17 de agosto de 2007

Marxismo e Feminismo Hoje

A autora analisa a relação entre marxismo e feminismo desde os debates ocorridos no final do século XIX até os dias atuais. Desafiar o sistema capitalista hoje implica lutar contra as manifestações de opressão às mulheres, mas sem perder de vista que devemos alcançar, todos juntos, uma sociedade livre de opressão e exploração.

Judith Orr

International Socialism

Tradução / Cada sucessiva ascensão da luta contra a opressão das mulheres viu surgir debates entre marxismo e feminismo. Questões do relacionamento entre exploração e opressão, de classe e gênero, e como se organizar melhor para lutar pela libertação das mulheres são recorrentes, do século XIX até hoje.

A revolucionária socialista alemã Clara Zetkin esteve envolvida em muitos debates afiados com feministas de classe média, aos fins do século XIX e além, que lutavam por seus direitos em nome da igualdade das mulheres. De tempos em tempos, Zetkin deixou claro que havia uma distinção entre a igualdade que as mulheres de classe média procuravam e a mudança fundamental que as mulheres trabalhadoras precisavam conquistar para conseguir sua libertação.

A rejeição de Zetkin acerca da organização das mulheres em separado da divisão de classes não significava que ela subestimava o impacto da opressão na capacidade de luta das mulheres. Ela propôs a celebração anual do Dia Internacional das Mulheres precisamente para aumentar a confiança e a combatividade das mulheres trabalhadoras, para organizar mulheres e levantar as bandeiras do socialismo e da libertação. O poder de seus escritos e discursos ressoa através dos anos. Em um discurso de 1896, Zetkin disse:
A luta da mulher proletária por libertação não pode ser similar à luta que as mulheres burguesas travam contra os homens de sua classe. Pelo contrário, deve ser uma luta conjunta com os homens de sua classe contra toda a classe dos capitalistas. Ela não precisa lutar contra os homens de sua classe para romper as barreiras que foram levantadas contra sua participação na livre competição do mercado de trabalho... Seu objetivo final não é a livre competição com o homem, mas a conquista do rumo político do proletariado. A mulher proletária luta punho a punho com o homem de sua classe contra a sociedade capitalista (Zetkin apud Foner, 1984: 77).
Alexandra Kollontai levantou o tema nos anos de fermentação política que levaram à Revolução Russa de 1917, quando ela escreveu em 1913 sobre as feministas burguesas que pareciam se dedicar apenas à igualdade com os homens de sua classe:
O objetivo delas é conquistar as mesmas vantagens, o mesmo poder, os mesmos direitos dentro da sociedade capitalista que hoje possuem seus maridos, pais e irmãos. Qual é o objetivo das mulheres trabalhadoras? Seu objetivo é abolir todos os privilégios derivados de nascimento ou riqueza. Para as mulheres trabalhadoras é indiferente quem é o “mestre”, um homem ou uma mulher. Junto com o todo de sua classe, ela pode facilitar sua posição enquanto trabalhadora (Kollontai, 1984).
Estes não são debates abstratos. Eles foram colocados em um período em que a revolução se tornou uma questão concreta em toda a Europa, e milhões de mulheres e homens participaram de lutas contra a guerra, a exploração e a opressão.

Os debates foram revisitados após os enormes movimentos e lutas dos anos 1960. A lamentável posição das mulheres na União Soviética, um Estado que se definia socialista, levou algumas mulheres a concluir que o socialismo não garantia a libertação das mulheres. Elas propuseram duas lutas paralelas, uma
contra a exploração e outra contra a opressão e o patriarcado.

Em resposta, marxistas retomaram a rica tradição estabelecida por gerações anteriores de revolucionários. Por exemplo, as páginas dessa publicação estavam recheadas do fervoroso debate sobre as ideias de Zetkin e Kollontai, a experiência da Revolução Russa e a teoria de Engels sobre as raízes da opressão às mulheres.
A teoria do patriarcado foi desafiada e uma nova geração de ativistas foi escolada nas ideias do materialismo histórico e da revolução da classe trabalhadora (Cliff, 1981a; Cliff, 1981b; German, 1981).

As ideias do patriarcado tinham poder porque aparentemente se encaixavam na realidade. A experiência diária da opressão não é abstratamente imposta “pelo sistema”. É articulada através de reais relacionamentos humanos entre indivíduos.

