30 de novembro de 2013

Desaparecendo atos

Terry Eagleton

London Review of Books

Denys Turner. Thomas Aquinas: A Portrait. Yale: Yale University Press, 2013.

Nascido em 1225 ou perto disso, em Aquino, pequena cidade do sul da Itália, Tomás de Aquino frequentou a Universidade de Nápoles e, ainda na cidade, integrou-se à Ordem dos Dominicanos. Viajou então para o norte, para prosseguir seus estudos com Alberto, O Grande - também Dominicano - em Paris e Colônia. Foi nomeado palestrante e depois professor da Universidade de Paris e voltou a Nápoles para organizar ali a casa de estudos dos Dominicanos. Morreu em 1274, em viagem para Roma onde participaria do Segundo Concílio de Lion, mas bateu a cabeça num galho baixo de árvore e morreu. Foi canonizado 50 anos depois.

O curso plácido da vida de Aquino contrasta fortemente com a magnificência de suas realizações. Esse frade taciturno, de cuja personalidade notável sabe-se muito pouco, está entre os maiores teólogos, só comparável a São Paulo e a Santo Agostinho. Das suas publicações, a pedra central é a assustadoramente grande Summa Theologiae. No seu estilo seco, ríspido, contido, esse formidável compêndio de teologia, metafísica, ética e psicologia vai desde as celebradas demonstrações, por Tomás, da existência de Deus, à vida moral, Cristo e os sacramentos. Hoje, a Summa é parte considerável dos fundamentos intelectuais da Igreja Católica Romana, embora jamais tenha gozado de tal prestígio, em seu tempo. Representava então apenas uma dentre várias escolas medievais escolásticas e em vários momentos foi objeto de muita controvérsia.

Para desconsolo de alguns padres tradicionais, Tomás de Aquino estava convencido de que o pensamento do pagão Aristóteles oferecia os recursos filosoficamente mais valiosos para expor a fé cristã, e foi por essa poderosa síntese, sobretudo, que Aquino conquistou seu lugar entre os imortais da filosofia. O conflito em torno de Aristóteles foi particularmente feroz na Universidade de Paris, onde muitos colegas de Tomás de Aquino abraçaram as doutrinas de Agostinho e do neoplatonismo, e consideravam o pensamento de Aristóteles incompatível com o cristianismo. O que Aquino fazia então era guerra por palavras, embora ninguém jamais suspeitasse, se considerado o estilo sem crispações, sempre em tom menor.

Como Marx, Tomás de Aquino também mergulhou num caldeirão fervente, contra a autoridade, por ser materialista. Não que insistisse na ideia absolutamente tediosa de que só há matéria, nada além de matéria. O seu materialismo não era reducionismo brutal, como, tampouco, o de Marx. Tomás de Aquino acreditava na alma, exatamente como Daniel Dennett e Richard Dawkins não acreditam; mas acreditava, dentre outras razões, porque pensava que a alma leva à compreensão a mais rica possível dessa eclosão de matéria chamada corpo. Como Wittgenstein observou: se quiser uma imagem da alma, olhe o corpo. A alma, para Tomás de Aquino, não é algum tipo de “extra” fantasmagórico, como para os cristãos platonizantes de seu tempo; que não se veja a alma como um rim espiritual ou o espectro de um pâncreas.

Dado que a linguagem é matéria que significa, assim, para Tomás, é o corpo, que deve ser visto, para ser mais bem visto, não como um objeto, mas como um significador. Por trás dessa crença está uma teologia da Palavra que se fez carne, e em particular da Eucaristia, na qual aquela Palavra está presente na transformação do pão e do vinho em algo, assim como aquele significado está presente num signo verbal. Segue-se dos ensinamentos de Tomás de Aquino, que não há o tal de corpo morto. Um cadáver é apenas o que resta de um corpo, uma massa de material do qual saiu o significado, como numa hemorragia; não é mais o artigo genuíno.

Tomás dizia claramente que se algo não envolve o meu corpo, então não me envolve. Posso não estar fisicamente presente junto a você pelo telefone, no sentido de partilharmos o mesmo espaço material, mas estou corporalmente presente para você, do mesmo modo. Cristianismo tem a ver com a transfiguração do corpo, não com a imortalidade da alma. Aquino certamente acreditava em almas desencarnadas, mas nem por isso entendia que a alma de alguém fosse alguém. Nunca lhe ocorreria pensar que a alma desencarnada de Amy Winehouse seria Amy Winehouse. A identidade humana, pensava ele, é uma identidade animal. Como Turner argumenta nessa biografia, Tomás de Aquino pensava, diferente dos platonistas, que “somos completamente animal, animal da cabeça ao pés”. Os que protestam que assim se deixaria de fora um extra invisível chamado alma deixam escapar sem ver, simplesmente, a natureza peculiarmente criativa dessa animalidade.

Dito em termos impolidos, temos o tipo de mente que temos, por causa do tipo de corpo que temos. Nosso pensamento, por exemplo, é discursivo, avança no tempo, como avança, porque nossos sentidos-experiência também são assim. O papel dos conceitos abstratos, ensinou ele, é enriquecer nossa experiência, não torná-la ainda mais rala. Marx argumenta exatamente na mesma direção, nos Grundrisse.

Tomás de Aquino também pensava que a metáfora seria o modo de linguagem mais adequado aos animais humanos, por causa de seu caráter concreto, sensorial. Embora seja frequentemente acusado de racionalismo escolástico sem sangue, está, em vários sentidos, muito mais perto dos empiricistas. O objeto natural da mente, ele insiste, não é Deus, o ego ou ideias, mas coisas materiais. Qualquer conhecimento que tenhamos de Deus tem de começar aqui e, em particular, com aquele patético fracasso de um objeto natural conhecido como Jesus. (Em frase esplendidamente esculpida, Turner escreve de Jesus, que foi “executado extrajudicialmente por recomendação de um comitê corrupto de pessoas muito religiosas”.)

Mas não que a expressão “conhecimento de Deus” soasse como perfeitamente não problemática aos ouvidos de Tomás de Aquino. Teria prontamente concordado com Dennett e Dawkins, que quando falamos de Deus, não sabemos, realmente, do que falamos. (Sobre Dawkins, Turner observa, ácido, que “não há uma única frase em toda a teologia de Tomás de Aquino que [Dawkins] seja capaz de formular com clareza suficiente para negá-la com eficácia”).

Para Aquino, toda a linguagem sobre Deus é metafórica, acerta ou erra, correndo constantemente contra os limites do dizível. Os cristãos dizem, por exemplo, que Deus é um, não vários; mas como qualquer outro fragmento de fala-de-Deus, esse também não pode ser tomado literalmente. Deus não é, na visão de Aquino, alguma espécie de ser, princípio ou entidade que possa ser contado com outras entidades que tais. Não é sequer alguma espécie de pessoa, como há quem diga que Piers Morgan seja pessoa. Deus e o universo não fazem dois. Sejam quais forem os demais erros que os crentes cometem, não ser capaz de contar não é um deles. Os crentes não defendem que haja um objeto a mais, no mundo, além dos que há. Deus, para Aquino, não é coisa no ou fora do mundo, mas o campo de possibilidade de tudo, seja o que for. Se caíssemos fora de suas mãos, mergulharíamos no nada; e a fé é confiança em que, por mais odiosos que sejamos uns para os outros, ele não nos deixará escapar entre os dedos.

A doutrina da Criação não é conversa fiada científica, como racionalistas do século XIX demodés como Dawkins pressupõem. Como Turner argumenta, ela trata realmente da extrema fragilidade das coisas. Aquino acredita que tudo que existe é contingente, no sentido de que não há absolutamente necessidade que as coisas supram. Deus fez o mundo por exigência do amor, não da necessidade. É ser gratuito, o que é o mesmo que dizer que é questão de graça e dom.

Como uma obra de arte modernista, ou como alguém contemplando a própria mortalidade, o mundo está cheio de um senso de nada, que brota da consciência, que dá nó na cabeça, de que o que é poderia perfeitamente jamais ter sido. A Criação é o ato gratuito original. Tomas de Aquino não pensa que podemos controlar o mundo, precisamente porque não podemos controlar o nada, seu contrário; mas entende que seja racional perguntar por que há algo, e não nada, como alguns filósofos não fazem. E, dado que pensa que a resposta a essa pergunta é Deus, essa, Turner argumenta, é a razão pela qual ele afirma a existência de Deus, a qual, embora em sentido algum seja autoevidente, pode ser demonstrada racionalmente.

Tem, pois, crença tipicamente católica no poder da razão, diferente de um ceticismo protestante do intelecto, que seria obscurecido e corrompido. Mas, apesar de que morremos, sem a razão, e apesar de a razão ir até bem longe, ela não completa o serviço, como tampouco o completa, para Marx ou Freud. No fim, o que sustenta a razão é a fé, que é um tipo de amor. Nem Dawkins se daria o trabalho de meter-se em seu laboratório, não fosse por algumas crenças e compromissos subjacentes.

E que essa foi a via pela qual Tomás de Aquino viu o assunto, foi dramaticamente ilustrado bem no final de sua vida. Algo aconteceu a ele no dia 6 de dezembro de 1273. Não se sabe se teve uma visão, um colapso nervoso ou ambos. Mas depois de uma vida de produção quase sobre-humana (a certa altura, quando escrevia sua Summa Theologiae, estava produzindo o equivalente a dois ou três romances de tamanho médio, por mês), abandonou a pena. Consta que teria dito ao seu secretário que nunca mais escreveria depois do que vira naquela dia, “porque tudo que escrevi não passa de palha”. Seguiram-se três meses de silêncio, e a morte.

Sete oitavos da Summa já estavam prontos, e Turner vê um significado teológico nessa incompletude. Como o mundo, do modo como Aquino o compreendia, aquele mais fino dos trabalhos de teologia encerra-se com o silêncio. Turner extrai grande aproveitamento do que se pode chamar de o anonimato de Aquino, o fato de que ele se apaga, some, em sua escrita meticulosa, distanciada, sem arroubos, como que para impedir que a personalidade se interponha entre o leitor e a verdade. Paulo e Agostinho se entretecem eles mesmos em cada palavra, e Meister Eckhart, na expressão de Turner, é “um show de efervescência”. Mas Tomás de Aquino é “o santo quase completamente invisível”, um mestre na arte de sumir-se, cuja nenhuma ostentação é, ela própria, uma forma de totalidade. Se seu texto parece não ter autor, se recusa-se a cintilar, é porque, como observou certa vez, melhor lançar luz aos outros, que brilhar por brilho próprio. Nesse sentido, pode ser adequado que a Summa suspenda-se, finalmente, em silêncio, dado que o autor já tinha os lábios bem cerrados, desde o início. Se se empurra a razão até o mais longe que ela pode ir, pode acontecer de, como no sublime kantiano, ela iluminar, por negação, o que está além de seus limites.

Se Tomas de Aquino depôs deliberadamente a pena, há um sentido no qual ele escolheu a pobreza do espírito, acima da realização do intelecto. Essas são duas virtudes caracteristicamente dominicanas. É importante entender que ele foi frade, não monge. Os monges, como os cistercianos e beneditinos, vivem vida de oração e trabalho reclusos, longe do mundo, e seus monastérios são construídos para ser enclaves de ordem, paz e estabilidade. Enraizados num só ponto, os monges visam à autossuficiência, criando as próprias granjas, mantendo escolas pagas, fabricando licores exóticos e coisas do gênero.

Frades, como os dominicanos e os franciscanos, ao contrário, vivem da mão para a boca, na miséria, como mendigos que dependem da caridade das pessoas comuns. Como os monges, também vivem em comunidades, mas, diferentes deles, perseguem a própria missão nas ruas. Os frades são sujeitos urbanos, os monges são, na maioria, rurais. O objetivo original dos frades é liberar a teologia dos claustros e colégios, para que se torne o que esse livro chama de “prática multitarefa nas ruas”. Os dominicanos, em particular, combinam oração e pobreza, como o próprio Jesus. Têm de ser livres de quaisquer posses; e têm de manter o celibato (para não terem de arcar com deveres domésticos), para poderem ir aonde sejam necessários, flexíveis, disponíveis para os que cheguem. Diferentes dos evangelizadores de televisão nos EUA, também têm de deixar claro àqueles aos quais servem, que, ali, eles nada ganham.

Nada disso valeu aos dominicanos do tempo de Tomás de Aquino uma imagem respeitável. Eram vistos quase sempre como vagabundos e parasitas, “gangues de enganadores dedicados à autopromoção”, como Turner escreve sem meias palavras, que supunham que o mundo teria obrigação de sustentá-los. Enquanto os jesuítas são figuras do establishment, os dominicanos são os lobos solitários intelectuais da igreja. Em nossos dias, tem havido jungianos, marxistas, hippies, pacifistas e wittgensteinianos radicais. Como escritores, palestrantes, professores, pregadores e intelectuais públicos, sua forma especial de santidade exerce-se mediante a palavra.

Tomás de Aquino, membro da pequena aristocracia italiana, estava destinado pela família à ordem dos beneditinos, mas chocou-os todos, ao decidir tornar-se dominicano. Foi, mais ou menos, como se o príncipe Harry se alistasse no Partido dos Trabalhadores Socialistas. Alguns de seus irmãos o separaram à força dos dominicanos e o puseram em prisão domiciliar por um ano, no castelo da família. Com tocante solicitude fraternal, também tentaram demovê-lo da decisão de tornar-se frade: mandaram ao quarto dele uma prostituta nua, tática pouco efetiva para um homem que declarou a contemplação o maior de todos os prazeres. Tomás de Aquino afinal achou sua saída, e escreveu a Summa, como uma espécie de recurso pedagógico para seus irmãos dominicanos. Nas palavras de Turner, foi “o escrito que os pregadores mendigos devem carregar com eles; é uma teologia do homem pobre, o Cristo pobre como teologia. Como para Marx, a teoria a serviço da prática”.

