31 de dezembro de 2005

A cena conclusiva: Mao e as Guardas Vermelhas em 1968

Alessandro Russo

positions: east asia cultures critique

Tradução / Nas primeiras horas do dia 28 de julho de 1968, algumas das figuras mais famosas da turbulência subjetiva que nos dois anos anteriores havia definido as condições fundamentais da política chinesa – as Guardas Vermelhas e os líderes maoistas – se encontraram numa longa e dramática reunião cara a cara, transcrita de modo tão deliberadamente meticuloso que mesmo as entonações emocionais do diálogo foram registradas.[1] O resultado, graças a escrivães dotados de uma cultura literária notável (provavelmente um ou mais dos secretários de Mao), é muito mais do que apenas o registro dos procedimentos da reunião. Poder-se-ia dizer que, mais do que uma ata, esses registros são uma peça teatral cujos “autores” são os próprios “personagens”. Esses personagens eram figuras subjetivas que se encontraram no momento final da situação política em que a existência deles estava enraizada. Já que, a partir do dia seguinte, a situação seria completamente diferente – as Guardas Vermelhas já não existiriam como organizações independentes e, nos meses seguintes, elas seriam dissolvidas, com consequências que inevitavelmente ricocheteariam em Mao e seus aliados.

A reunião ocorreu num salão em Zhongnanhai (中南海), o pequeno lago no centro de Pequim em torno do qual se situam os quartéis-generais do Partido-Estado. De um lado, estavam Mao e o Grupo Central da Revolução Cultural (GCRC) – o pequeno grupo de líderes centrais que permanecera politicamente ativo nos dois anos precedentes (a maior parte do alto escalão do Partido-Estado estava paralisada desde o verão de 1966). Do outro lado, estavam os cinco líderes mais importantes das Guardas Vermelhas das universidades de Pequim. O principal assunto da reunião eram as consequências da exaustão política das Guardas Vermelhas. Em agosto de 1966, elas haviam sido saudadas como “novas formas de organização criadas pelo povo”, que teriam um “caráter permanente” de inovação institucional e política (como declarado da Decisão do CCPC de 8 de agosto de 1966, também chamada “Decisão em Dezesseis Pontos”, o principal documento programático da Revolução Cultural[2]). No entanto, especialmente durante o último ano, elas haviam se decomposto em pequenos grupos paramilitares carentes de qualquer distinção política, engajados em brigas cada vez mais grotescas para estabelecer a supremacia absoluta de suas próprias facções.

Nos meses anteriores, a maioria dos militantes, confusos com a crise política de suas organizações, havia abandonado qualquer forma de ativismo e engrossado as fileiras da chamada facção dos desengajados (逍遥派xiaoyaopai), que na verdade não era uma facção real. Por outro lado, quanto mais o número de militantes diminuía, mais os confrontos se tornavam violentos em alguns campi de Pequim, particularmente no da Universidade Qinghua, onde os linhas-duras de duas facções (alguns milhares de pessoas, no total) continuavam a lutar com armas rudimentares, porém mortais.

No dia anterior, 27 de julho, por iniciativa de Mao e dando seguimento a grandes reuniões em diversas fábricas, dezenas de milhares de trabalhadores desarmados ocuparam pacificamente o campus de Qinghua e, gritando palavras de ordem contrárias ao conflito armado, se puseram entre as duas facções de Guardas Vermelhas para cessar a briga.[3] Os trabalhadores foram atacados violentamente pelos estudantes (cinco trabalhadores foram assassinados e centenas ficaram feridos), mas, com um extraordinário senso de autodisciplina, sua única reação foi continuar a gritar as palavras de ordem contra o conflito armado. Finalmente, os trabalhadores conseguiram desarmar as duas facções e ocupar lugares-chave do campus. No momento da reunião em Zhongnanhai – que começou às 3 da madrugada e durou até as 8 da manhã (o horário de trabalho favorito de Mao e de outros líderes chineses) – a batalha de Qinghua acabara de acabar.

A excepcional condição arquivística da transcrição da reunião, que permite um olhar próximo daquele evento, cristaliza um tipo singular de intervenção política. O próprio Mao demandou a gravação e decidiu distribuir seu conteúdo em larga escala, por motivos que ele explicitou para os próprios líderes da Guarda Vermelha: “Eu deixo a gravação e, antes de tudo, vocês vão debater, conversar. Esta gravação vai permitir que as pessoas nos escutem muitas vezes sem mudar o conteúdo da reunião, e assim possam fazer quantas reuniões precisarem”[4]

A questão em jogo era lidar politicamente com o fim da sequência de eventos iniciada dois anos antes. A difusão pública dos termos exatos daquela reunião – ocorrida no ápice de um mês marcado por iniciativas cruciais do Grupo Central da Revolução Cultural (julho de 1968 é um mês decisivo no período que vai de 1966 a 1976) – foi considerada, portanto, essencial para o sucesso das iniciativas de Mao.

A Mão Oculta e as Guardas Vermelhas

A precisão, portanto, era um pré-requisito, mas não era a única qualidade do documento. Sensível aos detalhes subjetivos, a transcrição é, desde as primeiras frases, um registro preciso das várias declarações e interações recíprocas entre os participantes[5]. Embora merecesse ser reproduzida na íntegra, ao menos algumas passagens dessa longa e densa peça de “teatro documental” devem ser aqui extensivamente citadas. Seguir as tramas dos diálogos é uma boa introdução aos emaranhados da questão. Aqui está o ponto de partida do documento, testemunha e, ao mesmo tempo, parte integrante dessa cena conclusiva.

Nie Yuanzi, eu [Han Aijing], Tan Houlan e Wang Dabin chegamos um após o outro, nos sentamos para esperar (…). Andando até a entrada, logo vi que o Presidente Mao, acompanhado pela liderança central, já estavam à porta para nos receber. Nós avançamos apressados, o Presidente Mao também andou um pouco à frente, muito entusiasmadamente nós apertamos a mão do Presidente (…). 
Presidente Mao: Todos tão jovens! 
O Presidente apertou a mão do camarada Huang Zuozhen [um líder militar] e falou: Você é Huang Zuozhen? Eu nunca tinha te visto antes; você não foi morto? (…) 
Jiang Qing [se dirigindo aos quatro líderes das guardas vermelhas]: Quanto tempo não nos vemos! Ultimamente vocês não têm colado cartazes. 
Presidente Mao [se dirigindo às guardas vermelhas): Nós nos encontramos só em Tiananmen [no verão de 1966], mas não conversamos. Isso não está certo. Vocês são do tipo que só vão ao Palácio Triratna quando é assunto de vida ou morte [wu shi bu deng sanbaodian 无事不登三宝殿, “vocês nunca entram em contato com o poder central”]; mas eu li todos os seus jornais e panfletos e entendo toda a situação. Kuai Dafu [outro líder estudantil] não veio. Ele não pôde ou não quis vir? 
Xie Fuzhi [vice-premiê]: Temo que ele não quis vir. 
Han Aijing: Impossível. Ele com certeza viria para uma reunião com as a liderança da Revolução Cultural. Se ele não pudesse vir ver o Presidente Mao ele choraria! Com certeza não conseguiu vir.[6]

Com exceção de Nie Yuanzi (uma professora do Departamento de Filosofia da Universidade de Pequim e autora do célebre “primeiro dazibao Marxista Leninista” da Revolução Cultural), que tinha mais de 40 anos, todos os outros líderes das guarda vermelhas que estavam na reunião tinham por volta de 20 anos. Mao, aos 75 anos de idade, ao se encontrar com o grupo e cumprimentá-lo, começa com “Todos tão jovens!”, quase surpreso com algo de que sem dúvida ele estava ciente, mas que, mesmo assim, deveria ser levado em consideração ao dirigir-se a eles. O “Palácio Triratna” (Sanbaodian 三宝殿, do nome de uma “trindade” budista – as três joias: Buda, a Lei e a Comunidade Monástica) é uma daquelas referências eruditas pronunciadas com um tom popular, com as quais Mao gostava de colorir sua fala, principalmente quando queria causar polêmica. Aqui, ele parece usar uma piada para atenuar as relações hierárquicas. As palavras dirigidas a Huang Zuozhen (“você não foi morto?”), um líder militar que havia logrado a difícil tarefa de manter contato com os líderes das guardas vermelhas, organizando a vinda deles a Zhongnahnhai, pode ser um bom exemplo do clima – as batalhas em Qinghua haviam sido sangrentas, e mesmo um “embaixador” como Huang correra sérios riscos. Provavelmente, a intenção da frase de Mao era, ao exagerar, diminuir a dramaticidade da situação.

Jiang Qing começa sua fala com sarcasmo. “Ultimamente vocês não têm colado cartazes” sugere: “Agora, a única coisa que vocês fazem é guerrear”. Ela manterá esse tom em suas intervenções seguintes, demonstrando angústia e, também, desapontamento. Ela diz para eles: “Nós todos estamos muito angustiados”, “Nós nos preocupamos com vocês” e mesmo “Eu mimei vocês”, “desregrados” (baijiazi 败家子). Mao irá interrompê-la diversas vezes, advertindo-a para que não traduzisse sua ansiedade em superioridade hierárquica (“não fique tão cheia de si”, ele diz em determinado momento, quase fazendo uma pequena cena doméstica). Ele fará a mesma coisa com os outros líderes do Comitê Central, insistindo, com frequência, que eles não deveriam subestimar seus interlocutores por causa da idade deles nem os sufocar com críticas: “Não precisa ficar criticando o tempo todo! (…) Vocês sempre culpam alguém, mas nunca a si mesmos.”

Junto com Nie Yuanzi, líder da maior facção da Universidade de Pequim, chamada Nova Comuna de Beida, mais três “pequenos generais” – como os estudantes eram afavelmente chamados durante a reunião – entram no salão. Eles pertencem às duas facções opostas que disputam ferozmente o “poder” nos campi da Universidade de Pequim: a facção da Terra (Dipai 地派) e a do Céu (Tianpai 天派). Esses nomes, que soam tão imaginativos, na verdade eram bem burocráticos: dois institutos da Universidade (Céu se referia ao Instituto de Aeronáutica; Terra, ao Instituto de Geologia) cujas facções majoritárias teceram um imbróglio de alianças opostas em outros campi e, naquele momento, careciam de qualquer diferenciação em seus princípios. Em certo ponto, Mao vai admitir: “Eu não entendi bem o problema entre as facções Céu e Terra”. Não bastasse isso, sintomaticamente os nomes das organizações se sobrepunham entre si, criando homônimos bizarros.[7]

Wang Dabing, um estudante do Instituto de Geologia, lidera a facção da Terra e está completamente tomado (assim como os outros, afinal de contas) por seu papel de “pequeno general”. Mao se dirige a ele com uma ironia amistosa, que passa, no entanto, completamente despercebida.

Tan Houlan lidera a facção majoritária na Universidade Normal, que também pertence à facção da Terra. Ela é bem jovem, mas muito temida por seus adversários: “camarada Tan Houlan, nova, ainda com duas tranças no cabelo”, diz Lin Biao. Mas ela “atacou direto a Nie Yuanzi [da inimiga facção do Céu]”, diz Mao, que também comenta: “Hoje duas de vocês são mulheres, é mesmo impressionante!”

Durante a maior parte da reunião, está ausente um dos líderes estudantis convidados que Mao está ansioso para conhecer: Kuai Dafu, o guarda vermelha mais famoso do país, o líder da facção Jingganshan da Universidade Qinghua que esteve à frente do ataque mortal aos trabalhadores (a facção oposta, pelo contrário, os tinha recebido bem). Kuai Dafu só chegará à reunião após um longo atraso, e isso aumenta a tensão, que já é considerável: “Kuai Dafu não veio? Não pôde ou não quis?”, perguntam repetidamente Mao e os outros do Grupo Central.

Frequentemente, é Han Aijing quem fala em nome de Kuai Dafu, defendendo-o com um tom heroico-dramático. Han, estudante do Instituto de Aeronáutica e líder da facção do Céu, é o único entre os quatro “pequenos generais” que intervém com alguma determinação e até com uma passionalidade transbordante, embora com argumentos fracos. Ele diz: “Eu amo Kuai Dafu. Eu também sei que se tenho uma boa relação com ele e já trabalhamos tanto juntos, muitas coisas estão implicadas, mas eu acho que estou me dedicando a ajudar Kua Dafu para não o deixar tropeçar no palco da política. O destino dele e o destino de todas as guardas vermelhas do país estão ligados”.

