21 de junho de 2011

“Ignoramos esta recomposição de opereta” (do governo grego)

Aleka Papariga*

O KKE, com manifestações de massa em Atenas, realizou uma intervenção política directa nos últimos desenvolvimentos políticos anti-populares previstos pela plutocracia e a burguesia gregas, com uma recomposição ministerial para assegurar a gestão do capitalismo. A secretária-geral do KKE, Aleka Papariga, pronunciou-se aquando da manifestação de Atenas e sublinhou:

“Exigimos eleições a fim de que o povo possa abrir uma primeira fissura no sistema político burguês. Quanto mais fraco for o governo que venha a ser formado, mais fácil será para o povo evitar o pior.

“Ignoramos a intenção do primeiro-ministro de se demitir, a disposição do presidente da ND, Samaras, de formar um governo de coligação, pois o resultado de tudo isso não é senão uma recomposição ridícula. Ignoramos esta recomposição de opereta; não tem nenhuma importância que tal ministro deixe o seu posto ou que um outro tome o seu lugar. Eles fracassaram temporariamente em obter um consenso, farão uma outra tentativa.

“Ignoramos as suas ameaças de que se o povo grego não se dobrar ficará sem salários e sem pensões de reforma. Eles tentam transformar os seus próprios dilemas em dilemas populares. Tentam transformar o seu pânico e o seu medo face ao desnudamento da natureza do sistema capitalista em pânico e medo populares. Quando aqueles no alto tremem, o povo em baixo deve contra-atacar com ainda mais militantismo. A crise na zona Euro é profunda, em particular na Irlanda e em Portugal. Prevêem-se problemas para a economia italiana e que a crise em Espanha irá intensificar-se. Em consequência, todos os povos pagarão e portanto não se trata de uma forma de renegociação da dívida que reclamam com trombetas e aos gritos a ND e o SYRIZA.

“Devemos sublinhar a dívida que os grandes grupos, os monopólios, a UE e a NATO têm para com o povo, assim como os partidos burgueses da ND e do PASOK naturalmente (…) o povo nada deve pagar.

“O POVO DEVE COM AS SUAS PRÓPRIAS MÃOS RETOMAR O QUE ELES LHE DEVEM E QUE LHE PERTENCE.

“Eles têm uma dívida para com o povo por causa da mais-valia que roubam no processo de produção (…)
“Eles devem dinheiro aos trabalhadores do comércio, dos serviços, do privado e do público, eles devem dinheiro em salários e em reformas à esmagadora maioria dos trabalhadores assalariados. Eles lhe devem a fortuna enorme que acumularam nos cofres-fortes suíços e alhures. Eles lhe devem o dinheiro desviado dos fundos de segurança social (…)
“Eles devem tudo o que as famílias populares gregas pagaram pela sua educação, sua cobertura e sua prevenção médica, medidas de saúde e de segurança (…) Eles lhe devem enormes somas gastas com todo o dinheiro dispendido em equipamentos militares graças à NATO e às guerras locais (…)

“Existem potencialidades de desenvolvimento, de produção, com riquezas minerais que temos na nossa posse, que podem ser realizadas de diferentes modos, em quase cada sector da indústria, em cada sector da produção agrícola, no transporte marítimo e na pesca…

“Esta enorme dívida será arrecadada pelo povo só quando ele tomar o poder, quando ele se reapropriar dos meios de produção, através da socialização e das cooperativas populares, através da retirada da UE, através do controle dos trabalhadores e do povo na base, com um parlamento do povo contando representantes eleitos saídos dos lugares de trabalho, organizações de reformados, dos estudantes e dos alunos dos liceus, com uma planificação nacional que eliminará toda forma de desemprego. O protagonista destes acontecimentos não será o povo num sentido vago mas a frente unida e a aliança dos trabalhadores, dos independentes, dos camponeses, dos estudantes e das mulheres, saída da classe operária e das camadas populares.

“Existe uma força com propostas concretas, com experiência, com um corpo militante coerente sem nenhuma manobra perigosa e oportunista: esta força encontra-se no KKE, na frente popular social das organizações sociais radicais que estão reunidas na aliança do PAME, do PASEVE, do PASY, do OGE, do MAS.

“CENÁRIOS ANTI-POPULARES PREPARAM-SE NOS BASTIDORES; ELES FORAM MESMO POSTOS À PROVA NAS RUAS E NAS PRAÇAS. Aqueles que foram enganados não são os únicos que se encontram nas praças. Os representantes de lobbies de poderosos interesses políticos e económicos apresentam-se como “indignados” nas praças, assim como representantes de ONGs que têm um papel particular, antigos e provavelmente ainda actuais colaboradores da direcção do PASOK – eles se agitam por soluções de modernização e renovação. (…)

“NÃO A UMA ALIANÇA COM UMA VAGA ETIQUETA DE FORÇAS PROGRESSISTAS E DE ESQUERDA, DE MODERNIZADORES E DE RENOVADORES, MAS SIM A UMA ALIANÇA DAS FORÇAS ANTI-CAPITALISTAS, ANTI-IMPERIALISTAS, ANTI-MONOPOLISTAS, UMA ALIANÇA UNIDA NA SUA LUTA CONTRA O PODER DOS MONOPÓLIOS, PELO PODER POPULAR.

“Nem um passo adiante pode ser dado sem uma aliança com o KKE, sem um KKE forte e poderoso”.

* Secretária-geral do Partido Comunista Grego, discurso no encerramento da manifestação de 16 de Junho.