Algumas feministas, influenciadas pelo marxismo, procuraram fundir a abordagem
marxista com a defesa da ideia do patriarcado. Elas citaram a exclusão legal das
mulheres de certos setores da produção durante a Revolução Industrial como
prova de que os homens da classe dominante e os da classe trabalhadora haviam
conspirado, tendo um interesse comum em manter as mulheres fora da força de
trabalho.

Esta interpretação ignorava o fato de que para muitas mulheres foi bem-vinda
a fuga do chão de fábrica, onde elas muitas vezes eram forçadas a trabalhar até o
nascimento de seus filhos e depois retornar dias depois com seus bebês em seu
peito. Os níveis de mortalidade infantil e materna eram altos e, para algumas, as
mudanças significavam um alívio à carga dupla de trabalho externo e doméstico.
Quanto aos homens, de fato, muitos sindicatos apoiavam as mudanças, pois o
salário inferior das mulheres acabava rebaixando o salário dos homens. Mas a
realidade foi de que muitas mulheres continuaram em seus trabalhos e muitos
homens não receberam um aumento salarial equivalente ao que toda a família
tinha direito ou necessitava.

O baixo salário das mulheres e a negação de provisão de creches beneficiavam
os empregadores e pauperizavam mais toda a classe trabalhadora. Homens
não se beneficiavam com os salários das mulheres sendo usados para miná-los
ou para diminuir a renda doméstica.

Para algumas, a lógica do patriarcado era se organizar separadamente dos
homens. Se os homens eram o problema, não podiam ser parte da solução. Socialistas
partem do pressuposto de que defendemos o direito dos oprimidos de
se organizarem e lutarem contra quem for. Mas não acreditamos que a libertação
das mulheres será conquistada com as mulheres lutando sozinhas. Separar as
questões da opressão à mulher da luta mais ampla contra o sistema enfraquece
nossa habilidade de vencer.

Numerosas vigílias e marchas somente de mulheres foram organizadas no
final dos anos 1970 contra ataques aos direitos de aborto. Mas a maior e mais
decisiva foi quando a classe trabalhadora organizada, mulheres e homens, tomou
as ruas em uma manifestação, com a força de 150.000, organizada pelo TUC1. O
direito ao aborto não foi visto como um “assunto das mulheres”, sobre o qual
apenas mulheres poderiam se mobilizar ao redor. Eles foram vistos como um
assunto da classe, e sob esta base seguramos os fanáticos anti-aborto por quase
três décadas.

Ver que a classe trabalhadora tem o poder para desafiar o capitalismo é não acreditar que alguma outra força virá junto e libertará as mulheres. As mulheres são o coração da classe trabalhadora. A verdadeira essência da genuína revolução da classe trabalhadora é sua habilidade em liderar a auto-emancipação das massas da humanidade. Como Marx e Engels apontaram no Manifesto do Partido Comunista:

Todos os movimentos precedentes foram movimentos de minorias ou em interesse de minorias. O movimento proletário é o movimento autônomo da imensa maioria no interesse da imensa maioria. O proletariado, a camada mais inferior na sociedade atual, não pode levantar-se, colocar-se de pé, sem mandar pelos ares todas as camadas superpostas que constituem a sociedade oficial (Marx e Engels, 1997: 19).

Em contraste, a experiência da opressão não leva automaticamente à resistência e nem mesmo à unidade com outros grupos oprimidos. Pode levar ao isolamento e à submissão.

Idealismo, materialismo e Engels

Uma explicação marxista das raízes da opressão das mulheres é baseada
em um entendimento de que é o mundo material que forma as ideias em nossas
cabeças e não o contrário. O comércio de escravos não se desenvolveu porque as
pessoas brancas eram racistas: o racismo se desenvolveu como uma justificativa
para a escravidão, ao considerar as pessoas negras menos humanas.

Somente o marxismo tem uma explicação concreta para as raízes da opressão
das mulheres, que não se ancora no determinismo biológico de gênero ou no
idealismo. Walter juntou uma excelente exposição do mito de que os comportamentos
e habilidades de mulheres e homens são limitados e definidos por sua
maquiagem genética. Tal determinismo de gênero – que reivindica, por exemplo,
que mulheres gostam de rosa porque costumavam ter que procurar por frutos
maduros em sociedades caçadoras – foi por muito tempo um forte argumento
dos tabloides e da direita e é facilmente desmentido (Walter, 2010: 145). Mas
muitas feministas também recorrem a uma forma de determinismo biológico
que afirma que mulheres são, por definição, mais protetoras e homens são agressivos.