É Tomás de Aquino quem, sobretudo, deu forma ao que se pode chamar de uma característica visão católica da realidade. Para esse modo de ver, o modo como as coisas são não é só o modo como dizemos que elas sejam. Ao contrário, o mundo é rico e intrincado de pleno direito dele, feito de camadas complicadas, mas significativamente estruturado, e até Deus Todo Poderoso deve reconhecer esse fato. Poderia ter criado um cosmos no qual não houvesse mousse de chocolate ou Bruce Willis; mas dado que não o fez, tem de curvar-se à lógica de sua própria criação, em vez de reivindicar o direito de decidir, feito prima-donna caprichosa, que os pinguins se ponham a praticar salto com vara ou que a Cidade do Cabo apareça no hemisfério norte.

Mesmo assim, é a mente humana que, na visão de Tomás de Aquino, traz as coisas à fruição, de tal modo que falar delas é fazê-las ser mais plenamente o que elas já são. Os indivíduos podem trazer-se uns à fruição dos outros, no sentido de que o ser deles é completamente relacional, de cabo a rabo. No centro da visão moral de Tomás de Aquino está a ideia da amizade. É esse tipo de amor, não o amor erótico ou romântico, a melhor imagem do inabordável, inimaginável, amor de Deus, que convoca homens e mulheres a serem seus amigos, não seus servos. Tomás de Aquino, para quem a vida humana é comunitária até a raiz, nunca teria compreendido o individualismo moderno. Nem jamais compreenderia o preconceito neoliberal segundo o qual o poder, a autoridade, os sistemas, as doutrinas e as instituições são inerentemente opressivos.

De um ponto de vista tomista, todo o ser é benigno. É bom em princípio, e o mal é uma espécie de não-ser. Em homens e mulheres, é a forma defectiva de existência dos que jamais acharam jeito de ser humanos.

Os seres humanos vivem em amarga carência de redenção, como pode comprovar qualquer um que leia jornais; mas essa redenção não é rudemente imposta sobre eles na contramão do que desejem. Ao contrário, a natureza deles acolhe, hospitaleira, essa transformação profunda, e anseia por ela, mesmo quando eles nem são inteiramente conscientes disso. A vida moral envolve cortar através de densa camada de falsa consciência e de uma autoenganação pia após outra, para descobrir o que nós realmente, fundamentalmente, desejamos.

Deduz-se da visão do ser de Tomás de Aquino que vida boa é vida florescente, ricamente abundante. Quanto mais uma coisa é ela mesma, melhor se torna. Santos são os supremamente bem-sucedidos na exigente tarefa de ser humano, os George Bests e as Jacqueline du Prés da esfera moral. Moralidade não é questão de dever e obrigação (Turner lembra que o léxico moral tomista praticamente nem registra essas palavras), mas de felicidade e bem-estar.

29 de novembro de 2013

A guerra contra Gaza reforçou a posição do Irã

por Kaveh L. Afrasiabi


Agora que a poeira de sete dias de guerra contra Gaza já baixou, vê-se que a roda da fortuna geoestratégica da guerra girou, sem dúvida alguma, a favor do apoio militar que o Irã dá ao Hamás. Os líderes israelenses podem falar o quanto queiram do pesado dano que teriam infligido à capacidade de ataque do Hamás, fato é que Israel não alcançou seu principal, quase único objetivo: comprometer a capacidade dos foguetes do Hamás. É fato, sim, também, que o dano que tenha havido será rapidamente reparado pelo Hamás, o qual, nos meses vindouros, poderá reabastecer e fortalecer seus arsenais.

A impressionante capacidade dos foguetes do Hamás, que resistiu à fúria de cerca de 1.500 incursões dos jatos israelenses que bombardearam sem cessar área densamente povoada, e o fracasso do “Domo de Ferro” de Israel, que não impediu que cerca de 420 foguetes atingissem Israel, reflete o que está sendo chamado no ocidente de novo “equilíbrio do terror”, denominação que já se afasta consideravelmente da versão tradicional da supremacia militar de Telavive e aponta para novas áreas de vulnerabilidade dos israelenses, as quais, por sua vez, incidem de forma dramática sobre a posição anti-Irã, de Israel.

É o que já se depreende da declaração de Ali Baqeri, subsecretário do Conselho Superior de Segurança Nacional do Irã:

Se o regime sionista já não tem condições para derrotar a Resistência na Faixa de Gaza sitiada, é claro que, definitivamente, já não tem o que dizer, tampouco, sobre a força e a potência da República Islâmica.

Sentimentos semelhantes foram manifestados também pelos comandantes militares iranianos, entre os quais o comandante dos Guardas Revolucionários, General Mohammad Ali Jafari, que já admitiu publicamente que o Irã forneceu ao Hamás a tecnologia para montar os foguetes Fajr-5, e que “os foguetes foram produzidos rapidamente”.

“Se a intenção de Israel ao provocar essa guerra foi usá-la como prelúdio para um ataque contra o Irã, foi fracasso completo, principalmente porque a guerra terminou com vitória do Hamás, do Irã e do Hezbollah [libanês], triunvirato de poder que impõe hoje desafio formidável, em qualquer cenário de guerra contra o Irã” – disse um professor de ciência política da Universidade de Teerã, que pediu para não ser identificado.

A impressão generalizada de que qualquer ataque de Israel contra o Irã é hoje ainda menos provável do que no passado, como resultado direto da guerra de Gaza, deve, com certeza, influenciar o clima de negociações entre o Irã e as nações do grupo “5+1” – os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU plus Alemanha – marcadas para breve. A “opção militar” que Israel usou para coagir o Irã na mesa de negociações perdeu agora, embora pouco se fale sobre isso, grande parte da serventia prevista, o que faz pesar a balança geral, consideravelmente, na direção de solução diplomática.

“No mínimo, o resultado favorável ao Irã, da Guerra de Gaza, implicou abertura mais ampla da janela diplomática, o que se traduz em maior flexibilidade e maior disposição, entre os governos ocidentais, para negociar e para ceder” – disse o professor de Teerã.

Negociações, a estrada à frente

Antes da próxima rodada de conversações multilaterais, reuniões bilaterais entre o Irã e a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), marcadas para a segunda semana de dezembro em Teerã, podem preparar o caminho para uma modalidade de “cooperação estruturada” que vise a resolver as questões invocadas no mais recente relatório da AIEA, de novembro desse ano.

O diretor-geral da AIEA, Yukiya Amano, já admitiu tacitamente que parte do relatório de inteligência citado no “Anexo” do relatório que a Agência divulgou em novembro de 2011 pode ser considerado ‘questionável’, posto que, como disse o diretor-geral, “todo” aquele anexo é pouco confiável; em outras palavras, a AIEA já sabe que nem todas as informações de inteligência que lhe foram encaminhadas merecem ser tomadas como material confiável.

A descoberta chave do mais recente relatório, divulgado no início desse mês de novembro, é que os inspetores não encontraram qualquer tipo de prova de que o material nuclear declarado esteja sendo utilizado para fins não declarados pelo Irã – considerados os dados obtidos por todos os mecanismos de verificação, inclusive inspeções anunciadas em prazo curtíssimo, amostras de material recolhido no meio ambiente em períodos regulares de tempo e o emprego de câmeras de vigilância em todas as praças de enriquecimento de urânio no Irã.

Outra constatação chave é que o Irã já converteu alta porcentagem de seu urânio enriquecido a 20% em bastonetes e placas de combustível, e mantém hoje limitada em cerca de 110 kg a quantidade de material enriquecido – provável sinal de boa-vontade, uma vez que o país não reabasteceu metade das centrífugas instaladas na usina superprotegida conhecida como Fordo.

No caso de as conversações Irã-AIEA mostrarem progresso real, como preveem funcionários do governo do Irã, com certeza criar-se-ão condições de melhorar-se o tom da conversa iraniana com os representantes dos “5+1” liderados pela secretária de Relações Externas da União Europeia, Catherine Ashton, a qual, em recente reunião em Bruxelas, destacou a importância de negociações diplomáticas sustentadas.

A questão, evidentemente, é de se os negociadores ocidentais estarão dispostos a levar em consideração o fortalecimento da posição do Irã, resultado da Guerra de Gaza, desenvolvimento que deve ter reduzido o ímpeto de ataque militar contra o Irã. Se raciocinarem nesses termos e nessa direção, é preciso saber ainda como a ideia traduzir-se-á em maior disposição a reduzir as sanções contra o Irã, em comparação ao que se viu em rodadas anteriores, quando os governos ocidentais recusaram-se a considerar qualquer abrandamento nas sanções, mesmo no caso de o Irã concordar com suspender completamente o enriquecimento do urânio a 20%.

Hoje, depois de três rodadas inconclusivas de negociações, no início de 2012, o cenário parece preparado para que se cultive otimismo moderado em relação em relação à próxima rodada. Outro desenvolvimento importante que afeta aquelas conversações, também a favor do Irã, foi a decisão dos EUA de forçar o adiamento da muito esperada conferência sobre um Oriente Médio livre de armas de destruição em massa, prevista para acontecer na Finlândia.

A decisão dos EUA, interpretada por muitos como concessão a Israel – principal agente de proliferação de armas de destruição em massa em todo o Oriente Médio –, foi fortemente condenada pelo Irã e por vários países árabes, que denunciaram o papel dúbio que os EUA desempenham, atentos, sempre, a excluir Israel de qualquer tratado ou decisão anti-proliferação de armas de destruição em massa. O enviado do Irã à AIEA, Ali Asghar Soltanieh, criticou duramente os EUA sobre esse tema; e Irã e Rússia uniram-se a favor de antecipar-se a data da conferência do próximo ano, na Finlândia.¹

Certamente, na próxima rodada, o Irã e as nações do “5+1” muito terão a conversar sobre o estimulante objetivo de implantar-se uma zona sem armas nucleares no Oriente Médio – circunstância que muito favorece aos interesses do Irã, interessado em destacar as intenções exclusivamente pacíficas de seu programa. A possibilidade de que o representante do Irã encontre, como parece afinal possível, público mais receptivo na mesa de negociações, como acima se discute, parece ser efeito, em não pequena medida, da guerra de Israel contra Gaza, que, bem claramente, não levou a bons resultados para Israel.

Nota:

¹ Ver entrevista com o embaixador Ali Asghar Soltanieh (Kaveh Afrasiabi, “Iran prepares for Moscow”, Asia Times Online, 9 de junho de 2012 (em inglês). 

28 de novembro de 2013

O poder da história do povo

Por John Pilger

New Statesman | A Inglaterra é dois países. Um é dominado por Londres, o outro permanece na sua sombra. Quando cheguei da Austrália pela primeira vez, parecia que ninguém ia ao Norte de Watford e aqueles que haviam emigrado do Norte esforçavam-se arduamente por mudar suas pronúncias, encobrir suas origens e aprender os maneirismos e códigos das satisfeitas classes sulistas. Alguns zombavam da vida que haviam deixado para trás. Estavam a mudar de classe, ou assim pensavam.

Quando o Daily Mirror enviou-me em reportagem ao Norte, na década de 1960, meus colegas em Londres divertiram-se com o meu desterro para os antípodas, o seu equivalente da Sibéria. Na verdade, foi o pior inverno em 200 anos e eu nunca usara um cachecol ou possuíra um casaco. Tente imaginar o que é aquilo como a mais sombria Leeds e Hull, advertiram.

Era um tempo em que, segundo se dizia, os trabalhadores na Inglaterra "falavam alto", até mesmo "tomavam o comando". Filmes realistas estavam a ser rodados e pronúncias que antes não eram bem vindas nos meios de comunicação e em seções do negócio do entretenimento agora aparentemente eram procuradas, embora muitas vezes como caricaturas.

Durante aquela primeira viagem ao Norte, quando parei para abastecer de gasolina, não consegui entender o que disse o homem; dentro de semanas, o que as pessoas diziam parecia-me perfeitamente claro. Eles eram uma outra nação com uma história diferente, diferentes lealdades, humor diferente, mesmo valores diferentes. No cerne disto estava a política de classe. Transpondo os Pennines, o Império vinha abaixo. As paixões imperiais do Sul mal se manifestavam. Em Merseyside e Tyneside, exceto entre os notáveis habituais, ninguém se importava com a realeza. Havia o um-por-todos-e-todos-por-um de uma sociedade da classe trabalhadora – a menos, como se tornou penosamente claro em anos posteriores – que acontecesse você ser negro ou mulato. Aquela solidariedade era, para mim, a notícia, como se fosse o capítulo em falta no patrimônio político da Inglaterra, uma história do povo dos tempos modernos, omitida por Thatcher e Blair e ainda temida pelas suas repercussões.

Eu já havia vislumbrado o poder desta solidariedade no lugar onde cresceram meus pais e conhecia-a enquanto rapaz: a região mineira do Hunter Valley, no Novo País de Gales. Aqui, todos os mineiros do carvão haviam sido despedidos de Yorkshire, Tyneside e Durham. "Observe-os, eles são comunistas", ouvi alguém dizer. Eles eram combatentes pela decência da classe trabalhadora: pagamento adequado, segurança e solidariedade. Os galeses eram iguais. Traziam consigo os sofrimentos físicos e mentais e a raiva daqueles que haviam industrializado o mundo e ganhavam pouco exceto a perdurável solidariedade de uns com os outros.

