29 de agosto de 2012

Deixa para lá Super PACs: como as corporações estão comprando as eleições

Graças ao Citizens United, empresas americanas e estrangeiras podem gastar secretamente milhões em campanhas políticas sob a capa de associações comerciais.

Lee Fang


Tradução / No dia 27 de janeiro de 2010, um ano na presidência, o presidente Barack Obama tratou de um problema no discurso feito para a ocasião. A Suprema Corte acabara de abrir "as portas a interesses especiais, incluindo de corporações estrangeiras, para gastar um montante sem limites nas nossas eleições". Ele se reportava à decisão judicial para o embate entre a ONG Citizens United e a Comissão Eleitoral Federal, na qual a corte derrubou uma centena de leis, garantindo às corporações um novo e vasto campo para influenciar o resultado das eleições.

Nos meses depois do discurso de Obama, o Instituto Americano do Petróleo (API, na silha em inglês), uma associação de indústrias petrolíferas que representa centenas de multinacionais de petróleo e gás, demonstraria o quão premonitório era o aviso do presidente.

Antes da decisão da corte, a API havia entrado em conflito contra o presidente sobre seus esforços em animar as discussões sobre o aquecimento global. Isso demandou anúncios, contratações de lobistas da K Street, e o financiamento de estudos controversos para afirmar que até mesmo a mais irrisória regulação legislativa, como a taxa Waxman-Markey de limitação de carbono emitido, arruinaria a economia. O grupo gastou US$ 7,3 milhões em lobbys federais durante o ano em que a taxa era discutida.

Mas chegada a eleições legislativas de meio de mandato, a Citizens United entregou para a API uma bala adicional a seu revólver. O grupo poderia agora enviar doações não reveladas de corporações diretamente para entidades de campanha. Dentre os executivos que lideravam a API naquela época - e ainda hoje faz parte da liderança - estava Tofiq Al-Gabsani, um lobista contratado pelo governo saudita. Al-Gabsani é o diretor-executivo da Saudi Refining Inc., uma total subsidiária da Companhia de Petróleo da Arábia Saudita, a gigante petrolífera estatal mais conhecida como Aramco.

A Aramco, pela sua subsidiária americana, é conhecida por ser um dos maiores doadores da API. De acordo com o Washington Post, a contribuição das maiores empresas atinge cerca de US$ 20 milhões por ano. A API tem, sem muito apuro, 400 empresas membros, mas somente um pequeno grupo de CEOs da indústria de óleo e gás senta-se à mesa de diretores, que analisam as principais decisões sobre campanha política, isto de acordo com os arquivos de negócio estatal e dois ex-executivos da API. Ao lado de grandes empresas americanas como ExxonMobil e ConocoPhillips, um desses diretores foi Al-Gabsani.

A lei americana ainda bane corporações estrangeiras de participarem diretamente nas eleições. Mas depois da Citizens United, associações como API - na qual membros influentes incluem corporações estrangeiras - estão livres para gastar como querem, tranquilizados pelas exigências de divulgação. Estes grupos aproveitam totalmente suas novas liberdades. Enquanto outros comitês de campanha, de centrais sindicais a super comitês políticos, encaram regras rígidas de transparência, associações multinacionais desfrutam de um poder incomparável na manipulação camuflada das eleições usando o dinheiro corporativo.

Grupos financiados pela API foram a força por trás da massiva onda de propagandas negativas para golpear Democratas nas eleições legislativas. O candidato a senador democrata Joe Sestak da Pensilvânia "votou no plano desempregador e censor-limitador de Pelosi", entoou uma propaganda de TV, no período eleitoral, pela Americans for Tax Reform, um dos vários grupos financiados pela API em 2010. Sestak votou pela cobrança na poluição por carbono, a propaganda continua, que institui "uma enorme cobrança que faria as contas públicas e também o preço da gasolina subirem". Sestak perdeu sua disputa para o Senado, e seu assento no Congresso foi um dos 63 tomados pelos Republicanos.

As propagandas bancadas por entidades como API ajudaram numa das maiores decepções da história americana. Pela primeira vez, gastos de grupos externos ofuscaram os gastos do próprio partido. O jovem presidente, com décimos de seu partido e com o Congresso na mão da extrema-direita, foi forçado a abandonar muitos dos seus planos nacionais internos.

Talvez o aspecto mais profundo da derrota democrata desse ano: a esperança de um confronto com o aquecimento global foi perdida. Com eventos climáticos convulsionando no globo, 86% dos recém-chegados republicanos assinaram emenda contra qualquer regulação climática às indústrias petrolíferas. Foi o líder do Congresso, John Boehner, levantar o martelo, e qualquer chance de aprovação de lei climática foi por água abaixo. Deste modo, a derrota democrata foi uma vitória retumbante das companhias de petróleo representadas pela API - e para Arábia Saudita, a maior exportadora de petróleo do mundo.

A Arábia Saudita trabalhou durante anos para obstruir qualquer progresso em reformas climáticas. Apenas semanas antes do discurso feito por Obama à União alertando sobre os perigos do dinheiro corporativo estrangeiro, Mohammad Al-Sabban, conselheiro-sênior do governo saudita de políticas energéticas, ajudou a organizar a oposição ao acordo global climático em Copenhagen. Como muitos dos interesses destes grupos dependem de combustíveis fósseis, Al-Sabban negou até a ideia de que a indústria contribuiu para o aquecimento global. "O clima está mudando há milhares de anos, mas por razões naturais não humanas", disse à BBC News.

Antes da decisão da Suprema Corte, a saudita Aramco estava proibida de usar dinheiro corporativo para influenciar uma eleição americana. A única opção da companhia seria pedir que seus empregados americanos fizessem pequenas doações para comitês políticos transparentes.

Uma decisão de 1990 da Suprema Corte, Austin v. Michigan Chamber of Commerce, requereu que associações comercias desmembrassem-se e fossem rigorosamente reguladas caso solicitassem participar das eleições federais. Estes comitês políticos poderiam somente receber financiamento, às claras, de indivíduos, em quantias limitadas pela Comissão Eleitoral Federal. Associações comerciais foram restringidas na disputa de 2002 pela lei McCain-Feingold, que evitou corporações de levarem ao ar a chamada comunicação eleitoral dentro de 60 dias da eleição. Esse banimento englobou anúncios perniciosos, comerciais onipresentes que são algo como isto: "Ligue para o senador John Smith e o impeça de continuar acabando com empregos!".

Então, em 2007, apenas um ano depois de o juiz Samuel Alito [considerado conservador] assumir o posto da juíza Sandra Day O'Connor, e também somente dois anos na gestão de John Roberts como chefe da Suprema Corte, esta foi trabalhar na revogação de todas as restrições. Naquele ano, no caso Federal Election Commission v. Wisconsin Right to Life, a maioria conservadora da corte trouxe abaixo os limites nos financiamentos corporativos de anúncios. Três anos depois, a ONG Citizens United expandiu consideravelmente o escopo desta decisão, derrubando qualquer proibição contra corporações de levarem ao ar qualquer anúncio eleitoral de qualquer tipo, a qualquer hora.

Na contra-mão, o jurista John Paul Stevens alertou que a lógica da Suprema Corte, que coloca em pé de igualdade o gasto por corporações com o gasto por indivíduo particular, abriria portas para influência estrangeira em eleições americanas. A decisão dispõe "a mesma proteção às corporações multinacionais controladas por estrangeiros também para indivíduos particulares americanos", escreveu Stevens.

O jurista, em vias de se aposentar, na sua mais longa dissidência, caçoou da maioria das reclamações de que corporações são censuradas na sociedade americana. Tivesse tal decisão posta no cenário pré-Segunda Guerra, ele comenta, propagandas japonesas no Pacífico Sul estariam de acordo com a Primeira Emenda. E embora Stevens tenha continuado a preocupação sobre influência estrangeira em discursos, lobistas reconheceram imediatamente os caminhos pelos quais as corporações poderia tomar vantagem desta decisão.

Em 2010, Cleta Mitchell, uma advogada eleitoral republicana que aconselhou candidatos presidenciais tanto quanto corporações, começou a entregar apresentações em PowerPoint para executivos das maiores associações comerciais. Numa versão chamada "Atividade Política depois de Citizens United: entendendo oportunidades e riscos", apresentada na capital americana, Washignton, em centros de conferências para grupos comerciais, como a Consumer Eletronics Association (CEA), Mitchell destacou que "muitas corporações não se arriscaram no envolvimento próprio nos anúncios”, e também não escolherão trabalhar com comitês que estão sob a tutela dos requerimentos de transparência. Envolvimento tão direto, ela avisa, pode resultar em "problemas para imagem pública da corporação, assim como experimentou a Target".

Ela se refere ao episódio que desde então se tornou notório no mundo corporativo eleitoral, quando a Target e a Best Buy foram as duas das primeiras grandes empresas a tomar vantagem da decisão Citizens United com a doação de US$ 250 mil para as prévias em Minnesota, ao comitê criado para apoiar Tom Emmer, candidato estadual. Mas Emmer foi o mais proeminente opositor aos direitos gays, e quando arquivos revelaram que Target financiou sua campanha, MoveOn.org organizou um boicote às lojas da companhia. O CEO da Target, Gregg Steinhafel, foi forçado a retroceder, e o episódio tornou-se o que James Kahl - conselheiro geral da Comissão Eleitoral Federal que agora aconselha organizações comerciais - chama de "conto de advertência".

Apesar desse caso, a advogada Cleta Mitchell disse que "as associações comercias são as grandes vencedores": sem arquivos, sem transparência, sem problemas.

China em Revolta

Eli Friedman

Jacobin

Tradução / Poucos no Ocidente estão cientes do drama que se desenrola no atual “epicentro da agitação do trabalho global”. Um acadêmico, cujo objeto de estudo é a China, expõe as suas tumultuosas políticas de trabalho e respetivas lições para a Esquerda. A classe operária chinesa interpreta um papel semelhante ao de Janus no imaginário político do neoliberalismo. Por um lado, é concebida como a competitiva vencedora da globalização capitalista, a potência conquistadora cuja ascensão representa a derrota das classes trabalhadoras do mundo desenvolvido. Que esperança há para as lutas dos trabalhadores de Detroit ou Rennes quando o migrante do Sichuan se contenta em trabalhar por uma fração do preço?

Ao mesmo tempo, os trabalhadores chineses são representados como as pobres vítimas da globalização, como a consciência pesada dos consumidores do Primeiro Mundo. Na sua labuta, passivos e explorados, sofrem estoicamente pelos nossos iPhones e toalhas de banho. E apenas nós podemos salvá-los, absorvendo a sua torrente de exportações, ou benevolamente promovendo campanhas pelo seu tratamento humanamente digno às mãos das “nossas” multinacionais.

Para algumas das partes da esquerda do mundo desenvolvido, a moral destas narrativas que se opõem é que, nas nossas sociedades, a resistência laboral foi remetida à lata de lixo da história. Tal resistência é, antes de mais, perversa e decadente. O que legitima as significativas reivindicações dos mimados trabalhadores do Norte, com os seus “problemas do Primeiro Mundo”, exigindo de um sistema que já tanta abundância lhes oferece, concedida pelos desgraçados da Terra? E, em qualquer dos casos, a resistência contra tão representativa ameaça competitiva será, certamente, fútil.

Representando os trabalhadores chineses como os Outros - enquanto subalternos abjetos ou antagonistas competitivos - este retrato falha totalmente na exposição da realidade do trabalho na China atual. Longe de serem vencedores triunfantes, os trabalhadores chineses sofrem as mesmas pesadas pressões competitivas que os trabalhadores ocidentais, frequentemente às mãos dos mesmos capitalistas. Mais importante ainda, é dificilmente o seu estoicismo que os distingue de nós.

