14 de fevereiro de 2011

O resíduo tóxico do colonialismo

Richard Falk


De fato, referência aberta, declarada, até agora nada se ouviu nem de Washington nem de Telavive – os governos que mais têm a perder com os desdobramentos da revolução do Egito – sobre intervenção militar. Essa contenção manifesta mais sanidade geopolítica do que moralidade pós-colonial, mas ainda assim torna possíveis algumas mudanças que desequilibram, pelo menos temporariamente, a ordem política fixada.

Mesmo assim, por meios visíveis e ocultados, atores externos, especialmente os EUA, com uma mistura caracteristicamente americana de pressupostas prerrogativas imperiais e paternalistas, ainda buscam interferir para modelar os resultados desse extraordinário levante do povo egípcio, há tanto tempo amordaçado pela ditadura cruel e corrupta de Mubarak. O traço que mais claramente define essa diplomacia conduzida de fora pelos EUA é o direito pressuposto de gerenciar a situação, de modo a que o regime sobreviva e os manifestantes voltem ao que perversamente está sendo chamado de “normalidade”.

O que me parece mais inacreditavelmente surpreendente é o presidente Obama apresentar-se como autoridade para instruir o regime Mubarak sobre como deve responder ao levante revolucionário. Alguma tentativa não me surpreenderia, e me surpreenderia se não houvesse. Mas me surpreende muito o nada tímido exercício da autoridade imperial, a nenhuma contenção da arrogância imperial, numa ordem mundial que, supostamente, estaria sendo construída em torno da legitimidade da autodeterminação, da soberania das nações e da democracia.

Também surpreende muito Mubarak ter dito em público que essa interferência, mascarada de aconselhamento, é inaceitável – mesmo que, a portas fechadas, ouça tudo e obedeça. Essa encenação geopolítica da farsa do senhor e do servo sugere a persistência da mentalidade colonial dos dois lados, tanto do lado do colonizador quanto do lado dos colaboracionistas nacionais.

A única mensagem pós-colonial genuína seria a homenagem: “Saia da frente, fique ao lado e aplauda”. As grandes lutas de transformação do século passado envolveram vários desafios em todo o sul global, até dar-se fim aos impérios coloniais europeus. Mas a independência política não deu fim aos métodos indiretos, ainda insidiosos, de controle, inventados para proteger interesses econômicos e estratégicos. É uma dinâmica que significava confiar em líderes políticos que sacrificariam o bem-estar do próprio povo para servir aos desejos de mal agradecidos ex-senhores coloniais, ou de seu sucessor ocidental remanescente, os EUA – que há muito já substituíram a França e a Grã-Bretanha no Oriente Médio depois da crise de Suez de 1956.

Os servidores pós-coloniais do ocidente passaram a ser bem pagos autocratas, cobertos de direitos virtuais de propriedade em relação à riqueza autóctone do próprio país, desde que não criassem obstáculos aos capitais estrangeiros. Desse ponto de vista, o regime de Mubarak é exemplo impressionante de duradouro sucesso pós-colonial.

Os olhos liberais ocidentais há muito se acostumaram a não perceber os padrões internos de abuso que sempre acompanham o sucesso dessa política externa – os quais, vez ou outra, anotados por algum intrépido jornalista, logo voltam a ser ignorados ou, se preciso, desacreditados por alguma sempre disponível acusação de “esquerdismo”. Se nem isso bastar, sempre haverá quem diga, com um sorriso condescendente, que a tortura está inscrita no DNA cultural territorial dos árabes – ideia que estrangeiros espertos sempre adaptam para uso próprio, sem nem vestígio de pudor.

