6 de junho de 2001

Por que Sharon é um criminoso de guerra

O relatório de uma testemunha ocular do massacre de Sabra e Shatila de 1982

Ben Alofs


Sou um médico holandês, vivendo atualmente no norte do País de Gales. No verão de 1982 eu trabalhava como enfermeiro em Beirute Ocidental que, à época, estava sitiado pelo exército israelense.

O negociador americano Philip Habib tinha intermediado um acordo mediante o qual o exército israelense abster-se-ia de ocupar Beirute Ocidental, depois que os fedayeens (combatentes palestinos) palestinos tivessem partido. Um segundo aspecto fundamental do acordo era que os Estados Unidos garantiriam a segurança da população civil palestina remanescente. A evacuação, supervisionada por uma força de manutenção de paz internacional, seguiu tranqüila e foi completada em 1º de setembro. Muito antes de 26 de setembro, a data que tinha sido acordada, a força de manutenção de paz internacional partiu entre 10 e 13 de setembro. No dia 3 de setembro, aconteceu a primeira violação do acordo Habib, quando as forças israelenses ocuparam Bir Hassan, na área suburbana ao sul de Beirute. Antes disso, Sharon havia afirmado que queria as forças de manutenção de paz fora de Beirute.

Depois do assassinato de Bashir Gemayel, o carismático e cruel líder dos falangistas, aliados de Israel, Ariel Sharon ordenou a invasão de Beirute Ocidental a pretexto da restauração da “lei e da ordem”. Contrariando essa afirmação, Beirute Ocidental estava perfeitamente tranquila naquele momento. A invasão foi uma séria violação do acordo Habib. Mas mais importante era que desde o início da ocupação de Beirute Ocidental, o exército israelense, sendo uma força de ocupação sob a Quarta Convenção de Genebra e o Protocolo 1, tornou-se responsável pela segurança da população civil sob seu controle.

Os jornalistas israelenses Zeev Schiff e Ehud Ya’ari descrevem como Sharon insistiu no envio de milicianos falangistas aos campos de refugiados palestinos de Sabra e Shatila [“A guerra libanesa de Israel”]. Para realizar isso, Sharon tinha tido encontros em 15 de setembro com Elie Hobeika, Fadie Frem e Zahi Bustani (líderes das milícias), assim como com Amin e Pierre Gemayel, os líderes políticos do partido falangista. Os líderes do exército israelense, Sharon incluído, estavam muito bem a par do modo de agir dos falangistas, logo depois do assassinato do seu líder. Qualquer pessoa com um conhecimento mínimo dos sentimentos dos falangistas com relação aos palestinos sabia o que iria acontecer se eles tivessem permissão para entrar nos acampamentos de refugiados.

“Tell al-Zaater” é um nome muito bem conhecido no Líbano e em Israel. Esse acampamento em Beirute Oriental, onde encontrei refugiados palestinos pela primeira vez em 1975, tinha sido sitiado durante 53 dias pelas milícias falangistas e das milícias maronitas “Tigres” no verão de 1976. Depois que os palestinos capitularam, a Cruz Vermelha Internacional, que deveria dar “salvo conduto” à população do acampamento, foi incapaz de impedir o assassinato de cerca de 1.000 civis.

Os comandantes do exército israelense Eitan, Drori e Yaron fizeram comentários sobre como os falangistas estavam obcecados de vingança, falando de um “mar de sangue” e “kasash” (palavra árabe para “golpe” ou “corte”). Quando eles fizeram essas observações, Ariel Sharon deu luz verde aos falangistas para entrar em Sabra e Shatila. Eles assim o fizeram no anoitecer de 16 de setembro.

Enquanto o massacre estava sendo cometido, eu trabalhava no hospital de Gaza em Sabra. A situação era caótica e confusa. Muitos feridos foram levados ao hospital e nossa morgue encheu dentro de pouco tempo. A maioria das vítimas sofreu ferimentos à bala, mas uns poucos foram feridos por fragmentos de balas. Em 17 de setembro ficou claro que o “kataeb” (falangistas) e/ou as milícias de Saad Haddad (fundada e armada por Israel) estavam trucidando a população civil. Um garoto de 10 anos foi levado ao hospital. Ele tinha sido atingido por um tiro, mas estava vivo. Ele passou toda a noite ferido, deitado entre os corpos mortos de seus pais, irmãos e irmãs. À noite, os assassinos foram assistidos por holofotes israelenses.

