22 de março de 2009

Estamos realmente diante do fim do Neoliberalismo?

A crise e a consolidação do poder das classes dominantes

David Harvey

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Marca esta crise o fim do neoliberalismo? Acho que depende do que se entende como liberalismo. Na minha interpretação, o neoliberalismo foi um projeto de classe camuflado sob uma proteica retórica sobre a liberdade individual, o alvedrio, a responsabilidade pessoal, a privatização e o livre mercado.Mas essa retórica não é senão um meio para a restauração e a consolidação do poder de classe e neste sentido, o projeto neoliberal tem sido um sucesso.

Um dos princípios básicos que foram sentados na década de 1970 foi que o poder do estado tinha que proteger as instituições financeiras, custe o que custa. Este princípio foi colocado por obra da crise de Nova York da década de 1970 e internacionalmente foi definido pela primeira vez quando o espectro da falência pairou sobre o México, em 1982. Isso teria destruído os bancos de investimento de Nova York, para que o FMI e o tesouro dos EUA agiram juntos no resgate do México. Mas, ao fazê-lo, impuseram um programa de austeridade à população mexicana. Em outras palavras, eles protegeram os bancos e destruíram as pessoas; outra não tem sido a prática regular do FMI desde então. Este resgate é a mesma velha história, mais uma vez, só que numa escala ciclópica.

O que aconteceu nos Estados Unidos foi que 8 homens nos deram um documento de 3 páginas por meio de arma apontando-na a todos: "Dê-nos US$ 700 bilhões e não se fala mais nisso". Para mim isso foi uma espécie de golpe financeiro contra o Estado e contra o povo americano. O que significa que você não vai sair desta crise com a crise da classe capitalista; se sairá dela com uma consolidação ainda maior dessa classe. Terminará havendo 4 ou 5 grandes instituições financeiras nos Estados Unidos, não mais. Muitos em Wall Street já estão prosperando agora. Lazard´s, às custas de sua especialização em fusões e aquisições, por causa de sua experiência em fusões e aquisições, está ganhando dinheiro em cestas. Alguns não vão escapar a queima, mas haverá uma consolidação do poder financeiro. Andrew Mellon - banqueiro americano, Secretário do tesouro em 1921-32- deixou estupendamente dito que em uma crise de ativos sempre acabam retornando aos seus legítimos proprietários. Uma crise financeira é uma maneira de racionalizar o que é irracional: por exemplo, a imensa queda asiática de 1997-8 resultou em um novo modelo de desenvolvimento capitalista. Grandes alterações levam a uma reconfiguração, uma nova forma de poder de classe. Isso poderia dar errado, politicamente falando. O resgate do banco tem sido resistido no Senado e em outros lugares, então é possível que a classe política não seja tão facilmente alinhada: pode colocar obstáculos no caminho, mas, até agora, eles tem engolido e não tem nacionalizado os bancos.

No entanto, isto poderia levar a uma maior luta política: uma vigorosa resistência é percebida para dar mais poder aos que nos meteram nesta confusão. A eleição da equipe econômica de Obama está sendo desafiado; por exemplo, a de Larry Summers, que foi secretário do tesouro no momento chave em que as coisas começaram a ir realmente mal, no final da administração Clinton. Porque dar encargos para tantas pessoas favoráveis para Wall Street, o capital financeiro, que reintroduziu a dominância do capital financeiro? Isso não significa que eles não irão redesenhar a arquitetura financeira, porque eles sabem que seu redesenho é inevitável, mas a pergunta é: por que redesenharam isso? As pessoas estão muito infelizes com a equipe econômica de Obama; também o grosso da imprensa.

Requer-se uma nova forma de arquitetura financeira. Não acho que devam ser abolidas todas as instituições existentes; Não,desde logo, O Banco Internacional de Pagos (BIS, pela sigla em inglês), nem sequer o FMI. Acho que precisamos destas instituições, mas elas têm que se transformar radicalmente.A grande questão é: quem vai controlá-lzs e qual será a sua arquitetura. Precisamos de pessoas, especialistas com alguma inteligência na forma em que essas instituições operam e podem operar. E isso é muito perigoso, porque como podemos ver já agora, quando o estado pede para alguém que entenda o que está acontecendo, você costuma olhar para Wall Street.

Um movimento trabalhista enorme: até aqui temos chegado

Que possamos sair desta crise por outros meios, depende e muito do equilíbrio de poder entre as classes sociais. Depende em que medida a população diz: "aqui estamos; precisa mudar o sistema!". Agora mesmo, quando você olhar em retrospectiva o que aconteceu aos trabalhadores nos últimos 50 anos, é que não tem praticamente nada deste sistema. Mas eles não se rebelaram. Nos últimos 7 ou 8 anos nos Estados Unidos, se deteriorou a condição das classes trabalhadoras em geral, e um movimento de resistência não foi dado. Capitalismo financeiro pode sobreviver à crise, mas isso depende completamente de que se produza uma revolta popular contra o que está acontecendo, e que existe uma real investida visando reconfigurar o modo de funcionamento da economia.

Um dos maiores obstáculos para ser atravessado no caminho da acumulação de capital foi, nos anos 60 e começo dos 70, o fator de trabalho. Havia escassez de trabalho, tanto na Europa como nos Estados Unidos, e o mundo do trabalho estava bem organizado, com influência política. De modo, pois, que um grande problema para a acumulação de capital nesse período foi: como pode lograr o capital ter acesso a mão-de-obra mais barata e mais dócil? Tinha várias respostas. Uma passava por estimular a imigração. Nos Estados Unidos foram revistos leis de imigração, em 1965, permitindo-lhes acesso ao excedente populacional do mundo (antes disso, só erar favorecido migratoriamente brancos e europeus). No final da década de 1960, o governo francês subsidiou a importação de mão de obra do Magrebe, os alemães trouxeram turcos, os suecos importaram iugoslavos e os britânicos tiravam de seu império. Então apareceu uma política pró-imigração, que era uma maneira de lidar com o problema.

Outra maneira foi a rápida evolução tecnológica, que verifica as pessoas que trabalham, e se isso falhar, havia pessoas como Reagan, Thatcher e Pinochet para esmagar o trabalho organizado. Finalmente e através da deslocalização, os movimentos de capitais para onde há trabalho excedente. Isso foi facilitado por duas coisas. Primeiro, os sistemas técnicos de reorganização do transporte: uma das maiores revoluções que ocorreram durante esse período foi o do recipientes, permitindo a fabricação de auto peças no Brasil e enviá-las para Detroit, ou onde o baixo custo para fora. Em segundo lugar, os novos sistemas de comunicação permitiu uma organização mais apertada no momento da cadeia de produção de mercadorias através do espaço global.

Todas essas rotas destinam-se a resolver para o capital o problema da escassez de trabalho, de modo que que até 1985 o capital tinha deixado de ter problemas a respeito. Poderia ter problemas específicos em determinadas áreas, mas, no geral, tinha trabalho disponível abundante; o subitâneo colapso da União Soviética e a transformação de grande parte da China veio adicionar para perto de 2 bilhões de pessoas ao proletariado global no pequeno espaço de 20 anos. Assim, a disponibilidade de trabalho hoje não representa nenhum problema, e o resultado disso é que o mundo do trabalho tem ido a uma situação de indefensa nos últimos 30 anos. Mas quando o trabalho está desarmado, recebem salários baixos, e se insistir em atrasar salários limita os mercados. Então o capital começou a ter problemas com seus mercados. E duas coisas aconteceram.

A primeiro: o crescente hiato entre o rendimento do trabalho e o que os trabalhadores gastavam começou a ser salvo através da ascensão da indústria de cartão de crédito e o crescente endividamento das famílias. Então, nos Estados Unidos em 1980, temos que a média de dívida doméstica foi em torno de US$40.000 , enquanto agora é cerca de US$130.000 por agregado familiar [constante], incluindo hipotecas. A dívida doméstica subiu, e isso leva-nos para o financeirização, que tem a ver com as instituições financeiras lançadas para sustentar as dívidas das famílias de trabalhadores, cujos ganhos pararam de crescer. E começa pela classe trabalhadora respeitável, mas mais ou menos por 2000 você começa a encontrar já com hipoteca subprime em circulação. Busca criar um mercado. De modo que as instituições financeiras se apressam a sustentar o financiamento da dívida de pessoas praticamente sem renda. Mas, caso contrário, o que ocorreria com os promotores imobiliários que constroem moradias? Assim, se fez, e se buscou estabilizar o mercado pelo financiamento da dívida.

A crise dos valores de ativos

A segunda coisa que aconteceu foi que, desde 1980, os ricos foram ficando cada vez mais ricos devido a supressão do salário. A história que nos é contada é que eles vão investir em novas atividades, mas não fizeram; a maior parte dos ricos começou a investir em ativos, ou seja, colocar seu dinheiro no mercado acionário. Assim, as bolhas foram geradas nos mercados acionários. É um sistema semelhante da esquema Ponzi, mas sem necessidade de que o organize um Madoff. Os ricos puxam por valores de ativos, incluindo ações, imóveis e propriedades de lazer, bem como no mercado de arte.Estes investimentos trazem financeirização. Mas, à medida que você oferece valores de ativos, isso repercute no conjunto da economia, de modo que viver em Manhattan tornou-se absolutamente impossível, a menos que endivide-se incrivelmente, e todo mundo está envolto nesta inflação dos valores de ativos, incluindo a classe trabalhadora, cujo rendimento não cresce. E o que temos agora é um colapso de valores de ativos; o mercado imobiliário entrou em colapso, o mercado acionário despencou.

Sempre tem havido o problema da relação entre representação e realidade. A dívida tem a ver com o valor futuro que se supõe a bens e serviços, de modo que se supõe que a economia continuará a crescer nos próximos 20 ou 30 anos. Envolve sempre um palpite, uma conjectura de Tácito, que em seguida se reflete na taxa de juros, com desconto futuro. Esse crescimento na área financeira, depois dos anos 70 tem muito a ver com o que eu acho que é o problema-chave: o que eu chamaria o problema da absorção do excedente capitalista. Como nos ensina a teoria do excedente, os capitalistas produzem um excedente do qual logo têm que fazer com uma parte, recapitalizá-la e reinvesti-la em expansão. O que significa que eles sempre têm de encontrar algo em que expandir. Em um artigo que escrevi para o New Left Review, "O direito à cidade", apontava que nos últimos 30 anos um imenso volume de capital excedentário foi absorvido pela urbanização: reestruturação urbana, expansão e especulação. Cada um das cidades que visitei são enormes canteiros adequados para a absorção do excedente capitalista. Agora, escusado será dizer, muitos desses projetos foram semi-cozido.

