27 de setembro de 2013

Seymour Hersh sobre Obama, NSA e a "patética" mídia americana

O vencedor do Prêmio Pulitzer explica como corrigir o jornalismo, dizendo que a imprensa deve "queimar 90% dos editores e promover aqueles que você não pode controlar"

por Lisa O'Carroll

The Guardian

Seymour Hersh tem algumas idéias extremas sobre como corrigir jornalismo - fechar as agências de notícias NBC e ABC, demitir 90% dos editores e voltar para o trabalho fundamental dos jornalistas que, segundo ele, é ser um outsider.

Não é preciso muito para incendiar Hersh, jornalista investigativo que tem sido a nêmese dos presidentes dos EUA desde os anos 1960s, quando escreveu que o Partido Republicano é “o parente mais próximo, dentro do jornalismo dos EUA, de um grupo terrorista”.

Vive enfurecido ante a timidez dos jornalistas nos EUA, o fracasso do jornalismo que não confronta a Casa Branca e não consegue ser mensageiro impopular da verdade.

Para Hersh, o New York Times “gasta mais dinheiro para promover Obama do que jamais pensei que fosse possível”. E enfurece-se ante qualquer referência a morte de Osama bin Laden. “Nenhum jornal, nenhum jornalista, ninguém, na imprensa-empresa dos EUA, moveu uma palha para desmascarar aquela mentira gigante. Tudo, ali, é mentira. Não há, na história contada sobre a morte de bin Laden, sequer uma palavra que seja verdade” – diz ele, sobre o dramáticoraid dos SEALS da Marinha dos EUA em 2011.

Hersh está escrevendo um livro sobre segurança nacional e dedica um capítulo ao assassinato de bin Laden. Diz que matéria recente, publicada por uma comissão paquistanesa “independente” sobre o complexo, em Abottabad, no qual Bin Laden foi cercado, não resiste a análise séria. “Nem quero começar a falar sobre o relatório dos paquistaneses! Digamos o seguinte: foi redigido com “apoio” norte-americano. É lixo. Não vale nada”. Para mais informação, teremos de esperar pelo livro.

O governo Obama mente sempre, sistematicamente, diz ele. Mas ninguém dos leviatãs da imprensa-empresa nos EUA o confronta, nem a televisão, nem os jornais, ninguém.

“É jornalismo patético. Os jornalistas são servis, obsequiosos, os jornalistas têm medo daquele cara [Obama]” – disse Hersh, em entrevista ao The Guardian.

“Antes, quando se tinha uma situação em que algo muito dramático aconteceu e o presidente e seu círculo de puxa-sacos controlavam a narrativa, sabia-se que algum jornalista trataria de trabalhar o mais possível para divulgar a verdadeira história. Hoje, não mais. Aproveitam o que o poder diga e tratam exclusivamente de reeleger o presidente.

Ele duvida, até, de que as recentes revelações sobre a profundidade e o alcance do estado de vigilância, imposto ao país pela Agência de Segurança Nacional dos EUA tenham algum efeito ou consequências duradouros.

Snowden mudou o debate sobre a vigilância

Ele não tem dúvidas de que Edward Snowden, que vazou segredos da Agência de Segurança Nacional “mudou completamente a natureza do debate” sobre o estado de vigilância. Diz que ele e outros jornalistas já haviam escrito sobre a vigilância, mas Snowden mudou o jogo, porque exibiu provas documentais irrefutáveis – mas ele não tem qualquer esperança de que as revelações venham a mudar a política do governo dos EUA.

“Duncan Campbell [jornalista investigativo britânico, que revelou a verdadeira história e desmascarou a Zircon], James Bamford [jornalista norte-americano] e Julian Assange e eu e a revistaNew Yorker, todos já havíamos escrito sobre a existência de vigilância constante, mas Snowden exibiu o documento. Isso mudou a natureza do debate: agora é fato” – diz Hersh.

“Editores adoram documentos”. “Editores acovardados, que jamais publicariam matérias como essas, só se deixam convencer por documentos”. “Os documentos de Snowden, sim, conseguiram mudar o jogo” – mas, na sequência, ele fala de suas poucas esperanças.

“Não sei se tudo isso significará alguma coisa no longo prazo, porque as pesquisas que tenho visto nos EUA... Basta que o presidente pronuncie as palavras “al-Qaeda, al-Qaeda”, para os eleitores aprovarem, com proporção de 2:1, qualquer tipo de vigilância. É reação perfeitamente idiota”.

Holding court to a packed audience at City University in London's summer school on investigative journalism, 76-year-old Hersh is on full throttle, a whirlwind of amazing stories of how journalism used to be; how he exposed the My Lai massacre in Vietnam, how he got the Abu Ghraib pictures of American soldiers brutalising Iraqi prisoners, and what he thinks of Edward Snowden.

Hope of redemption
Despite his concern about the timidity of journalism he believes the trade still offers hope of redemption.

"I have this sort of heuristic view that journalism, we possibly offer hope because the world is clearly run by total nincompoops more than ever … Not that journalism is always wonderful, it's not, but at least we offer some way out, some integrity."

His story of how he uncovered the My Lai atrocity is one of old-fashioned shoe-leather journalism and doggedness. Back in 1969, he got a tip about a 26-year-old platoon leader, William Calley, who had been charged by the army with alleged mass murder.

Instead of picking up the phone to a press officer, he got into his car and started looking for him in the army camp of Fort Benning in Georgia, where he heard he had been detained. From door to door he searched the vast compound, sometimes blagging his way, marching up to the reception, slamming his fist on the table and shouting: "Sergeant, I want Calley out now."

Eventually his efforts paid off with his first story appearing in the St Louis Post-Despatch, which was then syndicated across America and eventually earned him the Pulitzer Prize. "I did five stories. I charged $100 for the first, by the end the [New York] Times were paying $5,000."

He was hired by the New York Times to follow up the Watergate scandal and ended up hounding Nixon over Cambodia. Almost 30 years later, Hersh made global headlines all over again with his exposure of the abuse of Iraqi prisoners at Abu Ghraib.

Dar tempo ao tempo
Para os estudantes de jornalismo, a mensagem de Seymour Hersh é “deem tempo ao tempo, e andem”. Hersh já sabia da tortura de prisioneiros em Abu Ghraib cinco meses antes de poder escrever e publicar as denúncias, porque recebeu informes de um oficial do exército do Iraque que arriscara a vida numa viagem de Bagdá a Damasco para encontrar-se com Hersh e contar que havia prisioneiros que estavam escrevendo às famílias pedindo que viessem visitá-los para matá-los, porque haviam sido “desonrados”.

“Passei cinco meses à procura de alguma prova, porque, sem algum documento não havia notícia, e o que eu escrevesse seria desmentido facilmente”.

Hersh volta a falar do presidente Bush dos EUA. Disse antes que a confiança da imprensa-empresa norte-americana para desafiar o estado e o governo dos EUA entrou em colapso depois do 11/9, mas afirma, sem vacilar, que Obama é pior que Bush.

“Você acha que Obama está sendo avaliado por algum padrão racional? Guantánamo foi fechada? Alguma guerra acabou? Alguém está prestando atenção ao que está acontecendo no Iraque? Alguém diz coisa com coisa sobre o que está acontecendo na Síria? Os EUA, nesse momento, estão fracassando nas 80 guerras em que estão metidos. Por que, diabos, Obama quer meter-nos em mais uma guerra? E os jornalistas? Estão fazendo O QUÊ?” – pergunta ele.

Para ele, o jornalismo investigativo nos EUA está sendo assassinado pela crise de confiança, falta de recursos e por uma ideia errada do que seja o serviço jornalístico.

“A impressão que tenho é que há gente demais à caça de prêmios. É jornalismo que só visa ao Prêmio Pulitzer” – diz. – “É um pacote. Basta selecionar um tema (não quero diminuir os que trabalhem), mas basta escolher um tema, como segurança para atravessar as ruas ou coisa do tipo. Não quero dizer que isso não interesse, mas há outras questões sobre as quais absolutamente ninguém investiga”.

“Assassinato de civis, por exemplo. Como é possível que Obama continue a safar-se de críticas, ao mesmo tempo em que mantém o programa de assassinatos premeditados, por drones? Por que ninguém lhe pergunta sobre isso? O que o presidente tem a dizer em sua defesa? Por que não insistimos mais nessa investigação? Com que tipo de inteligência o presidente está operando? Por que ninguém abre a discussão sobre esse programa? Por que não descobrimos e divulgamos dados reais? Por que ninguém até hoje disse, pelos jornais, que se trata de assassinato premeditado apresentado como se fosse prática legal? Por que os jornais só fazem repetir dados de um ou dois grupos, sempre os mesmos, que monitoram a matança por drones? Por que nenhum jornal ou jornalista investiga diretamente os fatos, as fontes?”.

“O trabalho jornalístico não é apenas repetir que há um debate. Nosso serviço é ir além do debate como ele aparece e descobrir quem diz a verdade e quem mente, em todos os debates. Isso é o que já ninguém faz. Porque esse trabalho é caro, custa dinheiro, exige tempo, implica riscos. Ainda há uns poucos jornalistas de investigação – no New York Times, por exemplo. Mas os jornalistas só investigam para bajular o governo, mais do que jamais imaginei que fosse possível.

É como se mais ninguém tivesse coragem de pensar fora do padrão (patrão) dominante, e só”.

Diz que, em vários sentidos, era mais fácil escrever sobre o governo do presidente George Bush. “A era Bush, acho que era mais fácil criticar o governo, que hoje, no governo Obama. No governo Obama é muito mais difícil” – diz Hersh.

Para ele, os editores são covardes, e têm de ser demitidos.

Hersh tampouco entende por que o Washington Post segurou os arquivos que recebeu de Snowden e talvez nem os tivesse publicado, se não chegasse a informação de que o The Guardian se preparava para publicar tudo.

Se Hersh mandasse na empresa “Mídia Norte-americana Inc.”, sua política de terra arrasada não pararia na demissão de editores. “Eu fecharia também todas as agências de notícias de todas as redes. Fecharia tudo. Tabula rasa. Para começarem do zero. As grandes NBCs, ABCs, não gostariam da minha ideia. Nesse caso, que recomeçassem, que fizessem qualquer coisa melhor do que o que fazem hoje, qualquer coisa”.

Atualmente, Hersh não está trabalhando como repórter: está preparando um livro que com certeza nenhum jornalista gostará de ler, ou que os jornalistas provavelmente apreciarão tão pouco quanto Bush e Obama.

“A república está em perigo, nos EUA. Mente-se demais, mente-se, pelos jornais e noticiários sobre tudo e todos. A mentira virou o gancho”. E suplica que os jornalistas façam algo contra esse estado de coisas.

26 de setembro de 2013

Putin ao Resgate

David Bromwich

London Review of Books
A insurgência contra o governo na Síria foi induzida a uma inebriante visão de triunfo, ao ouvir o que o presidente Obama disse em agosto de 2011, que foi traduzido, acertadamente, na manchete “Assad tem de sair”. Antes, Obama já emitira mensagens semelhantes: “Mubarak tem de sair” e “Gaddafi tem de sair”. Obama pode talvez se ter metido na cabeça a ideia de que desempenhava papel benigno na Primavera Árabe – mostrando-se “do lado certo da história” (como ele gosta de dizer). “Assad tem de sair” soou também como se o presidente tivesse incorporado o espírito de George W. Bush; mas talvez não. Obama tem uma queda pelo pouco caso, ou por tolices ditas como se fossem frases solenes para a história, com as quais bem faria se começasse a se preocupar. Em fevereiro de 2010, no auge da pressão para que seu governo agisse contra os "banksters" responsáveis pelo colapso financeiro de 2008, Obama respondeu uma pergunta sobre os CEOs Lloyd Blankfein (do Banco Goldman Sachs) e Jamie Dimon (de J.P. Morgan Chase): "Conheço esses dois caras: são homens de negócios muito bem informados." Era Obama tentando provar a si mesmo que estava “por dentro”, confortável naquele ambiente, suficientemente próximo de Wall Street, para impressionar um dos lados; mas suficientemente distanciado, para merecer a confiança dos eleitores. Não funcionou. O comentário valeu-lhe um grau a menos de confiança dos eleitores e livrou os culpados de boa dose de um saudável medo. Este verão, depois de encontro insatisfatório com Vladimir Putin, Obama disse: "Eu sei que a imprensa gosta de se concentrar na linguagem corporal, e ele tem esse tipo de desleixo, parecendo o garoto entediado no fundo da sala." É frase que até se pode arquivar para as Memórias, supondo que alguém a ache esperta e digna de nota – mas imprópria, vinda de um estadista que descreva outro líder mundial.

