31 de julho de 2013

A pátria

Perry Anderson


Desde o ano 2000, a cena política americana vem sendo convencionalmente pintada com cores fortes. Boa parte da opinião pública nativa – para não falar da estrangeira – acha que os Estados Unidos deram um salto acrobático entre um período reacionário brutal, sob um governante que presidiu o desastre dentro e fora de casa, e a mais inspiradora fé no progresso desde o New Deal, sob um presidente que personifica o que a nação oferece de melhor – ou, segundo outros, um espectro que nem americano é. Para outros ainda, a polarização da opinião pública que eles representam é motivo de desespero ou, ao contrário, de alento com o despertar de identidades antes marginalizadas e hoje no limiar de constituir uma nova maioria. As tonalidades mudam conforme a luz em que são vistas.

Para uma visão mais estável da política dos Estados Unidos, a linha é mais confiável do que a cor. São os parâmetros do sistema, e não suas manifestações episódicas, que requerem consideração. Esses parâmetros formam um conjunto de quatro determinantes. A primeira e mais fundamental é o regime histórico de acumulação, que governa o rendimento do capital e a taxa de crescimento da economia. [1] A segunda são alterações estruturais na sociologia do eleitorado dos partidos Democrata e Republicano. A terceira são as mutações culturais no sistema de valores do conjunto da sociedade. A quarta e última determinante – residual – são os objetivos das minorias em atividade na base eleitoral de cada partido. O desfecho político em qualquer ponto do tempo pode ser descrito, em síntese, como uma resultante dos movimentos desse quarteto desigual de forças.

O que permanece imutável, por outro lado, é o universo ideológico monocromático no qual o sistema está mergulhado: uma ordem plenamente capitalista, sem vestígios de debilidade social-democrata ou de organização política independente do trabalho. [2] Os dois partidos que nela habitam trocaram suas bases sociais e regionais mais de uma vez desde a Guerra Civil [1861–65], sem jamais questionar o preceito do capital. Desde 1930, constata-se uma tendência geral, se não invariável: os que estão na base da pirâmide da renda, quando vão às urnas – coisa que muitos deles não fazem –, votam nos democratas; os que estão no topo votam nos republicanos.

Tais preferências refletem as linhas políticas adotadas pelos dois partidos: nas administrações democratas, a redistribuição de renda em direção à base costuma ser maior do que nas republicanas, num alinhamento que acompanha as divisões entre esquerda e direita em outras partes do mundo, sem as reproduzir exatamente. Mas essas diferenças raramente são de princípio. Uma característica marcante do consenso em que se baseia o sistema é a flexibilidade das posições relativas que ele permite. Políticas associadas a um partido podem migrar para o outro, não raro assumindo formas mais radicais do que tinham no hábitat original. Um rápido olhar sobre a história da segunda metade do século XX atesta esse vaivém no interior do sistema.

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A vitória de Franklin Delano Roosevelt em 1932 inaugurou, como se sabe, uma nova era na política americana. A Depressão, marcando o fim de um regime de acumulação baseado no padrão-ouro, no protecionismo comercial, em impostos baixos e em formas ainda incipientes de produção em massa, desacreditou os republicanos, que havia muito comandavam o país.

Sob o choque da Depressão, a pressão popular – sobretudo as greves trabalhistas iniciadas em 1934 – fez o governo democrata ir além das medidas iniciais para estabilização financeira e ajuda emergencial à população carente, adotando reformas sociais e programas de infraestrutura que consolidaram sua base eleitoral, enquanto continuava a quebradeira das empresas menos competitivas e a concentração corporativa. Quando chega a aguda recessão de 1937, o desemprego logo volta a 14%. O que faria do New Deal um divisor de águas seria a maciça demanda estatal ligada ao rearmamento. Com o auge da economia de guerra, a partir do final de 1941, um novo regime de acumulação atingiu a maioridade.

O padrão-ouro já não existia mais; a carga tributária aumentara; o déficit orçamentário e fiscal deixara de ser tabu; os depósitos haviam sido garantidos e os bancos, regulados; as empresas haviam se concentrado; a demanda do consumidor se expandira. Essas eram condições da transformação. Mas a mudança decisiva veio com o enorme salto nos gastos estatais e na intervenção na economia. Em dois anos, os gastos públicos cresceram de 19% para 47% do Produto Interno Bruto.

Estimulando a inovação tecnológica e eliminando o desemprego, o boom do período de guerra levou à supremacia americana sobre o mundo capitalista depois de 1945. A expansão desencadeada pela economia de guerra prosseguiu durante um quarto de século de altas taxas de crescimento no país e de hegemonia inconteste no exterior.

Depois da guerra, os democratas conservaram o predomínio eleitoral que haviam assegurado nos anos 30, quando conquistaram os que votavam pela primeira vez, os imigrantes de segunda geração, trabalhadores protestantes antes arredios e os negros do Norte do país, mantendo, ao mesmo tempo, firme controle sobre sua fortaleza histórica no Sul racista. Os dois partidos se revezaram na Casa Branca, cada um vencendo três vezes entre 1948 e 1968, mas o Congresso permaneceria um reduto democrata por quase meio século; entre 1932 e 1980, os republicanos obtiveram maioria legislativa apenas duas vezes e por meros quatro anos.

Depois de 1937, quando a greve dos operários do aço foi derrotada e a economia escorregara novamente para a recessão, a insurgência trabalhista que forçara as reformas sociais mais significativas da agenda de Roosevelt estava exaurida. A sindicalização aumentou até o início dos anos 50, mas junto veio a burocratização e a domesticação da central sindical AFL-CIO [American Federation of Labor– Congress of Industrial Organizations]. Em 1947, os dois partidos uniram forças para endurecer a legislação contra a militância sindical e as greves. [4]

Uma coisa eram trabalhadores organizados – tinham de ser combatidos onde houvesse risco de saírem do controle. Outra coisa eram os eleitores atomizados – estes deviam ser cortejados até onde se pudesse pagar o preço. Se os gastos estatais em relação ao PIB não estavam mais nos níveis do período de guerra, a longa maré alta dos anos 50 e 60 havia gerado taxas de lucro que garantiam ganhos salariais regulares aos trabalhadores e uma receita fiscal suficiente para que o Estado desse continuidade às obras públicas e aos benefícios sociais, arcando ao mesmo tempo com vultosos orçamentos militares.

Mas nenhum regime de acumulação é estático, e no devido tempo houve uma inflexão. Os planejadores de Washington haviam imaginado um mundo pós-guerra no qual o padrão dólar e o livre-comércio trariam para o capital americano uma prosperidade baseada na exportação, graças à recuperação econômica da Europa e do Japão. Mas a extensão dos danos provocados pela guerra e os imperativos incontornáveis da Guerra Fria forçaram a modificação desse esquema. Para salvar o capitalismo no exterior, o livre-comércio puro teve de ser diluído e governantes de países aliados foram autorizados a implantar certas medidas de proteção a seus mercados, para que não afundassem novamente na depressão.

A recuperação veio e, como esperado, com ela vieram os lucros americanos. Mas, como os custos do trabalho eram menores no exterior, era mais racional para o capital americano produzir no estrangeiro para os mercados locais do que exportar.

Apesar dessa inflexão, enquanto se manteve o sistema geral de acumulação capitalista, o cálculo da competição partidária preservou os parâmetros herdados do New Deal. Com eles, os republicanos foram capazes de fazer até mais do que seus adversários. O democrata Harry Truman reprimiu mais greves do que o republicano Dwight Eisenhower, cuja Lei das Estradas Interestaduais lançou o maior programa de obras públicas desde o New Deal. O ativismo contra a segregação racial e as insurreições nos guetos obrigaram o democrata Lyndon Johnson a assinar a Lei dos Direitos Civis e a lançar a Guerra contra a Pobreza, ambas com uma dinâmica que extrapolou seu mandato. Foi durante o governo do republicano Richard Nixon que houve a maior expansão dos direitos sociais e da regulação econômica da história do pós-guerra nos Estados Unidos.

2

Em todo o mundo capitalista avançado, o boom do pós-guerra teria um fim abrupto no início dos anos 70. A rentabilidade caiu, os salários pararam de subir, a estagflação se instalou. A causa comum estava na competição intercapitalista que se intensificara desde que a Alemanha e o Japão – reerguidos por Washington como postos avançados de defesa do Mundo Livre – haviam voltado com força ao mercado mundial, muitas vezes com estruturas corporativas e bancárias mais robustas. As empresas americanas se defrontaram com margens de lucro menores justo num momento em que, sob um presidente republicano, os gastos sociais e uma regulamentação onerosa chegavam ao seu auge. Como se não bastasse, Nixon rompeu com a nova relação entre o valor do dólar e o ouro que fora estabelecida na Conferência de Bretton Woods, recorrendo a controles de preços e salários para combater a inflação.

Diante dessa combinação de crise econômica e esfacelamento político, o capital – o grande e o pequeno – entrou em ação. Ao longo da década de 70, iria dobrar o número de membros da Câmara de Comércio e da Federação Nacional das Empresas Independentes, enquanto os lobistas empresariais em Washington se multiplicavam mais de dez vezes. Os comitês de ação política ligados ao capital superaram em muito os ligados aos sindicatos. Novos e combativos centros de estudos – American Enterprise Institute, Heritage Foundation, Cato Institute – tomaram posição na arena. O fim do crescimento contínuo gerou uma mobilização sistemática contra o pacto social do pós-guerra.

Esse foi o cenário em que se desenhou a agenda de um novo regime de acumulação. A ordem neoliberal que se seguiu incluiria a desregulamentação dos mercados, a desmobilização dos sindicatos, a redução dos impostos e a redução da oferta de dinheiro – seria, na verdade, uma volta às normas do regime liberal anterior à Depressão, com exceção do padrão-ouro e da proteção tarifária à produção local.

Mas haveria duas diferenças cruciais, na posição da indústria e na natureza do eleitorado. A manufatura sofreu uma contração implacável a partir dos anos 80, sob a pressão da produção estrangeira mais barata. Com isso, o capital foi deslocado para as finanças, que se tornaram o centro de comando da economia, e o trabalho perdeu ainda mais força em relação ao capital. Ao mesmo tempo, as expectativas dos eleitores agora impediam a liquidação generalizada de empresas insolventes ou ineficientes: o desemprego em massa parecia incompatível com uma ordem capitalista estável.

Ocorreram mudanças análogas na maioria dos países capitalistas. Contudo, na ausência de uma tradição significativa de crítica às prerrogativas supremas da propriedade privada e da livre-iniciativa, e dada a erosão estrutural do poder dos trabalhadores, elas adquiriram na América a sua forma mais pura. Os parâmetros do sistema político se deslocaram para a direita em todo o Ocidente, mas não tanto, nem com tão poucos obstáculos, como nos Estados Unidos.

No nível dos partidos, depois de uma maré alta de reformas progressistas sob um presidente republicano, a reação política veio com um democrata na Casa Branca e uma maioria democrata esmagadora no Congresso. Menos Estado, mais mercado – essa era a solução para as misérias da economia. Os pontos principais do governo de Jimmy Carter, a partir de 1977, foram o dinheiro curto e a desregulamentação, para enfraquecer os trabalhadores e fortalecer as empresas. No Congresso, os democratas reduziram o imposto sobre o lucro e aumentaram o imposto sobre os salários. Ao mesmo tempo, rejeitaram a reforma do sistema de saúde, a indexação do salário mínimo, a proteção ao consumidor e o aperfeiçoamento do 
registro eleitoral.

No Federal Reserve, o banco central americano, Paul Volcker assumiu a tarefa de promover uma forte deflação. O neoliberalismo estava agora no comando. O curto prazo saiu caro para Carter e seu partido, quando as altas taxas de juro – o remédio para a inflação prescrito por Volcker – provocaram uma severa recessão. Mas o problema maior dos democratas residia na falta de uma mensagem ideológica sedutora, algo capaz de dourar a pílula das mudanças em termos menos duros do que a necessidade de apertar o cinto.

A vitória de Ronald Reagan em 1980, tão decisiva quanto a de Roosevelt em 1932, satisfez essa exigência. O neoliberalismo encontrou seu complemento num otimismo de reafirmação nacional e num moralismo que celebrava o esforço individual, temperado – talvez excessivamente – pela fé na Bíblia. Resultou daí uma fórmula ideológica com a qual os democratas teriam grande dificuldade em competir, embora tivessem sido pioneiros na virada neoliberal. Os republicanos se tornaram o partido governista natural num sistema político cujo centro de gravidade havia se deslocado estruturalmente para a direita. O novo regime de acumulação lhes era favorável.

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Por trás da troca de ascendência partidária havia também mudanças sociológicas. A primeira delas afetou os trabalhadores brancos. A reação do operariado contra as manifestações antiguerra e a integração racial nas escolas já produzira uma votação patriótica e racialmente motivada no governador de Alabama, George Wallace, nas eleições de 1968, e outra maior ainda em Nixon, em 1972. Entretanto, com os salários reais em queda a partir de 1972 e corroídos mais ainda pelos impostos, agora os trabalhadores tinham também menos razões materiais para serem leais ao Partido Democrata. Carter os havia abandonado; em troca, muitos o abandonaram. Em 1980, Reagan recebeu a maior parte dos votos dos trabalhadores; em 1984, ampliou essa maioria.

A segunda mudança foi o deslocamento da população e da riqueza do Nordeste e do Centro do país para o Oeste e o Sudoeste, onde o capital era mais novo e menos atrelado, os padrões urbanos dispersavam a população, os sindicatos tinham menos tradição e o imaginário do desbravador de fronteiras incentivava o individualismo. Na Califórnia, uma revolta dos proprietários contra os impostos imobiliários, financiada pelas construtoras, já havia conseguido limitar essa tributação. Durante um século, a região não produzira nenhum candidato presidencial, mas então, um depois do outro, vieram Barry Goldwater [derrotado por Johnson em 1964], Nixon e Reagan.

Por fim, e mais decisivo, o Sul – sempre a parte mais conservadora do país, na qual, por um século, a lembrança da vitória do republicano Abraham Lincoln na Guerra Civil erguera um bastião democrata – havia começado a se tornar republicano, depois que Lyndon Johnson patrocinou a Lei dos Direitos Civis e a Lei do Direito de Voto. Essa transferência em bloco de um partido para outro ocorreu gradualmente. Trinta anos depois, quando a região exibia o mais rápido crescimento econômico do país, a migração seria quase total.

A vitória arrasadora nas urnas – com a plataforma de libertar as empresas do jugo governamental e de restabelecer tanto o poderio internacional do país como a confiança na América – deu a Reagan cacife para uma mudança radical no que era possível aprovar em Washington. Sem demora, promoveu a mais abrangente reforma tributária de que se tem notícia – reduzindo as alíquotas para todos, mas com forte viés a favor dos ricos – e derrotou a primeira greve nacional em seu mandato, a do Sindicato dos Controladores de Voo. Foram ambas atuações muito populares,

obtendo apoio bipartidário e larga aprovação pública. Mas os cortes de impostos, apesar do êxito político, não remediaram a recessão de Volcker e tiveram de ser parcialmente cancelados, antes de uma nova batalha no segundo mandato de Reagan.

No entanto, as receitas neoliberais já não podiam ser tomadas ao pé da letra, nem no plano econômico, nem no plano ideológico: na prática, foi necessária uma boa dose keynesiana de estímulo militar para manter o crescimento. O aumento nos gastos com a defesa gerou déficits três vezes maiores do que os do governo Carter. Depois de 1985, a desvalorização do dólar, combinada a arrocho salarial e benefícios fiscais, permitiu a recuperação das exportações de manufaturados, restaurando a lucratividade empresarial.

