14 de fevereiro de 2010

O que fazem os impérios?

por Michael Parenti

Countercurrents

Tradução / Quando em 1995 escrevi o livro Against Empire, alguns dos meus compatriotas estadunidenses, tal como seria de esperar, consideraram que era um erro chamar os Estados Unidos de império. Acreditava-se generalizadamente que os governantes dos EUA não buscavam o império; intervenham lá foram só como auto-defesa ou para operações de resgate humanitário ou para derrubar a tirania, combater o terrorismo e difundir a democracia.

Mas por alturas do ano 2000 toda a gente começou a falar dos Estados Unidos como um império e a escrever livros com títulos como Sorrows of Empire, Follies of Empire, Twilight of Empire, ou Empire of Illusions – todos referindo-se aos Estados Unidos quando falam de império.
Mesmo conservadores começaram a utilizar a palavra. Admirável. Podia-se ouvir sabichões da extrema-direita a anunciaram na televisão estado-unidense: "Somos um império, com todas as responsabilidades e oportunidades do império e é melhor acostumar-nos a isso", e "Somos o país mais forte do mundo e temos todo o direito a actuar como tal" – como se ter o poder desse aos líderes dos EUA um direito inerente a exercitá-lo sobre outros como quisessem.

"O que está a acontecer?", perguntei-me na altura. Como é que tantas pessoas sentem-se livres para conversarem acerca de império querendo dizer que os Estados Unidos são um império? A ortodoxia ideológica sempre foi que, ao contrário de outros países, os EUA não se entregavam à colonização e à conquista.

A resposta, percebi, é que a palavra havia sido despida do seu pleno significado. "Império" parecia agora significar apenas domínio e controle. O império – para a maior parte destes críticos de fresca data – preocupa-se quase exclusivamente com poder e prestígio. O que está habitualmente a faltar deste discurso público é o processo do império e o seu conteúdo político-militar. Por outras palavras, enquanto ouvimos um bocado acerca do império, ouvimos muito pouco acerca do imperialismo.

Mas isto é estranho, pois imperialismo e o que os impérios exercem. Imperialismo é o que o império faz. E por imperialismo não quero dizer o processo de estender poder e domínio sem considerar interesses materiais e financeiros. Na verdade "imperialismo" tem sido utilizado por alguns autores do mesmo modo oco com que utilizam a palavra "império", simplesmente para assinalar domínio e controle dando pouco atenção às realidades político-económicas.

Mas eu defino imperialismo como se segue: o processo pelo qual os interesses dos investidores dominantes num país fazem valer o seu poder económico e militar sobre outro país ou região a fim de expropriar a sua terra, trabalho, recursos naturais, capital e mercados de modo a enriquecer os interesses investidores. Numa palavra, impérios não buscam apenas "poder pelo objectivo do poder". Há interesses materiais reais e enormes em causa, fortunas a serem feitas muitas vezes repetidamente.

Assim, durante séculos os interesses dominantes da Europa Ocidental e depois da América do Norte e do Japão avançaram com os seus financeiros – e quando necessário os seus exércitos – para exigir direitos sobre a maior parte do planeta Terra, incluindo o trabalho de povos indígenas, seus mercados, seus rendimentos (através da tributação colonial ou controle da dívida ou outros meios) e os tesouros abundantes das suas terras: o seu ouro, prata, diamantes, cobre, rum, melaço, cânhamo, linho, ébano, madeira, açúcar, tabaco, marfim, ferro, estanho, níquel, carvão, algodão, milho e, mais recentemente: urânio, manganês, titânio, bauxita, petróleo e – digamos isto outro vez – petróleo. (ver em Hardly uma listagem completa)

Os império são enormemente lucrativos para os interesses económicos dominantes do país imperial mas enormemente custosos para o povo do país colonizado. Além de sofrerem a pilhagem das suas terras e recursos naturais, os povos destes países alvo são frequentemente morto em grande quantidade pelos intrusos.

Isto é outra coisa que os impérios fazem a qual muito frequentemente não é mencionada na literatura histórica e política de países como os Estados Unidos, Grã-Bretanha e França. Os impérios empobrecem populações inteiras e matam grandes quantidades de pessoas inocentes. Quando escrevo isto, o presidente Obama e o estado de segurança nacional para o qual ele trabalha estão a travar duas guerras e meia (Iraque, Afeganistão e norte do Paquistão) e a acenar ameaças militares contra o Iémen, o Irão e, num dia tranquilo, a Coreia do Norte. Ao invés de enviar ajuda médica e de resgate ao Haiti, o Nosso Bombardeiro envia-lhe os Fuzileiros Navais, os mesmos fuzileiros navais envolvidos em anos de assassínios em massa no Haiti décadas atrás e que apoiaram massacres mais recentes de forças por procuração.

O objectivo de toda esta matança é impedir países alternativos, independentes e auto-definidos de emergirem. De modo que o império utiliza o seu poder de estado para acumular riqueza privada para a sua classe de investidores. E utiliza a sua riqueza pública para sustentar o seu poder de estado e impedir outros países de se auto-desenvolverem.

Mas cedo ou mais tarde este esquema começa a enfraquecer sob o peso das suas próprias contradições. À medida que o império se torna mais ameaçados e mais assassino em relação a outros, ele se torna mais doentio e empobrecido dentro de si próprio.

Desde tempos antigos até os dias de hoje, os impérios sempre estiveram envolvidos na acumulação sangrenta de riqueza. Se não pensa que isto é verdadeiro em relação aos Estados Unidos então pare de chamá-lo "Império". E quando escrever um livro acerca de como ele dispõe as suas armas por todo o planeta, intitule-o "Tirano global" ("Global Bully") ou o "Mandão intrometido ("Bossy Busybody"), mas esteja certo de que não nos está a contar muito acerca de imperialismo.

6 de fevereiro de 2010

Algumas notas históricas sobre hegemonia

Perry Anderson



Começo com uma comparação. Diferentemente da Grande Depressão no entreguerras, deflagrada pelo colapso de Wall Street em outubro de 1929, a crise econômica atual, provocada pelo mesmo colapso em setembro de 2008, não veio repentinamente após um crescimento intenso e breve, mas como uma violenta convulsão dentro de um longo declínio das economias do capitalismo avançado, durando cerca de 35 anos, desde o começo dos anos 1970.

Em parte só por essa razão, ao contrário do que ocorreu na Grande Depressão, a presente crise foi prevista há muito tempo. Não pela ortodoxia econômica, obviamente, que foi pega completamente de surpresa, mas por especialistas marxistas de destaque da época. Devemos a mais abrangente explicação – desenvolvida teoricamente e detalhada empiricamente – ao historiador norte-americano Robert Brenner que, uma década antes da explosão, explicitou os mecanismos que iam em direção a ela.

Brenner identificou as razões para o longo declínio; viu as taxas de crescimento nos centros do capitalismo mundial caírem década após década, em um aumento severo da sobreprodução de suas indústrias de manufaturas. Esta foi determinada pela aderência do capital fixo antes empregado em plantas e equipamentos e, uma após a outra, as firmas líderes em um ramo de produção, bem como os novos e mais eficientes competidores que entravam nos seus mercados – tipicamente de economias nacionais rivais – aceitaram taxas de retorno mais baixas sobre os seus investimentos, em vez de uma saída mais perigosa e cara dos setores que eles tradicionalmente dominavam.

O resultado, argumentou Brenner, foi paulatinamente em direção a menores taxas gerais de lucro, comprimindo as de investimento e, com isso, o emprego e, por fim, a demanda. A solução natural para a consequente sobreprodução duradoura, continuamente agravada pela supercompetição, foi um catártico expurgo no sistema, eliminando os capitais menos competitivos em um processo de desvalorização em grande escala, capaz de permitir a acumulação e recomeçar em uma base mais dinâmica: em resumo, uma queda abrupta, com seus acompanhamentos como muitas quebras de bancos e desemprego em massa.

No fim do século XX, entretanto, os governos – lembrando as radicalizações dos anos 1930 e temerosos de consequências sociopolíticas deste drástico terremoto – fizeram o seu melhor para evitar quaisquer destas soluções clássicas para o declínio. Ao invés de deixarem o capital seguir o seu caminho natural para um período inescrupuloso e convulso de destruição criativa, eles engendraram uma enorme expansão artificial do crédito, para poupar-se: primeiro com o gasto deficitário do Estado e posteriormente com o fomento da frenética especulação financeira e das propriedades, como baixas taxas de juros e, finalmente, inundando o sistema imobiliário com serviços de cartões de crédito – nos Estados Unidos ao menos – garantidos por hipotecas secundárias. O resultado foi uma gigantesca bolha acionária, flutuando livre sobre uma enorme montanha de dívida. Confrontados com um desastre em uma escala desconhecida em três quartos de século, os governos reunidos do Norte não tiveram outro remédio senão dobrar suas apostas, desatando outra onda de débito com gigantescas compras de ações, taxas de juros próximas a zero e concessões aos consumidores. Para Brenner, isso é meramente administrar doses de veneno para um paciente que já está em estado terminal. Em toda a lógica capitalista, o único modo realista de sair de uma crise é uma verdadeira depressão, destruindo todos os capitais não competitivos e deixando apenas os mais fortes para prosperar.

Tal análise foi notoriamente ponderada por Giovanni Arrighi. Ele concorda que as causas destacadas para o longo declínio estão no mecanismo de supercompetição identificado por Brenner, mas afirma que o capitalismo historicamente saiu de crises comparáveis de outras formas que uma catastrófica desvalorização. A longa depressão do fim do século XIX, por exemplo, foi superada sem uma queda de proporções da década de 1930. A razão pela qual as resoluções para as crises diferem, ele defende, está em uma economia política de turbulência global mais abrangente, que Brenner erroneamente estreitou aos mecanismos puramente econômicos, negligenciando o panorama mais amplo das lutas políticas entre classes e Estados em que seus determinantes principais repousam.

O conceito crucial de hegemonia está faltando na descrição de Brenner, ao redor do qual Arrighi construiu seus últimos trabalhos. Ele, obviamente, tomou isto de Antonio Gramsci. Mas, se Gramsci concentrou-se, sobretudo, no fenômeno de hegemonia dentro dos Estados, Arrighi focou especialmente no fenômeno da hegemonia entre os Estados. A diferença não era total já que Gramsci tocou no último e Arrighi estava certamente também preocupado com o primeiro. Todavia, o contraste de ênfases é inequívoco. Para Gramsci, hegemonia era primordialmente uma relação nacional entre dominados e classe dominante, no interior de uma determinada sociedade. Para Arrighi, por outro lado, era primordialmente uma relação internacional entre as classes dominantes de diferentes sociedades, mesmo se seu alcance necessariamente se estendesse do plano horizontal das relações entre dominantes, ao plano vertical das suas relações com os subordinados.

O ponto de partida teórico que eles compartilhavam era, claramente, que a hegemonia é uma forma de poder que combina força e consenso, mas sob a primazia do último. A tese de Arrighi era essa. Internacionalmente, tal consenso – a hegemonia de um Estado sobre todos os outros – é conquistado por um modelo superior de produção e consumo, que induz não apenas a aceitação dos ideais e valores do hegemon, mas a imitação generalizada pelos outros Estados. Em troca, tal hegemonia rende benefícios aos grupos governantes de todos os Estados ao determinar regras previsíveis para o sistema internacional e policiamento às ameaças comuns. A hegemonia, neste sentido, deve ser contrastada com a mera “dominação exploradora”, na qual um Estado poderoso extorque obediência ou tributo dos outros pelo exercício da violência, sem conferir benefícios compensatórios por eles.

Ao mesmo tempo, como modo mais avançado de organizar a economia e a sociedade da época, tal hegemonia traz consigo uma expansão mundial de forças produtivas que beneficiam as classes sujeitadas também, assegurando seu consenso à maior ordem hegemônica. “Onde quer que esteja a dominação”, escreve Arrighi, será concebida de um resquício primário de hegemonia de coerção “o poder adicional acumulado por um grupo dominante pela virtude de sua capacidade de colocar todos os temas ao redor dos quais os conflitos são disputados em um plano ‘universal’”.

O que isso significa nas relações interestados? Hegemonia, aqui, é definida como a liderança mundial acumulada por qualquer Estado que pode “crivelmente alegar ser a força motora de uma expansão geral dos poderes coletivos dominantes vis-a-vis os subordinados” ou “crivelmente alegar que a expansão do seu poder relativo a alguns, ou mesmos a todos os outros Estados, está no interesse geral dos subordinados de todos eles”. Para Arrighi, essas alegações são realizadas, não apenas por certa administração, mas pela transformação do sistema de Estados pré-existentes. O que envolve tal transformação? Estruturalmente, o que ela traz é uma nova combinação de “capitalismo” e “territorialismo”: as independentes, mas intercomplementares dinâmicas da acumulação de capital em nível de iniciativa privada e a expansão territorial em termos de Estado.

Tal é o contexto que, então, gera a sucessão de hegemonias mundial-históricas seguidas no livro O longo século XX . Após as proto-hegemonias das cidades-estado de Veneza e Gênova na Itália da Renascença, a narrativa de Arrighi move-se para as três grandes hegemonias, como ele vê, da idade moderna: primeiramente a República Holandesa no século XVII; depois a britânica no século XIX; e finalmente a dos Estados Unidos no século XX. O que leva esta sequência para a frente? Essencialmente, os ciclos da acumulação de capital sob o sinal da fórmula de Marx D-M-D’. A expansão capitalista, cujas firmas mais avançadas estão concentradas no hegemon, é inicialmente material – investimentos na produção de bens e conquista de mercados.

Depois, como a supercompetição leva à queda dos lucros, porque ninguém no bloco do capital pode controlar o espaço no qual os rivais desenvolvem novas técnicas ou produtos, forçando os preços para baixo. A acumulação no hegemon – e mais amplamente – muda para a expansão financeira, na medida em que os Estados rivais competem pela mobilidade do capital nos seus impulsos por expansão territorial. Com a intensificação da rivalidade, e tipicamente dos conflitos militares, a hegemonia se rompe, conduzindo a um período de caos sistêmico, no qual novas classes sujeitadas começarão a se afirmar. Fora deste período de caos sistêmico, de guerras e de conflito civil, um novo poder hegemônico finalmente emerge, recomeçando um ciclo de expansão material sobre uma fundação nova e mais ampla, capaz de servir aos interesses de todos os Estados e, alguns ou todos, os interesses dos seus subordinados.

Nesta sequência, cada hegemonia sucessiva tem sido mais inclusiva, desfrutando uma mais ampla e poderosa base territorial e social que a última – a República Holandesa é ainda um híbrido oligárquico entre a cidade e um Estado-nação, a Bretanha vitoriana um Estado-nação censitário, os Estados Unidos um Estado continental totalmente democratizado.

Onde, então, estamos nós hoje nesta história? Como Brenner, Arrighi defendeu longa e lucidamente que a expansão material do capitalismo no pós-guerra, sob a hegemonia norte-americana, retraiu nos anos 1960, dando lugar a um ciclo de expansão financeira desde a crise do começo dos anos 1970, explorada pelos Estados Unidos para reter seu poder mundial neste período. Por volta do fim do século, entretanto, esse ciclo de expansão estava se tornando cada vez mais insustentável e a sua final implosão viria com uma crise terminal da hegemonia norte-americana.

Contudo, apesar de rigorosamente cíclica na forma, a trajetória do capitalismo nunca se repete precisamente. Historicamente, a situação presente foi marcada por duas novidades, comparadas com a predecessora. Primeiramente, os conflitos sociais tempestuosos – lutas de trabalhadores no Norte e movimentos de libertação nacional no Sul – não floresceram, como no passado, não foram seguidos, mas precedidos e, em grande medida, precipitados na passagem original da expansão material para a financeira nos anos 1970. Em segundo lugar, uma bifurcação sem precedentes entre poder militar e financeiro se ampliou quando a hegemonia dos Estados Unidos entrou em convulsão, já que ainda retêm a predominância global devastadora de forças armadas, mesmo enquanto afundam no status de nação devedora, já que o caixa-registrador do mundo se move para a Ásia do Leste.

Mas ao contrário, a característica geral do tempo por vir, era como se ele sempre tivesse estado no passado. Mais uma vez, com a passagem de um hegemon, um tempo de caos sistêmico está pela frente.

O que poderia finalmente emergir disto? Em meados dos anos 1990, Arrighi disse que há três possibilidades. Poderia haver uma nova guerra mundial, capaz de destruir o planeta. Poderia haver uma reação negativa compulsiva a um império mundial dirigido pelo Ocidente – norte-americano e europeu combinados.

Finalmente, e com sorte, poderia emergir o que ele chamou de uma sociedade igualitária de mercado mundial, na qual a hegemonia desapareceria porque as diferenças de classe dentro dos Estados não seriam mais profundas e as relações entre eles estariam baseadas no respeito mútuo e igualdade; em outras palavras, um mundo para além do capitalismo, centrado no leste asiático. No período da sua morte, neste ano, Arrighi estava mais seguro. Os perigos de uma guerra retrocederam e a chance de um novo império mundial pan-ocidental tornou-se remota.

Um tema central no seu último livro, Adam Smith em Pequim , foi que o crescimento da China e a promessa de que ela defenderia uma ordem mundial igualitária, tinham decisivamente alterado o panorama global. Havia indícios de que a humanidade poderia, por sua vontade, deixar a hegemonia como uma estrutura de poder desigual, para trás. De fato, nós poderíamos agora esperar que estivéssemos nos movendo em direção a uma era “após hegemonia”, como um mundo no qual o capitalismo teria finalmente sido transcendido.

Pode-se notar que há uma segregação conceitual decisiva entre Brenner e Arrighi que rege a diferença no modo como vislumbram o desdobramento lógico da crise presente – expurgo sistêmico para um e caos sistêmico para outro. Essa diferença situa-se no fato de que enquanto o marco comum é um sistema de competição, a unidade básica de análise de Brenner é a firma, enquanto a de Arrighi é o Estado, mesmo se isto certamente depender dela e incluí-la. A hegemonia, ausente em Brenner e central para Arrighi, entra em termos de Estado, como um conceito preeminentemente político, regulando tanto as relações entre nações, como entre as classes. Uma implicação tácita, mas inequívoca da teoria de Arrighi é que a existência de um poder hegemônico é um pré-requisito para o sistema capitalista funcionar normalmente – sem ele, falando historicamente, o sistema deverá cair em uma condição de caos. O que, então, define tal hegemonia internacional?

Para Arrighi, como vimos, ela deve envolver uma nova combinação de capitalismo e territorialismo. Na dialética entre estes dois, entretanto, não há uma questão de qual tem a vantagem, são os ciclos de acumulação de capital, e não a aquisição de território, que direcionam a transição de uma hegemonia histórica a outra. Note-se, entretanto, que nesta fórmula geral para uma hegemonia internacional, não há especificação atual da natureza do Estado que é portador. Mas por falta de alternativas, por assim dizer, os Estados relevantes devem, de uma forma ou outra, após toda uma história de ciclos sucessivos de acumulação de capital, ser capitalistas. “Territorialismo”, como oposto ao capitalismo, se torna, de fato, uma categoria residual.

