21 de setembro de 2012

Colonialismo da mente

Dady Chery


"Intelectuais sempre foram cortesãos. Eles sempre viveram no palácio." 
Pier Paolo Pasolini

Jornalistas ocidentais estão cada vez mais roubando a voz dos nativos dos países subjugados, enquanto os amordaça-os negando-lhes acesso a imprensa. Nos EUA, os veículos mais conhecidos da imprensa alternativa, sites de notícias como Truthout, Common Dreams e The Huffington Post são absolutamente vedados para escritores nativos de povos subjugados. Este colonialismo da mente é rampante quando se trata do Haiti.

Inspecione a imprensa alternativa dos EUA à procura de notícias sobre o Haiti. Você encontrará artigos assinados por Beverly Bell, Mark Weisbrot, Robert Naiman, Jane Regan, Noam Chomsky, Stephen Lendman e outros, e não vai encontrar um único nome haitiano. Ocidentais têm tendências políticas próprias, reservam para eles o direito de comandar o mundo; e o direito de dar lições aos nativos ignorantes é parte do direito de comandar o mundo.

A atual guerra contra o Haiti é uma guerra econômica e de propaganda que exige o uso liberal do dinheiro de ajuda “humanitária”, para minar a cultura e a agricultura do Haiti. Essa guerra não seria possível sem uma campanha simultânea de desinformação, para persuadir o público dos EUA, do Canadá e da Europa de que o dinheiro deles beneficia o Haiti. Esta é a tarefa dos altos sacerdotes do jornalismo. Eles promovem a agenda neoliberal e encapsulam a desinformação que lhes cumpre distribuir, sob a forma de linguagem que parece racional e progressista.

Sobre um tema depois do outro, norte-americanos que falam pelo Haiti espertamente repetem e repetem os “tópicos para noticiário” [talking points] que são pensados e redigidos para viabilizar políticas neocolonialistas. O trabalho desses profissionais ditos “alternativos” e “independentes” é muito mais insidioso que o da grande imprensa dominante, porque a grande imprensa dominante é limitada à editorialização das mentiras. Nas mãos dos colonizadores da mente, a desinformação se torna uma doce letal: uma pílula de cianureto revestida com açúcar de esquerda, quase todo ele recolhido de publicações menos visíveis de escritores não reconhecidos.

Culpar a tempestade tropical Isaac

Considere, por exemplo, o artigo publicado em Truthout sob o título de “Capitalismo de desastre em New Orleans e no Haiti”, no qual Beverly Bell, que dirige várias organizações não governamentais (ONG) e integra o corpo de acionistas editores de Truthout promoveu dois pontos de discussão dominante sobre Haiti:

  1. Espera-se um ressurgimento maciço da cólera devido a tempestade tropical Isaac.
  2. Espera-se fome intensa devido a tempestade tropical Isaac.

Antes do artigo dela, os mesmos tópicos haviam sido intensivamente repetidos por Michel Martelly, pela ONU e pelo governo dos EUA, com o objetivo de atrair novas levas de dinheiro de ajuda. O primeiro tópico é infundado; o segundo, é absolutamente falso. Mais razoável é assumir que as vastas quantidades de água potável de chuva, que a tempestade trouxe, poderiam ajudar a prevenir, em vez de promover, qualquer “ressurgência massiva” do cólera. Quanto à produção agrícola do Haiti, caiu 20% em 2011 e espera-se que desabe em 2012, por causa das políticas da USAID, e praticamente sem nenhuma ajuda de qualquer desastre natural.

Os dois “tópicos para noticiário” – repetidos no artigo de Bell – são, na verdade, a razão de ser do artigo: foi escrito para repetir aqueles “tópicos” e implantá-los na chamada “opinião pública”. O resto é “decoração”, metáforas de história, cultura e política copiadas do ensaio “New-Orleans & Port-au-Prince: Two Tales Of Government Failures”] publicado dois anos antes por Gilbert Mercier no News Junkie Post.

Convido o leitor a comparar os dois artigos e aprender a reconhecer a estratégia de incorporar itens de desinformação dentro de um texto que parece ser verdadeiro e progressiva.