De fato, no caso do Egito, essas práticas foram de grande serventia. O Egito serviu como local de interrogatório-tortura, item indispensável da desgraçada prática da “extreme rendition”. De fato, o Egito serviu como local excepcionalmente útil para os EUA, porque, pelos passos da extreme rendition, oferecia local de prisão e interrogatório, vale dizer, de tortura, com prédios e instrumentos especialmente criados para a finalidade, de “terroristas suspeitos” que a CIA prendia pelo mundo e não poderia manter presos nem torturar suficientemente em nenhum país civilizado, oficialmente. Esse o aliado que, dia desses, falava de “presidência que respeita os direitos humanos”? O enviado especial do presidente Obama ao Egito de Mubarak, no auge da crise, ninguém menos que Frank Wisner, homem de uma das mais conhecidas linhagens da CIA, com certeza riu da piada.

É indispensável que se entendam com clareza as relações que há entre esse tipo de Estados pós-coloniais, que servem aos interesses dos EUA – petróleo, Israel, deter o Islã, impedir que proliferem armas nucleares – em troca de poder, privilégios e riqueza sempre concentrados em minúsculas corruptas elites nacionais, que só têm, para entregar ao inimigo, e entregam, o bem-estar e a dignidade dos que nascem e vivem naqueles territórios.

Esse tipo de estrutura, na era pós-colonial, quando e onde ideias de soberania nacional e direitos humanos já circulam na consciência popular, só pode ser mantida se se constroem barreiras de medo, reforçadas por um Estado de terror, desenhado para intimidar as massas e impedir que lutem por seus valores e seus objetivos. Quando essas barreiras são vencidas, como aconteceu na Tunísia e no Egito, então a fraqueza do regime opressor aparece, brilhando nas trevas.

O ditador escafede-se pela porta mais próxima, como fez Zine El Abidine Ben Ali da Tunísia, ou é camuflado pela própria entrourage e amigos estrangeiros, de modo que o desafio revolucionário possa ser maquiado em qualquer tipo de acomodação prematura. Esse parece ser o caso das recentes manobras da elite palaciana no Cairo e seus apoiadores na Casa Branca. Só o tempo dirá se as fúrias da contrarrevolução ganharão o dia, possivelmente à bala ou a chicote, e possivelmente mediante reformas emolientes que se apresentam como promessas que, com o tempo, se tornam impagáveis; isso, se o velho regime não for totalmente reconstruído.

São promessas que ninguém cumprirá – e a reimposição da ditadura, a corrupção e as enormes desigualdades na distribuição da riqueza só farão aumentar a miséria dos mais pobres. E se não for ditadura e opressiva, não conseguirá conter a luta por direitos, por justiça econômica e social, nem a justa solidariedade à luta dos palestinos.

Aqui está o nó da ironia dita “ética”. Washington respeita a lógica da autodeterminação, desde que seja convergente com a grande estratégia dos EUA. E ignora completamente o desejo dos povos, em todos os casos em que a manifestação dos desejos dos outros seja vista como algum tipo de ameaça aos super lords neoliberais da economia do mundo globalizado, ou aos alinhamentos estratégicos tão caros aos planejadores do Departamento de Estado ou do Pentágono.

Resultado disso é um inevitável vai-não-vai, com os EUA tentando ao mesmo tempo festejar e lastimar, celebrar o advento da democracia no Egito e reclamar da violência e das torturas do regime podre – ao mesmo tempo em que, por fora, opera para impedir qualquer mudança genuína, e, mais ainda, qualquer transformação democrática radical no Estado egípcio. Ungir o principal contato da CIA e fiel escudeiro de Mubarak, Omar Suleiman, para presidir o processo de transição, aparece como mal disfarçado plano de jogar Mubarak às piranhas, enquanto trata de estabilizar o regime que ele presidiu por mais de 30 anos.

Eu esperaria mais sutileza dos gerentes geopolíticos, mas é possível que a nenhuma sutileza seja, mais, sinal de miopia dos imperialistas – sintoma que sempre acompanha a decadência dos impérios.