Então, nós podemos perguntar: é esta dupla – capitalismo/territorialismo – suficiente para captar a trajetória essencial do sistema interestatal desde a Renascença? Há motivos para duvidar, pois o que a noção puramente espacial de “territorialismo” abstrai é a mudança na natureza social e ideológica – em outras palavras, a diferenciação do caráter de classe – dos Estados territoriais líderes nesse período e os conflitos gerados por eles. Outra forma seria dizer que o simples esquema capitalismo/territorialismo corre o risco de pré-datar o predominante e homogeneamente solitário sistema capitalista mundial por alguns séculos.

Quais as consequências desse pré-datar? Num primeiro momento, podemos discutir se houve de fato uma hegemonia mundial holandesa no século XVII. Não há dúvida de que as Províncias Unidas foram o primeiro Estado territorial importante onde as relações de produção predominaram no campo e nas cidades, e onde uma oligarquia burguesa chegou ao poder. Mas seguiu sendo um Estado pequeno, em tamanho e população, que dominou os mares por um breve período e cujo império de além-mar nunca foi da mesma ordem do que o da Espanha ou de Portugal. Não tinha a capacidade para hegemonizar a Europa do Grand Siècle , não apenas em virtude de suasmagnitudes.

De modo mais fundamental, por estar socioeconomicamente à frente de seu tempo, estava desconectado das principais estruturas de poder de classe e extração de mais-valia do período. A maioria da produção europeia seguia agrícola, e o campo permanecia sob domínio de formas e relações de produção senhoriais, não capitalistas, num contexto em que o tipo emergente – ainda novo – dos principais Estados continentais era o nascente absolutismo, personificando o poder social da nobreza rural, não da burguesia mercantil. É difícil ver como as Províncias Unidas, sendo ainda uma anomalia dentro do campo econômico e político, poderiam ser um guia ou uma liderança para Estados tão diferentes delas; de certo modo Arrighi nota isso, quando diz que a Holanda não poderia jamais governar o sistema internacional que se cristalizou em Vestfália.

Se houve um Estado que poderia ser descrito como hegemônico na Europa do século XVII foi a França de Richelieu e Luís XIV, que levou ao fim o domínio prévio da Espanha, antes de ser derrubado por uma aliança das principais potências. Mas ele nunca foi realmente uma hegemonia, por este motivo. O que codificou-se no Tratado de Vestfália foi algo diferente, que inibiu hegemonias, para ser preciso um sistema de equilíbrio de poder, planejado para impedir que um Estado pudesse adquirir um controle sobre outros Estados, do mesmo tipo que os governantes de cada Estado tinham sobre suas populações.

No século XIX, a hegemonia britânica parece um caso muito mais convincente: por um lado, porque a revolução industrial iniciada pela Inglaterra teve um impacto transformador e difundido globalmente muito além do que o capitalismo meramente comercial da Holanda poderia fazer; por outro lado, pela vasta extensão que o império adquiriu antes e depois da revolução industrial, chegando a cobrir um quarto da superfície terrestre. Mas aqui também é necessário refinar a descrição com a especificação do caráter classista do tabuleiro europeu.

Uma das razões pelas quais pode se falar de hegemonia britânica após 1815 é o abandono do equilíbrio de poder como princípio que rege as relações interestados no Congresso de Viena. No lugar, criou-se algo novo, a Pentarquia ou a Concertação da Europa: um sistema no qual todas as principais potências – Rússia, Prússia, Áustria, Inglaterra e França – concordaram em impor uma ordem contrarrevolucionária comum contra as massas cuja insurgência as havia aterrorizado nos levantes da Revolução Francesa e nas subsequentes mobilizações da Grande Armée de Napoleão.

Confrontados com esse mesmo perigo, os cinco grandes Estados da Europa concordaram em deixar de lado suas rivalidades e respeitar as regras de jogo comuns, sem equilíbrio uns contra os outros, mas cooperando para garantir a paz e eliminar sedições. Isso não quer dizer que houve equalização de poder dentro da Pentarquia. Não uma, mas duas potências claramente sobressaiam-se das demais, as arquitetas gêmeas da vitória sobre Napoleão – Inglaterra e Rússia. Como mostrou o grande historiador da diplomacia Paul Schroeder, o que emergiu após 1815 foi uma hegemonia partilhada desses dois Estados dentro da Concertação da Europa. Era uma hegemonia real, na medida em que se baseava no consentimento de outras potências, que eram aliadas, não inimigas, na causa contrarrevolucionária.

Simultaneamente, entretanto, fora da Europa cada um dos dois hegemons – para não falar das outras potências – seguia sua própria expansão imperial, construindo impérios baseados não em consentimento diplomático, mas na violência da conquista militar. Nisso, a Inglaterra, soberana dos mares desde o século XVIII e agora zona industrial do mundo, não tinha rivais. Mas seus poder e influência não eram ilimitados. Na Ásia Central e no Nordeste asiático, não era párea para a expansão russa, e estava permanentemente nervosa com os avanços czaristas na Pérsia, Afeganistão e Tibet, além dos territórios otomanos. Na África, a França construiu seu maior império. Nas Américas, os Estados Unidos tomaram muito do México e estenderam sua influência no sul. Nessa dinâmica planetária, foram cálculos acertados de equilíbrio de poder, não liderança hegemônica, que mantiveram a paz até o início do século XX. Com a breve exceção da França, as outras potências não deram, evidentemente, muita atenção às doutrinas de livre-comércio inglesas – principalmente Alemanha e Estados Unidos.

Após um tempo, claro, a Concertação da Europa colapsou completamente, assim que a Prússia se transformou em Alemanha, com um poder industrial e militar maior do que o da Inglaterra ou Rússia, mas impedida de formar um império ultramarino comparável, e o subsequente desequilíbrio desencadeou na catástrofe interimperialista da Primeira Guerra Mundial. Com isso, a hegemonia inglesa chegava a seu fim.

Com a hegemonia norte-americana, a história foi diferente. Há três contrastes fundamentais com sua predecessora britânica, para além dos que Arrighi assinalou tão bem. O primeiro é o peso ímpar da economia norte-americana no mundo, comandando uma parcela do PIB global muito maior do que a Inglaterra vitoriana poderia aspirar e configurando uma sociedade e um Estado colossalmente mais ricos. O segundo é o caráter puramente capitalista da formação norte-americana desde sua origem, sem passar por experiências feudais ou aristocráticas.

A rivalidade interestado na Europa foi sempre territorial, por meio da competição senhorial; da Idade Média em diante, o que importou foi sempre terra, não mercados, e os Estados absolutistas foram construídos em expansões sucessivas de territórios submetidos a diferentes tipos de renda. A mesma dinâmica pode ser vista na Inglaterra, onde o Estado permaneceu nas mãos da classe fundiária durante o século XIX, e muito da anexação colonial respondeu não a uma lógica imediata do lucro, mas ao que Schumpeter corretamente identificou como um reflexo atávico de todas as aristocracias europeias. Assim que as populações autóctones foram exterminadas e os colonos tomaram o controle da América do Norte, de costa a costa, o capitalismo norte-americano não seguiu o mesmo caminho: a conquista de mercados, não o controle sobre terras, foi a chave do poder global.

Nenhuma das potências do entreguerras entendeu a lição, na medida em que Inglaterra, França e Holanda se mantiveram presas a suas colônias ultramarinas, e Alemanha, Japão e Itália buscaram uma expansão territorial equivalente, afundando mais uma vez a Europa e o Extremo Oriente numa conflagração global.

A terceira característica da hegemonia norte-americana foi a mais fundamental de todas. A emergência de um vasto bloco comunista em um terço das terras do planeta – que aboliu as relações de produção capitalistas e ameaçou espalhar revoluções pelo globo – foi um fator mais crucial, para além da derrota militar da Alemanha e do Japão e da exaustão da Inglaterra e França na Segunda Guerra Mundial. Contra esse perigo, todos os principais Estados capitalistas não tinham escolha senão agrupar-se, como haviam feito no Antigo Regime depois da Revolução Francesa, em um bloco conservador, sob a proteção dos Estados Unidos.

A hegemonia norte-americana foi, nesse novo sistema interestados, muito mais completa do que a Inglaterra havia sido durante a Concertação da Europa. Isso não se deu apenas porque, em contraste com a Inglaterra, o poder global dos Estados Unidos não foi partilhado por outra potência; nem porque o suposto perigo do bloco comunista era uma força centrípeda mais forte, uma ameaça maior do que qualquer outra durante a Santa Aliança, formada sobre a derrocada napoleônica na França, atraindo outros Estados para o campo norte-americano,mas, acima de tudo, porque, diferentemente da Concertação da Europa composta de potências com regimes distintos de reação, indo da Antiga Corrupção na Inglaterra à autocracia czarista na Rússia, com um leque de relações de produção deslocando-se do capitalismo ao semifeudalismo e ao paleofeudalismo, no Mundo Livre dos anos 1950, todos os principais Estados ocidentais tinham homogeneamente regimes capitalistas liberais.

Nessas condições, a hegemonia como liderança por consentimento sobre aliados verdadeiros ou Estados subordinados aconteceu quase sem fricções, já que estava amparada pelo poder estratégico e econômico incomparável dos Estados Unidos.

Assim como no século XIX, tudo ocorreu diferente fora do círculo dos Estados avançados europeus. Lá os Estados Unidos criaram um império construído sobre violência, sem hesitar em remover aliados europeus de suas posições tradicionais quando o desejavam, sem anexação formal de território, baseando-se em bases militares e regimes clientelistaspara apressar o controle de uma parcela do planeta maior do que a Inglaterra havia controlado. Isso era da ordem do império, num sentido clássico, não da hegemonia. Os limites dos dois, claro, se encontravam nas fronteiras com o mundo comunista. Nesse sentido, falar de uma hegemonia global dos Estados Unidos após a Guerra foi sempre, quando tomado literalmente, dúbio. Seria mais correto falar de uma hegemonia partilhada, em que cada campo da Guerra Fria era liderado por sua própria superpotência. Isso era um tema dos escritos tardios de Mao, quando a China se rebelou contra o que ele chamava de hegemonismo soviético.

Para a linha de pensamento europeia – principalmente alemã – que desenvolveu na primeira metade do século XX a ideia de hegemonia dentro de um sistema de interestados que era, por definição, singular, só podia haver um hegemon por vez. Arrighi herdou tal premissa. Em sua narrativa, os primeiros foram os holandeses, depois os ingleses e, por fim, a hegemonia norte-americana, cada qual exclusiva em relação aos outros.

Qual a situação de hoje? Na perspectiva de Arrighi, a hegemonia norte-americana, enfraquecida por crescentes dívida externa e aventureirismo militar, além do levantar da China, entrou em crise terminal. Ele estava correto? Ele está correto? Se olharmos para o futuro imediato, cada um desses desenvolvimentos parece mais ambíguo do que ele deixou parecer. A dívida norte-americana é de tal magnitude que nenhum credor se permite questioná-la, por receio das consequências de um colapso. Os resultados das guerras no Iraque e no Afeganistão seguem incertos. Nenhum deles é um grande fardo econômico para os Estados Unidos, e o novo regime de Washington – supostamente esclarecido e multilateral – acredita, como o antigo – supostamente benigno e unilateral –, que pode prevalecer no fim; certamente, nenhuma derrota comparável ao Vietnã, na perspectiva de Washington, está à vista. No que tange à China, continua tão dependente dos consumidores e títulos norte-americanos para seu crescimento e estabilidade que não representa uma ameaça para o seu poder, pelo menos durante um longo período por vir.

E as projeções de longo prazo de Arrighi? Das alternativas que ele colocou, a possibilidade de uma nova ordem global do Ocidente é tão remota que nem o mais extravagante campeão da Euro-América a concebe. Sua outra conjectura, a visão de uma sociedade de mercado global igualitária, nas linhas de Smith, centrada no Leste Asiático, é mais plausível? Por mais que seja uma perspectiva atraente, deve-se questionar se é realista. Smith escrevia em outra era histórica, antes da revolução industrial e da corporação moderna, sem securização pós-moderna dos produtos financeiros. Falar do mercado sem especificar as relações de propriedade nas quais ele está colocado é uma abstração. Apenas sob a premissa de que a China – ou o Leste Asiático como um todo – não é capitalista, a sociedade de mercado global, independentemente de onde for seu centro, poderia se tornar qualitativamente diferentemente da ordem mundial que temos hoje.

Agora, mesmo se o futuro imediato e o horizonte de longo prazo das explicações de Arrighi não são inteiramente convincentes, seu diagnóstico de médio prazo – de que nós estamos indo para um tempo de caos sistêmico, em que qualquer tipo de hegemonia se coloca dentro de um contexto de crescentes conflitos sociais e internacionais – pode ainda estar correto. É esta previsão, deve-se lembrar, que marca a linha conceitual de divisão entre ele e Brenner. O que devemos pensar sobre isso?

A resposta a essa pergunta nos traz de volta à subespecificação da natureza social e ideológica dos Estados na narrativa histórica geral de Arrighi sobre hegemonias sucessivas. Uma consequência foi que a Guerra Fria, opondo Grandes Potências com caráter diametralmente oposto, nunca poderia ter seu lugar nessa narrativa e na prática foi amplamente ignorada. Mas se quisermos entender a principal mudança na posição dos Estados Unidos hoje, é esse conflito que temos de analisar, na medida em que é a vitória do Ocidente na Guerra Fria que a transformou. O colapso do bloco soviético e o começo da Era da Reforma na China levaram ao desaparecimento da ameaça da revolução socialista para o capitalismo, que era o fundamento da hegemonia norte-americana depois de 1945. A mudança pode ser colocada de modo muito simples: assim que o pancapitalismo chegou, não há mais motivo para um todo-poderoso escudo contra inimigos anticapitalistas. Agora, só restam Estados capitalistas amigos. Claro, nem todos os principais Estados são capitalistas na mesma medida, Rússia e China permanecem fora das normas completamente liberais do livre-mercado. Mas agora fazem parte do mesmo ecúmeno, partilhando interesses políticos e econômicos em comum com os próprios Estados Unidos, os principais Estados europeus e o Japão.

O resultado é, visivelmente, a emergência de uma nova Concertação das Potências, com assento no Conselho de Segurança e em encontros econômicos globais variados, unida em defesa de um status quo estratégico, em torno de seu monopólio de armas nucleares. Resoluções atuais da ONU contra a Coreia do Norte e o Irã e sobre o Líbano, o Iraque e o Afeganistão são o equivalente dos dias de hoje ao sistema de Congresso nos tempos de Metternich e Castelreagh, Alexandre II e Talleyrand. Na sua versão contemporânea, os Estados Unidos seguem hegemônicos, em virtude de continuarem com superioridade em armas, riqueza e ideologia: nenhuma outra potência está disposta a colocar-se em contraposição em relação a qualquer tópico sobre os quais insistem. Seguem hegemônicos porque essas são, em termos estruturais, aliadas na ordem mundial, não inimigas. Mas trata-se de uma hegemonia mais frouxa, mais flexível do que no passado, e a hierarquia que assume está sujeita, como Arrighi corretamente assinalou, a erosão.

Em termos políticos, assim, o panorama diante de nós não é um caos sistêmico, assim como não era nos anos 1820. Após a derrota do grande ciclo de revoluções que marcaram o século XX, trata-se de uma nova época de Restauração. Os paralelos são muito próximos, apesar de as diferenças também serem significantes. Hoje, como no tempo do Congresso de Viena, mesmo que agora em uma escala global e não mais continental, uma Pentarquia partilha o poder. Onde antes havia Inglaterra, Rússia, Prússia, Áustria e França, agora há América, Europa, Rússia, China e Japão. No antigo sistema do Congresso, nunca houve harmonia completa entre as potências: tensões e desacordos permaneceram, dentro de uma unidade comum em torno de mesmos objetivos. Ao mesmo tempo, os Estados na Pentarquia não eram todos parecidos: a Inglaterra parlamentarista, a França legitimista, a Rússia absolutista. Eram tipos diferentes de Antigo Regime. Também não havia igualdade de status dentro da Pentarquia: Inglaterra e Rússia – os dois opostos dentro de um leque de formas políticas – dominavam os outros, como hegemons conjuntos. Isso não impediu a coordenação diplomática, a tolerância mútua e a criação de um sistema consentido para negociar divergências entre as potências, que manteve uma paz contrarrevolucionária na Europa por quarenta anos.

A Pentarquia de hoje também inclui potências de tipos diversos. Os Estados Unidos, a Europa e o Japão formam um conjunto homogêneo de regimes liberal-democráticos – até mesmo por serem a frente política que lutou e venceu a Guerra Fria sob o comando norte-americano. Mas a Rússia, por mais que não seja mais comunista, segue distante do nível de democracia aceito no Ocidente, enquanto a China segue sob o governo de um partido comunista – isto é, aos olhos ocidentais, uma autocracia de nova estirpe.

Nessa relativa diversidade de formas políticas, a nova Pentarquia parece a antiga. Mas na ordem de suas funções e na natureza de seus mecanismos. difere. A Concertação das Potências do início do século XIX foi pensada para defender o acordo de Restauração do Congresso de Viena, garantindo que grandes guerras não poderiam deslanchar levantes sociais e que tumultos políticos poderiam ser rapidamente resolvidos, com intervenção armada para além de fronteiras, se necessário, caso o acordo fosse quebrado. A Concertação das Potências do início do século XXI certamente segue essas tarefas, mas não são a prioridade como eram para sua predecessora. O risco de conflitos militares entre elas se tornou uma perspectiva remota, e o perigo de grandes levantes sociais é muito menor do que na Europa da Restauração, onde seguiu agudo – o exemplo revolucionário de 1789 servindo como motivo de inflamação em 1820-1821, 1830 e 1848.

Isso não quer dizer, obviamente, que falta turbulência política. Mas a confiança de Arrighi de que as forças mundias do trabalho se levantavam dentro do ciclo de expansão financeira que acaba de terminar, não convence. Globalmente, os movimentos de trabalhadores seguiram quase em todos os lugares em refluxo nesse período, e não recuperaram seu ímpeto. Em quase todo o mundo, a resistência à ordem estabelecida veio de forças outras às da classe trabalhadora e com outras fés além do socialismo – especialmente no Oriente Médio e no Mundo Islâmico. Aí, além do ou no perímetro da Pentarquia, não é – como antes, no século XIX – a hegemonia que se impõe, mas o império. A violência norte-americana no Iraque, Afeganistão e Paquistão; violência russa na Chechênia; violência chinesa em Xinjang e no Tibet; violência europeia nos Bálcãs.

