29 de dezembro de 2013

A reinvenção da América Latina

Se até agora sua inserção com o resto do mundo esteve condicionada pela presença das potências imperiais, com o novo século começou a trilhar outro caminho.

Luis Hernández Navarro

América Latina en Movimiento

Em 1958, o historiador mexicano Edmundo O’Gormam publicou um livro intitulado La invención de América, com o qual sacudiu a historiografia dedicada a documentar e explicar o descobrimento e a conquista americana. Inventar, significa, de acordo com o dicionário da Real Academia da Língua, achar ou descobrir algo novo ou não conhecido.

Em seu texto, O´Gormam explica, de maneira nova para seu tempo, a forma em que o relato sobre a história e o devenir do “novo continente” foi construído. Hoje, retomando essa imagem, podemos dizer que América Latina está se reinventando.

O conceito América Latina tem por trás de si uma longa história. Muitos anos antes de que O’Gormam publicasse sua obra, em 1857, o escritor colombiano José María Torres escreveu em seu poema Las dos Américas as chaves do novo imaginário regional: “Mais isolados se encontram, desunidos/Esses povos nascidos para aliar-se:/A união é seu dever, sua lei amar-se:/Igual origem têm e missão; /A raça da América latina, /A frente tem a saxã raça, /Inimiga mortal que já ameaça”.

Pouco antes, em 1856, o filósofo chileno Francisco Bilbao, havia usado, durante uma conferência, o mesmo termo.

A região está em um processo de reinvenção porque sua visão de si mesma, seu destino como território e sua relação com as grandes potências, especialmente com os Estados Unidos, está se transformando radicalmente. Se, até agora, sua inserção com o resto do mundo esteve condicionada pela presença das potências imperiais (Espanha, Portugal, Inglaterra, França e Estados Unidos), com o novo século começou a construir-se como um conglomerado de nações com processos de integração crescentemente soberanos.

Trata-se de um processo complexo, ambíguo, em algumas ocasiões contraditório, que não avança em linha reta, no que nem tudo está definido e cujo destino final não está ainda escrito. Um processo no qual suas riquezas naturais, como a abundância de água doce (cerca da metade do planeta), suas reservas de petróleo e gás, seus recursos minerais e a riqueza de sua biodiversidade, desempenham um papel central.

Como sinais distintivos dessa reinvenção se encontram, entre outras, a refundação de vários Estados nacionais a partir de Assembleias Constituintes; a ruptura com o Consenso de Washington; a recuperação de sua soberania petrolífera, de seus recursos naturais e bens estratégicos; o pôr em prática de políticas de inclusão social, redistribuição da renda e reconhecimento da diversidade cultural; a existência de poderosos movimentos sociais emancipatórios, e a assinatura de acordos de integração regional guiados pela ideia da cooperação, a complementação econômica e a ajuda mútua.

Essa reinvenção da América Latina implica, obrigatoriamente, uma nova redefinição de seu lugar na orbe, no qual abandone seu lugar como “pátio dos fundos” dos Estados Unidos. Um novo papel internacional no que tem como ferramentas medulares, a construção de foros e entidades regionais sem a presença de Washington – Mercosul, Unasul, Alba e Celac – e a diversificação das relações econômicas, comerciais e tecnológicas com nações que, em outras zonas do planeta, fazem contrapeso geopolítico a Washington, como a China, a Rússia e o Irã.

O fim da Doutrina Monroe

O último dia 18 de novembro, na sede da Organização dos Estados Americanos (OEA), o secretário de Estado John Kerry, anunciou o fim da era da Doutrina Monroe e a decisão dos Estados Unidos de compartilhar responsabilidades com os outros países do continente e tomar decisões como companheiros no marco de uma relação de iguais.

Entretanto, tão logo como foi proclamado, esse suposto fim do velho enunciado colonialista redigido por John Quincy Adams e enunciado pela primeira vez pelo presidente James Monroe – A América para os americanos –, foi desmentido pelo chefe da diplomacia estadunidense. Contradizendo suas palavras, marcou a agenda de seu país para a região: promover a democracia, melhorar a educação, adotar novas medidas de proteção ambiental e desenvolver o mercado energético. E, emendando, criticou a os governos de Cuba e Venezuela.

O fim da Doutrina Monroe tem, como pano de fundo, uma perda relativa da influência de Washington na região, não como produto de uma decisão da superpotência, mas como resultado das lutas dos movimentos sociais e a eleição de governos progressistas que reivindicam a recuperação da soberania, a ruptura com o neoliberalismo e a integração latino-americana. Esses projetos modificaram o esquema de relação com os Estados Unidos.