Com exceção de Mao, que se dirige a Han de modo simultaneamente rigoroso e simpático, os outros integrantes do Grupo Central demonstram impaciência: “você acha que está sempre certo”, “Kuai Dafu é um pequeno comandante e Han Aijing é seu comissário” – são alguns dos comentários irônicos deles.

Kuai Dafu entra na cena de modo teatral, quase no fim da reunião, aos berros, como seu amigo e aliado havia previsto desde o começo. Mas, mesmo estando Kuai ausente no começo da reunião, é a ele que Mao se dirige primeiro. No dia anterior, Kuai enviara um telegrama urgente para Mao e o Grupo Central, no qual denunciava que os trabalhadores, “sem saber manobrados por uma insidiosa Mão Oculta” (quer dizer, por uma força oculta que planejava extinguir a Revolução Cultural), “haviam cercado e invadido a Universidade Qinghua”.[8]

Presidente Mao: O Kuai Dafu quer encontrar a Mão Oculta que fez todos esses trabalhadores virem à Universidade ‘reprimir’ a Guarda Vermelha. Até agora ele não conseguiu encontrar o responsável. A Mão Oculta sou eu mesmo! Se ele não vier e tentar me encontrar depois, deixem ele me encontrar! Fui eu quem enviei a Guarda Nacional do Comitê Central e os trabalhadores da Editora Xinhua e da Fábrica de Tecelagem. Eu perguntei a eles como resolver o problema das lutas armadas dentro das universidades e pedi a eles ir até lá e verem por si mesmos. E de fato trinta mil pessoas foram.[9]

Fica evidente, também, que essa reunião com os líderes estudantis foi a única na qual Mao falou com eles diretamente. Quando ele diz que, em Tiananmen, eles haviam apenas se encontrado, sem conversar, refere-se às grandes manifestações de massa que as Guardas Vermelhas fizeram em Pequim no verão de 1966. É fato conhecido que, naquela ocasião, Mao não discursou, apenas pronunciou um lacônico “vida longa aos camaradas” (tongzhimen wansui 同志们万岁), em resposta aos inúmeros gritos de “vida longa ao Camarada Mao” que ecoavam pela praça.[10]

Essa “última reunião” de julho de 1968 mostra também que a relação entre o Grupo Central da Revolução Cultural e as Guardas Vermelhas vinha sendo algo descontínua e contraditória. Durante o encontro, Mao diz se arrepender por não haver conversado com os estudantes anteriormente, mas também afirma que tem evitado interferir na situação. A decisão de mobilizar os trabalhadores foi tomada após a consideração de outras possibilidades, entre as quais figurava a chance de deixar os estudantes resolverem seus próprios problemas.

O Presidente ainda disse: O que a gente faz com esse problema da violência nas Universidades? Uma solução é retirar-me completamente, não controlar nem discutir com os estudantes, e então quem quiser brigar que brigue. Até agora os comitês revolucionários estavam fazendo assim, tentando não temer os conflitos ocorridos nas universidades. Eles não exerceram nenhum controle ou opressão, e tudo estava sendo considerado certo. Outro jeito seria ajudar e intervir um pouco – essa estratégia recebeu a aprovação dos operários, dos camponeses e foi bem-vinda até pela maioria dos estudantes. Há mais de cinquenta universidades em Pequim, entre elas tem cinco ou seis que estão em conflito mais violento. É um teste para nossas habilidades políticas. Mas como resolver isso? Façam seus comentários. Eu acredito que há uma tendência no Mundo: o que é unidade por muito tempo deve se separar, o que é dividido por muito tempo deve se unir. 
Vocês da Universidade de Pequim são um pouco megalomaníacos. Não conseguiram resolver esses conflitos então talvez devamos dividir a cidade, colocar uns para morar no Sul e outros no Norte; talvez até construir uma “Nova Universidade de Pequim”, criar um “Jianggangshan” para uns e uma “Comuna” para outros. Parecem o Partido Comunista Soviético dividido entre “bolcheviques” e “mencheviques”.[11] 
(...) Se vocês não conseguirem resolver esses problemas, o jeito é acionar o exército, recorrer à liderança do camarada Lin Biao ou então de Huang Yongsheng [chefe geral do exército], ambos capazes de resolver o problema.[12]

Mao explica o sentido da primeira solução (enviar alguns ao Sul, outros ao Norte): as facções precisam ser dispersas. Animosidades pessoais haviam se tornado tão exacerbadas que as duas facções não poderiam permanecer na mesma faculdade ou na mesma cidade sem que se envolvessem em novos conflitos. (Esse foi um dos principais motivos pelos quais os “jovens educados” [知识青年 zhishi qingnian] e outros grupos foram enviados para o campo no ano seguinte.) Ainda pior, a violência era inversamente proporcional a qualquer diferenciação séria de princípios entre as facções. Mao ironizou bastante o formalismo com que as facções estudantis opostas guerreavam, obstinadamente, pelo direito de uso dos grandes nomes revolucionários, tratando umas às outras, mutuamente, como contrarrevolucionárias. Quanto à segunda solução possível, era óbvio que, em Pequim, seria bastante fácil recorrer ao controle militar, considerando o número reduzido de estudantes envolvidos efetivamente nos conflitos. Contudo, a dificuldade estava em lidar com o problema como uma situação política, ou seja, não apenas em termos de lei e ordem – foi, de fato, um dos raros exemplos de solução não militar para uma crise desse tipo -, mas como resultado de um processo subjetivo que Mao descrevia nos seguintes termos:

Vocês já estão participando da Revolução Cultural há dois anos, conhecem a estratégia debater-criticar-transformar; mas agora não fazem nem debates, nem críticas e nem transformam nada. Debater é lutar com palavras, mas vocês estão lutando com armas. O povo fica irritado, os operários, camponeses ou os moradores vizinhos, ninguém está contente com as atitudes de vocês. Em várias escolas os estudantes não estão contentes, nem sua própria escola e nem na sua própria facção! É assim que se faz a grande união? (Volta-se Nie Yuanzi) Ora, você tem a maioria na Nova Beida, não é “velho buda” (老佛爷laofoye). Você é um filósofo, não me diga que na Nova Beida (Comuna) [a fação majoritária] e no Comitê Revolucionário da Universidade [sob o controle de Nie] não tem ninguém contra você. Eu não acreditaria! Eles não dizem nada na sua frente, mas falam de você pelas costas.[13]

Os dois líderes estudantis a quem Mao se dirige com sarcasmo proposital haviam sido figuras centrais nos dois anos anteriores. Ele chama de “velho buda” (no sentido de “pessoa que dá a si mesma um ar de autoridade superior”) a Nie Yuanzi, cujo cartaz tinha sido a faísca que dera início ao movimento estudantil de Beida e havia sido exaltado por Mao, em 1966, como uma declaração política crucial, “o primeirodazibao Marxista Leninista da China”, ou mesmo “a declaração da Comuna de Paris chinesa dos anos 60 do século XX”.[14] Dois anos depois, Nie estava entre os cinco “pequenos generais” presentes na reunião, e foi quem mais irritou Mao, talvez porque a idade dela já não era um atenuante para o comportamento precipitado.

A pessoa a quem Mao se revela, ironicamente, como Mão Oculta, é Kuai Dafu, o estudante da Universidade de Qinghua que havia liderado a resistência aos Grupos de Trabalho enviados por Liu Shaoqi e Deng Xiaoping para esmagar os movimentos estudantis que surgiam nos campi de Pequim em 1966. Kuai mostrara uma coragem que Mao estimava (“ele se destaca e se envolve pessoalmente”, disse Mao). No entanto, a situação agora era radicalmente distinta da ocorrida dois anos antes: as Guardas Vermelhas estavam num impasse do qual nenhum de seus líderes conseguia encontrar uma saída.

Apesar da irritação expressa por Mao e pelos outros membros do Grupo Central, a discussão ocorreu em condições extraordinariamente equânimes. Mao maneja a situação com rigidez, mas, em muitos momentos, ele se mostra bastante afável, dadas as circunstâncias. Ele se dirige aos seus jovens interlocutores com críticas severas, mas tratando-os como camaradas com os quais compartilhou muitos posicionamentos nos últimos dois anos, e com os quais ainda simpatiza. Mao os acusa de terem se tornado políticos militaristas mesquinhos, incapazes de pensar sobre a situação de modo original. Contudo, durante a reunião, ele recusa qualquer papel de mestre ou de autoridade superior que possua a solução para os dilemas subjetivos (“Não digam que eu estou dando ‘instruções’”, diz a seus colegas).

Atualmente, os relatos dessa reviravolta na relação entre Mao e as Guardas Vermelhas, tanto na historiografia quanto nas memórias do ex-guardas, descrevem um líder carismático que usou a ingenuidade de adolescentes movidos pela paixão para golpear seus adversários políticos.[15] Em certo momento (é o que se costuma dizer) ele decidiu se livrar daqueles aliados inconvenientes, liquidando o radicalismo deles em nome da razão de Estado. No entanto, o registro da reunião que estamos discutindo, graças ao realismo de seu escriba desconhecido, mostra que as relações entre eles eram infinitamente mais reais.

Os líderes estudantis, todos bem experimentados em discursar publicamente e renomados polemistas, ofereciam apenas desculpas incompletas em resposta às críticas de Mao – não por desvantagem hierárquica, mas porque, na busca por uma imaginária luta armada em disputa pelo “poder”, eles exauriram politicamente as organizações que haviam conseguido constituir dois anos antes. Eles demonstram ser incapazes de entender o objetivo final da reunião, já que alguns deles continuam, de modo mais ou menos direto, pedindo uma intervenção militar que os favoreça na luta contra a facção oposta. Os “pequenos generais”, inflexíveis e confusos, não são sequer capazes de perceber o ceticismo amigável de Mao com relação aos assim chamados contrastes entre esquerda e direita, assim como o modo como ele lhes responde quando eles fingem não estar envolvidos em conflito algum. Aqui estão eles numa cena em que o diálogo é particularmente denso.

Presidente Mao: Wang Dabing, como está a sua situação? 
Wang Dabing: “Tinham alguns contra o Vice Premiê Xie Fuzhi, mas eles fugiram.” 
Xie Fuzhi falou: “O vice de Wang quis tomar o poder, dizem que ele é de direita.” 
Presidente Mao falou: “Mas parece que ele era esquerda, um marxista.” 
Wang Dabin disse: “Isso é uma tentativa deles de semear a discórdia entre nós, Nie Shuren é um bom camarada, de boa origem e ainda sofreu muita experiência na vida, tem ódio de classe, é uma pessoa muito honesta, de caráter revolucionário forte. Um pouco impaciente. Ele não sabe bem trabalhar com unificação e seus métodos de trabalho são um tanto rígidos. 
Mao: “Você conseguiria se unir a ele? Um de esquerda, um de direita, me parece uma boa parceria! ... Você sentou muito longe, venha mais para cá.” 
Lin Biao falou: “Venha.” 
Xie Fuzhi disse: “Vá, anda!” 
Wang Dabin levantou-se e foi sentar-se em um banco próximo aos outros. 
Mao: “Neste ponto, devemos fazer alguns comentários. Afinal de contas, são todos estudantes, não são gangues criminosas. Embora recentemente houve escolas em que quase se formaram gangues. O ponto é que as duas fações que se engajaram no conflito armado estão totalmente dedicadas ao conflito armado. Esse modo de fazer a debater-criticar-transformar não funciona. Agora não se debate, critica ou transforma: só brigam. Os estudantes não estão se envolvendo bem na política. Talvez seja melhor fazer a estratégia de debater-criticar-dispersar, vocês já pensaram nisso? Tem muitos estudantes nas facções que estão desengajados. Agora muita gente fala que Nie Yuanzi e Kuai Dafu dizem um monte de besteiras. Nie Yuanzi já quase não tem apoio, Kuai Dafu também quase já não tem mais suporte. Às vezes vocês têm 300 ou, menos, 150 pessoas com vocês. Como querem se comparar a Lin Biao ou à Huang Yongsheng? Eu, por exemplo, só desta vez em uma ação tive o apoio de 30 mil pessoas.[16]

A fórmula “debater-criticar-dispersar” (斗批散dou-pi-san) parodiava o slogan do biênio anterior, “debater-criticar-transformar” (斗批改dou-pi-gai), que identificava os alvos das Guardas Vermelhas nas universidades. Ela nunca foi oficialmente registrada, mas foi de fato adotada após a reunião: as facções foram “dispersas” e as organizações da Guarda Vermelha, que a maioria dos estudantes já havia abandonado, foram dissolvidas. Quanto à transformação das universidades, outro caminho foi trilhado.