Esse modode absorver o capital excedentário tem se tornando cada vez mais problemática com o tempo. Em 1750, o valor de todos os bens e serviços produzidos era cerca de 135 bilhões de dólares (constante). Em 1950, foi de US$ 4 trilhões. Em 2000, se aproximou de 40 bilhões. Agora volta a 50 trilhões. E se erra não, Gordon Brown, dobrará nos próximos 20 anos, até chegar a 100 bilhões em 2030.

Ao longo da história do capitalismo, a taxa de crescimento global média tem pairado o 2,5% anual, sobre base composta. Isso significa que em 2030 teria de encontrar soluções rentáveis para US $ 2,5 trilhões. É uma ordem de magnitude muito alta. Eu acredito que houve um problema sério, particularmente desde 1970, com o modo de absorver mais grandes volumes de excedente na produção real. Uma fração menor do que já entra em produção real e cada vez mais grande parte destina-se à especulação sobre valores de ativos, que explica a frequência e a profundidade, aumentando a crise financeira que estamos vendo desde 1975, mais ou menos. Elas são todos crise de valores de ativos.

Eu diria que, se saíssemos desta crise agora mesmo, e se houver uma acumulação de capital, com uma taxa de crescimento anual de 3%, nos encontraríamos com um monte de problemas endemoniados. O capitalismo enfrenta graves limitações ambientais e restrições de mercado e rentabilidade. A mudança recente para financeirização é uma inversão de marcha forçada pela necessidade de lidar com um problema de absorção do excedente; um problema, no entanto, que não se pode abordar sem exposição a desvalorizações periódicas. É o que está acontecendo agora, com a perda de muitos trilhões de dólares em valores de ativos.

O termo "resgate nacional" é, portanto, inadequado, porque eles não estão salvando o conjunto do sistema financeiro existente; estão a salvar os bancos, a classe capitalista, perdoando-lhes as dívidas e transgressões. E só estão salvando a eles. O dinheiro flui para os bancos, mas não para as famílias que estão sendo hipotecariamente executadas, o que está começando a provocar raiva. E os bancos estão usando esse dinheiro, não para emprestá-lo, mas para comprar outros bancos. Eles estão consolidando o seu poder de classe.

O colapso do crédito

O colapso do crédito para classe trabalhadora coloca fim à financeirização como uma solução da crise do mercado. Conseqüentemente, nós veremos uma crise de grande desemprego, bem como o colapso de muitas indústrias, a menos que tomemos medidas eficazes para mudar o rumo das coisas. E isto é onde a discussão sobre o retorno a um modelo econômico Keynesiano agora se desenvolve. O programa econômico de Obama consiste em investir maciçamente em grandes obras públicas e tecnologias verdes, retornando em um sentido para o tipo de solução do New Deal. Eu sou cético quanto a sua capacidade de ter sucesso.

Para entender a situação presente, precisamos ir além do que acontece no processo de trabalho e produção, temos de introduzir o complexo das relações em torno do estado e das finanças. Precisamos entender a maneira em que o sistema de crédito e débito nacional tem sido, desde o começo, veículos fundamentais para acumulação primitiva, ou o que eu chamo acumulação por desapossamento (como pode ser visto no setor da construção). Em 'O direito à cidade' eu observava a maneira que havia sido revitalizado o capitalismo na Paris do segundo Império: o Estado, juntamente com os banqueiros, pôs por obra de um novo vínculo Estado-capital financeiro, a fim de reconstruir a Paris. Que gerou o pleno emprego e os bulevares, executando sistemas de abastecimento de água e transporte de resíduos, bem como novos sistemas de encanamento; Graças a este tipo de mecanismos também foi construído o Canal de Suez. Uma boa parte do que foi financiada com dívida. Agora, esse link Estado-finanças está passando por uma enorme transformação desde 1970: tornou-se mais internacional, está aberto a todos os tipos de inovações financeiras, incluindo os mercados de derivativos e mercados especulativos, etc.Ele criou uma nova arquitetura financeira.

O que creio que está acontecendo agora é que eles estão olhando para uma nova forma de regime financeiro que pode resolver o problema, não para as pessoas que trabalham, mas para a classe capitalista. Na minha opinião, estão no processo de encontrar uma solução para a classe capitalista, e se o resto de nós sofrem as conseqüências, pois que vá fazer! A única coisa que nos preocupa é que levantemos em rebelião. E enquanto esperamos pelo rebelde, eles tentam projetar um sistema de acordo com seus próprios interesses de classe. Eu não sei como será a nova arquitetura financeira. Se você olhar com cuidado o que aconteceu durante a crise fiscal em Nova York, será que os banqueiros e financistas não sabia o que fazer; o que eles acabaram fazendo era uma espécie de bricolagem à tintas, parte aqui, parte ali; Então eles reuniram as peças de uma forma nova e terminaram com uma nova construção de planta. Mas, qualquer que seja a solução para chegar, ela virá-los sob medida, a menos que nós mesmos plantemos e começemos a dizer que queremos algo à nossa medida. Pessoas como nós podem desempenhar um papel crucial quando se trata de fazer perguntas e desafiar a legitimidade das decisões que estão sendo tomadas agora. Também, obviamente, quando se trata de uma análise muito clara da verdadeira natureza do problema e as possíveis saídas oferecidas a ele.

Alternativas

Precisamos começar a exercer o nosso direito à cidade de verdade. Temos de perguntar o que é mais importante, o valor dos bancos ou o valor da humanidade. O sistema bancário deve servir ao povo, não viver à custa do povo. E a única maneira em que seremos capazes de exercer o direito à cidade será tomando as rédeas do problema da absorção do excedente capitalista. Precisamos socializar o capital excedente e escapar para sempre do problema de 3% de acumulação. Agora estamos em um momento em que continuar indefinidamente com uma taxa de crescimento de 3% chegará a gerar tremendos custos ambientais e uma pressão sobre as situações sociais tão tremenda, que estaremos condenados a uma crise financeira após outra.

O problema central é como se pode absorver os excedentes capitalistas de forma produtiva e rentável.Na minha opinião, os movimentos sociais tem que se organizar em torno da ideia de alcançar maior controle sobre o produto. E embora eu não suporte um retorno para o tipo de modelo keynesiano que tivemos na década de 1960, parece fora de dúvida que então tinha um controle social e político muito maior na produção, o uso e a distribuição do excedente. O excedente circulante derivava para a construção de escolas, hospitais e infra-estrutura. Isso é o que trouxe de suas caixas para a classe dominante e causou um contador no final da década de 1960: não tinha suficiente controle sobre o excedente. No entanto, se você assistir os dados disponíveis, é que a proporção de excedente absorvido pelo Estado não mudou muito desde 1970; o que ele fez, assim, a classe capitalista foi parar com a socialização do excedente. Também eles conseguiram transformar a palavra 'Governo' na palavra 'governança', fazendo porosas as atividades governamentais, permitindo situações que temos no Iraque, onde contratistas privados muniram implacavelmente úberes de lucro fácil.

Acho que estamos por trás de uma crise de legitimidade. Nos últimos trinta anos, se há repetido uma e outra vez a ocorrência de Margaret Thatcher, segundo a qual "não há alternativa" para um mercado livre neoliberal, um mundo privatizado, e se não formos bem sucedidos neste mundo, é nossa culpa. Acho que é muito difícil dizer que, diante de uma crise de despejos de encerramento e imobiliário, ajuda os bancos, mas não para as pessoas que perdem a sua habitação. Você pode acusar os doentes terminais de irresponsabilidade e nos Estados Unidos tem um componente fortemente racista, em que acusação. Quando a primeira onda de arrestos atingiu áreas tais como Cleveland e Ohio, foi devastadora para as comunidades negras, mas a reação de alguns foi um pouco mais ou menos isto: "pois o que esperava? Os negros são pessoas irresponsáveis". As explicações da crise diletas da direita são em termos de ganância pessoal, tanto no que fazem a Wall Street, como o que ele fazem para as pessoas que pediram emprestado para comprar uma casa. O que estão fazendo é carregar a culpa pela crise para suas vítimas. Uma de nossas tarefas é para dizer: "não, não se pode fazer isso em absoluto" e tratar logo de oferecer uma explicação cogente desta crise como um fenômeno de classe: uma estrutura particular de exploração foi afundada e está em vias de ser deslocada por outra ainda mais profunda estrutura de exploração. É muito importante que esta explicação alternativa da crise seja apresentada e discutida publicamente.

Uma das grandes configurações ideológicas que está em processo de formação tem a ver com o papel que vai ter no futuro a posse da habitação, uma vez começar a dizer as coisas como você tem que conviver muito do parque habitacional, já desde os anos 30, tivemos enormes pressões a favor da habitação individualizado como forma de garantir os direitos e a posição das pessoas. Temos que socializar e recapitalizar a educação e a assistência sanitária públicas, além da prestação de habitação.Esses setores da economia precisam ser socializados, juntamente com a banca.

Uma política radical, além das divisões de classe

Há um outro ponto que nós deve reconsiderar: o trabalho e, em particular, o trabalho organizado é apenas uma pequena parte deste conjunto de problemas e só joga um papel parcial no que está acontecendo. E isso por uma razão muito simples, que vai voltar para as limitações de Marx ao implementar a coisa. Se dizemos que a formação do complexo Estado-finanças é absolutamente crucial para a dinâmica do capitalismo (e obviamente é), e se nós nos perguntamos que forças sociais atuam no ponto para neutralizar e promover essas formações institucionais, deve reconhecer que o trabalho nunca esteve na vanguarda desta luta. O Trabalho tem estado na vanguarda no mercado de trabalho e no processo de trabalho e ambos são momentos vitais no processo de circulação, mas a maior parte das lutas que têm sido desenvolvidas em torno do vínculo Estado-finanças tem sido lutas populistas, em que o trabalho só parcialmente tem estado presente.

Por exemplo, nos Estados Unidos na década de 1930, havia um montão de populistas que apoiaram os assaltantes de bancos Bonnie e Clyde. E atualmente, muitas das lutas em curso na América Latina têm uma direção mais populista do que obreira. O trabalho sempre teve um papel muito importante a desempenhar, mas não acredito que estamos agora numa situação em que a visão convencional do proletariado como a vanguarda da luta é muito útil, quando a arquitetura do vínculo Estado-finanças (sistema nervoso central da acumulação de capital) é a questão fundamental. Pode haver momentos e lugares onde os proletários movimentos resultem de grande importância, por exemplo, na China, onde eu prevejo um papel criticamente decisivo que, por outro lado, não vejo em nosso país. O interessante é que os trabalhadores da indústria automobilística e companhias do automóvel agora são aliados frente ao nexo Estado-finanças, portanto a grande divisão de classe que sempre houve em Detroit não se dá agora, ou não na mesma maneira. O que está em andamento é uma política nova, completamente diferente, do tipo de classe, e algumas das maneiras convencionais marxistas de ver estas coisas se atravessam no caminho de uma política verdadeiramente radical.

