18 de setembro de 2006

A origem estadunidense da ideologia nazista

Domenico Losurdo


Tradução / A última guerra contra o Iraque foi acompanhada por um singular fenômeno ideológico: a tentativa de silenciar o movimento de protesto que então se desenvolveu, e que teve uma amplitude sem precedentes, lançando contra ele a acusação de antiamericanismo. E isso, mais do que uma atitude política enganadora, foi e continua a ser desenhado, na previsão de novas guerras que se apresentam no horizonte, como uma epidemia, como um sintoma de pouca adaptação à modernidade e de orelhas moucas ás razões da democracia. Essa epidemia – diz-se – é comum a antiamericanos de esquerda e de direita, e caracteriza as piores páginas da história europeia. Portanto – concluiu-se – criticar Washington e a guerra preventiva não promete nada de bom. Tem algum fundamento histórico esta tese?

Na realidade os bolcheviques sentem-se muito atraídos pela América do melting pot e do self made man. Contrariamente, outros aspectos são aos seus olhos decididamente repugnantes. Em 1924, Correpondace Internationale (versão francesa do órgão da Internacional Comunista) publica o artigo de um jovem indochinês de passagem pelos EUA, que ao mesmo tempo que admira a revolução americana, sente horror pela prática de linchamento que no sul atinge os negros. Um destes espetáculos de massas é assim descrito:

"O negro é posto a cozer, assado na brasa, queimado. Mas ele merece morrer duas vezes em vez de uma só. Por isso é cortado, ou mais corretamente, corta-se o que resta do seu cadáver...

Quando toda a gente esta satisfeita, o cadáver é baixado.

A corda é cortada em pequenos pedaços que são vendidos entre três e cinco dólares cada um".

Não obstante, o desdém pelo regime de white supremacy não contribui nada para uma condenação indiscriminada dos EUA: o Ku Klux Klan revela a "brutalidade do fascismo", por isso acabará por ser derrotado, para além dos negros, judeus e católicos (as vítimas a vários níveis dessa brutalidade), por "todos os americanos decentes" (in Wade, 1997, 203-4). Naturalmente não estamos perante um antiamericanismo indiferenciado.

Um "fantástico Estado futuro"


É verdade que o jovem indochinês (que dez anos depois voltará à sua terra para adquirir o nome de Ho Chi Min, que o tornará famoso em todo o mundo) identifica o Ku Klux Klan com o fascismo. Também as semelhanças entre os dois movimentos são evidentes segundo testemunhos americanos daquele tempo. Bastantes vezes, com juízos positivos ou negativos, esses testemunhos comparam os homens de branco do sul dos Estados Unidos aos "camisas negras" italianos e aos "camisas castanhas" alemães. Depois de chamar a atenção para os traços comuns entre o Ku Klux Klan e o movimento nazista, uma estudiosa estadunidense dos nossos dias considera poder chegar a essa conclusão: "É certo que se a Grande depressão não tivesse atingido a Alemanha com toda a força como na verdade a atingiu, o nazi-fascismo podia ser tratado como por vezes se trata o Ku Klux Klan: como uma curiosidade histórica cujo destino estava marcado" (MacLean 1994,184). Ou seja, mais do que a diferente história ideológica e política, seria o diferente contexto econômico a explicar a derrota do Império Invisível nos EUA e o advento do Terceiro Reich na Alemanha. Esta afirmação pode parecer excessiva. Mas quando, para calar as críticas contra a política de Washington, se recorda a contribuição essencial dos EUA, juntamente com outros países (a começar pela União Soviética), deram à luta contra a Alemanha hitleriana e os seus aliados, diz apenas uma parte da verdade; a outra parte é constituída pelo importante papel que os movimentos reacionários e racistas estadunidense desenvolveram ao inspirar na Alemanha a agitação que foi concluída com o triunfo de Hitler.

Nos anos 20, entre o Ku Klux Klan e os círculos alemães de extrema-direita foram estabelecidas relações de colaboração em nome do racismo antinegros e antijudeus.