Chama a atenção que praticamente todos os manifestantes no Egito, quando entrevistados sobre por que arriscavam a vida nas ruas do Cairo, respondem variações de “Queremos o que é nosso direito” ou “Lutamos por liberdade e dignidade”. Claro. Desemprego, miséria, fome – e fúria contra a corrupção e os abusos e as pretensões dinásticas do governo Mubarak – são alimento compreensível para a ira que, sem dúvida, também serve de combustível às chamas revolucionárias. Mas o que sobe à superfície dos discursos é “direitos” e “dignidade”, nessa consciência política despertada.

Essas ideias, em larga medida cozinhadas nos fornos da consciência ocidental e simploriamente exportadas como sinal de boa vontade – como o nacionalismo, há um século – podem ter sido cozinhadas apenas como bandeiras de Relações Públicas e propaganda. Mas, com o tempo, essas ideias deram forma aos sonhos dos pobres e oprimidos. Então, quando o inesperado momento histórico finalmente se apresentou, aquelas ideias acenderam o fogaréu. Lembro, há quase uma década, falando com radicais indonésios em Jakarta, que eles diziam sobre o quanto o envolvimento nas lutas anticoloniais fora estimulado pelo que haviam aprendido dos professores colonizadores holandeses, sobre o nascimento do nacionalismo como ideologia política, no ocidente.

Pode acontecer de algumas ideias serem difundidas com objetivos conservadores, mas adiante, quando tiverem alguma serventia imediata na luta dos pobres oprimidos, as mesmas ideias renascem – e dão fundamento a uma nova política emancipatória. Nada ilustra melhor esse processo que o percurso hegeliano da ideia de “autodeterminação”, proclamada pela primeira vez por Woodrow Wilson depois da I Guerra Mundial. Wilson foi governante que procurou, mais que tudo, manter a ordem; que acreditava na importância de satisfazer os objetivos dos investidores e corporações estrangeiras; e que nada tinha a reclamar dos impérios europeus coloniais. Para ele, a autodeterminação nunca foi mais que instrumento útil para esquartejar o Império Otomano, estimulando a formação de uma série de Estados étnicos.

Wilson pouco se preocupou – apesar dos muitos avisos de seu secretário de Estado –, com a possibilidade de a autodeterminação ser usada no serviço de outros deuses, e tornar-se poderosa ferramenta de mobilização para derrubar a ordem colonial. O conceito de direitos humanos, nos tempos que correm, seguiu trilha semelhante, muitas vezes usado como mero slogan de propaganda para assustar inimigos nos tempos da Guerra Fria, outras vezes como barreira contra alguma identidade imperial – e às vezes como fundamento do ímpeto revolucionário, como parece ser o caso agora, nas lutas ainda em curso por direitos e por dignidade que varrem o mundo árabe sob várias formas.

Não se pode adivinhar o futuro. Há muitas forças em jogo, em circunstâncias de incerteza radical. No Egito, por exemplo, crê-se que o exército ainda controle a maior parte das cartas em jogo e que o fator determinante de qualquer resultado será aquele no qual o Exército decidir apostar. Mas essa “lógica” convencional não será apenas mais um sinal de que o “realismo” do poder da brutalidade ainda domina nossa imaginação, e sempre seriam os generais e suas armas o fator decisivo, não o desejo do povo nas ruas?
Claro, todas as pressões se confundem e o exército pode estar, apenas, deixando andar o barco, mantendo-se de lado para depois, quando se conhecer o vencedor, afinal alinhar-se com ele. Que motivos haveria para alguém confiar na sabedoria, na prudência, na boa vontade de exércitos – não só no Egito, cujos comandantes militares devem suas posições a Mubarak – mas em qualquer ponto do mundo?

No Irã, o exército manteve-se à parte e um processo revolucionário popular pôs abaixo o castelo de poder do Xá, construído de corrupção e ataques brutais à oposição. O extraordinário movimento popular não violento prevaleceu durante algum tempo, até que um movimento contrarrevolucionário subsequente converteu a democracia em teocracia.