Hoje, a classe operária chinesa está em luta. Em mais de trinta anos do projeto de reforma de mercado do Partido Comunista, a China é, inquestionavelmente, o epicentro da agitação do trabalho global. Apesar de não haver estatísticas oficiais, é certo que milhares, se não mesmo dezenas de milhares de greves têm lugar todos os anos. Todas elas são greves arriscadas - o conceito de greve legal é inexistente na China. Assim, num dia típico, qualquer coisa como meia dúzia a várias dúzias de greves terão, provavelmente, lugar.

É da maior importância salientar que os trabalhadores estão a ganhar, com muitos grevistas a conquistar grandes aumentos salariais acima e para além de quaisquer requisitos legais. A resistência operária tem sido um sério problema para o Estado e capital chineses e, como nos Estados Unidos em 1930, o governo central viu-se obrigado a aprovar uma série de leis de trabalho. Os salários mínimos têm tido aumentos na casa dos dois dígitos em várias cidades do país e muitos trabalhadores estão a receber os pagamentos de seguros sociais pela primeira vez.

A agitação laboral tem registado crescimento nas duas últimas décadas, e os últimos dois anos, por si só, representaram um avanço qualitativo na natureza das lutas laborais.

Mas se há lições para a esquerda do norte na experiência dos trabalhadores chineses, encontrá-las exige um exame das condições únicas que estes trabalhadores enfrentam - condições que hoje são causa tanto para um grande otimismo, como para um grande pessimismo.

Ao longo destas duas décadas de insurgências, um catálogo relativamente coerente de táticas de resistência laboral emergiu. Quando surge uma queixa, o primeiro passo dos trabalhadores é frequentemente o de falar diretamente com as administrações. Estas solicitações são quase sempre ignoradas, especialmente quando se encontram relacionadas com questões salariais. As greves, por outro lado, funcionam. Mas estas nunca são organizadas pelos sindicatos chineses oficiais, que se encontram formalmente subordinados ao Partido Comunista, sendo geralmente controlados pela administração ao nível da empresa. Todas as greves na China são organizadas de forma autônoma e frequentemente em oposição direta ao sindicato oficial, que encoraja os trabalhadores a resolver as suas queixas através dos mecanismos legais.

O sistema legal, que compreende mediação do local de trabalho, intermediação e processos judiciais, tenta individualizar o conflito. Este fato, combinado com o conluio entre estado e capital, traduz-se na incapacidade geral do sistema na resolução das queixas dos trabalhadores. Está projetado, em
grande medida, para prevenir as greves. Até 2010, o motivo mais comum de greve era o não-pagamento dos salários. A reivindicação nestas greves é clara e direta: paguem-nos os salários a que temos direito. As reivindicações de melhorias acima e para além da lei existente eram raras.

Sendo que as violações legais eram e continuam a ser endêmicas, tem havido solo fértil para a existência destas lutas defensivas. As greves começam geralmente com os trabalhadores a pousar os seus instrumentos de trabalho e a permanecer dentro da fábrica, ou pelo menos nas suas imediações. Surpreendentemente, os fura-greves são pouco utilizados na China, e por isso os piquetes raramente são usados [1].

Quando confrontados com uma administração recalcitrante, ocasionalmente os trabalhadores demarcam-se levando a luta para a rua. Esta tática é dirigida ao governo: afetando a ordem pública, atraem imediatamente a atenção do Estado. Por vezes os trabalhadores marcham até às instalações do governo local ou simplesmente bloqueiam a rua. Tais táticas são arriscadas, uma vez que o governo pode até apoiar os grevistas, mas com igual frequência recorre à violência. Mesmo que seja atingido um compromisso, as manifestações públicas resultarão frequentemente na detenção, espancamento e prisão dos organizadores da greve.

Mais arriscado, e ainda comum, é a sabotagem e destruição de propriedade, a organização de motins, o assassínio dos patrões e confrontos físicos com a polícia. Tais táticas parecem ter uma maior prevalência na resposta a despedimentos em massa ou falências. Uma série de confrontos particularmente intensos teve lugar em finais de 2008 e inícios de 2009, em resposta a despedimentos em massa no setor de processamento de exportações, devido à crise econômica ocidental. Como explicarei mais adiante, os trabalhadores poderão estar agora a desenvolver uma consciência antagônica em relação à polícia.

Mas o item menos espetacular deste catálogo de resistência constitui o pano de fundo essencial a todos os outros: os migrantes têm vindo a recusar, em número crescente, os maus empregos nas zonas de processamento de exportações no sudeste, aos quais costumavam acorrer em massa.

Uma insuficiência na mão-de-obra verificou-se pela primeira vez em 2004, e num país que continua a ter mais de 700 milhões de residentes rurais, muitos assumiram que se trataria de uma casualidade de curto-prazo. Oito anos depois, é clara a ocorrência de uma mudança estrutural. Os economistas lançaram-se num intenso debate acerca das causas desta insuficiência, debate esse que não recapitularei aqui. Será suficiente dizer que uma grande parte dos fabricantes nas províncias costeiras, tais como Guangdond, Zheijang e Jiangsu, não têm sido capazes de atrair e manter trabalhadores.

Independentemente de razões específicas, o ponto a salientar é que esta insuficiência conduziu a um aumento salarial e consolidou o poder dos trabalhadores no mercado - vantagem essa que estes têm vindo a explorar.


Um ponto de viragem foi registado no verão de 2010, marcado por uma importante onda de greves
que se iniciou numa fábrica de transmissão da Honda em Nanhai.

Desde então, tem havido uma mudança na natureza da resistência laboral, desenvolvimento esse notado por muitos analistas. Ainda mais importante, as reivindicações dos trabalhadores passaram a ser feitas de uma perspetiva mais ofensalariais acima e para além daquilo a que legalmente têm direito e em muitas greves têm começado a exigir a eleição dos seus representantes sindicais. Não têm sido convocados sindicatos independentes não pertencentes à Federação de Sindicatos da China, uma vez que tal certamente incitaria repressão estatal. Mas a insistência na exigência de eleições representa o germinar de reivindicações políticas, ainda que esta reivindicação seja feita apenas ao nível da empresa.

A onda de greves explodiu em Nanhai, onde durante semanas os trabalhadores tinham vindo a queixar-se dos baixos salários, discutindo a ideia de uma paralisação. A 17 de maio de 2010, quase todos desconheciam que um único empregado-o qual vários relatos entretanto apelidaram de Tan Zhiqing, um pseudônimo - convocaria a greve por sua própria iniciativa, premindo, muito simplesmente, o botão de paragem de emergência, desligando ambas as linhas de produção da fábrica.

Os trabalhadores saíram da fábrica. Nessa mesma tarde, a administração suplicava-lhes que voltassem ao trabalho e abrissem negociações. A produção foi, de fato, retomada nesse dia. Mas os trabalhadores haviam formulado a sua reivindicação inicial: um aumento salarial de 800 renminbis por mês, correspondente a um aumento de 50% para os trabalhadores permanentes.

Mais exigências se seguiram: a “reorganização” do sindicato oficial da empresa, que na prática não oferecia qualquer apoio à luta dos trabalhadores, bem como a readmissão de dois trabalhadores despedidos. Aquando das negociações, os trabalhadores saíram novamente para a rua, e, após uma semana de greve, todas as fábricas de montagem da Honda na China tinham fechado devido à falta de peças.

Entretanto, as notícias da greve de Nanhai começaram a gerar uma onda de agitação que se alastrou aos trabalhadores industriais de todo o país. As manchetes dos jornais chineses contaram a história: “Uma Onda é Maior que a Próxima, a Greve irrompe também na fábrica de Fechaduras da Honda”; “Onda de Greves em Dalian com 70 Mil Participantes, Afetando 73 Empresas, Termina Com Aumentos Salariais na Ordem dos 34,5%”; “Greves Salariais na Honda São um Choque para o Modelo de Fabricação Barata.” Em cada greve, a principal reivindicação foi a de aumentos salariais, embora em muitos casos tenham sido ouvidas exigências no sentido da reorganização sindical - um desenvolvimento político de grande importância.

Uma destas greves de contágio foi especialmente notável pela sua militância e organização. Durante o fim-de-semana de 19 a 20 de junho, um grupo de cerca de duzentos trabalhadores da Denso, uma
empresa de peças automóveis detida por particulares japoneses, fornecedora da Toyota, encontrou-se
secretamente para debater planos de ação. Nesta reunião, delinearam a estratégia dos “três
nãos”: durante três dias não haveria trabalho, exigências ou representantes.

Estes trabalhadores sabiam que interrompendo a cadeia de abastecimento, a fábrica de montagem da
Toyota seria obrigada a fechar numa questão de dias. Comprometendo-se a fazer greve durante três
dias sem exigências, previram perdas crescentes para as maiores cadeias de produção, tanto da Denso como da Toyota. O seu plano funcionou. Na segunda-feira de manhã, iniciaram a greve saindo da fábrica e impedindo a saída dos camiões da mesma. À tarde, outras seis fábricas na mesma zona industrial tinham fechado e, no dia seguinte, a falta de peças forçou ao encerramento da fábrica de montagem da Toyota.

No terceiro dia, tal como haviam planejado, os trabalhadores elegeram vinte e sete representantes
e entraram em negociações com a exigência central de um aumento salarial de 800 renminbis. Após três dias de conversações, onde o CEO da Denso, vindo do Japão, esteve envolvido, foi anunciada a
conquista do aumento salarial de 800 renminbis. Se o verão de 2010 foi caracterizado pela resistência
radical mas relativamente ordeira ao capital, o verão de 2011 gerou duas insurreições massivas contra o Estado.

Na mesma semana, em Junho de 2011, enormes
motins de trabalhadores agitaram as áreas fabris
suburbanas de Chaozhou e Guangszhou, em ambos
os casos conduzindo a uma alargada e altamente
direcionada destruição de propriedade. Na cidade
de Guxiang, Chaozhou, um trabalhador do Sichuan
exigindo a devolução de salários foi brutalmente
atacado por mercenários portadores de armas
brancas e pelo seu ex-patrão. Reagindo a isto,
milhares de outros migrantes começaram a
manifestar-se junto das instalações do governo
local, muitos dos quais haviam sofrido anos de
discriminação e exploração por parte de patrões
que trabalhavam em conluio com oficiais.

O protesto foi, supostamente, organizado por uma
“associação cidadã” de pessoas do Sichuan, vagamente
organizada - uma dessas organizações tipo
máfia que proliferam em ambientes onde a associação
livre não é permitida. Após terem cercado as
instalações governamentais, os migrantes rapidamente
dirigiram a sua fúria contra os residentes
locais, sentindo que estes os haviam discriminado.
Após terem incendiado dúzias de carros e saqueado
lojas, a polícia armada foi forçada a abafar o motim
e dispersar os locais que se haviam organizado em
grupos de vigilância.

Apenas uma semana mais tarde, uma insurreição
ainda mais surpreendente teve lugar nos subúrbios
de Guangzhou em Zengcheng. Uma mulher grávida
do Sichuan, apregoando mercadorias na rua, foi
abordada pela polícia e violentamente atirada ao
chão. Os rumores de que ela teria sofrido um aborto
em consequência da altercação começaram a circular
imediatamente entre os trabalhadores fabris da
zona; a veracidade ou não destes rumores rapidamente
se tornou irrelevante.

