22 de dezembro de 2003

Balas com pontas

Por Chris Floyd [*]

[TMT Metropolis] Por vezes o mais pequenos caco de vidro reflecte o brilho de toda a lua, cheia e resplandecente no céu da noite. E, de forma perfeita, uma simples notícia num jornal pouco conhecido pode revelar o espírito de toda uma era, perfurando as trevas com um súbito flash de verdade lúgubre e dolorosa.

A essência brutal da Era Bushista foi posta a nu na semana passada num local tão improvável como o Army Times , um jornal militar de propriedade de uma corporação com sede em Washington. Num artigo em que pormenoriza a efectividade de uma nova espécie de munição, o jornal — de forma não intencional, supomos — jogou fora o papel de alumínio patriótico em que é embrulhada a indústria do armamento e desvendou o "patriotismo" como aquilo que ele realmente é: extorsão, brutalidade e criminalidade, uma ganância primitiva movida por ameaças — incluindo a ameaça de voltar as suas mercadorias da morte contra os americanos que eles dizem defender.

O artigo, de John Roos, trata da controvérsia acerca de uma nova bala fabricada por uma firma do Texas, a RBCD, e distribuída pela Le Mas Ltd. de Arkansas. Como explica Roos, a nova bala de 5,56 mm da Le Mas é "partível" ("frangible") — ela "penetrará o aço e outros alvos duros mas não passará através de um torso humano". Ao invés disso, ela efectivamente explode dentro de um corpo, destruindo tecidos em todas as direcções, "criando feridas intratáveis".

A munição ainda não foi adoptada pelos militares americanos, mas está a ser utilizada por alguns dos "consultores privados de segurança" contratados pela administração Bush para rondar as ruas do Iraque ocupado. Estes mercenários não estão limitados sempre pelas leis e códigos de honra que governam as forças militares, assim são livres para efectuar quaisquer trabalhos sujos que os bushistas queiram manter fora dos registos. Eles também são livres para executaram produtivos "experimentos em campo" da nova munição sobre alvos humanos, relata o jornal.

Roos escreve acerca do pistoleiro de aluguer Ben Thomas, que trabalha para uma companhia inominável na execução de tarefas não especificadas no Iraque para o Regime Bush. Thomas entusiasticamente relata o seu primeiro assassinato com a fabulosa munição partível da Le Mas, durante o que ele afirmou ter sido uma escaramuça com iraquianos armados numa aldeia rural próxima a Bagdad. "Ela entrou no seu traseiro e destruiu completamente tudo na secção inferior esquerda do seu estômago", afirmou Thomas, com uma única bala da sua carabina M4. "Tudo foi despedaçado. Ninguém [podia] acreditar que este sujeito tivesse morrido com um tiro no traseiro".

Thomas e os seus amigos irregulares tiveram o cuidado de examinar a sua obra quando acabou o combate, explorando o recto explodido do morto para estudar os efeitos da nova bala. O veredicto? A bala é uma beleza. "Não há comparação absolutamente nenhuma seja com o que for" em relação ao pequeno dano provocado por cartuchos inferiores a 5,56 mm, afirmou Thomas. E ele deve saber, pois Roos informou que já havia "atirado em pessoas com vários tipos de munição" no seu sombrio trabalho por todo o mundo. Ele está a acumular stocks do destruidor-de-alvos da Le Mas, acrescentou, e levará uma grande quantidade para os seus amigos privatizados quando retornar a Bagdad após um breve descanso na Florida.

Mas parece que há perturbação no paraíso dos atiradores. Apesar da maravilhosa capacidade deste destruidor-de-alvos para criar feridas intratáveis — garantindo uma morte agonizante para qualquer inimigo (ou espectador inocente, ou vítima de fogo amigo, etc) — o Exército ainda não fez uma encomenda à Le Mas. Peritos do Exército dizem que os testes anteriores mostravam que a bala não provocava mais destruições significativas por cortes de tecidos do que as munições já existentes. Embora mais testes tenham sido ordenados pelos bem engraxados deputados bushistas, as altas patentes do Exército continuam com dúvidas.

Mas nenhum dono do Inferno se enfurece tanto como um comerciante de armas desprezado. Le Mas afirma que os testes efectuados pelo Exército foram irremediavelmente imperfeitos. Eles dispararam as balas para gelatina fria, ao passo que a verdadeira eficácia da munição só pode ser medida através do despedaçamento de animais vivos (ou aldeões iraquianos). Responsáveis da companhia resmungam sombriamente acerca de uma conspiração entre altas patentes do Pentágono a fim de proteger os seus próprios programas favoritos de munições. Para romper o poder desta vil cabala, Le Mas contratou o lobbyista Bil Skipper para levar o combate a Washington. E Skipper tem uma mensagem simples: por dinheiro nas nossas palmas.

"Quando ouvi acerca das características balísticas desta munição, como oficial da reserva que sou percebi que ela tem de ficar nas mãos dos bons rapazes", disse Skipper ao Army Times . "Isto é uma questão de segurança nacional".

Vamos ponderar isto por um momento. Por que será a decisão do Exército neste assunto "uma questão de segurança nacional"? É óbvio: porque se os "bons rapazes" não comprarem a munição mastigadora de tripas da Le Mas, então eles a venderão aos maus rapazes — a qualquer um que esteja disposto a pagar o preço. Não há nenhuma outra forma de interpretar a posição da firma. Se o Exército não comprar comprar esta munição isso só poderia colocar a segurança da nação em risco se a Le Mas vendesse as balas aos inimigos da América. Se eles renegassem tal possibilidade, não haveria tal risco. Mas ao invés renegá-la eles fizeram deste ponto o eixo central da sua campanha para cavar dinheiro.

Aqui vemos a "moralidade" daqueles que traficam com a morte — desde os actores recentes como a Le Mas até os gabinetes bushistas dos conselhos de administração do Carlyle Group, da Boeing Corporation dilacerada pela corrupção, da BAE britânica praguejada por escândalos e todos os outros mestres da guerra que espartilham o planeta com sangue e com aço. Despojado da grandiloquência, da retórica auto-ilusória, a sua posição (pitch) reduz-se a isto. Pague-nos para ajudar a matar os seus inimigos — ou nós ajudaremos os seus inimigos a matarem você. O dinheiro é o que importa.

Arranque a máscara do patriotismo e esta é a realidade que se vê: uma caveira com os sinais do dólar a luzirem nos lugar dos olhos.