Eu estava trabalhando com uma equipe de médicos e enfermeiros ingleses, americanos, holandeses e alemães. Tínhamos insistido em que a diretoria do hospital palestino fugisse para a parte norte de Beirute Ocidental. No sábado pela manhã, 18 de setembro, fomos presos pelas milícias falangistas/Haddad. Eles nos forçaram a deixar nossos pacientes para trás e nos levaram para fora de Sabra e Shatila pela via principal. Passamos por centenas de mulheres, crianças e homens que tinham sido cercados. Vimos corpos na estrada e em pequenas passagens estreitas. Os milicianos gritavam para nós e nos chamavam de “Baader Meinhof”. Um enfermeiro palestino que julgava que ficando conosco estaria em segurança, foi identificado e levado para trás de um muro. Um momento depois vieram os tiros.

Momentos antes de alcançarmos a saída do acampamento vi uma imagem que estará para sempre em minha mente: um monte enorme de terra vermelha com braços e pernas aparecendo. Junto do monte, uma escavadeira militar com insígnias hebraicas. Um pouco fora do acampamento recebemos ordens de retirar as vestimentas hospitalares e fomos alinhados contra um muro. Foi nesse momento que um oficial do exército israelense passou num veículo militar. Ele salvou nossas vidas, ordenando aos milicianos que nos entregassem aos israelenses. Perto das fronteiras a sul a oeste dos acampamentos, vimos tanques e veículos militares israelenses.

Após uma interrogação nos quartéis militares os falangistas nos levaram para o posto de comando avançado israelense distante apenas 75 metros (250 pés). Era um edifício de quatro ou cinco andares à margem de Shatila. (Algumas semanas mais tardes eu estive no andar mais alto. Oferecia umas vistas excelentes da destruição de Shatila). Os soldados israelenses estavam visivelmente pouco à vontade, confrontados com mais de 20 europeus e americanos. Perguntaram o que queríamos. Respondemos que queríamos voltar para o hospital de Gaza. Impossível, disseram-nos, perigoso demais. Finalmente, dois de nós tiveram permissão de voltar ao hospital com um passe em hebraico e árabe.

Certamente havia uma coordenação entre os israelenses e os milicianos. O controle era na maior parte israelense. Era impossível para eles ver exatamente o que estava acontecendo nos becos estreitos de Sabra e Shatila. Mas logo que o massacre começou, soldados israelenses entraram com relatos das chacinas. Nem uma única vez o comando militar israelense tentou pôr um fim na matança. Grupos de civis, saindo dos acampamentos com bandeiras brancas, eram mandados de volta.

Até na manhã do Sábado, 18 de setembro, quando fomos retirados dos acampamentos, vimos novos grupos de falangistas entrarem nos acampamentos sob supervisão israelense. Cerca de 20 minutos depois que havíamos passado por grandes grupos de mulheres, crianças e idosos na estrada principal de Sabra, ouvimos uma orgia de fogo de metralhadoras. Swee, um médica ortopedista, disse-me que uma mãe palestina tinha tentado dar-lhe sua filhinha, como se adivinhasse o que estava prestes a acontecer. A criança foi arrebatada das mãos de Swee e devolvida à sua mãe. No Domingo, 19 de setembro, voltei a Sabra e Shatila junto com dois jornalistas, um dinamarquês e um holandês. O exército libanês havia cercado o acampamento e tentado manter fora os jornalistas. Encontramos uma entrada. Todos nós ficamos profundamente chocados com a extensão da destruição e selvageria dos assassinatos. Os israelenses tinham ordenado aos milicianos para deixarem os acampamentos em algum momento do Sábado. Estes últimos tinham conseguido provocar mais uma terrível destruição e matança depois que fomos retirados dos acampamentos na manhã do Sábado. A Defesa Civil Libanesa tinha dado início ao recolhimento dos corpos que não tinha sido enterrados pelas escavadeiras. Nunca saberemos quantas pessoas foram exatamente trucidadas durante aqueles terríveis dias 16, 17 e 18 de setembro de 1982. 1.500 talvez? 2.000? Ou até mais?