Ainda em 1937, Rosenberg louva os EUA como «extraordinário país do futuro»: país que teve o mérito de formular a feliz «ideia nova de um estado racial», ideia que agora se trata de pôr em prática, «com a força da juventude», através da expulsão e deportação de «negros e amarelos» (Rosenberg 1937, 673). Basta olhar a legislação aprovada logo após a chegada do Terceiro Reich para dar conta das analogias com a situação existente no sul dos EUA: é óbvio que na Alemanha são em primeiro lugar os judeus alemães a tomar o lugar dos afro-americanos. Hitler preocupa-se em distinguir, taxativamente, também no plano jurídico, a posição dos arianos em relação à dos judeus e dos poucos mulatos que viviam na Alemanha (após o fim da primeira guerra mundial, tropas de pele escura do exército francês participaram na ocupação do país). «A questão negra» - escreve Rosenberg – é «nos EUA a primeira de todas as questões decisivas»; «e uma vez que o absurdo princípio da igualdade foi retirado aos negros, não se compreende porque não se tiram as necessárias consequências também para os amarelos e os judeus» (Rosenberg, 1937, 668-9).

Tudo isto nos deve espantar. Elemento central do programa nazi é a construção de um Estado racial. E quais foram naquele momento os possíveis modelos? Claro que Rosenberg se refere também à África do Sul: é bom que continue estritamente em «mãos nórdicas» e brancas (graças a oportunas leis de acusação acusatórias, para além dos «índios», também dos «negros, mulatos e judeus»), e que constitua um «forte bastião» contra o perigo representado «despertar negro» (Rosenberg, 1937, 666). Mas o ideólogo nazi sabe como a legislação segregacionista da África do Sul foi altamente inspirada pelo regime de white supremacy criado no sul dos EUA depois do final da Reconstrução (Noer 10978, 106-7, 115, 125). E por isso ele olha em primeiro lugar para essa realidade.

Por outro lado, há uma outra razão pela qual a república mais ocidental do Atlântico constitui um motivo de inspiração do Terceiro Reich.

A Alemanha é chamada a expandir-se na Europa oriental como numa espécie de Far West, tratando os «indígenas» como peles-vermelhas (Losurdo 1996, 212-6), sem nunca esquecer o modelo norte-americano, do qual Hitler saúda «a inaudita força interior» (Hitler, 1939, 153-4). Imediatamente depois da invasão, Hitler procede ao desmantelamento da Polónia: uma parte é directamente incorporada no Grande Reich (e de passagem expulsos os polacos); a outra constitui «o governo-geral» no qual – como declara o governador-geral Hans Frank – os polacos vivem como numa «espécie de reserva»: estão subordinados à jurisdição alemã sem serem «cidadãos alemães» (Ruge-Schumann 1977, 36). Aqui o modelo norte-americano de forma escolástica: não podemos deixar de pensar na condição dos peles-vermelhas.

O Estado racial entre os EUA e a Alemanha


É um modelo que também deixa marcas profundas a nível categoria e linguísticas. O termo Untermensch não é mais do que a tradução de Under Man. Rosenberg reconhece-o e expressa a sua admiração pelo autor estadunidense Lothrop Stodard: ele tem o mérito de ter puxado para primeiro plano a palavra em questão que aparece como subtítulo (The Menace of the Under Man) de um livro publicado em Nova Iorque em 1922 e na sua versão alemã (Die Drohung des Untermenschen) publicada três anos depois. Quanto ao seu significado, Stoddard deixa claro que quer dizer massa de «selvagens e bárbaros», «essencialmente incapazes de civilidade e seus incorrigíveis inimigos», aos quais há que pedir uma radical prestação de contas se se quer eliminar o perigo de falência da civilização. Elogiado, primeiramente por Rosenberg, e depois por dois presidentes estadunidenses (Harding e Hoover), o autor americano é sucessivamente recebido com todas as honras em Berlim, onde não só encontra os mais ilustres expoentes da eugénica nazi, mas também com os mais dignitários do regime, incluindo Adolf Hitler [1], já lançado na sua campanha de dizimação e escravização dos Untermenschen, ou seja dos «indígenas» da Europa oriental.