Por exemplo, era comum o argumento, quando os mercados financeiros
entravam em colapso, que dizia que os hormônios masculinos eram culpados
por aumentar os riscos, apostando nos mercados de ações, e que, se as mulheres
controlassem as coisas, tais crises não ocorreriam.

A editora de negócios do The Observer, Ruth Sunderland, havia se referido ao “macho, marca de dente e garra do capitalismo, que causou o desastre em primeiro lugar”. A implicação disso é, claro, que há uma alternativa, gentil, o capitalismo feminino que ia trazer harmonia e riqueza para todos. Isto seria engraçado se não fosse levado tão a serio. Na Islândia, dois bancos falidos e o novo governo, encabeçados por mulheres, estão sendo alardeados como “o fim da era da testosterona”... Dr. Ros Altmann disse que uma causa da crise foi o “excesso de machismo... não havia o pensamento cooperativo que haveria se fosse um ambiente feminino... haveria uma tendência natural para uma mulher dizer ‘vamos escolher a visão de longo prazo’.”... Mulheres têm “uma mente cuidadosa, uma mente nutrida, uma mente que diz ‘vamos nos preocupar com o futuro’” (Orr, 2009).

Mesmo quando o determinismo biológico é rejeitado, há muito pouca solidez
para substituí-lo na literatura feminista recente. Em vez disso, há um argumento
circular: as ideias e expectativas sobre os papéis e o comportamento de mulheres
e homens, moldam nossas ideias, expectativas e comportamentos. Por isso é
que garotas gostam de rosa e garotos brincam com caminhões, etc. Claro, ideias
e expectativas têm um impacto muito profundo em nosso comportamento, e
nós temos que desafiar ideias que servem para justificar e manter desigualdade
e opressão. Mas sempre temos que voltar a responder à questão: de onde essas
ideias vêm em primeiro lugar?

O trabalho pioneiro de Fredrich Engels sobre a opressão das mulheres e
a família abordou esta questão e lançou as bases para um entendimento que se
mantém até hoje. Esta análise aponta para uma explicação materialista das ideias
sexistas. Elas não são internalizadas com o leite da nossa mãe. Ao contrário, elas
decorrem de um processo de socialização moldado pela forma como a sociedade
está estruturada, em especial o papel desempenhado pela família. Enquanto
o poder acena para as teorias de Marx e Engels, a maioria dos novos escritos
feministas falha em se comprometer seriamente com seus avanços ou examinar
a validade de seus argumentos.

As ideias de Engels nos deram uma compreensão de como a divisão de
classes não existia na maior parte da história da humanidade e mostrou a importância
da transição para as primeiras sociedades de classe. Ele descreveu as
mudanças como a “derrota histórica mundial do sexo feminino”. Esta “derrota”
foi enraizada no desenvolvimento da estrutura familiar monogâmica, em que as
mulheres se tornaram responsáveis pela reprodução privada da próxima geração
e os homens tornaram-se dominantes na esfera da produção social. Isto ocorreu
no contexto da transição da vida em pequenos bandos de caçadores e coletores
para a formação de sociedades mais estabilizadas, baseadas na horticultura e
agricultura (Engels, 1978: 65).

O desenvolvimento do uso de arados, irrigação e barragens, dependendo
do clima e da terra, fizeram grandes diferenças para a produtividade humana.

Estas novas técnicas tiveram um impacto significativo sobre o papel das mulheres
na sociedade: o uso de equipamentos pesados, o início da troca de excedentes
e o contato, alguns hostis, fora dos limites do grupo. De um período em que o
trabalho das mulheres tinha produzido pelo menos tanta comida quanto o dos
homens, e em muitos casos mais, as áreas de trabalho empreendidas pelos homens
tornaram-se mais produtivas e mais centrais para a sobrevivência a longo
do tempo.

Aqueles que produziam o excedente controlavam seu uso, e este por sua
vez, deu poder a alguns homens no grupo. A educação infantil não poderia tão
facilmente ser combinada com o centro de produção e, assim, desenvolveu-se
uma divisão entre o papel cada vez mais privado e recorrente de reprodução (sociedades
de horticultura estática ou agrícolas necessitavam e poderiam sustentar
mais mãos para trabalhar a terra) desempenhado pelas mulheres e cada vez mais
a produção social era realizada pelos homens.

