26 de fevereiro de 2012

Por que os anti-autoritários são diagnosticados como doentes mentais?

Bruce E. Levine


Tradução / Em minha carreira como psicólogo, falei com centenas de pessoas antes diagnosticadas por outros profissionais como portadoras de Transtorno Desafiador de Oposição (TDO), Transtorno do Déficit de Atenção / Hiperatividade (TDAH), Transtorno de Ansiedade e outras doenças psiquiátricas. Estou chocado por dois fatos: 1) quantos destes pacientes são, em essência, anti-autoritários; 2) como os profissionais que os diagnosticaram não o são.

Os anti-autoritários questionam se uma autoridade é legítima, antes de levá-la a sério. Sua avaliação de legitimidade inclui avaliar se as autoridades sabem de fato do que estão falando; se são honestas; e se se preocupam com aqueles que as respeitam. Quando anti-autoritários avaliam uma autoridade como ilegítima, eles desafiam e resistem a seu poder. Certas vezes, de forma agressiva; outras, de forma agressivo-passiva. Às vezes, com sabedoria; outras, não.

Alguns ativistas lamentam como parecem ser poucos os anti-autoritários nos Estados Unidos. Uma razão pode estar em que muitos anti-autoritários são psico-diagnosticados e medicados antes de formarem consciência política a respeito das autoridades sociais mais opressoras.

Por que profissionais de Saúde mental veem anti-autoritários como portadores de distúrbios mentais

Conquistar aceitação nas escolas superiores ou de especialização de medicina, e obter um doutoramento ou pós-doutoramento como psicólogo ou psiquiatra, significa superar muitos obstáculos. Requer adequar-se comportamentalmente a autoridades – inclusive aquelas pelas quais não se tem respeito. A seleção e socialização dos profissionais de saúde mental tende a excluir muitos anti-autoritários. Graus e credenciais são, antes de tudo, atestados de adequação. Quem estendeu seus estudos, viveu longos anos em um mundo onde é preciso conformar-se rotineiramente com as exigências de autoridades. Por isso, para muitos doutores e pós-doutores em saúde mental, pessoas diferentes, que rejeitam esta adequação comportamental, parecem ser de outro mundo – um mundo diagnosticável.

Descobri que a maior parte dos psicólogos, psiquiatras e outros profissionais de saúde mental não são apenas extraordinariamente adequados às autoridades – mas também inconscientes da magnitude de sua obediência. Também tornou-se claro para mim que o anti-autoritarismo de seus pacientes cria enorme ansiedade entre estes profissionais, o que impulsiona diagnósticos e tratamentos.

Na universidade, descobri que para ser rotulado como alguém com “problemas com autoridade”, bastava não bajular um diretor de treinamento clínico cuja personalidade era uma combinação de Donald Trump, Newt Gingrich e Howard Cosell. Quando alguns professores me disseram que eu tinha “problemas com autoridade”, reagi ao rótulo com sentimentos contraditórios. Por um lado, achei interessante, porque entre os filhos de trabalhadores, com quem havia crescido, eu era considerado de certa forma obediente à autoridade. Além disso, eu tinha feito minhas lições de casa, estudado e recebido boas notas. Entretanto, embora os meus novos “problemas com autoridade” deixassem-me alegre, por ser agora visto como um bad boy, também me preocupava com o tipo de profissão em que estava entrando. Mais especificamente, se alguém como eu era visto como tendo “problemas com autoridade”, como seriam chamados os garotos com quem cresci – atentos a tantas coisas que lhes interessavam, mas não suficientemente interessados com a escola para obedecê-la? Logo a resposta tornou-se clara.

Diagnósticos de doença mental para anti-autoritários

Um artigo de 2009 no Psychiatric Times, intitulado “TDO e TDAH: Enfrentando os Desafios do Comportamento Disruptivo”, relata que os “transtornos disruptivos”, uma categoria que inclui o Transtorno do Deficit de Atenção / Hiperatividade (TDAH) e o Transtorno Desafiador de Oposição (TDO), são os problemas de saúde mental mais comuns em crianças e adolescentes. O TDAH é definido por baixa atenção e tendência à distração; baixo auto-controle, impulsividade e hiperatividade. Já o TDO é definido como “um patrão de comportamento negativista, hostil e desafiante, sem as violações mais sérias dos direitos básicos de outros vistas no transtorno de conduta”. Os sintomas do TDO incluem “desafiar ativamente, ou recusar-se a obedecer com frequência as ordens e regras dos adultos” e “discutir frequentemente com adultos”.

O psicólogo Russel Barkley, uma das grandes autoridades da saúde mental mainstream em TDAH, diz que os que padecem deste mal têm déficits no que chama de “comportamento regrado”, já que são menos obedientes às regras das autoridades estabelecidas e menos sensíveis às consequências positivas ou negativas. Pessoas jovens com TDO também têm, segundo as autoridades do mainstream, os tão falados déficits em comportamento regrado. Por isso é tão comum, entre jovens, um “duplo diagnóstico” de TDAH mais TDO.

Realmente queremos diagnosticar e medicar todos os que têm “déficit em comportamento regrado”?

Albert Eisnten, quando jovem, teria provavelmente recebido um diagnóstico de TDAH, e talvez também de TDO. Ele não prestava atenção em seus professores, fracassou duas vezes nos exames de admissão à escola secundária e tinha dificuldades em conservar empregos. No entanto, Ronald Clark, um biógrafo de Einstein (Einstein: The Life and Times), sustenta que seus problemas não provinham de déficits de atenção, mas de seu ódio à disciplina autoritária, prussiana de suas escolas. Einstein dizia: “Os professores da escola primária pareciam-me sargentos e os do ginásio eram como tenentes”. Aos 13, ele leu o difícil Crítica da Razão Pura, de Kant – por estar interessado no livro. Clark também conta que Einstein recusava-se a se preparar para os exames de admissão ao ensino médio: era uma forma de rebelião contra o “intolerável” caminho exigido por seu pai, rumo a uma “profissão prática”. Depois que ele finalmente ingressou, um professor disse-lhe: “Você tem um defeito: ninguém pode te dizer nada”. As características particulares de Einstein, que tanto espantavam as autoridades, eram exatamente as que lhe permitiram destacar-se.

Para os padrões atuais, Saul Alinsky, o legendário organizador social autor de Regras para Radicais, teria sido certamente diagnosticado com um ou mais transtornos disruptivos. Rememorando sua infância, ele afirmou: “Eu nunca pensava em caminhar na grama até que via uma placa dizendo: ‘Não pise na grama’. Então, eu sapateava em cima dela”. Alinsky também recorda de uma ocasião, quando tinha 10 ou 11 anos, e seu rabino ensinava-lhe hebraico.

Certo dia, li três páginas sem erros de pronúncia, e de repente uma moeda caiu sobre a Bíblia… No dia seguinte, o rabino voltou e me pediu para começar a ler. Simplesmente sentei em silêncio, recusando-me. Perguntou-me por que estava tão quieto e respondi: ‘Desta vez, é uma nota ou nada’. Ele começou a me bater.

Muitas pessoas com ansiedade severa e ou depressão também são anti-autoritárias. Uma grande dor em suas vidas, que alimenta sua ansiedade e ou depressão, é o temor de que o desprezo a autoridades ilegítimas as torne social e financeiramente marginalizadas. Porém, também temem que a obediência a tais autoridades cause-lhes morte existencial.

Também empreguei muito tempo com pessoas que, numa época de sua vida, tiveram pensamentos e comportamentos bizarros a ponto de serem assustadores, para suas famílias e para si mesmas. Tinham diagnósticos de esquizofrenia e outras psicoses, mas se recuperaram e desfrutaram, por muitos anos, vidas produtivas. Neste grupo, nunca encontrei ninguém que não considerasse um grande anti-autoritário. Assim que se recuperaram, aprenderam a direcionar seu anti-autoritarismo para fins políticos mais construtivos – inclusive a reforma do sistema de saúde mental.

Muitos anti-autoritários que em fases anteriores de suas vidas tiveram diagnósticos de doenças mentais relatam que, ao serem rotulados como pacientes psiquiátricos, entraram num dilema. Autoritários exigem, por definição, obediência sem questionamentos. Por isso, qualquer resistência a seus diagnósticos e tratamentos causa enorme ansiedade em profissionais de saúde mental com este tipo de postura; e médicos que se sentiam descontrolados rotulavam estes pacientes como “refratários a tratamento”, expandindo a severidade do diagnóstico e entupindo-os de medicação. Às vezes, isso enraivecia de tal modo os anti-autoritários que sua reação os fazia aparecer ainda mais assustadores para suas famílias.

Há anti-autoritários que usam drogas psiquiátricas para ajudá-los a funcionar. Ainda assim, frequentemente rejeitam as explicações das autoridades psiquiátricas sobre quais são suas dificuldades. Podem, por exemplo, tomar Adderall (uma anfetamina prescrita para TDAH). Mas sabem que seu problema de atenção não resulta de um desequilíbrio bioquímico do cérebro, mas de um trabalho enfadonho. Da mesma forma, muitos anti-autoritários submetidos a ambientes muito estressantes podem ocasionalmente tomar benzodiazepínicos como Xanax. Pensam que seria mais seguro usar maconha, mas os testes de drogas existentes nas empresas a detectariam…

Minha experiência sugere que muitos anti-autoritários rotulados com diagnósticos psiquiátricos não rejeitam todas as autoridades, mas apenas aquelas que avaliam como ilegítimas. Ocorre que nessa categoria poderia ser enquadrada boa parte das autoridades, em nossa sociedade…

Agindo para manter o Status Quo

Os norte-americanos têm sido convencidos a considerar desatenção, raiva, ansiedade e desespero imobilizante como condições médicas – e a procurar tratamento farmacológico, em vez de soluções políticas. Haveria meio melhor de manter o status quo do que ver em tais reações problemas de quem está mentalmente enfermo – e não atitudes normais, diante de uma sociedade cada vez mais autoritária?

A realidade é que a depressão está altamente associada com dores sociais e financeiras. É muito mais provável tornar-se deprimido quando você está desempregado, subempregado ou em dívida (ler “400% Rise in Anti-Depressant Pill Use”). E é inegável: crianças rotuladas como portadoras de TDAH prestam atenção quando estão sendo recompensadas, ou quando uma atividade é nova, desperta seu interesse ou foi escolhida por elas (documentado em meu livro Commonsense Rebellion).

Numa idade das trevas anterior, as monarquias autoritárias associavam-se às instituições religiosas. Quando a humanidade superou esta fase e abriu-se o Iluminismo, houve uma explosão de energia. Muito da revitalização tinha a ver com arriscar-se diante de instituições autoritárias e corruptas; e com reconquistar confiança na própria mente. Vivemos uma nova era de trevas: mudaram apenas as instituições. Os EUA necessitam desesperadamente de anti-autoritários para questionar, desafiar e resistir às novas autoridades ilegítimas; e para reconquistar confiança em seu próprio senso comum.

Em todas as gerações, há autoritários e anti-autoritários. Embora seja incomum, na história dos EUA, que os anti-autoritários adotem ações efetivas, capazes de inspirar os demais à revolta que resulta em mudanças, de vez em quando um Tom Paine, Crazy Horse ou Malcolm X aparece. Então, os autoritários marginalizam financeiramente quem resiste ao sistema, criminalizam o anti-autoritarismo, psico-diagnosticam os anti-autoritários e produzem drogas de mercado para sua “cura”.

23 de fevereiro de 2012

Um ângulo exclusivo de Hebron

Jonathan Freedland

The New York Review of Books

Dominique Nabokov

Com a exceção de Jerusalém, Hebron possui a maior população dentre todas as cidades palestinas da Cisjordânia. Ela é, assim como Nablus, um centro comercial, e o que é hoje sua tumultuada praça de mercado enche-se de vida e comércio, ruído e vapores. Há lojas vendendo mantimentos e eletrônicos, assim como barracas na calçada, simples mesinhas com frutas e vegetais, brinquedos, bugigangas, e roupas infantis. Essas lojas estão concentradas principalmente perto do terminal de ônibus, com seus ônibus públicos amarelos, e fileiras de taxis e micro-ônibus privados, muitos deles em direção ao norte, a Belém. Policiais palestinos, vestindo uniformes palestinos, orientam o trânsito. Se você não andasse mais, diria que Hebron, que abriga um número estimado de 175 mil palestinos, é uma próspera cidade árabe.