Referências:

"1-Shot Killer," Army Times, Nov. 24, 2003
http://www.armytimes.com/story.php?f=1-292925-2426405.php

"Le Mas Ltd. Rebuttal of Blended-Metal Bullet Tests," Le Mas Ltd. website
http://www.lemasltd.com/1Shot/bDrGKrebuttal.htm

"The Privatisation of War," The Guardian, Dec. 10, 2003
http://www.guardian.co.uk/international/story/0,3604,1103566,00.html

"MoD Chief Refused to Sign e800 Million Hawk Order [With BAE]," The Guardian, Dec. 10, 2003
http://politics.guardian.co.uk/homeaffairs/story/0,11026,1103611,00.html

"Whistleblower Speaks: The Moral Sewer of Pentagon Procurement," NOW With Bill Moyers transcript, Dec. 5, 2003
http://www.pbs.org/now/transcript/transcript245_full.html

"Boeing's Pentagon Link in the Limelight," Financial Times, Dec. 7, 20003
http://news.ft.com/

"Air Force Pursued Boeing Deal Despite Concern of Rumsfeld," New York Times, Dec. 6, 2003
http://www.nytimes.com/2003/12/06/business/06BOEI.html?hp

"Boeing Has $20 Million Stake in Perle Fund", Financial Times, Dec. 3, 2003
http://news.ft.com/

"The Saudi Connection", US News, Dec. 15, 2003 edition
http://www.usnews.com/usnews/issue/031215/usnews/15terror.htm

"Britain Has Armed Both Sides in India and Pakistan Conflict", The Times, May 28, 2002-
http://www.timesonline.co.uk/article/0,,3-309678,00.html

"Settling Some Debts", Village Voice, Dec. 10, 2003
http://www.villagevoice.com/issues/0350/mondo1.php

"Carlyle: The Ex-President's Club", The Guardian, Oct. 31, 2001
http://www.guardian.co.uk/wtccrash/story/0,1300,583869,00.html

"Problems With a Globe-Trotting Father", Los Angeles Times, May 7, 2000
http://ahrc.com/old/HOAorg/Media/ma_050700_LAT_CHUBB.html

"Bush's Texas: Dark Heart of the American Dream", The Observer, June 16, 2002
http://www.observer.co.uk/magazine/story/0,11913,738196,00.html.

Chris Floyd is an American journalist. His work has appeared in print and online in venues all over the world, including The Nation, Counterpunch, Columbia Journalism Review, the Christian Science Monitor, Il Manifesto, the Moscow Times and many others. He is the author of Empire Burlesque: High Crimes and Low Comedy in the Bush Imperium, and is co-founder and editor of the "Empire Burlesque" political blog.

4 de dezembro de 2003

Brasil (1961-1964)

Introduzindo o maravilhoso mundo novo dos esquadrões da morte

William Blum

Quando os principais membros da missão diplomática dos EUA no Brasil realizaram uma reunião em um dia de março de 1964, chegaram ao consenso de que o apoio do presidente João Goulart a reformas sociais e econômicas era um veículo artificial e velado para que ele assumisse poder ditatorial.

O embaixador americano, Lincoln Gordon, informou ao Departamento de Estado que “uma investida desesperada [de Goulart] por poder totalitário poderia ser feita a qualquer momento”.

O chefe do Estado-Maior do Exército brasileiro, general Humberto de Alencar Castello Branco, forneceu à embaixada americana um memorando no qual declarou seu medo de que Goulart pretendesse fechar o Congresso e começar uma ditadura.

Dentro de uma semana após a expressão dessas preocupações, o Exército brasileiro, com Castello Branco à sua frente, depôs o governo constitucional do presidente Goulart, o ápice de um processo conspiratório no qual a embaixada americana tinha estado intimamente envolvida. O Exército começou, então, a instalar e manter por duas décadas uma das ditaduras mais brutais em toda a América do Sul.

O que podemos concluir disso? A ideia de que homens de posição e de poder mentem ao público é um lugar comum, não é digna de debate. Mas será que eles mentem tão prontamente uns aos outros? Seria sua necessidade de racionalizar seus desmandos tão grande a ponto de proverem uns aos outros um ombro moral para se recostarem?

“Homens usam pensamentos apenas para justificar suas injustiças”, escreveu Voltaire, “e discursos apenas para esconder seus pensamentos”.

A real motivação americana para apoiar o golpe era um pouco menos heroica do que preservar a democracia, sendo até mesmo mundana como questões como estas costumam ser. A oposição americana a Goulart, que se tornou presidente em 1961, baseava-se em um catálogo familiar de reclamações.

O secretário de defesa dos EUA Robert McNamara questionou a posição neutra do Brasil na política externa. O embaixador brasileiro em Washington, Roberto Campos, respondeu que “neutralidade” era um termo inadequado e explicou que “o que estava em questão era realmente um desejo profundo do povo brasileiro de afirmar a sua personalidade nos assuntos mundiais”.

As autoridades americanas não aprovaram alguns dos membros do ministério de Goulart, e disseram-no. O embaixador Campos assinalou-lhes que era “muito inadequado” para os Estados Unidos “tentar influenciar a composição do ministério”.

O procurador-geral Robert Kennedy encontrou-se com Goulart e expressou sua inquietação sobre o presidente brasileiro permitir que “comunistas” ocupassem cargos em órgãos do governo. Bobby estava presumivelmente agindo segundo uma crença norte-americana antiga e muito profunda de que, depois de aceitar um ou dois comunistas em sua sala de estar, eles assumem toda a casa e assinam a escritura em favor de Moscou.

Goulart não via isso como um perigo. Ele respondeu que tinha pleno controle da situação, comentando mais tarde com Campos que era como se lhe tivesse sido dito que não tinha capacidade para julgar os homens ao seu redor.

O adido de defesa americano no Brasil, coronel Vernon Walters, informou que Goulart mostrou favoritismo por oficiais militares “ultranacionalistas” em detrimento de oficiais “pró-EUA”. Goulart o via como promoção de oficiais que pareciam ser mais leais ao seu governo. Ele estava muito preocupado com golpes militares encorajados pelos norte-americanos e disse-o bem explicitamente ao presidente Kennedy.

Goulart considerava fazer compra de helicópteros da Polônia porque Washington estava demorando em atender a seu pedido para comprá-los dos Estados Unidos. O embaixador Gordon disse-lhe que ele “não poderia esperar que os Estados Unidos gostassem disso”.

O governo de Goulart, além disso, aprovou uma lei limitando a quantidade de lucros que multinacionais poderiam remeter para fora do país, e uma subsidiária da ITT foi nacionalizada. A indenização demorou a chegar por causa da situação financeira precária do Brasil, mas estas foram as únicas ações significativas tomadas contra os interesses corporativos norte-americanos.

