29 de abril de 2001

Quatro etapas do FMI para a condenação

Como crises, fracassos e sofrimento, finalmente, levaram um conselheiro presidencial para o lado errado da barricada

Greg Palast


Foi uma cena digna de Le Carré: o agente secreto chegou do frio e, após horas de relato, esvaziou a memória dos horrores cometidos em nome de uma ideologia apodrecida.

Mas o peixe era bem mais graúdo que os espiões usuais da Guerra Fria. O antigo homem do apparatchik não foi outro senão Joseph Stiglitz, ex-economista principal do Banco Mundial. A nova ordem mundial foi a teoria econômica em que medrou.

Estava em Washington para o grande conciliábulo do Banco Mundial com o Fundo Monetário Internacional. Mas agora, em vez de se sentar ao lado de ministros e banqueiros, esteve no outro lado do cordão policial. O Banco Mundial despediu Stiglitz há dois anos. Não lhe foi permitida uma reforma sossegada: foi excomungado por ter expresso leves divergências com o estilo de globalização do Banco Mundial.

Aqui em Washington, entrevistamos Stiglitz em exclusivo para The Observer e para a Newsweek sobre os os trabalhos preparatórios das reuniões do FMI, o Banco Mundial e do proprietário de 51% dos bancos norte-americanos, o Tesouro dos EUA.

Também em Washington, mas de fontes anônimas (não Stiglitz), conseguimos obter preciosos documentos com as marcas "confidencial" e "secreto".

Stiglitz ajudou-nos a traduzir um desses documentos, intitulado "estratégia de assistência ao país". Havia uma estratégia de assistência para cada nação pobre, projetada, segundo afirma o Banco Mundial, após minuciosas investigações empreendidas no terreno.

Porém, segundo o insider Stiglitz, a "investigação" do Banco Mundial pouco mais era que uma visita aos salões dos hotéis de cinco estrelas. Terminavam numa reunião com o ministro das finanças do país que pedia o empréstimo, a quem era apresentado um "acordo de ajustamento" para assinatura "voluntária".

Cada nação era analisada, afirmou Stiglitz. Depois o Banco apresentava sempre o mesmo programa em quatro etapas.

O primeiro passo era a privatização. Stiglitz comentou que, em vez objectarem contra a alienação das empresas do Estado, alguns políticos – usando os bons ofícios do Banco Mundial para silenciar os críticos – alegremente entregavam as empresas de água e de electricidade dos seus países. ‘Conseguiria ver o brilhosinho nos olhos’, quando eram mostradas as comissões por abate de alguns milhares de milhões do preço de venda.

O governo dos EUA sabia disso, acusou Stiglitz, pelo menos no caso da maior de todas as privatizações, que aconteceu em 1995 na Rússia. A posição do Tesouro dos EUA na altura foi: “Óptimo, foi para isso que quisémos a re-eleição de Yeltsin. Pouco nos importa que tenham sido umas eleições fraudulentas.”

Não é fácil descartar Stiglitz com um vulgar conspirador. O homem esteve por dentro do jogo – foi membro do gabinete de Bill Clinton e chefe do conselho dos consultores económicos da Presidência.

O que mais enfurece Stiglitz é que os oligarcas russos apoiados por Washington tenham expoliado os bens do país, reduzindo o produto nacional bruto a metade.

Após a privatização, o Segundo Passo é a liberalização do mercado de capitais. Teoricamente, isto abre a possibilidade aos capitais investidos fluirem para dentro ou para fora do país. Infelizmente, como o demonstram os casos da Indonésia e do Brasil, os capitais fluem apenas para fora.

A esta etapa, Stiglitz chama a ‘reciclagem do dinheiro quente’. O dinheiro entra para as actividades especulativas e foge à primeira brisa de perturbação. As reservas do país podem secar em questão de dias.

Quando os capitais fogem, o FMI propõe, como forma de os fazer regressar, o aumento das taxas de juro das obrigações do Tesouro do país para valores na ordem do 30%, 50% e 80%.

‘O resultado era previsível’, disse Stiglitz. Taxas de juro mais altas arrasam o valor das propriedades, esmagam a produção industrial e esvaziam o tesouro nacional.