Mas se as tarefas estritamente militares e políticas da Concertação das Potências de hoje têm menos urgência ou prioridade das do passado, isso não quer dizer que o grau de coordenação entre elas é menor. Pelo contrário, é muito maior. Mas a chave para a concertação mudou. Agora é econômica – a defesa da estabilidade capitalista como tal. Num mundo onde a revolução industrial era ainda muito recente, confinada a apenas um punhado de sociedades, onde os principais Estados matinham um leque ainda maior de formas diferentes de produção do que de sistemas políticos e onde as maiores economias ainda eram relativamente desconectadas, isso não era o caso.

A antiga Pentarquia não se preocupava com mercados, lucros ou indústrias. Hoje, tudo isso mudou. No mercado mundial contemporâneo, a nova Pentarquia se mantém vinculada numa rede combinada de fluxos de comércio e investimento em uma interdependência compacta, na qual a prosperidade e a estabilidade de cada um dependem da dos outros. Nesse sistema, qualquer ameaça econômica a um dos Pentarcas se transmite aos demais, numa velocidade e numa escala inconcebíveis até agora, como os efeitos de difusão do colapso de Wall Street em setembro 2008 deixam claro. Consequentemente, o grau de intercomunicação e consulta dentro da Concertação das Potências de hoje é incomparavelmente maior do que no sistema de Viena, criando as incessantes ondas de encontros internacionais que vemos hoje. Nada é mais impressionante do que a velocidade e a uniformidade das respostas políticas à crise financeira atual da Pentarquia moderna, que antecipa movimentos para um sistema internacional ainda mais integrado de consultas mútuas e ação concertada.

Quão estável é a Concertação das Potências de hoje? Consideravelmente, dois Estados importantes, cujo peso econômico e político cresce, seguem tangentes. Nem o Brasil nem a Índia pertencem, até o momento, ao grupo central das Grandes Potências. Por mais que as razões para isso não sejam as mesmas nos dois casos, há três aspectos comuns que levam à separação desses dois países da Pentarquia. Primeiramente, os dois são democracias em sociedades nas quais a maioria da população é pobre – não apenas na Índia, mas também em muitas partes do Brasil, desesperadamente pobre, enquanto uma minoria é escandalosamente rica. Dada a competição eleitoral – ausente na Rússia ou na China –, os governos desses dois países não podem ignorar completamente as pressões sociais das massas. Em segundo, o crescimento econômico desses dois países tem acontecido com base no mercado doméstico num grau maior do que nos casos extremamente dependentes de exportações da China, principalmente, mas também do Japão, da Rússia ou do coração da União Europeia, a Alemanha. Assim, o índice de integração brasileira e indiana no sistema interconectado em que a Pentarquia domina, segue relativamente limitado. É significativo que cada um deles resistiu, até o momento, à crise financeira global, sem ter de abrir mão – diferentemente da China – de pacotes políticos de estímulo enormes.

Finalmente, apesar de razões opostas, nenhum é um membro credenciado da oligarquia nuclear – a Índia porque recusou assinar o evidentemente desigual e discriminatório Tratado de Não-Proliferação, desenvolvendo sua própria capacidade nuclear apesar dele, e o Brasil porque, sob um governo subalterno, assinou o tratado para agradar a Washington, apesar de até os governantes militares terem tido suficiente independência de espírito para rejeitá-lo. Apesar de armas nucleares não serem um requisito absoluto para integrar a Concertação das Potências de hoje – tanto que o Japão não as possui –, o Japão mostra que, sem elas, um grau ainda maior de subordinação aos Estados Unidos como hegemon se segue, diferentemente do que ocorre com outras potências, fato que o Brasil deve em breve descobrir.

Em outra perspectiva, tirando de lado a desvantagem nuclear, o Brasil desfruta de um ambiente regional que faz falta à Índia: a saber, a América Latina é a única parte do mundo, hoje, onde o capitalismo segue sob contestação, em formas variadas, por diferentes movimentos e em graus variados por diferentes governos, e onde ideais de solidariedade regional têm raízes culturais e políticas razoavelmente profundas. Não é um acidente que aí, e talvez apenas aí, as ideologias reinantes do Norte se depararam em anos recentes com resistências populares, uma após a outra, e que tentativas conscientes de limitar ou prevenir a já muito tradicional influência do hegemon nas questões do continente foram feitas. Não é preciso dizer muito sobre isso, na medida em que o Brasil tem Emir Sader, que escreveu com mais autoridade do que qualquer pessoa viva sobre os ciclos de revolução e contrarrevolução, reforma e repressão, na América Latina.

A estabilidade da Concertação das Potências não é, claro, apenas uma questão de sua composição atual como se o conjunto de regimes determinasse a direção do sistema político internacional. Sua estabilidade também é função da capacidade de forças antagônicas a esse sistema de desafiá-lo. Aí, a questão da hegemonia se coloca em um nível diferente. Classicamente, hegemonia tem sido entendida como nacional ou internacional – exercida entre classes dentro de um Estado ou entre Estados. Mas como o expoente pensador da esquerda chinesa Wang Hui colocou, hegemonia também opera em um terceiro plano, propriamente transnacional, cortando entre as fronteiras dos Estados para englobar toda a sociedade nacional. O ensaio no qual ele faz essa distinção se chama “Política despolitizada”. Tal política, ele afirma, marca uma nova era em muitas partes do mundo. O que política despolitizada quer dizer? Essencialmente, o cancelamento de qualquer ação popular, a capacidade de lutar por uma alternativa a um status quo que simula formas representativas para esvaziá-las de divisão ou conflito.

Tal política é despolitizada, mas não é desideologizada. Pelo contrário, é ideológica de cabo a rabo. Se nos perguntarmos sobre quais formas essa ideologia tomou nos anos recentes, podemos diferenciar dois níveis. O primeiro, e mais bem articulado, tem sido as doutrinas do neoliberalismo. Essas não só propuseram uma forma de olhar o mundo, mas – seu efeito mais poderoso – negaram a possibilidade de qualquer outra forma. Foi Thatcher, na Inglaterra, quem cunhou o famoso slogan do neoliberalismo do Norte, que capturou muito precisamente a essência da política despolitizada, como um acrônimo que também era um nome feminino – “TINA: There Is No Alternative” [Não há alternativa]. Não há alternativa, isto é, para o governo do livre-mercado sem regulamentação, a privatização das principais indústrias e de todo serviço possível; em suma, o reino irrestrito do capital. Essa ideologia, originada no Norte, mas primeiramente aplicada de modo sistemático no Sul, na América Latina – Bolívia, Chile e outros lugares – foi durante os anos 1990 verdadeiramente transnacional: hegemônica por virtualmente toda sociedade, apoiada por elites políticas, ministérios das Finanças e instrumentos de mídia em todo o globo.

Hoje, após vários falsos amanheceres, essa ideologia está finalmente se desintegrando. O neoliberalismo não saiu de cena, e seus defensores, temporariamente desorganizados no cerne da crise, já se reagrupam para entoá-lo uma vez mais. Mas no tempo presente está gravemente enfraquecido. A razão pela qual não está completamente acabado se deve ao contínuo apelo de seu slogan. Onde estão as alternativas? Quando a grande crise dos anos 1930 abalou o mundo, havia – já existentes – poderosas alternativas ao dogmatismo do laissez-faire da época: keynesianismo, inspirando o New Deal nos Estados Unidos; nazismo, que atingiu o pleno emprego na Alemanha de modo mais eficiente do que o New Deal; a socialdemocracia nascente na Escandinávia; sem falar dos Planos Quinquenais na Rússia. Por detrás desses programas, ademais, movimentos de massa altamente politizados eram organizados. Hoje, no Norte, tudo isso faz falta. Os de cima não têm nenhum programa alternativo a oferecer; os de baixo ficaram passivos e atordoados até o momento, sem agendas alternativas para mobilizá-los. Uma certa cegueira ideológica chega ao fim. A clarividência ainda precisa ser recuperada.

Em parte, isso se deve ao fato de, no alto nível das doutrinas formalmente articuladas, onde o neoliberalismo dominava a hegemonia transnacional do capital teve, e segue tendo, fôlego. Cito aqui Wang Hui. Ele escreveu:

Hegemonia diz respeito não só a relações nacionais ou internacionais, mas está intimamente conectada ao capitalismo transnacional e supranacional. Deve ser analisado dentro da esfera das relações de mercado globalizadas. [...] As mais diretas expressões do aparato mercadológico-ideológico são a mídia, a publicidade, o “mundo da compra” e assim por diante. Esses mecanismos não são apenas comerciais, mas ideológicos. Seu grande poder se baseia em seu apelo ao “senso comum”, necessidades corriqueiras que transformam as pessoas em consumidoras, voluntariamente seguindo a lógica do mercado em suas vidas cotidianas.

Aqui, consumismo é corretamente identificado com uma sustenção da hegemonia global do capital. Mas nesse nível também a estrutura da hegemonia atual é dupla. Consumo – sim: é o terreno da presa ideológica em um domínio da vida cotidiana. Mas o capitalismo, não devemos nunca esquecer, mantém em sua base um sistema de produção, e é no trabalho assim como no lazer que a hegemonia se reproduz cotidianamente, o qual Marx chama de “compulsão ao trabalho alienado”, que progressivamente adapta pessoas a relações sociais existentes, matando suas energias e capacidade de imaginar qualquer outra e melhor ordem do mundo. Nessa estrutura existencial dupla, na encruzilhada entre universo da produção e consumo – cada um sendo uma compensação, meio-real e meio-ilusória, para o outro –, constitui-se o mais profundo nível na estrutura transnacional de hegemonia na política despolitizada de hoje.

Termino aqui com uma ilustração simbólica do que hegemonia continua a significar hoje: o prêmio Nobel do presidente Obama, dos Estados Unidos. O prêmio em si, um milhão de dólares e muito mais em publicidade, faz parte inteiramente do consumo transnacional de cultura de celebridade e do comércio. No plano nacional, engrandece a imagem do político, em um momento em que seu prestígio declinava. No plano internacional, com ardente impacto, lembra ao mundo a contínua supremacia dos Estados Unidos. O presidente que governa sobre exércitos ocupando o Iraque, intensificando a violência no Afeganistão e bombardeando o Paquistão recebe a mais importante distinção do Ocidente por um trabalho em prol da humanidade – benevolência, no estilo do século XXI – e logo será celebrado no Oriente. Gabriel García Márquez certa vez comentou, vendo os vencedores do prêmio, como Kissinger e Begin, que seria melhor chamá-lo por seu verdadeiro nome: o Prêmio Nobel da Guerra. Poderíamos também pensar em um passado clássico. Em palavras que descrevem as terras e os vilarejos destruídos do Iraque e do Afeganistão como se fossem escritos hoje, o historiador romano Tácito escreveu sobre a hegemonia de sua cidade que dominava o mundo: “A destruir, massacrar e usurpar dão o nome de império; onde criam um deserto, chamam-no de paz”.

1 de fevereiro de 2010

Duas revoluções

Anotações ásperas

Perry Anderson

New Left Review

Se o século 20 foi dominado pela trajetória da Revolução Russa, mais do que por qualquer outro evento singular, o século 21 será configurado pelo resultado final da Revolução Chinesa. O Estado soviético, nascido da Primeira Guerra Mundial, vitorioso na Segunda, derrotado na réplica"fria" de uma Terceira, desintegrou-se após sete décadas quase sem um tiro, tão rapidamente quanto surgira. O que restou foi uma Rússia menor em superfície do que aquela que o Século das Luzes conheceu, com menos da metade da população da antiga União Soviética, restituída a um capitalismo mais dependente da exportação de matérias-primas do que nos últimos dias do tsarismo. Embora não se possam descartar futuras reviravoltas, no momento o que restou do levante de outubro, em qualquer sentido positivo, não parece ser grande coisa. Seu feito mais transcendente, deveras extraordinário, foi negativo: a derrota do nazismo, o que nenhum outro regime europeu teria sido capaz de alcançar. Esse, de qualquer modo, é um juízo consensual hoje em dia.

O desfecho da Revolução Chinesa oferece um impressionante contraste. Ao entrar na sua
sétima década, a República Popular é uma força motriz da economia mundial; o maior exportador,
seja para a União Europeia, o Japão ou os Estados Unidos; o maior detentor de reservas
cambiais do mundo; o país que. durante um quarto de século apresentou o maior e mais rápido
crescimento da renda per capita jamais registrado, e para a maior população do mundo. Suas
grandes cidades não têm rivais em matéria de ambição comercial e arquitetônica, seus produtos
são vendidos em toda parte. Seus empreiteiros, agentes comerciais e diplomatas cruzam o
mundo em busca de novas oportunidades de negócios e áreas de influência. Cortejado tanto por
antigos inimigos quanto por amigos, pela primeira vez na sua história o Reino do Meio se tornou
uma verdadeira potência mundial, estendendo sua presença a todos os continentes. Com a queda
da URSS, nenhuma outra fórmula para caracterizar a virada histórica que ela significou se tornou
tão sacramentada quanto o "colapso do comunismo". 20 anos depois, ela soa um tanto
eurocêntrica. Em certo sentido, o comunismo não apenas sobreviveu como se tornou a história exitosa dos tempos atuais. Naturalmente, o caráter e a escala desse feito encerram mais de uma (amarga) ironia. Já quanto à sorte diversa das revoluções na China e na Rússia, resta pouca dúvida.

Onde estaria a explicação desse contraste? Não obstante o peso histórico-mundial da
questão, ela não tem sido muito discutida. O que está em pauta, naturalmente, não é apenas uma
comparação entre duas sublevações similares, porém distintas, que não guardam relação entre si
quanto ao mais, dados os seus diferentes contextos, a exemplo da analogia antes familiar entre
1789 e 1917. A Revolução Chinesa proveio diretamente da Revolução Russa e permaneceu
ligada a ela, como inspiração ou admoestação, até o final dos anos 1980, quando chegou a hora
da verdade para ambas. As duas experiências não foram independentes uma da outra, mas
formaram conscientemente uma sequência ordinal 2. Esse vínculo entra em qualquer apreciação
de seus diferentes resultados. A explicação destes, por sua vez, requer reflexão sobre certo
número de aspectos. Aqui, distinguiremos quatro deles. Primeiro, como se diferenciavam os
agentes políticos subjetivos das duas revoluções - isto é, os respectivos partidos em cada país e
as estratégias que implementaram? Segundo, quais eram os dados objetivos iniciais - as
condições socioeconômicas e outras - com base nos quais cada partido embarcou no seu
programa de reformas? Terceiro, quais foram as consequências concretas das políticas que
adotaram? Por último, quais legados, na Zangue durée da história de ambas as sociedades;
podem ser vistos como fatores subjacentes determinantes do resultado final das revoluções e das
reformas? isto que a República Popular da China (RPC) sobreviveu à URSS e seu futuro talvez
constitua a principal incógnita da política mundial, o foco organizado r destas anotações será a
China, tal como vista no espelho russo - não o único relevante, como ficará claro, mas uma
condição iniludível de tudo o mais.

I. Matrizes

A Revolução de Outubro, como é notório, foi uma rápida insurreição urbana que em questão de dias tomou o poder nas grandes cidades da Rússia. A rapidez com que derrubou o governo provisório foi igualada pela cristalização do partido que a realizou. Os bolchevistas, que não somavam mais de 24 mil em janeiro de 1917, às vésperas da abdicação de Nicolau lI, já superavam 200 mil quando, nove meses mais tarde, derrubaram o regime de Kerensky. A sua base social era a jovem classe operária russa, que correspondia a menos de 3% da população. Eles não tinham nenhuma presença no campo, onde vivia mais de 80% da população, jamais tendo cogitado organizar o partido entre os camponeses - o que tampouco ocorreu aos socialistas revolucionários, embora estes tivessem recebido maciço apoio rural em 1917. Essa rápida vitória a partir de uma margem de apoio ainda exígua foi possibilitada pela desintegração do Estado tsarista, diante dos devastadores ataques alemães na Primeira Guerra Mundial- os fracassos militares deflagrando motins que pulverizaram seu aparelho repressivo, visto que a Revolução de Fevereiro produzira um governo sucessor instável e esvaziado de autoridade.

Contudo, se o poder foi facilmente tomado nesse vácuo, seria muito mais difícil conservá-lo.
Vastas extensões do território caíram sob o domínio alemão. Quando a própria Alemanha foi
derrotada em 1918, dez forças expedicionárias diferentes - norte-americana, britânica,
canadense, sérvia, finlandesa, romena, turca, grega, francesa e japonesa - foram despachadas
para ajudar os exércitos brancos a esmagar o novo regime, numa cruenta guerra civil que se
prolongou até 1920. Quando esta chegou ao fim, completando o quadro de destruição deixado
pela Grande Guerra, a Rússia estava em ruínas: escassez crônica de alimentos nas aldeias,
fábricas abandonadas nas cidades, a classe operária pulverizada pelos combates e pela
desindustrialização do país. O partido de Lênin, com sua base social desintegrada ou absorvida pelas estruturas do novo Estado, emergiu da guerra civil como um aparato de poder isolado, suspenso sobre uma paisagem devastada: seu governo era associado agora às misérias da guerra intestina, mais do que às promessas de paz e de distribuição de terras feitas após outubro.

A União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, que o partido criou mediante um supremo esforço, cobria a maior parte do antigo império russo. Mas, primeiro Estado moderno da história a recusar qualquer definição territorial, a emergente URSS não fez qualquer chamamento ao orgulho patriótico ou à construção nacional. Seu apelo era internacional: dirigia-se à solidariedade do movimento trabalhista mundial. Após tomar o poder num país tão vasto quanto atrasado, cuja economia era predominantemente agrária e cuja população era em grande parte analfabeta, os bolchevistas contavam com revoluções nos países europeus mais desenvolvidos e industrializados para resgatá-los da difícil posição de um compromisso radical com o socialismo num país que não apresentava os pré-requisitos de nenhum capitalismo coerente. Uma aposta que os sitiados governantes perderam depressa, desde o início ela nada significou para a massa dos governados. O partido soviético teria de aguentar por suas próprias forças e tentar avançar o mais rapidamente possível para uma nova forma de sociedade, sem contar com muito apoio no plano doméstico e sem nenhuma ajuda externa.

2

A Revolução Chinesa, embora inspirada pela russa, inverteu praticamente todos os seus termos. O Partido Comunista da China (PCC), fundado em I921, ainda não contava mil membros quatro anos mais tarde, quando, pela primeira vez, começou a se tornar uma força política expressiva, nascida da explosão da militância operária nas cidades costeiras suscitada pelo movimento de 30 de maio de I925, e auxiliada pelo papel crucial dos assessores e suprimentos soviéticos no incipiente regime do Guomindang (GMD) liderado por Sun Yat-sen em Cantão. Entre esse momento fundador e a conquista do poder pelos comunistas na China, houve conflitos que se estenderam por um quarto de século. Seus marcos são bastante conhecidos - a expedição ao norte de I926, que uniu nacionalistas e comunistas contra os regimes dos principais senhores guerreiros; o massacre dos comunistas por Chiang Kai-shek em Xangai, em I927; o Terror Branco que se seguiu; o estabelecimento do soviete do liangxi em I93I, e as cinco campanhas de aniquilação movidas contra ele pelo GMD; a Longa Marcha do exército vermelho para Yari'an em I934-I935 e a criação de regiões fronteiriças governadas pelo PCC no noroeste; a Frente Unida com o GMD contra o invasor japonês em I937-I945; e, por fim, a guerra civil de I946-I949, em que o Exército de Libertação Popular (ELP) arrebatou o país.