20 de junho de 2011

A crise grega é o espelho dos limites do modelo liberal

Sophia Mappa

L'Humanité

Tradução / O anúncio de uma possível falência do Estado grego provocou na Europa reações passionais e moralistas, de um lado e, do outro, reações técnicas, econômicas e até contáveis. O que revelam, antes de tudo, é a regressão do pensamento crítico e político entre os herdeiros do Iluminismo. Foram evocadas, especialmente nos bons e velhos países protestantes, guardiões da moralidade e do rigor econômico, a preguiça dos gregos, sua corrupção e clientelismo. A perspectiva de ver a crise se espalhar para outros países do sul da Europa levou ao uso de adjetivos tão deselegantes quanto desprovidos de capacidade analítica: os gregos foram classificados de "porcos", "Club Med" e por aí vai.

Mas não se viu uma análise da sociedade grega que pudesse contribuir para a compreensão de sua especificidade e jogar luz, também, sobre as contradições da construção europeia. As abordagens econômicas tampouco tocaram nas questões mais profundas. Por que o "subdesenvolvimento" crônico da Grécia, uma vez que os gregos são "ricos", como afirma o muito simpático Guy Burgel?[1] Por que os esforços europeus para "desenvolver" o país fracassam depois de trinta anos de adesão à União Europeia, e apesar dos dois séculos de tutela ocidental sobre o país? Quais os critérios utilizados para avaliar o desenvolvimento, a preguiça e a corrupção?

As poucas tentativas de introduzir uma visão mais complexa da sociedade foram dispensadas com uma arrogância representativa da pobreza do nosso pensamento[2] e, em todo caso, não suscitaram debate. Sem uma análise global, as soluções econômicas recomendadas, incluindo o escalonamento da dívida, serão, no fim, ineficazes. Estas soluções não lidam de forma complexa com as dificuldades gregas, incluindo o enorme fosso entre consumo e produção, nem com os desafios da construção europeia, como alguns países que não estão em conformidade com o modelo europeu, ou com a eficácia do próprio modelo, em uma conjuntura de crise sem precedentes. Na realidade, a crise econômica é um sintoma de complexas mutações sociais, e até antropológicas, e não sua origem.[3] O pensamento econômico explica uma pequena parte da sociedade, mas está longe de dar conta de sua complexidade.

As reações dos membros do governo e da opinião pública grega reforçaram o clima passional. Esquecendo que o PASOK reina na Grécia desde 1981, com um intervalo de oito anos de governos de direita, os líderes socialistas encontraram dois bodes expiatórios fáceis: a direita grega e a Alemanha. Nenhuma análise sobre uma sociedade devorada pelo consumo frenético de produtos ocidentais, sem produção equivalente e lutando com a ambivalência identitária que caracteriza todos os dominados: o desejo e a rejeição da Europa, a submissão e o descumprimento de suas ordens, as revoltas sem projeto para o futuro.

As reações viscerais e as abordagens técnicas, de ambas as partes, evitaram três questões básicas: a primeira é saber o grau de adesão dos países-membros da União Europeia aos princípios do liberalismo econômico e político, até sua própria compreensão dos mecanismos, valores e práticas inerentes a ele. As lógicas de exclusão, de que Merkel é a porta-voz, no interior da Europa, baseiam-se no pressuposto da adesão sem ressalvas ou, pelo menos, no imperativo de tal adesão. No extremo oposto, o caso grego desmente esse pressuposto. A segunda questão diz respeito à validade da convicção, amplamente difundida na Europa, de que a ajuda financeira a países não-conformes na Europa têm a finalidade de "desenvolvê-los" seguindo o modelo liberal, ou democratizá-los. Esta questão pode iluminar os impasses da integração europeia, mas também aqueles das políticas externas da Europa. A terceira é a questão da eficácia do modelo liberal, mesmo dentro de países europeus "verdadeiros" como a Alemanha, a França ou Holanda e Bélgica. Ela remete à necessidade de compreender a natureza da crise do modelo como um todo.

Assim como outras regiões e países europeus, como o sul da Itália, a Córsega, Portugal, Irlanda e, em menor medida, a Espanha, a Grécia pode fornecer pistas importantes para estas perguntas.

Rememorando o passado: uma adesão oportunista
Quando o país adere ao Mercado Comum, em 1981, a sociedade grega conhecia a Europa especialmente por suas conquistas materiais. Mas ignorava em grande parte os valores e o trabalho que estão na origem da riqueza. Apegada, sem saber, à sua tradição, principalmente ortodoxa [4], a sociedade nunca se propôs questionar e mudar as ideologias e práticas herdadas do passado bizantino e otomano. Mesmo tendo um domínio intelectual modesto sobre sua tradição, havia a experiência vivida, que se manifesta nas práticas cotidianas e nas ações mais íntimas dos indivíduos. Sua relação com o mundo exterior não indicava uma adesão ao espírito do capitalismo. Eram contemplativos, e a movimentação para transformar o mundo os deixava indiferentes. As seitas protestantes e sua glorificação do trabalho como meio de salvação nunca tocaram o imaginário coletivo, tradicionalmente hostil a qualquer coisa vinda do Ocidente. Como para muitas sociedades no mundo, o trabalho na Grécia não era algo associado à criatividade ou à identidade do indivíduo, mas à necessidade e à sobrevivência. As atividades econômicas que se desenvolviam eram aquelas tradicionalmente conhecidas: agricultura, comércio, marinha mercante, artesanato e, desde a década 1960, o turismo familiar. Não havia nada de capitalista nisso tudo. Nenhum desejo de transformar a natureza, nenhuma indústria, nenhuma acumulação de capital, investimento de longo prazo ou lógica contábil, nada de criação de riqueza ou de empregos modernos, nada de ciência e desenvolvimento tecnológico, mas uma dependência crônica das riquezas produzidas fora (os fundos enviados pelos expatriados, as ajudas europeias e depois americanas).