Entretanto, esta mudança não implicou, nem muito menos, o fim do domínio estadunidense na região. O Império está muito longe de ser um tigre de papel. Apesar dos problemas que enfrenta em todo o mundo e do surgimento de novos eixos de poder, sua supremacia militar, o vigor de suas empresas e investimentos, sua capacidade para condicionar os fluxos comerciais a seu favor, a hegemonia semântica de suas indústrias culturais e a fortaleza de suas agroindústrias o convertem na única potência estratégica global.

Estados Unidos é o país com maiores gastos militares no mundo. Em 2011, seu orçamento para este ramo representou 40% dos gastos totais no planeta, seguido, muito de longe, pela China e pela Rússia. É, também, o principal fabricante e exportador de armamento. Este predomínio tem atrás de si uma poderosa base produtiva. Lockheed Martin, Boeing e BAE Systems lideram a indústria militar mundial. As duas primeiras são estadunidenses.

Seu poderio e superioridade bélica se complementam com as 827 bases militares no mundo, 27 delas na América Latina. Em abril de 2008, restabeleceu o funcionamento de sua IV Frota, responsável pelas operações no Caribe, América Central e América do Sul.

Apesar de suas dificuldades, a economia estadunidense continua sendo a de maior grandeza do planeta. Seu PIB nominal representa uma quarta parte do PIB nominal mundial. Das 500 maiores empresas do mundo, 133 têm sua sede nos Estados Unidos, o dobro do total de qualquer outro país. Por vendas, 8 das 10 principais companhias da orbe são estadunidenses; por valor, 9 de cada 10, por tecnologias da informação e comunicação, 3 das 4 primeiras. Este Império conserva, a pesar das relocalizações, um relevante e competitivo setor industrial, especializado em alta tecnologia, que elabora 20% da produção manufatureira da terra. Seu mercado financeiro é o maior.

Para a Casa Branca, a comunicação e as novas tecnologias associadas a elas foram, desde a década de 50 do século XX, assunto de Estado. Sabe-se que quem conduzir a revolução informática será quem disporá do poder no futuro. Os artigos culturais e de entretenimento são uma de suas principais geradoras de divisas. Sua presença ultrapassa a esfera exclusivamente mercantil: seus produtos vendem um estilo de vida, são parte de uma hegemonia semântica.

Os Estados Unidos são o maior exportador agrícola mundial e mandam a metade de seu trigo e soja e três quartos de sua colheita de algodão a compradores internacionais. A China é o principal destino das vendas neste terreno.

A presença de Washington na América Latina em todos estes ramos é notável. É o principal abastecedor de armas para a região, apesar da crescente exportação russa e chinesa. De longe, é a potência militar mais influente na área. É, também, o principal investidor estrangeiro direto. Todo tipo de empresas desse país faz negócios no hemisfério.

Apesar da crescente presença chinesa, os consumidores latino-americanos compram em seus países uma vasta variedade de mercadorias com o selo “Made in USA”. As exportações de automóveis, computadores, milho, trigo, séries de televisão, carnes, filmes, sucos e frutas congeladas, celulares, brinquedos, cosméticos, combustíveis e aeronaves não cessam. Dos 20 acordos de livre comércio que os Estados Unidos têm com diversos países no mundo, a metade deles foram firmados com nações latino-americanas e do Caribe. Em 2011, as exportações de produtos estadunidenses aos países deste sub-continente alcançaram 347 bilhões de dólares. O aumento de 54% nas exportações para a região, é maior que a taxa média de crescimento de exportações com o resto do mundo. Aproximadamente 85% dos bens que comercializa Washington entram livres de impostos no Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, El Salvador, Guatemala, Honduras, Nicarágua, México, Panamá e Peru.

Como se fosse pouco, como afirmou Juliam Assange, 98% das telecomunicações da América Latina até o resto da orbe passam pelos Estados Unidos, incluídos mensagens de texto, chamadas telefônicas, correios eletrônicos. Esse país tem à mão a informação de como se comporta a região, o caminho que seguem as transações econômicas, o comportamento e as opiniões dos principais atores políticos.

Ainda que formalmente declare o fim da Doutrina Monroe, seu intervencionismo na região é evidente, através de temas como o narcotráfico, o terrorismo e a migração, além de sua participação “discreta” em golpes brandos como os registrados em Honduras e Paraguai. Sua influência se faz sentir, também, na aposta pela Aliança do Pacífico, como contrapeso aos outros processos de integração da América Latina.

O dragão chinês

A atual bonança econômica da América Latina está estreitamente associada à entrada da China no hemisfério. O dragão asiático é um voraz consumidor dos alimentos, minerais, metais e combustíveis que se produzem na região. O investimento desse país foi central em permitir à área enfrentar sem grandes descalabros a recessão econômica de 2009.