Mais que a simples temporalidade totalmente diversa dessa experiência a separa da reviravolta na Rússia. A forma pela qual o poder foi conquistado foi inteiramente distinta. Se é possível definir o Estado, segundo a famosa fórmula de Weber, como o exercício do monopólio da violência legítima sobre um determinado território, uma revolução sempre implica na ruptura desse monopólio e na emergência daquilo que Lênin e Trotsky chamaram de poder dual. Logicamente, existem três modos pelos quais isso pode ocorrer, correspondentes aos três termos da fórmula de Weber. Uma revolução pode quebrar o monopólio de poder do Estado, destruindo a base de legitimidade de seu governo, de modo que este se veja impossibilitado de exercer coerção para reprimir o movimento que se lhe opõe. A Revolução Iraniana, na qual não houve conflitos, ficando o exército real paralisado enquanto a monarquia caía, seria um exemplo. Como outra opção, uma revolução pode provocar o confronto de uma violência insurgente com o aparelho repressivo do Estado, dominando-o mediante um golpe rápido e decisivo, sem ter assegurado nenhuma legitimidade expressiva. Esse foi o modelo russo, possível apenas contra um adversário fraco.

Finalmente, uma revolução pode quebrar o monopólio de poder do Estado sem primeiro esvaziar sua legitimidade ou neutralizar rapidamente sua capacidade para a violência, mas subtraindo-lhe território suficiente para erguer um Estado paralelo, capaz de solapar com o tempo o seu controle da força e do consentimento. Esse foi o modelo chinês. Não foi exclusivo da China, tendo caracterizado a trajetória geral das forças guerrilheiras - sejam iugoslavas ou cubanas - rumo ao poder. O excepcional no caso chinês não foi a criação de sucessivos "estados rebeldes" dentro do Estado, mas sua duração combinada. São as condições dessa longevidade que requerem explicação.

Na virada do século, a monarquia Romanov, apesar de suas próprias vulnerabilidades, era incomparavelmente mais forte que a Qing: uma instituição autóctone que contava não somente com bolsões de indústria avançada e abundantes recursos naturais, mas também com um enorme exército e profundas reservas de lealdade patriótica geradas pela vitória sobre Napoleão. Já no Extremo Oriente, foi sobretudo a ação conjunta das potências europeias que causou a desagregação do império chinês. Somente a derrota esmagadora nos campos de batalha, primeiro contra o Japão e depois contra a Alemanha, foi capaz de deflagrar as revoluções de 1905 e 1917. A monarquia Qing, em contraste, já em meados do século 19 era geralmente odiada como uma dinastia adventícia e, logo depois, também como uma possessão corrupta do Ocidente. Após a rebelião Taiping, ela nunca mais recuperou pleno controle da força sobre o país como um todo. O Estado imperial estava tão enfraquecido que caiu em 19II sem ao menos um movimento orquestrado contra ele. Nenhum regime sucessor se mostrou à altura dos critérios de Weber. A República se dissolveu primeiro num tabuleiro de feudos rivais controlados por senhores guerreiros; depois, no regime híbrido baseado em Nanjing, o GMD dominando o centro do país a partir do delta do Yang-tsé e variados caudilhos militares regionais, o resto: Chiang Kai-shek nunca chegou a controlar mais da metade das 18 províncias chinesas tradicionais, não raro menos ainda.

Foi nesse emaranhado de centros de poder conflitantes que o PCC conseguiu se implantar, ocupando as lacunas entre as jurisdições e constituindo um poder paralelo móvel. Mas, embora nunca tivesse enfrentado uma máquina do Estado unificada, como ocorrera com os bolchevistas, seu adversário era paradoxalmente mais formidável e os riscos de derrota, maiores. Embora restrito como estava a seus baluartes estratégicos, o GMD não era um regime absolutista ao concluir seu ciclo de existência, nem um governo provisório espectral. Nacionalismo e comunismo eram antagonistas contemporâneos formados no mesmo molde organizacional: rivais igualmente modernos, cada um a seu modo, pelo domínio do país. Contudo, o GMD dispunha de exércitos muito mais vastos, equipados com blindados pesados e treinados em sucessivas missões de assistência militar - as de Von Seeckt, Von Falkenhausen - pela elite da Wehrmacht; controlava a renda tributária das regiões mais ricas da China. Apesar de todo o heroísmo da Longa Marcha, o GMD teria certamente aniquilado o PCC no final da década de 1930, caso o Japão não tivesse lançado um ataque maciço contra o regime de Nanjing em 1937.

Nessa emergência, Chiang, privado de sua presa, mas ainda obcecado com o comunismo como o perigo maior, mostrou-se incapaz de enfrentar o inimigo estrangeiro com alguma eficácia. Um colaborador de longa data dos militares japoneses - com os quais planejara o massacre de Xangai em 1927, voando para Tóquio pouco depois para selar um pacto com seu estado-maior, e aos quais dera seu consentimento para a anexação da Manchúria -, ele se retirou para o interior do país e, após Pearl Harbour, deixou o tempo passar, esperando que os Estados Unidos saíssem vitoriosos da guerra para, então, cair sobre o PCC com o grosso de suas forças intactas. A campanha final do Japão na China, a ofensiva de Ichigo, em I944, arruinou qualquer chance de o GMD concretizar facilmente esses planos, despedaçando suas melhores divisões de modo irreparável. Não menos danoso foi o descrédito que cercou a ditadura de Chiang, que se recusou a fazer de tudo pela defesa da nação.

Fora do alcance do GMD ou da penetração japonesa, a partir de sua base na remota região fronteiriça de Yan'an, o PCC promoveu no norte da China uma guerra de guerrilhas cada vez mais eficiente contra o invasor. A ampliação de seu poder se deveu à sua capacidade de combinar reforma nas aldeias - redução dos preços de arrendamento, cancelamento de dívidas, redistribuição limitada de terras - com resistência ao invasor estrangeiro. A conjugação desses dois fatores possibilitou ao PCC um grau de penetração social que o partido russo jamais alcançou, ampliando sua base de apoio entre o campesinato, a classe que formava a ampla maioria da população. No intervalo de oito anos entre I937 e I945, o número de militantes do PCC passou de 40 mil para I,2 milhão e o efetivo de seus exércitos, de 90 mil para 900 mil. Após a rendição do Japão, o partido se implantou rapidamente na planície setentrional da China: quando estourou a guerra civil em I947, seus quadros tinham mais que duplicado novamente, somando cerca de 2,7 milhões. Nesse ínterim, nas áreas controladas pelo GMD no centro e no sul, a corrupção e a inflação desenfreadas destruíram a base de apoio urbano ao regime de Chiang, cujos exércitos desmoralizados, embora bem armados e equipados pelos Estados Unidos, não se mostraram em absoluto adversários à altura do ELP. Em número cada vez maior, seus comandantes se renderam ou trocaram de lado, à medida que o ELP marchava para o sul: Beijing, Xangai, Nanjing, Guangzhou - uma após outra, as grandes cidades da China foram caindo quase sem luta.

Na Rússia, a guerra civil veio depois da revolução e, como para castigá-Ia, mergulhou o país numa situação muito pior do que ele se encontrava antes da ascensão dos bolchevistas. Na China, a revolução sucedeu a guerra civil e seus efeitos imediatos foram sentidos como uma redenção daquele transe. Por mais de um século, a China não conhecera um governo central capaz de fazer face à agressão estrangeira e assegurar a manutenção da ordem no país. O comunismo trouxe ambas as coisas: soberania nacional e paz interna. Com a derrota do Guomindang, oficiais americanos, canhoneiras britânicas e retardatários japoneses foram despachados de mala e cuia para fora do país. A vitória do ELP, longe de deixar a economia e a sociedade depauperadas, promoveu a recuperação e a estabilidade. A inflação foi controlada; a corrupção, reprimida; o abastecimento, restabelecido. No campo, o sistema de arrendamento de terras foi abolido. Nas cidades, não foi preciso fazer expropriações radicais, visto que mais de dois terços das indústrias já haviam sido estatizadas durante o período do Guomindang e os compradores haviam transferido seus capitais para Hong Kong e Taiwan. Os últimos anos de governo nacionalista tinham alienado as simpatias da classe média a tal ponto, que boa parte dela recebeu a chegada dos comunistas com alívio, mais que resistência; à medida que a produção se restabelecia, os trabalhadores retornavam ao regime de emprego normal e voltavam a receber salários. A República Popular, encarnando ideais patrióticos e disciplina social, veio ao mundo desfrutando de um grau de consentimento popular que a União Soviética jamais conheceu.

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Essas diferentes matrizes deixaram sua marca na evolução dos respectivos regimes, cujas proporções de força e consentimento sempre foram distintas. Sob Stálin, o comunismo soviético obteve o apoio ativo da população em duas oportunidades após a guerra civil: entre a nova geração de operários de origem rural mobilizados para o esforço intensivo de industrialização dos primeiros planos quinquenais, numa atmosfera Sturm. und Drang de entusiasmo coletivo autêntico, senão generalizado; e durante a Segunda Guerra Mundial, quando o regime se valeu de um patriotismo russo muito mais disseminado, numa luta de ida ou morte de toda a população contra o invasor nazista. Nem o esforço de industrialização nem o esforço de guerra alteraram a desconfiança dos governantes em relação às massas subalternas. O sistema soviético se aproveitou de episódios de adesão popular quando eles se manifestaram. Contudo, estava baseado na repressão. Durante o período da ditadura de Stálin, a polícia secreta tornou-se uma instituição mais importante e mais poderosa do que o próprio partido. A violência, desencadeada compulsivamente contra inimigos reais ou imaginários, inclusive dentro das próprias fileiras do regime, era onipresente.

Contra um fundo de tensão contínua, seus dois grandes paroxismos foram a coletivização agrária do final dos anos 1920 e os expurgos da década de 1930. Com a primeira, o regime lançou uma guerra total contra a sociedade camponesa, na qual as deportações em massa e a fome fizeram talvez 6 milhões de vítimas, reduzindo o campesinato a uma massa taciturna e alquebrada, situação da qual a agricultura russa jamais se recuperaria. Com os expurgos, não somente a velha guarda bolchevista inteira que fizera a Revolução de Outubro, mas praticamente toda a geração seguinte de quadros em posições de liderança no partido e no Estado, bem como vasto número de outras vítimas foram liquidados - pelo menos, 700 mil ao todo. Os campos de trabalhos forçados, para onde foram despachados aqueles que escaparam de ser sumariamente executados nessas selvagerias, iriam alojar outros 2 milhões naqueles anos, correspondendo a um expressivo setor da economia3. Após a vitória na Segunda Guerra Mundial, na qual a Rússia sofreu enorme destruição, o terror arrefeceu. Contudo, apesar de toda a consagração que alcançou nos campos de batalha, o medo continuou a ser a mola-mestra do poder de Stálin até o fim. 


O partido chinês herdou o modelo soviético, tal como se configurou sob Stálin, desenvolvendo em larga medida a mesma disciplina monolítica, a mesma estrutura e hábitos de comando autoritários. Em termos organizacionais e ideológicos, o Estado que ele criou no início da década de 1950 assemelhava-se bastante ao soviético. E mais: no decorrer do processo, o governo comunista infligiria à China dois grandes desastres similares. Dadas as suas raízes no campo, onde os trabalhadores de modo geral mantiveram sua confiança nos líderes, o PCC foi capaz de promover uma rápida e integral coletivização poucos anos após as primeiras redistribuições de terras, sem provocar o desastre ocorrido na Rússia. Mas, em 1958, decidido a acelerar o ritmo das mudanças, o partido lançou o Grande Salto Adiante, criando comunas populares que deveriam implementar indústrias de fundo de quintal e, ao mesmo tempo, produzir cotas muito mais elevadas de grãos. Com o desvio da mão-de-obra para fornos siderúrgicos caseiros e o baixo rendimento das colheitas provocado pelo mau tempo, o resultado foi a pior fome do século, que causou a morte de pelo menos 15 e talvez 30 milhões de pessoas. Oito anos depois, a Revolução Cultural viria ceifar as fileiras do próprio partido, dizimando seus quadros numa série de expurgos que, como na Rússia, então ultrapassaram seus limites. Ao que tudo indicava, como que arrebatada por uma inexorável dinâmica comum, a RPC tinha reproduzido os dois piores cataclismos da URSS. 

Mas, por mais estranhas que possam parecer as semelhanças, a matriz diversa da Revolução Chinesa acabou se impondo. Se o saldo de vítimas no campo, em termos proporcionais, foi comparável, seus mecanismos e suas consequências foram distintos. A coletivização soviética foi concebida como uma operação para destruir os camponeses "ricos" como um estrato - em geral, os proprietários de alguma criação - e foi executada com níveis militares de violência. Mais de 2 milhões de kulaks foram deportados para as estepes sob a mira das armas da OGPU. A fome de 1932-1933 que se seguiu, embora provocada em parte pelo mau tempo, foi essencialmente um efeito da destruição da sociedade rural que esta segunda guerra civil deixou no seu rastro. Por mais absurdamente voluntarista que tenha sido, o Grande Salto Adiante, em contraste, nunca foi concebido como um ataque contra o campesinato ou qualquer de suas camadas. Não houve deportações, nem se viu tropas do Ministério do Interior arrebanhando camponeses recalcitrantes. A cegueira burocrática, resultado da carência (autoinflingida, naturalmente) de relatórios fidedignos das bases sobre o rendimento real das safras de grãos, mais do que a truculência policial, foi a causa imediata do desastre. Além do mais, não se produziu nenhum desânimo comparável ao que se abateu sobre o campesinato russo. O campo não ficou permanentemente desmoralizado pelo Grande Salto Adiante, e o trem de vida nas aldeias, mesmo nas regiões mais gravemente afetadas, foi retomado com surpreendente rapidez.

O contraste entre as motivações e os resultados finais foi ainda mais acentuado na Revolução Cultural. Na segunda metade da década de 1930, Stálin espalhou o terror de alto a baixo no partido e no Estado soviético, atingindo muitos dos próprios dirigentes que tinham lhe delegado o poder supremo no PCUs, prontamente fuzilados como espiões, traidores ou contrarrevolucionários durante a Yezhovshchina. Embora os verdadeiros motivos por trás dessa insânia permaneçam obscuros, está claro que Stálin, cuja legitimidade como ditador personalista nunca fora totalmente assegurada - ele não desempenhara nenhum papel relevante na Revolução de Outubro e Lênin prevenira expressamente o partido contra ele -, foi tomado por uma mórbida suspeita contra todos os que o cercavam e agiu na certeza de que a única maneira de lidar com potenciais opositores ou dissidentes era matá-los. 

Ao lançar a Revolução Cultural, Mao também visou seus colegas mais próximos, em parte porque fora obrigado a admitir o fracasso do Grande Salto Adiante, quando este não podia mais ser negado, e aceitar a mudança da política agrária que lhe impuseram. Contudo, sua principal motivação foi impedir que se reproduzisse na China a casta de burocratas empedernidos que, a seu ver, estava conduzindo a URSS pós-stalinista a uma sociedade de classes indistinguível do capitalismo. A fim de tolher essa tendência, ele não recorreu aos órgãos de segurança, que na China nunca tiveram a importância que tinham na Rússia, mas à juventude estudantil. Insuflando contra os suspeitos de favorecer a via soviética agitações de massa desde as bases, em vez de decapitá-los desde a cúpula, Mao lançou o país numa década de caos controlado.

As barbaridades que se seguiram formaram uma legião. A violência desregrada - perseguições e altercações; humilhações, surras, fuzilamentos; guerras entre facções - espalhou-se de cidade em cidade; nos condados, execuções organizadas. O número de vítimas, ainda a ser devidamente computado, superou de longe um milhão4. Contudo, as mortes - proporcionalmente, muito menos numerosas que as verificadas durante o pandemônio soviético - não foram ditadas por instruções executivas, mas motivadas por iniciativas localizadas de vingança, conforme as autoridades iam sendo depostas, e as pendências, ajustadas por todo o país. Nenhum Yezhov ou Beria estava no comando. Ao contrário do Grande Terror, a Revolução Cultural não foi simplesmente uma campanha de repressão em escala gigantesca. Foi uma tentativa radical de sacudir as estruturas burocráticas, mobilizando contra elas a revolta de uma geração mais jovem, tendo sido vivida como uma liberação mental - quanto mais não seja, devido ao colapso temporário de tamanha autoridade institucional - por muitos que mais tarde se decepcionariam com seus resultados e mesmo por anticomunistas ferrenhos. A sua meta autoproclamada foi uma transformação igualitária de perspectivas que não mais comportasse as "três grandes diferenças": entre cidade e campo, entre agricultura e indústria, e - acima de tudo - entre trabalho intelectual e manual.

Esses ideais eram utópicos para qualquer sociedade da época, quanto mais para uma tão atrasada como a chinesa. Mas eles não eram mera vitrine. O envio de 17 milhões de jovens das cidades para o campo a fim de realizarem trabalhos agrícolas ao lado dos camponeses, com a consequente paralisação dos colégios e universidades, foi um processo mais característico e de maior alcance do que as perseguições do período. Executado sem violência, frequentemente com entusiasmo, ele atendia a outros objetivos. Estes, por sua vez, pesaram no modo pelo qual a Revolução Cultural promoveu sucessivos expurgos no interior do partido. Não houve nenhuma carnificina generalizada. Humilhação, degradação e embrutecimento era a sina comum da maioria dos visados, mais do que a eliminação. Os rituais da reforma do pensamento, destinados a "curar a doença, não matar o paciente", segundo o preceito de Yan'an, permaneceram na teoria e na prática - esta, um tanto brutal -, o método habitual para lidar com os suspeitos da via capitalista. Quando a Revolução Cultural chegou ao fim, não mais do que 1% dos quadros do partido havia sido definitivamente expulso, sendo que praticamente todo o primeiro escalão - à exceção de Liu Shaoqi -, contra o qual Mao investira em 1966-1969, sobrevivera. Ao contrário de Stálin, Mao tinha conduzido a Revolução Chinesa para a vitória e não ocorreu nenhum massacre da Velha Guarda que combatera a seu lado. Variáveis culturais e políticas interagiram para produzir um desenlace diferente. Mao tinha se tornado um imperador moderno, exercendo poder pessoal absoluto. No entanto, a tradição imperial da China sempre valorizara mais a doutrinação do que a coerção como instrumento de governo, por mais implacável que tenha sido seu exercício da violência quando a necessidade ou o capricho assim o ditaram: o objetivo da Revolução Cultural- transformar as mentes para transformar a realidade, como se as concepções intelectuais determinassem as relações sociais - era tributário de noções mais confucianas do que marxistas da transformação histórica. Contudo, esse ainda era um regime nascido de uma revolução social, em que o poder - contrariamente a um ditado de Mao da época - brotara não apenas do cano de um fuzil, mas também da confiança moral de milhões no partido que o detinha. Se a Revolução Cultural chegou perto de destruir essa herança política, nem por isso ela deixou de ser estranhamente conformada e, afinal, também restringida por ela. 