Isso é, até você se aproximar do ponto de travessia que marca a fronteira de fato entre 80% da cidade, controlada por palestinos, conhecida como H1, e o restante da cidade, controlada por israelenses, conhecida como H2. Nem todos podem atravessar. Desde o começo da segunda Intifada, cidadãos israelenses foram proibidos por seu próprio governo de entrar na H1, da mesma forma como foram barrados de entrar na mais ampla Área A da Cisjordânia, controlada pela Palestina. A decisão baseia-se em motivos de segurança, após a conclusão de Israel de que israelenses visíveis, especialmente os colonos assentados, seriam provavelmente atacados, e após as Forças de Defesa de Israel insistirem que podem garantir a segurança dos cidadãos israelenses somente naquelas áreas que controla.

No entanto, para aqueles que têm a permissão de cruzar a linha que separa H1 de H2, é como atravessar a outro domínio completamente diferente. Para H2, que consiste em um pedaço substancial da parte oriental da cidade, combinado com o que parece no mapa como um dedo largo e grosso apontando para o oeste, inclui o centro histórico de Hebron. Essafaixa, o dedo no mapa, talvez não abranja mais do que 3%do total da área geográfica de Hebron, mas é aíque você encontra os lugares que fizeram dele um local reverenciado por muçulmanos e judeus, entendidoe de fato osjudeus consideram-no um dos quatro lugaressagrados do judaísmo,ao lado de Jerusalém, Tiberíades e Safed. É aí também que se encontra uma estranha cidade-fantasma cujos mercados, antes tão movimentados, permanecem fechados e desertos, sua população palestina sujeita a uma política de separação e restrição, o que torna a cidade o lugar em que a ocupação de 44 anos de Israel na Cisjordânia mostra sua face mais dura.

Pode-se ouvir a batalha por supremacia entre os aproximadamente 30 mil árabes e 800 judeus assentados que vivem em H2, controlada por israelenses, antes mesmo de vê-la. Na manhã clara que visitei a área, havia música klezmer de estilo hassídico tocando alto no Centro Gutnick, um espaço de eventos que recebe visitantes judeus de todas as partes do mundo e especialmente dos Estados Unidos, oferecendo bebidas e passeios. Osítio eletrônicodo centro assegura a qualquer cliente nervoso de que “todos os ônibus são blindados”. Minutos depois, às melodias da velha Europa Ashkenazi junta-se o muezzin tradicional, cantando o chamado muçulmano para a oração. As duas músicas continuavam, no volume máximo, enchendo a praça antiga com o ruído discordante, conflitante. Essa é afamosa guerra de alto-falantes de Hebron.

A visita geralmente começa no Túmulo dos Patriarcas, o centro magnético do poder religioso de Hebron. O judaísmo considera o local – registrado na Bíblia como “Caverna de Machpelah”, adquirida por Abraão – como o segundo local mais sagrado,atrás apenas do Monte do Templo, a parte da antiga Jerusalém na qual o Primeiro e o Segundo Templos foram construídos. Dentro, há caixões que dizem conter os restos mortais de Jacó, Isaac e do próprio Abraão, reverenciado como patriarca pelas três antigas religiões monoteístas.

Como os judeus lembram os visitantes, inclusive o ônibus de cristãos africanos que chegava, durante 700 anos os judeus foram barrados, pelos governantes mamelucos, otomanos, britânicos e jordanianos da cidade,de entrar nesse lugar sagrado; era-lhes permitido subir somente os primeiros sete degraus emsua direção. Em 1967, quando Hebron e o restante da Cisjordânia foram conquistados por Israel na Guerra dos Seis Dias, os judeus puderam finalmente pisar o oitavo degrau, e os outros cinquenta e tantos degraus restantes, e entrar.

Hoje, há entradas separadas aos túmulos para judeus e muçulmanos. Mas o que é mais surpreendente é a estrada que leva ao lugar: ela é dividida de acordo com a nacionalidade, com três quartos da via disponível para os israelenses, e o restante, mais estreito, reservado para os palestinos. Blocos de concreto separam as duas partes. Os israelenses têm a maior parte porque são autorizados a dirigir por esse caminho, um direito negado aos palestinos.

Nos mapas militares israelenses, o caminho aparece como uma estrada verde, o que significa que carros palestinos não são permitidos. A cor azul é usada para as ruas em que carros palestinos não podem circular, e as lojas palestinas não são autorizadas a abrir. Depois, há estradas que são ainda mais restritas: nessas, nenhum palestino pode sequer pôr os pés. As Forças de Defesa Israelenses referem-se a essas estradas como tzirsterili, literalmente, uma estrada estéril.

Grande parte dos palestinos de H2 que tem o azar de ter suas casas em um tzirsterili tiveram suas portas dianteiras fechadas. Para sair, eles precisam usar uma porta dos fundos, o que muitas vezes significa subir no telhado e descer através de uma série de escadas: ise é inconveniente para os jovens em forma, isso é difícil, senão impossível, para os velhos e os doentes. Mais tarde, avisto um homem idoso, com um saco de cimento em seu ombro, andando com um menino que considero serseu neto. Quando ele chega à rua a-Shuhada, que já foi a via principal que cruza o centro de Hebron, mas que é uma “estrada estéril” desde 2000, ele pára e começa a descer uma íngreme série de toscos degraus, necessários para andar ao redor da rua, em vez de na própria rua. Tais degraus os levam por uma série de caminhos não asfaltados e empoeirados, rota alternativa indireta à rua a-Shuhada. Isso acontece para que nem seus pés ou os do menino toquem a estrada proibida – garantindo que continue sterili.

Na rua, há o que costumavam ser lojas, agora fechadas permanentemente sob persianas verdes de metal. Elas estão todas cobertas de pichações. Em um curto passeio, eu vejo: “Árabes fora!” e “Morte aos árabes”, assim como o menos familiar “Vocês têm árabes, vocês têm ratos”, que foi pintado, mas ainda é legível. O mesmo acontece com “Árabes para o crematório”, perto do cemitério muçulmano. (Uma mensagem notória, pintada em inglês, mas coberta há alguns anos, dizia: “Árabes para as câmaras de gás.”) O punho cerrado, símbolo do partido Kach do falecido rabino MeirKahane, o fundador da Liga de Defesa Judaica, uma vez condenado ao ostracismo como um fascista, aparece em vários lugares. Mas a imagem mais recorrente é também a mais chocante. É a Estrela de David. Totalmente familiar aos olhos judeus, é um choque ver esse símbolo – associado com o próprio Judaísmo e a longa história do sofrimento judaico – usado como uma declaração grosseira de dominação, usado, de fato, como um insulto.

Andamos até o centro da estrada. Não há necessidade de usar a calçada porque o lugar está vazio, como um set de filmagem abandonado. Meu guia, YehudaShaul, um israelense judeu ortodoxo de barba preta e quipá – que depois murmuraria o tradicional bracha, ou a bênção, antes de dar uma mordida num sanduíche – está intimamente familiarizado com Hebron, tendo servido dois extensos turnos no serviço militar da cidade, durante a Segunda Intifada: primeiro como soldado regular em 2001-2002, e depois novamente como comandante e sargento em 2003. Na verdade, ele estava em patrulha quando engenheiros da FDI (Forças de Defesa de Israel) selaram as portas, fechando-as, em 2001.

Ele também se lembra das instruções que recebiaparanão tocar nos israelenses assentados, que estavam sujeitos à lei de Israel, e, portanto, sob jurisdição da polícia israelense, e não do Exército, embora pudesse ver que eles estavam envolvidos em uma campanha de assédio à população local, atirando pedras, cortando canos de água e cabos elétricos. Um soldado deu um depoimento à organização Quebrando o Silêncio – fundada por reservistas da FDI determinados a alertar seus companheiros israelenses e judeus por todo o mundo sobre a realidade diária da ocupação militar – informando que uma placa pendurada no quadro de informações da sua unidade explicava sua missão: “Interromper a rotina dos habitantes do bairro”, seja através de buscas domiciliares, revistas físicas ou blitz repentinas, em locais aparentemente arbitrários.

Shaul não está de uniforme hoje, mas está aqui como parte do seu trabalho no Quebrando o Silêncio. Ele está armado com fotografias “de antes” do centro de Hebron, datadas de 1999, que mostram um mercado de frutas animado com pessoas, com produtos, e com vida. O lugar “de após” encontra-se bem à minha frente: o mesmo exato local, agora deserto e silencioso. O que antes ficava aqui foi transferido para H1, ou pelo menos parte disso. O mercado repleto que vi do outro lado é, na verdade, parte de Bab a-Zawiya, que, uma vez apenas um bairro de Hebron, é hoje seu centro substituto. Alguns desses comerciantes de Bab a-Zawiya costumava morar e trabalhar no que agora é H2. Eles já tiveram lojas. Agora, vendem seus produtos em cima de mesas.

E isso não é mera impressão. Um estudo feito pelo grupo israelense de direitos humanos B’Tselem mostra que 1.014 moradias – apartamentos ou casas – foram abandonadas pelos seus ocupantes, cerca de 42% do total nesta parte central de Hebron. Uma estimativa sugere que isso equivale a 8ou 9mil pessoas que descobriram que a vida sob tais restrições não era mais viável ou suportável. Finalmente, vejo uma das raras pessoas que persistiram, permanecendo dentro de H2. Uma mulher árabe estende roupas na sua varanda na rua a-Shuhada. Por todos os lados,ela está cercada deuma malha de fios de metal, inclusive sobre a sua cabeça. Isso não acontece por causa de alguma lei ou regulamento; ela se colocou no que parece ser um pequeno galinheiro para sua própria proteção, para evitar as pedras que seriam atiradas pelos assentados.

O teto da “jaula” está, de fato, sob o peso de pedras. B’Tselem, que distribuiu câmeras para alguns palestinos de Hebron, tem postado diversos vídeos mostrando assentados, inclusive crianças pequenas, jogando pedras nos árabes que estão entre eles – sem restrições dos soldados israelenses que estão por perto. Um vídeo particularmente perturbador mostra uma assentada silvando repetidamente a palavra sharmuta, ou prostituta, à sua vizinha árabe.

O mercado de frango, agora atrás de altas lajes de concreto, fica próximo. Depois, estáa velha estação de ônibus, que hoje funciona como uma base da FDI, e também serve decasa para seis famílias de assentados que se mudaram. E, depois, virando a esquina, atrás de um portão enferrujado, encontra-seum ferro velho, cheio de lixo, ervas daninhas e bobinas de arame farpado. Shaul tem uma foto que revela que esse lixão costumava ser o mercado de jóias de Hebron. (Alguns joalheiros agora continuam com seu comércio na H1 controlada por palestinos, mas o mercado em si não foi reconstituído.) Do outro lado da rua, há um yeshiva.

É isso – judeus e árabes vivendo próximos uns dos outros – que faz com que o centro de Hebron seja excepcional, pelo menos fora de Jerusalém. Assentados judeus são encontrados por toda a Cisjordânia, mas geralmente estão em topos de morros adjacentes, ou com vista para cidades e aldeias palestinas. Mas, nessa região de Hebron, eles se encontram no interior, em quatro grupos referidos como assentamentos, mas muitas vezes são apenas algumas casas e prédios cercados por palestinos. Três deles estão na rua a-Shuhada ou próximos a ela; o quarto fica a uma curta distância à pé.

E assim você só tem que andar alguns passos desde o mercado de frutas esvaziado para chegar aAvrahamAvinu – literalmente, Abraão, nosso pai – o maior dos enclaves judeus em Hebron, onde vivem cerca de quarenta famílias. Dentro, é um outro país. As paredes são feitas de uma pedra chata escovada, que contrasta com o pó e a idade do lado de fora. Há um parquinho, jovens mães ortodoxas, com suas cabeças cobertas, brincando com as crianças – estas últimas, aparentemente, ignoram a presença de cerca de 600 soldados da FDI na região, principalmente para a sua proteção. Há uma prateleira para bicicletas e um aroma distinto de canja. Poderia ser qualquer um dos bairros mais abastados de Jerusalém Ocidental. Há placaspor todos os lados, uma visão tão incomum em Jerusalém – exceto porestas serem,quase todas, em memória àspessoas mortas por “terroristas árabes”. Os benfeitores a quem agradecem são famílias judaicas de Nova York, Londres, e outros lugares.