Há poucos casos de vitória revolucionária e, dentre esses poucos casos, mais raros ainda são os casos em que se cumpre sem ruptura o programa revolucionário. O desafio está em manter a revolução contra os quase inevitáveis projetos contrarrevolucionários, muitas vezes trazidos por pessoas que, no momento revolucionário, estavam unidas contra a velha ordem, mas que, depois, optam por sequestrar a vitória para seus próprios objetivos. As complexidades de um momento revolucionário exigem máxima atenção dos que lutam por emancipação, justiça e democracia, porque haverá inimigos aos quais interessa tomar o poder a qualquer custo, mesmo ao custo de ceder os valores humanos da revolução.

Um dos traços mais impressionantes da Revolução Egípcia até agora é o extraordinário ethos de não-violência e solidariedade que se viu nas massas, mesmo ante as sangrentas repetidas provocações da baltagiyya dos mercenários do regime. Esse ethos resistiu às provocações e deve-se esperar que as provocações parem e que a maré contrarrevolucionária arrefeça, percebendo ou a inutilidade de andar contra a história ou por implosão, consumida pelos efeitos corrosivos da longa existência em condições de ilegitimidade.

3 de fevereiro de 2011

Passado e futuro: Keynes em Bretton Woods

Os bastidores da conferência de 1944

Sylvia Nasar [*]

Sylvia Nasar. Grand Pursuit: The Story of Economic Genius. New York: Simon and Schuster, 2011.

O economista britânico John Maynard Keynes descreveu a viagem transatlântica com sua mulher Lydia no Queen Mary, em junho de 1944, semanas antes da conferência monetária internacional de Bretton Woods, New Hampshire, "como um momento extremamente tranquilo, mas também extremamente atarefado".
Viajava na companhia de Friedrich von Hayek e do agora amigo íntimo Lionel Robbins, além de 12 agentes governamentais britânicos. Keynes presidiu mais de 13 encontros a bordo e teve destaque na escrita de dois "rascunhos de bordo" sobre as duas principais instituições que administrariam os acordos monetários do pós-Guerra: o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial.

Nos momentos de folga, ele se estirava numa espreguiçadeira no convés e lia livros. Com uma nova edição da "República", de Platão, e uma biografia de seu ensaísta preferido, Thomas Babington Macaulay, ele leu "O Caminho da Servidão", de Hayek.

Em contraste com seus discípulos mais doutrinários, Keynes era um gênio capaz de defender, em pensamento, duas verdades opostas: "Moral e filosoficamente", ele escreveu numa longa carta a Hayek, "eu me vejo de acordo com quase tudo o que você escreveu; e não apenas de acordo, mas é um acordo que me envolve profundamente".

Hayek pode não ter sido bem-sucedido "em demarcar satisfatoriamente a linha entre a liberdade e o planejamento", e, assim sendo, não poderia ser um guia útil para percorrer o "caminho do meio" na elaboração de uma política, mas ele articulava valores que Keynes considerava essenciais para "levar uma boa vida". Robbins ponderou: Keynes, "tão radical no que diz respeito a temas puramente intelectuais, em temas relativos à cultura é um verdadeiro conservador, à la [Edmund] Burke".

Keynes afirmou que Hayek se precipitava demais ao descartar a possibilidade de que algum planejamento era compatível com a liberdade, particularmente se tal planejamento fosse feito por alguém que compartilhasse seus valores: "Atos perigosos podem ser praticados com toda segurança numa comunidade que pensa e sente corretamente qual seria o caminho que conduz ao inferno, caso tais atos fossem executados por aqueles que pensam e sentem de modo errado".

Ele queria dizer com isso que uma guerra econômica desfechada por Churchill ou Franklin Roosevelt provavelmente não conduziria a um Estado totalitário, embora as guerras empreendidas por Stálin e Hitler tivessem desembocado naquela situação.