Quando as chuvas do outono começaram a cair no final de novembro, esgotos entupidos causaram alagamentos em Sabra e Shatila. O entupimento foi causado em parte pelos corpos que tinham se amontoado nos canos. Os corpos que foram recolhidos pela Defesa Civil Libanesa foram enterrados numa sepultura coletiva em Shatila. Uma grande sepultura coletiva num campo de golfe próximo, e outras sepulturas coletivas nunca iriam ser abertas. Proibidas pelo governo libanês e seu novo presidente Amin Gemayel, irmão de Bashir. O primeiro-ministro Begin disse: “Goyim mata goyim e acusam os judeus”. É evidente que Hobeika, Frem e seus bandos foram diretamente responsáveis pelo massacre. Mas isso nunca teria acontecido se Sharon voluntária e conscientemente não tivesse dado a autorização para a operação.

Sharon queria destruir os últimos remanescentes da infra-estrutura da OLP no Líbano a qualquer custo. Eu estava em Sabra e Shatila. Não havia “2.000-3.000 terroristas”, como alegou Sharon. Os únicos “terroristas” restantes foram um número de meninos de 10 a 12 anos que tentaram proteger seus familiares com pequenos rifles usados para caçar aves. Se pelo menos uma centena de fedayeens estivesse na retaguarda, nada daquilo teria acontecido.

Quando alguém põe uma serpente venenosa no berço de um bebê e o bebê morre, a responsabilidade recai diretamente sobre a pessoa que pôs a serpente no berço. Portanto, os comandantes israelenses Eitan, Dori e Yaron são diretamente responsáveis. Mas acima de todos, Ariel Sharon. Ele era o chefe. Poderia ter impedido essa tragédia. Mas ele queria expulsar os palestinos de Beirute para a Jordânia, que era “o estado palestino”, de acordo com Sharon. Deir Yassin revisitado. “Animais bípedes”, foi como Begin chamou os palestinos em 1982. Eitan falava sobre “baratas numa garrafa”. Essa desumanização dos palestinos foi e ainda é a causa do frio desprezo do exército israelense pela vida dos palestinos.

Os 400.000 israelenses que protestaram em Telavive devem ser louvados. Em Israel, pelo menos houve um inquérito sobre o massacre pela comissão Kahane. O juiz libanês de investigação Germanos, para sua vergonha, não pôde sequer determinar a identidade dos autores libaneses. As conclusões da comissão Kahane foram fatalmente invalidadas e Sharon apenas considerado indiretamente responsável e portanto inadequado para ser ministro da Defesa. Mas isso o torna adequado para ser primeiro-ministro de Israel? Como a Suprema Corte de Israel explica isso? É minha opinião, com base no que descrevi acima, que Ariel Sharon é um criminoso de guerra. Vítimas de crimes de guerra clamam por justiça. Essa é razão pela qual Augusto Pinochet deve ser processado, Radovan Karadzjic, Ratko Mladic e Slobodan Milosevic.

O assassinato de Intissar Ismael clama por justiça. Intissar Ismael era uma atraente enfermeira palestina de 19 anos com quem trabalhei no hospital Akka, em Shatila, na noite de 14 para 15 de setembro. Nosso setor estava tranqüilo e ouvíamos o rádio. O apresentador do noticiário confirmou a morte de Bashir Gemayel. Pude ver o medo no rosto de Intissar. Tentei tranqüilizá-la. Na manhã seguinte, às sete horas, deixei o hospital e tomei a estrada principal de Shatila.

