1 de maio de 2000

A nova vulgata planetária

Pierre Bourdieu e Löic Wacquant

Le Monde Diplomatique

Em todos os países avançados, patrões, altos funcionários internacionais, intelectuais de projeção na mídia e jornalistas de primeiro escalão, se puseram de acordo em falar uma estranha "novlangue [1]" cujo vocabulário, aparentemente sem origem, está em todas as bocas: "globalização", "flexibilidade"; "governabilidade" e "empregabilidade"; "underclass"e "exclusão"; "nova economia" e "tolerância zero"; "comunitarismo [2]", "multiculturalismo" e seus primos "pós-modernos", "etnicidade", "minoridade", "identidade", "fragmentação" etc.

A difusão dessa nova vulgata planetária — da qual estão notavelmente ausentes capitalismo, classe, exploração, dominação, desigualdade, e tantos vocábulos decisivamente revogados sob o pretexto de obsolescência ou de presumida impertinência — é produto de um imperialismo apropriadamente simbólico: seus efeitos são tão mais poderosos e perniciosos porque ele é veiculado não apenas pelos partidários da revolução neoliberal — que, sob a capa da "modernização", entende reconstruir o mundo fazendo tábula rasa das conquistas sociais e econômicas resultantes de cem anos de lutas sociais, descritas, a partir dos novos tempos, como arcaísmos e obstáculos à nova ordem nascente, — porém também por produtores culturais (pesquisadores, escritores, artistas) e militantes de esquerda que, em sua maioria, ainda se consideram progressistas.

Imperialismo cultural

Como as dominações de gênero e etnia, o imperialismo cultural é uma violência simbólica que se apóia numa relação de comunicação coercitiva para extorquir a submissão e cuja particularidade consiste, nesse caso, no fato de universalizar particularismos vinculados a uma experiência histórica singular, ao fazer com que sejam desconhecidos, enquanto tal, e reconhecidos como universais. [3]

Assim, também no século XIX muitas questões ditas filosóficas que eram debatidas em toda a Europa, como o tema spengleriano da "decadência", originavam-se de particularidades e conflitos históricos próprios do universo específico dos universitários alemães, [4] da mesma forma que hoje, inúmeros tópicos provenientes de confrontos intelectuais ligados a particularidades e particularismos da sociedade e das universidades norte-americanas se impuseram, aparentemente fora de um contexto histórico, ao conjunto do planeta.

Definições e deduções

Esses lugares-comuns, no sentido aristotélico de noções ou teses que servem de argumento porém sobre as quais não se argumenta, devem o essencial de sua força de convicção ao prestígio do seu ponto de partida e ao fato de que, ao circularem continuamente de Berlim a Buenos Aires e de Londres a Lisboa, estão presentes simultaneamente em toda parte e são potentemente transmitidos por essas instâncias supostamente neutras do pensamento neutro que são os grandes organismos internacionais. Instâncias como o Banco Mundial, a Comissão Européia, a Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Econômicos (OCDE), enfim, os "bancos de idéias" do pensamento conservador (o Manhattan Institute, em Nova York, o Adam Smith Institute,em Londres, a ex-Fondation Saint-Simon, em Paris, a Deutsche Bank Fundation, em Frankfurt), as fundações de filantropia, as escolas do poder (Science-Politique, na França, a London School of Economics, na Inglaterra, a Harvard Kennedy School of Government, nos Estados Unidos etc) e os grandes meios de comunicação, divulgadores infatigáveis dessa língua geral, sem fronteiras, perfeita para dar a ilusão de ultra-modernismo aos editorialistas apressados e especialistas ciosos da importação-exportação cultural.

Além do efeito automático da circulação internacional de idéias que, por sua própria lógica, tende a ocultar as condições e os significados originais, [5] o jogo das definições prévias e deduções escolásticas substitui a contingência das necessidades sociológicas negadas pela aparência da necessidade lógica e tende a ocultar as raízes históricas de todo um conjunto de questões e de noções: a "eficácia" do mercado (livre), a necessidade de reconhecimento das "identidades" (culturais), ou ainda a reafirmação-celebração da "responsabilidade" (individual), que serão decretadas filosóficas, sociológicas, econômicas ou políticas, segundo o lugar e o momento de recepção.