Nos EUA da white supremacy, tal como na Alemanha onde avança cada vez mais o movimento que chegará ao nazismo, o programa de restabelecer as hierarquias raciais funde-se com o projecto eugénico. Trata-se em primeiro lugar de animar a procriação dos melhores para afastar o perigo do «suicídio racial» (Rasseselbstmord) que ameaça os brancos: o sinal de alarme é dado, em 1918, por Oswald Spenger que, a esse propósito, refere os ensinamentos de Theodore Roosevelt (Spengler 1980, 683).

Com efeito, no estadista norte-americano, a evocação do espectro do «suicídio racial» (race suicide) ou seja da «humilhação racial (race humiliation) está aliada à denúncia da «diminuição dos nascimentos entre as raças superiores», isto é, «no âmbito do antigo núcleo de nativos norte-americanos. É óbvio que a referência não é aos «selvagens» peles-vermelhas mas aos Wasp (Cfr. Roosevelt, 1951, I, 487 nota 4, 647, 1.113; Roosevelt 1951, II 1.053). Trata-se, além disso, de cavar um abismo inultrapassável entre a raça dos escravos e a raça dos senhores, depurando estas últimas dos elementos de refugo e colocando-a em condições de enfrentar e romper com a revolta dos servos que, na onda da revolução bolchevique se está a desenhar a nível planetário. Também neste caso, uma investigação histórica aprofundada conduz a resultados surpreendentes.

Erbgesundheitslehre ou seja Rassennhygiene, outra palavra-chave da ideología nazi, em última análise mais não é mais do que a tradução alemã de eugénica, a nova ciência inventada por Inglaterra na segunda metade do século dezanove por Francis Galton e que, não por acaso, conhece o seu maior êxito nos EUA. Aqui é mais do que nunca agudo o problema da relação entre as «três raças» e entre «nativos» por um lado e massas crescentes de imigrantes por outro. Muito antes da chegada de Hitler ao poder, na véspera de primeira guerra mundial, publica-se em Mónaco um livro que, logo no seu título, assinala os EUA como modelo de «higiene racial». O autor, vice-cônsul do império austro-húngaro em Chicago, louva os EUA pela «luminosidade» e a «pura razão prática» que dão mostras de enfrentar, com a devida energia, um problema tão importante: a violação das leis que proíbem as relações sociais e matrimoniais podem levar à condenação até 10 anos de prisão e, no caso de condenação, além dos protagonistas, são também condenados os seus cúmplices (Hoffmann 1913, IX, 67-8).

Dez anos depois, em 1923, um doutor alemão, Fritz Lenz, queixa-se do facto de, no que diz respeito à «higiene racial», a Alemanha estar muito atrás dos EUA (Lifton 1986, 29). Também, depois da conquista do poder pelo nazismo, os ideólogos e «cientistas» da raça continua a dizer: «Também a Alemanha tem muito que aprender com os norte-americanos: eles sabem muito bem o que fazem» (Gunther 1934, 465).

As medidas eugénicas adoptadas imediatamente após a “Machtergreifung” têm o objectivo de enfrentar o perigo da “Volstod” (Lifton 1986,30), da “morte do povo”, ou seja, da morte da “raça”. E chegamos outra vez ao tema do «suicídio racial». Para eliminar o perigo do suicídio da raça branca, que seria equivalente ao suicídio da civilização, não se deve hesitar nas medidas mais enérgicas, nas soluções mais radicais, para com as «raças inferiores» (inferior races); se uma destas raças – diz Theodore Roosevelt – vier a agredir a raça «superior», esta deve reagir com uma «guerra de extermínio (a war of extermination), para «dar a morte a homens, mulheres e crianças, exactamente como se fosse uma Cruzada» (Roosevelt 1951, II, 377).

Significativamente, de uma vaga «última solução» da questão negra fala um livro aparecido em Bóston em 1913 (Frederickson, 1987, 258 nota). Mais tarde, ao contrário, os nazis teorizaram e tentaram pôr em prática a «solução final» (Endlosung) da questão judia.