Essa divisão de Hebron em H1 e H2 foi o resultado do Protocolo de Hebron, de janeiro de 1997, assinado por Yasser Arafat e Benjamin Netanyahu, então no seu primeiro mandato como primeiro-ministro. Disposições especiais foram consideradas necessárias para o bem das poucas centenas de colonos judeus assentados em Hebron, a quem Israel acreditava ter que proteger com suas próprias forças. Nos anos que se seguiram, a proteção passou a significar uma série de medidas mais rigorosas para manter judeus e árabes separados, restringindo a mobilidade dos palestinos em H2. Toda vez que há um ataque terrorista sobre os judeus assentados – sendo o mais notório deles o assassinato de um bebê de dez meses, ShalhevetPass, por uma bala de um franco-atirador em 2001 – os colonos demandam, e geralmente são atendidos, uma maior restrição dos movimentos palestinos, ou a permissão do Estado israelense para expandir, ou até mesmo ambos. Pouco a pouco, o centro de Hebron foi-se esvaziando e os palestinos foram encurralados cada vez mais claustrofobicamente, para que os colonos pudessemmover-se livremente e sem medo, tendo sua segurança garantida pela FDI.

Tentar definir o início desta situação seria provavelmente em vão. Para a comunidade judaica de Hebron, os últimos cem anos são um mero interlúdio, sendo o evento decisivo a aquisição de Machpela por Abraão, há milhares de anos. Ainda assim, muitos consideram 1929 e o massacre de 67 judeus por árabes em Hebron como a data crucial. Eles acreditam que esse evento traumático revela uma verdade essencial sobre o conflito com os palestinos: que a oposição árabe aos judeus é anterior e, portanto, tem pouco a ver com o estabelecimento do Estado de Israel em 1948 ou a ocupação da Cisjordânia em 1967. Para os assentados, o massacre de 1929 mostra que os árabes têm uma intolerância assassina dos judeus em seu meio. Se uma forte presença militar e medidas de segurança onerosas são necessárias, este é o motivo.

Até 1929, os judeus representavam números significativos na cidade. No momento imediatamente posterior ao massacre, forças britânicas evacuaram os judeus sobreviventes para Jerusalém, mas, um ano depois, líderes árabes da cidade os convidaram de volta. Cerca de trinta famílias aceitaram o convite, e então deixaram a cidade outra vez durante os distúrbios de 1936. Acredita-se que um leiteiro judeu tenha ficado até 1946, mas, depois disso, durante duas décadas, não havia ninguém. Ainda assim, quando Hebron foi capturada por forças israelenses em 1967, dizem os colonos que era natural que os judeus retornassem. Sua presença ali agora é, eles insistem, não um empreendimento colonial estrangeiro, mas um regresso à casa, adiado por muito tempo.

A forma do retorno é certamente suscetível à criação de mitos. No primeiro Pessach, a Páscoa judaica, após a “liberação” de Hebron, um grupo de 88 judeus ortodoxos, liderados pelo carismático rabino MosheLevinger, foram ao Hotel Park, em Hebron, de propriedade de árabes, para realizar o sêder, jantar cerimonial judaico. Eles ficaram e recusaram-se a sair. Finalmente, o governo israelense, liderado pelos trabalhistas, sugeriu um acordo: os ocupantes seriam autorizados a mudarem-se para uma base da FDI próxima, onde casas seriam construídas para eles. Assim nasceu KiryatArba, hoje uma cidade com mais de 7mil pessoas próxima a Hebron, o primeiro passo em todo o projeto de assentamento na Cisjordânia. Levinger ainda viria a ser o fundador do GushEmunim (Bloco dos Fiéis), e mais tarde recebeupena de prisão por atirar e matar um lojista palestino. Mas Hebron foi onde ele assumiu sua posição pela primeira vez.

Seus herdeiros hoje não sentem qualquer necessidade de justificar os efeitos da sua presença nos palestinos que vivem em H2. Ao contrário, a comunidade judaica em Hebron vê-se como vítima. “As pessoas dizem que aqui há um apartheid”, diz David Wilder, o porta-voz nascido em Nova Jérsei. “Eu concordo – mas não é contra eles, é contra nós.” Ele aponta o fato de que Casbah, dentro de H2, é uma zona militar fechada e, portanto, fora dos limites, salvo por algumas horas no Sabbath, para os judeus. Ele argumenta que, efetivamente, os judeus têm acesso a apenas 3% da cidade, onde a presença de segurança de Israel éintensa o bastante, enquanto os árabes têm acesso a todo o resto. Claro, ele admite, há uma rua, talvez um quilômetro, um quilômetro e meio, na qual os árabes não podem caminhar. Nãoestariaele se referindo à rua a-Shuhada? “Não sei como eles a chamam. Nós a chamamos de rua David Ha’Melech [Rei David].” A estrada costumava ser aberta até a Segunda Intifada, diz Wilder – de fato, salvo alguns meses, a rota foi barrada para carros palestinos a partir de 1994 – “mas eles começaram a atirar” das colinas próximas.

Mesmo assim, ele insiste, “nunca dissemos que, para que vivêssemos aqui, ninguém mais podia”, enquanto ele acredita queos palestinos não permitirão a presença de judeus em Hebron em um futuro Estado Palestino. São os judeus que são os tolerantes. Quanto às pichações, ele diz, “Nós não gostamos particularmente disso”, mas ele recusa a condená-las, dizendo que são um “escape” para os jovens colonos “frustrados pelos ataques terroristas e as atividades do governo israelense contra eles.”

A mensagem de Wilder – de que se os palestinos parassem de ameaçar os assentados com violência, as restrições seriam abrandadas – é contrária à experiência. Quando, por exemplo, Baruch Goldstein, nascido nos Estados Unidos, matou 29 muçulmanos palestinos no Túmulo dos Patriarcas em 1994, Israel impôs novas restrições – não aos assentados, mas aos árabes em Hebron. Os mercados de carne e vegetais foram fechados, e a proibição aos carros palestinos na rua a-Shuhada foi introduzida. (É chocante que, longe de ser insultado como terrorista e assassino em Hebron, Goldstein está enterrado no Memorial MeirKahane, que se encontra sob os auspícios da autoridade municipal de KiryatArba.)

Ainda assim, e apesar da proteção armada 24 horas-Shaul testemunha que, como soldado, suas ordens eram muito claras: “Estamos aqui para protegeros colonos” –, os judeus de Hebron parecem considerar as Forças de Defesa de Israel e o Estado de Israel como seus adversários. Um pôster no bairro de Bab AL-Khan em H2, vazio com a exceção de alguns poucos antigos residentes árabes, e com seus portões para a Cidade Antiga agora fechados e parafusados, declara em hebreu: “Aqui começa o gueto. Proibida a entrada para judeus.” Em outro lugar, um slogan pintado de spray denuncia o que considera o Estado ateu de Israel: “Nós não temos fé no regime dos infiéis, nós seguimos o caminho da Torá.” Outro slogan procura um regime governado pela lei religiosa: “Queremos um Estado halacha da Judéia agora”. Ainda um outro incita, “Morte aos traidores do Rei”, o Rei sendo Deus.

Nessa disputa, com os colonos hostis a um governo israelense que lhes nega a administração de Hebron em sua totalidade, os palestinos ficam em meio ao fogo cruzado. Eles rejeitam a sugestão dos assentados de que os palestinos são barrados em apenas uma pequena fração da cidade, uma restrição relativamente modesta em suas vidas. Issa Amro, 31 anos, ativo na organização de protestos não violentos em Hebron, diz, “H2 é o centro desta cidade... Todos os mercados estavam aqui: de vegetais, frutas, camelos, carne, ferreiro, todos os mercados estavam em H2. É o coração da cidade. E se seu coração está doente, seu corpo inteiro será afetado.”

Ele explica que as restrições, mesmo aplicadas a áreas superficialmente estreitas, têm um efeito de longo alcance. Famílias são divididas entre H1 e H2, fazendo com que seja difícil que parentes se encontrem, especialmente aqueles que vivem em ruas de H2 barradas para carros ou pedestres palestinos. E existeum impacto maior: se você quiser dirigir de norte a sul por Hebron, deve tomar um caminho longo e complicado por estradas congestionadas. Shaul imagina uma ação equivalente em Jerusalém, fechando a rua Jaffa e a Cidade Antiga. Pode ser que represente apenas 1% do território municipal, ele diz, mas incluiria a rua principal e os monumentos históricos. “Qual o impacto que isso tem em uma cidade?”

Alguns admitem que o que se vê no centro de Hebron é feio, mas se consolam com a ideia de que seja um caso extremo, típico apenas de si mesmo. Para outros, no entanto, Hebron é uma versão intensa e destilada de toda a ocupação israelense. YehudaShaul coloca-se, relutantemente, no último grupo. “Isto é um microcosmo”, ele me diz. “Ande aqui e você entenderá como a Cisjordânia funciona: a separação, a apropriação das terras, as estradas estéreis, a violência”.Nem ele se reanima em dizer que Hebron é a obra de uns poucos colonos inarredáveis. A presença da FDI desmancha essa ilusão, assim como a placa do Ministério de Habitação no prédio de colonos de BeitHaShisha, um selo de aprovação do governo, que data de 2000, quando o suposto líder de centro-esquerda Ehud Barak era primeiro-ministro. Vinte e um ônibus partem todos os dias, mais de um por hora, dos assentamentos judeus dentro de H2 para Jerusalém, oferecendo passagens baratas e subsidiadas pelo governo. A queixa de Shaul não é apenas com os colonos, mas com o Estado.

Para pessoas como Shaul, patriotas israelenses orgulhosos e judeus conscienciosos, Hebron representa um desafio mais profundo do que pode ser capturado pelo brando diplomatês dos “obstáculos para a paz” e afins. Para eles, é mais do que uma falha geológica em uma amarga disputa territorial. “O que está sendo feito aqui é em nome de Deus e em nome do meu Estado”, diz ele, com uma voz muito mais velha do que seus 28 anos.

Shaulé bem conhecido em Hebron. Nos degraus do Túmulo dos Patriarcas, um colono o vê e grita, várias vezes, que ele é um traidor do seu povo. Mas há um rosto mais conhecido que o seu, que eu vejo logo nos dois minutos seguintes à chegada em Hebron. Em uma cadeira de rodas, em consequência de um derrame sofrido em 2007, encontra-se um senhor de cabelos brancos e chapéu panamá, empurrado por um jovem, devoto cuidador. Trata-se deMosheLevinger, o homem que deu início atudo isso, fora de casa, para a sua dose diária de ar fresco. Conversamos, e eu lhe pergunto se, depois de tantos anos enfiado no Hotel Park, ele havia imaginado que aquilo teria esse resultado, o centro de Hebron esvaziado pelo bem de seus colegas assentados. “Não”, diz o rabino, ele não havia previsto nada disso. E aponta um dedo para o céu: “É uma bênção de Deus”.

Vamos salvar o povo grego dos seus salvadores!

Alain Badiou

Liberation

Tradução / Num momento em que um em cada dois jovens gregos está desempregado, onde 25 000 sem-abrigo vagueiam pelas ruas de Atenas, onde 30% da população desceu abaixo da linha de pobreza, onde milhares de famílias são forçadas a dar os seus filhos para que estes não morram de fome e frio, onde novos pobres e refugiados disputam o lixo nos aterros sanitários, os “salvadores” da Grécia, sob o pretexto de que os “Gregos” não fazem um “esforço suficiente” impõem um novo plano de ajuda que duplica a dose letal administrada. Um plano que elimina o direito ao trabalho, e que reduz os pobres à miséria extrema, tudo isto fazendo desaparecer do cenário as classes médias.

O objetivo não deve ser o “resgate” da Grécia: sobre este ponto, todos os economistas dignos desse nome estão de acordo. Trata-se de ganhar tempo para salvar os credores conduzindo o país a uma falência em diferido. Trata-se sobretudo de fazer da Grécia um laboratório de mudança social que, num segundo momento, se generalizará a toda a Europa. O modelo experimentado nos Gregos é o de uma sociedade sem serviços públicos, onde as escolas, hospitais e centros de saúde caem em ruína, onde a saúde passa a ser um privilégio dos ricos, onde as populações vulneráveis são condenadas a uma eliminação programada, enquanto que aqueles que ainda trabalham são condenados a formas extremas de empobrecimento e precariedade.