Inextricavelmente entrelaçada a todas essas queixas, mas ao mesmo tempo à parte, havia a consternação de Washington com “giro à esquerda” do Brasil... a influência comunista/esquerdista no movimento sindical... “infiltração” de esquerda para onde quer que se olhasse... “antiamericanismo” entre estudantes e outros (o cônsul geral americano em São Paulo sugeriu ao Departamento de Estado que os Estados Unidos tinham de “encontrar organizações estudantis concorrentes”)... a erosão generalizada da “influência dos EUA e do poder de pessoas e de grupos amigos dos Estados Unidos”... poder-se-ia ir tão longe a ponto de sugerir que as autoridades de Washington não se sentiam amadas, se não fosse o fato de que o golpe, como bem o sabiam de muitas experiências no passado, poderia resultar apenas na intensificação do antiamericanismo em toda a América Latina.

O predecessor de Goulart, Jânio da Silva Quadros, também tinha irritado Washington. “Por que os Estados Unidos deveriam fazer comércio com a Rússia e seus satélites, mas insistem em que o Brasil faça comércio apenas com os Estados Unidos?” perguntou ele, e começou a negociar com a União Soviética e outros países comunistas para (re)estabelecer relações diplomáticas e comerciais. Ele era, em uma palavra, independente.

Quadros também foi mais ou menos um conservador que apertou o cerco duramente junto aos sindicatos, enviou tropas federais para os grotões da fome no Nordeste para enfrentar protestos e prendeu alunos desobedientes. Mas o embaixador norte-americano na época, John Moors Cabot, achou por bem questionar a participação do Brasil em uma reunião de nações “descomprometidas” (não-alinhadas). “O Brasil assinou várias obrigações com os Estados Unidos e com nações americanas”, disse ele. “Estou certo de que o Brasil não vai se esquecer de suas obrigações… Ele está comprometido. É um fato. O Brasil pode descompromissar-se, se quiser.”.

No início de 1961, pouco depois de Quadros assumir o cargo, ele foi visitado por Adolf Berle Jr., conselheiro do presidente Kennedy para assuntos latino-americanos e ex-embaixador no Brasil. Berle tinha vindo como enviado especial de Kennedy para pedir apoio de Quadros à invasão iminente da Baía de Porcos. O embaixador Cabot estava presente e alguns anos mais tarde descreveu a reunião a Peter Bell. Bell escreveu: 

O embaixador Cabot lembra-se de uma “conversa tempestuosa”, na qual Berle declarou que os Estados Unidos tinham 300 milhões de dólares de reserva para o Brasil e de fato “os tinham oferecido como um suborno” para a cooperação brasileira... Quadros ficou “visivelmente irritado” depois de Berle recusar-se a aceitar o seu terceiro “não”. Nenhuma autoridade brasileira estava no aeroporto no dia seguinte para ver o enviado partir.

Quadros, que tinha sido eleito por uma margem recorde, foi, como Goulart, acusado de tentar estabelecer uma ditadura, porque ele tentou implementar medidas impopulares à oligarquia, aos militares, e/ou aos Estados Unidos, bem como buscou uma [p. 165] política externa “pró-comunista”. Depois de apenas sete meses no cargo, repentinamente renunciou, alegadamente sob pressão militar, se não por ameaça direta. Em sua carta de renúncia, culpou por sua situação “reacionários” e “ambições de grupos de indivíduos, alguns dos quais são estrangeiros … as forças terríveis que se levantaram contra mim.”[1]

Poucos meses depois, Quadros reapareceu, para fazer um discurso em que identificou Berle, Cabot e o secretário do tesouro dos EUA Douglas Dillon como entre aqueles que tinham contribuído para sua queda. Dillon, disse ele, procurou misturar política externa com as necessidades do Brasil de crédito externo.[2] (Tanto Berle quanto Cabot tinham sido defensores da derrubada do presidente da Guatemala, Arbenz, em 1954, cujos pecados, aos olhos de Washington, eram muito idênticos aos de que Goulart era agora culpado.)[3] Ao mesmo tempo, Quadros anunciou sua intenção de liderar uma “cruzada do povo” contra “os reacionários, os corruptos e os comunistas”.[4]

Como vice-presidente de Quadros, Goulart assumiu a presidência em agosto de 1961, apesar de um golpe virtual e de guerra civil iniciada por segmentos dos militares para bloqueá-lo porque era visto como um tipo de radical perigoso. Apenas a intervenção de unidades militares legalistas e de outros apoiadores dos processos constitucionais permitiu a Goulart assumir o cargo.[5] A oposição militar a Goulart emergiu, deve-se assinalar, antes de ele ter tido a oportunidade de exibir suas alegadas tendências à ditadura.

De fato, desde 1954, os militares tinham demonstrado sua antipatia contra ele, forçando o presidente Vargas a demiti-lo de seu cargo de Ministro do Trabalho.[6] As dúvidas norte-americanas sobre Goulart também eram anteriores à sua presidência. Em 1960, quando Goulart foi eleito vice-presidente, “as preocupações do Departamento de Estado e do Pentágono tornaram-se pânico”, de acordo com uma autoridade norte-americana que servia no Brasil.[7]

Goulart tentou continuar a política externa independente de Quadros. Seu governo foi adiante com a retomada das relações com países socialistas, e em uma reunião da Organização dos Estados Americanos (OEA) em dezembro de 1961 o Brasil se absteve de uma votação para realizar uma sessão especial destinada a discutir “o problema cubano”, e posicionou-se fortemente contra sanções contra o governo de Castro.[8] Poucos meses depois, falando perante o Congresso dos EUA, Goulart afirmou o direito do Brasil de ter posição própria em algumas das questões da Guerra Fria. Ele declarou que o Brasil se identificava “com os princípios democráticos que unem os povos do Ocidente”, mas não era “parte de nenhum bloco político-militar”.[9]

A revista Time, como a maioria da mídia dos EUA, teve (tem) dificuldade em entender o conceito e a prática de independência entre os aliados norte-americanos. Em novembro de 1961, a revista escreveu que a política interna do Brasil era “confusa” e que o país “também patinava em assuntos externos. Goulart está tentando jogar o antigo jogo de Quadros de ‘independência’ internacional, que significa cortejar o Leste enquanto mendiga no Oeste”. A Time era crítica a Goulart por ter buscado um convite para visitar Washington e, no mesmo dia em que ele o recebeu, “chamou o Ministro do Exterior da Polônia comunista em visita, Adam Rapacki, [e] agraciou-o com a Ordem do Cruzeiro do Sul – a mesma comenda que Quadros colocou no mentor marxista de Cuba, Che Guevara”.[10]

O ex-editor e correspondente da Time para a América Latina, John Gerassi, comentou que todo dignitário estrangeiro em visita recebeu essa medalha, a Cruzeiro do Sul, como parte do protocolo. Ele acrescentou:

Aparentemente a Time pensa que qualquer presidente que queira visitar-nos deve necessariamente odiar nossos inimigos como consequência, e fica “confusa” sempre que isso não ocorre. Mas, é claro, a revista Timeestá tão desacostumada à palavra “independência” que uma política externa independente deve ser causar confusão de fato. Na América do Sul, onde todos gostariam de seguir uma política externa independente mas onde apenas o Brasil tem, por vezes, a coragem de segui-la, ninguém estava confuso.


