20 de fevereiro de 2017

As pombas armadas da Europa

Manlio Dinucci

Il Manifesto

Tradução / Novos passos no “fortalecimento da Aliança” foram decididos pelos ministros da Defesa da OTAN, reunidos em Bruxelas no Conselho do Atlântico Norte. Antes de tudo, na frente oriental, com o deslocamento de novas “forças de dissuasão” para a Estônia, Letônia, Lituânia e Polônia, em conjunto com uma acrescida presença da OTAN em toda a Europa oriental com exercícios terrestres e navais. Em junho estarão plenamente operacionais batalhões multinacionais que se instalarão na região.

Ao mesmo tempo, aumentará a presença naval da OTAN no Mar Negro. Igualmente, começa a criação de um comando multinacional das forças especiais, formado inicialmente de forças belgas, dinamarquesas e holandesas. Enfim, o Conselho do Atlântico Norte, felicita a Geórgia por seus progressos no caminho que a fará entrar na Aliança, tornando-se o terceiro país da OTAN (com a Estônia e a Letônia) diretamente fronteiriço com a Rússia. Na frente meridional, diretamente ligada à oriental em particular através da confrontação Rússia-OTAN na Síria, o Conselho do Atlântico Norte anuncia uma série de medidas para “enfrentar as ameaças provenientes do Oriente Médio e o Norte da África e para projetar uma estabilidade para além de nossas fronteiras”.

Junto ao Comando da força conjunta aliada em Nápoles, foi constituído o Hub para o Sul, com um pessoal de cerca de 100 militares. Ele terá por missão “avaliar as ameaças provenientes da região e enfrentá-las juntamente com as nações e organizações parceiras”. Disporá de aviões espiões Awacs e de drones que se tornarão rapidamente operacionais em Sigonella (Sicília).

Para as operações militares já está pronta a “Força de resposta” da OTAN de 40 mil soldados, em particular sua “Força de ponta com elevada rapidez operacional”.

O Hub para o Sul – explica o secretário geral Stoltenberg – aumentará a capacidade da OTAN para “prever e prevenir as crises”.

Em outros termos, uma vez que o Hub “preveja” uma crise no Oriente Médio, no Norte da África ou em outra parte, a OTAN poderá efetuar uma intervenção militar “preventiva”.

Desse modo, a Aliança Atlântica adota completamente a doutrina do “falcão” Bush sobre a guerra preventiva.

Os primeiros a querer um fortalecimento da OTAN, totalmente com funções anti-Rússia, são neste momento os governos europeus da Aliança, estes mesmos que se travestem de “pombas”. De fato, eles temem ser ultrapassados ou marginalizados se a administração Trump abrir negociações diretas com Moscou.

Os governos do Leste são particularmente ativos. Varsóvia, não contente com a 3ª Brigada blindada enviada à Polônia pela administração Obama, demanda agora a Washington, pela boca do influente Kaczynski, ser coberta pelo “guarda-chuva nuclear” estadunidense, ou seja, ter em seu território armas nucleares estadunidenses apontadas para a Rússia.

Kiev relançou a ofensiva no Donbass contra os russos da Ucrânia, seja através de pesados bombardeios, seja através do assassinato sistemático de chefes da resistência nos atentados por trás dos quais se encontram também os serviços secretos ocidentais. Ao mesmo tempo, o presidente Porochenko anunciou um referendo sobre a adesão da Ucrânia à OTAN.

E o primeiro-ministro grego Alexis Tsipras foi dar-lhe um forte aperto de mão: em visita oficial a Kíev em 8 e 9 de fevereiro, ele expressou ao presidente Porochenko “o firme apoio da Grécia à soberania, integridade territorial e independência da Ucrânia” e, em consequência, o não reconhecimento do que Kiev chama de “ilegal anexação russa da Crimeia”. O encontro, declarou Tsipras, lançando as bases para “anos de estreita colaboração entre a Grécia e a Ucrânia”, contribuirá para “alcançar a paz na região”.

19 de fevereiro de 2017

Diferentes conceitos de populismo

por Prabhat Patnaik

Peoples Democracy

Tradução / Muitas vezes a mesma palavra é utilizada por diferentes pessoas com diferentes significados e isto pode ser uma fonte de imensa confusão. O Banco Mundial aproveitou-se bem disso, apossando-se de expressões que estavam a ser utilizadas num sentido particular, especialmente pela esquerda, e utilizando-as num sentido muito diferente, a fim de criar confusão deliberada e explorar de alguma forma o sentimento simpático que a expressão havia despertado na sua utilização inicial. "Ajustamento estrutural" é um bom exemplo de tal apropriação pelo Banco Mundial. Na sua utilização inicial sugeria que a solução mercado era inadequada em países do terceiro mundo e que, em alternativa, o que era necessário era "mudança estrutural" associada a mudanças nas relações de propriedade, tais como reformas agrárias. Mas o Banco Mundial utilizou a expressão "ajustamento estrutural" para dizer exatamente o oposto, nomeadamente para evitar quaisquer mudanças em relações de propriedade e para introduzir "mercados livres" por toda a parte.

A expressão "sociedade civil" utilizada por Hegel, e muitas vezes mencionada por Marx, é outro exemplo óbvio. "Sociedade civil" nos seus escritos era para ser distinguida do Estado e referia-se a todo o conjunto das relações sociais (as quais de acordo com Marx eram determinadas em última análise pelas relações de propriedade dentro das quais a produção era executada). Mas nos dias de hoje a expressão é utilizada essencialmente para referir-se às ONGs, as quais são designadas como sendo "Organizações da Sociedade Civil".

Um destino muito semelhante está agora a ser experimentado, infelizmente, pela palavra "populismo". Nos dias atuais a palavra está a ser utilizada para mencionar a tendência para criar, ou entregar-se a, um estado de espírito que é anti-elite, anti-intelectual e é difundido com um certo majoritarismo irracional. Portanto diz-se de Donald Trump que excita "populismo"; da votação do Brexit diz-se refletir sentimentos "populistas". Em ambos os casos a referência é para o ressuscitar de sentimentos racistas ou xenofóbicos entre um grupo majoritário, sentimentos esses que podem ter estado dormentes anteriormente ou repousarem dormentes por algum tempo, mas são agora deliberadamente reatiçados. A palavra "populismo" nesta utilização está próxima de palavras como "fascismo", "semi-fascismo", "quase-fascismo" e assim por diante. De fato, dado o contexto da crise econômica que atingiu duramente o povo e criou as condições para a emergência do "populismo" neste sentido, e também o fato de que promover um tal "populismo" invoca um "nacionalismo" sem ao mesmo tempo tomar qualquer posição explícita contra a hegemonia da finança, a afinidade com "fascismo" é bastante forte.

