22 de maio de 2010

Aspectos políticos do pleno emprego [1]

Michal Kalecki

MRZine

I

Tradução / 1. Uma maioria consolidada dos economistas já é da opinião de que, mesmo em um sistema capitalista, o pleno emprego pode ser assegurado por um programa de gastos do governo, desde que haja um plano adequado para empregar toda a força de trabalho existente, e desde que a oferta de matérias-primas estrangeiras necessárias possa ser obtida em troca de exportações.

Se o governo assume o investimento público (por exemplo, constrói escolas, hospitais e estradas) ou subsidia o consumo de massa (por transferências às famílias, pela redução dos impostos indiretos, ou subsídios para manter baixos os preços dos bens de primeira necessidade), e se, além disso, essas despesas são financiadas pelo endividamento e não pela tributação (o que poderia afetar negativamente o investimento privado e o consumo), a demanda efetiva por bens e serviços pode ser aumentada até um ponto em que o pleno emprego seja alcançado. Este gasto governamental aumenta o emprego, note-se, não só diretamente, como também indiretamente, uma vez que os rendimentos mais elevados dele resultantes implicam em um segundo aumento na demanda por bens de consumo e de investimento.

2. Pode-se perguntar, de onde o público vai tirar o dinheiro para emprestar para o governo se não reduzir o seu investimento e consumo. Para entender esse processo, é melhor, penso eu, imaginar por um momento que o governo paga seus fornecedores em títulos públicos. Os fornecedores, em geral, não reterão esses títulos, mas os colocarão em circulação enquanto compram outros bens e serviços, e assim por diante, até que finalmente esses títulos atingirão pessoas ou empresas que os manterão como ativos remunerados. Em qualquer período de tempo, o aumento total de títulos públicos em poder (transitório ou definitivo) de pessoas e empresas será igual ao dos bens e serviços vendidos ao governo. Assim, o que a economia empresta ao governo são bens e serviços cuja produção é “financiada” por títulos do governo. Na realidade, o governo paga pelos serviços, não em títulos, mas em dinheiro, mas ele emite títulos simultaneamente e assim retira de circulação o dinheiro; e isto é equivalente ao processo imaginário descrito acima.

O que acontece, no entanto, se o público não estiver disposto a absorver todo o aumento de títulos públicos? O governo os oferecerá, por fim, para os bancos para obter dinheiro (papel-moeda ou depósitos) em troca. Se os bancos aceitarem essas ofertas, a taxa de juros será mantida. Se não, os preços dos títulos vão cair, o que significa um aumento na taxa de juros, e isso vai incentivar o público a deter mais títulos em relação aos depósitos. Segue-se que a taxa de juros depende da política bancária, da do banco central em particular. Se esta política visa manter a taxa de juros em um determinado nível, isto pode ser facilmente alcançado, independente do endividamento do governo. Essa foi e é a posição na presente guerra. Apesar dos deficits orçamentários astronômicos, a taxa de juros não mostrou qualquer aumento desde o início de 1940.

3. Pode-se objetar que os gastos públicos financiados pelo endividamento causarão inflação. Para isso, pode ser respondido que a demanda efetiva criada pelo governo age como qualquer outro aumento de demanda. Se há oferta suficiente de trabalho, plantas e matérias-primas estrangeiras, o aumento da demanda é atendido por um aumento na produção. Mas, se o ponto de pleno emprego dos recursos é atingido e a demanda efetiva continua a aumentar, os preços subirão, de modo a equilibrar a demanda e a oferta de bens e serviços. (No estado de sobre-emprego de recursos, como o que testemunhamos atualmente na economia de guerra, um aumento inflacionário dos preços tem sido evitado apenas na medida em que a demanda efetiva por bens de consumo é contida pelo racionamento e pela taxação direta). Segue-se que, se a intervenção governamental tem como objetivo atingir o pleno emprego, mas freia um pouco antes da demanda efetiva ultrapassar a marca de pleno emprego, não há necessidade de ter medo da inflação. [2]

II

1. A descrição acima é uma definição muito simples e incompleta da doutrina econômica de pleno emprego. Mas é, penso eu, suficiente para familiarizar o leitor com a essência da doutrina e assim permitir-lhe acompanhar a discussão posterior dos problemas políticos envolvidos na realização do pleno emprego.

Em primeiro lugar deve se afirmar que embora a maioria dos economistas agora concordem que o pleno emprego pode ser alcançado pelos gastos do governo, este de modo algum foi o caso, mesmo no passado recente. Entre os opositores dessa doutrina existiam (e ainda existem) proeminentes e autointitulados “especialistas econômicos” estreitamente ligados à banca e à indústria. Isso sugere que há um fundo político na oposição à doutrina do pleno emprego, mesmo que os argumentos apresentados sejam econômicos. Isso não quer dizer que as pessoas que desenvolvem essas teorias não acreditam em sua economia, por mais lamentável que isso seja. Mas a ignorância obstinada geralmente é uma manifestação de motivações políticas subjacentes.

Há, no entanto, indicações ainda mais diretas de que uma questão política de primeira categoria está em jogo aqui. Na grande depressão na década de 1930, as grandes empresas sempre se opuseram aos experimentos de aumento do emprego pelos gastos do governo em todos os países, exceto a Alemanha nazista. Isto pôde ser visto claramente nos EUA (oposição ao New Deal), na França (o experimento Blum), e na Alemanha antes de Hitler. A atitude não é fácil de explicar. Claramente, uma maior produção e emprego beneficia não só os trabalhadores, mas também os empresários porque seus lucros aumentarão. E a política de pleno emprego descrita acima não colide com os lucros, porque não envolve nenhuma tributação adicional. Os empresários diante de uma recessão anseiam por uma retomada; porque é que eles não aceitam de bom grado a retomada sintética que o governo é capaz de oferecer-lhes? É esta questão difícil e fascinante que pretendemos tratar neste artigo.

As razões para a oposição dos “líderes industriais” ao pleno emprego alcançado via gastos do governo podem ser subdivididos em três categorias: (i) não gostam da interferência do governo no problema do emprego como tal; (ii) não gostam da direção dos gastos do governo (o investimento público e o consumo subsidiado); (iii) não gostam das mudanças sociais e políticas resultantes da manutenção do pleno emprego. Vamos examinar em detalhe cada uma dessas três categorias de restrições a uma política governamental expansionista.

2. Vamos lidar primeiro com a relutância dos “capitães da indústria” em aceitar a intervenção do governo na questão do emprego. Cada alargamento da atividade estatal é encarado pelo mercado com suspeita, mas a criação de emprego via gastos públicos tem um aspecto especial que faz com que a oposição seja particularmente intensa. Sob um sistema de livre mercado, o nível de emprego depende, em grande medida, do chamado estado de confiança. Se isso se deteriora, reduz-se o investimento privado, o que resulta numa queda da produção e do emprego (tanto diretamente como através do efeito secundário da diminuição dos rendimentos sobre consumo e investimento). Isto dá aos capitalistas um poderoso controle indireto sobre a política governamental: tudo o que pode abalar o estado de confiança deve ser evitado porque isso causaria uma crise econômica. Mas uma vez que o governo descobre o truque de aumentar o emprego por suas próprias compras, este dispositivo de controle poderoso perde a sua eficácia. Daí déficits orçamentários necessários para realizar a intervenção do governo devem ser considerados perigosos. A função social da doutrina das “finanças saudáveis” é fazer com que o nível de emprego dependa do estado de confiança.

3. A antipatia de líderes empresariais para uma política de gastos do governo se torna ainda mais aguda quando eles consideraram o objeto em que o dinheiro seria gasto: o investimento público e o subsídio ao consumo de massas.

Os princípios econômicos da intervenção governamental exigem que o investimento público deva limitar-se a objetos que não concorram com os equipamentos das empresas privadas (por exemplo, hospitais, escolas, autoestradas). Caso contrário, a rentabilidade do investimento privado pode ser prejudicada, e os efeitos positivos do investimento público sobre o emprego neutralizados pelo efeito negativo do declínio do investimento privado. Essa concepção se adapta muito bem aos empresários. Mas o espaço para o investimento público deste tipo é bastante estreito, e há o perigo de que o governo, na prossecução desta política, pode, eventualmente, ser tentado a nacionalizar os transportes ou serviços de utilidade pública, de modo a ganhar uma nova esfera de investimento. [3]

Poderia se esperar, portanto, que os líderes empresariais e seus especialistas fossem mais favoráveis aos subsídios ao consumo de massa (por meio de transferências às famílias, subsídios para manter baixo os preços dos bens de primeiras necessidades, etc.) do que ao investimento público; uma vez que subsidiando o consumo o governo não embarcaria em qualquer tipo de empreendimento. Na prática, no entanto, este não é o caso. Na verdade, a oposição feita por esses especialistas ao subsídio ao consumo de massa é muito mais violenta que ao investimento público. Por aqui um princípio moral da maior importância está em jogo. Os fundamentos da ética capitalista requerem que “você deve ganhar o seu pão no suor”, a menos que você tenha meios privados.