Goulart, um milionário proprietário de terras e um católico que usava uma medalha da Virgem em torno de seu pescoço, não era mais comunista do que foi Quadros, e ele apoiou fortemente os Estados Unidos durante a “Crise dos Mísseis Cubanos” de outubro de 1962. Goulart ofereceu ao embaixador Gordon um brinde “À Vitória Ianque!”,[12] talvez sem saber que apenas três semanas antes, durante as eleições federais e estaduais no Brasil, o dinheiro da CIA tinha sido livremente gasto em apoio a candidatos anti-Goulart. O ex-agente da CIA Philip Agee declarou que a agência gastou entre 12 e 20 milhões de dólares em favor de centenas de candidatos.[13] Lincoln Gordon disse que o financiamento não chegou a mais de 5 milhões.[14]

Além das contribuições diretas de campanha, a CIA mergulhou em seu saco de truques sujos para atormentar as campanhas de candidatos de esquerda.[15] Ao mesmo tempo, a Agência para o Desenvolvimento Internacional (AID), a pedido expresso do presidente Kennedy, alocou verbas em projetos que visavam benefiting chosen gubernatorial candidates.[16] (Enquanto Goulart foi presidente, nenhuma nova ajuda econômica dos EUA foi dada ao governo central, enquanto a assistência regional foi fornecida em uma base marcadamente ideológica. Quando os militares tomaram o poder, esse padrão foi fortemente alterado.)[17]

Agee acrescenta que a CIA realizou uma campanha de propaganda consistente contra Goulart que datou, pelo menos, da operação das eleições de 1962 e que incluiu o financiamento de manifestações de massas urbanas, “provando que os velhos temas de Deus, Pátria, Família e Liberdade são sempre eficazes” para minar um governo.[18]

Dinheiro da CIA também encontrou o seu caminho para uma cadeia de jornais de direita, os Diários Associados, para promover o anticomunismo; para a distribuição de 50 mil livros de uma política similar para estudantes secundaristas e universitários; e para a formação de grupos de mulheres com sua especial ênfase de mãe latina sobre a impiedade do inimigo comunista. As mulheres e outros operadores da CIA também foram para o negócio da boataria, espalhando histórias sobre atrocidades que Goulart e seus companheiros deviam estar planejando, tais como alterar a Constituição para ampliar seu mandato, e fofocas sobre Goulart.[19]

Tudo isso para derrubar um homem que, em abril de 1962, tinha participado de um desfile em Nova York, foi calorosamente recebido na Casa Branca pelo presidente Kennedy e discursou em sessão conjunta do Congresso.


O confronto interno que tinha acompanhado a ascensão de Goulart ao poder aparentemente manteve sob controle os oficiais que tinham a mente voltada para um golpe até 1963. Em março daquele ano, a CIA informou a Washington, mas não a Goulart, de um complô de oficiais conservadores.[20] No curso do ano seguinte, os complôs engrossaram. Oficiais militares brasileiros não podiam respeitar as tentativas de Goulart de reformas sociais populistas, embora seu programa fosse tímido, sua retórica geralmente leve, e suas ações raramente se ajustassem a ambos. (O próprio Goulart destacou que o general Douglas MacArthur tinha realizado uma distribuição mais radical de terras no Japão após a Segunda Guerra Mundial do que qualquer coisa planejada pelo governo brasileiro.) Os militares estavam particularmente irritados com o apoio de Goulart a um enfraquecimento da disciplina militar e a suas tentativas de construir uma corrente entre os oficiais não comissionados.[21] Sobre isso, o presidente genuinamente era sério por causa de sua “paranóia” sobre um golpe.

O cortejo de Goulart em relação aos sargentos e seus apelos à população por cima de um Congresso e de governadores hostis (algo que o presidente Reagan fez mais tarde em várias ocasiões) foram o tipo de tática que seus inimigos rotularam de ditatorial.

No início de 1964, como divulgou a revista Fortune após o golpe, um emissário foi enviado por alguns dos conspiradores militares “para perguntar ao embaixador dos EUA Lincoln Gordon qual seria posição dos EUA se uma guerra civil estourasse”. O emissário “relatou de volta que Gordon estava cauteloso [p. 167] e diplomático, mas deixou a impressão de que, se os [conspiradores] pudessem manter-se por 48 horas, eles iriam obter o reconhecimento e a ajuda dos EUA”.[22]

O contato americano principal com os conspiradores era o adido de defesa Vernon Walters, que chegou ao Brasil depois de ter sido informado que o presidente Kennedy não era avesso à derrubada de João Goulart.[23] Walters, que mais tarde se tornou diretor-adjunto da CIA, tinha uma intimidade com os principais oficiais militares brasileiros, particularmente com o general Castello Branco, remontando à Segunda Guerra Mundial, quando Walters serviu como intérprete para a Força Expedicionária Brasileira, lutando então na Itália com os Aliados. O Brasil foi o único país latino-americano a enviar tropas de combate terrestre para a guerra, e isso permitiu aos Estados Unidos construírem bases de pouso para grandes aeronaves em seu território.[24] A relação entre oficiais norte-americanos e brasileiros foi mantida e reforçada depois da guerra através da criação da Escola Superior de Guerra no Rio de Janeiro, em 1949. O historiador da América Latina Thomas E. Skidmore observou:

Nos termos dos acordos militares EUA-Brasil de princípios dos anos 50, o Exército dos EUA recebeu os direitos exclusivos para prestar assistência na organização e no funcionamento da Escola, que tinha sido modelada no National War College em Washington. Em vista do fato de que a Escola Superior de Guerra brasileira se tornou um ponto de encontro para os principais adversários militares de políticos civis populistas, seria interessante examinar até que ponto a ideologia fortemente anticomunista ― chegando ao limite de uma atitude antipolítica ― [de determinados oficiais] foi reforçada (ou moderada?) por seus contatos frequentes com oficiais dos Estados Unidos.[25]

Houve, além disso, o Programa de Assistência Militar dos EUA em curso, que o embaixador Gordon descreveu como “um veículo importante para estabelecer relações estreitas com o pessoal das Forças Armadas” e “um fator muito importante para influenciar o Exército [brasileiro] a ser pró-EUA”.[26]

Uma semana antes do golpe, Castello Branco, que emergiu como o líder dos conspiradores, deu a Walters uma cópia de um papel que ele tinha escrito e que era com efeito uma justificativa para um golpe militar, uma outra variação sobre o tema da defesa da Constituição através da prevenção contra Goulart instituir uma ditadura.[27]

Para Lincoln Gordon e outras autoridades norte-americanas, uma guerra civil parecia uma possibilidade real como resultado de uma tentativa de golpe. À medida que o dia marcado se aproximava, planos de contingência foram criados.