De repente aeronaves militares israelenses trovejavam sobre os acampamentos a baixa altitude. No lado de fora dos acampamentos tomei um táxi para Ras Beirute. Nos cantos das ruas vi jovens libaneses. Estavam armados e olhavam em direção ao sul. O que eles estavam esperando? Seis dias mais tarde do que o planejado, voltei para o calcinado hospital Akka. O motorista de uma ambulância disse-me que Intissar tinha estado na residência das enfermeiras no departamento subterrâneo do hospital quando os falangistas entraram. Ela foi estuprada por um bando e depois assassinada. Seu corpo foi mutilado a ponto de ficar irreconhecível. Somente pelos anéis nos seus dedos seus pais puderam identificá-la.

Intissar clama por justiça. Duas mil pessoas inocentes clamam por justiça. Isso daria uma satisfação. Se Sharon – numa visita à Europa – fosse detido e transferido para a prisão de Scheveningen. Serei cínico demais quando digo que a Europa falha quando se trata de levar ao tribunal os crimes de guerra de Israel? E serei pessimista demais quando digo que Sabra e Shatila não foi nem o primeiro nem o último crime de guerra cometido por Ariel Sharon?

3 de junho de 2001

O verdadeiro terror de Stálin

O fim da guerra-fria tornou possível o primeiro estudo documentalmente baseado das repressões do regime soviético entre 1921 e 1953.

Rafael Poch


Durante muitos anos, pesquisadores e historiadores discutiram sobre a extensão da repressão stalinista na União Soviética; quantos foram reprimidos por motivos políticos, quantas pessoas foram executadas, quantos prisioneiros havia no sistema de campos de trabalho do Estado (GULAG), etc. Era um debate complexo por duas razões. Uma era a guerra-fria. A União Soviética era o principal inimigo do Ocidente, e no ocidente a sovietologia era, em grande medida, uma indústria intelectual ao serviço dessa guerra. A outra era a falta de evidência documental: o Estado soviético não permitia o acesso aos arquivos que continham informações sobre o aspecto mais funesto da sua história.

Tirando um zero

Essas duas razões obrigavam o estudioso a trabalhar com estimativas e impressões, com frequência muito politizadas, o que não favorecia o rigor histórico. Em muitos casos, o tema ficou em mãos de "pessoas com uma imaginação fértil", como refere o professor Moshe Lewin, um dos grandes especialistas ocidentais em história da União Soviética. Mas a guerra-fria acabou há uma década e já é hora de a propaganda dar lugar à história, e a conjectura ao documento.

Desde há dez anos que na Rússia se sabe que Stálin e o seu regime mataram muito menos do que se tinha dito. Que tenha que tirar um zero ao número de reprimidos, em milhões, não muda absolutamente nenhuma conclusão, nem altera os adjetivos.

Simplesmente, a capacidade de horrorizar-se diante de um dos grandes dramas do século XX não deveria estar em duelo com a seriedade.

Encontro o historiador Víktor Zemskov no Instituto de História da Academia de Ciências russa. Em 1989, cumprindo uma diretiva do Bureau Político de Mikhail Gorbatchov, a Academia de Ciências encarregou Zemskov de esclarecer o grande enredo das dimensões reais da repressão stalinista.

Zemskov, um homem humilde e discreto, teve pela primeira vez acesso a um dos sectores mais secretos dos arquivos do Ministério do Interior (MDV-MGB) e da polícia de Estado (OGPU-NKVD) de Stálin. Ali deparou-se com uma documentação pormenorizada e exaustiva da máquina repressora de Stálin; o GULAG, as prisões, a estatística de fuzilados, deportados, etc. Verificou-se que o Estado e os seus magarefes tratavam as contas dos seus crimes e malfeitorias com o rigor de esmerados escriturários.

Já há quase dez anos que os documentos destes arquivos falaram, mas Zemskov e as suas conclusões continuam a ser desconhecidas para o público não especializado, não só no Ocidente, como inclusive na própria Rússia.

"A mim não me convidam a falar na televisão", diz Zemskov sem o menor vislumbre de falsa modéstia, na que confessa é a sua primeira entrevista a um órgão de imprensa estrangeiro, porque ninguém se tinha interessado pelo testemunho do homem que alterou os números, não a essência, trágica e criminosa, da repressão stalinista.