A mitologia do "sonho americano"

Planetarizados, globalizados, no sentido estritamente geográfico, e ao mesmo tempo desparticularizados, esses lugares-comuns, ao serem ruminados pelos meios de comunicação transformam-se num senso comum universal, fazendo esquecer que, na maioria das vezes, eles apenas exprimem — de forma truncada e irreconhecível, até por aqueles que os propagam — realidades complexas e contestadas de uma sociedade histórica particular, tacitamente constituída em modelo e em medida de todas as coisas: a sociedade norte-americana da era pós-fordista e pós- keynesiana. Esse único super-poder, essa Meca simbólica da Terra, caracteriza-se pelo desmantelamento deliberado do Estado social e pelo hipercrescimento correlativo do Estado penal, o esmagamento do movimento sindical e a ditadura da concepção de empresa fundada apenas no "valor-acionário", assim como em suas conseqüências sociológicas: a generalização dos salários precários e da insegurança social, transformada em motor privilegiado da atividade econômica.

É o que ocorre, por exemplo, com o debate vago e fraco em torno do "multiculturalismo", termo importado, na Europa, para designar o pluralismo cultural na esfera cívica, enquanto nos Estados Unidos se refere, no interior do próprio movimento pelo qual ele os mascara, à exclusão contínua dos negros e à mitologia nacional do "sonho americano" da "oportunidade para todos", correlativa da falência que afeta o sistema do ensino público num momento em que a competição pelo capital cultural se intensifica e quando as desigualdades de classe crescem vertiginosamente.

O desengajamento do Estado

O adjetivo "multicultural" encobre essa crise ao confiná-la, artificialmente, apenas no microcosmo universitário e ao expressá-la num registro ostensivamente "étnico", quando seu verdadeiro desafio não é o reconhecimento das culturas marginalizadas pelos cânones acadêmicos, mas o acesso aos instrumentos de (re)produção das classes médias e superiores, como a universidade, num contexto de desengajamento ativo e massivo do Estado.

O "multiculturalismo" americano não é nem um conceito nem uma teoria, nem um movimento social ou político — ainda que pretenda ser tudo isso ao mesmo tempo. É um discurso-tela cujo estatuto intelectual resulta de um gigantesco efeito de allodoxia nacional e internacional [6] que engana tanto aqueles que estão nele como os que não estão. Além do que é um discurso norte-americano, embora pense e se apresente como universal, ao exprimir as contradições específicas da situação de universitários que, alijados de qualquer acesso à esfera pública e submetidos a uma forte diferenciação em seu meio profissional, não têm outro terreno onde investir sua libido política exceto o das disputas de campus disfarçadas em epopéias conceituais.

As delícias do "reconhecimento cultural"

O que significa que o "multiculturalismo" leva consigo para onde é exportado três vícios do pensamento nacional norte-americano que são, (a) o "grupismo", que reifica as divisões sociais, canonizadas pela burocracia estatal, em princípios de conhecimento e de reivindicação política; (b) o populismo, que toma o lugar da análise das estruturas e dos mecanismos de dominação pela celebração da cultura dos dominados e de seu "ponto de vista" — alçado a nível de proto-teoria em ato; (c) o moralismo, que é obstáculo à aplicação de um materialismo racional sadio na análise do mundo social e econômico e nos condena a um debate sem efeito nem fim sobre o necessário "reconhecimento das identidades" enquanto, na triste realidade do cotidiano, o problema não se situa de forma alguma nesse nível. [7] Enquanto os filósofos se deliciam doutamente com o "reconhecimento cultural", dezenas de milhares de crianças de classes e etnias dominadas são excluídas das escolas primárias por falta de vagas (eram 25.000 só este ano, na cidade de Los Angeles), e um jovem em dez provenientes de famílias que ganham menos de 15.000 dólares anuais tem acesso aos campi universitários, contra 94% das crianças de famílias que dispõem de mais de 100 000 dólares.