Uma grande quantidade de petróleo seria enviada para o Brasil e disponibilizada aos oficiais insurgentes, uma mercadoria especialmente vital se os apoiadores de Goulart no sindicato estatal do petróleo planejassem explodir ou controlar as refinarias.[28]

Uma força-tarefa da Marinha dos EUA seria despachada para águas costeiras brasileiras, cuja presença passaria uma mensagem óbvia aos opositores do golpe.[29]

Armas e munições seriam enviadas para as forças de Castello Branco para cumprir suas necessidades de combate.[30]

Preocupado com a tentativa de golpe poder ser seguida de uma greve geral, Washington discutiu com Gordon a possível necessidade “de os EUA montarem um grande programa de material para garantir o sucesso da tomada de poder.”[31] Os conspiradores já tinham solicitado ajuda econômica dos Estados Unidos, no caso de seu sucesso, para colocar o governo e a economia em movimento novamente, e tinham recebido uma resposta geralmente favorável.[32]

Ao mesmo tempo, Gordon mandou mensagem a alguns governadores anti-Goulart enfatizando a necessidade, do ponto de vista norte-americano, de que o novo regime reivindicasse legitimidade. O embaixador também se reuniu com o ex-presidente Juscelino Kubitschek para instá-lo a tomar uma posição mais forte contra Goulart e usar sua considerável influência para “abalar um grande grupo parlamentar e, assim, influenciar a questão da legitimidade”.[33]

[p. 168] Entre as medidas de contingência norte-americanas, há indicações de que foi a demonstração de força naval ― que, descobriu-se, incluía um porta-aviões, destróieres e mísseis guiados ― que mais incentivou os conspiradores militares brasileiros ou convenceu aqueles que ainda hesitavam em seu compromisso.[34]

Outro ator no drama que se desenrolava foi o Instituto Americano para Desenvolvimento do Trabalho Livre (AIFLD). O AIFLD foi formalmente criado em 1961 e estava tecnicamente sob a direção do movimento operário americano (AFL-CIO), mas logo passou a ser financiado quase que exclusivamente pelo governo dos EUA (AID) e serviu consistentemente como um instrumento da CIA na maioria dos países da América Latina. Em maio de 1963, o AIFLD fundou o Instituto Cultural Trabalho no Brasil que, ao longo dos anos seguintes, ministrou cursos para mais de 7.000 líderes e membros dos sindicatos.[35] Outros brasileiros foram para os Estados Unidos para treinamento. Quando eles voltaram para o Brasil, disse o executivo AIFLD William Doherty Jr.:

alguns deles estiveram intimamente envolvidos em algumas das operações clandestinas da revolução antes de ela ter ocorrido em 1º de abril. O que aconteceu no Brasil em 1º de abril não aconteceu por acaso ― foi planejado ― e planejado com meses de antecedência. Muitos dos líderes do sindicato ― alguns dos quais foram realmente treinados em nosso instituto ― estavam envolvidos na revolução e na derrubada do regime de Goulart.[36]

Doherty não identificou quaisquer detalhes sobre o papel do AIFLD no golpe (ou revolução, como ele a chamava), apesar de a [revista] Reader’s Digest, mais tarde, ter informado que um dos líderes trabalhistas treinados pelo AIFLD criou cursos para os trabalhadores de comunicação no combate ao comunismo no movimento operário no Brasil, e “depois de cada aula, ele sutilmente alertava os principais trabalhadores de problemas por vir e instava-os a manter as comunicações em andamento, não importando o que acontecesse”.[37] Além disso, Richard Martinez, um empregado contratado da CIA que tinha sido enviado ao Brasil para trabalhar com a Agência Internacional dos Trabalhadores de Correios, Telégrafos e Telefone (antigo domínio de Doherty), revelou que seus trabalhadores de campo no Brasil queimaram a sede do Partido Comunista no momento do golpe.[38]

O golpe começou em 31 de março de 1964, com o avanço sobre o Rio de Janeiro de tropas e tanques. Oficiais obtiveram o apoio de algumas unidades de homens alistados, dizendo-lhes que estavam rumando para a cidade para protegê-la contra os inimigos de Goulart. Mas os homens alistados na principal base da Força Aérea pró-Goulart, ouvindo sobre o movimento em direção ao Rio, aproveitaram-se da base e colocaram seus oficiais sob prisão. Indecisão e má sorte intervieram, porém, e o que poderia ter revertido o rumo dos acontecimentos deu, ao contrário, em nada. Outras unidades militares leais a Goulart tomaram medidas em outros lugares, mas estas também fracassaram.[39]

Aqui e ali uma dispersão de trabalhadores entrou em greve; várias manifestações impotentes de curta duração ocorreram, mas houve apenas pouco mais do que isso. Um certo número de líderes sindicais e radicais foi recolhido sob as ordens de certos governadores; aqueles que se opunham ao que estava acontecendo não estavam preparados para uma resistência violenta; em um incidente, um grupo de estudantes fez um protesto ― alguns subiram as escadas de uma organização do Exército, mas a guarda disparou em sua direção, matando dois e obrigando os outros a descer.[40]

A maioria das pessoas contava com as Forças Armadas leais para fazer o seu dever, ou aguardava a palavra de Goulart. Goulart, no entanto, não estava disposto a dar a chamada para uma guerra civil; ele não queria ser responsável, como disse, por um derramamento de sangue entre os brasileiros e fugiu para o Uruguai.[41]

Lincoln Gordon telegrafou para Washington a boa notícia, sugerindo “evitar uma postura jubilante”. Ele descreveu o golpe como “uma grande vitória para o mundo livre”, acrescentando, em uma observação que poderia ter tido dificuldade em sair dos lábios mesmo de John Foster Dulles, que sem o golpe poderia ter havido uma “perda total para o Ocidente de todas as repúblicas sul-americanas”. Após um desfile da vitória no Rio em 2 de abril por aqueles satisfeitos com o golpe ― a Marcha da Família, com Deus, pela Liberdade ―

Gordon informou ao Departamento de Estado que a “única nota triste foi a participação obviamente limitada na marcha das classes mais baixas”.

