1 de dezembro de 2001

Às voltas com o passado soviético

Moshe Lewin


Dois equívocos, que devem ser dissipados de saída, obscurecem constantemente qualquer reflexão sobre a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). O primeiro consiste em entender o anticomunismo como uma análise da URSS, e o segundo, em "stalinizar" a totalidade do fenômeno, que não teria passado de um "gulag" do princípio ao fim.

O anticomunismo não resulta da pesquisa: é uma ideologia que se tenta fazer passar por cientificidade. Não somente passa longe das realidades, mas, brandindo permanentemente a bandeira da democracia, consiste, de fato, em utilizar o regime ditatorial do inimigo para incentivar causas conservadoras. Nos Estados Unidos, por exemplo, o macartismo apoiava-se no espantalho comunista. As manobras de alguns intelectuais alemães - expondo as atrocidades praticadas por Stalin para justificar Hitler - obedeciam à mesma iniciativa. E o fato de o Ocidente, ao defender os direitos humanos, ter sido tão indulgente para com alguns e tão severo para com outros, não contribui para uma justa compreensão do mundo soviético.

Mas, afinal, onde colocar o sistema soviético no grande álbum da história? A questão é ainda mais complicada porque esse sistema existiu - à exceção da guerra civil, onde não representava senão uma das forças militares - em duas ou três versões.

A história da Rússia é um laboratório notável, que permite estudar uma variedade de sistemas autoritários, com suas crises, até os nossos dias. O que foi o sistema soviético após a morte de Stalin, em 1953? Foi socialismo? Definitivamente, não! Para que fosse socialismo, os bens econômicos deveriam ter sido propriedade do socium, e não de uma burocracia. Além do que o socialismo sempre foi concebido como um aprofundamento da democracia política, e não como sua negação. O socialismo pressupõe a socialização da economia e a democratização do regime político, enquanto a URSS só conheceu a estatização da economia e uma burocratização da política.

O fato de o debate sobre o fenômeno soviético ter sido, durante muito tempo (e, às vezes, ainda nos dias de hoje), conduzido nesses termos, sugere as seguintes perguntas: se alguém, na presença de um hipopótamo, declarar tratar-se de uma girafa, merece que lhe seja confiado um curso de zoologia? As ciências sociais seriam menos exigentes que a zoologia?

Toda essa confusão decorre do fato de que a URSS não era capitalista, já que a propriedade dos bens econômicos da nação era do Estado e da alta burocracia. Isso levou a que o sistema soviético fosse classificado na mesma categoria desses regimes tradicionais em que a posse de um vasto patrimônio territorial representava poder sobre o Estado. Dessa forma foi construída a Moscóvia autocrática. Também ela dispunha de uma burocracia influente, mas era o soberano que detinha o poder absoluto. No caso soviético, a burocracia conseguira um poder incontestado, que não compartilhava com ninguém. Esse "absolutismo burocrático", parente dos antigos "despotismos agrários", era muito mais moderno do que o do czar, ou o de Stalin, embora pertencendo à mesma espécie.

Apesar de recrutar seu pessoal nas classes subalternas, o Estado burocrático soviético foi o herdeiro direto de muitas das instituições do czarismo: situava-se, portanto, numa linha de continuidade da tradição czarista de construção do Estado. O próprio Lênin lamentava que algumas repartições do governo czarista tivessem subsistido, inteiras, sob o novo regime. Na realidade, o novo regime tinha que aprender tudo em todas as áreas e, por isso, foi obrigado a usar a experiência dos serviços administrativos, que continuaram a gerir segundo seus velhos métodos. Fora criado um novo Estado, mas seus funcionários continuavam sendo os do antigo regime, e Lênin perguntava-se como os faria trabalhar melhor.

Além do que, toda vez que um novo serviço era criado, uma comissão especial era nomeada para fiscalizar sua organização. Normalmente, perguntava-se a um historiador do governo, ou a um funcionário experiente, que fosse estudado o funcionamento de um serviço semelhante sob o regime czarista. No caso de inexistir um precedente czarista, eram consultados os modelos ocidentais.

Stalin iria ainda mais longe, adotando, quase oficialmente, o modelo de Estado monarquista. A manutenção dessa tradição definia, por si, a própria essência do sistema: o absolutismo de uma hierarquia burocrática. A própria função, aparentemente "nova", do secretário-geral, conservava vários traços da do czar. De maneira semelhante, as imponentes cerimônias dos regimes czarista e soviético eram reveladoras de uma cultura comum, privilegiando os ícones e a ostentação de uma imagem de força e de invencibilidade (para melhor exorcizar sua fragilidade interna).

Para designar o Estado forte, construído a partir do final da década de 20, o termo preferido nas últimas décadas do sistema seria o de "grande potência" (dzerjava), tomado do vocabulário czarista e muito utilizado pelos meios conservadores. Enquanto no tempo de Lênin dzerjavnik era um termo pejorativo, usado para designar os adeptos de um nacionalismo brutal, a palavra, a palavra passara a seduzir pela sua correlação com a própria essência do poder do czar, samodzerjets, o autocrata. É verdade que a foice e o martelo haviam substituído o globo de ouro e a cruz, mas isso não passava da relíquia de um passado revolucionário.

A propriedade estatal de todas as terras, confiada a um soberano absoluto, fora a característica de vários dos antigos regimes da Europa central e oriental. Na URSS, em nome do socialismo, ela abrangera toda a economia e vários outros setores. Apesar de uma aparência mais moderna, era o velho modelo de propriedade de todas as terras (principal recurso econômico, antigamente) que era preservado, e até reforçado.

No entanto, se o sistema era classificado na velha categoria das autocracias proprietárias de terras, não deixava de preencher uma tarefa histórica típica do século XX: a do "Estado desenvolvimentista", que existiu e ainda existe em vários países, em particular no Oriente e no Oriente Médio, nas antigas monarquias rurais (China, Índia, Irã). Na construção do Estado staliniano, essa racionalidade histórica é parcialmente perceptível, ainda que sua transformação em "stalinismo" tenha representado uma perigosa distorção. Mas essa passagem para um modelo despótico não é uma patologia incurável, como o prova a eliminação do stalinismo na Rússia e do maoísmo na China. E, apesar das ciladas, a presença de um Estado capaz de dirigir o desenvolvimento econômico continua sendo uma necessidade histórica.

Na década de 80, a URSS atingira um alto nível de desenvolvimento econômico e social, mas seu sistema estava atolado num pântano. O tipo de reformas pretendidas por Yuri Andropov poderia ter resultado no que mais necessitava: um Estado reformado e atuante, sempre em condições de conduzir o desenvolvimento, mas libertando-se de forma direta de um autoritarismo obsoleto e permitindo, gradativamente, a transformação do panorama social.

Entretanto, o recurso ao velho símbolo da dzerjava, manifestação de um elemento importante das camadas dirigentes, traduzia a perda de energia do aparelho, que só utilizava o poder político a serviço de seus interesses pessoais e questionava o Estado "desenvolvimentista". Em vez de acrescentar o computador à foice e ao martelo, os dirigentes refugiaram-se num conservadorismo contrário às aspirações do povo, que não vivia no século XVIII, e sim no século XX: foi então que o atraso do Estado se mostrou fatal.

A fórmula "absolutismo burocrático", que caracteriza bem o sistema soviético, foi tomada das análises da monarquia prussiana do século XVIII, cujo soberano, como chefe da burocracia, dependia, na realidade, dela. Da mesma forma, na URSS, os altos dirigentes do Partido, supostos soberanos do Estado, tinham perdido, na prática, o poder sobre seus burocratas. Os ex-ministros soviéticos, cujas Memórias refletem a nostalgia para com esse super-Estado, não compreenderam que o entusiasmo pelo termo dzerjava coincidia, precisamente, com o período em que o Estado deixara de cumprir suas anteriores tarefas. Não passava de um fantasma de si próprio, de um último suspiro de poder, antes de cair na vala comum de uma antiga família de regimes com a qual mantinha excessivos vínculos.

O que, paradoxalmente, faz do fenômeno soviético um capítulo típico da história russa é o papel desempenhado pela conjuntura internacional. Essa Rússia, com uma história muito acidentada, tendo constantemente que adotar relações de amizade ou hostilidade para com seus vizinhos, foi obrigada a estabelecer relações através de todos os canais possíveis. Inclusive, ideológicos: transmitindo suas idéias para o exterior ou opondo-as às concepções de sua invenção, os soberanos russos eram forçados a ficar de antenas permanentemente ligadas, tanto para com o mundo externo quanto para seu próprio país. O exterior também pesou bastante na história da União Soviética: o fenômeno leninista e a Rússia soviética da década de 20 têm um vínculo direto com a I Guerra Mundial; a II Guerra Mundial e a crise da década de 30 têm um impacto direto na URSS de Stalin.

A imagem que os povos e seus dirigentes faziam do outro lado era o produto de "espelhos deformadores". Se o auge do stalinismo, na década de 30, gozava de um grande prestígio no Ocidente ? apesar das perseguições que sofria o povo soviético ?, isso se devia, em grande parte, às imagens negativas da crise ocidental. A Rússia dava a impressão de um poderoso impulso industrial e era fácil minimizar a miséria do país, imaginando que essa formidável dinâmica estivesse em vias de triunfar. Também por ocasião da vitória sobre a Alemanha, em 1945, Stalin e o stalinismo aproveitaram-se desse mesmo efeito de contraste, quando o país se encontrava novamente mergulhado numa imensa miséria que a devastação da guerra era insuficiente para explicar.

Depois, veio a guerra fria. De acordo com as memórias de Berejkov, ela teria começado com a irritação de Stalin diante do atraso dos norte-americanos em desembarcar na Normandia e em abrir uma segunda frente: o ditador soviético pensava tratar-se de uma jogada política de Franklin D. Roosevelt para retardar o máximo possível sua entrada efetiva na guerra, para fazê-lo quando as duas grandes forças beligerantes estivessem exauridas. Em seguida, com o lançamento de duas bombas atômicas sobre o Japão, Moscou achou que se confirmava a idéia de que os Estados Unidos anunciavam ? à União Soviética e ao mundo ? que começava uma nova era nas relações internacionais (e não é de todo impensável que tenha sido esse, na época, o raciocínio norte-americano). De qualquer forma, esses acontecimentos guindaram a União Soviética ao status de superpotência e à corrida armamentista, que perpetuaria os aspectos mais abominavelmente conservadores de seu sistema estatal e diminuiria sua capacidade de se reformar.

Paralelamente, no espírito dos dirigentes soviéticos, a América do Norte tomava o lugar do "Ocidente de antigamente" (Inglaterra, França, Alemanha), que até então lhes havia servido de modelo. Sigilosamente, os Estados Unidos tornaram-se um instrumento de avaliação do desempenho soviético em todas as áreas.Dessa forma, alguns dirigentes conscientizaram-se do atraso crescente de seu país, embora outros se recusassem a ver essa realidade. Após a derrota soviética na corrida (inútil) à Lua, a incapacidade do país de realizar a sua revolução informática criou, provavelmente, um sentimento de desespero em certos círculos dirigentes, ainda que os conservadores não abrissem mão do seu imobilismo. Aliás, essa mesma obsessão pelos Estados Unidos levou alguns membros da antiga nomenklatura a mendigar favores dos norte-americanos quando, sob o manto de Boris Ieltsin, passaram a controlar o Kremlin.

É natural que pesquisadores que estudam a situação da Rússia na década de 90 tomem como ponto de partida dados referentes ao último período do sistema soviético. Mas isso se torna irônico quando certos sociólogos ? conhecedores profundos desse passado, pois, na época, produziram trabalhos bastante críticos sobre o sistema ? descrevem, nos dias de hoje, a finada URSS como uma espécie de Eldorado, já que o nível de vida da população russa e sua assistência social não pararam de se degradar desde o início da década de 90.

Consta também que a freqüência a teatros, concertos, circos e bibliotecas, assim como a leitura de livros literários e as assinaturas de publicações periódicas, se encontra em franca regressão. O aumento da carga horária do trabalho contribuiu para que o lazer seja mais passivo, quando, nos últimos tempos da era soviética, com o aumento do tempo livre, o lazer era mais dedicado à cultura. E, para aumentar sua renda ? e mesmo para sobreviver ? os russos também passaram a aumentar suas atividades agrícolas e de criação em seus próprios terrenos, diminuindo o tempo de sono e de lazer.