O Mirror publicou minhas reportagens de vidas de trabalhadores: mineiros trabalhando em poços de menos de um metro, trabalhadores do aço no calor inimaginável. Eu encontrava uma rua, virtualmente qualquer rua, e batia às portas. O que me intrigava então era que tal calor humano e auto-domínio pudessem sobreviver no trabalho monótono das cidades nortistas. Além disso, a grande tradição radical de resistência no Norte – desde os trabalhadores do algodão do século XIX até a Grande Greve dos Mineiros de 1984-1985 – sempre ameaçou o jogo que em Londres é conhecido como "o consenso".

Isto foi o arranjo feito às escondidas entre os governos Trabalhista e Conservador e os cinco por cento que possuíam metade da riqueza de todo o Reino Unido. O deputado trabalhista que se tornou homem dos meios de comunicação, Brian Walden, descreveu como isto funcionou. "Os das poltronas da frente [no Parlamento] gostavam uns dos outros e não gostavam dos seus pares nas poltronas de trás", escreveu ele. "Nós éramos filhos do famoso consenso... ir da oposição para o governo fazia pouca diferença, pois acreditávamos nas mesmas coisas".

Meu segundo filme para a televisão, feito para a Granada TV em Manchester, chamou-se "Conversas com um trabalhador". Era a história de Jack Walker, trabalhador do tingimento de Keighley, no Yorkshire, cujo trabalho era monótono, sujo e maléfico para a sua saúde, mas ele daí retirava um orgulho em "fazer isto bem". Jack acreditava apaixonadamente que o povo trabalhador deveria permanecer unido. Que a um sindicalista eloquente era permitido exprimir seus pontos de vista sem a intromissão daqueles que muitas vezes afirmam falar por ele, e preocupar-se em alta voz acerca da democracia costurada em Westminster ia além dos limites. A expressão "classe trabalhadora", diziam-me, tinha "implicações políticas" e não seria aceitável para a Independent Television Authority. Teria de ser mudada para "patrimônio dos trabalhadores" ("working heritage"). A seguir havia o problema da palavra "o povo". Isto era uma "expressão marxista" e também tinha de ser afastada. E o que era este "consenso"? Certamente, a Grã-Bretanha tinha um vibrante sistema de dois partidos.

Ao ler recentemente que 600 mil residentes na Grande Manchester estavam "experimentando os efeitos da pobreza extrema" e que 1,6 milhão estavam a cair na penúria, recordei-me de como o consenso político ficou imutável. Dirigido agora pela classe sulista dos proprietários de terra (squirearchy) de David Cameron, George Osborne e os seus colegas etonianos, a única mudança é a ascensão da classe administradora de corporações, exemplificada pelo apoio de Ed Miliband à "austeridade" – o novo jargão para a pobreza imposta.

Na Clara Street, em Newcastle-upon-Tyne, no escuro invernal da madrugada, andei colina abaixo com pessoas que trabalhavam mais de 60 horas por semana por uma ninharia. Eles descreveram seus "ganhos" como o Serviço de Saúde. Tinham visto apenas um político na rua, um liberal que veio, afixou cartazes e disse algo inaudível do seu Land Rover e apressou-se a ir embora. A cantilena de Westminster era então "pagar nossas despesas como nação" e "produtividade". Hoje, seus lugares de trabalho e sua proteção sindical, sempre tênue, foram-se. "O que está errado", disse-me um homem na Clara Street, "é do que os políticos não querem mais falar. Os governos não se importam de como vivemos, porque não somos parte do seu país".

Alain Badiou: Evento, Fidelidade, Sujeito

Razmig Keucheyan

The Left Hemisphere: Mapping Critical Thinking Today, Verso, 2013, trad. Gregory Elliott, pp. 176-182

Tradução / Badiou é um construtor de sistemas filosóficos. Ele é, sem dúvida, dentre os pensadores críticos contemporâneos, aquele que adotou essa tarefa filosófica de forma mais assumida. A doutrina elaborada por Badiou é uma teoria do "evento". Uma teoria de grande complexidade – e não resta dúvida que estamos sendo justos aqui – exposta em duas obras imponentes, L’Être et l’événement (1988) e Logiques des mondes (2006), às quais podemos adicionar Théorie du sujet. Ela também atravessa outros vários trabalhos temáticos, geralmente menos volumosos e mais acessíveis, como Saint Paul: La fondation de l’universalisme(1997), Abrégé de métapolitique (1998), L’Éthique. Essai sur La conscience du mal (1993), e Le Siècle(2005).

A teoria do evento de Badiou se assenta em quatro categorias principais: o ser, evento, sujeito e fidelidade. No início está o ser. No nível mais básico, ele é composto de puros "múltiplos" desorganizados. Estes não são "partículas elementares" do tipo estudado pela física moderna ou invocado pelo materialismo clássico. Eles estão situados "abaixo" da matéria, de forma que o que está envolvido não são entidades reais, mas propriedades formais do ser. Para Badiou, a ontologia fundamental não é outra senão a matemática, o que significa que no nível mais elementar, o ser tem um modo formal de existência.

"Multiplos" adquire um grau inicial de consistência ontológica quando estão estruturados, ou "contados para um", como Badiou coloca. Eles são, então, transformados em "situações", que são "apresentações" estruturadas dos múltiplos. A consistência da realidade é consequentemente dependente das operações de contagem. Tais operações são realizadas contra um plano de fundo de um "vácuo" original, uma vez que os múltiplos que serão contados não são entidades reais. Apenas adquirem tal realidade quando contados. Existem ilimitados exemplos de "situações" – a sociedade francesa é um, a arte moderna outro, o sistema solar um terceiro. O conjunto das situações correntes se referem a um "estado da situação". Badiou atua aqui no significado duplo da palavra "estado", que se refere tanto à "estrutura" quando ao "estado" em seu sentido político. Isso é recordado quando Rancière usa da mesma forma a palavra "police" [política/polícia] deliberativamente de modo ambíguo para se referir à "distribuição do sensível" e às forças da lei e da ordem que garantem sua manutenção. De certo ponto de vista, a doutrina de Badiou pode ser considerada como uma forma radical de nominalismo. A realidade só existe na medida em que é contada ou nomeada. O estado da situação é domesticado a ponto de se tornar objeto do conhecimento positivo. Este último está localizado ao longo do ser; ele participa da contagem das partes.

Pode acontecer de o ser sofrer uma interrupção súbita causada por um evento. O evento ‘divide a história do mundo em dois’, para adotar a formula nietzschiana usada por Badiou em conexão com o século XX, mas cujo escopo é mais geral. As causas dos eventos são diversas, de um encontro amoroso à descoberta da estrutura do DNA, do Branco sobre Branco de Malevitch à Revolução Russa. Mais precisamente, existem quatro domínios nos quais ‘procedimentos verdadeiros’ são passíveis de vir à tona: a política, as ciências, as artes, e o amor. Em cada um deles, o evento é absolutamente heterogêneo em relação ao ser; ele é imprevisível e suspende a contagem dos múltiplos que o constituem. O evento está no lado do não-ser, do que não é contado no estado da situação. Como Badiou diz, ‘está na essência do evento não ser precedido por nenhum sinal, e nos tomar de surpresa com sua graça, independentemente de nossa vigilância [18]; A Revolução Francesa é um exemplo típico de um evento. Conhecemos os detalhes do processo – econômicos, políticos, culturais – em atividade nos anos ou décadas que antecedem o evento. Podemos mobilizá-los para explicar as condições nas quais ele ocorreu. Ao mesmo tempo, esse evento permanece irredutível ao conhecimento que possuímos em relação a ele, mesmo retrospectivamente. O conhecimento está no lado da contagem da situação anterior, enquanto que o evento é, por definição, ‘supernumerário’; está em sua essência ser incontável. Neste sentido, um evento é sempre mais do que a soma dos processos que compreende.

Badiou é às vezes criticado pelo caráter ‘milagroso’ de sua teoria do evento [19]. Zizek chegou inclusive a argumentar que a revelação religiosa é seu ‘paradigma velado’ – isto é, o modelo que secretamente governa o mundo. As recorrentes referências de Badiou a São Paulo e à estrada para Damasco dão peso a essa hipótese. O evento de Badiou é um criador de causalidade, mas não é em si mesmo precedido por qualquer outra causalidade reconhecida. Uma principal inconveniência dessa tese é de que ele torna impossível qualquer reflexão estratégica. Ainda que incerta, a estratégia pressupõe optar por um curso de ação na base dos processos que se encadeiam. À medida que o evento é supernumerário, qualquer escolha desse tipo é, em princípio, sem fundamento. A teoria do evento de Badiou é mais um exemplo da característica do pensamento crítico contemporâneo ao que temos nos referido como, a saber, a fraqueza ou ausência de pensamento estratégico. Contudo, é importante indicar que enquanto o evento badiousiano surge ex nihilo, o ‘nada’ em questão não está situado em algum ‘além’. Ele é interno à situação que precede o evento, que é sempre inconsistente ou instável, pois repousa em um vácuo original. Assim, embora não seja previsível, o evento da Revolução Francesa revelou a ‘verdade’ do ancien regime, no sentido de que nas profundas desigualdades características deste [antigo regime] estavam suas sementes [do evento].

O ‘sujeito’ advém do evento. É uma consequência possível dele, o que não quer dizer que seja um desdobramento mecânico dele. Peter Hallward, autor de uma obra de referência sobre o pensamento do filósofo francês, define o sujeito de Badiou como ‘um indivíduo transfigurado pela verdade que ele proclama’ [20]. O indivíduo exposto a um evento é transformado em sujeito – isto é, passa por um processo de ‘subjetivação’ sob a condição do evento. Para Badiou, a subjetivação tem (pelo menos) duas características. A primeira é que ela é coletiva. Mais precisamente, Badiou argumenta que a subjetivação deriva de um evento político que é sempre coletivo. Em outros domínios onde ocorrem os ‘procedimentos verdadeiros’, como artes ou ciências, ele pode não ser [21]. Além do mais, a subjetivação não pressupõe nenhuma essência humana pré-estabelecida. Ela é subsequente ao evento e envolve uma decisão por parte do indivíduo de permanecer crédulo ao evento. Isso é o que Badiou chama da definição do homem como ‘programa’ – isto é, como sempre aberto e por vir. Aqui, Badiou re-une as posições de seus dois mestres, Sartre e Althusser. A antiga assertiva de que ‘a existência precede a essência’ consiste em acreditar que os seres humanos constroem suas próprias essências quando eles já estão no mundo. Para Badiou, essa construção é posta em prática nas sombras de um evento fundador. A concepção do homem como programa também se refere ao ‘anti-humanismo teórico’ de Althusser, que representa uma critica radical do essencialismo humanista (que Badiou chama de ‘humanismo animal’). Desta forma, argumenta Badiou, ‘o Homem é encarado não como um uma realização ou um resultado, mas como a ausência de si mesmo, arrancado do que ele é, e é esse descolamento que é a base de toda grandeza aventurosa’ [23].

Um aspecto crucial da doutrina badiousiana é que a identificação de um evento pode ser feita apenas subjetivamente, de dentro dele. Isso implica que a existência de um evento como evento, e não simplesmente uma série de fatos de causalidades inteligíveis, é sempre incerta. Ela precisa ser completada por um ato de nomenclatura necessariamente subjetivo. Esse ato de nomenclatura é o que Badiou chama de ‘intervenção interpretativa’, que a define como ‘qualquer procedimento pelo qual um múltiplo é reconhecido como um evento’ [24]. Aqui é onde surge a quarta categoria básica do sistema badiousiano – a fidelidade:

“Um evento nunca é compartilhado porque, ainda que a verdade obtida a partir dele seja universal, seu reconhecimento enquanto evento ocorre, simplesmente, em unidade com a decisão política. A política é uma perigosa, militante, e parcialmente indivisa fidelidade a uma singularidade eventual auto-prescrita… A perspectiva a partir da qual a política pode ser pensada – que permite, mesmo após o evento, a captura de sua verdade – é aquela a partir do ator, e não do espectador.” [25]

A noção de fidelidade é onipresente em Badiou. Ela o situa numa tradição teológica de pensamento, às vezes chamada de ‘fideísmo’, que encara o ato de fé como constitutivo na relação de transcendência. O ‘Credo quia absurdum’ de Tertuliano é a expressão mais radical, afirmando que a fé em Deus é mais autentica que a razão que a ela se opõe. Dentre os pensadores que pertencem a essa tradição estão Pascal, Kierkegaard e Paul Claudel, três autores frequentemente citados por Badiou. Uma vez que a fidelidade é considerada como central, também o é seu oposto – a apostasia ou renúncia. Durante a conferencia sobre a obra Logiques des mondes, Badiou declarou que a negação do Maio de 68 por parte de seus protagonistas foi o que de fato provocou sua reflexão sobre o evento [26].

Para Badiou, um sujeito genuíno existe apenas em fidelidade a um evento. Isso implica no fato de que muitos indivíduos nunca se tornarão sujeitos autênticos, seja porque eles não terão a oportunidade de ficarem expostos a um evento, ou porque, tendo sido expostos a um, não demonstraram fidelidade perante ele. Esta é a dimensão mais aristocrática, ou nietzschiana, do pensamento badiousiano, que reserva o status de sujeito apenas a um número reduzido de indivíduos. Não faltam comentadores de sua obra, sejam de direita ou de esquerda, que o criticam por tal aristocracismo [27]. Entretanto, devemos notar que para Badiou toda pessoa, qualquer que seja sua origem, é capaz de ser capturada por um evento e se submeter ao processo de subjetivação. Lembrando que o evento badiousiano, assim como os sujeitos que dele emergem, é caracterizado por sua raridade. Eles são sempre excepcionais.