Tendo telegrafado, o ex-professor de Harvard voltou sua atenção para tentar persuadir o Congresso Brasileiro a conferir um selo de “legitimidade” sobre o novo governo.

Dois anos mais tarde, Gordon seria questionado por um senador durante as audiências para considerar a sua nomeação como secretário de Estado para assuntos interamericanos. “Estou particularmente preocupado”, disse o senador, “com a participação que você pode ter tido, se alguma, em encorajar, promover, ou causar aquela derrubada”.

Disse Lincoln Gordon: “A resposta para isso, senador, é muito simples. O movimento que derrubou o presidente Goulart foi um movimento puramente, 100 por cento ― não 99,44 ― mas 100 por cento puramente brasileiro. Nem a embaixada americana nem eu pessoalmente tivemos qualquer participação no processo de qualquer natureza”.

O chefe de Gordon, Dean Rusk, não era mais direto. Quando perguntado sobre as acusações cubanas de que os Estados Unidos estavam por trás do golpe, o secretário de Estado respondeu: “Bem, não há um pingo de verdade nisso. Simplesmente não é isso de qualquer maneira”.

A visão do procurador-geral Robert Kennedy sobre o caso, informada a Gordon, era: “Bem, Goulart recebeu o que estava a caminho. Pena que ele não tenha seguido o conselho que lhe demos quando eu estive lá”.

Gordon arteiramente combinou conversa rápida com omissão de certos fatos-chave sobre a política brasileira ― seu resumo da ascensão e queda de Goulart não fez nenhuma menção à medida dos militares para impedi-lo de tomar posse em 1961 ― para convencer os senadores reunidos de que Goulart estava realmente procurando a criação de uma ditadura personalista.

Dependendo do contexto, “salvar Brasil da ditadura” ou “salvar o Brasil do comunismo” foi apresentado como a justificativa para o que ocorreu em 1964. (O General Andrew O’Meara, chefe do Comando Sul [América Latina] dos EUA, aceitou ambas). Ele disse a um comitê da Câmara que “a chegada ao poder do governo Castello Branco no Brasil no mês de abril passado salvou o país de uma ditadura imediata que só poderia ter sido seguida pelo domínio comunista”.

A posição de salvamento do comunismo era especialmente difícil de sustentar, pois o problema é que os comunistas no Brasil não fizeram, afinal, qualquer coisa para qual os Estados Unidos pudessem apontar. Além disso, a União Soviética estava mal na situação.

No início de 1964, informou um jornal brasileiro, o líder russo Kruschev disse ao Partido Comunista Brasileiro que o governo soviético não queria dar ajuda financeira ao regime Goulart nem entrar em desavença com os Estados Unidos pelo país. Em suas reminiscências − embora, como mencionado anteriormente, não pretendendo ser um trabalho sério de história − Kruschev não faz uma só referência no índice ao Brasil.

Um ano após o golpe, o comércio entre o Brasil e a URSS estava em US $ 120 milhões por ano e uma missão brasileira estava planejando ir a Moscou para explorar a vontade soviética de fornecer uma instalação industrial de grande dimensão. No ano seguinte, os russos convidaram o novo futuro presidente do Brasil, general Costa e Silva, a visitar a União Soviética.

Durante toda a vida da ditadura militar, estendendo-se aos anos 80, o Brasil e o bloco soviético envolveram-se em comércio extenso e em cooperação econômica, chegando a bilhões de dólares por ano e incluindo a construção de várias grandes usinas hidrelétricas no Brasil. Uma relação econômica semelhante existiu entre o bloco soviético e a ditadura militar argentina de 1976-83, tanto que em 1982, quando o líder soviético Leonid Brejnev morreu, o governo argentino declarou um dia de luto nacional.

Foi apenas por ignorar fatos como estes durante a Guerra Fria que a máquina de propaganda anticomunista dos Estados Unidos pôde pregar sobre a conspiração comunista internacional e defender que o golpe no Brasil tinha salvado o país do comunismo. Para um exemplo típico dessa propaganda, deve-se ler “O país que se salvou”, que apareceu no Reader’s Digest alguns meses depois do golpe. As inúmeras mentiras sobre o que ocorreu no Brasil, alimentadas pela revista para seus milhões de leitores, sem dúvida desempenharam um papel na preparação do público norte-americano para a cruzada anticomunista no Vietnã que apenas estava ganhando força no momento. O artigo começa assim:

Raramente uma grande nação se aproximou tanto da beira do desastre e ainda assim se recuperou como o fez o Brasil em seu triunfo recente sobre a subversão vermelha. A força comunista para a dominação − marcada pela propaganda, infiltração, terror − estava se movendo em alta velocidade. Rendição total parecia iminente − e, então, o povo disse: Não![42]

O tipo de independência mostrada pelo governo militar brasileiro em suas relações econômicas com a União Soviética era algo que Washington poderia aceitar de um governo conservador, mesmo a nacionalização ocasional de propriedade norte-americana, enquanto soubesse que poderia confiar que o governo manteria a esquerda reprimida em casa e ajudaria nas campanhas vitais anticomunistas da Guerra Fria no exterior. Em 1965, o Brasil enviou 1.100 soldados para a República Dominicana, em apoio à invasão dos EUA, o único país da América Latina a enviar mais do que uma força simbólica. E em 1971 e 1973, o Exército brasileiro e os aparelhos de inteligência contribuíram com os esforços norte-americanos para derrubar os governos da Bolívia e do Chile.


Os Estados Unidos não descansaram sobre seus louros. A sede da CIA imediatamente começou a gerar propaganda de alcance hemisférico, como apenas a rede de imprensa de longo alcance da agência poderia, em apoio ao novo governo brasileiro e para desacreditar Goulart. Dean Rusk, preocupado com que Goulart pudesse ser recebido no Uruguai como se ele ainda fosse o presidente do Brasil, alegando que ele não tinha renunciado, telegrafou à embaixada americana em Montevidéu dizendo que “seria útil se pudessem sem alarde chamar a atenção das autoridades competentes para o fato de que, apesar de suas alegações em contrário, Goulart abandonou seu cargo”.[43]

Ao mesmo tempo, o escritório da CIA no Uruguai lançou um programa de vigilância dos exilados brasileiros que fugiram do golpe militar, para impedi-los de instigar qualquer tipo de movimento de insurgência em sua terra natal. Era uma simples questão de a agência pedir ao seu amigo (pago), o chefe de inteligência do Uruguai, que colocasse seus oficiais nas residências de Goulart e de outros brasileiros-chave. Os policiais mantiveram registros de visitantes, enquanto se faziam de homens de segurança pessoal para os exilados, embora seja pouco provável que os exilados tenham engolido a história.[44]