Mas apesar de nestes dias a palavra "populismo" ser frequentemente utilizada como um eufemismo para "fascismo" ou "semi-fascismo", nem sempre foi assim. A agitação jallikattu, por exemplo, tem sido descrita como "populista". Se bem que tenha algo em comum com o movimento estilo Trump, ela obviamente não classifica um grupo particular de pessoas como "o outro" e portanto difere muito de tais movimentos. Uma caracterização mais geral da palavra "populismo" na sua utilização atual como anti-elite, anti-intelectual, majoritarismo "irracional" parece portanto ser mais adequada.

Isto contudo é muito diferente do modo como tradicionalmente a palavra tem sido entendida na literatura marxista. "Populismo" aqui refere-se não a um estado de espírito anti-intelectual entre o povo mas sim a uma tendência intelectual muito específica, a qual encara o povo, especialmente o campesinato, como um grupo mais ou menos homogêneo ainda não dividido em classes e não experimentando qualquer processo de diferenciação forte. Os Narodniks russos eram "populistas" neste sentido. Eles acreditavam que poderia ser feito uma transição direta da comuna aldeã russa, o mir, para o socialismo sem passar por uma fase de desenvolvimento capitalista. Vera Zasulich, uma Narodnik importante, escreveu a Karl Marx a pedir sua opinião sobre tal possibilidade.

Os Narodniks foram revolucionários. A tendência intelectual do "populismo" que lhes é atribuída nada tem a ver com qualquer fascismo, semi-fascismo ou quase-fascismo; eles eram "populistas" apenas em contraste com os sociais-democratas: encaravam o campesinato como uma força revolucionária de vanguarda em oposição à classe trabalhadora que os sociais-democratas viam como a força revolucionária principal. Eles viam o campesinato como sendo indiferenciado e concebiam uma transição direta do mir para o socialismo. Na verdade, muitos deles, Vera Zasulich inclusive, posteriormente aderiram ao Partido Social-Democrata, bem como Plekhanov, Axelrod, Lenin, Martov e Potressov, que estavam no conselho editorial do Iskra, o jornal dos sociais-democratas russos.

Lenin escreveu a sua obra clássica O desenvolvimento do capitalismo na Rússia como uma crítica intelectual à posição Narodnik. Nessa obra ele argumentou, com base em estatísticas pormenorizadas, que o capitalismo estava a desenvolver-se rapidamente na Rússia, razão pela qual a velha mir russa havia-se desintegrado, dando lugar à diferenciação entre o campesinato, e havia emergido uma classe trabalhadora que podia, como em outros países capitalistas, proporcionar liderança à Revolução Russa mesmo na sua fase democrática.

Os Narodniks e o fenômeno Trump estão portanto tão afastados como a água do vinho. Nenhum conceito único pode uni-los. Portanto, quando o termo "populismo" está a ser utilizado para o fenômeno Trump, está a sê-lo num sentido completamente diferente do seu uso ao descrever os Narodniks. Não perceber esta distinção pode ser uma fonte de imensa confusão nas fileiras marxistas.

A tendência intelectual do "populismo", tal como entendida na literatura marxista, não se confinava apenas aos Narodniks dos tempos antigos. Trata-se de uma tendência forte e persistente, especialmente sociedades camponesas que ainda existem. Todas as teorias que enfatizam o primado da contradição "campo versus cidade" caem dentro desta categoria, uma vez que vêem um "campo" indiferenciado a ser explorado por uma "cidade" indiferenciada. Mesmo formas infletidas, nas quais o primado da contradição "campo versus cidade" aparece muitas vezes, tais como o "setor organizado" a explorar o "setor desorganizado", ou o "setor formal" a explorar o "setor informal", as quais estavam muito em voga em certo momento quando a classe trabalhadora organizada era vista como uma "classe privilegiada", uma beneficiária do "intercâmbio desigual" imposto sobre o setor desorganizado pelo setor organizado, pode em linhas gerais (ainda que discutivelmente) ser classificada como pertencente a uma tradição "populista".

Quando o desenvolvimento do capitalismo é fraco, tal como na Rússia pré-revolucionária (onde, não obstante as obras de Lenin, não se pode negar que em comparação com a Europa Ocidental a Rússia tinha um grau menor de desenvolvimento capitalista), ou em economias coloniais, ou seja, quando a classe trabalhadora é uma força pequena e a questão de ser ou não uma "classe privilegiada" não é sequer muito relevante, a tendência rumo ao "populismo", rumo à percepção da sociedade em termos "campo versus cidade", é particularmente forte. Na verdade, uma grande quantidade dos escritos de Gandhi pode ser descrita como caindo dentro do gênero "populismo" no sentido marxista.

Num período mais recente, o falecido V.M. Dandekar, o economista que argumentou, com base nos escritos de J.K. Galbraith, que na Índia havia o setor organizado, consistindo tanto de "capital organizado" como de "trabalho organizado", o qual explorava o setor desorganizado, pode-se dizer que pertencia a este gênero de "populismo". Tal "populismo" no contexto indiano, entretanto, sempre foi inexato – pois mesmo os trabalhadores organizados sempre foram um grupo marginalizado – e extinguiu-se completamente sob o impacto do neoliberalismo: o fato de os "trabalhadores" como um todo terem sido gravemente esmagados sob as novas condições torna qualquer alusão ao primado das contradições "campo versus cidade" obviamente inadequado.

Na própria Rússia, mesmo após a Revolução Bolchevique, houve um ressuscitar da tradição "populista", ou uma emergência do que tem sido chamado "neo-populismo", nos escritos de A.V. Chayanov, o qual negava a existência de qualquer tendência no sentido da diferenciação entre o campesinato, argumentando ao invés que as diferenças observadas na dimensão da propriedade agrícola deviam-se a diferenças no tamanho familiar. Isto era completamente contrário à tradição intelectual marxista sobre a questão agrária, articulada entre outros por Kautsky e Lenine, os quais viam a produção capitalista de mercadorias dar origem a uma diferenciação dentro do campesinato e a sua divisão numa classe proto-capitalista de camponeses risco, por um lado, e uma classe semi-proletária de camponeses pobres, por outro lado.