Enraivecidos por outro incidente de agressão
policial, os trabalhadores indignados amotinaram-se
por toda a parte em Zengcheng durante vários dias,
incendiando uma esquadra, enfrentando a polícia de
choque, e bloqueando uma autoestrada nacional.
Segundo relatos, outros migrantes do Sichuan da
área de Guangdong afluíram a Zengcheng para se
juntar aos motins. No final, o Exército de Libertação
Popular foi convocado para pôr um fim à insurreição,
disparando munições reais sob as pessoas que
protestavam. Apesar de o governo o negar, é
provável que tenha havido vítimas mortais.

Em apenas alguns anos, a resistência laboral
passou de defensiva a ofensiva. Incidentes aparentemente insignificantes desencadearam
insurreições em massa, indicativas da cólera generalizada.

E a continuada falta de mão-de-obra nas
áreas costeiras aponta para mudanças estruturais
mais profundas que provocaram, também elas,
mudanças na dinâmica das políticas laborais.
Tudo isto constitui um sério desafio ao modelo de
desenvolvimento baseado nas exportações e
repressão salarial que caracterizou a economia
política das regiões costeiras do sudeste chinês
durante mais de duas décadas. Por volta do fim da
onda de greves de 2010, os comentadores dos
media Chineses declaravam que a era do trabalho
barato tinha chegado ao fim.

Embora vitórias tão significativas sejam motivo de
otimismo, a despolitização enraizada significa que
os trabalhadores não podem extrair muita satisfação
das mesmas. Qualquer tentativa de articulação
de uma política explícita por parte dos trabalhadores
é instantaneamente esmagada efetivamente
pela Direita e pelos seus aliados estatais,
através da ameaça do espectro do “Senhor do
Desgoverno”: querem mesmo regressar ao caos da
Revolução Cultural?

Se no Ocidente “não há alternativa”, na China as
duas alternativas oficiais são uma tecnocracia capitalista
eficiente e sem obstáculos (a fantasia de
Singapura) ou uma violência política absoluta,
selvagem e profundamente irracional. Como resultado,
os trabalhadores submetem-se conscientemente
à segregação das lutas políticas e econômicas
imposta pelo Estado, apresentando as suas
reivindicações como econômicas, legais e de acordo
com a embrutecedora ideologia de “harmonia”. Agir
de outra maneira desencadearia uma dura
repressão estatal.

Talvez os trabalhadores consigam um aumento
salarial numa fábrica, seguros sociais noutra. Mas
esta espécie de insurgência dispersa, efémera e
não-subjetivada falhou na cristalização de formas
duradouras de organização contra-hegemônica,
capaz de coagir o Estado ou o capital ao nível da
classe.

O resultado é que, quando o Estado intervém em
nome dos trabalhadores - quer através do apoio de
reivindicações imediatas durante as negociações da
greve, quer através da aprovação de legislação que
vise a melhoria das suas condições materiais - a sua
imagem de “leviatã benevolente” é reforçada: agiu
de tal maneira não porque os trabalhadores assim o
exigiram, mas porque se preocupa com os “grupos
frágeis e em desvantagem” (assim são designados
os trabalhadores no léxico oficial).

No entanto é apenas através da separação
ideológica ao nível simbólico entre a causa e o efeito
que o Estado é capaz de manter a farsa de que os
trabalhadores são, de facto, “fracos”. Dado o relativo
sucesso deste projeto, a classe trabalhadora é
política, mas é alienada da sua própria atividade
política.

Migrantes – a nova classe trabalhadora
É impossível compreender como é que esta
situação se mantém sem entender a posição política
e social da atual classe trabalhadora. O trabalhador
chinês de hoje em dia está longe dos proletários
heróicos e hiper-masculinizados dos cartazes de
propaganda da Revolução Cultural. No setor público,
os trabalhadores nunca foram realmente “donos da empresa”, como é alegado pelo Estado. Mas era lhes garantido emprego duradouro e a sua unidade
de trabalho suportava também o custo de
reprodução social, providenciando habitação,
educação, assistência médica, pensões e até
serviços fúnebres e de casamento.

Nos anos 90, o governo central deu início a um
esforço massivo de privatização, redução ou cortes
da subsidiação de muitas empresas detidas pelo
Estado, o que conduziu a importantes deslocações
sociais e económicas na zona industrial do nordeste
chinês (“Rust Belt”). Embora as condições materiais
para os trabalhadores nas empresas ainda detidas
pelo Estado continuem a ser melhores em termos
relativos, hoje a gestão dessas firmas encontra-se
em crescente concordância com a lógica de maximização
de lucros.

De maior interesse imediato é a nova classe trabalhadora,
composta por migrantes rurais que acorreram
em massa às cidades do sudeste chinês (“Sun
Belt”). Com a transição para o capitalismo iniciada
em 1978, os agricultores obtiveram, a princípio,
bons resultados, uma vez que o mercado atribuía
preços mais elevados do que o Estado aos bens
agrícolas. Porém, em meados dos anos 80, estes
ganhos começaram a ser arrasados pela inflação
desenfreada, começando a população rural a
procurar novas fontes de rendimento. À abertura da
China à produção orientada para a exportação nas
regiões costeiras do sudeste, correspondeu a
transformação destes agricultores em trabalhadores
migrantes.

Ao mesmo tempo, o Estado descobriu que uma
série de instituições herdadas da economia de
comando eram úteis ao reforço da acumulação
privada. Entre estas, a que mais se destacava era o
sistema de registo de residência (hukou), que vinculava
os benefícios sociais do indivíduo a um determinado
local. O hukou é um instrumento de administração
complexo e cada vez mais descentralizado,
mas o aspeto a sublinhar é que institucionaliza uma
separação geográfica e social entre as atividades
produtivas e reprodutivas do trabalhador migrante -
entre a sua vida profissional e a sua vida doméstica
e familiar.

Esta separação modelou todos os aspetos das
lutas laborais dos trabalhadores migrantes. Os
migrantes jovens vão para as cidades trabalhar em
fábricas, restaurantes, locais de construção, para se
envolver na delinquência, vender comida nas ruas
ou ganhar a vida como trabalhadores sexuais.
Porém, o Estado nunca fingiu que estes migrantes
são formalmente iguais aos residentes urbanos, ou
que são bem-vindos a longo prazo. Os migrantes
não têm acesso a nenhum dos serviços públicos a
que os residentes urbanos têm direito, incluindo
assistência médica, habitação e educação. Necessitam
de permissão oficial para estar na cidade, e
durante os anos 90, início dos anos 2000, houve
várias ocorrências de migrantes detidos, espancados
e “deportados” por não terem documentos.

Durante pelo menos uma geração, o principal objetivo
dos trabalhadores migrantes foi o de ganhar o
máximo possível de dinheiro antes de regressar à
sua aldeia, com 20 e poucos anos, para casar e
constituir família.

Outras disposições formais asseguram que os
migrantes não sejam capazes de ter uma vida na
cidade. O sistema de seguros sociais (incluindo seguros de saúde, pensões, seguro de desemprego,
seguro de maternidade e seguro de acidentes no
trabalho) é organizado ao nível municipal. Isto
significa que os migrantes que têm a sorte suficiente
de possuir um seguro social suportado pela
entidade empregadora - uma pequena minoria -
pagam por um sistema ao qual jamais terão acesso.
Se as pensões não são transferíveis, porque é que
um migrante exigiria o seu aumento? As reivindicações
dos trabalhadores focam-se muito racionalmente,
portanto, nas questões salariais mais
imediatas.

Assim, subjetivamente, os migrantes não se
referem a si próprios como “trabalhadores”, nem
pensam em si como pertencendo à “classe trabalhadora”.
São, isso sim, mingong, ou trabalhadorescamponeses,
e dedicam-se a “vender trabalho”
(dagong), ao invés de terem uma profissão ou
carreira. O carácter temporário desta relação com o
trabalho é, talvez, a norma sob o signo do capitalismo
neoliberal, mas as taxas de rotação em muitas
fábricas chinesas são surpreendentes, excedendo
muitas vezes os 100% por ano.

As implicações para a dinâmica da resistência laboral
têm sido enormes. Por exemplo, há poucos registos
de lutas relacionadas com a duração do dia de
trabalho. Porque é que os trabalhadores quereriam
passar mais tempo numa cidade que os rejeita? O
“equilíbrio entre vida profissional e vida pessoal”
inerente a este tipo de discurso nada significa para
um trabalhador migrante de 18 anos labutando
numa fábrica suburbana de Shanghai. Na cidade, os
migrantes vivem para trabalhar - não no sentido de
auto-realização mas no sentido literal. Se um trabalhador
assume que está apenas a ganhar dinheiro
para eventualmente o levar de volta para casa, há
poucas razões (ou oportunidades) para pedir mais
tempo na cidade.

Outro exemplo: todos os anos, imediatamente
antes do Ano Novo Chinês, o número de greves no
sector de construção explode. Porquê? Este feriado
é a única altura do ano em que a maior parte dos
migrantes regressa às suas terras de origem, e é
geralmente a única altura em que podem ver os
seus familiares, muitas vezes incluindo cônjuges e
filhos. Os trabalhadores do sector de construção
são geralmente pagos apenas quando um projeto é
terminado, mas o não-pagamento de salários tem
sido endémico desde a desregulação da indústria
nos anos 80. A ideia de regressar à terra-natal de
mãos a abanar é inaceitável para os trabalhadores,
uma vez que a única razão pela qual partiram para
a cidade foi a promessa de salários marginalmente
mais altos. Daí as greves.

Por outras palavras, os trabalhadores migrantes
não têm tentado ligar as lutas na esfera da
produção a lutas relativas a outros aspetos da sua
vida ou problemas sociais mais vastos. Encontram-se
separados da comunidade local e não têm
qualquer direito a falar enquanto cidadãos. As
reivindicações salariais não se multiplicaram em
reivindicações por menos tempo de trabalho, por
melhores serviços sociais, ou por direitos políticos.

Deslocação das indústrias para a China central e ocidental

O capital, entretanto, tem confiado em vários métodos
comprovados para melhorar a rentabilidade. No
espaço da fábrica, o maior desenvolvimento dos
últimos anos será, certamente, sombriamente familiar aos trabalhadores americanos, europeus ou
japoneses: o crescimento explosivo de vários tipos
de trabalho precário, incluindo trabalhadores
temporários, estudantes estagiários e, sobretudo,
“trabalhadores temporários.”

Os trabalhadores temporários são empregados
diretamente por uma empresa contratante - muitas
das quais são detidas pelas agências de emprego
locais - que depois os “enviam” para os locais onde
serão postos a trabalhar. Isto tem o efeito óbvio de
obscurecer a relação de emprego e melhorar a flexibilidade
para o capital. O trabalho temporário
constitui agora uma enorme percentagem da força
de trabalho (muitas vezes superior a 50% num
dado local de trabalho) numa amostra incrivelmente
diversa de indústrias, incluindo indústrias de transformação,
energia, transportes, operações
bancárias, assistência médica, saneamento, e
serviços. A tendência emergiu em empresas
estrangeiras e internas privadas, empreendimentos
conjuntos e empresas detidas pelo estado.