A presença chinesa no hemisfério aumenta aceleradamente em todos os ramos: intercâmbios comerciais, investimentos diretos, financiamento e, inclusive, atividades culturais. Salvo um declive no crescimento ou graves conflitos políticos na nação asiática, nada parece indicar que esta tendência vá desaparecer.

Os investimentos da pátria de Mao Tse tung na América Latina aumentaram de 15 bilhões de dólares em 2000, para 200 bilhões em 2012. Em 2017 poderia alcançar a cifra de 400 bilhões. O volume de comércio deste país com o Brasil, o Chile e o Peru superou o que estas nações tiveram com os Estados Unidos. O gigante oriental foi, também, o segundo destino comercial da Argentina, Costa Rica e Cuba. Cerca de 40% das exportações agropecuárias da região vão para este país.

Os investimentos diretos da China na área em 2011 superaram os 8,5 bilhões de dólares. E, entre 2005 e 2011, concedeu empréstimos a países do hemisfério por 75 bilhões de dólares. Se trata de investimentos e empréstimos não condicionados à aceitação de dogmas de desenvolvimento, considerações ideológicas ou critérios estritamente políticos. Eles falam sempre de cooperação e apoio mútuo.

Segundo informa o periódico El País, a dependência da economia da América Latina com a China é tão grande, que a cada 1% que cresce o PIB no país asiático, aumenta 0,4% na região; a cada 10% que cresce o dragão asiático, se incrementam as exportações do hemisfério em 25%.

A crescente presença da China em uma área que tradicionalmente foi zona de influência estadunidense, não se topou com a animadversão de Washington. O Império tem tentado conter e administrar o impacto da potência oriental e circunscrevê-lo à esfera estritamente econômica. Por sua vez, Pequim tem atuado com cautela e tem deixado claro que sua intenção é ampliar suas fronteiras econômicas.

Entrevistado pelo El País, Daniel P. Eriksan, assessor do escritório para o Ocidente do Departamento de Estado dos Estados Unidos, disse, cauteloso, que a crescente economia do país asiático lhe obriga a procurar novos mercados, uma necessidade que também compartilha a América Latina pelos mesmos motivos.

O urso russo e as mineradoras canadenses

Impulsionada pelas crescentes vendas de armamento para a América Latina, a Rússia começou a redesenhar sua presença na região. Entre os quinquênios 1999-2003 e 2004-2008, as exportações de armamento do urso ao hemisfério cresceram em 900%. Se trata de seu novo mercado de produtos bélicos mais relevante. A Rússia abastece equipamento militar à região em melhores condições de pagamento e de entrega, também sem condicionamentos políticos. Com a Venezuela, realizou manobras militares conjuntas.

Seus negócios na região, entretanto, vão além desse assunto. O antigo império dos czares investe na área, também, em petróleo, metalurgia, moradia, hidroelétrica e fabricação de ônibus.

A principal carta de apresentação do Canadá na América Latina são suas empresas mineradoras. Segundo dados de 2008 as empresas canadenses controlam aproximadamente 37% da produção mineral. Atualmente estão ativas 286 empresas e 1500 projetos, ainda que nem todos em exploração. Todas elas deixaram um caudal de evasão fiscal, saqueio, contaminação massiva, problemas de saúde pública, corrupção, desapropriações, violência contra opositores.

O Canadá é a principal potência mineira do mundo. Cerca de 75% das mineradoras da orbe se registram no Canadá e 60% emitem suas ações na Bolsa de Valores de Toronto. Muitas delas são só formalmente canadenses porque, na verdade, são companhias com capitais australianos, suecos, israelenses, belgas e estadunidenses.

A legislação mineira canadense é flexível e em seu regime impositivo generosa com os investidores. Eles são favorecidos em seu financiamento e no terreno diplomático e jurídico. As empresas que cotizam na Bolsa podem pôr em valor potenciais jazidas. De fato, algumas tiram seus lucros da especulação na bolsa em torno de jazidas potenciais.

Em todos os países da América Latina no qual operam mineradoras canadenses a céu aberto se produziram severos conflitos comunitários. Essa é hoje a marca distintiva das relações estabelecidas entre a América Latina e seu outro vizinho do norte.

A América Latina está em um processo de reinvenção como hemisfério. Seu futuro não está ainda definido, seu destino final não está escrito. O hemisfério está redefinindo sua inserção no mundo.