Bretton Woods

Keynes e Lydia foram levados às montanhas Brancas de New Hampshire por um trem especial. O hotel Mount Washington, em Bretton Woods, era uma "grande dame" da virada do século, com a intenção de evocar "grandes dames", como o hotel Majestic de Paris, onde Keynes se hospedou no fim da última guerra, só que tinha 350 quartos com banheiro, um salão de baile, uma piscina coberta e um pátio plantado com palmeiras, além de venezianas de cristal Tiffany.

Porém, o estabelecimento, um pouco maltratado e cujos dias de glória ficaram para trás, estava mal preparado para acolher 730 delegados de 44 países aliados. "As torneiras escorrem o dia inteiro, as janelas não abrem nem fecham, o encanamento desentope e volta a entupir, e ninguém pode ir a lugar algum", Lydia escreveu à sogra.

O casal estava instalado numa enorme suíte, vizinha à do secretário do Tesouro dos EUA, Henry Morgenthau. Ao contrário da viagem de navio, a conferência era "um manicômio", observou Lydia, "e a maioria das pessoas trabalham mais do que é humanamente possível". Roosevelt enviara os convites e Morgenthau atuava como anfitrião titular, mas os principais arquitetos, planejadores e contatos eram seu assistente, Harry Dexter White, e Keynes. Os principais delegados tinham ideias e interesses divergentes e, em muitos casos, agendas ocultas.

O hotel estava repleto de espiões. Os delegados não tinham autoridade para assumir compromissos em nome de seus governos, mas os organizadores da conferência reconheceram que eles teriam de garantir uma recuperação econômica, e ela não poderia acontecer sem cooperação. Eles partilhavam da determinação expressa por Roosevelt em seu discurso sobre o Estado da União no sentido de não repetir os erros cometidos após a Primeira Guerra Mundial e de adotar uma abordagem global, multilateral, "ao estilo Nações Unidas".

O próprio fato da realização da conferência refletia uma redefinição radical e uma ampliação da responsabilidade dos governos. Assim como Washington, Londres e Paris agora aceitavam a responsabilidade de manter elevado o nível de emprego, praticamente todos os governos ocidentais aceitaram alguma medida de responsabilidade para manter o emprego em alta também nas economias de seus parceiros comerciais.

As características da nova ordem refletiam uma visão comum em relação ao que não dera certo da última vez e uma convicção de que levar as coisas a bom termo tinha desdobramentos além dos econômicos. Roosevelt, Churchill, Keynes e seus discípulos americanos acreditavam que as patologias econômicas - a inflação e o desemprego - produziram o fascismo e debilitaram fatalmente muitas democracias.

Acreditavam com igual convicção que a fragmentação da economia global que antecedeu a Primeira Guerra Mundial, causada pelas frenéticas tentativas de cada nação de isolar-se da crise econômica que se espalhara pelo mundo inteiro, e o consequente declínio no comércio mundial foram parcialmente responsáveis pela guerra mundial. A rivalidade econômica poderia conduzir à guerra. [...]

Inovação

A grande inovação dos anos 1920 e 1930 - a economia do todo, desenvolvida por Fisher, Keynes e, em menor grau, Schumpeter e Hayek - ensinou que o que era bom para uma nação podia facilmente ser ruim para as demais.

Desvalorizar a moeda, erguer barreiras comerciais e impor controles sobre a remessa de capitais podiam ser eficazes ao reduzir deficits da balança de pagamentos, deter o fluxo de ouro para o exterior e elevar as rendas do governo. Porém, se todos adotassem as mesmas táticas, o resultado seria empobrecimento e desemprego em escala universal.

Nos anos 1930, o comércio mundial caiu à metade, e o comércio prosseguiu sobretudo no interior de certos blocos, como o da libra esterlina, no Império Britânico, o da esfera soviética e o bloco de comércio bilateral estruturado pelo dr. Hjalmar Schacht, ministro da Economia de Hitler.

Agora já se reconhecia que manter a livre empresa funcionando globalmente exigia a mão visível do governo. De certo modo, enfatiza o biógrafo Robert Skidelsky, as novas disposições arquitetadas por White e Keynes eram o keynesianismo aplicado globalmente.