Neste ponto, segundo Stiglitz, o FMI arrasta a nação em sufoco para o Passo Três: preços baseados no mercado – um termo arrevesado para fazer subir os preços dos alimentos, da água e do gás de cozinha. Tal conduz ao Passo Três e Meio, como era de esperar: aquilo a que Stiglitz chama ‘o êxtase do FMI’.

O êxtase do FMI é fácil de prever. Quando a nação ‘está de joelhos, o FMI chupa a última gota de sangue. Avivam o fogo até que o caldeirão expluda’, – como aconteceu em 1998 na Indonésia, altura em que o FMI eliminou os subsídios para os alimentos aos pobres. A Indonésia explodiu em tumultos.

Há mais exemplos – as revoltas na Bolívia contra o preço da água no ano passado e, já em Fevereiro deste ano, as revoltas no Equador por causa do preço do gás imposto pelo Banco Mundial. Quase adivinhava que esta revolta iria acontecer.

E assim é, de facto. O que Stiglitz não sabia é que Newsnight teve acesso a vários documentos internos do Banco Mundial. Em um deles, o relatório de progresso da Estratégia de Assistẽncia ao Equador, o Banco Mundial deixou antever repetidamente – com fria precisão – que os planos poderiam desencadear ‘convulsões sociais’.

Sem surpresa. O relatório secreto salienta que o plano de adopção do dólar dos EUA como moeda nacional colocou 51% da população abaixo do limiar da pobreza.

Os levantamentos provocados pelo IMF (manifestações pacíficas dispersas à bala, tanques e gás lacrimejante) causou também novas fugas de capital e bancarrotas do governo. Estes fogos-postos económicos têm igualmente o seu lado vantajoso – para os estrangeiros, que podem então apoderar-se dos restantes bens nacionais a preço de espólio.

Há nisto um padrão. Muitos são os perdedores, mas os vencedores inequívocos parecem ser os bancos ocidentais e o Tesouro dos EUA.

Chegamos agora ao Passo Quatro: comércio livre. Entenda-se comércio livre segundo as regras da Organização Mundial do Comércio e o Banco Mundial, organizações que Stiglitz associa às Guerras do Ópio. ‘Também estas foram feitas em nome dos mercados abertos’, afirmou. Tal como no Século XIX, os europeus e os norte-americanos de hoje estão a rebentar com as protecções aduaneiras na Ásia, América Latina e África, ao mesmo tempo que fecham as nossas fronteiras à entrada dos produtos agrícolas do Terceiro Mundo.

Na Guerra do Ópio, o Ocidente usou o bloqueio militar. Hoje, o Banco Mundial oferece o bloqueio financeiro, tão eficaz como o militar e, por vezes, quase tão mortífero.

Stiglitz levanta duas questões àcerca dos planos do FMI/Banco Mundial. Em primeiro lugar, afirma, como estes planos são delineados em segredo e submetidos a uma ideologia absolutista, nunca abrindo espaço aos dissidentes, ‘minam a democracia’. Em segundo lugar, sob a batuta da‘assistência estrutural’ à África, as receitas deste continente caíram 23%.

Haverá alguma nação que tenha escapado a este destino? Sim, afirma Stiglitz, o Botswana. O segredo? ‘ Mandou o FMI fazer as malas’.

Stiglitz propõe uma reforma agrária radical: tributação de 50% das rendas apropriadas pelos oligarcas fundiários em todo o Mundo.

Por que razão o Banco Mundial e o FMI não seguem o seu conselho?

‘Se desafiares [os priprietários fundiários], isso representaria uma alteração do poder nas elites. Não é algo de grande prioridade na agenda destes organismos.

O que levou Stiglitz a dedicar-se à sua nova missão foi o fracasso dos bancos e do Tesouro dos EUA em alterar o seu comportamento face às crises, falências e sofrimentos pepretrados pela dança monetarista em quatro passos.

‘É como na Idade Média’, disse o economista, ‘Quando o paciente morria, diziam: Bem, parece que não sangramos com rapidez suficiente. Restou algum sangue dentro dele.

Talvez seja tempo de remover os vampiros.