Nos primeiros dias após o golpe, “alguns milhares” de brasileiros foram presos, todos “comunistas e suspeitos de serem comunistas”.[45] Graduados da AIFLD foram prontamente nomeados pelo novo governo para purgar os sindicatos.[46] Embora o embaixador Gordon tivesse assegurado ao Departamento de Estado antes do golpe que as Forças Armadas “seriam rápidas para restaurar as instituições constitucionais e devolver o poder para as mãos de civis,”[47] isso não aconteceu. Em poucos dias, o general Castello Branco assumiu a presidência e ao longo dos anos seguintes de seu regime instituiu todas as características de ditadura militar que a América Latina chegou a conhecer e amar: o Congresso foi fechado, a oposição política foi reduzida à extinção virtual, habeas corpus para “crimes políticos” foi suspenso, a crítica ao presidente foi proibida por lei, os sindicatos trabalhistas foram assumidos por interventores do governo, protestos em organização foram dispersados pela polícia e por militares atirando em multidões, o uso de “desaparecimento” sistemático como uma forma de repressão chegou ao palco da América Latina, casas dos camponeses foram queimadas, os sacerdotes foram brutalizados … o governo tinha um nome para seu programa: a “reabilitação moral” [p. 171] do Brasil … em seguida, houve a tortura e os esquadrões da morte, ambos grandes empreendimentos da polícia e dos militares, ambos subscritos pelos Estados Unidos.[48]

Nos capítulos sobre a Guatemala e Uruguai, veremos como o Departamento de Segurança Pública dos EUA (OPS), a CIA e a AID combinaram para fornecer o treinamento técnico, o equipamento e a doutrinação que sustentavam os horrores nesses países. Não era diferente no Brasil. Dan Mitrione, do OPS, que vamos encontrar em sua plenitude como torturador no Uruguai, começou sua carreira no Brasil na década de 1960. Por volta de 1969, o OPS tinha estabelecido uma força policial nacional para o Brasil e tinha treinado mais de 100.000 policiais no país, além de 523 que receberam instrução mais avançada nos Estados Unidos.[49] Cerca de um terço do tempo dos alunos nas academias de polícia foi dedicado a palestras sobre a “ameaça comunista” e a necessidade de lutar contra ela.[50] A “escola de bomba” e técnicas de controle de tumultos foram outros aspectos importantes da sua educação.

Torturas vão desde golpes simples mas brutais de um cassetete a choques elétricos. Muitas vezes a tortura é mais refinada: a extremidade de uma cânula é introduzida no ânus de um homem nu pendurado para baixo, suspenso sobre o pau de arara, e um pedaço de algodão embebido em gasolina é posto na outra extremidade da cânula. As mulheres grávidas têm sido forçadas a assistir seus maridos serem torturados. Outras esposas foram penduradas nuas ao lado de seus maridos e receberam choques elétricos nos seus órgãos sexuais, enquanto submetidas ao pior tipo de obscenidades. As crianças foram torturadas diante de seus pais e vice-versa. Há relato de pelo menos uma criança, o bebê de três meses de idade de Virgilio Gomes da Silva, ter morrido sob tortura policial. A duração das sessões depende da capacidade de resistência das vítimas e, por vezes, prolongou-se por vários dias em seguida. 
Anistia Internacional[51] 
O juiz Agamenon Duarte indicou que o CCC [Commando de Caça a Comunistas, um esquadrão da morte armado e auxiliado pela polícia] e a CIA estão envolvidos no assassinato do padre Henrique Neto. Ele admitiu que … o Serviço Secreto Americano (CIA) estava por trás do CCC. 
Jornal do Brasil[52]

Chefe do Estado-Maior do Exército brasileiro, general Breno Borges Forte, na 10ª Conferência de Exércitos Americanos, em 1973:

O inimigo é indefinido... adapta-se a qualquer ambiente e usa todos os meios, tanto lícitos quanto ilícitos, para atingir os seus objetivos. Ele se disfarça como um padre, um estudante ou um camponês, como um defensor da democracia ou um intelectual avançado, como uma alma piedosa ou como um manifestante extremista, que vai para os campos e as escolas, as fábricas e as igrejas, as universidades e a magistratura; se necessário, vai usar um traje uniforme ou civil; em suma, vai assumir em qualquer papel que considere adequado para enganar, mentir e levar na boa-fé dos povos ocidentais.[53]

Em 1970, um grupo de estudo do Congresso dos EUA visitou o Brasil. Deu este resumo de declarações aos conselheiros militares norte-americanos lá:

Em vez de debruçar sobre os aspectos autoritários do regime, eles enfatizam afirmações pelas Forças Armadas brasileiras de que eles acreditam (e apoiam) a democracia representativa como um ideal e devolveriam o governo para o controle civil se isso pudesse ser feito sem sacrifício para a segurança e para o desenvolvimento. Essa retirada da arena política não é vista como ocorrendo em um futuro próximo. Por essa razão, eles enfatizam a importância da continuidade do programa de treinamento de assistência militar como um meio de exercer a influência dos EUA e manter a atual atitude pró-EUA das Forças Armadas brasileiras. As possíveis desvantagens para os interesses dos EUA de serem tão estreitamente identificados com um regime autoritário não são vistas como particularmente importantes.[54]

A CIA nunca descansa... O New York Times informa em 1966:

Quando a CIA ficou sabendo, no ano passado, que um jovem brasileiro tinha sido morto em 1963, supostamente em um acidente de automóvel, enquanto estudava com uma bolsa de estudos na Universidade de Lumumba em Moscou, ela montou uma campanha de publicidade maciça para desencorajar outras famílias sul-americanas a enviarem seus jovens para a União Soviética.[55]

Notas:

[1] 14. Gerassi, p. 84.

[2] 15. New York Times, 16 de março de 1962, p. 7.

[3] 16. Stephen Schlesinger e Stephen Kinzer, Fruto Amargo: A História Não Contada do Golpe Estadunidense na Guatemala (Doubleday & Co., New York, 1982) pp, 103-4, 108.

[4] 17. New York Times, 16 de março de 1962, p. 7.

[5] 18. Gerassi, pp. 84-8.

[6] 19. Thomas E. Skidmore, Política no Brasil, 1930-1964: Um Experimento em Democracia (Oxford University Press, New York, 1967) p. 130; Gerassi, pp. 80-81.

[7] 20. Jan Knippers Black, Penetração dos Estados Unidos no Brasil (University of Pennsylvania Press, Philadelphia, 1977), p.40: as palavras citadas são de Black, baseadas na entrevista dela com o Tenente-Coronel Edward L. King, membro da Comissão Conjunta de Defesa Brasil-Estados Unidos na segunda metade dos anos 1960; ver também Bell, p. 83 no tocante a dúvidas dos Estados Unidos acerca de Goulart desde o começo da presidência dele.