Já transcorridos 56 meses de governo Obama, não cabem dúvidas de que Barack Obama gosta de falar. Pensa que os americanos e outros anseiam por ouvir o que ele tenha para dizer, e sobre vários assuntos; conforme essa sua percepção, ele disse, em agosto de 2012, sobre a guerra civil na Síria: "Uma linha vermelha para nós é se começarmos a ver quantidades de armas químicas movidas de cá para lá ou sendo usadas. Isso mudaria meu cálculo." Em março, a versão era outra, para a mesma declaração: o uso de armas químicas por Assad “muda o jogo”. Dois comentários nada diplomáticos. Quem estivesse interessado em empurrar os EUA para mais guerras não diria melhor, nem mais claramente, dos próprios interesses. Quando surgiram algumas evidências de que se usaram armas químicas na Síria, esse ano, primeiro em março, perto de Aleppo, depois em agosto, perto de Damasco, as forças que pressionam a favor do envolvimento dos EUA exigiram, imediatamente, mudança de política. Quem são essas forças? Uma das maiores e das quais menos se fala nos EUA sempre foi a Arábia Saudita. Se é preciso fornecer armas e dinheiro a jihadistas para enfraquecer a Síria e, por essa via, enfraquecer também o Irã, os sauditas sempre se mostram dispostos a fazer tudo isso. Turquia e Qatar também apoiam os jihadistas, contando com auferir vantagem política; e a Israel interessa prolongar a guerra, mas sem deixar que a vitória penda para os jihadistas. Assim Israel brilha com renovado fulgor como único parceiro com que os EUA contam, numa região que vai sendo cada vez mais devastada. Uma matéria publicada pelo New York Times no dia 5 de setembro noticiava manifestação de um ex-diplomata israelense, sobre os jihadistas e o exército sírio: "Que sangrem os dois, hemorragia até a morte: por aqui, esse é o nosso pensamento estratégico. Enquanto continuarem assim, não haverá real ameaça síria."

Depois que emergiram notícias do uso de armas de gás em março, Obama concordou, pela primeira vez em público, com mandar armas norte-americanas para apoiar grupos “do bem” dentro da insurgência na Síria. Depois do incidente de agosto, no qual se registraram mais mortes, Obama anunciou sua conclusão de que Assad ordenara os ataques e que mísseis norte-americanos não tardariam a “punir” a infração atacando alvos significativos do Estado. Ao mesmo tempo, Obama insistia que não queria alterar o rumo da guerra, com a intromissão da força bélica dos EUA. Seu plano não iria além de um bem merecido castigo. Esta formulação parecia trair sua contínua relutância; também mostrava que Obama pode ser levado a agir contra suas inclinações e, mesmo assim, consegue acomodar a coisa aos seus próprios padrões morais.

Não há dúvidas de que houve um ataque. Ninguém sabe ainda, com razoável certeza, quem o ordenou. Assad poderia ter ordenado, mas, dado que estava em vantagem na guerra e o movimento seria suicídio, não se entende como Obama concluiu o que concluiu. Diz-se que os rebeldes não teriam competência técnica para usar o gás, mas há notícias de que estavam de posse de armas químicas; a ideia de uma operação forjada, de provocação, e bem-sucedida, exigiria alto grau de perversão e talento dissimulatório que também são difíceis de aceitar. O secretário de Estado dos EUA, John Kerry, obscureceu a discussão no final de agosto, quando, primeiro, pediu inspeção do local por inspetores da ONU; e logo depois os alertou para que saíssem de lá, porque os EUA bombardeariam tudo imediatamente. A coisa trouxe de volta ecos de Bush no Iraque em 2003, e Kerry tratou de cancelar a própria ordem; mas, surpreendentemente, declarou que nada do que os inspetores da ONU descobrissem faria, para ele, qualquer diferença.

As quatro páginas de um resumo do “relatório de inteligência”, não sigiloso, que Kerry distribuiu para divulgação pública – e, segundo avaliação do congressista Alan Grayson, o relatório completo, 12 páginas, sigiloso, nada dizia de diferente disso – falam do ponto de vista de “Nós [o governo dos EUA]”. A razão desse uso pouco usual das fórmulas gramaticais é clara: o tal documento não foi produzido pela inteligência dos EUA. Gareth Porter, jornalista de Inter Press Service, examinou as pontas soltas, os “informes” vagos e genéricos, as omissões, as distorções gramaticais reproduzidas na fala de Kerry e concluiu que a ausência de assinatura de James Clapper naquele “relatório” é detalhe muito significativo. Clapper evidentemente se recusou a assinar, porque os dados haviam sido apenas alinhavados uns nos outros, sem qualquer investigação ou trabalho de inteligência (como os dados que Colin Powell apresentou na ONU, em fevereiro de 2003). Kerry falou de precisas 1.429 mortes no ataque de agosto; mas não há dado algum que confirme esse número, que varia muito nos relatos de primeira mão: a inteligência francesa estimou 281 mortos; os Médicos Sem Fronteiras, 355. Em menos de uma semana o “relatório” de Kerry foi desqualificado e desacreditado, mas nem a imprensa, nem o establishment político foram informados disso. Apoiado só em inferências forçadas e pressupostos, dos quais a melhor “pista” era uma comunicação interceptada – gravação de uma fala de um muito perturbado suposto comandante de forças sírias, entregue aos EUA pela inteligência israelense – Obama declarou sua intenção de ordenar um ataque. Em seguida, pediu autorização ao Congresso, para usar força militar e queria poderes para agir como entendesse necessário, para “responder a”, “deter” e “degradar” as capacidades militares e defensivas do governo sírio. Todas essas são palavras sem significado preciso, e foram escolhidas por essa razão. Em grau muito curioso, o pedido de Obama ao Congresso em setembro de 2013 é parecido com o pedido de Bush, para o mesmo fim, em outubro de 2002.

A conversa sobre “punir” Assad é toda ela marcada por uma posição de disciplina parental; não traz qualquer traço semântico da linguagem especializada do Direito Internacional. Não aconteceu por acaso. País que ataque estado soberano, sem agressão prévia, viola leis do Direito Internacional. Quanto a “punições”, até pode acontecer de um governo punir legalmente os próprios cidadãos, mas não é relação possível entre dois países. Um exemplo simples: um pai pode dizer ao filho “Vá para o seu quarto”. Mas ninguém pode dizer a um vizinho indesejável “Você tem de sair”. Obama confunde-se e atrapalha-se, de modo que parece bem genuíno, sempre que se trataria de não ultrapassar a importantes linhas vermelhas dos discursos e das palavras. Anda de um lado para o outro, com excessivo à vontade. No início da crise, tentou armar um estratagema retórico em torno da lei: os EUA e seus aliados, ao punir um ataque a gás contra sírios, que sem dúvida possível fora ordenado pelo presidente da Síria, estaria “fazendo valer normas internacionais”.“Normas internacionais” é expressão que, ultimamente, se ouve por toda parte. Um mundo sem normas (parece ser a implicação inevitável) é mundo em caos. Uma vez que a Rússia não levantaria o veto na ONU e confiado no que lhe diziam franceses e britânicos e o seu próprio governo... quem faria valer as normas internacionais? Quem, se não os EUA?

Muitas forças dentro da política norte-americana operaram para pressionar Obama em direção da guerra. Uma dupla de senadores Republicanos, Lindsey Graham e John McCain, ganharam extraordinário destaque nos veículos da imprensa-empresa, como especialistas em política externa. Comandaram a ala militarizada do Partido Republicano, apesar até da defecção de renegados do Tea Party e libertaristas free lance. E muitos Democratas guardaram para si as próprias dúvidas, para não parecer que se opunham ao presidente. Só quando a Câmara dos Comuns britânica votou contra, afinal a política de guerra dos EUA balançou. O presidente e equipe foram profundamente perturbados pelo resultado daquela votação. O povo e seus representantes respiraram fundo; e a política de guerra dos EUA começou a ser mais amplamente questionada. Que sentido teria o tal ataque “limitado e adequado” [orig. “limited and tailored”] (frase típica de Obama) que simultaneamente aplicaria golpe inesquecível ao “ditador” alvo?

Essa apresentação autocontraditória foi devida em parte a outra das forças que exigiam “castigo” americano ao sírio, a saber, os pregadores de guerra humanitária, e à líder deles, a assessora para segurança nacional de Obama, Susan Rice. A posição dela em pouco difere da antecessora, Condoleezza Rice (não são parentes), mas as duas desenvolveram suas credenciais internas por vias distintas: Condoleezza Rice, como acadêmica especializada em estratégia soviética; Susan Rice, num processo de ascensão dentro da elite política, com uma muito proclamada vocação de consciência para impedir “outra Rwanda”. A campanha doméstica a favor de ataque norte-americano aos sírios foi marcada por uma notável novidade vinda dos agentes promotores de guerra humanitária: mensagens de Twitter, enviadas por Rice e pela embaixadora dos EUA à ONU, Samantha Power, para promover também pelo lado de fora os objetivos pelos quais trabalhavam dentro do governo.

Todas elas são nomes que Obama nomeou recentemente e pelas quais expressou admiração. Mas, ao obedecer a elas e a um novo discípulo delas, recém conquistado, John Kerry, Obama passava a ignorar outra vozes dentro do governo, que teriam enorme peso. Todos os comandantes militares do Estado-Maior das Forças Armadas opunham-se à intervenção na Síria. O chefe dos chefes do Estado-Maior, general Martin Dempsey, já vinha dizendo há meses por que considerava perigoso o ataque. Que para nada serviria, exceto para prolongar a guerra civil; e que exporia bens norte-americanos na região à retaliação, no Afeganistão, na Líbia, por toda a parte. (Susan Rice comandou a campanha para que os EUA, com a OTAN, derrubassem o governo na Líbia. É possível que Obama ainda suponha que a guerra da Líbia tenha sido um sucesso, mas é ilusão só sua, da qual não partilham nem as forças armadas nem o serviço diplomático norte-americano). O depoimento de Dempsey ao Senado e à Câmara de Representantes foi feito com talento, mas, se visava a tranquilizar alguém, teve resultado oposto: a certa altura, o general recusou-se a prever efeitos futuros de algum ataque limitado; e o secretário de Defesa, Chuck Hagel, não conseguiu disfarçar as próprias emoções e respondeu a tudo como se não acreditasse em nenhuma palavra do que dizia. Juntos, esses dois faziam impressionante contraste com o secretário de Estado sentado ali ao lado. Kerry parecia tomado de renovada certeza, absoluta certeza, que ia aumentando a cada resposta, a cada pergunta que lhe era feita.

Verdade é que Kerry funcionava como o mais espetacular boneco de ventríloquo encarregado de vender uma política incoerente. “Não consigo parar de pensar em John Kerry, ontem, todo vaidoso” – disse o demagogo conservador e radialista Rush Limbaugh – “revelando que alguns países do Oriente Médio ofereceram-se para pagar pelo nosso ataque à Síria”. Quero dizer... Já não é ruim que chegue sermos chamados de policiais do mundo? Quem quer ser um policial subornado?! O que haveria de bom nisso? Quem somos nós, agora? Viramos mendigo, pedinte?!”. O provável maior problema de qualquer governo em total desalinho é que ele induz as pessoas a pensar duas vezes sobre tudo que o governo faça ou diga e sobre todas as suas políticas.

No final de agosto, com britânicos ou sem, os EUA estavam posicionados para ir à guerra. Mas a opinião pública já migrara para um ceticismo desconfortável – a proporção, que era de 3:1 a favor dos que não queriam a guerra, subiu, na segunda semana de setembro para mais de 2:1 contra. E foi no meio dessa deriva que o presidente resolveu enviar a questão ao Congresso e pedir que dividissem com ele a responsabilidade. Mas o Congresso, então, já estava refletindo a opinião pública. A consulta sugeriu que Obama queria mais tempo para pensar, e que não queria perder para a Grã-Bretanha, que seguira os procedimentos de um governo constitucional. Mas incongruente e muito estranhamente, Obama logo acrescentou que não seria pautado pela votação no Congresso. O que aí se vê é ambivalência pessoal privada, exposta para contemplação universal. Mas naqueles primeiros dias de setembro já se respirava outro ar, o ar de uma democracia que olhava a própria cara. John McCain foi acusado de leviandade, numa reunião popular no Arizona, por uma mulher que tem um primo sírio. O senador Rand Paul, o branco libertarista do Kentucky, e o Deputado Elijah Cummings, o negro liberal de Baltimore, relataram, ambos, que seus respectivos eleitores opunham-se a qualquer ataque, na proporção de quase 100:1. O presidente e sua secretaria de Estado, e com esses também uma vasta porção da elite política, haviam aprovado a ação militar para derrubar um quarto governo no Oriente Médio, depois de Afeganistão, Iraque e Líbia. Mas o povo dos EUA, dessa vez, disse “não”.

Mesmo assim, na primeira semana de setembro, Obama e Kerry ainda defendiam tanto a ambição delirante quanto a versão minimalista de seu ataque tão premeditado. Ataque decisivo e para incapacitar, que duraria poucos dias: essa parece ter sido a versão que o presidente apresentou a Graham e McCain. Mas o ataque que Kerry antevia, como disse à imprensa britânica dia 9 de setembro, seria: "(...) muito limitado, muito focado, esforço de curto prazo... Estamos falando é disso – esforço incrivelmente pequeno e limitado." E a confusão não fica aí. Recentemente em sua fala à nação, dia 10 de setembro, Obama contradisse Kerry e afirmou que o ataque não seria um beliscão, acrescentando em tom grave: "Os militares dos EUA não dão beliscões."