4. Nós consideramos as razões políticas para a oposição à política de criação de emprego vias gastos governamentais. Mas, mesmo que esta oposição fosse superada – como pode muito bem ocorrer sob a pressão das massas – a manutenção do pleno emprego causaria mudanças sociais e políticas que dariam um novo impulso para a oposição dos líderes empresariais. Com efeito, sob um regime de pleno emprego permanente, a demissão deixaria de desempenhar o seu papel enquanto “medida disciplinar”. A posição social do patrão seria prejudicada, e a autoconfiança e consciência de classe da classe trabalhadora cresceria. As greves por aumentos salariais e melhorias nas condições de trabalho criariam tensão política. É verdade que os lucros seriam mais elevados sob um regime de pleno emprego do que são, em média, nos termos do livre mercado, e até mesmo o aumento dos salários decorrente do maior poder de barganha dos trabalhadores é menos propenso a reduzir os lucros do que para aumentar preços, e, portanto, afeta negativamente apenas os interesses rentistas. Mas a “disciplina nas fábricas” e a “estabilidade política” são mais apreciadas do que os lucros pelos líderes empresariais. Seu instinto de classe lhes diz que um pleno emprego duradouro é inaceitável a partir do seu ponto de vista, e que o desemprego é uma parte integrante do sistema capitalista “normal”.

III

1. Uma das funções importantes do fascismo, como tipificado pelo sistema nazista, foi remover as objeções capitalistas ao pleno emprego.

A aversão a política de gastos do governo, como tal, é superada sob o fascismo pelo fato de que a máquina do Estado está sob o controle direto de uma parceria das grandes empresas com o fascismo. A necessidade do mito das “finanças saudáveis”, que servira para impedir o governo de causar uma crise de confiança devido aos gastos públicos, é removida. Em uma democracia, não se sabe como será o próximo governo. Sob o fascismo não há próximo governo.

A antipatia aos gastos do governo, seja em investimento público ou consumo, é superada pela concentração dos gastos governamentais em armamentos. Finalmente, a “disciplina nas fábricas” e a “estabilidade política” sob o pleno emprego são mantidas pela “nova ordem”, que varia de supressão dos sindicatos aos campos de concentração. A pressão política substitui a pressão econômica do desemprego.

2. O fato dos armamentos serem a espinha dorsal da política de pleno emprego fascista tem uma profunda influência sobre o caráter desta política econômica. Armamentos em larga escala são inseparáveis da expansão das forças armadas e da preparação de planos para uma guerra de conquista. Eles também induzem o rearmamento competitivo de outros países. Isso faz com que o objetivo principal do dispêndio mude gradualmente do pleno emprego para maximizar o rearmamento. Como resultado, o emprego se torna excedente. Não só é o desemprego abolido, mas uma aguda escassez de mão de obra prevalece. Gargalos surgem em todas as esferas, e estes devem ser tratados através da criação de inúmeros de controles. Tal economia tem muitas características de uma economia planificada, e às vezes é comparada, ainda que ignorantemente, com o socialismo. No entanto, este tipo de planejamento tende a aparecer sempre que uma economia se estabelece uma alta meta de produção numa esfera particular, quando se torna uma economia especializada da qual a economia armamentista é um caso especial. Uma economia armamentista envolve uma redução do consumo em comparação com o que poderia ocorrer sob o pleno emprego.

O sistema fascista começa a partir da superação do desemprego, desenvolve-se numa economia de armamentista de escassez, e termina, inevitavelmente, em guerra.

IV

1. Qual será o resultado prático da oposição a uma política de pleno emprego pelos gastos do governo em uma democracia capitalista? Vamos tentar responder a esta questão com base na análise das razões para essa oposição dadas na seção II. Nós discutimos lá que podemos esperar a oposição dos líderes do setor em três planos: (i) a oposição por princípio aos gastos do governo com base em um déficit orçamentário; (ii) a oposição ao direcionamento deste dispêndio tanto para o investimento público – o que pode prenunciar a intromissão do Estado em novas esferas da atividade econômica – ou no sentido de subsidiar o consumo de massa; (iii) a oposição a manutenção do pleno emprego e não apenas a prevenção de depressões profundas e prolongadas.

Agora deve-se reconhecer que a fase em que “os líderes empresariais” poderiam se dar ao luxo de ser oposição a qualquer tipo de intervenção do governo para aliviar a depressão é mais ou menos passado. Três fatores contribuíram para isso: (i) muito pleno emprego durante a presente guerra; (ii) desenvolvimento da doutrina econômica do pleno emprego; (iii) em parte como resultado desses dois fatores, o slogan “O desemprego nunca mais” agora está profundamente enraizado na consciência das massas. Esta posição reflete-se nos recentes pronunciamentos dos “capitães da indústria” e seus especialistas. A necessidade de que “algo deve ser feito na depressão” é consensual; mas a luta continua, em primeiro lugar, quanto ao que deve ser feito na depressão (ou seja, o que deveria ser a direção da intervenção do governo) e em segundo lugar, que isso deveria ser feito apenas na depressão (ou seja, apenas para aliviar recessões em vez de garantir permanentemente o pleno emprego).

2. Nas discussões atuais destes problemas surge, uma vez ou outra, a concepção de se combater a depressão estimulando o investimento privado. Isto pode ser feito através da redução da taxa de juros, pela redução do imposto de renda, ou subsidiando o investimento privado diretamente nesta ou em outra forma. Que tal esquema deva ser atraente para o mercado não é surpreendente. O empresário continua a ser o meio através do qual a intervenção é conduzida. Se ele não sentir confiança na situação política, ele não vai ser subornados para investir. E a intervenção não envolve o governo, seja na “brincadeira com” o investimento (público), seja no “desperdício de dinheiro” com subsídios ao consumo.

Pode ser demonstrado, no entanto, que o estímulo ao investimento privado não fornece um método adequado para evitar o desemprego em massa. Há duas alternativas a serem consideradas aqui. (i) Ou a taxa de juros ou o imposto de renda (ou ambos) são reduzidos drasticamente na recessão e aumentados no crescimento. Neste caso, tanto o período quanto a amplitude do ciclo de negócios serão reduzidos, mas o pleno emprego pode estar distante não só na depressão, mas mesmo durante o crescimento, ou seja, a média de desemprego pode ser considerável, embora suas flutuações sejam menos notadas. (ii) Ou a taxa de juros ou o imposto de renda são reduzidos em uma recessão, mas não aumentam no crescimento subsequente. Neste caso, o crescimento vai durar mais tempo, mas deverá acabar em uma nova crise: uma redução na taxa de juros ou de imposto de renda não eliminam, é claro, as forças que causam as flutuações cíclicas em uma economia capitalista. Na nova recessão será necessário reduzir novamente a taxa de juros ou o imposto de renda e assim por diante. Assim, em um futuro não muito distante, a taxa de juros teria que ser negativa e o imposto de renda teria de ser substituído por um subsídio de renda. O mesmo ocorreria se se tentasse manter o pleno emprego estimulando o investimento privado: a taxa de juros e imposto de renda teriam de ser reduzidos de forma contínua. [4]

Além dessa fraqueza fundamental da luta contra o desemprego através do estímulo ao investimento privado, há uma dificuldade prática. A reação dos empresários às medidas descritas é incerta. Se a desaceleração é aguda, eles podem ter uma visão muito pessimista do futuro, e a redução da taxa de juros ou do imposto de renda pode, então, por um longo tempo, ter pouco ou nenhum efeito sobre o investimento e, portanto, sobre o nível de produção e emprego.

3. Mesmo aqueles que defendem o incentivo ao investimento privado para enfrentar a recessão frequentemente não confiam exclusivamente nisso, mas preveem que este incentivo deve ser feito conjuntamento com o investimento público. Olha-se para o presente como se os líderes empresariais e seus especialistas (pelo menos alguns deles) tendessem a aceitar como um mal menor o investimento público financiado pelo endividamento do Estado como forma de aliviar recessões. Eles parecem, no entanto, ainda se oporem consistentemente à criação de emprego através de subsídios ao consumo e à manutenção do pleno emprego.

Este estado das coisas é talvez sintomático do futuro regime econômico das democracias capitalistas. Na recessão, quer sob a pressão das massas, ou até mesmo sem ela, o investimento público financiado por endividamento do Estado serão realizados para evitar o desemprego em grande escala. Entretanto, se forem feitas tentativas de aplicar este método com o propósito de manter o alto nível de emprego alcançado com a retomada do crescimento posterior, é bem provável que seja encarada uma forte oposição dos líderes empresariais. Como já foi discutido, pleno emprego duradouro não é de todo o seu grado. Os trabalhadores sairiam do “controle” e os “capitães da indústria” ficariam ansiosos para “ensinar-lhes uma lição”. Ademais, o aumento de preços na retomada é uma desvantagem dos pequenos e grandes rentistas, e torna-os “cansados de crescimento”.

Nesta situação, uma poderosa aliança é provável de se formar entre as grandes corporações e os interesses rentistas, e que provavelmente há de se encontrar mais de um economista para declarar que a situação era manifestamente frágil. A pressão de todas essas forças, e em particular das grandes corporações – como regra, influentes em setores do governo – muito provavelmente induzirá o governo a voltar para a política ortodoxa de reduzir o deficit orçamentário. A recessão se seguiria quando a política de gastos do governo voltaria a ser valorizada.

Este padrão de um ciclo de negócios político não é totalmente conjuntural; algo bastante similar ocorreu nos EUA em 1937-8. A derrubada do crescimento na segunda metade de 1937 foi na realidade causada pela drástica redução do deficit orçamentário. Por outro lado, na recessão aguda que se seguiu, o governo imediatamente reverteu para uma política de gastos.