Mesmo assim, não houve melhora substancial no desempenho da economia americana. O dólar ainda alto no início do governo Reagan, atraindo capital estrangeiro, havia acelerado a ascensão do setor financeiro e ampliado o déficit comercial. O crescimento da economia nos anos 80 foi menor do que na década anterior. Até o epílogo da era Reagan, já no governo de George Bush pai, a dívida federal triplicou. O impasse subjacente à longa recessão não fora resolvido.

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Em paralelo, os democratas iam se adaptando aos parâmetros da nova ordem, tal como os republicanos haviam feito com a anterior. Um ano depois da reeleição de Reagan, em 1984, foi criado o Conselho da Liderança Democrata, para reposicionar o partido diante das exigências da época – descartando compromissos ultrapassados com gastos públicos, trabalhadores ou dependentes dos serviços sociais em favor de um “novo centrismo”, de um Estado mais enxuto internamente e mais resoluto no exterior. Bill Clinton, considerado pela mídia o membro mais confiável do Conselho, conquistou a Presidência em 1992, numa eleição dividida em que Ross Perot, concorrendo como independente, tirou votos do eleitorado republicano num ano de recessão.

Uma vez na Casa Branca, Clinton tomou o caminho oposto ao de Reagan. Aumentou os impostos para reduzir o déficit, na crença de que a chave para fortalecer a confiança do empresariado e religar o motor do crescimento estava no mercado de ações.

A reforma da Previdência Social, disciplinando os gastos com os dependentes, enviou aos mercados mais um sinal claro de que aquele era um governo responsável. A recessão foi esmorecendo, o Orçamento entrou no azul e, no final do segundo mandato de Clinton, a economia crescia em ritmo frenético.

Mas o boom não foi mais saudável do que o da era Reagan, visto que, expurgada das contas públicas, a dívida reapareceu significativamente ampliada nas contas privadas, tanto das empresas como dos particulares, na esteira da desregulamentação financeira que se tornaria a principal assinatura do governo Clinton. A revogação da Lei Glass-Steagall acabou com a separação instaurada pelo New Deal entre bancos de investimento e bancos de varejo e foram eliminadas todas as restrições à negociação do mercado de derivativos. Com o retorno à política do dólar forte, o capital estrangeiro inundou o mercado de ações, enquanto a rentabilidade da indústria manufatureira declinava mais uma vez.

Na expansão artificial dos últimos anos do governo Clinton, a dívida hipotecária recebeu generosos incentivos governamentais, as empresas tomavam empréstimos garantidos pela cotação de suas próprias ações, a especulação com as ações de novas empresas de alta tecnologia disparou. O keynesianismo baseado no preço dos ativos havia substituído o keynesianismo baseado nos gastos militares, o que inflou a demanda interna, provocando um breve retorno ao crescimento.

Por trás dessas mudanças estava uma inflexão no regime de acumulação em vigor desde os anos 80, similar à adaptação do regime anterior na década 
de 50. Novamente, a motivação veio de fora: desta vez foi a entrada da China, com pleno vigor, no mercado mundial. A China reduziu drasticamente os custos trabalhistas em toda a indústria manufatureira; ampliou e ao mesmo tempo financiou o déficit comercial americano; deslocou para seu território as linhas de montagem americanas.

Destinado a revalorizar o dólar desvalorizado na década anterior, o Acordo Reverso do Plaza, de 1985, foi o ponto de inflexão para a transferência da manufatura americana para a China e para a entrada de dinheiro que alimentou as bolhas acionária e imobiliária do final do século xx. Os bancos e as corporações, os fundos de investimento de alto risco [hedge] e as novas empresas de tecnologia colheram os benefícios da expansão planetária da economia capitalista sob domínio da moeda americana, acontecimento exaltado posteriormente como “globalização”.

Politicamente, parecia que o clintonismo havia tornado os democratas competitivos em relação aos republicanos, não só acelerando a financeirização da economia e restaurando o equilíbrio orçamentário, mas também proporcionando um verniz de prosperidade a ricos e remediados. Em 1996, tanto os banqueiros quanto os eleitores deram ao presidente um segundo mandato.

Na campanha de 1996, Clinton captou mais dinheiro em Wall Street do que o rival Bob Dole e triunfou em 31 estados, obtendo quase a metade dos votos. No plano ideológico, o discurso de uma Terceira Via que reconciliasse liberdade econômica e coesão social, benesses para os ricos e benefícios laterais para os pobres, tinha mais apelo num mundo pós-Guerra Fria, agora que, com o desaparecimento do Império do Mal, a incontestável primazia americana tornara a autoafirmação nacional uma questão menos premente no sentimento popular. Segundo qualquer critério, viria em seguida um novo triunfo democrata.

O sexo oral de Clinton na Casa Branca, entretanto, custou ao partido a eleição de 2000. A contingência de uma “mancha” sexual levou os republicanos de volta à Casa Branca por uma margem infinitesimal. Ainda assim, essa vitória obtida em circunstâncias tão fortuitas cristalizava uma divisão de valores que vinha se intensificando. Desde os anos 60, desenvolvera-se no país uma contracultura mais ou menos boêmia, em oposição aos costumes e crenças convencionais. Radicalizada pela oposição à guerra no Vietnã, ela serviria como um alvo conveniente a Nixon, que assim arregimentou para sua causa uma maioria silenciosa de patriotas ordeiros e cumpridores da lei.

Quando a guerra na Indochina deixou de ser um problema, o terreno do comportamento se despolitizou. A partir do final dos anos 70, boa parte do que representava a contracultura migrou para um setor da vida burguesa menos rígido e vagamente bien pensant, no qual as forças do mercado transformaram o desafio aos tabus em formas lucrativas de dessublimar a repressão. Essa mutação catalisou uma reação veemente nas fileiras das denominações religiosas menos tradicionais, colocando em antagonismo uma maioria “moral” – na realidade, outra minoria, a dos evangélicos – e a subversão profana dos costumes. Autodefinindo-se conservadores, esses grupos se tornaram, com o tempo, as tropas de choque da mobilização eleitoral republicana, impelindo para o campo democrata as forças contrárias, que hoje encontrariam uma síntese na simpatia pelo movimento LGBT. Aqui, acredita-se, está uma das raízes da crescente polarização do sistema político.

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Em 2000, Bush foi beneficiário dessa tensão. Mas sua campanha teve um tom moderado e seu sucesso não se deveu a um apelo evidente à religiosidade. Foi a conquista de eleitores independentes, e não o comparecimento às urnas dos já comprometidos, que lhe deu a Casa Branca. Em 2004, isso mudou: a vitória por uma margem de 3 milhões de votos ocorreu, em boa parte, graças à mobilização comandada pela base evangélica do Partido Republicano. Mas entre a base e o alto comando do partido ainda havia uma distância significativa. Desmentindo sua reputação de direita radical, a Presidência de Bush foi, em linhas gerais, pragmática em nível nacional, adaptando-se à inflexão da acumulação neoliberal – e sua legitimação – legada por Clinton.

Bush se defrontou com as mesmas dificuldades econômicas de seus dois antecessores: no início, uma recessão cíclica, e, no decorrer de todo o mandato, as pressões intratáveis do longo declínio econômico. Nessas condições, seu governo recorreu à combinação de benefícios tributários e keynesianismo militar de Reagan com o keynesianismo da valorização de ativos de Clinton. Os resultados foram déficits públicos três vezes maiores do que os de Reagan e outro boom das hipotecas imobiliárias, elevando a dívida habitacional para 11 trilhões de dólares, num momento em que o PIB estava por volta de 14 trilhões.

Três cortes de impostos ultrapassaram em volume, se não exatamente em extensão, o recorde de Reagan na inclinação em favor dos ricos. As leis de falência tornaram-se mais severas, beneficiando os credores. Um esforço agressivo para privatizar certas áreas da Previdência Social, ideia já aventada por Clinton, não deu em nada. Com apoio bipartidário, as liberdades civis foram reduzidas e os gastos com a defesa dobraram.

No âmbito doméstico, o neoliberalismo do regime republicano também exigiu seu complemento ideológico. As hipotecas com alto risco de inadimplência – maná para banqueiros e operadores financeiros apresentado como ajuda aos desfavorecidos – representavam uma típica herança de Clinton. Bush, por sua vez, foi eleito com uma plataforma de “conservadorismo compassivo” e rendeu homenagem a ela. Os gastos com educação aumentaram mais do que em qualquer governo desde a Guerra contra a Pobreza de Lyndon Johnson. A distribuição gratuita de remédios para os usuários do Medicare, o seguro de saúde público para os idosos, foi a maior expansão da assistência médica desde a época de Johnson. Na esteira dos megaescândalos deixados pela desregulamentação financeira, como a falência da Enron, foram instituídos alguns controles, fracos, sobre a fraude empresarial.

Na macroeconomia, a direção foi dada pelo Banco Central, cujo presidente, Alan Greenspan, apoiou a nova rodada de cortes de impostos como estímulo ao crescimento, baixou os juros repetidas vezes para elevar a cotação das ações e encorajou os contratos hipotecários de alto risco. Mas a bolha financeira criada nos anos 90 não poderia ser prolongada para sempre. Em setembro de 2008 chegou a hora da verdade. Em meio ao pânico geral que se seguiu à concordata do banco Lehman Brothers, o colapso do sistema bancário só foi evitado mediante a aquisição de emergência, pelo Tesouro, de 400 bilhões de dólares em ativos de Wall Street. A debacle, produto final da era Clinton, garantiria a derrota cabal do republicano John McCain algumas semanas depois.

Mas a vitória do Partido Democrata nas urnas foi mais que um reflexo do naufrágio da economia. Ela correspondeu a uma mudança notável e gradual na sociologia do eleitorado, em curso desde os anos 90. O operariado branco conquistado por Nixon e Reagan havia encolhido: entre 1980 e 2010, a proporção de brancos sem nível superior caiu de 70% para 40%. Enquanto isso, o eleitorado não branco – negros, hispânicos e asiáticos – havia dobrado, de 13% para 26%, desde 1992, quando Clinton conquistou os votos desses segmentos.

Dali em diante, nenhum republicano obteve a maioria dos votos dos hispânicos, o segmento de mais rápido crescimento. E o mais importante: as mulheres começaram a votar em maior número do que os homens na década de 80 e, a partir dos anos 90, uma grande maioria delas vota invariavelmente nos democratas.

A esses dividendos demográficos, somaram-se os efeitos cumulativos da desregulamentação cultural, com uma queda brusca nos índices de casamento e de adesão a uma fé religiosa.

Nos anos 50, mais de 90% dos eleitores americanos de menos de 30 anos eram casados; hoje eles são menos de 30%. Os pares casados formam agora apenas 45% dos lares, e os que têm filhos, apenas 20%. Mais de um quarto da população já não se considera cristã. Essa liberalização dos costumes – compatível com o conformismo pró-mercado – foi mais longe entre os jovens e os profissionais liberais abastados, que tendem a votar nos democratas. A Califórnia, o estado mais populoso do país, tornou-se democrata, por maioria absoluta, em meados dos anos 90.

O efeito final dessas mudanças foi substituir uma política baseada grosso modo nas classes sociais por outra baseada nas identidades. As tendências tradicionais do eleitorado perderam importância ou deram uma guinada de 180 graus. Em 2008, a maioria dos eleitores brancos que ganhavam menos de 50 mil dólares por ano votou em McCain; a maioria dos que ganhavam mais de 200 mil dólares votou em Obama. Quatro anos depois, oito dos dez municípios mais ricos do país votaram em Obama.

Crise financeira, mudanças demográficas, permutação sociocultural: no final do governo Bush, tudo favorecia os democratas. A esses fatores, o candidato acrescentou sua própria carga simbólica. Obama foi escolhido candidato em 2008 porque, pela primeira vez, o Partido Democrata exigiu a representação proporcional em todas as suas primárias. Caso tivessem valido as regras de sempre, segundo as quais o vencedor em cada estado leva todos os delegados locais, Hillary Clinton – que venceu em sete dos dez estados com maior delegação na Convenção Nacional Democrata – teria ganhado facilmente a disputa no partido.

A mudança das regras produziu o candidato perfeito para a ocasião: não só mais jovem, mais frio e mais eloquente, como também magnético para as minorias das quais dependia a vitória. Personificação do triunfo nacional sobre o preconceito racial; demonstração do sonho americano do sucesso possível para todos; portador da esperança para os esquecidos e os aflitos – Obama podia se encaixar em qualquer uma dessas imagens edificantes. Uma vez investido no cargo, sua aparência e desenvoltura geraram um governante tipo celebridade – uma espécie de John Kennedy para uma época multicultural.


No eleitorado em geral, a cor continua sendo um fator de divisão, mas as equações mudaram. O racismo que ainda é muito comum, embora não declarado, deixou de ser uma vantagem implícita e passou a ser uma nítida desvantagem na disputa política. Entre os eleitores, a perspectiva de ter um presidente apenas metade branco gerou menos hostilidade do que o entusiasmo despertado pelo primeiro presidente metade negro.

A importância da cor, que foi crítica para dar a vitória a Obama nas urnas, tem sido mínima na sua atuação no cargo. No seu governo, um em cada cinco homens negros continua a ser encarcerado em algum momento da vida. Os índices de desemprego e pobreza entre os negros não mudaram. Os interesses do governo democrata têm se concentrado em outras áreas. Sua primeira preocupação foi, necessariamente, conter a crise financeira: os bancos tinham sido socorridos no governo Bush, mas a economia estava em queda livre.

Para deter a crise, um pacote de estímulo de emergência de 800 bilhões de dólares foi aprovado no Congresso. Mais uma vez, os cortes de impostos formavam o maior componente do estímulo (37%). Mas, desta vez, despesas variadas em infraestrutura, pesquisa, energia e programas sociais compunham quase metade do total (45%), num pacote saudado por seus admiradores como “um novo New Deal”.


A reforma da saúde, na qual Clinton tinha fracassado, foi a próxima prioridade. Com maioria no Congresso, Obama pôde aprovar o chamado Obamacare, buscando universalizar a cobertura de saúde ao mesmo tempo que reduzia seus custos, de modo que a reforma pudesse se pagar.

Para evitar mais caos financeiro, a Lei Dodd-Frank multiplicou os órgãos de fiscalização de Wall Street e os deveres dos órgãos já existentes. Para manter a vigilância contra o terrorismo, o governo prorrogou a prática de escutas telefônicas sem mandado judicial. Igualmente importante: o orçamento militar, por volta de 629 bilhões de dólares quando Bush deixou o cargo, aumentou ainda mais no governo Obama, para 707 bilhões em 2012. A dívida pública, de 10,7 trilhões de dólares em 2008, saltou para quase 16 trilhões no final do seu primeiro mandato.

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O fato de que os parâmetros do sistema político mudaram muito pouco com a volta dos democratas à Casa Branca pode ser constatado na continuidade dos programas dos governos de Bush e de Obama. Ambos os presidentes, como Reagan antes deles, tomaram posse numa recessão e reagiram com cortes de impostos para estimular a economia. Ambos aprovaram medidas fracas para conter os excessos financeiros. Ambos ampliaram os benefícios de saúde para ganhar apoio social. Ambos aumentaram o financiamento federal para a educação. Ambos aumentaram os gastos militares e limitaram as liberdades civis. Ambos fizeram o déficit disparar.