O nazismo como projeto de white supremacy a nível planetário


Ao longo de toda a sua história, os EUA tiveram de se confrontar de forma directa com os problemas procedentes dos encontros com «raças» distintas e com massas de imigrantes procedentes de todos os cantos do mundo. Por outro lado, o furibundo movimento racista que se desenvolve no final do século dezanove é a resposta à grande revolução representada pela guerra da Secessão e pelo período da Reconstrução radical. Enquanto os ex-donos de escravos estão momentaneamente privados dos direitos políticos enquanto rebeldes, os negros passam da condição de escravidão à plena cidadania política: não poucas vezes fazem parte dos organismos representativos, chegando assim, de alguma forma, a legisladores e dirigentes dos seus ex-donos.

Olhemos agora as experiências e as emoções, que são a raiz da agitação ocorrida depois no nazismo. Entre os séculos dezanove e vinte, o Ku Klux Klan e os teóricos da white supremacy definem os EUA do depois da abolição da escravatura e da enorme onda de imigrados procedentes agora também do Oriente ou dos países marginais da Europa como uma «civilização bastarda» (MacLean 1944, 133), ou como uma «cloaca gentium» (Grant, 1917, 81); A Áustria, onde o futuro chefe nazi se forma, aparece no Mein Kampf como um caótico «conglomerado de povos», como uma «babilónia de povos», ou seja, como um reino babilónico, lacerado por um «conflito racial» (Hitler 1939, 74, 79, 39, 80), que parece destinado a terminar numa catástrofe: avança o processo de «escravização» e de «cancelamento do elemento alemão» (Entdeutschung), com o ocaso da raça superior que tinha colonizado o Oriente e tinha trazido a civilização (Hitler 1939, 829). A Alemanha para onde Hitler irá depois conhece revoltas sem precedentes, comparáveis de alguma forma às ocorridas no Sul dos EUA a seguir à guerra de Secessão: mas além da perda das suas colónias, os alemães são obrigados a suportar a ocupação militar por tropas de cor integradas nas forças das potências ganhadoras.

Agora, e de acordo com a Mein Kampf, também a Alemanha se transformou numa «mezcla razial» (Hitler 1939, 439). À crescente sensação de perigo do fim da civilização junta-se depois a Revolução de Outubro que, apelando à rebelião dos povos coloniais, parece decretar ideologicamente o «horror» da ocupação militar negra. Como no sul dos EUA os abolicionistas são catalogados como renegados da sua própria raça, ou seja, como negro-lovers, e como traidores da raça alemã e ocidental, aparecem aos olhos de Hitler como traidores, primeiro os sociais-democratas e depois, principalmente, os comunistas. Em última análise, o Terceiro Reich apresenta-se como a intentona, levada a cabo nas condições de guerra total e de guerra civil internacional, reagindo ao perigo do fim e do suicídio racial do Ocidente e da raça superior, para concretizar um regime de white supemacy à escala planetária e sob a hegemonia alemã.

Antisemitismo e antiamericanismo? Spengler e Ford


A actual campanha contra quem se atreve a criticar a política de guerra preventiva de Washington gostam juntar o antiamericanismo ao antisemitismo. E uma vez mais nos deixa estupefactos o esquecimento da memória histórica. Quem se recorda das comemorações do «genuíno americanismo de Henry Ford» promovidas pela Ku Klux Klan (em MacLean 1994, 90)? Aqui o objecto de admiração é um magnata da indústria automobilística, que se empenha em denunciar a revolução bolchevique como, em primeiro lugar, o resultado da conspiração judia, e com esse propósito difunde uma revista muito lida, o Dearborn Independent, cujos artigos foram recolhidos num volume, O judeu internacional, publicado em Novembro de 1920, que chegou a ser considerado o livro que, mais do qualquer outro, contribuiu para o êxito dos conhecidos Protocolo dos Sábios de Sião.

É verdade que, algum tempo depois, Ford é obrigado a renunciar à sua campanha, mas entretanto ele foi traduzido na Alemanha e teve grande êxito. Mais tarde dirão que se tinham inspirado nele ou que dele retiraram orientação dirigentes nazis de primeiro plano como von Schirach e até Himmler. Particularmente este último conta ter compreendido «o perigo do judaísmo» somente depois da leitura do livro de Ford: «para os nacional-socialistas foi uma revelação».