O objetivo da conferência de Bretton Woods era reavivar o comércio mundial, estabilizar as moedas e lidar com as dívidas de guerra e os mercados de crédito, então congelados. A guerra deixou grande parte do mundo dramaticamente mais pobre, e os países precisavam ter a capacidade de retomar o caminho da prosperidade.

No sentido mais amplo, a recuperação implicava reedificação e reconstrução, voltar à globalização anterior a 1913, mas sem retomar a premissa do período que antecedeu a Primeira Guerra Mundial, segundo a qual o maquinário econômico funcionava automaticamente. Para o Ocidente, isso significava aprender com o passado a fim de evitar os erros do entreguerras - lição que os marxistas alegavam que os capitalistas não conseguiam aprender - e restaurar a credibilidade moral e material.

A estabilidade econômica era a chave da estabilidade política, e o crescimento econômico era a condição necessária, quando não suficiente, para a sobrevivência do Ocidente no longo prazo. As sociedades modernas não poderiam sobreviver se esse engenhoso mecanismo funcionasse mal ou quebrasse, assim como as grandes cidades não conseguiriam sobreviver sem eletricidade nem trens.

Ao contrário de pensadores britânicos que se batiam pelo livre-comércio nos anos 1840, nem Keynes nem Fisher (nem Schumpeter e Hayek) acreditavam na tendência automática à paz e ao progresso, como tantos assumiram com efusão durante a Belle Époque.

Os governos tinham de intervir; a cooperação internacional era necessária. Nenhum sistema era autorregulador nem gerado espontaneamente, conforme se dava por certo antes de 1914. Para criar um sistema, tornava-se necessária a participação da única superpotência que ainda existia no Ocidente e a dos impérios europeus, outrora poderosos, mas agora rebaixados. A alternativa era impensável. [...]

White e Keynes partilhavam os temores de George Orwell, Gunnar Myrdal, Schumpeter, Hayek e muitos outros, mas não eram nem escravos do determinismo econômico, nem radicalmente suspeitosos do governo. Não estavam preparados para acreditar que agora os governos não poderiam ser convencidos a evitar a depressão e a guerra ao estabelecerem uma estrutura comum de cooperação.

Acreditavam que os governos democráticos podiam aprender com os erros do passado e rejeitavam o conceito marxista da necessidade histórica e o pressuposto tradicional da rivalidade entre as Grandes Potências. Certamente não partilhavam a convicção de Stálin de que a guerra fazia parte do DNA do capitalismo. O verdadeiro teste, é claro, não era se o Ocidente podia aprender com a história, mas se, mediante a ajuda de seu engenhoso mecanismo, aprenderia as lições corretas. [...]

Retomada

Os Aliados aprenderam com a experiência. Admitiam que a paz dependia da retomada econômica. Em 1918, tal premissa era partilhada por poucos - entre eles, Schumpeter, Keynes e Fisher -, mas dificilmente pelos líderes das nações vitoriosas ou por seu eleitorado. A situação de falência da Grã-Bretanha e sua dependência financeira dos EUA significavam que os americanos determinariam em grande parte o desfecho, ainda que sob aparência de cooperação.

Por seu lado, embora Morgenthau, secretário do Tesouro, ocupasse nominalmente o cargo, seu representante, Harry Dexter White, era o único com "pleno conhecimento da questão", que podia "impedir um voto relativo a qualquer tema que ele não queira que seja votado". White orquestrava tudo, desde entrevistas coletivas até ordenar que os comunicados fossem datilografados e distribuídos.

Keynes quase não se deu ao trabalho de disfarçar o fato de que estava enfiando suas opiniões goela abaixo do comitê sobre os bancos que ele presidia, o que era bem característico dele. Morgenthau teve de se ir à suíte de Keynes "e solicitar que, por favor, agisse mais devagar, falasse mais alto e pusesse em ordem em seus papéis".