Dia 9 de setembro, Kerry deixou escapar um comentário, que seria carregado de consequências. O único meio pelo qual Assad conseguiria evitar ataque norte-americano seria ele entregar suas armas químicas a supervisão internacional e eventual destruição. “Claro” – Kerry acrescentou – “que não acontecerá”. Putin ouviu e entrou em cena. Mas, sim, disse Putin, é claro que acontecerá, porque a Síria entregaria suas armas químicas à inspeção internacional e até ao confisco, nos termos de um acordo que a Rússia intermediaria; em segundos, seu ministro de Relações Exteriores, Sergey Lavrov, apareceu com um plano diplomático no qual já vinha trabalhando há meses. A Casa Branca e o Departamento de Estado fizeram de tudo para ficar com os créditos por esse desenvolvimento, mas é quase impossível acreditar que tenha sido resultado de plano conjunto, do qual Kerry tivesse participado. Implicaria que o presidente ter-se-ia posto, ele próprio, numa situação que causaria embaraços ao governo, que o humilharia pessoalmente e que poria o mundo à beira de uma guerra, “porque” sabia da surpresa que surgiria no momento certo. A boia não requisitada que Putin empurrou para Obama levou o presidente a retirar a consulta que encaminhara ao Congresso – mas, isso, só depois de ter absoluta certeza de que a votação aconteceria dia 11/9. Estava a caminho de ser derrotado na Câmara de Representantes e, possivelmente, até no Senado.

Dia 10 de setembro, o presidente falou à nação. Precisou de mais tempo para justificar o ataque que estava devolvendo à prateleira, do que para explicar a nova rota na qual já estava comprometido, mas foi discurso “de abafa” também em outros sentidos: às vezes pedia, às vezes denunciava; dava lições de que o amor à paz tem às vezes de nos envolver em guerras, reiterando o imperativo de construir os EUA em casa, mas tomando o atento cuidado de falar do holocausto de judeus. E fechou com um apelo convencional ao onanismo nacional norte-americano: "(...) estamos sós no mundo, disse o presidente. Somos a nação “excepcional”. Por quase sete décadas os EUA têm sido a âncora da segurança global." Dia seguinte, o New York Times publicou coluna editorial assinada por Putin, que expressou sua esperança de que os norte-americanos escolheriam evitar guerra mais ampla. Falou com consideração, de Obama. Examinei atentamente a fala do presidente à nação, na terça-feira. E tenho de discordar da defesa do excepcionalismo norte-americano. O presidente disse que a política dos EUA é o que “faz diferentes os EUA, o que nos faz excepcionais”. É extremamente perigoso estimular as pessoas a que se vejam, elas mesmas, como diferentes, seja qual for a motivação. Verdade seca, de fonte questionável, mas impossível de negar. Nação que se suponha uma exceção aos padrões observados pelas demais nações é tão boa bisca quanto alguém que se veja, a si mesmo, como exceção.

É pouco provável que Obama mude outra vez, por hora. Mas deixar-se na posição passiva, de quem só ouve o que os russos digam, que responde às vezes sim, às vezes não, às vezes “Vamos analisar”, exporá todo seu governo à acusação de estar “liderando pela retaguarda” demais (foi Obama quem inventou essa, ao jactar-se do que fazia na Líbia). A diplomacia é coisa relativamente nova para Obama. Mas, dessa vez, não teve escolha. Nem Obama pode entregar essa carpintaria delicada às que mais alto gritavam a favor da guerra. Obama terá de trabalhar duro para resistir à pressão para bombardear o Irã que nunca para de vir de Israel e do lobby israelense nos EUA. Delegar grandes responsabilidades de governo pode ser compatível com um sinal de humildade – e até funcionou assim, para Reagan – mas há cenários nos quais essa atitude aproxima-se perigosamente da temeridade ou da irresponsabilidade. Em dezembro de 2011 pediram a Obama que ele confessasse um defeito pessoal; respondeu que o defeito que criticaria em si próprio era a preguiça. Mais uma vez (como o que disse sobre Putin e os banqueiros), melhor que não tivesse dito. Mas, seja como for, aí está a chance para se autorreformar: um tempo para comprometer-se pessoal e profundamente na construção de suas políticas, menos discursos palavrosos, menos comentários descuidados nas entrevistas; ocasião para trabalhar ativamente com novos parceiros, além de França, Grã-Bretanha e IsraelSe quer igualar-se a Putin nas artes da diplomacia e superá-lo no difícil exercício da autocontenção, Obama tem de aproveitar esse momento, também, para reconsiderar o extraordinário aparelho de sigilo em que seu governo está confinado, para tudo que tenha a ver com a segurança e com suas políticas externas.

Sobre o autor

David Bromwich é professor de literatura em Yale e escreve sobre política e cultura para vários veículos como: The New Republic, The Nation, The New York Review of Books, London Review of Books e outros jornais e revistas. É editor da obra de Edmund Burke On Empire, Liberty, and Reform e co-editor da revista On Liberty da Yale University Press.

22 de setembro de 2013

Recuperar a centralidade da classe

Ellen Meiksins Wood [*]

Solidarity

Tradução / Em 1963, quando E.P. Thompson publicou The Making of the English Working Class, ainda existia uma importante cultura anticapitalista na esquerda intelectual, que floresceu com um vigor especial entre os historiadores marxistas britânicos, um notável grupo ao qual pertencia E.P. Thompson Durante pouco mais de uma década, apesar (ou talvez por causa) das erupções militantes de 1968 e de algumas dramáticas lutas operárias nos anos posteriores, a vida intelectual da esquerda ocidental foi moldada por uma atitude de rendição ao capitalismo e por um “recuo da classe”.

A moda acadêmica mais influente na esquerda, começando com o pós-marxismo e culminando com o pós-modernismo, parece agora - para o bem ou para o mal - aferrada a um princípio, segundo o qual o capitalismo era a única opção viável e a luta de classes não está mais na agenda.

Essas modas tiveram seu início a partir década de 1970, e se desenvolveram mais ou menos em paralelo com a "Nova direita" e o neoliberalismo. Justamente quando os governos impulsados pela doutrina neoliberal estavam realizando uma luta classes aberta em nome do capital e contra o trabalho, o conceito de classe estava em declínio. Na Grã-Bretanha, por exemplo, quando o governo de Margaret Thatcher estava travando sua implacável guerra de classes luta de classes contra os trabalhadores, sua própria estratégia retórica consistia em negar a própria existência das classes.

Essa estratégia ideológica é mais alarmante ainda porque reaparece na esquerda intelectual como uma imagem no espelho. E não ocorre apenas com pós-marxismo. Até mesmo a Marxism Today, a revista teórica do partido comunista britânico, aderiu com entusiamo ao “recuo do conceito de classe”.

Estes novos guerreiros não classistas de esquerda aceitam na prática a construção neoliberal do universo social. Tão pouco para eles há classes ou política de classes; simplesmente um mundo pós-moderno no qual a fragmentação, a diversidade e as "múltiplas" identidades acabaram com as velhas solidariedades de classe.

É verdade, claro, que para muitos isso significava perseguir outras lutas necessárias contra outras formas de opressão, especialmente aqueles relacionados ao gênero e raça. Mas havia algo mais nesse recuo - ou talvez deveríamos dizer menos - que um interesse em formas alternativas de luta; e esse abandono do conceito de classe não pode simplesmente ser atribuído ao declínio do movimento operário nos anos 1970 e 1980. O recuo do conceito de classe, que compartilham alguns sectores da esquerda intelectual, tem outras raízes que o precedem. [1]

Os intelectuais de esquerda mais decididos a abandonar o conceito de classe também se inclinam a sugerir que não temos necessidade de desafiar o capitalismo como una totalidade sistêmica, porque não existiria algo assim como um sistema capitalista - se é que alguma vez existiu - na nova realidade fragmentada. Nos contam que se está dando uma tremenda expansão da “sociedade civil” que amplia consideravelmente o leque de nossas escolhas individuais. O modo de combater as doutrinas neoliberais consistiria aparentemente em aceitar seus pressupostos básicos e tratar de vence-los no seu próprio jogo retórico.

A crise capitalista real

Hoje nós estão confrontando o mundo real do capitalismo, de uma forma que não vemos há muito tempo. Desde a crise de 2008 e o desastroso projeto de austeridade que se seguiu, é quase impossível desconhecer os brutais efeitos sistêmicos do capitalismo ou a cruel realidade das classes.

Houve alguns sinais promissores de novos movimentos contestatórios, como o movimento “Occupy”, que se bem não produziram ainda um movimento político coerente, no entanto começaram a mudar o discurso sobre las consequências do capitalismo e as desigualdades de classe. Ainda mais que grande parte da esquerda intelectual perdeu o hábito, os meios ou sequer a vontade de se opor ao capitalismo não só na prática mas na teoria.

Por isso é o momento adequado para recuperarmos E.P. Thompson. Não somente porque ele, provavelmente mais que qualquer outro historiador, deu vida aos processos da formação e luta de classes, mas também porque mais que qualquer outro historiador e talvez qualquer acadêmico ou escritor, E.P. Thompson foi quem com mais acuidade definiu o capitalismo como uma forma social historicamente específica - não como una lei da natureza -, e nos obrigou a vê-lo com distância crítica e antropológica.

E isso é especialmente importante hoje, pois faz muito tempo que adquirimos o hábito de considerar o capitalismo como dado, como si se tratasse de algo tão universal e invisível como o ar que respiramos. E. P. Thompson desafiou os pressupostos básicos do capitalismo, entendendo-o como um conjunto de práticas sociais e princípios morais e estudando seu desenvolvimento como um processo constante de luta.

Não apenas mostrou este processo em seu livro La Formación de la Clase Obrera en Inglaterra, mas também em outros trabalhos, por exemplo em seu clássico ensaio Moral Economy and Popular Protest: Crowds, Conflicts and Authority no qual segue as pistas das lutas contra a racionalidade do mercado, imposta a pesar da resistência de grupos com costumes e expectativas distintas e com diferentes concepções do direito à subsistência; ou seu ensaio Custom, Law, and Common Right, no qual nos mostra o modo em que as definições de propriedade com base na produtividade para o lucro capitalista afirmaram-se à custa das costumes e as concepções de direito ao uso; ou seu ataque - especialmente em seu ensaio "Time, Work Discipline and Industrial Capitalism" - ao conceito de “industrialização” e sua insistência na especificidade do capitalismo industrial como um modo historicamente distinto de exploração - não como um processo neutro de mudança tecnológica -, com efeitos que afetaram as práticas laborais e também a algo muito mais central para nossa vida cotidiana, que é nossa experiencia do tempo. [2]

A abordagem da história por E.P. Thompson resume o que para mim é a essência do materialismo histórico, uma aproximação que lança luz sobre a teoria e a prática, sobre a historia e a política. Embora ele tentasse evitar a linguagem teórica, seu trabalho histórico sempre me pareceu tão fértil para a teoria como esclarecedora para a história.

Segundo E.P. Thompson, o conhecimento teórico não é sobre uma “representação conceitual estática”, mas sobre “conceitos apropriados para investigar os processos”. Isto significa, entre outras coisas, que não existe essa antítese entre história e teoria ou entre o empírico e o teórico na qual insistem algumas correntes muito influentes do marxismo.

O desafio, segundo E.P. Thompson, consiste em captar e iluminar os processos históricos, e não considerar a classe como uma localização estática em uma estrutura de “estratificação”, mas como um processo e uma relação social. Em outras palavras, E.P. Thompson levou a sério a ideia de Karl Marx de que o materialismo histórico se ocupa da “atividade prática” humana, da agência humana, dentro dos limites das condições históricas e sociais específicas. Isso é o que o converte em um estudioso tão efetivo do capitalismo entendido como um terreno disputado e alvo de luta.

Notas

[1] Esse assunto é discutido com maiores detalhes no meu artigo “A Chronology of the New Left and Its Successors, or: Who’s Old-Fashioned Now?” Socialist Register 1995, 22-49 e no Prefácio à edição de 1998 do meu livro The Retreat from Class: A New "true" Socialism.

[2] Estes ensaios estão incluídos em Customs in Common: Studies in Traditional Popular Culture (New York: New Press, 1993).

[*] Ellen Meiksins Wood foi durante muitos anos professora de ciência e filosofia política na York University de Toronto, Canadá. Entre 1984 e 1993 fez parte do conselho editorial da New Left Review britânica, e entre 1997 e 2000 co-editou, junto com Paul Sweezy e Harry Magdoff a revista norte-americana Monthly Review. Filósofa e historiadora marxista e feminista mundialmente reconhecida, fez contribuições fundamentais no campo da filosofia política, da história das idéias políticas e da história política e social. Seus últimos livros publicados: Citizens to Lords: A Social History of Western Political Thought from Antiquity to the Late Middle Ages (Verso, Londres, 2008) e The Origin of Capitalism: A Longer View (Verso, Londres, 2002). Atualmente reside em Londres.

20 de setembro de 2013

Sobre a falácia do "diálogo" com a academia israelense

Haim Bresheeth e Sherna Berger Gluck

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Um argumento padrão contra o movimento de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) contra a ocupação israelense – e especialmente contra o boicote acadêmico – tem sido a “necessidade de dialogar” com os israelenses. De fato, durante os 46 anos de ocupação, numerosos esforços para “dialogar” têm sido repetidamente feitos, todos os quais são calorosamente abraçados por Israel e suas instituições acadêmicas.

