7 de março de 1999

Como os EUA tomaram o poder no Brasil

Eleitores escolheram o Presidente Cardoso - mas, em vez disso, intrigas americanas lhes deram o Secretário do Tesouro Rubin

Greg Palast


Quando Robert Rubin, Secretário do Tesouro dos Estados Unidos, era bem jovem, sonhou que um dia seria Presidente do Brasil. Agora, seu sonho tornou-se realidade. Obviamente, para um norte-americano residente em Washington, Rubin assumiu o poder da única maneira que lhe seria possível: por meio de uma brilhante falcatrua.

O Presidente nominal do Brasil, Fernando Henrique Cardoso, foi reeleito em outubro de 98 por uma única razão: ele estabilizou, aparentemente, a moeda do seu país e, como conseqüência, estancou a inflação.

Na verdade, ele não fez isso. O real brasileiro foi absurdamente valorizado. Assim, à medida que se aproximavam as eleições a razão de troca, em relação ao dólar, desafiava, cada vez mais, a lei da gravidade. O milagre conduziu Cardoso à vitória, com 54% dos votos.

Todavia, não acontecem milagres na vida real. Quinze dias depois da posse de Cardoso, o real emborcou e morreu. Hoje ele vale quase a metade do seu valor no dia das eleições. A inflação está de volta e a economia implodiu. O apoio a Cardoso, que se revelou agora um fraudador incompetente caiu para 23% do eleitorado. Tarde demais. Ele é o Presidente.

Bem, mais ou menos! Não há muita coisa sobrando para a presidência de Cardoso, a não ser o título. Todas as decisões importantes, desde as de orçamento, até as relativas ao emprego, passaram a ser ditadas pelo FMI e agências associadas. Atrás deles, apertando o gatilho está o Secretário do Tesouro Rubin, que manobra como presidente "de fato" do Brasil, sem ter necessidade de faltar a um só "cocktail party" em Washington."

Este é o preço que Cardoso paga pelos serviços de Rubin durante a campanha eleitoral. Foi o Tesouro norte-americano que, junto com o FMI, manteve a moeda brasileira valorizada. Além de ajudar Cardoso, Rubin teve outro bom motivo para manter o sistema monetário brasileiro. Sabendo que a moeda iria se despedaçar após a eleição, o Tesouro norte-americano cercou-se de garantias de que os bancos americanos poderiam tirar o dinheiro deles do Brasil em condições favoráveis.

Entre Julho de 1998 e o início de Janeiro de 1999 as reservas brasileiras caíram de US$ 70 bilhões para US$ 26 bilhões, um sinal de que os banqueiros haviam pego o dinheiro deles e corrido para fora do Brasil.

Contudo, a moeda também ficou supervalorizada antes das eleições porque os norte-americanos disseram que substituiriam as reservas perdidas com um grande empréstimo do FMI.

E foi deixado claro para os eleitores que este empréstimo só seria dado para Cardoso e não para o Partido dos Trabalhadores, de oposição.

O patrocínio que a elite internacional deu para Cardoso foi selado pelo aparecimento no Rio de Janeiro, em Julho de 1998, de Peter Mandelson, cujo endosso de Cardoso marcou o ingresso oficial do Brasil no projeto da "terceira via" de Clinton-Blair e causou agito na imprensa brasileira.

Um mês após a reeleição de Cardoso, o FMI ofereceu créditos totalizando US$ 41 bilhões. Claro que o Brasil não receberá nada disso. Qualquer porção deste crédito que atualmente goteja em direção ao Brasil vai embora no primeiro avião, levados pelos investidores e especuladores que abandonam o país.

Os brasileiros pagarão integralmente esta dívida. Mas esta não é a preocupações dos brasileiros. Como parte da magia negra para manter a cotação do real frente ao dólar antes da eleição, Washington determinou ao Banco Central do Brasil que elevasse as taxas de juros, que agora chegam firme aos 39 por cento. O FMI queria 70 por cento. Nas ruas de São Paulo, isso se traduz em taxas de até 200 por cento em operações de empréstimos pessoais e empresariais.

A confirmação do esquema de Rubin de apoio a Cardoso e aos banqueiros norte-americanos vem de uma interessante fonte: Jeffrey Sachs da Universidade de Harvard. Sachs é bastante relembrado como a "Maria Tifóide" do neo-liberalismo (expressão figurada que indica "o grande disseminador do neo-liberalismo"), que espalhou teoremas de livre mercado e de depressão econômica através da antiga União Soviética. Sachs, que ainda está tagarelando em torno dos jogadores do grande jogo financeiro internacional disse-me:" Você podia ver a economia (brasileira) andando sobre um penhasco. O colapso ocorreu em câmera lenta. Mas antes de prevenir o colapso através de uma desvalorização controlada, Washington e o FMI vigorosamente encorajaram taxas de juros adicionais de 50 por cento."