Também é um grande problema para a esquerda que muitos pensem que a conquista do poder do estado não deve desempenhar qualquer papel nas transformações políticas. Eu acho que eles são loucos. O estado é um poder incrível e não se pode prescindir dele, como se não fosse importante.Estou profundamente cético em relação a crença, segundo o qual as ONGs e organizações da sociedade civil estão em processo de transformação do mundo; Não que as ONG não possam fazer nada, mas porque ele requer um outro tipo de concepção e movimento político, se queremos fazer algo à crise principal que está em andamento. Nos EUA, o instinto político é muito anarquista, e embora eu simpatize muito com pontos de vista bastante anarquistas, seus protestos de longa data contra o estado e a sua negativa em fazer com o controle do mesmo outro obstáculo atravessado no caminho.

Não acho que estamos em uma posição que nos permita determinar quem serão os agentes da mudança da conjuntura atual, e é óbvio que eles serão diferentes em diferentes partes do mundo. Agora, nos EUA, há sinais de que a classe dos executivos e gerentes de negócios, que tem vivido todos estes anos, das receitas de capital financeiro estão irritados e podem radicalizar um pouco. Muitas pessoas foram despedidas de serviços financeiros, e em alguns casos, viram executadas suas hipotecas.Produtores culturais estão tomando consciência da natureza dos problemas que enfrentamos, e da mesma maneira que na década de 1960 as escolas de arte se converteram em centros de radicalismo político, não se deve descartar o reaparecimento de algo análogo. Vimos o surgimento de organizações transnacionais, à medida que as reduções de remessas de dinheiro estendam a crise para lugares como o México ou a Kerala rural.

Os movimentos sociais têm que definir estratégias e políticas que querem desenvolver. Nós, acadêmicos, não deveríamos ver-nos jamais no papel de missionários nos movimentos sociais; o que se deve fazer é entrar na conversa e falar sobre como você vê a natureza do problema.

Dito isso, eu gostaria de propor algumas idéias. Uma idéia interessante nos Estados Unidos agora é que os governos municipais aprovara, portarias anti-demissão. Acho que existem muitos lugares em França onde se tem feito isso. Então poderíamos montar uma empresa municipal de habitação que tomasse hipotecas e retornasse para o banco a dívida principal, renegociando os interesses, porque os bancos têm recebido um monte de dinheiro, supostamente para lidar com isso, mas não o fizerem.

Outra questão fundamental é a de cidadania e dos direitos. Acredito que os direitos à cidade devem garantir por residência, independentemente de qual cidadania ou nacionalidade se tenha. Atualmente, se está negando a pessoas todo direito politico à cidade, a menos que tenham a cidadania. Se você é imigrante, falta-lhe os direitos. Acho que se tem que jogar lutas sobre direitos de cidade. A Constituição brasileira tem uma cláusula de "direito à cidade" que lida com os direitos dos procedimentos orçamentais, consulta e participação. Eu acho que de tudo isso poderia ser uma política.

Reconfiguração do estado

Há nos E.U.A chances de ação a nível local, com uma longa tradição em questões ambientais e nos últimos quinze ou vinte anos os governos municipais foram frequentemente mais progressistas do que o governo federal. Neste momento há uma crise nas finanças municipais, e provavelmente haverá protestos e pressão sobre Obama para que ajude a recapitalizar os governos municipais (o que já figura no pacote de estímulo). Obama disse que esta é uma das coisas que te interessam mais, especialmente porque muito do que está acontecendo tem lugar a nível local; por exemplo, a crise das hipotecas do subprime. Como eu tenho uma participação, as execuções hipotecárias e despejos são entendidos como crise urbana, não como uma crise financeira: é uma crise financeira de urbanização.

Outra questão importante é pensar politicamente sobre a forma de converter em um componente estratégico de algum tipo de aliança entre a economia social e o mundo do trabalho e os movimentos urbanos como o direito à cidade. Isso tem a ver com a questão do desenvolvimento tecnológico. Por exemplo: não vejo razão para não ter um sistema municipal para apoiar o desenvolvimento de sistemas de produção, tais como energia solar, a fim de criar dispositivos e possibilidades mais descentralizadas de emprego.

Se eu tivesse que desenvolver um sistema ideal, agora, eu diria que devemos criar um banco nacional de reabilitação dos 700 bilhões aprovados, alocar 500.000 para que esse banco trabalhasse com municípios para ajudar os moradores atingidos pela onda de despejos nos Estados Unidos. Porque despejos têm sido uma espécie de Katrina financeira de muitas maneiras: devastaram comunidades inteiras, geralmente pobres negros ou hispânicos. Pois bem; entra por aqueles bairros e devolve ao povo que morava lá e lhes realocava em um outro tipo de base, com os direitos de residência e com um tipo diferente de financiamento. E tem que ser verdes estes bairros, criando oportunidades de emprego local.

Pode, portanto, imaginar uma reconfiguração da urbanização. Para fazer alguma coisa em termos de aquecimento global, precisamos reconfigurar completamente o funcionamento das cidades americanas;Pensar em pautas completamente novas de urbanização, em novas formas de vida e de trabalho.Existem muitas possibilidades que a esquerda deve prestar atenção; Temos oportunidades reais. E aqui é onde eu tenho um problema com alguns marxistas que parecem pensar: "Sim, senhor! É uma crise, e as contradições do capitalismo vão acabar resolvidas agora, de uma forma ou de outra! ". Não é este momento de triunfalismos, é hora de fazer perguntas e levantar questões. De fato, creio que o modo em que Marx levantou as coisas não é isento de dificuldades. Os Marxistas não entendem muito bem o complexo Estado-finanças da urbanização, são terrivelmente torpes, quando se trata de entender isso.Mas agora nós temos que repensar nossa posição teórica e nossas possibilidades políticas.

Então, tanto como ação prática, se precisa voltar a pensar teoricamente muitas coisas.

Kate Ferguson y Mary Livingstone transcreveram e editaram esta conferência do reconhecido geógrafo, historiador e urbanista marxista anglo-americano David Harvey.

12 de março de 2009

Uma esquerda invertebrada

Perry Anderson

London Review of Books

A esquerda italiana foi em tempos o maior e mais impressionante movimento popular para a mudança social na Europa Ocidental. Compreendendo dois partidos de massas, cada um com a sua própria história e cultura e cada um comprometido não em melhorar mas em superar o capitalismo, a aliança do pós guerra entre Socialistas e Comunistas, PSI e PCI, não sobreviveu ao crescimento explosivo dos anos 50. Em 1963, Pietro Nenni levou os Socialistas para o governo pela primeira vez como associados juniores dos Democratas Cristãos, por um caminho que levaria por fim a Bettino Craxi, deixando o Comunismo italiano no comando indisputado da oposição ao regime Democrata Cristão. Desde o início o PCI tinha sido organizativa e ideologicamente o mais forte dos dois, com uma mais ampla base de massas – mais de dois milhões de membros em meados dos anos 50 – indo de camponeses no Sul, a artesãos e professores no meio do país, a trabalhadores industriais no Norte. Tinha também uma herança intelectual mais rica, nos Cadernos da Prisão de Gramsci recentemente publicados, cujo significado foi imediatamente reconhecido bem para além do partido. No seu auge, o PCI pôde atrair uma extraordinária variedade de energias sociais e morais, combinando raízes populares mais profundas e uma influência intelectual mais ampla do que qualquer outra força no país.

Confinado pela Guerra Fria a quarenta anos de oposição nacional, o partido entrincheirou se em administrações regionais locais e mais tarde em regionais e nas comissões parlamentares pelas quais a legislação italiana tem de passar, entrelaçando-se com a ordem dominante em muitos níveis secundários. Mas a sua estratégia subjacente permaneceu mais ou menos estável até ao fim. Depois de 1948 os despojos da Libertação foram divididos. O poder caiu para a DC; a cultura para o PCI. A Democracia Cristã controlou as alavancas do estado, o Comunismo atraiu os talentos da sociedade civil. A capacidade do PCI de polarizar a vida intelectual italiana em sua volta, não só num amplo arco de eruditos, escritores, pensadores e artistas mas num clima geral da opinião progressista, não teve paralelo em mais nenhum lugar da Europa. Graças em parte à sociologia da sua liderança, que diferentemente da dos Partidos Comunistas franceses, alemães, britânicos ou espanhóis, era na sua maioria altamente instruída, e em parte a um manejo relativamente tolerante e flexível da ‘luta de ideias’, o seu domínio nesta esfera foi o ativo realmente distintivo do Comunismo italiano. Mas com um preço duplo em relação ao qual o partido permaneceu persistentemente cego.

Já que a extensão da influência do PCI através do mundo do pensamento e da arte era também uma função do grau com o qual ele assimilou e reproduziu a tensão dominante numa cultura italiana pré existente desde há muito. Este era o idealismo que encontrara a sua mais poderosa expressão, mas de forma nenhuma a expressão moderna única, na filosofia de Benedetto Croce, figura que ao longo dos anos adquirira uma posição quase do tipo da de Goethe na vida intelectual do país. Foi o sistema historicista de Croce, com um prestígio subscrito pela atenção que lhe foi dada na prisão por Gramsci, que ficou naturalizado como o éter circum ambiente de muita da cultura italiana do pós guerra à qual o PCI, direta ou indiretamente, presidiu. Mas por trás dele residem tradições muito mais antigas que concederam preeminência ao reino das ideias, concebidas como vontade ou compreensão, na política. Entre a queda do Império Romano e a conclusão do Risorgimento, a Itália nunca conheceu um estado ou uma aristocracia peninsulares e a maior parte do tempo esteve sujeita a um leque de poderes estrangeiros em conflito. O resultado, por longos períodos, foi a criação duma esmagadora sensação de fosso entre a glória passada e a desgraça presente no meio das suas elites instruídas. De Dante para cá, desenvolveu se aí uma tradição de intelectuais com um forte sentido de vocação para recuperar e transmitir a cultura elevada da antiguidade clássica e embebidos da convicção de que o país podia ser endireitado apenas pelo cunho de ideias revivificadoras, das quais só eles poderiam ser os artífices, nas realidades em que caíram. A cultura não era uma esfera distinta do poder: haveria de ser o passaporte para ela.

Em boa medida, o Comunismo italiano herdou este hábito da mente. A nova forma que deu a uma predisposição nacional, se não fiel a Gramsci, foi retirada dele. Nesta versão, ‘hegemonia’ era uma ascendência cultural e moral a ser ganha consensualmente dentro da sociedade civil, como a fundação real da existência social que poderia assegurar por fim a posse pacífica do estado, uma expressão mais externa e superficial da vida coletiva. Nesta visão, a posição de comando que o partido tinha ganho na arena intelectual mostrava que estava no rumo para a vitória política final. Isto não era aquilo em que Gramsci acreditara. Revolucionário da Terceira Internacional, nunca pensara que o capital pudesse ser quebrado sem a força das armas, por mais importante que fosse a necessidade de ganhar o consentimento popular para a derrubada da ordem dominante. Mas isto ajustava se ao molde idealista da cultura em geral. Dentro da própria esfera intelectual, para além disso, o PCI reproduziu o viés humanista das elites tradicionais para quem a filosofia, a história e a literatura sempre tinham sido campos de eleição. Ausentes do portfolio do partido estavam as disciplinas mais modernas da economia e da sociologia e os métodos que tentaram pedir emprestados, para melhor ou pior, às ciências naturais. Por formidáveis que as suas posições parecessem do auge duma hierarquia cultural consagrada, eram mais fracas cá em baixo, com sérias consequências em devido tempo.