Badiou é um pensador do universal, mas de um universal paradoxal. São Paulo, a quem ele se refere como o fundador do universalismo, proclama em suas Epístolas aos Gálatas a famosa fórmula: ‘Não há judeu nem grego, não há servo nem livre, não há macho nem fêmea’ (Gálatas, 3:28). O evento-Cristo suspende as diferenças e coloca uma ‘multiplicidade puramente genérica’ que equaliza as condições. Isso não evita que Paulo seja pragmático e evidencie um desprezo tolerante às diferenças entre as comunidades cristãs, cuja unidade se esforça em preservar. Contudo, a chave é que o evento-Cristo abole as identidades e dá vazão a um universalismo endereçado a todos. Por outro lado, o acesso ao universalismo badiousiano necessariamente ocorre via uma rota subjetiva. De acordo com o filósofo, a verdade é sempre militante. Não aquela verdade que é valida em si mesmo e subsequentemente adotada e propagada por apóstolos convictos. Para Badiou, a verdade existe apenas na medida em que é militante. O filósofo rejeita o relativismo prevalente na maioria das correntes ‘pós-modernas’ contemporâneas. Segundo estas, conceitos como ‘verdade’ ou ‘universal’ são no mínimo falaciosos e, na pior das hipóteses, cúmplices do imperialismo ocidental. Para Badiou, não existe nada disso. Para tanto, o universalismo desenvolvido pelo autor de Logiques des mondes imputa à subjetividade um papel chave. Longe de ser um grilhão à emergência do universal, ela é uma condição para sua possibilidade.

De acordo com Badiou, a ‘forma partido’ têm sido suplantada. No século XX, a política revolucionária tomou a forma de partidos, que almejavam confrontar o estado em seu próprio terreno, tomar o controle dele, e iniciar seu desmonte. Esse esquema estratégico se refere, no limite, à centralidade no século XX do que Badiou chama de ‘paradigma da guerra’ [29]. ‘O século XX executou a promessa do XIX. O que o século XIX concebeu, o século XX realizou’, argumenta o filósofo [30]. O problema é que a realização no ‘aqui e agora’ do que anteriormente foi um sonho levou a uma brutalização da realidade. Foram cometidas atrocidades sem precedentes antes que os partidos revolucionários tivessem se ‘rotinizado’ e se tornado ‘partidos-estado’. Hoje, a questão crucial é se é possível uma política revolucionária sem um partido [31]. Badiou não é um libertário; ele não clama por um florescimento irrestrito da espontaneidade revolucionária. Uma política sem um partido não indica uma política sem organização. Ela significa uma política sem nenhuma relação com o estado. Dessa forma Badiou recusa tomar parte em eleições e abandonou o paradigma leninista que predomina sobre a esquerda revolucionária, cuja característica principal é a tomada do poder estatal por meio da luta armada.

Dentre os novos agentes da transformação social, Badiou acredita que os travailleurs sans-papiers [NT: ‘trabalhadores sem papéis’, no caso, documentos; referência à questão dos trabalhadores imigrantes ilegais na França] desempenharão um papel crucial no futuro – e não apenas os sans-papiers nos países desenvolvidos, mas também, por exemplo, os trabalhadores rurais chineses que migraram ilegalmente para as cidades. Os sans-papiers concentram em si mesmos todas as contradições do capitalismo contemporâneo e, nesse sentido, para Badiou, são ‘irreconciliáveis’. Os países ricos não tem outra escolha senão empregá-los clandestinamente de forma a reduzir os custos trabalhistas e disciplinar a força de trabalho. Ao mesmo tempo, eles estão constantemente fortalecendo o controle sobre as fronteiras e organizando voos fretados para enviá-los a sua terra natal, com pouco impacto (e isso é verdade) na escala e direção dos fluxos migratórios. Apoiar as lutas dos sans-papiers consequentemente contribui para o aprofundamento dessa contradição, que é inerente ao capitalismo, aumentando assim sua desestabilização.

Notas

[18] Alain Badiou, Saint Paul: The Foundation of Universalism, trad. Ray Brassier, Stanford: Stanford University Press, 2003, p. 111.

[19] Ver Daniel Bensaïd, ‘Alain Badiou and the Miracle of the Event’: em Think Again, Alain Badiou and the Future of Philosophy, Peter Hallward, ed., Londres e Nova Iorque: Continuum, 2004.

[20] Peter Hallward, Badiou: A Subject to Truth, Minneapolis: University of Minnesota Press, 2003, p. 122.

[21] Badiou, Metapolitics, p. 142.

[22] Alain Badiou, The Century, trad. Alberto Toscano, Cambridge: Polity, 2007, capítulo 13.

[23] Ibid., p. 92.

[24] Alain Badiou, Being and Event, trad. Oliver Feltham, Londres e Nova Iorque: Continuum, 2006, p. 202.

[25] Badiou, Metapolitics, p. 23.

[26] “Autour de Logiques des mondes”, organizado por David Rabouin e Frédéric Worms, 24 de Novembro de 2006, École normale supérieure, Paris.

[27] Alex Callinicos e Philippe Raynaud, ambos, da esquerda e da direita, criticam Badiou por seu aristocracismo. Ver Callinicos, Resources of Critique, Cambridge: Polity, 2006, p. 101, e Philippe Raynaud, L’Extréme gauche plurielle, Paris: Perrin, 2009, p. i53.

[28] Badiou, Saint Paul, p. 98.

[29] Badiou, The Century, p. 34.

[30] Ibid., p. 19.

[31] Badiou, Metapolitics, pp. 126-7.

25 de novembro de 2013

Reflexões sobre Jacoby e tudo isso

Reproduz-se a seguir a versão em português de um breve texto inédito de E.P. Thompson escrito no enquadramento do Programa História e Sociedade da Universidade de Minessota no ano acadêmico 1987-1988 com o título informal de "Reflexões sobre Jacoby e tudo isso". [1] O working paper circulou fotocopiado entre os estudantes do Programa e parece requisitado como comentário ao então recente bestseller de Russell Jacoby The Last Intellectuals: American Culture in the Age of Academe [Os últimos intelectuais: a cultura americana na idade da academia].

E. P. Thompson


Tradução / Tem-se-me convidado a dizer algo sobre as relações entre a escrita, a história e a política conforme a minha própria experiência. Em certo sentido, há pouco que dizer que não resulte óbvio. Ou assim me parece. Escreve-se história como historiador e embarca-se na polêmica política como cidadão, e uma coisa não exclui a outra. Efetivamente, os dois papéis podem sobrepor-se ou ainda se confundir às vezes, mas também não significa isso que se precise chegar a grandes compromissos. Os modos de sair airoso do assunto são menos um problema teórico que um problema prático. Eu estou determinadamente na contramão de misturar a docência com qualquer variante de proselitismo político, porque isso é aproveitar-se injustamente de uma posição de vantagem sobre os estudantes. A minha impressão, de todas, todas, é que esse abuso o costuma cometer de maneira flagrante, bem mais que a esquerda, uma direita incautamente habituada a supor que os seus pontos de vista constituem a única ortodoxia possível. Mas isso não deve ser desculpa para que a esquerda se ponha a emular abusos da direita.

Talvez parto deste simples ponto de vista porque o meu pai foi um escritor: um historiador e um polemista em assuntos que tinham que ver com a independência da Índia. De maneira que a forma "normal" de ir trabalhar que eu observei na minha infância consistia em baixar em pantufas ao estudo com uma fumegante xícara de café em mãos. [2] O ruído da máquina de escrever era "trabalho". O meu pai tinha também certo relacionamento contratual a tempo parcial com a Universidade de Oxford, como Leitor de bengali e, depois, como investigador sócio em História da Índia; mas as suas tarefas não eram demasiado exigentes, de maneira que passaria provavelmente pelo filtro da severa definição de "intelectual" de Russell Jacoby. Ele, no entanto, entendia-se a si próprio como "escritor": como poeta, novelista, historiador, jornalista e homem de letras. E quando abria o correio, repleto de intermináveis petições para escrever sobre isto, falar sobre isto outro, ler tal manuscrito ou assessorar sobre tal outro (quase sempre de graça), entendia-se também a si mesmo como servus servorum [servo dos servos].

Os anos que tenho vindo a desempenhar um papel de destaque no movimento pela paz ajudaram-me a entender demasiado bem essa forma de se entender a si próprio. O mundo está cheio de gente encantadora e meritória que, por alguma razão, supõe que um escritor é um servidor público sem remuneração. Às vezes, a metade ou mais da minha vida profissional destina-se a responder o correio, e a pilha de cartas ainda sem resposta gravita permanentemente sobre a minha mente. Uma parte dessa correspondência faz à manutenção de um bom relacionamento com um público, mas esse público também pode ser irreflexivamente exigente. A Catch-22 do assunto é que nunca se chega a conhecer os correspondentes delicados, precisamente porque têm demasiado tato como para te inundar com cartas.

Baste isso como prólogo. Ficam por acrescentar tão só alguns breves detalhes biográficos. Quando era jovem, eu supunha que poderia chegar a ser um Escritor (com maiúscula). O meu primeiro emprego foi de tutor extramuros, cargo que desempenhei 17 anos em West Yorkshire para a Universidade de Leeds: tratava-se de tutorias externas na educação de adultos. Voltarei sobre isso. Eu me fiz historiador nessa época escrevendo os meus livros sobre William Morris e sobre A formação da classe operária na Inglaterra. [3] Dorothy (a minha mulher) e eu andávamos muito metidos no ativismo político: o momento culminante foi o feroz conflito dentro (e, depois, fora) do Partido Comunista (1956) e a formação e o trabalho editorial para The New Reasoner e a New Left Review. O meu seguinte posto de trabalho foi já dentro de uma universidade, a recentemente fundada Universidade de Warwick: só me durou seis anos, mas uma das suas recompensas foi a formação de um excelente centro de graduados, especialmente forte no estudo da história social inglesa do século XVIII. Depois demiti (1971) para poder escrever, oportunidade que me brindava Dorothy, quem (com os garotos já um pouco crescidos) conseguiu tardiamente entrar no ensino universitário, o que significava o rendimento de um salário acadêmico regular na família. A minha liberdade para ser um intelectual dependia disso, e talvez Jacoby presta pouca atenção a este tipo de assuntos materiais garbanceiros. Escrever seriamente por conta própria não proporciona um sustento. De vez em quando, nas duas últimas décadas, recarregamos a nossa conta bancária e também os nossos recursos intelectuais aceitando a amável hospitalidade de universidades norte-americanas, canadenses e outras para ensinar ocasionalmente ou durante cursos inteiros. De maneira que eu sou meio intelectual e meio acadêmico. A minha vida de escritor acadêmico viu-se interferida -e repetidamente adiada- pelas exigências da publicística controvérsia política: primeiro, em defesa de liberdades civis como a integridade do sistema de júris populares e em oposição ao autoritarismo crescente em Grã-Bretanha; e depois, em representação do movimento pela paz. Se há que distinguir entre o escritor de história e o escritor político, então o historiador que há em mim lamenta muito nos anos desperdiçados em política: e nunca mais que agora, quando me acho rodeado de obra inacabada e demasiado pouco tempo por diante. Mas, como cidadão, não tenho por que desculpar com o historiador.

Voltemos a Russell Jacoby, embora suponho que já vos fizeram uma ideia suficiente da sua posição durante o seminário. A mim, em geral, gosto do seu livro. Com uma prosa viva e abundância de exemplos, apresenta à cultura acadêmica, não como uma solução, senão como um problema. Talvez gosto do livro porque eu mesmo vim sustentando teses parecidas durante anos. Em uma discussão sobre o papel da universidade na educação de adultos, escrevi (em 1968) o que segue:

A cultura educada superior não está já isolada da cultura popular conforme às velhas fronteiras de classe: mas segue estando isolada dentro dos seus próprios muros de autoestima intelectual e soberba espiritual. Há, escusado será dizer,, mais pessoas que nunca que atravessam os muros e entram. Mas é um gravíssimo erro -em que apenas podem cair quem olha a universidade desde fora- supor que, dentro dos muros, se acham ardentes protagonistas (...) de valores intelectuais e culturais. Na boa classe de adultos, a crítica da vida leva-se ao trabalho ou ao objeto de estudo. É natural que isto resulte menos comum entre os estudantes universitários correntes; e boa parte do trabalho do professor universitário é do tipo de um carniceiro intelectual: pesar e medir programas de estudo, listas de leituras ou temas de ensaio em pós do treinamento profissional que se pretende. O perigo é que esse tipo de necessária tecnologia profissional se confunda com a autoridade intelectual: e que as universidades -apresentando-se a si mesmas como sindicato de todos os "experientes" em todos os ramos do conhecimento- expropriem ao povo a sua identidade intelectual. E nisso se vêem secundadas pelos grandes meios centralizados de comunicação -assinaladamente, pela televisão-, que costumam apresentar ao acadêmico (ou talvez deveria falar de certos acadêmicos fotogênicos?), não como um profissional especializado, senão, precisamente nesse sentido, como um verdadeiro "experiente" na Vida. ("Education and Experience", págs. 21-22)

Esta não é exatamente a mesma queixa que a de Jacoby, porque o que a ele lhe preocupa é a incapacidade dos acadêmicos para se projetar como intelectuais públicos, enquanto o que a mim me preocupava era a expropriação da vida intelectual da nação por parte das universidades. Mas ambos estamos radicalmente interessados no intercâmbio, no diálogo entre a academia e o público. No entanto, Jacoby apresenta o problema de maneira demasiado fácil. Apesar das ressalvas, o seu livro parece apresentar um auto-isolamento voluntário em que os intelectuais comprometidos terminaram optando pelo progresso profissional no quadro dos mefíticos vocabulários das carreiras acadêmicas. É verdade que isso se dá agora, como se deu no passado. Em momentos materialistas e vazios de heroísmo isso deu-se já antes. Mas seguramente não é senão a metade do processo. Jacoby não se molesta em inquirir para além, em indagar nas razões "estruturais" do auto-isolamento de uma categoria de intelectuais: não se pergunta se esse isolamento e esse auto-encarceramento com gíria auto-promocional é consequência não menos que causa. Não será que os relacionamentos políticos e intelectuais entre os intelectuais e o grande público se viram interrompidas por mudanças nas tecnologias da comunicação, ou talvez que, como consequência de ulteriores mudanças políticas e ideológicos, os intelectuais se ficaram falando consigo mesmos ou sem ter muito que dizer que seja de interesse geral?