Toda esta linha de pensamento que é de uma tradição intelectual séria, com a qual o marxismo tem estado em contínuo enfrentamento e conflito, e à qual os marxistas geralmente compreenderam como "populismo", deve ser distinguida dos movimentos estilo Trump que estão a aparecer por todo o mundo na atual conjuntura e que também está a ser descrita pela mesma palavra. Por outras palavras, temos mais uma vez o mesmo termo a ser utilizado para descrever fenômenos inteiramente diferentes; devemos estar em guarda contra a possível confusão que isto possa gerar.

16 de fevereiro de 2017

A destruição do Brasil e sua decomposição moral

por Aldo Fornazieri

Le Grand Soir

Tradução  / A consequência mais trágica do golpe  é a destruição do Brasil enquanto nação e a decomposição moral das suas instituições. Se o impeachment em si representou um ataque aos fundamentos democráticos e republicanos da Constituição, o trabalho de sapa do governo ilegítimo consiste em destruir de forma implacável e impiedosa o sentido social que o país vinha construindo desde a Constituição de 1988. As medidas do governo falam por si e se sintetizam na PEC dos gastos, nas propostas de Reforma da Previdência e Trabalhista e na lenta destruição de programas sociais como o ProUni, Minha Casa Minha Vida, o Bolsa Família, o financiamento estudantil etc.

O governo federal, junto com governos de estados, particularmente do Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul, vêm destruindo a pesquisa científica e a Cultura, cortando verbas, fechando instituições e institutos de pesquisa, acabando com programas, demitindo orquestras sinfônicas, minando as universidades públicas. Há uma conjura deliberada anti-social, contra a ciência, a pesquisa, cultura, a educação e a saúde pública. Serão necessárias décadas de reconstrução, com perdas incalculáveis em termos de avanços, recursos e capacidades. O que está em curso é um grande desastre social, com um massacre de direitos de tal magnitude poucas vezes visto em nossa história.

Do ponto de vista econômico, em Brasília, o país está à venda. Grupos de assalto cercam o governo pronto a satisfazê-los, entregando-lhes petróleo e gás, serviços e infraestrutura, previdência e direitos sociais, perdoando dívidas do agronegócio, num devastador jogo de pirataria econômica. O resultado é uma economia paralisada com quase treze milhões de desempregados, com empresas fechando as portas e com a capacidade ociosa nas alturas. O milagre da recuperação rápida se revelou uma grande mentira.[1]

O mais grave é o trabalho deliberado de decomposição moral das instituições. O governo perdeu qualquer pudor, qualquer senso de limite, de razoabilidade, de respeito. É um governo de quadrilha que promove criminosos a altos postos governamentais diariamente, comprovando que o PMDB, apoiado pelo PSDB e os partidos do centrão, promoveram o golpe para buscar a proteção no foro privilegiado.

A perda de pudor se transformou em cinismo e em escárnio, sem escrúpulos e sem decência. Esta é a consequência lógica da grande farsa montada em torno do impeachment: ora, se a sociedade se mobiliza para entregar o governo nas mãos da maior e mais bem organizada quadrilha de corruptos que o Brasil já teve, esta quadrilha se sente à vontade em promover a sua autoproteção, desprezando as exigências de moralidade pública. 

No Congresso, os corruptos se organizaram para tomar de assalto as principais comissões da Câmara e do Senado, notadamente as comissões de Constituição de Justiça. Ser delatado na Lava Jato, ser denunciado por corrupção, se tornou condição para a ascensão a postos de comando, em comissões que decidem. Neste país tornou-se normal que o presidente da República, o presidente da Câmara e o presidente do Senado tenham pesadas denúncias sobre seus ombros. Isso tanto fez quanto tanto faz. Extirpariam os fundamentos morais do Estado brasileiro.

As quadrilhas do governo e do Congresso se articularam para tornar juiz do STF alguém que é acusado de advogar para o PCC, de receber propinas da corrupção e de ter plagiado livros de juristas espanhóis. Se alguém assim se torna ministro da mais alta Corte de Justiça do país, encarregada de zelar pela Constituição e pelo sentido moral do Estado, que força terá um professor em sala para solicitar que os alunos não plagiem trabalhos na internet? O que se está assistindo é a destruição dos próprios valores morais vinculantes da sociedade, pois parte desta sociedade, anestesiada em sua hipocrisia, julga que tudo isto é normal e que faz parte do jogo político.

Autoridades sem moral e desmoralizadas

Nada mais importa. Não importa se o futuro ministro se refestelou na chalana da indecência. E isto nem importa para vários dos atuais ministros do STF que, sem pudor, sem virtudes, sem prudência e sem decência se manifestaram favoráveis à entrada de Alexandre de Moraes no egrégio colégio de capas pretas acovardados.

Qual é o sentido moral que resta neste país quando se nomeia um ministro da Corte Suprema com a intenção manifesta de que sua função será a de proteger corruptos? O que se pode esperar da moralidade social quando os juízes são íntimos daqueles que deveriam julgar, como é o caso de Gilmar Mendes com Temer e com tucanos de alta plumagem? O fato é que as nossas mais altas autoridades perderam todas as medidas, todos os critérios, toda a sensatez, toda prudência, toda a vergonha. Sem metros e sem limites morais, sem sentido social, sem senso de Justiça, sem os valores da dignidade e dos direitos humanos, o Brasil pós-golpe se decompõem diariamente a olhos vistos, exalando putrefação pelos seus poros.

Estados, a exemplo do Rio de Janeiro e Espírito Santo, estão em situação de convulsão. O governador Pezão classifica os manifestantes de "vândalos". Vândalos são os peemedebistas do Rio, que saquearam os cofres do estado. Já o governador Hartung afirma que a "sociedade se tornou refém da polícia". Mas a verdade é que polícia e sociedade são reféns de governadores incompetentes que, em tempos de trágica normalidade, jogam a polícia contra a sociedade e, em tempo de banhos de sangue por motim armados, jogam a sociedade contra as polícias. Sociedade e polícias são vítimas de um atroz jogo de violência, manipulado pelos interesses políticos dos governantes. E, após de sete dias de banho de sangue, Temer se manifesta colocando tanques nas ruas, numa demonstração de força estúpida e impotente.