II. Mutações

Com uma diferença de trinta anos entre suas origens, as duas revoluções tenderam para projetos de reforma que, dada a sua proximidade no tempo, acabaram por se superpor. Os antecedentes de cada um deles foi o fracasso das tentativas prévias de reconstrução. Na URSS, tão logo Stálin morreu, a reação contra sua tirania foi rápida. Sob Khruschev, a máquina do terror foi desmantelada; a censura relaxou; as fazendas coletivas ganharam maior autonomia; os investimentos em consumo aumentaram; e a coexistência pacífica com o capitalismo foi proclamada. A desestalinização prosseguiu com ímpeto considerável por uns cinco anos, do XX ao XXI Congresso do PCUs. Depois disso, os erráticos zigue-zagues de Khruschev na política externa e interna - aposta e recuo no Caribe, reestruturação inócua do partido, planos improvisados para a revitalização da agricultura - provocaram a hostilidade de seus colegas e levaram à sua demissão sumária. Khruschev não chegou a cogitar nenhuma transformação essencial do sistema econômico herdado de Stálin, com ênfase no planejamento altamente centralizado e prioridade para a indústria pesada, que tinha assegurado o triunfo soviético em 1945 e que servira de plataforma para a sua própria carreira. Legitimando tudo o que a Cosplan5 alcançara o prestígio da vitória sobre a potência mais industrializada da Europa comprometeu a flexibilidade do sistema socioeconômico responsável por transformar a URSS numa grande potência, justamente no momento em que isso se fazia mais necessário, no limiar de uma nova era6.

Quando Khruschev foi deposto, o desenvolvimento ainda era considerável e o poder militar da URSS se expandia. O preço de seu fracasso foi o "período de estagnação", como seria chamado longo interregno de meados da década de 1960 até meados da década de 1980. Livre de suas irrequietas iniciativas e agora a salvo de prisões arbitrárias, a burocracia soviética se acomodou numa inércia complacente, contentando-se com um estoque crescente de armamentos e ignorando a queda acentuada de rendimento de suas repisadas fórmulas de investimento industrial. A URSS alcançou paridade nuclear com os EUA e conquistou o estatuto de superpotência. Contudo, 20 anos de brezhnevismo transformaram o partido numa floresta petrificada de funcionários públicos, que geriam uma sociedade na qual a expectativa de vida caía, o crescimento econômico praticamente estagnara e o cinismo era generalizado. Era esse o palco quando Gorbachev entrou em cena, em 1985.

A desordem na China quando Deng Xiaoping chegou ao poder era impressionante. O país ainda estava traumatizado pela turbulência da Revolução Cultural. A educação superior simplesmente deixara de existir durante uma década. Monumentos haviam sido destruídos pelo vandalismo' a vida intelectual havia sido abolida pelo dogmatismo. Vasto número de jovens continuava segregado em exílio rural. As cidades ferviam de insatisfação, e a capital do país fora recentemente palco de tumultos de massa, quando o prédio do Birô de Segurança Pública, nas imediações da praça da Paz Celestial, foi saqueado e incendiado por multidões enfurecidas: baderna inconcebível em Moscou. Mao quisera evitar a espécie de comunismo a que as políticas de Khruschev, no seu entender, tinham conduzido a URSS. Nisso, ele foi bem-sucedido. Agora, a China estaria preservada daquela lenta involução de uma burocracia conservadora, como a que tomou conta da URSS com Brezhnev, imobilizando a economia e a sociedade numa condição degenerativa. Sua meta negativa tinha sido alcançada. Mas sua alternativa positiva fracassara igualmente, e por completo. Por ocasião de sua morte, as políticas que implementara tinham conduzido a China a outro tipo de impasse histórico.

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Quando embarcaram nos seus programas de reforma, a União Soviética, ao que tudo indicava, era dos dois países o que apresentava condições materiais e culturais muito mais favoráveis para lograr o êxito. Seu PIB era de quatro a cinco vezes maior que o chinês. Sua base industrial era muito mais ampla e empregava mais do dobro da força de trabalho, em termos relativos. Era mais rica em quase todos os recursos naturais - combustíveis fósseis, minérios preciosos, terras abundantes. Era muito mais urbanizada. Sua população era mais bem alimentada e ingeria em média 50% mais calorias que a chinesa. Sua infraestrutura era consideravelmente mais desenvolvida. Por último, mas não menos importante, seu nível de educação era incomparavelmente melhor: totalmente alfabetizada, com um número, em termos relativos, 20 vezes maior de estudantes matriculados em nível superior além de contar com uma comunidade de cientistas bem treinados.

Contudo, o "período de estagnação" veio neutralizar gradualmente e, em certos aspectos cruciais, degradar essas vantagens naturais. Durante 20 anos, nenhuma mudança política sacudiu o marasmo da vida soviética. O planejamento centralizado levado a extremos caricaturais - 60 mil produtos básicos com preços tabelados - tolheu a inovação e propiciou toda espécie de distorções. A produtividade do trabalho estagnou; a relação capital/produto piorou: a maquinaria obsoleta não foi sucateada; as novas tecnologias de informação não foram assimiladas. No entanto, à medida que o desempenho da economia declinava, a pressão da corrida armamentista aumentava. Encalacrada numa rivalidade estratégica com os Estados Unidos, um país mais avançado e muitíssimo mais rico, a liderança soviética desviou uma vultosa fatia do PIB para gastos militares, com pouca ou nenhuma "derivagem" [spin-offJ para o resto da economia, sem ter conseguido afinal emparelhar com o arsenal norte-americano. Seus protetorados no Leste Europeu e no Afeganistão, demandando subsídios e forças expedicionárias, representavam um ônus adicional. Para a URSS, a Guerra Fria não foi apenas um impasse diplomático, ela também congelou as molas do crescimento.

Mas, quando chegou o momento da reforma há muito necessária, o grande déficit nesse sistema emperrado não foi econômico, mas político. Quatro gerações separavam agora o partido dirigente da Revolução. O espírito insurgente do bolchevismo havia muito desaparecera. O rude dinamismo da shturmovshchina stalinista na indústria e na guerra era coisa do passado. A simples lembrança do espalhafatoso jogo de cena de Khruschev, no seu intento de combinar as duas coisas, ainda que brevemente, tinha se apagado. O grosso do PCUs - a nomenklatura soviética propriamente dita - era formada por funcionários administrativos medíocres e apáticos, incapazes de criatividade ou iniciativa. O surgimento de Gorbachev como seu líder, no entanto, provou que o partido ainda não estava totalmente catatônico. Tão logo tomou posse como secretário-geral, ele agiu rapidamente para afastar dos altos cargos remanescentes do período de Brezhnev, consolidando seu poder no partido por meio de uma maioria escolhida a dedo no Politburo. Em seguida, proclamou seus lemas: glasnost e perestroika - a necessidade de maior transparência nos negócios públicos e uma remodelação das instituições do país.

A primeira, acompanhada por um relaxamento geral da censura, foi saudada por uma onda de entusiasmo na sociedade, à medida que energias há muito reprimidas eram liberadas em polêmicas revelações de fatos controversos e debates iconoclastas de toda espécie. Já a segunda deixou sua audiência um tanto perplexa. O que a perestroiha - um termo que Lênin certa vez utilizara de modo incidental- realmente significava na prática? Logo se viu que Gorbachev, por corajoso que fosse nas suas intenções, era vago nas suas ideias: embora moralmente distanciado do PCUs da era Brezhnev no qual ascendera, ele contava com poucos recursos intelectuais independentes do partido e não tinha senão uma ideia demasiado vaga das reformas que pretendia. A maioria de seus delegados na cúpula do partido tinha uma ideia mais vaga ainda e não tardou para que muitos começassem a resistir-lhe. A fim de contornar sua oposição, Gorbachev passou a apelar cada vez mais para uma clientela alternativa, em busca de legitimidade e orientação.

A intelligentsia russa havia muito se incompatibilizara com o regime. O brilhante movimento vanguardista animado por aqueles que não tinham partido para o exílio após a Revolução foi enterrado por Stálin. As esperanças alimentadas pela distensão que se seguiu à sua morte foram rapidamente frustradas, antes mesmo da queda de Khruschev, pela rudeza e pelo espírito filisteu do regime sucessor. Em meados dos anos 1980, o comunismo, sob qualquer forma ou aspecto, era anatematizado por quase todas as correntes desse estrato historicamente influente da sociedade russa. Os eslavófilos e os ocidentalistas, seus dois polos tradicionais, se uniram na recusa da ordem soviética. Aqueles, no entanto - apesar da projeção alcançada por Solzhenitsyn -, eram residuais; estes eram hegemônicos. Liberais, convencidos da superioridade do Ocidente e aspirando a se integrar nele, em breve estavam ditando o compasso na entourage de Gorbachev, propondo mais ideias e objetivos decididos do que ele próprio desenvolvera. Para eles, uma verdadeira reforma só poderia significar duas coisas interrelacionadas: a introdução da democracia, com a realização de eleições livres, e o estabelecimento de uma economia de mercado baseada na propriedade privada dos meios de produção.

Como secretário-geral do PCUS, Gorbachev não estava em posição de apoiar a segunda meta, mesmo se tivesse querido, o que não foi o caso. Mas ele endossou a primeira, desde que as regras fossem tais que lhe assegurassem a legitimação de seu próprio poder por meio de um plebiscito popular, ajudando-o a se libertar da dependência de um partido do qual passara a desconfiar cada vez mais, assim como o partido desconfiava dele. A reforma política, a criação pela primeira vez na história russa de uma democracia representativa, tornou-se a prioridade. A reforma econômica, que originalmente havia sido o principal significado da perestroiha, foi postergada. Essa foi a ordem de batalha transmitida para a intelligentsia liberal, que precisava quebrar o monopólio do poder antes de investir contra os alicerces da economia planejada. Para Gorbachev, no entanto, ela tinha uma outra atração. Abolir a censura e permitir a realização de eleições livres era algo relativamente simples de realizar - no fundo, uma simples questão de suspender restrições. Reorganizar a economia seria muito mais difícil- uma tarefa descomunal, em comparação. Ele preferiu o caminho menos árduo.
Se havia que introduzir a democracia de estilo ocidental no país, que sentido tinha confrontá-Ia no plano externo? Esvaziar gradualmente a Guerra Fria era algo que poderia lhe trazer não somente o aplauso da intelligentsia que, agora bem entrincheirada na mídia, tinha se tornado o principal formador de opinião no país, como também benefícios econômicos concretos, reduzindo o ônus representado pelos gastos militares. E não apenas isso: o prestígio internacional de um governante que se relacionava nos termos mais amistosos com seus interlocutores ocidentais, sobretudo com o presidente dos Estados Unidos da América, e trazia paz e boa-vontade às nações do mundo, só faria realçar a sua imagem interna. A partir de Ig87, Gorbachev se dedicou cada vez mais a viagens internacionais e confabulações, tornando-se o centro das atenções da opinião pública ocidental, visivelmente inebriado pela figura que estava cultivando no cenário mundial. O tempo dedicado à desagradável tarefa de gerir a economia russa era cada vez menor. Então, quando os inconsistentes projetos iniciais para a promoção de cooperativas deram em nada, uma medida inócua após outra foi experimentada para introduzir maior autonomia empresarial, com pouco ou nenhum resultado, enquanto a URSS mergulhava numa profunda crise social, consequência direta da prioridade dada à renovação política do país, em detrimento da econômica. O crescimento era praticamente nulo quando Gorbachev assumiu o poder, e os preços do petróleo - do qual a receita cambial do governo dependia criticamente - já estavam começando a cair, pressionando o orçamento com intensidade crescente e constante, à medida que as rendas do petróleo continuavam caindo. Essas seriam graves dificuldades em quaisquer circunstâncias. O que as transformou numa queda livre catastrófica foi a marginalização do r-cus por Gorbachev, em sua busca de consagração popular. A economia planejada dependia da capacidade do partido de exigir o cumprimento das cotas de produção requeridas pelo governo central. Como o partido fora privado de poder real, sem nenhum substituto efetivo, os gerentes simplesmente deixaram de fornecer seus produtos ao Estado pelos preços fixados e passaram a vendê-los por quanto conseguissem e a quem pudessem. O resultado foi o colapso do sistema de alocação central que mantinha o sistema coeso e o crescente descontrole do comércio, particularmente severo entre as repúblicas.

Enquanto a economia mergulhava no caos, o Estado encontrava dificuldades cada vez maiores para arrecadar impostos das empresas e das repúblicas, apelando para a emissão de moeda a fim de cobrir subsídios de alimentação e encargos sociais. A espiral inflacionária foi agravada pelo aumento do déficit no balanço de pagamentos - visto que o governo tentara conter a queda de sua popularidade com a importação de bens de consumo -, bem como pelo aumento galopante da dívida externa, que duplicaria em cinco anos. Por volta de 1989, o Estado soviético não estava longe da bancarrota. E, o que ainda era mais fatídico, estava à beira da desintegração, e pela mesma razão. A partir do momento em que Gorbachev excluiu o fator PCUs da equação, colocando-se na posição de governante personalista, à parte e acima dele, nada mais conservou as repúblicas unidas7. Sem a estrutura coesiva do partido, a URSS carecia de quaisquer vínculos unionistas [all-UnionJ. Gorbachev, encarnando até o fim seu papel de moderador da Guerra Fria e libertador da Europa do Leste, mostrou -se ainda mais insensível para a questão nacional dentro de seu próprio país, do que para a situação crítica de sua economia. Quando os últimos sobreviventes da velha ordem finalmente se revoltaram contra ele, em 1991, e o derrubaram, vindo abaixo junto com ele, a URSS se dissolveu da noite para o dia. 

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Quando, sete anos antes do PCUs, o PCC se lançou no caminho das reformas, a China era um país muito mais pobre e atrasado do que a Rússia8. Por volta de 1980, o PIB per capita da RPC era 14 vezes menor que o soviético. Mais de 70% de sua força de trabalho estava empregada na agricultura, contra 14% na União Soviética. Cerca de um em cada três chineses ainda não sabia ler ou escrever. Suas universidades não passavam de uma fração das indianas. Pode-se afirmar com segurança que nenhum observador, seja no próprio país ou fora dele, poderia ter previsto a reviravolta da sorte nos dois países três décadas mais tarde. Contudo, já de início a Rússia apresentava uma série de desvantagens que não afetavam a China; esta apresentava antes um conjunto de "vantagens negativas" que lhe proporcionaram condições iniciais - econômicas, sociais e políticas - que a favoreciam, sob certos aspectos menos evidentes.

A primeira delas era o peso menos considerável da maquinaria obsoleta na economia, não porque seu capital fixo superasse o soviético, mas simplesmente por seu nível inferior de industrialização. Aquilo que se tornaria conhecido como o "cinturão da ferrugem" chinês ainda era algo respeitável: quem viu West ofthe Tracks, a trilogia de Wang Bing sobre o destino final do parque industrial de Shenyang e de seus operários - talvez, o maior documentário de todos os tempos -, não poderá esquecê-lo. Ainda assim, em termos relativos, seu peso era menor do que na URSS. Não havia tantas fábricas para sucatear. Mais importante ainda, o planejamento chinês sempre havia sido mais maleável que o seu modelo russo. Bem cedo, Mao compreendeu a impossibilidade de impor as ubíquas diretrizes do Gosplan a uma economia muito menos articulada como a chinesa, com tradições regionais muito mais arraigadas e infraestrutura mais pobre. Desde o início, as autoridades provinciais e distritais haviam desfrutado de maior autonomia do que no sistema soviético, em qualquer momento de sua história. Deliberadamente, a Revolução Cultural enfraquecera ainda mais os poderes do centro, deixando aos governos locais uma margem maior de iniciativa. Assim, as metas de produção industrial eram um tanto modestas e a pressão para seu cumprimento não era irresistível. O resultado foi um sistema muito mais descentralizado, no qual o número de produtos básicos com preços tabelados por Beijing nunca ultrapassou 600, no máximo, um centésimo da pletora soviética9. Menos rígido, esse marco institucional permitia maior flexibilidade e mudanças menos desestabilizadoras.

Socialmente, a China também apresentava uma enorme e decisiva vantagem sobre a Rússia. O campesinato chinês não era um resquício da classe indolente e taciturna que havia sido antigamente, como na Rússia. Não estava exaurido, nem descontente, mas cheio de energias latentes à espera de sua liberação, como os acontecimentos demonstrariam. Historicamente, nunca possuíra instituições coletivas comparáveis ao mir. A sociedade rural, atomizada havia muito no norte e chacoalhada pela rebelião Taiping no sul, conseguiu se recuperar após o Grande Salto Adiante, tendo atrás de si um passado secular de estímulos competitivos. Além do mais, a ausência de descontentamento profundo no campo não se deveu a uma simples diferença entre as duas sociedades rurais. Formando a maioria esmagadora da população, o campesinato chinês era a pedra angular da nação. Seu equivalente mais próximo na URSS, ainda que proporcionalmente não correspondesse a um setor tão amplo da sociedade, seria a classe operária industrial. No entanto, embora não tão desmoralizada quanto os kolkhoz- niki, por volta da década de 1980 ela também era uma força social totalmente desiludida, profundamente cética com relação ao regime, acomodada ao trabalho antieconômico e à baixa produtividade, como uma espécie de compensação para a imensa disparidade entre seu papel nominal como classe condutora do Estado e sua posição real na hierarquia do privilégio. Na China, onde após o Grande Salto Adiante a população rural foi impedida de entrar nas cidades e sempre careceu dos benefícios sociais que assistiam aos trabalhadores urbanos, as desigualdades formais entre cidade e campo eram maiores do que na União Soviética. Antes de mais nada, porém, a ideologia governante nunca proclamou aos camponeses que eles eram a classe na vanguarda da construção do socialismo. O abismo moral entre teoria e realidade era menor, bem como o tempo transcorrido entre as esperanças iniciais e a experiência subsequente. Apesar de tudo o que lhes foi infligido ou concedido, o campo continuou a ser uma reserva do partido no poder.

