implica um aumento maciço da fatia do excedente no PIB, a qual explica o aumento extraordinário em desigualdades de rendimento e riqueza durante o período da liberalização, como é evidente por exemplo na ascensão do número de indianos bilionários. Ela também explica (num período em que a realização do excedente em ascensão não tem sido um problema devido ao boom) o enriquecimento visível de um segmento da classe média. O rendimento deste segmento é ou derivado diretamente deste excedente, exemplo, da sua despesa com consumo de luxo e de atividades associadas à sua extração, ou dependente do seu crescimento (o qual é o reino da finança). Além disso, a comutação de um conjunto de atividades tais como serviços relacionados com tecnologia de informação (IT) de países metropolitanos para a economia indiana, a qual faz parte de um fenômeno de transferência ("outsourcing") para o terceiro mundo que caracteriza a era atual da globalização, também contribui para o seu crescimento. Entretanto, o crescimento deste segmento da classe média talvez seja menor em termos da sua dimensão numérica relativa do que em termos do seu rendimento relativo em relação ao trabalhadores.

Os ciclos de expansão (booms) sob o capitalismo neoliberal são tipicamente associados à formação de bolhas de preços de ativos. O prolongado boom capitalista mundial que foi sustentado primeiro pela "bolha dotcom" e a seguir pela "bolha habitacional" e que está subjacente ao boom do período de liberalização na economia indiana, chegou ao fim, sem novas bolhas à vista no futuro previsível. Os dias tranquilos do neoliberalismo estão acabados, o que portanto traz para a agenda histórica uma luta pela sua transcendência. Isto pode ser uma luta combinada, dos trabalhadores que têm sido suas vítimas, e de segmentos da classe média que até agora têm sido seus beneficiários mas atualmente estão à beira de tempos árduos. Mas precisamente por causa desta possibilidade, o capitalismo neoliberal também promoverá tendências fascistas e semi-fascistas a fim de dividir o povo. Reagir a estas tendências é o meio pelo qual a esquerda e as forças democráticas podem avançar.

11 de agosto de 2016

A Rússia irá rejeitar o neoliberalismo?

Paul Craig Roberts e Michael Hudson

counterpunch: Tells the Facts, Names the Names

Tradução / Segundo diversas fontes, o governo russo está repensando a política neoliberal que tem feito tão mal à Rússia desde o colapso da União Soviética. Se a Rússia tivesse adotado uma política econômica inteligente, e dependesse de auto-financiamento, sua economia estaria muito à frente de onde está hoje, tendo evitado a maior parte da fuga de capitais para o Ocidente.

Washington aproveitou-se de um governo russo desmoralizado, que recorreu à orientação americana na era pós-soviética. Imaginando que a rivalidade entre dois países havia terminado com o fim da União Soviética, os russos confiaram nos conselhos americanos para modernizar sua economia com base nas melhores práticas ocidentais. Em vez disso, Washington abusou dessa confiança, levando a Rússia a se submeter a uma política econômica concebida para desmembrar os ativos econômicos russos e transferir sua propriedade para mãos estrangeiras. Ao convencer a Rússia a aceitar capital estrangeiro e expor o rublo à especulação cambial, Washington certificou-se de poder desestabilizar a Rússia com fugas de capital e ataques especulativos. Só um governo não familiarizado com o objetivo neoconservador de uma hegemonia mundial americana teria exposto seu sistema econômico a tal manipulação externa.

As sanções que Washington impôs – e forçou a Europa a impor – à Rússia mostram como a economia neoliberal funciona contra a Rússia. A demanda por juros altos e austeridade afundou a economia russa – sem necessidade. O rublo foi derrubado por fugas de capital, levando o Banco Central neoliberal a desperdiçar as reservas estrangeiras da Rússia na tentativa de fortalecer o rublo – mas na verdade fortalecendo a fuga de capitais.

Mesmo Vladimir Putin acha atraente a noção romântica de uma economia global à qual todos os países têm acesso. Mas os problemas resultantes da política neoliberal o forçaram a recorrer à substituição de importações, a fim de tornar a economia russa menos dependente de importações. Putin também percebeu que, da mesma forma que a Rússia devia ter um pé na ordem econômica ocidental, precisava fincar o outro pé na nova ordem econômica mundial que vinha sendo construída com a China, a Índia e os países da Ásia Central que compunham a antiga União Soviética.