Chegados a este ponto, eu convidar-lhes-ia a vocês a darem uma olhada em dois artigos meus que abordam esse problema a partir de diferentes ângulos. O primeiro, "The Segregation of Dissent" [A segregação do dissenso], foi escrito para a BBC e finalmente recusado por ela em 1961; terminou publicando-se em um pequeno jornal estudantil publicado em Oxford, The New University. [6] O destino final da sua publicação parecia a ilustração do seu argumento. O segundo, "The Heavy Dancers" [Os bailarinos grávidos] vinha a ser, em verdadeiro modo, uma reelaboração do argumento do primeiro, mas no contexto farto mais autoritário que se dava vinte anos depois. [7] Foi um encarrego de uma unidade de produção algo ousada de uma TV comercial que trabalhava para o ocasionalmente intelectual Chanel Four. Mas a iniciativa não era tão ousada, nem muito menos, porque o nervo sensível da minha conversa -que tinha que ver com a Guerra das Malvinas- já era largamente enervado pela vitória da Senhora Thatcher. Durante essa guerra, ainda que todas as sondagens de opinião arrojavam entre um 20% e um 25% da população contrária à guerra, a apresentação televisiva ou radiofônica de argumentação anti-bélica resultaria impossível. Limito-me a sublinhar ante vocês a obviedade de que há razões estruturais e políticas para o isolamento dos intelectuais (se são dissidentes). O que resulta especialmente óbvio na Grã-Bretanha das passadas décadas, com o constantemente crescente autoritarismo, a absurda obsessão governamental com a pseudoseguridade, a cumplicidade do poder judicial e a imprensa popular decadente. Há, desde depois, e digo-o comprazido, verdadeiro movimento de resistência entre os próprios profissionais dos meios de comunicação -assinaladamente, na televisão-, mas a Senhora Thatcher já se está a ocupar disso.

A mim parece-me que algo similar veio ocorrendo nos Estados Unidos desde o final da II Guerra Mundial. Na revista Tri-Quaterly (nº 70) esbocei uma espécie de biografia intelectual do vosso distinto compatriota de Mineápolis, o poeta Thomas MGrath, comparando com um movimento de resistência desenvolvido através de "samizdat" compostos com pequenas resenhas. [8] Agora mesmo, este distinto intelectual encontra-se marginalizado da vida acadêmica norte-americana: a sua obra não figura nos programas de estudo, nem se discute na New York Review of Books. Não será que os argumentos de Jacoby são circulares e auto-confirmatórios? Não menciona a McGrath, provavelmente porque não ouviu falar dele. E quantos intelectuais terá que resultem invisíveis pelas mesmas razões? Enviei um manuscrito do meu estudo sobre McGrath a esse fino historiador literário que foi o último Warren Susman. A sua resposta resultou-me estimulante. Mas em uma questão dissentia vigorosamente. A cultura de resistência dos pequenos periódicos samizdat por todos os Estados Unidos deveria considerar-se tão "típica" das décadas recentes como a cultura "oficial" da academia e a New York Review of Books. "Para o historiador cultural", sustentava Susman, "os fatos culturais importantes são tanto a tipicidade como a especificidade única de McGrath".

Eu não sei como lidar com este problema. Dou todo o meu apoio ao labor das revistas minoritárias, e não saberia nem contar as horas, dias, semanas, meses e anos da minha vida dedicados à edição de, à colaboração com e ao financiamento desse tipo de publicações, desde Our Time até o New Reasoner, desde a New Left Review até, hoje mesmo, o END Journal. Mas por importantes que sejam estas publicações, não resolvem por si próprias o problema da comunicação com um público mais amplo. Precisam-se certos mecanismos de transmissão ou de mediação. Quando conheci a Wright Mills nos primeiros dias da New Left Review, ele andava muito preocupado com este problema. Achava poder encontrar uma solução com o pequeno livro de bolso, e construiu uma uma aliança particularmente amigável com Ian Ballantine, de Ballantine Books, quem planejou pôr essa ideia por obra servindo-se de máquinas expendedoras de livros de bolsos nas grandes superfícies comerciais ao longo dos Estados Unidos: poderia chegar a vender até 20.000 exemplares de cada livro, ainda se se limitasse a oferecer uma coberta sobre um caderno de páginas em branco. (Eu suspeito que se chegasse a pôr isso em prática com demasiada frequência, as suas máquinas seria sabotadas.) [O livro de Wright Mills] Escuta Yanky foi escrito para esse tipo de audiência de Ballantine, e (a primeira versão de) A imaginação sociológica, bem como As causas da III Guerra Mundial, pensavam em uma audiência similar. [9] Lembro-me claramente ter discutido tudo isso com Mills e Ballantine em uma propriedade rural de uma montanha galesa, e eu, desde depois, via a edição do livro de bolso como um méio "de massas", como uma resposta à TV e à imprensa popular. O problema não é só que os produtos intelectuais ou políticos competem pobremente quando compartilham saída comercial com o sensacionalismo, a pornografia ligeira, a novelinha de ocasião ou ainda os scripts para computadores, senão que, na tentativa dos converter em competidores efetivos, podem diluir-se as suas qualidades intelectuais. Admirei muito -e sigo admirando- o exemplo de Wright Mills. Mas pensava que Escuta Yanky resultaria mais eficaz, se não fosse escrito em telegrafes; que A imaginação sociológica apresentava um argumento demasiado fácil; e que As causas da III Guerra Mundial -que tenho relido recentemente- arruinava os efeitos de algumas visões de notável penetração (que resistiram ao teste do tempo) ao envolver em um formato argumentativo pobremente servido por uma prosa assertiva e exclamatória. A popularização é um tipo especializado de escrita para o que poucos estão dotados, e se um pensador populariza as suas próprias ideias, pode terminar sem outro resultado que o da sua desvalorização.

O que possa fornecer um meio de transmissão de pontos de vista dissidentes talvez não seja uma solução técnica -um jornal popular ou uma máquina expendedora de livros de bolso-, senão um movimento político, religioso, nacionalista ou do tipo que seja. Sim, será galinha ou será ovo, mas com frequência galinha e ovo aparecem juntos: as ideias se popularizam e difundem-se rapidamente, porque: a) a opinião pública já está preparada para as receber; e b) certa excitação pública junta as pessoas em associações, clubes, exércitos ou entusiasmos religiosos, nos que as ideias se debatem rapidamente. As ideias radicais podem manter-se dormentes por décadas, derrotadas pela aniquiladora propaganda do statu quo; mas podem-se mudar as circunstâncias de maneira que apontem a uma nova oportunidade, se aparecem razões para a esperança, então as ideias radicais podem florescer imediatamente e por toda a parte. (Ainda que os primeiros 18 meses de reformas do Sr. Gorbachov viram-se com suspeita e cautela, eu acho que na União Soviética pode se apreciar agora em ação essa esperança que é sempre uma potente força histórica.)

[Esta linha falta na cópia mimeografiada do manuscrito de Thompson que se está a usar para a tradução] ... durante o New Deal, as preocupações comuns e o discurso do comum difundiram-se por todos os Estados Unidos; em Grã-Bretanha, uma parte do público chegou a organizar clubes de empréstimo de livros. No final dos anos 50, fenômenos similares levaram à fundação da New Left Review (NLR). Durante um breve período (talvez entre 1961 e 1963) tivemos 20 ou mais clubes da NLR nos grandes centros urbanos: serviam como correios primeiramente e saída da revista e como locais de irradiação para iniciativas políticas locais. Tratava-se tanto de uma correia de transmissão como de uma audiência com uma identidade conhecida: a seção final do livro de Raymond Williams The Long Revolution [10] dirigia-se talvez a essa audiência, o mesmo que (certas partes de) o meu livro A formação da classe operária na Inglaterra. Mas prestar serviço a esses clubes representava uma pesada carga para o nosso desbordado comitê editorial, que funcionava em parte como assessor e em parte como organizador de um novo movimento de esquerda. Alguns membros do comitê sentiam que a sua intervenção no movimento resultava incompatível com uma atividade intelectualmente congruente da revista, e vários jovens e brilhantes colegas terminaram (como resultado de outras dificuldades) por fazer com o controle da revista e cortaram de todo os vínculos com os (deteriorados) clubes, deixando inclusive de mencionar nos créditos da revista e purgando ao comitê editorial de todos os membros conectados com o movimento (incluído o mineiro que depois terminaria sendo secretário geral da União Nacional de Trabalhadores Mineiros!).

Menciono tudo isto, não por jogar garrulamente a língua a pascer, senão porque guarda relacionamento com a questão das audiências e as mudanças registadas nas últimas décadas. Porque se nas vossas estantes conservais a coleção da New Left Review (NLR), podem examinar todos os números. O estilo da revista mudou depois de dois ou três números. Em vez de se dirigir a uma audiência ativista, com a sua retórica correspondente e, às vezes, senstimentalismo, a NLR começou a afetar um tom e um formato de rigor, claramente dirigido à academia. A sua circulação provavelmente caiu, mas converteu-se em uma publicação internacional e as bibliotecas universitárias chegaram a considerá-la de tão obrigatória presença como Past&Present ou a Economic History Review. Conseguiu evitar o colapso e consolidar-se com uma notável consistência durante vinte e cinco anos, desenvolvendo e definindo uma teoria socialista da academia. A sua audiência -e o seu sentido dos relacionamentos com a audiência- é de todo ponto diferente da vossa New Masses e da nossa Left Review de fins dos 30. A sua trajetória pareceria confirmar e ilustrar, em certos aspectos, a tese de Jacoby. Mas deveríamos acrescentar também que a história ainda contínua. Se a NLR foi um laboratório acadêmico, ainda é possível que as suas inovações e a sua influência cheguem a ser potentes na década vindoura. Eu não estou seguro de que isso termine de me gostar. Como tantas outras coisas que nos circundam por todas partes, a NLR é o produto de uma era excessivamente cerebral e pouco criativa. [11]

O movimento feminista e o movimento pela paz também proporcionaram as suas próprias correias de transmissão para livros e ideias. O primeiro parece ter conseguido uma audiência substantiva e permanente. O segundo foi mais volátil e vai-se visto submetido aos ventos da moda. Muito notavelmente nos Estados Unidos, com as subitâneas alças e baixas da audiência do Freeze, que se podem ilustrar com o sensacional sucesso do livro de Schell Fate of the Earth. [12] (Diga-se de passagem: por que não conta Jonathan Schell entre os "intelectuais" de Jacoby?) Eu observei oscilações parecidas em Grã-Bretanha. A formação do nosso movimento constituiu um exemplo notável do uso de instrumentos e meios de comunicação pré-modernos para irromper em um "consenso" manipulado ou indiferente ou hostil. Servimo-nos do panfleto, da folha volante semanal, da reunião na freguesia ou na escola, da manifestação de rua ou do piquete, e com efeitos tais, que, para 1981, as nossas manifestações chegaram a ser o bastante numerosas e coloridas como para que os meios de comunicação maioritários não pudessem segui-las ignorando como se não existissem. Os esforços e as horas de trabalho voluntário foram um prodígio dificilmente sustentável durante mais de dois ou três anos com esse grau de intensidade. Chegamos a irromper na TV e (com feias distorções) na pior imprensa sensacionalista popular. Escusado será dizer que ao preço de perder o controle direto na forma de apresentar os nossos argumentos quando parecia que estes triunfavam: as nossas vozes passaram a outros (comentaristas políticos, animadores midiáticos, locutores) que propunham as suas questões, não as nossas. Como é característico na Grã-Bretanha, toda a complexidade das nossas propostas ficava reduzida a só duas questões: a favor ou na contramão do "unilateralismo", e "unilateralismo" ao modo em que eles, não nós, o definiam; e -prescindindo diretamente da nossa política de não alinhamento e dos nossos múltiplos contatos com os "dissidentes" do outro lado- a favor ou na contramão das políticas soviéticas. Dada a capacidade dos meios de comunicação maioritários para falsificar e manipular, um se pergunta se não faríamos melhor seguindo ignorados.

A tudo isso, disse mais bem pouco sobre a minha própria prática como escritor político e historiador. Como mencionei ao começo, tenho pouco que dizer que não resulte evidente; e se passei por alto questões significativas, perguntem-me. Uma coisa foi importante para mim e para alguns dos meus colegas. O meu primeiro emprego -que durou 17 anos- foi na educação para adultos. Eram tempos -imediatamente após a Guerra- nos que o movimento era vigoroso e contava com um amplo apoio popular. As classes estavam organizadas pela Associação de Trabalhadores da Educação, mas os cursos mais longos e formais conduziam-nos tutores extramuros da universidade ou extensões dos departamentos universitários. Essas classes duravam normalmente três invernos de 14 sessões cada uma, complementadas com escolas de verão; os estudantes embarcavam-se nesta considerável tarefa (e a maioria, a plena satisfação) com o único propósito da instrução própria: não tinha grau ou diploma ao final, e raramente um incentivo vocacional direto. O grosso dos cursos versava sobre humanidades ou ciências sociais (teoria econômica, assuntos internacionais, história, literatura, música). Em uma boa classe tutorial de educação para adultos tinha um diálogo real entre o tutor e os estudantes, e um jovem tutor como eu mesmo tinha que enfrentar essa classe com humildade antes de adquirir experiência. (Na minha primeira classe em uma aldeia mineira do Yorkshire meridional resultou-me evidente desde as primeiras semanas que não poderia ganhar o respeito da classe até que não baixasse com eles ao poço local da mina.)

