26 de junho de 2008

Vivendo na plataforma gelada

A dissolução da humanidade

Mike Davis

TomDispatch

1. Adeus ao Holoceno

Tradução / O nosso mundo, o velho mundo que temos vindo a habitar nos últimos 12.000 anos, acabou, mesmo que nenhum jornal da Europa ou da América do Norte tenha ainda publicado o seu obituário científico.

Em fevereiro passado, enquanto os guindastes içavam soldadura para o 141º andar da Torre Burj Dubai (que em breve terá o dobro da altura do Empire State Building), a Comissão de Estratigrafia da Sociedade Geográfica de Londres adicionava um novo e mais elevado patamar para a coluna geológica.

Esta sociedade londrina é a mais antiga associação de cientistas da Terra, fundada em 1807, e a sua comissão atua como um colégio de cardeais na adjudicação das escalas de tempo geológicas. Os estratígrafos dividem a história terrestre, conforme ela aparece preservada nos estratos sedimentários, em hierarquias de eones, eras, períodos e épocas, delimitados por “picos dourados” de extinções em massa, eventos de especiação e abruptas mudanças na química atmosférica.

Na geologia, como na história ou na biologia, a periodização é uma arte complexa e controversa. A mais amarga disputa na ciência britânica do século XIX – ainda conhecida como a “grande controvérsia devoniana” – desenrolou-se sobre interpretações concorrentes acerca de uns saibros cinzentos galeses e de um velho arenito rubro inglês. Mais recentemente, os geólogos lutaram sobre como demarcar estratigraficamente oscilações na idade do gelo ao longo dos últimos 2,8 milhões de anos. Alguns deles nunca aceitaram que o mais recente intervalo quente inter-glacial – o Holoceno – deva ser distinguido como uma “época” de direito próprio, só porque compreende em si toda a história da civilização.

Em resultado disto, os estratígrafos contemporâneos definiram padrões extraordinariamente rigorosos para a beatificação de quaisquer novas divisões geológicas. Embora a ideia de um “Antropoceno” – uma época terrena definida pela emergência da sociedade urbano-industrial como uma força geológica – venha sendo debatida há muito tempo, os estratígrafos têm-se recusado a reconhecer provas convincentes do seu advento.

Ora, pelo menos no que diz respeito à Sociedade Geográfica de Londres, essa posição foi agora revista.

À questão “Estamos agora a viver no Antropoceno?”, os vinte e um membros da comissão declararam, unanimemente, “Sim”. Eles aduziram provas robustas de que a época holocênica – o instante inter-glacial de clima invulgarmente estável que permitiu a rápida evolução da agricultura e da civilização urbana – acabou, tendo a Terra entrado num “intervalo estratigráfico sem paralelo aproximado nos últimos milhões de anos”. Para além da acumulação de gases com efeito de estufa, os estratígrafos citam a transformação paisagística humana, que agora “excede a produção sedimentar natural [anual] por uma ordem de magnitude, a ominosa acidificação dos oceanos e a imparável destruição de espécies animais e vegetais.

Esta nova era, explicam eles, é definida tanto por uma tendência geral ao aquecimento (cujo paralelo mais próximo pode ser a catástrofe conhecida como o Máximo Termal Paleocênico Eocênico, há 56 milhões de anos atrás) como pela radical instabilidade que deve ser esperada dos futuros ambientes. Em prosa sombria, eles advertem que “a combinação de extinções, migrações globais de espécies e a generalizada substituição de vegetação natural por monoculturas agrícolas, está a produzir um distinto sinal bio-estratigráfico contemporâneo. Estes efeitos são permanentes, pois a futura evolução terá lugar a partir das espécies sobreviventes (com frequência, antropogeneticamente relocalizadas)”. Por outras palavras, a própria evolução foi forçada a tomar uma nova trajetória.

2. Descarbonização espontânea?

A coroação do Antropoceno, pela Comissão, coincide com uma crescente controvérsia científica sobre o Quarto Relatório de Avaliação do Painel Inter-governamental sobre Mudanças Climáticas (PIMC). O PIMC está mandatado para estabelecer as linhas básicas científicas para os esforços internacionais de mitigação do aquecimento global, mas alguns dos mais proeminentes pesquisadores neste campo estão agora a desafiar os seus cenários de referência como sendo demasiado otimistas, senão mesmo lunaticamente fantasistas.

Os cenários correntes foram adotados pelo PIMC em 2000, para modelar as futuras emissões globais com base em diferentes “enredos” sobre crescimento populacional, bem como desenvolvimento econômico e tecnológico. Alguns dos cenários mais destacados do Painel são bem conhecidos dos decisores políticos e dos ativistas contra o aquecimento global, mas muito poucos foram os que, fora da comunidade dos pesquisadores, leram efetivamente ou compreenderam a sua letra miúda, em particular a confiança do PIMC de que uma maior eficiência energética será um subproduto “automático” do desenvolvimento econômico futuro. Na verdade, todos os cenários, mesmo nas variantes “os negócios como de costume” (“busisness as usual”), pressupõem que pelo menos 60% das futuras reduções de carbono ocorrerão independentemente de medidas efetivas de mitigação do efeito de estufa.

O Painel, com efeito, apostou a fazenda (ou, melhor dito, o planeta) em progressos não planejados, impulsionados pelo mercado, em direção a uma economia mundial pós-carbono, uma transição que implicitamente requererá que a riqueza gerada por preços de energia mais altos seja finalmente canalizada para novas tecnologias e energia renovável. (A Agência Internacional de Energia estimou recentemente que custaria $45 triliões de dólares norte-americanos cortar em metade as emissões de gases com efeito de estufa até 2050.) Acordos do tipo Quioto e os mercados de emissões de carbono estão concebidos apenas – quase como análogos ao “despesismo” keynesiano – para cobrir a distância, apesar de tudo subsistente, entre a prevista descarbonização espontânea e as metas de emissões requeridas por cada cenário. De um modo felicíssimo, isto reduz os custos da mitigação do aquecimento global para níveis que se alinham com aquilo que parece ser, pelo menos teoricamente, politicamente possível, tal como exposto na britânica ‘Stern Review on the Economics of Climate Change’ de 2006 e outros relatórios semelhantes.

Os críticos, porém, afirmam que isto é um enormíssimo salto no escuro, que subestima radicalmente os custos econômicos, os obstáculos tecnológicos e as mudanças sociais que é necessário vencer para tão só minorar o crescimento dos gases de efeito de estufa. As emissões de carbono europeias, por exemplo, continuam a crescer (dramaticamente em alguns sectores) apesar da muito elogiada adoção pela União Europeia, em 2005, de um sistema de quotas de poluição comercializáveis. De igual modo, tem havido muito poucas provas de crescimento da eficiência energética nos últimos anos, o que é uma condição sine qua non para os cenários do PIMC. Embora a revista ‘The Economist’, de modo bem característico, coloque as suas objecções, a maioria dos pesquisadores em energia acredita que, desde o ano 2000, a intensidade da energia tem na verdade crescido ainda mais; ou seja, as emissões globais de dióxido de carbono mantiveram o mesmo ritmo de crescimento que o uso de energia, ou cresceram mesmo a uma taxa marginalmente superior.

A produção de carvão, em especial, está a conhecer um dramático renascimento, com o século dezenove a perseguir com os seus espectros o século vinte e um. Centenas de milhares de mineiros estão agora a trabalhar em condições que teriam estarrecido Charles Dickens, extraindo os sujos minerais que permitem à China abrir duas novas centrais térmicas a carvão por semana. Enquanto isso, prevê-se que o consumo total de combustíveis fósseis aumente pelo menos 55%, ao longo da próxima geração, com as exportações internacionais de petróleo a duplicar em volume.

O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), que conduziu o seu próprio estudo de metas sustentáveis em energia, avisa que será necessário “um corte de 50 por cento na emissão mundial de gases com efeito de estufa em 2050, tomando como referência os níveis de 1990”, só para manter a humanidade fora da zona de alerta vermelho do aquecimento galopante (geralmente definido como um aumento superior a dois graus centígrados este século). Contudo, a Agência Internacional de Energia prevê que, com toda a probabilidade, essas emissões vão na verdade aumentar no mesmo período cerca de 100% - gases suficientes para nos projectar descontroladamente sobre vários limiares críticos.