"Washington queria Cardoso reeleito", disse ele, e os financiadores norte-americanos necessitavam seis meses para retirar seus capitais do Brasil em condições favoráveis.

Se o golpe financeiro de Rubin dá a impressão de ter sido bem sucedido, é porque ele usou o mesmo método que em 1994 o tornou presidente "de fato" do México. Mais uma vez, um partido governante suspeito foi levado ao poder através de uma (aparente) solidez monetária e promessas norte-americanas de auxílio.

Quatro semanas após a inauguração do Presidente Ernesto Zedillo, o peso entrou em colapso enquanto os banqueiros norte-americanos que financiavam o México eram "garantidos" de fora por um empréstimo especial dos Estados Unidos.

Cardoso sabe muito bem que as manipulações de Rubin são as culpadas pela falência brasileira. Mas, com a ajuda da imprensa direitista, ele (Cardoso) e o FMI atribuem a culpa pelo colapso econômico a vilões bem familiares dos leitores britânicos: empregados governamentais, aposentados e a união ("máquina" pública). Eles são acusados de estourar o orçamento do governo.

Isso é loucura. Pagamentos de juros, acentua Sachs, iguais a monstruosidade de 10 por cento dos gastos do país, são os únicos responsáveis por dobrar o déficit federal. Comparadas com isso, as aposentadorias dos trabalhadores governamentais, principal alvo dos cortes orçamentários, são uma gota dentro do oceano.

Mas a análise de Sachs é incompleta. Ele diz que o FMI "falhou", porque os grandes juros levaram à crise e depressão. Ele está errado. A crise é parte do plano.

Apenas sob o pânico econômico Rubin e o FMI poderiam soltar os Quatro Cavaleiros das Reformas: mate os gastos sociais, corte a folha de pagamento do governo, quebre a federação e, o grande prêmio, privatize empresas públicas lucrativas.

Mas Cardoso não é marionete feliz nas mãos de Rubin. Anteriormente sociólogo e especialista na teoria da dependência, ele deve estar triste pela perda da soberania financeira brasileira.

Ele sobreviveu às eleições, mas a oposição varreu o seu partido dos principais estados. Os novos governadores regionais não estão lamentando. Eles estão descobrindo os dentes dele.

Em Janeiro, o ex-presidente brasileiro Itamar Franco, eleito governador do estado de Minas Gerais, recusou-se a pagar os seus débitos com o Tesouro Federal. Seis outros governadores então disseram a Cardoso que qualquer pessoa sensível diria a qualquer vigarista que elevasse as taxas de juros dos empréstimos de 10 por cento para 60 por cento: vá para o inferno.

A imprensa trata Franco como um palhaço, alguém que tem inveja de Cardoso. O objetivo deles é desviar as atenções para bem longe da verdadeira ameaça a Cardoso e ao FMI, Olívio Dutra, o governador popular do estado do Rio Grande do Sul e a crescente estrela do Partido dos Trabalhadores. O filho de camponeses, este jovem, militante "suave" para a era da TV, transformou a capital do seu estado em um grande mostruário de desenvolvimento.

É Franco que eles atacam, mas é Dutra que eles temem. Cardoso está se esforçando ao máximo para punir os cidadãos do Rio Grande do Sul por elegerem Dutra, que não se recusou a efetuar os pagamentos ao governo federal, mas depositou, cerca de £ 27 milhões (27 milhões de libras esterlinas), em juízo.

Cardoso respondeu de forma depravada, bloqueando £37 milhões em impostos coletados para o estado de Dutra. O FMI bloqueou empréstimos ao Rio Grande.

Contatado por telefone em seu escritório em Porto Alegre, Dutra disse concordar que a crise requer sacrifícios. Ele demitiu trabalhadores governamentais. Mas ele teve a audácia de sugerir que a General Motors e a Ford deveriam juntar-se ao sacrifício e renunciarem às isenções fiscais (obtidas do governador anterior) e que agora sangram a tesouraria estadual.