Nem todos os homens controlavam ou produziam o excedente. Certas
circunstâncias favoreceram uns sobre outros e as divisões resultaram também
na divisão entre os homens. Hierarquias apareceram pela primeira vez e tinham
implicações. Se você possui algo e outros não, e quer manter esta posse e passá-la,
a herança se torna importante. Uma forma de identificar seus herdeiros legítimos
é assegurar a monogamia. Todos estes desenvolvimentos têm implicações
profundas para a posição das mulheres nessas sociedades.

Demonstrando que a opressão das mulheres está enraizada no modo como
a estrutura da família cresceu com a ascensão da sociedade de classes e que não
era uma característica das sociedades anteriores, é vital para a nossa análise de
como lutar. Pode ser o ponto mais difícil de vencer. É contra-intuitivo. É muito
mais fácil aceitar que a nossa forma de trabalhar, viver e organizar a nossa vida
pessoal é como sempre foi e que só podemos ajustá-lo. Por exemplo, Redfern
e Aune sugerem que “os homens precisam estar dispostos à queda de algumas
horas de trabalho remunerado para cuidarem de suas famílias e os locais de
trabalho precisam se adaptar a horários de trabalho flexíveis” (Redfern e Aune,
2010: 133). Mas o que isso faz é transferir o fardo e, claro, não é resposta para
as mulheres que são mães solteiras.

Então, mesmo para feministas que conhecem o papel desempenhado pelas
classes, que aceitam que o capitalismo é um problema e veem um papel para a
luta de classes, a falha na compreensão das raízes materiais da opressão das mulheres
leva a uma bifurcação na abordagem: uma luta contra a exploração e outra
contra a opressão e o patriarcado. Hoje, entretanto, o patriarcado é raramente
teorizado e é normalmente apenas utilizado como uma descrição da situação em
que mulheres são discriminadas.

Em suas notas ao fim de seu clássico artigo “Women’s Liberation and Revolutionary Socialism”, Chris Harman escreveu que sua declaração de que os socialistas revolucionários não acreditam que a opressão às mulheres é algo que sempre existiu – tanto por causa das diferenças biológicas entres os sexos ou por alguma coisa inerente à psiché masculina... causou mais discussão entre as pessoas a quem eu mostrei o primeiro rascunho deste artigo do que virtualmente qualquer outro (Harman, 1984: 3).

Harman passa detalhadamente por estudos e dados antropológicos. Examina
as falhas, incluindo a motivação e o pano de fundo de classe dos (principalmente)
homens que impulsionaram os primeiros estudos antropológicos. Mas a evidência
inegável segue sendo que os seres humanos viveram em comunidades que foram
organizadas em uma miríade de maneiras diferentes.

Houve sociedades em que as pessoas não viviam em famílias nucleares,
as mulheres não eram cidadãs de segunda classe, sexo gay não era considerado
anormal, a cor da pele das pessoas não era visto como importante e fronteiras
nacionais não existiam. Há muitos exemplos de sociedades onde a opressão
das mulheres – a discriminação sistemática contra as mulheres – não era uma
característica. Houve sociedades onde as mulheres tinham mais poder do que
os homens e outras em que as diferenças de gênero eram de pouca ou nenhuma
importância. O ponto essencial é que as mulheres e os homens viveram de forma
diferente no passado e podem viver de maneira diferente no futuro.

A família hoje

Hoje, ainda que a maioria das mulheres não se dedique exclusivamente a
dar à luz e criar as crianças, o papel da família ainda tem enormes benefícios
econômicos e ideológicos para o sistema: econômicos porque famílias individuais
são responsáveis por todos os custos de trazer a próxima geração; ideológicos
porque as famílias são encorajadas a verem a si mesmas como atomizadas,
unidades auto-suficientes em que, se você é pobre ou desempregado, culpa a si
mesmo ao invés do racismo na sociedade, da crise econômica ou dos cortes na
educação.

A família também é vista por muitos como um refúgio de um mundo brutal
que trata cada um de nós como uma mera parte da engrenagem de um sistema
impessoal. A família pode ser o único lugar em que nós podemos esperar e receber
amor incondicional e apoio. A vida familiar é louvada na mídia, na propaganda
e na cultura popular. Referências a “famílias que trabalham duro” são um refrão
constante durante as eleições gerais, por políticos dos principais partidos.