O mesmo tópico para noticiário – sem qualquer fundamento científico – que liga o cólera e a tempestade tropical Isaac e repetido também por Mark Weisbrot em “Tempestade Tropical Isaac avança para o Haiti e fará aumentar o número de casos de cólera quando lá chegar” [“Tropical Storm Isaac Heads for Haiti, Likely to Leave a Spike in Cholera in its Wake”]. O Sr. Weisbrot é conhecido no Haiti e na América Latina e co-diretor da ONG [Center for Economic and PolicyResearch (CEPR)].

"A doença dos pobres": os haitianos como os anti-higiênicos

As previsões acima, sobre a tempestade tropical Isaac, não foram a primeira campanha a culpar o surto de cólera por qualquer coisa que não fosse a fonte real. Quando o cólera apareceu pela primeira vez no Haiti, em outubro de 2010, a doença, que com certeza era bem conhecida das autoridades norte-americanas e da ONU, porque começou entre tropas da ONU, foi imediatamente atribuída às terríveis condições de falta de higiene em que viviam os haitianos mais pobres; e, assim, previa-se que se convertesse em epidemia, sobretudo nos campos de desabrigados.

Em 18 de novembro de 2010, a CNN escreveu:

"A falta de água potável tratada, juntamente com as práticas de má higiene das mãos e de preparação de alimentos, torna as 1,3 milhão de pessoas que ainda vivem nos campos particularmente vulneráveis, segundo recente estudo publicado pelo Centro de Prevenção e Controle de Doenças (CPCD) dos EUA... 
O CPCD disse que a cepa da bactéria do cólera responsável é “impossível de distinguir” de outra encontrada em outras partes do planeta, inclusive no sul da Ásia, mas os pesquisadores não têm ideia de como chegou ao Haiti."

Cerca de um mês depois, Beverly Bell incorporou- as declarações:

"A semana passada trouxe condições perfeitas para um pico no número de doentes de cólera – que os Parceiros para a Saúde [Partners in Health] chamam de “a doença dos pobres” que impacta os que não recebem água potável segura... Porque os encarregados da higiene e limpeza não conseguiam chegar aos campos, os vasos sanitários e o lixo acumulou-se a extremos terríveis... As chuvas esporádicas durante a semana passada, além do mais, fizeram alastrar-se a água e os esgotos contaminados, vetores perfeitos para a doença."

O entusiasmo para culpar os pobres por seu infortúnio foi decorado com a linguagem apaixonada que apareceu para defender os pobres e condenar suas condições de vida. Na verdade, as previsões de cólera eram infundadas. O surto de cólera no Haiti foi mais grave, não nos campos de Port-au-Prince - o local dos mais pobres dos pobres -, mas em uma região rural intocada que haviam sido contaminados pelos resíduos de soldados nepaleses de uma base da ONU.

Jamais houve qualquer fundamento para a predição de que o cólera tornar-se-ia epidêmico no Haiti, e ainda não há qualquer base para prever se a epidemia aumentará ou se continuará indefinidamente. Em abril de 2012 o Dr. Renaud Piarroux argumentou que o cólera no Haiti poderia estar erradicado em apenas poucos meses. E como Cuba mostrou, um surto de cólera pode ser controlado em apenas 60 dias, com educação adequada, vigilância epidemiológica, assistência, e fornecimento de água potável.

Of all the campaigns to undermine Haitian culture, the one to discredit restavek adoption — in which a biological parent collaborates with a respected adult to care for a child — enjoys the most zealous support from the west’s non-governmental organizations (NGO) and alternative press. This campaign reached fever pitch after Haiti’s Prime Minister called a moratorium on foreign adoptions in late January 2010 to prevent the removal of children from the country during the confusion that followed the January 12 earthquake.

Haitians unworthy of their children

Talking point: Haitian adoptive parents are, without exception, child abusers.

Reuters had this to say on February 2, 2010.

“Deeply ingrained in the culture of the impoverished former slave colony, the practice of poor families giving away children to wealthier acquaintances or relatives is known in the native Creole as ‘restavek,’ from the French words rester avec, or ‘to stay with.’ 
“Critics call it slavery. 
“The children, they said, are taken in as servants, forced to work without pay, isolated from other children in the household and seldom sent to school.”

The New York Times continued on February 25, 2010 with a video introduced by the caption:

“Even before the earthquake, one option for Port-au-Prince’s homeless children was Restavek, an underground system that some call foster care, and others call child slavery. Now their numbers swell.”