A principal diferença fica por conta do volume e da direção dos benefícios laterais, que cada partido distribui segundo as próprias bases. Mas nem Bush nem Obama se afastaram de um quadro delimitado pela necessidade de garantir a confiança do mundo dos negócios, de um lado, e apaziguar os eleitores, do outro. Sob o republicano, os complementos ideológicos de sustentação do regime resultaram num nacionalismo hiperbólico, alimentando a reação aos ataques do 11 de Setembro e encobrindo o viés tributário favorável aos mais ricos. Sob o democrata, os resultados de sucessivas expedições ultramarinas tinham esgotado essa fórmula, abrindo espaço para uma alternativa ideológica que, no jargão local, poderia ser chamada de “liberalismo compassivo”, incluindo um aumento nos gastos públicos e um regime tributário favorável aos menos abastados.

A diferença política foi suficiente para manter Obama na Casa Branca na eleição de 2012. Mas ela dificilmente altera os limites do regime de acumulação em vigor desde os dias

de Carter e Reagan. As verbas dispersas do pacote de estímulo federal, muitas vezes anuladas por cortes de gastos dos governos estaduais, não mudaram a vida de seus destinatários. O Obamacare é muito mais ambicioso do que o projeto de Bush de subsidiar os medicamentos dos idosos. No entanto, as duas legislações foram feitas nos mesmos moldes: a extensão dos benefícios sociais se dá em troca de uma mina de ouro para a indústria privada de saúde – num caso, garantindo aos laboratórios, com seus remédios a preços extorsivos, um mercado subsidiado pelo Estado; no outro caso, ampliando a clientela explorada pelas seguradoras de saúde.

Quando chegou o ano eleitoral de 2012, o governo Obama já estava muito consciente do apelo popular modesto da reforma da saúde e dos parcos efeitos do pacote de estímulo na população mais afetada pela crise. Sua resposta foi passar ao ataque contra as políticas republicanas que beneficiaram os mais ricos, o que teve um efeito muito maior. Essa virada retórica foi fundamental, ideologicamente, para a reeleição de Obama, mas teve importância prática limitada: um aumento de meros 5% na alíquota máxima do imposto de renda pago pelos muito ricos, ainda assim compensado pela continuidade dos cortes tributários de Bush para todos os que ganham menos de 400 mil dólares anuais.


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Obama ajudou a impedir que a economia americana entrasse em queda livre em 2010: segundo estimativas convencionais, as medidas tomadas por seu governo salvaram cerca de 3 milhões de empregos e 6% do pib. O crescimento continuou anêmico – pouco mais de 2% durante todo o primeiro mandato – e o desemprego elevado, oficialmente calculado em cerca de 12 milhões de pessoas, ou 8% da força de trabalho. Mas, dado que a quebra financeira de 2008 foi um choque maior do que o sofrido por qualquer outro grande país capitalista, a reação em curto prazo foi eficaz.

Com menos ativos em risco, os principais países europeus tiveram desempenho pior: ao longo do mesmo período de crise, o crescimento médio na Alemanha foi de 0,7%; na França, de 0,075%; na Grã-Bretanha, de -0,2%; e na Itália, de -1,45%. O desempenho acompanhou as medidas adotadas: austeridade fiscal para equilibrar os orçamentos na Europa, abundância fiscal para frear a recessão nos Estados Unidos.

Mas a chave para a sobrevivência política de Obama foi o privilégio dos Estados Unidos como detentor da moeda internacional de reserva. Isso lhe dá a capacidade que nenhum outro país tem de incorrer no déficit que quiser sem grande risco de assustar os detentores estrangeiros de títulos americanos. Mesmo enquanto seu déficit comercial cresce sem parar e sua dívida pública aumenta, os Estados Unidos continuam sendo a fortaleza central da economia capitalista mundial e, em tempos de incerteza geral, o refúgio mais seguro para quem tem dinheiro para aplicar. Embora as medidas tomadas pelo governo democrata tenham sido do tipo tapa-buraco, o fato é que o buraco onde a economia americana corria o risco de cair foi evitado.

As tendências de longo prazo da economia são outra questão. Na campanha pela reeleição, Obama criticou o abismo entre os super-ricos e a “classe média” – o eufemismo do país para designar o resto da população, já que a sociedade americana, por definição, não tem classes baixas. Ele prometeu endireitar essa situação com impostos mais justos. A retórica tem tido pouca relação com a realidade. No governo Obama, a desigualdade continuou a crescer. Um ano depois do pacote de estímulo, Wall Street distribuiu a seus altos executivos o segundo maior volume de bônus de que há registro – 140 bilhões de dólares. Em 2011, enquanto 45 milhões de americanos recebiam cupons de alimentação e os salários medianos caíam 2,7%, os lucros empresariais eram 50% maiores do que em 2008, e a desigualdade, medida pelo índice de Gini, registrava seu maior aumento desde 2003.

Até agora tem havido poucos protestos populares. A única tentativa de despertá-los, o movimento Occupy, não conseguiu insuflar uma reação em massa. Mesmo quando seus slogans foram incorporados aos discursos presidenciais, seus efeitos foram limitados. Uma campanha destacando a arrogância e o egoísmo dos ricos, personificados por Mitt Romney, seu oponente bilionário, manteve Obama no cargo. Mas não galvanizou uma mobilização popular. Menos pessoas se deram ao trabalho de votar do que em 2008; o titular do cargo perdeu cerca de 4 milhões de apoiadores; seu adversário ganhou meio milhão. Assim como seus predecessores, o presidente voltou à Casa Branca com a concordância de cerca de um quarto da população adulta. O clima predominante continua não sendo de indignação nem de entusiasmo, mas sim de apatia despolitizada.


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É exatamente esse clima de apatia que concede às minorias ativas um poder no sistema político superior ao seu contingente numérico. A polarização dos pontos de vista é justamente o que interessa a essas minorias. No vácuo criado pela maioria – um conjunto desorganizado de cidadãos passivos, dispersos por um vasto continente –, as paixões de uns poucos, aqueles com vontade e meios para se mobilizar, assumem uma intensidade peculiar, pouco afetada pela dormência circundante.

Mas, como já foi muito observado, a polarização foi assimétrica. Do lado democrata, a posição se manteve mais ou menos onde tem estado desde o fim da era do New Deal: um centrismo agora animado por uma repulsa a seu oponente muito maior do que antes, mas de resto pouco radicalizado em questões substanciais, exceto nas culturais. No lado republicano, ao contrário, a radicalização tem sido bem marcada, numa inclinação para a direita que já atraiu uma grande literatura. O que explica essa assimetria?

Ela não é nova. A estrutura do universo ideológico totalmente capitalista – um firmamento mental em que a santidade da propriedade privada e a superioridade da iniciativa privada são consideradas verdades absolutas por todas as forças na arena política – é tal que, em qualquer tempo, a tendência é haver mais elasticidade para a direita do seu centro de gravidade do que para a esquerda. É na direita que esse sistema de convicções básicas se presta a uma articulação mais forte, e a um apelo mais imediato. Isso não ocorreu nas emergências da Depressão e da guerra nos anos 30 e 40, quando o papel do Estado na sustentação do mercado e na defesa da nação era demasiado evidente para ser negado. Assim que a paz voltou, começou a reação.

Desde então, quatro características vieram diferenciar a cultura política da base republicana da de qualquer partido conservador europeu. A primeira e mais fundamental é o grau de hostilidade em relação ao Estado. A segunda foi o desenvolvimento de um tipo de nacionalismo peculiar aos Estados Unidos, mais hiperbólico do que o 
de qualquer outra sociedade ocidental. A terceira foi a captura do Sul pelo Partido Republicano, a solidez de um racismo do Novo Mundo, originário de uma sociedade escravagista colonial que se tornou um item não declarado no portfólio afetivo do partido. A quarta compreende os novos rótulos no antigo mercado da intolerância religiosa, que se aproximaram da causa republicana à medida que a secularização tomou conta do eleitorado democrata.

Dois dos quatro fatores – a raça e a religião – foram transferências tardias do bloco democrático, no qual antes se abrigavam o chamado Cinturão da Bíblia e as leis racistas. Até mesmo um terceiro fator, o nacionalismo expansionista, foi apenas uma paixão intermitente: os dirigentes republicanos do início do século XX eram isolacionistas, não imperialistas. No seu devido tempo, a Guerra Fria trouxe o imperialismo, o democrata Lyndon Johnson perdeu o Sul ao aprovar a Lei dos Direitos Civis e a Lei do Direito de Voto, e o televangelista Jerry Falwell [um dos fundadores da Maioria Moral] chamou Deus para o Partido Republicano.

Esse coquetel se destinava a inebriar as bases republicanas. O alto comando, que desde o século XIX estava solidamente ancorado nas grandes empresas, permaneceu mais sóbrio. Seguindo um padrão que começou nos anos 50, os surtos de extravagância vindos de baixo seriam freados pelos realistas de cima. O senador Joseph McCarthy foi vencido pela Comissão Watkins, que investigou sua caça às bruxas. Os radicais anticomunistas da Birch Society foram isolados pelo influente [colunista conservador] William Buckley. Até Reagan, para os puristas, decepcionou no final. Newt Gingrich [que conduziu os republicanos na conquista da maioria legislativa, em 1994] desinflou. A turbulência mais recente, a do Tea Party, provavelmente não será mais duradoura.

Mesmo no ano passado, quando os comentaristas afirmaram que o Partido Republicano vivia um surto de demência coletiva, nenhum candidato mais exaltado chegou nem perto de vencer a disputa interna pela candidatura presidencial, que terminou com uma vitória fácil para o candidato mais convencional disponível [Romney].

Isso não quer dizer que pouco tenha mudado desde os anos 90. O maior peso do Sul no bloco republicano e a perda da Costa Oeste serviram para endurecer e estreitar o conservadorismo americano. Mas as cartas da raça e da religião não vencem uma partida; e o imperialismo passou para as mãos do seu oponente. Como apelo, continua o antiestatismo, com o próprio Tea Party passando do fanatismo moral para o fanatismo fiscal. Nos Estados Unidos, onde há mais proprietários de pequenas empresas do que sindicalistas, existe uma base social para isso no estrato dos pequenos empregadores que povoam o Tea Party e compõem 40% da nova bancada republicana na Câmara. Mas a rejeição aos impostos perdeu atração, e agora funciona mais como um slogan de defesa do que de ataque.

Desanimado com a derrota de 2012, mas não suficientemente chacoalhado por um resultado nacional que, estatisticamente, ainda foi bastante apertado, é bem claro que o Partido Republicano perdeu o rumo. Mas as carreiras terão mais importância do que as convicções, à medida que a nova realidade eleitoral se imponha. O oportunismo não é monopólio dos democratas. No passado, as conversões eleitoreiras transformaram muitos ex-republicanos moderados em conservadores intransigentes. Podemos esperar correções de rumo na direção oposta entre os ultraconservadores de hoje.


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Enquanto isso, os democratas estão no comando. As projeções demográficas os favorecem, agora que a presença dos jovens e dos hispânicos aumenta cada vez mais no eleitorado.

A vantagem ideológica também sopra a seu favor, uma vez que a raça e a religião se tornam obstáculos para a construção de uma maioria eleitoral. Após a vitória fortuita de Bush em 2000, a “guerra contra o terror” favoreceu a consolidação do poder republicano em 2004. Com o esfriamento dessa batalha, a administração do império deixa de exigir um clima de emergência nacional. Assim como nos anos 90 Clinton promoveu um reajuste social da fórmula de governo neoliberal, hoje Obama pode dar uma virada no aspecto cultural, sem medo de ser derrotado em um leilão da segurança do império.

Ampliando a vantagem democrata está seu predomínio sobre a grande mídia. Os programas de rádio e tevê que servem de megafones aos republicanos hoje só pregam para os convertidos. A formação da opinião pública onde ela importa – entre os abastados e instruídos e no segmento independente do eleitorado – é o território da grande mídia impressa. Se vigora um regime de partido único nos estados de domínio republicano, na capital do país quase 90% dos chefes de redação votaram em Clinton em 1996. Os departamentos universitários são só um pouco menos monolíticos, com quase 80% de eleitores de John Kerry em 2004. Em 2012, os principais jornais de todas as cidades importantes, excluindo o Sul – Nova York, Los Angeles, Chicago, Filadélfia, Denver, Boston, Washington –, apoiaram Obama.

A demografia e a ideologia não são os únicos terrenos em que o equilíbrio de forças se alterou. Em meados dos anos 70, os custos de uma campanha bem-sucedida para o Congresso giravam em torno de 100 mil dólares; em 2002, chegaram a 1,5 milhão de dólares. O gasto total nas campanhas presidenciais subiu de maneira mais gradual, passando de uma base de 300 milhões de dólares nas décadas de 80 e 90 para 400 milhões de dólares em 2000, e saltando para 850 milhões de dólares em 2004, quando Bush e Kerry arrecadaram quase 400 milhões cada um.

Quatro anos mais tarde, Obama abriu mão do financiamento público de campanha – e das restrições que o acompanham – e amealhou cerca de 800 milhões de dólares, esmagando McCain na maior vitória financeira da história americana: uma margem de 68% para 32%, muito maior do que sua margem de votos nas urnas. Uma vez no cargo, o presidente não perdeu tempo, batendo mais um recorde na busca pelo dinheiro. Cinco meses após a posse, Obama já estava novamente solicitando doações. Em meados de 2011, com a reeleição a mais de um ano de distância, ele participou de mais eventos para arrecadar fundos do que Carter, Reagan, o primeiro presidente Bush e Clinton juntos, e estava a caminho de ultrapassar todos os seus cinco antecessores combinados – incluindo o segundo Bush – em suas campanhas de reeleição. Na campanha de 2012, Obama mais uma vez dobrou sua arrecadação, dessa vez igualado por Romney. Os dois candidatos, juntos, levantaram 3,2 bilhões de dólares em seu próprio nome e no de suas respectivas organizações – um total de 7 bilhões.

Nesse dilúvio de dinheiro, o Partido Democrata também está na dianteira. Já em 2004 o Comitê Nacional Democrata arrecadou mais que o republicano. Aos seus doadores tradicionais – a indústria do entretenimento, os advogados criminalistas, os sindicatos, o Vale do Silício –, o partido agregou um fluxo de caixa vindo de uma base leal na internet e uma chuva de fundos dos setores imobiliário, bancário e de saúde. Os laços com o setor financeiro, formados na década de 90, se fortaleceram.

A mudança na preferência do empresariado é, em parte, um simples reconhecimento de qual partido está em ascensão e em condições de retornar mais favores. Mas também reflete cálculos racionais sobre qual dos dois é melhor para estabilizar o capitalismo num período de turbulência, quando a economia precisa de mais injeções de dinheiro e a sociedade, de uma retórica de diversidade e inclusão. Do seu lado, o Partido Democrata está usando sua riqueza recém-adquirida para construir uma máquina partidária mais poderosa do que qualquer coisa que esteja nos planos dos republicanos. Para isso, converteu a máquina da campanha de Obama em uma organização “sem fins lucrativos”, destinada a manter seus partidários a postos durante todo o mandato. Seus estrategistas preveem uma era duradoura de domínio político.


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Consideradas em si mesmas, as duas vitórias de Obama não chegam a configurar uma virada no sistema político. Nem sua escala nem seu contexto se comparam, como marcos históricos, aos da vitória de Roosevelt ou de Reagan. A margem de vitória de Obama não só foi menor, como caiu depois do primeiro mandato, enquanto a de Roosevelt e a de Reagan aumentaram. Isso não impede uma posterior consolidação dinástica sob Hillary Clinton.

A diferença mais importante reside no contexto estrutural do governo Obama. Roosevelt e Reagan assumiram o cargo quando o regime anterior de acumulação se esgotara e os contornos de um novo regime apenas se esboçavam. Nos anos 30 não havia escassez de ideias – Escola de Estocolmo, John Maynard Keynes, Hjalmar Schacht – para vencer a Depressão, embora o New Deal levasse algum tempo para recorrer a elas. Na década de 80, havia muito se preparava um contra-ataque neoliberal – os austríacos, a Escola de Chicago –, com um arsenal de receitas para lidar com a ameaça da estag-flação. Hoje o regime de acumulação local está em crise. Objetivamente, porém, ainda não se trata de crise aguda, e subjetivamente a paisagem está nua de ideias em condições de delinear um novo regime. É esse impasse subjacente que produziu um cenário político profundamente dividido.