Selvageria nas prisões, violência e desordem nas ruas, confrontos crescentes entre manifestantes e polícias, crescimento do desemprego e da pobreza, destruição das instituições do Estado é o legado crescente de um governo sedicioso que premia o crime com os altos cargos públicos. Ao assim proceder, sem escrúpulos e sem moral, o governo vai autorizando a barbárie social, a desmesura, a desordem. É preciso reagir antes que o estrago se torne medonho. As oposições e os movimentos sociais precisam sair das letargias de suas próprias crises. Precisam se refazer nas lutas, nas ruas, nas praças, pois são estes os melhores remédios para restabelecer as virtudes cívicas. As batalhas pela cidadania, pelos direitos, pela justiça e pela liberdade são as melhores formas de fazer autocrítica. O ensimesmamento da derrota é o benefício do inimigo.

O Brasil não pode continuar nas mãos daqueles que o estão destruindo. Os jovens precisam de esperança, os trabalhadores querem emprego e os idosos estão desamparados, temendo uma velhice desassistida. É preciso reconduzir o Brasil no leito da democracia, no sentido social, na busca de direitos, de justiça e de igualdade. O Brasil precisa, com urgência, de um governo decente que seja capaz de conduzir moral e politicamente a sociedade. Este governo que ai está, pela imoralidade manifesta que representa, merece uma danação da memória, um esquecimento eterno.

Nota:


Um estudo do Banco Mundial mostra que o governo Temer lançará na pobreza extrema 3,6 milhões de pessoas.

Antes de Trump, a mídia adorava “fatos alternativos”

Ted Rall

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / A maioria dos meios de comunicação está em guerra com Donald Trump, e com razão. Primeiro, os jornalistas deveriam sempre estar em guerra com os governos que acompanham. Jornalismo sem controvérsia não é jornalismo – é estenografia. Segundo, a recusa dos funcionários da administração Trump em fingir, pelo menos, estarem interessados na verdade, imortalizada pelo notável elogio de Kellyanne Conways aos “fatos alternativos”, exige um desprezo vigoroso.

Mas não esqueçamos uma verdade inconveniente. Antes de Trump, os cães de guarda da democracia eram, na sua maioria, cãezinhos de estimação, lambendo docilmente as mãos empapadas de sangue dos que os alimentavam: as elites políticas e econômicas da América.

A negligência dos meios de comunicação tem sido tão constante e tão generalizada que é difícil saber por onde começar. Pelas páginas de opinião e painéis de notícias por cabo que mostram onde ninguém, à esquerda de Hillary Clinton, é tolerado? Pelo abandono da cobertura dos acontecimentos locais? Pelas convulsões sociais e econômicas ignoradas, porque afetam apenas os pobres e a classe média a caminho da pobreza: o declínio do Rust Belt, as epidemias de anfetaminas e de ópio, a substituição de bons empregos por maus, as taxas falsificadas do desemprego e da inflação?

Os editores e produtores têm muitos pecados. Na minha opinião, contudo, as maiores mentiras são as de omissão, que deixam importantes fatos no desconhecimento do público durante anos e mesmo décadas, resultam em muitas mortes, e deixam os perpetradores fora do alcance da lei e da história.

A imprensa de referência, como o The New York Times, começou finalmente a revelar que o presidente mentiu quando ele, como sabemos, mentiu – em vez de usar alguma palavra ambígua como “errou” ou de fazer a contra citação de um político da oposição. Está, até, a usar a palavra “tortura” para descrever a tortura (em vez de “técnicas avançadas de interrogatório”). Mas isto é novo, e acontece apenas porque a imprensa é uma corporação liberal e Trump é a blogosfera disparatada mais à direita. Deem-lhes outro Obama e voltarão a dar o mesmo às pessoas.

O elevado número de vítimas da guerra mostra a dimensão assombrosa das falhas morais da imprensa que, dia após dia, se esquece de informar os seus leitores das verdades mais importantes que, normalmente, são suprimidas à partida.

Durante mais de uma década, os cidadãos americanos pagaram bom dinheiro por jornais que era suposto trazerem-lhes notícias do Vietnã. O que esses jornais nunca lhes disseram foi que a razão que Lyndon B. Johnson lhes deu para entrar na Guerra – o ataque aos barcos americanos no Golfo de Tonquim, em 1964 –, nunca aconteceu. Isto não é controverso; historiadores liberais e conservadores concordam que a guerra foi vendida com notícias falsas.

Imaginem se os meios de comunicação tivessem começado cada notícia sobre o Vietnã com uma referência, das do tipo da era Trump, à grande mentira de Jonhson? “Continuando um ataque não provocado ao Vietnã do Norte, os bombardeiros U.S. b-52 semeiam a morte em Hanói sem razão?”. Significativamente, menos de 58.000 americanos e dois milhões de vietnamitas devem ter morrido,

Depois da derrota dos Estados Unidos – que descreveram mais como uma retirada, do que como aquilo que realmente aconteceu – jornalistas e editores medrosos e preguiçosos sustentaram a mentira de que os veteranos regressados eram enxovalhados, insultados como “assassinos de crianças” e de forma geral destratados por hippies sujos que os esperavam nos aeroportos. Isso nunca aconteceu. Pelo contrário, o movimento contra a guerra apoiava os veteranos, providenciava-lhes clínicas e outras instalações para os ajudar. Acontece que, o mito do hippie que cuspia sobre os veteranos começou com o filme “Rambo”, de 1982, quando a personagem de Sylvester Stallone o refere – provavelmente como uma metáfora.

O governo talibã do Afeganistão não teve nada a ver com o 11/9, mas poucos americanos sabem disso. Mesmo os soldados para lá enviados para lutar, matar e morrer pensavam que estavam a vingar o ataque ao World Trade Center – e porque não? Graças aos fazedores de notícias falsas da era Bush, poucos dos melhores e mais informados americanos sabem que Ossama bin Laden já estava no Paquistão em 11 de setembro, que os talibãs se ofereceram para o prender e o entregar se os EUA apresentassem qualquer evidência da sua culpa, que a Al Qaeda tinha menos de 100 membros no Afeganistão (a grande maioria estava no Paquistão, assim como os infames campos de treinamento) e que não havia um único afegão entre os 19 sequestradores.