Nessa reunião, na qual se tentou uma solução política, e não simplesmente militar (o poder do aparato repressor do Estado é obviamente exorbitante), é notável que Mao enfatize as relações subjetivas em jogo no momento, inclusive as expressas na própria reunião. Várias vezes ele põe termo aos comentários mais irritados dos outros membros do Grupo Central, lembrando-os de que eles estão em frente a estudantes que se mostraram incapazes de transcender um imaginário heroico e militarizado da política, mas que não deveriam ser desconsiderados apenas por serem jovens. A severidade que eles mereciam deveria se limitar à solução do impasse ao qual esse imaginário os havia levado. No entanto, para todos os participantes da reunião, encontrar uma solução adequada é, naquele momento, igualmente arriscado. Nem as hierarquias baseadas na idade, nem as baseadas em funções estatais eram o bastante para garantir a segurança do conjunto de decisões necessário ao enfrentamento daquela situação singular.

Aqui está outra passagem na qual esse tipo de tensão se manifesta. Mao se pergunta, absolutamente perplexo, o que havia realmente conduzido ao impasse, como explicar (“historicamente”, ele diz) a degeneração em facções.

Mao Zedong: Isso tem algumas causas históricas, tem alguma história, não nasceu de repente. 
Chen Boda: Eles precisam aprender com o Presidente, seguir firme as suas instruções. 
Mao Zedong: Não diga que são instruções. 
Yao Wenyuan: Hoje as falas do Presidente estão sinceras e profundas. 
Chen Boda: Na primeira metade de 1966 as coisas estavam um pouco melhores, tinha pouca violência no processo de revolução. Depois os cérebros cresceram, mas não dão conta de pensar. Kuai Dafu e Han Aijing estendem as mãos para todo lado, pedem ajuda a todos igualmente, parecem que querem controlar o país inteiro. Por isso precisam se unir, mas não têm conhecimento ou aprendizado suficiente. 
Mao Zedong: Eles têm só vinte e poucos anos. Não despreze as pessoas de vinte anos. 
Zhou Yu [personagem histórico] antes era um soldado da cavalaria, ele com 16 anos já era um chanceler do Reino Wu. Não se deve desconsiderar a idade deles, nem bancar o veterano. 
Jiang Qing: Nós com menos de vinte anos começamos a fazer parte da Revolução. 
Mao Zedong: Não fiquem tão cheios de si. Não podemos nos encher muito senão ficamos inchados, com edemas. 
Chen Boda: Han Aijing não ponderou o suficiente sobre o que disse o Presidente Mao e o Comitê Central. Passou adiante fofocas, fez reuniões secretas. Se uma pessoa quer ficar na frente de todos, pode andar por caminhos muito perigosos. 
Mao Zedong: A primeira questão é o meu próprio burocratismo, não consegui ver vocês nem uma vez antes de hoje. Se eles não quisessem capturar a Mão Oculta, eu não os teria convidado. Kuai Dafu, você precisa acordar para a realidade. 
Chen Boda: Kuai Dafu, você precisa acordar, está na beira de um precipício. Desça do cavalo antes de despencar! Admita seus erros! 
Mao Zedong: Não ordene “admita seus erros”. 
Chen Boda: Kuai Dafu não respeitou os operários. Se continuar dessa forma sem nos escutar, não respeitará o Comitê Central, e não respeitará o Presidente Mao. Essa é uma estrada perigosa. 
Mao Zedong: É um perigo considerável. Foi o tempo em que os “pequenos generais” cometeram erros. 
Zhou Enlai: O Presidente Mao já tinha falado antes: estão se tornando “pequenos generais” e cometendo erros. (…) 
Mao Zedong: O grupo de Tan Houlan tem só cerca de 200 pessoas, mas ainda não pôde ser vencido. As outras escolas têm uma oposição maior, como se poderá vencê-los? Cao Cao [personagem histórico] usou a força para submeter Sun Quan [personagem histórico], foi derrotado. Liu Bei [personagem histórico] também usou a força para tentar submeter Sun Quan, e perdeu a Guerra de Jieting. Si Mayi [personagem histórico] quis derrotar Zhu Geliang e também não conseguiu, foi derrotado. [17]

No fluxo descontínuo dos diálogos, várias passagens ecoam referências remotas. As últimas frases contêm uma densa série de referências históricas (sobre o colapso da dinastia Han e as rivalidades entre os Três Reinos no começo do terceiro século), certamente conhecidas dos participantes, citadas como exemplos de táticas militares que falharam por estarem centradas no ataque. Em seus escritos militares da década de 1930, Mao sutilmente argumentava a superioridade estratégica da defesa sobre o ataque – uma linha de pensamento compartilhada por outros grandes pensadores dialéticos da guerra, como Sun Zi e Clausewitz -, e essa teoria foi efetivamente usada na Guerra de Liberação. Porém, situações políticas são únicas e não se repetem. Outras evidências dessa regra geral são dadas pelo fato de que, embora os nomes escolhidos pela Guardas Vermelhas propagassem as glórias da “guerra popular” que caracterizara os momentos fundadores desses nomes (como as Bases Vermelhas de Jinggangshan), seu estilo “militar” reproduzia um imaginário insurgente baseado no ataque. Entretanto as bases de Jinggangshan só tinham se tornado possíveis quando, no final da década de 1920, Mao havia abandonado a visão insurgente, então dominante no Partido Comunista Chinês (PCCh), e elaborado uma estratégia militar baseada na supremacia da defesa.

Aqui, aparentemente Mao estava ponderando sobre a situação e não pretendia dar uma lição de história militar às Guardas Vermelhas. Ele considera os conflitos noscampi de Pequim totalmente absurdos inclusive no âmbito militar: “então que tipo de luta estão fazendo? Os seus métodos de luta não têm planejamento! Usam armas caseiras…”. Mao diz aos estudantes: “Mas se são capazes de um conflito armado, que seja um grande conflito. Ora, vocês acham que a luta com palavras não deve ser mais feita? Claro que deve ser feita” – é evidente que eles estão apenas imitando um heroísmo militar revolucionário completamente imaginário, e que só são capazes de fazer isso porque o aparato militar havia decidido, até aquele momento, não intervir. “(…) vocês poderiam continuar no conflito por mais dez anos. Mesmo assim o planeta continuaria girando. O céu não iria desabar. Ainda assim, o conflito deve terminar agora”, diz Mao, concluindo que se deve pôr um término naquela situação.

Lin Biao usa a clássica dialética chinesa como argumento para confirmar que o fim da luta armada é uma exigência não negociável: “Eu vejo que há uma tendência no mundo: o que é unidade por muito tempo deve se separar, o que é dividido por muito tempo deve se unir. Todas as armas quentes ou frias, facas ou rifles devem ser recolhidos e armazenados”.[18]

A discussão envolveu diversos detalhes sobre aquele momento específico, e para tratar disso seriam necessárias notas elaboradas. Portanto, vou me limitar às duas principais preocupações da reunião: a urgência de parar a luta entre as facções e, paralelamente a isso, o problema ainda mais incerto do destino, tanto político quanto intelectual, da universidade.

“Nós não queremos uma guerra civil”

“Nós temos este princípio fundamental: lutar com palavras e não com armas”; “O povo não quer uma guerra civil” Esses são os dois principais argumentos que Mao e o Grupo Central usam com os estudantes. Mao admite que há diferentes pontos de vista entre as facções e que, em última análise, ele concorda mais com um do que com outro; no entanto, ele frisa que nada disso justifica a guerra absurda travada pelos estudantes nos campi.

Mao cita, por exemplo, a “teoria da vitória certa”, formulada pela facção 14 de Abril (hostil a Kuai Dafu), cujo princípio de que “quem toma a montanha não pode ocupar a montanha” (ou seja, “quem conquista o poder não é capaz de governar”) garantiria a ela a vitória. Em outras palavras, Kuai, que havia sobrepujado as autoridades antigas e “conquistado o poder” na Universidade de Qinghua, só tinha como opção entregar o poder à 14 de Abril, já que esta era mais recente. Quanto ao valor do “princípio histórico” defendido pela 14 de Abril,[19] esta era aparentemente uma “teoria” apenas instrumental, com o único objetivo de justificar a oposição da facção a Kuai. Mao declara, na verdade, não ser especialmente simpático à doutrina da “vitória certa”, ao mesmo tempo em que destaca que ela deveria ter liberdade de existir, pois pretende ser uma “teoria política”: “Eles têm um teórico chamado Zhou Quanying… por que prenderíamos um teórico? São eles uma facção de teóricos? Eles escrevem artigos e vocês prendem eles por quê? Vocês devem soltá-lo imediatamente. As pessoas têm opiniões, deixem que escrevam! Se não, vão falar que não existe mais liberdade!”[20]

Devemos lembrar que a liberdade de pensamento político, aqui abertamente defendida por Mao – mesmo no caso de uma “teoria” tão rasa –, era a questão-chave na constituição das Guardas Vermelhas desde 1966. Estas surgiram como uma multiplicidade de organizações que se autolegitimavam, defendendo sua capacidade de formular declarações políticas próprias, externas ao Partido-Estado, ao mesmo tempo em que exigiam deste que admitisse e promovesse a sua existência. O declínio e a degeneração militar dessas organizações foram marcados por intenções bastante diferentes. Na fase de expansão do processo de pluralização (grosso modo, do dazibaode Beida até a Tempestade de Janeiro em Xangai[21]), o principal assunto em pauta era até que ponto iria a multiplicidade de grupos independentes e autolegitimados. Na fase de declínio, a divisão em facções ficou cada vez mais marcada por provocações mútuas entre as organizações, que se envolviam em lutas para desestabilizar umas às outras. Eventualmente, elas vieram a considerar que a aniquilação de seus oponentes era a primeira condição para sua própria existência, e cada uma delas se enxergava como o “núcleo” de regeneração do Partido-Estado. Esse foi o motivo principal que levou ao impasse em questão.


O Presidente Mao continuou falando com Nie Yuanzi: Você, “velho buda”, deve ser um pouco mais generosa. A Jinggangshan da Universidade de Beijing tem muitas pessoas, se eles fossem soltos toda a força deles lavaria o templo do Rei Dragão [Quartel General de Nie Yuanzi]. Você conseguiria se manter? Se você continuar sendo assim um “velho buda” vamos ter que acionar o exército. Tem ainda um terceiro jeito, tentar agir de acordo com a dialética: vocês podem morar em cidades diferentes, “um se dividido em dois”, ou seu grupo ou Jinggangshan vai morar no Sul e o outro grupo no Norte, assim não se encontram mais, não vão mais poder brigar. Cada grupo realiza seus próprios projetos, e assim o mundo ficará unido. Se não, você estará sempre com medo, se eles atacarem o “ninho do velho buda” [outro nome sarcástico para o quartel general de Nie Yuanzi] você não conseguirá dormir, você estará com medo e eles também estarão. Vocês precisam retroceder um pouco, por que ficar assim tão nervosos?[22]

Mao e os outros membros do Grupo Central repetidamente expressam sua indignação pela crueldade gratuita que as facções infligiam umas às outras e pelos lemas que ameaçavam “abater” e “cozinhar” os adversários. Além disso, os argumentos que cada facção utiliza para acusar de contrarrevolucionários seus oponentes e tratá-los como inimigos de guerra são risíveis. Quando Mao pergunta a Nie Yuanzi porque ela considera contrarrevolucionária a facção oposta, ela responde: “Hou Hanqing se engajou em um grupo reacionário, fez ataques perversos ao Presidente e ao Vice-Presidente Lin.” Mao revida enfaticamente: “Não importa que essas pessoas nos tenham difamado um pouco”. As evidências que Nie produz sobre os “crimes políticos” de seus adversários são nulas: “Deixe que eles nos critiquem”, Mao diz várias vezes, “Se no mundo não tiver oposição é porque tem alguma coisa errada. É impossível não ter oposição”.

Sobre a prática de torturar opositores dos “pequenos generais”, que diziam emular as glórias da “guerra popular”, Mao lembrava-os do quão mais civilizado era o estilo do Exército Popular de Liberação, apesar de seus soldados e mesmo generais contarem com uma educação formal bem precária. “Dois camaradas caipiras” (吐泡子tupaozi), diz Mao, em tom de brincadeira, referindo-se ao presidente e ao vice-presidente do comitê geral militar, presentes na reunião, que haviam cursado poucos anos de escola primária, comparados com os longos currículos dos líderes da Guarda Vermelha, que definitivamente poderiam ser considerados “intelectuais” (zhishifenzi 知识分子). Enquanto no exército, segundo Mao, desertores não mais eram presos e o isolamento já não era usado como punição, entre as facções estudantis a prisão era usada recorrentemente e os opositores eram tratados como “prisioneiros de guerra sujeitos a coerção e forçados a confessar”; aqueles que se recusavam a confessar eram espancados até a morte. “(…) são os intelectuais menos civilizados que há. Aponte um intelectual tido como muito civilizado, esse é justamente o menos civilizado. Os menos educados são os mais civilizados”.