Na última década, a região obteve ingressos extraordinários pela venda de matérias primas, e capitais para o investimento de valores, exacerbados por liquidez abundante alimentada pelos bancos centrais do mundo e taxas de juros historicamente baixas. Mas hoje, esse ciclo, aponta para seu fim. Por isso, sua reinvenção implica necessariamente, uma redefinição de sua inserção em um mundo multipolar, no qual modifique seu atual papel de provedor de matérias primas, que o coloca em uma situação frágil e vulnerável, para alcançar um tipo de indústria com tecnologia de ponta e o desenvolvimento das manufaturas, ao mesmo tempo que desenvolve seu mercado interno com equidade e justiça. Se não conseguir, seus sonhos de integração e independência, anunciados por José María em seu poema Las dos Américas, serão muito difíceis de realizar.

Oligarcas, demagogos e revoltas de massas contra a democracia

Por James Petras [*]

[The Official James Petras Website] Na Roma antiga, especialmente no fim da República, oligarcas recorreram à violência das multidões para impedir, intimidar, assassinar ou tirar do poder a facção dominante do Senado. Ainda que nem a facção dominante nem a oposição representassem os interesses da plebe, dos trabalhadores assalariados, pequenos agricultores ou escravos, o uso das “multidões” contra o Senado eleito, o princípio do governo representativo e o governo da República, estabeleceram a base para a ascensão dos autoritários “Césares” (líderes militares) e a transformação da República Romana num estado imperialista.

Demagogos, a soldo de pretendentes a imperadores, acicataram os ânimos de uma turba diversificada de entre a população mais desfavorecida e descontente, vadios e ladrões (latrones), com promessas, dinheiro e garantia de posições numa nova ordem. Amotinadores profissionais cultivavam laços com os oligarcas “acima” deles e com os manifestantes “abaixo”. Deram voz às “queixas da população” e articularam protestos questionando a legitimidade dos governantes em exercício, enquanto preparavam o terreno para o governo de uma minoria. Normalmente, quando os oligarcas que pagavam chegavam ao poder numa toada de violência popular manipulada, rapidamente suprimiam as manifestações, pagavam aos demagogos pela via do clientelismo no novo regime ou recorriam discretamente a assassinatos no caso dos “líderes de rua” que se recusassem a reconhecer a nova ordem. Os novos governantes mandavam os velhos senadores para o exílio, expulsavam-nos e tiravam-lhes as suas posses, manipulavam novas eleições e autoproclamavam-se “salvadores da República”. Tiravam os camponeses das suas terras, renunciavam ao cumprimento de obrigações sociais e não pagavam subsídios alimentares às famílias urbanas pobres nem fundos para obras públicas.

O uso da violência das multidões e dos “protestos de massas” desempenhava muitos papéis: (1) servia para destabilizar um regime eleitoral; (2) fornecia uma plataforma para os oligarcas que os financiavam deporem um regime incumbente; (3) iludia o fato de que a oposição oligarca perdera eleições democráticas; (4) dava à minoria política uma “aparência de legitimidade”, quando ela era incapaz de atuar num quadro constitucional e (5) permitia a tomada ilegítima do poder em nome de uma pseudo-maioria, nomeadamente as “multidões na praça central”.

Alguns comentadores de esquerda apresentam dois argumentos contraditórios: por um lado, alguns simplesmente reduzem o ataque ao poder, por parte da oligarquia, a uma “luta entre elites” que nada tem que ver com os “interesses da classe trabalhadora”, enquanto outros mantêm que as “massas” nas ruas protestam contra um “regime elitista”. Alguns argumentam mesmo que, com exigências populares e democráticas, estas revoltas são progressistas e deveriam ser apoiadas como um “terreno para a luta de classes”. Por outras palavras, a “esquerda” deveria juntar-se às revoltas e contestar a liderança dos oligarcas nas revoltas encenadas!

O que estes progressistas não querem reconhecer é que os oligarcas que manipulam estas revoltas de massas são líderes autoritários que rejeitam completamente os processos democráticos e eleitorais. O seu objetivo é estabelecer uma “junta” que elimine todas as instituições democráticas políticas e sociais e imponha políticas e instituições mais repressivas e reacionárias do que as que substituem. Algumas pessoas de esquerda apoiam as “massas revoltosas” apenas devido à sua “militância”, número, e a coragem de vir para a rua, sem verem quem são os seus líderes, os seus interesses e ligações à elite que beneficia de uma “mudança de regime”.

Todas as designadas “revoltas de massas” no Leste da Europa e na antiga União Soviética tiveram os seus líderes populares que exortaram as massas em nome da “independência e democracia” mas eram pró-OTAN, pró-imperialismo ocidental e ligadas às elites neoliberais. Quando o comunismo caiu, os novos oligarcas privatizaram e venderam os setores mais lucrativos da economia deixando milhões sem trabalho, desmantelaram o estado-providência e entregaram as suas bases militares à OTAN para o estabelecimento de tropas estrangeiras e mísseis apontados à Rússia.