O regime do ciclo de negócios político seria uma restauração do artificial da posição existente no capitalismo do século dezenove. O pleno emprego só seria alcançado no topo do crescimento, porém as recessões seriam relativamente suaves e curtas.

V

1. Deveria um progressista ficar satisfeito com o ciclo de negócios político da forma como descrito na seção anterior? Acho que a isto deveríamos nos opor em dois níveis: (i) que isto não assegura um pleno emprego duradouro; (ii) que esta intervenção governamental está associada ao investimento público que não abarca o subsídio ao consumo. O que as massas demandam agora não é a mitigação da recessão, mas sua abolição total. Nem deveria a consequente utilização mais completa dos recursos ser feita em investimentos públicos não desejados apenas para gerar emprego. O programa de gastos governamentais deveria estar dedicado apenas ao investimento público de fato necessário. O resto do gasto público necessário para manter o pleno emprego deveria ser usado para subsidiar o consumo (através de transferências às famílias, pensões e aposentadorias, redução dos impostos indiretos e subsídios aos bens de primeira necessidade). Os opositores deste tipo de gasto governamental alegam que o governo não terá, então, nenhuma contrapartida ao seu dinheiro. A resposta é que a contrapartida deste dispêndio é o maior padrão de vida das massas. Este não é propósito de toda a atividade econômica?

2. “O capitalismo do pleno emprego” claramente evoluirá para novas instituições políticas e sociais que refletirão o crescente poder da classe trabalhadora. Se o capitalismo puder se ajustar ao pleno emprego, uma reforma fundamental terá sido incorporada nele. Caso contrário, se mostrará um sistema ultrapassado que deverá ser descartado.

Entretanto, lutar pelo pleno emprego pode levar ao fascismo? Talvez o capitalismo se ajuste ao pleno emprego no caminho? Isto parece extremamente improvável. O fascismo surgiu na Alemanha diante de um cenário de desemprego tremendo, e se manteve no poder assegurando o pleno emprego enquanto a democracia capitalista fracassou neste objetivo. A luta das forças progressistas pelo emprego de todos é ao mesmo tempo uma maneira de se prevenir a reincidência do fascismo.

Notas

[1] Este artigo corresponde aproximadamente a uma palestra dada à Sociedade Marshall em Cambridge na primavera de 1942.

[2] Outro problema de natureza mais técnica é o da dívida nacional. Se o pleno emprego é mantido por gastos do governo financiados por empréstimos, a dívida nacional aumentará continuamente. Isso não precisa, no entanto, envolver quaisquer perturbações na produção e no emprego se os juros da dívida forem financiados por um imposto anual sobre o capital. A renda corrente, após o pagamento do imposto sobre o capital, de alguns capitalistas será menor, e de outros maior, do que se a dívida nacional não tivesse aumentado, mas o seu rendimento global permanecerá inalterado e seu consumo agregado não será suscetível a mudanças significativas. Além disso, a propensão para investir em capital fixo não é afetada por um imposto sobre o capital, porque ele é pago sobre qualquer tipo de riqueza. Se uma determinada quantia está em dinheiro ou títulos do governo ou investida na construção de uma fábrica, o mesmo imposto sobre o capital é pago sobre ela e, assim, a vantagem comparativa é inalterada. E se o investimento é financiado por empréstimos é evidente que não é afetado por um imposto sobre o capital se não significar um aumento da riqueza do empresário investidor. Assim, nem o consumo capitalista nem o investimento é afetado pelo aumento da dívida nacional se seus juros forem financiados por um imposto anual sobre o capital. [Ver "A Theory of Commodity, Income, and Capital Taxation"]

[3] Deve-se notar aqui que o investimento em uma indústria nacionalizada pode contribuir para a solução do problema do desemprego apenas se for realizada em princípios de retorno diferentes daqueles da iniciativa privada, ou deve deliberadamente temporizar o seu investimento de modo a mitigar aqueles da iniciativa privada. O governo deve estar satisfeito com uma menor taxa líquida de falências.

[4] Uma demonstração rigorosa encontra-se no artigo publicado em Oxford Economic Papers. [Ver "Full Employment by Stimulating Private Investment?"]

1 de maio de 2010

A elite do poder financeiro

John Bellamy Foster e Hannah Holleman


"Você está me dizendo que o êxito do programa (econômico) e a minha reeleição dependem do Federal Reserve e de um bando de malditos negociantes de títulos?" 
— Presidente Bill Clinton [1]

Tradução / Somente por duas vezes no último século – depois do Pânico Bancário de 1907 e em seguida à Quebra do Mercado de Ações de 1929 – a fúria dirigida às elites financeiras dos EUA atingiu os níveis de hoje, na esteira da Grande Crise Financeira de 2007-2009. Uma pesquisa da revista Time em outubro de 2009 revelou que 71% do público acredita que devem ser impostos limites às compensações dos executivos de Wall Street; 67% querem que o governo force os executivos a pagar cortes nas empresas de Wall Street que receberam ajuda financeira federal; e 58% concordam que a Wall Street exerce demasiada influência sobre a política de recuperação econômica do governo. [2]

Em janeiro de 2009, o presidente Obama capitalizou a crescente fúria contra os interesses financeiros chamando de "vergonhosos" os exorbitantes bônus bancários subsidiados com dinheiro dos contribuintes, e ameaçou com novas regulamentações. O jornalista Matt Taibbi abriu seu artigo de julho de 2009 na Rolling Stone com: "A primeira coisa que você precisa saber sobre a Goldman Sachs é que ela está em toda parte. O banco de investimentos mais poderoso do mundo é um grande polvo-vampiro que envolve a face da humanidade, drenando implacavelmente seu sangue para tudo que cheire a dinheiro". O ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional, Simon Johnson, publicou um artigo no número de maio de 2009 do Atlantic intitulado: "O Golpe Silencioso", criticando a tomada pela "oligarquia financeira americana" de posições estratégicas no governo federal, que dão "ao setor financeiro poder de veto a políticas públicas". [3]

A Comissão de Inquérito da Crise Financeira estabelecida por Washington em 2009 foi encarregada de examinar "as causas, internas ou globais, da atual crise financeira e econômica nos Estados Unidos". Seu presidente, Phil Angelides, compara sua tarefa à do inquérito Pecora na década de 30, que expôs os excessos especulativos e a conduta dolosa da Wall Street. As primeiras audiências em janeiro de 2010 tiveram início com os presidentes executivos de alguns dos maiores bancos dos EUA: Bank of América, JP Morgan Chase, Goldman Sachs e Morgan Stanley. [4]

Enquanto isso, o governo federal continuou seu programa de salvamento dos bancos através da canalização de trilhões de dólares para eles, através de fusões de capital, garantias para empréstimos, subsídios, compra de ativos tóxicos, etc. Esta é uma época de falências bancárias recordes, mas também de rápida concentração financeira, na medida em que as empresas já "grandes demais para falir" no ápice do sistema financeiro estão se tornando ainda maiores.

Tudo isso levanta a questão de uma elite emergente do poder financeiro. O poder dos interesses financeiros na sociedade estadunidense aumentou? A crescente influência de Wall Street afetou os próprios EUA? Como isso está conectado à presente crise? Argumentaremos que a financiarização do capitalismo dos EUA nas últimas quatro décadas foi acompanhada por uma guinada dramática e provavelmente duradoura na posição da classe capitalista, da qual uma crescente proporção agora deriva sua riqueza das finanças e não da produção. Essa predominância cada vez maior das finanças pode ser vista hoje nos corredores internos do poder estatal.

O trust do dinheiro

A fúria com a existência de um "trust do dinheiro" regendo a economia estadunidense atingiu vastas proporções no final do século dezenove e início do século vinte. Este foi um tempo no qual os banqueiros de investimento fizeram o parto dos gigantes industriais, inaugurando a nova era do capital monopolista. Em troca, os bancos de investimento obtiveram o que o economista marxista austríaco Rudolf Hiferding, em sua grande obra O Capital Financeiro (1910) chamou de "o lucro do promotor". [5] Hiferding e o economista e sociólogo radical Thorstein Veblen nos Estados Unidos foram os dois maiores teóricos da ascensão da nova era do capital monopolista e do controle financeiro. Veblen declarou que "os banqueiros de investimento coletivamente são a comunidade custodiadora da propriedade absenteísta em geral, toda a equipe encarregada de procurar negócios... [A]s casas bancárias que se engajaram neste empreendimento se prepararam para um controle acionário efetivo das corporações cujos negócios financeiros elas administram". [6] Na fusão prototípica do período, a criação em 1901 da U.S. Steel Corporation, o sindicato de corretores que o J.P.Morgan & Co. reuniu para lançar as ações no mercado, recebeu uma participação de 1,3 milhões e mais de US$ 60 milhões em comissões das quais o J.P.Morgan & Co. receberam US$ 12 milhões. [7]

O Pânico Bancário de 1907, durante o qual o próprio J.P. Morgan interveio na ausência de um banco central que estabilizasse o setor financeiro, levou à criação em 1913 do Sistema de Reserva Federal (Federal Reserve System), projetado para dar liquidez aos bancos durante uma crise. Mas isso levou também a acusações, primeiro formuladas em 1911 pelo congressista Charles A. Lindberg (pai do famoso aviador), de um "cartel do dinheiro" no domínio das finanças e da indústria dos EUA. Woodrow Wilson, então governador de New Jersey, declarou: "O maior monopólio deste país é o monopólio do dinheiro".