Do liberalismo político, a sociedade grega também só fazia uma vaga ideia sem nunca, em todo caso, o haver experimentado. O indivíduo livre e responsável por seus atos e pensamentos, o interesse público, o Estado de Direito, o Direito Civil, a razão, o debate público como meio de governar a cidade... nada disso fazia parte do patrimônio cultural nem da experiência da sociedade. Era a obediência aos poderes e a irresponsabilidade individual e coletiva que instituíam o político e o social. O estado, instaurado pelas potências europeias no início do século XIX, estava sob a tutela das chancelarias europeias e, após a Segunda Guerra, sob a tutela norte-americana. As relações do Estado com a sociedade eram clientelistas. Como o beylik Otomano, o estado era considerado propriedade do líder, do qual as clientelas se serviam, em detrimento de outros grupos. Além disso, o sistema de tributação ocidental para financiar a construção de serviços coletivos nunca vingou na Grécia. O poder governava pela força e era transmitido de família em família; como ainda hoje. Não havia nação ou unidade nacional, portanto. No lugar de soberania nacional, sucessivas tutelas. Nada de liberalismo político, mas uma longa série de regimes parlamentares abortados e de golpes militares, o mais recente entre 1967 e 1974.

A história contemporânea da Grécia é marcada por humilhações (derrotas militares, fracassos econômicos) que a fazem esquecer seus sucessos. Frustrações recorrentes igualmente, nunca elucidadas pela razão nem, a fortiori, assumidas. O responsável sempre estava fora: a Turquia, o Ocidente, o imperialismo. A responsabilidade própria, individual e coletiva, não faz sentido naquela sociedade. A genialidade do fundador do PASOK, pai do ex-primeiro-ministro George Papandreou e filho de outro líder político, foi explorar este estado de espírito e de incluir a sociedade grega em um "projeto" anti-capitalista e anti-ocidental. A história vai mostrar que não havia um projeto. O PASOK foi a expressão das frustrações gregas, mas não ofereceu nenhuma solução.

A adesão da Grécia à Europa, conduzida pelo primeiro-ministro K. Karamanlis, foi pensada como um remédio para a incapacidade da sociedade de sair do círculo vicioso de golpes militares, mas também da ameaça turca. Mas não houve nenhum debate significativo sobre a capacidade e a vontade da sociedade de se integrar ao mercado comum. A disputa acirrada que opôs os pró-europeus aos terceiro mundistas do PASOK, hostis à adesão, não se apoiava em qualquer análise da sociedade tal como era. Para os primeiros, cheios de desprezo pela Grécia real, a simples adesão à Europa seria suficiente para transformá-la em uma sociedade europeia. Para os últimos, não havia nada a mudar. Bastaria libertar o país da dominação ocidental para finalmente alcançar a felicidade. É significativo que o PASOK, que chegou ao poder em 1981, logo após a assinatura da adesão, não a contestou. Mas não mudou nada em sua posição antiocidental nem em suas explosões chauvinistas, que tanto entusiasmavam o povo.

Tampouco houve debate entre os europeus. A relutância inicial [5] desapareceu após o "retorno à democracia", em 1974. Por ignorância da sociedade, por uma crença amplamente compartilhada, ainda hoje, de que a democracia se resume à organização de eleições, e que as ajudas financeiras levariam ao capitalismo (e à democracia), pelo desejo de expansão e também de poder, pelo fascínio com o milagre ateniense de vinte e cinco séculos, o clube dos ricos aceitou o ingresso dos pobres. O Partenon agora estava na Europa e, com ele, as ilhas gregas, tão cobiçadas pelos turistas europeus, inclusive os alemães, em busca de sol para reproduzir sua força de trabalho. Sem esquecer o mercado consumidor para os produtos europeus, inclusive armas, que passaram a inundar o país.

Foi, dessa forma, um amálgama de ideologias, interesses e mitologias, que guiou o lado europeu na adesão da Grécia. A expectativa de uma transformação rápida provou-se ilusória. Não poderia ser de outra forma. Nenhuma sociedade muda radicalmente, e, a fortiori, impulsionada de fora. Como todo beneficiário da ajuda ocidental, a Grécia não utilizou a ajuda financeira para se "desenvolver" nem para se democratizar. Como no passado, com o Plano Marshall, o que aconteceu em trinta anos foi o reforço das lógicas tradicionais; de dependência, econômica e política, com um aumento sem precedentes do consumo, sem transformação do seu aparato produtivo. Este último perdeu algumas de suas atividades tradicionais (agricultura, artesanato), sem, no entanto, ser capaz de criar novas. As atividades tradicionais de importação e exportação aumentaram em importância, impulsionadas pelos países industrializados da UE, que usaram a Grécia como um trampolim de acesso aos Balcãs. No mesmo período, as atividades ilegais (tráfico de drogas e armas) floresceram e os laços familiares tradicionais se desintegraram, dando lugar a uma atomização crescente. O populismo se estabeleceu como forma de governo, à esquerda e à direita, e os benefícios sociais concedidos não tinham adequação com as receitas próprias. O custo foi o endividamento público e privado. Quanto às relações com os "parceiros europeus", a divisão histórica e as ambivalências tradicionais persistem, mesmo que atenuadas pelo mimetismo e pelo consumismo. O erro é sempre do outro: da Europa, do FMI, dos bancos norte-americanos. Daí o naufrágio, não só econômico. É a derrota de uma sociedade que caiu na armadilha da ilusão de um progresso material infinito sem mudanças radicais em seus modos de produção e consumo. Como ocorre entre os beneficiários da ajuda ocidental, a sociedade grega nunca enxergou a mudança imposta pela União Europeia como um objetivo a ser alcançado. As obrigações foram contornadas pelo ardil. Hoje, em plena tempestade financeira, a não há nenhum debate em torno da produção.