Zemskov documentou que entre 1921 e 1953 foram "reprimidas" quatro milhões de pessoas. De entre elas, o regime soviético fuzilou por motivos políticos cerca de 800.000 pessoas, em concreto 799.455 pessoas. Também se pôde estabelecer que no momento culminante da repressão stalinista, o "grande terror" dos anos 1937-1938, na URSS foram efetuadas 2,5 milhões de detenções.6 Os seus números são tão impressionantes que, a seu lado, pouco importa que até agora se tenha falado de quase vinte milhões de detenções (a historiadora russa Olga Chatunóvskaia) ou de sete milhões de fuzilados, o número que apresenta Robert Conquest, o historiador ocidental mais conhecido na matéria.

Quando no verão de 1941 os alemães tomaram a cidade russa de Smolensk, conseguiram apoderar-se do arquivo local, intacto, da máquina repressora stalinista. Quando os alemães perderam a guerra, o arquivo de Smolensk passou para as mãos dos americanos. Conquest, um típico "guerreiro frio", um cruzado da guerra-fria, extrapolou os dados da repressão na região de Smolensk para todo o país, um método aceitável à falta de outros melhores, mas a evidência mostrou que as suas conclusões estavam erradas.

Face aos sete ou oito milhões de detidos em 1937-1938 baralhados por Conquest, a evidência documental fornece o número de 2,5 milhões. Os arquivos falam de 2,5 milhões de presos nos campos soviéticos em 1952, quando Conquest fala de 12 milhões, quase cinco vezes mais. O historiador ocidental estima em dois milhões os mortos nos campos no período de 1937-1938 e em sete milhões o total de mortos para o período de 1921-1953, quando a realidade documental é de 160.084 e 799.455 mortos, respectivamente. Atualmente são os números de Zemskov e já não os de Conquest, os que se baralham nas universidades.

No que respeita aos números globais, explica Zemskov, "a sovietologia ocidental afirmava que 50 ou 60 milhões haviam sido vítimas da repressão, da coletivização, da fome, etc. Em 1976, Soljenítsin disse que entre 1917 e 1959 tinham morrido 110 milhões de pessoas. A realidade é que a população do país continuou a aumentar mais de 1%, superando o crescimento demográfico de Inglaterra ou França. Em 1926 a URSS tinha 147 milhões de habitantes, em 1937, 162 milhões e em 1939, 170,5 milhões. Os censos são fiáveis, e os seus números são incompatíveis com massacres de dezenas de milhões", diz o historiador.

Coletivização e deportação

Tão pouco batem certos os números de mortos por causa da coletivização da agricultura. "Na bibliografia – diz Zemskov – dão-se números absurdos de 6 a 10 milhões, entre eles de 3 a 7 milhões na Ucrânia. Mas graças à estatística demográfica sabemos que em 1932, na Ucrânia, nasceram 782 mil pessoas e morreram 668 mil, enquanto que em 1933 nasceram 359 mil e morreram 1,3 milhões. Estes números incluem a mortalidade natural, mas está claro que a primeira causa de morte nesses anos foi a fome."

Segundo Zemskov, não se confirma a tese, tão popular na Ucrânia, de que o massacre produzido pela coletivização foi um genocídio nacional contra os ucranianos. Zemskov diz que "o Estado cometeu um crime contra todos os camponeses, independentemente da sua nacionalidade". A prova está em que "a mesma situação que se deu na Ucrânia, deu-se entre a população do Cáucaso do Norte, a região do Volga e Cazaquistão, onde houve fomes extremas. Havia que cumprir o plano confiscando parte da colheita, mas como por causa da seca não se alcançava o necessário, confiscaram toda a colheita", explica o historiador.