Enquanto os mais elevados preços de energia conduzem os SUV (1) à beira extinção e atraem mais capitais de risco para a energias renováveis, também abrem a Caixa de Pandora da extracção de combustíveis fósseis em estado mais bruto, das areias betuminosas canadianas ao petróleo pesado venezuelano. Como avisou já um cientista britânico, a última coisa que deveríamos desejar (sob o falso lema da “independência energética”) é estabelecer novas fronteiras na produção de hidrocarbonos que façam avançar a capacidade humana de acelerar o aquecimento global e atrasem a urgente transição para “ciclos de energia não-carbónicos ou de baixo teor carbónico”.

3. A expansão finissecular

Que confiança podemos nós ter na capacidade dos mercados para realocar investimentos das velhas para novas energias, ou mesmo, digamos, das despesas em armamento para a agricultura sustentável? Somos incessantemente propagandizados (em especial na televisão pública) sobre a forma como companhias gigantes - a Chevron, a Pfizer Inc., a Archer Daniels Midland, etc. - estão a trabalhar arduamente para salvar o planeta, semeando de novo os seus lucros nos tipos de pesquisa e exploração que garantirão no futuro combustíveis de baixo teor carbónico, novas vacinas e colheitas mais resistentes à seca.

Como ficou demonstrado, de forma escandalosa, com a presente corrida ao etanol-milho - que retirou 100 milhões de toneladas de grão da alimentação humana, canalizando-os sobretudo para os motores automóveis norte-americanos - o “biofuel” pode ser um eufemismo para subsídios para os ricos e fome para os pobres. Do mesmo modo, o “carvão limpo”, apesar do vigoroso apoio do senador Barack Obama (que também apregoa as virtudes do etanol) é, presentemente, apenas uma enorme vigarice: uma campanha publicitária e de lobbying de 40 milhões de dólares a favor de uma hipotética tecnologia que a própria revista ‘Business Week’ caracterizou como “estando ainda a décadas de distância da viabilidade comercial”.

Para além disso, há sinais perturbadores de que as companhias e serviços públicos de energia estão a renegar os seus compromissos públicos de desenvolvimento de tecnologias energéticas alternativas e de métodos de captura de carbono. O “projecto-vitrine” da Administração Bush, FutureGen, foi anulado este ano, após a indústria do carvão ter recusado pagar a sua quota na “parceria” público-privado; de modo similar, a maior parte das iniciativas privadas norte-americanos de aprisionamento de carbono foram recentemente canceladas. No Reino Unido, entretanto, a Shell acaba de saltar fora do maior projecto mundial de energia eólica, o London Array. Apesar dos seus níveis heróicos de publicidade, as corporações de energia, tal como as companhias farmacêuticas, preferem rapar o fundo ao domínio público disponível, enquanto deixam os impostos (não os lucros) pagar toda a pesquisa nova realmente feita, por mais urgente e longamente ansiada que seja.

Por outro lado, os proventos dos altos preços da energia continuam a jorrar copiosamente para o imobiliário, os arranha-céus e os activos financeiros. Estejamos ou não efectivamente no cimo do Pico de Hubbert – esse tal momento do pico do petróleo - , esteja ou não a bolha do petróleo finalmente prestes a rebentar, aquilo a que estamos a assistir é provavelmente à maior transferência de riqueza da história moderna.

Um eminente oráculo de Wall Street, o McKinsey Global Institute, prediz que, se o preço do petróleo permanecer acima dos $100 dólares por barril – e neste momento está a aproximar-se dos $140 dólares - os seis países do Conselho de Cooperação do Golfo, por si só, “arrecadarão uma enxurrada acumulada de quase $9 triliões de dólares por volta de 2020.” Como nos anos 1970, a Arábia Saudita e os seus vizinhos do Golfo, cujo produto interno bruto total quase duplicou em apenas três anos, estão inundados de liquidez: $2,4 triliões de dólares em contas bancárias e fundos de investimentos, de acordo com uma recente estimativa da revista ‘The Economist’. Independentemente da tendência dos preços, a Agência Internacional de Energia prediz que “mais e mais petróleo terá a sua origem em cada vez menos países, com os membros da OPEC [Organização dos Países Exportadores de Petróleo] do Médio Oriente na primeira linha.

O Dubai, que tem pouco rendimento petrolífero próprio, tornou-se o eixo financeiro regional para toda esta vasta reserva de riqueza, com ambições a, eventualmente, vir a competir com Wall Street e a City de Londres. Durante o primeiro choque petrolífero, nos anos 1970, muito dos excedentes da OPEC era reciclado através de encomendas militares nos Estados Unidos e na Europa, ou estacionado em bancos estrangeiros para se converter nos empréstimos de risco (“subprime”) que devastariam a América Latina nas décadas seguintes. No rescaldo dos ataques do 11 de Setembro, os Estados do Golfo tornaram-se muito mais cuidadosos quanto a confiar a sua riqueza a países, como os Estados Unidos, governados por fanáticos religiosos. Desta vez, eles estão usando “fundos de riqueza soberanos” para adquirir uma participação mais activa nas instituições financeiras estrangeiras, enquanto simultaneamente investem fabulosas quantidades de rendimentos petrolíferos para transformar as areias da Arábia em cidades hiperbólicas, paraísos comeciais e ilhas privadas, destinadas a estrelas rock britânicas e gangters russos.

Há dois anos atrás, quando os preços do petrróleo estavam a menos de metade dos seus níveis actuais, o jornal ‘The Financial Times’ estimava que as novas construções planeadas na Arábia Saudita e nos emiratos excedia já $ 1 trilião de dólares. Hoje, deve estar muito mais próximo dos $ 1,5 triliões, consideravelmente mais do que o valor total do comércio mundial em produtos agrícolas. A maioria das Cidades-Estado do Golfo está a construir alucinatórias linhas de horizonte urbano – e, de entre eles, o Dubai é a super-estrela inquestionável. Em pouco mais de uma década erigiu 500 arranha-céus e presentemente tem alugados um quarto dos guindastes altos existentes no mundo.

Esta expansão induzida do Golfo, que a celebridade da arquitectura Rem Koolhaas diz estar a “reconfigurar o mundo”, levou os investidores do Dubai a proclamarem o advento de um “estilo de vida supremo”, representado por hotéis de sete estrelas, ilhas privadas e iates de classe J. Não surpreende, assim, que os Emiratos Árabes Unidos e seus vizinhos tenham a maior “pegada” ecológica no planeta, medida per capita. Entretanto, os legítimos donos da riqueza petrolífera árabe, as massas acantonadas nos prédios sobrelotados de Bagdad, Cairo, Amman e Karthoum, pouco mais têm dela, para si, que um pequeno gotejar (“trickle-down”) de empregos nos campos petrolíferos e de madrassas subsidiadas pelos sauditas. Enquanto hóspedes desfrutam dos quartos de $5.000 dólares por noite do Burj Al-Arab, o célebre hotel do Dubai em forma de vela, os cairenses da classe trabalhadora amotinam-se nas ruas por causa do preço incomportável do pão.

4. Podem os mercados emancipar os pobres?

Os optimistas, é claro, sorriem a todos os cenários catastrofistas (“gloom-and-doom”), invocando o próximo milagre do comércio das emissões de carbono. O que eles põem de parte é a possibilidade – contudo bem real – de que um mercado dinâmico das emissões poluentes venha de facto a emergir, tal como previsto, tendo contudo um impacto mínimo na folha de balanço global do carbono atmosférico, enquanto não houver mecanismos coactivos que imponham reduções líquidas reais no uso de combustíveis fósseis.

Nas discussões correntes sobre os sistemas de comércio de direitos de emissão, é frequente confundirem-se as chaminés por árvores. Por exemplo, o rico enclave petrolífero do Abu Dhabi (como o Dubai, um associado dos Emiratos Árabes Unidos) gaba-se de ter plantado mais de 130 milhões de árvores – cada uma delas cumpridora do seu dever de absorver dióxido de carbono da atmosfera. Contudo, esta floresta artificial no deserto também consome grandes quantidades de água de irrigação produzida (ou reciclada) a partir de dispendiosas estações de dessalinização. As árvores podem permitir ao Sheik Ahmed bin Zayed exibir uma certa áurea em reuniões internacionais, mas a dura realidade é que elas são, de facto, apenas uma faixa de beleza energético intensiva, como muito do chamado capitalismo verde.