Skidelsky frisa que, se Keynes não era aberto, pelo menos era eficiente, e que sua pressa em discutir a programação refletia a exaustão e a crescente determinação de partir o quanto antes. Ele pronunciou o discurso final durante um banquete e, ao chegar, todos os presentes se levantaram, esperando que sentasse à cabeceira.

União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) 

"A URSS é um país que está chegando, a Grã-Bretanha é um país que está indo embora", White disse a Keynes a certa altura de suas longas e dificultosas negociações. Como assinala Skidelsky, Keynes de vez em quando ficava intrigado com a obsessão de White pela Rússia e volta e meia sentia-se indignado com sua hostilidade para com a Grã-Bretanha.

Ele aparentemente não desconfiava que seus discípulos americanos mais influentes - e muitas vezes seus adversários na mesa de negociação - passavam segredos do governo para a URSS e ajudavam os soviéticos a espionar a ele e aos outros delegados. No grupo de economistas que White levou a Bretton Woods, uma dúzia ou mais de funcionários da Divisão de Pesquisa Monetária do Tesouro eram informantes de agentes da KGB.

A aliança dos tempos da guerra, o heroísmo e o sacrifício dos soviéticos ao derrotarem os alemães, o papel dos comunistas europeus na resistência, tudo isso explica por que as primeiras revelações de que os soviéticos montaram uma operação de espionagem em larga escala pareciam inicialmente inacreditáveis e, depois, chocantes.

O mais perturbador era a confiança depositada pelos soviéticos numa quinta-coluna de cidadãos americanos, que evocava a estratégia nazista, extremamente bem-sucedida, de se apoiar numa rede de simpatizantes na Europa.

A imagem recentemente retocada da URSS explica não apenas por que Roosevelt e Truman mostravam lentidão em aceitar que a Segunda Guerra Mundial seria seguida por uma Guerra Fria, mas também aquilo que hoje parece inescrutável: como alguns dos mais brilhantes e competentes funcionários se dispuseram a atuar como espiões e apologistas de um regime estrangeiro, e por que a maioria aparentemente não se arrependia disso? Agiram como agiram pelo bem da "humanidade".

Jamais, nos piores momentos da Grande Depressão [anos 1930], o Partido Comunista dos EUA (CPUSA) alcançou, nem remotamente, o status de movimento político de massa, e menos ainda de independência. A participação partidária atingiu o auge em 1944 - cerca de 80 mil seguidores -, e a grande maioria afastou-se em menos de um ano. O partido exerceu escassa influência em uns poucos bairros da Bay Area, Boston e Nova York e em sindicatos. Em alguns casos os espiões eram pobres ou economicamente precários, e muitas vezes foram os primeiros da família a frequentar uma universidade.

Muitos se disfarçavam sob a capa do antissemitismo e do esnobismo. A ascensão de Hitler e Franco, com sua ameaça explicitamente anti-intelectual e militarista à civilização, conferiu ao partido algum prestígio nas universidades. Lutar contra a Grande Depressão tornou-se um movimento político, como o dos Direitos Civis, nos anos 1950 e 1960. Assim como os físicos do Projeto Manhattan se viam como parte do esforço de guerra, elaborar previsões no Tesouro fazia parte da luta para derrotar o fascismo.

Nos anos 1930, Lauchlin Currie foi auxiliar de ensino na Universidade Harvard e coautor de vários manifestos do New Deal, programa de recuperação econômica de Roosevelt, com seu melhor amigo, Harry Dexter White. Em 1939 tornou-se um dos seis assistentes administrativos da equipe do presidente Roosevelt e logo o aconselhava em relação a questões momentosas, como mobilizar a economia para a guerra, o orçamento dos tempos da guerra e disponibilizar a Lei de Empréstimo e Arrendamento para a China.