Nos Estados Unidos, as dificuldades imediatas foram enfrentadas com remédios de tipo keynesiano: excesso de gastos públicos em relação às receitas, ajuda às empresas. Na Europa, que não goza da prerrogativa imperial de imprimir dinheiro, a crise foi combatida com receitas semiaustríacas. Nenhum desses remédios oferece resposta à prolongada desaceleração das economias capitalistas avançadas, iniciada quarenta anos atrás. O que há é uma fuite en avant, para evitar o perigo de um colapso traumático. É um regime de acumulação que enriqueceu alguns extraordinariamente, mas não conseguiu restaurar o dinamismo no mundo atlântico nem na sua extensão, o Japão.

No momento de seu triunfo político, o governo Obama enfrenta pressões econômicas que abrem poucas oportunidades seja para as reformas sociais de Roosevelt, seja para a generosidade fiscal de Reagan: déficits ameaçadores, custo crescente dos benefícios sociais, crescimento fraco. Os substitutos culturais oferecem uma saída temporária: mudanças que custam pouco ou nada – legalização de imigrantes em situação irregular, controle de armas, casamento para todos. Para além delas, a margem de manobra parece pequena.

Desde o surgimento de um novo regime de acumulação, nos anos 80, os sistemas políticos do Atlântico conheceram dois tipos de hegemonia: por meio de uma fórmula orgânica para o governo neoliberal ou de uma nítida vitória eleitoral. Os dois tipos podem coincidir ou divergir. A expressão mais coerente e eficaz de uma ideologia e uma vitória decisiva nas urnas nem sempre são a mesma coisa. Na Grã-Bretanha, que foi pioneira nessa virada, Margaret Thatcher conseguiu uma hegemonia abrangente sem jamais conquistar a maioria do eleitorado, com o seu Partido Conservador nunca recebendo na época mais de 44% dos votos. Nos Estados Unidos, onde o terreno era mais favorável, Reagan combinou uma fórmula orgânica com amplas maiorias eleitorais.

Na década de 90, os regimes da Terceira Via de Clinton e Tony Blair ofereceram variantes ao legado dos antecessores, servindo, ao mesmo tempo, para aprofundá-lo e anestesiar seu impacto. Ambas foram “hegemonias sem peso”. Hoje, vitórias eleitorais como as de Clinton e Blair são comuns na Europa, sem que os eleitos consigam se consolidar nos governos. Muitas dessas vitórias refletem sobretudo uma reação quase instintiva à crise, e não tanto a convicção sobre como sair dela.


Nos Estados Unidos, o privilégio de deter a moeda de reserva vem mitigando os efeitos da crise. Mas o impasse no regime de acumulação persiste em todo o sistema, e, na falta de alternativas mais abrangentes que sirvam à disputa política, as guerras culturais relativas à cor e aos costumes ganham uma importância desproporcional. O resultado é a polarização de que hoje se ocupam com tanta insistência os comentaristas. A ordem neoliberal se tornou uma terra de ninguém onde nenhuma fórmula orgânica de governo está à vista.

Notas

[1] Regime of accumulation: term derived originally from the Marxist work of Michel Aglietta,Régulation et crises du capitalisme, Paris 1976, of which an institutionalist equivalent can be found in Douglas Forsyth and Ton Notermans, ‘Macroeconomic Policy Regimes and Financial Regulation in Europe, 1931–1994’, in Forsyth and Notermans, eds, Regime Changes, Providence, RI 1997, pp. 17–68.

[2] Semantically, a symptom of this closed universe is the transformation in local vocabulary of the term ‘liberal’ into a merely social or cultural outlook, denuded of reference to the economic principles that have historically defined it elsewhere, since in the US the axioms of the free market are common to all. Thus ‘neo-liberal’, universal currency abroad, is a lexical embarrassment for those who identify themselves with the indigenous version.

[3] First came the off-ramp from gold, passage of Glass–Steagall and NIRA, in 1933; then the Wagner and Social Security Acts, in 1935.

[4] For this history, see Robert Brenner, ‘Structure vs Conjuncture’, NLR 43, January–February 2007, pp. 37–40, the most important single text for understanding the evolution of US politics since the New Deal.

[5] See Robert Brenner, The Economics of Global Turbulence, New York and London 2006, passim, the fundamental history of post-war capitalism.

[6] The origins of the AEI go back to 1943, when corporate executives flocked to Washington for roles in the war economy, but its transformation into a conservative powerhouse dates from the seventies: by 1980 it had over 600 corporate sponsors. The Heritage Foundation was set up in 1973, the Cato Institute in 1977. For these developments, see Jacob Hacker and Paul Pierson, Winner-Take-All Politics, New York 2010, pp. 118–20.

[7] For the notion of ideological supplement, see ‘Testing Formula Two’, NLR 8, March–April 2001, pp. 7–8.

[8] At presidential level, Goldwater took six Southern states in 1964; Nixon eight in 1968, and the whole region in 1972. Reagan won all but Georgia in 1980, and swept the board in 1984. But at Congressional level, the Republican breakthrough did not come until 1994.

[9] Celebrating the abolition of Glass–Steagall, Treasury Secretary Summers announced: ‘Today Congress voted to update the rules that have governed financial services since the Great Depression and replace them with a system for the 21st century. This historic legislation will better enable American companies to compete in the new economy.’ Sandy Weill, head of Citigroup, which had just hired Summers’s predecessor Rubin as its chairman, and would be fined $2.65 billion—the largest such penalty in the history of Wall Street—for its criminality in the WorldCom scandal, would proudly display among his trophies the pen Clinton used to sign the repeal of Glass–Steagall: Jeff Madrick,Age of Greed, New York 2011, p. 349. Weill’s point-man with Clinton’s White House, helping him assure passage of the bill, was Gene Sperling, later a stipendiary of Goldman Sachs, now Chairman of Obama’s National Economic Council.

[10] ‘This huge supply shock radically changed the relative returns on capital and labour. It made inflation global, meaning that its rates have become highly correlated all over the world, and it subdued long-run inflation. Subsequently risk aversion abated, and in most emerging-market countries the cost of credit has fallen, while the rate of profit has risen. No wonder that credit surged and financed a boom in asset prices’: Michel Aglietta, ‘Into a New Growth Regime’, NLR 54, November–December 2008, p. 72.

[11] A process foreseen by Marcuse already in the mid-fifties, coining the term in Eros and Civilization.

[12] For dismissal of the idea that significant value-conflicts divide the electorate at large, as distinct from minorities on either side, see Morris Fiorina (with Samuel Abrams and Jeremy Pope), Culture War? The Myth of a Polarized America, New York 2005, pp. 15–25 et seq, and (with Samuel Abrams)Disconnect: The Breakdown of Representation in American Politics, Norman, OK 2009; supported by Andrew Gelman, ‘Economic Divisions and Political Polarization in Red and Blue America’, Pathways, Summer 2011, pp. 3–6, for whom value-conflicts are confined to the upper-middle class and the rich, leaving the rest of the population cold. That polarization is, on the contrary, rooted in conspicuous divisions of popular sentiment and conviction is a leading theme in the work of Alan Abramowitz, The Disappearing Center: Engaged Citizens, Polarization and American Democracy, New Haven 2011, andThe Polarized Public?, Upper Saddle Valley, NJ 2013. There is little doubt that Abramowitz has the better of the argument, for which the hardening division of states into ‘blue’ and red’ columns is the plainest evidence.

[13] For these figures, see Abramowitz, Disappearing Center, p. 129; Economist, 25 June 2011.

[14] The most extended case for the belief that there is a continuing, clear-cut economic division between Democratic and Republican electorates, the less well-off opting for the former, the better-off for the latter, is developed in Nolan McCarty, Keith Poole and Howard Rosenthal, Polarized America, Cambridge, MA 2008, which argues that the ‘income effect’ trumps all other determinants of voting behaviour. Appearing before Obama’s two electoral victories, their findings risk looking dated in the light of them. In 2012 Obama ‘carried only one-third of non-college [sc. working-class] white men, the worst performance since Walter Mondale was buried in Ronald Reagan’s 1984 landslide’: Ronald Brownstein, ‘Why Obama Is Giving Up On Right-Leaning Whites’, The National Journal, 31 January 2013.

[15] Paul Toscano, ‘Obama Wins 8 out of 10 Wealthiest Counties in US’, CNBC, 7 November 2012, based on Census Bureau data of average household income 2006–11.

[16] California, Texas, New York, Florida, Pennsylvania, Ohio, Michigan. The provincialism of American political science, and debate in general, is such that this condition of Obama’s success has merited scarcely a line of comment, let alone of reflection.

[17] The most euphoric billboard for the Administration has been erected by Michael Grunwald, The New New Deal, New York 2012, where the stimulus becomes ‘more than 50 per cent bigger than the entire New Deal, twice as big as the Louisiana Purchase and Marshall Plan combined’, ‘the biggest and most transformative energy bill in US history’, ‘the biggest and most transformative education reform bill since the Great Society’, ‘the biggest foray into industrial policy since FDR’, ‘the biggest middle-class tax cut since Ronald Reagan’, ‘the biggest infusion of research money ever’, etc—all this from an author capable of writing ‘nothing in life except parenthood lives up to the hype’ (sic): pp. 10–11, 448.

[18] In the gratified words of the leading encomium of the Act, complete with White House photo-ops on the cover, ‘As for businesses in the US economy’s vast health-care sector, they are going to win, on balance, enjoying more customers and opportunities for growth and profits . . . Traders in health-industry stocks know how to penetrate the partisan and ideological fog to see the economic bottom line’: Lawrence Jacobs and Theda Skocpol, Health Care Reform and American Politics: What Everyone Needs to Know, New York 2010, p. 135: on the day the Act was passed, Wall Street hit an eighteen-month high. The principal architect of the law, Elizabeth Fowler—working under the top senatorial recipient of cash from the health-care industry, Max Baucus—was former Vice-President for Public Policy of WellPoint, America’s largest insurance company. Obama then appointed her to implement the Act. Two years later, she returned to her natural habitat as a top executive of the pharmaceutical giant Johnson & Johnson. For a trenchant summary of the political and social nub of the Act, see Edward Luce, Time to Start Thinking, New York 2012, pp. 228–31; for a deeper and yet more devastating critique, see Roger Hodge, The Mendacity of Hope, New York 2010, pp. 129–49.

[19] For the numbers who will continue to be uninsured, see the estimates of the Congressional Budget Office, cited in ‘Court’s Ruling May Blunt Reach of the Health Law’, New York Times, 24 July 2012.

[20] Ezra Klein, ‘Block Obama!’, New York Review of Books, 27 September 2012.

[21] Alan Blinder and Mark Zandi, ‘How the Great Recession Was Brought to an End’, 27 July 2010, p. 7; available on Moody’s Analytics site.

[22] The true figure, including drop-outs from the labour force who no longer even seek a job, is probably over 14 million: see Mort Zuckerman, ‘How We Can End Our Modern-Day Depression’, USNews and World Report, 1 February 2013. Between 2000 and 2011, the economic participation rate dropped from 64 to 58 per cent of the population: Luce, Time to Start Thinking, p. 92.

[23] Jeff Madrick, Age of Greed, p. 397; Daniel Gross, Better, Stronger, Faster, New York 2012, p. 52; Timothy Noah, ‘The Equality Inaugural’, The New Republic, 21 January 2013. Median income fell by more during the ‘recovery’ of 2009–11 than during the ‘recession’ of 2007–09: Luce, Time to Start Thinking, p. 272.

[24] Typically accompanied by wistful hopes for a return to earlier American moderation, often after arguments that increasing social inequality has been a key determinant of political polarization. Thus Hacker and Pierson—after documenting at length the corruption of the political system and its consequences, and then deciding that even if it only ‘nibbles at the edges’ of these, Obama’s record has after all been ‘genuinely impressive’—conclude that nevertheless ‘the guardians of moderation need help’, if ‘a vibrant, dynamic capitalism’ is to prevail: Winner-Take-All Politics, pp. 301–2, 304; while McCarty, Poole and Rosenthal, after producing striking correlations between rising inequality and increasing polarization, express the wish that ‘the Sam Rayburns, John Heinzes, Dan Rostenkowskis, Sam Nunns and so on, would return and bring some sense back into our politics. As citizens, we hope moderation returns before serious cracks in our institutions occur’: Polarized America, p. 203. Rostenkowski was, of course, jailed for corruption, and then pardoned, along with runaway financier Marc Rich and others, by Clinton on his memorable last day in office. Among the authors is a one-time occupant of the Kenneth Lay Chair of Political Science at the University of Houston.

[25] For the continuities in the politics of the popular Right in the US, see the essays written between the mid-fifties and mid-sixties by Richard Hofstadter. ‘The modern right wing, as Daniel Bell has put it, feels dispossessed: America has been largely taken away from them and their kind, though they are determined to repossess it.’ Noting that ‘the entire right-wing movement’ was not only dotted with fundamentalist preachers, but ‘infused at mass level with the fundamentalist style of mind’, Hofstadter reminded his readers of how passionately the small-town and rural Protestants of the 1920s had defended cultural values that were resurfacing in the Goldwater period, when—plus ça change—‘the largest single difficulty facing the right wing as a force within the Republican party is its inability to rear and sustain national leaders’. The Tea Party is less outré than many of its forebears, for whom Eisenhower’s nomination meant ‘eight more years of socialism’, and Dulles was a ‘Communist agent’:The Paranoid Style in American Politics [re-edition], Cambridge, MA 1996, pp. 23, 73, 78–9, 45, 28.

[26] Theda Skocpol, Obama and America’s Political Future, Cambridge, MA 2012, p. 47.

[27] Survey data report that ‘nearly half of Tea Party supporters say they have not heard of the religious right or have no strong opinion about it—and about one in ten Tea Partiers express strong disagreement with religious conservatism’: Theda Skocpol and Vanessa Williamson, The Tea Party and the Remaking of Republican Conservatism, New York 2012, p. 36.

[28] Cheney was once a critic of any crackdown on campus protests, calling for ‘greater understanding and moderation in responding to student concerns and disorders’; Rumsfeld, a young moderate in revolt against his moss-back elders; Gingrich, a follower of Nelson Rockefeller; Mitch McConnell, a scorner of the Nixon Administration as ‘at worst completely reactionary and at best totally indecisive’: Geoffrey Kabaservice, Rule and Ruin, New York 2012, pp. 267, 132, 242, 320.

[29] For a coruscating analysis of these trends, and the concomitant tensions within the Republican bloc, see Mike Davis, ‘The Last White Election’, NLR 79, January–February 2013, pp. 5–52, which also offers the most telling account of the consolidation of Republican power at state level in its bastions of the South and Midwest, and their importance in the ‘odd and complex orrery’ of the US political system at large, where at federal level the Supreme Court circles in another generally conservative orbit: pp. 12, 46–7 ff.

[30] Thomas Edsall, Building Red America, New York 2006, p. 101.

[31] Neil Gross and Solon Simmons, ‘The Social and Political Views of American Professors’, Working Paper, September 2007, p. 36.

[32] Brendan Doherty, The Rise of the President’s Permanent Campaign, Lawrence, KS 2012, pp. 82–3, 149, 167.

[33] Federal Election Commission, 31 January 2013.