E enquanto estamos com a mão na massa, porque não perguntar, simplesmente: E se a compra e venda de créditos de carbono e de licenças de poluição falhar no seu objectivo de baixar o termóstato? Exactamente o quê motivará finalmente os governos e as indústrias globais a juntar as mãos numa cruzada para reduzir as emissões através da regulação e da tributação?

A diplomacia climática do tipo Quioto parte do princípio de que todos os protagonistas, uma vez aceite a ciência contido nos relatórios do PIMC, reconhecerão um interesse comum supremo em colocar sob controlo o efeito de estufa galopante. Mas o aquecimento global não é a ‘Guerra dos Mundos’, em que invasores marcianos estão empenhados em aniquilar toda a humanidade, sem distinções. As mudanças climáticas, pelo contrário, produzirão inicialmente impactos dramaticamente desiguais, entre regiões e classes sociais. Reforçarão, em vez de diminuir, a desigualdade geo-política e o conflito.

Como realça o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), no seu relatório do ano passado, o aquecimento global é, acima de tudo, uma ameaça para os pobres e para os ainda não nascidos, “dois sectores com pouca ou nenhuma voz política”. A acção global coordenada em seu nome pressupõe, assim, ou uma tomada revolucionária do poder da sua parte (um cenário não considerado pelo PIMC), ou uma transmutação, sem precedentes na história, do interesse egoísta de países e classes ricas em “solidariedade” esclarecida. Da perspectiva de um “actor racional”, o segundo cenário só parecerá realista se puder ser demonstrado que os grupos privilegiados não dispõem de opções de saída preferenciais, que a opinião pública internacional conduz efectivamente as decisões políticas em certos países chave, e que a mitigação dos gases com efeito de estufa pode ser alcançada sem elevados sacrifícios para os mais altos escalões sociais no Hemisfério Norte – nenhuma destas condições parece provável.

E se a crescente turbulência ecológica e social, em vez de galvanizar uma heróica inovação e cooperação internacional, conduzir antes as elites a tentativas cada vez mais frenéticas para se separarem e defenderem com muralhas do resto da humanidade? A mitigação global, neste cenário inexplorado mas não improvável, seria tacitamente abandonada (como, em certa medida, já tem sido) a favor de um acelerado investimento em adaptações selectivas para os passageiros terrestres de primeira classe. É a perspectiva da criação de oásis verdes, de prosperidade permanente, para lá dos portões, num mundo que se afundaria generalizadamente em graves problemas.

É claro que haverá sempre tratados, créditos de carbono, campanhas contra a fome, acrobacias humanitaristas, e talvez mesmo a conversão integral de algumas cidades ou pequenos países europeus às energias alternativas. Mas a mudança para estilos de vida que impliquem emissões zero, ou mínimas, seria inimaginavelmente dispendiosa. (Na Grã-Bretanha, custa presentemente $ 200.000 dólares a mais construir eco-casas de “nível 6”, de zero carbono, do que custaria uma unidade normal na mesma área.) E isto tornar-se-á, certamente, ainda mais inimaginável, após 2030, mais ou menos, quando o impacto convergente das mudanças climáticas, do pico do petróleo, do pico da água e de uns 1,5 biliões de pessoas a mais no planeta, começar a estrangular seriamente o crescimento.

5. A dívida ecológica do Norte

A verdadeira questão é: Os países ricos alguma vez mobilizarão a vontade política e os recursos económicos para de facto atingirmos as metas do PIMC ou mesmo, tão só, para ajudar os países mais pobres a adaptar-se ao inevitável, ao já “cometido” quociente de aquecimento que está neste momento a fazer o seu caminho até chegar a nós, através da lenta circulação dos oceanos?

Para se ser algo mais vívido: Irão os eleitorados dos países ricos pôr de lado o seu actual chauvinismo e as suas fronteiras fortificadas para admitir refugiados dos previstos epicentros de seca e desertificação, como o Meghreb, o México, a Etiópia e o Paquistão? Estarão os norte-americanos - o povo mais sovina do mundo, se medido pela quantidade de ajuda externa per capita – dispostos a tributarem-se a si próprios para ajudar a realojar os milhões que provavelmente vão ser deslocados pela elevação do nível dos mares, de áreas densamente povoadas, mega-regiões delta como o Bangla-Desh?

Os optimistas de orientação pró-mercado, uma vez mais, apontarão para os programas de compensação em carbono, como o Mecanismo do Desenvolvimento Limpo (Clean Development Mechanism), o qual, segundo eles, permitirá ao capital verde fluir para o Terceiro Mundo. A maior parte do Terceiro Mundo, porém, provavelmente preferiria que o Primeiro Mundo reconhecesse a bagunça ambiental que criou e se responsabilizasse por a limpar. Muito justamente, eles praguejam contra a noção de que o maior fardo do ajustamento à Época Antropocénica haja de pesar sobre os ombros daqueles que menos contribuiram para as emissões carbónicas e menos benefícios tiraram de 200 anos de industrialização.

Num estudo recentemente publicado em Proceedings of the [US] National Academy of Science, uma equipa de investigadores tentou calcular os custos económicos da globalização económica desde 1961, expresso em termos de deflorestação, mudanças climáticas, pesca excessiva, rarefação do ozono, conversão dos manguais e expansão agrícola. Depois de feitos os relacionamentos com os resultantes encargos, eles concluíram que os países mais ricos, pelas suas actividades, geraram 42% da degradação ambiental em todo o mundo, enquanto arcaram com apenas 3% dos custos daí resultantes.

Os radicias do Sul apontarão também, muito justamente, para uma outra dívida. Durante 30 anos as cidades no mundo “em desenvolvimento” cresceram a um ritmo alucinante, sem nenhum equivalente em termos de investimento público em infraestruturas, serviços, habitação ou saúde pública. Numa larga medida, isto foi o resultado de dívidas externas contraídas por ditadores, pagamentos exigidos pelo Fundo Monetário Internacional e sectores públicos despedaçados pelos acordos de “ajustamento estrutural” do Banco Mundial.

Este défice planetário de oportunidades e de justiça social é retratado no facto de mais de um bilião de pessoas, de acordo com a UN-Habitat, viverem presentemente em bairros de lata, esperando-se que o seu número duplique por volta de 2030. Um número equivalente, ou mesmo superior, sobrevive como pode no chamado sector informal (um eufemismo do primeiro-mundo para desemprego em massa). Entretanto, só o previsível crescimento demográfico, aumentará a população urbana mundial em 3 biliões de pessoas ao longo dos próximos 40 anos (90% deles em cidades pobres), e ninguém – mas mesmo ninguém – faz a mais pequena ideia de como um planeta de bairros de lata, com as suas crises energética e alimentar em agudização, poderá prover à sua sobrevivência biológica, para não falar já das suas inevitáveis aspirações básicas à dignidade e à felicidade.

Se isto parece indevidamente apocalíptico, considere-se que a maioria dos modelos climáticos projectam impactos que reforçarão a presente geografia da desigualdade. Um dos pioneiros analistas da economia do aquecimento global, William R. Cline, professor agregado do Intituto Peterson, publicou recentemente um estudo, país por país, sobre os efeitos prováveis das mudanças climáticas na agricultura, lá para as última décadas deste século. Mesmo nas simulações mais optimistas, os sistemas agrícolas do Paquistão (decréscimo de 20% na produção em relação aos níveis presentes) e da Índia do Noroeste (decréscimo de 30%) serão provavelmente devastados, do mesmo modo que muito do Médio Oriente, do Maghreb, da cintura do Sahel, da África meridional, das Caraíbas e do México. Vinte e nove países em desenvolvimento perderão 20% ou mais da sua presente produção agrícola devido ao aquecimento global, enquanto que a agricultura do já rico Norte conhecerá, em média, um incremento de 8%.

À luz destes estudos, a presente competição desenfreada entre os mercados de energia e de alimentos, amplificada pela especulação internacional em mercadorias e terra agrícola, é apenas um modesto presságio do caos que poderá brevemente crescer exponencialmente, a partir da convergência entre rarefação de recursos, desigualdades intratáveis e mudanças climáticas. O verdadeiro perigo é que a própria solidariedade humana, como um banco de gelo da Antártida ocidental, se fracture a estilhace num milhar de fragmentos.