Continua depois com a leitura dos Sábios de Sião: «Estes dois livros ensinam-nos o caminho a percorrer para libertar a humanidade afligida pelo maior inimigo de todos os tempos, o judeu internacional». Como está claro, Himmler faz uso de uma fórmula que é o título do livro de Henry Ford. Podia tratar-se de testemunhos parciais, interessados e instrumentais. No entanto, é um facto que sobre a personalidade que teve mais influência nas conversas entre Hitler e Dietrich Eckart, é o Henry Ford antisemita um dos autores mais citados. Por outro lado, segundo Himmler, o livro de Ford, juntamente com outros livros, teve um papel «decisivo» (ausschlaggebend) não só sobre a sua formação, mas também sobre a do Fuhrer [2].

Neste caso, também resulta evidente a superficialidade do confronto esquemático entra a Europa e os EUA, como se a trágica questão do antisemitismo não tivesse abrangido os dois. Em 1933 Spengles sente necessidade de precisar: a judiofobia, diz ele claramente, não se deve confundir com o racismo «materialista» querido dos «antisemitas da Europa e da América» (Spengler 1933,157). O antisemitismo biológico que sopra impetuoso mais além do Atlântico é considerado excessivo até por um autor envolvido num requisitório contra a cultura e a história judia no quadro da sua evolução. É também por isso que Spengler surge aos olhos dos nazis como frouxo e incoerente.

O seu entusiasmo dirige-se para outro lado: O judeu internacional continua a ser publicado com grande pompa no Terceiro Reich, com prefácios que sublinham o decisivo mérito histórico do autor e industrial americano (o de ter feito luz sobre «a questão judia») e põem em relevo uma espécie de linha de continuidade entre Henry Ford e Adolf Hitler (cfr Losurdo 1991, 84-5).

A polémica em curso sobre o antiamericanismo e antieuropeísmo é muito ingénua: ela parece ignorar os intercâmbios culturais e as recíproca influências entre a América e a Europa. No primeiro pós guerra, Croce não teve dificuldade em sublinhar a influência que Theodore Roosevelt teve sobre Enrio Corradini, o chefe nacionalista, depois de entrar no partido fascista (Croce 1967, 251). No principio do século vinte, o estadista norte-americano tinha feito uma viagem triunfal à Europa, no decorrer da qual recebeu um doutoramento honoris causa em Berlim e tinha conquistado imensos «admiradores» (Pareto 1988, 1241-2§ 1.436). A imagem segundo a qual os EUA constituiriam uma espécie de espaço sagrado, imune às patologias e horrores da Europa é sobretudo um produto da guerra-fria. Nunca se pode esquecer a circulação do pensamento entre os dois lados do Atlântico: é certo que o norte-americano Stoddard inventa a categoria-chave do discurso ideológico nazi (Untermensch), mas entretanto ele tem as costas protegidas por um período de estudo na Alemanha e a leitura da teoria querida a Nietzsche do super-homem (Losurdo 2002, 886-7). Por outro lado, enquanto olha com admiração o mundo da white supremacy, a reacção alemã mostra repugnância e desprezo pelo melting pot.

Rosenberg refere indignado que em Chicago uma «grande catedral pertence aos negros». Há até um «arcebispo negro» que ali celebra missa: é «criar» os «fenómenos bastardos» (Rosenberg 1937, 471). Por sua vez, Hitler sentencia e denuncia que «sangue judeu» escorre nas veias de Franklin Delano Roosvelt, cuja mulher tem um «aspecto negróide» (Hitler 1952-54, II, 182, conversa de 1 de Julho de 1942).

Os Estados Unidos, o Ocidente e a Herrenvolk democracy


Nesta altura, as teses das convergências entre o antiamericanismo de direita e de esquerda revelam-se claramente ideológicas ou mitológicas.

Na realidade, trata-se precisamente dos aspectos postos em estado de acusação pela tradição que do abolicionismo chegam até o movimento comunista, a despertar simpatia e entusiasmo no lado oposto. O que é querido por uns é odiado por outros e vice-versa.