O exemplo mais recente é uma conferência de “História Oral Internacional” organizada pela Universidade Hebraica de Jerusalém, com a participação do renomado historiador oral italiano Alessandro Portelli. Os temas da conferência incluíam estudos sobre trauma, estudos sobre holocausto e estudos sobre conflitos, evitando assiduamente, no entanto, qualquer referência ao Nakba.

Tal elipse típica se tornou uma zona de batalha icônica ente os apoiadores dos direitos palestinos e os pró-israelenses, os quais promovem o “diálogo” e o “compromisso”. Não surpreende que a Universidade Hebraica evite esse assunto, dada sua cumplicidade com o trauma palestino em curso. A recém aprovada Lei Nakba em Israel proíbe mesmo a celebração do Nakba, portanto essa nulificação é parte de um projeto maior de negação israelense.

Foram feitos esforços privados para dissuadir os dois conferencistas escalados, e tornou-se claro que eles subscreviam firmemente o valor do “compromisso”, mesmo com uma instituição como a Universidade Hebraica, cuja cumplicidade na violação dos direitos palestinos e da lei internacional estão completamente documentadas. Seguindo essa discussão, a página original da conferência foi trocada, e uma referência elíptica pareceu abrir a porta para alguma discussão para a Nakba anteriormente não mencionada.

As questões envolvidas nessa conferência vão além de uma mal informada ou mal guiada participação dos conferencistas escalados; uma chamada pública para boicotar a conferência, assinada por 72 acadêmicos internacionais, foi lançada em agosto. Agora, em apenas um mês, existem mais de 250 assinaturas, das quais um terço é de historiadores orais de 19 países, incluindo África do Sul, Brasil, Espanha e Índia.

Como a discussão posterior sobre o boicote foi cortada na lista de emails dos Estados Unidos, onde a conferência foi inicialmente anunciada, uma mensagem postada pela organizadora da conferência foi o último comentário substantivo sobre a questão. Nele, ela afirma que boicotar a Universidade Hebraica “apenas serve como um desserviço a muitos indivíduos, organizações e comunidades que dedicam suas vidas profissionais e pessoais para encontrar uma resolução justa para o conflito”. [1] Então, o argumento para o “compromisso” era permitido, mas à comunidade acadêmica americana era negado o acesso as evidências constrangedoras para o boicote. De fato, eles estavam dando uma resposta a uma questão ainda sequer debatida publicamente.

A disputa entre os acadêmicos, e a timidez daqueles nos Estados Unidos comparados com outros pelo mundo, não é nova. Mais do que isso, representa um conflito mais profundo, relativo à questão mesma do “compromisso”.

A insensatez do “compromisso”

Os acadêmicos têm ido a conferências em Israel, especialmente em Jerusalém, durante longas cinco décadas de ocupação, “dialogando” com seus pares israelenses. Já é ruim o suficiente que essas participações não tenham resultado em absolutamente nada de positivo, mas, para piorar, eles se tornaram parte mesmo da estratégia política israelense: mais participação, discussão, encontros, negociações entre os lados ad infinitum. A atual fase de tais exercícios infrutíferos recentemente iniciada pelo Secretário de Estado John Kerry vai provavelmente se juntar às demais na lata de lixo da História.

Pior ainda, sob a aparência de continuar discussões e negociações – uma tática de adiamento desenvolvida pelo Primeiro-Ministro Shamir nos anos 1980 – Israel conseguiu adicionar 700.000 colonos ilegais nos Territórios Ocupados da Palestina e da Síria. Isso equivale ao número de refugiados palestinos que foram forçados a sair da Palestina em 1948 pelas forças israelenses e nunca retornaram, apesar de inúmeras resoluções da ONU.

Em mais de seis décadas de existência, Israel desafiou a ONU em todas as mais cruciais resoluções aprovadas sobre os direitos dos palestinos; instalou ilegalmente colonos nos territórios; desafiou a Convenção de Genebra numerosas vezes, incluindo aí sua “falha” em proteger a população sob ocupação. Entre outras coisas, se recusou a dar às universidades palestinas o direito de operar, e fechou as instituições palestinas existentes por longos períodos. Durante todo esse tempo, ninguém na academia israelense pediu pela reabertura das universidades palestinas, ou pela restituição da liberdade acadêmica na Palestina. As universidades israelenses foram diretamente cúmplices da violação israelense dos direitos humanos palestinos e das leis internacionais, e todas colaboraram de alguma forma com a ocupação militar, incluindo aí assistência ao complexo industrial-militar.[2] No caso da Universidade Hebraica de Jerusalém, seu campus de Mt. Scopus foi expandido dentro de terra ilegalmente confiscada e ocupada.

No entanto, em contraste com o caso do apartheid sul-africano, a maioria dos acadêmicos pelo mundo permaneceu calada por anos, mostrando pouca oposição aos crimes de Israel. Somente em 2005, seguindo o chamado da PACBI por um boicote acadêmico, o BDS e o boicote acadêmico começaram a sério no Reino Unido. Desde então, o BRICUP (Comitê Britânico pelas Universidades na Palestina, na sigla em inglês) tem se envolvido em diversas ações de sucesso, incluindo a retirada do famoso físico Stephen Hawking da conferência presidencial de 2013 – uma ação que galvanizou cientistas e acadêmicos pelo mundo.[3]

Quatro anos após a fundação da BRICUP, e em resposta a Operação Cast Lead campanhas tanto nos EUA (USACBI) quanto na França (AURDIP) foram iniciadas. [4] Seguidas ao sucesso do repúdio mostrado por Hawking, ambas campanhas tem sido ativas. Nos Estados Unidos, talvez o mais significativo sucesso no front acadêmico tenha sido a aprovação da resolução do boicote acadêmico na Conferência de Estudos Asiático-americanos em maio de 2013. A AURDIP, apesar de severamente dificultada pelas políticas repressivas iniciadas por Sarkozy e totalmente aplicadas sob Holland, permanece uma importante referência para o boicote acadêmico, regularmente utilizando eventos públicos de mostra de cooperação entre instituições acadêmicas de França e Israel como uma plataforma para promover o BDS.

Hoje, existem campanhas ativas de boicote na Espanha (PBAI), Berlim (BAB) e Índia (IncABCI), todas as quais foram iniciadas em 2010[5], e na Irlanda (AFP – Academics for Palestine) foi criada em 2012[6]. Talvez o mais importante desdobramento tenha sido o desenvolvimento de um movimento BDS dentro de Israel (Boycott from within – Boicote a partir de dentro). Essas campanhas de boicote têm angariado apoio crescente, freqüentemente de alguns dos mais notáveis acadêmicos em seus países e regiões, como Josep Fontana, o prestigiado historiador catalão. Os grupos de boicote na Espanha, Índia e Estados Unidos estão atualmente organizando contra parcerias sendo montadas com a Technion de Israel. Mesmo na Alemanha, onde qualquer crítica a Israel é altamente suspeita, o BAB está desafiando um acordo de cooperação entre a Universidade Livre de Berlim e a Universidade Hebraica.

A mensagem está se espalhando, gradualmente penetrando as instituições acadêmicas em todas as partes. Em resposta, Israel e o movimento sionista têm devotado tremendos esforços, financiados pelo governo, para conter o boicote. A política de longo prazo que foi então idealizada priorizou o Reino Unido. Uma série de forças-tarefas feitas em universidades israelenses chegaram ao Reino Unido para “explicar” a necessidade de “compromisso” e “diálogo”. Os mesmos professores que por anos se puseram contra qualquer engajamento no apoio aos direitos civis e humanos dos palestinos, incluindo seu direito a educação, estavam agora militando em apoio a “real vítima” – Israel – e promovendo o “compromisso” com as forças de ocupação sob a bandeira do diálogo. A mais recente tentativa, certamente não a última, é a campanha do governo para usar os estudantes israelenses contra o boicote. Revelações recentes expuseram a criação de unidades disfarçadas nas universidades israelenses, criadas para trabalhar com a União Estudantil Nacional Israelense, usando as mídias sociais.

Seja o que for que se pense sobre as universidades israelenses, elas não podem ser acusadas de serem liberais ou apoiadoras de direitos humanos. Alguns meses antes da incursão em Gaza em dezembro de 2008, uma petição pela liberdade acadêmica nos Territórios Ocupados circulou entre mais de 10.000 acadêmicos israelenses. Essa moderada petição, que requeria meramente o governo a permitir que os palestinos desfrutassem da mesma liberdade que os acadêmicos israelenses, foi assinada por apenas 407 deles – 4% do total. As associações acadêmicas em Israel nem mesmo a discutiram. Embora a Universidade de Tel-Aviv seja de longe a mais “liberal” de todas, com 155 membros assinando a petição, em 2012, Shlomo Sand se sentiu compelido a repreender seus colegas no Departamento de História por ocultarem a problemática história de sua própria universidade, construída na antiga vila palestina de Sheikh Muwanis.[7]

Os acadêmicos israelenses continuamente ignoram os chamados da sociedade civil palestina pelo BDS contra a ocupação agressiva de Israel, argumentando pelo “diálogo” com os colegas israelenses. De fato, a conferência na Universidade Hebraica é promovida como um “local de participação no qual ‘diálogos difíceis’ sobre memória e perspectivas serão discutidos”. Como de costume, ao invés de promover diálogo com os acadêmicos palestinos, o máximo que os organizadores conseguem fazer é uma referência a “questões que este país e região encaram”. Seria a ocupação tal questão?

O que pode ter de errado em dialogar?, alguém poderia perguntar. No entanto, a questão correta seria: “é moral colaborar com um Estado colonial, racista, militarizado, de forma a limpar seus crimes?” Não significa isto que os crimes continuam e que novos crimes serão perpetrados? De fato, as evidências claramente demonstram que “compromissos” continuados não levaram a nenhuma resolução, mas, ao contrário, serviram para adormecer a sensibilidade da academia internacional para as realidades da Palestina ocupada. No caso da África do Sul, era claro para todos os acadêmicos que não existia nenhuma maneira de “dialogar” com o apartheid falando com seus representantes; o único modo de lidar com o apartheid era se opondo a ele – boicotar, desinvestir e aplicar sanções; negar às instituições sul-africanas qualquer apoio ou diálogo; e seguir o conselho do CNA.

Embora não ainda na mesma escala que a campanha sul-africana, a campanha BDS tem tido sucesso. Muitos acadêmicos pelo mundo estão agora sensibilizados demais para tornarem-se cúmplices da ocupação ilegal de Israel, suas políticas coloniais e suas práticas de apartheid e pararam de colaborar com instituições israelenses. A campanha para boicotar a conferência de história oral “internacional” da Universidade Hebraica é parte de um crescente esforço mundial para honrar o chamado palestino por um boicote acadêmico a Israel.

Porque tantos historiadores vêem seu trabalho como um modo de dar voz aos oprimidos e silenciados, boicotar essa conferência deveria ser óbvio. De fato, para os historiadores orais com mente aberta, trata-se somente disto, mesmo que muitos dos praticantes da História Oral nos Estados Unidos tenham enfiado basicamente suas cabeças na areia, seguindo a orientação de seu governo.

Nós imaginamos o que os dois advogados do compromisso, solicitados para a palestra, farão, e especialmente como a Universidade Hebraica responderá. Irá ela jogar fora, por exemplo, os dispêndios generosos aos participantes, lhes rendendo sua parte para a máquina de propaganda israelense? Nós esperamos, ao contrário, que os historiadores orais ao redor do mundo prestarão atenção ao chamado dos palestinos, honrando a fundação ética/moral básica do trabalho do historiador. [8]

Notas

[1] Dr. Sharon Kangisser Cohen, postado na lista de divulgação da Conferência, 05 de agosto de 2013. Disponível em: http://bit.ly/1PDm0XI.

[2] KELLER, U. “The Academic Boycott of Israel and the Complicity of Israeli Academic Institutions in Occupation of Palestinian Territories”. In. The Economy of the Occupation: A Socioeconomic Bulletin. Alternative Information Centre, 2009. Disponível em: http://bit.ly/23w9Muu.

[3] Ver SHEIZAF, Noam. “Stephen Hawking’s message to Israeli elites: the occupation has a price”. +972. 8 de maio de 2013. Disponível em: http://bit.ly/1KHUTJR.

[4] AURDIP – Association Universitaire pour le Respect du Droit International en Palestine.

[5] PABI – La Plataforma para el Boicot Académico a Israel; BAB – Berlin AB; InCACBI – Indian Campaign ACBI.

[6] Começada com a aprovação, em 9 de novembro de 2012, de uma moção de boicote acadêmico na união acadêmica TUI (Teachers Union of Ireland). Ver PACBI, “TUI Dublin Colleges Branch AGM passes motions in support of Boycott, Disenvestment and Sanctions; recognizes Israel’s apartheid nature”. 13 de novembro de 2012. Disponível em http://bit.ly/1UtnUOZ.

[7] SAND, S. The Invention of the Land of Israel: From Holy Land to Homeland. Londres: Verso, 2012. p. 259-281.

