4 de dezembro de 2007

Jesus: Messias ou Bolchevique?

O Cristo dos Evangelhos é de fato um revolucionário – mas de um tipo mais milenarista do que propriamente político.

Terry Eagleton


Era Jesus um revolucionário?

Ele certamente mantinha companhias políticas sombrias. Uma delas, do seu círculo mais íntimo, era conhecido como Simão, o Zelote – sendo zelotes um movimento anti-imperial clandestino, empenhado em dirigir os romanos para fora do território palestino. Os zelotes desejavam um Estado judaico teocrático, mais purificado e tradicionalista; e difundiram uma ideologia não muito diferente da Al-Qaeda de hoje. Para uma audiência regular, os ensinamentos de Jesus podem ter soado como familiar propaganda Zelote. Podemos tomar como óbvio que entre as massas que rodeavam Jesus havia Zelotes e outros dissidentes, comprovando quão “politicamente correto” ele soava.

É, no entanto, pouco provável que Jesus tenha tomado partido da resistência anti-imperial. Por um lado, parece ter apoiado o pagamento de impostos (“A César o que é de César”), enquanto os zelotes não o faziam. Por outro, cruzou sabres com os Fariseus, que eram, de alguma forma e em alguma medida, algo como o que se pode dizer a ala teológica dos zelotes.

Outra razão pela qual Jesus parece não ter sido um zelote é que seus discípulos não foram presos após sua execução. Fossem eles rebeldes presumidos e as forças de ocupação imperial, muito provavelmente, teriam se movido para varrê-los do mapa. Pode ser que tenha havido uma pitada de militantes políticos entre seus discípulos, mas as autoridades romanas parecem ter enxergado claramente que o movimento de Jesus não intencionava colocar o Estado abaixo. Não foi por isso que o seu dirigente máximo foi, por fim, crucificado.

Teriam certamente soado o alerta caso Jesus tivesse se proclamado Messias; já que o Messias era visto pela maioria como um militante político disposto a colocar o Estado de Israel de pé novamente. Mas Jesus não se proclamou Messias, exceto em duas ocasiões, ambas as quais historicamente ambíguas. De qualquer forma, a ideia de que um errante carismático e sua comitiva desarmada – grande, porém não massiva – pudesse destruir o Templo, ou derrubar o Estado é absurda, assim como as autoridades judaicas e romanas devem ter reconhecido à época. Havia forças suficientes para parar-lhes os pés: milhares de guardiães templários, para já não dizer nada sobre as guarnições romanas.

Pode ser que a ação violenta de Jesus – na tentativa de varrer do Templo os usurários cambistas, navegando nas adjacências das perigosas águas da Blasfêmia – tenha sido o suficiente para que seus antagonistas o pregassem na Cruz. Pôr para correr cambistas não foi, contudo, um gesto de intenção “anti-capitalista”. Jesus teria posto de pernas para o ar as mesas de cambistas e pequenos vendilhões, e, daí, declarado o lugar como um covil de bandidos; mas o excesso retórico de tais palavras é hoje, sabidamente, um acréscimo póstumo. Ele provavelmente significava não mais do que a destruição do Templo de um modo tão-só meramente simbólico, mais do que expressão de um intempestivo desgosto, para com esse ato de ganância mercantilista.

Ele – mais provavelmente – teria sido condenado por insubordinação e entregue à lei como um perigo à Ordem pública. Pôncio Pilatos provavelmente enviou Jesus à morte como um candidato a Messias mesmo que ele, ou o próprio Jesus, não acreditasse que assim o fosse. O Messias (ou “Christos”, em grego) era considerado pelos judeus como uma figura-guerreira, da alta realeza, ao passo que a satírica entrada de Jesus em Jerusalém, montado este no traseiro de um jumento, pode ser lida como um gesto anti-messiânico por excelência, um satírico tapa na cara ao gosto de todas essas distintas noções do que é soberania militar.

Era Jesus, então, um líder “espiritual” mais do que um dirigente político propriamente dito?

Para Jesus, não poderia haver negociação alguma entre o domínio da justiça – o chamado “Reino de Deus” – e os poderes deste mundo terreno. Neste quesito, ele confrontou seus próximos com absoluta decisão. Não importava se estes fossem a favor ou contra ele, não lhes foi permitido qualquer meio-termo liberal. O que estava em jogo não era uma questão de reformas – de “servir vinho novo em velhas garrafas” –, mas todo um inimaginável novo regime o qual, na visão de Jesus, já estava vindo à tona impetuosamente neste mundo; e do qual ele se considerava tanto prenúncio como encarnação. Neste sentido muito específico, foi um vanguardista revolucionário, e não-reformador social.

Tal qual o socialismo para Marx, o domínio da justiça é tanto imanente no presente quanto um objetivo a ser conquistado no futuro. Mas não pode haver transição suave – do velho para o novo –, à maneira de algum socialismo evolucionário. Dada a urgência, e a severidade, de nossa condição – a que os Evangelhos se referem como o “pecado do mundo” – alcançar uma Ordem social justa envolve passar pela morte, pela condição do nada mais absoluto, pela turbulência irascível e pelo auto-despojamento radical.

Uma razão essencial para que Jesus e seus seguidores esperassem a chegada iminente do Reino dos Céus é que eles não tinham sequer a noção de que a atividade humana poderia jogar qualquer papel de auxílio em sua instauração na Terra. Para os primeiros cristãos, tal reino era, sobretudo, um dom de Deus, e não um ato histórico. Não podia haver espaço para uma tal política teológica na visão dos Evangelhos, razão pela qual Jesus não foi um revolucionário no sentido em que Lenin o fora. Ele não poderia sequer ter sonhado em ser um leninista porque não estava disponível, à época, qualquer concepção de mundo afim à auto-determinação histórica. O único tipo de conceito de história que poderia importar era a Heilsgeschichte ou, trocando em miúdos, algo como História da Salvação ou História Sagrada

O cristianismo, portanto, pode ser considerado uma visão de mundo mais pessimista que o humanismo secular, ao mesmo tempo em que é infinitamente mais otimista. Por um lado, é de um severo realismo em relação à teimosia da persistente condição humana – a perversidade do desejo humano, o prevalecimento da idolatria e/ou da auto-ilusão, o escândalo mesmo do sofrimento, a enfadonha continuidade da opressão e da injustiça, a carência de qualquer virtude pública, a insolência dos poderes, a fragilidade da bondade, e o insaciável apetite, por poder, e por interesses próprios.

Por um outro lado, sustenta que não só a redenção desta desafiante – e terrível – condição é possível mas que, surpreendentemente e, em certo sentido, já aconteceu. Nem mesmo o mais torpe mecanicista dos marxistas poderia proclamar – hoje em dia – que o socialismo é inevitável, e, muito menos, que ele já surgiu, sem que nos tivéssemos dado conta. Para a fé cristã, no entanto, o advento de tal reino é assegurado, uma vez que a vinda de Jesus do mundo dos mortos já o teria fundado. Uma nova polis – uma cidade futura – é possível em base a um corpus transfigurado. E isso é, tradicionalmente, concebido enquanto “ressurreição”.

Então, Jesus foi um revolucionário ou não? Não nos termos que um Lenin ou Trotsky o teriam reconhecido. Mas isso por que era menos revolucionário do que eles foram, ou ainda mais? Certamente menos, por que não defendia a superação da estrutura de poder que se lhe confrontava. Mas assim o fazia, entre outras razões, porque esperava que logo este seria varrido para longe por uma forma de existência mais perfeita em justiça, paz, camaradagem e exuberância de espírito do que até mesmo os camaradas Lenin e Trotsky poderiam ter sequer imaginado. Talvez a resposta desconcertante não seja que Jesus era menos ou mais revolucionário, mas que era tanto mais quanto menos.

Este é um trecho editado da introdução de Terry Eagleton para Os Evangelhos, publicado pela Verso a £ 7,99.

1 de dezembro de 2007

"Ostalgia", horror global e renovação das lutas

O 90º aniversário da Revolução de outubro de 1917

Jean Salem


No seu livro publicado em 1994 “A Era dos Extremos”, Eric Hobsbawm evoca o exemplo de um casal de jovens alemães, durante algum tempo namorados, a quem a revolução bávara dos sovietes mudou a vida: Olga Benário, filha de um próspero advogado de Munique, e Otto Braun, maestro. Olga chegou a consagrar a sua vida à organização da revolução... no hemisfério ocidental. Nada menos. Esteve ligada e depois casada com Luís Carlos Prestes, que tinha encabeçado uma longa marcha insurrecional através das selvas do interior do Brasil. Em 1935, a tentativa de insurreição fracassou e as autoridades brasileiras entregaram Olga à Alemanha hitleriana, onde encontrou a morte num campo de concentração. Otto, com mais sorte, propôs-se na mesma altura participar na revolução no outro lado do mundo, na qualidade de perito militar do Komintern na China. Foi o único estrangeiro a tomar parte na “Longa Marcha” dos comunistas chineses, antes de voltar a Moscou e finalmente à RDA. Pergunta Hobsbawm “Quando, senão na primeira metade do século XX, poderiam estas vidas interligadas ter seguido uma trajetória assim?” [1]

O século, que praticamente tinha começado com os massacres da primeira guerra mundial e com a boa nova da revolução na Rússia, tinha efetivamente distribuído o jogo de uma maneira realmente muito simples: ser revolucionário era cada vez mais ser partidário de Lênin e da Revolução de Outubro de 1917, quer dizer, ser membro ou “companheiro de estrada” de algum partido comunista no seio de um movimento mundial cujo centro se encontrava em Moscou. Os melhores, os “profissionais” deste movimento revolucionário internacional, como dizia Bertolt Brecht num poema que lhes dedicou, “mudavam de país como quem muda de sapatos”.

Um pouco de história

No século XIX, o estado russo (gosudarstvo) ainda estava representado como assunto do soberano (gosudar’) e todos os russos tinham de prestar juramento de fidelidade ao czar desde o momento da sua chegada ao poder. O imperador não era um simples césar civil, era além disso o “defensor e guardião”, uma espécie de “papa” da religião ortodoxa. É verdade que em 19 de fevereiro (3 de março) de 1861 foi promulgado finalmente pelo czar Alexandre II o “Estatuto geral dos camponeses libertos da servidão”. Porém, nos anos seguintes, sobretudo a partir da chegada de Alexandre III em 1881, a política interior russa esteve quase exclusivamente marcada pelo “triunfo da reação” [3].

Pode-se observar, a este respeito, uma constante na história das revoluções: até à própria véspera de eclodirem, tudo se passa como se os privilegiados, em vez de fazerem algumas concessões, mesmo que pequenas, o que poderia pelo menos atrasar o inevitável desenlace, se tornassem cada vez mais intransigentes perante a ideia de lhes ser retirado o mais ínfimo dos privilégios. Sob este ponto de vista, a época que estamos vivendo poderia parecer rica em promessas! Porque, se esquecermos ainda que por um instante as exibições caritativas e as palhaçadas do pretenso “comércio justo”, mal se vê quem, de entre os senhores da guerra econômica mundializada, se vai preocupar seriamente com limitar os colossais lucros das grandes empresas internacionais ou com redistribuir menos desigualmente os fabulosos benefícios que acumulam. E é curioso verificar com que encarniçamento a nobreza russa no reinado de Alexandre III (1881-1894) e inclusivamente no de Nicolau II (1894-1917) tentou restabelecer a sua situação material e insistir naquilo que os seus ideólogos denunciavam, depois da abolição da servidão, como uma intolerável “fusão de castas”. Do mesmo modo, na França do séc. XVIII, a capitação (do latim caput – imposto ‘por cabeça/pessoa’, imposto estabelecido desde 1701 e que teoricamente abrangia todos os franceses) foi rapidamente eludida pelo clero e pelos nobres, que dela ficaram isentos. De igual modo, com a talha (outro imposto direto), que acabou por recair unicamente sobre os plebeus. E também em 1786, quando a dívida ameaçava as finanças reais e Calonne ministro de Luís XVI tentou debelar a crise tornando o imposto menos injusto e chocou também ele com uma verdadeira revolta da nobreza, uma reação aristocrata que anunciava e deu impulso à Revolução Francesa.

O "ensaio geral"

Há nos nossos dias quem fale de bom grado de uma “modernização incompleta”, de uma “transição perdida”, de uma Rússia que teria estado em plena mutação desde o início do século XX e cuja evolução histórica teria sido revertida, ou quase, pela revolução bolchevique! De um czar que bem o teria querido, mas que, por falta de tempo, não conseguiu. De promessas de ampliação do papel concedido a uma assembleia (a Duma) até então condenada a ser ou o traseiro, ou... dissolvida. A eclosão desde finais do século XIX de uma burguesia que incluía desde os simples comerciantes até aos novos “reis das ferrovias”, passando pela intelectualidade urbana, o esboço de um autêntico proletariado (mais de 3 milhões de operários desde 1900) e simplesmente o largo rio tranquilo da história, tudo isso teria bastado, segundo dizem, para fazer a Rússia entrar sem demasiados sobressaltos na modernidade comparável à de outros países europeus do ocidente. Falando claramente, o poder comunista teria matado no ovo as melhores das intenções, que como se sabe apenas aguardam que as levem a cabo... Vivemos, afinal de contas, uma época de contra-revolução, uma época de Restauração e este tipo de contraverdades não deve surpreender-nos. São porém difíceis de acreditar quando lemos, por exemplo, o Diário do príncipe Metchtcherski, confidente do czar Alexandre III: “O que o povo mais teme é o chicote”, escrevia este grande liberal. “Onde existir o látego reina a ordem, desaparece o alcoolismo, o filho respeita o pai e nota-se grande prosperidade”. Quanto aos fuzilamentos e outras execuções em massa praticadas correntemente sob o ministério de Stolypin (1906-1911), não parece que tal seja típico do que normalmente se entende por “democracia”.