O aumento das liberdades e dos direitos, assim como a oferta de serviços caros, só beneficiou os russos mais ricos, mais qualificados e com mais espírito de iniciativa. À exceção de Moscou, a maioria das pessoas viram suas possibilidades de acesso à cultura diminuírem consideravelmente. Embora nossos sociólogos deplorem a lamentável qualidade dos programas de televisão, estes ainda são o principal lazer. Isso, sem falar do declínio da pesquisa científica, da freqüência de estabelecimentos escolares, dos serviços médicos e sociais e sem mencionar a queda dos indicadores de vitalidade demográfica ? que são tantos que a própria sobrevivência da nação está em causa.

Para desviar a atenção do estado lastimável em que se encontra o país, os novos detentores do poder lançaram-se numa ampla campanha de propaganda contra o finado sistema soviético, recorrendo a todo tipo de truque antes utilizado no Ocidente: não teria passado de um sistema monstruoso ? do pecado original, em 1917, ao golpe de Estado fracassado de agosto de 1991. Do fiasco deste último teria nascido uma nova era de liberdade. O que significa que, além de lamentavelmente diminuída, a Rússia contemporânea ainda padece de uma "auto-depreciação" de sua identidade histórica. Não contentes em pilhar os bens econômicos do país, seus "reformadores" também renegam o seu passado, sob o signo da ignorância, e não da análise crítica.

Paralelamente, entregam-se a uma busca frenética por outros passados capazes de responder ao desejo da nação de inventar uma nova identidade. Em duas etapas: primeiro, reapropriando-se de tudo que era czarista e pré-revolucionário; em seguida, por oposição a tudo o que era soviético e pós-revolucionário, reabilitaram os Brancos da guerra civil. Essa paixão pelo que os bolcheviques detestavam demonstra debilidade intelectual. Ainda que alguns russos vissem as "elites" que tomaram o poder em 1991 como novos "invasores tártaros", hostis aos interesses da nação. E que, para alguns de seus espíritos mais esclarecidos, a Rússia passaria a não ter outra perspectiva senão ? como num pesadelo ? despencar ao nível do Terceiro Mundo.

Apesar das desastrosas conseqüências do obscurantismo, podem-se ver aspectos positivos. Durante um a conferência realizada em Moscou, o filósofo Mejuev salientava que "um país não pode existir sem sua história (...). Todos os nossos reformadores, sejam eles comunistas, democratas, amantes da cultura eslava ou fascinados pelo Ocidente, cometem o erro crucial de não encontrar uma continuidade racional e moralmente justificada entre o passado e o futuro da Rússia (...). Uns negam o passado, outros vêem nele o único modelo, embora, para alguns deles, o futuro não deva passar de um amálgama de temas passados, enquanto para outros, deva ser a aceitação passiva de uma fórmula oposta, sem precedentes na história russa. Ora, o futuro deve ser pensado, antes de tudo, na sua relação com o passado, e particularmente daquele de que saímos recentemente".

Em seguida, Mejuev passou a criticar o economista liberal Andrei Ilarianov, que considera o século XX como perdido, para a Rússia: para ele, a revolução socialista teria desviado o país de seu curso liberal, transformando o então gigante num camundongo. A única chance, portanto, seria a volta ao liberalismo. Mas é mais fácil bancar o sabichão depois dos fatos do que analisar o que se passou. Criticar a Rússia por não se ter tornado liberal no início do século XX equivale a um atestado de profunda ignorância da história russa e do liberalismo. O surgimento do liberalismo é o resultado de um longo processo histórico: Idade Média, Reforma, Renascimento e - muitas vezes - revoluções contra monarquias absolutistas.

Para Mejuev, a chave para compreender a história russa no século XX não se encontra apenas na revolução bolchevique. Na verdade, houve três revoluções em 12 anos: a primeira, de 1905, foi derrotada; da segunda, em fevereiro de 1917, saíram vitoriosos os revolucionários moderados; e a de outubro, quando triunfaram os revolucionários mais radicais, foi a terceira fase do processo revolucionário. Nicolai Berdiaev sabia disso: os bolcheviques não foram os autores da revolução, mas os instrumentos de seu desenvolvimento. A adoção de critérios, principalmente morais, e a crítica da violência que ocorreu não serve para nada: isso é o que sempre ocorre numa guerra civil. Uma revolução não é uma ação moral e legal: é o exercício de uma força de coação. Não existe uma revolução "boa": todas elas, até os dias de hoje, foram sangrentas.

"Condenar as revoluções", prossegue Mejuev, "equivale a condenar quase toda a intelectualidade russa e toda a história russa, que constituíram o adubo desses acontecimentos revolucionários. As revoluções (...) sempre frustram as expectativas, mas abrem uma página realmente nova: o importante é pesquisar de que página se trata, sem confiar demais no que dizem tanto os vencedores quanto os vencidos (...). O nosso socialismo era, na verdade, um 'capitalismo à russa', em seu conteúdo tecnológico, e um anticapitalismo em sua forma."

Para Mejuev, é difícil para um país situado na periferia do mundo ocidental combinar modernização e democracia. Em algum momento, um terá que ceder ao outro. E os bolcheviques compreenderam isso, razão pela qual ganharam a guerra civil e a URSS saiu vitoriosa da II Guerra Mundial. Também a China o percebeu, quando optou por combinar uma modernização acelerada pela economia de mercado e a manutenção de um sistema político não-democrático. Para qualquer regime, seja ele qual for, a sabedoria não está em rejeitar o passado, como se se tratasse de um deserto onde nada pode brotar: ela está em ver nesse passado um trampolim para novos progressos, preservando o que ele comporta de grandeza real.

A Rússia dos dias de hoje, com sua nostalgia dos tempos pré-revolucionários, está bem mais distante do Ocidente que o estavam os bolcheviques. “Nossos liberais”, observa Mejuev, “não se podem vangloriar de nada, exceto de terem aniquilado todos esses sucessos, quando o futuro da Rússia se deveria construir sobre a preservação desses êxitos do passado e em seu desenvolvimento, baseado na manutenção de uma continuidade associada à definição de novas tarefas. Atualmente, o vínculo com o passado foi rompido, mas um dia será restabelecido. Não se trata de voltar ao passado revolucionário ou pós-revolucionário: perguntem-se o que lhes interessa guardar desse passado, o que deve ser procurado e conservado, e isso ajudará a enfrentar o futuro (...). Os que querem apagar o século XX – um século de grandes calamidades, é bem verdade – também devem dizer adeus a uma grande Rússia.”

Autor

Moshe Lewin nasceu na Polônia, graduou-se na Universidade de Tel Aviv (Israel) e doutorou-se na Sorbonne (Paris). Foi diretor da École des Hautes Études (Paris) e professor da Birmingham University (Reino Unido) e da University of Pennsylvania (EUA). Um dos mais influentes estudiosos da história russa, é autor de Le siècle soviétique (Paris, Fayard / Le Monde Diplomatiuqe, 2003).

15 de novembro de 2001

A luta contra a frase revolucionária e a refundação marxista e comunista

Domenico Losurdo


Tradução / Na extraordinária personalidade e atividade de Lênin, existe um aspecto escassamente estudado mas que apresenta uma dimensão ao mesmo tempo teórica e pedagógica: a luta contra a “frase revolucionária”, altissonante e oca. Todo movimento que queira pensar e agir politicamente, sem “embalar-se nas palavras, nas declamações e nas exclamações”, deve desvencilhar-se dela e permanecer em constante vigilância contra ela¹. O problema se coloca de forma particularmente aguda para as classes populares que, por causa de sua subordinação social, não têm nenhuma experiência de gestão do poder e, ademais, não pretendem limitar-se a administrar o existente, mas aspiram a modificá-lo profundamente. Esta ambição é legítima e justa, mas implícito nela encontra-se um grave risco: em situações complexas e difíceis, à ação política e à análise concreta da situação concreta que constitui seu pressuposto inelutável, tende-se a substituir a efusão sentimental e emotiva ou, pior ainda, o gesto estetizante de quem contrapõe a excelência de suas intenções ao difícil e tortuoso empenho na transformação do real.

Não por acaso foi no período imediatamente posterior à revolução de Outubro que Lênin se empenhou, de modo particular, na luta contra a “frase revolucionária”. Era necessário levar em conta que o quadro político estava radicalmente mudado. Entretanto, “a ‘fraseologia revolucionária’ consiste na repetição das palavras de ordem revolucionárias, sem considerar as circunstâncias objetivas no momento de uma reviravolta dos acontecimentos”. A situação em que se encontrava o novo poder soviético era bastante difícil, repentinamente assaltado pela agressão imperialista, além daquela da Vendéia reacionária. Como enfrentar o ataque de forças avassaladoras? Qual inimigo devia ser considerado o mais perigoso? E quais compromissos podiam resultar úteis ou indispensáveis à causa da salvação do poder soviético? Mas “os heróis da ‘fraseologia revolucionária’ desdenham essa tática”. Na prática, a “fraseologia revolucionária” é uma palavra de ordem que exprime tão-somente “sentimento, cólera, indignação”².

Após a queda do “socialismo real” e a ascensão triunfante dos EUA como única superpotência planetária, os comunistas são chamados a desenvolver um novo reconhecimento do terreno no plano nacional e internacional. Pode então ser útil uma análise das “frases revolucionárias” mais difundidas que, numa análise atenta, revelam-se freqüentemente como novos ecos dos lugares comuns da ideologia burguesa.

1. Os “novos Hitler”: de um Estado pária ao outro

Nos últimos tempos, assistiu-se a um espetáculo extraordinário, com a formação de uma gigantesca frente unida mundial contra o “novo Hitler”, representado pelo líder de um partido que passou a fazer parte do governo austríaco: é o governador da Caríntia (Áustria), Jürg Haider, uma espécie de Bossi³ ao molho local.

A formação política dirigida por ele é um típico produto da globalização capitalista: goza das vantagens decorrentes da possibilidade, para os países industrializados mais avançados, de exportar mercadorias para o mundo todo, mas olha com horror a outra face da medalha do mercado global, a mobilidade da força de trabalho em escala planetária e a conseqüente corrente migratória de uma massa de desesperados que busca fugir do subdesenvolvimento e da fome. Como sempre, nesses casos, juntamente com a atitude racista perante os recém-chegados ou os que se amontoam às portas, manifesta-se o revisionismo, através da tentativa de repor em discussão ou de liquidar a gigantesca onda revolucionária que, enraizada no Outubro bolchevique, investiu contra o colonialismo e o racismo, submergindo o fascismo e o nazismo, isto é, os regimes empenhados em perpetuar e radicalizar ao extremo o domínio ocidental, branco e ariano. Estamos em presença de processos ideológicos e políticos que, com diversas modalidades, encontram sua expressão em personagens como Haider, Bossi, Le Pen (4).

Não se trata tão-somente da Europa. Nos confins meridionais dos Estados Unidos, um muro propriamente dito impede o acesso dos imigrantes provenientes do México, ao mesmo tempo em que se avolumam as vozes que lamentam os efeitos de aviltamento e de desnaturamento da autenticidade americana e anglo-saxã provocados pelo fluxo de latinos. Numa difusa ideologia reacionária, os latinos tendem a ser amalgamados com os negros. Esses, desde sempre relegados ao segmento inferior do mercado de trabalho, continuam a ser alvo de preconceitos e de estereótipos: libelos e livros “respeitáveis” esforçam-se em demonstrar “cientificamente” a inferioridade intelectual dos negros e a reabilitar a Confederação secessionista e escravagista cuja bandeira é, até hoje, no Sul dos EUA, desfraldada orgulhosamente pelos herdeiros dos ex-proprietários de escravos para ulterior humilhação das vítimas do Holocausto negro e de seus descendentes.

Impõem-se a vigilância e a luta contra esses movimentos e essas tendências, e reconheça-se aos comunistas austríacos o mérito de colocar-se à frente das manifestações populares de protesto contra Haider. Isso significa que devemos reconhecer à União Européia o direito de interferir nos assuntos internos da Áustria? Em que direção se fará valer esse precedente? Ao analisar o desenvolvimento político em curso na República Checa, a imprensa estadunidense deixa escapar algumas indicações: “Faltam ainda dois anos para as próximas eleições, mas se o Partido Comunista, que dobrou seus sufrágios nesses últimos dois anos, continuar a crescer”, após a Áustria de Haider, um outro Estado “pária” deverá ser enfrentado pela União Européia (5).

Nesse ponto, as dúvidas deveriam aumentar: não é suspeita a atual campanha que põe em mira um país, a Áustria, que se recusou a participar, de modo direto ou indireto, da guerra contra a Iugoslávia e que não participa nem pretende participar da Otan? Somos reconduzidos à trágica realidade da guerra nos Bálcãs: é ali que está em curso uma limpeza étnica, da qual são protagonistas os próprios países e governos que, hoje, dilaceram suas vestes por causa de Haider. Sem jamais pôr em surdina a luta contra a xenofobia, uma esquerda digna desse nome deveria estar muito atenta para não se colocar a reboque dos açougueiros de Washington e das diversas capitais européias.