Em 1912, uma investigação destinada a descobrir a verdade por trás da questão do trust do dinheiro foi lançada pela Comissão da Câmara sobre Bancos e Moeda, presidida por Arsene Pujo, da Louisiana. A Comissão Pujo descobriu que 22% do total dos recursos bancários da nação estavam concentrados em bancos e companhias de custódia baseadas na Cidade de Nova Iorque. Ela publicou informações mostrando os canais do controle e propriedade financeiros, focando especialmente o extenso império financeiro-industrial do J.P.Morgan, enfatizando as cadeias imbricadas de gestão através das quais esse controle era exercido. Ela detalhou o que via como um "grupo interno" associado ao trio formado por Morgan no J.P.Morgan & Co., George F.Baker no First National Bank, e James Stillman no National City Bank, assim como em vários outros bancos e empresas que eles controlavam. Coletivamente, o grupo interno manteve 300 diretorias em mais de cem corporações. A Comissão Pujo denunciou que não era investimento, mas controle sobre as finanças e a indústria dos EUA, o objetivo da extensa rede de propriedade e direção. Ela concluiu que havia uma "identidade e comunhão de interesses estabelecidos e bem definidos entre alguns líderes financeiros, criada e mantida através de propriedade acionária, gestão interligada, sociedade e transações em contas conjuntas, e outras formas de domínio sobre bancos, companhias e custódia, ferrovias e corporações industriais e de serviço público, que resultaram numa concentração grande e rapidamente crescente do controle de dinheiro e crédito nas mãos desses poucos".

Apesar de que afinal a Comissão Pujo teve pouco efeito no Congresso, levantou preocupações com o trust financeiro e o papel dos bancos de investimento. A acusação mais cáustica baseada nessas revelações foi feita por Louis Brandeis em O dinheiro dos outros (1913), onde escreveu: "O elemento dominante em nossa oligarquia financeira é o banqueiro de investimentos. Bancos associados, companhias de custódia e companhias de seguro de vida são suas ferramentas... O desenvolvimento de nossa oligarquia financeira seguiu... diretrizes com as quais a história do despotismo político nos familiarizou: usurpação, por meio de intrusão gradativa ao invés de atos violentos, concentração, sutil e frequentemente escondida por muito tempo, de funções distintas... Foi por processos como estes que César Augusto tornou-se o dono de Roma". [8]

O crash do Mercado de Ações de 1929 e a Grande Depressão levaram novamente a investigações sobre a questão do trust monetário. Em seu discurso inaugural, Franklin Roosevelt afirmou que "os cambistas fugiram de seus tronos no templo de nossa civilização. Devemos agora devolver este templo à antiga verdade". Em 1932 a Comissão do Senado sobre Bancos e Moeda iniciou uma investigação de dois anos sobre os mercados de títulos e sobre o sistema financeiro como um todo, conhecida como inquéritos Pecora, com base no nome do último conselheiro-chefe da comissão, o dinâmico Ferdinand Pecora. Como fez a Comissão Pujo, a investigação Pecora apontou as atividades especulativas dos bancos de investimentos associados aos principais bancos. Também destacou as diretorias interligadas que formavam uma complexa teia cujo centro era um punhado de interesses financeiros, dos quais J.P.Morgan & Co. e Drexel & Co. são especialmente significativos. A investigação Pecora descobriu que o país está sendo colocado "sob controle dos financistas". Essas audiências conduziram diretamente à fundação da Comissão de Títulos e Câmbio e à aprovação no Congresso, dentro de um ano, da Lei Glass-Steagal, que estabeleceu, entre outras coisas, a separação de atividades de banco comercial e de investimento. O sentimento popular à época foi talvez melhor resumido pelo deputado Charles Truaux, de Ohio, que declarou, com relação à Lei de Títulos de Câmbio de 1934, "Sou favorável a esta lei, porque ela fará alguma coisa com o maldito bando de chantagistas e vampiros que sempre sugaram o sangue da humanidade". [9]

A era dos bancos tediosos

O período que se seguiu à Grande Depressão, até a década de 70, foi chamado por Paul Krugman de "a era dos bancos tediosos". "A indústria bancária que emergiu daquele colapso [nos anos 30] foi estritamente regulada, muito menos colorida do que havia sido antes da Depressão, e muito menos lucrativa para aqueles que a geriam. A atividade bancária tornou-se chata, um pouco porque os bancos eram muito conservadores. A dívida habitacional, que tinha caído abruptamente em termos de percentual sobre o PIB durante a Depressão e a Segunda Guerra Mundial, permaneceu muito inferior aos níveis de antes de 1930". [10] Nos anos 60, o poder relativo do setor financeiro no capitalismo estadunidense declinou. Os bancos de investimento, que tinham sido tão importantes no seu apogeu nas décadas iniciais do século XX, decaíram em poder e influência.

A regulação das finanças associada à Glass-Steagall e à Lei de Títulos e Câmbio é freqüentemente creditada pela era do "banco tedioso". Entretanto, na realidade, a relativa estabilidade financeira desses anos, e o afastamento do controle financeiro exercido pelos bancos, tem muito mais a ver com o crescimento maciço das gigantescas corporações industriais, no que foi chamado de "a era dourada" da expansão do capitalismo pós-Segunda Guerra Mundial. Essas corporações gigantescas produziram enormes superávites econômicos e puderam bancar sua expansão, na maior parte, com base em suas próprias finanças internas. John Kenneth Galbraith afirmou em Capitalismo Americano (1952): "Enquanto os bancos, como símbolo do poder econômico, eram eclipsados, seu lugar foi tomado pela corporação industrial gigante". [11] Entretanto, seria mais acurado dizer que o que emergiu depois da década de 20 foi a "combinação", sob o capitalismo monopolista, do capital financeiro e industrial, como sugerido tanto por Lênin quanto por Veblen. [12]

A era da financiarização [13]

As últimas décadas, desde os anos 70, e especialmente desde os anos 80, têm visto a rápida financiarização da economia estadunidense e do capitalismo global em geral, na medida em que o centro de gravidade do sistema tem se deslocado da produção para as finanças. Apesar de ter havido crises financeiras periódicas, começando com a falência da Pennsylvania Central Railroad em 1970, o estado tem intervido em cada crise como o prestamista de última instância, e procurado apoiar o sistema financeiro. O resultado por décadas tem sido o crescimento maciço de um sistema financeiro no qual a cobrança forçada das dívidas nunca ocorreu de fato, levando a crises financeiras maiores e a intervenções estatais mais agressivas. Uma indicação do fracasso em erradicar forçosamente as dívidas, apesar das repetidas crises de crédito, e do resultante crescimento da pirâmide financeira, é o aumento sem precedentes históricos da participação dos lucros financeiros (isto é, os lucros de corporações financeiras), que subiu de 17% do total de lucros corporativos domésticos em 1960 para um máximo de 44% em 2002. Apesar de que a parcela de lucros financeiros caiu em 27% até 2007, à beira da Grande Crise Financeira de 2007-2009 (em parte devido a ganhos nos lucros industriais nesse período), permaneceu estável à medida em que a crise se aprofundava, e recuperou-se nos primeiros três trimestres de 2009 até 31%, bem acima de seu nível de antes da crise – graças à ajuda federal (e devido ao fato de que os lucros industriais continuaram atolados na recessão). (Ver gráfico 1)


Hoje em dia é comum que economistas apresentem a Grande Crise Financeira como apenas mais um, ainda que mais severo, caso de crise financeira, parte de um ciclo financeiro recorrente sob o capitalismo. [14]Todavia, ainda que tenha havido muitos outros períodos de manias e pânicos financeiros no último século – sendo o mais famoso os proverbiais "loucos anos 20", que levaram à Quebra do Mercado de Ações em 1929 – a guinada popular de hoje na direção de maiores lucros financeiros, que já dura décadas, não tem precedentes históricos. [15] Isso representa uma inversão da economia capitalista – à qual Paul Sweezy se referiu em 1997 como "a financiarização do processo de acumulação do capital". Em períodos anteriores do desenvolvimento capitalista, bolhas financeiras ocorriam nos picos dos ciclos de negócios, refletindo o que Marx chamou de "pletora de capital monetário" no auge da especulação imediatamente precedente a uma quebra. Hoje, entretanto, as bolhas financeiras são vistas mais apropriadamente como manifestações de um processo secular de financiarização, alimentando-se mais da estagnação que da prosperidade. As expansões especulativas servem para estimular temporariamente a economia de base, mas levam inevitavelmente ao aumento da instabilidade financeira. [16]

O sistema financeiro foi, assim, transformado historicamente numa economia de cassino, a partir da década de 70, como resposta ao reaparecimento das tendências de estagnação na produção – e acelerando-se a cada década que se seguiu. Após o marco histórico da Quebra do Mercado de Ações de 1987, alguns dos que tinham acompanhado a explosão financeira desde o início dos anos 70 (e mesmo antes disso), tal como Hyman Minsky e Paul Sweezy, argumentaram que o sistema tinha sido submetido a uma mudança radical, refletindo o que Minsky apelidou de "capitalismo de gestão monetária" e que Sweezy chamou de "o triunfo do capital financeiro". Mais recentemente, essa nova fase foi denominada "capital financeiro monopolista". [17]

À medida em que a financiarização prosseguiu, formas cada vez mais exóticas de inovação financeira (toda espécie de futuros, opções, derivativos, swaps) apareceram, junto com o crescimento de todo um sistema bancário oculto, fora dos balanços dos bancos. A revogação da Glass-Steagall em 1999, apesar de não ter sido em si mesma um grande evento histórico, simbolizou a dimensão total da desregulamentação que tinha então sido feita generalizadamente. O sistema tornou-se cada vez mais complexo, opaco e ingovernável. Surgiu uma nova era de conglomerados financeiros, ao mesmo tempo em que tinha início em 2007 a Grande Crise Financeira.