[8] A carta em Inglês, Francês, Português e Espanhol pode ser acessada em: http://www.aurdip.org/Call-to-Boycott-the-Oral-History.html e usacbi.org

19 de setembro de 2013

Em uma época de "realistas" e vigilantes, ainda há motivos para otimismo

Por John Pilger

[New Statesman] O mais importante aniversário de 2013 são os 40 anos do 11 de setembro de 1973 – quando o general Augusto Pinochet e Henry Kissinger, então secretário de Estado, esmagaram o governo democrático do Chile. O Arquivo de Segurança Nacional em Washington acaba de distribuir, afinal liberados, novos documentos que mostram muito do papel de Kissinger numa atrocidade que custou milhares de vidas.

Em gravações que agora começam a ser divulgados para conhecimento público, ouvem-se Kissinger e o presidente Richard decidindo as providências para derrubar o presidente Salvador Allende. Falam como dois bandidos mafiosos. Kissinger alerta que o “efeito modelo” da democracia reformista de Allende “pode ser insidioso”. E diz ao diretor da CIA Richard Helms: “Não deixaremos que o Chile se vá pelo ralo”, ao que Helms responde: “Estou com você”. Com a carnificina já em andamento, Kissinger descarta um alerta que recebe de seus altos assessores sobre a escala da repressão. E diz secretamente a Pinochet: “Grande serviço você prestou ao ocidente."

Conheci várias das vítimas de Pinochet e Kissinger. Sara De Witt, que era estudante na época do golpe, mostrou-me o local onde foi detida, espancada, estuprada e eletrocutada. Em um dia de inverno, caminhamos juntos pelos subúrbios de Santiago, e visitamos um ex-centro de tortura chamado Villa Grimaldi, onde centenas como ela sofreram terrivelmente e onde muitos foram assassinados e “desaparecidos”.

É vital compreender claramente a criminalidade de Kissinger, para começar a compreender o que os Estados Unidos chamam de sua “política externa”. Kissinger ainda é voz influente em Washington, admirado e consultado por Barack Obama e Kerry. Quando Israel, Arábia Saudita, Egito e Bahrain cometem crimes com armas e contribuição dos Estados Unidos, a impunidade dos criminosos e a hipocrisia de Obama são puro Kissinger. A Síria não pode ter armas químicas, mas Israel pode tê-las e usá-las. O Irã não pode ter programa nuclear, mas Israel pode ter mais armas nucleares que a Grã-Bretanha. A isso acadêmicos e think-tanks norte-americanos chamam de “realismo” ou realpolitik, apresentando-se como especialistas em “contraterrorismo” e “segurança nacional”, duas expressões orwellianas que significam o seu oposto.

Em semanas recentes, a New Statesman tem publicado artigos assinados por John Bew, professor do departamento de estudos de guerra do Kings College ao qual Laurence Freedman, guerreiro da guerra fria deu grande fama. Bew lamenta a decisão do Parlamento britânico que impediu David Cameron de se unir a Obama em ataque ilegal contra a Síria; lamenta também a hostilidade da maioria dos britânicos, que não querem ver mais britânicos bombardeando outros países. Uma nota no rodapé dos artigos informa que Bew assumirá em breve “a cátedra Henry A. Kissinger de Política Exterior e Relações Internacionais” em Washington. Se não é piada de humor macabro, é profanar a decência humana e todas as vítimas, como Sara de Witt e outras incontáveis vítimas de Kissinger, dentre milhares de outras todas as que morreran no holocausto promovido por ele e Nixon no bombardeio secreto e ilegal do Camboja.

Essa doutrina do “realismo” foi inventada nos Estados Unidos depois da II Guerra Mundial e patrocinada pelas fundações Ford, Carnegie e Rockefeller; pela CIA; e pelo Conselho de Relações Exteriores. Nas grandes universidades, os estudantes passaram a ser ensinados a ver povos e países em termos de utilidade ou descartabilidade; em outras palavras, em termos de ameaça contra “nós”. Esse narcisismo serviu para justificar a guerra fria, com seus mitos de falsa moralidade e riscos cataclísmicos. Quando isso se esgotou, inventaram a “guerra ao terror”. Esse “consenso transatlântico” muitas vezes encontrou eco perfeito na Grã-Bretanha, onde a elite padece de nostalgia pelo império. Tony Blair usou-o para cometer e justificar crimes de guerra; mentiu até não mais poder. A morte violenta de mais de mil pessoas por mês, hoje, no Iraque, é seu principal legado; mesmo assim ainda é cortejado e seu principal colaborador, Alastair Campbell, é festejado conferencista de pós-jantares e atentamente consultado em entrevistas subservientes. Todo o sangue, parece, foi lavado. 

Hoje, o projeto deles é a Síria. Agora, contido pela Rússia e pela opinião pública, Obama parece ter adotado a “via da diplomacia”. Pode-se confiar nisso? Enquanto negociadores russos e estado-unidenses chegavam a Genebra dia 12  de setembro, no mesmo dia os Estados Unidos aumentavam seu apoio a milícias ligadas à al-Qaeda, com armas enviadas clandestinamente pela Turquia, Europa Oriental e Golfo. O Chefão não dá sinais de interesse em abandonar seus capangas na Síria. A al-Qaeda foi criada pela CIA na Operação Cyclone que armou os mujahedin no Afeganistão ocupado pelos soviéticos. Desde então, sucessivas gerações de jihadistas têm sido usados para dividir as sociedades árabes e tentar eliminar a ameaça que o nacionalismo pan-árabe impõe a “interesses” ocidentais e ao ilegal expansionismo israelense. Isso tudo é o “realismo” estilo Kissinger.

Em 2006, entrevistei Duane “Dewey” Clarridge, que comandava a CIA na América Latina nos anos 1980. Era autêntico “realista”. Como Kissinger e Nixon nas gravações, Clarridge falava o que lhe vinha à cabeça. Referiu-se a Salvador Allende como "aquele sujeito no Chile" ("whatshisname in Chile"). Disse que “ele tinha de sair, porque nos interessava que saísse, era do nosso interesse nacional”. Quando perguntei a ele o que lhe daria o direito de derrubar governos, ele respondeu: “Gostem ou não gostem, faremos como quisermos. Então, o mundo que se habitue a isso". 

O mundo já começa a desabituar-se. Em continente destroçado por gente que Nixon chamou de “os nossos filhos da puta”, governos latino-americanos já desafiam os tipos como Clarridge, para implementar boa parte dos sonhos de democracia social de Allende – que era o que Kissinger mais temia. Hoje, quase toda a América Latina já é independente da política externa dos Estados Unidos e vai-se livrando de seu "vigilantismo". A pobreza foi reduzida quase à metade; as crianças vivem mais que cinco anos; os idosos aprendem a ler e a escrever. Esses avanços notáveis são invariavelmente relatados com má fé no ocidente e ignorados pelos “realistas”. O que em nada diminui o valor que têm como fonte de otimismo para o mundo, para nós todos.

John Pilger nasceu em Sydney, Austrália, em 1939. A carreira de Pilger como repórter começou em 1958; ao longo dos anos tornou-se famoso pelos artigos, livros e documentários que escreveu e/ou produziu. O seu jornalismo investigativo já mereceu vários prêmios, tais como a atribuição, por duas vezes, do prêmio de Britain’s Journalist of the Year Award na área dos dos Direitos Humanos. Trabalhou ainda como correspondente de guerra em vários conflitos, como na Guerra do Vietnam, no Camboja, no Egito, na Índia, em Bangladesh e em Biafra. Atualmente reside em Londres.

Utopia, o novo filme de John Pilger, será lançado no National Film Theatre de Londres no dia 3 de outubro e no circuito comercial em novembro.

17 de setembro de 2013

Terrorismo Financeiro

O que a mídia não lhe contou sobre a quebra do Lehmann Brothers.

Por Mike Whitney

A quebra do Lehmann Brothers em 15 de setembro de 2008 foi o maior incidente de terrorismo financeiro na história dos EUA. Quando o secretário do Tesouro, Henry Paulson, e o presidente do FED, Ben Bernanke, chamaram uma reunião de emergência com lideranças do Congresso em 18 de setembro de 2008, eles já haviam estabelecido uma estratégia de “quebrar o vidro em caso de emergência” para extorquir US 700 bilhões do governo dos EUA, para compensar as perdas de trilhões de dólares em bens “subprime” tóxicos, que estavam no centro do esquema predatório de empréstimos de Wall Street.

O plano era jogar com uma catástrofe financeira tão grande que os prepostos eleitos acabariam por concordar com as demandas de Wall Street, como foram apresentadas por Paulson, antigo CEO da Goldman Sachs. Para isso dar certo, Bernanke alertou os congressistas de que se eles se recusassem a cumprir com as extorsões que demandavam US 700 bilhões de “salva-vidas” sem nenhuma garantia de retorno, poderia “nem haver mais uma economia na segunda-feira”. Isso era uma mentira deslavada, com o intuito de coagir o Congresso. De fato, o Programa de Auxílio a Bens com Problemas (na sigla em inglês, TARP) só foi implementado um mês depois (14 de outubro). A economia ainda estava intacta, apesar de os mercados e os amigos de Bernanke em Wall Street terem sofrido perdas pesadas.

Naturalmente, essa análise se desvia da narrativa falsa apresentada na MSM, que colocava o comportamento de Paulson e Bernanke como altruístico e até mesmo “heroico”. Nada poderia estar mais longe da verdade. Os dois deliberadamente estouraram o centenário banco de investimentos para chantagear o Congresso e para conseguir ajuda financeira para os diversos bancos e instituições financeiras quebrados e insolventes que estavam na beira do precipício. Bernanke falou pessoalmente sobre as péssimas condições dos maiores emissores de empréstimos do país, em testemunho dado à Comissão de Investigação da Crise Financeira, em 2011. Eis aqui o que ele disse:
Como estudioso da Grande Depressão (de 1929), eu honestamente acredito que setembro e outubro de 2008 tenham sido a pior crise financeira da história mundial, incluindo a Grande Depressão. Se você olhar para as firmas que ficaram sob pressão naquele período... só uma... não estava com sérios riscos de falência... Então, de 13, 13 das mais importantes instituições financeiras dos EUA, 12 corriam sério risco de fecharem em um período de uma a duas semanas.
Elas estavam todas quebradas, de acordo com Bernanke. Todas, menos uma. Pior ainda, “12 corriam sério risco de fecharem em um período de uma a duas semanas”, então algo tinha que ser feito rapidamente, e é por isso que os dois estavam comprometidos em criar uma implosão grande o suficiente para assustar o Congresso.

Veja bem, nada disso era segredo. Havia mais de um ano que o banco francês BNP Paribas parou de liberar hipotecas asseguradas por imóveis difíceis de se avaliar, e que estavam perdendo seu valor de maneira constante. Isso acendeu luzes vermelhas em Wall Street e em mercados no mundo inteiro. O antigo diretor da PIMCO, Paul McCulley, mostra bem o que aconteceu no dia em que ele fez um discurso na 19th Annual Hyman Minsky Conference on the State of the U.S. and World Economies. Eis aqui um excerto de seu discurso:
Se você tiver que apontar um momento em que houve um colapso dos valores dos bens , foi no dia 9 de agosto (de 2007). E na verdade, não aconteceu aqui nos EUA. Aconteceu na França, quando o Banco Paribas (BNP) disse que não poderia determinar o valor dos bens das hipotecas tóxicas em três balancetes, e que, portanto, os proprietários, que achavam que poderiam sair a qualquer momento, estavam congelados. Eu me lembro do dia tão bem quanto do aniversário do meu filho. E isso acontece todo ano. Porque tudo começou nesse dia. De fato, foi naquele mesmo mês que eu cunhei o termo ‘sistema financeiro paralelo’ (shadow banking system), no simpósio anual do FED em Jackson Hole.
Foi apenas meu segundo ano lá. E eu estava maravilhado, e mais ouvi nos primeiros três dias. No fim... eu me levantei e (parafraseando) disse, ‘O que está acontecendo é bem simples. O sistema financeiro paralelo está dando um passeio e a única questão é com quem intensidade ele vai se retroalimentar enquanto seus bens e suas dívidas são colocados de volta no sistema bancário tradicional’. (Paul McCulley, 19th Annual Hyman Minsky Conference on the State of the U.S. and World Economies)
9 de agosto de 2007. Fim de jogo. Dali em diante, os preços de bens assegurados por hipotecas continuaram a cair, levando embora trilhões de dólares e jogando a maioria dos bancos de Wall Street no vermelho. Foi por isso que o FED começou a doar dinheiro por meio de sua janela de desconto, fossem os que recebiam regulamentados ou não, porque eles tinham que conter o sangramento e conter o passeio do sistema financeiro paralelo. Apesar dos esforços do FED, 12 das 13 maiores instituições financeiras do país estavam completamente quebradas “com risco de fecharem em um período de uma a duas semanas”. Foi por isso que Paulson e Bernanke resolveram jogar a Lehman aos leões, porque eles acharam que era a única forma de convencer o Congresso da necessidade do salva-vidas de U$ 700 bilhões. Estranhamente, o analista de finanças do New York Times, Joe Nocera, parece ter a opinião de que Paulson e Bernanke deveriam ser aplaudidos por sua iniciativa. Aqui está um trecho de um artigo de Nocera de 2009, um ano depois da quebra da Lehman.
Nos meses entre a Bear Stearns e a Lehman Brothers, o sr. Paulson e o sr. Bernanke abordaram congressistas falando sobre a necessidade de se aprovar uma legislação que desse a eles uma série de ferramentas que os ajudassem a lidar com uma crise de maiores proporções, caso houvesse alguma. Mas eles logo perceberam que simplesmente não havia vontade política suficiente para que qualquer coisa fosse feita. Depois do que aconteceu com a Lehman, no entanto, o sr. Paulson e o sr. Bernanke conseguiram convencer os congressistas a aprovarem uma lei que dava ao Departamento de Tesouro U$ 700 bilhões para servir de salva-vidas – que o sr. Paulson usou para auxiliar o sistema e amenizar os efeitos da crise. Mesmo naquela momento, não foi fácil; foram necessárias duas tentativas na Casa para se aprovar a lei. Essa é uma razão pela qual a queda da Lehman acabou sendo uma coisa boa. ("Lehman Had to Die So Global Finance Could Live”, The New York Times)
Então a queda da Lehman foi uma coisa “boa” porque abriu o caminho para o TARP? Não há nenhuma dúvida aqui sobre para quem Nocera jurou lealdade, certo?