Um país essencialmente rural

Nas vésperas da 1ª guerra mundial, a civilização urbana era ainda um artigo de importação. As reformas de Pedro o Grande (que reinou de 1682 a 1725) tinham-na imposto e foi depois sendo aperfeiçoada com uma Rússia oficial europeizada, concentrada em Moscovo e em Petersburgo, que dominavam de longe um país predominantemente rural. Três quartos da população do Império russo dedicavam-se directamente à agricultura. Tradicionalmente, a propriedade individual da terra não existia a não ser para os nobres e alguns comerciantes. O solo cultivável pertencia às comunas camponesas (no ocidente fala-se do mir [comunidade agrícola na Rússia czarista], os russos preferem dizer obchtchina, “a comuna”). Cada família possuía a título perpétuo a sua casa, assim como o recinto onde se levantava o estábulo, o armazém e uma pequena horta, mas os campos e os prados eram comunais. Na condição de que provessem o exército de recursos, pagassem os seus impostos e fornecessem os serviços que lhes eram requeridos, os camponeses geriam-se e julgavam-se entre si. As nossas costas pertencem ao senhor, dizia um antigo provérbio russo, mas a terra é nossa. As comunas repartiam as parcelas aráveis entre as famílias proporcionalmente às necessidades e à capacidade de trabalho de cada uma. Redistribuíam-nas regularmente com o objectivo de manter a igualdade constantemente ameaçada pelo aumento ou diminuição do número de bocas a alimentar em cada lar. Marx interessou-se muito de perto por este sistema tão peculiar. Para Herzemy, mais tarde, para os populistas russos do séc. XIX, havia aí inclusivamente todas as possibilidades para um socialismo russo original. Porém, a penetração do capitalismo no campo teve como primeiro efeito decompor o mir igualitário e permitiu a um pequeno grupo de camponeses mais favorecidos, os kulaks, escaparem à pauperização da maioria. Por isso, Lenine, como marxista, considerava que num país como a Rússia, apesar deste predomínio do elemento camponês, a aliança dos operários e camponeses devia fazer-se sob a direcção do proletariado. De um proletariado por certo notavelmente menos numeroso, mas mais organizado e menos desarmado frente ao poder do dinheiro, que acabava de cair com todo o seu peso sobre um mujique todavia meio servo.

Dias Cruciais

Dez anos depois do “ensaio geral” de 1905-1907 (em 1905, Dezembro, tentativa de insurreição afogada em sangue e metralha, em Moscovo), dez anos depois desta primeira revolução russa que tinha surgido quando o exército imperial sofria derrota atrás de derrota na guerra que o governo de Nicolau II tinha desencadeado contra os “macacos” japoneses (o mesmo mote foi aplicado ao czar), apenas dez anos mais tarde, a Revolução de Outubro de 1917 teve também como marco e como causa imediata a guerra, a guerra desta vez mundial, a guerra esse incomparável “acelerador da história”, segundo a fórmula de Lênin.

Por duas vezes, o exército russo se lançou prematuramente na ofensiva para aliviar o exército francês, primeiro na sua retirada da Bélgica e depois quando da batalha do Marne. Foi um duplo desastre. A campanha de 1915 não foi menos desastrosa: depois da queda de Varsóvia, os alemães penetraram na Rússia branca, assim como nos países bálticos. Até Petrogrado se viu ameaçada. Bloqueada pelo Báltico e pelo Mar Negro, obrigada a abastecer-se por Vladivostok e por Murmansk, a Rússia estava submetida a um verdadeiro bloqueio. Em finais de 1916, a alta de preços alcançava conforme os sectores de 300 a 600% e os soldados “votavam com os pés”: nos últimos meses da guerra, um milhão tinha desertado! Para melhor apoiar a ideia de que, fosse como fosse, havia que assinar uma paz ainda que humilhante com a Alemanha (Brest-Litovsk, 3 de Março de 1918), ou, dito de outra maneira, para convencer que se se queria salvar a incipiente revolução era vital perder provisoriamente espaço para ganhar tempo, Lenine repetirá insistentemente esta fórmula-choque: o sangue afoga os soldados [4]. A guerra tinha que acabar o mais rapidamente possível.

Entretanto, tiveram lugar uma série de acontecimentos absolutamente extraordinários. O regime do czar afundou-se quando uma manifestação de operários por ocasião do dia internacional da mulher a 23 de Fevereiro [8 de Março] e uma paragem de trabalho massiva nas fábricas Putilov desembocaram numa greve geral seguida por 90% dos 400.000 operários de Petrogrado. A tropa recusou-se a disparar contra as pessoas e acabou por amotinar-se. Nicolau II teve que abdicar a 3 de Março e dar lugar a um “governo provisório”. Este governo (ou melhor, esta sucessão de governos) dominado primeiro pela figura do príncipe Lvov e depois, a partir de Julho de 1917, pela de Kerenski, vai ver-se obrigado de facto a partilhar o poder até à sua própria queda com uma quantidade de conselhos (soviets) surgidos espontaneamente. Os bolcheviques não obtiveram neles de imediato a maioria. A timidez da política social posta em marcha pelo governo provisório, os apelos de Kerenski para uma “ofensiva revolucionária” contra… os alemães e o desmembramento absolutamente fictício dos grandes latifúndios em benefício de fantoches e testas-de-ferro, não tardaram a tornar imensamente popular o slogan dos bolcheviques que pedia “Pão, Paz e Terra!”. No campo, os incêndios, as pilhagens e as ocupações dos grandes latifúndios multiplicaram-se: os camponeses puseram-se a cultivar, a semear e a segar sob a aprovação dos comités agrários locais. Depois, o fracasso do golpe do general faccioso Kornilov acelerou as coisas. A 23 de Outubro, o governo tentou pôr fim pela força à agitação bolchevique. Em vez disso, o que conseguiu foi uma insurreição que levou à tomada do Palácio de Inverno (26 de Outubro) e aos primeiros decretos promulgados pelo novo poder soviético: o decreto sobre a paz e o decreto sobre a terra (“a grande propriedade foi imediatamente abolida sem qualquer indemnização...”).

Enquanto Staline considerava, tal como os mencheviques, não estar a situação ainda madura, a “posição leninista” foi como escreveu Slavoj Zizek a “de se lançar, precipitar-se sobre o paradoxal da situação, aproveitar a oportunidade e intervir, inclusive podendo a situação ser ‘prematura’” (5). “Esperar para actuar, é a morte”, “há que encontrar solução a todo o custo para esta questão, esta mesma tarde ou esta noite”: foi o que Lenine disse e repetiu na noite de 24 para 25 de Outubro de 1917, quando lançou do Instituto Smolny a palavra de ordem da insurreição contra um governo provisório que pairava no vazio (6). Aos que lhe censuravam o “aventureirismo”, poderia ter respondido remetendo para Marx: “Seria evidentemente muito cómodo fazer história se só se tivesse que lançar a luta com a sorte infalivelmente a favor” (7).

Quanto à ideia de revolução, tentei formular a partir de um exame sistemático das Obras Completas de V.I. Lenine seis teses fundamentais que durante o último quarto de século muitas esquerdas “respeitáveis” calmamente apagaram, inclusivamente desautorizaram com violência ou simplesmente censuraram:

  1. A revolução é uma guerra e a política é, de maneira geral, comparável à arte militar. 
  2. Uma revolução política é também e sobretudo uma revolução social, uma alteração na situação das classes em que se divide uma sociedade.
  3. Uma revolução faz-se de uma série de batalhas. É ao partido de vanguarda que compete conferir uma palavra de ordem adaptada à situação objectiva em cada etapa e cabe-lhe reconhecer o momento oportuno da insurreição. 
  4. Os grandes problemas da vida dos povos nunca são resolvidos a não ser pela força.
  5. Os revolucionários não devem renunciar à luta em favor das reformas. 
  6. Na era das massas, a política começa onde se encontram milhões de homens, incluso dezenas de milhões. Há que notar além disso o deslocamento tendencial dos focos de revolução para os países dominados.

Defesa e consolidação da Revolução

1917: não se trata de um trono que simplesmente se desmorona, não é um regime monárquico que vai ser substituído por um regime parlamentar, não são estas ou aquelas reformas que se vão levar a cabo, para o povo russo foi, como escreveu Pierre Pascal, “uma imensa revolta contra todas as iniquidades, as opressões, as crueldades, as hipocrisias, contra o grande escândalo da guerra, uma imensa aspiração à felicidade de todos os homens. Os poderosos serão arrancados das suas sedes e os pobres serão exaltados!” (8). Paz para todo o universo! “Alegrai-vos”, escrevia já em abril de 1917 o poeta Serguey Esenin. “A terra prepara-se para um novo batismo!” [9].

O novo regime manteve-se graças à existência de um partido comunista centralizado e disciplinado, integrado por 600.000 membros. Era além disso o único que podia evitar a desintegração de uma Rússia ameaçada de perder o essencial da sua coesão, como aconteceu com outros antigos impérios multinacionais (Austro-húngaro, Turquia). Por outro lado, a revolução permitiu ao campesinato tomar posse da terra. E as intervenções externas (britânica, americana, japonesa, polaca, etc.) e a contra-revolução branca? Conseguiu resistir-lhes vitoriosamente, não sem a ajuda da formidável onda revolucionária que nessa altura varria o planeta (em Berlim, na Hungria, mas também no México e, em menor grau, na Argentina, na Indonésia…). Foi suficientemente sólida para conseguir repelir e finalmente esmagar, 25 anos mais tarde, a invasão dos exércitos nazis, que cometeram espantosos massacres e causaram a morte a 30 milhões de cidadãos soviéticos.

Alcance da Revolução Soviética

Este 90º aniversário confirma-o: vivemos numa época de dupla impostura. A primeira consiste em apresentar o anticomunismo como uma análise da URSS. Alain Besançon, antigo comunista e “sovietólogo” como tantos outros, dizia: “O problema do especialista em questões soviéticas não é principalmente, como acontece noutros domínios, actualizar conhecimentos. A grande dificuldade está em considerar verdadeiro o que alguns têm como inverosímil, em acreditar no inacreditável” (10). A segunda das imposturas consiste, na expressão de Moshe Lewin, em “estalinizar” o conjunto do fenômeno, o qual, não teria sido mais do princípio ao fim que um imenso gulag, uniforme e contínuo (11). Mais um passo e chega-se a assimilar comunismo e nazismo utilizando a muito grosseira noção de “totalitarismo”, do que resulta nas cabeças de galinha norte-americanas que 40% dos jovens estejam convencidos segundo se diz que a segunda guerra mundial opôs os EUA... à URSS! Em nome desta ideia rasteira, deste tosco espantalho, um antigo comunista avisou-me, muito a sério, que tínhamos de desconfiar do Movimento dos Sem Terra... Criminalização do ideal comunista, autofobia de antigos comunistas que não vêem inconveniente em se julgarem atores de uma história da qual o menos que se pode sentir é... vergonha: são estas entre outras as consequências do desaparecimento do campo socialista e a inaudita arrogância dos vencedores do momento. Esta farsa sinistra tem consistido em fazer passar pela mesma mistificação os mais generosos sonhos de dezenas e dezenas de milhões de homens e mulheres através do planeta, sonhos que, durante décadas, acompanharam a existência do “socialismo real”, em reduzi-los ao mesmo nível dos obscenos arrebatamentos daquelas multidões que os fascistas só galvanizaram à custa de apelos ao ódio e incitamento à selvajaria, e em fazer-nos admitir que a vulgaridade neoliberal é um mal menor e que portanto deve ser este o único horizonte.

Quer isto dizer que não se passou nada? Que não se cometeu nenhum crime? Que Evguenia Guinzbourg não descreveu em páginas pungentes a loucura da vida num regime de concentração que não a fez mudar de ideal? Que o terror não pesou sobre o país durante pelo menos largos anos como uma esmagadora chapa de chumbo? De modo nenhum. Apenas pergunto se, à força de pretender que é indecente fazer contas ao Grande Comandante quanto ao terror, haverá fundamento para proferir acusações mais desmedidas que qualquer número determinável e assim banalizar os montes de dentes de ouro armazenados nos campos de extermínio nazis, as cabeças ressequidas de prisioneiros utilizadas como pisa-papéis pelos senhores das SS, os quebra-luzes de pele humana, as diabólicas experiências de médicos saídos do inferno, etc. Exijo, antes de como muitos fizeram me entregar sem mais à autoflagelação dos vencidos, nós que do comunismo conhecemos sobretudo a rectidão, as esperanças luminosas e o heroísmo que caracterizava os nossos maiores, exigimos que se nos diga de forma algo mais precisa de quê nos estão a falar, qual a escala dos crimes em questão. Porque, quando tinha 15 anos, em 1968, quer dizer 45 anos depois dos factos, os historiadores falavam de 3 ou 4 milhões de mortos nas duas grandes vagas de repressão dos anos 30 (anos 1930-33 e 1935-38), ao passo que a partir de 1975 começaram a circular os números mais demenciais (100 ou mesmo 140 milhões de vítimas!).

Um mundo sem União Soviética

No plano internacional, tal como escreve A. Badiou, os Estados socialistas provocaram suficiente medo aos Estados imperialistas para “os obrigar, tanto externa como internamente, a cautelas cuja falta tanto sentimos hoje” (13). Evidência cada dia mais clara: a simples existência desse campo de enfrentamento, isso a que um presidente norte-americano não teve vergonha de chamar “império do mal”, impediu durante mais de 70 anos o “mundo livre” de revelar tão abertamente como o faz hoje as suas verdadeiras normas: guerras, miséria, desemprego em massa, prostituição, tráfico de droga e armas, empobrecimento absoluto e lobotomização generalizada das grandes massas, etc. O domínio absoluto do capitalismo vem trazendo grandes sofrimentos a centenas de milhões de pessoas, tanto no interior como no exterior dos países ex-socialistas. Como nos parecem distantes aquelas incríveis declarações dos anos 91-92, segundo as quais o desaparecimento da União Soviética constituía uma oportunidade para os revolucionários do mundo inteiro! Uma hipoteca menos para os “puros”, aquelas almas nobres que, ao fim e ao cabo, tinham desejado a revolução mas… sem prejudicar nem ofender ninguém, o progresso social mas sem essa União Soviética, sempre demasiado “branda” ou demasiado “dura” aos seus olhos altaneiros, para todos aqueles que clamavam e ainda hoje clamam por uma revolução... sem revolução.

