26 de novembro de 2003

Visão global

A mancha desumana

Por Chris Floyd

Existe um escândalo global a devorar o cerne do corpo político americano. Entre as muitas correntes de corrupção do regime Bush a correrem soltas pela nação, este escândalo é provavelmente o pior, porque acoita todos os outros e cria uma nova pestilência, novas perversões a cada instante.

Na semana passada, Maher Arar do Canadá relatou o seu calvário às mãos dos «órgãos» de segurança do Procurador Geral John Ashcroft. Ao regressar de um feriado familiar em Tunis, Arar nascido na Síria — e há dezasseis anos cidadão do Canadá — foi detido num aeroporto de Nova Iorque. Preso e interrogado sem acusações, sob alegações não especificadas de ligações não especificadas a grupos terroristas não especificados, foi então deportado sem julgamento para a Síria. Quando declarou aos polícias pátrios que seria torturado ali — a sua família estava marcada como dissidente pelo regime Baatista da Síria — os polícias responderam que o seu organismo «não era o corpo que tratava das convenções de Genebra respeitantes à tortura». Algemaram-no e enviaram-no de avião para o regime da Jordânia amigo da América; daí foi despachado pela fronteira para Damasco, relata o Washington Post .

Mas não é desse escândalo que falamos.

Durante 10 meses Arar foi mantido numa cela escura na Síria: uma «sepultura» como ele lhe chamou, um buraco escuro do tamanho de um armário cheio de urina de ratos e gatos que caía pela grelha por cima dele. Foi chicoteado frequentemente com fios eléctricos, durante semanas seguidas, mantido acordado durante dias, testemunhou e assistiu à força a torturas ainda mais requintadas a outros prisioneiros. Foi obrigado a confissões falsas. Os camaradas Baatistas de Ashcroft tinham uma história já montada que queriam que ele assinasse — Ahar tinha ido ao Afeganistão, estivera em campos de treino terroristas, conspirara até — o padrão habitual. Arar, que passara anos a trabalhar como consultor informático para uma firma de alta tecnologia sediada em Boston, não fez nenhuma destas coisas. No entanto foi chicoteado, quebrado e triturado até obedecer.

Mas não é desse escândalo que falamos.

O caso de Arar não é extraordinário. Nos últimos dois anos, os «organismos» de Bush entregaram milhares de detidos, sem culpa formada, audições ou quaisquer provas a regimes que os próprios Estados Unidos denunciam pela utilização crescente da tortura. Os homens dos «organismos» não fazem segredo de tal prática — ou do seu conhecimento de que os «devolvidos» serão espancados, queimados, drogados, violados e até mortos. "Faço isto com os olhos bem abertos", declarou um deles ao Washington Post . Detidos, incluindo residentes americanos de uma vida inteira têm sido arrancados de casa, dos negócios, de escolas, de ruas e aeroportos e enviados para fossos de tortura como a Síria, Marrocos, Egipto e Jordânia.

Mas não é desse escândalo que falamos.

Claro que os «organismos» americanos já não precisam de confiar exclusivamente nos estrangeiros para a tortura. Sob a liderança iluminada de Ashcroft, Bush, Donald Rumsfeld e outros estadistas cristãos famosos, a América já criou os seus próprios centros para aquilo que os organismos chamam «flexibilidade operacional». Isso inclui bases no Afeganistão e Diego Garcia, a ilha do Oceano Índico que foi despovoada à força para dar lugar a uma base militar americana. Aí, a CIA tem unidades de interrogatório secretas que são ainda mais restritas do que o campo de concentração americano na baía de Guantanamo. Os presos — mais uma vez — sem culpa formada, são «amaciados» com espancamentos às mãos da polícia militar e das tropas das Forças Especiais antes de serem sujeitos a técnicas de «pressão e dureza»; privação de sono (condenada oficialmente como tortura pelo governo dos Estados Unidos) desorientação física e psíquica, não permissão para tomarem medicamentos, etc. Quando os espancamentos e a «dureza» não funcionam, os detidos são então «despachados», encapuçados, amordaçados, estendidos em macas e amarrados com fita adesiva.

Mas não é desse escândalo que falamos.

Não contentes com a captura e a tortura, os «organismos» receberam autorização oficial para efectuar raids e matar à vontade «suspeitos de terrorismo» (incluindo americanos) — sem acusações, provas, supervisão ou apelação. A vida de cada cidadão americano — de todas as pessoas no mundo — está agora à mercê do seu capricho arbitrário.

Mas esse não é o escândalo de que falamos.

Todos os factos acima referidos — cada um deles violações manifestas do direito internacional e da Constituição dos Estados Unidos — foram alegremente testemunhados, já há anos, pelos homens do aparelho dos «organismos», citados em publicações habituais de alto gabarito incluindo o New York Times , The Economist , e outras. As histórias aparecem e desaparecem. Não há reacção. Nenhuma voz se levanta no Congresso ou nos tribunais — os supostos guardiões dos direitos do povo — para além de certos pedidos de uma maior formalidade no processamento dos campos de concentração ou nas «autorizações» judiciais para a tortura. E entre a grande massa do «povo» não há nada. Silêncio. Desinteresse. Indiferença. Aceitação.

Esse é o escândalo, é a vergonha aviltante da nação. Esta aceitação do terror de Estado gerará — e atrairá — mil males para cada um daqueles que supostamente impede.

Chris Floyd is an American journalist. His work has appeared in print and online in venues all over the world, including The Nation, Counterpunch, Columbia Journalism Review, the Christian Science Monitor, Il Manifesto, the Moscow Times and many others. He is the author of Empire Burlesque: High Crimes and Low Comedy in the Bush Imperium, and is co-founder and editor of the "Empire Burlesque" political blog.

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