Toda a esquerda “anti-stalinista” nos EUA e na Europa Ocidental, com algumas notáveis exceções, comemorou estas revoltas controladas por oligarcas no Leste da Europa e alguns participaram mesmo, depois das revoltas, nos regimes neoliberais. Uma razão clara para a queda do “Marxismo Ocidental” proveio da sua incapacidade de distinguir uma revolta democrática popular genuína de uma sublevação de massas financiada e manipulada por oligarcas rivais!

Um dos mais claros e recentes exemplos de uma revolução manipulada de “poder popular” nas ruas para substituir um representante eleito de um setor da elite por um “presidente” ainda mais brutal e autoritário, ocorreu em 2001 nas Filipinas. O Presidente Joseph Estrada, mais popular e independente (mas claramente corrupto), que desafiara setores da elite Filipina e da atual política externa dos EUA (enfurecendo Washington ao aliar-se ao venezuelano Hugo Chávez) foi substituído, através de manifestações nas ruas de mulheres da classe média com soldados à paisana junto a Gloria Makapagal-Arroyo. A Senhora Makapagal-Arroyo, que tinha ligações estreitas aos EUA e ao exército filipino, desencadeou uma terrível onda de brutalidade denominada “democracia dos esquadrões da morte”. A queda de Estrada foi ativamente apoiada pela esquerda, incluindo setores da esquerda revolucionária, que rapidamente se tornaram alvo de uma campanha de assassinatos sem precedentes, desaparecimentos, tortura e prisão, por parte da recém-empossada “Senhora Presidente”.

Revoltas de massas contra a democracia, no passado e no presente: Guatemala, Irã e Chile

A utilização de multidões e sublevações de massas por oligarcas e imperialistas tem uma longa e notável história. Três dos mais sangrentos casos, que marcaram durante décadas as suas sociedades, aconteceram na Guatemala em 1954, no Irã em 1953 e no Chile em 1973.

Jacobo Árbenz, democraticamente eleito, foi o primeiro presidente da Guatemala a iniciar a Reforma Agrária e a legalizar os sindicatos, em especial entre os camponeses sem terra. As reformas de Árbenz incluíram a expropriação de terras em pousio sem utilização, que pertenciam à United Fruit Company, um enorme conglomerado norte-americano do setor agrícola. A CIA usou as suas ligações aos oligarcas locais e generais e coronéis da direita para instigar e financiar protestos de massas contra uma suposta “tomada do poder pelos comunistas” na Guatemala sob o governo do Presidente Árbenz. O exército usou a violência manipulada das multidões e a “ameaça” da Guatemala poder tornar-se um “satélite soviético” para encenar um golpe sangrento. Os líderes do golpe receberam apoios aéreos da CIA, dizimaram milhares de apoiadores de Árbenz e transformaram o interior em “campos de morte”. Nos 50 anos seguintes, partidos políticos, sindicatos e organizações de camponeses foram banidos, cerca de 200.000 guatemaltecos foram assassinados e milhões foram deslocados.

Em 1952, Mohammed Mossadegh foi eleito presidente do Irã numa plataforma nacionalista moderada, depois da derrubada do brutal monarca. Mossadegh anunciou a nacionalização da indústria petrolífera. A CIA, com a colaboração dos oligarcas locais, dos monárquicos e demagogos, organizou gangues “anticomunistas” de rua que encenaram manifestações violentas para servir de pretexto a um golpe monárquico-militar. Os generais iranianos controlados pela CIA trouxeram o Xá Reza Pahlavi da Suíça e, nos 26 anos seguintes, o Irã foi uma ditadura monárquico-militar, cuja população foi aterrorizada pela Savak, a polícia secreta assassina.

As companhias petrolíferas dos EUA receberam as maiores concessões de petróleo; o Xá juntou-se a Israel e aos EUA numa nefasta aliança contra os dissidentes nacionalistas progressistas e trabalhou com eles lado a lado para minar estados árabes independentes. Dezenas de milhares de iranianos foram mortos, torturados e exilados. Em 1979, uma revolta popular de massas dirigida por movimentos islâmicos, partidos nacionalistas e socialistas e sindicatos acabou com a ditadura do Xá e da Savak. Os islâmicos instalaram um regime radical nacionalista clerical, que se mantém no poder até hoje, apesar de décadas de campanhas de desestabilização financiadas pelos EUA-CIA, que financiaram grupos terroristas e movimentos liberais dissidentes.

O Chile é o caso mais conhecido de violência de multidões financiada pela CIA que conduziu a um golpe militar. Em 1970, o Dr. Salvador Allende, socialista democrata, foi eleito presidente do Chile. Apesar dos esforços da CIA para comprar votos para bloquear a aprovação do Congresso dos resultados eleitorais, da sua manipulação de manifestações violentas e de uma campanha de assassinato para precipitar um golpe militar, Allende assumiu funções.