De facto, ao contrário do que se pensa, a URSS em 1991, por muito “bloqueada” ou ofegante que estivesse, não “caiu por si”! Não terão o princípio da “guerra fria” e o seu desfecho final, depois do intermezzo de trégua da “distensão” dos anos 72-80, estado marcados por dois avisos militares dos mais explícitos? Foram ameaças não apenas de guerra, mas de guerra total ou aniquilamento: a destruição de Hiroshima e Nagasaki decidida por Truman e o programa da “guerra das estrelas” lançado por Ronald Reagan (14). Ninguém, ou quase ninguém dos que descreveram o fim da URSS como uma simples “desintegração”, como um simples falhanço, como uma avaria mecânica, se terá dado conta de que um dos objectivos da Iniciativa de Defesa Estratégica (IDS), lançada em 1983 pela equipa de Reagan, era “pôr de joelhos a potência soviética”, quebrá-la para depois a arruinar através do relançamento desenfreado da corrida aos armamentos. Por isso, nos parece absolutamente evidente o carácter mistificador das categorias que pretendem definir como processo puramente espontâneo e interno uma crise que não se pode separar da formidável pressão exercida pelo campo contrário. E a categoria de “implosão” ou de “colapso”, assim como todos os seus sucedâneos enumerados acima, poderia portanto participar perfeitamente de uma mitologia apologética do capitalismo e do imperialismo. Conforme escreve Losurdo, já não serve para mais do que “coroar os vencedores” (15).

Hoje

Concluamos. Talvez se tenha notado que nada dissemos até agora sobre uma população cada vez mais empobrecida, humilhada, forçada a recorrer ao plano B para sobreviver, nem sobre a diminuição da esperança de vida na Rússia, nem sobre o fato da pequena tela ter chegado a ser ócio predominante nesse país coberto até nas mais afastadas aldeias por uma vasta rede de teatros e cinemas, associações artísticas e desportivas, conjuntos musicais e bibliotecas.

A exploração do homem pelo homem, o desemprego, a pilhagem capitalista das enormes riquezas da União Soviética (nada se soube disto durante décadas) são os sinais mais tangíveis da situação que se seguiu à contra-revolução e afundamento da URSS. Nada dissemos sobre essa inegável nostalgia (ost-algia, dizem os alemães referindo-se à Alemanha de Leste) sentida por muitos de entre os menos jovens pelos tempos passados.[1] O direito a um trabalho fixo, a jornada de 7 horas, ou mesmo 6 horas (instaurada em 1956), assim como a semana de 5 dias, o direito a ensino gratuito, aos cuidados sanitários e à protecção social, a alugueres de baixo custo, a reforma fixada aos 55 anos para as mulheres e aos 60 para os homens, tudo isto resulta da revolução de Outubro. O regime que saiu de Outubro de 1917 estabeleceu além disso os fundamentos da abolição da discriminação e opressão das mulheres. Aliviou-as de numerosas responsabilidades familiares, criando um sistema gratuito de serviços sociais geridos pelo Estado. Desde o primeiro momento da sua criação, tentou fazer recuar preconceitos, alguns milenares. O poder soviético soube gerir o seu imenso território praticando uma espécie de “internacionalismo interno” como nunca o fez nenhuma outra potência com as suas colónias, levantar um sistema internacional através dos primeiros planos quinquenais de antes da guerra e, quando era o caso, reformar-se. São outros tantos factores que testemunham avanços muito espectaculares em relação com a antiga Rússia.

Podemos dizer que a questão do balanço do período histórico iniciado com a Revolução Soviética e com a chegada de Lenine ao poder continua a estar manifestamente em aberto. Podemos dizer que regressará em breve uma reabilitação mais que parcial de Outubro de 1917 e do “socialismo real” com a renovação das lutas e a restauração da esperança.

Notas:
1. E. J. Hobsbawm, “L’Âge des extrêmes. Le Court XXe siècle, 1914-1991”, Éditions Complexe / Le Monde diplomatique, p. 109.

3. Tomo esta expressão de um livro já muito antigo de B. Mouravieff : “La Monarchie russe [A monarquia russa]”, Paris, Payot, 1962, p. 186.

4. V. I. Lenine, “Relatório à sessão do Comitê executivo central da Rússia de 23 de fevereiro de 1918.”

5. S. Zizek, “Vous avez dit totalitarisme?” [Disse totalitarismo?], Paris, Éditions Amsterdam, 2005 ; rééd. 2007: p. 120.

6. V. I. Lenine, “Carta aos membros do Comitê Central”, Outubro (6 de Nov.) de 1917.

7. Cf. V. I. Lenine, Prólogo à tradução russa das cartas de K. Marx a L. Kugelmann [1907], igualmente a carta de Marx a Kugelmann de 17 de Abril de 1871

8. P. Pascal, “Civilisation paysanne en Russie” [Civilização camponesa na Rússia], Lausanne, L’Âge d’homme, 1969, p. 121.

9. S. Essenin, “Apelo cantando:

Радуйтесь !
Земляпредстала
Новой купели !

10. A. Besançon, “Court traité de soviétologie à l’usage des autorités civiles, militaires et religieuses” [Breve tratado de sovietologia para uso das autoridades civis, militares e religiosas] (Préface de R. Aron), Paris, Hachette, 1976, p. 19.

11. Cf. M. Lewin, "Dix ans après la fin du communisme. La Russie face à son passé soviétique" [Dez anos após o fim do comunismo. A Rússia face ao seu passado soviético], in Le Monde diplomatique, dezembro, 2001.

12. Cf. GINZBURG, E.S., “El vértigo” [A vertigem], Barcelona. Galaxia Gutenberg, 2005 e El Cielo de Siberia, Barcelona, Argos Vergara, 1980

13. BADIOU (A.), “De quoi Sarkozy est-il le nom?” [Sarkozy é nome de quê?], Paris, Lignes, 2007, p. 125.

14. Cf. LOSURDO (D.), “Fuir l’histoire?” [Fugir da história?], Paris, Le Temps des cerises, 2000 ; rééd. Paris, Delga, 2007: p. 31.

15. Ibid., p. 32.

21 de novembro de 2007

Marxismo para o século XXI: Instrumento revolucionário ou mais escolasticismo?

Michael A. Lebowitz


Tradução / “Livrem-me desses ditos marxistas que pensam que têm a chave da história no bolso traseiro das calças. Livrem-me de discípulos como aqueles que seguiram Hegel e Ricardo.” Poucas pessoas compreenderam melhor que Marx como uma teoria se desintegra quando o ponto de partida do trabalho teórico “não é mais a realidade mas sim a nova forma teórica na qual o mestre a sublimou”.

Felizmente para ele, Marx foi poupado ao espetáculo dos discípulos escandalizados pela “relação frequentemente paradoxal desta teoria com a realidade” e, em consequência, levados a demonstrar que a sua teoria é ainda correta por intermédio de “empiricismo crasso”, “frases usadas em modo escolástico” e “argumentação astuciosa”. Feliz Marx que (a acreditar em Engels) foi acima de tudo um revolucionário cuja “real missão na vida foi contribuir, de uma forma ou de outra, para a derrubada da sociedade capitalista” – ele não assistiu à afirmação, por parte de escolásticos do século XX, de que aquilo de que a classe operária realmente necessitava para a sua emancipação é da prova final de que ele teve razão desde o início sobre a transformação dos valores em preços e sobre a tendência à queda da taxa de lucro!

Como podemos hoje seguir a missão de Marx e contribuir para a derrubada do capitalismo? Como podemos ajudar a classe operária a tornar-se “consciente da sua própria posição e das suas necessidades, consciente das condições para a sua emancipação”?

Em uma conferência de há uns anos atrás, subsequentemente publicada na ‘Monthly Review’ (Junho de 2004) com o título “O que mantém o capitalismo em movimento?” (“What keeps capitalism going?”), realcei dois pontos principais. Em primeiro lugar, se conseguimos perceber alguma coisa de ‘O Capital’, deve ser pelo menos que o capital tende a produzir a classe operária de que necessita – trabalhadores que encaram as exigências dele como “leis naturais evidentes por si próprias”. Porquê? O ponto é realmente simples: (a) o salário aparece necessariamente como um pagamento por uma quantidade de trabalho, extinguindo assim qualquer traço de exploração; (b) todas as noções de justiça e de equidade estão baseadas nesta aparência da troca de trabalho por dinheiro; (c) o capital, produzido pelos trabalhadores, aparece necessariamente como uma contribuição independente dos capitalistas e portanto merecedora de uma remuneração separada; e (d) os trabalhadores, como indivíduos dentro das relações capitalistas, estão realmente dependentes do capital para fazer face às suas próprias necessidades e, na verdade, estão mesmo dependentes de capitais particulares.

Consequentemente, na ausência de um entendimento sobre a natureza do capital, mesmo quando os trabalhadores lutam, estas lutas são por “equidade”, por justiça dentro das relações capitalistas, mas não de justiça para além do capitalismo – isto é, no melhor dos casos, elas refletem uma consciência sindicalista ou social-democrata, que não desafia a lógica do capital. Atendendo, pois, que a resposta espontânea das pessoas em luta não vai (e não pode ir) para além do capital, a responsabilidade dos marxistas mantém-se (como sempre) a de comunicar a essência do capital aos trabalhadores e assim a necessidade de ir para além dele. Mas isto não chega.

O meu segundo ponto era que “para aqueles que estão sob o poder do capital, contudo, algo mais é necessário do que simplesmente compreender a natureza do capital e as suas raízes na exploração. As pessoas precisam de acreditar que um mundo melhor é possível. Elas precisam de sentir que existe uma alternativa pela qual vale a pena lutar. A este respeito, descrever a natureza de uma alternativa socialista – e analisar as inadequações e os fracassos dos esforços do século XX – é uma parte essencial do processo pelo qual as pessoas podem ser conduzidas a pôr um fim ao capitalismo”.

Pode alguém seriamente negar este segundo ponto? Dados os fracassos do “socialismo real” e o sucesso do capital até agora no debate de ideias – o sucesso do capital em convencer as pessoas de que “não há alternativa”, contribuir para o derrube do capitalismo requer de nós que demonstremos aos trabalhadores que existe uma alternativa socialista para a barbárie do capitalismo.

Socialismo para o século XXI

Há um espectro que assola o capitalismo, presentemente. Não é o do socialismo do século XX – seja ele real ou teórico. Antes, é um desafio ao capital que começa com as necessidades dos seres humanos. No núcleo central do conceito de socialismo para o século XXI há uma focagem no desenvolvimento humano. Os marxistas precisam de compreender este espectro e a sua centralidade no pensamento de Marx.

O termo socialismo para o século XXI ganhou curso geral com a declaração de Hugo Chávez no Fórum Social Mundial de 2005 sobre a necessidade de reinventar o socialismo: “Temos que reclamar o socialismo como tese, projecto e caminho, mas um novo tipo de socialismo, humanista, que põe os homens e não as máquinas ou o Estado acima de tudo.”

Como eu próprio indico em ‘Build it Now: Socialism for the 21st. Century’ (Monthly Review Press, 2006), esta visão – embora não identificada ainda com o socialismo – estava já presente na Constituição bolivariana (1999) que fala sobre “assegurar um desenvolvimento humano integral” e sobre “desenvolver o potencial criativo de todo o ser humano e o exercício pleno da sua personalidade numa sociedade democrática”. E foi articulada quando Chávez falou em 2003 sobre a natureza da “economia social” que “baseia a sua lógica no ser humano, no trabalho, quer dizer, no trabalhador e na sua família, quer dizer, no ser humano” – uma economia que “gera sobretudo valores de uso” e cujo propósito é “a construção do novo homem, da nova mulher, da nova sociedade”.

Esta é uma visão que rejeita a lógica perversa do capital e a ideia de que o critério para o que é bom é ser lucrativo. Rejeita a ligação entre as pessoas através da troca de mercadorias, em que o nosso critério para decidir satisfazer as necessidades dos outros é se isso nos beneficia ou não como indivíduos ou grupos de indivíduos. István Mészáros expressou tudo isto claramente no seu ‘Beyond Capital’ quando invocou Marx para falar sobre uma sociedade na qual, em vez da troca de mercadorias, há uma troca de actividades, baseadas todas elas em necessidades comunais e propósitos comunais. E Chávez abraçou expressamente a perspectiva de Mészáros, em Julho de 2005, quando disse “temos que criar um sistema comunal de produção e consumo, um novo sistema”. Temos que construir, insistiu ele, “este sistema comunal de produção e de consumo, de ajudar a criá-lo, a partir das bases populares, com a participação das comunidades, através das organizações das comunidade, de cooperativas, auto-gestão e diferentes meios de criar este sistema”.

O conceito de socialismo para o século XXI que tem estado a evoluir na Venezuela combina três características: (a) detenção social dos meios de produção, o que é a base para a (b) produção social organizada pelos trabalhadores de modo a (c) satisfazer necessidades e propósitos comunais. (Desenvolvo este ponto em ‘New wings for socialism’, em Monthly Review, Abril de 2007). No cerne deste conceito e penetrando todos os seus elementos está, no entanto, a ligação essencial entre desenvolvimento humano e praxis.