Entre os membros do Grupo Central, Jiang Qing é a que se mostra mais desconcertada com o tratamento destinado aos opositores. Na Universidade Normal, onde Tan Houlan estava no comando, muitos estudantes da facção opositora haviam sido detidos e aprisionados por vários dias, sem comida ou água, no escuro.


Jiang Qing [para Tan Houlan]: Mas como vocês puderam fazer isso? Aquele dia tão quente, com pouca água, pouca energia elétrica, pouco alimento. Dias de calor do cão, três meses sem ver o Sol! Quando eu soube até chorei. Aquelas centenas ou dezenas de pessoas também são povo! Não é que eu tenha um sentimento de amizade com eles, diz-se que eles estão contra nós. Não estamos falando em nome deles. Mas mesmo assim os liberem! Proletários devem reformar o humanismo proletário. Essas dúzias de contrarrevolucionários são, no fundo, jovens! (…) Há alguns contrarrevolucionários que disseram que querem me enforcar. E que me importa se me fritarem, me enforcarem…. eu não tenho medo do óleo quente dos outros. (…)

Yao Wenyuan: “Fritar” é só uma expressão. Na verdade, é só estar numa sala e debater.

Mao Zedong: E que coisa é essa de falarem que querem enforcar Kuai Dafu?

Jiang Qing: (…) Nie Yuanzi, eu tenho ainda direito à palavra, sim? Eu me esquivei das dificuldades de vocês. Neste momento vocês estão lutando contra o próprio povo, enquanto aqueles que são malvados de verdade se escondem. Será que o grupo 14 de Abril tem que vencer? O 14 de Abril especificamente se opõe ao Grupo Central da Revolução Cultural, se opõe também ao Premier [Zhou Enlai], a Kang Sheng [do GCRC] … mas eles também são um grupo popular!

(…) Onde eu moro todos vocês sabem. Querem me enforcar, então me enforquem. Querem me fritar, me fritem. Estamos todos na mesma dificuldade, então não podemos achar culpados facilmente. Se vocês não conseguem tolerar outros, como poderiam governar e trazer paz ao mundo [zhiguo ping tianxia 治国平天下]? Veja que vocês não estão estudando os textos do Presidente, nem o exemplo de trabalho político do Presidente. O Presidente sempre se une àqueles que o opõem.

Presidente Mao [para Nie Yuanzi]: (…) Isso que vocês apontam não é nada mais que uma tentativa de ataque a Jiang Qing e a Lin Biao. As acusações cabem em um traço só. Mas eles só falaram disso dentro de uma sala, não foram às ruas colar cartazes.

Jiang Qing: Mesmo se eles espalhassem cartazes, eu também não teria medo.

(…) Presidente Mao: Você não pode se livrar de milhares de membros do Jinggangshan.

Nie Yuanzi: Do grupo Jianggangshan, muitos já fizeram trabalho educativo no campo e voltaram, agora estão fazendo grupos de estudo [ela quer dizer que eles estão sob controle de sua facção então].

Mao Zedong: Você não pode confiar naqueles que deixaram Jinggangshan. Eles têm o corpo com Cao Cao e a mente com os Han:[23] os corpos seguem você, “velho buda”, e as suas mentes estão no Jianggangshan. Vocês não devem se preocupar com Niu Huilin [líder da facção oposta], ele pode voltar para o campo, mas com liberdade, sem forçar. Não podemos humilhar ninguém, e principalmente não podemos usar a violência. Devemos dar aquilo que a pessoa precisa e confiar. Nós erramos no passado, cometemos crimes. E vocês estão cometendo esses erros pela primeira vez, por isso não podemos culpá-los.[24]

Uma vez que as hostilidades entre as facções da Guardas Vermelhas estavam profundamente ligadas às relações pessoais entre líderes estudantis e membros do Grupo Central[25], Mao e os outros membros enfatizam continuamente que ser contra ou a favor dos líderes não era, de modo algum, motivo para seguir com os conflitos.[26] O Grupo Central estava unido e convicto em seus pedidos de cessar-fogo.

A intransigência do Grupo Central nesse ponto aumentava por causa da tendência, que vinha piorando nos últimos meses, de uma conexão entre, de um lado, a organização dos estudantes em facções e, de outro, uma série de divergências no comando militar – algo que, se fosse levado adiante, poderia ter transformado a luta entre pequenas facções estudantis em um conflito de verdadeiros senhores da guerra.[27] De sua parte, os líderes estudantis pareciam não se preocupar com essa possibilidade. Alguns deles, durante a reunião, indiretamente insistem no pedido de ajuda do exército às suas facções, para derrotar os adversários. Nie Yuanzi foi mais longe, ao pedir o apoio de uma unidade do exército específica, que ela considerava próxima de sua facção. “Você quer só o que vai de acordo com seu gosto, não?”, respondeu Mao com raiva.

A interferência das facções estudantis na área militar foi um dos assuntos mais quentes da reunião e acalorou-se ainda mais quando, preocupado, Zhou Enlai lembrou a reunião do Comitê Científico de Defesa Nacional chamada por algumas organizações estudantis no Instituto de Aeronáutica de Pequim. Fica evidente que o Comitê Científico era um organismo situado na articulação institucional entre os aparatos militar e acadêmico-científico, e que o Instituto de Aeronáutica tinha uma ligação próxima com os programas de defesa nacional. “Como vocês ousaram convocar pessoas para aquela suposta conferência?”, esbravejou Zhou Enlai para Han Aijing. “Você sabe: Defesa Nacional é uma área de segredo de Estado”. A longa resposta de Han revela o misto de complacência, aventureirismo e oportunismo tático que levou os “pequenos generais” a um impasse desproporcional, considerando-se suas capacidades.


Han Aijing: Não fui eu que convocou aquela conferência. O Comitê Central pode investigar, naquele período eu estava doente e tinha ficado na Faculdade de Educação Física para me tratar, então me ligaram da escola e me disseram que tinham vindo dois integrantes do Comitê Revolucionário de Guangdong. Um era o operário Qiu Xueke, o outro era Wu Zhuanbin da Universidade de Zhongshan. Eles procuraram Huang Yongsheng para uma reunião, falaram que Huang Yongsheng os apoiava. Avisei que eu não tinha saúde para receber os estudantes. Mas algumas pessoas me disseram que eu estava muito cheio de mim, que eu estava me comportando como se “fosse Deus no céu e o Instituto de Aeronáutica na terra”. Eu não tinha recebido os representantes discentes do Quatro de Maio, nem os de outras organizações rebeldes. Então todo mundo falou que eu estava agindo só para me mostrar, sendo orgulhoso. Me acusaram ainda de latifundiário, antirrevolucionário. Então eu decidi receber aqueles grupos. Quando estava dando boas vindas, eles me disseram que queriam fazer um congresso nacional sobre a Trocas de Experiências [chuanlian], eu disse que se fizéssemos a reunião em Pequim seria comprar briga, porque tem a divisão entre a Facção Céu e a Facção Terra, a situação era complicada. Eu concordei em chamar alguns líderes confiáveis de facções rebeldes e integrantes de comitês revolucionários e conversar, só para entender melhor a situação, mas não para decidir nada. Eu e Kuai Dafu fomos para essas reuniões. Mas depois eu fui internado. No dia que a reunião ia começar, um estudante da faculdade me telefonou e disse que todos estavam achando que a coisa não era correta: os representantes da Faculdade de Geologia só participaram das reuniões preparatórias e depois não foram mais. Kuai Dafu assistiu a alguns minutos, e logo saiu correndo, assustado com o conteúdo, e os Jianggangshan fizeram o mesmo. Eu falei então para escreverem um relatório, para que escrevessem um relato desses acontecimentos para o Comitê Central, mas antes que o relatório estivesse pronto, recebemos a crítica do Comitê Central, dizendo que aquela era uma reunião clandestina.[28]

Outro motivo fundamental para que se pedisse o cessar-fogo aos líderes estudantis foi a repercussão nacional alcançada pelos eventos. A luta em Pequim envolvia apenas alguns milhares de estudantes em cinco ou seis campi, mas, nos meses anteriores, algumas províncias, especialmente Guangxi, haviam se tornado cenários de conflitos muito mais sérios. Deparando-se com a situação de Guangxi, o Grupo Central da Revolução Cultural havia emitido um pronunciamento, em 1º de julho, pedindo o fim imediato dos conflitos armados.[29] A continuidade da luta em alguns dos campi de Pequim (a organização de Kuai Dafu afirmara que o pronunciamento era dirigido apenas a Guangxi, não a Pequim) influenciou a situação em todo o país, dado o prestígio dos líderes da Guarda Vermelha de Pequim. Quanto ao fim do conflito armado, Mao é intransigente: quem continuar lutando será tratado como criminoso.


Presidente Mao: Tem pessoas que dizem que as circulares oficiais publicadas em Guanxi valem só para Guanxi, e aquelas publicadas em Shenxi valem só para Shenxi… Mas esta declaração é para o país inteiro: se alguém continuar violar a lei, atacar o Exército Popular da Liberação, roubar os equipamentos do Exército, danificar o sistema de transporte, executar pessoas ou cometer incêndios, será visto como um criminoso. Se uma minoria desobedecer a esta diretiva, será vista como grupo de bandidos, como nacionalistas do Partido Nacionalista – essas pessoas serão afastadas ou presas, e caso lutem contra e continuem resistindo teimosamente, usaremos a pena de morte.

Lin Biao: Atualmente tem aqueles que são rebeldes de verdade [revolucionários], e outros que são bandidos, nacionalistas usando nossa bandeira para rebelar-se. Esses levam a bandeira revolucionária mas incendeiam as casas e nem mesmo permitem que venham apagar o fogo, um método que foi usado pelos Nacionalistas. Em Guanxi, mil casas foram incendiadas.

Presidente Mao: Esta diretiva que estou dando deve ser escrito de forma clara e direta para que todos os estudantes que se insistirem em não mudar essas práticas, serão presos. Nos casos leves serão presos, nos mais graves sofrerão supressão militar.

Lin Biao: Em Guangxi incendiaram mais de mil casas, e não deixaram as pessoas apagar o fogo.

Presidente Mao: Os Nacionalistas não eram do mesmo jeito? Esse é o tipo de ataque que faz uma classe inimiga quando já está para ser derrotada. Queimar casas é erro gravíssimo.

Lin Biao: Quando nós passamos por Guangxi durante a Longa Marcha, quando lutamos contra Bai Chongxi; ele também tinha essa prática, botava fogo nas casas fingindo ser do Partido Comunista. Essa é uma reutilização de um velho método.

Presidente Mao: Han Aijing, você é amigo do Kuai Dafu, você deve ajudá-lo, ser um bom camarada.

Han Aijing: Kuai Dafu está montado no tigre e não quer descer. É difícil lidar com ele.

Kang Sheng: Não é bem como você está dizendo.

Presidente Mao: Se ele não conseguir descer das costas do tigre, então vamos ter que matar o tigre.[30]

“Matar o tigre” significava declarar o fim das Guardas Vermelhas como organizações políticas independentes – o que foi, de fato, o principal resultado da reunião. A chegada de Kuai Dafu confirmou a crise subjetiva com a qual a reunião tentava lidar. Kuai irrompeu na sala após dois terços da reunião, soluçando teatralmente, como seu amigo Han Aijing havia antecipado indiretamente. A tragicomicidade da cena tem efeito no rosto de Jiang Qing, como fica escrupulosamente registrado.


Huang Zuozhen avisou que Kuai Dafu tinha chegado.