[8] 21. Arthur Schlesinger, Mil Dias (Boston, 1965) pp. 780-2; New York Times, 5 de dezembro de 1961, p. 11.

[9] 22. New York Times, 5 de abril de 1962, p. 3.

[10] 23. Time, 3 de novembro de 1961, p. 29.

[11] 24. Gerassi, pp. 83, 88.

[12] 25. Parker, p. 29, entrevista com Gordon, 19 de janeiro de 1976.

[13] 26. Philip Agee, Dentro da Companhia: Diário da CIA (New York, 1975) p. 321.

[14] 27. Parker, p. 27.

[15] 28. A. J. Langguth, Terrores Ocultos (New York, 1978) p. 92; Langguth trabalhara no New York Times e em 1965 atuara como Chefe do Bureau de Saigon para aquele jornal.

[16] 29. Parker, p. 26, memorando do Presidente Kennedy para o administrador da AID Fowler Hamilton, 5 de fevereiro de 1962.

[17] 30. Ibid., pp. 87-97.

[18] 31. Agee, p. 362.

[19] 32. Langguth, pp. 77, 89-90, 92, 108.

[20] 33. Parker, p. 40.

[21] 34. Para o mais importante incidente/exemplo disso ver a descrição do motim da Marinha em Skidmore, pp. 296-7.

[22] 35. Philip Siekman, "Quando Executivos se Tornaram Revolucionários", revista Fortune (New York), setembro de 1964, p. 214.

[23] 36. Parker, p. 63, entrevista com Walters.

[24] 37. Langguth, pp. 61-2, 98; Washington Post, 5 de fevereiro de 1968, p. 1.

[25] 38. Skidmore, p. 330; ver também James Kohl e John Litt, Guerra de Guerrilha Urbana na América Latina (The MIT Press, Cambridge, Mass., 1974) p. 39 para discussão adicional do forte viés pró-Estados Unidos antiesquerdista do programa da faculdade.

[26] 39. Parker, p. 98, telegrama ao Departamento de Estado, 4 de março de 1964. Nesta e nas citações seguintes de telegramas, artigos e preposições faltantes foram inseridos por mor de legibilidade. Para discussão adicional da proximidade de oficiais militares dos Estados Unidos e Brasil e presumível influência sobre os últimos em termos de linhas anticomunistas e favoráveis aos Estados Unidos, ver: a) Langguth, pp. 94-6, 162-70; b) Black, capítulos 9 e 10; c) Michael Klare, Guerra Sem Fim (New York, 1972) capítulo 10; d) Alfred Stepan, A Instituição Militar na Política: Mudança de Padrões no Brasil (Princeton University Press, New Jersey, 1971, um estudo da RAND Corp.) pp. 123-33.

[27] 40. Parker, p. 65.

[28] 41. Ibid., p. 68.

[29] 42. Ibid., pp. 68-9.

[30] 43. Ibid., p. 74.

[31] 44. Ibid., p. 75, teletipo, Washington à Embaixada Estadunidense no Brasil, 31 de março de 1964.

[32] 45. Ibid., p. 68.

[33] 46. Ibid., pp. 74, 77.

[34] 47. Ibid., pp. 72, 75-6; ver também a declaração do Coronel do Exército Brasileiro Pedro Paulo de Baruna, exilado pela junta, acerca do efeito da força naval sobre o pensamento de Castelo Branco; Warner Poelchau, ed., White Paper, Whitewash (New York, 1981) p. 51.

[35] 48. Pesquisa da Aliança para o Progresso: Políticas e Programas Trabalhistas, Relatório de Equipe da Comissão de Relações Exteriores do Senado dos Estados Unidos, Subcomissão de Assuntos de Repúblicas Americanas, 15 de julho de 1968, página 53; os antecedentes do AIFLD podem ser encontrados em páginas anteriores desse relatório; ver também Black, capítulo 6.

[36] 49. Relatório do Senado dos Estados Unidos citados na nota anterior, página 14, fazendo citação a partir de um programa de rádio no qual Doherty tomou parte.

[37] 50. Eugene Methvin, "A Nova Arma do Trabalho para a Democracia", Reader's Digest, outubro de 1966, p. 28.

[38] 51. Poelchau, pp. 47-51.

[39] 52. Langguth, pp. 110, 113; Washington Post, 2 abril de 1964, p. 23.

[40] 53. Langguth, pp. 112-13.

[41] 54. Ibid., p. 113; Washington Post, 3 de abril de 1964, p. 17

[42] 66. Reader's Digest, novembro de 1964, pp. 135-58.

[43] 68. Parker, pp. 85-6.

[44] 69. Agee, pp. 364-5.

[45] 70. New York Times, 6 de abril de 1964, p. 1.

[46] 71. Reader's Digest, outubro de 1966, op. cit.

[47] 72. Parker, p. 59.

[48] 73. Os representantes do governo Branco e da conexão com Washington:

a) Penny Lernoux, Grito do Povo: A Luta por Direitos Humanos na América Latina -- A Igreja Católica em Conflito com a Política dos Estados Unidos (Penguin Books, London, 1982) pp. 166-75, 313-32, e alhures.

b) Langguth, capítulos 4, 5 e 7 e alhures.

c) Tortura e Opressão no Brasil, Audiência perante a Subcomissão de Organizações e Movimentos Internacionais da Comissão de Assuntos Externos da Câmara, 11 de dezembro de 1974; inclui depoimentos de e acerca de vítimas de tortura e republicações de artigos da imprensa dos Estados Unidos.

d) Noam Chomsky e Edward Herman, A Conexão Washington e o Fascismo no Terceiro Mundo (Boston, 1979) ver Índice.

[49] 74. Agência de Desenvolvimento Internacional (AID), Programa e Projeto Apresentação de Dados ao Congressso para o ano fiscal de 1971, p. 26.

[50] 75. Langguth, p. 94; Poelchau, p. 65, entrevista de Langguth.

[51] 76. Anistia Internacional, Relatório acerca de Alegações de Tortura no Brasil (London, 1974) p. 40.

[52] 77. Jornal do Brasil, 25 de maio de 1972, citado em Anistia Internacional, op. cit., p. 49.

[53] 78. Lawrence Weschler, Um Milagre, Um Universo: Acerto de Contas com Torturadores (Penguin Books, New York, 1991), p. 122.

[54] 79. Missão de Estudo Especial na América Latina acerca de Treinamento de Assistência Militar, Relatório da Comissão de Assuntos Exteriores da Câmara, 1970.

[55] 80. New York Times, 27 de abril de 1966, p. 28.