Mas o que Nocera está dizendo? Ele está dizendo que Paulson não tinha nenhuma chance de submeter o Congresso às suas demandas absurdas a não ser que ele fosse ameaçado por um colapso de todo o sistema, uma crise na escala do 11 de setembro. Isso explica os motivos por trás das ações de Paulson. Aqui vai mais um pouco de Nocera:
Quase todo mundo com quem conversei no antigo Departamento do Tesouro de Hank Paulsen concorda que, sem o pânico imediato causado pela queda da Lehman, o governo nunca teria concordado em conceder os empréstimos que salvaram a AIG, uma empresa sobre o qual ele sabia muito pouco. De fato, a falência da Lehman fez o governo entrar em pânico, que, por sua vez, fez com que o governo salvasse as companhias que precisava mesmo salvar para prevenir uma catástrofe. Olhando para trás, se você tivesse que escolher uma empresa para jogar no fogo para salvar todas as outras, você escolheria a Lehman.” (Lehman Had to Die So Global Finance Could Live”, The New York Times)
Sim, Joe, “a falência da Lehman fez o governo entrar em pânico”, porque foi planejada para fazê-los entrar em pânico. Isso é chamado de terrorismo, terrorismo financeiro.

Nocera está sendo aqui propositalmente enganoso. O governo nunca concordou em emprestar dinheiro para a AIG. Como poderia? A AIG entrou em colapso um dia depois de a Lehman ter ido para o buraco, muito antes da aprovação do TARP. O FED autorizou o Federal Reserve Bank of New York a emprestar U$ 85 bilhões para a AIG sob a seção 13(3) do Federal Reserve Act. Em outras palavras, o FED invocou poderes emergenciais usando uma cláusula obscura (“incomum e exigente”) para salvar a AIG. Mas ele se recusou a fazer o mesmo pela Lehman um dia antes. Por quê?

E por que a Lehman não teve acesso à Janela de Descontos do FED ainda que esse fosse um programa planejado explicitamente para bancos em dificuldades, como a Lehman? E por que a Lehman foi impedida de ter sua controladoria assumida por um banco, apesar de a Morgan Stanley e a Goldman Sachs terem sido autorizadas a fazerem isso apenas seis dias antes? E por que os especuladores puderam devorar impunemente a Lehman, fazendo os preços de suas ações caírem 75% em uma semana, mas foram banidos quatro dias depois quando miraram na Goldman Sachs e Morgan Stanley? Dê uma olhada nesse pretensioso documento anunciando o banimento de especuladores em 19 de setembro de 2008:
SEC limita especulação de ações financeiras para proteger investidores e mercados

Washington, D.C., 19 de setembro de 2008 – A Comissão de Segurança e Câmbio, agindo em conjunto com a Autoridade de Serviços Financeiros do Reino Unido, adotou medidas emergenciais para proibir movimentações especulativas sobre empresas financeiras para proteger o mercado e garantir a confiança dos investidores. A FSA do Reino Unido adotou medida semelhante ontem. As ações se aplicam a 799 empresas de finanças e tem efeito imediato.

O presidente da SEC Christopher Cox disse, ‘a Comissão está comprometida em usar todas as armas, de todo o arsenal, para combater a manipulação dos mercados que ameaça os investidores e o mercado de capitais. A ordem de emergência, banindo temporariamente movimentações especulativas de títulos de empresas de finanças vai restabelecer o equilíbrio no mercado. Essa medida, que não seria necessária em um mercado que estivesse funcionando normalmente, é temporária, e parte de uma série de medidas que estão sendo tomadas pelo Federal Reserve, pelo Tesouro e pelo Congresso.
Isso deve te dar muita confiança nas nossas agências reguladoras, hein? Quatro dias depois de a Lehman ter enfrentado o pelotão de fuzilamento, todo mundo ganha um perdão. Legal. Nada de política nessa decisão!

Claro, houve uma oferta de compra da Lehman, feita pela Barclay’s, mas ela deu misteriosamente errado na última hora, quando reguladores do Reino Unido se recusaram a aprovar a compra. Pense nisso por um minuto. Nos pedem que acreditemos que reguladores britânicos “anônimos” melaram um negócio que manteria o crash do mercado de ações e amenizaria a crise financeira que, de acordo com o Federal Reserve de Dallas, custou cerca de U$ 14 trilhões? Você acha isso meio difícil de acreditar? Eu acho.

O negócio melou porque Paulson o sabotou, foi isso. Assim como o negócio com o Bank of America (e Lehman) melou. De fato, o CEO do Bank of America nem atendia os telefonemas de Dick Fuld (CEO da Lehman) no fim de semana da falência. Por quê? Porque já estava tudo arranjado. Paulson queria seu próprio 11 de setembro, e ele conseguiu.

Paulson tem defendido sua decisão de deixar a Lehman quebrar dizendo que nem ele nem Bernanke tinham autoridade legal para salvar a Lehman, mesmo tendo feito isso pela Bear Stearns meses antes, em condições muito semelhantes. Mesmo tendo salvado a AIG no DIA SEGUINTE em condições muito semelhantes (usando poderes emergenciais). Mesmo que, de acordo com o New York Times, o Tesouro tinha U$ 50 bilhões em caixa em um fundo de estabilização que poderiam ter sido usados com um estalar de dedos. Mesmo que o FED estivesse jogando dinheiro para todo lado que nem um maluco, despejando trilhões nas empresas que emprestaram dinheiro e comprometendo U$ 330 bilhões em transações com o Bank of Canada, o Bank of England, o Bank of Japan, o Danmarks Nationalbank, ECB, Norges Bank, Reserve Bank of Australia, Sveriges Riksbank, e Swiss National Bank. Transações que hoje chegam a U$ 620 bilhões.

Você acredita? O FED estava jogando dinheiro para bancos estrangeiros enquanto fingia que não tinha como salvar a Lehamn! Que piada! E, como dissemos antes, o FED usou seus poderes emergenciais – os quais ele concedeu para si mesmo, por sinal – para salvar a AIG no dia seguinte (ainda assim, nenhuma das recapitulações na MSM sobre o incidente da Lehman foi contra as afirmações de Paulson de que ele não tinha autoridade legal).

Agora dê uma olhada nesse trecho de uma entrevista que Paulson deu para a Bloomberg:
Eu me lembro de ter acordado bem cedo na manhã de 15 de setembro em Nova York, olhar para fora da janela e ver as pessoas indo para o trabalho... as vidas dessas pessoas estava prestes a mudar dramaticamente. 
A Lehamn intensificou a crise – foi um sintoma, não a causa. Eu não compartilho da ‘teoria do dominó’ no que diz respeito à Lehman. Meu antigo colega Ed Lazear tinha uma frase que era muito adequada: a crise era como uma máquina de pipoca gigante, aquecendo os grãos há anos. A Lehman foi a primeira pipoca a estourar, mas sabíamos naquele final de semana que as próximas pipocas seriam a Merrill Lynch e a AIG, além de várias outras nos EUA, e a Europa não estava muito atrás.
Ok, então Paulson confirma nossa teoria de que os bancos estavam quebrados. Bom. Aqui está mais um pouco de Paulson:
Aquela semana foi diferente de todas as outras semanas da minha vida. Estávamos lidando com múltiplos problemas – a necessidade de prevenir a quebra da AIG, a provável quebra de outras instituições financeiras, a necessidade de prevenir a implosão de dos mercados de fundos de investimentos e a necessidade de ir ao Congresso pedir ações emergenciais. 
Nós ficamos a semana toda trabalhando em como pediríamos ao Congresso o que precisávamos. No coração da coisa estava a necessidade de comprar ativos sem liquidez das instituições financeiras. Estávamos falando de centenas de bilhões de dólares. 
Na quinta-feira de noite, 18 de setembro, quando Bem Bernanke e eu nos encontramos com os líderes do Congresso. Até então, muitos deles ainda não tinham visto a crise financeira. Eles ainda não tinham sentido a coisa. Ben e eu mostramos um cenário em que o sistema financeiro estava congelado. Os bancos não emprestavam dinheiro uns aos outros. O crédito não fluía normalmente. (Bloomberg)
É aqui que a coisa fica interessante. No dia anterior ao colapso da Lehman, ou seja, 14 de setembro, a Associação de Comércio e Derivados Internacionais (ISDA) ofereceu uma sessão extraordinária para permitir aos participantes do mercado equilibrar suas posições em vários derivados com a condição da bancarrota da Lehman já no dia seguinte.” (Wikipedia)

Bem conveniente, hein? Então vários dos bancos que sofreriam perdas catastróficas por negócios que iriam para o brejo puderam retirar suas apostas no dia anterior à erupção do vulcão. Não parece que os responsáveis já sabiam como o negócio ia acontecer?

De fato. E a afirmação de Paulson de que “Ben e eu mostramos um cenário em que o sistema financeiro estava congelado. Os bancos não emprestavam dinheiro uns aos outros. O crédito não fluía normalmente.”

É, estava congelado, porque Bernanke estava congelando... de propósito! O presidente do FED começou a drenar bilhões de dólares em liquidez do sistema para aumentar a tensão de empréstimos entre bancos e pressionar o Libor para cima (alguns blogs de economia estavam monitorando a situação de perto, se perguntando que diabos Bernanke estava fazendo). Bernanke e Paulson estavam exacerbando a crise para pressionar o Congresso. Até a encrenca no mercado de financiamentos de curto prazo. De acordo com o economista Dean Baker, “Se o mercado de financiamentos de curto prazo fechasse, a maioria das corporações não conseguiria pagar sua folhas de pagamento ou suas contas”. O mais engraçado é que o FED teria como resolver o problema antes mesmo do TARP. De fato, Bernanke estava usando toda a liquidez dos financiamentos de curto prazo para jogar mais lenha na fogueira e obrigar o

Congresso a ceder. Baker resume o papel deprimente de Bernanke em um artigo intitulado “Bem Bernanke: servo de Wall Street”:
Ben Bernanke deliberadamente enganou o Congresso para fazer o Troubled Asset Relief Program (TARP) ser aprovado. Ele disse para os congressistas que o mercado de financiamentos de curto prazo estava entrando em colapso, evidenciando a perspectiva de que a maioria das corporações nos EUA não teria crédito de curto prazo suficiente para honrar suas folhas de pagamentos e outras contas. Bernanke omitiu propositalmente que ele poderia sozinho manter o mercado de financiamentos de curto prazo funcionando montando uma linha de crédito do FED especialmente para isso. Ele anunciou um sistema para facilitar a concessão de crédito para financiamentos de curto prazo no fim de semana posterior à aprovação do TARP pelo Congresso. (“Ben Bernanke; Wall Street’s Servant”, Dean Baker, Industry News)
Baker makes a pretty damning accusation here, but is he right, was Bernanke really exacerbating the troubles in the commercial paper market to twist congress’s arm?

Uma olhada rápida na “linha do tempo da crise” do FED de Saint Louis nos diz tudo que precisamos saber. Em 3 de outubro de 2008, o Congresso aprovou o Ato de Estabilização Econômica Emergencial, que estabelecia que o TARP teria U$ 700 bilhões. Quatro dias depois, dia 7 de outubro de 2008, o FED anunciou a criação de um Fundo de Facilitação do Financiamento de Curto Prazo (CPFF), “que vai proporcionar um suporte de liquidez para fornecedores de financiamentos de curto prazo americanos...” Duas semanas depois disso, 21 de outubro de 2008, Bernanke lançou o Fundo de Facilitação de Investidores do Mercado de Dinheiro para comprar “certificados em dólar de depósitos e financiamentos de curto prazo”, que aliviaria a tensão nos mercados de dinheiro.

Parece que Baker está certo no fim das contas; foi tudo uma montagem para chantagear o Congresso. Bernanke usou os problemas nesses mercados para intensificar a crise e forçar o Congresso a assinar a entrega do saque. Então – assim que o TARP foi aprovado – ele diminuiu a pressão e parou todo o sistema financeiro com aproximadamente U$ 14 trilhões em empréstimos e outros compromissos. Se isso não é terrorismo financeiro, o que seria? 


Nota:

Max Kaiser foi quem cunhou o termo terrorismo financeiro.