O Brasil é uma nação rica. O seu Produto Interno Bruto (PIB), mesmo em depressão, é um terço de um trilhão de libras esterlinas. Mas como um animal que freneticamente corre em círculos, ele está perdendo a capacidade de reter o capital nacional, que é enviado para o exterior e acaba voltando na forma de empréstimos com taxas de juros usurpantes.

Este é o motivo pelo qual Dutra está especialmente agitado sobre o confisco, por privatização, do seu banco estadual de desenvolvimento, a locomotiva de autofinanciamento da expansão do Rio Grande.

O Governador, que não é bobo, não desperdiça disparos no humilhado Cardoso. Pela organização da resistência contra as exigências de Rubin e contra os termos dos empréstimos do FMI, Dutra, de forma perspicaz, não aponta para o marionete, mas para os manipuladores.

1 de março de 1999

O Mercado como Deus

Vivendo na nova dispensação

Harvey Cox


Tradução / Alguns anos atrás, um amigo aconselhou-me que se eu quisesse saber o que estava acontecendo no mundo real, eu deveria ler as páginas de negócios. Embora o meu interesse ao longo da vida tenha sido o estudo da religião, estou sempre disposto a expandir meus horizontes, por isso, segui o conselho, vagamente com medo de que eu teria que lidar com um novo e desconcertante vocabulário. Em vez disso, fiquei surpreso ao descobrir que a maioria dos conceitos que deparei foi bastante familiar.

Esperando uma terra incógnita, encontrei-me, em vez disso, na terra do déjà vu. O léxico do The Wall Street Journal e as seções de negócios da Time e Newsweek acabaram por ter uma semelhança impressionante com o Gênesis, a Epístola aos Romanos, e a Cidade de Deus de autoria de Santo Agostinho. Atrás de descrições de reformas pró mercado, a política monetária e as circunvoluções do Dow, eu gradualmente juntei as peças de uma grande narrativa sobre o significado mais profundo da história humana, porque as coisas tinham corrido mal e como colocá-las no rumo correto. Os teólogos chamam isso de Mitos de Origem, Lendas da Paixão, e Doutrinas do Pecado e da Redenção. Mas lá estavam todos eles, novamente, e apenas com leve disfarce: as crônicas sobre a criação de riqueza, as tentações sedutoras do estatismo, o cativeiro aos ciclos econômicos sem rosto e, por fim, a salvação através do advento de mercados livres, com uma pequena dose de cinto ascético apertado ao longo do caminho, especialmente para as economias do Leste Asiático.

Os problemas dos orientais-asiáticos, de acordo com os argumentos dos devotos, derivam de seu desvio herético de ortodoxia do livre mercado, eles eram praticantes de “capitalismo de compadrio”, “capitalismo étnico”, “capitalismo de Estado”, e não da única e verdadeira fé. Os pânicos financeiros do Leste Asiático, os repúdios da dívida russa, a crise econômica brasileira, e a pequena “correção” de US$ 1,5 trilhões no mercado de ações dos Estados Unidos, momentaneamente, balançou a crença na nova dispensação. Mas a fé é fortalecida pela adversidade, e o Deus-Mercado está ressurgindo de maneira renovada, superada sua provação pelo contágio financeiro. Desde que o argumento do design-inteligente já não comprova sua existência, ele está se tornando, rapidamente, uma divindade pós-moderna em que se acredita apesar da evidência contrária. Alan Greenspan foi vindicado por esta fé, temperada em depoimento perante o Congresso em outubro passado. Um fundo de hedge levado tinha acabado de perder bilhões de dólares, sacolejando a confiança dos mercados e precipitando os clamores por nova regulamentação federal. Greenspan, geralmente délfico em seus comentários, foi decisivo. Ele acreditava que a regulamentação só iria tolher esses mercados, e que eles deveriam continuar a ser auto-regulados. A verdadeira fé, diz São Paulo, é a evidência das coisas invisíveis.

Logo comecei a me maravilhar com o quão abrangente a teologia do negócio é. Havia até mesmo sacramentos para transmitir poder salvífico que oferece salvação para os perdidos, um calendário dos santos empreendedores, e o que os teólogos chamam de “escatologia“, um ensinamento sobre “o fim da história“. Minha curiosidade foi aguçada. Comecei a catalogar essas doutrinas estranhamente familiares, e vi que, na verdade, está embutida nas páginas de negócios uma teologia inteira, que é comparável em extensão, se não em profundidade, à de Tomás de Aquino ou Karl Barth. Ela só precisava ser sistematizada para toda uma nova Summa tomar forma.