Durante o mandato de Allende como presidente, a CIA financiou diversas “ações diretas”, desde pagar a líderes corruptos de um sindicato de mineiros para encenarem greves, e a associações de caminhoneiros para recusar transportar bens para as cidades, até à manipulação de grupos terroristas como o Patria y Libertad nas suas campanhas de assassinatos. O programa de desestabilização da CIA foi especificamente designado para provocar instabilidade econômica, através de escassez artificial e racionamento, de modo a incitar o descontentamento da classe média. Isto tornou-se óbvio quando se viram manifestações de donas de casa batendo tachos e panelas. A CIA procurou incitar um golpe militar através do caos econômico. Milhares de proprietários de caminhões foram pagos para não dirigir os seus caminhões levando a escassez de bens nas cidades, enquanto terroristas da direita rebentavam com centrais, deixando bairros na escuridão e comerciantes que recusavam juntar-se à “greve” contra Allende viam as suas lojas vandalizadas. A 11 de setembro de 1973, aos cânticos de “Jacarta” (celebrando um golpe da CIA na Indonésia), uma junta de generais chilenos apoiados pelos EUA tirou o poder a um governo eleito. Dezenas de milhares de activistas e apoiantes do governo foram presos, mortos, torturados e forçados ao exílio. A ditadura desnacionalizou e privatizou o sector mineiro, a banca e indústria transformadora, seguindo os ditames do mercado livre dos economistas treinados por Milton Friedman (os Chicago Boys). A ditadura pôs fim a 40 anos de bem-estar, reformas na legislação laboral e agrária, que haviam tornado o Chile o país mais avançado socialmente na América Latina. Com os generais no poder, o Chile tornou-se o “modelo neoliberal” para a América Latina. A violência dos gangues e a chamada “revolta da classe média” levou à consolidação do poder oligárquico e imperialista e a um reinado de 17 anos de terror sob a ditadura do General Augusto Pinochet. Toda a sociedade foi brutalizada e, com o regresso da política eleitoral, mesmo os antigos partidos “de esquerda” conservaram as políticas econômicas neoliberais da ditadura, a sua constituição autoritária e o alto comando militar. A “revolta da classe média” no Chile resultou na maior concentração de riqueza nas mãos dos oligarcas na América Latina até hoje!

O uso e o abuso das “revoltas de massas” hoje: Egito, Ucrânia, Venezuela, Tailândia e Argentina

Em anos recentes, as “revoltas de massas” tornaram-se o instrumento de escolha quando oligarcas, generais e outros imperialistas procuram “mudanças de regime”. Alistando uma série de nacionalistas demagogos e líderes de ONG financiados por imperialistas, criaram as condições para o derrube de governos democraticamente eleitos e encenaram o estabelecimento dos seus próprios regimes de “mercado livre”, com credenciais “democráticas” duvidosas.

Nem todos os regimes eleitos sob cerco são progressistas. Muitas “democracias”, como a Ucrânia, são governados por um conjunto de oligarcas. Na Ucrânia, a elite que apoia o Presidente Viktor Yanukovich, decidiu que entrar numa relação de estado-cliente com a União Europeia não era do seu interesse e procurou diversificar os seus parceiros internacionais de negócio, mantendo ao mesmo tempo relações lucrativas com a Rússia. Os seus opositores, que estão actualmente por detrás das manifestações em Kiev, defendem uma relação de estado-cliente com a UE, o estabelecimento de tropas da NATO e o corte de relações com a Rússia. Na Tailândia, o Primeiro-ministro democraticamente eleito Yingluck Shinawatra representa uma secção da elite económica com ligações e apoio nas zonas rurais, especialmente no Noroeste, bem como extensas relações comerciais com a China. Os opositores estão sedeados na cidade, mais próximos dos militares-monarquistas e são a favor de uma agenda neoliberal pura, ligada aos EUA, contra a agenda rural patronal-popular da Senhora Shinawatra.

O Governo egípcio de Mohamed Morsi, democraticamente eleito, levou a cabo uma política islamita moderada, com algumas restrições no exército e afastamento em relação a Israel e apoio aos palestinianos em Gaza. Nos termos do FMI, Morsi procurou um compromisso. O regime de Morsi avançava quando foi derrubado: nem islamita nem secular, não favorecendo os trabalhadores mas também não favorecendo o exército. Apesar de todos os seus diferentes grupos de pressão e contradições, o regime de Morsi permitiu greves laborais, manifestações, partidos de oposição, liberdade de imprensa e reunião. Todas estas liberdades democráticas desapareceram depois de vagas de “revoltas de massas nas ruas”, coreografadas pelos militares, terem criado condições para os generais tomarem o poder e estabelecerem a sua brutal ditadura, prendendo e torturando dezenas de milhares e ilegalizando todos os partidos da oposição.