Isso era muito diferente do ensino universitário externo. Por um lado, os estudantes tinham pouco tempo para ler o suficiente, e o que atingiam a ler eram livros, mais que artigos acadêmicos especializados. (A era da fotocópia barata ainda não chegara, e não dispúnhamos de revistas acadêmicas encadernadas em volumes nas nossas estantes.) Poucos eram capazes de escrever ensaios sérios. Mas, por outro lado, o tutor esforçava-se para expor ante a classe, tão clara e equânimemente como lhe fosse possível, o estado dos conhecimentos, exposição a que costumava seguir um tempo de discussão de outra hora na que os membros da classe interrogavam ao tutor, introduziam a sua própria experiência -com frequência, pertinentemente-, e sob essa luz, avançavam os seus próprios julgamentos. Às vezes, em uma classe de história, esses julgamentos estavam insuficientemente informados, mas na classe de literatura -eu ensinava ambas coisas por igual: outra vantagem da educação para adultos- a experiência do estudante resultava superior à do tutor, o que resultava francamente gratificante.

Esta experiência da educação para adultos influiu desde depois em uma tradição da história social na Inglaterra. R.H. Tawney foi um pioneiro das classes de educação tutorial. Não sei se os Hammond participaram nisso também, mas os seus livros soam como se o tivessem feito. [13] A coisa não oferece dúvida: essa experiência influiu no meu sentido da audiência ao escrever história. O meu William Morris e A formação da classe operária na Inglaterra escreveram-se com uma audiência na cabeça composta por uma classe para adultos ou por ativistas políticos. Pouco que ver com uma audiência universitária interna. Daí a minha negligência do protocolo acadêmico ( que eu mal conhecia o rótulo). Cheguei a apreciar a diferença depois. A boa recepção da formação converteu-me em alvo da crítica acadêmica, de maneira que na minha atividade literária das duas ultimas décadas tive em mente também a essa audiência crítica. Isso fez a minha obra mais lenta e mais auto-consciente; mais cautelosa no julgamento; mais meticulosa com relação ao aparelho acadêmico. Talvez a obra ganhou em perícia profissional, mas também perdeu em outros aspectos.

Perdeu, sobretudo, o sentido do diálogo com um público. E pode ser que isso seja inevitável, devido ao isolamento estrutural e ao auto-isolamento da academia. Fez-se mais difícil conjugar academia e público general não especializado. E nisso todas as partes perdem: os escritores, a audiência do público e a academia. Porque a educação de adultos oferecia não só uma saída à universidade, senão também um rendimento de experiência e de crítica. Nesse diálogo, apareciam novas disciplinas e ensaiavam-se experimentos: por exemplo, determinada história econômica e social local, determinados temas sociológicos e culturais. E os professores viam-se obrigados a evitar o jargão profissional introvertida e a dar prioridade à difícil tarefa da comunicação. Este diálogo e este "rendimento" de experiência é profundamente necessário para a saúde intelectual da própria academia. Na sua ausência, proliferam os escolasticismos e a vida intelectual do público vê-se confiscada por quem têm uma disposição profissional a teorizar que os membros da elite intelectual (isto é, eles mesmos) são os únicos agentes livres da história, sendo todos os demais meros prisioneiros de estruturas ou de determinações (conceituais, ou de outro tipo) que lhes reduzem a não ser outra coisa que inimigos da intelectualidade ou cúmplices dos seus algozes. Não é só que isso seja falso; é que é um erro carregado de consequências. Aceita-se, em nome de uma teoria supostamente elevada, nossa fraturada vida intelectual; e reproduz-se as alienações. Mas essa é já outra história.

Notas:

[1] Manteve-se a ortografia original do manuscrito. As palavras e os cabeçalho sublinhados converteram-se em itálico. Todas as notas a rodapé são de Carlos Aguirre.

[2] Sobre Edward John Thompson (1886-1946), veja-se E.P. Thompson, Alien Homage. Edward Thompson and Rabindranath Tagore (Delhi: Oxford University Press, 1993) e Mary Lago, “India’s Prisoner.” A Biography of Edward John Thompson, 1886-1946 (Columbia: University of Missouri Press, 2001), assim como Scott Hamilton, The Crisis of Theory. E.P. Thompson, the new left and postwar British politics (Manchester: Manchester University Press, 2012), págs. 11-21

[3] William Morris: Romantic to Revolutionary (London: Lawrence & Wishart, 1955) [Tradução castelhana em Editorial Destino de Barcelona]; The Making of the English Working Class (London: Victor Gollancz, 1963) [Nova edição castelhana recente, comemorativa do cinquentenário, na editorial madrilena Capitán Swing, com prólogo de Antoni Domènech.]

[4] Dorothy Thompson (1923-2011), a mulher de Edward, foi uma historiadora social, autora, entre outras obras, de: The Chartists: Popular Politics in the Industrial Revolution (New York: Pantheon Books, 1984). Sobre a relação de Thompson (e outros historiadores) com o Partido Comunista da Grã-Bretanha, veja-se: Harvey J. Kaye, The British Marxist Historians. An Introductory Analysis (New York: Polity Press, 1984).

[5] E.P. Thompson, “Education and Experience: Fifth Mansbridge Memorial Lecture” (Leeds 1968), págs. 21-22. Este textinho incluiu-se num livro póstumo The Romantics: England in a Revolutionary Age (New York: The New Press, 1997), 4-32.

[6] New University, 6, 1961, 13-16, reproduzido em Writing by Candlelight (London: The Merlin Press, 1980), 1-10

[7] “The Heavy Dancers of the Air”, New Society, 11, Novembro 1982, 243-7, reproduzido em The Heavy Dancers (London: The Merlin Press, 1985), 1-11

[8] E.P. Thompson, “Homage to Thomas McGrath,” TriQuarterly, 70 (Primavera 1987), 116-17.

[9] C. Wright Mills, Listen Yankee: The Revolution in Cuba (New York: Ballantine Books, 1960); The Sociological Imagination (New York: Oxford University Press, 1959); The Causes of World War Three (London: Secker & Warburg, 1958).

[10] Raymond Williams, The Long Revolution (London: Chato and Windus, 1961).

[11] A história da New Left Review foi estudada por Duncan Thompson em: Pessimism of the Intellect?: A History of the New Left Review (London: Merlin Press, 2006).

[12] Jonathan Schell, The Fate of the Earth (New York: Knopf, 1982). EPT faz referência aqui ao movimento “Freeze” contra as armas nucleares. Veja-se ao respeito: Alexander Cockburn e James Ridgeway, “The Freeze Movement versus Reagan,” New Left Review, 137, Enero-Febrero 1983.

[13] Thompson refere-se a John Lawrence e Barbara Hammond, autores de numerosos e muito influentes livros de história social durante as três primeiras décadas do século XX. Veja-se ao respeito: Stewart Angas Weaver, The Hammonds: A Marriage in History (Stanford: Stanford University Press, 1998).

24 de novembro de 2013

Estourando bolhas com Paul Krugman

Por Mike Whitney [*]

CounterPunch | O "economista de alto nível" dos Estados Unidos pensa que precisamos de mais bolhas de ativos para combater as taxas de juros reais negativas e estagnação secular persistente.

Em um post controverso em seu blog, o colunista do New York Times, Paul Krugman discute que as bolhas podem ser necessárias para compensar demanda insuficiente, desemprego alto e crescimento lento. Eis um trecho do seu blog "The Conscience of a Liberal":

Sabemos que a expansão econômica de 2003-2007 foi causada por uma bolha. Você pode dizer o mesmo sobre a última parte da expansão dos anos 90; e você pode de fato dizer o mesmo sobre os últimos anos de expansão Reagan, que foi levada a esse ponto por instituições de poupança fora de controle e uma grande bolha no setor imobiliário comercial. 
Então como você pode conciliar bolhas seguidas com uma economia mostrando nenhum sinal de pressão inflacionária? A resposta de Summers é que podemos ser uma economia que precisa de bolhas apenas para conseguir algo próximo do pleno emprego – que, na ausência de bolhas a economia tem uma taxa natural negativa de juros (…) ("Secular Stagnation, Coalmines, Bubbles, and Larry Summers", Paul Krugman, New York Times)

Assim, sem bolhas, não há expansão de crédito, nem pleno emprego, nem recuperação forte? Isso soa muito como uma desculpa para manter a política atual (QE e juros zero), não é?

Mas que reivindicação audaciosa, e que triste reflexão sobre a profissão de economista, quando os seus porta-vozes mais célebres levantam as mãos em desespero e dizem: "É assim mesmo, gente. Lidem com isso", em vez de oferecer alternativas construtivas. Não é isso o que os economistas devem fazer, descobrir como nos tirar da UTI e nos levar de volta ao pleno emprego e crescimento? Eis um outro trecho do seu post:

... nós somos uma economia em que a política monetária é de fato limitada pelo limite inferior zero... e que isso corresponde a uma situação em que a taxa "natural" de juros - a taxa na qual a poupança desejada e o investimento desejado seriam iguais com o pleno emprego - é negativo... nesta situação as regras normais da política econômica não se aplicam. Como eu gosto de dizer, a virtude se torna vício e prudência torna-se loucura. (New York Times)

Ok. Então, se a principal ferramenta política do Fed, a Taxa Feds Funds, não está fazendo efeito e estimulando a demanda, o que você faz? Manter as taxas em zero por 5 ou 10 anos, enquanto o Fed bomba trilhões em reservas bancárias levando as ações para a estratosfera e inflando bolhas em todos os tipos de ativos financeiros?

Krugman parece achar que sim. E seu amigo, Larry Summers, também, cuja apresentação em uma conferência recente do Fundo Monetário Internacional (FMI) foi o catalisador para as reflexões de Krugman.

Então, vamos fazer a pergunta óbvia primeiro: Será que Summers estaria igualmente entusiasmado com bolhas de ativos, se seus ricos amigos banqueiros tivessem sentido o impacto da última bolha, ou seja, se os nove maiores bancos do país tivessem sido nacionalizados, os acionistas eliminados, os detentores de títulos tivessem sofrido perdas, a gestão fosse substituída, e os ativos tóxicos vendidos em leilões públicos pelo maior lance? Ou a opinião de Summers foi moldada pelo fato de que os bancos foram socorridos e só a "patuleia" sofreu em termos de perda do valor imobiliário (8 trilhões de dólares), empregos perdidos (14 milhões), um recorde de execuções hipotecárias (6 milhões), e uma economia dos Estados Unidos dizimada?

Meu palpite é que os sentimentos de Summers sobre bolhas de ativos não têm nada a ver com a economia e tudo a ver com os resultados. É tudo uma questão de saber de quem é a vaca que foi para o brejo. E todos nós sabemos de quem é a maior vaca que foi para o brejo; a das pessoas comuns.

E, por que Krugman finge que só agora se deu conta de que bolhas de ativos podem ser uma coisa boa? Eis uma citação do seu post:

Estou bastante irritado com Larry Summers agora. Sua apresentação na Conferência de Pesquisa do FMI está, justificadamente, recebendo muita atenção. E é o seguinte: estive pensando na mesma linha, e insinuei, eu acho, esta mesma análise em vários escritos. Mas a formulação de Larry é muito mais clara e mais convincente, e de modo geral melhor, do que qualquer coisa que eu fiz. Maldito seja, Barão Vermelho Larry Summers! (Paul Krugman, "A Consciência de um Liberal", New York Times)

Krugman faz parecer que toda a coisa da bolha de ativos apenas lhe ocorreu, o que é bobagem. Krugman tem sido um estimulador de bolha desde o começo. Eis um trecho de um artigo que ele escreveu em 2002, dizendo que Greenspan deveria inflar uma bolha imobiliária para compensar as consequências da falência das empresas ponto.com:

... a recessão de 2001 não foi uma crise típica do pós-guerra, provocada quando um Fed em combate à inflação eleva as taxas de juros e facilmente termina por um repique no mercado imobiliário e gastos dos consumidores quando o Fed diminui as taxas novamente. Esta foi uma recessão de estilo pré-guerra, um dia seguinte provocado pela exuberância irracional. Para combater esta recessão, o Fed precisa de mais do que um repique, ele precisa de mais gastos das famílias para compensar o investimento empresarial moribundo. E para fazer isso, como Paul McCulley, da Pimco, explicou, Alan Greenspan precisa criar uma bolha imobiliária para substituir a bolha da Nasdaq. (“Dubya’s Double Dip?”, Paul Krugman, New York Times).

Bem, isso é muito claro, não é? Então, se Krugman era um proponente das bolhas em 2002, por que ele age como se isso nunca lhe tivesse ocorrido até que ouvisse o discurso de Verão?

Será que é porque Krugman é um confiável liberal da situação, cujo trabalho é moldar a opinião pública? É isso? Neste caso, Krugman está tentando dignificar o meio pelo qual mais riqueza é transferida para os cleptocratas de Wall Street via bolhas de ativos. Ele também está preparando o terreno para manter as mesmas políticas extorsivas por tanto tempo quanto possível, o que o torna um ardente defensor do status quo.