Assim que Kuai Dafu entrou, começou a chorar e soluçar. Mao Zedong se levantou, os outros também se levantaram. Jiang Qing riu. Mao Zedong deu dois passos na direção de Kuai Dafu, enquanto os outros todos permaneceram de pé ao redor do Presidente. Kuai Dafu deu a mão a Mao Zedong, cumprimentando-o e apoiando a testa no peito do Presidente. Ele chorava e apresentava seu caso (gaozhuang 告状: apresentar uma queixa a superiores) [para Mao]: “Presidente, ajude-nos! Uma Mão Oculta chamou milhares de operários que de repente cercaram e invadiram a universidade Qinghua. Tem um golpe por trás disso tudo!”[31]

Para entender quão diferente essa situação era, é preciso considerar que, em junho de 1966, Kuai emergeu como um bravo líder da rebelião de estudantes de Qinghua, escrevendo uma “carta aberta” aos “hesitantes”, cujo tom geral era este: “Eu sinceramente espero que neste momento difícil e crucial vocês permaneçam firmes. O trem da revolução, que corre muito rápido, está entrando numa curva acentuada. Mantenham-se firmes se vocês não quiserem cair e se espatifar”.[32]

Dois anos depois, Mao encontra um Kuai Dafu soluçante, a quem não tinha o que fazer a não ser repetir o que já havia dito aos outros, acrescentando sérias críticas, por causa do ataque sangrento contra os trabalhadores que a facção de Kuai havia liderado no dia anterior. A facção oposta, 14 de Abril, havia efetivamente recebido bem os trabalhadores, enquanto que a Jinggangshan de Kuai Dafu, com a qual Mao diz ser mais simpático, havia atacado-os de maneira letal.


Mao Zedong virou-se e levantou a mão, dizendo: Você queria pegar a Mão Oculta, a Mão Oculta sou eu. Eu que mandei os operários virem. Não tinha outra maneira de lidar com você. Nós nos simpatizávamos mais com a sua facção, porque afinal não posso aceitar o que diz a 14 de Abril sobre a “vitória certa”. A ideia principal de Zhou Quanying é de que aqueles que conquistam o poder não podem governar, nessa lógica você deveria transferir seu poder para o 14 e Abril. Nós tínhamos pedido aos trabalhadores para fazer trabalhos de propaganda, mas você recusou. Você sabia muito bem quantas pessoas viriam para fazer propaganda, Huang Zuozhen e Xie Fuzhi falaram com você. Não tínhamos outra alternativa. Os trabalhadores estavam com as mãos vazias, mas você ainda assim os rejeitou, você os atacou, matando e ferido. No caso da Beida, nós éramos mais de acordo com o grupo de Nie Yuanzi. Éramos mais inclinados a concordar com vocês, cinco grandes líderes, mas como vocês podem dizer que não sabiam quem enviou dezenas de milhares de trabalhadores à Qinghua? Se não foi por ordem do Comitê Central, como eles ousariam vir? Vocês foram muito passivos. O grupo 14 de Abril, ao contrário, recebeu bem os trabalhadores. E vocês, da Jinggangshan não os recebeu bem, e isso foi um erro.[33]

Incapaz de responder, Kuai estava tão confuso que Mao, após criticar seu comportamento “passivo” (no sentido de politicamente inerte), não insistiu muito e, enfim, acabou sugerindo apenas que Kuai encontrasse algum lugar para descansar. Zhou Enlai, de sua parte, recomendou que Han Aijin cuidasse de seu aliado e o ajudasse a encontrar uma saída. A atitude do Grupo Central da Revolução Cultural com Kuai e os outros líderes estudantis era muito paciente, apesar da gravidade da situação.

Nos meses anteriores, Mao já havia proferido uma avaliação precisa do paroxismo que representava aquela rebelião estudantil:


Mao Zedong: Tem um pouco de anarquismo. No mundo, o anarquismo [wuzhengfu 无政府, “sem governo”] é o correlato oposto do governo. Basta que exista o governo, o anarquismo não desaparecerá. É o mesmo caso dos dispositivos de servilismo e docilidade usados nas sociedades escravistas do passado, hoje eles tornam em seu contrário. É a punição ao oportunismo de direita, esta é a punição ao oportunismo de direita do Comitê Central.[34]

Poderíamos dizer que qualquer “censura”, afinal de contas, acarreta sempre um correspondente “retorno do recalcado”. No entanto, em frente a esse pano de fundo, típico de Mao, de um fatalismo filosófico generalizado quanto aos inevitáveis efeitos colaterais da própria existência de um “governo”, o que ele estava propondo era um julgamento político adequado da situação. O Partido Estado não havia, especialmente entre os jovens, disseminado e imposto aquiescência e mesmo servilidade como qualidades de um “bom comunista”?[35] A anarquia presente era um resultado oposto, comenta Mao. Era uma espécie de contrapasso dantesco, uma “retaliação” bem merecida pelo “oportunismo de direita no Comitê Central”.

As estratégias meticulosas usadas para disciplinar estudantes e universitários no começo dos anos sessenta, em nada inferiores àquelas usados pelos colégios jesuítas na Europa renascentista, mereceriam investigação específica.[36] Muitas ações brutais e mesmo cruéis das Guardas Vermelhas – eis o motivo da fala amarga de Mao – foram o resultado trágico de um fracasso básico da “pedagogia” do Partido-Estado e seu programa de “aperfeiçoamento” moral da juventude, no qual os aparatos educacionais chineses haviam se engajado nas duas décadas anteriores.

“Nós ainda deveríamos estar comandando universidades?”

Além dos conflitos nas universidades de Pequim, o outro tópico importante discutido naquele dia foi o destino intelectual e institucional da universidade. A questão, que provavelmente despertava mais incertezas do que a de como parar os conflitos, era crucial por vários motivos: o lugar central ocupado pelo sistema universitário no aparato estatal chinês nas décadas de 1950 e 1960; o óbvio fracasso de qualquer tentativa de reformar a educação universitária através do ativismo das Guardas Vermelhas (o “debater-criticar-transformar” degenerado em badernas brutais); e, não menos importante, a crise universitária mundial de 1968, que o sistema universitário chinês antecipou, em grande parte, e que finalmente concentrou em si mesmo, numa paralisação institucional prolongada. Era julho de 1968, o momento de maior incerteza para a universidade moderna, quando Mao perguntou:


Ainda devemos manter universidades? As universidades devem matricular novos estudantes? Se não tiverem novos estudantes não tem sentido. Mas acho que ainda não fui claro: ainda precisamos ter faculdades, eu mencionei principalmente Ciência e Tecnologia, o que não quer dizer que não se deve estudar ciências humanas. Sem que estas últimas sejam efetivas, podemos esquecer o resto. Até onde entendo, faculdades oferecem mais ou menos os mesmos cursos básicos oferecidos na escola básica e no ensino médio. As pessoas deveriam ir à escola só por seis anos, no máximo dez. Agora, os cursos na escola básica repetem os últimos anos do primário, o ensino médio repete conteúdos da escola básica, e a universidade repete cursos do ensino médio. Os cursos básicos são cheios de repetições. E em cursos de especialização, às vezes nem os professores os entendem bem. Filósofos não sabem falar sobre Filosofia. Para que serve estudar? Você, Nie Yuanyi, é filósofa, não?

Nie Yuanzi: Não, não sou filósofa.

Jiang Qing, tirando sarro, falou: Ela é um “velho buda”.

Mao Zedong: E que escola da filosofia é essa? Filosofia dá para aprender na faculdade? Se a pessoa nunca foi operário ou camponês e vai para a escola estudar filosofia, ora que tipo de filosofia é essa?[37]

Esse tipo de pergunta pode deixar alguns professores de Filosofia, muito aferrados aos programas escolares, de cabelo em pé – mas não necessariamente todos os filósofos. É possível aprender a filosofar estando apenas dentro da universidade? Lin Biao, que se mostrou bem-humorado em certas ocasiões da reunião, responde com um trocadilho agudo: aquilo não era zhexue (哲学), “Filosofia”, mas zhaixue (窄学), “estudo estreito”: “Quanto mais alguém estuda, mais estreito fica”.

Mao colocou a mesma questão para a literatura: “É possível aprender a escrever literatura na universidade?” Dessa vez, é Zhou Enlai quem comenta, amargamente: “Eles entram na faculdade e suas mentes petrificam”, citando o caso de um escritor autodidata de origem campesina, Gao Yubao, que havia sido premiado e enviado à universidade. Seu caso se tornou objeto de um grande esforço propagandístico da democratização da escola chinesa, mas, assim que Gao entrou na universidade, parou completamente de escrever.[38]

Era quase total o ceticismo quanto aos resultados das políticas educacionais até então. “Eu vejo que os nossos jovens, depois de só estudarem por uma dezena de anos, estão tão prejudicados que não conseguem nem dormir. Um jovem estuda História mas não entende o que é luta de classes”. Em outras palavras: filosofar, escrever romances ou fazer política de forma consciente, pode ser aprendido em universidades, através do sistema de organização didático do conhecimento? No verão de 1968, essa é uma questão-chave para o debate intelectual no mundo todo. Segundo Mao:


E quando uma pessoa estuda Literatura, não deveria estudar história da literatura, mas deveria aprender a escrever ficção, e toda semana escreveria um texto; se não conseguisse escrever, iria para a fábrica trabalhar como aprendiz. Tornando-se aprendiz a pessoa poderia escrever sobre seu processo de aprendizagem. Atualmente ninguém escreve romances ou poesia na faculdade de literatura.[39]

Além de mostrar uma aversão intensa, não sem fundamentos, à “história da literatura”, Mao fala de ir às fábricas ou ao campo para se tornar aprendiz ou camponês e, assim, ser capaz de escrever romances – certamente uma fala espinhosa, aberta a vários mal-entendidos. Contudo, qual escritor aprendeu mais de sua arte na universidade do que vivendo a realidade das relações entre as pessoas? “Fábricas e campo” representam, aqui, o princípio de realidade que era o horizonte existencial de 90% do povo chinês naquele momento. Olhando para o boom literário chinês dos anos 1980 e 1990, é significativo que grandes poetas, como Bei Dao, Mang Ke e Yang Lian ou narradores como Han Shaogong[40] tenham começado a escrever no fim dos anos 1960, quando foram enviados, como “jovens educados” (知识青年), para o campo, e que nenhum deles tenha frequentado a universidade. Podemos afirmar que do ensino de literatura durante aqueles anos prejudicou tanto assim a literatura chinesa contemporânea.

O que estava em jogo, enfim, era o papel da universidade moderna na relação entre intelectualidade – em arte, política ou filosofia – e sua transmissão didática. O aparato universitário do Estado socialista, que naqueles anos, na China, se baseava no sistema soviético, pretendia incorporar o equilíbrio perfeito entre pensamento e conhecimento, mas era exatamente isso que a presente crise refutava, impelindo a China a buscar novos caminhos. Por esse motivo, Mao, longe de estar convencido da superioridade da universidade socialista, enfatiza que o marxismo (central no conhecimento universitário chinês de então, particularmente do filosófico) que não se formou na universidade. Nenhum dos grandes marxistas havia contado com diploma de ensino superior, com exceção de Marx, que não seguiu carreira acadêmica. Quanto ao histórico escolar dos outros, Mao lembra que Engels começou a entrevistar trabalhadores enquanto era bibliotecário na fábrica de seu pai, e estudava por conta própria na Biblioteca Britânica; Lenin frequentou a universidade por dois anos; Stalin, apenas algum tempo na escola secundária (“comandada pela igreja”, especifica Mao, talvez ironicamente); Gorki frequentou a escola primária por apenas dois anos, menos tempo que Jiang Qing, que frequentou alguns anos a mais, e menos que Lin Biao, que, tendo chegado quase ao ensino secundário, podia ser definido como “intelectual”, segundo comentários brincalhões de Mao.

Mao diz que não havia sido um bom aluno (“só fazia o suficiente para não ser expulso”), mas isso não deve ser levado ao pé da letra. Como estudante e, mais tarde, como professor da Escola Normal de Changsha, ele foi, por vários anos, um jovem militante pela reforma educacional do movimento Quatro de Maio. Durante a reunião, emergem traços dessa experiência, como a Universidade Autodidata de Hunan (自修大学zixiu daxue) que Mao fundou em 1921 e que teve, naquele período, significativa repercussão nacional (Mao propõe novamente, na reunião, um sistema de estudo autodidata).[41] Considerar as políticas escolares e universitárias como um terreno crucial para a experimentação política e intelectual, e não apenas como elementos pressupostos do sistema estatal moderno, era algo próprio a essas experiências de Mao e às políticas escolares de Yan’an nos anos 1930 e 1940. De fato, essas experiências criaram modelos de escola notavelmente inventivos.[42]

Outros líderes presentes à reunião haviam sido protagonistas dessas experiências, como Zhou Enlai, que em sua juventude atuou nas correntes vanguardistas para reforma intelectual e educacional do Quatro de Maio, e Lin Biao, que dirigiu, em Yan’an, a Universidade de Resistência Antijaponesa (kangda). Embora evitassem se gabar de qualquer expertise no campo educacional e orgulhosamente se declarassem autodidatas, diversos dos líderes presentes na reunião possuíam efetivamente um conhecimento aprofundado do problema. Ainda assim, com a crise irreversível que as políticas escolares e universitárias do Estado socialista haviam revelado naquele momento, a questão de quais novos critérios deveriam inspirar uma reforma educacional era uma incerteza para todos os participantes. A avaliação das duas décadas anteriores era bastante negativa, e as experiências dos dois anos anteriores não haviam mostrado nenhuma saída.