Manifestações de massas e acções directas lideradas por demagogos têm também como alvo governos progressistas democraticamente eleitos, como a Venezuela e a Argentina, a juntar às acções contra democracias conservadoras, como as acima citadas. A Venezuela, sob o governo dos presidentes Hugo Chavez e Vicente Maduro, prossegue um programa anti-imperialista e pró-socialista. Às “revoltas de gangues” juntam-se vagas de assassinatos, sabotagem de serviços públicos, escassez artificial de bens essenciais, difamação mediática e campanhas eleitorais da oposição com financiamento externo. Em 2002, Washington aliou-se com os seus colaboradores políticos, oligarcas estabelecidos em Miami e Caracas e gangues locais armados, para montar um “movimento de protesto” como pretexto para um golpe planeado pelos militares e empresários. Os generais e os membros da elite tomaram o poder e depuseram e prenderam o Presidente Chavez, democraticamente eleito. Todos os caminhos da expressão e da representação democrática foram fechados e a constituição foi anulada. Em resposta ao rapto do “seu presidente”, mais de um milhão de venezuelanos mobilizou-se espontaneamente e marchou até ao Palácio Presidencial para exigir a restauração da democracia e o regresso de Hugo Chavez à presidência. Apoiados pelos largos sectores pró-democracia e pró-Constituição das forças armadas da Venezuela, os protestos de massas levaram à derrota do golpe e ao regresso de Chavez e da democracia. Todos os governos democráticos que enfrentam revoltas de grupos financiados pelo imperialismo e pelos oligarcas deveriam estudar o exemplo da Venezuela, que infligiu uma derrota aos generais e oligarcas dos EUA. A melhor defesa para a democracia encontra-se na organização, mobilização e educação política da maioria eleitoral. Não chega participar em eleições livres; uma maioria educada e politizada deve também saber como defender a sua democracia nas ruas tanto como nas urnas.

As lições do golpe falhado de 2002 foram muito lentamente apreendidas pela oligarquia venezuelana e pelos seus patrões dos EUA, que continuaram a desestabilizar a economia numa tentativa de ameaçar a democracia e tomar o poder. Entre Dezembro de 2002 e Fevereiro de 2003, quadros superiores do petróleo corruptos da nominalmente pública companhia de petróleo PDVSA (Petróleos da Venezuela) organizaram um bloqueio “de patrões” parando a produção, exportação e distribuição local de petróleo e produtos refinados do petróleo. Sindicalistas corruptos, ligados ao National Endowment for Democracy, dos EUA, mobilizaram os trabalhadores do petróleo e outros funcionários no apoio ao bloqueio, na sua tentativa de paralisar a economia. O governo respondeu mobilizando os outros trabalhadores do petróleo que, com uma minoria significativa de quadros intermédios, engenheiros e técnicos especializados, apelaram à classe trabalhadora venezuelana para tomar os campos de petróleo e instalações dos “patrões”. Para contrariar a grande escassez de gasolina, o Presidente Chavez assegurou o fornecimento por parte de países vizinhos e aliados no exterior. O bloqueio foi vencido. Vários milhares de apoiantes do golpe foram despedidos e substituídos por gerentes e trabalhadores democratas.

Não tendo conseguido derrubar o governo democrático por via das “revoltas de massas”, os oligarcas voltaram-se para um plebiscito ao governo de Chavez e, mais tarde, apelaram a um boicote eleitoral à escala nacional, ambas iniciativas derrotadas. Estas derrotas fortaleceram as instituições democráticas da Venezuela e diminuíram a presença de legisladores da oposição no Congresso. Os falhanços repetidos da elite para tomar o poder levaram a uma nova estratégia em múltiplas vertentes, utilizando: (1) ONG’s financiadas pelos EUA para explorar reivindicações locais e mobilizar residentes em torno de problemas da comunidade; (2) arregimentar ladrões para sabotar serviços, particularmente fornecedores de energia, assassinar camponeses que receberam títulos de propriedade na sequência da reforma agrária, bem como altos responsáveis e activistas; (3) grandes marchas de campanha eleitoral e (4) desestabilização económica por via da especulação financeira, transacções cambiais ilegais com o estrangeiro, especulação e açambarcamento de bens de primeira necessidade. O objectivo destas medidas é incitar o descontentamento das massas, usando o controlo dos media para preparar outro assalto ao poder financiado pelos EUA.