Porque quando as duas grandes mudanças que alterariam a ecologia do PCI na Itália do pós guerra atingem o partido, ele estava bastante impreparado. A primeira foi a chegada duma cultura de massas completamente comercializada, duma espécie ainda inimaginável no mundo de Togliatti, quanto mais de Gramsci. Mesmo no seu apogeu, tinha havido certos limites óbvios à influência do PCI e, mais geralmente, da esquerda italiana na cena cultural, uma vez que a Igreja ocupava um tão grande espaço na crença popular e na imaginação. Abaixo do nível das universidades, editores, estúdios ou jornais nos quais os movimentos do partido eram tão comuns e distintos dos baluartes da ordem estabelecida burguesa liberal na imprensa, um matagal de revistas conformistas ou espectáculos talhados para os gostos meio sérios ou incultos dos eleitores da DC sempre houvera florescido. Dos seus posicionamentos de vantagem na cultura de elite, o PCI podia ver este universo com uma condescendência tolerante, como expressões do legado dum passado clerical cuja importância Gramsci há muito vincara. Não era ameaçado por ele.

O influxo duma cultura de massas completamente secular, totalmente Americanizada, foi outra questão. Apanhados impreparados, o aparelho do partido e os intelectuais que se tinham formado em volta dele foram atirados para o lado. Embora um compromisso crítico com revistas populares não faltasse em Itália – Umberto Eco foi pioneiro – o PCI não conseguiu estabelecer a ligação. Nenhuma dialéctica criativa, capaz de resistir às ventanias do novo transformando as relações entre sério e popular, se materializou. O caso do cinema, em que a Itália tinha primado sobretudo depois da guerra, pode ser tomado como simbólico. Não houve revezamento da geração de grandes realizadores – Rossellini, Visconti, Antonioni – que se tinham iniciado nos anos 40 ou no princípio dos 50 e cujos últimos trabalhos importantes se agrupam no início dos 60. Em falta a partir daí esteve qualquer cruzamento combustível entre vanguardismo e formas populares que se comparasse com Godard em França ou com Fassbinder na Alemanha; mais tarde, apenas a bebida fraca que foi Nanni Moretti. O resultado foi um fosso tão grande entre a sensibilidade instruída e popular que o país foi deixado mais ou menos indefeso face à contra revolução cultural do império televisivo de Berlusconi, saturando o imaginário popular com a vaga duma maré dos mais crassos idiotismo e fantasias – lixarada tão baixa que o próprio termo seria demasiado simpático. Incapaz de confrontar ou de inverter a mudança, durante uma década o PCI procurou resistir lhe. O verdadeiro último líder do partido, Enrico Berlinguer, personificou o desprezo austero da auto indulgência e o infantilismo do novo universo de consumo cultural e material. Depois de ele partir, da recusa inflexível à capitulação efusiva foi um curto passo – vindo Walter Veltroni a parecer se com um cromo resplandecente saído dos álbuns dos meninos de escola cujo nome fez ao distribuí los com exemplares do Unità quando se tornou editor do jornal. Se o idealismo do PCI o impediu de agarrar as pulsões materiais do mercado e dos meios de comunicação que transformaram o lazer na Itália, a mesma falta de antenas económicas ou sociológicas impediu o de descobrir mudanças não menos decisivas no local de trabalho. Já no virar dos anos 60 lhes prestava menos atenção do que ao recrutamento de jovens radicais que continuariam a produzir o fenómeno peculiarmente italiano dooperaismo, uma das mais estranhas aventuras intelectuais da esquerda europeia desse período [*]. Diferentemente do PCI, o PSI do pós guerra tinha possuído pelo menos uma figura principal, Rodolfo Morandi, cujo Marxismo era dum molde menos idealista, que se concentrou nas estruturas da indústria italiana, da qual foi autor de um estudo famoso. Dentro da geração seguinte encontrou em Raniero Panzieri um sucessor dotado, um militante do PSI que, tendo se deslocado para Turim, começou a investigar a condição de trabalhadores fabris nas fábricas da Fiat, reunindo em volta da sua empresa um grupo de intelectuais mais jovens, muitos (Antonio Negri entre eles) mas não todos a partir originalmente de organizações juvenis Socialistas. Durante a próxima década, o operaismo evolui para uma força proteica, lançando uma sucessão de jornais seminais, ainda que de vida curta –Quaderni rossi, Classe operaia, Gatto selvaggio, Contropiano – explorando as transformações do trabalho e do capital industrial na Itália contemporânea. O PCI não tinha nada de comparável para mostrar e prestou escassa atenção a esta ebulição, embora nesta fase o mais influente dos novos teorizadores fosse um jovem das suas próprias fileiras de Roma, Mario Tronti. Este era um meio cuja cultura era essencialmente alheia ao partido, de facto declaradamente hostil a Gramsci, acusado de espiritualismo e populismo.

O impacto do operaismo vinha não apenas das interrogações ou das ideias dos seus pensadores, mas da sua conexão com a revolta de novos contingentes das classes trabalhadoras: imigrantes jovens do Sul, em revolta contra salários baixos e condições opressivas nas fábricas do Norte – para não falar dos sindicatos liderados por comunistas desconcertados pelas erupções espontâneas de militância ou pelas formas inesperadas de luta. Ter antecipado esta turbulência deu ao operaismo um poderoso vento contrário intelectual. Mas também o fixou no momento do seu discernimento original, levando a uma romanticização da revolta proletária como um fluxo mais ou menos contínuo de lava vindo do chão da fábrica. Em meados dos 70, conscientes de que a indústria italiana se modificava mais uma vez e de que a militância das oficinas estava em declínio, Negri e os outros recorreriam à figura do ‘trabalho social’ em geral – virtualmente qualquer um, empregado ou desempregado pelo capital, onde quer que fosse – como portador da revolução imanente. A abstracção desta noção foi um sinal do desespero e a política apocalíptica que o acompanhou levou esta ala do operaismo a um beco sem saída nos finais dos 70. O PCI, contudo, depois de falhar a mutação dos 60, não tinha aprendido com isso e não ofereceu nada de melhor através duma sociologia industrial. Portanto foi isso que, quando a economia italiana sofreu modificações novas e críticas nos anos 80, com o surgimento de pequenas firmas de exportação e duma economia negra – o ‘segundo milagre italiano’, como foi esperançosamente referido naquele tempo – o partido estava impreparado de novo e desta vez o golpe na sua posição como representante político do trabalhador colectivo revelou se fatal. Vinte anos depois, tal como o triunfo de Forza Italia dramatizaria a sua falha em reagir a tempo de intervir na massificação da cultura popular, assim as vitórias da Liga do Norte revelariam a sua incapacidade em responder a tempo à fragmentação do trabalho pós moderno.

Esses foram défices duma mentalité com fontes mais profundas do que o Marxismo do partido, um sentido clássico de valores intelectuais que, com todas as suas limitações, era à sua própria maneira raramente menos que honroso e muitas vezes admirável. Houve outro lado e um lado mais danoso para o mesmo idealismo, contudo, específico do Comunismo italiano e pelo qual carregava uma responsabilidade política consciente. Foi um reflexo estratégico que nunca realmente se alterou da Libertação em diante e cujas pós convulsões continuam hoje. Quando Togliatti voltou de Moscovo para Salerno na Primavera de 1944, deixou bem claro ao seu partido que não podia haver nenhuma tentativa de fazer uma revolução socialista na Itália logo a seguir à expulsão da Wehrmacht, já previsível. A Resistência no Norte, na qual o PCI desempenhava um papel principal, podia complementar mas não substituir os exércitos anglo americanos no Sul como força principal para expulsar os Alemães do país e o Alto Comando Aliado é que ditaria as regras uma vez a paz restaurada. Depois de vinte anos de repressão e exílio, a tarefa do PCI era construir um partido de massas e desempenhar um papel central numa assembleia eleita para pôr a Itália numa nova base democrática.

Esta era uma leitura realista do equilíbrio de forças na península e da determinação de Washington e de Londres em não permitirem qualquer assalto à capital no seguimento da derrota alemã. Uma insurreição pós guerra não estava na agenda. Togliatti, contudo, foi muito além disto. Na Itália, a monarquia que ajudou a instalar o Fascismo e logo confortavelmente com ele coabitou, tinha desalojado Mussolini no Verão de 1943, receosa de soçobrar com ele depois dos Aliados aterrarem na Sicília. Depois de um breve intervalo, o rei fugiu com Badoglio, o conquistador da Etiópia, para o Sul, onde os Aliados os colocam no topo duma administração regional inalterada, enquanto no Norte os Alemães instalam Mussolini à cabeça dum regime fantoche em Salò. Quando a guerra acabou, a Itália não foi assim tratada como a Alemanha, como um poder derrotado, mas como um “co beligerante” punido. Uma vez que as tropas Aliadas se foram, um governo de coligação, compreendendo o Partito d’Azione liberal de esquerda, os Socialistas, Comunistas e Democratas Cristãos, enfrentou o legado do Fascismo e a monarquia que colaborara com ele. Os Democratas Cristãos, conscientes que os seus potenciais eleitores permaneciam leais à monarquia e reconhecendo que os seus apoios naturais no aparelho de estado tinham sido os instrumentos de rotina do Fascismo, estavam determinados em a prevenir algo comparável à des Nazificação alemã. Mas estavam em minoria no gabinete, onde a esquerda secular detinha mais postos.

Nesta conjuntura o PCI, em vez de pôr a DC na defensiva exigindo uma purga inflexível do estado – limpando todos os funcionários colaboracionistas seniores na burocracia, poder judiciário, exército e polícia – convidou a a encabeçar o governo e mal levantou um dedo para desmantelar o aparelho tradicional do poder de Mussolini. Ao invés de isolar a Democracia Cristã, Togliatti manobrou para pôr na chefia do governo o seu líder, de Gasperi, e depois juntou se à DC – para indignação dos Socialistas – na confirmação do Tratado de Latrão que Mussolini selara com o Vaticano. Os prefeitos, juízes e polícias que tinham servido o Duce foram deixados virtualmente intocados. Ainda em 1960, 62 dos 64 prefeitos tinham sido serviçais do Fascismo e todos os 135 chefes de polícia do país o foram. Quanto a juízes e funcionários, os tribunais por reconstruir absolveram os torturadores do regime e condenaram os resistentes que tinham lutado contra eles, retrospectivamente declarando os combatentes da República Fascista de Salò beligerantes legítimos, e os da Resistência ilegítimos – os últimos sujeitos como tal a execução sumária depois de 1943, sem sanções penais depois de 1945 para os primeiros. Essas enormidades foram uma consequência directa das acções do PCI. Foi o próprio Togliatti que, enquanto ministro da justiça, promulgou em Junho de 1946 a amnistia que os tornou aptos. Um ano depois, o partido foi recompensado com uma ejecção do governo sem cerimónias por de Gasperi, que já não precisava disso.