No vértice de qualquer sistema teológico, naturalmente, está sua doutrina de Deus. Na nova teologia, este pináculo celestial está ocupado pelo Mercado, o que eu entendi significar tanto o mistério que o Mercado encobre, como a reverência que inspira à gente de negócios. Diferentes religiões têm, naturalmente, diferentes pontos de vista dos atributos divinos. No cristianismo, Deus tem sido por vezes definido como onipotente (possui todo o poder), onisciente (tem todo o conhecimento) e onipresente (existente em todos os lugares). Mas teologias cristãs, é verdade, protegem-no. Elas ensinam que essas qualidades de divindade estão realmente lá, mas estão escondidas aos olhos humanos tanto pelo pecado do homem quanto pela transcendência do divino em si. Em “luz inacessível”, elas estão, como diz o velho hino, “escondidas dos nossos olhos.” Da mesma forma, embora o Mercado, temos a certeza, possua esses atributos divinos, nem sempre são completamente evidentes aos mortais, mas devem ser confiáveis ​​e afirmados pela fé. “Mais adiante”, como diz outra velha canção gospel, “vamos entender o porquê.”

Como eu tentei seguir os argumentos e explicações dos economistas-teólogos que justificam os caminhos do Mercado para os homens, vi a mesma dialética pela qual tenho muito carinho já que por muitos anos eu a ponderei diante os Tomistas, os Calvinistas, e as várias escolas de pensamento religioso moderno. Em particular, a retórica dos devotos economistas se assemelha ao que é às vezes chamado de “teologia do processo”, uma tendência relativamente contemporânea influenciada pela filosofia de Alfred North Whitehead. Nesta escola, embora a vontade de Deus possua todos os atributos clássicos, ele ainda não os possui na íntegra, mas está, definitivamente, se movendo nessa direção. Esta conjectura é de grande ajuda para os teólogos, por razões óbvias. Ela responde ao incômodo enigma da teodiceia: por que muitas coisas ruins acontecem que um Deus onipotente, omnipresente e onisciente - especialmente um benevolente - não aceitaria. A teologia do processo também parece oferecer conforto considerável para os teólogos do Mercado. Isso ajuda a explicar o deslocamento, a dor e a desorientação que são os resultados das necessária transições da heterodoxia econômica para os mercados livres.

Desde os primeiros estágios da história humana, é claro, tem havido bazares, rialtos, e postos de negociação, enfim, todos os mercados. Então, o Mercado não era ainda Deus, porque havia outros centros de valor e significado, outros “deuses”. O Mercado operava dentro de uma infinidade de outras instituições que o restringia. Como Karl Polanyi demonstrou em sua obra clássica, A Grande Transformação, só nos últimos dois séculos, o Mercado se elevou acima desses semideuses e espíritos ctônicos para se tornar a Causa Primeira de hoje.

Inicialmente, a ascensão do mercado para a supremacia do Olimpo replicou a gradual elevação de Zeus acima de todas as outras divindades do panteão grego antigo, uma ascensão que nunca foi muito segura. Zeus, recorde-se, tinha que continuar atacando abaixo do Olimpo para acabar com esta ou aquela ameaça à sua soberania. Recentemente, no entanto, o Mercado está cada vez mais parecido com o Senhor do Antigo Testamento, e não é apenas uma divindade superior, concorrendo com os outros, mas a própria divindade suprema, o único Deus verdadeiro, cujo reinado deve agora ser universalmente aceito já que ele não tolera rivais.

Onipotência divina significa a capacidade de definir o que é real. É o poder de fazer algo a partir do nada e nada de alguma coisa. A vontade-mas-ainda-não-alcançada onipotência do Mercado significa que não há limite concebível a sua capacidade inexorável para converter qualquer criação em mercadoria. Mas, novamente, isto não é uma ideia nova, embora tenha ocorrido uma nova reviravolta. Na teologia católica, através do que é chamado de “transubstanciação“, pão comum e vinho tornam-se veículos santificados. Na missa do Mercado, um processo inverso ocorre. Coisas que foram realizadas de maneira sagrada transmutam em itens intercambiáveis ​​para venda. A terra é um bom exemplo. Durante milênios, ele possuiu vários significados, muitos deles numinoso, isto é, influenciado, inspirado pelas qualidades transcendentais da divindade. Foi a Mãe Terra ancestral lugar de descanso, monte santo, floresta encantada, pátria nativa, inspiração estética, relva sagrada, e muito mais. Mas, quando a Sanctus campainha do Mercado toca, e os elementos são consagrados, todos esses complexos significados da Terra se derretem em um só: ativo imobiliário. A um preço justo toda a Terra está à venda, e isso inclui tudo, desde cemitérios até a enseada de especial deleite. Esta dessacralização radical altera, drasticamente, o relacionamento humano com a terra, o mesmo acontece com a água, o ar, o espaço, e, brevemente (prevê-se), os corpos celestes.