E, no entanto...

2. Da guerra civil revolucionária às guerras de liberação e de defesa nacional

Para compreender a enésima manifestação de subordinação da esquerda e sua permanente incapacidade de elaborar uma estratégia autônoma, convém refletir sobre a história do movimento comunista internacional, acompanhada como uma sombra por uma fraqueza de fundo, teórica e política: a tendência a fazer apelo à analogia ao invés da análise concreta de uma situação concreta. A Revolução de Outubro estourou a partir da transformação da guerra imperialista em guerra civil revolucionária: Lênin desmascara o caráter mistificador das palavras de ordem de defesa da pátria e apela para que, em cada realidade nacional, os comunistas se empenhem em primeiro lugar na derrota de seus próprios países e de seus próprios governos. Foi na crista dessas gigantescas lutas que surgiu a Terceira Internacional. Inegáveis e enormes são seus méritos históricos, mas, com o passar do tempo, acabou vacilante e exaurida, sem ter elaborado uma estratégia à altura da situação radicalmente nova que se tinha criado. Revelou-se difusa e tenaz a tendência de pensar a nova onda revolucionária que tomava corpo com base nos moldes que tinham aberto a via à Rússia soviética; examinava-se o horizonte em busca da nova guerra imperialista a ser transformada, mais uma vez e segundo um modelo já consolidado, em guerra civil revolucionária.

Não se levava em conta que, justamente em virtude de sua vitória, os bolcheviques tinham tornado improvável ou impossível a repetição mecânica da experiência anterior. Ao contrário, Lênin estava consciente da mudança de rumos: “A partir de outubro de 1917, nos tornamos todos defensistas, partidários da defesa da pátria” (6). A própria existência da Rússia soviética, resultado da revolução vitoriosa, representava a erupção de um elemento completamente ausente do primeiro conflito mundial: em cada país, os comunistas deviam levá-lo em conta se quisessem proceder à análise concreta da guerra concreta.

Mas não era somente a existência de um país empenhado na construção do socialismo que conferia uma natureza e um significado novo às crises bélicas que iam se avolumando. Não se pode perder de vista o fato de que, junto ao apelo para a transformação da guerra imperialista em guerra revolucionária, os bolcheviques lançaram também um apelo aos escravos das colônias para que rompessem suas correntes e, portanto, conduzissem guerras de libertação nacional contra a dominação imperialista das grandes potências. O nazi-fascismo apresentou-se como um movimento de reação, e de reação extrema, também perante esse segundo apelo. Às vésperas do início oficial da segunda guerra mundial, antes mesmo da agressão contra a Polônia e a URSS, a Alemanha nazista desmembrava a Checoslováquia e declarava de forma explícita que a Boêmia-Morávia era um “protetorado” do Terceiro Reich: a linguagem e as instituições da tradição colonial eram explicitamente reivindicadas e seu âmbito de aplicação estendido até a Europa oriental. Foi lá que Hitler pretendeu edificar “as Índias alemãs”, dizimando a população local, apropriando-se de suas terras e transformando os sobreviventes em força de trabalho servil para a “raça dos senhores”.

Isso significa que, desde o início, o segundo conflito mundial apresentava características radicalmente distintas do primeiro: não se tratava mais de transformar a guerra imperialista em guerra civil revolucionária; a luta contra o imperialismo entrelaçava-se estreitamente ao apoio às guerras de libertação nacional dos povos atingidos pela nova leva de expansão colonial e à guerra pela defesa da União Soviética. Por fim, os comunistas alemães, italianos e japoneses lutavam sim pela derrota de seus respectivos governos e países, mas também – e isso era uma mudança radical em relação ao período de 1914-18 – pela vitória da guerra de defesa e de independência nacional da URSS, da Iugoslávia, da Albânia, da China. Para citar apenas um exemplo, pensemos nos soldados italianos enviados aos Bálcãs pelo governo fascista, que se alistaram nas fileiras dos “partisans” iugoslavos e albaneses, empenhados numa guerra de libertação nacional.

O movimento comunista se dá conta dessas mudanças radicais, sobretudo a partir do VII Congresso da Internacional (1935). É um complexo processo de aprendizagem que ocorre em condições dramáticas, enquanto se tornam cada vez mais ameaçadores os perigos da guerra e do fascismo. Às dificuldades da situação objetiva agregam-se fatores subjetivos: inexperiência, erros e crimes decorrentes da transformação, por responsabilidade de todos, das contradições no seio do povo em contradições antagonistas. Permanece o fato de que a nova vaga revolucionária começa a desenvolver-se quando, abandonando o jogo das analogias, o movimento comunista procede à análise concreta da situação concreta. Os poucos (Bordiga, Trotsky etc.) que continuam a agitar nostalgicamente a palavra de ordem de transformação da guerra imperialista em guerra civil revolucionária revelam-se, em realidade, prisioneiros de uma “frase” e acabam separando-se do corpo do movimento comunista.

A nova estratégia encontra sua máxima expressão em dois acontecimentos épicos: a Longa Marcha dos comunistas chineses que, liderados por Mao Zedong, atravessam milhares de quilômetros em condições bastante difíceis, para colocar-se à frente da guerra de defesa nacional contra o imperialismo japonês e o apelo de Stalin aos povos da União Soviética para que se unissem na Grande Guerra Patriótica contra as hordas hitlerianas. É assim que se desenvolve, após a Revolução de Outubro, uma segunda gigantesca vaga revolucionária: o campo socialista conhece uma enorme expansão, enquanto o alargamento das revoluções anticoloniais parece fazer vacilar o imperialismo.

3. O “novo Hitler” e o Anticristo

Infelizmente, no rastro dessas grandes vitórias, aparece novamente o jogo vão das analogias. O movimento comunista segue com apaixonada atenção a evolução da bolsa em Wall Street, à espera de uma reedição da grande crise de 1929. Esta crise tinha acelerado a ascensão do fascismo e agravado as contradições entre as grandes potências imperialistas, que depois se dirimiram no segundo conflito mundial. Um ano antes de sua morte, em 1952, Stalin retoma a tese da absoluta inevitabilidade da guerra entre os países imperialistas. Esses, como em 1939, se enfrentariam sanguinariamente entre si, antes de envolver na guerra a União Soviética e o campo socialista. Como se pode constatar, a terceira vaga revolucionária é pensada sobre o modelo da segunda, da mesma forma que por tanto tempo a segunda vaga revolucionária tinha sido pensada sobre o modelo da primeira.

Na realidade, a própria gigantesca extensão do campo socialista freava o desenvolvimento das contradições entre as diversas potências capitalistas. Os EUA conseguem unificá-las sob sua hegemonia e não somente no plano militar. Uma série de organismos econômicos internacionais, por um lado, asseguram o controle de Washington sobre seus aliados e, por outro lado, buscam controlar a dinâmica que tinha levado à catástrofe de 1929.

O movimento comunista revelou-se bastante relutante em despedir-se de suas grandiosas memórias históricas e do jogo de analogias relacionadas a elas. Até os grupos oriundos de 1968 não se cansaram de invocar a “Nova Resistência” e os “novos partisans”. Era amplamente difundida a visão de que a crise empurrava a burguesia a percorrer novamente o caminho do fascismo; só que, dessa vez, o movimento de luta pela recuperação da democracia iria aprofundar-se, derrubando o capitalismo, de uma vez por todas. Que fique claro: não faltaram os golpes de Estado nem as tentativas de golpes de Estado. Mesmo assim, as ditaduras militares, que não devem ser confundidas com o fascismo propriamente dito, foram pensadas como sendo, no máximo, soluções provisórias, etapas intermediárias rumo à realização da Nova Ordem Internacional que, hoje, com o desaparecimento do “campo socialista” e as angústias que isso provocou, vai se delineando, como veremos, com grande clareza.

Não faz sentido, então, perscrutar o horizonte em busca de indícios que anunciem o “novo Hitler”. Daria no mesmo aguardar a chegada do Anticristo. Num caso e no outro, trata-se de uma representação religiosa: a reedição do Mal absoluto é o pressuposto do triunfo total e absoluto do Bem. Na realidade, as hordas hitlerianas, retidas e ignominiosamente derrotadas em Stalingrado, para serem depois rechaçadas pelo heróico Exército Vermelho até a capitulação final do Terceiro Reich, não ressurgirão de suas cinzas. O movimento comunista contribuiu de forma decisiva à liquidação do nazismo, até no plano ideológico. Ainda nos anos 30, o termo “racismo” tinha uma conotação não necessariamente negativa; a esta pretensa “ciência” faziam referência, bem além da Alemanha, diversos “cientistas” do mundo capitalista. Com a derrota do Terceiro Reich, tudo mudou.

Uma nova mudança radical interveio com o desabamento do campo socialista. Se durante os anos da guerra fria havia duas capitais (Washington e Moscou) em áspera concorrência uma com a outra, tentando rotular tal ou qual inimigo de “novo Hitler”, esse poder de excomunhão está agora, exclusiva e infelizmente, nas mãos de Washington. Assim, depois de Saddam e de Milosevic, Haider torna-se o “novo Hitler”! Por sorte sua, a Áustria ainda não foi golpeada pelas bombas e pelos embargos que devastaram e continuam devastando o Iraque e a Iugoslávia. Por conseguinte, uma esquerda que continua a cultivar o jogo das analogias, mirando o horizonte em busca do nazismo ressurgido e ressurgente, não somente se move num espaço histórico imaginário, mas contribui a reforçar ainda mais a hegemonia do Santo Papa ... sediado em Washington e dispondo, ao mesmo tempo, do poder de excomunhão e da capacidade de aniquilamento nuclear.

Cossutta (7) dá um pouco de pena quando, como se fosse um Dimitrov ou Togliatti redivivos, posa de líder de uma renascida frente popular em luta contra um impreciso perigo fascista. No entanto, seu partido faz parte de um governo que, nos Bálcãs, se manchou e continua a se manchar de infâmias tais que só encontram precedentes na conduta de Mussolini. Mas é necessário reconhecer que, perante o caso Haider, em nome de enfrentar o improvável Hitler da Caríntia, até Il Manifesto e alguns expoentes do PCF e da Rifondazione Comunista mostraram-se dispostos a constituir uma frente única com Jospin e com os outros responsáveis da guerra dos Bálcãs e da limpeza étnica contra os sérvios ainda em curso no Kosovo.

4. O belo Thaci, Lady Killer e a frase “trotskista”

Se Cossutta, em particular, brinca de representar Dimitrov ou Togliatti, certos grupos ¨trotskistas¨ se obstinam, por sua vez, a assumir o papel de Lênin e Trotski: assim, seu cavalo de batalha é a ¨autodeterminação¨. Entretanto, ao agitar palavras de ordem, parecem não querer nem mesmo interrogar-se sobre as colossais transformações entrementes verificadas. A partir da Revolução de Outubro, o movimento de emancipação dos povos em condições coloniais e semicoloniais conheceu grandes vitórias: Estados de antiga civilização conquistaram uma real independência, não mais uma meramente formal (pensemos na China e na Pérsia); novos Estados nacionais se constituíram, libertando-se do jugo das grandes potências imperiais, que continuaram a manifestar sua natureza agressiva e suas ambições de dominação, em novas condições. Constrangidas a reconhecer a independência dos países que se subtraíram a seu controle, buscam agora desagregá-los, apelando para as rivalidades étnicas e tribais. Esta é uma velha manobra. Os países de independência recente – freqüentemente com fronteiras incertas, mal-desenhadas ou arbitrárias – não carregam uma consolidada história unitária em seus ombros. Por si só, a herança colonial é um terreno fértil para o surgimento de movimentos separatistas e secessionistas, que são facilmente dominados pelo imperialismo. “Donde o reiterado e no mais das vezes inócuo convite aos chefes desses novos Estados a superar o ‘tribalismo’, o ‘localismo’, ou quaisquer outras forças desagregadoras tidas como responsáveis pela incapacidade dos novos habitantes da República X de sentirem-se, em primeiro lugar, cidadãos da pátria X, ao invés de pertencentes a esta ou aquela coletividade” (8).