Poder-se-ia fazer a mesma demonstração a propósito da noção fortemente polissêmica de "globalização", que tem como efeito, se não como função, vestir de ecumenismo cultural ou de fatalismo economista os efeitos do imperialismo norte-americano e de fazer aparecer uma relação de força transnacional como uma necessidade natural. Ao término de um retorno simbólico baseado na naturalização dos esquemas do pensamento neoliberal cuja dominação se impõe há vinte anos graças ao trabalho dos think tanks (bancos de idéias) conservadores e de seus aliados nos campos político e jornalístico, [8] a remodelagem das relações sociais e das práticas culturais conforme o padrão norte-americano, imposta às sociedades avançadas através da pauperização do Estado, mercantilização dos bens públicos e generalização da insegurança salarial, é aceita com resignação como resultado obrigatório das evoluções nacionais, quando não é celebrada com entusiasmo de carneirinhos. A análise empírica da evolução das economias avançadas de longa duração sugere no entanto que a "globalização" não é uma nova fase do capitalismo, mas uma "retórica" invocada pelos governos para justificar sua submissão voluntária aos mercados financeiros. A desindustrialização, o crescimento das desigualdades e a contradição das políticas sociais, longe de serem a conseqüência fatal do crescimento das trocas externas, como sempre se diz, resultam de decisões de política interna que refletem a mudança das relações de classe em favor dos proprietários do capital. [9]

A reformatação do mundo

Ao imporem ao resto do mundo categorias de percepção homólogas às suas estruturas sociais, os Estados Unidos reformatam o mundo à sua imagem: a colonização mental operada através da difusão desses verdadeiros-falsos conceitos só pode conduzir a uma espécie de "Consenso de Washington" generalizado, e até espontâneo, como se pode observar correntemente em matéria de economia, de filantropia ou de ensino de gestão (leia o artigo de Ibrahim Warde nesta edição). Efetivamente, esse discurso duplo fundamentado na crença que imita a ciência, sobrepondo ao fantasma social do dominante a aparência da razão (especialmente econômica e politológica), é dotado do poder de realizar realidades que pretende descrever segundo o princípio da profecia auto-realizadora: presente nos espíritos daqueles que tomam decisões políticas ou econômicas e de seus públicos, ele serve de instrumento de construção de políticas públicas e privadas, ao mesmo tempo que é instrumento de avaliação dessas políticas. Como todas as mitologias da idade da ciência, a nova vulgata planetária apóia-se numa série de oposições e equivalências, que se sustentam e contrapõem, para descrever as transformações contemporâneas das sociedades avançadas: desengajamento econômico do Estado e ênfase em seus componentes policiais e penais, desregulação dos fluxos financeiros e desorganização do mercado de trabalho, redução das proteções sociais e celebração moralizadora da "responsabilidade individual".

O imperialismo da razão neoliberal encontra sua realização intelectual em duas novas figuras exemplares da produção cultural. Primeiramente o especialista que prepara, na sombra dos bastidores ministeriais ou patronais ou no segredo dos think tanks (bancos de idéias), documentos de forte cunho técnico, e tanto quanto possível construídos em linguagem econômica e matemática. Em seguida, o conselheiro em comunicação do príncipe, trânsfuga do mundo universitário agora a serviço dos dominantes, cujo serviço é dar forma acadêmica aos projetos políticos da nova nobreza de Estado e da empresa. O modelo planetário e inconteste é o sociólogo britânico Anthony Giddens, professor da Universidade de Cambridge, agora à testa da London School of Economics e pai da "teoria da estruturação", síntese escolástica de diversas tradições sociológicas e filosóficas.