Tenha em mente, este é o mesmo cara que, nos últimos cinco anos, vem dizendo que a única coisa que precisávamos para "Acabar com Esta Depressão Agora" (livro de Krugman) é ampliar os déficits orçamentários, aumentar os gastos do governo, e lançar uma nova rodada de estímulo fiscal. Agora ele deu uma guinada de 180 graus e está defendendo uma política que – de acordo com Yves Smith – do Naked Capitalism "retrata bolhas de ativos como necessárias e desejáveis". Isso é uma bela inversão, você não acha?

Krugman novamente: "Se você levar uma visão da estagnação secular a sério, isso tem algumas implicações radicais... que mesmo a regulamentação financeira melhorada não é necessariamente uma coisa boa – que pode desencorajar os empréstimos irresponsáveis num momento em que mais gastos de qualquer tipo são bons para a economia..." (New York Times)

Essa é a visão de coisas do Partido Republicano, não é? "Por que precisamos de regulação", eles dizem. "Eles simplesmente põem um amortecedor sobre o crescimento". A abordagem de Krugman é um pouco mais sutil, mas equivale à mesma coisa. Ao sugerir que vencer a estagnação é a maior prioridade, ele implicitamente legitima tudo, desde a mega-alavancagem nos bancos até empréstimos de má-fé. Este é o mais próximo que você vai chegar à malversação econômica sem que o Comitê do Prêmio Nobel bata à sua porta exigindo sua estátua de volta.

Krugman novamente: "É claro que o problema subjacente a tudo isso é simplesmente que as taxas reais de juros são muito altas. Mas, você diz, elas são negativas - taxas nominais zero menos alguma inflação esperada, pelo menos. Qual é a resposta, então? Se o mercado quer uma taxa de juros real fortemente negativa, teremos problemas persistentes até encontrarmos uma maneira de entregar tal taxa." (New York Times)

"Taxas de juros reais negativas!" "Estagnação secular persistente!" "Armadilha de liquidez, armadilha de liquidez, armadilha de liquidez!"

Ficou com medo? Você deveria ficar, afinal, é para isso que serve toda essa besteira alarmista. É só para meter medo. Com efeito, o que Krugman está dizendo é, "Isso é terrível, pessoal. O mundo vai acabar se não lidarmos com as taxas negativas rápido!... Não digam que não avisei."

Mas, esperem um pouco; o afrouxo monetário não deveria resolver o problema? Não é por isso que o Fed está bombando 85 bilhões de dólares em títulos do tesouro e MBS (Mortgage-Backed Securities) - por mês, porque as taxas estão em zero e as compras de ativos deveriam levar a política de juros para território negativo, aliviando a carga de dívida e baixando o preço do crédito?

Claro que sim, mas a histeria de Krugman apenas reforça o fato de que o programa é uma grande fraude; que não fez nada, exceto aumentar a especulação irresponsável e, ao mesmo tempo, permitir aos bancos desonestos rolarem sua maciça dívida a custo zero. (Uma rápida olhada nos últimos relatórios de crédito do Fed mostra que o crédito só está expandindo nos empréstimos estudantis e empréstimos automotivos extorsivos "subprime" que estendem o prazo do empréstimo para 84 meses! Mais uma história de sucesso do afrouxo monetário!).

Quanto à estagnação, bem, ela já está aí há muito tempo, Paul, e pouquíssimos economistas veem as bolhas de ativos como uma saída. E enquanto alguns atribuem o problema à demografia, (como Krugman) outros acham que ela está mais ligada à supressão de salário, má distribuição de renda, juros, aumento da financeirização, ou o próprio capitalismo. De acordo com os autores John Bellamy Foster e Fred Magdoff, o aumento da financeirização nos Estados Unidos foi na verdade uma resposta à estagnação que estava causando um rápido declínio na taxa de acumulação. Confira esta sinopse em Monthly Review, onde os autores explicam as origens do fenômeno e como ele abriu o caminho para o sistema financeiro de grandes dimensões que temos hoje:

Foi a realidade da estagnação econômica a partir dos anos 1970, como enfatizaram recentemente os economistas heterodoxos Riccardo Bellofiore e Joseph Halevi, que levou ao surgimento do "novo regime capitalista financeirizado", uma espécie de "keynesianismo financeiro paradoxal", pelo qual a demanda na economia foi estimulada principalmente "graças a bolhas de ativos". Além disso, foi o papel de liderança dos Estados Unidos na geração de tais bolhas — apesar do próprio enfraquecimento da acumulação de capital, juntamente com status de moeda de reserva do dólar, que tornou o capital do monopólio financeiro dos Estados Unidos o "catalisador da demanda efetiva mundo", começando na década de 1980.

Mas esse padrão de crescimento financeirizado foi incapaz de produzir rápido avanço econômico por qualquer período de tempo, e era insustentável, levando a bolhas maiores, que periodicamente estouraram, trazendo cada vez mais estagnação para a superfície.

Um elemento-chave para explicar toda esta dinâmica pode ser encontrado na taxa em queda dos salários como percentagem do rendimento nacional nos Estados Unidos. A estagnação na década de 1970 levou o capital a lançar uma guerra de classes acelerada contra os trabalhadores para conseguir lucros cortando os custos trabalhistas. O resultado foi décadas de desigualdade crescente... um declínio acentuado na participação dos salários no Produto Interno Bruto (PIB) entre o final dos anos 1960 e o presente. ("Financial Implosion and Stagnation", John Bellamy Foster e Fred Magdoff, Monthly Review).

Krugman sabe de tudo isso. Ele fez a pesquisa. Como dissemos antes, ele só está tentando dignificar o meio pelo qual os plutocratas estão nos roubando enquanto nos prepara para mais do mesmo no futuro próximo. Isso faz dele um defensor das bolhas de ativos no meu livro.

A teoria de "estagnação secular de taxas negativas" de Krugman é pura conversa fiada. O problema não é uma armadilha de liquidez, mas o que o economista Heiner Flassbeck chama de "armadilha da renda", em que rendimentos em queda e salários achatados levaram à demanda em queda e investimento fraco. Eis um trecho de um artigo recente de Flassbeck:

... os EUA hoje... Estão restritos pela demanda e a demanda está restrita pela expectativa da renda das famílias com altos níveis de desemprego... É uma história do mercado de trabalho disfuncional... alto desemprego pressiona os salários, salários pressionados pressionam o consumo e consumo pressionado não permite à economia se recuperar apesar dos enormes lucros das empresas e tentativas desesperadas de política monetária...
... mesmo políticas bem-intencionadas podem levar a resultados questionáveis se a análise subjacente é falha. A Abenomics e a maioria dos seus seguidores acadêmicos, como Paul Krugman, consideram uma armadilha de liquidez prolongada como a principal razão para a fraqueza japonesa... as expectativas diminuídas e a incerteza das famílias japonesas quanto a sua renda futura e deflação enquanto tal evitam o consumo privado de tomar um papel de liderança em uma recuperação. Mas chamar essa constelação de uma armadilha de liquidez é engano. Na verdade, a armadilha é muito mais uma armadilha de salário ou renda do que uma armadilha de liquidez. (“Japan: Why Paul Krugman doesn’t get it right and Martin Wolf has to move on”, Heiner Flassbeck, Flassbeck-Economics).

Então. Temos um vencedor!

Os problemas não são taxas negativas, estagnação secular, ou armadilhas de liquidez. São demanda, salário e distribuição. Se você pagar um salário decente às pessoas, eles têm mais dinheiro para gastar, a atividade aumenta, o desemprego cai, as vendas aumentam, as empresas reciclam seus lucros em investimento, o lucro melhora, a demanda por recursos (empréstimos) eleva as taxas, a economia cresce e o todo mundo fica feliz. Mas se você continuar esmagando o trabalho com austeridade, exportando postos de trabalho, desemprego elevado contínuo, acordos de livre comércio regressivos, cortes em programas sociais vitais, e políticas monetárias falsas que servem apenas aos ricos, então a demanda enfraquece, as expectativas das pessoas quanto ao futuro pioram, e a economia para... Foi o que ocorreu.

A boa notícia é que arrumar a economia é possível. Os trabalhadores norte-americanos só precisam de um aumento de salário e uma parcela maior nos ganhos de produtividade. Colocar dinheiro nas mãos das pessoas que vão gastá-lo é o caminho mais rápido para fortalecer a recuperação.

A má notícia é os caras que controlam o dinheiro gostam da maneira como as coisas estão agora. O que significa que esta quase-Depressão provavelmente ainda vai se arrastar por um bom tempo.

[*] Mike Whitney mora no estado de Washington. Contribuiu na produção do livro: Hopeless: Barack Obama and the Politics of Illusion. Ele pode ser contactado em fergiewhitney@msn.com.

O declínio dos Estados Unidos (e de todos os outros…)

Por James Petras

The Official James Petras Website | A economia política mundial é um mosaico de correntes cruzadas. A decadência doméstica e o enriquecimento da elite, novas fontes para maiores lucros e um desencantamento político cada vez maior, o declínio de níveis de vida para luxos cada vez mais extravagantes, para uns poucos, perdas militares em algumas regiões, com recuperação imperial em outras. Há clamores de uma configuração unipolar, multipolar e até não-polar de poder mundial. Onde, quando e a que ponto são estas afirmações válidas?

Bolhas e explosões vão e vêem. Falemos antes dos "beneficiários": aqueles que causam colapsos, e arrancam as melhores recompensas enquanto as suas vítimas não têm sequer direito a uma palavra. A economia da fraude e o estado criminoso prosperam promovendo a perversão da cultura e da iliteracia. O "jornalismo investigativo", ou reportagem de buraco de fechadura, é a moda. O mundo do poder gira descontrolado. Ao declinar os poderes no poder declaram "é a nossa lei ou a ruína de todos".

Configuração global do poder

O poder é uma relação entre classes, estados e instituições militares e ideológicas. Qualquer configuração de poder é contingente em lutas passadas e presentes refletindo uma correlação de forças em mudança. Estruturas e recursos físicos, concentração de riqueza, armas e informação têm grande importância, constituem a moldura em que os manipuladores do poder se inserem. Mas estratégias para reter ou conseguir poder dependem de alianças seguras, entrada em guerra e negociações de paz. Acima de tudo, o poder mundial depende da força dos fundamentos domésticos. Isso requer uma economia produtiva dinâmica, um estado independente livre de ligações estrangeiras incômodas e de uma classe dirigente capaz de dominar recursos globais para "comprar" o consentimento local da maioria.

Para examinar a posição dos Estados Unidos na configuração global de poder é necessário analisar as suas relações políticas e econômicas em mudança a dois níveis: por região e por esfera de poder. A História não se move em padrões lineares ou de acordo com círculos recorrentes: derrotas militares e políticas em algumas regiões podem ser acompanhadas por vitórias significativas em outras. O declínio econômico em algumas esferas e regiões pode ser acompanhado por avanços pronunciados em outros setores econômicos e regiões.

Na análise final, o problema não é manter o cartão de marcação ou adicionar lucros e subtrair perdas, mas traduzir os resultados regionais e setoriais em uma compreensão da direção e estruturas emergentes da configuração do poder global. Comecemos por examinar o legado de guerras recentes na economia global, poder político e militar dos Estados Unidos.

Manter o Império norte-americano: derrotas, retrocessos, avanços e vitórias

A opinião dominante dos analistas mais críticos é que na última década o império norte-americano sofreu uma série de derrotas militares, entrou em declínio econômico, e enfrenta agora uma competição séria e a previsão de mais derrotas militares. A evidência apresentada é impressionante. Os Estados Unidos foram forçados a retirar tropas do Iraque, após uma longa década de ocupação militar muito dispendiosa, deixando um regime ainda mais aliado ao Irã, o adversário regional dos Estados Unidos. A guerra do Iraque enfraqueceu a economia, retirou riqueza em petróleo às corporações americanas, fez crescer muito o orçamento de Washington e os déficits comerciais e reduziu o nível de vida dos cidadãos americanos. A guerra do Afeganistão teve um resultado semelhante, com grandes custos externos, retirada militar, clientes frágeis, desinteresse doméstico e poucas ou nenhumas transferências de riqueza (pilhagens imperiais) para o Tesouro dos Estados Unidos ou corporações privadas. A guerra na Líbia destinou-se à destruição total de uma economia moderna rica de petróleo no norte de África, a dissolução total da sociedade civil e de estado e a emergência de milícias tribais armadas e fundamentalistas contra os Estados Unidos e estados clientes da União Europeia do Africa do norte e subsaariana. Em vez de continuar a aproveitar de acordos lucrativos de gás e petróleo com o regime conciliatório de Kadhafi, Washington decidiu uma "mudança de regime" entrando numa guerra que arruinou a Líbia e destruiu qualquer estado central viável. A "proxy war" atual na Síria fortaleceu os senhores da guerra islâmicos radicais, destruiu a economia de Damasco e aumentou a pressão maciça de refugiados, que se juntaram aos milhares das guerras do Iraque e da Líbia. As guerras imperiais dos Estados Unidos resultaram em perdas econômicas, instabilidade regional política e militar e lucros militares para os adversários islâmicos.

A América Latina rejeitou em bloco os esforços norte-americanos para derrubar o governo venezuelano. O mundo inteiro à exceção de Israel e de Washington rejeitou o bloqueio de Cuba. Regiões de integração regional, que excluíram os Estados Unidos proliferam. As quotas norte-americanas declinaram já que a Ásia está a substituir os Estados Unidos no mercado da América Latina.

Na Ásia, a China aumenta e aprofunda os seus laços econômicos com todos os países chave, enquanto o "pivot" norte-americano é essencialmente um esforço em um círculo de bases militares que envolvem o Japão, Austrália e as Filipinas. Por outras palavras, a China é mais importante do que os Estados Unidos para a expansão econômica asiática, enquanto o financiamento chinês do comércio americano aumenta na economia norte-americana.