No momento supremo da missa, o sacerdote diz: “Este é o meu corpo”, ou seja, o corpo de Cristo e, por extensão, os corpos de todos os fiéis. O cristianismo e o judaísmo ensinam que o corpo humano é feito “à imagem de Deus.” Agora, no entanto, em uma exibição deslumbrante de transubstanciação inversa, o corpo humano tornou-se o mais recente meio sagrado para ser convertido em uma commoditie. O processo iniciou-se, apropriadamente, com o banco de sangue. Mas agora, ou brevemente, todos os órgãos do corpo - rins, pele, medula óssea, esperma, o coração em si, serão milagrosamente transformados em itens compráveis.

Ainda assim, a liturgia do Mercado não está a decorrer sem alguma oposição por parte dos bancos. Uma batalha considerável está acontecendo nos Estados Unidos, por exemplo, sobre a tentativa de transformar genes humanos em mercadorias. Alguns anos atrás, unindo pela primeira vez, salvo memória, praticamente todas as instituições religiosas no país, o liberal Conselho Nacional de Igrejas dos Bispos Católicos para a Coalizão Cristã se opôs ao martírio genético, a mais nova teofania do Mercado. Esses críticos são seguidores do que estão agora sendo consideradas “religiões antigas”, que, como cultos do divino, foram prosperando desde quando a adoração do vigoroso jovem Apollo começou a varrer Grécia antiga. Não tem força suficiente para retardar a propagação da nova devoção ao Mercado...

Ocasionalmente, apóstatas tentam morder “a mão invisível” que os alimenta. Em 26 de outubro de 1996, o governo alemão publicou um anúncio oferecendo toda a aldeia de Liebenberg, no que costumava ser a Alemanha Oriental, para a venda, sem aviso prévio aos seus cerca de 350 habitantes. Cidadãos de Liebenberg, muitos deles, idosos ou desempregados, olharam para o aviso prévio com descrença. Certamente, tinham detestado o comunismo, mas quando se optou pela economia de mercado, que a reunificação alemã prometia, eles não esperavam isso. Liebenberg inclui uma igreja do século XIII, um castelo barroco, um lago, um pavilhão de caça, dois restaurantes, e 3.000 hectares de pasto e floresta. Uma vez que era um local favorito para caça ao javali, realizada pela velha nobreza alemã, era obviamente muito valioso para o negócio imobiliário ignorar. Além disso, tendo sido desapropriada pelo governo da Alemanha Oriental comunista, agora estava legalmente habilitada para a venda, nos termos da reunificação alemã. Da noite para o dia, Liebenberg tornou-se uma parábola viva, proporcionando uma visão de valor inestimável do “venha a nós o vosso Reino” em que é realmente feita a vontade do Mercado. Mas os burgueses indignados da cidade não se sentiam particularmente abençoados. Eles reclamaram em voz alta, e, finalmente, a venda foi adiada. Todos na cidade perceberam, porém, que não era realmente uma vitória definitiva. O Mercado, como o Senhor, pode perder uma batalha, mas em um processo de convencimento progressivo, vai sempre ganhar a guerra final.

É claro que a religião no passado não tem relutado em cobrar por seus serviços. Orações, missas, bênçãos, curas, batismos, funerais e amuletos foram vendidos, e ainda são. Nem a religião sempre foi sensível ao que o tráfego iria suportar. Quando, no início do século XVI, Johann Tetzel, tendo levantado o preço da indulgência, ainda teve um dos primeiros tinos comerciais de compor canções para impulsionar as vendas (“Quando a moeda não pinga no prato, a alma sofre no purgatório”...), ele não conseguiu perceber que estava exagerando. Os clientes desapareceram, e um jovem monge agostiniano exagerou, levando o tráfego a um impasse, quando teve a livre iniciativa de pregar um cartaz à porta de uma igreja com o número de vendas...