A história da Itália do pós guerra ia assim ser inteiramente diferentemente da da Alemanha, onde não houve qualquer Resistência popular. O nazismo foi destruído tanto pelo extremo da derrota militar como pelo extermínio com as ocupações Aliadas subsequentes. Na República Federal, o Fascismo não pôde mais voltar a levantar a cabeça. Na Itália, em contraste, a Resistência deixou para a posteridade uma ideologia de anti fascismo – patriótico – cuja retórica oficial ubíqua, no que o PCI tomou a dianteira, cobriu as continuidades reais do Fascismo, quer como aparelho de leis e funcionários herdado, quer como credo abertamente proclamado e movimento. Reconstituído como MSI, o partido Fascista ia sentar se em breve novamente no Parlamento e acabar por ser recebido na ordem estabelecida sob o seu líder, Giorgio Almirante. Exaltando as leis anti semíticas de Mussolini, esta figura tinha dito aos seus compatriotas em 1938 que ‘o racismo é o mais amplo e valente reconhecimento de si que a Itália alguma vez tentou’ e em 1944, depois de Mussolini ter sido levado via aérea para o Norte pelos Alemães, que se não se alistassem como combatentes pela República de Salò seriam alvejados pelas costas. Quando Almirante morreu nos anos 80, a viúva de Togliatti esteve entre os que o choraram a sua morte no funeral. Hoje Gianfranco Fini, o seu herdeiro designado, é orador na Câmara de Deputados, e sucessor provável de Berlusconi como primeiro ministro.

Para além das repreensões óbvias a esta trajectória, o que há de mais condenável pela parte do PCI nisso é a sua futilidade auto destrutiva. Quando teve uma oportunidade de enfraquecer a Democracia Cristã mergulhando a espada de um anti fascismo intransigente nos seus flancos, cortando o dos eleitorados reaccionários que tinham sustentado o regime de Mussolini, fez precisamente o oposto, ajudando a DC a estabelecer se como a força dominante no país, ao passar uma esponja suavizante sobre a colaboração com o regime. Ao fazê lo simplesmente consolidou o bloco conservador sob comando clerical que o viria a deixar do lado de fora do poder até ao dia da sua morte. Neste fracasso, a conduta do partido não teve desculpas ao nível internacional. A revolução pode ter sido excluída na Itália do pós guerra, mas antes de 1946 os Aliados tinham basicamente deixado o país e não estavam em posição de deter uma purificação do Fascismo. A ingenuidade de Togliatti em ser tão completamente manobrado por de Gasperi com superioridade teve pouco a ver com influências externas. Enraizava se num conceito estratégico que tinha obtido de Gramsci, interpretado pela neblina de Croce e seus antepassados. A persecução do poder político, escrevera Gramsci, tinha requerido dois tipos de estratégia, cujos termos tomou da teoria militar, guerra de posição e guerra de manobra: guerra de trincheira ou de cerco, por oposição a assalto móvel. A Revolução Russa tinha exemplificado a segunda; uma revolução no Ocidente necessitaria da primeira, durante um período considerável, antes de passar por fim à última. Tal como diluíra a noção de hegemonia de Gramsci tão só no seu momento consensual, fixando a essencialmente na sociedade civil, também sob Togliatti o PCI reduziu o seu conceito de estratégia política a uma guerra de posição apenas, à aquisição lenta de influência na sociedade civil, como se nenhuma guerra de manobra – emboscada, carga súbita, rapidamente desviar o ataque para todo o terreno, apanhar de surpresa inimigos de classe ou o estado – fosse já necessária no Ocidente. Em 1946 47 de Gasperi e os seus colegas não cometeram o mesmo erro.

Por volta de 1948 o élan popular da Libertação quebrou se. O ataque da Guerra Fria trouxe a derrota eleitoral e foram precisos vinte anos até que outra onda de revolta política formasse crista na Itália. Quando chegou, a rebelião geracional do final dos 60, abraçando tanto estudantes como trabalhadores jovens, foi mais ao fundo e durou mais do que em qualquer outro sítio da Europa. Sob o sucessor de Togliatti, Luigi Longo, que tinha um pouco mais de lutador do que de diplomata, o PCI não reagiu tão negativamente à revolta juvenil como o PCF em França. Mas também não respondeu criativamente, não conseguindo ligar se a uma cultura de rua em que sério e popular – os clássicos do passado Marxista e Bolchevique, os graffitti de lata de spray do presente – durante um tempo interagiram dinamicamente, nem renovar o seu stock cada vez mais estacionário de conceitos estratégicos. Quando emergiu dentro do partido a oposição crítica à sua inércia sob a forma do grupo Manifesto – de aspecto mais genuinamente gramsciano e com uma inteligência política muito maior do que os operaisti fora dele – a liderança do PCI não perdeu tempo na sua expulsão.

A excomunhão veio a propósito da invasão soviética da Checoslováquia que o Manifestocondenou sem reservas. Aqui, a par do idealismo nativo da sua formação, reside a segunda razão para a paralisia estratégica perdurante do Comunismo italiano. Por mais flexível que fosse noutros aspectos, o PCI permanecia estalinista tanto nas suas estruturas internas como nos laços externos com o estado soviético. Desesperando com a ordem unipartidária duma Democracia Cristã entorpecida, os admiradores liberais do partido – dois quais haveria muitos ao longo dos anos – exprimiriam repetidamente admiração pela moderação interna sensata do PCI, mas exasperação por comprometer um registo, afora isso excelente, de conexões à URSS e às normas organizativas que se seguiram. Na realidade as duas estavam estruturalmente relacionadas. De Salerno em diante, a moderação do partido foi uma compensação pelas relações com Moscovo, não uma contradição com elas. Só porque podia ser sempre reprovado por um parentesco suspeito com a terra da Revolução de Outubro, tinha de se exceder a comprovar a inocência em relação a qualquer desejo de emular aquele modelo de mudança demasiado famoso. O peso duma culpa imputada e a busca duma respeitabilidade exoneradora andavam de mãos dadas. O mais abertamente direitista do partido, o aterrorizante Giorgio Amendola, que fazia avisos contra qualquer tolerância para com a revolta estudantil enquanto regularmente se refugiava na Bulgária para as férias com a família, personificou os mecanismos desta dualidade.

Incapaz de assumir ou desenvolver as revoltas dos finais dos 60 e princípios dos anos 70, o PCI virou se antes e uma vez mais para a Democracia Cristã, na esperança saudosa que a DC tivesse mudado os seus modos e estivesse agora preparada para colaborar com ele no governação do país – Catolicismo e Comunismo unindo se num ‘compromisso histórico’ para defender a democracia italiana dos perigos da subversão e das tentações do consumismo. Propondo este pacto em 1973, logo depois se se tornar o novo líder do partido, Berlinguer invocou o exemplo do Chile, onde Allende tinha acabado de ser derrubado, como aviso duma guerra civil em risco de estourar, se a esquerda – Comunistas e Socialistas combinados – alguma vez tentasse governar o país com base numa mera maioria aritmética do eleitorado. Poucos argumentos poderiam ter sido mais obviamente especiosos. Não havia a menor perspectiva de guerra civil na Itália, onde mesmo erupções de violência como as que tinham ocorrido – a bomba colocada por terroristas direitistas na Piazza Fontana em Milão em 1969 fora o pior caso – tiveram pouca incidência na vida política do país no seu conjunto. Mas, uma vez que o PCI se movimentara para abraçar a DC, os grupos revolucionários à sua esquerda, saídos da rebelião juvenil, previram a emergência duma ordem estabelecida parlamentar monolítica, não tendo o governo oposição, e deslocaram se para a acção directa contra ele. Os primeiros ataques letais das Brigadas Vermelhas começaram no ano seguinte.

Mas o sistema político não estava em perigo. As eleições de 1976, em que o PCI se portou bem, foram perfeitamente tranquilas. Na sua sequência, a DC aceitou cortesmente o apoio comunista aos governos da assim chamada ‘solidariedade nacional’ sob Giulio Andreotti, sem alterar a sua política ou conceder qualquer ministério ao PCI. A legislação repressiva, restringindo liberdades civis de forma gratuita, teve uma escalada. Dois anos depois as Brigadas Vermelhas detiveram o líder mais influente da DC, Aldo Moro, em Roma, exigindo a entrega dos seus presos em troca de o libertarem. Durante os 55 dias do cativeiro, temendo ser abandonado pelo seu próprio partido, Moro escreveu cartas cada vez mais amargas aos seus colegas, colocando uma ameaça clara a Andreotti caso viesse a ser libertado. Nesta crise o PCI mais uma vez não mostrou nem humanidade nem senso comum, denunciando qualquer negociação para assegurar a entrega de Moro mais veementemente do que a própria liderança da DC que ficou compreensivelmente dilacerada.

Moro foi devidamente deixado ao seu destino. Se lhe tivessem permitido viver, o seu regresso teria certamente divido a Democracia Cristã e provavelmente terminado a carreira de Andreotti. O preço da sua salvação era desprezível. As Brigadas Vermelhas, pequeno grupo que em nenhum sentido objectivo era ameaça significativa à democracia italiana, dificilmente seria fortalecido pela libertação de uns poucos membros, que teriam ficado sob vigilância policial contínua mal saíssem da cadeia. A noção de que o prestígio do estado não sobreviveria a tal rendição ou de que milhares de novos terroristas teriam irrompido na sua sequência, não foi mais do que uma histeria interessada. Os Socialistas compreenderam isto e defenderam negociações. Plus royalistes que le roi 1, os Comunistas, na sua ansiedade em provar que eram os mais firmes dos bastiões do estado, sacrificaram uma vida e salvaram a sua nemesis 2 em vão. A DC não mostrou gratidão alguma. Depois de os usar, Andreotti – um mestre em sentido de oportunidade superior ao próprio de Gasperi – rebaixou os. Quando chegaram as eleições, em 1979, o PCI perdeu um milhão e meio de votos e foi novamente deixado de fora. O ‘compromisso histórico’ não lhe tinha rendido nada para além da desilusão dos seus eleitores e dum enfraquecimento da sua base. Quando Berlinguer no ano seguinte apelou aos funcionários da Fiat, ameaçados com despedimentos em massa, para ocuparem as suas fábricas, o apelo caiu em orelhas moucas. A última grande acção industrial na qual o partido alguma vez se ocuparia foi rapidamente esmagada.