No plano internacional, a situação da RPC proporcionou-lhe maior margem de manobra. Ela não estava sobrecarregada por nenhuma zona de estados-satélites onerosa, que exigisse soldados e subvenções para ser mantida. Ela não estava em condições de competir com as superpotências na corrida armamentista, nem tentou. Além de estar livre desses entraves, havia a relação radicalmente diferente que a China mantinha com os Estados Unidos. Após uma década de extrema tensão com a URSS, quando se produziram inclusive choques militares ao longo da fronteira, Mao derivou para uma entente com os Estados Unidos ainda durante a Revolução Cultural. A visita de Nixon e seus resultados, por mais espetaculares que tenham sido, permaneceriam uma abertura diplomática sem maiores consequências enquanto ele vivesse. Graças a ela, porém, quando ocorreu o redirecionamento para as reformas internas, a China contava com uma situação propícia na arena internacional. Uma amizade cautelosa, de preferência a um antagonismo calculado, criou as condições para que o centro nervoso do capital mundial e sua pletora de sucursais regionais já estivessem preparados para estender ajuda financeira à China, aos primeiros sinais de abertura para a economia de mercado. A ausência de descontentamento profundo no campo somou-se à inexistência de qualquer ameaça imperialista direta do exterior, pela primeira vez na história moderna do país.

Além do mais, internamente a RPC não corria perigo algum de se desintegrar, como aconteceria com a URSS. Ela não era composta de 15 repúblicas diferentes. Mais homogênea em termos étnicos do que a maioria dos Estados- Nação, ela enfrentava a hostilidade de nacionalidades rebeldes dentro de suas fronteiras - no Tibete e no Uygur -, o que não ocorrera durante meio século na União Soviética. Contudo, o peso delas no conjunto da população era mínimo em comparação com a soma dos povos que provocariam a fragmentação da URSS uma década mais tarde. Um ponto mais prioritário na agenda do PCC do que o problema recorrente de manter essas regiões sob controle era a tarefa ainda pendente de recuperar Taiwan, onde o GMD estabelecera um reduto insular sob proteção dos Estados Unidos, ainda alimentava pretensões de representar a verdadeira República da China e atravessava um período de grande prosperidade econômica. A principal preocupação do partido não era com os riscos de dissolução, mas com problemas de recomposição territorial.
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Contudo, no limiar de suas reformas, a diferença mais decisiva entre a Rússia e a China talvez fosse o caráter de suas lideranças políticas. A RPC não tinha no seu comando um funcionário inexperiente, isolado, cercado de assessores e publicitários imbuídos de um ingênuo Schwiirmerei por tudo o que fosse ocidental, mas veteranos escaldados da Revolução original, líderes que haviam sido companheiros de Mao e sofrido sob seu governo, mas que não tinham perdido nada de sua capacidade estratégica, e de sua autoconfiança. Deng Xiaoping, com efeito, havia sido tão indispensável ao regime que Mao o chamara de volta quando ainda vivo. Após a morte de Mao, sua autoridade era tamanha que ele depressa se sobressaiu como o árbitro inconteste do partido, sem precisar se empenhar pessoalmente para alcançar essa distinção, nem sequer ocupar altos postos hierárquicos. Mas Deng não estava só. Com ele, retornaram Chen Yun, Bo Yibo, Peng Zhen, Yang Shangkun e outros, formando um entrosado grupo de colegas sem papas na língua - os "Oito Imortais" -, os quais, embora não raro discordassem veementemente entre si, asseguraram a continuidade das reformas a seu lado. Coletivamente, eles ocupavam uma posição forte, desfrutando não somente de prestígio pelo-seu desempenho na Guerra Civil e na construção da nação, mas de popularidade por terem dado um fim à Revolução Cultural, o que foi recebido com uma onda de alívio nas cidades.

Ao avaliar a situação do país tal como Mao o deixara, esses dirigentes, com Deng à frente, permaneceram os revolucionários que sempre haviam sido. A sua têmpera era leninista: radicais,
disciplinados, criativos - capazes tanto de paciência tática, quanto de experimentação cautelosa, das iniciativas mais ousadas e das guinadas mais dramáticas. Esse havia sido o espírito que inspirara a Longa Marcha e levara à vitória na guerra civil. E foi com esse espírito que eles enfrentaram o impasse no qual a Revolução Cultural lançara a China. Ao fazê-lo, tinham aguda consciência da transformação da conjuntura chinesa, o que os funcionários do PCUs, dirigindo uma sociedade relativamente mais avançada, não tinham. O Leste Europeu era certamente mais rico e mais desenvolvido do que a Rússia, mas sempre havia sido, e a diferença entre suas respectivas taxas de crescimento - durante as décadas de 1970 e início de 1980, a própria CEE (Comunidade Econômica Europeia) entrou num longo período de baixa - não era tão grande a ponto de forçar os dirigentes soviéticos, nem mesmo nos primeiros tempos de Gorbachev, a repensar os pressupostos básicos sobre os quais assentava o êxito do Estado.

No Extremo Oriente, por outro lado, a partir da década de I950, o Japão quebrara todos os recordes históricos no seu acelerado crescimento - superando de longe não apenas a Europa, mas também os Estados Unidos. Essa recuperação espetacular de uma economia reduzida a cinzas no final da guerra - com a criação de indústrias exportadoras de altíssima competitividade e de uma sociedade de consumo integralmente moderna - contrastava de modo flagrante com a pobreza e a autarquia relativas da China, apesar do substancial desenvolvimento alcançado durante o período de Mao. O Japão, ainda que sobrepujasse seus vizinhos como agora o fazia, tampouco estava sozinho no seu êxito. No final da década de I970, a Coreia do Sul experimentara um vertiginoso processo de industrialização conduzido por Park Chung-Hee e, o que era ainda mais exasperante, o regime do GMD em Taiwan não ficara muito atrás. A pressão desses desenvolvimentos sobre a RPC era iniludível. Deng exprimiu-se com agudeza sobre a situação uma década mais tarde, no auge da crise política de I989. Após observar que, enquanto a China permanecesse isolada, "não haveria nenhum desenvolvimento econômico, nenhum aumento do padrão de vida, nenhum fortalecimento do país", ele continuou: "Hoje em dia, o mundo galopa uma milha por minuto, sobretudo em ciência e tecnologia. Mal conseguimos acompanhar10. A tarefa de superar o descompasso entre o comunismo na China e o capitalismo no Extremo Oriente era uma ordem do dia formidável para qualquer programa de reformas. No entanto, os Imortais não se mostraram intimidados. Atacaram-na, não somente com um vigor derivado do impulso ainda atuante da Revolução que tinham feito, mas também com a milenar auto confiança - posta à prova durante séculos, mas ao fim e ao cabo inquebrantável-, da mais antiga civilização contínua do mundo. O dinamismo de Mao, feliz ou infelizmente, havia sido uma das expressões da restauração dessa confiança. A Era das Reformas impulsionada por Deng seria outra. Essa auto confiança histórica constituía outra das diferenças essenciais entre a Rússia e a China. 

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Ideologicamente, o tsarismo possuíra desde o início um ligeiro traço messiânico, transmitido às elites russas e, no seu devido tempo, à intelligentsia do país - crenças da Rússia como a Terceira Roma, a salvadora dos eslavos, a redentora da humanidade do materialismo ocidental. No século que iria dar na Revolução, manifestações dessa tendência podiam ser detectadas nos Aksakov, Dostoiévsky, Rozanov, Blok. Tratava-se, porém, de um mecanismo de compensação. A Rússia continuou a ser, como sabiam todos os russos, um rincão atrasado da Europa, temível apenas por sua imensidão. A ocidentalização, destituída de idiossincrasias étnicas ou religiosas, tinha sido a visão que impelira seus maiores governantes, Pedro e Catarina, e numa ou noutra variante - liberal ou radical-, veio a dominar suas elites e sua intelligentsia no início do século 20. Contudo, a reivindicação de uma missão especial reservada à Rússia persistiu, produzindo uma esquizofrenia recorrente, visível até hoje. O leninismo superou essa mentalidade cindida combatendo o atraso russo, não em desesperada imitação do Ocidente, mas em revolta contra ele, movido por sua profunda crítica dele. Sob Stálin, a Segunda Guerra Mundial e suas sequelas propiciaram o retorno de um nacionalismo de corte mais tradicional, do tipo "Grande Rússia", com sua cadeia de mecanismos de defesa, embora ele tenha sempre coexistindo com motivos marxistas. Após Stálin, esse chauvinismo perdeu terreno, sem que nenhum substituto viesse a ocupar o seu lugar. Os últimos alentos do internacionalismo, ainda subsistentes sob Khruschev, depressa se extinguiram, deixando apenas o vácuo ideológico do brezhnevismo. Na altura da perestroika, não somente a maioria quase absoluta da intelligentsia, como também elementos da própria elite dirigente, desesperançados diante da estagnação do país, reverteram para o que se poderia considerar em termos históricos a posição ideológica default da ocidentalização radical- desta vez, porém, com espírito de rebaixamento, mais que ambição. As tradições geoculturais da China eram totalmente diversas. O Reino do Meio havia dominado seu mundo conhecido desde a unificação promovida pelo primeiro imperador, ao tempo das Guerras Púnicas no Ocidente; foi por vezes conquistado, mas nunca sofreu a rivalidade de nenhum Estado comparável da região, onde sempre foi de longe a maior, mais rica e mais avançada potência, à qual as outras podiam somente prestar tributos, não esperar igualdade de tratamento. Sob a dinastia Qing, o império tinha se expandido como nunca antes, alcançando os recessos da Ásia Central. A ideologia das sucessivas dinastias variava - os cultos manchús eram dos mais heteróclitos -, mas não a pretensão imperial de absoluta preeminência sobre quaisquer soberanos menores, mais próximos ou mais distantes. A China era o centro da civilização e seu ápice natural.

No século 19, a ingerência ocidental despedaçou essas antiquíssimas pretensões. Quando se tornou claro que a monarquia estava ruindo sob o impacto de golpes internos e externos, o alarme dos literatos - normalmente, a mola-mestra da administração imperial- tornou-se mais e mais estridente; e, com os primeiros reveses da nova República, sua reação tomou uma direção singularmente radical. Diferentes correntes se entrecruzaram na cultura do Movimento de Quatro de Maio, que se cristalizou em torno dos protestos estudantis de 1919 contra as exigências japonesas impostas à China e contra o Tratado de Versalhes que as amparava. Contudo, sua investida se concentrou na demolição completa do cânone confuciano, a doutrina de governo que regera a ordem sociopolítica da China e o arcabouço moral da vida intelectual desde a dinastia Han. Em questão de poucos anos, ele foi reduzido a praticamente nada: um feito que os adversários de qualquer credo ou religião comparável- cristã, muçulmana, hindu ou budista - que ocupasse uma posição equivalente no firmamento ideológico de suas civilizações, jamais rivalizaram11. O assalto contra o passado chinês - um tanto impetuoso já em Liang Qichao, ainda que esporádico - tornou-se abrangente e implacável com Chen Duxiu, o mentor intelectual da Nova Juventude12.

A veemência dessa rejeição das tradições autóctones, que destoava por completo de qualquer corrente de ideias no Japão, não refletiu - isso também destoava do Japão - nenhuma tentação profunda pelo Ocidente. Na China, o retrospecto predatório das potências ocidentais era demasiado flagrante para permitir algum tipo de zapadnichestvo. A carnificina entre as potências europeias na Primeira Guerra Mundial foi o remate das lições sobre a ganância imperialista na Ásia, e seu casamento em Versalhes precipitou o próprio Movimento de Quatro de Maio. A marca distintiva dessa intelligentsia após o colapso do sistema de exames imperiais foi a repulsa ao passado tradicional e a execração do presente capitalista, tal como estes se combinavam na China dos senhores guerreiros. Seu maior espírito, Lu Xun, exprimiu ambos de modo inesquecível. Sem negar que os dois sistemas contivessem algo de positivo - no espírito de um sardônico Montaigne, ele instigou seus compatriotas a tirar o melhor proveito de cada um, numa pilhagem à Ia "haptism" -, ele permaneceu um inimigo irreconciliável de ambos. Contudo, o próprio extremismo de suas posições derivava da força da cultura que ele criticava.

Mao, que admirava Lu Xun, seguiu seu conselho numa escala grandiosa, transformando suas negações na síntese positiva de um marxismo achinesado, a uma só vez mais sistematicamente receptivo à subversão intelectual do Ocidente e mais profundamente apegado às tradições políticas do passado imperial - redigindo "Sobre a contradição" nas cavernas de Yan'an e negligenciando os negócios do Estado no auge de seu poder para reler as crônicas de Sima Guang. Lu Xun era pouco versado em materialismo dialético e não apreciava os anais da autocracia. Contudo, os liberais de hoje, que detestam ambos, não estão equivocados em discernir uma ligação entre o "totalismo" do crítico e o "totalitarismo" do dirigente. A seu modo, ambos encarnaram uma resposta chinesa às crises de seu país, cujo vigor criativo não encontra paralelo na Rússia de meados da década de 1920, resposta tirada dos profundíssimos substratos de uma cultura muito mais antiga e mais ameaça da pela dominação estrangeira. Sob forma produtiva ou pervertida, do Quatro de Maio à Revolução Cultural, correntes de força semelhantes estiveram em ação. De 1919 a 1949, confiança na negação, em seguida na revolta. De 1958 a 1976, excessiva confiança na construção, em seguida na destruição. Finalmente, após 1987, confiança na reforma e na reconstrução.
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O grau de auto confiança com que o senado de anciãos revolucionários atacou os problemas que enfrentavam se manifestou inicialmente no seu modo de lidar com o passado e o futuro do partido. A desestalinização na Rússia tinha sido o feito espetacular, porém subreptício, de um líder unicamente, Khruschev, que surpreendeu o XX Congresso de seu partido com um discurso de denúncia dos crimes de Stálin, sobre o qual não consultara ninguém. Emocional e anedótico, sem apresentar explicações mais profundas sobre como as repressões que relatava seletivamente tinham sido possíveis, a não ser recorrendo ao vazio eufemismo burocrático "culto da personalidade", essa arenga divagadora nunca foi publica da oficialmente, nem complementada por documentos ou análises mais profundas por parte da liderança daquela época ou das subsequentes, até os dias da perestroiha.

Deng e seus colegas agiram de modo muito diverso. Cerca de 4 mil funcionários e historiadores do partido foram convocados para elaborar um retrospecto da Revolução Cultural; com base nas discussões então mantidas, um grupo de 20-40 redatores, sob a supervisão de Deng, produziu um documento-síntese de 3S mil palavras, formalmente adotado como resolução pelo Comitê Central do PCC em junho de 1981. Embora não fosse certamente um relato completo da Revolução Cultural- a responsabilidade atribuída a Mao era qualificada como "ampla pela escala e prolongada pela duração", mas as vítimas das repressões se restringiam ao partido, mais que à população -, o documento oferecia uma explicação coerente dos acontecimentos que não se limitava aos desmandos de um indivíduo isolado: as tradições peculiares de um partido cujo caminho para o poder o tornara afeito à luta de classes irredutível, como se isso fosse uma missão permanente; o efeito do conflito com a Rússia, alimentando temores de revisionismo; e, por último, mas não menos importante, "a perniciosa influência ideológica e política de séculos de autocracia feudal". Ao contrário do requisitório de Khruschev, a resolução admitia a corresponsabilidade do Comitê Central nas gestões do moderno autocrata e não procurava de modo algum diminuir sua contribuição para a Revolução Chinesa como um todo.

Com vistas ao futuro, a abordagem dos anciãos era igualmente distinta. Na URSS, Khruschev não dera nenhuma atenção à questão sucessória. O grupo que o depôs, com Brezhnev à frente, agarrou-se aos seus cargos até a senilidade. Na gerontocracia paralisada em que se transformara o PCUs, as novas gerações eram vistas não como uma promessa, mas como uma ameaça; somente as mortes poderiam suscitar alguma renovação da liderança. Foi preciso que três secretários-gerais morressem no espaço de três anos, todos na casa dos 70, para que um político mais jovem finalmente ascendesse. No PCC, por outro lado, os anciãos estavam preservados dessa insegurança. Eles não perderam tempo para encontrar um substituto. Dois anos após recuperar o poder, tinham delegado seu exercício diário ao séquito de seus subordinados, promovendo Hu Yaobang a secretário-geral do partido e Zhao Ziyang a presidente do Estado. 


A Era das Reformas começou - se não exatamente no tempo, em termos concretos - com uma transformação das relações fundiárias. Primeiro, os preços de estocagem de grãos foram aumentados. A seguir, em um processo que se estendeu por todo o país após o êxito dos experimentos realizados em Anhui e Sichuan, as comunas do povo foram desativadas de modo ordenado e o usufruto das terras criteriosamente dividido entre as famílias individuais que as formavam, as quais poderiam dispor de suas propriedades para produzir o que quisessem, contanto que as cotas requeridas pelo Estado fossem cumpridas. O "sistema de responsabilidade por unidade familiar" significou uma segunda reforma agrária, tão igualitária quanto a primeira, mas muito mais favorável à produção dos camponeses. Reagindo aos novos incentivos, a produtividade aumentou rapidamente: os insumos de mão-de-obra diminuíram e as safras aumentaram; a produção agrícola aumentou em um terço. Com a redução das horas de trabalho dedicadas à lavoura, a indústria rural- têxteis, tijolos e similares - prosperou rapidamente. O resultado foi um aumento de 30% para 44% da renda dos camponeses na renda nacional em um intervalo de poucos anos, 1978-1984. No setor industrial, o sistema de alocação centralizado, baseado no modelo russo, não sofreu nenhum ajuste radical. Ao contrário, as empresas estatais foram gradualmente autorizadas a cobrar preços de mercado para a produção que excedesse as cotas exigidas pelos planos governamentais, vendidas a preços fixos. Os gerentes receberam incentivos parecidos aos dos agricultores para produzir com rentabilidade por fora do sistema de cotas oficial, sem que fosse preciso desmantelá-Ia. Quando esse sistema de preços dual foi suficientemente testado, o escopo dos planos foi congelado, permitindo que outros empreendimentos industriais se desenvolvessem à sua margem. Na prática, o Estado passou a arrendar empresas aos gerentes em bases contratuais, assim como cedera terras aos camponeses mediante contratos de arrendamento de 30 anos, conservando-as, em última instância, sob sua propriedade.
Durante 15 anos ou mais, no marco desses arranjos, o setor mais dinâmico da economia foi o das "empresas de comunas e aldeias" ou TVES13, com seu peculiar estatuto híbrido. Firmas a meio-caminho entre a propriedade estatal, coletiva e privada, elas se beneficiavam de baixos impostos e crédito fácil dos governos locais, muitas vezes acionistas delas, proliferando com espantosa rapidez e competitividade nos ramos mais simples da indústria. A produção da indústria rural cresceu a uma taxa anual superior a 20%; os postos de trabalho nas TVES aumentaram mais de quatro vezes, passando de 28 para 135 milhões; sua parcela no PIB aumentou de 6% para 26%, entre o lançamento das reformas e meados da década de 199014. Altamente lucrativo, o fenômeno das TVES foi ignorado pelos reforma dores russos de todos os matizes, à medida que a perestroika era implementada. De todos os contrastes entre as transformações nas duas economias, o desempenho das TVES constitui a antítese mais flagrante do mergulho desestabilizador da economia soviética na desindustrialização.