O casamento ainda é retratado como a principal aspiração para as mulheres.
Apesar de gerações de mulheres fazerem parte da força de trabalho, a casa ainda
é supostamente a esfera feminina. É a mulher que precisa fazer malabarismos
para trabalhar, ir às compras, cuidar do lar e das crianças para poder cumprir as
expectativas da sociedade (e às vezes suas próprias) sobre seu papel “natural”.
Isso leva as mulheres a quase sempre aceitarem trabalhos mal-remunerados ou
de meio expediente que se encaixem com os horários escolares e os feriados,
por exemplo.

A todo o tempo o Estado apoia e reforça esta visão “tradicional” da divisão
de gênero, com os homens também esperando cumprir as expectativas
como provedor. Os Tories2 querem oferecer incentivos fiscais para casais que se
casarem porque estão preocupados com a tendência de que as pessoas rejeitem
a submissão à tradicional unidade familiar. Mulheres têm filhos mais tarde.
Algumas escolhem permanecer sem filhos. Desde os anos 1970, há uma queda
na proporção de bebês nascidos de mulheres menores de 25 anos na Inglaterra
e em Gales, de 47% (369.600 nascimentos vivos) em 1971 para 25% (180.700
nascimentos vivos) em 2008 (ONS, 2009: 3).

Enquanto ideias tradicionais sobre a família não se encaixam na realidade da sociedade hoje, sua resiliência reflete o fato de que ela sobreviveu enquanto uma estrutura social dominante, mesmo com mudanças profundas em nosso modo de viver e trabalhar. Ela serve a um importante propósito na manutenção e justificação do status quo. Este é o alicerce para as ideias sobre as mulheres que permeiam a sociedade.

A luta pela libertação das mulheres hoje

Socialistas precisam começar com o que nos une a mulheres recém politizadas identificadas com o feminismo – sua rejeição ao sexismo e raiva à injustiça e discriminação, e a disposição de lutar. Podemos ganhar uma nova geração para o socialismo revolucionário, mas não denunciando estridentemente o feminismo.

Também fazemos um desserviço a tais mulheres se apenas defendermos
uma marca diferente de feminismo – um feminismo marxista ou socialista, por
exemplo. Nossa visão de mundo e a fundamental transformação revolucionária
para a qual lutamos são mais do que uma abordagem particular da reivindicação
de direitos das mulheres. Lutamos contra a opressão das mulheres em todas as
suas expressões, mas acreditando que a revolução socialista é o único caminho
genuíno para alcançar a libertação das mulheres.

É vital que nos engajemos nos novos debates. Muitos podem pensar que
podemos simplesmente refazer discussões que fizemos décadas atrás. Isso seria
um erro. Ativistas que estão chegando a estas ideias têm uma experiência muito
diferente daquela das mulheres dos anos 1960. Existem mulheres de muitas áreas
da vida que foram barradas destes debates 40 anos atrás. A geração de hoje
viveu um período em que há uma mudança na mentira que dizia que elas têm
tudo. Elas viram mulheres no governo; cresceram com a compreensão de que
vão trabalhar para viver; viram a internet transformar a habilidade de acesso à
pornografia; e viram muitos dos ganhos dos anos 1960, a liberdade de expressar
sua sexualidade, distorcida em um clichê estereotipado e vendido como libertação.

Marxistas se envolveram em debates anteriores sobre pornografia e prostituição,
mercantilização e libertação sexual, e temos muito a oferecer nos debates
atuais3. Marx escreveu sobre o processo de alienação, a habilidade do capitalismo
de transformar partes intrínsecas de nossa humanidade em objetos alienados
para serem comprados, vendidos e possuídos. Somos forçados a vender nossa
habilidade de trabalhar se quisermos sobreviver. Então mesmo nossa sexualidade
é transformada em algo alienado de nós. Uma nova liberdade de expressão, cuja
luta foi difícil, é distorcida pelo sistema para transformar tudo em uma fonte de
lucro. Libertação é transformada em seu oposto: mulheres são pressionadas para
se conformarem em algo cada vez mais caricaturesco do que deveria ser sexy,
enquanto homens são encorajados para ver a si mesmos enquanto indefesos
prisioneiros de sua testosterona: sexualmente agressivos e insaciáveis.