No entanto, a grande história dos últimos anos tem sido a da deslocação do capital industrial das regiões costeiras para a China central e ocidental. Há enormes consequências sociais e políticas que
ocorrem deste “ajuste geográfico”, concedendo à classe trabalhadora uma nova e potencialmente
transformadora série de possibilidades. A realização ou não destas possibilidades é obviamente uma
questão que só poderá ser resolvida na prática. O caso da Foxconn, a maior empregadora privada
da China, é instrutivo neste aspeto. A Foxconn mudou-se do seu local de origem na Tailândia para
a costeira Shenzhen há mais de uma década, mas na sequência dos suicídios de trabalhadores em
2010 e do continuado escrutínio público do seu ambiente laboral altamente militarizado e alienante,
é agora forçada a mudar-se uma vez mais. A empresa encontra-se atualmente no processo de
redução da sua força de trabalho em Shenzen, tendo construído novas instalações massivas nas
províncias do interior. As duas maiores situam-se nas capitais de província Zhengzhou e Chengdu.
Não é difícil compreender o poder de atração que o interior exerce sobre tais companhias. Embora os
salários em Shenzhen e outras áreas costeiras continuem a estar bastante abaixo dos padrões
globais (menos de 200 dólares por mês), os salários nas províncias do interior como Henan,
Hubei e Sichuan podem atingir quase metade desse valor. Muitos empregadores assumem também, e
talvez corretamente, que mais migrantes se encontrarão disponíveis perto da fonte de origem, e um
mercado de trabalho menos regulado tem também vantagens políticas imediatas para o capital.

Também esta é uma história familiar do capitalismo: o historiador do trabalho Jefferson Cowie identificou um processo de trabalho semelhante na história da “procura de 70 anos por trabalho barato” da industrial de eletrÔnica RCA - uma procura que levou a companhia de Nova Jérsia para o Indiana, de Indiana para o Tennessee e, finalmente, do Tennessee para o México.

Se a região costeira chinesa facultou condições
sociais e políticas extremamente favoráveis ao capital
transnacional nas duas últimas décadas, as
coisas serão diferentes no interior. O antagonismo
entre trabalho e capital poderá ser universal, mas o
conflito de classes avança no terreno das particularidades Então quais são as particularidades do interior chinês, e porque poderão elas constituir razão para
um otimismo cauteloso? Enquanto que os migrantes
nas regiões costeiras são necessariamente
temporários - e as suas lutas, portanto, efémeras -
no interior têm a possibilidade de estabelecer uma
comunidade resistente e duradoura. Teoricamente,
isto significa que há uma maior possibilidade de
fundir as lutas nas esferas da produção e da
reprodução, algo que não era possível quando estas
duas arenas se encontravam geograficamente
separadas.

Consideremos a problemática do hukou, o registo
de residência. As enormes megalópoles do leste
para as quais os migrantes acorreram em massa no
passado têm restrições muito fortes na obtenção de
residência local. Mesmo os trabalhadores em cargos
de administração e gestão com graus académicos
poderão ter dificuldades em obter um hukou em
Pequim.

Porém, as cidades mais pequenas no interior colocaram a fasquia muito mais baixa na obtenção de residência local. Apesar de ser assumidamente especulativo, vale a pena refletir nas mudanças que este fator pode trazer às dinâmicas de resistência laboral. Se antes a suposta trajetória de vida do migrante era a de ir trabalhar para a cidade durante uns anos para ganhar dinheiro antes de regressar a casa e começar uma família, os trabalhadores no interior poderão ter em seu poder uma perspetiva bem diferente. Subitamente já não estão apenas a “trabalhar”, mas também a “viver” num determinado lugar.

Isto implica que os migrantes se encontrarão muito
mais propensos à instalação permanente nos seus
locais de trabalho. Quererão encontrar cônjuges, ter
a sua própria habitação, ter filhos, mandá-los para a
escola - em suma, dedicar-se à reprodução social.
Anteriormente, os empregadores não eram obrigados
a pagar aos trabalhadores migrantes um salário
que lhes permitisse sobreviver condignamente, não
havendo quaisquer pretensões de que isto devesse
ser esperado, sendo claro que os trabalhadores
regressariam às suas aldeias e aí se instalariam.
Mas no interior, os migrantes exigirão muito provavelmente
tudo aquilo que é necessário à condução de
uma vida decente - habitação, assistência médica,
educação, e alguma proteção contra os riscos de
desemprego e na velhice. Poderão também querer
tempo para si próprios e para a sua comunidade,
uma exigência que tem estado conspicuamente ausente até hoje.

Isto levanta a possibilidade da politização da
agitação laboral. Serviços públicos decentes nunca
foram uma expectativa realista dos migrantes na
costa. Porém, se conseguirem estabelecer direitos
de residência no interior, as reivindicações por
serviços sociais poderão facilmente generalizar-se,
concedendo a oportunidade de escapar ao isolamento
das lutas no local de trabalho. As reivindicações
de proteção social são, por natureza, mais
propensas a ser direcionadas ao estado do que a
empregadores individuais, estabelecendo a base
simbólica para um confronto passível de generalização.
Embora seja fácil romancear a corajosa e por vezes
espetacular resistência dos trabalhadores
migrantes, a realidade é que a resposta mais frequente às más condições de trabalho tem sido
simplesmente a demissão e procura de um novo
emprego, ou mesmo o regresso a casa. Também
isto se poderá alterar se trabalharem onde vivem.
Estas novas condições poderão ser propícias à
resistência e luta dos migrantes pela comunidade e
na comunidade, ao invés de simplesmente
procederem à fuga.

A biografia dos trabalhadores no interior poderá
também apresentar oportunidades para uma
militância reforçada. Muitos destes migrantes têm
experiência prévia de trabalho e luta em regiões
costeiras. Trabalhadores mais velhos poderão
carecer da paixão militante da juventude, mas a sua
experiência em lidar com patrões exploradores e os
seus aliados estatais poderá ser um recurso de
valor inestimável.

Finalmente, os trabalhadores terão recursos
sociais mais alargados ao seu dispor. Em grandes
cidades costeiras, seria pouco provável que
conseguissem granjear a simpatia dos residentes
locais, um facto tornado dolorosamente claro nos
motins de Guxiang. No interior, porém, os trabalhadores
poderão ter a família e os amigos perto,
pessoas que não estão apenas predispostas a
tomar o partido do trabalho mas que poderão
depender de forma muito direta do aumento dos
salários e melhoria dos serviços sociais. Este facto
concede a possibilidade de expandir as lutas para
além do local de trabalho, incorporando problemas
sociais mais alargados.

Novas oportunidades para a classe trabalhadora chinesa

Poderá haver quem na Esquerda seja acérrimo defensor da resistência permanente em e por si mesma. E a disposição formal de conflitos de classe que tem prevalecido na China tem causado consideráveis ruturas na acumulação de capital.

Mas os trabalhadores são alienados da sua própria atividade política. Uma assimetria profunda existe: os trabalhadores resistem intermitentemente e sem qualquer estratégia, enquanto que o Estado e o capital reagem a esta crise de forma autoconsciente e coordenada.

Até ver, esta fragmentada e efémera forma de luta tem sido incapaz de produzir qualquer mossa considerável nas estruturas básicas do partido único e da sua ideologia dominante. E o capital, enquanto tendência universal, tem provado a sua habilidade na subjugação de particularidades de militância vezes sem conta.

Se a resistência laboral militante força simplesmente o capital a destruir uma classe trabalhadora e a produzir uma outra (antagonista) em qualquer outro lugar, poderemos realmente considerar isto uma vitória? A nova fronteira da acumulação de capital apresenta à classe trabalhadora chinesa oportunidades para o estabelecimento de formas de organização mais resistentes, capazes de expandir o domínio da luta social e de formular amplas reivindicações políticas. Mas até isso acontecer, permanecerá meio passo atrás do seu - e nosso - antagonista histórico.

Nota:

[1] Não é imediatamente perceptível porque é que os empregadores raramente recorrem à utilização dos fura-greves. Uma explicação possível é que o governo não apoiaria tal medida, uma vez que poderia aumentar tensões e conduzir a violência ou maiores rupturas sociais. Outro fator poderá ser, muito simplesmente, a curta duração das greves (raramente duram mais do que um ou dois dias), uma vez que os grevistas não têm o apoio institucional de um sindicato e são muitas vezes submetidos a pressões intensas por parte do Estado. O resultado é que talvez haja menos precisão de fura-greves por parte dos empregadores.

Eli Friedman é professor assistente no Departamento de Trabalho Internacional e Comparado da Universidade de Cornell, nos Estados Unidos.

24 de agosto de 2012

Nunca esqueça

A questão é Bradley Manning, não o casamento gay

Por John Pilger

Na semana em que Barack Obama recebeu o Prémio Nobel da Paz, em 2009, ele ordenou ataques de bombardeamento sobre o Iémen, matando um número confirmado de 63 pessoas, 28 das quais crianças. Quando Obama anunciou recentemente que apoiava o casamento do mesmo sexo, aviões americanos estraçalhavam 14 civis afegãos. Em ambos os casos, o assassínio em massa não era novidade. O que importava eram as cínicas vacuidades de uma celebridade política, produto de um espírito de época conduzido pelas forças do consumismo e dos media com o objectivo de desviar a luta pela justiça social e económica.

A concessão do Prémio Nobel ao primeiro presidente negro por ele "oferecer esperança" era tanto absurda como uma expressão autêntica do estilo liberal que controla grande parte do debate político no ocidente. O casamento entre o mesmo sexo é uma de tais distracções. Nenhuma "questão" desvia a atenção com tanto êxito como esta: não o voto livre no Parlamento sobre a redução de idade de consentimento gay promovido pelo conhecido libertário e criminoso de guerra Tony Blair; nem as fendas em "telhados de vidro" que em nada contribuem para a libertação das mulheres e simplesmente ampliam as exigências do privilégio burguês.

Obstáculos legais não deveriam impedir pessoas de se casarem umas com as outras, pouco importando o género. Mas isto é um assunto civil e privado; a aceitabilidade burguesa ainda não é um direito humano. Os direitos associados historicamente com o casamento são os da propriedade: o próprio capitalismo. Elevar o "direito" de casamento acima do direito à vida e à justiça real é tão sacrílego como procurar aliados entre aqueles que negam a vida e a justiça a muitos, desde o Afeganistão até a Palestina.

Conversão damascena

Em 9 de Maio, horas antes da sua damascena declaração sobre casamento do mesmo sexo, Obama enviou mensagens a doadores da campanha tornando clara a sua nova posição. Ele pedia dinheiro. Em resposta, segundo o Washington Post, sua campanha recebeu um "fluxo maciço de contribuições". Na noite seguinte, com os noticiários agora dominados pela sua "conversão", ele compareceu a uma festa de levantamento de fundos na casa de Los Angeles do actor George Clooney. "Hollywood", relatou a Associated Press, "é o lar para alguns dos mais famosos apoiantes do casamento gay e os 150 doadores que estavam a pagar US$40 mil para comparecer ao jantar de Cloooney sem dúvida sentir-se-ão estimulados pelo anúncio decisivo de Obama no dia anterior". Espera-se que a festa de Clooney arrecade um recorde de US$15 milhões para a reeleição de Obama e será seguida por "mais outra festa para levantamento de fundos em Nova York patrocinada pelos apoiantes gay e latinos de Obama".

A espessura de um papel de cigarro separa os partidos Democrata e Republicano sobre políticas económica e externa. Ambos representam os super ricos e o empobrecimento de uma nação da qual milhões de milhões de dólares do fisco foram transferidos para uma indústria de guerra permanente e para bancos que são pouco mais do que empresas criminosas. Obama é tão reaccionário e violento quanto George W. Bush e sob certos aspectos é até pior. A sua especialidade pessoal é utilizar os drones Hellfire armados com mísseis contra pessoas indefesas. Sob a cobertura de uma retirada parcial de tropas do Afeganistão, ele enviou forças especiais dos EUA para 120 países onde são treinados esquadrões da morte. Ele ressuscitou a velha guerra fria em duas frentes: contra a China na Ásia e com um "escudo" de mísseis destinados à Rússia. O primeiro presidente negro presidiu o encarceramento e vigilância do maior número de pessoas negras do que os que estavam escravizados em 1850. Ele tem perseguido mais denunciantes – que contavam a verdade – do que qualquer dos seus antecessores. O seu vice-presidente, Joe Biden, um ardente belicista, chamou o editor da WikiLeaks, Julian Assange, de "terrorista hi-tech". Biden também se converteu à causa do casamento gay.