Seria muito mais difícil para um Lutero interromper a venda de amuletos pelo Mercado hoje. Como o povo de Liebenberg descobriu, tudo agora pode ser comprado. Lagos, prados, igrejas, edifícios, enfim, tudo tem um preço na etiqueta. Mas essa prática em si mesma exige certo sacrifício. Como tudo o que antes costumava ser classificado como criação humana se torna uma mercadoria, os próprios seres humanos começam a olhar um para o outro, e para si mesmo e, de maneira engraçada, veem apenas etiquetas de preço coloridas. Houve um tempo em que as pessoas falavam, pelo menos ocasionalmente, de “valor intrínseco”, senão das coisas, então, pelo menos, das pessoas. O princípio Liebenberg muda tudo isso. Alguns adorariam saber o que seria de um Lutero moderno que tentasse publicar suas teses, na porta da igreja, apenas para depois descobrir que todo o edifício religioso já havia sido comprado por um bilionário americano que imaginava poder ter uma imagem pública mais agradável transformando-o em sua propriedade.

É reconfortante notar que os cidadãos de Liebenberg, pelo menos, não foram colocados no bolo. Mas isso levanta uma boa pergunta. Qual é o valor de uma vida humana na teologia do Mercado? Aqui, a nova divindade faz uma pausa para reflexão, mas não por muito tempo. O cálculo pode ser complexo, mas não é impossível. Não devemos acreditar, por exemplo, que se uma criança nasce com deficiência grave, incapaz de ser “produtivo”, o Mercado vai decretar a sua morte. É preciso lembrar que os lucros derivados de medicamentos, aparelhos ortopédicos e equipamentos de ressonância magnética também devem ser configurados na equação. Tal análise de custo pode resultar em um triz - mas o valor inerente da vida da criança, uma vez que não pode ser quantificado, seria difícil de incluir no cálculo.

Costuma-se dizer que, desde que tudo está à venda sob o domínio do Mercado, nada é sagrado. Mas isso não é bem verdade. Cerca de três anos atrás, uma polêmica desagradável irrompeu na Grã-Bretanha quando um fundo de pensão de ferroviários, que possuía o pequeno caixão repleto de joias em que os restos mortais de São Thomas Becket diziam ter descansado, decidiu leiloá-lo através da Sotheby. O caixão data do século XII e é reverenciado tanto como uma relíquia sagrada quanto como um tesouro nacional. O Museu Britânico fez um esforço para comprá-lo, mas não tinha os recursos, de modo que o caixão foi vendida para um canadense. Apenas medidas de última hora, tomadas pelo governo britânico, impediram a remoção do caixão do Reino Unido. Em princípio, no entanto, na teologia do Mercado, não há nenhuma razão para que qualquer relíquia, caixão, corpo ou monumento nacional, incluindo a Estátua da Liberdade e Westminster Abbey, não devam ser listados. Alguém duvida de que, se a Verdadeira Cruz fosse realmente descoberta, acabaria por encontrar o seu caminho para Sotheby? O Mercado não é onipotente, ainda. Mas o processo está em curso e ganha cada vez mais força.

Onisciência é um pouco mais difícil de medir do que onipotência. Talvez o Mercado já tenha conseguido isso, mas é incapaz, temporariamente, de aplicar sua gnose em seu Reino e Poder, alcançando sua plenitude. No entanto, o pensamento atual já atribui ao Mercado uma sabedoria abrangente que, no passado, só os deuses detinham. O Mercado, somos ensinados, é capaz de determinar o que são as necessidades humanas, quanto o cobre e o capital devem custar, por que quantia barbeiros e CEOs devem ser remunerados, e quantos aviões a jato, tênis e histerectomias devem ser vendidos. Mas como podemos saber a vontade divina do Mercado?

Nos dias de outrora, videntes entravam em um estado de transe e, em seguida, informavam a candidatos ansiosos que tipo de humor que os deuses estavam, e se este era um momento auspicioso para começar uma viagem, casar ou iniciar uma guerra. Os profetas de Israel se isolavam no deserto e, em seguida, voltavam para anunciar se o Senhor estava se sentindo benevolente ou irado. Hoje, a vontade inconstante do Mercado é esclarecida através de relatórios diários a partir de Wall Street e outros órgãos sensoriais das finanças. Assim, podemos aprender, no dia-a-dia, que o Mercado está “apreensivo”, “aliviado”, “nervoso”, ou mesmo, por vezes, “alegre”. Com base nessa revelação, adeptos assombrados tomam decisões críticas sobre a possibilidade de comprar ou vender. Como um dos deuses devoradores de outrora, o Mercado, apropriadamente incorporado em um touro ou um urso, devem ser alimentados e mantidos felizes em todas as circunstâncias. É verdade, às vezes, que o seu apetite pode parecer excessivo, uma perda de 35 bilhões de dólares aqui, outros US$ 50 bilhões ali, mas a alternativa de não saciar a sua fome é terrível demais para ser contemplada.