Mas para que esta ofensiva do neo-liberalismo possa alcançar os seus objetivos, será necessário instaurar um regime que faça a economia dos direitos democráticos mais elementares. Sob a exigência dos salvadores, vemos instalar-se na Europa um governo de tecnocratas que desrespeita a soberania popular. Trata-se de um momento de viragem nos regimes parlamentares, onde vemos os “representantes do povo” dar carta branca aos especialistas e aos banqueiros, abdicando do seu suposto poder de decisão. De uma certa forma, trata-se de um golpe de Estado, que faz também apelo a um arsenal repressivo amplificado face aos protestos populares. Assim, quando os membros ratificaram a convenção ditada pela troika (União Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional), diametralmente oposta ao mandato que estes tinham recebido, um poder desprovido de legitimidade democrática terá comprometido o futuro do país por trinta ou quarenta anos.

Paralelamente, a União Europeia prepara-se para constituir uma conta bloqueada para onde será transferida diretamente a ajuda financeira à Grécia, para que esta seja usada unicamente ao serviço da dívida. As receitas do país devem ser consagradas como “prioridade absoluta” ao reembolso dos credores e, se necessário, pagas diretamente nessa conta criada pela União Europeia. A convenção estipula que todas as novas obrigações emitidas dentro deste quadro serão regidas pela lei inglesa, que envolve garantias materiais, enquanto que os diferendos serão julgados pelo tribunal do Luxemburgo, tendo a Grécia renunciado à partida qualquer direito de recurso contra uma tomada determinada pelos seus credores. Para completar o cenário, as privatizações serão confiadas a um fundo gerado pela troika, onde serão depositados os títulos de propriedade dos bens públicos. Em suma, é a pilhagem generalizada, característica própria do capitalismo financeiro que oferece aqui uma bela consagração institucional. Na medida em que vendedores e compradores se sentarão no mesmo lado da mesa, não duvidamos que esta tarefa de privatização seja um verdadeiro festim para os compradores.

Todas as medidas tomadas até agora não fizeram mais do que afundar a dívida soberana grega e, com o auxílio dos salvadores que emprestam a taxas exorbitantes, esta, literalmente, explodiu aproximando-se dos 170% de um PIB em queda livre, enquanto que em 2009 representava somente 120%. É provável que este grupo de resgate – sempre apresentado como “final” – não tenha outro propósito que o de enfraquecer ainda mais a posição da Grécia, de forma a que, privada de toda a possibilidade de propor ela mesma termos de uma reestruturação, seja reduzida a ceder tudo aos seus credores sob a chantagem de “a catástrofe ou a austeridade”.

O agravamento artificial e coercivo do problema da dívida foi utilizado como uma arma para tomar de assalto uma sociedade inteira. É com sabedoria que usamos aqui termos relevantes do domínio militar: trata-se de facto de uma guerra conduzida pelos meios da finança, da política e do direito, uma guerra de classe contra a sociedade inteira. E o espólio que a classe financeira conta arrebatar ao “inimigo”, são os privilégios sociais e os direitos democráticos, mas em última análise, é a possibilidade mesma de uma vida humana. A vida daqueles que não produzem nem consomem o suficiente, ao olhar das estratégias de maximização de lucro, não devem ser conservadas. Assim, a fragilidade de um país apanhado entre a especulação sem limites e os planos de resgate devastadores, torna-se na porta de saída por onde irrompe um novo modelo de sociedade adequado às exigências do fundamentalismo neoliberal. Modelo destinado a toda a Europa, e talvez até mais. Esta é a verdadeira questão e é por isso que defender o povo grego não se reduz a um gesto de solidariedade ou de humanidade abstrata: o futuro da democracia e o destino dos povos europeus estão em questão. Por todo o lado a “necessidade imperiosa” de uma austeridade “dolorosa, mas salutar” vai nos ser apresentada como o meio de escapar ao destino grego, enquanto esta por aí avança sempre em frente.

Perante este ataque persistente contra a sociedade, perante a destruição das últimas ilhotas da democracia, nós apelamos aos nossos concidadãos, nossos amigos franceses e europeus a exprimirem-se alto e forte. Não podemos deixar o monopólio da palavra aos especialistas e aos políticos. O facto de a pedido dos dirigentes alemães e franceses em particular a Grécia seja de agora em diante interdita de eleições pode deixar-nos indiferentes? A estigmatização e o denegrir sistemático de um povo europeu não merece uma resposta? Será possível não elevar a voz contra o assassinato institucional do povo grego? E poderemos nós permanecer silenciosos perante a instauração forçada de um sistema que proíbe a própria ideia de solidariedade social?

Nós estamos no ponto de não retorno. É urgente lutar contra a batalha dos números e a guerra das palavras para conter a retórica ultra-liberal do medo e da desinformação. É urgente desconstruir as lições de moral que ocultam o processo real posto em prática na sociedade. Torna-se mais do que urgente desmistificar a insistência racista sobre a “especificidade grega”, que pretende fazer do suposto caráter nacional de um povo (preguiça e astúcia à vontade) a causa primeira de uma crise, na realidade, mundial. O que conta hoje não são as particularidades reais ou imaginárias, mas as comuns: o destino de um povo que afetará todos os outros.

Muitas soluções técnicas têm sido propostas para sair da alternativa “ou a destruição da sociedade ou a falência” (que quer dizer, vê-mo-lo hoje: “e a destruição e a falência”). Tudo deve ser tido em conta como elemento de reflexão para a construção de uma outra Europa. Mas primeiro, é necessário denunciar o crime, trazer à luz do dia a situação onde se encontra o povo grego devido aos “planos de ajuda” concebidos por e para os especuladores e os credores. Num momento em que um movimento de apoio se tece em todo o mundo, onde as redes sociais emitem iniciativas de solidariedade, serão os intelectuais franceses os últimos a elevar a sua voz pela Grécia? Sem mais demora, vamos multiplicar os artigos, as intervenções nos media, os debates, as petições, as manifestações. Porque toda a iniciativa é bem-vinda, toda a iniciativa é urgente.

De nossa parte, eis o que propomos: formar rapidamente um comitê europeu de intelectuais e artistas pela solidariedade com o povo grego que resiste. Se não nós, quem o fará? Se não for agora, então quando?

Vicky Skoumbi, editor da revista “Alètheia”, Atenas, Michel Surya, diretor da revista “Lignes”, Paris, Dimitris Vergetis, diretor da revista “Alètheia”, Atenas.

E Giorgio Agamben, Diamanti Anagnostopoulou, Enzo Apicella, Albena Azmanova, Daniel Alvara, Alain Badiou, Jean-Christophe Bailly, Etienne Balibar, Fernanda Bernardo, David Berry, Sylvie Blocher, Laura Boella, Carlo Bordini, Hervé le Bras, Roberto Bugliani, Daniela Calabro, Claude Cambon, Maria Elena Carosella, Barbara Cassin, Bruno Clément, Danielle Cohen-Levinas, Christiane Cohendy, Yannick Courtel, Martin Crowely, Rolf Czeskleba-Dupont, Michel Deguy, Michel Didelot, Didier Deleule, Claire Denis, Georges Didi-Huberman, Costas Douzinas, Riccardo Drachi-Lorenz, Marie Ducaté, Leili Echghi, Les Economiste Atterrés, Roberto Esposito, Camille Fallen, Celine Flecheux, Chiara Frugoni, Ivetta Fuhrmann, Enzo Gallori, Jean-Marie Gleize, Francesca Isidori, Clio Karabelias, Jason Karaïndros, Stathis Kouvelakis, Pierre-Philippe Jandin, Fréderic Lordon, Jeremy Leaman, Jérôme Lèbre, Marie-Magdeleine Lessana, Jacques Lezra, Gianna Licchetta, Marco Mamone Capria Jean-Clet Martin, Pr. Jobst Meyer, Pierre Murat, Jean-Luc Nancy, Maurizio Neri, Gloria Origgi, Marco Palladini, Timothy Perkins, Matthaios Petrosino, Nicola Predieri, Stefano Pippa, Philippe Rahme, Jacques Rancière, Haris Raptis, Judith Revel, Elisabeth Rigal, Franco Romanò, Avital Ronell, Jacob Rogozinski, Alessandro Russo, Hugo Santiago, Ingo Schmidt, Beppe Sebaste, Giacomo Sferlazzo, Amalia Signorelli, Michèle Sinapi, Maria Giulia Soru, Benjamin Swaim, Bruno Tackels, Enzo Traverso, Gilberte Tsaï, Catherine Velissaris, Frieder Otto Wolf.

21 de fevereiro de 2012

Alain Badiou e Slavoj Zizek

Que alguma imprensa burguesa em França abra as páginas à opinião de filósofos que se reivindicam do marxismo tem um significado positivo. Mas merecerá a pena reler criticamente o “marxismo” que esses textos formulam. Em vários casos, trata-se de versões cuja crítica do capitalismo é desprovida de pontaria certeira, e cujo conteúdo revolucionário é inexistente.

Por Georges Gastaud

O comunismo marxista, ou seja o comunismo, deve aprofundar a crítica do neo-comunismo que Alain Badiou e Slavoj Zizek corporizam, cada um à sua maneira. Certamente que é muito positivo que estes dois autores - cuja inteligência e capacidade ninguém contesta, e cuja coragem política é bem real, se se tiver na devida conta o anticomunismo atual (Badiou é um dos raros maoistas que não renegou a Revolução chinesa!) – consigam abrir brechas na feroz censura anticomunista que silencia os marxistas, exprimindo-se no Le Monde e no Libération sobre a “hipótese comunista”. Trata-se de um muito insatisfatório indicador do rápido desgaste das ideologias do “fim da história” e da “morte do comunismo” que infestavam a mídia e as universidades nos anos 1990. Mas um olhar mais atento acaba por constatar que estes dois autores, que tomaremos o cuidado de considerar em separado, têm menos o mérito de desenvolver uma “hipótese comunista” - bastante nebulosa - do que de contribuir para levantar a hipoteca anticomunista que marca o “pensamento único” nestes nossos tempos de contra-revolução.

No que diz respeito a Alain Badiou, destaca-se-lhe o mérito de não idealizar a democracia burguesa e de recordar o que é uma revolução, ainda que, tendo em conta o tempo que já passou, fosse de esperar dele um pouco mais de espírito dialético no que diz respeito à articulação entre o insurrecional e o institucional num processo revolucionário que envolva a totalidade dos recursos políticos. É grande a sua coragem quando denuncia o “neo-pétainismo” de Sarkozy, arriscando-se aos processos que nos dias de hoje são instaurados a autores acusados de “ultraje ao chefe do Estado” (sic). É de elogiar a sua ancoragem na racionalidade matemática e nas ciências da natureza matematizadas, numa época em que a maioria dos “marxistas” desdenha e ignora essas ciências e o seu contributo Ontológico, coisa que Badiou não faz, defendendo à sua maneira uma ontologia diamaterialista. Do mesmo modo, vibramos de entusiasmo quando Badiou se proclama “patriota francês” face à Finkielkraut e ao seu ocidental-sionismo pseudo-republicano.

Mas não podemos acompanhar Badiou na sua liquidação de facto do materialismo histórico e da dialéctica da natureza que constitui a sua base ontológica e epistemológica geral, porque este revisionismo de esquerda conduziria à liquidação do comunismo marxista no seu conjunto. Para Badiou, com efeito, existiria uma ruptura total entre aquilo que é da ordem do sujeito, portanto da ordem da moral, do “amor” e da política, e o que é da ordem da natureza, na qual a ciência matematizada é rainha e senhora: “postulo uma autonomia radical da categoria de sujeito. Não creio na ideia dum campo de homogeneidade dialéctica entre o ser e o sujeito. O sujeito é um processo singular, excepcional, improvável, indiscutivelmente ligado a condições exteriores efectivamente particulares mas que não resulta de nenhuma espécie de necessidade. Assumo esse hiato entre aquilo que é da ordem do ser e o que é da ordem do procedimento da verdade, que é subjectivo” (citado por A. Monville em l’Humanité de 23 de Março de 2010).