Ter-se-ia o Afeganistão tornado a maior guerra dos EUA se nas manchetes das notícias se lesse algo como “Bush promete perseguir Bin Laden e a Al Qaeda no país onde não estão e envia armas e dinheiro para o país onde estão”? Duvidoso.

Que os meios de comunicação falharam no seu trabalho durante o decorrer da Guerra do Iraque está bem documentado. Além disso, mesmo depois de as armas de destruição em massa não apareceram naquele país após o termos destruído, os meios de comunicação nunca usaram o padrão que agora aplicam a Trump, por exemplo: “Na continuação do injustificado assalto sobre iraquianos inocentes, os fuzileiros preparam-se para a batalha de Fallujah”. Falando sobre notícias falsas: mesmo que Saddam Hussein tivesse tido armas de destruição em massa, a falta de mísseis balísticos de longo alcance no Iraque significava que isso nunca poderia representar uma ameaça para os Estados Unidos.

Abundam os fatos alternativos no mandato Obama.

Obama lançou centenas de ataques de drones contra o Paquistão, Afeganistão, Somália, Iêmen e outros, que mataram milhares de pessoas. Estudos mostraram que 49 das 50 pessoas mortas eram inocentes e que a outra pertencia à guerrilha local, que odiava os seus próprios governantes; não eram jihadistas antiamericanos que teriam vindo para nos matar. Mas, história após história sobre assassinatos efetuados pelos drones, referiam-se às vítimas como “militantes” ou mesmo “terroristas”, sem um pingo de verdade. Se deixar o seu presidente matar pessoas, apenas por diversão, o mínimo que os meios de comunicação deveriam fazer, como fiscalizadores, era chamá-lo pelo que de fato é: “Presidente assassina mais 14 muçulmanos, por diversão”. Sabia que os militares chamam “squirters” [literalmente “esguichadores” ou “pistolas de água”] aos drones – por causa das suas cabeças, percebe...?

15 de fevereiro de 2017

Donald Trump é um covarde, ou apenas um tolo?

por Eric Zuesse

The Saker

Tradução / Desde quando Donald Trump venceu a corrida presidencial, a aristocracia dos Estados Unidos (que controla ou é possuidora de todas as corporações internacionais baseadas nos EUA, especialmente as empresas fabricantes de armamento como a Lockheed Martins, cujo volume de vendas depende do gasto sempre crescente das nações com “defesa” – e que necessita de uma restauração da “Guerra Fria”) estão tentando abortar sua presidência, seja lá como for e a qualquer custo. Acima de tudo, estão tentando retratar Trump como sendo um agente secreto russo, um traidor. Em 14 de fevereiro eles conseguiram uma vitória clara sobre Trump, derrotando-o totalmente ao atingir um objetivo crucial (não foi uma vitória parcial como antes, quando conseguiram que ele abolisse regulamentação ambiental e outras normas que diminuíam seus lucros). Bem. Isso ocorreu porque Trump é um covardão ou porque é um completo imbecil? Como foi tão rapidamente derrotado? Neste momento, isso pode ser determinado apenas examinando de perto a maneira pela qual ele capitulou. Assim, os eventos de 14 de fevereiro serão esmiuçados aqui, em detalhe:

Trump deixou absolutamente claro em 14 de fevereiro que a nova Guerra Fria entre Rússia e Estados Unidos continuará até que a Rússia cumpra duas condições que não só seriam humilhantes para a Rússia (e para a grande maioria de seus cidadãos), como podem ser consideradas também profundamente imorais. Na realidade, uma dessas situações é simplesmente impossível, embora sendo, também, imoral. Para Vladimir Putin, concordar com qualquer dessas duas imposições, não apenas estaria violando seus próprios pontos de vista, abundantemente expressos, mas também poderia fazer com que a vasta maioria do povo russo passasse a desprezá-lo – porque eles o respeitam, entre outras coisas, pela firmeza com que defende seus pontos de vista. Nessas coisas, ele jamais piscou. O apoio dos russos a estes conceitos é virtualmente universal (este artigo explica quais são essas perspectivas).

A primeira exigência de Trump: “Crimeia de volta”

Para entender a perspectiva russa sobre o primeiro desses assuntos (que os americanos precisam compreender se quiserem entender a monumental estupidez da posição de Trump sobre esse assunto), que é a questão da Crimeia (a qual por centenas de anos fez parte da Rússia, e que em 1954 foi súbita e arbitrariamente incorporada à Ucrânia pelo ditador soviético – e que os Estados Unidos agora exigem que seja devolvida), dois vídeos devem ser vistos por todos, e aqui estão eles:

O primeiro vídeo (clique aqui para ver) (todos devem assistir pelo menos até os doze primeiros minutos para continuar a ler, porque o vídeo é crucial) mostra o golpe engendrado pelos Estados Unidos para derrubar com emprego de violência o presidente da Ucrânia, eleito democraticamente, usando a cobertura de uma “revolução democrática” que de democracia nada tinha, e cuja planificação já estava sendo realizada no Departamento de Estado dos EUA desde 2011 e começou a ser organizada fora da embaixada dos Estados Unidos na Ucrânia em 01 de março de 2013. O presidente da firma Stratfor “CIA privativa” estava certo ao afirmar que se tratava do “golpe mais escancarado da história”.

O segundo vídeo (clique aqui para ver) mostra o massacre de crimeanos que tentavam fugir de Kiev durante o golpe ucraniano, em 20 de fevereiro de 2014, no massacre que ficou conhecido rapidamente na Crimeia como “o Pogrom de Korsun”. Korsun era a cidade onde os fascistas que Obama tinha contratado conseguiram prender e matar muitos crimeanos. Foi este incidente – ocorrido durante o golpe na Ucrânia que disparou o medo dos crimeanos ao ver o ódio raivoso que o regime instalado pelos americanos em Kiev lhes devotava.