Bradley Manning

Um dos verdadeiros heróis da América é o soldado gay Bradley Manning, o denunciante que alegadamente proporcionou à WikiLeaks gigantesca quantidade de provas da carnificina americana no Iraque e no Afeganistão. Foi a administração Obama que caluniou a sua homossexualidade como anormal e foi o próprio Obama quem declarou como culpado um homem não condenado por qualquer crime.

Quem entre os bajuladores e actores na festa do dinheiro de Clooney, em Hollywood, gritou: "Recordem Bradley Manning"? Que eu saiba, nenhum eminente porta-voz dos direitos dos gay manifestou-se contra a hipocrisia de Obama e Biden que afirmam apoiar o casamento do mesmo sexo enquanto aterrorizam um homem gay cuja coragem deveria ser uma inspiração para todos, pouco importando as preferências sexuais.

O feito histórico de Obama como presidente dos Estados Unidos foi silenciar o movimento anti-guerra por justiça social associado ao Partido Democrata. Tal deferência para com um extremismo oculto e corporificado num astuto operador amoral trai a rica tradição de protesto popular nos EUA. Talvez o movimento Occupy siga, como dizem, esta tradição, talvez não.

A verdade é que aquilo que importa para os que aspiram controlar nossas vidas não é o pigmento da pelo ou o género, ou se somos gay ou não, mas a classe a que servimos. Os objectivos são assegurar que olhemos para dentro de nós mesmos, não para fora, os outros, e que colaboremos no isolamento daqueles que resistem. Este desgaste de criminalizar, brutalizar e banir o protesto também pode facilmente transformar as democracias ocidentais em estados de terror.

Dia 12 de Maio, em Sydney, Austrália, terra da Terça-feira Gorda de Carnaval dos Gay e Lésbicas, um desfile de protesto em apoio do casamento gay encheu o centro da cidade. A polícia olhou-o benevolentemente. Era uma vitrina de liberalismo. Três dias depois, houve uma marcha para assinalar a Nakba ("A Catástrofe"), o dia de luto em que Israel expulsou palestinos da sua terra. Mas uma proibição policial tinha de ser anulada pelo Tribunal Supremo.

Esta é a razão porque o povo da Grécia deve ser a nossa inspiração. Pela sua própria experiência penosa eles sabem que a sua liberdade só pode ser recuperada enfrentando, o Banco Central alemão, o Fundo Monetário Internacional e os seus próprios quislings em Atenas. Povos por toda a América Latina alcançaram isto: os indignados da Bolívia que despediram os privatizadores da água e os argentinos que disseram ao FMI o que fazer com a sua dívida. A coragem de desobedecer foi a sua arma. Recordem Bradley Manning.

John Pilger é jornalista. Sua carreria como repórter começou em 1958, e ao longo dos anos tornou-se famoso pelos livros e documentários que escreveu ou produziu. Apesar das tentativas de setores mais conservadores para ridicularizar e desvalorizar Pilger, o seu jornalismo investigativo já mereceu vários galardões na área do jornalismo, tais como a atribuição, por duas vezes, do prêmio jornalista inglês do ano, e na área dos dos Direitos Humanos.

14 de agosto de 2012

Um canhão no cu

A primeira operação que efetua o terrorista econômico sobre sua vítima e a do terrorista convencional, a do tiro na nuca.

Por Juan José Millás

[El Pais] Se percebemos bem – e não é fácil, porque somos um pouco estúpidos –, a economia financeira está para a economia real assim como o senhor feudal está para o servo, como o amo está para o escravo, como a metrópole está para a colônia, como capitalista manchesteriano está para o operário superexplorado. A economia financeira é o inimigo de classe da economia real, com a qual brinca como um porco ocidental com corpo de uma criança num bordel asiático. Esse porco filho da puta pode, por exemplo, fazer com que a tua produção de trigo se valorize ou desvalorize dois anos antes de a teres semeado. Na verdade, pode comprar-te, sem que tu saibas da operação, uma colheita inexistente e vendê-la a um terceiro, que a venderá a um quarto e este a um quinto, e pode conseguir, de acordo com os seus interesses, que durante esse processo delirante o preço desse trigo quimérico dispare ou se afunde sem que tu ganhes mais caso suba, ainda que vás à merda se baixar. Se o baixar demasiado, talvez não te compense semear, mas ficarás endividado sem ter o que comer ou beber para o resto da tua vida e podes até ser preso ou condenado à forca por isso, dependendo da região geográfica em que tenhas caído, ainda que não haja nenhuma segura. É disso que trata a economia financeira.

Para exemplificar, estamos a falar da colheita de um indivíduo, mas o que o porco filho da puta geralmente compra é um país inteiro e ao preço da chuva, um país com todos os cidadãos dentro, digamos que com gente real que se levanta realmente às seis da manhã e se deita à meia-noite. Um país que, da perspectiva do terrorista financeiro, não é mais do que um tabuleiro de jogos no qual um conjunto de bonecos Playmobil andam de um lado para o outro como se movem os peões no Jogo da Glória.

A primeira operação do terrorista financeiro sobre a sua vítima é a do terrorista convencional: o tiro na nuca. Ou seja, retira-lhe todo o carácter de pessoa, coisifica-a. Uma vez convertida em coisa, pouco importa se tem filhos ou pais, se acordou com febre, se está a divorciar-se ou se não dormiu porque está a preparar-se para uma competição. Nada disso conta para a economia financeira ou para o terrorista económico que acaba de pôr o dedo sobre o mapa, sobre um país, este no caso, pouco importa, e diz "compro" ou diz "vendo" com a impunidade com que aquele que joga Monopólio compra ou vende propriedades imobiliárias a fingir.

Quando o terrorista financeiro compra ou vende, converte em irreal o trabalho genuíno de milhares ou milhões de pessoas que antes de irem para a labuta deixaram no infantário público, onde ainda existem, os seus filhos, também eles produto de consumo desse exército de cabrões protegidos pelos governos de meio mundo mas superprotegidos, é claro, por essa coisa a que temos chamado de Europa ou União Europeia ou, mais simplesmente, Alemanha, para cujos cofres são desviados neste preciso momento, enquanto lê estas linhas, milhares de milhões de euros que estavam nos nossos cofres.

E não são desviados num movimento racional, justo ou legítimo, desviam-se num movimento especulativo promovido por Merkel com a cumplicidade de todos os governos da chamada zona euro. Tu e eu, com a nossa febre, os nossos filhos sem infantário ou sem trabalho, o nosso pai doente e sem ajudas, com os nossos sofrimentos morais ou as nossas alegrias sentimentais, tu e eu já fomos coisificados por Draghi, por Lagarde, por Merkel, já não temos as qualidades humanas que nos tornam dignos da empatia dos nossos semelhantes. Somos agora mera mercadoria que pode ser expulsa do lar de idosos, do hospital, da escola pública, tornámo-nos algo desprezível, como esse pobre tipo a quem o terrorista, por antonomásia, está prestes a dar um tiro na nuca em nome de Deus ou da pátria.

A ti e a mim, estão a pôr nos carris do comboio uma bomba diária chamada prémio de risco, por exemplo, ou juros a sete anos, em nome da economia financeira. Avançamos com rupturas diárias, massacres diários, e há autores materiais desses atentados e responsáveis intelectuais dessas acções terroristas que passam impunes entre outras razões porque os terroristas vão a eleições e até ganham, e porque há atrás deles importantes grupos mediáticos que legitimam os movimentos especulativos de que somos vítimas.

A economia financeira, se começamos a perceber, significa que quem te comprou aquela colheita inexistente era um cabrão com os documentos certos. Terias tu liberdade para não vender? De forma alguma. Tê-la-ia comprado ao teu vizinho ou ao vizinho deste. A actividade principal da economia financeira consiste em alterar o preço das coisas, crime proibido quando acontece em pequena escala, mas encorajado pelas autoridades quando os valores são tamanhos que transbordam dos gráficos.

Aqui alteram o preço das nossas vidas a cada dia sem que ninguém resolva o problema, pior, enviando as forças da ordem contra quem tenta fazê-lo. E, por Deus, as forças da ordem empenham-se a fundo na protecção desse filho da puta que te vendeu, por meio de um roubo autorizado, um produto financeiro, ou seja, um objecto irreal no qual tu investiste as poupanças reais de toda a tua vida. O grande porco vendeu-lhe fumaça com o amparo das leis do Estado que são as leis da economia financeira, já que estão ao seu serviço.

Na economia real, para que uma alface nasça, há que semeá-la e cuidar dela e dar-lhe o tempo necessário para se desenvolver. Depois, há que a colher, claro, e embalar e distribuir e facturar a 30, 60 ou 90 dias. Uma quantidade imensa de tempo e de energia para obter uns cêntimos que terás de dividir com o Estado, através dos impostos, para pagar os serviços comuns que agora nos são retirados porque a economia financeira tropeçou e há que tirá-la do buraco. A economia financeira não se contenta com a mais-valia do capitalismo clássico, precisa também do nosso sangue e está nele, por isso brinca com a nossa saúde pública e com a nossa educação e com a nossa justiça da mesma forma que um terrorista doentio, passe a redundância, brinca enfiando o cano da sua pistola no rabo do seu sequestrado.

Há já quatro anos que nos metem esse cano pelo rabo. E com a cumplicidade dos nossos.

Juan José Millás é um escritor espanhol. Alcançou a consagração literária com a obra "El desorden de tu nombre". Em 1990 obteve o prêmio Nadal com "La soledad era esto". Nasceu em Valencia em 1946 e reside em Madrid desde os seis anos de idade. Atualmente, Millás alterna a sua dedicação literária com numerosas colaborações na imprensa. É professor da Escuela de Letras de Madrid desde a sua fundação.

10 de agosto de 2012

A guerra da OTAN contra a Iugoslávia foi baseada em mentiras

A Alemanha entrou na guerra contra a Jugoslávia, com pretextos fabricados. A confissão sensacional do policial alemão Henning Hentz que serviu na OSCE no Kosovo na década de 1990 confirmou isso.

Timur Blokhin e Vukotic Iovanna

Voice of Russia

Tradução / O motivo em análise é que as fotografias tiradas por Hentz no final de janeiro 1999 foram utilizadas pelo então Ministro da Defesa alemão Rudolf Scharping para justificar a interferência imediata da NATO no conflito do Kosovo. Ele apresentou as fotografias dos militantes mortos em Rugovo como sendo fotos de vítimas inocentes albaneses.

O que realmente aconteceu no Kosovo no final de janeiro de 1999, vários meses antes de a OTAN lançar sua operação contra a Iugoslávia?

De acordo com fontes sérvias, mais de duas dezenas de terroristas do Exército de Libertação do Kosovo (ELK) foram mortos em Rugovo, enquanto a mídia ocidental insistiu que pelo menos nove das vítimas eram civis. Especialmente, o New York Times que escreveu com a referência a um comandante local, que havia apenas quatro militantes do ELK na aldeia e não sabia nada sobre as outras pessoas. A 29 de janeiro o representante da missão da OSCE, Henning Hentz, estava em Rugovo e compartilhou as suas impressões da visita com a correspondente Iovanna Vukotic (Voz da Rússia) que dá uma imagem real do que aconteceu. Ali ele confirmou que isso não tinha nada a ver com a morte de civis albaneses.