O marxismo, sem abandonar a defesa da matemática e das ciências físicas nem a sua reafirmação do seu alcance directamente ontológico, materialista e dialéctico, sem renunciar de nenhum modo à análise específica do elemento subjectivo e da iniciativa histórica, o marxismo articula a dialéctica da natureza com o materialismo histórico para fazer passar o socialismo “de utopia a ciência” (título de uma obra fundamental de Engels, Die Entwicklung des Sozialismus von der Utopie biz zur Wissenschaft), fundamentando, portanto, a teoria do socialismo e do comunismo sobre a escrupulosa análise dos dados materiais, - naturais, econômicos, sociais E psíquicos – porque o espírito não tem nada de imaterial e a sua própria contingência é fortemente enquadrada pela necessidade natural (que as neurociências estudam por um lado, e que a antropologia da pré-história, desde Leroi-Gourhan a Y. Coppens passando por H. de Lumlet, para nos limitar-mos apenas a França, estudam por outro lado), pela necessidade histórica (aquilo a que Marx chama a “produção dos meios de existência”), e pela psicologia materialista herdeira dos Vygotsky, Leontiev, Wallon e de outros Zazzo.

Ao ignorar esta articulação e ao enveredar pelo risco de resvalar no sentido do dualismo ontológico e do voluntarismo político (duas formas de idealismo), Badiou não pode falar do comunismo senão em termos de hipótese e de projeto... puramente subjetivos e, no fim de contas, puramente éticos; na prática, não se fica muito distante da enunciação do comunismo como de uma “ideia reguladora da razão” como Kant o teria dito. Omissão total e algo sobranceira das forças produtivas (que a chamada “revolução cultural” chinesa contornava), omissão total das estratégias econômicas e políticas do grande capital (a “construção europeia” é quase totalmente ignorada no que diz respeito à sua própria natureza), e ainda, deve dizer-se, menosprezo aristocrático por toda a experiência passada do proletariado (fazendo tábua rasa de tudo o que trouxe consigo a URSS, que os maoistas de ontem consideravam “social-imperialista”) e também pelo renascimento de uma organização comunista em França. E é a própria contradição capital/trabalho que passa ao esquecimento na concepção badiouista, uma vez que este autor, corajosamente empenhado na questão dos trabalhadores clandestinos, parece limitar a luta de classes ao confronto entre os trabalhadores imigrantes e o sistema de dominação “neo-pétainista”. O capital pode dormir descansado: assentando sobre uma base tão estreita, o “comunismo” nunca alcançará uma massa crítica que lhe permita derrubar a oligarquia; pelo contrário, ficar-lhe-ia largamente assegurada a sua hegemonia ideológica, inteiramente assente na divisão do trabalho entre a UM/Pen (Sarkozy e Le Pen rivalizam na islamofobia e xenofobia) e a UMPS, cujo programa comum implícito consiste na destruição da nação e na instalação de um Império europeu do capital dirigido sobretudo, se não exclusivamente, pela Grande Alemanha capitalista de regresso aos seus sonhos imperiais!

Quanto a Slavoj Zizek, que retoma a expressão hipótese comunista (Le Monde, 3 de Junho de 2008), a sua concepção ecléctica de revolução parece bem menos rigorosa do que a de Badiou, e no seu testemunho brilham o pechisbeque e as lantejoulas das ideias “altermundialistas” da moda. O capitalismo e a sua dominação aparecem ali como que desencarnados, reduzidos a puras tácticas ideológicas do género da “permissividade receituada”; a estratégia capitalista de desmantelamento dos Estados-nação e de construção de blocos supranacionais continentais e trans-atlânticos passam-lhe de raspão, com a aceitação implícita pelo autor das teses “híper-imperialistas” (fusão de todos os capitalismos num só, indiferença face ao belicismo imperialista) retomadas de empréstimo de Kautsky e “refrescadas” pelos revisionistas de esquerda Negri e Hardt, o “comunismo” consiste em remeter para a gamela comum da humanidade, essa massa informe na qual as nações e a classe operária terão antecipadamente desaparecido, com os grandes serviços públicos privatizados; o interesse central que Zizek manifesta na sua tribuna no Le Monde incide sobre a ecologia, sobre a sexualidade e a bioética, enquanto a questão social aparentemente não o apaixona, muito embora seja a partir deste terreno que o movimento social esteja em desenvolvimento um pouco por todo o lado: mesmo o Associação pela Tributação das Transações Financeiras para ajuda aos Cidadãos (ATTAC), que não se reivindica do comunismo mas que se interessa pelo social, está mais à esquerda do que isto! Ideólogos que não se reivindicam do marxismo, como Frédéric Lordon, têm, pelo menos, a coragem de atacar a Europa, de falar do patriotismo de forma positiva e de mencionar a “desmundialização”, o que poderia de alguma forma abalar o marxismo decorativista de Zizek. No fim de contas, segundo Zizek, a contradição principal oporia a plebe semi-proletária dos “bairros da lata” ao sistema de dominação cuja natureza de classe não é de nenhum modo identificada: “a tarefa essencial do 21º século, declara Zizek, será a de politizar, dando-lhes organização e disciplina, as “massas desestruturadas” dos bairros da lata” (e como faríamos para as estruturar se tudo objectivamente as desorganiza? E entretanto o patronato preservará o essencial: a empresa, e os lucros que aí produz o proletariado, nomeadamente o industrial!). Surgem aqui claramente as concepções pseudo-modernas (que remontam à II Internacional!) de Negri, opondo o “império” à “multidão”; uma concepção desmobilizadora que subestima ao mesmo tempo as contradições inter-imperialistas, o desenvolvimento desigual do capitalismo, e o papel da classe operária, inteiramente sonegado. Para Zizek a questão central seria, não a exploração capitalista, mas a “inclusão” e a “exclusão” social: como se a massa dos assalariados “incluídos” no sistema tivessem deixado de ser explorados, como se a exclusão e o desemprego em massa, como se a chantagem da precariedade não fossem aramas tradicionais do capital para intimidar os trabalhadores assalariados, para condicionar o mercado do emprego e para aumentar a exploração na fábrica, e como se, para construir uma sociedade menos selvagem, o comunismo não tivesse também o encargo de excluir os antigos exploradores, que iriam sabotar a ordem social revolucionária (a questão não é exclusão ou inclusão, mas quem exclui quem?, quem explora quem?: em resumo, a questão continua a ser a do combate de classes e o seu desenvolvimento revolucionário incontornável, a expropriação dos capitalistas, primeiro passo no sentido da socialização dos meios de produção).

E também nenhuma palavra, nem em Badiou nem em Zizek, para denunciar a criminalização do comunismo histórico e a gigantesca caça às bruxas que, iniciada nos países bálticos e “transportada” pelo canal azul-negro do berlusconismo e do sako-lepenismo, ameaça abater-se sobre a Europa ocidental. Separado do fundamental do passado comunista, separado de qualquer questionamento sobre as forças produtivas, separado das lutas concretas e dos esforços de reorganização da classe operária, separado da necessidade de reorganizar os PC de massas e o Movimento comunista mundial, separado do movimento político anti-imperialista, diluindo de forma romântica e esquerdista o proletariado produtivo e o campesinato laborioso na plebe mundializada (enquanto os trabalhadores marginalizados constituem uma fracção do proletariado, o terreno principal da luta de classes continua a ser a empresa e as relações de trabalho), ignorando tudo da dialéctica marxista do socialismo e do comunismo, estas duas versões do neo-comunismo, provindas na verdade do socialismo utópico, e tendendo mesmo (no caso do segundo) – com toda a sinceridade – a maquilhar de vermelho o altermundialismo e o altercapitalismo, ou seja, o reformismo sem reformas típico da nossa época contra-revolucionária. Não pretende Zizek, explicitamente, “neutralizar e canalizar os mecanismos do mercado”? Não se trata de nada que possa afetar nem um ¼ de ponto os índices bolsistas…

Está claro que o jornal anti-comunista Le Monde, que se adorna com um toque subversivo concedendo uma página inteira para Zizek escrever sobre o “comunismo”, ao mesmo tempo que espadeira sem tréguas contra o comunismo histórico e censura a 200% as organizações marxistas-leninistas francesas, não daria nem um quarto de página a quem, nas suas colunas, mesmo sem fazer uso das palavras “revolução” e “comunismo”, fizesse um apelo à saída da França da sacrossanta “construção europeia”: intelectuais neo-comunistas, desancai quanto quiserdes no “capitalismo”, as palavras saem barato, mas não toqueis nos fundamentos materiais e políticos da sua dominação: a destruição contra-revolucionária dos países socialistas, dos partidos comunistas e dos sindicatos de classe, as ofensivas maciçamente antissociais da “construção europeia”, o desmantelamento dos Estados-nação, etc. E, sobretudo, apresentai com Zizek “a” mundialização como um fato irreversível, porque é de tudo isto que a estratégia capitalista politicamente necessita para desarmar ideologicamente o proletariado!

À face deste neo-comunismo utópico, as posições de Domenico Losurdo parecem bem mais materialistas e bem mais “resistentes”. Losurdo, pelo menos, bate-se contra a “autofobia” comunista, pelo respeito pela primeira experiência socialista da história, contra a criminalização da URSS, contra a amálgama Hitler-Stalin, e esforça-se por defender os países socialistas atuais, sobretudo a China popular (se ela merece ainda esse título seria questão para outro debate). Para o fazer, infelizmente, Losurdo engole às vezes a água do banho capitalista para preservar o bebê socialista: e o filósofo italiano revê pela direita o marxismo ao repudiar a ideia do desaparecimento do Estado (o que ficará do comunismo, encurralado para sempre entre os dois comparsas que são o estatismo e o mercantilismo?), celebrando o oximoro do “socialismo de mercado” como uma opção estratégica e histórica (o socialismo de mercado imagina, como faz Zizek, não o recorrer temporariamente ao mercado capitalista para o controlar e o superar, mas o coexistir pacificamente com ele durante um largo período) e idealizando a China, onde as contradições de classes estão entretanto se tornando mais estridentes, e mesmo sangrentas, embora esse fato não elimine a contradição entre a China e a Tríade imperialista, nem dispense os comunistas do mundo inteiro de defender a República popular chinesa contra tudo aquilo que a desestabiliza (pressões imperialistas, mas também políticas neoliberais grosseiramente anti-proletárias). Nestes termos, estamos mais próximos do colbertismo do que do marxismo! E tudo culmina com uma defesa do “desenvolvimentismo” do tempo de Stalin que exalta o pragmatismo, quando não o cinismo, desse dirigente, ao mesmo tempo que formula uma acusação contra o pretenso “utopismo” de Lênin. A nossa leitura da história soviética é bem diferente e mostra, pelo contrário, que é urgente contrapor tanto à stalinofilia ambiente como a um regresso da stalinolatria uma critica equilibrada, leninista, dos desvios políticos estatistas do marxismo, e a crítica conjunta do socialismo de mercado e do comunismo de Estado, esse outro oximoro, contra os quais Lênin tinha ele próprio alertado nos seus últimos escritos, em que apresenta a Nova Política Econômica (NEP) como um “recuo tático” e em que apela ao reforço da ditadura do proletariado sobre a base de um controle acrescido do povo sobre a economia e a vida política, reduzindo sistematicamente em simultâneo a máquina estatal-administrativa propriamente dita[O Diário]

18 de fevereiro de 2012

A "crise do capitalismo global"

Crise de quem? Quem lucra?

James Petras


Desde o Financial Times até à extrema-esquerda, toneladas de tinta têm sido gastas a escrever acerca de alguma variante da "Crise do capitalismo global". Se bem que os autores divirjam quanto às causas, consequências e curas, de acordo com as suas luzes ideológicas, há um acordo comum em que "as crises" ameaçam acabar o sistema capitalista tal como o conhecemos.

Não há dúvida de que, entre 2008 e 2009, o sistema capitalista na Europa e nos Estados Unidos sofreu um choque severo que abalou os fundamentos do seu sistema financeiro e ameaçou levar à bancarrota seus "setores principais".

Contudo, argumentarei que as "crises do capitalismo" foram transformadas em "crises do trabalho". O capital financeiro, o principal detonador do crash e da crise, recuperou-se, a classe capitalista como um todo foi fortalecida e, acima de tudo, ela utilizou as condições políticas, sociais e ideológicas criadas em resultado das "crises" para mais uma vez consolidar sua dominação e exploração sobre o resto da sociedade.