A focagem na prática esteve presente desde o início na Constituição bolivariana, que insiste em que a participação e o protagonismo do povo são “a via necessária para obter o seu envolvimento, necessário para assegurar o seu completo desenvolvimento, tanto individual como colectivo”. Insiste ainda na identificação do planeamento democrático e do orçamento participativo a todos os níveis da sociedade, bem como na “auto-gestão, co-gestão e cooperativas de todas as formas” como exemplos de “formas de associação guiadas pelos valores da cooperação mútua e da solidariedade”. Com o presente desenvolvimento dos conselhos comunais (representando entre 200 e 400 famílias, em áreas urbanas) como a célula de um novo tipo de Estado e com propostas para conselhos de trabalhadores e gestão pelos trabalhadores, há definitivamente um aprofundamento do compromisso feito na Venezuela por aquilo a que Chávez chamou de “um novo tipo de socialismo, humanista”.

Contudo, como afirmei já em ‘Build it Now’, dados os muitos obstáculos (tanto internos como externos) a este processo, não está claro se a tentativa da Venezuela será bem sucedida. Seja como for, o socialismo está de volta à agenda, um socialismo para o século XXI que tem no seu cerne o conceito de “prática revolucionária”, de Marx – “a coincidência da mudança das circunstâncias com a actividade humana de auto-mudança”.

Tudo isto devia ser reconhecido como uma ruptura com o pensamento sobre o socialismo no século XX. Nesta visão, o socialismo era considerado como o primeiro estádio pós-capitalista – uma sociedade com as suas próprias características e leis específicas, que era distinta do estádio mais elevado, o comunismo. Tendo passado para além da exploração e da irracionalidade do capitalismo, o socialismo asseguraria o rápido desenvolvimento das forças produtivas e assim prepararia o terreno para a sociedade comunista da abundância.

Embora esta concepção (e a acentuação posta nas forças produtivas) correspondesse às preocupações imediatas de sociedades tentando romper com o capitalismo e contudo rodeadas por inimigos capitalistas mais poderosos, o estádio separado do socialismo foi apresentado como a visão de Marx de um degrau necessário pelo qual todos os povos teriam de passar. Os comentários do próprio Marx sobre os inerentes “defeitos” da nova sociedade foram ademais tomadas como justificação para se construir sobre a base do auto-interesse – “a cada um segundo a sua contribuição” teria de prevalecer até que o desenvolvimento das forças produtivas tenha criado a sociedade da abundância.

Mas essa não era a perspectiva de Marx. Em vez de dois estádios separados, Marx compreendeu que a nova sociedade se desenvolve necessariamente através de um processo – um processo pelo qual transcende os defeitos económicos, sociais e intelectuais que herdou do capitalismo. E o defeito específico que ele identificou não foi que as forças produtivas estivessem demasiado atrasadas, mas sim a natureza dos seres humanos produzida na velha sociedade, com as suas velhas ideias – pessoas que continuam a ser orientadas para si próprias e, assim, se consideram com direito a receber exactamente aquilo com que contribuíram para a sociedade. Construir sobre os defeitos – em vez de trabalhar conscientemente para os eliminar – é uma receita para restaurar o capitalismo (como a experiência demonstrou).

Resumidamente, assim como o capitalismo se desenvolveu através de um processo de “subordinação de todos os elementos da sociedade a si próprio” e através da criação para si próprio dos órgãos que lhe faltavam, assim também deve o socialismo desenvolver-se. No lugar da lógica do capital e do auto-interesse, a nova sociedade socialista desenvolve-se inserindo a sua própria lógica centrada nos seres humanos; em lugar de tomar o interesse egoísta como premissa, os produtores associados trabalham para desenvolver novas normas sociais baseadas na cooperação e na solidariedade entre membros da sociedade.

Assim, construir a nova sociedade põe a tónica não na crescente produção de coisas mas, antes, na criação das condições para o desenvolvimento de forças humanas – isto é, condições que substituam os seres humanos fragmentados e amputados do capitalismo pelo “indivíduo totalmente desenvolvido” e permitam às pessoas que se desenvolvam através da sua própria actividade. Com o “desenvolvimento integral do indivíduo”, todas as fontes manantes da riqueza cooperativa fluirão mais abundantemente.

O conceito de socialismo para o século XXI resgata a ideia original de Marx de uma “associação na qual o livre desenvolvimento de cada um é a condição para o livre desenvolvimento de todos”, de uma sociedade centrada no “desenvolvimento de todos os poderes humanos como o seu objectivo próprio”. Ele adere à opinião de Che Guevara - expressa no seu clássico ‘O Homem e o Socialismo em Cuba’ - que de modo a construir o socialismo, é essencial, para além de construir novas fundações materiais, construir novos seres humanos. Assim, ele rejeita a prática de ignorar a transformação das relações sociais e dos seres humanos, para se concentrar no desenvolvimento das forças produtivas – uma característica infeliz dos esforços, dirigidos a partir do topo, para construir o socialismo no século XX.

Marxismo para o século XXI

Há uma relação entre o marxismo do século XX e os erros nas tentativas de construir o socialismo no século XX? Eu creio que há muitas. Para começar, os marxistas deveriam relegar o ‘Prefácio’ de 1859 (com as suas fórmulas de determinismo economicista) para um livro de provérbios, estudando em vez disso as observações dos ‘Grundrisse’ sobre o “tornar-se” e o “ser” de um sistema orgânico, observações que permitirão uma melhor compreensão de processo. Para além disso, compreender o enfoque de ‘O Capital’ em como as relações de produção precedem e moldam o carácter das novas forças produtivas ajudaria a reduzir a adoração da tecnologia e do desenvolvimento das forças produtivas.

Contudo, penso que há um problema do socialismo do século XX que deriva do próprio ‘O Capital’. Porque é que os marxistas não começam directamente a partir da questão do desenvolvimento humano e do conceito de “ser humano rico”? Porque é que tantos marxistas não compreendem que a premissa de Marx, ao escrever ‘O Capital’, era o seu entendimento de que a verdadeira riqueza é a riqueza humana, “a individualidade rica, tão multifacetada na sua produção como nos seus consumos”, e que escreveu da perspectiva de uma sociedade em que os resultados do trabalho passado “estão lá para satisfazer a própria necessidade do trabalhador de se desenvolver”? Se Marx não tivesse a alternativa socialista claramente em vista, como poderia ele descrever a situação em que os meios de produção empregam os trabalhadores como “esta inversão, esta distorção que é tão peculiar e característica da produção capitalista”? Uma inversão de quê?

O problema tem origem numa má compreensão de ‘O Capital’ de Marx – na visão de que ‘O Capital’ é o estudo do capitalismo por Marx, em vez de uma exploração a partir do lado do capital, conduzida através do esboço de uma crítica da economia política do capital. Quando se falha a compreensão dos limites de ‘O Capital’ (limites apontados pelo próprio Marx), não é surpreendente que logo se sigam o determinismo económico, a visão das forças produtivas introduzidas pelo capital como neutras, o tratamento do proletariado como uma abstracção, a incapacidade para compreender como “o poder contemporâneo do capital se baseia” na criação de novas necessidades para os trabalhadores, a falha no reconhecimento de que a tendência “geral e necessária” do capital é para dividir e separar os trabalhadores, a efectiva desaparição de cena da luta de classes conduzida do lado do proletariado.

Em ‘Beyond Capital: Marx’s Political Economy of the Working Class’ (Palgrave, 2003) e na palestra do Pémio Deutscher, ‘The politics of assumption, the assumption of politics’ (‘Historical Materialism’, nº 14.2, 2006), abordo as implicações da falha de Marx em completar o seu projecto epistemológico – em particular, o marxismo unilateral que decorre da falha no reconhecimento das implicações da falta do livro sobre o Trabalho Assalariado. Porque é que ele nunca escreveu esse livro? Marx estava menos interessado, sugeri eu, no acabamento do seu projecto epistemológico do que no seu projecto revolucionário.

É claro, como seguidores de Marx, podemos prosseguir ambos esses projectos. Contudo, os escolásticos e os discípulos para quem o ponto de partida “não é mais a realidade, mas sim a nova forma teórica na qual o mestre a sublimou” não podem prosseguir nenhum deles. Precisamos de retornar à premissa de Marx – a visão de uma sociedade do “ser humano rico”, em que há um “absoluto desdobramento das suas potencialidades criativas”, “a completa realização do conteúdo humano”, o “desenvolvimento de todos os poderes humanos enquanto tais como fim em si”. Em resumo, precisamos de aderir à visão do “socialismo para o século XXI”.

E, como marxistas que vivemos neste mundo real, precisamos de nos perguntar como precisamente é que poderemos ajudar a classe trabalhadora do século XXI a tornar-se “consciente da sua própria posição e das suas necessidades, consciente das condições para a sua emancipação”. Quais são as suas necessidades? Quais são as barreiras que o capitalismo do século XXI criou à realização dessas necessidades? Quais são, nas suas actuais condições de vida, os caminhos à disposição dos trabalhadores para lutar agora contra o capital? Na verdade, que fazer?

Precisamos, em síntese, de compreender as condições que o capitalismo global do século XXI criou. Obviamente, elas não são aquelas que nós teríamos escolhido. Mas são as únicas disponíveis nas quais podemos fazer história.

1 de novembro de 2007

A hipótese comunista deve ser abandonada?

Alain Badiou

Alain Badiou. De quoi Sarkozy est-il le nom?. Éditions Lignes, 2007.

Gostaria de situar a eleição e a presidência de Nicolas Sarkozy [12] , o qual, convenhamos, não constitui uma página grandiosa da história da França, num horizonte mais amplo. Numa espécie de afresco hegeliano, digamos, da história mundial recente. Estando entendido que por história recente não me refiro à tríade presidencial François Mitterrand-Jacques Chirac-Sarkozy, e sim ao devir da política de emancipação operária e popular iniciada há cerca de dois séculos. Desde a Revolução Francesa e sua paulatina repercussão universal, desde os desdobramentos mais radicalmente igualitários da Revolução - entre eles as Leis do Máximo do Comitê robespierrista e as teorizações de Gracchus Babeuf -, sabemos que o comunismo é a hipótese certa.

Na verdade, não existe outra, ou, em todo caso, não conheço nenhuma. Quem quer que renuncie a essa hipótese estará instantaneamente se submetendo à economia de mercado, à democracia parlamentar (que é a forma de Estado apropriada ao capitalismo) e ao caráter inevitável, "natural", das desigualdades mais monstruosas. "Comunismo", o que isso significa? Como argumenta Karl Marx nos Manuscritos de 1844, o comunismo é uma idéia que se refere ao destino da humanidade. É absolutamente necessário distinguir este sentido da palavra do adjetivo "comunista", inteiramente desgastado em expressões como "partidos comunistas", "mundo comunista", para não falar em "Estado comunista". "Comunista" tem primeiramente o significado negativo, como vemos no Manifesto do Partido Comunista: a lógica das classes, da subordinação fundamental dos trabalhadores a uma classe dominante, pode ser superada.

Tal dispositivo, que é o dispositivo da história desde a Antiguidade, não é inevitável. Por conseguinte, o poder oligárquico, cristalizado no poder dos Estados, daqueles que detêm a riqueza e organizam sua circulação, não é inevitável. A hipótese comunista afirma ser possível outra organização coletiva, que eliminará a desigualdade das riquezas e até mesmo a divisão do trabalho: cada indivíduo será um trabalhador polivalente, e as pessoas transitarão entre o trabalho manual e o trabalho intelectual, entre a cidade e o campo. A apropriação privada de riquezas monstruosas e sua transmissão familiar desaparecerá. A existência de um aparelho de Estado coercitivo, militar e policial, separado da sociedade civil, já não aparecerá como uma necessidade evidente. Após uma breve seqüência de "ditadura do proletariado", encarregada de destruir os restos do velho mundo, diz Marx, haverá uma longa seqüência de reorganização, com base na "livre associação" de produtores e criadores, a qual servirá de suporte para um "depauperamento do Estado". O "comunismo" designa tão-somente esse conjunto bastante genérico de representações intelectuais.

Esse conjunto é o horizonte de toda iniciativa que, por local e limitada no tempo que seja, ao romper com a ordem das opiniões estabelecidas (ou seja, a necessidade das desigualdades e do instrumento estatal para garanti-las), constitui um fragmento de uma política de emancipação. Para usar uma expressão de Kant, trata-se de uma idéia com função reguladora, e não de um programa. É absurdo qualificar os princípios comunistas (no sentido que acabo de dar) de utopia, como acontece com freqüência. Esses princípios são esquemas intelectuais, sempre atualizados de formas diversas, que servem para traçar linhas de demarcação entre diferentes políticas. Grosso modo, uma dada seqüência política ou é compatível com esses princípios, e é emancipadora no sentido amplo do termo, ou bem a eles se opõe, e é reacionária.

Se ainda é verdade, como disse Sartre, que "todo anticomunista é um cão", é porque toda seqüência política que, nos seus princípios ou na ausência de qualquer princípio, se mostra formalmente oposta à hipótese comunista, deve ser vista como contrária à emancipação da humanidade inteira - e, portanto, ao destino propriamente humano da humanidade. Quem não ilumina o devir da humanidade com a hipótese comunista (quaisquer que sejam as palavras que empregue, pois palavras importam pouco) o estará reduzindo, no que tange ao seu futuro coletivo, à animalidade. Como se sabe, é "concorrência" o nome contemporâneo, capitalista, dessa animalidade. Ou seja: guerra de interesses, e nada mais.Enquanto ideia pura de igualdade, a hipótese comunista existe em estado prático desde os primórdios do Estado. Sempre que a ação das massas se opõe, em nome da justiça igualitária, à coerção do Estado, vemos surgir os rudimentos, ou fragmentos, da hipótese comunista. As revoltas populares, como a dos escravos liderados por Spartacus, ou a dos camponeses alemães liderados por Thomas Müntzer, são exemplos dessa existência prática.