A lógica da exclusão
A adesão da Grécia à UE foi, assim, uma oportunidade perdida para se debater que Europa queríamos construir, e para buscar uma resposta com conhecimento de causa. Assi, os países europeus "verdadeiros" são tão responsáveis %u20B%u20Bquanto os "falsos". A sempre proclamada diversidade, ainda recentemente evocada nas eleições europeias, não passou de um slogan, como aqueles que exaltam a diversidade no planeta. Não houve reflexão significativa sobre o lugar da alteridade na Europa, pela simples razão de que, ali, a alteridade não está presente nem tampouco é aceita. É difícil compreender valores que não compartilhamos e não experimentamos. É mais fácil pedir mudanças nos outros e esquecer a necessidade de suas próprias mudanças para que o convívio seja possível.

As contradições desta velha ideologia europeia são hoje incontornáveis, tanto no nível europeu quanto internacional. A exclusão da Grécia, proposta por Angela Merkel, é, certamente, um caso extremo. Mas é significativa da densidade histórica das sociedades e das continuidades enraizadas em sua cultura, mesmo quando acreditam ter rompido com o passado. "Uma nação (a alemã) voltada para dentro, que retoma novamente a "questão alemã "no contexto europeu", escreve Ulrich Beck [6]. Esta lógica de exclusão da diferença conduz inexoravelmente ao mito de Narciso: morrer de tanto contemplar a si mesmo e ser intolerante com o outro. Hoje é a Grécia, depois será a Itália e a Espanha. Amanhã, a Europa – ou quem sabe a humanidade – será só a Alemanha.

No entanto, a dificuldade de pensar na coexistência na Europa (e no mundo) de sociedades diferentes daquelas inspiradas no liberalismo é algo inerente à ideologia do suposto "modelo" liberal. O fortalecimento de movimentos xenófobos em todos os países europeus revela uma profunda intolerância a tudo o que vem de fora. O apoio à Grécia foi baseado em argumentos políticos e econômicos sem dúvida razoáveis: a interdependência dos Estados e a ameaça de falência generalizada [7], o fracasso do pacto de estabilidade e crescimento como instrumento de governança da zona do euro [8]. A necessidade de sair da lógica da "autorregulação" pelo mercado é amplamente debatida. Mas quem levantou o debate sobre se valores e modos de vida diferentes podem coexistir na Europa, e como se organizará esta diversidade?

Tanto a pergunta como a resposta são, no entanto, urgentes. Primeiro porque, além da organização da atual UE, levantam a questão das fronteiras e da seleção de novos candidatos. Por que a Grécia e não a Turquia? Em segundo lugar, porque a crise da hegemonia ocidental e a ascensão de sociedades muito diferentes das europeias suscitam a questão das relações da UE com os outros países. Pode-se insistir na lógica da exclusão daqueles que não refletem nossa própria imagem? Podemos nos fechar no autismo euro-americano [9] e na busca de espelhos a golpes de euros ou do furor das armas? Pode-se continuar a evocar a superioridade dos valores europeus para impô-los no relacionamento com o outro?

E que valores são esses? A crise sem precedentes nas sociedades europeias parece aproximá-las das sociedades que elas pretendem desenvolver. O individualismo, a irresponsabilidade individual e coletiva, a anomia e a desintegração dos laços sociais não têm por que causar inveja aos gregos, por exemplo. O interesse pela coisa pública desapareceu, as instituições funcionam mal, as relações entre os cidadãos e os governos são nefastas, e a transparência deu lugar ao segredo. A ganância e a corrupção tornaram-se modo de governança. As desigualdades aumentam e as sociedades temem perder suas conquistas materiais. Nasce um novo tipo de poder, personalizado e autoritário, populista e infantilizador de indivíduos apáticos [10].

A crise grega é o espelho dos limites do modelo liberal [11], não só do ponto de vista econômico, mas também político e social. Os efeitos devastadores da ascensão, no nível mundial, da ganância e do consumo como modo de vida, da competição de todos contra todos, exigem a busca de outras maneiras de vida comum, na UE mas também no planeta. Formas mais inclusivas das diferenças, dos alemães por causa da sua grande competitividade aos gregos pela razão oposta. Isso implica mudar os modos coletivos de nos enxergar e de enxergar os outros. As receitas econômicas terão um impacto limitado, ou nenhum, se não houver um debate aprofundado sobre que sociedade queremos construir no lugar desta que está em crise. Como reconstruir o coletivo, nos níveis nacional, europeu, e até global? Com que valores e que regras? Que tipo de poder político queremos para substituir este atual, tão difamado? Para isso, temos de superar a lógica econômica como único horizonte de pensamento e de ação e restabelecer o debate público, para suscitar a ação da sociedade sobre si mesma, para se transformar. Existem movimentos sociais e outras formas de pensamento na Europa, mas são marginais e fragmentados.