Por outras palavras, a "crise do capital" foi convertida numa vantagem estratégica para promover os interesses mais fundamentais do capital: a expansão de lucros, a consolidação do domínio capitalista, a maior concentração da propriedade, o aprofundamento de desigualdades entre capital e trabalho e a criação de enormes reservas de trabalho para promover o aumento dos seus lucros.

Além disso, a noção de um crise global homogênea do capitalismo passa por alto as profundas diferenças em desempenho e condições entre países, classes e grupos etários.

A tese da crise global: O argumento econômico e social

Os advogados da crise global argumentam que começando em 2007 e continuando até o presente, o sistema capitalista mundial entrou em colapso e a recuperação é uma miragem. Eles mencionam a estagnação e a recessão contínua na América do Norte e na Eurozona. Eles apresentam dados do PIB que variam entre o crescimento negativo e o zero. A sua argumentação é apoiada por dados que mencionam dois dígitos de desemprego em ambas as regiões. Frequentemente corrigem os dados oficiais que minimizam a percentagem desempregada através da exclusão de trabalhadores desempregados em tempo parcial e por longo tempo. O argumento da "crise" é fortalecido com a citação dos milhões de proprietários de casas que foram despejados pelos bancos, pelo aumento agudo da pobreza e da penúria que acompanha perdas de emprego, reduções de salário e a eliminação ou redução de serviços sociais. A "crise" também é associada ao aumento maciço de bancarrotas, principal de pequenos e médios negócios e bancos regionais.

A crise global: A perda de legitimidade

Críticos, especialmente na imprensa financeira, escrevem acerca de uma "crise de legitimidade do capitalismo" citando inquéritos que mostram maiorias substanciais a questionarem a justiça do sistema capitalista, as vastas e crescentes desigualdades e as regras manipuladas pelas quais bancos exploram a sua dimensão ("demasiado grande para falir") a fim de atacar o Tesouro a expensas de programas sociais.

Em suma, os advogados da tese de uma "Crise global do capitalismo" apresentam uma argumentação convincente, demonstrando os efeitos profundos e generalizados do sistema capitalista sobre a vida da grande maioria da humanidade.

O problema é que uma "crise da humanidade" (mais especificamente dos trabalhadores assalariados) não é o mesmo que uma crise do sistema capitalista. De fato, como argumentaremos adiante, a adversidade social crescente, o declínio da renda e do emprego tem sido um fator importante que facilitou a recuperação rápida e maciça das margens de lucro da maior parte das corporações de grande dimensão.

Além disso, a tese de uma crise "global" do capitalismo combina economias, países, classes e grupos etários díspares com desempenhos agudamente divergentes em diferentes momentos históricos.

Crise global ou desenvolvimento irregular e desigual?

É absolutamente insano argumentar a existência de uma "crise global" quando várias das maiores economias na economia mundial não sofreram uma grande baixa de atividade e outras recuperaram-se e expandiram-se rapidamente. A China e a Índia não sofreram sequer uma recessão. Mesmo durante os piores anos do declínio europeu-estadunidense, os gigantes asiáticos cresceram a uma média de cerca de 8%. As economias da América Latina, especialmente os maiores exportadores agro-minerais (Brasil, Argentina, Chile) com mercados diversificados, especialmente na Ásia, detiveram-se brevemente (em 2009) antes de assumirem crescimento moderado a rápido (entre 3% e 7%) entre 2010 e 2012.

Ao agregar dados econômicos da eurozona como um todo os advogados da crise global ignoraram as enormes disparidades de desempenho dentro da zona. Enquanto a Europa do Sul afunda-se numa depressão profunda e constante, por qualquer medida, desde 2008 até o futuro previsível, as exportações alemãs em 2011 estabeleceram um recorde de um trilhão de euros; seu excedente comercial atingiu 158 bilhões de euros, depois de excedentes de 155 bilhões de euros em 2010. (BBC News, Feb. 8 2012).

Enquanto o desemprego agregado da eurozona atinge os 10,4%, as diferenças internas desafiam qualquer noção de uma "crise geral". O desemprego na Holanda é 4,9%, na Áustria 4,1% e na Alemanha 5,5% com reclamações do patronato de escassez de trabalho qualificado em setores chave para o crescimento. Por outro lado, no explorado Sul da Europa o desemprego caminha para níveis de depressão, Grécia 21%, Espanha 22,9%, Irlanda 14,5% e Portugal 13,6% (FT 1/19/12, p.7). Por outras palavras, "a crise" não afeta adversamente algumas economias, que de facto luram com a sua dominação de mercado e fortaleza tecno-financeira em relação a economias dependentes, devedoras e atrasadas. Falar de uma "crise global" obscurece as relações fundamentais dominantes e exploradoras que facilitam a "recuperação" e o crescimento das economias de elite sobre e contra os seus competidores e estados clientes. Além disso os teóricos da crise global erradamente amalgamam economias financeiras-especulativas cavalgadas pela crise (EUA, Inglaterra) com economias produtivas exportadoras (Alemanha, China).

O segundo problema com a tese de uma "crise global" é que ela ignora profundas diferenças internas entre grupos etários. Em vários países europeus a juventude desempregada (16-25) chega a estar entre 30 e 50% (Espanha 48,7%, Grécia 47,2%, Eslováquia 35,6%, Itália 31%, Portugal 30,8% e Irlanda 29%) ao passo que na Alemanha, Áustria e Holanda o desemprego juvenil vai dos 7,8% para a Alemanha, 8,2% para a Áustria e 8,6% para a Holanda (Financial Times 2/1/12, p2). Estas diferenças fundamentam a razão porque não há um "movimento juvenil global" de "indignados" e "ocupantes". Diferenças de cinco vezes entre juventude desempregada não são propícias à solidariedade "internacional". A concentração dos números do alto desemprego juvenil explica o desenvolvimento desigual dos protestos de rua em massa centrados especialmente no Sul da Europa. Também explica porque o movimento "anti-globalização" no Norte euro-americano é em grande media um fórum sem vida que atrai explicações académicas pomposas sobre a "crise capitalista global" e a impotência dos "Fóruns sociais" que são incapazes de atrair milhões de jovens desempregados do Sul da Europa. Eles são mais atraídos para a acção directa. Teóricos globalistas ignoram o modo específico pelo qual a massa de jovens trabalhadores desempregados é explorada nos seus países dependentes cavalgados pela dívida. Eles ignoram o modo específico pelo qual são dominados e reprimidos por partidos capitalistas de centro-esquerda e de direita. O contraste é mais evidente no Inverno de 2012. Trabalhadores gregos são pressionados a aceitar um corte de 20% nos salários mínimos ao passo que trabalhadores da Alemanha estão a exigir um aumento de 6%.

Se a "crise" do capitalismo se manifesta em regiões específicas, ela igualmente afecta diferentes sectores etários/raciais das classes assalariadas. As taxas de desemprego da juventude aos trabalhadores mais velhos variam enormemente. Na Itália a proporção é 3,5/1, na Grécia 2,5/1, em Portugal 2,3/1, na Espanha 2,1/1 e na Bélgica 2,9/1. Na Alemanha é 1,5/1 (FT 2/1/12). Por outras palavras, devido aos níveis de desemprego mais altos entre os jovens eles têm maior propensão para a acção directa "contra o sistema", ao passo que trabalhadores mais velhos com níveis de emprego mais altos (e benefícios de desemprego) têm mostrado uma maior propensão para confiar na urna eleitoral e comprometer-se em greves limitadas sobre questões relacionadas com o emprego e o pagamento. A vasta concentração do desemprego entre jovens trabalhadores significa que eles constituem o "núcleo disponível" para a acção constante; mas também significa que só podem alcançar limitada unidade de acção com a classe trabalhadora mais velha que experimenta desemprego de um algarismo.

Contudo, também é verdadeiro que a grande massa da juventude desempregada proporciona uma arma formidável, nas mãos dos patrões, para ameaçar substituir trabalhadores empregados mais velhos. Hoje, os capitalistas recorrem constantemente à utilização dos desempregados para reduzir salários e benefícios e intensificar a exploração (baptizada como "aumento de produtividade") para aumentar margens de lucro. Longe de serem simplesmente um indicador da "crise capitalista", os altos níveis de desemprego têm servido juntamente com outros factores par aumentar a taxa de lucro, acumular rendimento, ampliar desigualdades de rendimento as quais aumentam o consumo de bens de luxo para a classe capitalista: as vendas de automóveis e relógios de luxo estão florescentes.

Crise de classe: A contra-tese

Contrariando os teóricos da "crise capitalista global", emergiu uma quantidade substancial de dados que refuta suas suposições. Um estudo recente informa "Lucros corporativos estado-unidenses estão mais altos em proporção do produto interno bruto do que em qualquer momento desde 1950" (FT 1/30/12). Os saldos de caixa de companhias dos EUA nunca foram maiores, graças à exploração intensificada dos trabalhadores e a um sistema de salários multi-estratificado no qual novos contratados trabalham por uma fracção do que os trabalhadores mais velhos recebiam (graças a acordos assinados por líderes sindicais capachos).

Os ideólogos da "crise do capitalismo" ignoraram os relatórios financeiros das principais corporações estado-unidenses. Segundo o relatório de 2011 da General Motors destinado aos seus accionistas, eles celebraram o maior lucro de sempre, revelando um lucro de US$7,6 mil milhões, o que ultrapassa o recorde anterior de US$6,7 mil milhões em 1997. Uma grande parte destes lucros resulta do congelamento dos seus fundos de pensão subfinanciados e da extracção de maior produtividade do menor número de trabalhadores – por outras palavras, da intensificação da exploração – e do corte pela metade dos salários horários dos novos contratados. (Earthlink News 2/16/12)

Além disso, a importância agravada da exploração imperialista é evidente pois a proporção de lucros das corporações estado-unidenses que é extraída além-mar mantém-se em ascensão a expensas do crescimento do rendimento dos empregados. Em 2011, a economia dos EUA cresceu em 1,7%, mas a mediana dos salários caiu em 2,7%. Segundo a imprensa financeira, "as margens de lucro das S&P 500 saltaram de 6% para 9% do PIB nos últimos três anos. A última vez que foi alcançada tal proporção foi há três gerações. Em linha gerais um terço, a fatia estrangeira destes lucros, mais do que duplicou desde 2000" (FT 2/13/12 P9. Se isto é uma "crise capitalista", então quem é que precisa de um boom capitalista?

Inquéritos a corporações de topo revelam que companhias estado-unidenses possuem US$1,73 milhão de milhões em cash, "os frutos do recorde de altas margens de lucro" (FT 1/30/12 p.6). Estas margens de lucro recorde resultam de despedimentos em massa os quais levaram à intensificação da exploração dos restantes trabalhadores. Taxas de juro federais desprezíveis e acesso fácil ao crédito também permitem aos capitalistas explorarem amplos diferenciais entre a contracção de empréstimos e a concessão dos mesmos e o investimento. Impostos mais baixos e cortes em programas sociais resultam numa crescente acumulação de cash das corporações. Dentro da estrutura corporativa, o rendimento vai para o topo onde executivos seniores pagam a si próprios bónus enormes. Dentre as principais corporações S&P 500 a proporção de rendimento que vai para dividendos de accionistas é a mais baixa desde 1900 (FT 1/30/12, p.6).

Uma crise capitalista real afectaria adversamente margens de lucro, ganhos brutos e a acumulação de cash. Lucros ascendentes estão a ser amontoados porque quando capitalistas se aproveitam da exploração intensa o consumo das massas estagna.

Os teóricos da crise confundem o que é claramente a degradação do trabalho, a degradação das condições de vida e de trabalho e mesmo a estagnação da economia, com uma "crise" do capital: quando a classe capitalista aumenta suas margens de lucros, arrecada milhões de milhões, ela não está em crise. O ponto-chave é que a "crise do trabalho" é um grande estímulo para a recuperação de lucros capitalistas. Não podemos generalizar de uma para a outra. Não há dúvida de que houve um momento de crise capitalista (2008-2009) mas graças à maciça transferência de riqueza, sem precedentes no estado capitalista, do tesouro público para a classe capitalista – bancos da Wall Street em primeiro lugar – o sector corporativo recuperou, ao passo que os trabalhadores e o resto da economia permaneceu em crise, foi à bancarrota e ficou sem trabalho.