Na forma explícita que lhe atribuem alguns pensadores e ativistas da Revolução Francesa, a hipótese comunista inaugura a modernidade política. É ela que derruba as estruturas mentais do Antigo Regime, sem, contudo, se articular com as formas políticas democráticas que a burguesia transformaria em instrumento da sua conquista do poder. Este ponto é essencial: desde o início, a hipótese comunista em nada coincide com a hipótese democrática que levará ao parlamentarismo contemporâneo. À luz da hipótese comunista, o que parece ser importante e criativo é de natureza diversa daquilo que é selecionado pela historiografia democrática burguesa. Essa é a razão por que, ao fornecer fundamentos materialistas à primeira grande seqüência efetiva da política de emancipação moderna, Marx, por um lado, retoma a palavra "comunismo" e, por outro, afasta-se de toda "politicagem" democrática - ele sustenta, com base na Comuna de Paris, que o Estado burguês, por mais democrático que possa ser, deve ser destruído.

Numa entrevista, Sartre diz: "Se a hipótese comunista não estiver correta, se não for praticável, significa então que a humanidade não é muito diferente das formigas ou dos cupins." O que ele quer dizer com isso? Que se a concorrência, o "livre mercado", a soma dos pequenos prazeres e os muros que nos protegem do desejo dos fracos são o alfa e o ômega de toda existência, coletiva ou privada, o animal humano não vale um tostão furado. George W. Bush, amparado pelo conservantismo agressivo e o espírito de cruzada, e Sarkozy, amparado pela disciplina trabalho-família-pátria, querem reduzir a imensa maioria dos seres humanos a esse "tostão furado". E a "esquerda" é ainda pior, quando justapõe a essas violências a sua generosidade oca, o seu vago espírito de caridade. À concorrência mórbida, à vitória dos filhinhos e filhinhas de papai, ao ridículo super-homem das finanças desenfreadas, ao herói dopado das Bolsas planetárias, a esquerda oferece os mesmos atores, mas com alguma gentileza social, um pouco de óleo de nozes na engrenagem, migalhas de pão bento para os deserdados - só tomando emprestado de Nietzsche, em suma, a figura exangue do último homem.

Acabar de vez com o Maio de 68 [como defendeu Nicolas Sarkozy na campanha eleitoral] significa aceitar que não existe outra escolha senão entre o niilismo hereditário das finanças e a piedade social. É preciso, então, não apenas reconhecer que o comunismo ruiu na União Soviética, não só admitir que o Partido Comunista Francês se desfez miseravelmente, mas também, e principalmente, renunciar à hipótese de que Maio de 68 foi uma criação militante claramente consciente do fracasso do "comunismo" de Estado. Maio de 68 e mais ainda os cinco anos que se seguiram inauguraram uma nova seqüência da verdadeira hipótese comunista, aquela que sempre mantém distância do Estado. Ninguém sabia, decerto, no que aquilo tudo ia dar, mas se sabia que se tratava do renascimento da hipótese. Se Sarkozy é o nome desse estado de coisas, é preciso renunciar a toda ideia de renascimento semelhante. Se a sociedade humana é uma coleção de indivíduos que perseguem seus próprios interesses, se tal é a eterna realidade, o filósofo pode, e deve, abandonar o animal humano a esse triste destino. Mas não deixaremos que o triunfante Sarkozy nos dite o sentido da existência nem as tarefas da filosofia. Pois isso a que estamos assistindo não impõe de maneira alguma a renúncia à hipótese comunista, e sim a reflexão sobre o momento em que estamos da história dessa hipótese.

L’histoire de l’hypothèse communiste, et son moment actuel

Donc, une fresque historique s’impose, où situer notre effort. Il y a eu deux grandes séquences de l’hypothèse communiste : celle de sa mise en place, de son installation ; et celle de la première tentative de sa réalisation.

La première séquence va de la Révolution française à la Commune de Paris, disons de 1792 à 1871. Elle dure donc à peu. près quatre-vingts ans. Cette séquence comporte toutes sortes de phénomènes politiques entièrement nouveaux dans toutes sortes de pays du monde. Cependant, on peut dire que, en ce qui concerne les péripéties majeures, elle est essentiellement française. Marx en personne assignait certes le fondement philosophique de la séquence à l’Allemagne (la dialectique hégélienne), et sa tournure scientifique à l’Angleterre (la naissance de l’économie politique), mais son contenu politique réel, dans l’ordre de la pratique, à la France (le mouvement ouvrier français [13]) Cette séquence lie, sous le signe du communisme, le mouvement populaire de masse et une thématique de la prise du pouvoir. Il s’agit d’organiser le mouvement populaire, sous des formes multiples — manifestations, grèves, soulèvements, actions armées, etc. — autour de la thématique d’un renversement.

Ce renversement est évidemment un renversement insurrectionnel qu’on appelle « révolution >. Cette révolution supprime la forme de la société (la propriété privée, l’héritage, la séparation de l’humanité en nations, la division du travail, etc.), et instaure l’égalité communiste, ou ce que les penseurs ouvriers, si bien analysés par Jacques Rancière , nomment la « communauté des Egaux ». L’ordre ancien va être abattu par une combinaison de sa propre corruption immanente et de la pression, éventuellement armée, du mouvement populaire. C’est aussi à ce moment qu’apparaît le paramètre particulier du mouvement ouvrier. Les vieilles catégories révolutionnaires, le petit peuple des villes, les artisans, les étudiants et les intellectuels, la masse paysanne pauvre, sont transformées, relevées, par la fonction dirigeante de la classe ouvrière * Cette séquence est close par la nouveauté saisissante et l’échec radical de la Commune de Paris. La Commune a été la forme suprême de cette combinaison de mouvement populaire, de direction ouvrière et d’insurrection armée. Elle a montré la vitalité extraordinaire de cette formule : elle a pu exercer un pouvoir de type nouveau pendant deux mois, dans une des plus grandes capitales de l’Europe, avec l’appui interne de nombreux révolutionnaires étrangers, notamment des Polonais, ce qui montrait la force du concept marxiste d’Internationale.

Mais elle a également montré ses limites. Car elle n’a pu ni donner à la révolution une envergure nationale ni organiser efficacement la résistance quand la contrerévolution, avec l’appui tacite des puissances étrangères, a pu compter sur un appareil militaire efficient. La deuxième séquence va de 1917 (la Révolution russe) à 1976 (la fin de la Révolution culturelle en Chine, mais aussi la fin du mouvement militant surgi partout dans le monde aux alentours des années 1966-1975, et dont l’épicentre, du point de vue de la nouveauté politique, a été Mai 1968 en France et ses conséquences dans les années qui suivirent). Cette deuxième séquence dure une cinquantaine d’années. Mais remarquons aussi qu’elle est séparée de la première par une coupure d’à peu près la même longueur (plus de quarante ans). Cette deuxième séquence, très complexe, et qui contient aussi, dans son bord terminal, ce dont nous sommes les héritiers, est dominée par la question du temps. Comment être victorieux? Comment, contrairement à la Commune de Paris, durer face à la sanglante réaction des possédants et de leurs mercenaires? Comment organiser le nouveau pouvoir, le nouvel Etat, de façon à ce qu’il soit à l’abri de sa destruction par ses ennemis? La grande question de Lénine est de répondre à ces questions.

Et ce n’est certes pas pour rien qu’il a dansé sur la neige quand le pouvoir insurrectionnel a duré, en Russie, un jour de plus que la Commune de Paris. Durant cette seconde séquence, le problème n’est plus l’existence d’un mouvement populaire et ouvrier agissant sous l’hypothèse communiste, ni non plus l’idée générique de révolution, sous sa forme insurrectionnelle. Le problème est celui de la victoire et de la durée. On peut dire qu’il ne s’agit plus de formuler et d’expérimenter l’hypothèse communiste, mais de la réaliser. De ce point de vue, la maxime générale est celle formulée par Lénine, qui est en substance : « Nous entrons dans la période des révolutions prolétariennes victorieuses ». C’est la raison pour laquelle les deux premiers tiers du XXe siècle sont dominés par ce que j’ai appelé "la passion du réel 15" : ce que le XIXe siècle a rêvé et expérimenté, le XXe doit l’accomplir intégralement. Cette obsession de la victoire et du réel s’est concentrée dans les problèmes de l’organisation et de la discipline, elle est tout entière contenue, à partir de 1902 et du Que faire? de Lénine dans la théorie et la pratique du parti de classe, centralisé et homogène. On peut dire que les partis communistes ont incarné, dans leur « discipline de fer ", le réel de l’hypothèse communiste.

Cette construction caractéristique de la deuxième séquence de l’hypothèse, le parti, a en effet résolu la question léguée par la première séquence, notamment par la Commune de Paris, qui en avait été l’apogée et la fin : la question de la victoire. En Russie, en Chine, en Tchécoslovaquie, en Albanie, en C orée, au Vietnam, et même à Cuba un peu autrement, sous la direction de partis communistes, la complète révolution de l’ordre politique et social l’a emporté, par l’insurrection ou la guerre populaire prolongée, et a duré, sous la forme de ce qui a été nommé « l’État socialiste ». Après la première séquence, qui était sous le signe de la formulation de l’hypothèse communiste et de sa réalité en tant que mouvement, il y a bien eu une deuxième séquence, sous le signe de son organisation disciplinée et militarisée, de sa victoire locale et de sa durée. Comme il est normal, la seconde séquence a créé à son tour un problème qu’elle n’avait pas les moyens de résoudre en utilisant les méthodes qui lui avaient permis de résoudre le problème légué par la première séquence. En effet, le parti, approprié à la victoire insurrectionnelle ou militaire remportée contre des pouvoirs réactionnaires affaiblis, s’est révélé inapte à la construction d’un Etat de dictature du prolétariat au sens de Marx, soit un Etat organisant la transition vers le non-État, un pouvoir du non-pouvoir, une forme dialectique du dépérissement de l’État.

Sous la forme du Parti-Etat, on a au contraire expérimenté une forme inédite d’Etat autoritaire, voire terroriste, en tout cas très séparé de la vie pratique des gens. Nombre de réalisations de ces États « socialistes » ont été remarquables, dans les domaines notamment de l’éducation, de la santé publique, de l’idéologie quotidienne (valorisation formelle du travailleur ordinaire), de l’ordre public. Sur le plan international, ces États ont suffisamment fait peur aux États impérialistes pour les contraindre, au dehors comme au dedans, à des prudences que nous regrettons fort aujourd’hui, où l’arrogance du capitalisme parvenu à son stade suprême ne connaît plus de limites. Cependant, le principe étatique était en lui-même vicié et finalement inefficace. Le déploiement d’une violence policière extrême et sanglante n’a aucunement suffi à le sauver de son inertie bureaucratique interne, et dans la compétition féroce que lui ont imposée ses adversaires, il n’a guère mis plus de cinquante ans à montrer qu’il ne l’emporterait jamais. C’est à ce problème du Parti comme inadéquat à assurer la durée réelle et la transformation créatrice de l’hypothèse communiste que sont consacrées les dernières convulsions importantes de la deuxième séquence : la Révolution culturelle en Chine et la nébuleuse nommée « Mai 68 » en France. En Chine, la maxime de Mao sur ce point est : « Sans mouvement communiste, pas de communisme ».

Il faut à tout prix tremper le parti dans le mouvement de masse pour le régénérer, le dé-bureaucratiser, et le lancer dans la transformation du monde réel. La Révolution culturelle tente cette épreuve, et devient vite chaotique et violente, tant la définition de l’ennemi est soit incertaine, soit dirigée contre l’unique pilier de la société : le parti communiste lui-même. Mao n’y est pas pour rien, dès lors qu’il déclare : « On ne sait pas où est la bourgeoisie? Mais elle est dans le parti communiste ! » Finalement, faute de soutien donné aux expériences les plus radicales de décentralisation de l’Etat (la « Commune de Shanghai », au début de 1967), il faudra rétablir l’ordre ancien dans les pires conditions. En France, après Mai 68 le motif dominant est que l’action collective organisée doit créer de nouveaux lieux politiques, et non en était Lénine au tout début du XXe siècle, quand la question : « Que faire? » admet des réponses expérimentales précises, dans un contexte général dominé par l’adversaire, et qui va, lentement mais sûrement, vers cette accélération des phénomènes subjectifs que propose toujours la guerre.

Rappelons en effet qu’entre la première et la deuxième séquence, entre le dernier Marx et le premier Lénine, il y a quarante ans d’impérialisme triomphant. De la répression de la Commune de Paris à la guerre de [14], on a l’apogée de la bourgeoisie, qui occupe la planète, qui dévaste et pille des continents entiers. Je parle de séquences de l’hypothèse communiste, mais ces séquences sont séparées par des intervalles dans lesquels ce qui l’emporte, en termes d’équilibre et de stabilisation, n’est aucunement l’hypothèse communiste. On y déclare au contraire que cette hypothèse est intenable, voire absurde et criminelle, et qu’il faut y renoncer. Ainsi nous retrouvons Sarkozy : en finir avec Mai 68 une fois pour toutes. Ce qui nous autorise à revenir à l’interrogation : où en sommes-nous? Admettons qu’à échelle mondiale, la deuxième séquence se soit achevée vers la fin des années soixante-dix du précédent siècle. Admettons que depuis, tirant les leçons des expériences critiques qui ont marqué le bord terminal de cette séquence, Mai 68 et la Révolution culturelle, dans diverses situations, divers collectifs cherchent la voie d’une politique d’émancipation adéquate au temps présent.

Alors, nous sommes dans le contexte d’une nouvelle période intervallaire, une période de triomphe apparent de l’adversaire. Nous pouvons décrire, par exemple, sans découragement ni concession, ce qui se passe en France, c’est-à-dire la réapparition de formes, incorporées à l’État, du pétainisme transcendantal. Ce n’est pas un phénomène aberrant ou discordant, qui devrait nous déprimer. C’est une cristallisation locale du fait que nous sommes dans une période intervallaire, comme il y en a déjà existé une, fort longue, à la fin du XIXe siècle et au début du Or, nous savons que, dans ce genre de circonstances, ce qui est à l’ordre du jour est l’ouverture d’une nouvelle séquence de l’hypothèse communiste. Le seul problème étant celui de l’étendue de la catastrophe qu’une fois encore la guerre, cette inévitable convulsion de l’impérialisme, imposera à l’humanité, pour prix de l’avancée, de l’avancée d’un pas, de cela seul qui organisera son salut : l’égalitarisme communiste, cette fois à l’échelle du monde entier. Nous qui avons connu Mai 68 et la Révolution Culturelle, nous devons absolument transmettre aux militants dispersés de l’hypothèse communiste une certitude rationnelle, déjà immanente à ces intenses moments politiques : ce qui va venir ne sera pas, ne pourra pas être, la continuation de la seconde séquence.