Note the deft language from Reuters and NYT to suggest that Haitians are child slavers without saying so outright:

“Critics call it slavery”/“others call child slavery.”

Meaning: we, of course, would never claim anything so outrageous.

By contrast, the alternative press’ Council on Hemispheric Affairs (COHA) expounded in July 2010:

“In the most impoverished country in the hemisphere, adults regularly view children as economic commodities, which make them highly vulnerable to the perils of trafficking.”

Beverly Bell, who directs several NGO and claims the defense of Haitian children to be one of her main causes, wrote in a Huffington Post article titled “A Second Slave Rebellion in Haiti: What’s the Worth of a Haitian Child”:

“One of the many effects of poverty in Haiti is that desperate parents regularly give away their children in the hope that the new family will feed and educate the children better than they themselves can. Instead, the children usually end up as child slaves, or restavek. In a country which overthrew slavery in 1804, today anywhere from 225,000 to 300,000 children live in forced servitude. They work from before sunup to after sundown, are often sexually and physically abused, and usually go underfed and uneducated.”

The message is clear: it is desirable, even admirable, to snatch Haitian children from a culture of abuse in adoptive Haitian families.

Thus, as the Native-American and many other cultures were undermined by removing children from their families, today a project is underway to dismantle Haiti’s culture by shipping its youngest citizens, at a rate of 2,000 children per year, to foreign adoptions. This project is only possible because of a disinformation campaign that is most strident in the alternative press.

Haiti’s child abusers and traffickers

It would have been right and proper to mention, in any article during 2010 on the maltreatment of Haitian children, that Laura Silsby and nine other American Baptist missionaries were in jail in Haiti for attempting to traffic to the Dominican Republic 33 Haitian children, 22 of whom had at least one living parent. Simultaneously in the United States, Catholic missionary Douglas Perlitz stood accused of the rape and psychological torture of 16 boys in a homeless shelter he had founded in Haiti.

The most shocking news came from Haitian Prime Minister Jean-Max Bellerive who publicly noted during an interview:

“There is organ trafficking for children and other persons also, because they need all types of organs.”

Such horrible abuse is possible because of a lack of follow up to Haiti’s international adoptions.

The same journalists who attacked Haitian adoption kept silent on these well-founded stories of child trafficking and abuse by westerners.

Real restavek adoption

As one who is familiar with restavek adoption, I can recommend the following descriptions by anthropologists as being accurate. Here is what Katherine Dunham (in: Island Possessed, University of Chicago Press, 1969) wrote.

“In Haiti parents of the peasant class love their children. They also love the children of everyone else and expect everyone to love their children. There exists a whole naming practice for ‘adopted’ children among the people themselves — Bienaimee, Dieudonne, Beinvenue, [Beloved, God-given, Welcomed-one] others representing affectionate regard. It is also remarkable in Haiti that there are not the roving bands of homeless young that one finds in other islands – Jamaica and Puerto Rico for instance. It is this care for the young that prompts parents when they are not able to feed all the children for whom they are responsible to seek homes for them. It seems best for all concerned to let one or more of the children out in semi-adoption to someone better placed…. The parent… would return to the country hoping for shoes, sufficient food and clothing, medical care, and eventually schooling for the child.”

Renowned anthropologist Melville J. Herskovits (in: Life in a Haitian Valley, Marcus Weiner Publishers, 1937) described the restavek system as follows:

“Quasi-adoption involves children, often of peasants…. To ‘give’ a person a child in this manner is in Mirebalais regarded as a token of friendship, and such children as were observed, though poorly clothed, were fed not much differently from the children of the families with which they were sent to live. When the ‘ti moun’ [child] grows older, he leaves and returns to his home…. Such a child repays the cost of keeping him by helping in the garden and by running errands.”

In my own family, where my mother served as a restavek and my aunt adopted a restavek, in each case a poorer woman placed a teenage girl with a woman of greater means — though not rich — whom she esteemed, and both women collaborated on the care and education of the child. The biological parent did not “give away” her child but lived in the same city, maintained contact with the child and could withdraw her from the situation at any time.

Could western adoptions ever withstand such transparency and uncertainty?

Representations of restavek as being “informal” or “underground” are disingenuous. According to Haitian law, only partial adoptions that allow the biological parents contact with their children were recognized in Haiti before June 2012, i.e. before the country became a signatory to the less-stringent Hague Convention. In other words, all foreign full adoptions from Haiti were illegal before summer 2012.