“Nós descobrimos 25 corpos, incluindo 11 num veículo e alguns outros perto do veículo. Vários outros corpos estavam deitados num celeiro que foi usado como garagem. O território em volta do celeiro estava coberto de neve, porém não havia vestígios. Eu pensei que os corpos tivessem sido levados para lá a partir de outro local, e muito provavelmente, um dia antes do confronto entre a polícia sérvia e militantes do ELK”, disse Henning Hentz.

Na época, o ministro da Defesa alemão, Rudolf Scharping, mostrou apenas algumas das fotos tiradas por Henning Hentz e por algum motivo disse que aquelas haviam sido tiradas por um oficial alemão. Ignorando deliberadamente as fotos que mostravam claramente os cadáveres dos militantes do ELK. Assim, Scharping conseguiu convencer o público de que “os maus”, ou sérvios, mataram novamente albaneses inocentes e provocaram uma onda de refugiados, disse Hentz.

“Para os alemães, isto significava que estariam envolvidos numa operação militar pela primeira vez depois do fim da Segunda Guerra Mundial. A minha impressão é que a situação do Kosovo, foi exagerada. Quando visitei o Kosovo, não havia necessidade de os albaneses deixarem as suas casas em massa. O verdadeiro êxodo começou com o início do bombardeamento. A maior parte do relatório sobre a situação do Kosovo era exagerado e estava sempre contra os sérvios “, acrescentou Henning Hentz.

A limpeza étnica no Kosovo foi usada como pretexto para bombardear a Iugoslávia. E o incidente na aldeia de Rugovo mostra uma vez mais que a campanha de relações públicas contra Belgrado foi organizada utilizando falsificações óbvias. Alegadamente, a NATO começou a pensar numa invasão após o assassínio de 40 civis albaneses em Rachak. No entanto, especialistas que estudaram os relatórios forenses concluíram que não havia provas de que os cadáveres eram de civis, e que eles haviam sido mortos por soldados sérvios.

Esta tecnologia está a ser usada até ao presente. Dando como exemplo, as fotos tiradas no Iraque, em 2003, são usados em transmissões de notícias para mostrar a morte de civis sírios. O efeito dramático das imagens é alcançado com o recurso a programas de edição de imagem. Por exemplo, uma família síria a caminhar nas ruas de uma qualquer cidade, a foto é mostrada com um fundo de edifícios em ruínas. Em última análise o efeito necessário é alcançado. No século XIX, um proeminente poeta russo, Kozma Prutkov, disse: Se leres “bufalo” na placa da jaula de um elefante, por favor, não acredites nisso. Na verdade, no século XIX, não havia tecnologia para fazer uma mosca de um elefante, nem um genocídio de um assassinato contratado.

6 de agosto de 2012

A ciência do genocídio

Por Chris Hedges

Neste mesmo dia em 1945, os Estados Unidos demonstraram estar falidos em termos morais, como a máquina nazista que tinha sido há pouco conquistada e o regime soviético com o qual tinham sido aliados. Sobre Hiroshima, e três dias depois sobre Nagasaki, explodiram um dispositivo atômico, a arma de genocídio mais eficiente da história humana. A explosão matou milhares de homens, mulheres e crianças. Foi um ato de aniquilação em massa indesculpável tanto estratégica quanto militarmente. Os japoneses estavam à beira de se renderem. Hiroshima e Nagasaki não tinham importância militar. Foi um crime de guerra pelo qual ninguém foi jamais julgado. As explosões, que foram o ponto culminante de três séculos de física, assinalaram a ascendência do técnico e do cientista como os nossos mais potentes agentes de morte.

“Na Segunda Guerra Mundial, Auschwitz e Hiroshima mostraram que o progresso através da tecnologia fez escalar os impulsos destrutivos do ser humano numa forma mais precisa e incrivelmente mais devastadora”, disse Bruno Betttelheim. “Os campos de concentração com suas câmaras de gás, a primeira bomba atômica… nos confrontaram com a dura realidade da morte esmagadora, não tanto a própria morte – esta, cada um de nós deve enfrentar, mais cedo ou mais tarde e, por mais inquietante, a maioria entre nós consegue manter sob controle seu próprio medo – mas a desnecessária e intempestiva morte de milhões de pessoas... O progresso não somente fracassou em preservar a vida, como privou milhões de pessoas de suas vidas, mais eficazmente que tinha sido possível antes. Quer reconheçamos isso ou não, depois da Segunda Guerra Mundial, Auschwitz e Hiroshima se tornaram monumentos da incrível devastação que o homem e a tecnologia juntos produziram

A explosão atômica, detonada para, em grande medida, enviar uma mensagem à União Soviética, era um lembrete de que a ciência é moralmente neutra. Ciência e tecnologia servem as ambições da humanidade. E poucos nas ciências enxergam além das pequenas tarefas que lhes são estipuladas por corporações ou governos. Eles empregam suas artes obscuras, com frequência cegamente quanto às consequências, para cimentar sistemas de segurança e controle, assim como sistemas de destruição ambiental que resultarão em escravização coletiva e extermínio em massa. Se quisermos nos desviar do colapso ambiental, devemos nos opor a muitos desses experts, cientistas e técnicos cuja lealdade é para com instituições que lucram com a exploração e a morte.

Durante as cinco últimas décadas, cientistas e técnicos nos Estados Unidos construíram 70.000 armas nucleares a um custo de US$5,5 trilhões. (A União Soviética tinha um arsenal nuclear com capacidade similar.) Até 1963, segundo Seymour Melman, professor da Columbia University, os EUA tinham capacidade de aniquilar as 140 principais cidades da União Soviética mais de 78 vezes. Ainda assim, continuamos a manufaturar ogivas nucleares. E aqueles que questionavam publicamente a racionalidade desse acúmulo nuclear maciço, como J. Robert Oppenheimer, que no laboratório do governo de Los Alamos, Novo México, tinha supervisionado a construção das duas bombas usadas no Japão, eram com frequência e zelosamente perseguidos, com o pretexto de serem comunistas ou simpatizantes do comunismo. Tratava-se um plano de guerra que pressupunha um ato calculado de enorme e criminoso genocídio. Construímos mais e mais bombas com o único propósito de matar milhões e milhões de pessoas. E aqueles que as construíram, com poucas exceções, nunca pararam para pensar em suas criações suicidas.

“O que pensar de uma civilização que sempre considerou a ética como uma parte essencial da vida humana [mas] que não foi capaz de falar sobre a perspectiva de matar quase todo mundo, exceto em termos prudenciais ou em termos teóricos de jogo?” Oppenheimer perguntou depois da Segunda Guerra Mundial.

Max Born, o grande físico e matemático britânico-alemão que foi fundamental no desenvolvimento da mecânica quântica, em suas memórias deixou claro que desaprovava o trabalho de Oppenheimer e de outros físicos que construíram as bombas atômicas. “É gratificante ter tido pupilos tão espertos e eficientes”, Born escreveu, “mas eu gostaria que eles tivessem mostrado menos esperteza e mais sabedoria”. Oppenheimer respondeu ao seu velho professor. “No decorrer dos anos, senti uma certa desaprovação de sua parte pelo meu trabalho. Isso sempre me pareceu bastante natural, já que se trata de um sentimento que compartilho.” Mas, é claro, era tarde demais.

Foram a ciência, a indústria e a tecnologia que tornaram possível a matança em escala industrial do século XX. Essas forças ampliaram a inata barbárie humana. Elas serviram o imoral. E há muitos cientistas que continuam a trabalhar em laboratórios em todo o país, em sistemas de armamentos que têm a capacidade de exterminar milhões de seres humanos. Será esse um empreendimento “racional”? Será que é moral? Será que ele faz avançar a espécie humana? Será que ele protege a vida?

Para muitos de nós, a ciência suplantou a religião. Acalentamos uma fé primitiva no poder divino da ciência. Como o conhecimento científico é cumulativo, embora moralmente neutro, isso dá a ilusão de que a história e o progresso humanos também sejam cumulativos. A ciência é, para nós, o que os totens e as fórmulas encantatórias eram para nossos ancestrais pré-modernos. É pensamento mágico. Alimenta nossa arrogância e senso de direito divino. E confiar no seu terrível poder significará nossa extinção.

O mito do Iluminismo do século XVII do progresso humano através da ciência, razão e racionalidade deveria ter sido obliterado para sempre, com a carnificina da Primeira Guerra Mundial. Os europeus testemunharam o suicídio coletivo de uma geração. As visões mais sombrias da natureza humana foram materializadas nas obras de Fyodor Dostoevsky, Leo Tolstoy, Thomas Hardy, Joseph Conrad e Frederick Nietzsche, antes que a guerra encontrasse sua expressão moderna no trabalho de Sigmund Freud, James Joyce, Marcel Proust, Franz Kafka, D.H. Lawrence, Thomas Mann e Samuel Beckett, juntamente com os compositores atonais e dissonantes como Igor Stravinsky e pintores como Otto Dix, George Grosz, Henri Matisse e Pablo Picasso. Esses artistas e escritores compreenderam que o progresso humano era uma piada. Mas houve muitos mais que adotaram entusiasticamente as novas visões utópicas de progresso e glória, propagadas por fascistas e comunistas. Esses sistemas de crença desafiavam a realidade. Fetichizaram a morte. Procuraram utopias inalcançáveis por meio da violência. E capacitados pela ciência e tecnologia, mataram milhões de pessoas.

Os motivos humanos são muitas vezes irracionais e, como notou Freud, contêm poderosos anseios de morte e autoimolação. A ciência e a tecnologia potencializaram e ampliaram os desejos de guerra, violência e morte. O conhecimento não liberou a humanidade da barbárie. O verniz civilizado apenas mascarou as ânsias sombrias e rudimentares que afligem todas as sociedades humanas, inclusive a nossa. Freud temia o poder destrutivo desses impulsos. Ele advertiu em “A Civilização e seus Discontentes” que se não conseguíssemos regular ou conter esses impulsos, os seres humanos, assim como os estoicos previram, se consumiriam numa ampla conflagração. O futuro da raça humana depende de nomear e controlar esses impulsos. Fingir que eles não existem é cair na auto-ilusão.

O colapso do controle social e político durante os períodos de tumulto político e econômico faz com que esses impulsos passem a reinar supremos. Nossa primeira inclinação, como Freud observou corretamente, é não nos amarmos como irmãos e irmãs, mas “satisfazer [nossa] agressividade contra [o nosso próximo], para explorar sua capacidade de trabalhar sem recompensa, para usá-lo/a sexualmente sem seu consentimento, agarrar suas posses, humilhá-lo/a, causar-lhe dor, torturá-lo/a e matá-lo/a”. A guerra na Bósnia, com a violência das milícias sérvias, campos de estupro, centros de tortura, campos de concentração, cidades arrasadas e execuções em massa, foi um dos numerosos exemplos da sabedoria de Freud. Freud sabia que, na melhor das hipóteses, podemos aprender a conviver com isso, regular e controlar nossas tensões e conflitos interiores. A estrutura das sociedades civilizadas estaria sempre repleta dessa tensão interior, ele escreveu, porque “… o instinto natural agressivo do homem, a hostilidade de cada um contra todos e de todos contra cada um, opõe este programa de civilização”. O fardo da civilização vale a pena. A alternativa, como Freud sabia, é a autodestruição.