Le marxisme, le mouvement ouvrier, la démocratie de, masse, le léninisme, le Parti du prolétariat, l’Etat socialiste, toutes ces inventions remarquables du XXe siècle, ne nous sont plus réellement utiles. Dans l’ordre de la théorie, elles doivent certes être connues et méditées. Mais dans l’ordre de la politique, elles sont devenues impraticables. C’est un premier point de conscience essentiel : la deuxième séquence est close, et il est inutile de vouloir la continuer ou la restaurer. La vérité, dont encore une fois la venue fut esquissée dès les années soixante du dernier siècle, est que notre problème n’est ni celui du mouvement populaire comme porteur d’une nouvelle hypothèse, ni celui du parti prolétarien comme dirigeant victorieux de la réalisation de cette hypothèse. Le problème stratégique lié à la troisième séquence, à l’ouverture de laquelle nous travaillons, est autre chose. Comme nous sommes dans une période intervallaire dominée par l’ennemi, et que les expériences nouvelles sont très circonscrites, je ne suis pas en état de vous dire ce qu’est, à coup sûr, l’essence de la troisième période qui va s’ouvrir.

Cependant, la direction générale, disons la philosophie abstraite de la chose, me semble dicible : ce dont il s’agit concerne un nouveau rapport entre le mouvement politique réel et l’idéologie. C’est bien ce que déjà sous-entendaient l’expression « révolution culturelle », et l’énoncé de Mao : « Pour avoir de l’ordre dans l’organisation, il faut d’abord avoir de l’ordre dans l’idéologie. » C’est aussi ce que sous-entendait l’idée, commune après Mai 68, de « révolutionnarisation des esprits ». L’hypothèse communiste comme telle est générique, elle est le « fond » de toute orientation émancipatrice, elle nomme la seule chose qui vaille qu’on s’intéresse à la politique et à l’histoire. Mais la présentation de l’hypothèse est ce qui détermine une séquence : une nouvelle manière pour l’hypothèse d’être présente dans l’intériorité des nouvelles formes d’organisation et d’action. Bien entendu, d’une manière ou d’une autre, nous cumulerons les enseignements théoriques et historiques issus de la première séquence, et la fonction centrale de la discipline victorieuse, issue de la seconde.

Cependant, notre problème n’est ni l’existence en mouvement de l’hypothèse, ni sa victoire disciplinée au niveau de l’État. Notre problème est le mode propre sur lequel la pensée, ordonnée par l’hypothèse, se présente dans les figures de l’action. En somme : un nouveau rapport du subjectif et de l’objectif, qui ne soit ni mouvement multiforme animé par l’intelligence de la multitude (comme le croient Negri et les altermondialistes), ni Parti rénové et démocratisé (comme le croient les trotskystes et les maoïstes ossifiés). Le mouvement (ouvrier) au XlXe et le Parti (communiste) au XXe siècle ont été les formes de présentation matérielle de l’hypothèse communiste. Il est impossible de revenir à l’une ou l’autre formule. Quel pourra bien être alors le ressort de cette présentation au XXIe siècle? Notons qu’au XIXe siècle, la grande question a d’abord été, tout simplement, celle de l’existence de l’hypothèse communiste.

Quand Marx dit que le spectre du communisme hante l’Europe, il veut dire : l’hypothèse est là, nous l’avons installée. La deuxième séquence, celle du parti révolutionnaire à la discipline de fer, de la militarisation de la guerre de classe, de l’Etat socialiste, a sans doute été la séquence d’une représentation victorieuse de l’hypothèse. Cependant, cette représentation a conservé les caractéristiques de la première séquence, singulièrement l’idée du renversement (« le monde va changer de base »), l’idée de la révolution comme échéance globale. Disons que la victoire était encore pensée comme victoire de la forme première de l’hypothèse. Ce qui est à l’ordre du jour pour nous, depuis l’expérience négative des Etats socialistes, et depuis les leçons ambiguës de la Révolution culturelle et de Mai 68 — et c’est pour cela que notre recherche est si compliquée, si errante, si expérimentale —, c’est de faire exister l’hypothèse communiste sur un autre mode que celui de la première séquence.

L’hypothèse communiste reste la bonne hypothèse, je l’ai dit, je n’en vois aucune autre. Si cette hypothèse doit être abandonnée, ce n’est pas la peine de faire quoi que ce soit, dans l’ordre de l’action collective. Sans l’horizon du communisme, sans cette Idée, rien dans le devenir historique et politique n’est de nature à intéresser le philosophe. Que chacun s’occupe de ses affaires, et n’en parlons plus. Donnons raison à l’homme aux rats, comme le font du reste quelques anciens communistes, soit avides de prébendes, soit désormais dépourvus de tout courage. Mais tenir sur l’Idée, sur l’existence de l’hypothèse, cela ne veut pas dire que sa première forme de présentation, centrée sur la propriété et sur l’État, doit être maintenue telle quelle. En fait, ce qui nous est imparti comme tâche, disons même comme devoir philosophique, c’est d’aider à ce que se dégage un nouveau mode d’existence de l’hypothèse. Nouveau par le type d’expérimentation politique auquel cette hypothèse peut donner lieu. Nous sommes instruits par la deuxième séquence et ses tentatives terminales : nous devons revenir vers les conditions d’existence de l’hypothèse communiste, et non pas seulement en perfectionner les moyens. Nous ne pouvons nous satisfaire de la relation dialectique entre l’Etat et le mouvement de masse, de la préparation de l’insurrection, de la construction d’une organisation disciplinée puissante.

Nous devons, en réalité, réinstaller l’hypothèse dans le champ idéologique et militant. Soutenir aujourd’hui l’hypothèse communiste dans l’expérimentation locale d’une politique, expérimentation qui nous permet de maintenir, contre la domination réactionnaire installée, ce que j’appelle un point, c’est-à-dire une durée propre, une consistance particulière : voilà la condition minimale pour que le maintien de l’hypothèse apparaisse aussi comme la transformation de son évidence. A cet égard, nous sommes plus proches d’un ensemble de problèmes déjà examinés au XIXe siècle que nous ne le sommes de la grande histoire des révolutions du XXe siècle. Nous avons affaire, comme à partir de 1840, à des capitalistes absolument cyniques, de plus en plus animes par l’idée qu il n y a que la richesse qui compte, que les pauvres ne sont que des paresseux, que les Africains sont des arriérés, et que l’avenir, sans limite discernable, appartient aux bourgeoisies « civilisées » du monde occidental.

Toutes sortes de phénomènes du XIXe réapparaissent : des zones de misère extraordinairement étendues, à l’intérieur des pays riches comme dans les zones délaissées ou pillées, des inégalités sans cesse grandissantes, une coupure radicale entre le peuple ouvrier, ou sans travail, et les classes intermédiaires, la dissolution complète du pouvoir politique dans le service des biens, la désorganisation des révolutionnaires, le désespoir nihiliste de fractions étendues de la jeunesse, la servilité d’une large majorité des intellectuels, l’activité expérimentale serrée, mais très encerclée, de quelques groupes à la recherche des moyens contemporains de l’hypothèse communiste... Et c’est sans doute pourquoi, comme au XIXe siècle aussi, ce n’est pas de la victoire de l’hypothèse qu’il est question aujourd’hui, tout le monde le sait bien, mais des conditions de son existence. Et ça, c’était la grande question des révolutionnaires du XIXe siècle : d’abord, faire exister l’hypothèse. Eh bien, telle est, dans la période intervallaire qui nous oppresse, notre tâche. Et elle est exaltante : par la combinaison des constructions de la pensée, qui sont toujours globales ou universelles, et des expérimentations politiques, qui sont locales ou singulières, mais transmissibles universellement, assurons l’existence nouvelle, dans les consciences et dans les situations, de l’hypothèse communiste.

Notas:

12. Tout le développement sur l’hypothèse communiste était esquissé dans mon séminaire du 13 juin 2007. Cf. les références de la note 1. 
13. Pour la fonction du « mouvement ouvrier français » dans la genèse du marxisme, parallèle à celles de la « philosophie allemande » et de « l’économie politique anglaise », on lira le très beau texte de Lénine, Les trois sources et les trois parties constitutives du Marxisme 
14. Sur la genèse, au XIXe siècle, de la figure ouvrière comme référence politique et idéologique, ses conséquences dans le champ de la pensée, la doctrine qui s’y lie de la « communauté des égaux », il faut évidemment lire les grandes oeuvres de Jacques Rancière, notamment ces deux très beaux livres que sont La nuit des prolétaires (1981) et Le maître ignorant (1987). 
15. J’ai proposé une analyse détaillée de la « passion du réel » comme forme subjective typique du XXe siècle dans mon livre Le siècle (Le Seuil, 2005). 
16. Pour avoir une idée de ce que je pense de la Révolution Culturelle chinoise et de l’usage que j’en fais, on lira la brochure La Révolution Culturelle: la dernière révolution?, publiée dans le cadre des Conférences du Rouge Gorge que Natacha Michel et moi-même avons créées et dirigées entre 2001 et 2005. Pour se la procurer, utiliser les références de la note 5. 
17. Sur Mai 68, saisi dans son essence politique véritable, et non comme une « crise » culturelle de la jeunesse, on lira la conférence de Natacha Michel, O Jeunesse! O Vieillesse!, publiée dans le cadre des conférences du Rouge Gorge. Cf. notes 16 et 5. Natacha Michel, grande romancière, a inventé la prose où déplier cette expérience. Qu’on lise La Chine européenne (Gallimard, 1975) et Circulaire à toute ma vie humaine (Le Seuil, 2005). 
18. Parmi les séquences politiques, longues ou brèves, identifiées comme travaillant, dès le milieu des années soixante-dix, à réinstaller l’hypothèse communiste (même si le mot était souvent honni), c’est-à-dire à transformer, à contre-courant de la domination du capitalo-parlementarisme, le rapport entre la politique et 1’Etat, on peut citer: les deux premières années de la révolution portugaise; la toute première séquence, notamment dans les usines, du mouvement Solidarnosc en Pologne; la première phase de l’insurrection contre le Shah d’Iran; la création en France de l’Organisation politique; le mouvement Zapatiste au Mexique. Aujourd’hui, il faut enquêter sur la vraie nature du lien au peuple d’organisations que limitent, du point de vue des leçons universelles qu’on peut en tirer, leur allégeance religieuse: le Hezbollah au Liban, et le Hamas en Palestine. Il faut aussi prêter attention aux innombrables soulèvements ouvriers et paysans en Chine, aux actions des « maoïstes « en Inde et au Népal... La liste n’est aucunement close.

18 de outubro de 2007

É o petróleo

As forças americanas no Iraque estão instaladas em cima de um quarto das reservas mundiais.

por Jim Holt

London Review of Books

Tradução / A guerra do Iraque "não tem como ser ganha", é um "atoleiro", um "fiasco": eis a visão consagrada. Mas há bons motivos para achar que, da perspectiva de George W. Bush e Dick Cheney, ela não é nada disso. Na verdade, os Estados Unidos podem estar encalacrados exatamente onde Bush & Cia. queriam, e por isso não existe uma estratégia de retirada.

O Iraque tem reservas conhecidas de 115 bilhões de barris de petróleo, o que é mais do que cinco vezes o total das reservas americanas. Devido ao seu longo isolamento, ele é o menos explorado dos países ricos em petróleo. Meros 2 mil poços foram perfurados em todo o seu território, enquanto, só no Texas, há 1 milhão de poços abertos. O Conselho de Relações Exteriores dos Estados Unidos calcula que o Iraque possa ter mais uns 220 bilhões de barris de petróleo a descobrir. Outra avaliação fala em 300 bilhões. Se essas estimativas estiverem próximas da realidade, as forças americanas estão instaladas em cima de um quarto das reservas mundiais de petróleo. O valor do petróleo iraquiano, em grande parte óleo cru leve com baixos custos de produção, seria da ordem de 30 trilhões de dólares, em valores de hoje. Para fins comparativos, o custo total projetado da invasão/ocupação americana está em torno de 1 trilhão de dólares.

Quem vai ficar com o petróleo do Iraque? Uma das "metas" fixadas pelo governo Bush para o governo do Iraque é a aprovação de uma lei regulando a distribuição das receitas do petróleo. O projeto de lei que os Estados Unidos prepararam para o Congresso iraquiano cede praticamente todo o petróleo do país a empresas ocidentais. A Companhia Nacional de Petróleo do Iraque conservaria o controle de dezessete dos oitenta campos de petróleo, deixando o resto - inclusive todo o petróleo ainda por descobrir - sob o controle de empresas estrangeiras, por trinta anos. "As empresas estrangeiras não serão obrigadas a investir os seus lucros na economia iraquiana", escreveu a analista Antonia Juhasz, em março, no The New York Times, depois que o projeto de lei vazou e veio a público. "Elas poderiam até aproveitar a atual 'instabilidade' da economia iraquiana para assinar os contratos agora, num momento em que o governo do Iraque está no seu ponto mais fraco, e depois esperar até dois anos antes de entrar no país." Quando as negociações em torno da lei do petróleo chegaram a um impasse, em setembro, o governo autônomo da província iraquiana do Curdistão simplesmente assinou um acordo à parte com a Hunt Oil Company, sediada em Dallas e comandada por um aliado político do presidente Bush.