Many poor Haitians, my own mother included, have had their education, and their flight abroad to help wrest their families from poverty, sponsored by restavek adoption during their childhood. By linking Haitian rich to poor, and those at home to those abroad, in the care of children, this unconventional adoption system denies souls to the sweatshops and impedes neo-colonialism.

1 de setembro de 2012

Uma taxa de lucro mundial?

A globalização e a economia mundial

Michael Roberts


Introdução

Tradução / O modelo marxiano do capitalismo assume uma economia mundial – eis que foi pensado no plano do capital em geral. É nesse nível de abstração que Marx desenvolveu o seu modelo das leis de movimento do capitalismo e, em particular, aquela que ele considerou como a mais importante de seu processo de produção, a lei da tendência ao declínio da taxa de lucro.

A taxa de lucro é o melhor indicador da “saúde” da economia capitalista. Ela tem valor como variável de predição do investimento futuro e da possibilidade das recessões e dos declínios econômicos. Por isso, o nível e a direção de movimento da taxa de lucro mundial podem ser guias importantes na previsão do desenvolvimento futuro da economia capitalista mundial.

Porém, no mundo real, coexistem muitos capitais particulares; não há, ademais, uma economia mundial única, mas muitas nações capitalistas. Há barreiras vindas do trabalho, do comércio e do capital para o estabelecimento de uma economia mundial integrada e para a formação de uma taxa de lucro mundial. Essas restrições existem para preservar e proteger os mercados regionais e nacionais em relação aos fluxos do capital global.

Diante disso, pode-se realisticamente falar em uma taxa de lucro mundial? E o que ela nos dirá se essa estatística for razoável?

No teste da validade da lei da lucratividade de Marx como explicação do crescimento econômico, das subidas e das quedas da produção capitalista, grande parte da pesquisa empírica se concentrou, compreensivelmente, na economia norteamericana. Esta é a economia capitalista mais importante; ademais, ela tem os melhores dados empíricos. Há também, porém, trabalhos que se voltaram para outras economias nacionais capitalistas.

Já em 1848, Marx previu que o capitalismo se tornaria o modo de produção dominante e que ele iria dominar o mundo. Ele esperava que todos os países e as suas forças de trabalho viessem a ficar sob o controle das forças de mercado e do capitalismo. Isto, para ele, significava duas coisas: a expansão do setor capitalista incorporaria, progressivamente, todos os setores econômicos não capitalistas, por meio da industrialização e da urbanização; conflitos entre o capitalismo global e os interesses capitalistas nacionais surgiriam necessariamente.

O grande movimento rumo à globalização começou no final do século XIX com a expansão dos fluxos de capitais dos países lideres para as suas colônias territoriais. Marx explicou o surgimento dessa nova era – o imperialismo moderno – como algo que decorria da necessidade do capitalismo nos países centrais de contrariar a pressão baixista na taxa de lucro. O comércio e os investimentos exteriores eram importantes fatores que se contrapunham à lei da queda da lucratividade. Eles poderiam baratear o valor do capital constante por meio da redução de custo das matérias primas; eles poderiam elevar a taxa de exploração por meio da subordinação da força de trabalho ao capital nos mercados emergentes e nos territórios coloniais. E esse valor excedente poderia ser transferido para as economias imperialistas como meio de elevar aí a taxa de lucro.

O processo de globalização iniciado do fim do século XIX produziu duas grandes guerras mundiais. Elas foram produto da rivalidade capitalista que resultou do ímpeto para sustentar a taxa de lucro nas maiores economias capitalistas no começo – e durante – o século XX. Porém, a partir de 1980, quando as taxas de lucro das grandes economias capitalistas centrais se tornaram novamente baixas, estas procuraram novamente contrariar a lei de Marx retomando a expansão dos fluxos de capitais em direção aos países que tinham uma grande reserva potencial de força de trabalho. Ademais, elas procuraram países em que a força de trabalho fosse capaz de se submeter a duras condições, aceitando salários de super-exploração. As barreiras mundiais ao comércio foram derrubadas, as restrições aos fluxos de capitais além das fronteiras nacionais foram reduzidas e as corporações multinacionais moveram os seus capitais à vontade, de acordo com as suas necessidades corporativas.