11 de junho de 2008

A crise em desdobramento e a relevância de Marx

István Mészáros


Tradução / Alguns de vocês talvez tenham estado presentes na nossa reunião de maio deste ano neste edifício, quando recordei o que havia dito a Lucien Goldman, em Paris, poucos meses antes do histórico Maio de 1968 francês. Em contraste com a perspectiva então prevalecente do "capitalismo organizado", que se supunha ter deixado para trás com êxito o estágio da "crise do capitalismo" – uma visão fortemente asseverada por Marcuse e nessa época também partilhada pelo meu querido amigo Lucien Goldman – insisti no fato de que, em comparação com a crise em que estamos realmente a entrar, "a Grande Crise Econômica Mundial de 1929-1933" se parecer com "uma festa no salão de chá do vigário".

Nas últimas semanas vocês tiveram uma antevisão do que eu tinha em mente. Mas apenas uma antevisão, porque a crise estrutural do sistema do capital como um todo, a qual estamos a experimentar na nossa época numa escala de era, está destinada a ficar consideravelmente pior. Ela tornar-se-á na devida altura muito mais profunda, no sentido de invadir não apenas o mundo das finanças globais mais ou menos parasitárias como todos os domínios da nossa vida social, econômica e cultural.

A questão óbvia que devemos agora tratar refere-se à natureza da crise global em desdobramento e as condições necessárias para a sua solução factível.

Se tentarem recordar o que foi infindavelmente repetido nas últimas duas semanas acerca da crise atual, há uma palavra que se destaca, ensombrando todos os demais diagnósticos apregoados e os remédios correspondentes. Essa palavra é confiança. Se ganhássemos uma nota de dez libras por cada vez que esta palavra mágica foi oferecida para consumo público nas últimas duas semanas em todo o mundo, sem mencionar a sua continuada reafirmação desde então, estaríamos todos milionários. O nosso único problema seria então o que fazer com os nossos milhões subitamente adquiridos. Pois nenhum dos nossos bancos, nem mesmo os nossos bancos nacionalizados recentemente – nacionalizados ao custo considerável de não menos do que dois terços dos seus ativos de capital – poderia fornecer a lendária "confiança" necessária ao depósito ou ao investimento seguro.

Até o nosso primeiro-ministro, Gordon Brown, nos apresentou na semana passada a frase memorável: "Confiança é a coisa mais preciosa". Conheço a cantiga – e provavelmente a maioria de nós também a conhece – que nos diz que: "O amor é a coisa mais preciosa". Mas a confiança no sistema bancário capitalista ser a coisa mais preciosa?! Tal sugestão é absolutamente perversa!

No entanto, a advocacia deste remédio mágico parece agora ser universal. A palavra é repetida com tamanha convicção como se a "confiança" pudesse simplesmente chover do céu ou crescer em grande abundância em árvores financeiras "capitalistamente" bem adubadas.

Há três dias atrás (a 18 de Outubro) o programa da BBC das manhãs de domingo – o programa Andrew Marr – entrevistou um eminente cavalheiro idoso, Sir Brian Pitman, o qual foi apresentado como o antigo Chefe do negócio bancário do Lloyd's. Eles não disseram quando ele liderou aquela organização, mas o modo como falou logo o tornou claro. Pois transpirou através das suas respostas respeitosamente recebidas que ele deve ter sido o Chefe do Lloyd's Bank bem antes da Crise Económica Mundial de 1929-33. Consequentemente, para encorajar os telespectadores, ele apresentou uma grande inovação conceptual no discurso da confiança ao dizer que as nossas perturbações eram todas elas devidas a alguma "Super-confiança". E imediatamente demonstrou também o significado de "Super-confiança", ao afirmar, mais de uma vez naquela curta entrevista, que não pode haver problemas sérios hoje, porque o mercado sempre toma conta de tudo, mesmo que por vezes ele vá inesperadamente muito abaixo. Posteriormente ele sempre sobe outra vez. De modo que ele também fará isso desta vez, e subirá infalivelmente repetidas vezes no futuro. A crise actual não deveria ser exagerada, disse ele, porque é muito menos séria hoje do que a que experimentámos em 1974. Pois em 1974 tivemos uma semana de três dias de trabalho na Grã-Bretanha [ainda que em nenhum outro lugar] e agora não temos isso. Temos? E quem poderia argumentar contra aquele facto irrefutável?

A TRÍADE PSEUDO-HEGELIANA

Assim, temos agora a palavra mágica explicativa para todas as nossas perturbações não a apresentar-se como um órfão infeliz, solitário, mas como parte de algo como uma tríade "fukuyamizada" pseudo-hegelina: confiança – falta de confiança e super-confiança. O único constituinte que falta neste discurso mágico explicativo é agora o fundamento real do nosso perigoso sistema de banca e seguros que opera no terreno dos truques de confiança em proveito próprio que mais cedo ou mais tarde estão destinados a serem (e de tempos em tempos realmente têm sido) descobertos.

De qualquer forma, toda esta conversa acerca das virtudes absolutas da confiança na administração económica capitalista assemelha-se muito à explicação oferecida pela mitologia indiana acerca da base de suporte do universo. Pois naquela antiga visão do mundo dizia-se que o universo era carregado, muito reconfortantemente, sobre as costas de elefantes. E os poderosos elefantes?, você poderia perguntar. Ninguém pensaria que isso fosse uma dificuldade. Pois os elefantes são, ainda mais reconfortantemente, suportados nas costas da tartaruga cósmica. Mas, e quanto à própria tartaruga cósmica? Não é suposto que pergunte tal questão, para que não sirva de alimento aos tigres de Bengala, antes de eles serem extintos.

Felizmente, talvez (?), The Economist é um bocadinho mais realista na sua avaliação da situação.

No contexto deste nosso assunto penoso, a agora reconhecida pioria da crise económica, vou apresentar-lhes citações exactas, incluindo alguns números malditos de fracassos capitalistas que já não são negáveis, retirados principalmente de publicações bem estabelecidas e com uma consciência de classe desavergonhadamente burguesa como The Economist e The Sunday Times. Vamos citá-las meticulosamente, palavra por palavra, não só porque elas são eminentes no seu campo como também a fim de evitar que nos acusem de "viés e distorção de esquerda".

Marx costumava dizer que nas páginas de The Economist a classe dominante estava a "conversar consigo própria". As coisas mudaram um pouco desde aquele tempo. Pois agora até mesmo no campo especializado da "perícia económica" a classe dominante precisa de um órgão de propaganda de circulação em massa, com o objectivo da mistificação geral. No tempo em que Marx viveu a classe dominante estava cheia de "confiança", e também de um grande bocado de "super-confiança" incontestada, para necessitar disso. Assim, sob as menos arrogantes circunstâncias actuais, o semanário de distribuição em massa com sede em Londres, The Economist, – o farisaico porta-voz do anual "Davos Jamboree" dominado pelos EUA – é cauteloso ao conceder que a crise que estamos a enfrentar hoje refere-se às dificuldades de "Salvar o sistema", conforme a sua capa do número de 11 de Outubro de 2008.

Podemos admitir, naturalmente, que nada menos do que "salvar o sistema" (ou não) é o que está em causa no nosso tempo, mesmo que a discussão de The Economist deste problema seja um tanto estranha e contraditória. Pois no seu modo habitual de tentar apresentar a sua posição altamente partidária como uma visão objectivamente "equilibrada", utilizando a fórmula do "por um lado isto e por outro lado aquilo", o The Economist sempre consegue atingir a sua desejada conclusão em favor da ordem estabelecida. Assim, também nesta ocasião, The Economist assevera no seu artigo principal de 11 de Outubro que "Esta semana assistiu-se ao primeiro vislumbre de uma resposta global abrangente para o fosso da confiança ". Agora, felizmente, espera-se que o "fosso da confiança", embora reprovável em si próprio, se remedeie graças a uma algo misteriosa "resposta global abrangente".