Em África, as operações militares norte-americanas promovem essencialmente conflitos armados e levam a uma instabilidade maior. Enquanto os capitalistas asiáticos investem essencialmente em países africanos estratégicos, recolhem os lucros do seu "boom" de mercadoria, alargando os mercados e os lucros.

A denúncia da rede global de espionagem Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos feriu seriamente as operações globais clandestinas de vigilância. Embora tenha podido ajudar corporações privilegiadas privadas, o investimento maciço norte-americano no ciber-imperialismo parece ter gerado um retorno diplomático e operacional negativo para o estado imperial.

Em resumo, a visão global apresenta um quadro de revezes militares e diplomáticos nas políticas imperiais, perdas substanciais no Tesouro norte-americano e na erosão de apoio público. Mas esta perspectiva tem falhas sérias, especialmente no que diz respeito a outras regiões, relações e esferas de atividade econômica. As estruturas fundamentais do império permanecem intactas.

A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), a principal aliança militar chefiada pelo Pentágono norte-americano, expande os seus membros e aumenta o seu campo de operações. Os Estados Bálticos, principalmente a Estônia, são o local de enormes exercícios militares quase ao lado das principais cidades da Rússia. Até há muito pouco tempo, a Ucrânia aproximava-se da União Europeia e a um passo da OTAN.

A Sociedade Trans-Pacífica liderada pelos Estados Unidos aumentou a sua presença nos países andinos, Chile, Peru e Colômbia. Serve como mola para enfraquecer os blocos comerciais regionais como o MERCOSUL e a ALBA, que excluem Washington. Entretanto a CIA, o Departamento de Estado e os seus canais ONGs estão empenhados numa sabotagem econômica externa e em uma campanha para enfraquecer o governo nacionalista da Venezuela. Os banqueiros norte-americanos e os capitalistas trabalham para sabotar a economia, provocando a inflação (50%), falta de bens essenciais de consumo e cortes de energia. O seu controle sobre a maior parte da informação na Venezuela permite-lhes explorar o descontentamento popular culpando a deslocação popular devido à ineficiência do governo.

Acima de tudo, a ofensiva norte-americana na América Latina centrou-se num golpe militar nas Honduras, sabotagem econômica permanente na Venezuela, campanhas eleitorais e de informação na Argentina, e ciber-espionagem no Brasil, enquanto criam laços mais fundos com os regimes neoliberais recentemente eleitos complacentes no México, na Colômbia, no Chile, no Panamá, Guatemala e na República Dominicana. Enquanto Washington perdeu influência na América Latina durante a primeira década no século XXI só parcialmente recuperou os seus clientes e sócios. A recuperação relativa da influência norte-americana ilustra o fato de que "mudanças de regime" e um declínio em quotas de mercado, não enfraqueceram os laços financeiros e corporativos ligando até os países progressistas aos poderosos interesses norte-americanos. A presença contínua de aliados poderosos políticos — mesmo os de "fora do governo" — permitem um trampolim para o aumento da influência norte-americana. Políticas nacionalistas e projetos de integração regional permanecem vulneráveis aos contra-ataques norte-americanos.

Enquanto os Estados Unidos perderam influência em alguns países produtores de petróleo, diminuiu a sua dependência das importações de petróleo e gás como resultado de um grande aumento na produção de energia doméstica via «fracking» e outras tecnologias extractivas intensas. Uma auto-suficiência local maior significa menores custos de energia para os produtores domésticos e aumenta a sua competitividade em mercados mundiais, acrescendo a possibilidade de que os Estados Unidos possam recuperar quotas no mercado das suas exportações.

O aparente declínio da influência imperial dos Estados Unidos no mundo árabe, devido à popular "primavera árabe" parou e até reverteu. O golpe militar no Egito e a instalação e consolidação da ditadura militar no Cairo suprimiu as mobilizações populares de massas. O Egito voltou à órbita dos Estados Unidos. Na Argélia, Marrocos e Tunísia os governos antigos e novos evitam novos protestos anti-imperialistas. Na Líbia, a força aérea da OTAN norte-americana destruiu o regime nacionalista-popular de Kadhafi, eliminando um modelo alternativo de comércio à pilhagem neocolonial — mas não conseguiu até agora consolidar um regime cliente neoliberal em Trípoli. Em vez das gangues rivais armadas islâmicas, os assassinos étnicos monárquicos pilham e devastam o país. A destruição de um regime anti-imperialista não engendrou um cliente pró-imperialista.

No Oriente Médio , Israel continua a desapossar os Palestinianos da terra e da água. Os Estados Unidos continuam a aumentar as manobras militares e a impor mais sanções econômicas contra o Irã — enfraquecendo Teerã mas também diminuindo a riqueza e influência dos Estados Unidos devido à falta do mercado Iraniano lucrativo. Como na Síria, e os seus aliados da OTAN destruíram a economia da Síria e a sua sociedade complexa, mas não serão os maiores beneficiários. Mercenários islâmicos conseguiram bases de operação enquanto o Hezbollah consolidou a sua posição como um interveniente regional significativo. Negociações atuais com o Irã abrem possibilidades aos Estados Unidos de minorar as suas perdas e reduzir a ameaça regional de uma nova guerra dispendiosa mas essas conversações estão a ser bloqueadas por uma "aliança" de um Israel militarista e sionista, a Arábia Saudita monárquica e a França "socialista".

Washington tem perdido influência económica na Ásia para a China mas está a montar uma contra-ofensiva regional, baseada na sua rede de bases militares no Japão, nas Filipinas e na Austrália. Está a promover um novo acordo económico pan-pacífico que exclui a China. Isso demonstra a capacidade dos Estados Unidos de interferir e aumentar lucros imperiais. Mas anunciar novas políticas e organizações não é o mesmo que implementá-las e dar-lhes conteúdo dinâmico. Mas o cerco militar à China é anulado pela dívida de triliões de dólares a Pequim. Um cerco militar agressivo à China podia resultar numa venda maciça de dólares do Tesouro Americano e quinhentos investidores principais americanos a verem voar os seus investimentos.

O poder dividido entre um poder estabelecido e um emergente, tal como a China e os Estados Unidos, não pode ser «negociado» via superioridade militar norte-americana. Ameaças e chicanas diplomáticas são meras vitórias diplomáticas mas só avanços económicos a longo prazo podem criar os cavalos de Tróia domésticos necessários para erodir o crescimento dinâmico da China. Mesmo hoje, a elite chinesa despende enormes somas para educar os seus filhos em «prestigiadas» universidades inglesas e norte-americanas onde são ensinadas doutrinas de economias de mercado livre e narrativas imperialistas. Na passada década, políticos chineses influentes e investidores ricos enviaram triliões de dólares em operações lícitas e ilícitas para bancos no exterior, investindo em grandes propriedades na América do Norte e na Europa e despachando milhões para paraísos fiscais. Hoje, há uma facção poderosa de economistas e conselheiros de elite financeira na China a forçar «a liberalização financeira», ou seja, a entrada da especulação especializada de Wall Street e da City de Londres. Enquanto as indústrias chinesas podem estar a ganhar a competição nos mercados estrangeiros, os Estados Unidos conseguiram e estão a conseguir superar os patamares da estrutura financeira da China.

A quota norte-americana na América Latina pode estar a declinar, mas o valor absoluto do dólar comercial aumentou muito em relação à última década.

Os Estados Unidos podem ter perdido clientes da ala direita na América Latina, mas os novos regimes centro-esquerda estão a colaborar activamente com a maioria das grandes companhias de mineração americanas e canadianas e com as casas de câmbio. O Pentágono não tem conseguido montar golpes militares, com a patética excepção das Honduras, mas ainda mantêm as suas relações estreitas com os militares da América Latina sob a forma de (1) política regional de «terrorismo», «narcotráfico» e «imigração», (2) dando treino técnico e doutrinação politica através dos programas «educacionais» militares e (3) e treinamento militar conjunto.

Em resumo, as estruturas do império norte-americano, corporativas, financeiras, militares e político-culturais, todas permanecem no mesmo lugar, prontas a recuperar o domínio se e quando surgirem as oportunidades políticas. Por exemplo, um declínio agudo no preço de mercadorias provocaria igualmente uma crise funda e intensificaria os conflitos de classe entre os regimes centro-esquerda, que são dependentes de exportações agro-mineiras para ter fundos para os programas sociais. Em qualquer confrontação os Estados Unidos trabalhariam com e através dos seus agentes nas elites económica e militar para os regimes incumbentes e re-impor clientes neo-liberais.

A fase actual de políticas pós neo-liberais e configurações de poder está vulnerável. O «declínio relativo da influência e poder» dos Estados Unidos podem ser revertidos mesmo que não regressem à sua configuração anterior. O ponto teórico é que enquanto as estruturas imperialistas permanecem no lugar e enquanto as suas contrapartidas no exterior mantêm posição estratégica, os Estados Unidos podem restabelecer a sua primazia na configuração global de poder.

A redução de preços imperial não requer os «mesmos rostos de sempre». Novas figuras políticas, especialmente com credenciais progressistas e tons leves de uma ideologia «social impulsionaria» já jogam um papel nas novas redes centradas no império. No Chile, o novo presidente «socialista» Michele Bachelet, e no Peru o ex-nacionalista peruano, o presidente Ollanta Humala, são os maiores impulsionadores da Sociedade Trans-Pacífico, um bloco comercial que compete com o Mercosul nacionalista e a Alba, e exclui a China. No México, o cliente dos Estados Unidos presidente Enrique Peña Nieto está privatizar a «jóia» da economia mexicana, PEMEX, a gigantesca companhia pública de petróleo — aumentando o poder de Washington sobre os recursos de energia regionais e aumentando a independência americana do petróleo do Oriente Médio. O presidente colombiano Santos, o «presidente da paz», está a negociar com entusiasmo o fim da guerrilha para expandir a exploração multinacional dos minérios e dos recursos energéticos localizados nas regiões da guerrilha, um projecto que vai beneficiar essencialmente as companhias petrolíferas dos Estados Unidos. Na Argentina, a companhia petrolífera estatal, Yacimientos Petrolíferos Fiscales (YPF) assinou um acordo de «joint venture» com o gigante petrolífero Chevron, para explorar uma jazida enorme de gás e petróleo, conhecida como Vaca Muerte. Isso incrementará a presença norte-americana na Argentina na produção de energia juntamente com as maiores incursões feitas pela Monsanto no poderoso sector agro-comercial.

Indubitavelmente a América Latina diversificou o seu comércio e os Estados Unidos decresceram. Os dirigentes da América Latina já não precisam tanto da «aprovação» do embaixador americano antes de anunciar os seus candidatos políticos. Os Estados Unidos estão completamente sozinhos no seu boicote a Cuba. A Organização dos Estados Americanos já não é um paraíso dos Estados Unidos. Mas há contra-tendências, reflectidas no novo pacto como TPP. Novos locais de exploração económica, que não são exclusivamente controladas pelos Estados Unidos, servem agora como molas para um maior poder imperial.

Conclusão

A economia norte-americana está estagnada e ainda não conseguiu voltar a levantar-se devido à sua busca de guerras imperiais em série. Mas, no Médio Oriente, o declínio dos Estados Unidos em comparação com o passado não tem sido acompanhado pela subida dos velhos rivais. A Europa está em grandes apuros, com um grande exército de desempregados, aumento crônico negativo e poucos sinais de recuperação num futuro próximo. Mesmo a China, o novo poder emergente global, está a decrescer de 11% para 7% na década atual. Pequim enfrenta um descontentamento popular crescente, a Índia como a China, estão a liberalizar os seus sistemas financeiros, abrindo-os à penetração e influência do capital financeiro dos Estados Unidos.

As principais forças anti-imperialistas na Ásia e na África não se compõem de movimentos progressistas, seculares, democráticos e socialistas. Em vez disso, o império é confrontado com movimentos religiosos, étnicos, misóginos e autoritários com tendências de redenção. As antigas vozes seculares socialistas perderam o seu poder e apresentam "justificativas perversas" para as guerras imperialistas de agressão na Líbia, Mali e Síria. Os socialistas franceses, que em 2003 se opuseram à guerra do Iraque, ouvem o seu presidente François Hollande a papaguear sobre o militarismo brutal do senhor da guerra de Israel, Netanyahu.

A verdade é que a tese do "declínio do império norte-americano" e o seu corolário, a "crise dos Estados Unidos" estão sublinhadas, limitadas e sem especificidade. Na verdade, não há alternativa imperial ou tendência moderna anti imperial para já. Enquanto é certo que o capitalismo ocidental está em crise, o capitalismo asiático emergente da China e da Índia enfrenta uma crise diferente resultante da sua exploração de classes selvagem e da suas mortíferas relações de casta. Se as condições objectivas estiverem "maduras para o socialismo", os socialistas, pelo menos os que têm presença política estão confortavelmente inseridos nos seus respectivos regimes imperiais. Os socialistas e marxistas no Egito uniram-se aos militares para derrubar um regime islâmico conservador eleito, levando à restauração do clientismo imperialista no Cairo. Os "marxistas" franceses e ingleses apoiaram a destruição da Líbia e da Síria pela OTAN. Numerosos progressistas e socialistas, na Europa e na América do Norte, apoiaram os senhores da guerra de Israel e/ou permaneceram silenciosos perante o poder dos sionistas nos ramos executivos e legislaturas.

Se o imperialismo está a declinar, também o anti-imperialismo está. Se o capitalismo está em crise, os anticapitalistas também estão. Se os capitalistas procuram novos rostos e ideologias para reforçar as suas fortunas, não estará na hora de os anti-imperialistas e os anticapitalistas fazerem o mesmo?