O conflito que se desenrolou no Congo, entre o fim dos anos 50 e o início dos anos 60 foi, nesse sentido, exemplar. Constrangida a conceder a independência, a Bélgica logo se empenha em promover a secessão do Katanga. Não era em nome da autodeterminação que o Congo (aliás, como toda a África) tinha reivindicado e continuava a reivindicar a independência? Então, esse mesmo princípio deveria valer inclusive para as ricas regiões mineiras controladas pela Union Minière. Para a ocasião, encontrou-se rapidamente um “revolucionário” pronto a agitar esta bandeira: tratava-se de Moisés Tchombe, filho do primeiro milionário negro do Katanga. Secessionistas e forças coloniais capturaram Lumumba, dirigente do Movimento Nacional Congolês, que se inspirava “em um programa unitário, progressista e intertribal”. Culpado, portanto, de oporse à secessão e à “autodeterminação” das ricas regiões às quais os colonialistas não tinham intenção de renunciar, acabou sendo massacrado (9).

Para completar, o domínio colonial deixou seus rastros: no plano econômico acentuou a desigualdade de desenvolvimento entre as diversas regiões, enquanto que a presença hegemônica, em todos os níveis, das grandes potências e a política de engenharia étnica por elas implementada acentuam a fragmentação cultural, lingüística e religiosa. Novamente, espreita-se o surgimento de tendências secessionistas de todos os tipos, regularmente alimentadas pelas ex-potências coloniais. Quando tomou Hong Kong da China, a Grã Bretanha não pensou decerto em autodeterminação, nem se lembrou desse princípio nos longos anos em que exerceu seu domínio. Mas, eis que às vésperas da devolução de Hong Kong à sua mãe pátria, o governador enviado por Londres, Chris Patten, um conservador, tem uma espécie de iluminação e de improvisada conversão: faz um apelo aos habitantes de Hong Kong para que façam valer seu direito à “autodeterminação”... contra a mãe pátria, permanecendo assim na órbita do Império britânico.

Considerações análogas valem para Taiwan. Quando, no início do ano de 1947, o Kuomintang, em fuga da China continental e do vitorioso Exército Popular, desencadeia contra os habitantes de Taiwan uma terrível repressão que provoca cerca de 10 mil mortes (10), os Estados Unidos evitaram muito bem evocar o direito à autodeterminação para os habitantes da ilha. Pelo contrário, procuram por todos os meios impor a idéia de que o governo de Chiang Kaishek era o governo legítimo não só de Taiwan mas de toda a China. O grande país asiático deveria portanto permanecer unido sob o controle de Chiang Kaishek, reduzido a simples proconsul do soberano imperial de Washington. À medida que se dissipam os sonhos de reconquista do continente e se torna mais forte a aspiração do povo chinês de conseguir a plena integridade territorial e a plena independência, pondo fim ao trágico capítulo da história colonial, eis que os presidentes estadunidenses conhecem uma iluminação e uma conversão similares às de Chris Patten: também começam a acariciar essa idéia de “autodeterminação”. Incoerência? Nada disso: a “autodeterminação” é a continuação da política imperial por outros meios. Se efetivamente não é possível pôr as mãos na China em seu conjunto, então convém assegurar-se do controle de Hong Kong ou de Taiwan.

Também foi assim nos Bálcãs. O diktat de Rambouillet previa para a Otan o controle absoluto da Iugoslávia inteira; uma heróica resistência fez falhar este plano. Mas eis as manobras para também impor, além de Kosovo, a “autodeterminação” de Montenegro e, possivelmente, de outras regiões. O imperialismo revela uma férrea coerência. Ao contrário, há certos grupos “trotskistas” que dão prova de um total distanciamento da realidade: acreditam ser discípulos fiéis e coerentes de Lênin e de Trotsky e não percebem que estão transformando uma grande palavra de ordem revolucionária em uma “frase”. Ocorre, pois, que enquanto estão desgastando as mãos de tanto aplaudir o princípio de autodeterminação, os heróis da “frase” olham com frieza ou com hostilidade as lutas concretas pela autodeterminação que se desenrolam sob seus olhos e que têm como protagonistas a Iugoslávia e a China. Por outro lado, esses heróis, embora tomem suas distâncias dos bombardeios, acabam por assimilar alguns motivos da ideologia da guerra da Otan, isto é, de uma aliança que, com sua nova doutrina, pôs de forma explícita em suas bandeiras o cancelamento da soberania e do Estado nacional e, portanto, do próprio direito à autodeterminação.

Ao falar dos grupos ¨trotskistas¨, venho sistematicamente empregando as aspas, pois apesar dos graves erros cometidos no decurso de um complexo e trágico processo de aprendizagem que envolveu todo o grupo dirigente oriundo da Revolução de Outubro e o movimento comunista, o grande revolucionário russo não sonharia jamais em conferir uma legitimidade revolucionária à UCK e ao belo Thaci, o chefe mafioso, filho dileto da OTAN, e, sobretudo, à Albright, a Lady Killer do imperialismo americano.

Assim, embora empenhados em representar, no âmbito do jogo das analogias, personagens históricos bastante diversos entre si, Cossutta e seus imitadores involuntários, por um lado, e os grupos “trotskistas”, por outro lado, correm o risco de se colocar a reboque daquele que é hoje o pior inimigo tanto do princípio de igualdade entre os povos e etnias quanto do princípio de autodeterminação.

5. O Führer e o aspirante a soberano planetário de Washington

Longe de estarem ultrapassados, as ambições e os sonhos de domínio planetário têm assumido, em nossos dias, uma configuração ainda mais nítida. Nesse sentido, se existe algo que possa fazer pensar no Terceiro Reich, na visão de Hitler destinado a durar ao menos mil anos, é a Nova Ordem Internacional sob hegemonia dos EUA, titular, segundo a arrogante e visionária reivindicação de Clinton de uma “missão” planetária, absolutamente “sem tempo de duração definida”. Entende-se então que Washington se recuse a pronunciar qualquer autocrítica por Hiroshima e Nagasaki. Todavia, são numerosos os reconhecidos estudiosos americanos que falam a esse propósito de “holocausto”, de forma a compará-lo explicitamente com o “holocausto” consumado pelos nazistas. Mas os EUA estão decididos a reivindicar seu “direito” ao aniquilamento nuclear das populações civis dos países inimigos, com o olhar voltado não somente ao passado, mas também ao presente e ao futuro. É por isso que recusam obstinadamente comprometer-se a não empregar em primeiro lugar a arma atômica. Todos os povos do mundo devem ter claro que Hiroshima e Nagasaki podem tranqüilamente se repetir cada vez que Washington julgar oportuno.

Junto com a ameaça de holocausto, os Estados Unidos fazem, igualmente, reemergir a terrível realidade dos campos de concentração. O que são efetivamente os embargos senão uma versão pós-moderna dos campos de concentração? Em uma época de globalização, não é mais necessário deportar um povo; basta bloquear o fluxo de comida e remédios; mormente se, com alguns bombardeios “inteligentes”, consegue-se destruir aquedutos, redes de esgoto e infra-estruturas sanitárias, como aconteceu precisamente no Iraque e na Iugoslávia.

Mas as analogias com o Terceiro Reich não param aqui. Ontem como hoje, os autoproclamados senhores do universo consideram que o direito internacional nada mais é que um pedaço de papel: nada valem a soberania nacional nem as normas que deveriam regulamentar os conflitos armados. Por ocasião da guerra do Golfo, os EUA não hesitaram em “exterminar os iraquianos já fugitivos e desarmados” (11); ou mais precisamente a exterminá-los “depois do cessar-fogo” (12). De forma ainda mais soberana, manifestou-se o desprezo ao direito internacional por ocasião das expedições punitivas contra a Iugoslávia: testemunhas disso são os projéteis de urânio, as bombas de fragmentação, a execução, por meio do bombardeio da TV sérvia, dos jornalistas considerados politicamente incorretos pela Otan.

Os EUA se reservam o direito de fazer em pedaços, a seu bel-prazer, esse ou aquele país, por exemplo, proclamando no Iraque as no fly zones e bombardeando sistematicamente até aqueles que ousam apontar o radar contra os aviões invasores. A partir de Washington, uma espécie de tribunal mafioso secreto pronuncia condenações à morte desse ou daquele chefe de Estado. Um artigo do “International Herald Tribune” anuncia jubilante: a CIA separou somas enormes “para encontrar um general ou um coronel que enfie uma bala no cérebro de Saddam” (13).

Independentemente desse ou daquele crime singular, somos levados a pensar no Terceiro Reich por uma questão política central. O gigantesco processo de emancipação dos povos das condições coloniais ou semicoloniais, posto em marcha pela Revolução de Outubro, esbarrou em duas grandes correntes contra-revolucionárias: se a primeira é representada pelo nazismo, a segunda, agora, toma a forma da nova doutrina da Otan. Assim, volta a ser de atualidade o princípio clássico de legitimação das guerras coloniais: sinônimo de civilização, o Ocidente, dirigido pelos EUA, tem o direito e o dever de difundi-la aos quatro cantos da terra, livrando-se dos bárbaros que poderiam entravar essa marcha triunfal. Por fim, a ideologia cara ao nazismo, que celebrava os alemães como o “povo dos senhores”, destinado pela natureza e pela providência a exercer a hegemonia mundial continua a mostrar-se vital no imperialismo dos EUA: para dar apenas um exemplo, Kissinger não hesitou em declarar que “a liderança mundial é inerente ao poder e aos valores americanos”.

Não restam dúvidas: se quisermos recorrer ao jogo das analogias, a semelhança com o Führer pertence ao aspirante a soberano planetário instalado em Washington. Todavia, seria enganar-se ver em Clinton um “novo Hitler”. Não se trata tanto de estabelecer uma hierarquia dos horrores. Certamente, no âmbito dessa hierarquia, um lugar eminente deve ser reservado a um indivíduo que, por meio do embargo, condenou um povo inteiro à dizimação e o condena não mais no curso de um conflito de vida ou de morte, mas com toda a tranqüilidade; sem correr nenhum perigo nem pessoalmente nem para os países que representa; a frio, até de forma alegre, entre uma sarabanda sexual e outra.

6. “Filantropia 5% política da canhoneira”

Se, levando em conta os distintos contextos históricos e geopolíticos, Clinton não resulta menos repugnante que Hitler no plano moral, permanece entretanto o fato de serem profundamente diversas a tradição política e ideológica que pesa sobre os ombros dos dois personagens, o contexto histórico em que agem, as táticas e as palavras de ordem a que fazem apelo. Ao contrário daquele nazista, o imperialismo americano não aspira hoje ao controle político direto de suas colônias e semicolônias. Em vez disso, busca transformar o mundo inteiro em um “mercado livre” e em uma “democracia” entendida como “livre mercado político” aberto às mercadorias e aos “valores” made in USA. Para realizar tais objetivos considera, de forma convergente, por um lado, a promoção das rivalidades étnicas e dos movimentos separatistas e, por outro lado, as campanhas pelos “direitos humanos”. Aos olhos de Washington, um partido político fortemente organizado é tão intolerável quanto uma economia florescente e autônoma com uma tecnologia nacional (a China Popular representa um tapa na cara sob ambos os pontos de vista). Os países que podem constituir um obstáculo para sua marcha rumo à hegemonia mundial devem ser desmembrados e escancarados à superpotência econômica, multimediática, cultural e política do imperialismo americano. Na sombra, está pronto a intervir de forma direta, desencadeando “guerras humanitárias”, monstruoso aparato militar de destruição e de morte.

Mais do que no regime nazista, o atual imperialismo americano faz pensar no imperialismo britânico que, com sua expansão, se sentia empenhado em “tornar as guerras impossíveis e promover os melhores interesses da humanidade”. É Cecil Rhodes quem se exprime assim, e sintetiza a filosofia do Império britânico da seguinte forma: “filantropia 5%” (14); em que “filantropia” é sinônimo de “direitos humanos” e o percentual de 5% indica os lucros que a burguesia capitalista inglesa realizava ou se propunha a realizar mediante as conquistas coloniais e a agitação da bandeira dos “direitos humanos”. Vejamos agora de que modo um jornalista estadunidense descreve e celebra a globalização: essa serve para exportar, em primeiro lugar “os produtos, a tecnologia, as idéias, os valores e o estilo do capitalismo americano”. Os EUA podem assim consolidar e estender sua hegemonia “seja estabilizando o mundo militarmente, seja democratizando-o econômica e politicamente”; em particular “para demover a China” devem saber combinar, naturalmente, “canhoneiras, comércio e investimentos na Internet” às palavras de ordem de “democratização” econômica e política (15). A fórmula cara a Rhodes, o bardo do imperialismo britânico, pode assim ser reformulada com maior precisão e franqueza: “filantropia (ou melhor, direitos humanos) 5% política de canhoneiras”. As canhoneiras são essenciais para estimular o processo de globalização: o jornalista já citado convida Israel a não fazer nenhuma concessão sobre o Golan “enquanto não se ver a Síria entrar no mundo” e começar a “privatizar e desregulamentar” (16). Por outro lado, nota-se que, aos olhos da OTAN, um dos mais graves crimes de Belgrado foi sua recusa em “adotar o modelo neoliberal imposto pela globalização” (17).