Há cinco anos, reflectindo amargamente sobre a política do seu país, Giovanni Sartori fez notar que Gramsci tivera razão ao distinguir entre guerra de posição e guerra de manobra. Grandes líderes – Churchill ou de Gaulle – entenderam a necessidade de guerras da manobra. Em Itália, os políticos conheciam apenas guerras da posição. Ele próprio sempre achara que o título do livro famoso de Ortega y Gasset, España Invertebrada, seria ainda mais adequado na Itália em que a Contra Reforma tinha criado hábitos profundos de conformismo e invasões estrangeiras e conquistas contínuas tinham tornado os Italianos em especialistas em sobrevivência ao curvarem se até ao chão. Na falta de quaisquer elites de fibra, esta era uma nação sem um só osso no corpo. Sartori não falava ao acaso. Os destinatários eram a classe política que descreveu. Por esta altura o PCI desaparecera, Berlusconi estava no poder e os seus objectivos centrais eram claros: proteger sea si e ao seu império da lei. As medidas ad personam 3 para defender ambos, com adopção forçada no Parlamento, aterraram na secretária do presidente. A presidência italiana não é um posto puramente honorífico. O Quirinale não só nomeia o primeiro ministro, que tem de ser ratificado pelo Parlamento, como pode também reter a aprovação de ministros e recusar se a assinar a legislação. Em 2003 o beneficiado foi o antigo banqueiro central Carlo Azeglio Ciampi, um ornamento do centro esquerda que havia encabeçado o governo final da Primeira República, servido como ministro das finanças sob Prodi e que é hoje senador do Partido Democrático.

Imperturbavelmente, Ciampi assinou a legislação excepcional não só para consolidar a mão de Berlusconi na televisão, mas para lhe garantir imunidade processual – imunidade da qual o próprio Ciampi, como presidente, foi também beneficiário, ao apender a sua assinatura. Fora do Quirinale, apelos angustiados na rua, à luz de velas, pediram lhe que não o fizesse. Mas os herdeiros do Comunismo não apresentaram objecção alguma. De facto tinha sido das fileiras do próprio centro esquerda que o primeiro esboço de lei da imunidade tinha vindo. Se houve torcer de mãos na imprensa a propósito da lei, o presidente – supostamente super partes do ponto de vista constitucional e tratado com a devida reverência – não foi posto em questão. Só uma voz nacional significativa se levantou, não em lamento, mas com severidade contra Ciampi. Ela veio de Sartori, um liberal conservador, que publicamente perguntou a Ciampi se ele realmente existia, desdenhosamente alcunhando o de coelho pela sua covardia.

Nos dias de hoje é um antigo Comunista – Giorgio Napolitano – o líder da facção mais direitista do PCI depois da morte de Amendola – quem se senta no Quirinale. No momento em que foi eleito, a primeira lei de imunidade tinha sido derrubada pelo Tribunal Constitucional. Mas quando lhe deram uma nova embalagem – à moda de Lisboa, poder se ia dizer – e a substância da mesma lei foi aceite por votação novamente pela maioria de Berlusconi no Parlamento, o líder da bancada pós comunista no Senado, longe de se lhe opor, explicou que o Partido Democrático não tinha qualquer objecção de princípio, embora talvez devesse entrar em vigor apenas na legislatura seguinte. Napolitano não teve tempo para taispoints d’honneur 4, assinando a passagem a lei no dia em que a recebeu. Mais uma vez, as únicas vozes a denunciar esta ignomínia foram liberais ou apolíticas, Sartori e um punhado de espíritos livres – imediatamente reprovados na imprensa não só de obediência Democrática, como da Rifondazione, por falta de respeito ao chefe de estado. Tal é a sinistra invertebrata 5da Itália hoje.

Forças históricas poderosas – o fim da experiência soviética; a contracção ou desintegração da classe trabalhadora tradicional; o enfraquecimento do estado de bem estar; a expansão da videosfera; o declínio de partidos – pesaram muito na esquerda em todo o lado na Europa, não deixando ninguém em forma particularmente boa. A queda do Comunismo Italiano é nesse sentido uma parte duma história mais comprida, para além da censura. Contudo em mais nenhuma parte foi uma herança tão imponente assim completamente desperdiçada. O partido que de Gasperi e Andreotti superaram em esperteza, que não conseguiu purgar o Fascismo ou quebrar o clericalismo, era ainda uma força em expansão com notável vitalidade, qualquer que fosse a sua inocência estratégica. Os seus descendentes conspiraram com Berlusconi, sem sombra qualquer de desculpa, totalmente conscientes de quem ele era e do que estavam a fazer. Há agora uma literatura abundante expondo Berlusconi, dentro e fora da Itália, inclusive pelo menos três estudos de primeira categoria em inglês. Mas é patente como muito disto se torna amaneirado quando toca no papel do centro esquerda em ajudá lo a limpar a folha e a entrincheirar se no poder. A cumplicidade dos seus presidentes em ofertas sucessivas para o pôr – e a si mesmos – acima da lei não é anomalia alguma, faz parte dum padrão coerente que viu os herdeiros do Comunismo italiano permitirem lhe conservar e estender o seu império de meios de comunicação, desafiando o que foi em tempos lei; não levantando um dedo para lidar com os seus conflitos do interesse; fazendo saltar da cadeia o seu braço direito e não poucos outros criminosos milionários; e repetidamente procurando fazer acordos eleitorais com ele, à custa de todos os princípios democráticos, para tirar benefício. No fim de tudo isto, ficaram não só de mãos tão vazias como os seus predecessores, como mais terminalmente vazios de mente e consciência.

O que acontecera pela sua parte à grande catedral da cultura de esquerda na Itália? Tinha começado a esmigalhar se muito antes, com as fundações minadas pela antiga fortaleza do próprio partido de massas. Como na Alemanha, a viragem à direita deu se inicialmente no campo da história, com uma reavaliação da ditadura entre guerras no país. O primeiro volume da biografia de Mussolini por Renzo de Felice, cobrindo o período até ao fim da Primeira Guerra Mundial, foi publicado em 1965. Mas só depois do quarto ter aparecido em 1974, cobrindo o período da Grande Depressão até à invasão da Etiópia – seguido um ano depois por uma entrevista com o tamanho dum livro com o neo conservador americano Michael Ledeen, posteriormente proeminente na questão Irão Contras – é que este enorme empreendimento teve um impacto importante na esfera pública, atraindo uma barragem de crítica à esquerda por ser uma reabilitação do Fascismo. No momento em que o seu quinto volume saiu, no início dos anos 80, de Felice tinha se tornado uma autoridade aceite, gozando de acesso imediato aos meios de comunicação – apareceria cada vez mais na televisão – encontrando um decrescente desafio dentro do país. Em breve estava a pedir o fim do anti fascismo como ideologia oficial na Itália. Em meados dos 90 explicava que o papel da Resistência no que foi de facto uma guerra civil no Norte, na qual as lealdades à República de Salò tinham sido subestimadas, tinha de ser desmistificado. O seu oitavo e último volume, incompleto à sua morte, saiu em 1997. No total, de Felice dedicou 6500 páginas à vida de Mussolini, mais do triplo da extensão da biografia de Hitler por Ian Kershaw e proporcionalmente mais longas até do que a vida autorizada de Churchill por Martin Gilbert: o maior monumento singular a um líder do século 20.

A escala da obra, mal escrita e muitas vezes arbitrariamente construída, não foi igualada nunca pela sua qualidade. A sua força reside na pesquisa infatigável em arquivos por de Felice e na sua insistência numas poucas verdades irrepreensíveis, principalmente em que os militantes do Fascismo como movimento tinham vindo na maior parte da classe média baixa, que o Fascismo como sistema atraiu o apoio de homens de negócios, de burocratas e das mais altas classes sociais em geral e que no seu apogeu o regime comandou um largo consenso popular. Estes achados, nenhum particularmente original, quedavam na companhia incoerente das afirmações de que o Fascismo brotara do Iluminismo, que não teve nada a ver com o Nazismo, que o seu colapso assistiu à morte da nação italiana, e não menos, de um retrato do próprio Mussolini com dimensões desesperadamente exageradas, indulgente, como um grande político realista- ainda que com falhas. Intelectualmente falando, de Felice teve pouco do equipamento conceptual ou da amplitude do interesse de Ernst Nolte, cujo primeiro livro tinha precedido o seu. Mas o seu impacto foi muito maior, não só por força do peso absoluto da sua erudição, ou até do facto – fundamental por muito que seja óbvio – de que na Alemanha o Fascismo tinha sido desacreditado de forma muito mais absoluta do que na Itália, mas também por no fim da sua carreira haver tão pouca vida na cultura oficial do pós guerra a que ele se tinha pretendido opor. Significativamente, as demolições mais radicais do seu edifício vieram de Denis Mack Smith em Inglaterra e não de qualquer historiador italiano.

Mas se não houve nenhum verdadeiro equivalente ao Historikerstreit na Itália, em que de Felice poderia sentir que tinha realizado a maior parte dos seus objectivos, houve também uma viragem à direita das energias intelectuais em geral com contornos menos nítidos do que na Alemanha. O sucessor principal a de Felice, Emilio Gentile, dedicou se a amplificar o tema familiar de que as políticas de massas do século 20 foram versões secularizadas da fé sobrenatural, dividindo as em marcas malignas – Comunismo, Nazismo, nacionalismo – incluindo de religiões ‘políticas’ fanáticas e formas mais aceitáveis, nomeadamente o patriotismo americano, que constituem religiões ‘civis’: totalitarismo versus democracia em roupagens sagradas. Isto é uma construção que ganhou mais seguimento nos EUA ou no Reino Unido do que na própria Itália. O mesmo, paradoxalmente, poderia dizer se dos últimos frutos à esquerda do operaismo. Aí, o espírito sóbrio da enquête ouvrière 6 tinha falecido com a morte prematura de Panzieri em meados dos 60, e com a impulsão de Tronti e do jovem crítico literário – então igualmente incendiário – Alberto Asor Rosa, a sua perspectiva sofreu duas voltas drásticas.