[34] From 1999 to 2006, the top five Senatorial recipients of cash from securities and investment firms were all Democrats—in rank order: Schumer, Kerry, Lieberman, Clinton and Dodd: Winner-Take-All Politics, pp. 226–7. In 2002, when the top recipient in the House was Rahm Emmanuel, two-thirds of the roll-call of largest campaign donors poured their money into the party of the common man, as Truman liked to call it: ‘perhaps surprisingly’ is the artless comment of McCarty, Poole and Rosenthal in Polarized America, p. 140—within their framework, it would be more accurate to say, incomprehensibly.

[35] In Hodge’s crisp formulation, ‘Politics, we might say, is the continuation of business by other means’: Mendacity of Hope, p. 8. In 2008 Goldman Sachs alone lavished three-quarters of its funding on the Democrats, with Citigroup not far behind: p. 46.

[36] For the novelty of this configuration, see Ronald Brownstein’s commanding study The Second Civil War, New York 2007, pp. 17–19 ff, passim. He points out that Republicans were easily dominant up to the Depression, Democrats during the high tide of the New Deal. Then, from the late thirties to the mid-sixties, the political system was closely but not deeply divided, Democrats and Republicans routinely crossing party lines in an era of bipartisan negotiation. Since then, it has become both deeply and closely divided. The observation is acute, but its periodization is weakened by a tendency to elide partisan policies and electoral preferences, leading Brownstein to date the beginnings of the third era from Reagan’s Presidency, on the grounds that it detonated ideological passions that intensified conflict between the parties. The country, however, was not closely divided under Reagan, who commanded huge majorities in the Electoral College throughout. It is only under the last three Presidencies that deep but close division set in. The unfamiliarity of this development, underlined by Brownstein, is left largely unexplained by him. In general, it is striking how blind even the most accomplished American political science or sociology is to the economic history structuring shifts in the political system. For the latest example, see the exchanges between Theda Skocpol, Larry Bartels, Mickey Edwards and Suzanne Mettler in Obama and America’s Political Future, all of which proceed as if their subject could be discussed without so much as a glance at the fortunes of American capitalism.

[37] The most powerful analysis of the political logic at work in successive phases of this process is provided by Wolfgang Streeck, ‘The Crises of Democratic Capitalism’, NLR 71, September–October 2011, pp. 5–29.

[38] Susan Watkins, ‘A Weightless Hegemony: New Labour’s Role in the Neo-Liberal Order’, NLR 25, January–February 2004, pp. 5–23.

29 de julho de 2013

Lendo Marx no Cairo

Vale a pena ler Marx, para compreender uma ditadura que apela às massas e ao nacionalismo, enquanto reprime brutalmente e reata laços com Washington.

por Kaveh L. Afrasiabi

Asia Times Online

“Cada gigante pressupõe um anão... Cesar, o herói, deixou atrás de si um Otaviano...”  
- Karl Marx


Quando o novo homem forte do Egito, general Abdel Fattah al-Sisi, convocou seus apoiadores para que manifestassem sua solidariedade ao Exército na sexta-feira, 57º aniversário da nacionalização do Canal de Suez, ato do carismático Gamal Abdel Nasser, minha reação instintiva foi correr à prateleira, para reler O 18 de Brumário de Luis Bonaparte, de Karl Marx, em homenagem à analogia histórica.¹

No livro de Marx, tem-se um modelo de análise de repetições históricas (a segunda vez, como farsa), que surge da comparação entre o golpe na França em dezembro de 1851 (orquestrado por um sobrinho do grande Napoleão, e o qual, embora sem ter nenhuma mínima fração do gênio do tio, se autodenominou Imperador Napoleão 3º). Do ponto de vista de Marx, o golpe de 1851 foi uma caricatura do golpe de Napoleão em 1799 – devida, sobretudo, à “grotesca mediocridade” do sobrinho.

Na comparação, o general Sisi, cujos atiradores assassinaram a sangue frio dezenas de manifestantes no Cairo e em outras cidades naquela sexta-feira, não chega a ser nem cópia pálida do Nasser pan-arabista, que pôs fim a 72 anos de dominação britânica no Egito e, assim, tornou-se herói do anticolonialismo pós-Segunda Guerra Mundial. Sisi, não. Sisi mostra-se, a cada dia, mais e mais parecido com um neo-Augusto Pinochet, em tudo semelhante ao que Friedrich Engels, camarada de Marx, escreveu de Napoleão 3º: “o sargentinho e seu bando de marechais.”

Desde a derrubada do presidente Mohamed Morsi, no dia 3 de julho, Sisi, o novo imperador do Egito, vem decaindo pela trilha dos ditadores mais brutais, mostrando pouca ou nenhuma piedade ou respeito pelos adversários, pronunciando discursos sombrios sobre “enfrentar o terrorismo”, desculpa capenga para disparar sem qualquer limite o seu reinado de terror, contra as vastas porções da população que se opõem ao golpe militar.

Ironicamente, Sisi quer ter as duas coisas: quer obter legitimidade, ligando-se ao legado orgulhoso de Nasser e, ao mesmo tempo atacando o presidente deposto Morsi para fazer exatamente o que Nasser fez em meados dos anos 1950, isto é, promulgar uma nova constituição que em grande parte monopolizou o poder em suas mãos autoritárias.

Já não há dúvida alguma de que Sisi e seus co-conspiradores calcularam mal a extensão da oposição popular ao golpe contra Morsi –, tacitamente aprovado por Washington, como se comprovou no empenho do presidente Obama dos EUA para não chamar o golpe, de “golpe”; não tomar nenhuma providência para impedir o golpe; e no movimento de, sem um segundo de hesitação, anunciar que não haveria qualquer interrupção na ajuda militar e na venda de armas ao Egito.

Pseudo

“Nenhuma lei nos obriga a dizer ‘golpe’ ou qualquer outra coisa” – disse um porta-voz do governo dos EUA, frase dúbia e posição duvidosa que zombam da lei norte-americana e da responsabilidade legal e ética dos EUA. A lei norte-americana, muito claramente, proíbe que países vítimas de golpes de Estado recebam ajuda humanitária. Inventar exceções a essa regra é desenvolvimento doentio que não augura qualquer boa notícia para o futuro das relações entre EUA e mundo árabe. O secretário de Estado dos EUA, John Kerry, que não se deu sequer o trabalho de dar um telefonema aos generais egípcios integrados à lista de pagamento do Departamento de Estado, para desestimulá-los de insistirem no golpe que estava em curso, vive agora a gemer que o Egito está “à beira do abismo” e suplicando que todos os partidos retrocedam.

O que se vê aí é diplomacia de má qualidade, diplomacia inepta, orientada pelo velho vício imperial de controle e dominação, que já não oferecia qualquer garantia a partir do momento em que as urnas levaram Morsi e sua Fraternidade Muçulmana ao poder. Não surpreende que a desculpa que mais se ouve, para justificar o golpe, seja a “estabilidade” num país geoestrategicamente importante. De fato, o que se tem aí é o reflexo da velha húbris imperial, que errou seus cálculos e avaliou mal o desejo popular e a rejeição a qualquer golpe, também entre egípcios que pouco têm a ver com a Fraternidade Muçulmana. Resultado disso, a coalizão chefiada pela Fraternidade contra o golpe vai se tornando mais forte a cada dia – como reação vital direta à repressão brutal que Sisi desencadeou e comanda. Falta a Sisi o horizonte intelectual dos nasseristas, que agiram segundo uma dialética interna da história egípcia.

Esse pseudo-Nasser, consumido integralmente pelos inimigos internos, opera como força de desagregação social, de desunião e discórdia, assegurando o resultado mais catastrófico. As forças seculares nacionalistas e liberais que o apoiam condenam-se a perder a própria legitimidade apenas por se aproximarem dos golpistas e desse neo-Pinochet do Cairo, cujo discurso a favor da “unidade nacional” jaz afogado no fundo do Nilo. Nesta fase, o que o futuro reserva para o Egito não é claro, mas o lugar de Sisi ao longo da lista de líderes farsa na narrativa de Marx já é um destino selado. “Caussidière por Danton, Louis Blanc por Robespierre, a Montanha de 1848 a 1851 pela Montanha de 1793 a 1795, o sobrinho pelo tio” – Marx escreveu; e a mesma caricatura aplica-se nas circunstâncias dessa recente edição de mal disfarçada neoditadura militar no Egito.

25 de julho de 2013

Como estamos empobrecidos, aburguesados e silenciados

E o que fazer sobre isso

Por John Pilger

Conheço o meu carteiro há mais de 20 anos. Consciencioso e bem-humorado, ele é a encarnação do serviço público no seu melhor aspecto. Noutro dia, perguntei-lhe: "Por que é que você se posta frente a cada porta como um soldado numa parada?"

"Novo sistema", respondeu. "Já não me pedem para simplesmente postar as cartas através da porta. Tenho de abordar cada porta de um certo modo e enfiar as cartas através dela de um certo modo".

"Por que?"

"Pergunte-lhes".

Do outro lado da rua estava um jovem solene, com prancheta na mão, cujo trabalho era seguir carteiros e ver se eles cumprem as novas regras, sem dúvida como preparativo para a privatização. Eu disse ao seguidor de carteiros que o meu era admirável. A sua cara permaneceu imutável, exceto por um momentâneo piscar confuso.

Em "Admirável mundo novo revisitado", Aldous Huxley descreve uma nova classe condicionada à normalidade que não é normal "porque eles estão tão bem ajustados ao nosso modo de existência, porque sua voz humana foi silenciada tão prematuramente nas suas vidas, que nem mesmo lutam ou sofrem ou desenvolvem sintomas como acontece com o neurótico".

A vigilância é normal na Era da Regressão - como revelou Edward Snowden. Câmaras por toda a parte são normais. Liberdades subvertidas são normais. A discordância pública efetiva é agora controlada pela polícia, cuja intimidação é normal.

A corrupção de nobres palavras como "democracia", "reforma", "bem-estar" e "serviço público" é normal. Primeiros-ministros que mentiram abertamente acerca de lobbystas e objectivos de guerra são normais. A exportação de armas britânicas no valor de 4 mil milhões de libras [€ ], incluindo munições para controle de multidão, para o estado medieval da Arábia Saudita, onde a apostasía é um crime capital, é normal.

A destruição deliberada de instituições públicas eficientes e populares, como a Royal Mail, é normal. Um carteiro já não é mais um carteiro, a fazer o seu trabalho decente; ele é um autómato a ser observado, um ítem de formulário a ser assinalado. Huxley descreveu esta regressão como insana e o nosso "perfeito ajustamento àquela sociedade anormal" como sinal de loucura.

Estaremos nós "perfeitamente ajustados" a isto? Não, ainda não. O povo defende hospitais do encerramento, o Reino Unido íntegro força agências bancárias a fecharem e seis corajosas mulheres escalam o mais alto edifício da Europa para mostrar a devastação provocada no Árctico pelas companhias de petróleo. Aqui, a lista começa a desvanecer-se.

No festival de Manchester deste ano, a épica peça "A máscara da anarquia", de Percy Bysshe Shelley – com todos os 91 versos escritos em cólera após o massacre de Lancashire, em 1819, do povo que protestava contra a pobreza – é uma peça teatral aplaudida e absolutamente divorciada do mundo externo. Em Janeiro último, a Comissão da Pobreza da Grande Manchester revelou que 600 mil habitantes de Manchester estavam a viver em "extrema pobreza" e que 1,6 milhão, ou aproximadamente a metade da população da cidade, estavam "a deslizar para pobreza mais profunda".

A pobreza foi aburguesada (gentrified). O Parkhill Estate, em Sheffield, era outrora um edifício de habitação pública – pouco apreciado por muita gente devido ao seu brutalismo Le Corbusier, à fraca manutenção e falta de instalações. Com o programa Heritage Grade II, ele foi renovado e privatizado. Dois terços das velhas habitações renasceram como apartamentos modernos vendidos a "profissionais", incluindo designers, arquitectos e um historiador social. No gabinete de vendas podem-se comprar canecas e almofadas de designer. Esta fachada não apresenta nem um indício de que, devastada pelos cortes de "austeridade" do governo, Sheffield tem uma lista de espera para habitação social de 60 mil pessoas.

Parkhil é um símbolo dos dois terços da sociedade que é a Grã-Bretanha de hoje. O terço aburguesado vai bem, alguns deles extremamente bem, um terço luta para sobreviver a crédito e o resto desliza para a pobreza.

Embora a maioria dos britânicos seja da classe trabalhadora – que se considere desse modo ou não – uma minoria aburguesada domina o parlamento, a administração superior e os media. David Cameron, Nick e Ed Milliband são os seus autênticos representantes, com apenas diferenças técnicas menores entre os seus partidos. Eles estabelecem os limites da vida e do debate político, ajudados pelo jornalismo aburguesado e da indústria da "identidade". A maior transferência de sempre da riqueza, para cima, é um dado. A justiça social foi substituída pela "justeza" ("fairness") sem significado.

Enquanto promove esta normalidade, a BBC concede um prêmio de quase um milhão de libras a um funcionário superior. Embora se considere como o equivalente na mídia à Igreja da Inglaterra, a corporação agora tem uma ética comparável àquela das companhias de "segurança" G4S e Serco as quais, diz o governo, cobraram a mais por serviços públicos dezenas de milhões de libras. Em outros países isto se chama corrupção.

Tal como a liquidação das companhias de energia, água e das ferrovias, a venda do Royal Mail está sendo obtida com subornos e a colaboração da liderança sindical, pouco importando o seu protesto verbal. Ao abrir a sua série de documentários de 1983, "Questions of Leadership", Ken Loach mostra líderes sindicais exortando as massas. Os mesmos homens são mostrados em seguida, mais velhos e enfeitados, adornados com arminho na Casa dos Lordes. Na recente homenagem pelo Aniversário da Rainha, o secretário-geral da [central sindical] TUC, Brendan Barber, recebeu o seu título de nobreza.

Por quanto tempo os britânicos podem assistir aos levantamentos por todo o mundo e pouco mais fazer do que chorar o defunto Partido Trabalhista? As revelações de Edward Snowden mostram a infraestrutura de uma polícia de estado a emergir na Europa, especialmente na Grã-Bretanha. Contudo, o povo está mais consciente do que nunca; e os governos temem a resistência popular – razão pela qual os que dizem a verdade são isolados, caluniados e perseguidos.

Mudanças grandiosas quase sempre começam com a coragem de pessoas que põem em causa suas próprias vidas contra todas as adversidades. Não há outra saída agora. Acção directa. Desobediência civil. Infalível. Leiam Percy Shelley – "Vocês são muitos; eles são poucos". E tenham êxito. [John Pilger]

John Pilger é jornalista. Sua carreira como repórter começou em 1958, e ao longo dos anos tornou-se famoso pelos livros e documentários que escreveu ou produziu. Apesar das tentativas de setores mais conservadores para ridicularizar e desvalorizar Pilger, o seu jornalismo investigativo já mereceu vários prêmios na área do jornalismo, tais como a atribuição, por duas vezes, do prêmio jornalista inglês do ano, e na área dos dos Direitos Humanos.

22 de julho de 2013

Decolagem da Wall Street: 2012-2013

Por James Petras

[The Official James Petras Website] Em 16 de julho, o Goldman Sachs, quinto maior banco em ativos, anunciou que os lucros do segundo trimestre ultrapassaram os do ano anterior por 1,93 bilhão de dólares. O J. P. Morgan, o maior banco de todos, fez no segundo trimestre 6,1 bilhões de dólares, cerca de 32% mais que no ano anterior, e espera fazer 25 bilhões de lucros em 2013. Wells Fargo, o quarto maior banco, arrebanhou 5,27 mbilhões de dólares, mais 20%. Os lucros do Citigroup atingiram 4,18 bilhões, mais 42% que no ano passado.