Há, portanto, uma férrea unidade nessa fórmula “filantropia 5% política das canhoneiras”. É a esquerda que não consegue entendê-la. Condena as “guerras humanitárias” mas apóia a oposição a Milosevic, ainda que, se tomasse o poder, essa “oposição”, profusamente paga por Washington e pelo Ocidente em seu conjunto, escancararia o país às mercadorias e à hegemonia cultural e política dos EUA e da Otan, que acabaria por estender-se mais ainda, englobando a própria Sérvia, e alcançando todos os objetivos em vista dos quais a “guerra humanitária” foi desencadeada. Na imprensa americana, é possível ler denúncias que falam dos EUA como um país em que domina a “plutocracia”, na qual as instituições são controladas pela riqueza, enquanto o “resto do povo é deixado de fora” de qualquer possibilidade de influir nas escolhas políticas (18). Entretanto, uma certa esquerda, que observa com pavor o avanço do mercado global e o desmantelamento dos direitos econômicos e sociais, depois se junta às campanhas pela “democracia”, como se a plutocracia de Washington não representasse papel algum nessas campanhas e como se o triunfo do mercado político não andasse pari passo com o triunfo do mercado econômico.

A confusão é total: quantos artigos apareceram e aparecem no Manifesto convidando o Ocidente a ser ainda mais intransigente em suas campanhas pelos “direitos humanos” na China? Presenciamos assim o singular espetáculo de um “diário comunista” que apela a todas as potências capitalistas para que desencadeiem uma guerra, por hora somente “fria”, contra a República fundada por Mao Zedong e ainda dirigida pelo Partido Comunista.

Na estratégia do imperialismo, a cruzada “filantrópica” pelos “direitos humanos” é o primeiro passo de uma escalada que, através das represálias comerciais e depois do embargo mais ou menos total, conduz posteriormente à verdadeira e real agressão militar. Mas uma certa esquerda se põe a campo por um pedaço dessa infernal escalada e se agita sem compostura – para pular fora somente quando começa a perceber o cheiro de queimado e o fragor das bombas.

7. O perigo principal

Por falta de uma análise concreta da situação concreta, a esquerda se revela incapaz de elaborar uma estratégia autônoma. Perde de vista o inimigo principal. A Haider se critica justamente a tentativa de reabilitação parcial da Waffen SS (até em seu interior, haveria pessoas “respeitáveis”); mas é necessário não esquecer que, em 1985, foi o próprio presidente dos EUA, Reagan, que rendeu homenagem no cemitério de Ritburg, juntamente com Kohl, a esse corpo militar que, mesmo não se confundindo com as SS propriamente ditas, não deixou de constituir um instrumento essencial da política infame do Terceiro Reich. Foram, pois, Washington e Bonn que primeiro se empenharam nessa operação revisionista sem preconceitos.

Mas voltemos ao presente. Enquanto se rasgavam as vestes pelo caso Haider, os EUA, de acordo com seus aliados europeus, conduziam em Kosovo uma horrível limpeza étnica. Já em agosto do ano passado, a Human Rights Watch de Nova Iorque calculava que “a partir da chegada das tropas da Otan, em meados de junho, mais de 164 mil sérvios fugiram de Kosovo”; outros, cerca de 200, não tiveram essa possibilidade: caíram vítimas de atentados ou de massacres (19). Qualquer um que ouse falar em público em sérvio atrai ou arrisca atrair para si “uma sumária sentença de morte” (20).

A UCK não é a única responsável. Lançando mão de um gracioso eufemismo, as sempre insuspeitáveis fontes americanas reconhecem que “a proteção dos civis sérvios e dos lugares santos não estava em posição preeminente na escala de prioridades” das tropas de ocupação. De fato, o general Jackson considerava que sua tarefa se tornaria mais ágil “se tivessem permanecido menos sérvios” (21). Ao mesmo tempo, em Kosovo, as portas ficaram “escancaradas aos novos imigrantes da Albânia” (22). Portanto, uma limpeza étnica dentro das normas. Visto o sucesso das operações, por que bloquear as fronteiras ora controladas pela Otan? Com efeito, a UCK estende-se para além dessas fronteiras, em Presevo; tem agora um novo nome e novos uniformes, “um misto entre o dos alemães e o dos americanos” e “se exercita” até com armamentos pesados, em território sérvio, sob os olhares benevolentes das tropas dos EUA (23). Já há promessas de um relançamento em grande estilo da “guerra humanitária”.

Inerte e ridícula é a espera de um “novo Hitler”, mas a permanente barbárie do imperialismo exige, desde já, uma estratégia coerente e uma resposta à altura da situação.

Notas

¹ Vladimir I. Lênin, “Sulla frase revolucionaria”. In: Vladimir I. Lênin, Opere Complete. Roma, Editori Reuniti. 1955. v. XXVII, p. 6. Texto de 21 de fevereiro de 1918

² Vladimir I. Lênin, op. cit., p. 4 e 6.

(3) Chefe neofascista italiano (nota da edição brasileira).

(4) Chefe neofascista francês (nota da edição brasileira).

(5) Peter Finn. “Czech Communists Talk of a Comeback”. In: International Herald Tribune, 21 de fevereiro de 2000, p. 8.

(6) Vladimir I. Lenin. “Rapporto suIla guerra e la pace”. In: Opere Complete. 1955. v. XXVII, p. 64. Texto de 7 de março de 1918.

(7) Ex-presidente da república italiana, trafegando entre a direita e o centro, Francesco Cossutta, durante o primeiro semestre de 1998, operou uma manobra para apoiar o governo de centro-esquerda de Prodi, numa operação destinada a deslocá-lo para o centro, de maneira a garantir apoio aos bombardeios imperial-humanitários contra a Sérvia (nota da edição brasileira).

(8) Eric J. Hobsbawm. Nazione and Nazionalismo dal 1780. Programma, mito, realtà. Turim, Einaudi. 1991. Ver p. 202.

(9) Enzo Santarelli. Storia sociale neI mondo contemporaneo. Dalla Comune de Parigi ai nostri giorni. Milão, Feltrinelli. 1982. p. 511-2.

(10) Michael. A. Lutzker. “The precarious peace: China, the United States, and the Quermoy-Matsu Crisis, 1954-1955, 1958”. In: Joan R. Challinor and Roberto L. Beisner (orgs.). Arms At Rest. Peacemaking and Peacekeeping in American History. Nova Iorque, Greenwood Press. 1987. p. 178.

(11) Giorgio Bocca. “Dimenticare Hitler”. In: La Repubblica, 6 de fevereiro de 1992.

(12) Corriere della Sera, 9 de maio de 1991.

(13) Jinn Hoagland. “As Clinton Withtraws, Saddam Survives Unchallenged”. In: International Herald Tribune, 2 de março de 2000. p.6.

(14) Basil Williams. Cecil Rhodes. Londres, Constable and Company Ltd. 1921. p. 50-1.

(15) Thomas L. Friedman. “On Key Foreign Policy Issues, The Differences Are Narrowing”. In: International Herald Tribune de 11-12 de março de 2000. p. 8.

(16) Thomas L. Friedman. “Wait for Syria to Joint the World”. In: International Herald Tribune, de 6 de dezembro de 1999. p. 8.

(17) Ignacio Ramonet. “Le gâchis”. In: Le Monde Diplomatique, maio de 1999. p. 1 e 3.

(18) William Pfaff, “Money Politics Is Winning the American Election”. In: International HeraId Tribune de 11-12 de março de 2000. p. 8.

(19) Malcolm Fraser. “Western Policy Toward Serbia Has Been Biased”. In: International Herald Tribune de 22 de dezembro de 1999. p. 6.

(20) Peter Fïnn. “Empty Hospitals Shows Depth of Kosovo Hate”. In: International Herald Tribune de 25- 26 de março de 2000. p. 7.

(21) Steven Erlanger. “Divided Mitrovica Damages Hopes for Peace in Kosovo”. In: International Herald Tribune de 28 de fevereiro de 2000. p. 8.

(22) Massimo Nava. “Serbia, neIla vaIlata deI Presevo dove cova l’odio di un’altra guerra”. In: Corriere della Sera de 29 de março de 2000. p. 1 e 13.

(23) Steven Erlanger. “AIbanians Train Inside Serbia as GIs Watch”. In: International Herald Tribune de 31 de março de 2000. p. 4.

20 de setembro de 2001

Sobre segurança e terror

Giorgio Agamben

Frankfurt Allgemeine Zeitung

A segurança como um dos princípios fundamentais da política estatal remonta ao nascimento do Estado moderno. Hobbes já mencionava este como o oposto do medo, que compele os seres humanos a se unirem dentro de uma sociedade. Mas até o século 18 não houve um pensamento sobre a segurança que entrasse em seu próprio campo. Em palestra realizada em 1978 no Collège de France (que ainda será publicado) Michel Foucault mostrou como a prática política e econômica dos fisiocratas opõe a segurança à disciplina e à lei como instrumentos de governança.

Turgot e Quesnay, bem como as autoridades fisiocratas, não estavam preocupadas em primeiro lugar com a prevenção da fome ou a regulação da produção, mas, antes, queriam permitir o seu desenvolvimento para, em seguida, regular e “assegurar” as suas consequências. Enquanto o poder disciplinar isola e fecha territórios, as medidas de segurança levam a abertura e a globalização; enquanto a lei quer prevenir e regular, a segurança intervém em processos já em curso para dirigi-los. Em suma, a disciplina quer produzir ordem, a segurança quer regular a desordem. Uma vez que as medidas de segurança só pode funcionar num contexto de liberdade de tráfego, comércio e iniciativa individual, Foucault pode mostrar que o desenvolvimento da segurança acompanha as ideias do liberalismo.

Hoje enfrentamos desenvolvimentos mais extremos e perigosos no pensamento sobre a segurança. No curso de uma neutralização gradual da política e de rendição progressiva das tarefas tradicionais do Estado, a segurança se torna o princípio básico da atividade estatal. O que costumava estar entre várias medidas definitivas da administração pública até a primeira metade do século XX, agora se torna o único critério de legitimação política. O pensamento sobre a segurança traz em si um risco essencial. Um estado que tem a segurança como única tarefa e fonte de legitimidade é um organismo frágil; ele sempre pode ser provocado pelo terrorismo para se tornar ele mesmo terrorista.

Não devemos esquecer que a primeira grande organização de terror depois da guerra, a Organisation de l’Armée Secrète (OEA), foi criada por um general francês, que pensou em si mesmo como um patriota, convencido de que o terrorismo era a única resposta para a fenômeno da guerrilha na Argélia e na Indochina. Quando a política, na forma como foi entendida pelos teóricos da “ciência da polícia” no século XVIII, se reduz a polícia, a diferença entre o Estado e o terrorismo ameaça desaparecer. Ao final a segurança e o terrorismo podem formar um único sistema mortal, em que eles justificam e legitimam reciprocamente suas ações.

O risco não é meramente o desenvolvimento de uma cumplicidade clandestina de oponentes, mas que a busca por segurança leve a uma guerra civil mundial que faça toda convivência civil impossível. Na nova situação criada pelo fim da forma clássica de guerra entre Estados soberanos torna-se claro que a segurança encontra o seu final na globalização: ela implica a ideia de uma nova ordem planetária que é na verdade a pior de todas as desordens.

Mas há um outro perigo. Já que elas exigem constante referência a um estado de exceção, as medidas de segurança trabalham no sentido de uma despolitização crescente da sociedade. A longo prazo, elas são irreconciliáveis com a democracia.

Nada é mais importante do que uma revisão do conceito de segurança como princípio básico da política do estado. Os políticos europeus e norte-americanos finalmente têm que considerar as consequências catastróficas do uso geral acrítico desta figura de pensamento. Não é que as democracias devem deixar de se defender, mas talvez seja chegado o momento de trabalhar para a prevenção da desordem e da catástrofe, não apenas para seu controle. Ao contrário, nós podemos dizer que a política secretamente trabalha para a produção de emergências. É tarefa da política democrática prevenir o desenvolvimento das condições que levam ao ódio, ao terror e à destruição, e não se limitar às tentativas de controlá-las depois eles já aconteceram.