Desse modo, pode-se argumentar que no século XXI, pela primeira vez na história do capitalismo, tornou-se possível reconhecer a taxa de lucro mundial como algo significativo[1].

Mensuração da taxa de lucro mundial
É possível medir a taxa de lucro mundial? Grande parte dos trabalhos empíricos feitos até agora se concentraram em medir a taxa de lucro da economia norte-americana, procurando fazê-lo de um modo que fosse consistente (o mais próximo possível) com a categoria marxista. Muitos desses estudos confirmaram que houve uma elevação da taxa de lucro nos Estados Unidos da América do Norte a partir de 1982; entretanto, quanto ao momento em que essa taxa alcançou o seu pico, eles mostraram certas divergências.

Houve também trabalhos que procuraram calcular a taxa de lucro na Grã-Bretanha. As minhas próprias estimativas, seja aquela baseada em custos correntes seja aquela baseada em custos históricos, mostraram que essa taxa se elevou após o vale alcançado na severa recessão de 1974-1975. Durante todo o período de 1950 a 2009, a taxa de lucro britânica mostrou uma tendência declinante; ora, isto ocorreu porque ela se mostrou muito elevada no começo dos anos 50. Depois disso, a taxa de lucro declinou até encontrar um fundo na primeira grande crise período do pós-guerra, em 1974-1975. Este parece ter sido um ponto de reversão. A indústria britânica, desde esse momento, passou a ser dizimada; iniciou-se, então, um processo que veio transformar a economia capitalista deste país numa economia baseada no setor de serviços. Isto propiciou um melhoramento gradual da taxa de lucro, embora o seu valor nunca mais tenha atingido os níveis do começo dos anos 1960 (exceto talvez, segundo certas mensurações, no boom recente do começo dos anos 2000, o qual foi produzido pela expansão do crédito).

Foram feitos alguns esforços para calcular a taxa de lucro para alguns países da zona do Euro, assim como sobre países individuais, tais como o Japão e mesmo algumas economias emergentes, a saber, o México, a Argentina e a China. Dave Zachariah estudou a taxa de lucro de diversos países incluindo algumas economias emergentes, tais como a China e a Índia. Mas ele não tentou integrar os dados dos vários países para obter uma taxa de lucro mundial.

Foram feitos alguns poucos estudos que tentaram integrar as taxas nacionais em uma taxa de lucro mundial. Minqi Li e seus colaboradores calcularam uma taxa de lucro global para o longo período que se iniciou em 1890. (...)

Uma nova medida da taxa de lucro mundial
Neste artigo, tal como o estudo Minqi Li, procuro encontrar uma taxa de lucro mundial que inclua, além das economias do G7, as quatro economias que são conhecidas pelo acrônimo BRIC. Desse modo, ele inclui as 11 maiores economias, as quais, em conjunto, representam uma significativa porção do PIB mundial. Empreguei as estatísticas do World Penn Tables que foram também usadas por Zachariah em seu estudo de vários países individuais. Ponderei as taxas nacionais pelo tamanho do PIB, embora a média simples dessas taxas não pareça divergir significativamente da média ponderada calculada.

Encontrei os seguintes resultados: 1) a partir do ponto inicial, em 1963, ocorreu uma queda significativa da taxa de lucro mundial; nos últimos cinquenta anos, essa taxa nunca mais recuperou o nível alcançado em 1963. A taxa de lucro alcançou um ponto inferior em 1975 e, desde então, cresceu alcançando um pico em meados dos anos 1990. Deste momento em diante, a taxa de lucro mundial permaneceu estável ou decaiu levemente, não alcançado mais o pico de 1990. Isto sugere que o boom do final dos anos 1990 e começo dos anos 2000 não se baseou em um aumento da lucratividade como muitos argumentaram; diferentemente, ele foi dependente de uma expansão muito expressiva do crédito e do crescimento do capital fictício. Os dados assim analisados parecem confirmar resultados anteriores, baseados no cálculo da taxa de lucro norteamericana, segundo os quais o capitalismo mundial se encontra numa fase de baixa lucratividade.