A globalização, por sua vez, exige um enorme esforço de compreensão do outro, por mais difícil seja. A finitude do planeta torna-se uma consciência comum que poderia abrir caminho a formas menos destrutivas de habitá-lo. O caminho, no entanto, será longo! Sem querer ofender economistas e outros detentores de verdades absolutas, não há solução milagrosa. É preciso inovar e trabalhar por uma revolução cultural da sociedade.

Notas:
[1] G. Burgel, « Athènes est au bord de la faillite, mais les Grecs sont riches », in Le Monde, 6 de março de 2010
[2] Ver o caso de Jacques Attali mandando "se catar" Georges Prevelakis, acadêmico francês de origem grega, que salientou a identificação oriental da sociedade grega, sua cegueira sobre si própria, e a ineficácia das medidas impostas (7 / 10, Nicolas Demorand, France Inter, 6 de maio de 2010)
[3] Ver, entre outros, Marcel Gauchet, La crise du libéralisme, Paris, Gallimard, 2007
[4] Ver Sophia Mappa, Orthodoxie et Pouvoir, in Sophia Mappa (dir) Puissance et impuissance de l’Etat, Karthala, Paris, 1996
[5] O processo inicial de adesão começou em 1961. O Tratado de Roma previa um período de transição de 22 anos.
[6] Ulrich Beck, “Non à l’Allemagne du repli” in Le Monde, 12 de abril de 2010
[7] Ulrich Beck, idem
[8] Poul Nyrup Rasmussen, “introduzir um mecanismo de estabilidade financeira é insispensável", em Le Monde, 06 de março de 2010
[9] Regis Debray, Un mythe contemporain : le dialogue des civilisations, Paris, CNRS Editions, 2007
[10] Além do excelente texto de J. P. Delevoye, Mediador da república, Le Monde, 20/02/2010, permitimo-nos remeter o leitor a nosso livro, Sophia Mappa (dir) Les impensés de la gouvernance. La société civile, réponse à la crise ? Paris, Karthala, 2009
[11] Ver, entre outros, Akram Belkaid, « Doit-on vraiment sauver la monnaie unique européenne ? » Em Le Monde diplomatique, junho de 2010

18 de junho de 2011

O compromisso histórico como estratégia

Lucio Magri

The Tailor of Ulm: Communism in the Twentieth Century

Tradução / Incentivado por estas primeiras conquistas parciais, Berlinguer decidiu que podia e que devia ser elaborada e oferecida, tanto para o partido quanto para o país, uma proposta política orgânica e de longo alcance. E assim o fez, publicando na Rinascita um ensaio, em três partes, ao qual conferia o valor de uma plataforma estratégica, e de fato se ateve a ela ao longo dos anos setenta. O ensaio convenceu e envolveu todo o grupo dirigente do PCI, sem objeções, com exceção das de Longo; e a base do partido, depois de certo incômodo, assumiu a proposta e se esforçou em apoiá-la.

Nem mesmo aqueles que mais tarde mostraram perplexidade diante das decisões que a colocavam em prática (como Ingrao e Natta, por exemplo) protestaram contra a implantação dessa proposta política. Pelo menos até o momento em que o próprio Berlinguer, vários anos depois, constatando veementemente sua insustentabilidade e seus deficientes resultados, assumiu a responsabilidade de modificá-la profundamente, encontrando muitas resistências. Portanto, a proposta merece uma atenta análise. Eu a reli e meditei sobre ela recentemente, preparado para mudar de opinião novamente a respeito da veemente crítica que expressei naquele momento. Entretanto, não encontrei razões para corrigi-la; antes, ao contrário, pareceu-me ainda mais justificada: o que aconteceu não foi casual, provocado por acontecimentos imprevisíveis, derivado de erros táticos ou responsabilidade de sujeitos hostis. Ao contrário, esta crítica contribuiu para acelerar e agravar tanto a derrota como suas consequências. A fragilidade e as contradições daquele projeto político estão bem à vista, hoje mais do que nunca, em sua formulação inicial. E eu me esforço para demonstrá-lo.