17 de setembro de 2001

O fim da sociedade aberta?

Terror na América - Frances Stonor Saunders sobre como a CIA tem a ganhar com a sua própria mudança

Frances Stonor Saundes

New Statesman

O ataque foi inesperado, brutalmente rápido, e "surpreendeu-nos como uma gigantesca bola de fogo dissonante na noite de nossa falsa segurança". Assim escreveu o diplomata americano David Bruce ao relembrar o ataque a Pearl Harbor em 7 de dezembro de 1941. Sua memória medonha foi revivida nesta semana, quando as torres do World Trade Center explodiram em chamas.

A comparação feita por comentadores entre os dois eventos alcançou um impacto imediato e óbvio: ambas as agressões foram de tal magnitude que ficaram gravadas na consciência nacional e sacudiram o país de sua inocência cultural (na América, a inocência cultural pode ser perdida, logo recuperada e depois perdida de novo).

Mas Pearl Harbor tinha outra lição surpreende a ser conferida. Apenas alguns meses antes do ataque aéreo japonês, o presidente Roosevelt havia se queixado de que "os informes dispersos que chegavam à sua mesa eram irremediavelmente confusos". Pearl Harbor iria fazer com que os custos desta confusão ficassem dolorosamente evidentes.

Durante as duas décadas anteriores de isolamento, os recursos da América para coletar e analisar informações sobre os governos e os exércitos de outros países haviam diminuído. A "inteligência", como tal, estava em mãos de departamentos militares que contavam com seus próprios e estreitos campos de interesses. Dentro do Serviço Exterior do Departamento de Estado (State Department Foreign Service) os diplomatas haviam retornado a seu estilo habitual, conversar com os ministros das Relações Exteriores e outros embaixadores para obter informações.

Uma consequência direta de Pearl Harbor foi a criação de una agência central de inteligência. William "Will Bill" Donovan foi o arquiteto e diretor do chamado Escritório de Estudos Estratégicos (OSS, Office of Strategic Services). Donovan destacou que a primeira preocupação da América deveria ser a defesa contra inimigos estrangeiros. O mandato, declarou seu vice (e futuro diretor da CIA) Allen Dulles, era "limpar o mundo de bandidos".

Em tempos de guerra, o Escritório de Serviços Estratégicos teve um bom desempenho, e no final de 1944, William Donovan, a pedido de Roosevelt, apresentou um memorando secreto que definia a criação de um serviço de inteligência permanente. O informe foi vazado para a imprensa pelo incansável inimigo da OSS, o diretor do FBI, Edgar J. Hoover. Sua tática foi bem sucedida. Seguiu-se um alvoroço no Congresso, e a Casa Branca ordenou que todo o assunto fosse postergado. Uma semana depois, o presidente morreu. Seu sucessor, Harry Truman, não queria fazer parte de uma Gestapo "em tempos de paz", e emitiu uma ordem de dissolução do OSS.

Depois de uma intensa campanha de William Donovan, Truman finalmente cedeu e criou o Grupo Central de Inteligência (Central Intelligence Group) em 22 de janeiro de 1946. Como o próprio nome sugere, "inteligencia" seria a função básica da agência. A Divisão de Inteligência era, e ainda é, responsável por recolher, analisar e avaliar a informação procedente de todas as fontes, assim como por elaborar relatórios de inteligência sobre qualquer país, pessoa ou situação para o presidente e para o Conselho de Segurança Nacional, o principal grupo consultivo do presidente sobre política exterior e de defesa. Toda a informação - militar, política, econômica, científica ou industrial - é grão para o moinho desta divisão. É organizado por seções geográficas servidas por especialistas residentes de quase todas as profissões e disciplinas.

Mas que inteligência neste super campus produziu ao longo dos anos? Em junho de 1950, as forças comunistas do Norte invadiram a Coréia do Sul. AA CIA não conseguiu adquirir qualquer aviso prévio desta agressão. Mais recentemente, ela não conseguiu alertar sobre o sequestro e destruição do voo 103 da Pan Am, ou os ataques a embaixadas americanas no Quênia e na Tanzânia. Talvez tenha estado ocupada demais instalando uma sucessão de regimes militares repressores liderados por neonazistas (Grécia, 1949), monarquistas ultraconservadores (Irã, 1953), ditadores com esquadrões da morte (Guatemala, 1954) ou pro-falangistas (Líbano, 1959), ao mesmo tempo que também apoiava decididamente regimes racistas tais como o Governo da África do Sul (recentes revelações demonstram que foi a CIA a primeira que entregou Nelson Mandela à policia sul-africana para que o encarcerasse). Além disso, e infringindo seu próprio estatuto, que proíbe a atividade em solo doméstico, espionou e assediou dezenas de milhares de cidadãos americanos.

Mergulhada por denúncias sucessivas de seus fracassos espetaculares, e desorientado pelo fim da guerra fria para cuja luta inicialmente havia sido criada - e cujo desenlace também não conseguiu prever -, a CIA tem lutado para manter sua credibilidade no Congresso. "Como Dorothy Parker e as coisas que ela disse, a CIA obtêm reconhecimento ou acusações tanto pelo que faz como por muitas coisas que nem sequer pensou em fazer", um agente da CIA reclamou uma vez. Pelo que deixou de pensar, agora certamente cabeças vão rolar nos mais altos níveis do incompetente serviço de inteligência da América (e isso inclui o ciumento irmão mais velho da CIA, o FBI)

Perguntado durante uma entrevista do Pentágono, na terça à tarde, se o Governo tinha qualquer ideia de que esse tipo de ataque pudesse contra alvos americano pudesse ocorrer, Donald Rumsfeld, secretário de defesa dos EUA, respondeu laconicamente: "Não discutimos questões de inteligência". Exatamente. "Sigilo", escreveu Malcolm Muggeridge em O Bosque Infernal "é tão essencial à inteligência como parâmetros e incenso para a missa..., e deve ser mantido a toda custa, independentemente se serve ou não para algo". Os civis americanos pagaram um preço alto pelo secreto que custeiam com seus salários. Civis americanos pagaram um preço muito pesado para o sigilo financiada por seus cheques de pagamento. Se as persianas estão caindo sobre a sociedade aberta, é melhor que compense.

Frances Stonor Saunders é autora de Quem pagou a conta? A CIA na guerra fria da cultura (Record, R$ 79,00)

Este artigo apareceu pela primeira vez na edição de 17 de setembro de 2001 da New Statesman, The end of the open society?

12 de setembro de 2001

Medo e repugnância na América

Hunter S. Thompson


Foi logo após o amanhecer em Woody Creek, Colorado, quando o primeiro avião atingiu o World Trade Center em Nova York na terça-feira de manhã e, como de costume, eu estava escrevendo sobre esportes. Mas não por muito tempo. O futebol parecia de repente irrelevante, em comparação com as cenas de destruição e devastação total saindo de Nova York na TV.

Até a ESPN transmitia notícias de guerra. Foi o pior desastre da história dos Estados Unidos, incluindo Pearl Harbor, o terremoto de San Francisco e provavelmente a Batalha de Antietam em 1862, quando 23.000 foram abatidos em um dia.

A batalha do World Trade Center durou cerca de 99 minutos e custou 20.000 vidas em duas horas (de acordo com estimativas não oficiais a partir da meia-noite de terça-feira). Os números finais, incluindo os do supostamente inexpugnável Pentágono, do outro lado do rio Potomac, vindos de Washington, provavelmente serão maiores. Qualquer coisa que mata 300 bombeiros treinados em duas horas é um desastre de ordem mundial.

E não foi mesmo Bombas que causou este enorme dano. Nenhum míssil nuclear foi lançado de qualquer solo estrangeiro, nenhum bombardeiro inimigo voou sobre Nova York e Washington para provocar a morte de inocentes americanos. Não. Foram quatro aviões comerciais.

Eles foram os primeiros vôos do dia da American e United Airlines, pilotados por cidadãos qualificados e leais aos EUA, e não havia nada de suspeito sobre eles quando eles decolaram de Newark, NJ, e Dulles em DC e Logan em Boston em vôos rotineiros de cross-country para a Costa Oeste com tanques de combustível totalmente cheios - que em breve explodiriam com o impacto e destruiriam completamente as mundialmente famosas Torres Gêmeas do World Trade Center de Manhattan. Estrondo! Estrondo! Bem desse jeito.

As torres se foram agora, reduzidas a escombros sangrentos, junto com todas as esperanças de Paz em Nosso Tempo, nos Estados Unidos ou em qualquer outro país. Não se engane: estamos em guerra agora - com alguém - e ficaremos em guerra com esse inimigo misterioso pelo resto de nossas vidas.

Será uma Guerra Religiosa, uma espécie de Jihad Cristã, alimentado pelo ódio religioso e liderado por fanáticos impiedosos de ambos os lados. Será guerrilha em uma escala global, sem linhas de frente e sem inimigo identificável. Osama bin Laden pode ser um primitivo "testa de ferro" - ou mesmo estar morto, pelo que sabemos -, mas quem jogou esses aviões a jato All-American carregados com combustível All-American nas Torres Gêmeas e no Pentágono fez isso com frieza e precisão arrepiante. O segundo foi uma bala certeira. Diretamente no meio do arranha-céu.

Nada - mesmo o sistema de defesa de mísseis "Star Wars", de US $ 350 bilhões, de George Bush - poderia ter evitado o ataque de terça-feira, e não custou quase nada. Menos de 20 soldados suicidas desarmados de algum país aparentemente primitivo em algum lugar do outro lado do mundo derrubaram o World Trade Center e metade do Pentágono com três ataques rápidos e sem custo em um dia. A eficiência era aterrorizante.

Vamos punir alguém por este ataque, mas quem ou o que será explodido por causa disso é difícil de dizer. Talvez o Afeganistão, talvez o Paquistão ou o Iraque, ou possivelmente todos os três ao mesmo tempo. Quem sabe? Nem mesmo os Generais, no que resta do Pentágono ou dos jornais de Nova York que pedem a guerra, parecem saber quem o fez ou onde procurá-los.

Esta vai ser uma guerra muito cara, e a vitória não é garantida - para ninguém, e certamente não para qualquer um tão confundido quanto George W. Bush. Tudo o que ele sabe é que seu pai começou a guerra há muito tempo, e que ele, o atrevido filho-presidente, foi escolhido pelo Destino e pela indústria global de petróleo para terminá-la agora. Ele declarará uma Emergência de Segurança Nacional e reprimirá Duro a Todos, não importa onde eles vivam ou por quê. Se os culpados não levantarem as mãos e confessarem, ele e os Generais o farão pela força.

Boa sorte. Ele está em um trabalho profundamente difícil - armado como ele é com nenhuma inteligência militar credível, sem testemunhas e apenas o fantasma de Bin Laden a culpar pela tragédia.

Está bem. São 24 horas mais tarde agora, e não estamos recebendo muita informação sobre os Cinco Ws desta coisa.

Os números do Pentágono são desconcertantes, como se a Censura Militar já tivesse sido imposta aos meios de comunicação. É ominoso. A única notícia na TV vem de vítimas em prantos e especuladores ignorantes.

A venda está colocada. Línguas Soltas Derrubam Navios. Não diga nada que possa dar ajuda ao Inimigo.

16 de agosto de 2001

A ocupação é a atrocidade

O que os palestinos precisam agora é uma liderança unida que toma posições e planos de ação em massa, projetadas para não voltar a Oslo, mas para avançar com a resistência e libertação.

Edward Said

Tradução / Nos Estados Unidos, onde Israel tem sua principal base política, e de quem recebeu mais de 92 bilhões de dólares em ajuda desde 1967, o atentado a bomba de quinta-feira num restaurante de Jerusalém e o desastre de segunda-feira em Haifa, ambos acontecimentos que tiveram um terrível custo humano, são rapidamente explicados dentro de um quadro já familiar: Arafat não fez o suficiente para controlar seus terroristas; extremistas suicidas islâmicos estão em toda a parte, fazendo mal a “nós” e aos nossos principais aliados, impulsionados por puro ódio; Israel, portanto, deve defender sua segurança. Um indivíduo ponderado poderá acrescentar: essas pessoas têm lutado incansavelmente por milhares de anos, de qualquer forma; a violência deve parar; os dois lados têm sofrido demais, embora a maneira como os palestinos mandam seus filhos para a batalha seja outro sinal do quanto Israel tem tido de aguentar. E então, exasperado, mas ainda assim moderado, Israel invade Jenin, cidade sem fortificações nem defesas, com tratores e tanques, destruindo vários edifícios, entre os quais os da polícia da Autoridade Palestina. Depois manda seus propagandistas dizerem que era uma mensagem para Arafat controlar seus terroristas. Enquanto isso, Arafat e seu círculo estão suplicando pela proteção norte-americana, sem dúvida se esquecendo de que Israel é o aliado que goza da maior proteção dos Estados Unidos e que tudo que vai conseguir, pela enésima vez, é apenas uma ordem para parar a violência.