Como os Estados Unidos manterão a hegemonia sobre o petróleo iraquiano? Estabelecendo bases militares permanentes no país. Cinco "superbases" auto-suficientes estão em estágios diversos de construção. Todas ficam bem distantes das áreas urbanas, onde a maioria das baixas tem ocorrido. Essas bases têm sido pouco mencionadas na imprensa americana, composta de um número cada vez menor de correspondentes no Iraque, os quais não têm como se deslocar livremente, devido às altas taxas de risco. (Qualquer repórter precisa de muita coragem para deixar a Zona Verde sem escolta militar.) Em fevereiro do ano passado, o repórter Thomas Ricks, do The Washington Post, descreveu uma dessas instalações, a Base Aérea de Balad, a 65 quilômetros ao norte de Bagdá. A Balad é uma fatia (bem fortificada) de subúrbio americano, erguida no meio do deserto, que conta com lanchonetes fast-food, campo de golfe em miniatura, campo de futebol americano, cinema e vários bairros distintos - entre eles a "KBRlândia", nome inspirado na subsidiária da empresa Halliburton responsável pela maior parte das obras de construção da base. Embora poucos dos 20 mil soldados postados na base jamais tenham tido contato com um iraquiano, a sua pista de pouso é uma das mais movimentadas do mundo. "Só ficamos atrás do aeroporto de Heathrow, em Londres", disse a Ricks um comandante da Força Aérea.

Inicialmente, o Departamento de Defesa mostrou-se tímido em relação às bases. "Que eu me lembre, nunca ouvi menção à idéia de uma base permanente no Iraque", disse Donald Rumsfeld, em 2003. Nos últimos meses, porém, o governo Bush começou a falar abertamente em manter tropas no Iraque pelos próximos anos, ou mesmo décadas. Vários visitantes da Casa Branca contaram ao The New York Times que o próprio presidente passou a referir-se ao "modelo coreano". Depois que a Câmara dos Deputados decidiu negar recursos para a construção de "bases permanentes" no Iraque, o termo preferido passou a ser "bases duradouras", como se três ou quatro décadas não fossem na prática uma eternidade.

Os Estados Unidos serão capazes de manter uma presença militar no Iraque por tempo indefinido? Plausivelmente, alegarão que existe motivo para lá permanecerem enquanto o conflito civil continuar fervilhando, ou até ocorrer o extermínio de todos os grupelhos que, por conveniência, se auto-intitulam "Al-Qaeda". A guerra civil diminuirá de intensidade à proporção que os xiitas, os sunitas e os curdos se refugiarem em enclaves separados, reduzindo a superfície da fricção sectária, e à medida que os chefes guerreiros consolidarem sua autoridade local. O resultado será uma partilha do país de facto. Que jamais irá tornar-se uma divisão de jure. (Um Curdistão independente ao norte pode incomodar a Turquia, uma região xiita independente no leste pode converter-se num satélite do Irã, e uma região sunita independente no oeste pode transformar-se em porto seguro para a Al-Qaeda.)

Esse Iraque balcanizado será presidido por um governo federal fraco, em Bagdá, sustentado e supervisionado pela embaixada americana na cidade, um prédio recém-construído nas proporções do Pentágono de Washington - uma zona verde dentro da Zona Verde. Quanto ao número de soldados americanos no Iraque, o secretário da Defesa, Robert Gates, disse ao Congresso que, "na sua cabeça", imaginava uma força de longo prazo constituída de cinco brigadas - um quarto do número atual -, o que, somado ao pessoal de apoio, significaria um mínimo de 35 mil soldados, provavelmente acompanhados do mesmo número de mercenários a serviço da segurança terceirizada. (Pode ser que ele tenha errado por excesso de modéstia, já que cada uma das cinco superbases tem a capacidade de acomodar entre 10 e 20 mil soldados.)

Essas forças podem deixar as suas bases para reprimir escaramuças civis ocasionais, ao custo de um número de baixas cada vez menor. Como disse um membro destacado do governo Bush ao The New York Times, em junho, as bases de longo prazo "são lugares onde podemos pousar e decolar os aviões sem a necessidade de soldados americanos postados a cada esquina". Mas a principal função no dia-a-dia será proteger a infra-estrutura petrolífera.

É essa a "balbúrdia" que Bush e Cheney entregarão ao próximo governo americano. E se esse governo for democrata? Ele desmantelará as bases e retirará todas as forças americanas? Parece improvável, tendo em vista os muitos beneficiários da ocupação prolongada do Iraque e da exploração dos seus recursos petrolíferos. Os três principais candidatos do Partido Democrata - Hillary Clinton, Barack Obama e John Edwards - já garantiram a sua posição futura, recusando-se a prometer que, se eleitos, irão retirar as forças americanas do Iraque antes de 2013, o fim de um primeiro mandato.

Nesse caso, entre os vencedores estão: empresas de serviços petrolíferos como a Halliburton; as próprias grandes companhias de petróleo (os lucros serão inimagináveis e os democratas também podem ser comprados); os eleitores americanos, a quem se poderá garantir a estabilidade dos preços nos postos de gasolina (isso às vezes parece ser a única coisa que conta para eles); a Europa e o Japão, que se beneficiarão do controle ocidental sobre tamanha parte das reservas petrolíferas mundiais; e, estranhamente, Osama bin Laden, que nunca mais precisará se preocupar com a possibilidade de que os sítios sagrados de Meca e Medina venham a ser profanados por tropas americanas, pois a estabilidade da dinastia saudita deixará de ser uma das principais preocupações dos Estados Unidos. Entre os perdedores está a Rússia, que não poderá mais controlar a Europa por meio dos seus recursos energéticos. Outra grande perdedora é a Organização dos Países Exportadores de Petróleo, a OPEP, e especialmente a Arábia Saudita, cujo poder de manter no alto os preços do petróleo, através da imposição de cotas de produção, ficará seriamente comprometido.

Há ainda o caso do Irã, que é mais complicado. A curto prazo, o Irã vem se beneficiando muito com a guerra no Iraque. A coalizão xiita que governa o Iraque é hoje controlada por uma facção favorável a Teerã, e os Estados Unidos acabaram armando, a contragosto, os elementos mais pró-Irã dos militares iraquianos. Quanto ao programa nuclear do Irã, nem ataques aéreos e nem negociações parecem poder detê-lo no momento. Mas o regime iraniano é precário. Mulás impopulares mantêm o poder financiando os serviços de segurança internos e comprando as elites com o dinheiro do petróleo, que representa 70% da renda do governo. Se os preços do petróleo de repente caíssem, por exemplo, a 40 dólares o barril (de um preço atual acima de 80), o regime repressor de Teerã perderia a sua receita contínua. Os Estados Unidos poderiam fazer isso com facilidade, abrindo a torneira do petróleo iraquiano pelo tempo necessário (e, de quebra, talvez conseguissem a queda do venezuelano Hugo Chávez, cujo atrevimento se baseia em petróleo).

Leve-se em consideração, ainda, as relações entre os Estados Unidos e a China. Como conseqüência do déficit comercial, está nas mãos da China cerca de 1 trilhão de dólares da dívida americana em moeda nacional (aí inclusos 400 bilhões de dólares em títulos do Tesouro americano). Isso dá a Pequim um enorme poder de barganha: caso decidisse descarregar grandes parcelas da dívida americana, a China poderia deixar a economia dos Estados Unidos de joelhos. De acordo com cifras oficiais, a economia da China cresce a uma taxa próxima de 10% ao ano. Mesmo que o número real esteja mais próximo de 4 ou 5%, como acreditam alguns, o peso crescente da China representa uma ameaça para os interesses americanos. (Um fato: a China está adquirindo novos submarinos cinco vezes mais rápido que os Estados Unidos.) Em contrapartida, o acesso à energia é a principal limitação ao crescimento da China - que, com os Estados Unidos no controle da maior parte do petróleo do planeta, ficaria em grande parte à mercê de Washington. Assim, a ameaça chinesa seria neutralizada.

Muita gente ainda se diz perplexa com os motivos exatos que teriam levado Bush e Cheney à invasão e ocupação do Iraque. Thomas Powers, um dos mais astutos observadores do mundo da chamada "inteligência", admitiu certo espanto, no artigo "Por que Bush invadiu o Iraque?" [publicado na piauí número 14]. "O mais bizarro", escreveu ele, "é que parece não ter havido uma versão interna, sofisticada e profissional do pensamento que deu forma aos acontecimentos." Alan Greenspan, em suas memórias recém-publicadas, é bem mais claro sobre essa questão. "Fico entristecido", diz ele, "por ser politicamente inconveniente reconhecer o que todo mundo sabe: a guerra no Iraque se deve em grande parte ao petróleo."

Será que a estratégia de invadir o Iraque para assumir o controle de seus recursos petrolíferos foi decidida pela força-tarefa sobre energia, organizada por Dick Cheney, em 2001? Não se pode saber ao certo, uma vez que as deliberações dessa força-tarefa, composta em grande parte por diretores de companhias petrolíferas e de energia, foram mantidas em segredo pelo governo, sob a alegação de "privilégio do Executivo". Não se pode dizer com certeza que o petróleo tenha sido o motivo primordial. Mas a hipótese é bem forte quando se busca explicar o que de fato aconteceu no Iraque. A ocupação pode parecer um serviço horrivelmente malfeito, mas a atitude descuidada do governo Bush em relação à "construção de uma nação" praticamente garantiu que o Iraque venha a se transformar num protetorado americano pelas próximas décadas - uma condição necessária para a extração da sua riqueza petrolífera.

Se os Estados Unidos tivessem conseguido criar um governo forte e democrático, num Iraque efetivamente protegido por uma polícia e um exército próprios, e depois tivessem saído do país, o que impediria esse governo de assumir o controle do seu próprio petróleo, como todos os outros regimes do Oriente Médio? Partindo-se do princípio que a estratégia de Bush e Cheney gira em torno do petróleo, as táticas adotadas - a dissolução do exército, a desmontagem do Partido Baath, um incremento da guerra que acelerou a migração interna - não poderiam ter sido mais eficientes. Os custos - alguns bilhões de dólares por mês e mais algumas dúzias de baixas americanas (um número que deve diminuir e é comparável ao número de motociclistas americanos que morrem devido à revogação das leis sobre o uso do capacete) - são irrisórios, se comparados com 30 trilhões de dólares em reservas de petróleo, a garantia da supremacia geopolítica americana e a gasolina barata para os eleitores. Em termos de realpolitik, a invasão do Iraque não foi um fiasco. É um sucesso retumbante.

Ainda assim, há motivos para ceticismo, em relação ao quadro que descrevi: ele supõe que um plano secreto e altamente ambicioso tenha resultado exatamente da maneira imaginada pelos seus criadores, e isso quase nunca acontece.

6 de outubro de 2007

Um novo marxismo para um novo mundo

Gérard Duménil*


Em meio à tormenta da globalização neoliberal, a esquerda entrou em recessão. A França, país que supostamente poderia constituir uma exceção, alinha-se a uma situação praticamente generalizada: um enfraquecimento histórico do antagonismo entre pretensões políticas rivais. Assumindo o discurso da direita reacionária e uma política econômica liberal, Nicolas Sarkozy conseguiu ser ouvido pelas camadas populares mais fragilizadas. Ele conseguiu convencê-las de que detém os meios de concretizar as esperanças que a esquerda encarnava, arregimentando seus ideólogos e neutralizando suas lideranças. A derradeira convergência teria levado a melhor na “luta final”?

O desafio de um poder de esquerda, sustentado por décadas de luta, tinha, ao final da Segunda Guerra Mundial, se concretizado no “compromisso social-democrata”, em suas múltiplas variantes, dos centros às periferias. O capitalismo continuava a se desdobrar em guerras coloniais e destruições ecológicas, mas as prerrogativas da propriedade capitalista haviam diminuído: baixas taxas de juros reais, exíguas distribuições de dividendos, alta moderada da Bolsa, predomínio do setor não financeiro. E no lugar entravam as indústrias nacionais, os serviços públicos, a seguridade social, as políticas de emprego e de desenvolvimento. Toda uma dinâmica “socializante”, por vezes veiculada pelas forças políticas de esquerda, conhecendo seu auge em 1968.

De repente, o elã arrefeceu. No final dos anos 70, os capitalistas retomam a capacidade ofensiva. Iniciam um novo ciclo histórico, neoliberal. Três décadas mais tarde, o assunto parece resolvido. Do passado, fizeram tábula rasa. O caminho traçado parece sem volta. A incerteza atinge a própria idéia de esquerda, não apenas quanto à exeqüibilidade de seus projetos, mas quanto ao futuro que ela anunciava. Uma sensação de vazio, como a perda de uma crença. Um desespero dissimulado, que paralisa.

O que falta então para a “esquerda” compreender sua própria história, fazer um balanço – da sua irresistível ascensão ao seu declínio histórico – e ter condições de vislumbrar uma saída, por mais difícil que seja?

Ao mesmo tempo em que recorremos a Marx, afirmamos que é o próprio marxismo que devemos culpar. Pois foi ele que consagrou, na cultura comum, esta divisão em dois campos: trabalho contra capital. Ora, esse mito fundador introduz um viés falacioso. A ordem social moderna comporta não uma, mas duas forças sociais dominantes: ao mundo dos “capitalistas” articula-se um outro, dos organizadores, dos gestores privados e públicos, dos especialistas de todo tipo – os “diretores-e-competentes”. É a essas duas forças, ligadas e no entanto antagônicas, que faz face o conjunto das “classes fundamentais populares”. É a partir disso que se pode compreender a moderna luta de classes – um jogo a três, não a dois.

No “compromisso social-democrata” que prevaleceu durante os Trente Glorieuses, estabeleceu-se uma aliança entre as classes fundamentais e os diretores-e-competentes, diversamente representada por partidos socialistas ou comunistas. As classes fundamentais constituíam sua força motriz; os diretores-e-competentes, a mola propulsora. A inspiração provinha dos dois componentes. O Estado-nação tornou-se o Estado social. A gestão das empresas e das políticas escapava em grande parte aos detentores do capital. Falava-se de economia mista, entre capitalismo e socialismo. Resta definir o perfil desse objeto e compreender em que condições ele desapareceu.