Ao mesmo tempo, no lado mais realista, o semanário londrino também reconhece no mesmo editorial que

"O dano para a economia real está a tornar-se aparente. Na América o crédito ao consumidor está agora a contrair-se, e cerca de 150 mil americanos perderam os seus empregos em Setembro, o máximo desde 2003. Algumas indústrias estão seriamente prejudicadas: as vendas de carros estão no seu mais baixo nível em 16 anos pois os aspirantes a compradores são incapazes de obter crédito. A General Motors fechou temporariamente algumas das suas fábricas na Europa. Por todo o globo indicadores prospectivos, como inquéritos de compras junto a administradores, estão horrivelmente sombrios".

Eles não dizem, contudo, que "o fosso da confiança" pode ter algo a ver com tais factos.

Naturalmente, a defesa do sistema deve prevalecer em cada artigo, mesmo se esta tiver de ser apresentada com a expressão inquestionável de visão pragmática. Neste sentido, "salvar o sistema" para The Economist equivale à identificação totalmente acrítica da revista com a operação de resgate económico ilimitado, e a advocacia incontestável dos mesmo, – a ser cumprida sem quaisquer meios que se afastem dos habitualmente mais dogmaticamente glorificados "recursos do mercado" – em favor do perturbado sistema capitalista. Assim, mesmo os mais queridos e bem testados dogmas da propaganda (de um não só não existente livre mercado, que na realidade nunca existiu) podem agora ser atirados borda fora pela nobre causa de "Salvar o sistema". Consequentemente, conta-nos The Economist que

"A economia mundial está claramente com um aspecto fraco, mas ela poderia ficar um bocado pior. Este é o momento de colocar dogma e política de lado e concentrar em respostas pragmáticas. Isto significa mais intervenção governamental e cooperação no curto prazo, mais do que os contribuintes, políticos ou na verdade os jornais do mercado livre normalmente gostariam". [1]

Nós fomos presenteados anteriormente com sermões semelhantes do presidente George W. Bush. Ele disse na sua intervenção na televisão há duas semanas que normalmente e instintivamente ele é crente e apoiante apaixonado do mercado livre, mas sob as atuais circunstâncias excepcionais ele devepensar em outros caminhos. Ele deve começar a pensar sob estas difíceis circunstâncias, ponto final. Você não pode dizer que não foi advertido.

As somas envolvidas na recomendada solução "pragmática", as quais advogam varrer para o lado as "preferências normais" dos "contribuintes e jornais do mercado livre " (isto é, da solução agora defendida a qual significa, na verdade, a necessária submissão das grandes massas do povo a fardos fiscais crescentes, mais cedo ou mais tarde) são literalmente astronômicas. Para citar The Economist mais uma vez: "em pouco mais de três semanas o governo da América, como foi dito, expandiu seu passivo bruto em mais de US$1 milhão de milhões – quase o dobro do custo da guerra do Iraque até agora"[2] "Bancos americanos e europeus perderão cerca de US$10 milhões de milhões".[3] "Mas a história ensina uma lição importante: que as grandes crises bancárias são essencialmente resolvidas pelo lançamento de grandes blocos de dinheiro público"[4].

Dezenas de milhões de milhões de dinheiro público "dado", e justificado em nome da alegada "importante lição da história", e naturalmente ao serviço da incontestável boa causa de salvar o sistema, isto é certamente um bloco muito grande. Nenhum vendedor ambulante de gelados poderia alguma vez sonhar com tais blocos. E se acrescentarmos àquela grandeza o facto citado na mesma página da revista de Londres, que só no decorrer do ano passado "o índice de preços dos alimentos de The Economist saltou aproximadamente 55%"[5] e "A alta dos preços dos alimentos no fim de 2007 e princípio de 2008 provocou tumultos em uns 30 países"[6], nesse caso o bloco em causa torna-se ainda mais revelador quanto à natureza do sistema que agora se encontra, ele próprio, numa crise sempre a aprofundar-se.

Pode alguém pensar numa maior acusação para um sistema de produção económica e reprodução social pretensamente inultrapassável do que esta de que– no máximo do seu poder produtivo – está a produzir uma crise alimentar global, e o sofrimento dos incontáveis milhões inseparáveis disto por todo o mundo? Esta é a natureza do sistema que se espera salvar agora a todo custo, incluindo a actual "repartição" do seu custo astronómico.

Como pode alguém ter algum senso tangível de todos os milhões de milhões desperdiçados? Uma vez que estamos a falar acerca de grandezasastronómicas, pus esta pergunta a um amigo que é professor de Astrofísica na Universidade de Londres. A sua resposta foi que eu deveria assinalar que um milhão de milhões (trillion) apenas é aproximadamente uma centena de vezes a idade do nosso universo. Agora, na escala da mesma grandeza, o número oficial habitualmente subestimado da dívida americana, por si própria, monta nos nossos dias a mais de 10 milhões de milhões. Isto é, um milhar de vezes a idade do nosso universo.

Mas deixem-me citar-vos um curto trecho de uma publicação japonesa. Lê-se isto:

"Quanto dinheiro especulativo está a movimentar-se pelo mundo? Segundo uma análise da Mitsubishi UFJ Securities, a dimensão da "economia real" global, na qual bens e serviços são produzidos e comercializados, é estimada em US$48,1 milhões de milhões... Por outro lado, a dimensão da 'economia financeira' global, o montante total de acções, títulos e depósitos, eleva-se a US$151,8 milhões de milhões. Portanto, a economia financeira inchou mais de três vezes relativamente à dimensão da economia real, crescendo rapidamente durante as últimas duas décadas. O fosso é tão grande quanto US$100 milhões de milhões. Um analista envolvido nesta estimativa disse que cerca da metade deste montante, US$50 milhões de milhões, mal é necessário para a economia real. Cinquenta milhões de milhões de dólares valem bem mais de 5000 milhões de milhões de yen, um número demasiado grande para eu realmente compreender". [7]

Na verdade é mesmo muito difícil compreender, quanto mais justificar, como fazem os nossos políticos e banqueiros apologistas do capital, as somas astronómicas de especulação parasitária acumulada numa grandeza correspondente a 500 mil vezes a idade do nosso universo. Se quiser uma outra medida sobre a grandeza em causa, imagine apenas um infeliz contabilista dos tempos romanos, a quem fosse pedido nada mais do que simplesmente escrever no seu quadro negro o número de 5000 milhões de milhões de yen em algarismos romanos. Ele cairia em desespero total. Simplesmente não poderia fazer isso. E mesmo que tivesse à sua disposição algarismos arábicos, os quais não poderia ter tido, mesmo neste caso precisaria 17 zeros após o número 5 a fim de registar a cifra em causa.

O perturbante, contudo, é que os nossos políticos e banqueiros endinheirados parecem pensar apenas nos zeros, e não nas suas ligações substantivas, quando apresentam estes problemas para consumo público. E esta abordagem provavelmente não pode funcionar indefinidamente. Pois é preciso muito mais do que zeros para escapar do buraco sem fundo do endividamento global a que estamos condenados pelo sistema que eles agora querem salvar a todo custo.

Na realidade, a recente popularidade de Gordon Brown tem uma grande relação com zeros em mais de uma forma. A sua espantosa nova popularidade – que, bem pensado, pode acabar por ser um tanto efémera – foi demonstrada na semana passada pela manchete de primeira página: "From Zero to Hero" ("De zero a herói"). O artigo em questão sugeria que o nosso primeiro-ministro realmente teve êxito em "salvar o sistema". Aqui está como ele ganhou a grande aclamação.

NACIONALIZAÇÃO DA BANCARROTA CAPITALISTA

A razão porque ele foi louvado desse modo, como um herói, foi ter inventado uma nova variedade de nacionalização da bancarrota capitalista, a ser adoptada com imperturbável "consciência de mercado livre" também por outros países. Aquilo fez até mesmo com que George W. Bush se sentisse menos culpado por actuar contra o seu auto-proclamado "instinto apaixonado" quando nacionalizou um enorme "bloco" da bancarrota capitalista estado-unidenses do qual um único ítem – os passivos das companhias hipotecárias gigantes Fannie Mae e Freddie Mac – montavam a 5,4 milhões de milhões de dólares (o que quer dizer, a soma necessária para 54 anos de execução da guerra do Iraque).