Na perseguição pública ao trust monetário no início do século XX, a ênfase nunca esteve na concentração total da propriedade nas finanças, já que o sistema bancário era menos concentrado que a maioria das indústrias. Ao invés disso, foi colocada ênfase nas diretorias interligadas e nas várias práticas de empréstimos que envolviam "reciprocidade", através das quais se achava que o controle efetivo era exercido pelo cartel monetário centrado em alguns poucos bancos poderosos. De acordo com o estudo "Grupos de Interesse na Economia Americana", elaborado por Paul Sweezy para a agência do New Deal, a Comissão de Recursos Nacionais (publicada no seu relatório de 1939, A estrutura da Economia Americana), os cinqüenta maiores bancos nos EUA em 31 de dezembro de 1936 detinham 47,9% da média de depósitos em todos os bancos comerciais em 1936. Isso permaneceu inalterado (pelo menos aparentemente) até 1990, quando as cinqüenta maiores holdings bancárias nos EUA detinham 48% de todos os depósitos nacionais. [18]

Todavia, o final da década de 80 e o início da década do 90 foram geralmente considerados como um período de crise para os bancos dos EUA, o que foi em parte atribuído ao fato de que os bancos comerciais estadunidenses não eram mais considerados grandes o bastante para competir eficientemente. Isso pode ser visto de forma dramática no peso decrescente dos bancos dos EUA relativamente aos bancos de outros países capitalistas avançados. Em 1970, os bancos comerciais dos EUA superavam em tamanho (medido por depósito) os principais bancos europeus e japoneses. Neste ano, os três maiores bancos do mundo eram o BankAmerica, o Citicorp e o Chase Manhattan, todos baseados nos Estados Unidos. No total, os Estados Unidos respondiam por oito dos 20 maiores bancos do mundo. Em 1986, o maior banco do mundo era japonês, e apenas três bancos estadunidenteses permaneciam entre os 20 maiores. Em termos de capitalização do valor de mercado, os bancos dos EUA estavam ainda em pior situação. O Citicorp caiu em 1986 para o 29º lugar na classificação, internacionalmente, enquanto o BankAmerica saiu fora da lista dos 50 maiores. [19]

Se os bancos dos EUA estivessem sendo expulsos por competidores estrangeiros que estivessem crescendo muito mais depressa, refletindo economias de escala nos bancos, eles teriam também sido afetados por uma alteração de rumo acelerado no longo prazo, na era da financiarização, para longe da atividade bancária e na direção de outras formas de intermediação financeira, dando aos bancos uma participação menor no mercado total. Em 1950 os ativos dos bancos comerciais representavam mais da metade do total de onze tipos principais de intermediários financeiros (bancos comerciais, companhias de seguro de vida, fundos de pensão privados, associações de poupança e empréstimo, bancos de poupança e consórcios de crédito). Em 1990 isso tinha se reduzido a 32%. Apesar da retirada dos bancos da intermediação financeira poder ter sido superestimada por esses números, que não levaram em conta as atividades não contabilizadas dos bancos, o crescente deslocamento dos bancos comerciais dos EUA na era da financiarização tornou-se uma grande preocupação. [20]

Tudo isso significou um crescente enfraquecimento da atividade bancária, com os bancos cada vez mais encorajados a "patinar no gelo fino", como Harry Magdoff e Sweezy disseram na década de 70, com base nos baixos níveis de capitalização. Isso também levou ao aumento de falências e fusões bancárias de 1990 a 2007, o que alimentou a concentração e a centralização, à medida em que os bancos buscaram economias de escala e a condição de "grande demais para falir" dentro da economia (a presumida garantia de ajuda do governo federal num evento de crise). No total, os EUA viram cerca de 11.500 bancos se fundirem entre 1980 e 2005, numa média de cerca de 440 fusões ao ano. Além disso, o tamanho das empresas fundidas elevou-se a passos de gigante. Em janeiro de 2004 o J.P.Morgan Chase decidiu comprar o Bank One, formando uma holding bancária com US$ 1,4 milhão de milhões em ativos (atrás, na época, apenas do Citigroup, com ativos de US$ 1,6 milhão de milhões). [21]

A concentração financeira se acelerou ainda mais em decorrência da Grande Crise Financeira que começou em 2007. Números record de falências bancárias, e as maiores empresas, as principais beneficiárias da ajuda governamental, procuraram segurança no aumento de tamanho, esperando manter seu status de "grande demais para falir". Dos quinze maiores bancos comerciais dos EUA em 1991 (Citicorp, BankAmerica, Chase Manhattan, J.P. Morgan, Security Pacific, Chemical Banking Corp, NCNB, Manufacturers Hanover, Bankers Trust, Wells Fargo, First Interstate, First Chicago, Fleet/Norstar, PNC Financial, and First Union – com ativos totais de US$ 1,153 milhão de milhões), somente cinco (Citigroup, Bank of America, JPMorgan Chase, Wells Fargo, and PNC Financial—com ativos totais de U$ 8,913 milhão de milhões) sobreviveram como entidades independentes até o final de 2008. Os bancos de investimento da Wall Street sofreram as maiores transformações. Em 1988, as empresas líderes na oferta de dívida corporativa, títulos baseados em hipotecas, direitos de propriedade e obrigações municipais eram Goldman Sachs, Merrill Lynch, Salomon Brothers, First Boston, Morgan Stanley, Shearson Lehman Brothers, Drexel Burnham Lambert, Prudential-Bache, and Bear Stearns. No final de 2008, apenas duas dessas nove permaneceram independentes: o Goldman Sachs e o Morgan Stanley, ambos transformados em holdings bancárias, de forma a abrigá-las sob o guarda-chuva da ajuda do governo federal.

Na verdade, o nível global da concentração financeira é muito maior que o que pode ser visto olhando-se apenas os grandes bancos, já que o que surgiu nos últimos anos são conglomerados financeiros, centralizados em bancos e seguradoras, e engajados num amplo espectro de transações financeiras que dominam a economia estadunidense, inclusive compromissos extra-balanço patrimonial. Os dez maiores conglomerados financeiros dos EUA em 2008 detinham mais de 60% dos ativos financeiros do país, em comparação com apenas 10% em 1990, criando as condições para um oligopólio financeiro. O J.P.Morgan Chase agora detém US$ 1 de cada US$ 10 de depósitos bancários no país. O mesmo com o Bank of América e o Wells Fargo. Esses três bancos, mais o Citigroup, agora emitem quase uma de cada duas hipotecas, e respondem por dois de cada três cartões de crédito. Como diz Mark Zandi, economista-chefe da Moody's Economy: "O oligopólio se fortaleceu". [22]

A financiarização da classe capitalista

Qual tem sido o efeito da financiarização, tal como descrito acima, sobre a composição da classe capitalista e as relações na sociedade estadunidense? Os melhores dados empíricos disponíveis para averiguar as mudanças na distribuição de riqueza na classe capitalista têm sido compilados anualmente desde o início da década de 80 pela revista Forbes, acessável no chamado "400 da Forbes", ou seja, os 400 americanos mais ricos. Apesar dos 400 da Forbes em 2007 responderem apenas por cerca de 2,4% da riqueza privada total e 7% da riqueza dos 1% de americanos mais ricos, sua participação na riqueza (de US$ 1,54 milhão de milhões) não foi absolutamente insignificante, quase se igualando à riqueza da metade inferior da população estadunidense, ou cerca de 150 milhões de pessoas (de US$ 1,6 milhão de milhões). Além disso, os 400 da Forbes, como super-elite da classe capitalista, podem ser visto como representantes da "vanguarda", portanto da direção principal, da classe capitalista dominante. [23]

Os dados dos 400 da Forbes incluem informações sobre a fonte primária de riqueza, por setor industrial, de cada indivíduo. Com base nesses dados, é portanto possível averiguar as áreas ascendentes e descendentes de riqueza nos porfolios dos americanos mais ricos. Uma tentativa pioneira feita em 1990 por James Petras e Christian Davenport de usar esses dados para examinar a mudança na composição da riqueza dos americanos mais ricos, durante 1983-1988, concluiu:

Os dados dos 400 da Forbes mostram que os capitalistas especuladores tornaram-se cada vez mais predominantes na classe dominante dos EUA, deslocando capitalistas industriais e petrolíferos... Além disso, a base especulativa do capitalismo dos EUA traz maior risco de instabilidade. Os maiores ganhadores nos anos recentes têm sido os setores financeiro e imobiliário – e a recessão iminente pode exacerbar sua fraqueza e derrubá-los junto com os principais setores industriais aos quais eles estão ligados. [24]

Há agora um quarto de século de dados disponíveis na série dos 400 da Forbes, o que nos permite examinar a alteração na composição da riqueza numa base de muito mais longo prazo, e ao longo do estágio crítico da financialização da economia estadunidense. Analisando a série da Forbes, usamos os dados históricos reconstruídos por Peter W. Bernstein e Annalyn Swan, que, com consultoria da equipe de pesquisadores dos 400 da Forbes, e utilizando os arquivos de dados da revista, vieram a publicar em 2007 "Todo o dinheiro do mundo: Como os 400 da Forbes ganham – e gastam – suas fortunas". Complementamos isso com a última pesquisa dos mesmos autores, usando os dados da Forbes, publicados em 8 de outubro de 2007, publicado pela própria Forbes.