O fato é que Israel praticamente já ganhou a guerra de propaganda nos Estados Unidos, país onde está para colocar vários milhões de dólares numa campanha de relações públicas (usando astros como Zubin Mehta, Yitzhak Pearlman e Amos Oz) para melhorar ainda mais sua imagem. Mas consideremos o que Israel conseguiu com sua guerra implacável contra o indefeso, basicamente desarmado e mal conduzido povo palestino. A disparidade de poder é tão grande que dá vontade de chorar. Equipados com o poder aéreo mais moderno, não só produzido como presenteado gratuitamente pelos Estados Unidos, os israelenses possuem helicópteros com canhoneiras, mísseis, incontáveis tanques e uma marinha excelente, assim como um serviço de inteligência extremamente eficiente. Ou seja, Israel é uma potência nuclear abusando de um povo sem tanques, artilharia, força aérea (sua única e patética pista de decolagem em Gaza é controlada por Israel), marinha ou exército: nenhuma das instituições de um Estado moderno. A contínua e estarrecedora história dos trinta e quatro anos de ocupação militar de terra palestina ilegalmente conquistada (a segunda mais longa da história moderna) tem se apagado da memória pública quase em toda a parte, assim como a destruição da sociedade palestina em 1948 e a expulsão de 68% da população local, da qual 4,5 milhões de pessoas continuam vivendo como refugiados nos dias de hoje. Por trás das resmas de propaganda, as características evidentes da pressão diária de Israel, por várias décadas, sobre um povo que tem como maior pecado por acaso estar vivendo lá, no meio de seu caminho, são chocantemente perceptíveis em seu sadismo desumano. O confinamento fantasticamente cruel de 1,3 milhão de pessoas, apertadas como sardinhas humanas na Faixa de Gaza, além dos quase 2 milhões de residentes palestinos da Cisjordânia, não tem paralelos nos anais do apartheid ou do colonialismo. Caças F-16 nunca foram usados para bombardear lares sul-africanos. Mas são usados contra as cidades e vilarejos palestinos. Todas as entradas e saídas são controladas por Israel (Gaza está completamente cercada por uma cerca de arame farpado), que também detém todo o fornecimento de água. Dividida em aproximadamente sessenta e três cantões não contíguos, completamente cercada e sitiada por tropas israelenses, pontuada por cento e quarenta assentamentos (muitos deles construídos durante o governo Ehud Barak), com uma rede de estradas própria, de acesso proibido aos “não judeus”, como são chamados os árabes, juntamente com outros epítetos depreciativos, como ladrões, cobras, baratas e gafanhotos, os palestinos sob ocupação, agora, foram reduzidos a 60% de desemprego e uma taxa de pobreza de 50% (metade das pessoas de Gaza e da Cisjordânia vive com menos de dois dólares por dia); eles não podem viajar de um lugar para outro; são obrigados a esperar em longas filas em postos de controle israelenses, que detêm e humilham os idosos, os doentes, os estudantes e os religiosos por horas a fio; cento e cinquenta mil de suas oliveiras e árvores cítricas foram arrancadas como punição; duas mil de suas casas, demolidas; muitos hectares de suas terras foram destruídos ou expropriados para servirem de assentamentos militares.

Desde que a Intifada da Al-Aqsa começou, no final do último setembro [de 2000], 609 palestinos foram assassinados (quatro vezes mais que as mortes de israelenses) e 15 mil feridos (doze vezes mais que do outro lado). Os assassinatos regulares realizados pelo exército israelense foram de supostos terroristas escolhidos indiscriminadamente. Na maior parte das vezes, mataram civis inocentes como moscas. Na última semana, 14 palestinos foram assassinados pelas forças israelenses que usavam mísseis e canhoneiras de helicópteros; os palestinos assassinados, portanto, foram “impedidos” de matar israelenses no futuro, apesar de, nessa ocasião, pelo menos duas crianças e cinco inocentes também terem perdido a vida, para não dizer nada sobre outros tantos civis feridos e diversos edifícios destruídos – parte do efeito colateral, de alguma forma aceitável para os israelenses. Sem nome nem rosto, as vítimas palestinas diárias de Israel raramente são mencionadas nos noticiários americanos, apesar de – por razões que eu simplesmente não consigo entender – Arafat ainda estar esperando que os americanos resgatem a si e ao seu regime em desintegração.

E isso não é tudo. O plano de Israel não é apenas manter a terra e povoá-la com colonos armados assassinos que, protegidos pelo exército, levam a destruição aos pomares, às crianças em idade escolar e aos lares palestinos; o projeto israelense é, como afirmou a pesquisadora americana Sara Roy, fazer regredir a sociedade palestina, tornar a vida impossível para a população local, com o objetivo de obrigar os palestinos a sair, a desistir de sua terra de alguma forma ou a fazer algo insano, como explodir a si mesmos. Desde 1967, líderes foram presos e deportados pelo regime de ocupação de Israel, pequenos negócios e fazendas tornaram-se inviáveis, ao serem confiscadas e simplesmente destruídas, estudantes foram impedidos de estudar, universidades foram fechadas (em meados dos anos 1980, as universidades palestinas na Cisjordânia foram fechadas por quatro anos). Nenhum agricultor ou empresário palestino pode exportar diretamente a um país árabe; seus produtos devem passar por Israel. Impostos também são pagos ao Estado israelense. Depois que o processo de paz de Oslo começou, em 1993, a ocupação foi simplesmente remodelada: apenas 18% da terra foi entregue à Autoridade Palestina liderada por Arafat, uma organização corrupta e similar ao governo Vichy, já que sua função parece ter sido somente a de policiar e cobrar impostos de seu povo para o agrado de Israel. Após oito infrutíferos e miseráveis anos desde as negociações de Oslo, arquitetadas por uma equipe americana de antigos lobistas israelenses, como Martin Indyk e Dennis Ross, Israel continua a controlar as terras, a ocupação apresentada mais eficientemente e a frase “processo de paz” criou uma aura de consagração que permite mais abusos, mais assentamentos, mais prisões e mais sofrimento palestino que antes. Incluindo um leste de Jerusalém “judaizado”, com a Orient House ocupada e seu conteúdo saqueado (como havia feito com os arquivos da OLP em Beirute, em 1982, Israel roubou os registros, títulos de terra, mapas valiosos do local), o governo israelense implantou não menos de 400 mil colonos em solo palestino. Chamá-los de espreitadores e bandidos não é um exagero.

Vale a pena lembrar que duas semanas após a visita desnecessariamente arrogante de Sharon a Haram Al-Sharif, em Jerusalém, em 28 de setembro, acompanhado de mil soldados e seguranças fornecidos pelo primeiro-ministro Barak, Israel foi condenado unanimemente por essa ação pelo Conselho de Segurança da ONU. Depois, como até mesmo uma criança poderia ter previsto, a rebelião anticolonial irrompeu, tendo como suas primeiras vítimas oito palestinos assassinados. Sharon foi levado ao poder essencialmente para “subjugar” os palestinos, dar-lhes uma lição, livrar-se deles. Seu histórico como matador de árabes data de trinta anos, antes dos massacres de Sabra e Shatila, supervisionados por suas forças em 1982 e pelos quais foi indiciado numa corte belga. Ainda assim, Arafat quer negociar com ele e chegar, talvez, a um arranjo cômodo para salvaguardar a própria Autoridade sob seu comando, que Sharon sistematicamente está desmantelando, destruindo, arrasando.

Mas ele tampouco é um bobo. A cada ato de resistência palestina, suas forças aumentavam a pressão um pouco mais, apertando cada vez mais o cerco; tomando mais terra; tornando um hábito incursões mais profundas e em maior número, em cidades palestinas como Jenin e Ramallah; cortando mais suprimentos; abertamente assassinando líderes palestinos; tornando a vida mais intolerável; redefinindo os termos das ações do seu governo, que certa vez fez “concessões generosas” enquanto “defendia” a si mesmo; que “previne” o terrorismo; que dá “segurança” a certas áreas; que “restabelece” o controle; e assim por diante. Ao mesmo tempo, ele e seus lacaios atacam e desumanizam Arafat, chegando a ponto de dizer que ele é um “arquiterrorista” (apesar de ele literalmente não poder se mover sem a permissão de Israel), e que “nós” não estamos em nenhuma guerra contra o povo palestino. Que dádiva para aquele povo! Com tal “comedimento”, por que uma invasão maciça, cuidadosamente divulgada para aterrorizar os palestinos ainda mais sadicamente, seria necessária? Israel sabe que pode retomar seus edifícios à vontade (como mostram o roubo em grande escala da Orient House de Jerusalém, assim como o de mais nove outros edifícios, escritórios, bibliotecas e arquivos, lá e em Abu Dis), da mesma maneira pela qual quase já eliminou os palestinos como povo.

Essa é a verdadeira história da pretensa “vitimização” de Israel, construída há vários meses com cuidado premeditado e má intenção. A linguagem foi separada da realidade. Não tenham pena dos inaptos governos árabes que não podem e não farão nada para deter Israel: tenham pena do povo que carrega as feridas na pele e no corpo descarnado de seus filhos, alguns dos quais acreditam no martírio como a única saída. E Israel, presa numa campanha sem futuro, agredindo a torto e a direito, sem piedade? Como disse, em 1925, James Cousins, o poeta e crítico irlandês, o colonizador está nas garras de “preocupações falsas e egoístas, que impedem que dê atenção à evolução natural de seu próprio gênio nacional, e o desvia do caminho de aberta retidão para tortuosos atalhos do pensamento, discurso e ação desonestos, na defesa artificial de uma falsa posição”. Todos os colonizadores seguiram esse caminho, sem nada aprender e sem nada que os detenha. No final, quando os israelenses deram as costas a vinte e dois anos de ocupação do Líbano, saíram de seu território, deixando para trás um povo exausto e mutilado. Se o objetivo era atender às aspirações dos judeus, por que exigiu tantas vítimas de outro povo que não tinha absolutamente nada a ver com a perseguição e o exílio judeu?

Com Arafat e companhia no comando, não há esperança. O que faz esse homem, grotescamente se refugiando no Vaticano, em Lagos e em outros lugares distintos, pleiteando, sem dignidade nem inteligência, por observadores imaginários, por ajuda árabe, por apoio internacional, em vez de ficar com seu povo, tentando ajudá-lo com suprimentos médicos, medidas para levantar seu moral e agindo como uma verdadeira liderança? O que precisamos é de uma liderança unificada, com pessoas que estejam na região, que estejam de fato resistindo, que estejam realmente com o povo e que façam parte do povo e não de burocratas gordos, que fumam charutos, que querem seus acordos de negócios preservados, que seus passes VIP sejam renovados e que perderam todo traço de decência ou credibilidade. Uma liderança unificada que tome posição e planeje ações destinadas não a promover um retorno a Oslo (pode-se imaginar a loucura dessa ideia?), mas a ir em frente com a resistência e a libertação, em vez de confundir as pessoas com conversas sobre negociações e o estúpido Plano Mitchell.

Arafat está acabado: por que não admitimos que ele não pode nem liderar, nem planejar, nem fazer nada que faça diferença, exceto para ele próprio e seus amigos de Oslo, que se beneficiaram materialmente da miséria de seu povo? Todas as pesquisas mostram que sua presença impede que qualquer avanço se torne possível. Precisamos de uma liderança unificada para tomar decisões e não simplesmente para se humilhar diante do papa e do estúpido George W. Bush, mesmo que os israelenses estejam matando nosso heroico povo impunemente. Um líder deve liderar a resistência, refletir as realidades na área, responder às necessidades de seu povo, planejar, pensar, se expor aos mesmos perigos e dificuldades que todos vivenciam. Lutar pela libertação da ocupação israelense é a posição de todo palestino que tem algum valor: Oslo não pode ser reconstituído ou reelaborado, como Arafat e companhia poderiam querer. O tempo acabou para eles, e o quanto antes fizerem as malas e se forem, melhor será para todos.

6 de junho de 2001

Por que Sharon é um criminoso de guerra

O relatório de uma testemunha ocular do massacre de Sabra e Shatila de 1982

Ben Alofs


Sou um médico holandês, vivendo atualmente no norte do País de Gales. No verão de 1982 eu trabalhava como enfermeiro em Beirute Ocidental que, à época, estava sitiado pelo exército israelense.