A economia neoliberal prescreve uma política de dependência apoiada em empréstimos e investimentos externos. Esta política cria dívida em moeda estrangeira e propriedade estrangeira sobre os lucros russos, que se tornam vulnerabilidades para uma nação considerada por Washington como "uma ameaça existencial para os EUA".

O establishment econômico que Washington criou para a Rússia é neoliberal. Mais especificamente, a chefe do Banco Central Elvira Nabiullina, o Ministro do Desenvolvimento Econômico Alexei Ulyukayev, e o atual e o ex Ministros das Finanças, Anton Siluanov e Alexei Kudrin, são neoliberais doutrinários. Esta turma queria combater o déficit orçamentário da Rússia com a venda de ativos públicos para estrangeiros. Se posta em prática, esta política daria a Washington ainda mais controle sobre a economia da Rússia.

Na oposição a esse grupo de economistas, destaca-se Sergey Glaziev. Boris Titov e Andrei Klepach são considerados alguns de seus aliados.

Este grupo entende que as políticas neoliberais deixam a economia da Rússia suscetível à desestabilização por parte de Washington, se os EUA desejarem punir o governo russo por não seguir a política externa americana. Seu objetivo é tornar a Rússia mais autossuficiente, a fim de proteger a soberania nacional e a capacidade do governo de agir a favor dos interesses nacionais russos, e não se subjugar aos interesses de Washington. O modelo neoliberal não é um modelo de desenvolvimento, mas um modelo puramente extrativista. Os americanos o definiram como uma forma de fazer da Rússia ou outros países dependentes meros "fornecedores de lenha e armazéns de água" – ou, no caso da Rússia, de petróleo, gás, platina e diamantes.

Autossuficiência significa não depender de importações ou de capital estrangeiro para investimentos que poderiam ser financiados pelo Banco Central da Rússia. Significa também manter setores estratégicos da economia nas mãos do Estado, e não da iniciativa privada. Serviços básicos de infraestrutura devem ser fornecidos a preço de custo, de forma subsidiada ou até gratuitamente, não entregues a empresas estrangeiras para extrair renda monopolista. Glaziev também quer que o valor de câmbio do rublo seja definido pelo Banco Central, não por especuladores do mercado de câmbio.

Os economistas neoliberais não reconhecem que o desenvolvimento econômico de uma nação com a riqueza em recursos naturais como é a Rússia pode ser financiada com a criação, pelo Banco Central, do capital necessário para a execução dos projetos. Eles argumentam que isto geraria inflação. Os neoliberais negam o fato, reconhecido há muito, de que, em termos de quantidade de dinheiro, não faz diferença se o dinheiro vem de um Banco central, de bancos privados por meio de empréstimos, ou do exterior. A diferença é que, se o dinheiro vem de bancos privados ou do estrangeiro, devem ser pagos juros aos bancos, e os lucros têm de ser divididos com os investidores estrangeiros, que terminam com certo controle sobre uma economia.

Aparentemente, os neoliberais russos são insensíveis à ameaça que Washington e seus vassalos europeus representam para o Estado russo. Com base em mentiras, Washington impôs sanções econômicas à Rússia. Esta demonização política é tão fictícia quanto a propaganda econômica neoliberal. Com base em tais mentiras, Washington concentra forças militares e instala bases de mísseis nas fronteiras da Rússia e em águas russas. Washington procura desestabilizar antigas províncias russas ou soviéticas e instalar regimes hostis à Rússia, como na Ucrânia e na Geórgia. A Rússia é ininterruptamente demonizada por Washington e pela OTAN. Os EUA chegaram a politizar até os Jogos Olímpicos, impedindo a participação de muitos atletas russos.

Apesar da hostilidade ostensiva contra a Rússia, os neoliberais russos ainda acreditam que as políticas econômicas que Washington encoraja na Rússia são do interesse de Moscou, e não têm por objetivo o controle da economia russa. Atrelar o destino da Rússia à hegemonia ocidental, sob estas condições, seria a ruína da soberania russa.

9 de agosto de 2016

Obama contra Trump, Putin e Erdoğan: Golpes podem derrotar governos eleitos

por James Petras


"Muitos dos nossos interlocutores foram expurgados ou presos".

James Clapper, diretor da inteligência dos EUA sobre do golpe turco (Financial Times, 8/3/16, p. 4)

Introdução

Tradução / Washington organizou uma campanha sistemática, global e ilimitada para expulsar o candidato presidencial republicano, Donald Trump, do processo eleitoral. O virulento ânimo anti-Trump, os métodos, os objetivos e os mass media assemelham-se a regimes autoritários a prepararem-se para derrotar adversários políticos.