As mudanças na estrutura da riqueza dos 400 da Forbes ao longo de um período de vinte e cinco anos, de 1982 a 2007 (em percentuais para os anos selecionados) é mostrado no Gráfico 2. (Os números de 1982, diferentemente dos outros anos, não incluíram a categoria retalho, que não foi originariamente isolada como área de riqueza, devido à sua pequena representação nos 400 da Forbes no início da década de 80. Conseqüentemente, o retalho entra em "Outros"). Em 1982, o petróleo e o gás eram a fonte primária de riqueza para 22,8% dos 400 da Forbes, com manufatura em segundo com 15,3%. Finanças, em contraste, era o setor primário de riqueza apenas para 9%, com finanças e mercado imobiliário juntos (ambos incluídos no FIRE, ou finanças, seguros e imóveis, em inglês Finance, Insurance e Real State) representando 24%. Somente uma década mais tarde, em 1992, todavia, as finanças ultrapassaram todas as outras áreas, representando a fonte primária de riqueza para 17% dos 400 da Forbes, enquanto finanças mais mercado imobiliário constituíam 25%. Petróleo e gás, enquanto isso, encolheram para 8,8%. As manufaturas, em 14,8%, conseguiram manter sua participação geral, apesar de estarem agora ultrapassadas pelas finanças, assim como pelo florescente setor de media, entretenimento e comunicações, que subiu para 15,5%.

Em 2007, no início da Grande Crise Financeira, o percentual dos 400 daForbes que derivavam sua principal fonte de riqueza das finanças subiu para 27,3%, enquanto as finanças e os imóveis juntos chegaram a 34%, com mais de um terço dos 400 americanos mais ricos agora tendo sua riqueza principalmente derivada do FIRE. O competidor mais próximo nesta época – a tecnologia – respondia por cerca de 10,8% da riqueza dos 400 da Forbes. A manufatura tinha desabado para 9,5%, apesar de agora exceder ligeiramente a media/entretenimento/comunicações (9,3%). A alteração neste quarto de século foi enorme. Em 1982, a manufatura havia excedido as finanças como fonte de riqueza por 6 pontos percentuais. Em 2007, as posições foram revertidas, com as finanças excedendo a manufatura por 18 pontos percentuais, enquanto as finanças mais imóveis excediam a manufatura em 25 pontos. [25]

O que podemos chamar de "financiarização da classe capitalista" neste período é refletido não apenas no crescimento dos lucros financeiros como percentual do total de lucros corporativos, e na mudança das fontes primárias de riqueza dos americanos mais ricos das finanças para o Mercado imobiliário, mas também no aumento da compensação dos executivos do setor financeiro, relativamente a outros setores da economia. Como Simon Johnson notou, "De 1948 a 1982, a compensação média no setor financeiro variou entre 99% e 108% da média de todas as indústrias privadas nacionais. Em 1983, disparou, alcançando 181% em 2007". Em 1988, os dez mais da nação em compensação a executivos não incluíam nenhum presidente executivo. Em 2000, as finanças respondiam pelos dois maiores. Em 2007, incluíam quatro dos cinco maiores. [26]

Relativamente tanto a lucros quanto a compensações a executivos, havia portanto uma enorme viragem na direção das finanças, com a riqueza do último degrau da classe capitalista crescentemente vindo do setor financeiro. O rei das finanças, Warren Buffett, ainda mais que o rei da tecnologia, Bill Gates, é quem melhor exemplifica a nova fase do capital financeiro monopolista.

A financiarização do Estado

O domínio da classe capitalista sobre o governo americano é exercido através de representantes, ou diversas elites poderosas, extraídas diretamente da própria classe capitalista e de seus agregados, que vêm a ocupar posições estratégicas nos círculos corporativos e governamentais. O conceito de "elite do poder" foi introduzido nos anos 50 pelo sociólogo C. Wright Mills, e foi subseqüentemente desenvolvido por outros, notavelmente por G.William Domhoff, autor de Quem dirige a América? Para Domhoff, a elite do poder é o "grupo de liderança ou o braço operador da classe dirigente". [27] Na prática, a noção de uma elite geral do poder tem freqüentemente levantado a consideração de elites específicas, refletindo os vários segmentos da classe capitalista (por exemplo, o capital industrial e financeiro) e as diferentes dimensões do exercício do poder (econômico, político, militar, comunicações, etc.).

Como Paul Mason, editor de economia da BBC Newsnight, escreveu em 2009 em seu livro Meltdown:

Felizmente, ainda que seja difícil de teorizar, a elite do poder do capitalismo global de livre-mercado é notavelmente fácil de descrever. Ainda que se pareça a uma hierarquia, é de fato uma rede. No centro desta rede estão as pessoas que dirigem bancos, companhias de seguro, bancos de investimento e fundos de hedge, incluindo os que sentam nos conselhos e os que se infiltram neles nos níveis mais altos. Os homens que se encontravam no Federal Reserve de Nova Iorque no desastre de 12 de setembro de 2008 mereceriam um círculo próprio em qualquer diagrama de Venn sobre o poder moderno... Sobrepondo-se muito de perto a esta rede está a classe dirigente miltar-diplomática... Outro círculo fechado compreende aquelas companhias de energia e engenharia civil que se beneficiam da mercantilização em casa e da política externa dos EUA lá fora. [28]

O primeiro elemento na complexa descrição de Mason da elite do poder sob "o capitalismo global de livre-mercado" está relacionado à elite do poder financeiro. [29] Uma questão crítica atualmente é a extensão na qual tais elementos financeiros chegaram a dominar setores estratégicos nos EUA, refletindo a financiarização da classe capitalista – e como isso afeta a capacidade do estado de agir de acordo com as necessidades públicas. A influência dos interesses financeiros é invariavelmente maior no Departamento do Tesouro. Andrew Mellon, banqueiro e terceiro homem mais rico dos Estados Unidos durante o início do século XX, foi secretário do Tesouro de 1921 a 1932. Mais recentemente, Bill Clinton escolheu como seu primeiro secretário do Tesouro o co-presidente da Golman Sachs Robert Rubin. George W.Bush escolheu com seu terceiro secretário do Tesouro o presidente da Goldman Sachs Henry Paulson. [30]

Ao analisar a penetração da elite financeira nos corredores do poder do estado (particularmente naquelas áreas onde seus próprios interesses especiais estão envolvidos), a administração Obama merece um escrutínio especial, já que a eleição presidencial ocorreu em meados da Grande Crise Financeira, que levou ao que veio a ser conhecido como a Grande Recessão. Um salvamento do setor financeiro já estava a caminho na administração Bush, e foi expandido sob a nova administração. A escolha de funcionários para lidar com a crise financeira foi portanto de longe a maior e mais urgente questão enfrentada pela equipe de transição de Obama logo após a eleição. Foram esses funcionários os responsáveis pela gestão do TARP (o Troubled Asset Relief Program – Programa de auxílio a ativos problemáticos). Desde a eleição de Franklin Roosevelt em 1932 uma situação similar não se havia apresentado.

As escolhas feitas pela equipe de Obama a este respeito estão ilustradas na Tabela 1, que apresenta posições selecionadas relacionadas a finanças na administração, e as conexões com o setor financeiro dos indivíduos que preencheram estas posições. Os resultados mostram que os personagens selecionados para desenvolver e executar a política federal relativa às finanças foram em grande parte convocados entre os executivos dos conglomerados financeiros. A evidência indica também que existe uma forte rede com várias ligações com o Goldman Sachs e o antigo secretário do Tesouro Robert Rubin.


O feito mais notável de Rubin como secretário do Tesouro sob Clinton foi o estabelecimento de bases para a aprovação da Lei de Modernização dos Serviços Financeiros de 1999 (também conhecida como Projeto Gramm-Leach-Billey), que revogou a Lei Glass-Steagall de 1933. Rubin renunciou em maio de 1999 e foi substituído por seu suplente Lawrence Summers, atualmente consultor-chefe em economia de Obama. Todavia, em outubro de 2009, Rubin ressurgiu para ajudar a negociar o acordo final na Gramm-Leach-Billey entre a Câmara, o Senado e a administração Clinton. Poucos dias depois de ter sido fechado o acordo, ele anunciou que havia aceitado uma posição como consultor sênior (no escritório de três pessoas do Presidente) no Citigroup – um dos principais beneficiados pela revogação da Glass-Steagall. Em seu novo emprego Rubin foi agraciado com uma base salarial anual de US$ 1 milhão e bônus diferidos para 2000 e 2001 de US$ 14 milhões anuais, mais opções em 1999 e 2000 para participação de US$ 1,5 milhão em ações do Citigroup. Ele acabou por ganhar US$ 126 milhões em dinheiro e ações na década seguinte.