O negociador americano Philip Habib tinha intermediado um acordo mediante o qual o exército israelense abster-se-ia de ocupar Beirute Ocidental, depois que os fedayeens (combatentes palestinos) palestinos tivessem partido. Um segundo aspecto fundamental do acordo era que os Estados Unidos garantiriam a segurança da população civil palestina remanescente. A evacuação, supervisionada por uma força de manutenção de paz internacional, seguiu tranqüila e foi completada em 1º de setembro. Muito antes de 26 de setembro, a data que tinha sido acordada, a força de manutenção de paz internacional partiu entre 10 e 13 de setembro. No dia 3 de setembro, aconteceu a primeira violação do acordo Habib, quando as forças israelenses ocuparam Bir Hassan, na área suburbana ao sul de Beirute. Antes disso, Sharon havia afirmado que queria as forças de manutenção de paz fora de Beirute.

Depois do assassinato de Bashir Gemayel, o carismático e cruel líder dos falangistas, aliados de Israel, Ariel Sharon ordenou a invasão de Beirute Ocidental a pretexto da restauração da “lei e da ordem”. Contrariando essa afirmação, Beirute Ocidental estava perfeitamente tranquila naquele momento. A invasão foi uma séria violação do acordo Habib. Mas mais importante era que desde o início da ocupação de Beirute Ocidental, o exército israelense, sendo uma força de ocupação sob a Quarta Convenção de Genebra e o Protocolo 1, tornou-se responsável pela segurança da população civil sob seu controle.

Os jornalistas israelenses Zeev Schiff e Ehud Ya’ari descrevem como Sharon insistiu no envio de milicianos falangistas aos campos de refugiados palestinos de Sabra e Shatila [“A guerra libanesa de Israel”]. Para realizar isso, Sharon tinha tido encontros em 15 de setembro com Elie Hobeika, Fadie Frem e Zahi Bustani (líderes das milícias), assim como com Amin e Pierre Gemayel, os líderes políticos do partido falangista. Os líderes do exército israelense, Sharon incluído, estavam muito bem a par do modo de agir dos falangistas, logo depois do assassinato do seu líder. Qualquer pessoa com um conhecimento mínimo dos sentimentos dos falangistas com relação aos palestinos sabia o que iria acontecer se eles tivessem permissão para entrar nos acampamentos de refugiados.

“Tell al-Zaater” é um nome muito bem conhecido no Líbano e em Israel. Esse acampamento em Beirute Oriental, onde encontrei refugiados palestinos pela primeira vez em 1975, tinha sido sitiado durante 53 dias pelas milícias falangistas e das milícias maronitas “Tigres” no verão de 1976. Depois que os palestinos capitularam, a Cruz Vermelha Internacional, que deveria dar “salvo conduto” à população do acampamento, foi incapaz de impedir o assassinato de cerca de 1.000 civis.

Os comandantes do exército israelense Eitan, Drori e Yaron fizeram comentários sobre como os falangistas estavam obcecados de vingança, falando de um “mar de sangue” e “kasash” (palavra árabe para “golpe” ou “corte”). Quando eles fizeram essas observações, Ariel Sharon deu luz verde aos falangistas para entrar em Sabra e Shatila. Eles assim o fizeram no anoitecer de 16 de setembro.

Enquanto o massacre estava sendo cometido, eu trabalhava no hospital de Gaza em Sabra. A situação era caótica e confusa. Muitos feridos foram levados ao hospital e nossa morgue encheu dentro de pouco tempo. A maioria das vítimas sofreu ferimentos à bala, mas uns poucos foram feridos por fragmentos de balas. Em 17 de setembro ficou claro que o “kataeb” (falangistas) e/ou as milícias de Saad Haddad (fundada e armada por Israel) estavam trucidando a população civil. Um garoto de 10 anos foi levado ao hospital. Ele tinha sido atingido por um tiro, mas estava vivo. Ele passou toda a noite ferido, deitado entre os corpos mortos de seus pais, irmãos e irmãs. À noite, os assassinos foram assistidos por holofotes israelenses.

Eu estava trabalhando com uma equipe de médicos e enfermeiros ingleses, americanos, holandeses e alemães. Tínhamos insistido em que a diretoria do hospital palestino fugisse para a parte norte de Beirute Ocidental. No sábado pela manhã, 18 de setembro, fomos presos pelas milícias falangistas/Haddad. Eles nos forçaram a deixar nossos pacientes para trás e nos levaram para fora de Sabra e Shatila pela via principal. Passamos por centenas de mulheres, crianças e homens que tinham sido cercados. Vimos corpos na estrada e em pequenas passagens estreitas. Os milicianos gritavam para nós e nos chamavam de “Baader Meinhof”. Um enfermeiro palestino que julgava que ficando conosco estaria em segurança, foi identificado e levado para trás de um muro. Um momento depois vieram os tiros.

Momentos antes de alcançarmos a saída do acampamento vi uma imagem que estará para sempre em minha mente: um monte enorme de terra vermelha com braços e pernas aparecendo. Junto do monte, uma escavadeira militar com insígnias hebraicas. Um pouco fora do acampamento recebemos ordens de retirar as vestimentas hospitalares e fomos alinhados contra um muro. Foi nesse momento que um oficial do exército israelense passou num veículo militar. Ele salvou nossas vidas, ordenando aos milicianos que nos entregassem aos israelenses. Perto das fronteiras a sul a oeste dos acampamentos, vimos tanques e veículos militares israelenses.

Após uma interrogação nos quartéis militares os falangistas nos levaram para o posto de comando avançado israelense distante apenas 75 metros (250 pés). Era um edifício de quatro ou cinco andares à margem de Shatila. (Algumas semanas mais tardes eu estive no andar mais alto. Oferecia umas vistas excelentes da destruição de Shatila). Os soldados israelenses estavam visivelmente pouco à vontade, confrontados com mais de 20 europeus e americanos. Perguntaram o que queríamos. Respondemos que queríamos voltar para o hospital de Gaza. Impossível, disseram-nos, perigoso demais. Finalmente, dois de nós tiveram permissão de voltar ao hospital com um passe em hebraico e árabe.

Certamente havia uma coordenação entre os israelenses e os milicianos. O controle era na maior parte israelense. Era impossível para eles ver exatamente o que estava acontecendo nos becos estreitos de Sabra e Shatila. Mas logo que o massacre começou, soldados israelenses entraram com relatos das chacinas. Nem uma única vez o comando militar israelense tentou pôr um fim na matança. Grupos de civis, saindo dos acampamentos com bandeiras brancas, eram mandados de volta.

Até na manhã do Sábado, 18 de setembro, quando fomos retirados dos acampamentos, vimos novos grupos de falangistas entrarem nos acampamentos sob supervisão israelense. Cerca de 20 minutos depois que havíamos passado por grandes grupos de mulheres, crianças e idosos na estrada principal de Sabra, ouvimos uma orgia de fogo de metralhadoras. Swee, um médica ortopedista, disse-me que uma mãe palestina tinha tentado dar-lhe sua filhinha, como se adivinhasse o que estava prestes a acontecer. A criança foi arrebatada das mãos de Swee e devolvida à sua mãe. No Domingo, 19 de setembro, voltei a Sabra e Shatila junto com dois jornalistas, um dinamarquês e um holandês. O exército libanês havia cercado o acampamento e tentado manter fora os jornalistas. Encontramos uma entrada. Todos nós ficamos profundamente chocados com a extensão da destruição e selvageria dos assassinatos. Os israelenses tinham ordenado aos milicianos para deixarem os acampamentos em algum momento do Sábado. Estes últimos tinham conseguido provocar mais uma terrível destruição e matança depois que fomos retirados dos acampamentos na manhã do Sábado. A Defesa Civil Libanesa tinha dado início ao recolhimento dos corpos que não tinha sido enterrados pelas escavadeiras. Nunca saberemos quantas pessoas foram exatamente trucidadas durante aqueles terríveis dias 16, 17 e 18 de setembro de 1982. 1.500 talvez? 2.000? Ou até mais?

Quando as chuvas do outono começaram a cair no final de novembro, esgotos entupidos causaram alagamentos em Sabra e Shatila. O entupimento foi causado em parte pelos corpos que tinham se amontoado nos canos. Os corpos que foram recolhidos pela Defesa Civil Libanesa foram enterrados numa sepultura coletiva em Shatila. Uma grande sepultura coletiva num campo de golfe próximo, e outras sepulturas coletivas nunca iriam ser abertas. Proibidas pelo governo libanês e seu novo presidente Amin Gemayel, irmão de Bashir. O primeiro-ministro Begin disse: “Goyim mata goyim e acusam os judeus”. É evidente que Hobeika, Frem e seus bandos foram diretamente responsáveis pelo massacre. Mas isso nunca teria acontecido se Sharon voluntária e conscientemente não tivesse dado a autorização para a operação.

Sharon queria destruir os últimos remanescentes da infra-estrutura da OLP no Líbano a qualquer custo. Eu estava em Sabra e Shatila. Não havia “2.000-3.000 terroristas”, como alegou Sharon. Os únicos “terroristas” restantes foram um número de meninos de 10 a 12 anos que tentaram proteger seus familiares com pequenos rifles usados para caçar aves. Se pelo menos uma centena de fedayeens estivesse na retaguarda, nada daquilo teria acontecido.

Quando alguém põe uma serpente venenosa no berço de um bebê e o bebê morre, a responsabilidade recai diretamente sobre a pessoa que pôs a serpente no berço. Portanto, os comandantes israelenses Eitan, Dori e Yaron são diretamente responsáveis. Mas acima de todos, Ariel Sharon. Ele era o chefe. Poderia ter impedido essa tragédia. Mas ele queria expulsar os palestinos de Beirute para a Jordânia, que era “o estado palestino”, de acordo com Sharon. Deir Yassin revisitado. “Animais bípedes”, foi como Begin chamou os palestinos em 1982. Eitan falava sobre “baratas numa garrafa”. Essa desumanização dos palestinos foi e ainda é a causa do frio desprezo do exército israelense pela vida dos palestinos.

Os 400.000 israelenses que protestaram em Telavive devem ser louvados. Em Israel, pelo menos houve um inquérito sobre o massacre pela comissão Kahane. O juiz libanês de investigação Germanos, para sua vergonha, não pôde sequer determinar a identidade dos autores libaneses. As conclusões da comissão Kahane foram fatalmente invalidadas e Sharon apenas considerado indiretamente responsável e portanto inadequado para ser ministro da Defesa. Mas isso o torna adequado para ser primeiro-ministro de Israel? Como a Suprema Corte de Israel explica isso? É minha opinião, com base no que descrevi acima, que Ariel Sharon é um criminoso de guerra. Vítimas de crimes de guerra clamam por justiça. Essa é razão pela qual Augusto Pinochet deve ser processado, Radovan Karadzjic, Ratko Mladic e Slobodan Milosevic.

O assassinato de Intissar Ismael clama por justiça. Intissar Ismael era uma atraente enfermeira palestina de 19 anos com quem trabalhei no hospital Akka, em Shatila, na noite de 14 para 15 de setembro. Nosso setor estava tranqüilo e ouvíamos o rádio. O apresentador do noticiário confirmou a morte de Bashir Gemayel. Pude ver o medo no rosto de Intissar. Tentei tranqüilizá-la. Na manhã seguinte, às sete horas, deixei o hospital e tomei a estrada principal de Shatila.

De repente aeronaves militares israelenses trovejavam sobre os acampamentos a baixa altitude. No lado de fora dos acampamentos tomei um táxi para Ras Beirute. Nos cantos das ruas vi jovens libaneses. Estavam armados e olhavam em direção ao sul. O que eles estavam esperando? Seis dias mais tarde do que o planejado, voltei para o calcinado hospital Akka. O motorista de uma ambulância disse-me que Intissar tinha estado na residência das enfermeiras no departamento subterrâneo do hospital quando os falangistas entraram. Ela foi estuprada por um bando e depois assassinada. Seu corpo foi mutilado a ponto de ficar irreconhecível. Somente pelos anéis nos seus dedos seus pais puderam identificá-la.

Intissar clama por justiça. Duas mil pessoas inocentes clamam por justiça. Isso daria uma satisfação. Se Sharon – numa visita à Europa – fosse detido e transferido para a prisão de Scheveningen. Serei cínico demais quando digo que a Europa falha quando se trata de levar ao tribunal os crimes de guerra de Israel? E serei pessimista demais quando digo que Sabra e Shatila não foi nem o primeiro nem o último crime de guerra cometido por Ariel Sharon?