Matriz mercante

Para fazê-lo, retomemos a análise feita por Marx. Sua idéia central é de que a estrutura de classes, no mundo moderno, não remete, como nos sistemas anteriores, à pretensão de uma superioridade natural de alguns, mas à afirmação da liberdade e da igualdade de todos, tal como estas supostamente se dão em uma economia de mercado. Entretanto, explica Marx, esse sistema só se realiza fazendo do próprio trabalhador uma mercadoria explorável. Essa economia é, portanto, capitalista, e não apenas mercante. O mercado, em si mesmo, não é uma relação de classes, mas é seu fator, em última instância. Ele dá lugar à propriedade privada dos modos de produção. É, diz Marx, com essa matriz mercante que é preciso acabar, porque ela condiciona todo o resto.

Ora, acrescenta ele, vemos emergir no seio da empresa moderna um outro princípio racional de coordenação, suscetível de se generalizar em escala social e de marginalizar, depois substituir, o mercado: a “organização”, o equilíbrio a priori e não mais a posterioridas decisões de produção. É daí que a classe operária extrairá sua força ascendente; os funcionários acabarão por se apropriar das empresas; a revolução abrirá uma era pós-mercante, fundada na organização acer­tada entre trabalhadores livres e iguais.

Essa “longa narrativa” resume a grande utopia do século XX, inspiradora de revoluções heróicas, lutas e reformas emancipadoras, que mudaram o destino do mundo. Referência teórica fundamental, ela abriga, contudo, uma face obscura, pois oculta que também a organização, a exemplo do mercado, é um fator de classe: o outro fator. E que a forma moderna de sociedade repousa sobre esses dois pilares. A dominação de classe nisso depende de duas forças relativamente distintas, uma que opera por meio da propriedade capitalista, outra pela via da “competência” – que garante a organização econômica, administrativa, cultural.

Esse paradigma, que chamamos de “neomarxismo”, implica uma revisão importante da análise das estruturas de classe proposta pelo marxismo clássico. Coloca para ela a questão de saber por que lhe escapa essa dualidade da dominação, registrada pelas sociologias e acessível ao senso comum. Por que essa idéia é estranha a sua abordagem, que trata a burocracia como uma patologia, sem discernir na organização um fator de classe?

A razão repousa no fato de o marxismo clássico também ter emergido historicamente, diante da propriedade capitalista, como o discurso de um acordo tácito, e um tanto oculto, entre os diretores-e-competentes e as classes populares. E é por isso que ele pôde se constituir como doutrina oficial do “movimento operário”, tanto dentro do “socialismo real” quanto no seio do “socialismo dentro do capitalismo”. Nessas correntes históricas, afirma-se uma identidade de classe ambivalente, constantemente negada, orientada para um compromisso entre a “classe operária” e o pólo do grupo diretivo econômico e cultural. O acerto entre todos (a “associação dos trabalhadores”, objetivo oficial) aí assume, em diversos graus, a forma de uma economia organizada, sob a égide das instituições públicas. O poder de todos tende a se identificar com o poder dos organizadores.

A história do capitalismo no século XX é assim governada pela alternância, nos píncaros do poder, de duas forças socialmente dominantes. As “finanças” predominam até 1933 (início do New Deal nos Estados Unidos). Depois, o grupo diretivo organizacional, até os anos 70. Por fim, novamente as finanças. Quando estas levam a melhor, impõem aos organizadores a dinâmica da mudança social que lhes é própria. Quando prevalece o pólo da organização, é porque este se aliou, contra as finanças, às classes populares.

Esse quadro interpretativo explica os destinos díspares, e no entanto paralelos, do capitalismo e do socialismo real. Ele põe em evidência, de um lado, o fortalecimento de um “poder gerencial” no lado ocidental, verificável no nível das empresas, das grandes sociedades e dos Estados, e, de outro, a “revolução proletária” no lado oriental, que rapidamente deixou o poder se concentrar nas mãos dos organizadores, promovidos a classe dirigente única. O paralelismo dos fenômenos leva a pensar que ambos dependem das mesmas determinações estruturais profundas, inerentes à forma moderna de sociedade. A ponto de a convergência dos sistemas, ou a passagem de um para o outro, ser constantemente objeto de debate.

Combates do terceiro mundo

Essa aliança histórica entre classes populares e diretores-e-competentes assumiu formas diversas, reforçando-se até os anos 60-70. Ela foi decisiva nos combates do Terceiro Mundo, nas manifestações revolucionárias latino-americanas, nos movimentos estudantis e operários pelo mundo afora. Para falar só da França, a juventude estudantil – financeiramente já bem estabelecida com a posição hierárquica que seus diplomas lhe reservavam na sociedade – sacudia em 1968 os velhos contextos culturais sobre os quais as forças da direita tradicional firmavam seu poder de classe. Arrebatada por esse elã, a classe operária lançava uma última investida: quarenta dias de greve mais ou menos nacional. Dizia-se que isso era apenas o começo...

Por que desde então a história tomou um outro curso e houve um repentino regresso das finanças?

Porque o represamento dos poderes e rendimentos das finanças dentro do compromisso social-democrata não havia passado despercebido. Os ideólogos das classes capitalistas, de Friedrich von Hayek a Milton Friedman, haviam desde o início compreendido a natureza do processo, tanto no plano nacional quanto no internacional. As finanças retomaram sua combatividade (a lembrança da crise de 1929 se apagava), seu poder se reconstituía, notadamente com o surgimento de um novo sistema financeiro, o dos mercados europeus, ao abrigo do controle dos bancos centrais.

Cada obstáculo que o compromisso do pós-guerra encontrava em seu caminho – a começar pela crise do dólar, no início dos anos 70 – fragilizava os seus fundamentos. A incapacidade dos compromitentes de enfrentar a crise estrutural dos anos 70, especialmente a decolada da inflação, favoreceu a emergência de poderes, os encarnados por Margaret Thatcher e Ronald Reagan, que combateram com determinação – “de ferro” – as resistências operárias. Em 1979, as taxas de juros haviam se elevado a níveis sem precedentes, um sopro de ar fresco para as classes capitalistas cujo rendimento estava em baixa. Crise no Terceiro Mundo endividado. Uma nova disciplina impunha-se aos trabalhadores e gestores.

As grandes tendências capitalistas à globalização comercial e financeira, que a ordem social anterior havia conseguido domesticar com políticas de desenvolvimento, retomavam assim o seu curso, em condições renovadas por certos “avanços” tecnológicos. A globalização mudava de natureza. Impunha uma nova divisão internacional do trabalho, sob a hegemonia americana, que relançou a exploração colonial e pôs em concorrência todos os trabalhadores do mundo. O milagre chinês iria esconder as feridas da América Latina.

Nesse processo, os diretores-e-competentes foram novamente cooptados pelas finanças. Destituídos da capacidade de iniciativa e desviados dos objetivos pelos quais se pautavam no contexto do Estado-nação, mostraram-se incapazes de restabelecer suas lógicas no plano continental, como na Europa. Passaram do compromisso social-democrata ao compromisso neoliberal. Uma arregimentação que contou com maior ou menor empenho segundo os contextos históricos, encontrando mais entusiasmo nos Estados Unidos ou no Reino Unido do que na França.

No momento em que algumas figuras políticas representativas dos diretores-e-competentes se arregimentam em torno das opções neoliberais, não existe traição individual. Para além da ambigüidade das carreiras, as condições históricas que haviam conduzido à emergência do compromisso social-democrata desapareceram. Feu la gauche! – a esquerda está morta. E a questão se impõe então às classes fundamentais: como retomar a iniciativa política?

Para respondê-la, é preciso primeiro elucidar um segundo ponto. Como passar de um jogo a três para um jogo a dois? Como o esquema ternário, de classes, se materializa na forma binária (direita/esquerda) que governa o cenário político? Dentro do esquema democrático de governo da maioria, a esquerda constitui o lugar político problemático da aliança entre as classes fundamentais e os diretores-e-competentes. Na virada do século XIX para o século XX, revolucionária ou reformista, ela historicamente se constituiu quando os assalariados se voltaram para as camadas da “competência”, da direção e da cultura, arrastando-as em sua dinâmica histórica. Os intelectuais e organizadores de todos os gêneros desempenharam então um papel-chave, posicionando-se voluntariamente na vanguarda do “movimento operário”.

Sem dúvida, a “organização” encerra um imenso potencial de tirania, mas esta apenas se exerce enquanto tal ao se expor publicamente: ela se expressa em projetos conjuntos, articulando fins e meios. Por outro lado, o “mercado”, enquanto tal, não possui nenhum plano comum a revelar ou a submeter à crítica coletiva. Embora requeira publicidade e propaganda, não possui mais nada a oferecer aos cidadãos além da promessa de uma prosperidade inscrita nos mecanismos do lucro e do interesse individual. Não é portanto indiferente a ser governado pela esquerda ou pela direita.

Mas a “esquerda” é um vocábulo que designa algo instável, cujo conteúdo varia conforme os diretores-e-competentes estejam engajados em um compromisso social-democrata à esquerda ou em um compromisso à direita. A Esquerda maiúscula, a “esquerda da esquerda”, não é uma instituição naturalmente garantida. É um acontecimento, que se produz quando a corrente popular consegue arrastar os diretores-e-competentes na dinâmica de emancipação que lhe é própria. Em uma tal situação, a ligação natural entre os dois componentes da dominação de classe se distende, o torno que aperta a maioria se afrouxa.

A situação hoje é bem outra. O mundo operário perdeu sua centralidade, seu lugar estratégico na produção, que fazia dele um elemento motor. A aliança com os diretores-e-competentes tornou-se problemática. As classes fundamentais encontram-se em uma sinuca histórica.

A dificuldade reside, por um lado, no fato de que a força necessária para a marginalização da propriedade capitalista se constrói mediante a aliança com um parceiro que pode encontrar aí suas próprias razões, mas que ao mesmo tempo continua – do alto de suas prerrogativas de expertise e direção – um adversário de classe. Porque a dominação é dupla, o combate tem de ser travado nas duas frentes.

Fracionamento congênito

É claro, por outro lado, que as classes fundamentais só podem preponderar se concretizarem a unidade política das frações entre as quais tendem a se dividir. Esse fracionamento congênito se manifesta em sua dispersão sobre o tabuleiro político. A direita “proprietária” fascina os trabalhadores independentes e as camadas mais frágeis da classe assalariada. A esquerda “organizadora e competente” aspira a um salário público e, mais comumente, àqueles que ambicionam uma ascensão social pelas vias da competência. Essas tensões delineiam vagamente as exigências de um programa de união popular. É essa política de unidade e de aliança que marcou a história moderna com momentos plenos de emancipação, reformas ou revoluções. Não existe nenhuma estrada real, alternativa. Não existe outra escolha de porvir a não ser desenvolvê-la do mais local às escalas mais vastas, da Europa ao espaço-mundo. A não ser radicalizar seus objetivos.

Não se trata apenas da propriedade comum de determinados modos de produção e da distribuição apropriada da renda. Trata-se, ao mesmo tempo, das condições da vida em comum, ou seja, da relação entre os sexos, da ecologia, do trabalho, da saúde, da educação, da pesquisa, do urbanismo etc. A luta contra o capitalismo, cuja lógica é o acúmulo do lucro, a riqueza abstrata, sempre foi uma luta por condições concretas de existência, por uma ascendência da vida social sobre a produção.

Como as classes fundamentais podem retomar a iniciativa? Ainda que necessária, uma forma de organização que lhe seja própria, a do “partido”, mesmo no plural, não saberia responder ao conjunto dos problemas. Apenas uma variedade de movimentos autônomos, perenes ou circunstanciais, é suscetível de travar no cotidiano o combate nas duas frentes: contra os golpes sempre renovados do capitalismo e contra a propensão da “elite” de tirar proveito do elã das lutas populares. Portanto, é de uma simbiose, de uma conivência intelectual, moral e política entre partidos e movimentos que emergirá uma Esquerda maiúscula, capaz de enfrentar o poder capitalista.

O “sistema do mundo” capitalista não deve ser compreendido dentro da perspectiva do Estado-nação, no qual se desenvolve a estrutura de classes aqui descrita. Ele opõe centros e periferias. Transforma as relações de classes em relações assimétricas, de dominação e de guerra. Mas o movimento histórico que viu a lógica moderna de produção e de governo se desdobrar nos Estados-nações clássicos, hoje em escala continental, conduz, com o tempo, à reprodução dessa mesma matriz na forma de um Estado-mundo em gestação. Com todo o seu poder militar, econômico e cultural, os Estados Unidos, centro mundial sistêmico, imperialista, esforçam-se por se impor como o ator dominante desse “estatismo” de classe global em processo de formação.

Em grande medida, com sucesso. A oposição de dois mundos, própria à guerra fria, ou a de uma “tríade” – Estados Unidos e Canadá, União Européia e Japão – foi substituída por uma hierarquia hegemônica imperialista unipolar, um pólo de concentração de capitais, comandando sua reexportação para o resto do planeta. Contra essa nova forma de concentração de poder mundial incipiente forja-se a unidade das lutas e das resistências, esboça-se a convergência entre lutas de classe, de raça e de gênero.

Rachaduras do neoliberalismo

Essa consciência ainda é bastante frágil, ao mesmo tempo estimulada pelas rachaduras do neoliberalismo e ameaçada pelas contradições que alimentam nacionalismos e sectarismos de todo tipo. Não se pode aqui contar com os partidos para organizar a Internacional. É a forma do movimento que prevalece. Em busca de suas bases sociais, de sua “mundialidade”, também de sua ideologia, um novo marxismo, para um novo mundo, ainda está longe de ser inventado.

* Gérard Duménil é economista e diretor de pesquisa do Centre Nacional de la Recherche Scientifique (CNRS).