Naturalmente, o crescimento espetacular das TVES estava condicionado à oferta ilimitada de mão-de-obra barata, inexistente na URSS. Com elas, pela primeira vez, a RPC tirou máximo proveito de sua principal dotação, em função da qual seu modelo anterior de industrialização em moldes soviéticos - concentrado em investimentos com elevado coeficiente de capital em indústria pesada -, revelara-se um desajuste, embora necessário à época. Alterando esse padrão mediante investimentos intensivos de mão-de-obra em indústria leve, as TVES ganharam uma enorme vantagem comparativa: no final da década de 1980, a relação mão-de-obra/capital fixo das TVES era nove vezes maior que a das empresas estatais. Contudo, estas últimas também foram beneficiárias do crescimento das TVES, cujos lucros engordaram a poupança dos agricultores, sendo então canalizados através dos bancos estatais para ulteriores investimentos nas grandes empresas nacionalizadas, reequipando-as e modernizando-as.

Os elevados índices de poupança rural, por sua vez, foram outra característica do desenvolvimento chinês arraigada no legado paradoxal da própria Revolução. Pois, o que os determinou foi uma combinação entre a tradicional limitação dos benefícios integrais de bem-estar social aos trabalhadores urbanos, o desmantelamento das comunas que tinham fornecido serviços sociais no campo, mais restritos, mas ainda assim efetivos, e os efeitos da política do filho único, destinada a conter o crescimento populacional. Sem proteção do Estado contra a vicissitude, nem garantias seguras de provimento por parte da geração seguinte, as famílias camponesas não tinham muitas opções, senão investir uma parcela substancial de seus rendimentos em poupança. O Estado se beneficiou duplamente com isso. Ao contrário de sua contraparte soviética, ele não precisou cobrir os gastos com o bem -estar social da maioria de sua população e obteve fácil acesso aos fundos necessários para financiar seu programa de modernização.

Havia capitais disponíveis também de outra fonte. Já em 1979-1980, Zonas Econômicas Especiais tinham sido implantadas nas regiões costeiras para atrair investimentos da chamada "diáspora chinesa", visando os afluentes expatriados de Hong Kong, de Taiwan e do Sudeste Asiático. Após um início moroso, a política de Portas Abertas, voltada para esses empresários estrangeiros, tornou-se um sucesso. Atraídas pelas regalias, pela ausência de tarifas de importação e pela mão-de-obra barata da China Continental, as firmas da "diáspora" chegaram com força total, trazendo tecnologias inacessíveis às ZEES, sobretudo em processamento de exportações. Assim, a China conseguiu pegar carona na experiência e no patrimônio acumulados do capitalismo da diáspora para fazer sua entrada no mercado mundial como centro manufatureiro de baixo custo para linhas de montagem, especializando-se com o tempo em eletrônica e eletrodomésticos de cozinha. Essa também foi uma vantagem regional que a economia soviética, embora eventualmente contasse com outras opções, não tinha chance de igualar.

Por último, mas não menos importante, as reformas chinesas foram decisivamente beneficiadas pela descentralização dos controles sobre a economia, um dos legados mais profícuos do maoísmo. Isso significou não apenas que o império do planejamento a ser remodelado era muito menor, sem uma parafernália desmesurada de cotas e diretrizes, mas também que o país já contava com uma rede de centros autônomos de atividade econômica em suas províncias. Quando estas foram liberadas ainda mais da intervenção de Beijing, seus governos entraram com força total, oferecendo todo tipo de incentivos para aumentar os investimentos e acelerar o crescimento em suas jurisdições. A certa altura, isso acabou provocando uma série de distorções e irracionalidades: duplicação de indústrias, gigantismo na consecução de obras públicas, expansão do protecionismo informal, para não falar do enfraquecimento fiscal do governo central, visto que as autoridades locais passaram a competir entre si por melhores resultados. Contudo, apesar de todas as suas aberrações, a concorrência interprovincial na China, tal como a rivalidade entre as cidades italianas no passado, foi e continua
a ser uma fonte de vitalidade econômica. A Rússia é hoje nominalmente uma federação; no entanto, suas vastas e uniformes planícies nunca favoreceram a criação de fortes identidades regionais e seu governo continua centralizado como nunca. O contraste com a China é notável. Em matéria não de direito constitucional, mas de realidade comercial, a República Popular de hoje é um exemplo tão acabado de federalismo dinâmico quanto os Estados Unidos.

III. PONTOS DE RUPTURA

Quando a Era da Reforma completou uma década, no final dos anos 1980, a economia chinesa tinha se transformado substancialmente. Naturalmente, a escala e a rapidez dessas mudanças não deixaram de afetar a sociedade e a cultura. No campo, o crescimento da renda estacionou após 1984, mas as condições de vida do campesinato tinham melhorado tão sensivelmente, em termos relativos, que eles permaneceram uma classe satisfeita. A intelligentsia, historicamente o outro fator-chave da ordem social, também havia sido bastante favorecida pela política de reformas. Contudo, sua atitude diante do regime era mais ambígua. As universidades reabriram, os institutos de pesquisa se expandiram, novas oportunidades de emprego surgiram. A juventude escarmentada pela temporada no campo foi reintegrada à vida urbana e as vítimas das repressões do passado, libertadas. A liberdade de expressão era muito maior do que no período de Mao, o acesso às ideias e à literatura estrangeiras era de modo geral franqueado, motivando uma verdadeira "febre de alta cultura". Numa atmosfera estimulante de crescente emancipação, debatia-se o futuro da nação, com esmagador consenso em favor da ampliação das reformas.

Esse último ponto, aliás, não constituía propriamente uma diferença com o governo, cuja meta oficial também era aprofundar o processo de reformas. Para muitos intelectuais, ambos trabalhavam no mesmo sentido, trocando consultas e orientações, especialmente com Zhao Ziyang e seus assessores. Mas, havia também certa tensão no ar, que foi aumentando à medida que a década avançava. O partido estava imbuído da autoridade que os sucessos na economia lhe conferiram. Ele gozava de legitimidade também por ter resgatado o país da Revolução Cultural. Mas essa liberação não se traduziu pela sugestão de nenhuma ordem política alternativa. A esse respeito, os anciã os, que tinham sentido na própria pele os efeitos da turbulência, não fizeram nenhum aceno, mas tão só advertências quanto à necessidade de prevenir qualquer recaída no caos. Já em 1978, quando começou a Era das Reformas, as vozes que reivindicavam democracia haviam sido rapidamente silenciadas como uma ameaça para a estabilidade. Na época, elas ainda eram relativamente isoladas.

Mas, à medida que as reformas econômicas avançavam, com ênfase crescente na introdução de relações de mercado, não houve nenhum esforço consequente de analisar as suas implicações - nenhuma explicação oficial para o sucesso das ZEES, por exemplo. O resultado foi uma espécie de limbo ideológico, no qual as ideias liberais se disseminaram de modo um tanto natural. Ora, se os princípios da economia de livre empresa estavam na ordem do dia, por que os princípios jurídicos de liberdade política - alguns, consagrados nominalmente na própria constituição da RPC - não poderiam acompanhá-los, tal como sustentavam as doutrinas conceituadas no Ocidente? Historicamente, apesar da projeção alcança da por Hu Shi, seu representante mais destacado na geração do Movimento Quatro de Maio, o liberalismo havia sido uma tendência inexpressiva entre a intelligentsia chinesa. Mas, na década de 1980, sem ter produzido nenhum teórico comparável, sem contornos suficientemente nítidos, ele se tornou, no rastro da Revolução Cultural, algo como uma postura dominante entre os intelectuais. Bastante moderada, na maioria, embora com o tempo viesse a adquirir acentos mais radicais, mais próximos do padrão russo. Por volta de 1988, a popular série de televisão River Elegy propunha um elogio cifrado do Ocidente, em contraste com as austeras tradições chinesas, do qual qualquer zapadnik teria se orgulhado, embora incluísse até mesmo um retrato lisonjeiro de Zhao Ziyang, evocando o futuro grandioso prometido ao país, e fosse amplamente criticada pelos estudiosos como reconstituição histórica.

Nessa altura, o clima entre os estudantes variava. Entre a geração dos que não haviam sido diretamente afetados pela Revolução Cultural, a animação era grande e as ideias, menos rígidas. Poucos não tinham sido tocados pelos ideais originais da Libertação; alguns eram influenciados por professores liberais, outros por mais ortodoxos; a maioria, sintonizada com a cultura e as novidades do estrangeiro - canções de Taiwan, música dos Estados Unidos; greves na Polônia, eleições na Rússia; todos embalados pelo élan de um país em movimento, excitados pela abertura de seus horizontes e frustrados por seu prolongado imobilismo. Cientes do papel histórico que haviam desempenhado na conscientização da nação em 1919 e novamente em 1935, eles formavam a camada da população mais madura para a ação coletiva. Em 1985, eles mostraram sua característica fibra nacionalista em protestos contra o Japão. Então, no inverno de 1986-1987, organizaram demonstrações pela democracia em Hefei e Beijing. Quando Hu Yaobang, o secretário-geral do partido, se recusou a dissolvê-Ias, os anciãos o demitiram. O movimento foi contido, mas os sentimentos que o animavam não desapareceram.

No ano seguinte, a própria reforma da economia - até então, o para-choque contra as reivindicações de reforma política - defrontou -se com sua primeira crise séria, quando os preços dos produtos básicos começaram a subir e os salários dos trabalhadores urbanos estagnaram. Quando Zhao e Deng deram a entender que a liberação geral dos preços seria iminente, seguiu-se a estocagem de produtos básicos provocada pelo pânico e a inflação disparou durante o verão, alcançando uma variação média anual de 50%. Mas, na percepção do povo, esse não foi o único efeito nocivo do sistema de preços dual. A corrupção, desconhecida durante o período de Mao, aumentava, com funcionários se aproveitando de seus cargos para explorar a diferença entre os preços tabelados e os preços de mercado dos mesmos produtos, e era abominada. A combinação entre dificuldades materiais inesperadas e revolta diante da injustiça social era uma mistura explosiva, gerando uma atmosfera de tensão nas cidades.

Em Beijing, os estudantes já estavam preparando demonstrações para coincidir com o aniversário dos 70 anos do Movimento Quatro de Maio, quando, em abril de 1989, a morte de Hu Yaobang - caído em desgraça por tê-los apoiado - proporcionou um catalisador mais imediato para a manifestação de seus sentimentos sobre o fechamento político. Os estudantes marcharam em passeata até a praça da Paz Celestial para homenagear Hu, pegando o governo desprevenido. zhao tinha desempenhado um papel na queda de Hu, a quem substituiu como secretário-geral do PCC, Confrontado com o tumulto, porém, ele agora contemporizou e o Comitê Permanente rachou, deixando as autoridades sem ação. O movimento estudantil, que mostrou um excelente nível de organização, foi capaz de mobilizar todas as universidades da cidade e manter pressão contínua sobre o governo. No início de maio, as passeatas deram lugar à ocupação da praça pelos estudantes, que exigiam mudanças democráticas e eram apoiados por grandes manifestações da população de Beijing, exasperada pelo agravamento de sua situação econômica e solidária com as principais reivindicações políticas dos estudantes. Protestos semelhantes irromperam em todo o país, onde houvesse universidades para deflagrá-los. Milhões de pessoas saíram às ruas, num movimento social sem precedentes na história da República Popular.

As agitações de 1989 na China, por sua escala e intensidade, superaram todas as outras registradas na Europa do Leste, para não falar na Rússia, naquele ano ou posteriormente. A energia rebelde e o idealismo dos estudantes do país, bem como a solidariedade ativa da população urbana, não tiveram paralelo em outros lugares: um testemunho, a seu modo, da vitalidade política de uma sociedade ainda próxima de suas origens revolucionárias. Na China, porém, dois tipos de energia diferentes colidiram. Quando estourou a crise, a liderança pós-revolucionária responsável pelo funcionamento diário do Estado e do partido titubeou e rachou. Mas os anciãos, veteranos de décadas de luta armada para conquistar o poder, não iriam perdê-lo por indecisão. Eles permaneceram os combatentes que sempre haviam sido, não hesitando em contragolpear aquilo que viam como uma ameaça ao poder do partido, tão logo a força necessária para tanto foi mobilizada. Em junho, o ELP recebeu ordens de esvaziar a praça e o movimento foi esmagado em uma noite de violência. 2 A repressão custou caro ao PCC. Ele perdeu mais legitimidade com o Quatro de Junho do que com a Revolução Cultural, que em certo momento não apenas desfrutou de apoio efetivo, mas também deixou uma reserva de líderes respeitáveis para assumir o governo, uma vez superada. Em 1989, nenhum setor da nação apoiou a repressão e nenhuma oposição sobreviveu no partido - Zhao, exonerado por não ter votado em favor da lei marcial, morreria no anonimato 16 anos mais tarde, ainda sob prisão domiciliar. Por outro lado, o regime ainda conservava o trunfo do crescimento econômico. Gastas as antigas credenciais ideológicas, daí em diante seria isso que bancaria todo o resto. Uma dose de austeridade para controlar a inflação vigorou até 1991. O que viria em seguida?

Nesse ponto, Deng se distanciou de seus colegas e de seu próprio passado. Em maio de 1989, ele tinha declarado: "Naturalmente, há os que pensam que 'reforma' significa um movimento rumo ao liberalismo ou capitalismo. O capitalismo é a quintessência da reforma para eles, mas não para nós. O que nós entendemos por reforma é algo diverso, ainda sujeito a discussão15". Em janeiro de 1992, Deng percorreu o sul da China e em Shenzhen, a maior das Zonas Econômicas Especiais, declarou que o principal perigo que a China enfrentava era a oposição, não da direita, mas da esquerda, contra o aprofundamento das reformas, cuja inovação exemplar era a bolsa de valores local. Embora ainda sustentasse que a China precisava mais do socialismo que do capitalismo, ele agora se recusava a "falar de capitalismo com 'c' maiúsculo e socialismo com 's' maiúsculo" como algo fútil, explicando que, como as desigualdades são funcionais para o crescimento, a acumulação individual de riquezas não era algo condenável, mas louvável: "Ficar rico é uma glória". Enterradas as esperanças de liberdade coletiva, a compensação estaria na prosperidade individual. Tudo o que importava era o crescimento, sem especificações anacrônicas, como rezava o lema oficial buzinado aos ouvidos céticos: "O desenvolvimento é o argumento irrefutável".

O desenvolvimento veio, de fato, e a um ritmo espetacular. O crescimento da China nos anos 1990 superou inclusive o dos 1980, conforme a liberalização da economia se intensificava. No final da década, a paisagem industrial tinha se transformado graças a uma reestruturação maciça das empresas estatais. Ainda em 1996, o setor estatal era responsável pelo grosso dos postos de trabalho nas cidades. Mas, a partir de 1997, os funcionários provinciais foram autorizados a dispor da maioria delas como bem entendessem, fechando, remodelando ou privatizando-as. No decorrer do processo, a cada ano cerca de 7 milhões de trabalhadores perderam seus empregos; finalmente, por volta de 2004, os postos de trabalho nas empresas privadas eram quase o dobro dos do setor público. No mesmo período, as Empresas de Comunas e Aldeias (TVES) foram privatizadas numa escala ainda maior, ficando apenas 10% delas sob alguma forma de propriedade coletiva. O mesmo aconteceu com 80% dos imóveis residenciais urbanos. Mas, "conservando o grande e descartando o pequeno", o Estado não abriu mão daquilo que considerava o pináculo estratégico da economia: energia, metalurgia, armas e telecomunicações. Responsáveis por um terço do total de vendas de produtos manufaturados e apresentando altas margens de lucro, suas megaempresas nesses setores-chave correspondem a cerca de três quartos do patrimônio global das empresas estatais16.

Estruturalmente, se o despojamento gradual foi uma das duas mudanças fundamentais do segundo período de reformas PÓS-1989, a outra foi a maximização do comércio exterior. A rapidez e o grau de abertura nesse setor tiveram poucos precedentes. No início do novo século, as tarifas industriais médias eram de menos de 10%, cerca de um terço das da Índia; as tarifas agrícolas não ultrapassavam 15%. Fomentado por investimentos externos - em que capitais não mais da "diáspora", mas norte-americanos, japoneses e europeus, embora minoritários, desempenhavam um importante papel -, as exportações de manufaturados aumentaram vertiginosamente - sobretudo, de tecnologia avançada, embora estes últimos envolvessem basicamente montagem. De fato, no espaço de uma geração, a China tornou-se a nova fábrica do mundo: a fatia correspondente a comércio exterior de manufaturados no seu PIB é de dois terços, cifra sem precedentes para um grande país, duas a três vezes superior à dos Estados Unidos ou do Japão. Mas, tal como ocorreu com a indústria doméstica, o Estado manteve até agora uma alavancagem decisiva no terreno do comércio exterior, controlando a taxa cambial, a conta de ativo fixo e o sistema bancário.

O sucesso material desse modelo de desenvolvimento transformou a RPC na maravilha do mundo contemporâneo. Com uma taxa de investimento superior a 40%, em 15 anos, de 1989 a 2004, seu PIB quadruplicou. Nas cidades, a renda das unidades familiares aumentou a uma taxa anual de 7,7%; no campo, em cerca de 5%17. Do início da Era da Reforma até 2006, o padrão de vida médio dos chineses aumentou oito vezes, expresso em dólar. Numa única década, a população urbana registrou um salto de 200 milhões18. Ela corresponde agora a dois quintos da população do país e alimenta o maior mercado automotivo do mundo. Ultrapassando de longe até as reservas japonesas, os títulos em carteira do comércio exterior somam mais de 1,3 trilhões, superando o PNB do Canadá. A China chegou, e com força total. 

IV. O NOVUM 

Mas seria "chegada" o termo correto? Não seria "retorno" talvez o mais apropriado? Afinal, a China havia sido por muitos séculos a civilização mais rica e mais avançada do mundo: com certeza, deve existir alguma relação entre esse passado grandioso e as formidáveis realizações do presente. Essas questões nos levam para um terreno mais abrangente e mais obscuro do que o campo relativamente delimitado das comparações entre duas revoluções modernas. Aqui, poderíamos caracterizar em linhas gerais três correntes de pensamento antagônicas, embora não tenha havido até agora nenhum confronto sistemático entre elas. A primeira, atualmente mais em voga entre os historiadores, atribui o acelerado crescimento da RPC essencialmente aos legados milenares de seu passado imperial - dinamismo comercial baseado na agricultura intensiva; profunda divisão do trabalho; redes urbanas desenvolvidas e expansão do comércio interno; crescimento populacional recorde; uma "revolução industriosa". Sob esse ponto de vista, a economia chinesa, havia muito a maior e mais sofisticada do mundo, exibindo um clássico padrão smithiano de crescimento, era tão ou mais plenamente desenvolvida quanto a da Europa Ocidental, pelo menos, até a Guerra do Ópio. Desviada de seu curso por mais de um século pela penetração estrangeira e pela desordem interna, ela agora retornava à sua posição natural no mundo.