A "novidade pragmática" – oposta "ao dogma e à política" nas palavras de The Economist – da recente nacionalização da bancarrota capitalista pelo "New Labour" é que os contribuintes obtiveram absolutamente nada (por outras palavras, zero-zero-zero quantas vezes queira escrever, mesmo dezassete vezes) pelas imensas somas de dinheiro investido em activos capitalistas fracassados, incluindo nossos bancos britânicos nacionalizados a dois terços. Esta espécie de nacionalização da bancarrota capitalista é algo diferente das versões anteriores, instituídas após a Segunda Guerra Mundial quando a "Cláusula 4" do Partido Trabalhista – a advogar o controle público dos meios de produção – ainda fazia parte da sua Constituição. Pois em 1945 os nacionalizados sectores em bancarrota da economia capitalista foram transferidos para o controle do Estado, e enquanto durou foram generosamente engordados outra vez a partir da tributação geral com o objectivo da adequada "privatização" no devido momento.

Mesmo a nacionalização da Rolls Royce Company em 1971, sob o primeiro-ministro conservador Edward Heath, seguiu o mesmo padrão embaraçoso de nacionalização abertamente admitida e controlada pelo Estado. Nos nossos dias, contudo, a beleza da solução de Gordon Brown é que remove o embaraçoenquanto multiplica muitas vezes os milhares de milhões desperdiçados ao investir na bancarrota capitalista. Certamente ele merece plenamente a sua promoção de "De zero a herói" bem como o máximo louvor de "Salvador do mundo" que lhe foi conferida por alguns outros jornais, devido à sua grande modéstia de ficar satisfeito com o zero absoluto em troca dos nossos – não dos seus – milhares de milhões generosamente dispensados. Mas poderá esta espécie de remédio governamental ser considerada uma solução perdurável para os nossos problemas mesmo em termos de curto prazo, para não mencionar a sua necessária sustentabilidade a longo prazo? Só os loucos poderiam acreditar nisso.

Na verdade, a recentes medidas adoptadas pelas nossas autoridades políticas e financeiras apenas atenderam a um único aspecto da crise actual: a liquidezdos bancos, das companhias de hipotecas e de seguros. E mesmo isso só numa extensão muito limitada. Na realidade as enormes "dádivas de blocos" não representam senão o pagamento dos depósitos, por assim dizer. Muito mais será necessário também quanto a isto no futuro, como as perturbações ainda em desdobramento no mundo dos mercados de acções continuam a enfatizar.

Contudo, bem além do problema da liquidez , uma outra dimensão apenas da crise financeira refere-se à quase catastrófica insolvência dos bancos e das companhias de seguros. Este facto torna-se claro quando os seus passivos assumidos especulativamente e irresponsavelmente, mas nem por isso menos existentes, são realmente levados em conta. Para dar apenas um exemplo: dois dos nossos grandes bancos na Grã-Bretanha têm passivos que montam aUS$2,4 milhões de milhões cada um, adquiridos sob a suposição aventureira de que eles nunca terão de ser cumpridos. Pode o estado capitalista salvá-los com êxito com passivo dessa dimensão? Onde poderia o estado pedir dinheiro emprestado com essa grandeza para a operação de resgate necessária para tal finalidade? E o que seriam as necessárias consequências inflacionárias de "repartir tais blocos" da operação de resgate verdadeiramente gigantesca ao simplesmente imprimir o dinheiro requerido na ausência de outras soluções?

Além disso, os problemas não se esgotam de modo algum no perigoso estado do sector financeiro. Pois de modo ainda mais intratável, também os sectores produtivos da indústria capitalista estão com sérios problemas, pouco importando quão altamente desenvolvida e favorecida eles possam parecer estar através da sua posição de vantagem competitiva na hierarquia global do capital transnacional. Devido ao nosso tempo limitado, devo limitar-me a um exemplo, mas muito significativo. Refere-se à indústria automóvel dos Estados Unidos, grandemente humilhada nos últimos anos, apesar de todos os subsídios recebidos do mais poderoso estado capitalista no passado, que se contam em muitos milhares de milhões de dólares.

Deixem-me citar de um artigo publicado sobre a Ford Corporation e suas fantasias globalizantes em 1994, publicado no The Sunday Times. Foi assim que os nossos distintos jornalistas financeiros pintaram naqueles tempos a sua rósea pintura:


"A globalização plena está a ser tentada pelas multinacionais ... 'Isto é definitivamente o bébé de Trotman, disse uma fonte americana. 'Ele tem uma visão do futuro, a qual diz que, para ser um vencedor global, a Ford deve ser uma corporação verdadeiramente global". Segundo Trotman, que disse a The Sunday Times em Outubro de 1993, "Como a competição automotiva se torna mais global ao entrarmos no próximo século, a pressão para descobrir economias de escala tornar-se-á cada vez maior. Se, ao invés de fazer dois motores de 500 mil unidades cada um, pudermos fazer um milhão de unidades, então os custos são muito mais baixos. Em última análise haverá um punhado de actores globais e o resto não estará ali ou estarão a lutar para sobreviver'. Trotman e seus colegas concluíram que a plena globalização é o caminho para bater competidores como os japoneses e, na Europa, o arqui-rival da Ford, a General Motors, a qual mantém uma vantagem de custo sobre a Ford. A Ford também acredita que precisa da globalização para capitalizar em mercados emergentes no Extremo Oriente e na América Latina". [8]

Portanto, a "única" coisa que Alex Trotman – o britânico que era presidente da Ford Corporation naquele tempo – se esqueceu de considerar, apesar da sua impecável qualificação aritmética de saber a diferença entre 500 mil e 1 milhão, foi isto: o que acontece quando não podem vender o 1 milhão (e muitas vezes mais) motores de carros, apesar da estrategicamente contemplada e desfrutada vantagem de custo. No caso da Ford Corporation, mesmo a maciça taxa de exploração diferencial que a companhia podia impor à escala mundial como enorme companhia transnacional – isto é, pagar por exactamente o mesmo trabalho 25 vezes menos aos trabalhadores da "Ford Philippines Corporation", por exemplo, do que à sua força de trabalho nos Estados Unidos da América – mesmo esta vantagem inquestionável não podia ser considerada suficiente para assegurar uma saída desta contradição fundamental.

É aqui que estamos hoje, não só no caso da gravemente humilhada Ford Corporation como também no da General Motors, independentemente da sua vantagem de custo outrora profundamente invejada até pela Ford Corporation dos Estados Unidos.

Ao falar acerca de um acordo recentemente estabelecido que proporciona subsídios do estado americano às companhias gigantes de automóveis do país, eis como a infeliz situação actual da indústria automobilística estado-unidense é descrita num dos últimos números de The Economist: "o acordo significa que as companhias de automóveis – abençoadas com a garantia do governo – deveriam obter empréstimos com uma taxa de juro de cerca de 5% ao invés dos 15% que enfrentariam no mercado aberto nas condições de hoje". [9]

Contudo, nenhum montante de subsídio de qualquer espécie pode ser considerado suficientemente satisfatório, porque as "Três grandes" – General Motors, Ford e Chrysler – estão à beira da bancarrota, apesar do facto do bébé de sonho de Trotsman ser agora um adolescente plenamente desenvolvido. Portanto The Economist deve admitir que

"A partir do momento em que subsídios industriais como este começam a fluir, é difícil pará-los. Um estudo recente do Cato Institute, um think-tank de extrema direita, descobriu que o governo federal gastou cerca de US$92 mil milhões a subsidiar negócios só em 2006. Deste total, apenas US$21 mil milhões foram para agricultores, grande parte do resto foi para empresas como a Boeing, a IBM e a General Electric na forma de apoio de crédito à exportação e vários subsídios de investigação. 
Os Três grandes já se queixam de que levará demasiado tempo repartir o dinheiro [do estado], e querem acelerar o processo. Também querem outros US$25 mil milhões, possivelmente ligados à segunda versão da lei de resgate da Wall Street. A lógica do salvamento da Wall Street é que as finanças servem de base para tudo. Detroit não pode começar a fazer tal reivindicação. Mas, se o seu lobbying tiver êxito, será que demorará muito para que companhias de aviação aflitas e retalhistas fracassados se juntem à fila?" [10]

A imensa expansão especulativa do aventureirismo financeiro, especialmente nas últimas três ou quatro décadas, é naturalmente inseparável doaprofundamento da crise dos ramos produtivos da indústria e as resultantes perturbações que se levantam com a absolutamente letárgica acumulação de capital (e na verdade acumulação fracassada) naquele campo produtivo da actividade económica. Agora, inevitavelmente, também no domínio da produção industrial a crise está a ficar muito pior.