Outro resultado interessante aparece quando se observa a divergência entre a taxa de lucro do G7 e a taxa de lucro mundial, a partir do começo dos anos 1990. Ele mostra que os países fora do G7 tiveram um papel crescente na sustentação da taxa de lucro. As economias do G7 vieram sofrendo uma crise de lucratividade provavelmente desde o final dos anos 1980 e certamente desde meados dos anos 1990. Os dados vão somente até 2008, de tal modo que não foi possível levar em conta os efeitos perversos na lucratividade da Grande Recessão. As taxas de lucros dos países do G7, assim como do mundo como um todo, caíram provavelmente aos níveis de meados dos anos 1980.

Fatores contrariantes no período neoliberal em escala mundial
Quais são as implicações desses resultados? O comportamento da taxa de lucro mundial mostra o que muitos analistas já haviam concluído olhando somente as taxas nacionais e, em particular, observando aquela referente aos Estados Unidos. A taxa de lucro subiu durante o que vem sendo chamado de “período neoliberal”.

A lei da tendência declinante da taxa de lucro contempla uma série de fatores contrariantes que podem dominar a “lei enquanto tal”, criando assim as condições para o crescimento da taxa de lucratividade, pelo menos durante certos períodos. Marx afirmou que o crescimento da taxa de lucro ocorreria com grande probabilidade quando “sobreviesse um aumento da taxa de exploração em conjunção com uma redução significativa do valor dos elementos do capital constante e do capital fixo em particular”.

Tais foram, precisamente, as condições da acumulação a partir de 1982. As duas profundas quedas de 1974-75 e 1980-02 reduziram suficientemente o valor do capital constante. Ao mesmo tempo, elas elevaram as taxas de desemprego, enfraquecendo a capacidade do movimento dos trabalhadores de proteger os salários (ou seja, aquilo que aparece como custo do ponto de vista do capital variável). A produtividade do trabalho cresceu conforme as novas técnicas (algumas das quais eram bem sofisticadas) iam sendo introduzidas em muitos setores da economia, sem que se permitisse o crescimento dos salários. A parcela salarial na economia norte-americana declinou. A taxa de exploração subiu. Ao mesmo tempo, o capital constante caiu em valor relativamente ao capital variável.

Como Marx argumentou: “na prática, porém, a taxa de lucro deverá cair no longo prazo”. Os fatores contrariantes não podem durar para sempre e, eventualmente, a lei da lucratividade começa a exercer a sua pressão baixista nos lucros. A taxa de lucro alcançou um pico em 1997 com a exaustão dos ganhos das novas tecnologias introduzidas nos setores produtivos. O capitalismo norte-americano somente prosperou a partir de então por meio do crescimento dos lucros no setor financeiro, ou seja, mediante uma grande expansão do “capital fictício” sem a devida contrapartida de acumulação de valor nesses setores produtivos. O colapso do mercado de residências a partir de 2006 expôs a natureza imaginária dos lucros financeiros, o que gerou o colapso possível do setor bancário que depende deles.

Logo, a lei da lucratividade de Marx mostrou-se válida: os fatores contrariantes do aumento da taxa de exploração e do barateamento do valor do capital constante conseguiram superar a “lei enquanto tal”, mas somente durante certo tempo. Os desenvolvimentos tecnológicos sofisticados em combinação com os aumentos da taxa de exploração nas economias do G7 foram corroborados pela superexploração nas economias chamadas de emergentes [2]. Porém, nos anos 1990, tal como mostram os dados acima, parece que o impacto desses fatores contrariantes enfraqueceu-se nas economias do G7. Este não foi o caso, porém, da economia mundial como um todo.

Os dados parecem mostrar que a globalização foi muito importante como força que veio permitir aos fatores contrariantes atuarem nos anos 1990. As conexões entre a globalização e a taxa de lucro podem assumir muitas formas. A primeira delas diz que as economias capitalistas nacionais podem obter uma taxa de lucro maior nos investimentos feitos no exterior, como forma de compensar a queda da taxa de lucro doméstica. Andrew Kliman argumentou que este fator não se mostrou significante no movimento da taxa de lucro nos Estados Unidos. Outros analistas, entretanto, como Callinicos e Choonara, chegaram a uma conclusão diferente. Ora, essa divergência pode explicar porque o investimento norte-americano como parcela do excedente corporativo disponível estacionou durante a última década, diferentemente do que ocorreu fora dos Estados Unidos.