“Não conseguimos desenvolver a Reforma da Educação”, alguém diz durante a reunião. “Se não desenvolvermos a Revolução da Educação” – respondeu Mao – “nada pode andar para frente, menos ainda vocês… isso é porque o velho sistema danificou vocês”. Além disso, se a situação permanecesse bloqueada pelo conflito entre as facções estudantis, seria impossível encontrar algo novo.


Presidente Mao: Do meu ponto de vista, se estes são os problemas, que Revolução na Educação poderíamos fazer? Se nós falhamos, então o melhor é dispersar. Isso é o que os estudantes dizem, não estou me baseando na sugestão daqueles que estão desengajados. (…)

Yao Wenyuan: Eu estou tendo a crer que em algumas escolas o melhor é debater-criticar-dispersar, ou debater, criticar e ir embora.

Mao Zedong: Se as facções estão se comportando dessa forma, penso que mesmo que eles não queiram dispersar, devem dispersar. Quando eles deixarem o território livre, podemos usar esse espaço para que pessoas venham estudar, de forma autodidata, a escrita de romances. Porque se uma pessoa estuda literatura, deveria aprender a escrever poemas, romances ou peças de teatro. Aqueles que estudam filosofia precisam escrever sobre a história da família, a história dos lugares, os processos revolucionários. Aqueles que estudam economia política não devem aprender com os professores da Universidade de Pequim. A Universidade de Pequim tem que professores famosos? Esse tipo de coisa não se aprende só com professores. É danoso pensar que só professores são responsáveis por ensinar. Formem um grupo, leiam livros, façam uma universidade de autodidatas. Frequentando por meio ano ou um ano, talvez até dois ou três anos. Não é preciso fazer avaliação, avaliação não é um bom método. Se fazemos dez perguntas sobre um livro que tem cem pontos de vista, não cobriríamos só dez por cento? Mesmo se você acertar as dez questões, que acontece com os noventa por cento que sobrou?… Quem avaliou Marx? Quem avaliou Engels? Quem avaliou Lenin? Quem avaliou o Camarada Lin Biao? Quem avaliou o Camarada Huang Zuozhen? … As necessidades do povo. E Chiang Kai-Shek [Jiang Jieshi] foi também nosso professor.[43] Esse é o caso para todos nós. Professores são necessários nas escolas médias, mas tudo deve ser simplificado e o supérfluo eliminado.

Yao Wenyuan: Fazer mais boas bibliotecas.

Mao Zedong: Deixar que operários, militares e camponeses tenham tempo para ir. Estudar na biblioteca é um bom método. Em Hunan, eu estudei na biblioteca por um semestre, e na Universidade de Pequim por mais um semestre. Eu escolhi os livros eu mesmo. Quem me ensinou?… Universidades hoje não têm dinamismo. Deveria haver mais liberdade.[44]

Como frisei, essas questões eram cruciais em escala global. Afinal, o valor intelectual da universidade moderna e, a longo prazo, sua própria existência não estavam em jogo tanto na China como na França e em qualquer lugar? Geralmente se diz que a China estava isolada do mundo havia dez anos. Mas qualquer estudante ou professor universitário que, em julho de 1968, não estivesse dirigindo a si mesmo essas perguntas algo radicais – sobre a utilidade ou a prejudicialidade dos estudos acadêmicos, a burocracia intolerável dos exames ou a necessidade de liberdade de escolha do que estudar -, perdeu uma grande chance de refletir sobre algumas circunstâncias essenciais à sua própria existência intelectual.

Declarado: o fim da sequência

Após o fim da reunião, os cinco “pequenos generais” foram mantidos mais um pouco em Zhongnanhai. “E hoje o que a gente faz? Vocês acham que devemos prender vocês?”, tinha dito Mao sarcasticamente, culpando-os pelas crueldades contra seus oponentes e pelo ataque letal contra os trabalhadores na Qinghua. Na verdade, os líderes estudantis foram tratados de modo magnânimo. Deles, apenas se pediu que assinassem um breve resumo da discussão e o espalhassem em seus campi – duas páginas ao todo, contendo os principais argumentos que Mao e os outros do Grupo Central haviam usado para criticar duramente os líderes estudantis por seu comportamento e para pedir o fim imediato dos conflitos.[45]

A reunião confirmou que a situação havia atingido um impasse autodestrutivo, pois àquela época faltava qualquer tipo de conteúdo político às organizações das Guardas Vermelhas. Dois anos antes, elas haviam sido saudadas pela Decisão em Dezesseis Pontos, de agosto de 1966, como “uma excelente ponte que dá ao nosso partido laços mais fortes com as massas”. Esses grupos deveriam ser considerados, segundo o documento, “não como organizações temporárias, mas permanentes”, destinadas a “operar por um longo período”, e não apenas nas escolas e universidades – sua expansão para fábricas, minas, bairros, cidades e campo também deveria ser saudada. Em julho de 1968, com o ataque aos trabalhadores em Qinghua e a reunião que se seguiu, Mao e o Grupo Central declararam que a existência subjetiva desse tipo de organização deveria ser encerrada. Quanto à sequência política iniciada em junho de 1966, os lugares nos quais “as massas liberam a si mesmas, e não se deve adotar nenhuma forma de substituição do povo por representantes” (como dito em outra passagem famosa da Decisão em Dezesseis Pontos) haviam chegado ao fim.

Com a dissolução das “organizações rebeldes”, o problema mais difícil para Mao e para o Grupo Central não era como suprimir os conflitos armados nos campi, mas como intervir nas facções estudantis – desarmá-las e efetivamente dissolvê-las – sem destruir a energia subjetiva que permitiu a existência delas. É de se notar que uma das iniciativas principais tomada pelo Grupo Central, no fim de julho de 1968, relaciona o tema da universidade com as fábricas e os trabalhadores. A escolha por envolver trabalhadores e fábricas nas questões educacionais pode ser considerada, de acordo com uma categoria clássica do Maoísmo, um “recuo estratégico”. O recuo só poderia ter sido feito depois de identificado um terreno onde eles pudessem se orientar, a fim manter vivas possibilidades de experimentar novas formas de auto emancipação política, nas mesmas bases da energia política dos dois anos precedentes.

Enviar os trabalhadores ao campus da Qinghua foi, antes de tudo, uma maneira de lidar com a situação como um problema político, e não como uma simples operação policialesca inevitável. Os trabalhadores tinham entrado na Universidade de Qinghua desarmados, gritando lemas como “use a razão, não a violência”, “abaixem as armas, formem a grande aliança”, e graças à a disciplina racional, tão rara nesse tipo de evento, eles conseguiram cumprir a tarefa de cessar o conflito.[46] Mao mobilizou os trabalhadores como possíveis protagonistas de intervenções políticas, e não como substitutos do aparato repressor do Estado. A manifestação dos trabalhadores na Qinghua, sem dúvida, também tinha um papel altamente simbólico, graças ao prestígio da categoria “classe trabalhadora” na ideologia do Estado socialista. Entretanto, Mao não estava seguindo uma referência fixa. Embora a decisão pareça ser uma referência às alternativas canônicas da cultura marxista-leninista, e pareça trazer a questão de volta às relações entre o Estado socialista e a sua “base operária”, é preciso lembrar que essas relações sofreram um cataclismo político durante a Revolução Cultural.

Na Tempestade de Janeiro de 1967 em Xangai, o embate entre milhões de operários “vermelhos” e milhões de operários “escarlates” havia levado a um colapso subjetivo da própria categoria “classe operária” e, portanto, da cadeia conceitual “operário-fábrica-classe-Partido-Estado”, a qual constituía o pilar ideológico e organizacional do Estado socialista. De fato, o primeiro resultado daquele embate foi o colapso de todo o aparato institucional do Partido-Estado em Xangai. Neste texto seria impossível examinar em detalhes esse ponto crucial, mas se deve ao menos chamar atenção para o fato de que, tanto nas bases teóricas do Estado chinês nas décadas de 50 e 60 quanto para o próprio Estado Soviético, a relação operário-fábrica estava em meio a uma contradição fatal. A promessa, essencial para a existência do Estado socialista, de um reconhecimento político total dos trabalhadores foi reduzida a controle social e participação na produção, disfarçados de lealdade a um ideal histórico político.

Essa ambiguidade foi testada subjetivamente durante a Tempestade de Janeiro e, é de se notar, Xangai foi então a cidade menos envolvida em conflitos faccionalistas e a mais aberta a inovações institucionais e políticas. Graças a um grupo instruído que foi capaz de converter as consequências desse cataclismo em estímulo para a experimentação política, em Xangai até a metade dos anos 70 houve importantes tentativas de pensar politicamente a relação trabalhador-fábrica.

Mao tentou se apoiar nessas possibilidades, mesmo que de forma experimental, quando ele apelou à mobilização de trabalhadores para lidar com os conflitos na Qinghua. Apenas uma semana antes do encontro com as Guardas Vermelhas, Mao havia publicado um texto que acompanhava um relatório sobre a Fábrica de Máquinas de Xangai que anunciava o estabelecimento da “universidade dos trabalhadores”. As observações de Mao, enfatizadas pela imprensa nacional, apoiavam entusiasticamente a iniciativa operária, enaltecendo-a como “o caminho a ser seguido” para a transformação das universidades técnico-científicas. Aquelas estranhas “universidades dos trabalhadores” – que nos anos seguintes seriam uma das questões mais importantes para o grupo maoísta – audaciosamente ligavam o destino das universidades com o experimento de novas possibilidades políticas na relação operário-fábrica.[47] A questão merece uma pesquisa específica a fim de clarificar tanto o conteúdo político de seus importantes experimentos nos anos consecutivos até o “Termidor” chinês de 1976, quanto sua relação com a sequência política que foi o cerne da Revolução Cultural e cujo fim foi declarado naquela reunião com os cinco líderes dos estudantes de Pequim.

As três atitudes tomadas pelo grupo maoísta no fim de julho de 1968 – quais sejam a publicação do texto de Mao sobre a “universidade dos trabalhadores” de Xangai, o envio dos trabalhadores à universidade de Qinghua e a reunião analisada acima – formam um conjunto de decisões políticas coerente, mesmo que precário e arriscado. A ampla distribuição do registro dessa reunião, impresso tanto na forma de um resumo sintético quanto com seu texto completo, teve um papel crucial entre as tentativas de encontrar uma via política de saída do impasse criado pela exaustão faccional, ou seja, pela despolitização das organizações de Guardas Vermelhas.

P.S.: Um passo, um encontro

Alguém poderia questionar por que este documento excepcional, publicado numa coleção tão famosa de 1969 de Mao Zedong sixiang wangsui (“Vida Longa ao Pensamento de Mao Zedong”, o qual até os anos 70 era uma referência básica para qualquer pesquisa sobre China contemporânea), supostamente conhecido por muitos especialistas, tenha sido citado raramente e nunca analisado detidamente. A omissão pode ter sido acidental, mas mais provavelmente é sintomática de uma forma com que as pesquisas abordam a Revolução Cultural, e do declínio tanto político quanto epistêmico de um campo de estudos que hoje está quase sem vida.

Quanto ao esmorecimento das pesquisas de cunho histórico ou sociológico sobre os eventos das décadas de 60 e 70 na China, argumentei em outros textos que a maior dificuldade teórica é que a Revolução Cultural rompeu com prévias pontes conceituais entre história e política – pontes que eram fundamentais para a rede epistêmica da política moderna, as quais foram atravessadas por todas as ciências sociais quando investigaram eventos políticos.[48] Atualmente sou mais inclinado a ressaltar o papel do esmorecimento político, que de fato caracteriza uma vasta corrente reacionária que tem dominado essa área desde os anos 80, como causa principal de sua desertificação.[49] Não pretendo continuar a discutir esse tópico aqui e me limito a sumarizar algumas circunstâncias sobre meu trabalho e sobre este texto, argumentando porque o considero um importante passo para a análise desses eventos.