Esforços de propaganda comparáveis levaram a golpes políticos no Chile em 1972, no Brasil em 1964 e na Venezuela em 2002. As forças anti-Trump incluem partidos políticos, um juiz do Supremo Tribunal, banqueiros da Wall Street, jornalistas e editorialistas de todos os meios de comunicação mais importantes e os principais porta-vozes militares e da inteligência.

O violento e ilegal esbulho de Trump por Washington é parte integral de uma vasta campanha mundial para o derrube de líderes e regimes que levantem questões acerca de aspectos das políticas imperiais dos EUA e UE.

Trataremos de analisar a política da elite anti-Trump, os pontos de confrontação e propagada, como um prelúdio para impulsionar remover oposição na América Latina, Europa, Médio Oriente e Ásia.

O golpe anti-Trump

Nunca na história dos Estados Unidos um Presidente e um Juiz do Supremo Tribunal advogaram abertamente o derrube de um candidato presidencial. Nunca a totalidade dos mass media empenhou-se dia e noite numa propaganda unilateral para desacreditar um candidato presidencial ao sistematicamente ignorar ou distorcer as questões sócio-econômica centrais da sua oposição.

O apelo ao derrube de um candidato eleito livremente é nada mais, nada menos do que um golpe de estado.

As principais redes de televisão e colunistas pedem que as eleições sejam anuladas, seguindo a pista do Presidente e de líderes eminentes do Congresso e dos partidos republicano e democrata.

Por outras palavras, a elite política rejeita abertamente processos eleitorais democráticos em favor da manipulação autoritária e do engano. A elite autoritária confia na ampliação de questões terciárias, em discutíveis apelos de julgamento pessoal a fim de mobilizar apoiadores para o golpe.

Eles evitam sistematicamente as questões econômicas e políticas centrais que o candidato Trump levantou – e atraíram apoio maciço – as quais desafiam políticas fundamentais apoiadas pelas elites dos dois partidos.

As raízes do golpe anti-Trump

Trump levantou várias questões chave que desafiam a elite democrata e republicana.

  1. Trump atraiu apoio de massa e ganhou eleições e inquéritos de opinião pública ao:
  2. Rejeitar os acordos de livre comércio que levaram grandes multinacionais a se relocalizarem no exterior e desinvestirem em empregos industriais bem pagos nos EUA. 
  3. Apelar a projetos de investimento público em grande escala para reconstruir a economia industrial dos EUA, desafiando o primado do capital financeiro. 
  4. Opor-se à ressurreição da Guerra Fria com a Rússia e a China e promover maior cooperação econômica e negociações. 
  5. Rejeitar o apoio dos EUA à acumulação militar da OTAN na Europa e à intervenção na Síria, África do Norte e Afeganistão. 
  6. Questionar a importação de trabalho imigrante, o qual reduz oportunidades de emprego e salários para cidadãos locais.

A elite anti-Trump evita sistematicamente debater tais questões; ao invés disso distorce a substância das políticas.

Ao invés de discutir os benefícios no emprego que resultarão do fim das sanções à Rússia, os que tramam o golpe berram que "Trump apoia Putin, o terrorista".

Ao invés de discutir a necessidade de redirigir investimento interno para criar empregos nos EUA, a junta anti-Trump fala por clichês a afirmarem que a sua crítica da globalização "minaria" a economia dos EUA.

Para denegrir Trump, a junta Clinton/Obama recorre a escândalos políticos para encobrir crimes políticos em massa. Para distrair a atenção pública, Clinton-Obama afirmam falsamente que Trump é um "racista", apoiado por David Duke, um advogado racista da "islamofobia". A junta anti-Trump promoveu os pais estadunidenses-paquistaneses de um militar abatido em guerra como vítima das calúnias de Trump mesmo quando eles aplaudiam Hillary Clinton, promotora de guerras contra países muçulmanos e autora de políticas militares que remeteram milhares de soldados americanos para a sepultura.

Obama e Clinton são os racistas imperiais que bombardearam a Líbia e a Somália e mataram, feriram e deslocaram mais de 2 milhões de africanos negros ao sul do Saara.

Obama e Clinton são os islamófobos que bombardearam e mataram e expulsaram cinco milhões de muçulmanos na Síria e um milhão de muçulmanos no Iêmen, Afeganistão, Paquistão e Iraque.