De Tronti veio a convicção de que a classe trabalhadora, longe de ter de suportar transformações econômicas sucessivas às mãos da capital, era o seu demiurgo, impondo a empregadores e ao estado as mudanças estruturais de cada fase de acumulação. O segredo do desenvolvimento não residia nos requisitos econômicos impessoais da rentabilidade vinda de cima, mas na pressão condutora da lutas de classes vinda de baixo. De Asor Rosa veio o argumento de que ‘a literatura comprometida’ era um delírio populista, dado que a classe trabalhadora nunca poderia esperar beneficiar com as artes ou as letras dum mundo moderno no qual a cultura como tal era, por definição, irremediavelmente burguesa. Não se seguiu nenhum filistinismo cru, nem tolstoyanismo pobre de espírito. Pelo contrário, era apenas o Alto Modernismo de Mann ou Proust, Kafka ou Svevo, e o vanguardismo radical até, mas não depois, de Brecht que contavam como literatura – mas enquanto testemunhos tantos, de incomparável invenção formal, das contradições internas da existência burguesa, não enquanto legado de uso algum para o mundo do trabalho. A divisória entre os dois não podia ser ligada até pelas melhores intenções revolucionárias de um Mayakovsky: era da sua constituição.

Para fazer boa literatura, o socialismo não foi essencial. Para fazer a revolução, os escritores não serão essenciais. A luta de classes toma um caminho diferente. Tem outras vozes para se exprimir, se fazer entender. E a poesia não pode estar por trás dela. Porque a poesia, quando é grande, fala numa língua na qual as coisas – as coisas difíceis de luta e da existência diárias – assumiram já o valor exclusivo de um símbolo, de uma metáfora gigantesca do mundo: e o preço, muitas vezes trágico, da sua grandeza é que o que diz escapa à prática, para não regressar mais a ela.

Quando isto foi escrito, o objetivo era a linha oficial do PCI, e por trás dela Gramsci, que tinha acreditado que o movimento comunista era o legítimo herdeiro da cultura europeia mais elevada, da Renascença, Reforma e Iluminismo em diante e que entre os problemas ele tinha de resolver na Itália estava a ausência duma literatura popular nacional. Mas como os motins do fim dos 60 se desenrolavam, primeiro Tronti e logo Asor Rosa decidiram que fazia mais sentido trabalhar dentro do PCI, onde se podia encontrar a classe trabalhadora organizada no fim de contas, do que fora dele. Ao dar este passo, Tronti transpôs a sua visão da primazia das lutas na fábrica às atividades do partido na sociedade, radicalizando a numa teoria da autonomia da produção da política. Mais jovem do que Asor Rosa ou Tronti, e o mais intelectualmente ambicioso do trio, Massimo Cacciari concluiu então o que eles tinham começado, não meramente separando cultura e economia da política revolucionária, mas propondo uma dissociação sistemática de todas as esferas da vida e do pensamento modernos umas das outras como outros tantos domínios técnicos, cada um intraduzível num outro. Em comum estava apenas a sua crise, igualmente visível na física, economia neoclássica, epistemologia canônica, política liberal do virar de século para não falar da divisão do trabalho, das operações do mercado e da organização do estado. Apenas o ‘pensamento negativo’ tinha sido capaz de agarrar a profundidade desta crise – Schopenhauer, Nietzsche, Wittgenstein, Heidegger. O que Hegel tinha juntado, eles recusaram: síntese dialética de qualquer espécie.

O operaismo sempre fora anti historicista, ele era também anti humanista. Na Krisis de Cacciari (1976), encontrou agora inspiração na linha de pensadores niilistas, dos quais Nietzsche foi inicialmente o mais importante pela sua narrativa da vontade de poder, cuja encarnação contemporânea só podia ser o PCI. Mas não devia haver qualquer irracionalismo. O que a ‘cultura da crise’ exigia eram ordens e formas da racionalidade novas, específicas de cada prática. Assim ao guiar o partido em direcção aos seus objectivos, Weber e Schmitt – não Gramsci – foram os conselheiros indicados, cada um especialista em política como técnica lúcida, fria. Intelectualmente falando, uma rejeição mais meticulosa do Marxismo reverenciado no PCI, impregnado dum espírito hegeliano de síntese, seria difícil de imaginar. Mas, politicamente, a viragem nietzschiana do operaismo provou ser perfeitamente compatível com a linha oficial do partido no princípio dos anos 70. Porque o que poderia a vontade de poder querer dizer na Itália desse tempo? A resposta, argumentou Tronti, era clara: era a vocação do PCI para governar o país como o arquitecto duma aliança entre o trabalho organizado e o grande capital para modernizar a economia e a sociedade, de forma não diversa do New Deal na América, que ele sempre admirara – um pacto de salários e lucros contra o parasitismo das rendas.

O PCI, que sempre fora tolerante com as diferenças teóricas contanto que não ameaçassem com perturbação política, acomodou os defensores do pensamento negativo sem dificuldade – por esta altura não era já capaz de se comprometer criticamente com tais afloramentos exóticos de qualquer modo. Sensível ao prestígio de que estes viriam a gozar, na devida ocasião assegurou lhes honras na esfera política cuja autonomia tinham sustentado. Cacciari tornou se deputado do PCI antes de prosseguir fazendo carreira como prefeito de Veneza, onde está agora colocado; Tronti e Asor Rosa acabaram por ser feitos senadores. Inevitavelmente, o preço de tal integração num partido que tão conspicuamente falhou no terreno do poder em que eles o tinham nomeado, foi o desvanecer do operaismo como um paradigma coerente. Vinte anos depois, o PCI feito agora apenas memória, Asor Rosa comporia um melancólico balanço da esquerda italiana, ao qual ele e Tronti permaneceram fiéis à seu próprio estilo, enquanto Cacciari é hoje um ornamento da direita do Partido Democrático, combinando misticismo e tecnicismo – de forma nada desajustada para um admirador de Wittgenstein – numa política de outro modo muito semelhante à do New Labour. O legado intelectual do pensamento negativo foi pouco mais do que um culto árido de especialização e concomitante despoliticização, para quem veio depois.

Na encruzilhada do final dos 60, Negri seguiu na direcção contrária, defendendo não um compacto entre capital e trabalho organizado, para a modernidade, sob a égide do PCI, mas uma escalada no conflito entre trabalho não organizado – ou desempregado – e o estado, em direcção à luta armada e à guerra civil. Depois do esmagamento da Autonomia da qual tinha sido o teórico, e da sua detenção por um magistrado comunista por acusações fraudulentas de ter idealizado a morte de Moro, o exílio em França produziu uma corrente constante de publicações, a mais notável sobre Spinoza. Aqui se preparou a metamorfose do trabalhador não fabril do fim do século 20 da Autonomia Operaia na figura do século 17 da ‘multidão’ noImpério, escrito com Michael Hardt, aparecendo nos Estados Unidos muito antes de se ver impresso em Itália. Desde que famoso, o impacto internacional de Negri foi mais vasto do que a sua influência nacional, embora exista um público seguidor mais jovem. O mesmo é verdade para Giorgio Agamben, uma chegada tardia à constelação, compartilhando muitos pontos de referência com Cacciari – Heidegger, Benjamin, Schmitt – mas com uma inflexão política, pô los à parte.

Vistas comparativamente, as semelhanças do operaismo com filamentos do gauchisme que floria em França na década de meados dos 60 a meados dos 70, são notáveis – ainda mais pela falta de qualquer contacto directo entre eles. Parece ter sido uma concordância objectiva que levou pensadores em volta do Socialisme ou barbarie quase pelo mesmo caminho dos em volta de Contropiano, dum obreirismo 7 radical a um subjectivismo anti fundacional – embora nos Negri ou Agamben mais tardios, com as suas dívidas a Deleuze ou Foucault, correntes franceses e italianas fluíssem directamente para dentro um do outro. O resultado contrastante das duas experiências deverá ser largamente explicado por diferenças na situação nacional. Em França o PCF não oferecia nenhuma tentação e a revolta de Maio Junho de 1968 foi tão breve quanto espectacular. Em Itália, onde a rebelião popular durou muito mais tempo, o comunismo era menos fechado e os pensadores eram significativamente mais jovens, a vida após a morte do operaismo permanece maior, se bem que confinada às margens.

A recuperação do Fascismo à direita, o eclipse do obreirismo à esquerda, mudaram o espaço do centro, no qual as versões seculares e clericais do juste milieu 8 têm tradicionalmente coexistido. Aí, paradoxalmente, o colapso da Democracia Cristã, terminando o domínio dum partido político abertamente Católico, em vez de diminuir o papel da religião na vida pública, redistribuiu o mais equilibradamente através do espectro político do que alguma vez no passado. Pois os votantes da DC não só muitas vezes se dividiram equilibradamente entre o centro direita e o centro esquerda, como também se revelaram o sector singular mais volátil do eleitorado, tornando os um ‘factor de oscilação’ ainda mais ansiosamente prezado pelos blocos em competição. Correndo atrás deles, antigos líderes do PCI, para não falar de ex radicais, caíram no fracasso ao explicar a sua sensibilidade religiosa privada, a assistência à missa desde tenra idade, a vocação espiritual oculta e outros requisitos de uma política pós secular. Com efeito, o que a Igreja perdeu com a passagem dum partido de massas de obediência estrita, ganhou com a difusão de uma influência, se porventura de temperatura mais branda, mais penetrante no conjunto da sociedade. Com isto houve uma descida a níveis da superstição não vistos há muitos anos: o fruto da ocupação por Wojtyla do trono papal, quando mais beatificações foram pronunciadas (798) e mais santos foram feitos (280) do que nos de cinco séculos anteriores todos somados, o número de milagres necessários para a santificação se cortou para metade e o culto grotesco do Padre Pio – um Capuchinho divinamente visitado por estigmas em 1918, autor dum qualquer número de feitos sobrenaturais – subiu pelos ares, chegando ao ponto da imprensa dominante poder com toda a seriedade discutir a veracidade dos seus triunfos sobre as meras leis da ciência.

Uma cultura secular capaz deste grau da complacência em relação à crença não será provavelmente mais combativa em relação ao poder. Sob a Segunda República, a opinião nos órgãos centrais da cultura editorial italiana desviou se raramente da doxa 9 neoliberal do seu período. A maior parte da sua produção neste período não se distinguia do que se pode encontrar nos jornais neo tablóides da Espanha, França, Alemanha, Inglaterra ou doutro lugar. Nenhum comentarista com auto respeito deixou de pedir reformas que curassem os males de sociedade, para os quais o remédio era sempre a necessidade de mais competição nos serviços e no ensino, mais liberdade para o mercado na produção e consumo e um estado mais disciplinado e simplificado, com variações girando apenas quanto aos adoçantes a serem oferecidos a quem estivesse no extremo da recepção dos ajustamentos necessários. Uma conformidade deste tipo tem sido tão universal que não teria sido razoável ter esperado que colunistas e jornalistas italianos mostrassem mais independência de espírito. A atitude da imprensa em relação à a lei é outra questão. Na vanguarda dos matizes e gritos contra a classe política da Primeira República- depois dos magistrados terem lançado ataque à sua corrupção – a imprensa revelou se notavelmente submissa desde que Berlusconi se estabeleceu como peça central da nova ordem, limitando se na sua maioria a críticas proforma, sem uma ponta da guerre à l’outrance 10 que lhe poderia realmente ter causado danos ou expulso de cena.