A primeira parte do ensaio estava dedicada quase completamente à trágica circunstância chilena que, naquele momento, perturbava o ânimo de cada companheiro disposto a tirar uma lição. A escolha dessa premissa era por si só discutível, e a reconstrução dos fatos estava, conscientemente ou não, presa ao apoio inadequado de uma saída política. Era inegável que no desastre chileno haviam pesado as fragilidades ou decisões ingênuas de Allende e de seus companheiros. Allende tinha se tornado presidente – e presidente significava responsável direto pelo governo do Chile – de forma perfeita desde o ponto de vista constitucional, isto é, mediante o voto popular, amplamente majoritário, apesar de ter obtido apenas 39% dos votos. Tinha diante de si um Parlamento no qual dispunha de uma maioria ocasional e que, mais do que apoiá-lo, torpedeava-o. Também é verdade que suas intenções e medidas não tinham em absoluto um caráter revolucionário, mas estavam centradas contra os poderes ávidos (monopólios estrangeiros impostos havia muito tempo e sempre depredadores) e oligarquias agrárias insuportáveis. Mesmo assim, por trás desses fortes interesses, havia outros ainda mais fortes, internacionais e, sobretudo, o Chile fazia parte de uma região do mundo semicolonial, na qual a totalidade do equilíbrio estava ameaçada naquele momento. O exército tinha renovado sua fidelidade para com a Constituição, mas ainda assim era uma casta separada, formada nos Estados Unidos. Os riscos de um contra-ataque reacionário eram, portanto, reais. É provável que Allende os tenha subestimado, também, porque uma parte dos que o apoiavam na esquerda o pressionavam para avançar e ir mais depressa. Era verdade, de todo modo, que não lhe faltava apoio popular; ao contrário, tal apoio crescia. Intelectuais e técnicos chegavam de toda a América Latina para ajudá-lo, os partidos da oposição estavam divididos, careciam de uma base de massas, apesar de, precisamente por este motivo, grande parte da população permanecer despolitizada e oscilante. E, de fato, Allende não foi derrotado por uma coligação parlamentar e nem por mobilizações populares. Primeiro, sofreu o desgaste de um caos econômico organizado intencionalmente do exterior, em seguida vieram as jacquerias empresariais também manipuladas por terceiros. E, no final, dado que tudo isso não era suficiente, um golpe militar, sugerido e financiado pelos Estados Unidos, que pôs em funcionamento uma repressão gigantesca e sanguinária e terminou como um governo despótico e duradouro. O próprio Berlinguer, em seu escrito, reconhecia tal dinâmica com palavras graves: “As características do imperialismo, particularmente o norte-americano, são o abuso, o espírito de agressão e conquista, a tendência à opressão dos povos cada vez que as circunstâncias o sugerem”. Sendo assim, como teria bastado para impedi-lo, tal como ele sugeria, “uma melhor relação” com uma parte da DC chilena, impotente e frequentemente cúmplice? E, sobretudo, existiam ou podiam ser criadas as condições para exercer esse tipo de ameaça na Itália e em toda a Europa, onde precisamente nessa época voltavam ao poder, pelo menos formalmente, as instituições democráticas (Grécia e Portugal) e num momento no qual os Estados Unidos estavam paralisados pela guerra vietnamita que estavam perdendo? É verdade que também entre nós havia uma crise econômica e política, mas de um tipo completamente diferente e muito mais controlável. Assumir a experiência chilena como um exemplo, assim como havia sido feito em seu tempo com o caso grego, não era somente forçar as coisas, mas também era um desvario. Um obstáculo para compreender tanto outras dificuldades reais com as quais fazer contas, como a possibilidade de mudança que a situação oferecia. O indício de uma incerteza na análise que em longo prazo se refletiria na incerteza da proposta.

Na segunda parte do ensaio, na qual aborda plenamente o tema da situação italiana e do objetivo a seguir a que o PCI se propunha, o próprio Berlinguer muda de tom e aumenta sua aposta. Aqui, durante uma boa parte, seu raciocínio era coerente, bem argumentado, e por este motivo pode sintetizar-se sem correr o risco de alterá-lo. A Itália – afirmava ele – atravessa uma etapa de crise profunda e crucial: uma crise do sistema econômico que, depois de um longo período de expansão, já não é capaz de garanti-lo; uma crise dos equilíbrios sociais que consequentemente já não podiam ampliar o bem-estar, nem redistribuí-lo de forma equânime somente com a pressão sindical; uma crise das instituições, paralisadas pelos corporativismos e frequentemente contaminadas pela corrupção ou por poderes ocultos; uma crise do sistema político, quase carente de maiorias estáveis e de capacidade de governo. Em tudo isso, reapareciam os velhos atrasos da sociedade italiana e se manifestavam novas contradições, próprias do tipo de modernização do capitalismo italiano e do capitalismo em geral. Ainda assim, era possível também ver o fruto de grandes lutas, defensivas e ofensivas, que haviam obstaculizado esse sistema, conquistado novos direitos, afirmado novos valores, novos sujeitos sociais, novas situações; substancialmente, novas correlações de força na Itália e no mundo. Se uma crise como essa tivesse se enroscado sobre si mesma, se tivesse permanecido nas mãos de uma classe dirigente em busca de uma restauração, teria colocado em risco a própria democracia. Para evitá-la, era necessária e possível uma mudança profunda de direção no governo do país, em suas orientações programáticas, no equilíbrio do poder. Para esclarecer o que entendia como “mudança de direção”, Berlinguer acrescentava duas coisas. Primeiro, que “são necessárias reformas estruturais orientadas ao socialismo”: uma segunda etapa da democracia progressiva. Em segundo lugar (citando Togliatti e Longo), que “é errôneo identificar a via democrática com o parlamentarismo: o Parlamento só pode realizar suas obrigações se a iniciativa parlamentar dos partidos do movimento operário estiver vinculada às lutas de massa e ao crescimento de um poder democrático na sociedade e em todos os setores do Estado”. E inclusive, quando reiterava a necessidade de reunir, em apoio à mudança de direção, uma maioria da população, e com esse objetivo propunha um encontro entre massas comunistas, socialistas, católicas, citava em ordem: a unidade de classe operária respeitando a diversidade de papéis e tradições culturais; a aliança, não de uma classe média qualquer, mas de seu setor progressista e liberado do corporativismo; e por último, mulheres, jovens, intelectuais, isto é, novos sujeitos que surgiram na luta.