Os adivinhos e os videntes dos humores do Mercado são os altos sacerdotes conhecedores de seus mistérios. Agir contra suas advertências é arriscar-se à excomunhão e, possivelmente, à danação. Hoje, por exemplo, se a política de qualquer governo atormentar o Mercado, os responsáveis ​​pela irreverência estarão condenados a sofrer. Quer o mercado não esteja de todo descontente com a redução de empregos ou a desigualdade de renda crescente, quer possa estar alegre a respeito da expansão da venda de cigarros para os jovens asiáticos, nada deve levar a qualquer um questionar sua onisciência final. Como a divindade inescrutável de Calvino, o Mercado pode funcionar de maneira misteriosa, “insondável aos nossos olhos”, mas, em última análise, ele sabe o que é o melhor para todos nós.

Onisciência, por vezes, pode parecer um pouco intrusiva. O tradicional Deus do Livro de Oração Comum Episcopal é invocado como um “a quem todos os corações estão abertos, todos os desejos são conhecidos, e de quem não se tem nenhum segredo escondido”. Assim como ele, o Mercado já sabe os segredos mais profundos e os mais obscuros desejos de nosso coração, ou pelo menos gostaria de conhecê-los. Mas suspeita-se que a motivação divina difere nestes dois casos. É evidente que o Mercado quer este tipo de onisciência de raio-X, porque sondando os nossos medos e desejos mais profundos e, em seguida, dispensando todas as soluções “fora-da-caixa”, pode ampliar ainda mais seu alcance. Como os deuses do passado, cujos sacerdotes ofereciam as fervorosas orações e súplicas do povo, O Mercado confia em seus próprios intermediários: gurus motivacionais. Treinados na arte avançada da Psicologia, que desde há muito tempo substituiu a teologia como a verdadeira “ciência da alma”, os herdeiros modernos dos confessores medievais aprofundam as fantasias ocultas, inseguranças e esperanças do povo.

Por vezes se pergunta, nesta era da dominação religiosa do Mercado, onde os céticos e os livres pensadores estarão? O que aconteceu com os Voltaires, que por vezes expuseram falsos milagres, e os H.L. Menckens, que explodem vaias estridentes sob a impiedosa inclemência? Esse desaparecimento é o resultado do estrangulamento, praticado pela ortodoxia corrente, daqueles que questionam a onisciência do Mercado ao questionar a sabedoria inescrutável da providência. O princípio metafísico é óbvio: “Se o que você diz é a coisa real, então deve ser a coisa real”. Como o velho teólogo cristão Tertuliano uma vez comentou: “Credo quia absurdum est” (“Creio porque é absurdo”).

Finalmente, há a vontade da divindade ser onipresente. Praticamente todas as religiões ensinam essa ideia de uma forma ou de outra, e a nova religião não é exceção. A última tendência na teoria econômica é a tentativa de aplicar cálculos do Mercado para áreas que antes pareciam estar isentas, tais como o namoro, a vida familiar, as relações conjugais, e a criação dos filhos. Henri Lepage, um defensor entusiasta da globalização, agora fala sobre um “mercado total”. São Paulo lembrou aos atenienses que seus próprios poetas cantavam a respeito de um Deus “em quem vivemos, nos movemos e temos nosso ser”, por isso, agora, o Mercado não está apenas em torno de nós, mas dentro de nós, informando-nos de nossos sentidos e sentimentos. Não parece haver nenhum lugar para refugiar de sua busca incansável. Como o Cão do Céu, ele nos persegue da casa ao shopping, na sala e no quarto.

Costumava-se pensar – equivocadamente, como se constata – que pelo menos o mais íntimo, ou a dimensão da vida espiritual, era resistente ao Mercado. Parecia ser improvável que o interior de nosso castelo jamais fosse rompido até o século 21. Mas à medida que os mercados de bens materiais se tornam cada vez mais saturados, tais estados ​​de graças como a serenidade e a tranquilidade, anteriormente não comercializáveis, estão aparecendo agora nos Catálogos de Venda. A visão pessoal de sua sagrada missão pode ocorrer em regiões selvagens antes intocadas, que eram retratadas como praticamente inacessíveis, exceto, possivelmente, por outras pessoas que leem o mesmo catálogo. Além disso, o êxtase e a espiritualidade são agora oferecidos numa forma genérica conveniente. Assim, o Mercado disponibiliza os benefícios religiosos que antes exigiam a oração e o jejum, sem o constrangimento de compromisso demonizado ou a disciplina ascética tediosa que uma vez limitou a sua acessibilidade. Todos podem agora ser comprados sem uma demanda irreal de seu tempo, em uma oficina de fim de semana em um resort do Caribe com um consultor psicológico sensível que substitui o mestre de retiro excêntrico.