Naturalmente, a consequência necessária da crise sempre em aprofundamento nos ramos produtivos da "economia real", como eles agora começam a chamá-la e a contrastar a economia produtiva com o aventureirismo especulativo financeiro, é o crescimento do desemprego por toda a parte numa escala assustadora, e a miséria humana a ele associada. Esperar uma solução feliz para estes problemas vinda das operações de resgate do estado capitalista seria uma grande ilusão.

Este é o contexto em que os nossos políticos deveriam realmente começar a prestar atenção à afirmada "importante lição da história", ao invés de "distribuir grandes blocos de dinheiro público" sob a pretensa "lição da história". Pois como resultado do desenvolvimento histórico sob a regra do capital na sua crise estrutural, na nossa própria época atingimos o ponto em que devemos ser sujeitos ao impacto destrutivo de uma sempre a piorar simbiose entre a estrutura legislativa do estado da nossa sociedade e o material produtivo bem como da dimensão financeira da ordem reprodutiva societária estabelecida.

Compreensivelmente, aquele relacionamento simbiótico pode ser, e frequentemente também acontece ser, administrado com práticas absolutamente corruptas pelas personificações privilegiadas do capital, tanto nos negócios como na política. Pois, não importa quão corruptas possam ser tais práticas, elas estão plenamente em sintonia com os contra-valores institucionalizados da ordem estabelecida. E – dentro da estrutura da simbiose prevalecente entre o campo económico e as práticas políticas dominantes – eles são legalmente bastante permissíveis, graças ao mais dúbio e muitas vezes mesmo claramente anti-democrático papel facilitador da selva legislativa impenetrável proporcionada pelo estado também no domínio financeiro.

A fraudulência, numa grande variedade das suas formas práticas, é a normalidade do capital. As suas manifestações extremamente destrutivas não estão de modo algum confinadas à operação do complexo militar-industrial. Nesta altura o papel directo do estado capitalista no mundo parasitário das finanças é não só fundamentalmente importante, em vista da sua grandeza que tudo permeia, como tivemos de descobrir com chocante clareza durante as últimas semanas, mas também potencialmente catastrófico.

O facto embaraçoso é que companhias hipotecárias gigantes dos EUA, como a Fannie Mae e o Freddie Mac, foram corruptamente apoiadas e generosamente abastecidas com garantias altamente lucrativas mas totalmente imerecidas pela selva legislativa do Estado americano em primeiro lugar, bem como através de serviços pessoais de corrupção política não punida. Na verdade, a cada vez mais densa selva legislativa do estado capitalista passa por ser o legitimador "democrático" da fraudulência institucionalizada nas nossas sociedades. Os editores e jornalistas de The Economist estão de facto perfeitamente familiarizados com as práticas corruptas pelas quais, no caso das companhias hipotecárias gigantes americanas, receberam do seu estado tratamento descaradamente preferencial [aqui cito The Economist ]

"permitiu à Fannie e ao Freddie operarem com minúsculos montantes de capital. Os dois grupos tinham núcleos de capital (como definido pelo seu regulador) de US$83,2 mil milhões no fim de 2007, isto suportava US$5,2 milhões de milhões de dívidas e garantias, um rácio de alavancagem de 65 para um. [!!!] Segundo a CreditSights, um grupo de investigação, a Fannie e o Freddie foram contrapartes em valores de US$2,3 milhões de milhões de transacções com derivativos, relacionadas com as suas actividades de hedging. Nunca seria permitido a um banco privado ter um balanço tão altamente alavancado,[11] nem isto o qualificaria para a máxima classificação de crédito AAA. ... Eles utilizaram o seu financiamento barato na compra de ativos de rendimento mais alto.[12]

[Além disso,] Com tanto em jogo, não é de admirar que as companhias tenham construído uma formidável máquina de lobbying. Foram dados empregos a ex-políticos. Os críticos podiam esperar uma cavalgada robusta. As companhias não temiam morder as mãos que as alimentavam".[13]

Não temer "morder as mãos que as alimentavam" refere-se, naturalmente, ao corpo legislativo do estado americano. Mas por que deveriam elas ter medo? Pois companhias tão gigantescas constituem uma simbiose total com o estado capitalista. Isto é um relacionamento que corruptamente se reafirma também em termos do pessoal envolvido, através do acto de contratar políticos que poderiam servi-los preferencialmente, com um impressionante "rácio de alavancagem de 65 para um" e a associada classificação de crédito AAA, mesmo de acordo com a relutante confissão de The Economist.

A gravidade da presente situação é sublinhada de um modo característico pela circunstância relatada nestas palavras por The Economist: " traders no mercado de credit-default swaps recentemente começaram a fazer apostas sobre o impensável: que a América pode incumprir a sua dívida " [14]. Naturalmente, os referidos traders reagem mesmo a eventos de tal carácter e gravidade como os que experimentamos hoje da única maneira possível: a espremer lucro disto.

O INCUMPRIMENTO DOS EUA NÃO É IMPENSÁVEL

O grande problema para o sistema capitalista global é, contudo, que o incumprimento da América não é de todo impensável. Pelo contrário, ele é – e tem sido desde há muito – uma certeza que se aproxima. Foi por isso que escrevi há muitos anos (em 1995, para ser preciso que:

"Num mundo de insegurança financeira nada se adequa melhor à prática de jogar com somas astronómicas e criminosamente não seguradas nas bolsas de valores do mundo – prenunciando um tremor de terra de magnitude 9 ou 10 na "Escala de Richter" Financeira – do que chamar as empresas que se dedicam a tais jogos " Securities Management"; ... Quando exactamente e de que forma – pode haver muitas variedades, mais ou menos brutais – os EUA incumprirão a sua dívida astronómica não se pode ver neste momento. Só pode haver duas certezas a este respeito. A primeira é que a inevitabilidade do incumprimento americano afectará profundamente toda a gente neste planeta. E a segunda, que a posição de potência hegemónica preponderante dos EUA continuará a ser afirmada de todas as formas, de modo a fazer o resto do mundo pagar pela dívida americana por tanto tempo quanto seja capaz de fazê-lo". [15]

Naturalmente, a condição agravada de hoje é que o resto do mundo – mesmo com a historicamente muito irónica maciça contribuição chinesa para a balança do Tesouro americano – é cada vez menos capaz de preencher o "buraco negro" produzido numa escala sempre crescente pelo insaciável apetite da América por financiamento da dívida, como demonstrado pelas repercussões globais da recente crise hipotecária e bancária dos EUA. Esta circunstância traz o necessário incumprimento da América, numa das "variedades mais ou menos brutais", para muito mais perto.

A verdade desta matéria perturbante é que pode não haver caminho de saída para estas contradições finalmente suicidas, as quais são inseparáveis doimperativo da infindável expansão do capital, independentemente das consequências – arbitrária e mistificadoramente confundido com crescimento como tal– sem mudar radicalmente o nosso modo de reprodução social metabólico através da adopção de práticas responsáveis e racionais muito necessárias da única economia viável, [16] orientada pela necessidade humana, ao invés do alienante, desumanizante e degradante lucro.

É aqui que o obstáculo esmagador das interdeterminações em causa própria do capital devem ser confrontadas, não importa quão difícil isto deva ser sob as condições prevalecentes. Pois a absolutamente necessária adopção e o apropriado desenvolvimento futuro da única economia viável é inconcebível sem a transformação radical da própria ordem socioeconómica e política estabelecida.

Gordon Brown recentemente exprimiu o seu desgosto acerca do "capitalismo sem peias", em nome da totalmente não especificada "regulação". Você pode recordar que Gorbachev, também, queria uma espécie de capitalismo regulado, sob o nome de "socialismo de mercado", e também deve saber o que lhe aconteceu e à sua grotesca fantasia. Por outro lado, na expressão do primeiro-ministro conservador britânico Edward Heath, há muito tempo atrás, o mesmo pecado do "capitalismo sem restrições" era "a face inaceitável do capitalismo". E apesar disso, o "capitalismo sem peias", apesar da sua "face inaceitável", permaneceu todas estas décadas não só "aceitável" como – no decorrer do seu novo desenvolvimento – tornou-se muito pior. Pois o fundamento causal dos nossos problemas cada vez mais sérios não é a "face inaceitável do capitalismo não regulamentado" mas a sua substância destrutiva. É aquela substância opressora que deve resistir e anular todos os esforços destinados a restringir o sistema do capital mesmo minimamente – como, na verdade, realmente se verificou ao efectuar isso também na forma de metamorfose, na Grã-Bretanha, do [partido] social-democrata "Old Labour" no neoliberal "New Labour". Consequentemente, a fantasia periodicamente renovada de regular o capitalismo de um modo estruturalmente significativo só pode resultar numa tentativa de dar nós nos ventos.