Enfim, sobre a Crimeia, todas as pesquisas conduzidas por institutos ocidentais tomadas junto aos crimeanos, antes de depois do plebiscito de 16 de março de 2014 (realizadas algumas semanas depois que Obama derrubou o presidente ucraniano que tinha recebido 7% dos votos dos crimeanos) mostrou apoio de mais de 90% deles a voltar a fazer parte da Rússia. Todos concordaram que havia bem mais que 50% de apoio a essa opção entre a população da península. Além disso, mesmo Barack Obama aceita o princípio universal básico do direito dos povos à autodeterminação, e é capaz de sentir isso quando o caso de aplica à Catalunha na Espanha ou à Escócia, no Reino Unido, mas se recusa a aceitar o mesmo princípio quando aplicado à Crimeia – especialmente sob as atuais circunstâncias.

Dessa forma, em relação a essa primeira questão, Trump quer que Putin force os cidadãos da Crimeia a se tornarem sujeitos de um regime golpista instalado por Obama na Ucrânia. Isso não vai acontecer – e nem pode mesmo acontecer. Obama instituiu sanções contra a Rússia com base no que ele chama de “invasão de território” (referindo-se à Crimeia), mas os russos veem as coisas sob um prisma diferente. Eles percebem que a Rússia defendeu com firmeza tanto o território e a população que há escassos 60 anos faz parte da Ucrânia e que cultural e historicamente pertenceu sempre à Rússia, e também o princípio de autodeterminação dos povos – em especial nesse caso, quando a terra que sempre foi parte do país a não ser nos últimos 60 anos, tinha sido conquistada três semanas antes, através de um golpe de estado sangrento, aplicado por uma potência estrangeira, que, além do mais, era um poder alienígena que os crimeanos detestam. Putin não aceitará esta exigência de Trump. E faz muito bem.

A segunda exigência de Trump: que a Rússia acabe com a guerra Ucrânia v. Donbass

Essa exigência foi apresentada em 14 de fevereiro da seguinte forma: a Rússia deveria “desescalar a violência na Ucrânia”, referindo-se à invasão que a Ucrânia promoveu contra seu próprio território na região do Donbass, a qual rompeu com o regime ucraniano instalado por Obama, logo depois que a Crimeia fizera o mesmo. Porém Putin (depois de ter sofrido sanções, demonização, etc – não permitiu que o Donbass também se juntasse à Federação Russa). Em vez disso, apenas lhes ofereceu ajuda humanitária e militar para que se protegessem de moto próprio, de maneira que nem todos os cinco milhões de habitantes da região fugissem para a Rússia através da fronteira.

90% da população do Donbass votou pelo presidente ucraniano que Obama substituiu ilegalmente com seu golpe.

François Hollande, Angela Merkel e Vladimir Putin, depois de intensas negociações, conseguiram estabelecer acordos para dar um fim à pior fase da guerra (causada por Obama) entre Ucrânia e Donbass; parte fundamental do acordo Minsk-2 era que a Ucrânia deveria permitir aos residentes no Donbass um certo grau mínimo de autonomia frente à Ucrânia, como parte de uma Federação Ucraniana, mas o parlamento ucraniano (Rada) se recusa a permitir isso, e os Estados Unidos e seus aliados culpam os residentes no Donbass por esta recusa, e acusam os moradores pela guerra continuada, ou, como o secretário de imprensa de Trump colocou em 14 de fevereiro, “violência na Ucrânia”. Querem que o Donbass parem a guerra, quando este é que sofre constantes ataques da Ucrânia, governada por um regime que se recusa a implementar um dispositivo fundamental para o acordo de paz costurado por Hollande, Merkel e Putin, assinado tanto pelo Donbass quanto pela Ucrânia. (Nota: nem mesmo Hollande e Merkel foram capazes de fazer o ganhador do Prêmio Nobel da Paz, Obama participar desses esforços pela paz na Ucrânia).

Uma exigência como essa – a vítima é quem tem que parar de lutar – é impossível de cumprir. É como se, na Segunda Guerra Mundial, se culpasse os Estados Unidos, União Soviética e Reino Unido pela guerra contra a Alemanha, Itália e Japão. É uma exigência absurda, patética, que requer pessoas patéticas para formulá-las e levar a sério suas premissas.

Esta foi a maneira pela qual Sean Spicer, porta voz do presidente Trump expôs suas exigências na conferência de Imprensa em 14 de fevereiro:

"O presidente Trump deixou bem claro suas expectativas de que o governo russo promova a desescalada da violência na Ucrânia e devolva a Crimeia. Ao mesmo tempo, espera que possamos conviver harmoniosamente com a Rússia."

Para algumas pessoas, tudo isso parece um monte de besteiras. De qualquer forma, não faz o menor sentido; é completamente impossível. Parece que não queremos a paz com a Rússia; em vez disso, estamos reafirmando a guerra.

Com evidente orgulho, Spicer disse: “O presidente tem sido muito duro com a Rússia”.

Um repórter presente na conferência de imprensa desafiou a declaração: “para mim, e penso que para muitos outros americanos, parece que o presidente não tem sido duro com a Rússia”. Spicer respondeu referindo-se às declarações da nova representante dos Estados Unidos para a ONU, Nikki Haley: Ela fez a seguinte declaração na ONU em 02 de fevereiro:

"Preciso condenar as ações agressivas da Rússia... os Estados Unidos estão ao lado do povo da Ucrânia, que tem sofrido por cerca de três anos sob a ocupação russa e intervenção militar. Até que a Rússia e os separatistas aos quais dá apoio respeitem a soberania e a integridade territorial da Ucrânia, esta crise deve continuar... Os Estados Unidos continuam a condenar e pedir pelo fim imediato da ocupação russa na Crimeia. A Crimeia é parte da Ucrânia. As nossas sanções relacionadas com a situação da Crimeia serão mantidas até que a Rússia faça retornar o controle da península para as mãos da Ucrânia."

Assim Spicer disse que,

"no que diz respeito à Rússia, penso que os comentários da embaixadora Haley na ONU foram bem enérgicos e deixaram bem claro que (...)" 
[Questionamento] Esta declaração foi feita por Haley e não pelo presidente.
Spicer: Ela falou pelo presidente, assim como eu falo agora pelo presidente. Todos nós nesta administração agimos assim. Assim, todas as ações e pronunciamentos desta administração estão sendo feitos em respaldo e com respaldo do presidente. Por consequência, penso que não se poderia ser mais claro quanto ao comprometimento do presidente."