Currie organizou os Tigres Voadores. Foi ele quem cuidou da Lei de Empréstimo e Arrendamento para os chineses e participou intimamente das negociações de empréstimos dos EUA para a Grã-Bretanha e para a Rússia, bem como dos entendimentos que resultaram na conferência de Bretton Woods.

Manobras

Provas eloquentes, recolhidas em fontes independentes, mostram que Currie e White não foram vítimas inocentes de sujas manobras políticas contra o New Deal, e certamente não foram vítimas do macarthismo. As acusações contra eles foram formuladas por duas fontes independentes e corroboradas por cabogramas interceptados e decodificados pelo governo dos EUA muito antes de o senador Joseph McCarthy desfechar suas sensacionais acusações. Tudo foi confirmado décadas mais tarde, com base em material procedente dos arquivos da KGB.

A acusação contra Currie foi a de que ele, possivelmente por ordem do presidente, pressionou o OSS [Office of Strategic Services] a devolver aos soviéticos mensagens cifradas e a suspender as operações de decodificação. A prova contra Harry Dexter White foi particularmente danosa. De acordo com dois de seus biógrafos, David Rees e R. Bruce Craig, Whittaker Chambers, editor da "Time" e ex-agente do GRU, o serviço secreto da URSS, que forneceu ao assistente do secretário de Estado, em 1939, o nome de outros agentes soviéticos, revelou que White e Currie eram agentes.

Chambers entregou cópias de um documento do Tesouro que White lhe confiara para encaminhar ao GRU. Suas acusações foram confirmadas independentemente por dois ex-agentes pelo menos. Um cabograma datado de 1944, entregue por Nathan Gregory Silvermaster, diz respeito a uma oferta à esposa de White para ajudar a pagar as taxas da faculdade onde a filha do casal White estudava. Dois outros cabogramas documentam conversas não autorizadas entre White e um general da KGB, Vitaly Pavlov, incluindo uma de 1941, enquanto eles almoçavam num restaurante de Washington.

Embora Moscou os valorizasse como espiões, a verdadeira importância de Currie e White estava na influência que exerciam. Eles ocupavam posições de grande suscetibilidade, abrangência e autoridade, tomavam iniciativas e promoviam medidas que podem ou não ter atendido aos interesses de seu governo, mas que, em definitivo, tinham a intenção de promover os interesses da URSS.

A ironia é que nenhum dos dois tinha a menor pista sobre as intenções dos soviéticos, assim como os mais ingênuos políticos americanos. Ao contrário de Roosevelt e Truman, cujas posições mudaram drasticamente após a conferência de Yalta, em 1945, aqueles homens dúplices, calculistas e duros reagiram como se fossem amantes enganados e incompreendidos quando Stálin os fez de bobos.

A geração que ingressou na economia durante ou logo após a Grande Depressão apegou-se à mensagem contida na "Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda" com a sofreguidão de afogados que se agarram a uma boia. Keynes era seu herói, e eles eram seus discípulos - quer dizer, discípulos intelectuais. O rótulo "keynesiano" não implicava apoio às medidas preconizadas por Keynes, muito menos à sua filiação política. Alguns eram conservadores, no plano da política, e alguns, particularmente na Europa, eram socialistas. A maioria se encaixava no espectro definido pelos partidos mais relevantes.

O fato de alguns terem atingido posições de poder e influência, usando-as para executar tarefas ocultas, devido a sua lealdade a um regime totalitário, diz muito a seu respeito e a sua época, mas muito pouco sobre as ideias keynesianas e ainda menos sobre o homem Keynes -exceto, talvez, que, como todo mundo, ele não podia imaginar como homens tão inteligentes podiam ser tão estúpidos ou tão maus.

[*] Sylvia Nasar, jornalista e economista, nasceu na Alemanha (1947) e foi criada entre Nova York e Washington, nos Estados Unidos, e Ancara, na Turquia. Professora da Universidade de Columbia, trabalhou no The New York Times, foi colaboradora da Fortune e articulista da News & World Report.