Então, quando falamos em lutar contra o novo sexismo, temos que deixar
claro que somos favoráveis à genuína libertação sexual, por uma maior abertura
sobre o sexo e a sexualidade. Não estamos com os Tories e outros que possuem
uma agenda profundamente reacionária sobre a sexualidade e o papel da mulher
na sociedade4. Devemos nos distanciar daqueles que criticam o novo sexismo
com ideias que pregam que a mulher deve ser acanhada e passiva quando se
trata de relações sexuais ou procuram limitar a educação sexual em escolas ou
impor censura. A censura permite aos juízes e políticos da classe dominante atuarem
como árbitros do que é aceitável para lermos, assistirmos e produzirmos.
Deixamos claro que somos contrários à grosseira mercantilização do corpo das
mulheres, que é mostrada como confiança sexual.

Estamos nas garras de uma crise econômica global, cunhada pelo TUC como
uma “crise de oportunidades iguais” (TUC, 2009). Isto porque as mulheres hoje são, mais que nunca, uma proporção maior da força de trabalho. Elas vão sofrer
equivalentes cortes de emprego e redundâncias junto com os homens. Até então,
os estudos apontam homens perdendo empregos em um grau maior que as mulheres,
mas isto não é conclusivo. Entretanto, os planos de cortes devastadores
para os gastos públicos, planejados pelo recém-eleito governo também terão
um efeito. Quando serviços para idosos, pessoas com deficiência, crianças, etc.,
sofrerem cortes, é previsível que as mulheres de famílias da classe trabalhadora,
que mais dependem destes serviços, sentirão sua falta.

Está claro que haverá muito pelo que lutar nos próximos meses. Quais estratégias
são ofertadas pelas novas escritoras feministas? Defendem que sejamos
ativas. Banyard (2010) lista todos os grupos de campanha aos quais as mulheres
podem se somar. Redfens e Aune sugerem escrever para seu MP5, desafiando
seu namorado, alterando seu estilo de vida. Por exemplo, em resposta ao sexismo
na cultura popular: “Diversifique seu consumo, rejeite estereótipos preguiçosos
sobre homens e mulheres que você escuta na vida cotidiana” (Redfern e Aune,
2010: 203). Nenhuma destas sugestões soam remotamente adequadas frente aos
problemas que as mesmas autoras descreveram.

Ao invés disso, temos que ganhar as mulheres que estão chegando à política
devido à suas experiências de opressão para uma tradição política diferente,
uma que não separe as mulheres das mais amplas lutas de nossa classe. Todo
período de grande resistência e revolta da classe trabalhadora viu as questões de
mulheres surgirem. Não é surpresa que agora, depois de um período em que a
luta da classe trabalhadora não demonstrou habilidade para desafiar o sistema,
soluções de estilo de vida individuais, ou organizar-se separadamente enquanto
mulheres, podem inicialmente parecer serem as únicas opções.

A História mostrou que quando os oprimidos se organizam para reagir, podem inspirar movimentos oposicionistas de massa, mas se eles se mantém focados em apenas um assunto, esbarram nos limites da sociedade atual.

O movimento de mulheres dos anos 1960 foi moldado pela hipótese de que o sistema estava se expandido, avançando. Havia um sentimento de que cada geração teria uma melhor qualidade de vida e maiores oportunidades que a anterior. E para muitos, isto era realidade.

Hoje o capitalismo está em uma prolongada e profunda crise, com guerras brutais sendo um componente permanente e mudanças climáticas aparecendo como uma ameaça à própria sobrevivência de nosso planeta. Milhões na Inglaterra sentem um profundo sentimento de ansiedade sobre o futuro e não há sentimento de possibilidade de que o sistema possa entregar uma vida mais igual e completa para as pessoas comuns. O impacto do mercado desenfreado em nome do neoliberalismo destruiu qualquer ilusão de que a provisão coletiva para os mais vulneráveis possa ser alcançada no futuro.

O argumento que precisamos para desafiar o sistema capitalista é popular. Muitas das jovens mulheres que se declaram feministas, que rasuram propagandas sexistas ou constroem novos websites e grupos feministas, estão longe de serem hostis às ideias socialistas.

Precisamos nos juntar a tais mulheres nas lutas que enfrentamos, seja contra os cortes na educação, ou as potenciais tentativas de ataque dos Tories aos direitos de aborto. Devemos organizar debates e protestos contra a propaganda sexista e sobre a luta pela genuína libertação sexual. Devemos ser parte de cada luta contra as manifestações de opressão às mulheres, mas estar a todo o tempo com uma visão de como podemos alcançar, todos juntos, uma sociedade livre de opressão.

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Judith Orr é editora da revista inglesa Socialist Review.