Por outras palavras, a política errada de Trump de restringir a imigração muçulmana é uma reação ao ódio e à hostilidade engendrada por Obama e Clinton com o genocídio de um milhão de muçulmanos.

A política "America First" de Trump é uma rejeição de guerras imperiais além-mar – sete guerras sob o governo Obama-Clinton. Suas políticas militaristas incharam défices orçamentais e degradaram padrões de vida nos EUA.

A crítica de Trump à fuga de capitais e de empregos ameaçou a locupletação de bilhões de dólares por parte da Wall Street – a razão mais importante por trás do esforço bi-partidário da junta para afastar Trump e o apoio que tem da classe trabalhadora.

Ao não seguir a agenda de guerra bi-partidária da Wall Street, Trump esboçou uma outra agenda que é incompatível com a estrutura atual do capitalismo. Por outras palavras, a elite autoritária dos EUA não tolera as regras democráticas do jogo mesmo quando a oposição aceita o sistema capitalista.

Além disso, a busca de Washington do "poder único" estende-se através do globo. Governos capitalistas que decidam seguir políticas externas independentes são alvos para golpes.

A junta Obama-Clinton torna-se frenética

O golpe contra Trump proposto por Washington segue políticas semelhantes àquelas dirigidas contra líderes políticos na Rússia, Turquia, China, Venezuela, Brasil e Síria.

O presidente russo, Putin, foi demonizado diariamente pelos meios de comunicação de propaganda dos EUA durante quase toda uma década. Os EUA apoiaram oligarcas e promoveram sanções econômicas; financiaram um golpe na Ucrânia; instalaram mísseis nucleares na fronteira da Rússia e lançaram uma corrida armamentista para minar políticas econômicas do Presidente Putin a fim de provocar um golpe.

Os EUA apoiaram o "governo invisível" do seu apaniguado (proxy) gulenista no golpe fracassado para derrubar o Presidente Erdogan, por este deixar de adotar totalmente a agenda dos EUA para o Oriente Médio.

Da mesma forma, Obama-Clinton apoiaram golpes bem sucedidos na América Latina. Foram orquestrados golpes em Honduras, Paraguai e mais recentemente no Brasil para minar presidentes independentes e assegurar regimes neoliberais satélites. Washington apressa-se para impor à força o derrube do governo nacional-populista do Presidente Maduro, na Venezuela.

Washington aumentou seus esforços para desgastar, minar e derrubar o governo do Presidente Xi-Jinping, da China, através de várias estratégias combinadas. Uma acumulação militar de uma força de ar e terra no Mar do Sul da China e bases militares no Japão, Austrália e Filipinas; agitação separatista em Hong Kong, Formosa e entre os uigures; acordos comerciais de livre comércio entre EUA, América Latina e Ásia que excluem a China.

Conclusão

A estratégia de Washington de golpes ilegais e violentos para manter a ilusão de império estende-se através do globo, indo desde Trump nos EUA a Putin na Rússia, desde Erdogan na Turquia a Maduro na Venezuela e Xi Jinping na China.

O conflito é entre o imperialismo dos EUA-UE apoiado pelos seus clientes locais contra regimes endógenos enraizados em alianças nacionalistas.

A luta é contínua e prolongada e ameaça minar o tecido político e social dos EUA e da União Europeia.

A principal prioridade para o Império estadunidense é minar e destruir Trump por quaisquer meios. Trump já levantou a questão de "eleições manipuladas" ("rigged elections"). Mas a cada ataque dos meios de comunicação da elite a Trump parece aumentar e fortalecer seu apoio de massa e polarizar o eleitorado.

Quando as eleições se aproximam, será que a elite se limitará à histeria verbal ou passará dos assassínios verbais para os de "outra espécie"?

A estratégia global do golpe de Obama mostra resultados mistos: eles tiveram êxito no Brasil mas foram derrotados na Turquia; eles tomaram o poder na Ucrânia mas foram derrotados na Rússia; eles ganharam aliados de propaganda em Hong Kong e Formosa mas sofreram graves derrotas econômicas estratégicas na região quando a China avançou políticas comerciais asiáticas.

Quando as eleições estadunidenses se aproximam, e o legado imperial perseguido por Obama entra em colapso, podemos esperar maiores fraudes e manipulações e talvez mesmo o recurso frequente a assassínios daqueles que a elite designa como "terroristas".