Então Trump continuará a guerra de Obama contra a Rússia, embora não seja isso que ele prometeu aos eleitores americanos, que não esperavam esse tipo de coisa. Alguns eleitores (este escritor entre eles) votou nele porque Trump alegava discordar frontalmente com sua oponente Hillary Clinton a respeito desse assunto – ele mentiu vergonhosamente para seus eleitores, no assunto mais importante. Aplicou coerção mental – trapaceou – para vencer. Mas como fica cada vez mais claro, ele na realidade não se opõe ao golpe aplicado por Obama na Ucrânia. Talvez ele seja apenas tão estúpido que nem está consciente de que houve um golpe, em vez de uma “revolução democrática” (a história para cobertura). Talvez ele esteja em tal nível de estupidez que chega a acreditar nas mentiras de Obama.

Hillary Clinton pelo menos era honesta o suficiente para tornar claro que continuaria as políticas de Obama (só que ainda pior). Mas ela é tão imbecil que sequer conseguiu derrotar Donald Trump.

Enfim, tudo isso são águas passadas, agora.

No início, parecia que Trump satisfaria a aristocracia dos Estados Unidos (donos do complexo industrial/militar, entre outras coisas) que precisam de um orçamento cada vez mais inchado apenas se voltando contra o Irã; mas agora parece que o Irã vai desempenhar apenas o papel de segundo violino.

A menos que o presidente Trump reveja seu curso e declare publicamente, entregando ao povo americano e ao mundo uma evidência clara da perfídia de seu predecessor, tanto na Ucrânia quanto na Síria, a guerra contra a Rússia só pode escalar cada vez mais. A menos e até que ele torne claro e admita que o problema entre os Estados Unidos e a Rússia não é Putin e sim Obama, as coisas irão de mal a pior, direto para a Terceira Guerra Mundial; explico porque:

"Quando tudo isso escalar para uma guerra convencional, seja na Ucrânia seja na Síria, o lado que estiver perdendo essa guerra convencional terá apenas uma maneira de evitar a derrota: um súbito e inesperado ataque nuclear total e rápido contra o outro lado. Uma guerra nuclear durará menos de 30 minutos. O lado que atacar primeiro talvez sofra um pouco menos danos que o atacante, porque terá atingido algumas instalações nucleares do inimigo e impedido alguns ataques retaliadores. Se Donald Trump fosse inteligente, poderíamos supor que ele sabe disso. Como ele é burro, não sabe. Assim, caminha impávido em direção à aniquilação mútua. Talvez ele pense, como Hillary Clinton, que os Estados Unidos têm 'primazia nuclear' e pode vencer."

Tudo isso é de uma estupidez atroz. Mas pior que isso, é o mal. Não estou aqui falando sobre a Rússia ou Putin. O problema verdadeiro neste assunto de importância vital de evitar uma guerra e um inverno nuclear – é meu próprio país: os Estados Unidos da América. Chamar isto aqui de "democracia" não é uma mentira; é uma piada sem graça. O público americano não é culpado por esse mal. A aristocracia deste país é. É uma oligarquia que enlouqueceu.

Trump nunca foi uma pessoa de princípios. Ele nunca se resistiu. Ele cedeu depois de apenas três semanas no trabalho. Claramente, então, ele não é apenas um psicopata; ele é um tolo.

Trump prometeu "drenar o pântano". Em vez disso, ele está alimentando os jacarés.

Flynn, Rússia e o mundo dos pensamentos conspiratórios

Melvin Goodman

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / O ex-conselheiro nacional de segurança, Michael Flynn, tem uma reputação de pensamentos conspiratórios merecida. Presumivelmente, ele assumirá que a comunidade de inteligência dos EUA, incluindo a Agência Central de Inteligência (CIA), o Bureau Federal de Investigação (FBI) e o ex-diretor da Inteligência Nacional, conduziram uma campanha para forçar sua saída da administração Trump. Ironicamente, o Kremlin, que viveu historicamente em um mundo de pensamentos conspiratórios, vê a saída de Flynn como parte de uma campanha do establishment dos EUA para prevenir qualquer aprimoramento nas relações Rússia-EUA.

Nesse universo conspiratório, é importante reconhecer que Flynn era, provavelmente, o indivíduo menos qualificado e mais questionável nos 70 anos de história do Conselho Nacional de Segurança (NSC) a ser selecionado como o às do presidente para as políticas de segurança nacional. Seu comportamento durante a campanha presidencial não foi profissional e representou uma fonte de vergonha ao establishment militar e ao Partido Republicano. Sua aposentadoria do exército há muitos anos atrás foi esquematizada pela Casa Branca e pela Junta de Chefes de Gabinete por causa de sua administração falha frente à Agência de Defesa e Inteligência. Ele tinha uma reputação de polêmico, e muitos de seus pronunciamentos lá foram definidos como “Fatos do Flynn” por não terem embasamento em fatos reais.

As mentiras de Flynn ao vice-presidente Pence tornaram inevitável sua resignação. Donald Trump já estava impaciente com Flynn porque o general, que era pouco fundamentado em assuntos de geopolítica e geoeconomia, não conseguia dizer ao presidente as implicações internacionais de um dólar forte vs. fraco na economia global. O fato de Flynn não estar atento ou não se importar que suas conversas com o embaixador da Rússia, em Washington, seriam gravadas pelo FBI e pela NSA, não foi exatamente uma boa jogada para o profissional de inteligência de longa data. E o fato de que ele alegou não lembrar das conversas não é uma recomendação para nenhum alto comando da comunidade executiva, muito menos para o conselheiro mais próximo do presidente quando se trata de política estrangeira. A promoção incomum de Steve Bannon à NSC duas semanas atrás sugeriu que o presidente queria sua própria fonte para as manobras e maquinações de Flynn dentro do corpo executivo principal da política nacional de segurança.

O Kremlin terá seu próprio modo para decifrar esses desenvolvimentos bizarros e caóticos dentro de uma nova administração que parece não saber conduzir e conceituar a política estrangeira. No passado, líderes soviéticos interpretaram os maiores eventos na história dos EUA de um ponto de vista das implicações com as relações Moscou e Estados Unidos. O assassinato de John F. Kennedy foi interpretado como um esforço para silenciar um presidente que falou em favor do desanuviamento com a União Soviética e que havia concluído o Tratado Teste de Banimento Parcial.