Porém, de modo mais importante, a globalização proporcionou um grande crescimento dos fluxos de comércio e de capitais. Ora, como isto se mostrou muito importante nos anos 1990, vem explicar a divergência anteriormente mencionada nas taxas de lucro do G7 e do mundo como um todo.

O capitalismo se tornou verdadeiramente global no final do século XX, num período que é bem similar, mas muito mais intenso, em relação aquele do final do século XIX. Isto ocorreu por causa do enorme aumento dos investimentos capitalistas nos assim chamados países de economia capitalista emergente. Esse processo incorporou ao modo de produção capitalista, pela primeira vez, uma enorme oferta de mão-de-obra camponesa e não assalariada. Esse contingente, ademais, pode ser contratado a salários que não cobriam o valor da força de trabalho, isto é, num regime de superexploração.

Além disso, a população cresceu mais rapidamente nas economias emergentes do que nas economias de capitalismo maduro. Ao mesmo tempo, essa força de trabalho mundial tornou-se superexplorada[3]. Sabe-se também que o exercito industrial de reserva, o qual é formado por desempregados, subempregados e inativos, é cerca de 80 por cento maior do que o contingente de trabalhadores ativos.

Como há ainda uma fonte significativa de oferta de força de trabalho para ser empregada e superexplorada no modo de produção agora plenamente dominante, isto sugere que o capitalismo ainda não chegou aos seus limites absolutos. A força de trabalho chinesa ainda está crescendo embora vá atingir o seu pico no fim desta década. A força de trabalho indiana ainda pode crescer muito. Há ainda, ademais, áreas do mundo que não foram totalmente exploradas pelo capital.

O estudo de Dave Zachariah sobre a taxa de lucro em diversas economias nacionais confirmou a lei da lucratividade de Marx, a saber, que a taxa de lucro se move em linha com a composição orgânica do capital e a taxa de exploração da força de trabalho. Zachariah argumentou que “os fatores demográficos iriam provavelmente fazer com que o crescimento da força de trabalho declinasse ou mesmo se tornasse negativo. O reinvestimento dos lucros, que é a fonte de dinamismo do capitalismo, não poderia então se manter em níveis elevados”. Este é um tema para pesquisa futura.

O que a minha pesquisa indicou é que os fatores contrariantes por enquanto não foram suficientes para elevar a taxa de lucro. Isto sugere que uma destruição de capital adicional se faz necessária para aumentar a lucratividade, o que requererá a continuidade da crise capitalista global. Somente então quando isto vier a ocorrer, o valor potencial remanescente de força de trabalho global poderia ser utilizado para restaurar a saúde do capitalismo mundial.

Notas:
[1] Em meu livro, The great recession, argumentei que uma taxa de lucro mundial teria pouco sentido, dada a existência das barreiras nacionais. Porém, a profunda extensão do processo de globalização nos últimos 25 anos, fez-me revisar aquela opinião.

[2] A crescente desigualdade e do crescimento da taxa de exploração nas economias do G7, depois de 1982, é uma evidência bem conhecida.

[3] A superexploração tem dois significados: 1) a força de trabalho recebe menos do que o seu custo de reprodução; 2) prevalece troca desigual de valor trabalho entre as economias capitalistas emergentes e as economias imperialistas (Ver Smith, 2011).

Referências:
Callinicos, Alex – Imperialism and the global economy. Londres: Polity Press, 2009.

Carchedi, Guglielmo – Behind the crisis – Marx’s dialectics of value and knowledge. Londres: Brill, 2011.

Choonara, Joseph – Unraveling capitalism – A guide to Marxist Political Economy. Londres: Turnaround, 2009.

Kliman, Andrew – The failure of capitalist production – Underlines causes of great recession. Londres: Pluto Press, 2012.

Minqi Li, Feng Xiao, Andong Zhu – Long waves, institutional changes and historical trends: a study of the long-term movement of the profit rate in the capitalist world economy. In: Journal of World System Research, nº 1, 2007.

Roberts, Michael – The great recession – Profit cycles, economic crisis – a Marxist view. USA: Michael Roberts, 2009.

Smith, John – Imperialism and the law of value. In: Global Discourse, 2, nr 1, 2011.

Zachariah, Dave – Determinants of the average profit rate and the trajectory of capitalist economies. In: Bulletin of Political Economy, Vol. 3 (1), 2009.