Até esse ponto, o discurso era não apenas coerente com relação à identidade histórica do comunismo italiano, mas também assumia um caráter claramente ofensivo. A única crítica que se poderia dirigir a ele – e que então lhe dirigi – dizia respeito ao caráter excessivamente sumário na análise da crise e da situação mundial (particularmente da situação do movimento comunista mundial); ainda mais pela ausência de uma valorização sobre o estado real do movimento de massas, e de toda prioridade programática concreta que servisse como atenuante para medir a mudança de direção. Não se trata de uma crítica irrelevante, pois tais reticências deixaram as mãos livres demais no momento de estabelecer uma relação entre estratégia e tática, entre alianças e conteúdos. Na terceira parte do ensaio, Berlinguer procurava exatamente completar a exposição de seu projeto, indicando, em termos mais precisos, como e a partir de onde teria de partir. Mas justamente nesse ponto surgiram de imediato as contradições que mudavam seu sentido, e comprometiam tanto a lógica como o realismo. O eixo que sustentava essa última parte estava sintetizado em uma frase que depois se tornou famosa: “Não é possível governar e transformar um país com uma maioria de 51%”. Considerada em sua totalidade, e lida à luz de tudo o que a precedia, essa afirmação era incontestável. De fato, não é possível “governar e transformar” um país, social, territorial e culturalmente complexo respeitando-se a Constituição se não se dispõe, também no Parlamento, de força suficiente para deliberar e gerenciar reformas profundas, que dizem respeito a extensos interesses ou hábitos enraizados, e de um lapso de tempo suficientemente longo para que tais reformas produzam os efeitos desejados. A afirmação é incontestável, mas é também ambígua. Ora, o que poderá acontecer e o que se deve fazer se não existe ainda uma força semelhante, se há um vazio de governo e uma perigosa crise se anuncia? Deve-se permanecer na oposição, esperando que a crise produza por si só as condições de uma verdadeira mudança de direção, e trabalhar para construí-la? Ou, ao contrário, deve-se separar o binômio governo-transformação e, pelo menos no início, aceitar a participação de uma maioria heterogênea, fundamentada em um programa mínimo, cuja atuação resulta incerta, prorrogando para um segundo tempo uma verdadeira mudança de rumo, na esperança de que a dinâmica da colaboração e os avanços produzidos por esta na consciência das massas permitam metas mais avançadas, conquistando-se enquanto isso pelo menos uma legitimação como força de governo? É evidente que não se tratava de uma decisão abstratamente de princípio, e tampouco se tratava apenas de uma tática gradualmente adaptável de acordo com a conveniência. Tratava-se de uma escolha estratégica para tomar decisões antecipadamente, com base em uma análise concreta, em uma fase historicamente determinada.

Togliatti, por exemplo, escolheu antecipadamente a participação em governos de unidade nacional e aceitou, inclusive, uma versão talvez mais moderada do necessário. Apesar de tudo, fez isso com base na valorização das relações de força em um país que estava saindo do fascismo, que havia perdido a guerra recentemente e que tinha os exércitos ocidentais em casa; e talvez tenha feito isso esperando que a unidade dos grandes países vencedores durasse um pouco mais. Mas o fez, sobretudo, porque pensava que a ação imediata de governo, para a qual além disso estavam disponíveis todas as forças da Resistência, não era o ponto essencial. Era essencial, por outro lado, a conquista da República e principalmente de uma Carta Magna avançada e compartilhada. E ele conseguiu isso, inclusive com a contribuição dos Dossetti, dos Lazzatti e dos La Pira. Um “compromisso histórico” havia sido firmado, e nós estamos ainda hoje o defendendo do desmantelamento.

Não era essa, apesar de tudo, a situação dos anos setenta. Quer fosse pela crise econômica, quer fosse pelo conflito social, não conseguiam encontrar uma solução “mais adiante” separando “governo” de “transformação”. De fato, Berlinguer mal tinha acabado de escrevê-lo, e já se propunha uma “mudança de direção na sociedade e no Estado”. Ainda assim, aceitando, como se dispunha a fazê-lo, uma separação dos tempos, ou o que dá no mesmo, a hipótese de uma fase de transição que abrisse o caminho para metas mais ambiciosas, era possível tal hipótese, e quais eram as condições? O tema central, neste caso, passava a ser o das forças políticas e sua disponibilidade e, a partir daí, de fato, tirou-se a atenção da última parte do ensaio, que tinha muitas características daqueles “reinos imaginários” que até o próprio Berlinguer detestava. Era “imaginário”, acima de tudo, dar como garantida a riqueza da esquerda, à qual dedicava, não por acaso, apenas uma breve menção. A unidade com o PSI já havia se desfeito há mais de dez anos no plano político, e também estivera ameaçada no sindicato e nas administrações locais. Ela poderia se reconstruir nos anos setenta, mas com um trabalho paciente e de resultado incerto. Isso, claro, com a condição de não alimentar, mediante um relacionamento preferencial com a DC, a suspeita de que se quisesse relegar o PSI a um papel marginal e subalterno. Não era menos imaginário considerar que a extrema esquerda não era mais influente e sim facilmente controlável. Não havia dúvidas de que estava desorientada e dispersa, embora exatamente de sua crise brotasse qualquer disponibilidade a um confronto (por exemplo, cito a interessante tentativa do nascimento do PDU P, o Partido de Unidade Proletária, e da reflexão em A vanguarda Operária [Vanguardia Obrera] ou no MLS, o Movimento de trabalhadores para o socialismo). Existia ainda, principalmente, desorganizada embora extensa, uma ampla área juvenil formada em 1968 e em 1970, que havia dado muitos votos ao PCI como única formação parlamentar de oposição, mas que não havia se rendido em absoluto, e que teria reagido contra governos de ampla coalizão e de baixo perfil das maneiras mais imprevisíveis, embora seguramente não com simpatia.