Descobrindo a teologia do Mercado, ela me fez começar a pensar de uma maneira diferente sobre o conflito entre as religiões. Violência entre católicos e protestantes no Ulster ou hindus e muçulmanos na Índia, muitas vezes, domina as manchetes. Mas eu vim a me perguntar se o verdadeiro choque de religiões (ou mesmo de civilizações) pode se passar despercebido. Estou começando a pensar que, para todas as religiões do mundo, podendo variar um ou outro caso, a religião do Mercado tornou-se a rival mais formidável, ainda mais porque raramente é reconhecida como uma religião. As religiões tradicionais e a religião do Mercado global, como vimos, apresentam radicalmente diferentes visões da natureza. No cristianismo e no judaísmo, por exemplo, “do Senhor é a terra e a sua plenitude, o mundo e aqueles que nele habitam.” O Criador nomeia os seres humanos como mordomos e jardineiros, mas, por assim dizer, detém a titularidade da terra. Outras religiões têm ideias semelhantes. Na religião do Mercado, no entanto, os seres humanos, mais particularmente aqueles detentores de dinheiro próprio, coisa que eles adquirem dentro de certos limites, podem dispor de qualquer coisa como quiserem. Outras contradições podem ser vistas nas ideias sobre o corpo humano, a natureza da comunidade humana, e a finalidade da vida. As religiões mais antigas incentivam testamentos arcaicos em lugares específicos. Mas aos olhos do Mercado todos os lugares são intercambiáveis. O Mercado prefere uma cultura mundial homogeneizada, possivelmente, com bem poucas inconvenientes particularidades nacionais.

Divergências entre as religiões tradicionais se tornam irrelevantes em comparação com as diferenças fundamentais que todas elas têm com a religião do Mercado. Será que isto vai levar a uma nova jihad ou cruzada? Duvido. Parece pouco provável que as religiões tradicionais vão escalar para a ocasião de desafiar as doutrinas da nova dispensação. A maioria delas parecem contentes de se tornar seus acólitos ou para ser absorvidas em seu panteão, bem como os antigos deuses nórdicos, depois de abandonarem os jogos de luta, finalmente se colocaram em acordo, embora com um status diminuído, mas seguro, com os santos cristãos. Normalmente, sou um grande apoiador do ecumenismo. Mas as contradições entre as visões de mundo das religiões tradicionais, por um lado, e da visão de mundo da religião do Mercado, por outro, são tão básicas que nenhum compromisso parece possível, e eu estou esperando, secretamente, por um renascimento da polêmica.

Nenhuma religião, nova ou antiga, está sujeita à prova empírica, então o que temos é uma disputa entre crenças. Muito está em jogo. O Mercado, por exemplo, prefere fortemente o individualismo e a mobilidade. Desde que precisa mudar as pessoas para onde a produção exige que elas estejam, torna-se furioso quando as pessoas se apegam às tradições locais. Estas pertencem às dispensações mais antigas e – como os altos lugares de Baalim –, devem ser lavradas. Mas talvez não. Como as religiões anteriores, o novo tem formas engenhosas de incorporar as pré-existentes. Templos hindus, festivais budistas e santuários dos santos católicos podem esperar novas encarnações. Junto com trajes nativos e comida picante, eles terão permissão para dar cor local e autenticidade no que de outro modo poderia vir a ser uma Terra Beulah extremamente branda.

Há, entretanto, uma contradição entre a religião do mercado e as religiões tradicionais que parece ser intransponível. Todas as religiões tradicionais ensinam que os seres humanos são criaturas finitas e que há limites para qualquer empreendimento terreno. Um mestre zen japonês disse uma vez aos seus discípulos quando estava morrendo: "Aprendi apenas uma coisa na vida: quanto é o suficiente". Ele não encontraria nenhum nicho na capela do Mercado, para quem o Primeiro Mandamento é "Nunca há o suficiente". Como o provérbio do tubarão que para de se mover, o Mercado que impede a expansão, simplesmente, morre. Isso poderá acontecer. Se isso acontecer, então, Nietzsche terá afinal acertado. Ele só tinha o Deus errado em sua mente.