Um mundo racional, um mundo que protegerá o ecossistema e construirá economias que aprendam a distribuir a riqueza, em vez de permitir que uma elite predatória a concentre, nunca será desenvolvido por cientistas ou técnicos. Quase todos eles trabalham para o inimigo. Mary Shelley nos advertiu quanto a nos tornarmos Prometeu, enquanto procuramos desafiar o fado e os deuses no domínio da vida e da morte. Seu Victor Frankenstein, quando sua criação de 8 pés de altura, feito em parte de pedaços de corpos retirados de sepulturas, veio sinistramente à vida, teve a mesma reação que Oppenheimer, quando o cientista americano descobriu que sua bomba tinha incinerado escolares japoneses. O cientista Victor Frankenstein viu o “enfadonho olho amarelo” que sua criatura abriu e um “esbaforido horror e repugnância” preencheu seu coração”. Oppenheimer disse, depois da primeira detonação da bomba atômica no deserto do Novo México: “Lembrei dos versos da escritura hindu, o Bhagavad-Gita. Vishnu tentando persuadir o Príncipe de que ele deveria fazer seu dever e, para impressioná-lo, toma sua forma de múltiplos braços e diz: ‘Agora me tornei a Morte, o destruidor dos mundos’. Suponho que todos nós pensamos nisso alguma vez”. O crítico Harold Bloom, com palavras que poderiam ser aplicadas a Oppenheimer, chamou Victor Frankenstein de “um idiota moral”.

Todas as tentativas de controlar o universo, de se fazer passar por Deus, de nos tornarmos os árbitros da vida e da morte, têm sido executadas por idiotas morais. Eles incansavelmente fazem avançar, exploram e saqueiam, aperfeiçoando suas terríveis ferramentas de tecnologia e ciência, até que suas criações os destroem e nos destroem. Eles fazem as bombas nucleares. Eles extraem petróleo das areais betuminosas. Eles transformam as Apalaches em terrenos baldios para extrair carvão. Eles servem os males do globalismo e das finanças. Eles operam o setor dos combustíveis fósseis. Eles inundam a atmosfera com emissões de carbono, destroem os oceanos, derretem as calotas polares, fazem desencadear as secas e as enchentes, as ondas de calor, as tempestades anômalas e os furacões.

Agora me tornei a Morte, o destruidor de mundos.

Chris Hedges escreve regularmente coluna no blog Truthdig. Formou-se na Harvard Divinity School e foi durante quase duas décadas correspondente no exterior do The New York Times. É autor de muitos livros, incluindo: War Is A Force That Gives Us Meaning, What Every Person Should Know About War, e American Fascists: The Christian Right and the War on America. Seu livro mais recente é Empire of Illusion: The End of Literacy and the Triumph of Spectacle.

hris Hedges, "The Science of Genocide", Truthdig, Aug 6, 2012.

2 de agosto de 2012

Que fazer... agora?

Andrew Levine [*]

CouterPunch: Tell the Facts and Names the Names

Tradução / Em uma de suas colunas finais para CounterPunch (6-8 de julho de 2012), Alexander Cockburn gentilmente nos censurou, inclusive ele próprio, por termos nos lançado ao mar na esperança de investir nos movimentos do Occupy e outros protestos espontâneos de 2011. Muitos de nós – eu inclusive – estávamos tão empolgados pelos entusiasmo do momento que esquecemos algumas verdades bem estabelecidas. Como tantas vezes antes, as palavras de Cockburn deram voz ao que eu, juntamente com muitos outros, já tínhamos percebido, mas ainda não estávamos prontos para articular. Agora, no entanto, não há desculpa, chegou a hora de recordar o básico. Esse foi o ponto defendido por Cockburn. É, portanto, à sua memória que dedico esta apreciação de um dos mais castigados, mas também um dos clássicos maiores e mais relevantes do pensamento político.

Cerca de onze décadas se passaram desde a publicação de “Que fazer?”, de Vladimir Lênin. Esse panfleto notável – na verdade, um pequeno livro – foi uma intervenção política centrada nas questões que confrontavam o movimento social-democrata russo no início do século XX. Muito de seu conteúdo é peculiar ao tempo e ao local de sua elaboração.

Há, portanto, um sentido em que, a cada ano que passa, ele se torna cada vez mais anacrônico. Mesmo assim, não é apenas a questão posta no título do panfleto que permanece atual. Pois, embora não concebido como um tratado teórico, era evidente desde o início que ele pode ser lido como um todo e que, nessa qualidade, pode ser enormemente esclarecedor.

Ironicamente, isso nunca foi mais verdadeiro do que é agora, e não apenas em partes do mundo que, como a Rússia, em 1903, estão comparativamente “para trás.” A esquerda nos Estados Unidos de hoje, o que existe dela, faria bem se levasse em conta os princípios fundamentais do texto – adaptado, é claro, às circunstâncias que hoje enfrentamos.

O mais básico desses princípios é que, para uma mudança política fundamental, liderança e direção são indispensáveis. Para colocar a questão de uma forma que parece irremediavelmente anacrônica: massas insurgentes precisam de uma vanguarda revolucionária.

Revoltas e rebeliões estiveram sempre conosco, e será assim por muito tempo, enquanto durarem a injustiça e a opressão. Mas, para resultarem numa mudança real, surtos espontâneos de resistência não podem permanecer para sempre espontâneos.

Lênin escreveu como um revolucionário se dirigindo a revolucionários, num momento em que a Revolução Francesa era ainda o caso paradigmático. O entendimento comum, naquela época, era de que as revoluções – transformações fundamentais de instituições sociais, políticas e econômicas –, começam com a tomada do poder do Estado por meios insurrecionais (violentos). Onze décadas depois, há séria dificuldade em imaginar essa espécie de revolução na agenda de qualquer democracia liberal, muito menos na dos Estados Unidos.

Mas mudanças fundamentais nas estruturas básicas da sociedade – “mudanças de regime”, no sentido literal, não no sentido neoconservador da expressão – não estão fora de questão, mesmo nos Estados Unidos. “Um mundo melhor é possível” não é um tema vazio, apesar dos todos os esforços das correntes que moldam a opinião pública para transmitir a impressão de que ele o é.

A proposição de Lênin era que, sem uma organização revolucionária, moldada e informada pela teoria revolucionária, não pode haver prática revolucionária com êxito. Isso vale tanto para as transformações pacíficas – mas não obstante fundamentais – de estruturas institucionais básicas, quanto para os tipos de sublevações para as quais são emblemáticos “momentos revolucionários”, como a tomada da Bastilha ou do Palácio de Inverno.

Isso parece correto, especialmente à luz dos acontecimentos recentes – a partir da resistência no início de 2011 ao abuso republicano em Wisconsin e em outros lugares até os movimentos Ocuppy dos últimos outono e inverno. Parece certo que também vieram à luz a trajetória da primavera árabe contemporânea.

A ideia básica não é realmente específica do pensamento de Lênin ou mesmo das tradições maiores, marxistas e jacobinas, da onde o “leninismo” deriva. É um princípio de todos os esforços sérios para pensar através da dinâmica de mudança fundamental na era moderna.

Por que, então, descrevê-lo invocando o nome de uma figura histórica que caiu em menosprezo em todo o mundo? Isto é particularmente verdadeiro nos Estados Unidos, onde “Lênin” é um nome que os estadunidenses foram instruídos a insultar.

Uma razão é que “Que fazer?”, como todos os textos clássicos da teoria política, transmite ideias oportunas, não obstante o fato de que, como todos os outros, é uma criatura de seu tempo e lugar.

Nenhum clássico do pensamento político ocidental está mais ligado do que O Príncipe, de Maquiavel, a um mundo que já ficou muito longe. No entanto, todos entendem que, por sua autoridade, é útil e justo usar a palavra “maquiavélico” para descrever figuras políticas e posições de hoje. Ocorre o mesmo com “Que Fazer?”. Estes e outros textos canônicos são artefatos históricos, mas isso não é tudo o que eles são.

A razão mais importante é que a forma como uma posição política é descrita é em si um ato político. Na década de 1980, como foi se tornando cada vez mais obscuro o que é “marxismo” e como intelectuais públicos reacionários – “novos filósofos”, na França, neo-conservadores, nos Estados Unidos – fizeram o maior esforço para levar o marxismo ao descrédito, e num momento em que Ronald Reagan tagarelava acerca de “impérios do mal” enquanto ele próprio causava morte e destruição entre os povos da América Central, E. P. Thompson, o grande historiador da classe trabalhadora inglesa, quando perguntado se ainda era marxista, disse, em essência, que nas circunstâncias presentes a decência comum exigia que ele dissesse "sim".

É assim que é, hoje, com Lênin.

Nossa mídia identifica a política com disputas eleitorais e, para simplificar (e emburrecer) ainda mais, põe códigos de cor nos competidores – democratas são azuis, republicanos são vermelhos. Essas descrições se tornaram parte do vernáculo de nossa política.

É involuntariamente revelador que, quando falamos das cores identificadas com as tendências políticas, onde vermelho e preto e, do outro lado, branco e marrom figuram com destaque e onde azul não significa nada, que o nosso principal partido de esquerda tenha migrado tanto para a direita que a cor usada pela mídia para designá-lo, na medida em que podemos imputar um significado para ele, faz pouca justiça aos Democratas.

É ainda mais revelador que o nosso discurso político tenha ficado hoje tão degradado que os republicanos se deleitam em ser chamados de vermelhos. Ou assim é porque eles são ignorantes da história, incluindo a história do seu próprio partido tingido de vermelho, ou então esta é apenas uma faceta da vida do que Gore Vidal apropriadamente chama Estados Unidos da Amnésia.

Seja qual for o caso – e, uma vez que falamos de pessoas que há muito tempo deixaram de fazer sentido, ambas as hipóteses podem ser verdadeiras – é apropriado invocar o nome e o espectro do líder da Revolução Bolchevique, um vermelho verdadeiro, apenas para irritá-los.

E o que poderia ser mais salutar do que desafiar o farisaísmo afetado dos eleitores azuis com uma dose de política real, ou, mais precisamente, de teoria política lúcida.

E assim, no espírito de E. P. Thompson, eu diria que a simples decência exige que, onde a designação seja apropriada, deve-se usar o nome leninista, sempre que possível. Não só ele é substancialmente correto; melhor ainda, ele vai irritar aqueles que mais merecem ser irritados.

Em “Que Fazer?”, Lênin elaborou longamente sobre o que considerava ser a estrutura ideal de organização e postura estratégica do partido de vanguarda que ele queria construir. É por esse aspecto principalmente que “Que fazer?” é conhecido. Mas, novamente, o pensamento de Lênin sobre essas questões, por toda a sua atenção ao detalhe, era apenas uma variante, adequada às condições locais, da ideia geral de que, para que uma mudança fundamental seja possível, é preciso que haja uma força organizada que se dedique a fazê-la acontecer.

Por ter assumido a ideia de uma vanguarda política, o leninismo se tornou um ponto de referência nos debates entre marxistas e, nos debates entre marxistas e anarquistas e anarco-sindicalistas, a variante leninista veio a ser identificada com a visão mais geral. Esta é mais uma razão para adotar a designação, que chama o nosso discurso político a-histórico e despolitizado para mais perto da verdadeira história da esquerda.

Em círculos de esquerda, o termo “leninista” foi às vezes valorizado, às vezes, depreciado. Como tudo na política, dependeu das circunstâncias. Mas a contestação a respeito do nome, bem como sobre a ideia que o nome indicava, deu origem a confusão – particularmente nas circunstâncias em que os ativistas em grupos “espontaneístas” (ou groupuscules) reivindicaram para si uma identidade leninista. No rescaldo das erupções mundiais de 1968, esse tipo de confusão era comum na Europa Ocidental e, em menor medida, nos Estados Unidos.

Hoje, naturalmente, os debates sobre vanguardismo parecem arcaicos. É tentador dizer que isso acontece, porque o mundo que deu origem ao debate que não existe mais. No entanto, dizê-lo seria um grande erro.