Da crise à recuperação de lucros: 2008/2009 a 2012

A chave para a "recuperação" de lucros corporativos tem pouco a ver com o ciclo de negócios e tudo com a tomada de poder em grande escala da Wall Street e a pilhagem do Tesouro dos EUA. Entre 2009-2012 centenas de antigos executivos da Wall Street, administradores e conselheiros de investimento apoderaram-se de todas as principais posições decisiva no Departamento do Tesouro e canalizaram milhões de milhões de dólares para os cofres das principais financeiras e corporações. Eles intervieram em corporações financeiramente perturbadas, como a General Motors, impondo grandes cortes salariais e demissões de milhares de trabalhadores.

Os homens da Wall Street no Tesouro elaboraram a doutrina do "Demasiado grande para falir" a fim de justificar a transferência maciça de riqueza. A totalidade do edifício especulativo construído em parte por um aumento de 234 vezes no volume de transacções cambiais entre 1977-2010 foi restaurado (FT 1/10/12, p.7). A nova doutrina argumentou que a primeira e principal prioridade do estado é devolver a lucratividade ao sistema financeiro a qualquer custo para a sociedade, os cidadãos, os contribuintes e os trabalhadores. O "Demasiado grande para falir" é um repúdio completo dos mais básicos princípios do sistema capitalista de "mercado livre": a ideia de que aqueles capitalistas que perdem arquem as consequências; que cada investidor ou presidente de empresa é responsável pela sua acção. Os capitalistas financeiros já não precisam justificar sua actividade em termos de qualquer contribuição para o crescimento da economia ou da "utilidade social". De acordo com os que agora dominam a Wall Street deve ser salva porque é a Wall Street, mesmo se o resto da economia e o povo afundarem (FT 1/20/12, p.11). Os salvamentos e financiamentos do estado são complementados por centenas de milhares de milhões em concessões fiscais, levando a défices fiscais sem precedentes e ao crescimento de desigualdades sociais maciças. O pagamento de um presidente de empresa (CEO) como um múltiplo do trabalhador médio passou de 24 para 1 em 1965 para 325:1 em 2010 (FT 1/9/12, p.5).

A classe dominante exibe a sua riqueza e poder com a ajuda conivente da Casa Branca e do Tesouro. Face à hostilidade popular à pilhagem do Tesouro pela Wall Street, Obama chegou ao fingimento de pedir ao Tesouro para impor um tecto aos bónus de muitos milhões de dólares que os presidentes de bancos salvos concediam-se a si próprios. Os homens da Wall Street no Tesouro recusaram-se a impor a ordem executiva, os CEOs obtiveram milhares de milhões em bónus em 2011. O presidente Obama continuou, pensando que enganava o público estado-unidense com o seu gesto falso, enquanto arrecadava milhões de fundos de campanha junto à Wall Street!

A razão porque o Tesouro foi capturado pela Wall Street é que nas décadas de 1990 e 2000 os bancos se tornaram uma força dominante nas economias ocidentais. Sua fatia do PIB subiu drasticamente (de 2% na década de 1950 para 8% em 2010" (FT 1/10/12, p.7).

Hoje é "procedimento operacional normal" para o presidente nomear homens da Wall Street para todas as posições económicas chave e é "normal" para estes mesmos responsáveis prosseguirem políticas que maximizam lucros da Wall Street e eliminam qualquer risco de fracasso, não importa quão aventurosos e corruptos sejam os seus praticantes.

A porta giratória: Da Wall Street para o Tesouro e retorno

A relação entre a Wall Street e o Tesouro tornou-se efectivamente uma "porta giratória": da Wall Street para o Departamento do Tesouro para a Wall Street. Banqueiros privados assumem compromissos no Tesouro (ou são recrutados) para assegurar que todos os recursos e políticas que a Wall Street são concedidas com o máximo esforço, com o mínimo obstáculo de cidadãos, trabalhadores ou contribuintes. Os homens da Wall Street no Tesouro dão a mais alta prioridade à sobrevivência, recuperação e expansão dos lucros da Wall Street. Eles bloqueiam quaisquer regulamentações ou restrições a bónus ou a repetições das fraudes do passado.

Os homens da Wall Street "ganham reputação" no Tesouro e então retornam ao sector privado em posições mais altas, como conselheiros sénior e sócios. Uma nomeação no Tesouro é uma escada para subir na hierarquia da Wall Street. O Tesouro é um posto de abastecimento para a Limusine da Wall Street: o ex homens da Wall Streets enchem o tanque, verificam o óleo e então salvam para o assento da frente e correm para um emprego lucrativo, deixando o posto de abastecimento (público) pagar a conta.

Aproximadamente 774 responsáveis saíram do Tesouro entre Janeiro de 2009 e Agosto de 2011 (FT 2/6/12, p. 7). Todos eles proporcionaram "serviços" lucrativos para os seus futuros patrões da Wall Street, descobrindo uma grande maneira de re-entrar nas finanças privadas numa posição lucrativa mais alta.

Uma notícia no Financial Times Fev. 6, 2012 (p. 7) adequadamente intitulada "Manhattan Transfer" proporcionava ilustrações típicas da "porta giratória" Tesouro-Wall Street.

Ron Bloom passou de banqueiro júnior no Lazard para o Tesouro, ajudando a engendrar um salvamento de um milhão de milhões de dólares da Wall Street e retornou ao Lazard como conselheiro sénior. Jake Siewert foi da Wall Street tornando-se ajudante principal do secretário do Tesouro Tim Geithner e então graduado na Goldman Sachs, tendo servido para solapar qualquer tecto nos bónus da Wall Street.

Michael Mundaca, o mais sénior responsável fiscal no regime Obama veio da Street e então passou par um posto altamente lucrativo na Ernst and Young, uma firma corporativa de contabilidade, tendo ajudado a reduzir impostos corporativos durante o seu período no "gabinete público".

Eric Solomon, um responsável fiscal sénior na infame isenção de impostos corporativos da administração Bush, fez a mesma comutação. Jeffrey Goldstein que Obama encarregou da regulação financeira e teve êxito em solapar exigências populares, retornou ao seu patrão anterior, Hellman and Friedman, com a adequada promoção pelos serviços prestados.

Stuart Levey que dirigiu as sanções da AIPAC contra políticas do Irão a partir da chamada "agência anti-terrorista" do Tesouro foi contratado como advogado geral pelo HSBC para defendê-lo de investigações de lavagem de dinheiro (FT 2/6/12, p. 7). Neste caso Levey passou da promoção dos objectivos de guerra de Israel para a defesa de um banco internacional acusados de lavar milhares de milhões do cartel mexicano. Levey, a propósito gastou tanto tempo a insistir na agenda iraniana de Israel que ignorou totalmente a lavagem de dinheiro dos carteis mexicanos da droga com operações transfronteiriças durante quase uma década.

Lew Alexander, conselheiro sénior de Geithner na concepção do salvamento de mil milhões de dólares, é agora responsável sénior no Nomura, o banco japonês. Lee Sachs passou do Tesouro para o Bank Alliance (sua própria "plataforma de concessão de empréstimos"). James Millstein foi do Lazard para o Tesouro, salvou a seguradora AIG dirigida abusivamente por Greenberg e então estabeleceu a sua própria firma privada de investimento tomando consigo um conjunto de responsáveis do Tesouro bem conectados.

A "porta giratória" Goldman Sachs-Tesouro continua ainda hoje. Além do passado e actual chefes do Tesouro, Paulson e Geithner, Mark Patterson, antigo sócio da Goldman, foi recentemente nomeado "chefe de equipe" de Geithner. Tim Bowler, antigo administrador director foi nomeado por Obama para chefe da divisão de mercados de capital.

Deveria ser perfeitamente claro que eleições, partidos e os mil milhões de dólares de campanhas eleitorais têm pouco a ver com "democracia" e mais a ver com a selecção dos presidente e dos legisladores que nomearão homens não eleitos da Wall Street para tomarem todas as decisões económicas estratégicas para 99% dos americanos. Os resultados da porta giratória Wall Street-Tesouro são claros e proporcionam-nos uma estrutura para entender porque a "crise do lucro" desvaneceu-se e a crise do trabalho aprofundou-se.

Os "alcances políticos" da porta giratória

O conluio Wall Street-Tesouro (CWST) tem desempenhado um trabalho hercúleo e audacioso para o capital financeiro e corporativo. Face à condenação universal da Wall Street pela vasta maioria do público pelas suas fraudes, bancarrotas, perdas de empregos e arrestos hipotecários, o CWST apoiou publicamente os trapaceiros com um salvamento de um milhão de milhões de dólares. Um movimento ousado face a isto, como se maiorias e eleições contassem para alguma coisa. Igualmente importante é que o CWTS lançou ao lixo toda a ideologia do "livre mercado" que justificava lucros dos capitalistas com base nos seus "riscos", pela imposição do novo dogma do "demasiado grande para falir" pelo qual o tesouro do estado garante lucros mesmo quando capitalistas enfrentam a bancarrota, desde que sejam firmas de milhares de milhões de dólares. O CWST também deitou ao lixo o principio capitalista da "responsabilidade fiscal" em favor de centenas de milhares de milhões de dólares de isenções fiscais para a classe dominante corporativo-financeira, provocando défices orçamentais recordes em tempo de paz e tendo então a audácia de culpar os programas sociais apoiados pelas maiorias populares. (Será de admirar que estes ex-responsáveis do Tesouro obtenham ofertas tão lucrativas no sector privado quando abandonam o gabinete público?)

Em terceiro lugar, o Tesouro e o Banco Central (Federal Reserve) proporcionam empréstimos a juro próximo de zero que garantem grandes lucros a instituições financeiras privadas as quais tomam emprestado a juro baixo do Fed e concedem empréstimos a juro alto (incluindo o Governo!) especialmente na compra de governos além mar e títulos corporativos. Eles recebem em qualquer lugar de quatro a dez vezes as taxas de juro que pagam. Por outras palavras, os contribuintes proporcionam um monstruoso subsídio à especulação da Wall Street. Com a condição acrescentada de que hoje estas actividades especulativas são agora assegurados pelo governo federal, sob a doutrina do "Demasiado grande para falir".

Sob a ideologia da "recuperação da competitividade" a equipe económica de Obama (desde o Tesouro até o Federal Reserve, o Departamento do Comércio e o do Trabalho) encorajaram o patronato a empenhar-se no mais agressivo despedimento acelerado (shedding) de trabalhadores da história moderna. A produtividade e a lucratividade aumentadas não é o resultado de " inovação" como proclamam Obama, Geithner e Bernache; é um produto de uma política de estado quanto ao trabalho que aprofunda a desigualdade pela manutenção de salários baixos e margens de lucro em ascensão. Menos trabalhadores a produzirem menos mercadorias. Crédito barato e salvamentos para os bancos de milhares de milhões de dólares e nenhum refinanciamento para casas e firmas de pequena e média dimensão que levam a bancarrotas, absorções (buyouts) e nomeadamente "consolidação", maior concentração de propriedade. Em resultado o mercado de massa estagna mas os lucros corporativos e dos bancos alcançam níveis recorde. Segundo peritos financeiros, sob a "nova ordem" do CWST "os banqueiros são uma classe protegida que desfruta de bónus sem relação com o desempenho, enquanto confia no contribuinte para socializar suas perdas" (FT 1/9/12, p.5).

Em contraste, o trabalho, sob a equipe económica de Obama, enfrenta a maior insegurança e a mais ameaçadora situação da história recente: "o que é inquestionavelmente novo é a ferocidade com que os negócios nos EUA sangra o trabalho agora que o pagamento dos executivos e os esquemas de incentivo estão ligados a objectivos de desempenho a curto prazo" (FT 1/9/2012, p. 5).