Já por algum tempo considero o registro dessa reunião como um documento chave, mas só alguns anos atrás decidi estuda-lo em detalhe. Para mim, de um lado, este documento é importante porque marca um rompimento crucial: nas primeiras horas de 28 de julho de 1968, a sequência que foi o cerne da Revolução Cultural é encerrada definitivamente. Essa sequência foi determinada pela existência de organizações políticas independentes, ou, as “Guardas Vermelhas”, as quais após essa reunião foram colocadas sob tutela e logo depois dissolvidas. Este documento, portanto, é uma das principais provas para a cronologia de eventos que propus em um artigo anterior, onde também esbocei alguns argumentos preliminares para reorganizar uma perspectiva de pesquisa e uma possível saída do deplorável impasse em que se encontram os estudos sobre a Revolução Cultural.[50]

Após alguma hesitação e falsos começos, finalmente eu percebi que partindo do exame desta transcrição formidável seria possível ir adiante e superar as preliminares. Como sempre me havia chamado a atenção o potencial valor teatral deste texto, traduzi-o inteiramente em italiano, tanto para poder examinar seus detalhes, quanto com a intenção – ou melhor, com uma vaga esperança – de submeter o “script” a um artista profissional italiano, de quem eu esperava receber uma resposta bem fundamentada para esta pergunta: poderia um bom diretor dar a este texto uma forma teatral?

Por fim, tive sorte ao encontrar algumas circunstâncias. Logo após ter completado a tradução e escrito um comentário que constitui a base do presente artigo, fui visitado pelo supervisor artístico do Teatro dei Dispersi de Bolonha, Gianfranco Rimondi, um diretor e dramaturgo extremamente excepcional. Rimondi vinha me pedir alguns conselhos para a produção de Bus Stop de Gao Xingjian, cuja versão em italiano eu havia ajudado a editar alguns anos antes. Já que a conversa envolvia orientações chamadas pelo diretor de uma “introdução ao contexto social e político chinês”, como eu poderia não lhe ter mostrado a tradução do “script” que tinha feito? Alguns dias depois, uma entusiasmada resposta chegou: a companhia estava muito interessada em atuar “a cena conclusiva”.

Então, uma experiência emocionante teve início: depois de uma pequena redução do texto feita por mim e pelo diretor, excluindo só alguns detalhes, os ensaios foram uma ocasião única, tal qual um seminário especializado que acontecia literalmente no palco. As questões feitas pelo diretor e pelos atores eram certeiras, e propunham discussões muito pertinentes: qual era a entonação desse ou daquele participante da reunião? A atitude do Presidente em determinados momentos tendia à severidade ou à indulgência? Quão relevantes eram algumas das referências históricas ou literárias? Em um certo momento, Lin Biao estava sendo irônico? Quão realista deveria ser representada a aflição de Jiang Qing, o sarcasmo de Xie Fuzhi ou a mescla apresentada pelos “pequenos generais” de aturdimento e apego a seus papéis imaginários.

As questões mais marcantes foram aquelas que tratavam da natureza subjetiva da situação, ou seja, da especificidade do que efetivamente ocorria no palco e que era provavelmente indiferente àquilo que ocorria nos bastidores – não só no sentido de uma versão vulgar da Revolução Cultural como sendo o efeito de arranjos e intrigas, mas também no sentido de um saber acadêmico histórico-social clássico engajado em interpretar atitudes subjetivas como vinculadas a condições objetivas e, no limite, fundadas nessas condições objetivas. Claro que o questionamento poderia ser visto simplesmente como o trabalho habitual do diretor e dos atores, e já que eles não eram historiadores nem sociólogos seria de esperar que fizessem esses tipos de pergunta. Todavia, era justamente a falta de atenção deles à relação entre “subjetividade e objetividade” que os permitia ver o texto como meramente subjetivo, ou seja, como intrinsicamente político. A fim de representar o texto com o realismo indispensável ao palco, os atores focaram a subjetividade presente nas próprias declarações, e dessa forma adotaram espontaneamente a única perspectiva da qual se pode entender as situações políticas.

O espetáculo foi muito bem sucedido.[51] Os atores em ternos pretos cênicos, ficavam em frente a um grupo de música organizados como um coral, e apresentavam uma “leitura” maestral do documento. As relações políticas, e mesmo as emocionais, entre os “personagens” foram inteiramente apresentadas em uma atmosfera séria, interrompidas somente por um único coup de théâtre: a busca entrada em cena do soluçante Kuai Dafu, que vinha de repente de trás do público, desde o fundo do teatro. A música de Béla Bartók, Miraculous Mandarim, bem escolhida para a abertura e a marcação das pausas, enriquecia a montagem.

Marc Bloch uma vez descreveu o historiador como aquele que rebobina um filme enquanto o projeta na tela do cinema.[52] Sem dúvida, a ideia de que a história é um filme que pode ser investigado através de uma moviola foi uma metáfora para tratar da questão da temporalidade. Todavia, após essa experiência com a peça teatral, eu argumentaria, não só metaforicamente, que ao menos no caso da política, o palco é um suporte de análise muito mais adequado que a tela de cinema, porque o teatro, mais do que a tela, pode evocar uma semelhança com as situações políticas. Desde a Antiguidade, a mise-en-scène dos dilemas políticos tem sido um elemento crucial do teatro, porque a declaração, ou a exatidão subjetiva da afirmação, é tão fundamental no palco quanto o é na política entendida como uma atividade subjetiva. Algo semelhante pode ser dito sobre o amor, cujas escolhas subjetivas são igualmente importantes para o teatro. Será que há uma essência declaratória da política (e também do amor) que o teatro poderia compreender e iluminar mais do que qualquer outra linguagem artística? Aquele espetáculo, longe de ser uma “dramatização”, mostrou uma intima proximidade com um documento que registra um instante irrepetível da subjetividade política com a singularidade do teatro, o qual expõe a si mesmo, cada noite irrepetível, à subjetividade dos expectadores.[53]

Notas:

[1] Um projeto preliminar para examinar esse documento foi desenvolvido como parte do Seminário Interdisciplinar de Pós-Graduação “Revolução Cultural X Cultura Revolucionária”, desenvolvido na Universidade de Washington, Seattle, no Programa de Estudos Críticos Asiáticos, a partir do convite cordial de Tony Barlow. Sugestões e recomendações foram recebidos de Alain Badiou, Edoarda Masi e Claudia Pozzana, que leram uma versão anterior deste artigo. Agradecimentos também a Giacomo Ferrarello, Robert Fulton e Alex Passi pela assistência editorial e linguística.

[2] N.E. Esse documento também está traduzido nesta mesma edição da Leste Vermelho.

[3] De acordo com William Hinton, autor de um livro de entrevistas feitas poucos anos depois desses eventos, trinta milhares de trabalhadores participaram da demonstração de forma organizada, e pelo menos a mesma quantidade de pessoas se uniram espontaneamente à manifestação. Ver Hundred Day War: The Cultural Revolution at Tsinghua University, New York: Monthly Review Press, 1972.

[4] A transcrição foi publicada com o título Zhaojian shoudu hong dai hui fuzeren de tanhua (召见首都红代会负责人的谈话, Conversa com as pessoas responsáveis pela conferência das Guardas Vermelhas da Capital), daqui em diante referida comoTanhua, em Mao Zedong sixiang wangsui (Vida Longa ao Pensamento de Mao Zedong), 1969, 687-716. Esta é uma publicação não-oficial atribuída a uma organização de Guardas Vermelhas não identificada, que contém a maioria dos textos de Mao do período da Revolução Cultural. O volume é bem conhecido entre pesquisadores desde os anos 70 graças a reimpressões feitas em Taiwan e no Japão. Uma tradução parcial do volume, embora nem sempre devidamente acurada, pode ser encontrada emMiscellany of Mao Tse-Tung Thought (1949-1968), Joint Publication Research Service, 61269, pts.1 e 2 (esta transcrição está nas páginas 469-497). N.E.: Uma tradução para o português dessa transcrição foi publicada nesta mesma edição da Revista Leste Vermelho.

[5] É quase supérfluo frisar que a relação entre Mao e as Guardas Vermelhas é considerada por quase todos os historiadores de forma absolutamente imaginária: “Uma aliança curiosa entre o velho líder e fanáticos adolescentes que o adoravam como um Deus” (Marie-Claire Bergère, La republique populire de Chine de 1949 à nos jours, Paris, Colin, 1989).

[6] Tanhua, 687. No presente artigo, todas as citações são extraídas do volume apresentado acima Mao Zedong Sixiang Wangsui. O mesmo texto é reproduzido, infelizmente de forma imprecisa, no Chinese Cultural Revolution Database, editado por Song Yongyi (Hong Kong, Chinese University Press, 2002), com o título adicionado pelo editor Zhaojian hongdaihui “wu da lingxiu” shi de tanhua (召见红代会”五大领袖”事的谈话, Conversa na Reunião com os “Cinco Grandes Líderes” do Congresso de Guardas Vermelhas). N.E.: Os trechos da transcrição citados neste artigo são de tradução de Andrea Longobardi e Rud Eric Paixão. A tradução integral do documento está publicada nesta mesma edição e foi feita a partir do documento que integra o volume Mao Zedong Sixiang Wangsui, citado por Alessandro Russo.

[7] A facção majoritária de Nie Yuanzi na Universidade de Pequim (Beida), chamada “Nova Beida (Comuna)”, era afiliada à Facção Céu. Dessa forma, em princípio era aliada à fação de Kuai Dafu e Han Aijing. A facção da Beida que se opunha a Nie Yuanzi (uma divisão da mesma facção “Nova Beida”, chamada “Nova Beida (Jianggangshan)”, ou simplesmente “Jinggangshan”) era afiliada à facção Terra. Todavia, “Jinggangshan” também era o nome da facção majoritária na Qinghua liderada por Kuai Dafu, o qual em princípio era um aliado de Nie e portanto inimigo da facção Jianggangshan da Beida. De fato, Nie pretendia estar em uma situação superior (um “velho buda”) em relação à essa rede de alianças. Além disso, a facção na Qinghua que se opunha a Kuai chama-se “Jinggangshan (14 de Abril)” ou simplesmente “14 de Abril” – esta era resultado de uma cisão da facção original “Jinggangshan” de Kuai Dafu ocorrida em 1967. A facção de Kuai Dafu, após tal cisão, passou a se chamar “Jinggangshan (quartel-general)”. Obviamente havia várias contradições dentro das próprias duas principais facções. O nome “Jinggangshan” (o nome das montanhas das primeiras “bases vermelhas” criadas por Mao em 1929) estava sendo disputado como um cabo de guerra entre as facções “Céu” e “Terra”, e foi um dos grandes nomes chineses modernos revolucionários que logo seria exaurido politicamente.

[8] HINTON, William. La Guerra dei cento giorni: Rivoluzione culturale e studenti in Cine, trans. Silvia Calamandrei (Turin: Einaudi, 1974), p.182.

[9] Tanhua, 697-698.

[10] Ele também disse: “Vocês devem colocar a política no comando, ir junto com as massas e junto com elas realizar a Revolução Cultural de uma boa forma”. Ver Jianguo yilai Mao Zedong wengao (建国以来毛泽东文稿, Escritos de Mao Zedong após a Liberação), Beijing, Zhongyang Wenxian Chubanshe, 1998, vol.12, p. 158.

[11] Como explicado anteriormente (nota 6), ambas as facções da Universidade de Pequim, Beida, tinham o mesmo nome, “Nova Beida”, mas eram distinguidas por termos entre parêntesis “Nova Beida (Comuna)” e “Nova Beida (Jinggangshan)”. Mao frisa, de forma sarcástica, que eles estavam agindo de forma inócua, assemelhando-se a especificação “Bolshevik” em parêntesis no título do Partido Comunista russo, a fim de lhes diferenciar do Partido Comunista “Menshevik”.

[12] Tanhua, p. 688.

[13] Idem, p. 688-9.

[14] Ver Mao Zedong sixiang wangsui, p.648.

[15] O volume citado de Marie-Claire Bergère resume essa opinião corrente na historiografia especializada. Esse é também um julgamento recorrente nas memórias de Guardas Vermelhas, especialmente entre as mais radicais. Ver, por exemplo, Hua Linshan, Les anées rouges, Paris: Seuil, 1987). N.E. Edição em português, HUA, Linshan, Os Anos Vermelhos. Rio de Janeiro: Zahar, 1988.

[16] Tanhua, 689.

[17] Idem, 707-9.

[18] Idem, 689.

[19] A reconstrução das contradições entre as facções na Qinghua, baseada em entrevistas com os participantes, pode ser encontrada em Joel Andreas, “Political and Cultural Capital as Axes of Contention in Student Factional Conflict during the Chinese Cultural Revolution” IN Theory and Society, N.31, 2002, pp. 463-519.

[20] Tanhua, p. 690.