Summers apoiou decisivamente Rubin em sua campanha de desregulamentação financeira durante a bolha do final dos anos 90, e foi ele mesmo bem compensado em seus esforços. Ele recebeu US$ 5,2 milhões em 2008 como diretor em meio período do fundo de hedge D.E. Shaw, e US$ 2,8 milhões por palestras que fez no mesmo ano no JPMorgan Chase, Citigroup, Merrill Lynch, Goldman Sachs e outras instituições financeiras.

O secretário do Tesouro Timothy Geithner, ex chefe do Federal Reserve de Nova Iorque, é um protegido de Rubin/Summers, como vários outros na administração. (Geithner foi substituído em 2009 como presidente do Federal Reserve Bank de Nova Iorque por William Dudley, que, antes de sua seleção pela comissão de diretores do Fed de Nova Iorque – chefiado pelo antigo co-presidente de Rubin no Goldman Sachs – foi economista-chefe, associado e gerente no Goldman Sachs). Neal Wolin, até 2008 um funcionário importante no conglomerado de seguros Hartford, hoje secretário-adjunto do Tesouro sob Obama, durante a administração Clinton, supervisionou uma equipe de advogados do Tesouro responsável pela revisão da legislação que revogou a Glass-Steagall. Michael Froman, assistente substituto do presidente, era o chefe de equipe de Rubin no Tesouro, e o seguiu no Citigroup, onde tornou-se diretor gerente, subseqüentemente unindo-se à administração Obama. Ele havia conhecido Obama através de seu trabalho na Harvard Law Review, e apresentou Obama a Rubin.

As personagens da administração Obama encarregadas de política e regulação financeira incluem os principais ex-funcionários do Citigroup. Chase (agora parte do JPMorgan Chase), Goldman Sachs, Merrill Lynch (agora parte do Bank of América), Lehman Brothers, Barclays e Hartford Financial, assim como outras empresas de serviços financeiros. Desta forma, nas reuniões com a administração, os representantes dos maiores interesses financeiros frequentemente se encontram face a face com seus antigos colegas/executivos (e algumas vezes competidores). [31]

Apesar de Simon Johnson e outros terem considerado a profunda penetração das finanças na administração Obama como um "golpe", ela deveria mais propriamente ser vista como uma continuidade do padrão que prevaleceu nas administrações precedentes – ainda que exacerbadas pela financiarização em curso. As finanças são o quartel general da classe capitalista, e sua importância crescente no papel financeiro do estado reflete a financiarização global do sistema na era do capital financeiro monopolista. Hoje já não é mais o caso de as finanças, como força externa, dominarem a indústria. Ao contrário, a indústria, assombrada por condições de maturidade e estagnação, é que depende do sistema de dívida alavancada e especulação para estimular a economia. A fusão entre a indústria e as finanças está completa. Isso é refletido naturalmente no próprio estado capitalista.

A "financiarização do processo de acumulação do capital" afetou tanto a diretoria do Federal Reserve quanto o Tesouro dos Estados Unidos e as agências governamentais relacionadas (e suas contrapartes dos bancos centrais de departamentos do tesouro de outros países capitalistas importantes). O fato de o Fed estar encarregado de ser o emprestador de última instância acaba por colocá-lo na posição de socializar as perdas financeiras (e de privatizar os ganhos). Hoje se reconhece amplamente que, no confronto com uma bolha de ativos, o estado capitalista não tem escolha a não ser fazer o que pode para manter a bolha tanto tempo quanto possível, e manter os preços dos ativos subindo. Numa economia estagnada, financiarização é o nome do jogo, e um colapso financeiro é encarado como a pior eventualidade. O estouro da bolha é raramente considerado pelas autoridades financeiras, e mesmo assim nunca seriamente. O trabalho do Fed a esse respeito é então restrito a evitar que uma bolha prestes a explodir torne-se uma catástrofe, acelerando o resgate do capital especulativo sempre que existir risco de instabilidade generalizada no sistema.

As coisas ficam ainda mais complicadas pela existência da questão do "grande demais para falir". Devido a interesses financeiros, isso dá um grande incentivo para as fusões a fim de assegurar o status automático para o salvamento. Isso tanto aumenta os lucros das firmas vistas como tendo obtido o status de "grande demais para falir" (o que lhes dá "economias de escala" derivadas de sua maior garantia), quanto cria o que é chamado de "risco moral", já que é mais provável que firmas assim assumam riscos maiores. Juntamente com a tendência geral para a financiarização, o "grande demais para falir" gera condições que ameaçam sobrecarregar a função do estado como emprestador de última instância. [32]

Uma camada adicional de complexidade e incontrolabilidade é adicionada pelo que Yves Smith, fundados do influente sítio web financeiro Capitalismo Nu (Naked Capitalism), chamou de "o coração das trevas": o sistema bancário oculto, ou o buraco negro de inovações financeiras desreguladas (ou desreguláveis), o que inclui canalizações bancárias (tais como veículos de investimento estruturado), repos (acordos de recompra), credit default swaps(permuta de incumprimento creditício), etc. O sistema é tão opaco e permeado de riscos que quaisquer restrições impostas ameaçam desestabilizar todo o castelo de cartas financeiro. No máximo, são feitas tentativas para escorar os grandes bancos esperando que eles funcionem como âncoras para estabilizar o sistema. Não obstante, isso é tornado quase impossível pelo tamanho assustador do sistema bancário oculto aos quais os principais bancos estão conectados: os compromissos extra-balanços contábeis dos principais bancos comerciais dos EUA em 2007 montavam a mihões de milhões de dólares.[33]

Como se tudo isso não bastasse, há a realidade de que as finanças são hoje em dia globalizadas, com transações financeiras não mais sujeitas ao controle de uma única nação ou um grupo delas, mas cada vez mais girando ao redor do globo em velocidades record. Já em 1982, Magdoff e Sweezy argumentaram que o desenvolvimento do sistema bancário internacional e a moeda internacional significaria que as crises financeiras se desenvolveriam numa "catástrofe de reação em cadeia" em escala mundial, além da capacidade dos bancos centrais de intervir efetivamente. [34] A velocidade da luz na qual o contágio financeiro se espalha na atual crise econômica mundial pode ser vista como um indicador de quão globalizados estão o sistema financeiro e suas crises.

O lobby financeiro estadunidense, enquanto isso, não se deterá por nada para assegurar que a economia do cassino possa continuar do jeito que é atualmente, sem interferências ou mesmo as mais leves concessões. A compensação aos executivos ilustra esse ponto. Em 2000-08, a Wall Street pagou mais de US$ 185 mil milhões em bônus. Antes de se tornar secretário do Tesouro, Henry Paulson, em 2005, recebia um salário de US$ 600 mil como presidente executivo da Goldman Sachs, mais US$ 38,2 milhões em outras formas de compensação (US$ 70,3 milhões anualmente). Mesmo assim, restrições efetivas na compensação de executivos (salários, bônus, opções de compra de ações, etc), mesmo no caso das firmas que recebem salvamentos financiados pelos contribuintes, são improváveis.

Chuck Schumer, de Nova Iorque, terceiro lugar na liderança do Senado pelo Partido Democrata, e membro chave de duas comissões de finanças, recebeu a incumbência de negociar em nome do Partido Democrata, na nova legislação de reforma financeira ora sob debate no Congresso, um compromisso bipartite sobre compensações a executivos. Schumer é um forte defensor das finanças, tendo recebido US$ 1,65 milhões em doações da industria em 2009. Dezenove dos 22 membros da Comissão do Senado para os Bancos receberam doações de Wall Street em 2009. Cada um dos aptos a reeleição em 2010 estão recebendo pelo menos US$ 180 mil. Tony Podesta, o principal lobista do Bank of América, e Steve Elmendorf, o principal lobista do Golman Sachs, visitaram a Casa Branca seis vezes em 2009. A Wall Street doou US$ 14,9 milhões para a campanha de Obama, o máximo para qualquer campanha na história, sendo que só o Golman Sachs entrou com US$ 1 milhão. [35]

Vistas em conjunto, as condições precedentes sugerem que o surgimento de qualquer coisa parecida com as audiências Pujo e Pecora sobre o cartel do dinheiro é extremamente improvável hoje. Apesar da imensa comoção pública, nenhuma nova legislação importante, equivalente à Lei Glass-Steagall de 1933, é possível. Não é mais uma questão de poucos bancos baseados em Nova Iorque controlando grandes setores do capital industrial através de diretorias interligadas. A financiarização, entendida como um processo secular, surgindo como resposta à estagnação da produção, cada vez mais dirige o sistema todo. O temor freqüentemente citado de John Maynard Keynes, de que esse "empreendimento" pudesse algum dia tornar-se "uma bolha no redemoinho da especulação", é hoje uma realidade sistêmica. [36]

A única opção real aberta à humanidade nestas circunstâncias, estamos convencidos, é descartar o atual sistema, falido, e instaurar um novo, mais racional e igualitário, em seu lugar – um que tenha como objeto não a eterna perseguição da riqueza monetária, mas a satisfação das genuínas necessidades humanas.