Consequências econômicas de políticas de Estado

Por causa da captura pela Wall Street das posições estratégicas no governo quanto à política económica podemos entender o paradoxo de margens de lucro recordes em meio à estagnação económica. Podemos compreender porque a crise capitalista, pelo menos a curto prazo, foi substituída por uma profunda crise do trabalho. Dentro da matriz de poder da Wall Street-Departamento do Tesouro retornaram todas as velhas e corruptas práticas de exploração que levaram ao crash de 2008-2009: bónus multi-bilionários para banqueiros de investimento que conduziram a economia ao crash; bancos "a apanharem rapidamente milhares de milhões de dólares de produtos hipotecários empacotados que recordam a dívida fatiada e jogada aos dados que alguns (sic) culpam pela crise financeira" (FT 2/8/12, p.1). A diferença hoje é que estes instrumentos especulativos são agora apoiados pelo contribuinte (Tesouro). A supremacia da estrutura financeira da economia estado-unidense anterior à crise está em vigor em próspera ... "só" a força de trabalho dos EUA afundou no maior desemprego, declínio de padrões de vida, insegurança generalizada e profundo descontentamento.

Conclusão: O processo contra o capitalismo e pelo socialismo

A crise profunda de 2008-2009 provocou um jorro de questionamentos do sistema capitalista, mesmo entre muitos dos seus mais ardentes advogados a crítica abunda (FT 1/8/12 a 1/30/12). "Reforma, regulamentação e redistribuição" eram o cardápio de colunistas financeiros. Mas a classe dominante na economia e no governo não lhe presta atenção. Os trabalhadores são controlados por líderes sindicais capachos e falta-lhe um instrumento político. Os pseudo populistas de direita abraçam uma agenda pró capitalista ainda mais virulenta, clamando pela eliminação total de programas sociais e impostos corporativos. Dentro do estado verificou-se uma grande transformação que efectivamente esmagou qualquer ligação entre capitalismo e estado previdência, entre a tomada de decisões pelo governo e o eleitorado. A democracia foi reatada por um estado corporativo, fundamentado na porta giratória entre o Tesouro e a Wall Street, a qual canaliza riqueza pública para cofres dos financeiros privados. A brecha entre o bem-estar da sociedade e as operações da arquitectura financeira é definitiva.

A actividade da Wall Street não tem utilidade social, seus praticantes enriquecem-se sem actividade que os redima. O capitalismo demonstrou conclusivamente que prospera através da degradação de dezenas de milhões de trabalhadores e rejeita as súplicas infindáveis por reforma e regulamentação. O capitalismo real existente não pode ser arreado para elevar padrões de vida ou assegurar emprego livre do medo de despedimentos em grande escala, súbitos e brutais. O capitalismo, como experimentámos ao longo da última década e no futuro previsível, está em oposição polar à igualdade social, à tomada de decisões democráticas e ao bem-estar colectivo.

Lucros capitalistas recordes são ampliados pela pilhagem do tesouro publico, negando pensões e prolongando "trabalho até que você morra", levando famílias à bancarrota com exorbitantes custos corporativos de medicina e educação.

Mais do que nunca na história recente, maiorias recordes rejeitam o domínio por e para os banqueiros e a classe dominante corporativa (FT 2/6/12, p. 6). Desigualdades entre os 1% do topo e a base dos 99% atingiram proporções recordes. Presidentes de empresas ganham 325 vezes mais do que um trabalhador médio (FT 1/9/12, p.5). Desde que o estado tornou-se um "fundamento" da economia dos predadores da Wall Street, e desde que a "reforma" e regulamentação fracassaram tristemente, é tempo de considerar uma transformação sistémica fundamental que abra caminho a uma revolução política a qual forçosamente expulsará as elites financeiras e corporativas não eleitas que dirigem o estado para os seus próprios exclusivos interesses. A totalidade do processo político, incluindo eleições, está profundamente corrompida: cada nível de gabinete tem o seu próprio preço inflacionado. A actual disputa presidencial custará US$2 a US$3 mil milhões de dólares para determinar qual dos servidores da Wall Street presidirá sobre a porta giratória.

O socialismo já não é a palavra assustadora do passado. O socialismo envolve a reorganização em grande escala da economia, a transferência de milhões de milhões dos cofres das classes predadoras de nenhuma utilidade social para o bem-estar público. Esta mudança pode financiar uma economia produtiva e inovadora baseada no trabalho e no lazer, no estudo e no desporto. O socialismo substitui o terror diário da demissão pela segurança que traz confiança, segurança e respeito ao lugar de trabalho. A democracia no lugar de trabalho está no cerne da visão de socialismo do século XXI. Começamos por nacionalizar os bancos e eliminar a Wall Street. As instituições financeiras são redesenhadas para criar emprego produtivo, servir o bem-estar social e preservar o ambiente. O socialismo começaria a transição, de uma economia capitalista dirigida por predadores e trapaceiros e um estado sob o seu comando, rumo a uma economia de propriedade pública sob controle democrático.

6 de fevereiro de 2012

Aniversários da "não história"

Noam Chomsky

http://www.truth-out.org/opinion/item/6489:anniversaries-from-unhistory

George Orwell cunhou o útil termo "não gente" para criaturas a quem é negada a condição de pessoa porque não acatam a doutrina do Estado. Podemos acrescentar o termo "não história" para nos referirmos ao destino das não pessoas, expurgadas da história por motivos semelhantes.

A não história das não pessoas é esclarecida pelo destino dos aniversários. Os importantes geralmente são comemorados com a devida solenidade, quando apropriado: por exemplo, Pearl Harbor. Alguns não o são, e podemos aprender muito sobre nós mesmos ao desenredá-los da não história.

Neste momento estamos deixando de comemorar um acontecimento de grande importância humana: o 50º aniversário da decisão do presidente Kennedy de lançar a invasão direta ao Vietnã do Sul, que logo se tornaria o mais extremo crime de agressão desde a Segunda Guerra Mundial.

Kennedy ordenou que a Força Aérea americana bombardeasse o Vietnã do Sul (em fevereiro de 1962 centenas de missões já tinham sido enviadas); autorizou a guerra química para destruir plantações, de modo a subjugar pela fome a população rebelde; e implementou programas que afinal levaram milhões de aldeões para favelas urbanas e virtuais campos de concentração, ou "Aldeias Estratégicas". Lá os aldeões seriam "protegidos" das guerrilhas indígenas que, como o governo americano sabia, eles apoiavam de boa vontade.

As iniciativas oficiais para justificar os ataques eram parcas e, na maioria, fantasias.

Foi típico o discurso desapaixonado do presidente à Associação Americana de Editores de Jornais em 27 de abril de 1961, quando ele advertiu que "temos em todo o mundo a oposição de uma conspiração monolítica e impiedosa, que conta principalmente com meios disfarçados para expandir sua esfera de influência". Na ONU em 25 de setembro de 1961, Kennedy disse que, se essa conspiração atingisse seus fins no Laos e no Vietnã, "os portões estarão amplamente abertos".

As consequências em curto prazo foram relatadas pelo altamente respeitado especialista em Indochina e historiador militar Bernard Fall - que não é uma pomba da paz, mas um dos que se importava com a população dos países atormentados.

No início de 1965 ele estimou que cerca de 66 mil sul-vietnamitas foram mortos entre 1957 e 1961; e outros 89 mil entre 1961 e abril de 1965, na maioria vítimas do regime cliente dos EUA ou "o peso esmagador dos blindados americanos, do napalm, dos bombardeiros a jato e finalmente dos gases vomitórios".

As decisões eram mantidas nas sombras, como são as chocantes consequências que persistem. Para mencionar apenas uma ilustração, "Scorched Earth" [Terra arrasada], de Fred Wilcox, o primeiro estudo sério do horrível e contínuo impacto da guerra química sobre os vietnamitas, foi lançado alguns meses atrás - e é provável que se junte a outras obras de não história. O núcleo da história é o que aconteceu. O núcleo da não história é "desaparecer" o que aconteceu.

Em 1967, a oposição aos crimes no Vietnã do Sul havia atingido uma escala substancial. Centenas de milhares de soldados americanos estavam arrasando o Vietnã do Sul, e áreas altamente populosas eram submetidas a intensos bombardeios. A invasão havia se espalhado para o resto da Indochina.

As consequências tinham se tornado tão horrendas que Bernard Fall prevê que "o Vietnã como entidade cultural e histórica... está ameaçado de extinção... (enquanto) ... a zona rural literalmente morre sob os golpes da maior máquina militar já empregada sobre uma área desse tamanho".

Quando a guerra terminou, oito anos devastadores depois, a corrente dominante da opinião estava dividida entre os que a chamavam de "causa nobre" que poderia ter sido vencida com mais dedicação; e o extremo oposto, os críticos, para quem foi "um erro" que se mostrou custoso demais.

Ainda estava por vir o bombardeio da remota sociedade agrícola do norte do Laos, com tal magnitude que as vítimas viveram em cavernas durante anos para tentar sobreviver; e pouco depois o bombardeio do Camboja rural, ultrapassando o nível de todo o bombardeio aliado no teatro do Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial.

Em 1970 o assessor de segurança nacional dos EUA, Henry Kissinger, havia ordenado "uma campanha maciça de bombardeio no Camboja. Qualquer coisa que voe sobre qualquer coisa que se mova" - um chamado ao genocídio de um tipo raramente encontrado nos registros.

Laos e Camboja foram "guerras secretas" na medida em que as reportagens eram escassas e os fatos ainda são pouco conhecidos do público em geral, ou mesmo das elites educadas, que entretanto, podem recitar de cor todos os crimes reais ou alegados dos inimigos oficiais.

Mais um capítulo nos transbordantes anais da não história.

Em três anos poderemos - ou não - comemorar mais um acontecimento de grande relevância contemporânea: o 900º aniversário da Magna Carta.

Esse documento é a fundação do que a historiadora Margaret E. McGuiness, referindo-se aos julgamentos de Nuremberg, saudou como "um tipo particularmente americano de legalismo: punição apenas para aqueles que puderem ser provados culpados através de um julgamento justo, com uma panóplia de proteções processuais".

A Grande Carta declara que "nenhum homem livre" seja privado de direitos "exceto pelo julgamento legal de seus pares e pela lei da terra". Os princípios foram mais tarde ampliados para se aplicar aos homens em geral. Eles cruzaram o Atlântico e entraram na Constituição americana e na Carta de Direitos, que declarou que nenhuma "pessoa" pode ser privada de direitos sem o devido processo e um julgamento rápido.

Os fundadores, é claro, não pretendiam que o termo "pessoa" fosse aplicado a todas as pessoas. Os indígenas americanos não eram pessoas. Nem os escravos. As mulheres quase não eram pessoas. Entretanto, vamos manter a ideia central de presunção de inocência, que foi atirada ao esquecimento da não história.

Um passo além para minar os princípios da Magna Carta foi dado quando o presidente Obama assinou o Decreto Nacional de Autorização de Defesa, que codifica a prática de Bush-Obama de detenção indefinida sem julgamento, sob custódia militar.

Esse tratamento é hoje obrigatório no caso dos acusados de ajudar forças inimigas durante a "guerra ao terror", ou opcional se os acusados forem cidadãos americanos.

O âmbito é ilustrado pelo primeiro caso de Guantánamo a ser julgado sob o presidente Obama: o de Omar Khadr, um ex-menino soldado acusado do crime hediondo de tentar defender sua aldeia no Afeganistão, quando foi atacada por forças dos EUA. Capturado aos 15 anos, Khadr ficou preso durante oito anos em Bagram e Guantánamo, depois foi levado a um tribunal militar em outubro de 2010, onde lhe foi dada a opção de se declarar não culpado e ficar em Guantánamo para sempre, ou declarar-se culpado e servir apenas mais oito anos. Khadr escolheu a segunda.

Muitos outros exemplos esclarecem o conceito de "terrorista". Um é Nelson Mandela, que só foi retirado da lista de terroristas em 2008. Outro foi Saddam Hussein. Em 1982 o Iraque foi removido da lista de países que apoiam o terrorismo de modo que o governo Reagan pôde dar ajuda a Hussein depois que ele invadiu o Irã.

A acusação é caprichosa, sem revisão ou recurso, e comumente reflete objetivos políticos - no caso de Mandela, justificar o apoio do presidente Reagan aos crimes do Estado do apartheid defendendo-se contra um dos "grupos terroristas mais notórios" do mundo: o Congresso Nacional Africano de Mandela.

Tudo isso fica melhor consignado ao fator não história.

Noam Chomsky é um dos mais importantes linguistas do século 20 e escreve sobre questões internacionais. (Tradutção: Luiz Roberto Mendes Gonçalves)