A elite dirigente, os Diretores Gerais financeiros, vê os seus vencimentos subirem em flecha. John Stumpf do Wells Fargo recebeu 19,3 milhões em 2012; Jamie Dimon do J. P. Morgan Chase empochou 18,7 milhões e Lloyd Blankfein do Goldman Sachs ficou com 13,3 milhões.

Os resgates da Wall Street por Bush e Obama tiveram como resultado o agravamento da financeirização da economia americana. A finança substituiu a indústria tecnológica como setor lucrativo da economia dos EUA. Enquanto a economia dos EUA estagna e a União Europeia se debate com a recessão e com mais de 50 milhões de desempregados, as grandes empresas financeiras americanas do índice 500 da Standard & Poor ganhavam lucros consolidados de 49 mil milhões no segundo trimestre de 2013, ao passo que o setor técnico anunciava 41,5 mil milhões. Para 2013, Wall Street projeta ganhar 198,5 mil milhões de dólares em lucros, enquanto as empresas técnicas esperam 183,1 mil milhões. Dentro do setor financeiro, os setores mais «especulativos», isto é, os bancos de investimento e as firmas de corretagem, são dominantes e com crescimento dinâmico de 40% em 2013. Mais de 20% dos lucros das empresas do índice 500 S & P estão concentrados no setor financeiro.

O crash financeiro de 2008-2009 e o resgate de Obama reforçaram o domínio da Wall Street sobre a economia dos EUA. O resultado é que o setor financeiro parasitário extrai rendas e lucros colossais da economia e priva as indústrias produtivas de capital e ganhos. A recuperação e boom dos lucros das corporações desde a crise estão concentrados no mesmo setor que provocou o crash alguns anos antes.

A Crise do Trabalho agrava-se – 2013

A nova bolha especulativa de 2012-2013 é um produto da política de juros baixos ou virtualmente nulos dos bancos centrais (nos EUA, a Reserva Federal), que permitem à Wall Street empréstimos baratos e especulação, atividades que inflacionam o preço das ações mas não geram emprego e, além disso, deprimem a indústria e polarizam a economia.

A promoção de lucros financeiros pelo regime de Obama é acompanhada das suas políticas de redução dos padrões de vida para os trabalhadores com vencimento e assalariados. A Casa Branca e o Congresso cortaram a despesa pública na saúde, na educação e nos serviços sociais. Cortaram fundos para o programa de senhas de alimentação (subsídios de alimentação para as famílias pobres), centros de dia, benefícios para desempregados, indexação à inflação da segurança social, Medicare e programas Medicare. Como resultado, o fosso entre os 10% do topo e os 90% abaixo foi alargado. Vencimentos e salários baixaram em termos relativos e absolutos, visto que os empregadores tiram vantagem do elevado desemprego (oficialmente 7,8%), subemprego (15%) e emprego precário.

Em 2013, os lucros capitalistas, especialmente no capital financeiro, crescem rapidamente enquanto a crise do trabalho continua, aprofunda-se e provoca a alienação política. Fora da América do Norte, especialmente na periferia europeia, o desemprego em massa e a degradação do nível de vida tem levado a protestos massivos e repetidas greves gerais.

Na primeira metade de 2013, os trabalhadores gregos organizaram quatro greves gerais de protesto contra o despedimento em massa de trabalhadores do setor público. Em Portugal, duas greves gerais levaram à exigência de demissão do primeiro-ministro e novas eleições. Em Espanha, a corrupção ao mais alto nível, a austeridade fiscal responsável por 25% de desemprego e a repressão levaram à intensificação da luta de rua e à exigência de queda do regime.

O mundo bi-polar de banqueiros ricos no norte colhendo lucros record e por todo o lado trabalhadores recebendo uma parte cada vez menor do rendimento nacional mostra a base de classe da «recuperação» e da «depressão» com a prosperidade para poucos e a miséria para muitos. Pelo final de 2013, os desequilíbrios entre finança e produção antecipam um novo ciclo de boom e queda. É emblemática da morte da «economia produtiva» a declaração de falência de Detroit que, com 79.000 casas, lojas e fábricas vazias, parece Bagdad depois da invasão americana – nada funciona. A cidade devastada pela Wall Street, em tempos berço da indústria automóvel e do salto dos operários industriais organizados para a classe média, tem agora dívidas que totalizam 20 mil milhões de dólares. As três grandes companhias do automóvel deslocalizaram-se para o estrangeiro e para estados fora da união, enquanto os banqueiros bilionários «reestruturam» a economia, quebram os sindicatos, baixam salários, renegam pensões e governam por decreto administrativo.

James Petras, professor da Universidade de Nova Iorque.

21 de julho de 2013

Brasil: O capitalismo extrativo e o Grande Salto para Trás

Por James Petras

The Official James Petras Website

O Brasil testemunhou um dos mais gritantes retrocessos socioeconômicos da moderna história mundial: de uma dinâmica nacionalista de industrialização para uma economia exportadora primária. Entre meados da década de 1930 e meados da década de 1980, o Brasil cresceu a uma taxa média de cerca de 10% no seu setor manufatureiro, em grande medida com base em políticas intervencionistas do estado, subsídios, proteção e regulação do crescimento de empresas públicas nacionais e privadas. Mudanças no "equilíbrio" entre o capital nacional e estrangeiro (imperial) começaram a ser verificadas após o golpe de 1964 e aceleraram-se após o retorno da política eleitoral nos meados da década de 1980. A eleição de políticos neoliberais, especialmente com Fernando Henrique Cardoso em meados da década de 1990, teve um impacto devastador sobre setores estratégicos da economia nacional: a privatização generalizada foi acompanhada pela desnacionalização dos altos comandos da economia e a desregulamentação maciça de mercados de capitais [1]. O regime de Cardoso preparou o cenário para o fluxo maciço de capital estrangeiro nos setores agro-mineral, financeiro, seguros e imobiliário. A ascensão das taxas de juro, como exigido pelo FMI, o Banco Mundial e o mercado especulativo imobiliário elevaram os custos da produção industrial. A redução de tarifas de Cardoso acabou com subsídios à indústria e abriu a porta a importações industriais. Estas políticas neoliberais levaram ao declínio relativo e absoluto da produção industrial [2].

A vitória presidencial do "Partido dos Trabalhadores", em 2002, aprofundou e expandiu o "grande retrocesso" promovido pelos seus antecessores neoliberais. O Brasil reverteu para tornar-se um exportador primário de commodities, como soja, gado, ferro e minérios que se multiplicaram, as exportações de material de transporte e manufaturas declinaram [3]. O Brasil tornou-se uma dos principais exportadores de commodities extrativas do mundo. A dependência do Brasil das exportações de commodities foi ajudada e compensada pela entrada maciça e a penetração de corporações imperiais multinacionais e de fluxos de financeiros por bancos além-mar. Os mercados além-mar e os bancos estrangeiros tornaram-se a força condutora do crescimento extrativo e da morte industrial.

Para ter um melhor entendimento da "grande reversão" do Brasil de uma dinâmica nacionalista-industrializante para uma vulnerável dependência imperial conduzida pela extração agro-mineral, precisamos resumidamente rever a economia política do Brasil ao longo dos últimos cinquenta anos a fim de identificar os "pontos de virada" decisivos e a centralidade da política e da luta de classes.

Modelo militar: Modernização a partir de cima


Sob a ditadura militar (1964-1984) a política econômica era baseada numa estratégia híbrida enfatizando uma tríplice aliança do Estado, do capital estrangeiro e do capital privado nacional [4] centrada primariamente em exportações industriais e secundariamente e commodities agrícolas (especialmente produtos tradicionais como o café).

Os militares rejeitaram o modelo nacionalista-populista baseado em indústrias do estado e cooperativas camponesas do deposto presidente João Goulart e puseram em vigor uma aliança de capitalistas industriais e agronegócio. Cavalgando uma onda de mercados globais em expansão e beneficiando da repressão do trabalho, a compressão de salários, subsídios abrangentes e políticas protecionistas, a economia cresceu a dois dígitos desde o fim da década de 1960 até meados da de 1970, o chamado "Milagre brasileiro"[5]. Os militares, se bem que afastando quaisquer ameaças de nacionalizações, puseram em vigor um certo número de regras de "conteúdo nacional" e ampliaram a dimensão e âmbito da classe trabalhadora urbana, especialmente na indústria automotiva. Isto levou ao crescimento dos sindicatos de trabalhadores metalúrgicos e posteriormente do Partido dos Trabalhadores. O "modelo exportador" baseado na indústria leve e pesada, de produtores estrangeiros e internos, tinha base regional (Sudeste). A estratégia de modernização aumentou desigualdades e integrou os capitalistas "nacionais" a multinacionais imperiais. Isto preparou o terreno para o início das lutas anti-ditatoriais e o retorno da democracia. Partidos neoliberais ganharam hegemonia com a virada para políticas eleitorais.

Políticas eleitorais, a ascensão de neoliberalismo e a ascendência do capitalismo extrativo

A oposição eleitoral que sucedeu aos regimes militares esteve inicialmente polarizada entre uma elite liberal, adepta do livre mercado agro-mineral e aliada a multinacionais imperiais e, por outro lado, um bloco nacionalista de trabalhadores, camponeses, trabalhadores rurais e classe média baixa. Trabalhadores militantes constituíam a CUT, camponeses sem terra o MST e ambos juntaram-se à classe média para constituir o PT. [6]


A primeira década de política eleitoral, 1984-94, foi caracterizada pelo puxa e empurra entre o capitalismo estatista residual herdado do regime militar anterior e a emergente burguesia do "livre mercado" liberal. As crises de dívida, hiperinflação, corrupção sistêmica maciça, o impedimento do presidente Collor e a estagnação econômica enfraqueceram gravemente os setores capitalistas estatais e levaram à ascendência de uma aliança do capital agro-mineral e financeiro, tanto de capitalistas estrangeiros como locais, ligada a mercados além-mar. Esta coligação retrógrada encontrou o seu líder político e o caminho do poder com a eleição de Fernando Henrique Cardoso, um antigo acadêmico de esquerda que se converteu ao fanatismo do mercado livre.

A eleição de Cardoso levou a uma ruptura decisiva com as políticas nacionais estatistas dos sessenta anos anteriores. As políticas de Cardoso deram um impulso decisivo à desnacionalização e privatização da economia, elementos essenciais na reconfiguração da economia do Brasil, e à ascendência do capital extrativo [7]. De acordo com quase todos os indicadores, as políticas ultra-liberais de Cardoso levaram a um precipitado grande salto para trás, concentrando rendimento e terra, e aumentando o controle estrangeiro de setores estratégicos. A "reforma" da economia de Cardoso a expensas do trabalho industrial, da propriedade pública, dos trabalhadores sem terra provocou greves generalizadas e ocupações de terra [8]. A "economia extrativa", especialmente a abertura de setores lucrativos na agricultura, mineração e energia, ganhou espaço a expensas das forças produtivas: a posição relativa da manufatura, tecnologia e serviços avançados declinou. Em particular, os ganhos do trabalho como um todo declinaram como percentagem do PNB [9].

A taxa de crescimento médio da indústria declinou para uns magros 1,4%. O emprego no setor industrial caiu em 26%, o desemprego subiu para mais de 18,4%, o "setor informal" subiu de 52,5% em 1980 para 56,1% em 1995 [10].


A privatização de empresas públicas como a Telebrás, firma gigante e lucrativa de telecomunicações, levou à demissão maciça de trabalhadores e à subcontratação de trabalho com salários mais baixos e sem benefícios sociais. Sob Cardoso, o Brasil tinha as mais altas taxas de desigualdade (coeficiente de Gini) entre todos os países do mundo.

Cardoso utilizou subsídios do estado para promover o capital estrangeiro, especialmente nos setores da exportação agrária e mineral, enquanto pequenos e médios agricultores ansiavam por crédito. O seu programa de desregulamentação financeira levou à especulação com divisas, lucros maciços e inesperados para bancos da Wall Street quando o regime elevou as taxas de juro em mais de 50% [11]. A falência de agricultores levou ao seu despojamento pelos capitalistas agroexportadores. A concentração de terra assumiu uma virada decisiva quando 7% dos grandes proprietários que possuíam fazendas de mais de 2000 hectares aumentaram a dimensão das suas terras de 39,5% para 43% das terras agrícolas brasileiras [12].

Durante os oito anos de Cardoso no governo (1994-2001) houve um tsunami de investimento estrangeiro: mais de US$50 bilhões entraram no país só nos primeiros cinco anos – dez vezes o total dos 15 anos anteriores [13]. Companhias agro-minerais de propriedade estrangeiras entre as principais companhias estrangeiras (em 1997) representavam mais de um terço e continuavam a crescer. Entre 1996-1998 multinacionais estrangeiras adquiriram oito grandes firmas de alimentos, mineração e produção metálica [14].

As políticas neoliberais de Cardoso abriram totalmente a porta para a tomada de indústrias críticas e setores bancários pelo capital estrangeiro. No entanto, foram os presidentes do "Partido dos Trabalhadores" que vieram a seguir, Luiz Inácio “Lula” da Silva e Dilma Rousseff, que completaram o Grande Salto para Trás da economia brasileira ao se voltarem decisivamente para o capital extrativo como a força condutora da economia.

Do neoliberalismo ao capital extrativo

As privatizações de Cardoso foram apoiadas e aprofundadas pelo regime Lula. A ultrajante privatização de Cardoso da mineradora Vale do Rio Doce por uma fração do seu valor foi defendida por Lula; o mesmo se passou com a privatização de fato da companhia petrolífera estatal Petrobras. Lula abraçou as políticas monetárias restritivas, acordos de excedente orçamental com o FMI e seguiu as prescrições orçamentais dos diretores do FMI [15].

O regime Lula (2003-2011) adotou as políticas neoliberais de Cardoso como um guia para promover a reconfiguração da economia do Brasil em benefício do capital estrangeiro e interno, agora baseado no setor primário e de exportação de matérias-primas. Em 2005 o Brasil exportou US$55,3 bilhões em matérias-primas e US$44,2 bilhões em bens manufaturados; em 2011 o Brasil triplicou suas exportações de matérias-primas para US$162,2 bilhões enquanto suas exportações de manufaturas aumentaram para uns meros US$60,3 bilhões [16].

Por outras palavras, a diferença entre o valor das exportações de matérias-primas e de manufaturas aumentou de US$13 bilhões para mais de US$100 bilhões nos últimos cinco anos do regime Lula. A desindustrialização relativa da economia, o desequilíbrio crescente entre o setor extrativo dominante e o setor manufatureiro ilustra a reversão do Brasil para o seu "estilo colonial de desenvolvimento".

O capitalismo agro-mineral, o estado e o povo

O setor exportador do Brasil beneficiou-se enormemente com a ascensão dos preços das commodities . O principal beneficiário foi o setor exportador agro-mineral. Mas o custo para a indústria, transporte público, condições de vida, desenvolvimento e educação foi enorme. As exportações agro-minerais proporcionarem grandes receitas para o estado mas também extraíram-lhe grandes subsídios, benefícios fiscais e lucros.

A economia industrial do Brasil foi afetada desfavoravelmente pelo boom da commodities devido à ascensão no valor da sua divisa, o real, em 40% entre 2010-2012, a qual aumentou o preços das exportações de manufaturas e diminuiu a competitividade dos produtos manufaturados [17]. As políticas de "mercado livre" também facilitaram a entrada de bens manufaturados mais baratos da Ásia, particularmente da China. Enquanto as exportações primárias para a China deram um salto, o sector manufatureiro do Brasil, particularmente bens de consumo como têxteis e calçados, declinou entre 2005 e 2010 em mais de 10% [18].