Notas

1 Clinton citado em Bob Woodward, The Agenda (New York: Simon and Schuster, 1994), 73.
2 Henry Kaufman, The Road to Financial Reformation(Hoboken, NJ: Wiley, 2009), 153; "What's Still Wrong with Wall Street?", Time Magazine, October 29, 2009, 26.
3 "Obama Calls Wall Street Bonuses "Shameful". New York Times, January 29, 2009; Matt Taibbi, "The Great American Bubble Machine," Rolling Stone, July 13, 2009, http://rollingstone.com; Simon Johnson, "The Quiet Coup," May 2009, http://theatlantic.com.
4 Paul Angelides, "Opening Remarks," Financial Crisis Inquiry Commission, Washington, D.C., September 17, 2009.
5 Rudolf Hilferding, Finance Capital (London: Routledge e Kegan Paul, 1981), 128-29.
6 Thorstein Veblen, Absentee Ownership and Business Enterprise in Recent Times (New York: Augustus M. Kelley, 1923), 340-43.
7 Jerry W. Markham, A Financial History of the United States (Armonk, New York: M.E. Sharpe, 2002), vol. 2, 12-13; Paul M. Sweezy, "Investment Banking Revisited," Monthly Review 33, no. 10 (March 1982), 6.
8 U.S. House of Representatives, 62nd Congress, Report of the Committee Appointed Pursuant to House Resolutions 429 and 504 to Investigate the Concentration of Control of Money and Credit, February 28, 1913 (Pujo Committee), 55, 129; Markham, A Financial History, vol. 2, 47-54; Louis Brandeis, Other People's Money (New York: Frederick A. Stokes Co, 1914), 1-4.
9 Markham, A Financial History, vol. 2, 173-86. The most detailed study of the various financial interest groups in the U.S. economy conducted during the New Deal period was "Interest Groups in the American Economy" by Paul M. Sweezy, published as Appendix 13 of Part 1 of the National Resources Committee's report, The Structure of the American Economy (Washington, 1939). Later reprinted in Paul M. Sweezy, The Present as History (New York: Monthly Review Press, 1953), 158-88.
10 Paul Krugman, "Making Banking Boring," New York Times, April 9, 2009.
11 John Kenneth Galbraith, American Capitalism (Boston: Houghton Mifflin, 1953), 108.
12 V.I. Lenin, Imperialism (New York: International Publishers, 1939), 47; Veblen, Absentee Ownership, 227; Paul M. Sweezy and Harry Magdoff, The Dynamics of U.S. Capitalism (New York: Monthly Review Press, 1972), 143.
13 Partes desta secção foram adaptadas de John Bellamy Foster e Hannah Holleman, "The Financialization of the Capitalist Class: Monopoly-Finance Capital and the New Contradictory Relation of Ruling Class Power," in Henry Veltmeyer, ed., Imperialism, Crisis and Class Struggle: The Enduring Verities and Contemporary Face of Capitalism—Essays in Honour of James Petras (forthcoming, London: Brill, 2010), pp. 163-73.
14 Ver, por exemplo, Carmen M. Reinhart e Kenneth S. Rogoff, This Time is Different: Eight Centuries of Financial Folly (Princeton: Princeton University Press, 2009).
15 Uma clara indicação disso é o fato de que ganhos tão desproporcionais em lucros financeiros relativos a outros setores nao ocorreram no final da década de 20 anteriormente à Queda da Bolsa. Ver Solomon Fabricant, "Recent Corporate Profits in the United States," National Bureau of Economic Research, Bulletin 50 (April 1934), table 2.
16 Paul M. Sweezy, "More (or Less) on Globalization," Monthly Review 49, no. 4 (September 1997), 3-4; Karl Marx, Capital, vol. 3 (London: Penguin, 1981), 639.
17 Hyman Minsky, "Financial Crises and the Evolution of Capitalism," in M. Gottdiener and Nicos Kominos, Capitalist Development and Crisis Theory (London: Macmillan, 1989), 391-402; Paul M. Sweezy, "The Triumph of Financial Capital," Monthly Review 46, no. 2 (June 1994), 1-11; John Bellamy Foster and Fred Magdoff, The Great Financial Crisis (New York: Monthly Review Press, 2009), 63-76.
18 Sweezy, The Present as History, 167; Kenneth J. Stiroh and Jennifer P. Poole, "Explaining the Rising Concentration of Banking Assets in the 1990s," Federal Reserve Board of New York, Current Issues in Economics and Finance 6, no. 9 (August 2000), 2.
19 Robert E. Litan, What Should Banks Do? (Washington, D.C.: Brookings Institution, 1987), 126.
20 George G. Kaufman, "The Diminishing Role of Commercial Banking," in Lawrence H. White, ed., The Crisis in American Banking (New York: New York University Presss, 1993), 143-44.
21 Harry Magdoff and Paul M. Sweezy, The End of Prosperity (New York: Monthly Review Press, 1977), 33-53; Loretta J. Mester, "Some Thoughts on the Evolution of the Banking System and the Process of Financial Intermediation," Federal Reserve Bank of Atlanta, First and Second Quarters 2007, 67-68.
22 Henry Kaufman, The Road to Financial Reformation (Hoboken, New Jersey: John Wiley and Sons, 2009), 97-106, 234; Floyd Norris, "To Rein in Pay, Rein in Wall Street," New York Times, October 30, 2009; David Cho, "Banks 'Too Big to Fail' Have Grown Bigger," Washington Post, August 28, 2009.
23 Arthur B. Kennickell, "Ponds and Streams: Wealth and Income in the U.S., 1989 to 2007," Federal Reserve Board Working Paper, 2009-13, 2009, 55, 63; Matthew Miller and Duncan Greenburg, ed., "The Richest People in America" (2009), Forbes, September 30, 2009.
24 James Petras and Christian Davenport, "The Changing Wealth of the U.S. Ruling Class," Monthly Review 42, no. 7 (December 1990), 33-37.
25 Os dados apresentados no Gráfico 2 terminam em 2007 no início da Grande Crise Financeira. Mas não houve mudanças de qualquer tipo no número dos membros dos 400 da Forbes cuja riqueza primária está alocada em finanças e imóveis entre 2007 e 2009. Ver Matthew Miller, ed., "The Forbes 400" (filtered by industry), Forbes, September 20, 2007; Miller and Greenburg, ed., "The Richest People in America" (2009).
26 Johnson, "The Quiet Coup"; Kevin Phillips, Bad Money (New York: Viking, 2008), 67; "Executive Pay: The Bottom Line at the Top," New York Times, April 25, 2008.
27 C. Wright Mills, The Power Elite (New York: Oxford University Press, 1956); G. William Domhoff, The Powers That Be (New York: Vintage, 1978), 13. Sweezy objected to Mills's original tendency to see the corporate rich, the political elite, and the military elite as equal partners of the power elite. If used in this way, the power elite tended to take away from the clarity of the concept of a ruling capitalist class. See Paul M. Sweezy, Modern Capitalism (New York: Monthly Review Press, 1972), 92-109.
28 Paul Mason, Meltdown (London: Verso, 2009), 136-38.
29 Mason excludes other, nonfinancial elements of the corporate rich (e.g. industrial capitalists) from what he describes as the neoliberal power elite because he is himself an advocate of a non-neoliberal, "rational" capitalism, which would rely on a different power elite — one consisting of what he perceives as these excluded elements.
30 Mark Bearn, "Living the Dream," New Statesman, December 2006, http://newstatesman.com.
31 Nomi Prins, It Takes a Pillage (Hoboken, New Jersey: John Wiley and Sons, 2009), 92-95, 140-44; "The Long Demise of Glass-Steagall," Frontline, Public Broadcasting System, http://www.pbs.org/wgbh/pages/frontline/shows/wallstreet/weill/demise.html, accessed March 22, 2010; "Former Treasury Secretary Joins Leadership Triangle at Citigroup," New York Times, October 27, 1999; "Top Economic Aide Discloses Income," Washington Post, April 4, 2009; "Hedge Fund Paid Summers $5.2 Million in Past Year," Wall Street Journal, April 5, 2009; "Neal S. Wolin," WhoRunsGovernment.com. Ver também Robert Rubin, In an Uncertain World (New York: Random House, 2008), 305-11. Rubin makes a point of excluding the repeal of Glass-Steagall from his memoirs.
32 Gary H. Stern and Ron J. Feldman, Too Big to Fail (Washington, D.C.: Brookings, 2004).
33 Yves Smith, ECONned (New York: Palgrave Macmillan, 2010), 233-69; Kaufman, 105.
34 Harry Magdoff and Paul M. Sweezy, "Financial Instability: Where Will It All End?" Monthly Review 34, no. 6 (November 1982), 18-23.
35 Prins, It Takes a Pillage, 167-69; "Wall Street Money Rains on Chuck Schumer," Hedge Fund News, September 29, 2009, http://hedgeco.net; "Keys to Financial Regulation Reform in Senate," Reuters, March 15, 2010; Timothy P. Carney, "Obama's Cronies Thrive at Intersection of K and Wall," WashingtonExaminer.com, February 17, 2010.
36 John Maynard Keynes, The General Theory of Employment, Interest, and Money (London: Macmillan, 1973), 159.