Na política, como na psicologia individual, há sempre a perspectiva do que Freud chamou de “retorno do reprimido”. Isso é o que explica os acontecimentos de tipo “abalar o mundo” em 2011. O juri está ainda por vir sobre o que ocorrerá a partir dessas erupções. Mas, como deixou claro Cockburn, já passou mais de metade de 2012 e elas não estão com boa aparência.

Aqui, nos Estados Unidos, com uma eleição presidencial afundada em dinheiro acontecendo, uma disputa entre dois candidatos que poucos podem adotar e muito menos endossar, exceto para razões de mal menor –, e com uma série de eleições para cargos inferiores que são, na sua maior parte, igualmente pouco promissoras –, a situação é especialmente terrível.

O problema geral é que o outro lado – Lênin diria "o lado capitalista"; em 2011, essa designação foi corretamente substituída por “o 1%” – é organizado. Ele tem o Estado para atender suas demandas, o que Marx chamou de um “comitê executivo” da classe dominante inteira. Nessas circunstâncias, “os 99%” não têm escolha senão responder, da melhor maneira possível, na mesma moeda, fazendo o possível para constituir um comitê executivo rival.

Esta é uma reivindicação geral e abstracta – sobre as estruturas políticas (na verdade, instituições coercitivas legitimadas) nas sociedades divididas em classes. Estados reais nas sociedades capitalistas admitem muitas variações sobre o tema geral. Eles podem responder mais ou menos aos interesses de alguns ou de todos os 99%.

O que eles não podem fazer, se Lênin e Marx e os pensadores que neles se apóiam estão certos, é liderar um processo que transforme as estruturas básicas econômicas, sociais e políticas que eles supervisionam. Estados capitalistas podem ser mais ou menos malignos, mas não podem se revolucionar.

Hoje em dia, estados capitalistas comparativamente beneficentes, do tipo que ainda sobrevivem em grande parte do oeste e norte da Europa, parecem muito bons quando vistos desde os EUA, apesar dos esforços incansáveis ​​de políticos e especialistas de mídia para denegri-los. Os acontecimentos de 2011 foram sobre direitos de negociação dos sindicatos e crescente desigualdade. Embora não mais na ofensiva, a democracia social europeia e as suas semelhantes em outros lugares se sairam bem nesses acertos de contas.

Nós também fizemos isso, é claro, até final dos anos 1970, quando uma série de presidentes democratas se encarregou de implementar o ataque “bipartidário” ao New Deal e às instituições da Grande Sociedade, o que é comumente associado ao nome desse reacionário injustamente célebre, Ronald Reagan.

Jimmy Carter manteve o curso, Reagan e seus acólitos republicanos (idiotas todos) acreditaram naquilo, e Bill Clinton e Barack Obama o completaram. Alguém poderia pensar que os republicanos ficariam gratos. Mas eles estão muito focados em vencer as eleições para mostrar reações normais.

Na verdade, eles estão de tal modo focados em ganhar que não está ainda claro se eles agem tendo em mente os melhores interesses de seus patrões. Para sua sorte, os plutocratas donos deles são tão densos e tão gananciosos (curto prazo) que nem notam, nem se importam!

Acordos constitucionais que asseguram que “nós, o povo” somos consultados apenas em intervalos periódicos de dois e quatro anos têm um papel a desempenhar no fiasco que agora aflige nossa cultura política. Assim também faz o nosso sistema partidário duopólico, composto de duas partes igualmente dedicadas aos interesses do 1%. E não devemos deixar de fora a maneira desavergonhada como o 1% compra influência política, em violação das normas democráticas, mas de acordo com a lei da terra, conforme determinado (“legislado”) por cinco juízes de direita da Suprema Corte.

Mesmo assim, antes que a nossa classe política e seus charlatões da mídia começassem a explorar as ansiedades geradas pelos ataques ao World Trade Center e ao Pentágono, nosso Estado era (relativamente) fraco. As vidas e comportamentos dos indivíduos eram em geral livres de interferência do Estado e imunidades legais e habituais que protegiam a liberdade de expressão e de atividade política. Essa é ainda a maior parte do cenário, apesar das depredações dos dois presidentes fora da lei que sofremos desde 9/11/2001.

Mas nosso Estado esteve sempre entre os mais fortes, garantindo que os poderes e privilégios de 1% (ou melhor, a fração de um por cento dos que realmente comandam o espetáculo) permaneçam imunes à contestação real. A esse respeito, a nossa foi sempre uma democracia excepcionalmente não-democrática.

Enquanto a necessidade de uma vanguarda política – não necessariamente, na verdade não idealmente, do tipo proposto por Lênin – é geral, a urgência de algo que pudesse servir a esse propósito em nossas circunstâncias é particularmente urgente. Vivemos em uma democracia liberal com um componente liberal que continua bastante robusto. Mas, nos últimos anos, o componente democrático, nunca muito forte, recuou até quase o ponto de extinção.

Nessas circunstâncias, a via eleitoral para mudança e esperança – não apenas para uma ordem social e econômica radicalmente transformada, mas até apenas para uma ordem mais decente no quadro dos arranjos políticos, econômicos e sociais existentes – está mais do que habitualmente fora do alcance.

Essa é a verdadeira lição das eleições de 2008. Obama pode ser incapaz, e ele tem certamente decepcionado quase todo mundo que abrigou qualquer esperança em sua Presidência. Ele poderia ter feito muito melhor. Mas a ideia de que ele poderia começar a fazer o que alguns dos seus apoiadores imaginaram que ele faria era ilusória desde o início. Não é preciso ser um leninista de carteirinha para saber isso, mas os leitores sérios de “Que Fazer?” não poderiam deixar de notar – ou entender o porquê.

Se os movimentos Ocuppy se esgotarem inteiramente, como Cockburn previu, isto vai ilustrar o argumento de Lênin. Por um tempo, eles deram vida nova ao espontaneísmo. Na verdade, a falta de liderança ajudou nisso. Mas, finalmente, chegou a um ponto em que a escolha foi colocada: dar um salto quântico no modelo vanguardista que rejeitaram ou desaparecer. Uma vez que a primeira hipótese não aconteceu e quase certamente não acontecerá, esperemos que,conforme sumam na memória histórica, alguns elementos dos movimentos Ocuppy possam ser transformados em um legado útil.

O fracasso da resistência contra o abuso de governadores reacionários, como Scott Walker, do Wisconsin, ilustra esse ponto também. Mas, embora esses movimentos, ao contrário dos movimentos Ocuppy que se seguiram, fossem apenas defensivos, eles são ainda mais reveladores. Deixam claro o “excepcionalismo americano”, que torna a indicação geral de Lênin ainda mais urgente para nós.

O caso de Wisconsin é especialmente instrutivo. Em democracias mais democráticas do que a nossa, uma mobilização espontânea da espécie que se desenvolveu na primavera de 2011 teria forçado uma crise política que forçaria o governo ou a recuar ou a cair. Nossas instituições não permitem que governos caiam.

No máximo, elas permitem que funcionários sejam demitidos. Em Wisconsin, destituir o governador e o vice-governador não era legalmente possível durante os meses após os protesto, porque, de acordo com a constituição do estado, os governantes não podem ser demitidos antes de terem cumprido pelo menos um ano de mandato.

E, assim, a mobilização espontânea ou poderia ter crescido, o que era impossível sem uma teoria “revolucionária” e uma prática a guiá-la, ou então, desembocar em um circo eleitoral habitual, com um democrata disputando com o governador republicano.

Assim que chegaram a esse ponto, todas as patologias habituais de nosso sistema eleitoral pipocaram. Em vez de apelar aos “independentes” que Obama e seus co-pensadores tanto lutam para agradar, os democratas foram para a disputa com o mais anódino dos candidatos. Enquanto isso, os doadores republicanos inundaram Walker com dinheiro, enquanto os democratas em nível nacional (Obama mais visivelmente) não poderiam sequer aparecer. Por isso, Walker ganhou. O poder do povo poderia tê-lo derrubado apesar de tudo, mas, no momento da decisão, esse impulso já tinha sido degradado demais pelas operações normais de nossas instituições políticas.

Pode-se dizer que houve uma alternativa debatida no momento – rejeitar uma solução “política” (eleitoral) e no lugar dela convocar uma greve geral. Isso foi uma perspectiva muito assustadora, no entanto, ninguém sabia o que adviria dela.

Se fosse tentada, teria certamente dividido as forças insurgentes, porque os democratas teriam feito todo o possível para anular o esforço. Os legisladores democratas em Madison eram imensamente melhores do que aqueles comprados e pagos na Washington de Obama. Eles se preocupavam com os servidores públicos. Democratas do Senado estadual foram tão longe que chegaram a sair do estado para não formar quorum para os republicanos manterem o que Walker faziam com os direitos sindicais. Mas a primeira preocupação de todos os democratas, mesmo os bons, é sustentar os poderes constituídos. Para eles, apoiar uma greve geral, portanto, teria sido impensável.

O caso de Wisconsin mostrou claramente no quão débil se tornou a política eleitoral nos Estados Unidos. Para ver se resta qualquer vida nos movimentos Ocuppy, observemos como ele se dissipa enquanto a eleição de 2012 se aquece.

Para aqueles que sabem a mensagem de “Que fazer?”, o remédio é claro: é preciso construir uma liderança que seja capaz de fazer a mudança acontecer quando o tempo surgir novamente, e isso certamente acontecerá.

O problema agora, como sempre, é de que modo ir daqui até lá. Esse foi o problema que Lênin dirigiu para seu tempo e lugar. Na Rússia, em 1903, ele teve de lidar com um Estado muito mais repressivo do que nós em 2012.

Mas, com todos os meios que os 1% têm agora à disposição para formar opinião e sufocar a dissidência, os obstáculos que enfrentamos são pelo menos tão assustadores. O caminho a seguir não será fácil. Mas não vamos chegar a lugar nenhum a não ser que tentemos.Os movimentos Ocuppy mostraram que a mudança real é possível, que o material humano necessário para fazer isso acontecer está aí. Mostraram que “nós, o povo,” o suficiente de nós de qualquer maneira, estamos preparados para acordar e resistir.

Quando isso acontecer novamente, pois certamente vai acontecer, devemos estar preparados. Esta é talvez a lição mais importante que podemos aprender com “Que fazer?”.

Aplicar as recomendações de Lênin mecanicamente, em circunstâncias muito diferentes das que ele afrontou, jamais fez sentido, embora segmentos da esquerda continuassem por décadas a fazer isso. O que deveriam ter feito e o que ainda podemos fazer, é aplicar os princípios centrais de “Que fazer?” às condições que realmente existem.

Então, na próxima vez que a agressão da classe dominante ou as obscenas iniquidades geradas pelo capitalismo atual irromperem, a resistência terá pelo menos uma possibilidade de gerar uma mudança duradoura e benéfica – não a mudança de tipo prostibular que alguns eleitores iludidos imaginaram que ia resultar de Obama, e não do tipo fugaz e ilusório que os movimentos Ocuppy produziram em seus momentos de glória, mas uma mudança real.

[*] Andrew Levine é bolsista sênior do Institute for Policy Studies e autor de The American Ideology (Routledge) e Political Key Words (Blackwell), bem como de muitos outros livros e artigos em filosofia política. Seu livro mais recente: In Bad Faith: What’s Wrong With the Opium of the People. Ele foi professor (filosofia) da Universidade de Wisconsin-Madison e um Professor Pesquisador (Filosofia) da Universidade de Maryland, College Park. Ele contribuiu com Hopeless: Barack Obama and the Politics of Illusion (AK Press).