Um cavalo de Tróia de duas cabeças

E pode-se perceber a encarnação por excelência do estratagema da razão imperialista no fato de que é a Grã-Bretanha, posta por razões históricas, culturais e lingüísticas em posição intermediária, neutra, entre os Estados Unidos e a Europa continental, que fornece ao mundo esse cavalo de Tróia de duas cabeças — uma política e a outra intelectual — na pessoa dual de Anthony Blair e Anthony Giddens, "teórico" autoproclamado da "terceira via", que, segundo suas próprias palavras, que são citadas textualmente, "adoto uma atitude positiva em relação à globalização"; "tento [sic] reagir às novas formas de desigualdades"; porém logo adverte que "os pobres de hoje não são semelhantes aos de outrora, (...) assim como os ricos não se parecem mais com o que eram antigamente"; "aceito a idéia de que os sistemas de proteção social existentes, e a estrutura do conjunto do Estado, são a fonte dos problemas, e não apenas a solução para resolvê-los"; "enfatizo o fato que as políticas econômicas e sociais estão relacionadas" para afirmar melhor que "as despesas sociais devem ser avaliadas em termos de suas conseqüências para a economia em seu conjunto"; e, finalmente, "preocupo-me com os mecanismos de exclusão" que descobre "na base da sociedade, mas também no topo [sic]", convencido que "redefinir a desigualdade em relação à exclusão nesses dois níveis" é "conforme a uma concepção dinâmica da desigualdade". [10] Os mestres da economia podem dormir tranqüilos: eles encontraram seu Pangloss.

Notas:

[1] Este termo não existe em português. Os franceses utilizam novlangue para os termos que desconsideram o vocalulário corrente e produzem termos que tornam hermética a compreensão do fenômeno relatado. Isso se dá na esfera política e filosófica.
[2] Comunitarismo é um conceito teorizado por Charles Taylor, Michael Walzer, Alasdair McIntyre. Valoriza a comunidade como um bem em si, assim como a igualdade e a liberdade, sendo o espaço no qual os indivíduos podem se exprimir, partilhar valores. Seus críticos vêem nesse conceito a teorização dos guetos.
[3] É bom deixar claro de saída não detêm o monopólio na pretensão ao universal. Vários outros países — a França, a Grã-Bretanha, a Alemanha, a Espanha, o Japão, a Rússia — exerceram, ou tentam ainda exercer, em seus círculos de influência, formas de imperialismo cultural bastante semelhantes. A grande diferença é que, pela primeira vez na história, um único país encontra-se em posição de impor o seu ponto de vista ao mundo inteiro.
[4] Cf. Fritz Ringer, The Decline of the Mandarins, ed. Cambridge University Press, Cambridge, 1969.
[5] Ler, de Pierre Bourdieu, "Les conditions sociales de la circulation internationale des idées", Romanistische Zeitschrift für Literaturgeschichte, 14 -1/2, Heidelberg, 1990, p. 1-10.
[6] Allodoxia: o fato de tomar uma coisa por outra.
[7] Assim como a globalização das trocas materiais e simbólicas, a diversidade das culturas não data do século atual, já que ela é co-extensiva à história da humanidade, como já haviam observado Émile Dürkheim e Marcel Mauss em sua "Note sur la notion de civilisation" (Année sociologique nº 12, 1913, p. 46-50, III vol., Éditions de Minuit, Paris, 1968).
[8] Ler, de Keith Dixon, Les Évangelistes du marché, Raisons d’agir Éditions, Paris, 1998.
[9] Com relação à "globalização" como "projeto norte-americano" visando a impor o conceito de "valor-acionário" da empresa, ler, de Neil Fligstein, "Rhétorique et realités de la "mondialisation", Actes de la recherche en sciences sociales, Paris, nº 119, setembro de 1997, p. 36-47.
[10] Estes trechos foram retirados do catálogo de definições escolares de suas teorias e opiniões políticas que Anthony Giddens propôs ao programa "FAQs (Frequently Asked Questions)", em seu site na Internet.