A hipótese de uma maioria de governo que incluísse o PCI em tempos razoavelmente breves se fundamentava, portanto, essencialmente sobre um acordo direto entre os dois partidos maiores, a DC e o PCI. Aqui o imaginário prevalecia ainda mais, mas era desmentido por uma reconhecida evidência. De fato, um mês antes, a mesma Rinascita havia publicado em forma de suplemento um número especial de Contemporáneo, dedicado precisamente à análise da DC. Ali intervinham alguns dos dirigentes de maior prestígio, como Chiaromonte e Natta, com alguns especialistas como Accornero e Chiarante. Ao relê-lo, uma coisa impressiona: a partir de diferentes perspectivas, todos convergiam em drásticas análises. A DC já era diferente, diziam, da original. Menos clerical e ao mesmo tempo menos religiosa. Fortemente enraizada na sociedade por meio de diferentes canais clientelistas, proteções sociais, exercício prudente do poder, apoio às empresas, apresentando-se como garantia de estabilidade econômica e administração experimentada do gasto público. Em síntese, um partido-Estado construído em trinta anos, capaz de mediações. Por isso estava cronicamente dividido em diferentes correntes organizadas, cada uma das quais tinha relações orgânicas com certos grupos, certos territórios, certos setores do aparelho estatal e das empresas públicas, mas fortemente unido pela necessidade de manter sua supremacia. Sua força principal tinha origem na expansão econômica da qual podia fazer alarde, para a qual havia contribuído e cujas vantagens sabia distribuir com sabedoria.

Isso não significava que a DC fosse uma fortaleza invencível e impenetrável. De fato, o declive do desenvolvimento econômico também tornava para ela mais estreitas as margens de mediação entre os interesses que representava. O ciclo de lutas operárias havia incidido claramente nas posições e nos comportamentos das grandes organizações sociais que estavam tradicionalmente ao seu lado, como a CI SL e a ACLI (inclusive no mundo agrário, submetido à pressão da indústria agroalimentar e aos injustos acordos impostos pelos maiores países europeus, escapava ao controle total da Coldiretti e da Federconsorzii (1)). A aliança parlamentar centrista agora despedaçada e as cada vez mais recorrentes tentativas de socorrê-la mediante acordos provisórios e feitos por baixo da mesa com a extrema direita, inflamavam tensões em seu interior em vez de oferecer uma solução. A mudança marcada pelo Concílio, sobretudo, atuava nas experiências da igreja de base e criava algum reflexo, inclusive entre muitos intelectuais próximos de sua cúpula. Em uma convenção quase desconhecida, mas desafiante (em Lucca, já em 1967), a partir de diferentes ângulos, Ardigo e Del Noce haviam lançado a pergunta: “A gente simples se pergunta: como é possível que depois de décadas de governo de um partido católico, a marca cristã da sociedade decline?”. E, de qualquer modo, a rejeição de um verdadeiro tratado com o Partido Comunista, que chegara a ser mais forte e era considerado como menos ameaçador, restava como algo infundado e intransigente, exatamente porque essa dita força por si mesma podia colocar em questionamento o partido-Estado, ameaçar sua supremacia no exercício do poder, que constituía seu verdadeiro aglutinador. De fato, esse acordo não aconteceu. E jamais poderia ter sido realizado sem que enfrentasse uma crise e sem uma ruptura da DC, que libertasse forças aprisionadas em seu interior.

Entretanto, Berlinguer e o grupo dirigente do PCI rejeitaram tomar nota dessa evidência e assumir, ainda que fosse a sua maneira, as consequências. Ao contrário, iam se convencendo que somente mediante um deslocamento global e gradual da DC, mediante uma experiência comum de governo, poderia nascer um encontro entre massas comunistas, socialistas e católicas. Portanto, Berlinguer, no fim de seu ensaio, contornou o problema com um sofisma e escreveu:

"A DC não é uma realidade metafísica, mas sim um sujeito histórico modificável. Nasceu em oposição ao velho Estado liberal e conservador, foi arrasada pelo fascismo, em seguida participou da guerra da libertação, contribuiu com a redação da Constituição, e depois participou na Guerra Fria, no lado oposto ao nosso inclusive, das piores maneiras. Hoje, pode se modificar novamente, e cabe a nós ajudá-la ou obrigá-la a fazê-lo."

Assim, concluiu sua reflexão com uma proposta trabalhosa e reconciliadora para o governo do país: um “novo grande compromisso histórico”, cujos protagonistas naturais eram os dois maiores partidos. Em que consistiria esse compromisso e como ele poderia chegar a ser “histórico” são questões que obviamente ficavam como algo bastante misterioso. Para mim, não fica claro o porquê de tal risco. Talvez ele realmente acreditasse ter encontrado uma saída para uma situação tão difícil e complexa. Talvez pensasse estar protegido dos riscos que isso implicaria por um excesso de confiança na força de impulso e na solidez dos princípios do próprio partido. Mas, provavelmente – e uma coisa não exclui a outra –, Berlinguer não previa que se encontraria tão rapidamente diante de uma saída que não estava ainda madura, nem diante de ofertas democristãs tão mesquinhas, e é provável que tenha supervalorizado a extraordinária habilidade de Moro no dizer e no não dizer, no prometer e no protelar. De fato, mais do que encontrar uma solução, ele havia metido a mão em uma arapuca, de onde a retirou tarde demais.