Algumas nacionalidades da URSS sofreram muito sob o stalinismo. 14 delas foram deportadas por inteiro e 48 parcialmente. Só entre as etnias do Cáucaso deportaram-se 650.000 pessoas em três operações militares, vigiadas por um exército de 100.000 homens, sem contar 19 mil soldados do NKVD. No entanto, a evidência não corrobora a tese de que a repressão stalinista afetou sobretudo as etnias e nacionalidades não russas. Pelo contrário sugere-se que a repressão se dirigiu sobretudo contra os setores mais instruídos da sociedade, em especial contra o próprio aparelho de Estado. Assim, a nacionalidade que proporcionalmente sofreu mais vítimas foi a letã, não tanto por razões étnicas, mas precisamente porque os letões estavam muito presentes no aparelho de estado.

Sofrimento e repressão

A estatística do GULAG era exata, explica Zemskov. "Um só caso de um preso desaparecido durante um naufrágio ou afogado (as fugas dos campos eram muito frequentes; quase 400 mil presos fugiram entre 1934 e 1953, dos quais 38% não puderam ser recapturados) dava origem a todo um dossier de documentos e correspondência. De tudo isto se informava regularmente a Stálin." Por isso há que supor que os responsáveis políticos conheciam perfeitamente as dimensões da sua repressão e dos seus fuzilamentos.

Zemskov reconhece que o conceito de "reprimido político", esse colectivo de quatro milhões de pessoas entre 1921 e 1953 que invlui os 800 mil fuzilados, pode ser discutido. O historiador aplica o conceito aos incriminados pelo artigo 58 do Código Penal ("atividade contra revolucionária e outros crimes graves contra o Estado"), e a pergunta é se essa metodologia não deixa de fora enormes colectivos que foram injustamente perseguidos.

O problema é que é muito difícil encontrar gente que não tenha sofrido e padecido no período de 1921-1953 da história da URSS, e do que se trata, explica, é de "distinguir os reprimidos políticos do sofrimento geral". O critério foi contabilizar unicamente os detidos e julgados como delinquentes políticos (o mencionado artigo 58). Isso marca uma fronteira objetiva entre aqueles que sofreram em geral, por exemplo os latifundiários, Kulaks, o clero, os capitalistas, todos eles expropriados, e todos aqueles membros, em concreto, destes grupos da população que foram condenados, encarcerados ou fuzilados. "Desta forma, se isolam os 'reprimidos políticos' daqueles que simplesmente foram vítimas das transformações sócio-econômicas, cruéis e igualitaristas, circunstância que pode aplicar-se à maioria da população da URSS, pois, de uma ou outra forma, todo o mundo sofreu; passava-se fome, vivia-se mal".

Sobre os motivos da repressão, Zemskov diz: "Do que se tratava era de desfazer-se da gente que não se enquadrava com o projeto comunista de futuro, assim como daqueles que tinham um grande instinto de preservação, ainda que formalmente não fossem culpados de nada. Era uma medida preventiva. Mólotov disse-o numa frase reveladora ao jornalista Féliks Tchuev: 'Não esperávamos que nos atraiçoassem; nós tomávamos a iniciativa e antecipávamos-nos a eles'".

A pergunta que toda esta barbárie coloca ao historiador é a de até que ponto a história russa é única desde o ponto de vista da grande mortandade política. "No que respeita à história da Inglaterra do século XVII, da França do século XVIII e da Alemanha do século XIX, a da Rússia é única no sentido de que aqui isso ocorreu no século XX, quando já existia uma economia complexa e integrada que se afundou com a revolução", responde Zemskov. "Quando H.G. Wells veio à Rússia em 1920, contemplou uma selvajaria total; desmontavam-se as linhas de estrada de ferro, não havia eletricidade e tudo se afundava, as pessoas morriam de frio e fome. E antes disso, ainda que a Rússia fosse da periferia europeia, tinha sido um país civilizado. Isto é, quanto mais civilizado é um país, tanto menos desejável é a revolução pelas terríveis consequências que esta tem", conclui. A resposta do historiador russo sugere, em resumo, que a modernidade, no que tem de capacidade técnica de matar e controlar, é o que torna Stálin mais temível que Gengis Khan. Todo um aviso para o futuro.