Sob os regimes Lula-Rousseff, a extrema dependência de um número limitado de commodities levou a um declínio agudo nas forças produtivas, medido pelos investimentos em inovações tecnológicas, especialmente aqueles relacionados com a indústria [19]. Além disso, o Brasil tornou-se mais dependente do que nunca de um único mercado. De 2000 para 2010 a importações chinesas de soja – a principal exportação agrícola – representaram 40% das exportações do Brasil; as importações chinesas de ferro – a exportação mineira chave – constituem mais de um terço do total das exportações daquele sector. A China também importa cerca de 10% das exportações brasileiras de petróleo, carne, celulose e papel [20]. Sob os regimes Lula e Rousseff, o Brasil reverteu para uma economia de quase monocultura dependente de um mercado muito limitado. Em consequência, o arrefecimento da economia da China levou como era de prever a um declínio no crescimento do Brasil para menos de 2% de 2011 para 2013 [21].

Brasil: Paraíso econômico do capital financeiro

Sob as políticas de mercado livre do Partido dos Trabalhadores, o capital financeiro entrou impetuosamente no Brasil, como nunca antes. O investimento direto estrangeiro saltou de cerca de US$16 bilhões em 2002, durante o último ano do regime Cardoso, para mais de US$48 bilhões no último ano do governo de Lula [22]. A bolsa de investimento – na maior parte de tipo especulativo – subiu de US$5 bilhões negativo em 2002 para US$67 bilhões em 2010. Entradas líquidas de Investimento Estrangeiro Direto (IED) e investimentos da bolsa totalizaram US$400 bilhões durante 2007-2011, comparando com os US$79 bilhões durante o período anterior de cinco anos [23]. Investimentos da bolsa em títulos de altos juros retornaram entre 8% e 15%, o triplo e o quádruplo das taxas na América do Norte e Europa. Lula e Dilma são presidentes submetidos à Wall Street.

De acordo com os indicadores econômicos mais importantes, as políticas dos regimes Lula-Dilma foram as mais lucrativas para o capital estrangeiro além-mar e os investidores nos setores agro-minerais primários na história recente do Brasil.

O modelo agro-mineral e o ambiente

Apesar da sua retórica política em favor da agricultura familiar, os regimes Lula-Dilma têm estado entre os maiores promotores do agronegócio na história política brasileira. A maior fatia de recursos do estado foi concedida à agricultura, finanças e grandes proprietários rurais. De acordo com um estudo, em 2008/2009 pequenos proprietários receberam cerca de US$ 6,35 bilhões, ao passo que o agronegócio e grandes proprietários rurais receberam US$ 31,9 bilhões em financiamento e crédito [24]. Menos de 4% dos recursos do governo e de pesquisa foi destinada à agricultura familiar e produção agroecológica.

Sob Lula, a destruição das florestas tropicais verificou-se a um ritmo acelerado. Entre 2002 e 2008 a vegetação da região do Cerrado foi reduzida em 7,5% ou mais de 8,5 milhões de hectares, principalmente por corporações do agronegócio [25]. O Cerrado brasileiro é uma das regiões de savana biologicamente mais ricas do mundo, concentrando-se na região centro-leste do país. De acordo com um estudo, 69% da terra de propriedade de corporações estrangeiras está concentrada no Cerrado do Brasil [26]. Entre 1995 e 2005 a fatia de capital estrangeiro no setor cerealífero agroindustrial saltou de 16% para 57%. O capital estrangeiro capitalizou com as políticas neoliberais sob Cardoso, Lula e Dilma deslocando-se para o setor do biocombustível (etanol), controlando cerca de 22% das companhias brasileiras de cana-de-açúcar e etanol [27] – e rapidamente invadindo a floresta amazônica.

Entre maio de 2000 e agosto de 2005, graças à expansão do setor exportador, o Brasil perdeu 132 mil quilômetros quadrados de floresta devido à expansão de grandes proprietários de terra e multinacionais dedicados à criação de gado, soja e madeira [28]. Entre 2003 e 2012, mais de 137 mil quilômetros quadrados foram desmatados, crime ajudado por multimilionários investimentos do governo em infraestrutura, incentivos fiscais e subsídios.

Em 2008 o dano à floresta tropical amazônica aumentou 67%. Sob pressão de indígenas, camponeses, trabalhadores rurais sem terra e movimentos ecológicos o governo entrou em ação para restringir o desmatamento. Ela diminuiu de um pico de 27.772 quilômetros quadrados em 2004 (o segundo, apenas inferior ao de 1995, sob Cardoso, com 29.059 km2) para 4.656 km² em 2012 [29].

A criação de gado é a principal causa do desmatamento na Amazônia brasileira. Estimativas atribuem mais de 40% a grandes capitalistas e corporações multinacionais de processamento de carne [30]. Os principais investimentos em infraestrutura dos regimes Lula-Dilma, principalmente estradas, haviam aberto anteriormente terras florestais inacessíveis a empresas corporativas de gado. Sob Lula e Dilma, a agricultura comercial, especialmente a soja, tornou-se o segundo maior contribuidor para o desmatamento da Amazônia.


Acompanhando a degradação do ambiente natural, a expansão do agronegócio foi acompanhada pelo despojamento, assassinato e escravização de povos indígenas. A Comissão Pastoral da Terra, da Igreja Católica, informou que em 2004 a violência latifundiária atingiu o seu mais alto nível em pelo menos 20 anos – o segundo ano do mandato de Lula. Os conflitos subiram de 1.801 em 2004, quando em 2003 foram 1.690 e em 2002 foram 925 [31].

Segundo o governo, corporações de gado e soja exploram pelo menos 25 mil brasileiros (principalmente índios despojados da sua terra e camponeses sem terra) sob "condições análogas à escravidão". As principais ONGs afirmam que o número verdadeiro poderia ser dez vezes superior àquele. Mais de 183 fazendas foram inspecionadas em 2005 libertando 4.133 escravizados [32]. 


Mineração: A fraude da "privatização" da Vale, agora poluidora número um

Cerca de 25% das exportações do Brasil são constituídas por produtos minerais – o que destaca a crescente centralidade do capital extrativo na economia. O minério de ferro é o minério de maior importância, representando 78% do total das exportações mineiras. Em 2008, o ferro representou US$16,5 dos lucros da indústria, num total de US$22,5 bilhões [33]. A vasta maioria das exportações de ferro está dependente de um único mercado – a China. Quando o crescimento da China diminui, a procura também diminui e a vulnerabilidade econômica do Brasil aumenta.

Uma empresa, privatizada durante a presidência Cardoso, a Vale, através de aquisições e fusões controla quase 100% da produção das minas de ferro do Brasil [34]. Em 1997 a Vale foi vendida pelo estado neoliberal por US$3,14 bilhões, uma pequena fração do seu valor. Ao longo da década seguinte ela concentrou seus investimentos na mineração, estabelecendo uma rede global de minas e mais de uma dúzia de países na América do Norte e do Sul, Austrália, África e Ásia. O regime Lula-Dilma desempenhou um papel importante para facilitar a dominação da Vale no setor mineiro e o crescimento exponencial do seu valor. O valor líquido da Vale hoje é de mais de US$100 bilhões, mas ela paga uma das mais baixas taxas de imposto do mundo, apesar de ser a segunda maior companhia mineira do mundo, o maior produtor de minério de ferro e o segundo maior de níquel. Os royalties máximos sobre a riqueza mineral subiram de 2% para 4% em 2013 [35]. Por outras palavras, durante a década do governo "progressista" de Lula e Dilma, a taxa fiscal era um sexto daquela da conservadora Austrália, que mantém uma taxa de 12%.

A Vale tem utilizado os seus enormes lucros para diversificar operações mineiras e atividades relacionadas. Ela liquidou negócios como o aço e a celulose vendendo-os por US$2,9 bilhões – quase o preço pago por todo o complexo mineral. Em vez disso concentrou-se na compra de minas de ferro de competidores e literalmente na monopolização da produção. A Vale expandiu-se com a extração de manganês, níquel, cobre, carvão, potassa, caulim, bauxita; comprou ferrovias, portos, terminais de contentores, navios e pelo menos oito centrais hidrelétricas; dois terços das suas centrais hidrelétricas foram construídas durante o regime Lula [36].


Em suma, o capitalismo floresceu durante o regime Lula com lucros recorde no setor extrativo, perigo extremo para o ambiente e deslocamento maciço de povos indígenas e produtores em pequena escala. A experiência mineira da Vale sublinha as poderosas continuidades estruturais entre o regime neoliberal de Cardoso e o de Lula: o primeiro privatizou a Vale a preço de banana, o último promoveu a Vale como o produtor e exportador monopolista dominante de ferro, ignorando totalmente a concentração de riqueza, lucros e poder do capital extrativo.

Em comparação com o crescimento geométrico dos lucros de monopólio do setor extrativo, os miseráveis dois dólares por dia de Lula e Dilma, dados como subsídio para reduzir a pobreza, dificilmente permitem classificar este regime como "progressista" ou de "centro-esquerda"

Se bem que Lula e Dilma estejam embevecidos com o crescimento do "campeão mineiro" do Brasil (a Vale), outros não estão. Em 2002, a Public Eye, um grupo de direitos humanos e ambientais, deu à Vale um "premio" como a pior corporação do mundo: "A Vale Corporation atua com o maior desrespeito pelo ambiente e direitos humanos no mundo" [37] . Os críticos citaram a construção da barragem de Belo Monte, da Vale, no meio da floresta tropical amazônica como tendo "consequências devastadoras para regiões com biodiversidade única e tribos indígenas" [38].

O setor mineiro é capital intensivo, gera poucos empregos e acrescenta pouco valor às suas exportações. Ele tem degradado á água, a terra e o ar; afetado desfavoravelmente comunidades locais, despojado comunidades nativas e criado uma economia de altos e baixos.


Com o acentuado arrefecimento da economia chinesa, especialmente o seu setor manufatureiro em 2012-14, os preços do ferro e do cobre caíram. As receitas de exportação do Brasil declinaram, minando o crescimento geral. É especialmente importante que a canalização de recursos para infraestruturas destinadas aos setores agro-minerais resultou no esgotamento de fundos para hospitais, escolas e transporte urbano – os quais estão abaixo do necessário e proporcionam um serviço péssimo a milhões de trabalhadores urbanos.

O fim do "mega ciclo" extrativo e a ascensão de protestos em massa

O modelo de orientação extrativa do Brasil entrou num período de declínio e estagnação em 2012-2013 quando a procura mundial – especialmente na Ásia – declinou, sobretudo na China [39]. O crescimento flutuou em torno dos 2%, mal acompanhando o crescimento populacional. A classe baseada neste modelo de crescimento, especialmente o estrato reduzido de investidores estrangeiros na bolsa, mineração monopolista e grandes corporações do agronegócio, os quais controlam e arrecadam a maior parte das receitas e lucros, limitou os "efeitos gotejamento" ("trickle down effects") que os regimes Lula-Dilma promoveram como a sua "transformação social". Se bem que alguns programas inovadores tenham sido iniciados, o acompanhamento e a qualidade dos serviços realmente deterioraram-se.


O número de camas para pacientes em hospitais declinou de 3,3 por 1000 brasileiros em 1993 para 1,9 em 2009, o segundo mais baixo da OCDE [40]. As admissões em hospitais financiados pelo setor público caiu e as longas esperas e baixa qualidade são endêmicos.

O gasto federal no sistema de saúde tem caído desde 2003, quando ajustado à inflação, segundo o estudo da OCDE. A despesa pública em saúde é baixa: 41%, comparando com 82% no Reino Unido e 45,5% nos EUA [41]. A polarização de classe inerente ao modelo extrativo agro-mineral estende-se às despesas do governo, impostos, transportes e infraestrutura: financiamento maciço para rodovias, barragens, centrais hidrelétricas para o capital extrativo, contra gastos inadequados e em declínio para transportes públicos, saúde pública e educação.

As raízes mais profundas dos levantamentos em massa de 2013 estão localizadas na política de classe de um estado corporativo. Os regimes Cardoso e Lula-Dilma, ao longo das últimas duas décadas, seguiram uma agenda elitista e conservadora, amortecida pela política clientelista e paternalista que neutralizou a oposição em massa durante um período de tempo extenso, até que a rebelião em massa e os protestos à escala nacional desmascararam a fachada "progressista".

Publicistas de esquerda e sabichões conservadores que saudaram Lula como um "progressista pragmático" ignoraram o fato de que durante o seu primeiro mandato o apoio do estado à elite do agronegócio foi sete vezes maior do que a oferecida aos agricultores familiares que representavam aproximadamente 90% da força de trabalho rural e proporcionavam a maior parte dos alimentos para consumo local. Durante o segundo mandato de Lula, o apoio financeiro do Ministério da Agricultura ao agro-negócio durante a safra 2008-09 foi seis vezes maiores do que os fundos concedidos ao programa de redução da pobreza de Lula, o altamente publicizado programa "Bolsa Família" [42]. Ortodoxia econômica e demagogia populista não são substitutos de mudanças estruturais substantivas, envolvendo uma reforma agrária ampla que abranja 4 milhões de trabalhadores rurais sem terra, assim como uma renacionalização de empresas extrativas estratégicas como a Vale a fim de financiar agricultura sustentável e preservar a floresta tropical.

Ao invés disso, Lula e Dilma saltaram em força para o boom do etanol: "açúcar, açúcar por toda a parte" mas sem nunca perguntar, "Que bolsos enchem?" A crescente rigidez estrutural do Brasil, sua transformação numa economia capitalista extrativa, potenciou e ampliou o âmbito da corrupção. A competição por contratos mineiros, concessões de terra e projetos gigantes de infraestrutura encoraja as elites dos negócios agro-minerais a pagarem ao "partido no poder" a fim de assegurar vantagens competitivas. Isto se verificou particularmente com o "Partido dos Trabalhadores" cuja liderança executiva (destituída de trabalhadores) era composta de profissionais em ascensão, aspirando a posições na classe da elite que encarava os subornos nos negócios para o seu "capital inicial" como uma espécie de "acumulação inicial através da corrupção".

O boom das commodities, durante quase uma década, encobriu as contradições de classe e a extrema vulnerabilidade de uma economia extrativa dependente de exportações de bens primários para mercados limitados. As políticas neoliberais adaptadas à promoção de exportações de commodities levaram ao influxo dos bens manufaturados e enfraqueceram a posição do setor industrial. Em consequência, os esforços de Dilma para renovar a economia produtiva a fim de compensar o declínio das receitas de commodities não funcionaram: estagflação, excedentes orçamentais em declínio e enfraquecimento da balança comercial praguejaram a sua administração precisamente quando a massa de trabalhadores e da classe média estão pedindo uma redistribuição de recursos em grande escala, de subsídios ao setor privado para investimentos em serviços públicos.

As fortunas políticas de Rousseff e do seu mentor, Lula, foram construídas sobre os frágeis fundamentos do modelo extrativo. Eles falharam em reconhecer os limites do seu modelo, muito menos em formular uma estratégia alternativa. Uma colcha de retalhos de propostas, reformas políticas, retórica anticorrupção face aos protestos de milhões de pessoas que se estendem a todas as grandes e pequenas cidades do país não resolve o problema básico de desafiar a concentração de riqueza, propriedade e poder de classe da elite agro-mineral e financeira. As suas aliadas multinacionais controlam as alavancas do poder político, com e sem corrupção e bloqueiam quaisquer reformas significativas.