[21] N.E. O primeiro marco citado aqui refere-se ao cartaz escrito por Nie Yuanzi em 25 de maio de 1966, chamado por Mao de “primeiro cartaz marxista-leninista da China” em uma publicação de 5 de agosto de 1967 no Jornal do Povo. Para a tradução em inglês desse comentário de Mao no Jornal do Povo, ver a revista Peking Review n. 33 de 1967; arquivos das edições da Peking Review podem ser encontrados em www.massline.org/PekingReview e em www.marxists.org/subject/china/peking-review/. A Peking Review era uma revista organizada pela editora China International Publishing Group que publicava e divulgava internacionalmente traduções em inglês dos principais artigos do Jornal do Povo e circulares do CCPC. O marco final desse período refere-se à Tempestade de Janeiro, ocorrida em 1967 em Xangai. Mais adiante, este mesmo artigo tratará do evento em mais detalhes.

[22] Idem, p. 690.

[23] Esta é mais uma referência histórica, que aqui parece ter um significado proverbial, a revoltas militares que marcaram a queda da dinastia Han entre os séculos II e III a.C.

[24] Tanhua, 700-702.

[25] Tan Houlan parece não ter tido nenhuma razão específica para se opor a Jiang Qing, a qual durante a reunião relembra um episódio no qual foi ajudada por Tan. Todavia, por causa da associação de Tan com a fação Terra, ela era aliada com a Beida Jinggangshan (aqueles que queriam “fritar” Jiang Qing) que era hostil ao Grupo Central da Revolução Cultural (que era o caso também do grupo da Universidade de Qinghua 14 de Abril). De acordo com as palavras de Jiang Qing, os oponentes de Tan na Universidade Normal (aqueles que Tan tinha preso no escuro sem água nem comida) também pareciam ser hostis ao Grupo Central. Esse confuso entrelaçamento entre as facções era proporcional a sua exaustão política.

[26] A persistência do Grupo Central em não intervir nos conflitos entre as Guardas Vermelhas por tanto tempo pode ser entendida como uma reação a algumas tendências manifestas alguns meses antes dentro do próprio grupo. Em setembro de 1967, três membros do Grupo Central da Revolução Cultural, Qi Benyu, Guang Feng e Wang Li tinham sido depostos, acusados por provocar as hostilidades entre as facções a fim de fortalecer suas posições dentro do Grupo. O episódio tinha marcado uma passagem crítica, mas durante este encontro, foi relembrado só marginalmente.

[27] Como se sabe, durante o verão de 1967, o Incidente de Wuhan tinha deixado claro a possibilidade de confrontos sérios entre comandantes militares e o aparato militar central.

[28] Tanhua, 699-700.

[29] De fato, o conflito armado faccionalista em Guanxi – um dos episódios mais autodestrutivos da Revolução Cultural – foi controlado de uma maneira muito diferente daquela usada nos campi de Pequim. Os confrontos foram suprimidos não por trabalhadores desarmados, como aqueles que entraram Qinghua, mas pelo Exército Popular da Liberação e com a milícia armada, os quais trataram os estudantes de forma muito mais violenta. Na memória citada acima, Os anos vermelhos, Hua Linshan, que foi membro de uma organização de Guardas Vermelhas em Guanxi, conta uma versão diferente daquela declarada por Mao e Lin Biao, e insiste que houve uma forma de supressão dos conflitos puramente militar. Ele confirma, todavia, e não sem um toque de nostalgia, a visão de política imaginária heroico-militarista que predominava entre as facções de Guanxi em 1968.

[30] Tanhua, 699.

[31] Idem, 704.

[32] HINTON, W. La Guerra dei cento giorni.

[33] Tanhua, 711. De acordo com Hinton, a atitude da 14 de Abril deveu-se a sérias dificuldades “militares” naquele momento e ao fato de que eles estavam quase vencidos pela Jinggangshan. De certa forma, eles receberam os trabalhadores como aqueles que os resgatariam. Os que participavam da Jinggangshan acreditavam em si mesmos de tal forma que tinham alcançado certo controle sobre as outras facções, eles foram particularmente agressivos contra os trabalhadores, a quem viam como uma ameaça que lhes roubaria a vitória. A situação entre a Jiangganshan e os trabalhadores é um exemplo que confirma a total ausência de base política dos confrontos armados na Qinghua.

[34] Tanhua, 700-701

[35] A crítica à teoria da “ferramenta dócil” era um dos principais debates, naquele período, contra o texto mais famoso de Liu Shaoqi, Lun gongchandangyuan xiuyang (论共产党员修养, Como ser um bom comunista), traduzido em inglês sob o título “How to be a good communist”, o qual, especialmente no início de 1960, constituiu um breviário moral-ideológico fundamental para a pedagogia política do PCC.

[36] Uma narração vívida da atmosfera disciplinar nas escolas Chinesas no início dos anos 60, especialmente nas mais prestigiadas, pode ser encontrada nas memórias de Rae Yang, Spider Eaters. Berkeley: University of California Press, 1997.

[37] Tanhua, p. 693.

[38] Gao Yubao foi autor de um livro de memórias traduzido em diversas línguas pela editora chinesa Foreign Languages Press.

[39] Tanhua, 693.

[40] Junto com Claudia Pozzana, traduzi para o italiano e comentei o trabalho desses autores em duas antologias: Nuovi poeti cinesi (Torino: Einaudi, 1995) e Un´altra Cina: Poeti e narratori degli anni Novanta, em um volume especial do periódico In forma di Parole 19, no.1 (1999).

[41] Editei com Fabio Lanza e introduzi uma coletânea de textos do jovem Mao sobre educação durante o Movimento Quatro de Maio, entre os quais os textos sobre a Universidade Autodidata em Hunan são notáveis. Ver Mao Zedong, Inventare una scuola: Scritti giovanili sull´educazione. Roma: Manifestolibri, 1996. Os textos chineses que deram base a esta coletânea foram recolhidos de Mao Zedong zaoqi wengao (毛泽东早期文稿, “Primeiros textos de Mao Zedong”). Para uma versão em inglês desses textos, ver SCHRAM, Stuart R., Mao´s road to power: Revolutionary Writings 1912-1949). New York: Sharpe, 1992.

[42] Eu analisei a inventividade das políticas educacionais do período do Movimento Quatro de Maio ao período de Yan’na nos capítulos 5 a 8 do meu livro Le rovine del mandato: la modernizzazione politica dell’educazione e della cultura cinesi. Milão: Angeli, 1985.

[43] Jiang [Chiang Kai-Shek, chefe do Partido Nacionalista durante a Guerra Civil chinesa], foi citado no sentido sarcástico de fanmian jiaoyuan (反面教员), um “professor em negativo”, que era uma das expressões favoritas dos maoístas naqueles anos.

[44] Tanhua, 705-6.

[45] “Maozhuxi guanyu zhizhi wudou wenti de zhishi jingshen yaodian” (毛主席关于制止武斗问题的指示精神要点, “Alguns pontos básicos da diretiva de Mao Zedong sobre a cessação dos conflitos armados”), texto reproduzido em Wenhuadageming yanjiu ziliao (文化大革命研究资料, “Materiais para a pesquisa sobre a Grande Revolução Cultural”), Pequim: Guofang Daxue, 1988, vol.2, p.153-154. O documento que resume as principais passagens dessas intervenções de Mao e Lin Biao foi escrito sob a supervisão de um membro do Grupo Central da Revolução Cultural, Xie Fuzhi, e foi assinado por todos os cinco líderes das Guardas Vermelhas. Sobre esse episódio, ver Wang Nianyi, Da dongluan de niandai (大动乱大年代, “os anos da grande desordem”), Zhengzhou: Henan Renmin Chubanshe, 1988, p.302-3.

[46] São notáveis algumas das entrevistas feitas por William Hinton com os trabalhadores que foram à manifestação.

[47] Podemos avaliar esse tipo de hipermetropia atual, quando a depreciação do trabalho manual operário, tanto na China como em outros lugares, é a base da depreciação do trabalho intelectual. Deve ser lembrado que durante os anos 80 um tópico básico, e até mesmo explícito, do consenso social chinês era que o trabalho intelectual só poderia recuperar seu prestígio através da desvalorização do trabalho manual operário, sem falar daquele do camponês.

[48] Ver RUSSO, Alessandro. “The probable defeat: Preliminary Notes on the Chinese Cultural Revolution”, IN Positions – Asia Critique, v.6, Duke University Press, 1998, pp.179-202.

[49] Eu tratei da questão da “Negação Radical” no texto “How to translate Cultural Revolution?” (apresentado na conferência Translating Universals: Theory Moves Across Asia, realizada na Universidade de Califórnia, Los Angeles, em 21 e 22 de Janeiro de 2005). O texto será publicado num volume organizado por Michael Bourdaghs e John Duncan.

[50] Ver RUSSO, Alessandro. “The probable defeat: Preliminary Notes on the Chinese Cultural Revolution”, op. cit.

[51] O espetáculo foi realizado em 10 de março de 2002. Os atores foram Marina Pitta (Jiang Qing), Roberto Mantovani (Presidente Mao), Alessandro Tampieri (Han Anjing), Luisa Vitali (Nie Yuanzi), Franco Laffi (Lin Biao), e estudantes da escola de teatro do Teatro dei Dispersi. Em três breves interrupções, que correspondiam aproximadamente às subdivisões do presente artigo, o diretor e eu nos posicionávamos num ângulo do palco para discutir algumas questões introdutórias.

[52] BLOCH, Marc. Apologia della storia. Torino: Einaudi, 1969, p. 56.

[53] Um comentário final, ou melhor, uma nota para pesquisas posteriores. A gravação da “cena conclusiva” não é uma exceção da arquivistica. Outros registros de falas, reuniões, encontros entre as Guardas Vermelhas e líderes partidários estão disseminados na imensa, e ainda largamente inexplorada, documentação de publicações de Guardas Vermelhas. Além disso, a transcrição de diálogos políticos não é limitada ao período da Revolução Cultural, e pode ser entendida como uma tradição da política moderna chinesa que remonta pelo menos ao Quatro de Maio, mas que pode ter raízes ainda mais antigas. As transcrições mais conhecidas, por razões óbvias, são as de falas e reuniões com Mao Zedong, como por exemplo os encontros de Xinmin Xiehui (新民协会, Sociedade do Novo Povo) no período do Quatro de Maio, compilados pelo próprio Mao e reproduzidas no volume Xinmin Xiehui Ziliao (新民协会资料, “Materiais sobre a Sociedade do Novo Povo”, Pequim, Renmin Chubanshe, 1980). As transcrições feitas por Li Rui dos debates face a face entre Mao Zedong e Peng Dehuai ocorridos durante a conferência de Lushan de 1959 (庐山会议实录 lushan huiyi shilu, “registros originais da conferência de Lushan”, Zhengzhou: Henan Renmin Chubanshe, 1999). Há também vários registros de conversas de Mao com outros líderes centrais nos anos 50 e 60, publicados na coletânea citada Mao Zedong sixiang wangsui (Vida Longa ao Pensamento de Mao Zedong) e em outras publicações de Guardas Vermelhas. Duas coletâneas de textos de Mao Zedong em inglês são baseadas nesse tipo de fonte: Mao Zedong Unrehearsed: talks and letters, 1956-1971, ed. Stuart Schram, Harmondsworth: Penguim, 1974 e MACFARQUHAR, R., CHEEK, T. e WU, Eugene (eds.), The Secret Speeches of Chairman Mao: From the Hundred Flowers to the Great Leap Forward. Cambridge: Harvard University Press, 1989. Na introdução deste último, Benjamin I. Schwartz observou que o estilo das transcrições das conversações de Mao é semelhante àquele das transcrições de reuniões departamentais universitárias. Entretanto, isso deve ser considerado um apego excessivo, da parte de Schwartz, a seu ambiente de trabalho acadêmico. Na verdade, poucas pessoas teriam sentido a necessidade de distribuir e disseminar amplamente os registros precisos de reuniões tão burocráticas; além disso, no que tange a reuniões departamentais, é provável que a maioria de seus integrantes queira mesmo é esquecer o que foi dito. Ao contrário, esses relatórios de discussões políticas são a transcrição de enunciados subjetivos. A recorrência desse tipo de texto na China Moderna, ao ponto que eram considerados quase um gênero menor da literatura, mostra a importância atribuída às declarações em situações políticas. De fato, esse gênero poderia remontar ao famoso clássico Yan tie lun(“Discurso sobre o sal e o ferro”), que registrava um debate de 81 a.C. entre intelectuais confucianos e ministros legalistas sobre as políticas básicas do Estado Han.

Alessandro Russo é professor da Universidade de Bolonha e escreveu diversos textos e livros sobre a Revolução Cultural chinesa em italiano, inglês e francês.