Mike Whitney vive no estado de Washington. Ele é coautor de Hopeless: Barack Obama and the Politics of Illusion (AK Press). Seu e-mail é fergiewhitney@msn.com. Artigo publicado em Counter Punch.

13 de setembro de 2013

Cypherpunks: Liberdade e o futuro da Internet

Marienna Pope-Weidemann avalia o "estado de vigilância transnacional" e o quanto as próprias perspectivas dos cypherpunks são úteis para a defesa de nossas liberdades civis

Marienna Pope-Weidemann


"A internet, nossa maior ferramenta de emancipação, está sendo transformada no mais perigoso facilitador de totalitarismo que já vimos" 
- Julian Assange

Um grito de vigia durante a noite

Desde que o infame programa de vigilância PRISM foi exposto por Edward Snowden, analista da CIA, já ninguém duvida da existência do que os cypherpunks chamam há muito tempo de “estado transnacional de vigilância”. O que era visto como conspiracional já é realidade, e a paranoia tornou-se a primeira e básica urgência para todo o jornalismo investigativo. Cypherpunks: Liberdade e o Futuro da Internet, lançado ano passado, se autoapresenta como “um grito do homem de guarda, na noite”. É boa descrição, se se considera tudo que aprendemos recentemente. O que o livro tenta trazer para a nossa discussão interna é a imensa importância da internet como novo campo de batalha político: o modo como é estruturada, monitorada e usada tem sérias ramificações para a organização política, econômica, para a educação, o trabalho, a cultura e para quase todas as demais áreas de nossa vida, porque cada vez mais o mundo deles é o nosso mundo. E, se conhecimento é poder, e jamais esteve em todos os lugares como hoje está no ciberespaço, muito está em jogo.

Quem são os cypherpunks?

Começando por um círculo de libertaristas californianos, a lista de distribuição de e-mails dos cypherpunk originais começou no final dos anos 1980s, de indivíduos e ativistas e também de empresas, quando começavam a fazer uso da criptografia e, em resposta, começavam a ser introduzidas proibições legais (p.64). Para os cypherpunks, usar criptografia para assegurar anonimato e comunicação protegida era a única e mais importante arma para ativistas na era da Internet.

O mote então, para arregimentar, era “privacidade para os fracos, transparência para os poderosos” – mote ao qual WikiLeaks se dedicou. Nos termos do livro, a evolução subsequente da internet tomou direção oposta: cidadãos, ativistas políticos ou não, respeitadores da lei e não, todos perderam completamente o direito à privacidade; e os poderosos cada vez mais se esconderam por trás de uma cortina de leis secretas e procedimentos extrajudiciais.

Cypherpunks, o livro, é produção coletiva de quatro autores, três dos quais são figuras chaves no movimento cypherpunk. Em primeiro lugar Julian Assange, que a cada dia que passa mais dispensa apresentações (já há dois filmes sobre sua figura problemática: um filme australiano de produção independente, Underground, e outro, desastre de bilheteria e carregado de erros e distorções, que leva o título de We Steal Secrets [Nós roubamos segredos]).

Assange é hacker desde os 17 anos, quando fundou o grupo australiano “International Subversives”, e propôs as primeiras regras dessa subcultura: “Não danifique os sistemas de computador que você invada (mesmo que os quebre); não altere a informação que encontrar nos sistemas (exceto para alterar os logs necessários para encobrir as suas pegadas); e partilhe a informação”.

Além de Assange, temos o jornalista alemão Andy Müller-Maguhn do Chaos Computer Club, cofundador de European Digital Rights e colaborador da revista e blog Bugged Planet [Planeta Bichado]. Jacob Appelbaum, também membro do Chaos Computer Club, é o desenvolvedor que fundou Noisebridge (“Ensinamos, aprendemos, compartilhamos”), premiado hacker-espaço para finalidades educativas em San Francisco e militante internacional a favor do Tor Project. Por fim, temos o cofundador do grupo militante La Quadrature du Net [A quadratura (fr.) da rede (ing.)], Jérémie Zimmerman, figura destacada nas lutas pela neutralidade da rede e contra o acordo ACTA [orig. Anti-Counterfeit and Trade Agreement, “Lei Anti-Pirataria”], que já não consegue entrar num avião sem ser acossado por policiais, por causa de suas ligações com WikiLeaks.

O estado de vigilância

A vigilância estratégica, ou vigilância total, que se objetiva em programas como o PRISM, coletam indiscriminadamente as comunicações de todos para todos, todo o tempo. Dados o rápido desenvolvimento e o preço sempre decrescente do armazenamento de dados, ele se converteu em opção mais “econômica” tanto para empresas como para governos e estados. É como “ter um tanque no seu quarto de dormir. É um soldado entre sua esposa e você, cada vez que você usa o SMS. Vivemos todos sob lei marcial, no que tenha a ver com nossas comunicações. Não vemos os tanques – mas eles estão sempre ali” (p.33).

As ramificações desse tipo de vigilância logo se tornam cada vez mais claras, quando se vê que quem coleta as informações é o setor privado, muitas vezes, mas nem sempre, a serviço do governo. “O negócio da empresa Facebook é apagar a linha que separa o privado, os amigos e a publicidade” (p.52). Quando a polícia secreta alemã queria informação, tinha de comprar; quando agências de publicidade e empresas de Relações Públicas queriam informação tinham de subornar as pessoas, o que fazem através de “focus groups”; mas a empresa Facebook, como escreveu Jérémie, consegue tudo isso remunerando as pessoas com “crédito social” em vez de dinheiro. E funciona 24 horas por dia, sete dias por semana.

No nível internacional, o que hoje se está convertendo em comércio global e completamente desregulado nas telecomunicações já fez desaparecer, de fato, qualquer noção de soberania nacional. Por isso os chineses estão doando sistemas inteiros de infraestrutura de internet por fibra ótica a nações africanas. Não é preciso vender; são recompensados em dados, “a nova moeda” (p.49). E porque os maiores provedores de internet (e, portanto, dos dados que passam por suas máquinas) são todos norte-americanos e grande parte da tecnologia que os torna possíveis é protegida por direitos de propriedade intelectual, a vantagem fica toda a favor dos imperialistas. Tanto pode ser feito como espionagem direta, como em Londres, nas conversas do G-20 de 2009, como pode ser feito mediante projetos de empresas privadas como o PRISM. “Se Putin compra um refrigerante e paga com cartão de crédito, 30 segundos depois Washington já sabe” (p.89).

Como comerciantes de armas, os comerciantes de telecomunicações vendem basicamente a qualquer um que compre – como se viu no caso da empresa francesa Amesys, que vendeu seu sistema de vigilância sobre todo o país, “Eagle”, à Líbia de Gaddafi.

Comentário-intervenção do Gato Filósofo da Vila Vudu, o cético, para o qual quem descobriu a América foi a política, não o astrolábio, e que apitou o toque de “PAUSA PARA MEDITAÇÃO” a nós todos, seus seguidores não críticos que vivemos para servi-lo, e disse: "Só até aqui, nos parágrafos acima, já há nesse argumento DUAS INFORMAÇÕES que se desatualizaram dramaticamente nos últimos tempos: número 1: o plano de Putin (ou, talvez, o seu escudo antimísseis norte-americanos lançados contra a Síria, ainda não se sabe com certeza), que destronou Obama do trono universal e pôs a Rússia, não os EUA, pode-se dizer, on the table não foi detectado em Washington; Washington comprô porque quis. Número 2: o tal sistema de vigilância pressuposto invencível não ajudou Gaddafi e nem Gaddafi queria comprar a coisa. Gaddafi sempre preferiu o Livro Verde, no que fazia muito bem. Comprô porque o filho neoliberal dele mandô comprar. Vamvê o que virá pela frente. Segue o bonde.

Mas mesmo que você venda para “países do mal” e “entregue a eles equipamento de vigilância para fazer “o mal”, mesmo assim o vendedor se beneficia porque você saberá o que interessa a eles ouvir, o que temem, o que o povo considera mais importante para que você possa produzir “fatos” para derrubar o governo, organizar eventos políticos etc. Você passa a poder prever eventos futuros (...)” (p. 46). O grande salto seguinte, prevê Assange, será a automação das respostas (bloqueio de contas bancárias, deslocamento de militares ou da polícia etc., no instante em que se detectem “palavras flash” nas comunicações privadas). A Siemens já está desenhando esse programa, para vender às agências de inteligência.

Censura sistemática

Como Assange ilustra com sua “pirâmide da censura” (adiante), a combinação de censura coerciva e econômica criou um sistema total que trabalha perpetuamente para editar a história.

Os autores de Cypherpunk sabem muito sobre censura coerciva. WikiLeaks enfrentou e ainda enfrenta violenta barreira de ataques pelo flanco legal e pelo flanco político. Jacob fala das inúmeras vezes que foi detido por agentes do FBI e da Imigração, quase sempre em países de direitos legais laxos. Teve equipamento confiscado, foi impedido de servir-se de advogados e de privadas enquanto era interrogado sobre sua posição na Guerra do Iraque, e recebeu explicações sobre o modo como era tratado, do tipo: “você trabalha no Projeto Tor” e “você estava sentado ao lado de Julian; queria ser tratado como?” (pp.114-15).

Todas as demais camadas de censura são naturalizadas como parte de um mercado de “mídia livre”. Contudo, o fato de que sejam menos aparentes só os torna mecanismos mais efetivos de controle. Em vez de jornalistas serem sequestrados de suas casas no meio da noite, “os jornalistas são arrancados de casa, porque eles arrancam a casa, dos jornalistas” (p.124).

O anonimato online e o acesso universal à internet, pelo menos em nações industrializadas, prometeram anular ou, pelo menos, minar, essa capacidade para censurar. Jérémie introduz o excelente conceito de “tempo internet”.

Na imprensa-empresa, a narrativa política depende não da razão, mas da emoção, e o tempo da empresa-imprensa é extremamente curto – a informação aparece e 24 horas depois some para sempre, substituída por nova informação... Como a grande internet nunca esquece, é possível construir casos e dossiês ao longo de anos, dia a dia, que se podem elaborar e analisar” (p.73). Para indivíduos, foi direito novo e vital, ter uma voz política anônima, não só na urna eleitoral, mas também online. Falar livremente – e gratuitamente – e ter sua contribuição julgada diretamente e democraticamente, por uma audiência online internacional: isso teria sido uma bela coisa. Mas pergunte a um morador dos EUA [2] o que a total cibervigilância faz àquela voz: gera grau arrepiante de autocensura; e não só na mídia, mas em toda a população.

“Mas e quanto às pessoas do mal”?

Pornografia infantil, terrorismo, lavagem de dinheiro e a “Guerra a Algumas Drogas”: eis os cavalos de batalha dos que vivem de pregar vigilância cada vez maior e centralização de nossa vida online e querem impedir a legalização de qualquer programa que vise a proteger a privacidade. Os Cypherpunks chamam-nos de (título um tanto controvertido) “os Quatro Cavaleiros do Info-pocalipse” (p. 43). O dano supostamente feito à “inovação criativa” (codinome dos obscenos lucros auferidos pelas empresas da indústria do entretenimento) pelo compartilhamento usuário-a-usuário de arquivos (ou “pirataria”) é um quinto cavaleiro do Info-pocalipse, correndo já quase empatado, ao lado dos demais.

Essas são questões mais emocionais que racionais, que são cinicamente manipuladas para obter leis cada vez mais repressivas. Ante campanhas cada vez mais eloquentes e mais amplas a favor da liberdade de manifestação para todos, liberdade na internet e direitos civis respeitados, a resposta que sempre vem é uma citação vazada de um documento interno da Comissão Europeia: “falar cada vez mais sobre pornografia infantil, até que as pessoas se tornem favoráveis às novas leis” (p.125) [3]. A verdade, contudo, e que esses são casos para vigilância tática, e não exigem nada além disso.

Antes da Internet, a pornografia infantil era reproduzida com câmeras Polaroid. Ninguém jamais advogou a destruição da fotografia como mídia. E a total vigilância estratégica online é perfeito equivalente disso.

A falácia da total vigilância foi perfeitamente ilustrada em história contada por Jacob Appelbaum, de uma sessão de discussão de ciência da computação sobre Tor na Tunísia, pouco depois da derrubada do regime de Ben Ali. Uma aluna, citando os Quatro Cavaleiros”, perguntou: “Mas e quando às pessoas do mal?”. A resposta de Applebaum merece ser reproduzida na íntegra:

Perguntei à classe: “Quem de vocês já viu a página Ammar 404”, que é a página de censura que o regime Ben Ali usava antes e durante a revolução, para bloquear acessos. Todos, exceto a pessoa que perguntara, e inclusive o professor levantaram a mão. Então, perguntei à aluna que falara: “Veja, são todos, à sua volta. Seus colegas de classe. Você acha que o regime ganhou alguma coisa com oprimir todos os que estão nessa sala, para combater “as pessoas do mal?” E ela disse: “Também tenho de levantar a mão”. (p.70).

Li e senti um calafrio. Vieram-me à cabeça palavras de Rosa Luxemburgo: “quem não anda não pode ver as próprias cadeias”.