A era do "Populismo Wall Street" de Lula está acabada. A ideia de que altas receitas provenientes das indústrias extrativas podem comprar lealdades populares através do consumismo, financiado pelo crédito fácil, está ultrapassada. Os investidores da Wall Street já não louvam mais os BRICs como um novo mercado dinâmico. Como é previsível eles estão transferindo seus investimentos para atividades mais lucrativas em novas regiões. Quando a bolsa de investimentos declina e a economia estagna, o capital extrativo intensifica sua pressão dentro da Amazônia e com terrível preço pago por parte da população indígena e a floresta tropical.


O ano de 2012 foi um dos piores para os povos indígenas. Segundo o Conselho Indigenista Missionário, filiado à Igreja Católica, o número de incidentes violentos contra as comunidades índias aumentou 237% [43]. O regime Rousseff deu aos índios o menor número de títulos legais à terra do que qualquer presidente desde o retorno da democracia (sete títulos). A esta taxa, o estado brasileiro levará um século para titular os pedidos de terra das comunidades nativas. Ao mesmo tempo, em 2012, 62 territórios índios foram invadidos por latifundiários, mineiros e madeireiros, 47% mais do que em 2011 [44]. A maior ameaça de despojamento vem de projetos como a mega barragem de Belo Monte e centrais hidrelétricas gigantes promovidas pelo regime Rousseff. Quando a economia agro-mineral vacila, as comunidades indígenas estão sendo esmagadas ("genocídio silencioso") a fim de intensificar o crescimento agro-mineral.

Os maiores beneficiários da economia extrativa do Brasil são os principais traders de commodities do mundo os quais, em escala mundial, embolsaram US$250 bilhões ao longo do período 2003-2013, ultrapassando os lucros das maiores empresas da Wall Street e cinco das maiores companhias automobilísticas. Em meados de 2000, alguns traders desfrutaram retornos de 50% a 60%. Mesmo em 2013 eles estavam numa média de 20-30% (Financial Times , 4/15/13, p. 1). Especuladores de commodities ganharam mais de 10 vezes o que foi gasto com os pobres. Estes especuladores lucram com flutuações de preços entre localizações, com oportunidades de arbitragem proporcionadas pela abundância de discrepâncias de preços entre regiões. Traders monopolistas eliminaram competidores e os impostos baixos (5-15%) aumentaram a sua mega riqueza. Os maiores beneficiários do modelo extrctivista Lula-Dilma, ultrapassando mesmo os gigantes agro-minerais, são os vinte maiores traders -especuladores de commodities.

Capital extrativo, colonialismo interno e o declínio a luta de classe


A luta de classes, especialmente sua expressão em greves conduzidas por sindicatos e trabalhadores rurais localizados em acampamentos que fazem ocupações de terras, declinou drasticamente ao longo do último quarto de século. O Brasil durante o período que se seguiu à ditadura militar (1989) foi um líder mundial em greves, com 4.000 em 1989. Com o retorno da política eleitoral e a incorporação e legalização dos sindicatos, especialmente na estrutura de negociações coletivas tripartites, as greves declinaram para uma média de 500 durante a década de 1990. Com o advento do regime Lula (2003-2010) as greves declinaram ainda mais, para 300-400 por ano [45]. As duas maiores centrais sindicais, CUT e Força Sindical, aliadas ao regime Lula, tornaram-se adjuntas virtuais do Ministério do Trabalho: sindicalistas asseguravam posições no governo e as organizações recebiam grandes subsídios do estado, ostensivamente para treinamento e educação do trabalhador. Com o boom das commodities e a ascensão das receitas do estado e rendimentos de exportações, os governos formularam uma estratégia do gotejamento, aumentando o salário mínimo e lançando novos programas anti-pobreza. Nas zonas rurais, o MST continuava reivindicando uma reforma agrária e empenhado em ocupações de terras, mas a sua posição de apoiar criticamente o Partido dos Trabalhadores em troca de subsídios sociais levou a um declínio agudo nos acampamentos a partir das ocupações de terras. No início da presidência de Lula (2003) o MST tinha 285 acampamentos, em 2012 tinha 13 [46].

O declínio da luta de classes e a cooptação dos movimentos de massa estabelecidos coincidiram com a intensificação da exploração capitalista extrativa do interior do país e o violento despojamento das comunidades indígenas. Por outras palavras, a exploração acrescida do "interior" pelo capital agro-mineral facilitou a concentração de riqueza nos grandes centros urbanos e nas áreas rurais estabelecidas, levando à cooptação de sindicatos e movimentos rurais. Portanto, apesar de algumas declarações retóricas e protestos simbólicos, o capital agro-mineral encontrou pouca solidariedade organizada entre o trabalho urbano e os índios despojados e trabalhadores rurais escravizados na Amazônia "arrasada". Lula e Dilma desempenharam um papel chave na neutralização de qualquer frente unida nacional contra as depredações do capital agro-mineral.

A degeneração das principais confederações trabalhistas é visível não só com a sua presença no governo e com a ausência de greves como também na organização dos comícios anuais de trabalhadores no 1º de Maio. Os mais recentes virtualmente não incluíram qualquer conteúdo político. Há espetáculo de música, temperados com loterias oferecendo automóveis e outras formas de entretenimento consumista, financiados e patrocinados por grandes bancos privados e multinacionais [47]. Esta relação entre a cidade e a Amazônia lembra, com efeito, uma espécie de colonialismo interno, no qual o capital extrativo subornou uma aristocracia do trabalho como aliado cúmplice para a sua pilhagem das comunidades do interior.


Conclusão: Com movimentos de massa, o modelo extrativista está sob sítio

Se a CUT e a Força Sindical estão cooptadas, o MST está enfraquecido e as classes de baixo rendimento receberam aumentos monetários, como e por que movimentos de massa sem precedentes emergiram em simultâneo numa centena de grandes cidades e outras menores por todo o país?

O contraste entre os novos movimentos de massa e os sindicatos foi evidente na sua capacidade para mobilizar apoio durante os dias de protesto de Junho-Julho/2013: os primeiros mobilizaram 2 milhões, os últimos 100 mil.

O que precisa ser esclarecido é a diferença entre os pequenos grupos locais de estudantes (Movimento Passe Livre - MPL) que detonaram os movimentos de massa com base num aumento em passagens de ônibus e os gastos faraônicos do estado com a Copa do Mundo (campeonato de futebol) e as Olimpíadas e os movimentos de massa espontâneos que questionaram as políticas orçamentais do estado e as prioridades na sua totalidade.

Muitos publicistas dos regimes Lula-Dilma aceitam sem questionamento as verbas orçamentais atribuídas a projetos sociais e de infraestrutura, quando de fato apenas uma fração é realmente gasta na medida em que são roubadas por responsáveis corruptos. Exemplo: entre 2008-12 foram destinados R$6,5 bilhões para transporte públicos nas cidades principais mas só 17% foi realmente gasto (Veja, 17/07/2013). [Outro exemplo: o esquema montado por empresas da área de transporte sobre trilhos em São Paulo para vencer e lucrar com licitações públicas durante os sucessivos governos do PSDB nos últimos 20 anos contou com a participação de autoridades e servidores públicos e abasteceu um propinoduto milionário que desviou dinheiro das obras para políticos tucanos. (IstoÉ, 26/07/2013). Segundo a ONG "Contas Abertas", ao longo de um período de dez anos o Brasil gastou mais de R$160 bilhões em obras públicas que não estão concluídas, nunca deixaram a prancheta de desenho ou foram roubadas por responsáveis corruptos. Um dos mais notórios casos de corrupção e má administração é a construção de 12 quilômetros de metrô em Salvador, com a condição estabelecida de que seria completado em 40 meses ao custo de R$307 milhões. Treze anos depois (2000-13) as despesas aumentaram para cerca 1 bilhão de reais e escassos 6 km foram completados. Seis máquinas locomotoras e 24 vagões compradas por 100 milhões de reais decompuseram-se e a garantia dos fabricantes expirou (Veja, 17/07/2013). O projeto foi paralisado por ações de superfaturamento corrupto envolvendo responsáveis federais, estaduais e municipais. Enquanto isso, 200 mil passageiros são forçados a viajar diariamente em ônibus caindo aos pedaços.

A corrupção profunda que infecta toda a administração Lula-Dilma conduziu a um vasto fosso entre os apregoados feitos do regime e a deteriorada experiência diária da grande maioria do povo brasileiro. O mesmo fosso existe em relação às despesas para preservar a floresta tropical amazônica, as terras dos índios e para financiar os programas anti-pobreza: responsáveis corruptos do PT desviam fundos para financiar suas campanhas eleitorais ao invés de reduzir a destruição ambiental e reduzir a pobreza.

Se a riqueza do boom no modelo extrativo agro-mineral "filtrou-se" para o resto da economia e elevou salários, isso fez-se de um modo muito irregular, desigual e distorcido. A grande riqueza concentrada no topo encontrou expressão numa espécie de novo sistema casta-classe no qual transporte privado – helicópteros e heliportos – clínicas privadas, escolas privadas, áreas de recreação privadas, exércitos de segurança privada para os ricos e abastado foram financiados por subsídios promovidos pelo estado. Em contraste, as massas experimentaram um agudo declínio relativo e absoluto em serviços públicos nas próprias experiências essenciais da vida. O aumento no salário mínimo não compensada por 10 horas de espera em apinhadas salas públicas de emergência, transportes irregulares e superlotados, ameaças pessoais diárias e insegurança (50 mil homicídios). Pais que recebem a esmola anti-pobreza enviam seus filhos para escola decadentes onde professores mal pagos correm de uma escola para outra mal atendendo suas classes e proporcionando um fraco aprendizado. A maior indignidade para aqueles que recebem esmolas de subsistência foi dizerem-lhes que, nesta sociedade de classe-casta, eles eram "classe média"; que faziam parte da imensa transformação social que retirou 40 milhões da pobreza, quando se arrastavam para suas casas com horas de tráfego, retornando de empregos cujo salário mensal pagava uma partida de tênis num clube de campo da classe alta. A economia extrativa agro-mineral acentuou todas as desigualdades socioeconômicas do Brasil e o regime Lula-Dilma acentuou esta diferença pela elevação das expectativas, ao afirmar o seu cumprimento e seguir ignorando os impactos sociais reais na vida diária. As verbas orçamentais em grande escala do governo para transporte público e promessas de projetos para novas linhas de metrô e ônibus foram adiadas durante décadas pela corrupção em grande escala e a longo prazo. Os bilhões gastos ao longo de anos renderam resultados mínimos – uns poucos quilômetros completados. O resultado é que o fosso entre as projeções otimistas do regime e a frustração das massas aumentou amplamente. O fosso entre a promessa populista e o aprofundamento da clivagem entre classes sociais não será encoberto por loterias sindicais e almoços VIP. Especialmente para toda uma geração de jovens trabalhadores que não estão presos às antigas memórias do Lula "metalúrgico" um quarto de século antes. A CUT, a FS, o Partido dos Trabalhadores são irrelevantes ou são percebidos como parte do sistema de corrupção, estagnação social e privilégio. A característica mais gritante da nova onda de protesto de classe é a divisão geracional e organizacional: trabalhadores metalúrgicos mais velhos ausentes, jovens trabalhadores não organizados dos serviços presentes. Organizações locais e espontâneas substituem os sindicatos cooptados.

O local de confrontação é a rua – não o lugar de trabalho. As reivindicações transcendem salários monetários – as questões em causa são o salário social, padrões de vida, orçamentos nacionais. Em última análise os novos movimentos sociais levantam a questão das prioridades de classe nacionais. O regime está despojando centenas de milhares de residentes em favelas – um expurgo social – para construir complexos desportivos e acomodações de luxo. As questões sociais permeiam os movimentos de massa. A sua independência organizativa e autonomia sublinham o mais profundo desafio a todo o modelo extrativista neoliberal; muito embora nenhuma organização ou liderança nacional tenha emergido para elaborar uma alternativa. Mas a luta continua. Os mecanismos tradicionais de cooptação fracassam porque não há líderes identificáveis para subornar. O regime, enfrentando o declínio dos mercados de exportações e dos preços das commodities, e profundamente comprometido com investimentos não produtivos de muitos bilhões de dólares nos jogos, tem poucas opções. O PT perdeu há muito a sua vanguarda anti-sistêmica. Seus políticos estão ligados a e financiados por bancos e elites agro-minerais. Os líderes sindicais protegem seus feudos, suas deduções mensais automáticas e seus estipêndios. Os movimentos de massa das cidades, tal como as comunidades indígenas da Amazônia, terão de encontrar novos instrumentos políticos. Mas ao tomarem o caminho da "ação direta" eles deram o primeiro grande passo.
 

Notas:

[1] James Petras and Henry Veltmeyer Cardoso's Brazil: A land for Sale (Lanham, Maryland: Rowman and Littlefield 2003/Chapter 2.
[2] ibid Chapter 1.
[3] James Petras, Brasil e Lula – Ano Zero (Blumenau: EdiFurb 2005) Chapter 1.
[4] Peter Evans, Dependent Development: The Alliance of Multinational State and Local Capital in Brazil (Princeton NJ : Princeton University Press 1979).
[5] Jose Serra "The Brazilian Economic Miracle" in James Petras Latin America from Dependence to Revolution (New York: John Wiley 1973) pp. 100 – 140.
[6] Brasil e Lula op cit. Ch. 1
[7] Cardoso's Brazil Ch. 5.
[8] ibid, Ch.3 and 6.
[9] ibid, Table A.12, p. 126
[10] ibid, Ch. 3.
[11] ibid, Ch. 1, 2.
[12] ibid, Ch. 5
[13] ibid, Ch. 2.
[14] ibid, Table A. 6.
[15] Brasil e Lula, Ch. 1.
[16] Brazil Exports by Product Section (USD), http://www.indexmundi.com/trade/exports/?country=br.

[17] Peter Kingstone, "Brazil 's Reliance on Commodity Exports threatens its Medium and Long Term Growth Prospects", www.americasquarterly.or/icingstone.
[18] Brazil Exports op cit.
[19] Kingstone op cit.
[20] Kingstone op cit. World Bank Yearbook 2011.
[21] Financial Times, 3/26/13, p. 7.
[22] Brazil's Surging Foreign Investment: A Blessing or Curse? VSITC Executive Briefing on Trade Oct. 2012.
[23] ibid.
[24] Rainforests, http://rainforests.mongabay.com/amazon/amazon_destruction.html.
[25] Ibid.
[26] Bernard Mancano Fernandes and Elizabeth Alice Clements "Land Grabbing, Agribusiness and the Peasantry in Brazil and Mozambique " Agrarian South (April 2013).
[27] Rainforests op cit.
[28] Rainforests op cit.
[29] Rainforests op cit.
[30] ibid.
[31] Jose Manual Rambla, "La agonia de los pueblos indigenas, buera de la agenda reivindicativa de Brasil", rebellion.org/notice, 5/7/13.
[32] Rainforests, ibid, p. 8.
[33] Brazil Mining, www.e-mj.com/index.php/reatures/850-Brazil-,mining .
[34] Wikipedia Vale, en.wilkipedia.org/wiki/vale_miningcompany.
[35] The Economist, June 2, 2013.
[36] Wikipedia, p. 9.
[37] Guardian, Jan. 27, 2012.
[38] ibid.
[39] Financial Times, July 13, 2013, p. 9.
[40] Financial Times, July 1, 2013.
[41] ibid.
[42] Rainforest, op cit.
[43] ibid.
[44] ibid
[45] Raul Zibechi, "El fin del consenso lulista", Rebellion, 7/7/13.
[46] Ibid.

[47] Ibid.

James Petras é Professor aposentado (Emérito) de Sociologia da Universidade de Binghamton, em Binghamton, Nova York e professor adjunto da Universidade de Saint Mary, Halifax, Nova Escócia, Canadá, e publicou profícuamente sobre questões políticas da América Latina e Oriente Médio.