Mas a última coisa de que hoje precisamos é de continuar a dar nós nos ventos, quando temos de enfrentar a gravidade da crise estrutural do capital, a qual exige a instituição de uma mudança sistémica radical. É revelador do carácter incorrigível do sistema do capital que mesmo num momento como este, quando a imensa grandeza da crise em desdobramento já não pode mais ser negada pelos mais devotos apologistas ex officio do sistema – uma crise descrita há poucos dias por nada menos que o vice-governador do Banco da Inglaterra como a maior crise económica em toda a história humana – e nada pode ser contemplado, para não dizer realmente feito, a fim de mudar os defeitos fundamentais de uma ordem reprodutiva societária cada vez mais destrutiva por parte daqueles que controlam as alavancas económicas e políticas da nossa sociedade.

Em contraste com a recente iluminação do seu próprio vice, o governador do Banco da Inglaterra, Mervyn King, não tinha quaisquer reservas acerca da saúde do acarinhado sistema capitalista, nem teve ele a mínima antecipação de uma crise a chegar quando louvou aos céus o livro de Martin Wolf, apologético do capital, com o seu auto-complacente e peremptoriamente assertivo título: Porque a globalização funciona. Ele considerou aquele livro "uma devastadora crítica intelectual dos oponentes da globalização" e uma "civilizada, sábia e optimista visão do nosso futuro económico e político". [17] Agora, contudo, todos são forçados a terem pelo menos alguma preocupação acerca da verdadeira natureza e das necessárias consequências destrutivas da dogmaticamente saudada globalização capitalista.

Naturalmente, a minha própria atitude para com o livro de Wolf foi muito diferente daquela de Mervyn King e outros que partilhavam os mesmos interesses. Comentei na altura da sua publicação que

"o autor, que é o Comentador Chefe de Ciência Econômica do Financial Times de Londres, esquece-se de colocar a questão realmente importante: Para quem ele funciona?, se é que funciona. Ele certamente funciona, por enquanto, e de forma alguma tão bem, para os decisores do capital transnacional, mas não para a esmagadora maioria da espécie humana que deve sofrer as consequências. E nenhuma quantidade da "integração jurisdicional" advogada pelo autor – isto é, em bom inglês, o controle direto mais apertado dos "demasiados estados" deplorados por um punhado de potências imperialistas, especialmente a maior delas – vai conseguir remediar a situação. A globalização capitalista na realidade não funciona e não pode funcionar. Pois ela não pode ultrapassar as contradições irreconciliáveis e os antagonismos manifestos da crise global estrutural do sistema. A própria globalização capitalista é a manifestação contraditória daquela crise, tentando subverter o relacionamento causa/efeito numa vã tentativa de curar alguns efeitos negativos por outros efeitos desejados que projeta, porque é estruturalmente incapaz de tratar das suas causas".[18]

Neste sentido, as recentes tentativas de conter os sintomas da crise que se intensificam, pela cinicamente camuflada nacionalização de grandezas astronómicas da bancarrota capitalista, através dos recursos do estado ainda a serem inventados, só poderia sublinhar as determinações causais antagónicas profundamente enraizadas da destrutividade do sistema capitalista. Pois o que está fundamentalmente em causa hoje não é simplesmente uma crise financeira maciça mas o potencial de auto-destruição da humanidade neste momento do desenvolvimento histórico, tanto militarmente como através da destruição em curso da natureza.

Apesar da manipulação concertada de taxas de juro e das recentes cimeiras ocas dos países capitalistas dominantes, nada foi perduravelmente alcançado com o "lançamento de gigantescos blocos de dinheiro" no buraco sem fundo do "esmagado" mercado financeiro global. A "resposta global abrangente para o fosso da confiança", como o desejo projectado de The Economist e dos seus mestres, pertence ao mundo da (não tão pura) fantasia. Pois um dos maiores fracassos históricos do capital, como o há muito estabelecido modo de controle social metabólico, é a contínua predominância dos estados-naçãopotencialmente mais agressivos, e a impossibilidade de instituir o estado do sistema do capital como tal na base dos antagonismos estruturalmente arraigados do sistema do capital.

Imaginar que dentro da estrutura de tais determinações causais antagonistas possa ser encontrada uma solução harmoniosa permanente para o aprofundamento da crise estrutural de um sistema de produção e de trocas mais iníquo – o qual está agora empenhado activamente em produzir mesmo uma crise alimentar global, por cima de todas as suas outras contradições gritantes, incluindo a sempre mais difusa destruição da natureza –, sem mesmo tentar remediar suas miseráveis iniquidades, é a pior espécie de pensamento ilusório, beirando a irracionalidade total. Pois, auto-contraditoriamente, ele quer reter a ordem existente apesar das suas necessárias iniquidades explosivas e antagonismos. E a chamada "integração jurisdicional dos estados em demasia" sob uns poucos auto-indicados, ou um, como advogado por alguns apologistas do capital, pode apenas sugerir a – igualmente auto-contraditória – permanência da potencialmente suicida dominação imperialista global.

Eis porque Marx é mais relevante hoje do que alguma vez já o foi. Pois apenas uma mudança sistémica radical pode proporcionar a esperança historicamente sustentável e a solução para o futuro.

Notas

[1] Todas estas citações foram retiradas do mesmo editorial de The Economist, 11/Outubro/2008, p. 13.
[2] The Economist, 11 October 2008, special section, p. 3.
[3] Ibid.
[4] Ibid., p. 4.
[5] Ibid.
[6] Ibid., p. 6.
[7] Shii Kazuo in Japan Press Weekly, Special Issue, October 2008, p. 20.
[8] "Ford prepares for global revolution", by Andrew Lorenz and Jeff Randall. The Sunday Times, 27 March 1994, Section 3, p. 1.
[9] "A bail-out that passed. In the slipstream of Wall'street's woes, the Big Three land a huge subsidy." The Economist, October 4th, 2008, p. 82.
[10] Ibid., p. 83.
[11] A Lehman Brothers, um dos principais private merchant banks, tem um rácio de alavancagem de 30 para 1. Isso é bastante mau.
[12] "Fannie Mae and Freddie Mac: End of illusions" , The Economist, July 19-25, 2008, p. 84.
[13] "A brief family history: Toxic fudge" , The Economist, July 19-25, 2008, p. 84.
[14] "Fannie Mae and Freddie Mac: End of illusions", The Economist, July 19-25, 2008, p. 85.
[15] "The Present Crisis", quoted from Part IV. of Beyond Capital (published in London in 1995), pp.962-3. (In Spanish in Más allá del capital, Vadell Hermanos Editores , Caracas, 2001, pp. 1111-12.)
[16] Ver a este respeito: "Qualitative Growth in Utilization: The Only Viable Economy", Secção 9.5 do meu livro, The Challenge and Burden of Historical Time , Monthly Review Press, New York, 2008, pp. 272-93. (Publicado in Herramienta, Numbers 36 and 37.)
[17] Mervyn King's endorsement, on the back cover of Martin Wolf's book, Why Globalization Works , Yale University Press, 2004.
[18] In "Education - Beyond Capital", Opening Lecture delivered at the Fórum Mundial de Educação, Porto Alegre, July 28, 2004. In Spanish reprinted in La educación más allá del capital , Siglo Veintiuno Editores / Clacso Coediciones, Rio de Janeiro, 2008. Ver também o capítulo: "Why Capitalist Globalization Cannot Work?" no meu livro, The Challenge and Burden of Historical Time, Monthly Review Press, New York, 2008, pp. 380-398; Spanish edition: El desafío y la carga del tiempo histórico, Vadell Hermanos Editores / Clacso Coediciónes, Caracas, 2008, pp. 371-389.