Mas uns e outros encontram-se diante de um paradoxo que caracteriza a história dos EUA desde a sua fundação e foi formulada no século dezoito pelo escritor inglês Samuel Jonhson: «Como explicar que os que estão empenhados na caça aos negros sejam os que mais ruidosamente aclamam a liberdade? (in Foner 1998, 32).

É um facto: a democracia no contexto da comunidade branca desenvolveu-se ao mesmo tempo que a esclavização dos negros e da deportação dos índios. Durante 32 dos primeiros 36 anos de vida dos EUA, à presidência ascenderam donos de escravos, e donos de escravos foram também os que a Declaração de Independência e a Constituição. Sem escravatura (e a subsequente segregação racial) não se pode compreender nada da «liberdade americana»: elas crescem juntas, uma sustentando a outra (Morgan 1975). Se a «peculiar instituição» (a escravatura) assegura e firme controlo das classes «perigosas», já os locais de produção, a fronteira móvel e a progressiva expansão para Oeste apagam o conflito social, transformando um potencial proletariado numa classe de proprietários de terras, mas à custa de populações condenadas a ser removidas ou varridas.

Depois do baptismo da guerra da independência, a democracia norte-americana conhece outro desenvolvimento, nos anos 30 do século dezanove, sob a presidência Jackson: o cancelamento, em larga escala, das discriminações censitárias no interior da comunidade branca é acompanhado pelo grande impulso imprimido às deportações de índios e pelo crescimento de um clima de ressentimento e de violência para com os negros. Uma consideração semelhante se pode fazer da chamada «idade progressista» que, principiando no final do século anterior, abarca os primeiros três lustros do século dezanove: ela é caracterizada por numerosas reformas democráticas (que asseguram a eleição directa para o Senado, o voto secreto, a introdução das primárias, o instituto de referendo, etc.), mas constitui simultaneamente um período particularmente trágico para os negros (alvos do terror metódico da Ku Klux Klan) e dos índios (despojados das terras residuais e submetidos a um processo de desapiedada homogeneização que lhes quer tirar até a sua identidade cultural).

Sobre este paradoxo que caracteriza a história do seu país, autores estudiosos estadunidenses falaram de Herrenvolk democracy, ou seja de democracia que só é válida para o «povo dos senhores», (para usar uma linguagem que logo foi querida a Hitler) (Berghe 1967; Fredrickson 1987). Entre brancos por um lado e negros e peles-vermelhas por outro, uma clara linha de demarcação favorece o desenvolvimento das relações de igualdade no interior da comunidade branca. Os membros de uma aristocracia de classe ou de cor tendem a considerarem-se a si mesmos como «iguais»; a clara desigualdade imposta aos excluídos é a outra cara da relação de paridade que se estabelece entre os que gozam do poder de excluir os «inferiores».

Devemos então contrapor, positivamente, a Europa aos EUA? Seria uma conclusão precipitada e que levaria a um equivoco. Na realidade, a categoria de Herrenvolk democracy também pode ser útil para explicar, em toda a sua complexidade, a história do Ocidente. Entre o final do século dezanove e o princípio do século vinte, a extensão do sufrágio na Europa é acompanhada pelo processo de colonização e pela imposição de relações de trabalho servis ou semi-servis as populações dominadas; o governo das leis na metrópole entretecesse intimamente com a violência e o arbítrio burocrático e policial e com o estado de assédio nas colónias. Em última análise, é o mesmo fenómeno que se verifica na história dos EUA, só que no caso da Europa isso é menos evidente pelo facto de as populações coloniais, não residirem na metrópole e estarem separadas pelo oceano.

Notas:


[1] Acerca do eugenismo nos Estados Unidos e na Alemanha v. Kühl 1994, 61; o lisonjeiro juízo do presidente Harding é referido na introdução à versão francesa de Stoddard 1925 (Le flot montant des peuples de couleur contre la suprematie mondiale des Blancs, tr. fr. do americano de Abel Doysié, Paris, Payot).
[2] Veja-se o testemunho de Felix Kersten, o massagista finlandês de Himmler, no Centro de Documentação Judaica Contemporânea de Paris (Das Buch von Henry Ford, 22 December, 1940, n. CCX-31); sobre o mesmo assunto v. Poliakov 1977, 278, e Losurdo 1991, 83-85.

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