O impeachment de Richard Nixon foi visto como um esforço para trancar o progresso do controle de armas e desarmamento. O pensamento duro inicial da administração George H. W. Bush foi visto como uma tentativa de reverter os ganhos entre Mikhail Gorbachev e Ronald Reagan no final dos anos 1980.

Ironicamente, Gorbachev e o primeiro-ministro Eduard Shevardnadze tinham seus próprios problemas com o establishment soviético nos anos 80 quando trabalharam para aprimorar as relações com os EUA, incluindo a aceitação de várias medidas de controle de armas da Europa Central e várias areas do Terceiro Mundo. O “novo pensamento” de Gorbachev e Shevardnadze foi um desafio para o pensamento antigo dentro do Politburo, e líderes russos concluirão que o establishment yankee desafiou Donald Trump e Michael Flynn por seus interesses em reverter o declínio das relações Rússia-EUA. Flynn enganou o vice-presidente e a mídia tradicional, mas não é provável que suas conversas com o embaixador russo não tenham sido discutidas com o presidente Trump.

Podemos nunca saber se Trump e Flynn estavam realmente procurando uma grande barganha com a Rússia e Putin, mas certamente parece que o líder russo quer reverter a deterioração das relações bilaterais. Putin, presumivelmente, não está disposto a ir longe quanto Gorbachev e Shevardnadze em relação à acordos benéficos mútuos, mas ele certamente quer reverter a espiral. A ironia reinará de novo se for descoberto que a saída de Flynn levará a um declínio maior nas relações Rússia-EUA.

10 de fevereiro de 2017

Caos no Brasil: mais por vir?

As tensões sociais e econômicas do país estão dando lugar a erupções de violência.

Jon Lee Anderson

The New Yorker

As tensões sociais e econômicas do Brasil estão dando lugar a erupções de violência, como uma série de assassinatos no estado de Vitória, após uma greve policial. Foto: Diego Herculano/AP

Tradução / As coisas não estão bem no Brasil. As tensões sociais e econômicas do país estão crescendo e parecem cada vez mais propensas a despontar em violência. Nos últimos seis dias, por exemplo, houve um frenesi de roubos, saques, revoltas, assaltos e assassinatos em Vitória, uma área metropolitana com dois milhões e a capital do estado do Espírito Santo, ao norte do Rio de Janeiro. A razão para o caos é a ausência de forças policiais, depois de terem entrado em greve no estado no último sábado exigindo aumento de salário. O sindicato de policiais disse que seus membros não recebem aumento há quatro anos. Membros das famílias dos policiais se uniram à greve criando barricadas humanas em volta das delegacias.

Os efeitos foram imediatos: na terça, aconteceram 52 assassinatos, e na quinta-feira a contagem de corpos subiu para mais de 100. (Em janeiro, apenas quatro assassinatos foram registrados em Vitória). O governo federal enviou 1200 tropas do exército bem como a força-tarefa especial da polícia, mas ainda não controlaram o caos – e a polícia ainda não voltou ao trabalho. O país está no limite, e há tensões de que uma greve policial similar possa ocorrer no Rio, onde centenas de policiais protestaram contra o orçamento do governo na preparação para as Olimpíadas ano passado.

Mesmo com a polícia trabalhando, e no melhor dos tempos, a aplicação da lei é algo relativo no Brasil. O país possui desequilíbrios econômicos dramáticos e sofre com altas taxas de violência. Os policiais brasileiros são frequentemente corruptos e violentos. Em muitas partes do país, a polícia opera gangues paramilitares que conduzem execuções e lucram com o crime organizado. A taxa de homicídio no país, que é cerca de 25 a cada 100.000, está entre as mais altas do mundo. (Em contraste, a taxa dos EUA é 4 a cada 100.000).

Nos últimos dois anos, os problemas endêmicos do país se exacerbaram com a mais profunda depressão no país desde os anos 30, causada por uma queda acentuada no preço global das commodities. A situação culminou depois de um inquérito judicial revelar que oficiais do governo estavam envolvidos em um esquema massivo de corrupção envolvendo a companhia estatal de petróleo, Petrobras, bem como corporações privadas, incluindo a empreiteira gigante Odebrecht. O inquérito chamado Lava Jato, levou à prisão de muitos executivos. Incluindo Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara dos Deputados.

Enquanto isso, procedimentos de impeachment no parlamente brasileiro, levaram, no verão passado, à remoção da presidente Dilma Rousseff, à substituição do governo de centro-esquerda do PT para um de direita, e à instalação do presidente Michel Temer que também já foi acusado de corrupção.

Ao tomar posse, Temer e seus aliados moveram rapidamente para desfazer o legado de 13 anos do PT, de Roussef e de seu predecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, que controlou o país nos anos em que era um dos principais exportadores de petróleo e commodities no apogeu do boom de consumo da China. O Brasil se tornou uma nação dos BRICS e um jogador global, em casa, um programa popular, o Bolsa Família, tirou 40 milhões de brasileiros da extrema pobreza. A maioria desses ganhos agora está em risco, com o governo de Temer instituindo medidas de austeridade e um congelamento de 20 anos em gastos sociais.

Com seu berço social se desfazendo, o Brasil tem todos os ingredientes para mais explosões. Mês passado, gangues tomaram temporariamente diversas prisões e batalharam entre si, resultando em massacres nos quais ao menos 100 pessoas foram mortas. Algumas foram executadas com decapitações ao estilo Estado Islâmico, enquanto outros tiveram seus corações arrancados. Houve ao menos duas revoltas massivas nas quais mais de 90 detentos escaparam; em 25 de janeiro, a BBC reportou que cerca de 40 ainda estavam foragidos. Em uma reviravolta moderna nesses eventos que estão se tornando familiares, prisioneiros tiraram fotos e videos de si mesmos enquanto realizavam as atrocidades. Prisioneiros que escaparam também postaram videos de si mesmos como foragidos.

A postura dos criminosos brasileiros pode sugerir um nível perturbador de impunidade que, no final, é a linha final ligando todas as crises brasileiras. Quanto à situação do Espírito Santo, o líder do exército brasileiro, General Eduardo Dias da Costa Villas Bôas, disse na quinta-feira que iria reforçar as tropas com paraquedistas, veículos blindados, e aviões militares. “A missão será cumprida”, ele tuítou. Mesmo com sua segurança triunfal, há certamente mais rebeliões por vir.