Para isso, o seu fogo teria tido de ser dirigido não apenas contra o próprio Berlusconi, mas também contra os juízes que regularmente o absolveram, o estatuto de limitações que esvaziou as acusações contra ele, as presidências que lhe asseguraram imunidade e os partidos de centro esquerda que o tornaram num interlocutor de facto prezado e aceite. Nada pode estar mais longe do sentido geral da imprensa nesses anos, onde as queixas por negligência são regularmente tingidas de medo e servilismo. A debilidade deste registo é realçada pelas raras excepções. Dessas, uma destaca se acima de todas, a do repórter Marco Travaglio, cujas acusações implacáveis não somente das criminalidades de Berlusconi ou Previti, mas do sistema inteiro de conivências que os protegeu, e não somenos as da própria imprensa, têm pouco paralelo no mundo amansado do jornalismo europeu desses anos. Sem surpresa, Travaglio, cujos livros se venderam às centenas de milhares, é uma figura da direita liberal, exprimindo se com uma ferocidade e uma liberdade de tom quase desconhecidos à esquerda [†].

Na Europa – isto não é verdadeiro, pelo menos do mesmo modo que na América – o mundo dos meios de comunicação por via de regra reflecte mais do que cria a condição duma cultura, cuja qualidade depende, no final de contas, muito mais do estado das universidades. Em Itália, notoriamente, estas permaneceram arcaicas e subfinanciadas, muitas reservatórios da intriga burocrática e da clientela baronial dos departamentos. O resultado foi uma perda constante das melhores mentes do país para postos no estrangeiro. Virtualmente cada uma das disciplinas foi afectada, como demonstra o rol de eruditos principais baseados ou a trabalhar por longos períodos nos Estados Unidos: Luca Cavalli Sforza na genética, Giovanni Sartori na ciência política, Franco Modigliani na economia, Carlo Ginzburg na história, Giovanni Arrighi na sociologia, Franco Moretti na literatura, a quem nomes mais jovens poderiam ser acrescentados. Não uma diáspora num sentido forte, uma vez que quase todos mantiveram as suas ligações à Itáia, a maior parte ainda participando dum modo ou doutro na sua vida intelectual, a sua ausêcia contudo enfraqueceu obviamente a cultura que os produziu.

Se é provável algum recrutamento comparável provir das circunstâncias dos últimos anos, está para se ver. A julgar pela aparência, as possibilidades pareceriam fracas. Mas seria um erro subestimar a profundidade das reservas das quais o país pode sacar. Um relance pela Espanha, cuja modernização é agora muitas vezes apoiada por Italianos autocríticos como modelo do que perderam, é uma lembrança delas. Embora o seu crescimento económico fosse mais alto, o sistema de transportes mais rápido, as instituições políticas mais funcionais, o crime organizado menos espalhado e o desenvolvimento regional mais igual – todos os ganhos reais em relação à Itália – a Espanha permanece em comparação uma cultura provinciana, com uma vida intelectual muito mais estreita e mais derivada, cujo relativo atraso é sublinhado pelas modernidades que a rodeiam. Com todo o mau estado do país, a contribuição italiana para as letras contemporâneas é duma ordem diferente. Nenhum país na Europa, de facto, produziu recentemente um monumento de erudição global que iguale os cinco volumes da história internacional e da morfologia do romance editados por Moretti, e publicados pela Einaudi – uma empresa de magnificência peculiarmente italiana, de cuja escala o leitor anglófono tem só um vislumbre na versão de segunda mão, parcimoniosa em compaixão e espírito, editada por Princeton. Nem é tão pouco difícil encontrar exemplos duma capacidade italiana incessante para abanar no estrangeiro os paradigmas recebidos. As ‘Pistas’ de Ginzburg, para não falar do seu ensaio que reconstrói Dumézil, que nenhum historiador francês tentou, seriam um caso; o livro recente do classicista eminente Luciano Canfora sobre a democracia, censurado pelo seu editor indignado na Alemanha, seria outro; a demolição da ‘justiça internacional’ do cientista político Danilo Zolo, um terceiro. Tais tradições não morrem facilmente.

O que há de oposição política, além da ordem estabelecida inter partidos? De meados dos anos 60 em diante, o Comunismo italiano teve outro filamento, nem oficial nem operaista, que permaneceu mais autenticamente gramsciano que qualquer coisa que a sua liderança pudesse oferecer, ou por fim tolerar. Expulso em 1969, o grupo do Manifesto em torno de Lucio Magri, Rossana Rossanda e Luciana Castellina continuou a criar o jornal com aquele nome que permanece, até hoje, o diário genuinamente radical da Europa. Ao longo dos anos, foi esta corrente que produziu de longe a análise estratégica mais coerente e incisiva dos problemas que a esquerda e o país no seu conjunto enfrentam – descendente de Hegel, sem surpresa, fornecendo melhor equipamento para a tarefa do que a fascinação com Heidegger. Hoje o seu legado está no equilíbrio, as suas três figuras principais compondo memoriais da sua experiência, cada um dos quais será significativo. O primeiro a aparecer, a Ragazza del secolo scorso cuidadosamente elegante de Rossanda, tem sido um sucesso de vendas nacional. Mas em 2005 o seu jornal foi fechado, e o diário está agora, no meio do aperto do crédito, em risco de desaparecer. MicroMega, o espesso bimensal editado pelo filósofo Paolo Flores d’Arcais, não está em semelhante perigo, sendo parte do império editorial cujas peças de exibição são o diário romano La repubblica e a revista de notícias semanal L’espresso. Sob a Segunda República, Flores tornou o seu jornal o organizador da frente mais inflexível e eficaz da hostilidade a Berlusconi na Itália, desempenhando um papel político único na UE para uma publicação intelectual deste tipo. Um ano depois da vitória do centro direita em 2001, foi daí que uma onda de protestos de massas contra Berlusconi impressionante foi lançada, de fora e contra a passividade do centro esquerda.

Entre esses, duas outras figuras desempenharam um papel central. Uma foi Nanni Moretti, o actor/realizador mais popular do país, cujo cinema tem seguido a pista da dissolução do PCI e das suas partículas por mais duma década de modo crítico, se bem que muitas vezes encantador. O outro foi o historiador Paul Ginsborg, autor de duas das mais preponderantes histórias da Itália do pós guerra, um Inglês a dar aulas na Florença distinguido não só como erudito mas agora como cidadão no seu país adoptivo. Na segunda das suas histórias, cobrindo o período de 1980 a 1996, publicada em inglês com o nome Italy and Its Discontents(e nesta edição chegando apenas em 2001), Ginsborg avançou a hipótese de que, com todo o egoísmo e ganância do seu estrato yuppy – os ceti rampanti que floresceram sob Craxi – existia a seu par na classe média italiana um sector de profissionais mais atenciosos, com consciência cívica e de empregados públicos (ceti medi riflessivi) quem eram capazes de acções altruístas e que formaram uma fonte potencial de renovação da democracia italiana. A proposta encontrou algum cepticismo quando a desenvolveu. Mas em 2002 tornou se realidade. Uma vez que foi a camada que ele identificara que essencialmente forneceu as tropas para as manifestações contra Berlusconi desse ano.

Nisso, contudo, também residia a sua limitação. A forma distintiva que assumiam – manifestantes dando se as mãos em volta de edifícios públicos – foi rapidamente alcunhada como girotondi na imprensa, ou canção de vai de roda ‘O Anel’. Pretendendo simbolizar o espírito pacífico, defensivo do movimento, o resultado foi dar lhe o ar demasiado fácil dum jogo de crianças. Os partidos de centro esquerda, não só não gostando da repreensão que lhes era feita, mas temendo a competição política, fizeram pouco para esconder a sua hostilidade. Os girotondini não responderam na mesma moeda. Determinados em evitar qualquer acções tempestuosas do tipo da que fora ao encontro do G7 em Génova e esperando em vão por uma aliança com líderes sindicais penhorados ao centro esquerda, o movimento viu se inibido de montar qualquer ofensiva mais dura contra o governo, menos ainda contra os seus cúmplices da oposição e, por fim, desfeito pela sua auto imagem de bon enfant, não se pôde sustentar.

Quando, para fúria de Veltroni, o MicroMega corajosamente apelou a outra manifestação de massas contra o regresso de Berlusconi ao poder na Piazza Navona no Verão passado, as contradições subjacentes dos girotondini irromperam de forma visível, Moretti e metade da plataforma dissociando se dos oradores mais radicais, que esta vez não pouparam Napolitano, o PD ou a Rifondazione Comunista. Tal como as circunlocuções impenetráveis da Primeira República tardia produziram como reacção as cruezas calculadas da Liga do Norte, também nesta ocasião o puritanismo da maior parte da retórica dos girotondi, mais dados a implorar do que atacar ferozmente, fez detonar o seu contrário, uma rudeza exibicionista em imagem e idioma – as gabarolices de quarto de Berlusconi virtualmente convidam a isso – desde comediantes famosos por detestarem a classe política, ao embaraço agudo dos que pareciam os mais bem comportados da praça, mas aparentemente não, a ajuizar pelas sondagens de opinião, até à maior parte do próprio eleitorado de centro esquerda. Politicamente falando, o episódio pode ser lido como uma micro versão da polarização dos anos 70, ansiosas propiciações de cima mais uma vez provocando explosões iradas a partir de baixo. No Outono, tais tensões dissolveram se na torrente de protestos estudantis contra os cortes no financiamento do ensino e a compressão da escolaridade, aprovada pela votação do centro direita e uma – mais limitada – mobilização de sindicatos contra a resposta económica do governo à recessão global. As concessões ganhas são de menos significado do que a escala dos próprios movimentos. Mas esse padrão de retiradas tácticas de Berlusconi e de vagas temporárias de ira popular contra ele não é novo. Como isto se poderia alterar, à medida que pioram as condições económicas, está para se ver. Deixando para trás os perigosos instrumentos do carpinteiro e do agricultor, a esquerda italiana adoptou um símbolo após outro, do reino vegetal ou saído do nada – a rosa, o carvalho, a oliveira, a margarida, o arco íris. Sem algum lampejo de metalurgia, parece pouco provável que faça muito progresso.

[*] o termo italiano não tem a conotação anti intelectual de workerism em inglês, ou ouvriérisme em francês.

[†] L’odore dei soldi, de Marco Travaglio e Elio Veltri (Editori Riuniti, 2001); La scomparsa dei fatti (Il Saggiatore, 2006); Mani sporche, de Marco Travaglio, Gianni Barbacetto e Peter Gomez (Chiarelettere, 914 p., €19.60, 2007, 978 88 6190 002 8); Il bavaglio, de Marco Travaglio, Peter Gomez e Marco Lillo (Chiarelettere, 240 p., €12, 2008, 978 88 6190 062 2).