Perigosa pelo design: os limites da supervisão democrática

Cypherpunks levanta outro ponto muito importante: muitos de nós não têm ideia de como funcionam os computadores. Não conseguiríamos distinguir um componente de laptop e um componente de satélite, ou um microfone Dell de um microfone da NSA (Agência Nacional de Segurança). E a maioria de nós não tem nem tempo nem incentivo para nos educar nessa matéria. O que obriga a reconhecer que empenhamos imensa quantidade de fé num sistema que, comprovadamente, é viciado em sigilo e controle.

“O novo mundo da Internet, abstraído do velho mundo dos átomos brutos, ansiava por independência. Mas os estados e seus amigos moveram-se para controlar nosso novo mundo – mediante o controle dos suportes físicos” (p.3). Assim, há dois lados na Internet. Um é virtual: as ideias, sons e imagens voando pelo ciberespaço. Mas o outro é objetivo; ao mesmo tempo mecânico e enraizado numa realidade social-institucional complexa determinada pela mineração, pelas telecomunicações e por corpos jurídicos que operam juntos para fazer a coisa funcionar. O aspecto tangível da Internet reflete esses interesses consagrados nela.

Componentes de computadores não são desenhados para serem compreendidos: vêm em caixas invioláveis, são difíceis de alterar e de adaptar. Isso tem consequências políticas, porque, como os autores destacam, quando não se compreendem aqueles sistemas, não nos resta outra escolha senão aceitar a autoridade da empresa.

Não se pode vencer, por exemplo, contra as tecnologias do telefone celular. Atualmente, o modo como esses sistemas estão formatados, não só em termos de contas, mas em termos da própria arquitetura, implica que não oferecem privacidade de localização, não oferecem privacidade de conteúdo (...) Um telefone celular é um aparelho para rastreamento, que também faz chamadas telefônicas (pp.48-9).

Uma vez que aqueles componentes são perigosos pelo design, eles impõem limites reais ao que se pode obter por campanhas por supervisão democrática. Isso não implica que as campanhas políticas não façam qualquer diferença. O movimento contra o ACTA (Lei Anti-Pirataria) é bom exemplo. Houve uma grande campanha que se generalizou depressa: uma obscura peça de legislação de comércio internacional altamente especializada e complexa, desmistificada para o público e efetivamente usada para mobilizar uma oposição internacional militante em todo o mundo. Na Índia, os militantes tomaram as ruas para proteger suas colheitas contra os golpes de propriedade intelectual da Monsanto.

O que galvanizou os jovens manifestantes no ocidente foi a ameaça contra o compartilhamento de arquivos usuário-para-usuário. Sentiram que um poder real, um direito de duplicar material cultural e educacional que melhorava a vida, estava sendo ameaçado. E lutamos contra e vencemos: a Lei Anti-Pirataria foi derrubada na Europa; e sua contraparte nos EUA, o acordo SOPA, também foi derrotado.

Mas era só uma das cabeças da hidra: cortada ela, outras nasciam.

WikiLeaks recebeu e divulgou um novo acordo de livre comércio União Europeia-Índia, no qual se haviam incorporado grandes trechos do ACTA (...) Eles abririam caminho, como vermes, para dentro da ordem mundial, sob a forma de todos aqueles tratados bilaterais. Quer dizer: pode-se obter vitórias democráticas que acontecem em público, sobre a superfície; e por baixo as coisas acabam por acontecer de qualquer modo... Mas nem por isso se pode deixar o caminho desimpedido para os adversários, porque se fizermos isso eles aceleram (pp.74-5).

As campanhas políticas portanto têm seu lugar: ganha-se tempo, aumenta a consciência e novas pessoas se engajam no processo político. Tudo isso tem poder, e os cypherpunks fazem bem ao lembrar.

A visão versus o mercado

Benjamin Bayart disse que “a imprensa impressa ensinou as pessoas a ler; a internet ensinou as pessoas a escrever”. É verdade, e é coisa incrível. A imprensa impressa teve impacto revolucionário na sociedade, e o tipo de interação facilitada pela Internet pode ser ainda mais revolucionária porque é dialética; você pode não apenas receber ideias: você pode discutir com elas. Assim se abrem os portões para níveis potenciais de participação e democracia deliberativa que sempre nos disseram que seriam impossíveis em escala maior que as dimensões de uma vila ou dos fóruns atenienses de tempos remotos.

E se podemos nos “logar” e conectar com gente com as quais temos afinidades do Egito ao Tibete, a partir da sala de casa, estamos, em sentido muito real, menos atomizados e alienados do que antes – ou, pelo menos, podemos estar menos atomizados e alienados, ou não somos obrigados a estar atomizados e alienados uns dos outros. A observação esperta é que os que estão no poder só fazem falar sobre ciberguerra, jamais falam sobre ciberconstrução da paz. E há uma razão para isso: “Eles veem a Internet como uma doença que afeta a habilidade deles para definir a realidade” (p.32). O potencial está aí, para sintetizar culturas diversas, para nos educar uns os outros, para partilhar experiência e colaborar para redefinir, nós mesmos e para nós a nossa experiência. Os trabalhadores do mundo têm melhor chance de se unirem via cabos de fibra ótica, do que tiveram via pombos-correios. Um pensamento estimulante.

A visão-guia está aí: descentralização dos serviços, provedores locais, usuários que possam hospedar independentemente e capazes de encriptar os próprios dados, programas de fonte aberta, livre, que possam ser compreendidos e adaptados. Nesse caso, qual é o obstáculo? “É barato demais e fácil demais escapar da transparência política e realmente interceptar dados (...) É verdade para a maioria dos países – e está acontecendo interceptação em massa. E quando aparece projeto de lei, é para proteger a retaguarda dos que estão interceptando” (p.43).

A maior fragilidade do livro Cypherpunks é que o livro não persegue essa ideia até a conclusão natural. Os autores nada dizem sobre o capitalismo ou o livre mercado. E esses são os agentes que ameaçam converter uma força potencialmente muito progressista, em força reacionária.

A padronização do controle de conteúdos e o sistema de pagamentos, a centralização dos servidores que facilita a vigilância em massa, tudo isso é inevitável, enquanto essas coisas permanecerem como propriedade de monopólios corporativos para os quais tudo se resume a uma conta de custo-benefício. É mais barato detonar todas as liberdades civis. A importância decisiva da margem de lucro também cria uma tendência óbvia na direção de cada dia mais censura, como se lê em Cypherpunks: "Se você escreve uma carta a alguém e “exige” que retirem alguma coisa da Internet, eles têm de retirar (...) É muito caro para um provedor de serviços de Internet enfrentar o contraditório; eles retiram imediatamente" (p.74).

Em alguns pontos do livro, a velha ideia libertarista [à Tea Party, sem o racismo do Tea Party (NTs)], segundo a qual os aspectos mais feios do mercado serão, de algum modo, “varridos” pela mão invisível do mercado, aparece à superfície. Haverá um mercado na total privacidade, sobretudo agora; e, com o tempo, uma tendência econômica para satisfazer aquela demanda. Não importa o fato de que tais produtos tenham de ser comprados, e os bons serão caros, o que tornará a coisa muito difícil para os revolucionários tunisianos de Jacob. Nenhum incentivo de mercado jamais protegerá alguém contra organizações tão poderosas quanto a Agência de Segurança Nacional dos EUA ou o serviço secreto britânico.

A “mercabilidade da privacidade” e a vantagem econômica que advenha da reputação de proteger os usuários não protegeram os dados dos usuários de Twitter na Arábia Saudita, nem protegeram WikiLeaks em nenhum tribunal federal nos EUA. Quando se trata de choque de interesses entre usuários individuais e o big business, para nem falar do choque contra governos, o big business sempre vencerá, porque ultrajar o outro lado sempre sairá mais barato para eles. Vivemos numa sociedade de classes, afinal de contas – também no ciberespaço.

Crítica

Esses elementos que limitam nossa capacidade de lutar contra a vigilância – seja pela via que os cypherpunks chamam de “leis do homem” (legislação), seja pelas “leis da física” (redesenhando as máquinas, usando encriptação, etc.) – são, todos eles, reforçados pelo mercado. “Se é fato que é mais fácil usar o Twitter que empreender e criar sua própria empresa Twitter; se é fato que é mais fácil usar o Facebook que DIASPORA ou alguma alternativa; se é fato que a computação em nuvem é mais barata, então essas técnicas e serviços serão dominantes” (p.79). Está tudo muito bem, se você estiver trabalhando com a mais recente tecnologia de encriptação numa base secreta de WikiLeaks, ou na redação do Guardian. Mas se se quer preservar o alento, a diversidade e o potencial democrático da Internet, nesse caso é preciso pensar em como a maioria da população do mundo interage com ela. E essa batalha é política, não é técnica.

Trata-se da massa de pessoas comuns cujas comunicações já não são seguras; cujos pensamentos e sentimentos as empresas estão capturando, na melhor das hipóteses para convertê-las em dinheiro; cujas políticas os lobbies de Relações Públicas e agências de publicidade estão investigando, na melhor das hipóteses para que sirvam para embalar falsas promessas da próxima leva de candidatos a serem eleitos pela “mídia” [jornais, televisões, rádios, igrejas comerciais, jornalistas, “bispos” & “bispas” midiáticos, “ecológicos” de araque etc (NTs)]. E apesar da nascente consciência que se viu na campanha contra a Lei Anti-Pirataria e outras semelhantes, ainda há um vácuo imenso que terá de ser suprido, porque ainda são muitos os usuários militantes que ainda não estão real e profundamente conscientes de o quanto um desequilíbrio de poder invasivo e opressivo lhes está sendo imposto online.

Infelizmente, a Internet não é reino mágico onde todos os problemas que atormentam nossos esforços para nos organizar nas ruas – questões de teoria, de doutrinação, de apatia, de ausência de pensamento político autônomo claro – já não se aplicariam.

Fato é que não podemos, todos, ser cypherpunks. Esse tipo de abordagem tecnocrática é outro exemplo de o quanto tristemente estreita pode ser a chamada “abordagem horizontalista”, que tem uma queda contraproducente a favor das tradições liberais-libertaristas e tecno-anarquistas. Além do mais, dizer que “o movimento usuário-a-usuário [P2P] é explicitamente contra uma vanguarda política” (p.83) parece conceito ainda mal pensado, saído de um grupo de profissionais que se engaja na ação política armado de saberes de criptografia (e que, seja como for, ainda não dá sinais de compreender o que seja uma vanguarda política).

Há aqui outro perigo: fetichizar o tipo de ativismo que fica confinado à atividade online ou que dependa existencialmente da clandestinidade. Trocar os nome, de “Primavera Árabe” para “primavera da Internet” é só uma parte da história. Ninguém morre sob balas da polícia, por manifestar-se por Facebook. De fato, a decisão de Mubarak, de cortar a Internet no Egito, teve consequências dramáticas, sim, porque galvanizou o movimento e forçou as pessoas a ir às ruas e tomar a Praça Tahrir, para saber o que estava acontecendo. E ali, afinal, acontecia a verdadeira resistência.

Não é verdade que “a criptografia é a forma radical de ação direta” (p.75). É ferramenta útil, não há dúvida – mas nada além disso, porque é atividade privada, por definição; e o poder da ação direta advém de seu potencial para criar exemplo público, e de, por isso, disseminar-se.

A menos que seja empregada para os objetivos do jornalismo investigativo, para alcançar material protegido por sigilo que pertença à esfera pública e devolvê-lo à esfera pública, a criptografia nada faz para esclarecer a consciência política da população em geral. Não se pode adiar eternamente uma confrontação pública. “Segredo e complexidade é mistura tóxica” (p.44) dizem eles, e estão certos – mas é verdade que se aplica aos cypherpunks tanto quanto à Agência de Segurança Nacional dos EUA.

É pena, e também é perigoso, que a luta contra a centralização, as empresas e a vigilância da Internet tenha sido monopolizada, ou seja considerada província de controversas redes sem rosto de “hack-ativistas” que ainda nem começaram a construir pontes com o movimento político mais amplo. Cypherpunks não dá qualquer atenção à falta que fazem essas pontes. Muitos dos argumentos que alinham são crucialmente importantes; muitos dos casos que têm a contar são poderosamente explosivos; a utilidade que o livro têm para quem se interesse em tudo que vá de liberdade de imprensa efetiva ao compartilhamento de arquivos, é inegável. Mesmo assim, apesar do apoio que recebeu de nomes como John Pilger, Slavoj Žižek e Oliver Stone, o livro é excessivamente carregado de terminologia técnica e tem estrutura confusa: formatado como discussão por mensagens de internet entre seus autores, é frustrantemente descosturado e muito menos eficaz do que poderia tentar ser.

A introdução começa por declarar que “Esse livro não é um manifesto. Não há tempo para manifestos” (p.1). Pois grande falta nos faz um manifesto claro! E a falta dele mais desperdiça tempo, que economiza.

Com a vigilância total já uma realidade global, e o verdadeiro potencial da Internet já escapando entre nossos dedos, é preciso que os cypherpunks e os hackers popularizem sua mensagem, habituem-se a ver com seriedade a organização política e comecem a construir pontes com os nossos movimentos e as nossas lutas. Aproxima-se a hora de fazer a batalha pela Internet às claras, à luz do dia. Eles são bons com códigos e números, e provavelmente podem proteger bem a privacidade deles. Mas para proteger a Internet deles, eles precisarão de nós. E, de qualquer modo, é a nossa Internet também.