Para uma segunda corrente, predominante entre os economistas, o passado imperial oferece poucas pistas para compreender o presente moderno, quanto mais não seja porque - como enfatizou Smith - a ausência de intercâmbio comercial com o estrangeiro privou a economia tradicional de estímulos competitivos, e a proteção deficiente dos direitos de propriedade inibiu a atividade empresarial, restringindo o desenvolvimento chinês a limites próximos do padrão malthusiano. Segundo essa interpretação, o acelerado crescimento atual é resultado da integração tardia da China à economia capitalista mundial, de cuja formação ela esteve historicamente ausente. Com a abertura de seus mercados aos investimentos externos e o gradual fortalecimento dos direitos de propriedade, os fatores de produção foram finalmente liberados para um novo dinamismo. A combinação de oferta abundante de mão-de-obra barata com fartos capitais e tecnologias estrangeiros construiu uma máquina de exportação sem precedentes no passado da China.

Para uma terceira corrente, encontrada (não apenas) entre os sociólogos, a chave para a ascensão econômica da China estaria, pelo contrário, na Revolução Chinesa. Segundo essa versão, foram as realizações do período de Mao que lançaram os fundamentos para as façanhas da Era da Reforma. Esse legado traz no seu bojo a criação, pela primeira vez na história moderna da China, de um Estado soberano forte, que pôs fim à sujeição semicolonial do país; a formação de uma força de trabalho treinada e disciplinada, com altos índices de alfabetização e de expectativa de vida, numa sociedade sob outros aspectos ainda retardatária; e o estabelecimento de poderosos mecanismos de controle da economia - planejamento, setor público, contas do país com o exterior - dentro de um marco institucional relativamente descentralizado, que deixava uma margem de autonomia para as províncias. O desempenho do período das Portas Abertas só teria sido possível com base nesses fatores de transformação19. Obviamente, nenhuma dessas interpretações é absoluta. Encontram-se tanto misturas, quanto casos puros. Em geral, porém, elas não tentam avaliar o peso relativo das variáveis em jogo. Em termos analíticos, a hierarquia dos fatores determinantes buscada não se cristalizará de uma hora para outra. Nesse ponto, é suficiente indicar um termo de comparação pertinente para as hipóteses conflitantes, o qual pode ser formulado da seguinte maneira. Em que, e como, o acelerado crescimento da RPC se diferenciou ou se assemelhou ao do Japão, Coreia do Sul ou Taiwan? Se a experiência chinesa foi um tanto parecida com a deles, então, as hipóteses, sejam de capitalismo pré-moderno ou de capitalismo tardio, ganham impulso; se diferiu substancialmente deles, a hipótese revolucionária parecerá prima fade mais plausível. O que sugerem as evidências?

Uma olhadela nas estatísticas revela um paradoxo. Apesar de sua impressionante rapidez, o crescimento da RPC não foi tão mais veloz que o de seus vizinhos do Extremo Oriente em etapas comparáveis de seu desenvolvimento, embora fosse mantido por uma década a mais. As suas respectivas bases econômicas tampouco diferiam significativamente: em todos os casos, o modelo de desenvolvimento era essencialmente voltado para a exportação. Nesses dois aspectos, as semelhanças entre os membros da família são fortes. Noutros cinco, porém, o contraste é marcante. A partir da década de 1990, a RPC passou a depender muito mais das exportações do que o Japão, a Coreia do Sul ou Taiwan; a parcela correspondente a consumo no PIB chinês tem sido muito inferior; a dependência do capital estrangeiro tem sido muitíssimo maior; a disparidade de renda - e de investimentos - entre o campo e a cidade, muito mais acentuada20,» Por fim, e não menos importante, a escala e o papel do setor estatal na economia foram e continuam a ser, em termos estruturais, muito maiores. Essas características que distinguem o crescimento chinês no contexto do Extremo Oriente estão interrelacionadas e apresentam uma explicação simples. No Japão, na Coreia e em Taiwan, os Estados emergentes no pós-guerra foram uma criação da ocupação ou da proteção norte-americanas, formando uma das linhas de frente da Guerra Fria. Estrategicamente, eles continuam até hoje sob a tutela de Washington - incrustados de bases militares ou cercados por belonaves norte-americanas-, sem contar com verdadeira autonomia diplomática ou militar. Carentes de soberania política e, no entanto, necessitados de autonomia no plano interno, seus governantes - o partido Liberal Democrata, Park Chung Hee, o Guomindang - buscaram uma compensação implementando políticas de desenvolvimento econômico autossustentado, mantendo o capital estrangeiro à distância, por um lado, e promovendo as corporações nacionais, por outro. De modo análogo, temendo a radicalização no campo, confrontados com o espectro da Revolução Chinesa, eles implementaram políticas de reforma agrária - nisso, os EUA os apoiaram - e cuidaram para que o campo nunca ficasse muito atrás das cidades, à medida que o crescimento acelerava. A configuração contrária prevaleceu na RPC. Nela, o Estado pós-revolucionário era totalmente soberano na arena internacional- a ponto de arrancar um cessar-fogo dos Estados Unidos na Coreia - e bastante forte no plano interno desde o início. Por isso mesmo, quando chegou a Era da Reforma, a RPC foi capaz de assimilar um influxo maciço de capital externo, sem receio de que este pudesse lhe trazer descrédito ou subversão. Como Estado totalmente independente, em pleno comando de seu território, ele podia confiar tanto na sua capacidade de controlar fluxos de capital estrangeiro por meio do poder político - um pouco como Lênin pretendera nos tempos da Nova Política Econômica (NEP) -, quanto na sua capacidade de dominar ou manipular o capital nacional, graças a seu controle contínuo sobre as instâncias estratégicas da economia - financeiras e industriais. Além do mais, o Estado podia conter o consumo no campo, impelindo camponeses destituídos para as cidades como uma força de trabalho migrante, algo inviável para os governos em Tóquio, Seul ou Taipé, cujos agricultores precisavam ser bem tratados como condição de sobrevivência dos regimes locais. Se o PCC foi capaz de conseguir isso sem perder o controle sobre a urbanização - a proliferação de favelas planetárias no sul e no sudeste da Ásia -, foi graças ao sistema de hukou, que segregava as cidades do campo, estabelecido durante o Grande Salto Adiante. Durante o período de Mao, os camponeses também tinham sido vítimas de acumulação primitiva em benefício das cidades. Uma vez que a saúde pública e a educação nas aldeias foram desmanteladas após Mao, e que na gestão de liang Zeming os investimentos foram redirecionados para longe do campo, as disparidades de renda entre as populações urbana e rural aumentaram aos saltos. Os pressupostos históricos tanto dos altos índices de inversões externas diretas, quanto dos baixos índices de investimentos em infraestrutura rural na RPC são os mesmos - um regime originado de uma revolução, num país com população mais de sete vezes maior que a do Japão, Coreia do Sul e Taiwan juntos, capaz de jogar duro seja com os camponeses, seja com os estrangeiros. O preço de ambas as coisas ainda não foi pago. Mas os custos diretos ou indiretos de uma e outra têm aumentado visivelmente - de modo ainda desarticulado, porém espalhando inquietação nas aldeias; de modo ainda administrável, mas gerando crescente dependência do Tesouro dos EUA. 

2

O partido que comandou essa transformação do país foi transformado por ela. Os Imortais já passaram. Mas não as vantagens de ser o segundo, e não o primeiro, a mover as pedras. Tirando as lições necessárias da sorte final reservada ao brezhnevismo, o rcc institucionalizou a renovação de seus quadros dirigentes, impondo limites para o exercício dos cargos e regulando a transferência de poder de uma geração para outra. Sem quaisquer antecedentes revolucionários, os atuais e os próximos detentores do poder possuem uma educação mais formal e, como nunca antes, dispõem - tal como os imperadores dispunham dos letrados - de recursos técnicos e intelectuais mais amplos e diversificados, de painéis de especialistas e consultas informais com peritos ou partes interessadas. O crescimento econômico e o sucesso diplomático restauraram a reputação política: o partido atualmente conta com um grau de legitimidade popular como não contava desde a década de 1950. O mandato que adquiriu é a um só tempo poderoso e frágil. O poder: prosperidade no plano interno e dignidade no plano externo são apelos a que poucos resistem. A fragilidade: desenvolvimento econômico sem justiça social, afirmação no plano doméstico e percalços na arena internacional, são aspectos que dificilmente se enquadram nos ideais da Revolução que o partido reivindica como sua. O nacionalismo de consumo é um constructo ideológico raso, no qual ele não pode se fiar inteiramente. Despolitizado como o discurso dominante do PCC se tornou, expurgá-lo de todo socialismo seria contraproducente. A reivindicação transmitida de uma outra legitimidade, ainda inscrita no seu nome, continua a ser uma reserva necessária. Pois os sentimentos revolucionários diante da injustiça e as demandas por equidade não desapareceram das mentes dos cidadãos. Nem tampouco os riscos de ignorá-los.

Explicação é uma coisa, classificação outra e avaliação, uma terceira. Em termos taxonômicos, a RPC do século 21 é um novum histórico-mundial: a combinação daquilo que, segundo qualquer critério convencional, é no momento uma economia predominantemente capitalista, com aquilo que, segundo qualquer critério convencional, ainda é incontestavelmente um Estado comunista - ambos, em seus respectivos gêneros, os mais dinâmicos jamais vistos21. Politicamente, os efeitos dessa contradição deixam suas marcas por todo o espectro da sociedade, onde eles se fundem ou se mesclam. Nunca tantos saíram tão rapidamente da pobreza absoluta. Nunca indústrias modernas e infra-estruturas ultramodernas foram implantadas em escala tão vasta, em tão pouco tempo, nem nunca uma classe média florescente emergiu tão rapidamente junto com elas. Nunca a hierarquia das potências foi alterada tão dramaticamente, alimentando tão espontaneamente o orgulho popular. Nem, nos mesmos anos, a desigualdade atingiu tão rapidamente tetos tão mirabolantes, a partir de um piso tão baixo. Nem a corrupção se alastrou tanto, ali onde a probidade era algo subentendido. Nem os operários, ao menos em teoria, os senhores do Estado até ontem, foram tratados de modo tão abusivo e impiedoso - extinção de postos de trabalho, não pagamento de salários, afrontas escarnecidas, protestos sufocados22. Nem os camponeses, a espinha dorsal da revolução, foram tão esbulhados de suas terras e meios de subsistência, alijados de uma área equivalente à das regiões montanhosas da Escócia por empreendedores imobiliários e burocratas. Usuários da internet em número superior ao de qualquer outro país, nenhum terror, ampla liberdade em suas vidas privadas; um aparato de vigilância moderno e eficiente, como nunca se viu. Para as minorias, ação afirmativa e repressão política e cultural, de mãos dadas; para os ricos, todos os luxos e privilégios que a exploração pode comprar; para os fracos e desenraizados, migalhas ou menos que isso; para os dissidentes, a mordaça ou a masmorra. Em meio ao conformismo ideológico formal- nem sempre, de todo irreal- energia social e vitalidade humana formidáveis. Emancipação e regressão não raro estiveram associadas no passado; mas não de modo tão vertiginoso como na China que Mao ajudou a criar e tentou evitar.

A apreciação de um processo histórico tão descomunal, ainda no seu estágio inicial, está sujeita à falibilidade. Um tanto complexo para aqueles que o vivem de dentro, abarcá-lo na sua totalidade com firmeza e clareza de vistas e chegar a uma síntese dialética talvez seja uma tarefa simplesmente impossível para os que o observam de fora. No Ocidente, mania e fobia da China têm alternado com regularidade desde o Século das Luzes, o pêndulo ora oscilando desta para aquela, em meio a uma nova onda de chinoiserie popular e erudita, não necessariamente mais esclarecida que a original. Na China, suas contrapartes são climas recorrentes de atração pelo Ocidente e de chauvinismo Han. Um espírito sóbrio de comparação, raramente alcançado, é a única salvaguarda contra tais tentações. Isso também vale para o futuro. As projeções de tendências futuras, otimistas ou pessimistas, ouvidas de tempos em tempos entre seus cidadãos, são frequentemente tiradas de Taiwan ou Cingapura: provável democratização, à medida que o padrão de vida e as expectativas políticas aumentam, ou paternalismo autoritário in perpetuo, com uma fachada eleitoral. Nem um nem outro são particularmente atraentes. Em Taiwan, a democracia resultou não tanto de uma gradual mudança de disposição do GMD, quanto de sua necessidade de um novo tipo de legitimação internacional, uma vez que os Estados Unidos deixaram de reconhecer a ilha. O regime monopartidário de Cingapura está fundado sobre um sistema de bem-estar social que só é tão previdente porque foi construído em função de uma cidade-estado, não de um Estado de proporções imperiais. Beijing não necessita do primeiro, nem é provável que venha a reproduzir o segundo. Rumo a quais paragens o megajunco da RPC está se deslocando, é algo que resiste ao cálculo, pelo menos dos astrolábios ora conhecidos.

Notas:



2. O notável ensaio de Isaac Deutscher, “Maoism – Its Origins and Outlook” (1964), continua a ser o ponto de partida para qualquer exame das relações entre as duasrevoluções: Ironies of History, Oxford, 1966, pp.88-120.

3. Para uma estimativa do saldo de vítimas, ver R.W. Davies, “Forced Labor under Stálin: The Archive Revelations”, NLR I/224, nov-dez. 1995, pp.62-80; J. Arch Getty e Oleg Naumov, The Road to Terror, New Haven, CT 1999,pp. 587-594.

4. Ver Andrew Walter e Yang Su, “The Cultural Revolution in the Countryside: Scope, Timing and Human Impact”, China Quarterly, mar. 2003, pp. 82-107.

5. Gosudarstvennyi Komitet Planirovaniya, Comissão de Planejamento Estatal do Governo Comunista da Rússia. [N.doT.]

6. Negativamente, a coletivização agrária e os expurgos tiveram efeitos afins sobre o sistema político: catástrofes cujos êxitos comprometeram irremediavelmente as renovações, enquanto os fracassos do Grande Salto Adiante e da Revolução Cultural possibilitaram-nas.

7. Para o desmantelamento do partido federativo, ver Stephen Kotkin, Armageddon Averted: The Soviet Collapse 1970-2000, Oxford, 2001, pp. 76-81; para o caos monetário, a disseminação do escambo e o desfalque crescente do patrimônio público à medida que a perestroika degringolava, ver David Woodruff, Money Unmade: Barter and the Fate of Russian Capitalism, Ithaca, 1999, pp. 56-78, e Andrew Barnes. Owning Russia: The Struggle over Factories, Farms and Power, Ithaca, 2006, pp. 43-67.
8. As comparações pertinentes são exploradas na obra fundamental de Peter Nolan, China´s Rise, Russia´s Fall: Politics, Economics and Planning in the Transition from Stalinism, Basingstoke, 1995, pp. 110-159, que também contém um dos mais críticos e contundentes relatos da perestroika: pp. 230-301. Para reflexões contritas sobre o fracasso da perestroika em “deflagrar uma revolução capitalista”, comparar Minxin Pei, From reform to Revolution: The Demise of Communism in China and the Soviet Union, Cambridge, 1944, pp. 118-142.

9. Barry Naughton, Growing out of the Plan: Chinese Economic reform, 1978-1993. Nova York, 1995, pp. 41-42

10. The Tiananmen Papers, Nova York, 2001, p. 327.

11. Para um estudo de brilhante virtuosismo, ver Mark Elvin, “The Collapse of Scriptural Confucianism”, in Another History: Essays on China from a European Perspective, Honolulu, 1996, pp. 352-389. 

12 .“Onde estão os babilônios hoje? De que lhes serve a sua cultura agora?”, Indagou ele, Jack Gray, Rebellions and Revolutions China from the 1800s to 2000, Oxford, 2002, p. 195.

13. Em inglês, “Township and Village Enterprises”, ou TVE [N.do T.] 14 Naughton, The Chinese Economy: Transitions and Growth, Cambridge, 2007, p. 274-276.



15. The Tiananmen Papers, p. 325. 16 Naughton, The Chinese Economy, pp. 186, 106, 286, 303-304.



17. As cifras globais dissimulam uma brusca guinada tanto no modelo de crescimento quanto na distribuição de renda após 1989, favorecendo as cidades em detrimento do campo, e as empresas estatais e estrangeiras em detrimento das empresas privadas. Para uma análise dessa mudança, ver Yasheng Huang, Capitalism with Chinese Characteristics: Entrepreneurship and the State, Nova York, 2008, que argumenta ainda que o fator total de produtividade vem declinando na economia chinesa como um todo: pp. 228-290. 

18. Fred Bergsten, Bates Gill, Nicholas Lardy e Derek Mitchel, China: The Balance Sheet, Nova York, 2006, pp. 5 e 31.

19. Para os argumentos da primeira corrente, ver Kenneth Pomeranz, The Great Divergence: Europe, China anad the Making of the Modern World Economy, Princeton, 2000, e Sugihara Kaoru, “The East Asian Path of Economic Development: a Long-Term Perspective”, in Giovanni Arrighi, Hamashita Takeshi e Mark Selden (ed.), The Resurgence of East Asia: 500, 150 and 50 year Perspectives, Londres, 2003, pp. 78-117; para uma ilustração da segunda, ver Jim Rowher, “When China Wakes”, Relatório Especial de The Economist, 28.11.1992; para exemplos da Terceira, ver Chris Bramall, Sources of Chinese Economic Growth 1978-1996, Oxford, 2000, e, especialmente, Lin Chun, The Transformation of Chinese Socialism, Durham, 2006.

20. Ver o surpreendente estudo, com os respectivos gráficos, de Hung Ho-fung, “America´s Head Servant?”, NLR 60, nov-dez. 2009.

21. Para a mais lúcida análise recente da estrutura da economia, ver Joel Andreas, “Changing Colours in China”, NLR 54, nov-dez. 2008, pp. 123-152; sobre o continuísmo no partido, ver David Shambaugh, China´s Communist Party: Atrophy and Adaptation, Bekerley/Los Angeles, 2008, que destaca a sua capacidade de tirar lições das consequências do colapso do PCUs. 22 As vicissitudes da velha e da nova classe operária chinesa são o objeto de uma obra-prima da sociologia: Ching Kwan Lee, Against the Law: Labor Protestes in China´s Rustblet and Sunblet, Bekerley/Los Angeles, 2007.

22. As vicissitudes da velha e da nova classe operária chinesa são o objeto de uma obra-prima da sociologia: Ching Kwan Lee, Against the Law: Labor Protestes in China´s Rustblet and Sunblet, Bekerley/Los Angeles, 2007.