Violentos protestos de rua por estudantes da classe média da Central University, de elite, foram organizados por demagogos financiados por oligarcas. As “manifestações“ incluíram sectores da classe média e habitantes pobres das cidades descontentes pelas situações de escassez artificial e cortes de energia. As causas do descontentamento popular foram rápida e eficazmente respondidas no topo por enérgicas medidas governamentais: os comerciantes envolvidos em acções de açambarcamento e especulação foram presos; os preços dos bens essenciais foram reduzidos; os bens açambarcados foram apreendidos dos armazéns e distribuídos pelos pobres; a importação de bens essenciais foi aumentada e os sabotadores foram perseguidos. A intervenção eficaz do Governo teve eco junto da massa da classe trabalhadora, a classe média baixa e os habitantes pobres do campo e da cidade e restabeleceu o seu apoio. Os apoiantes do Governo saíram para a rua e fizeram fila nas urnas para derrotar a campanha de desestabilização. O governo ganhou claramente as eleições, o que lhe permitiu agir decisivamente contra os oligarcas e quem os apoiava, em Washington.

A experiência venezuelana mostra como uma enérgica resposta do governo pode restabelecer o apoio e aprofundar mudanças sociais progressistas para a maioria. Isto acontece porque a intervenção progressista em força, por parte do governo, contra os oligarcas antidemocratas, combinada com a organização, educação política e mobilização da maioria dos votantes, pode derrotar decisivamente estas revoltas de massas encenadas.

A Argentina é um exemplo de um regime democrático enfraquecido que tenta agradar simultaneamente a oligarcas e a trabalhadores, às elites do sector agrícola e mineiro e círculos da classe média dependentes das políticas sociais. O governo eleito de Kirchner-Fernandez enfrentou “revoltas de massas” numa série de manifestações de rua instigadas por exportadores por causa de impostos; a classe média-alta de Buenos Aires revoltou-se por causa do “crime, desordem e insegurança”, houve uma greve dos polícias à escala nacional “por causa dos salários”, polícias que “olharam para o lado” enquanto grupos de “proletários”, na verdade ladrões de rua, pilharam e destruíram lojas. Tudo somado, estas vagas de violência de gangues na Argentina parecem ser parte de uma desestabilização politicamente dirigida pela Direita autoritária que instigou ou, pelo menos, explorou estes acontecimentos. Para além de chamarem os militares para restabelecer a ordem e cedendo às exigências “salariais” da polícia em greve, o Governo de Fernandez não foi capaz ou não quis mobilizar o eleitorado democrático em defesa da democracia. O regime democrático permanece no poder, mas está cercado e vulnerável aos ataques dos opositores domésticos e imperialistas.

Conclusão

As revoltas são espadas de dois gumes: podem ser uma força positiva quando acontecem contra ditaduras militares como as de Pinochet ou Mubarak, contra monarquias absolutas autoritárias como a Arábia Saudita, um estado colonialista e racista como Israel, e ocupações imperialistas como contra os EUA no Afeganistão. Mas têm que ser dirigidas e controladas por líderes populares locais que procurem restaurar o governo da maioria democrática.

A História, desde a Antiguidade aos nossos dias, ensina-nos que nem todas as “revoltas de massas” atingem, ou mesmo são motivadas, por objetivos democráticos. Muitas serviram oligarcas que pretendiam derrubar governos democráticos, líderes totalitários que procuravam estabelecer regimes fascistas e pró-imperialistas, demagogos e autoritários que pretendiam enfraquecer regimes democráticos enfraquecidos, e militaristas que pretendiam começar guerras com ambições imperialistas.

Hoje as “revoltas de massas“ contra a democracia tornaram-se um procedimento operacional habitual para os governantes da Europa Ocidental e EUA, que procuram contornar os procedimentos democráticos e estabelecer clientes pró-imperialistas. A prática da democracia é denigrida enquanto os gangues são louvados nos meios de comunicação imperialistas. É por isto que os terroristas e mercenários islâmicos armados são chamados “rebeldes” na Síria e as multidões nas ruas de Kiev (Ucrânia) que tentam pela força depor um governo democraticamente eleito são rotulados “democratas pró-Ocidente”.

A ideologia que enforma as “revoltas de massas” varia desde “anticomunista” e “antiautoritária” na Venezuela, até “pró-democracia” na Líbia (mesmo quando bandos tribais e mercenários massacram comunidades inteiras), no Egito e na Ucrânia.

Estratégicos imperialistas sistematizaram, codificaram e tornaram operacionais “revoltas de massas” a favor do poder dos oligarcas. Peritos internacionais, consultores, demagogos e funcionários de ONG’s arranjaram carreiras lucrativas à medida que viajam para “lugares estratégicos” e organizam “revoltas de massas”, arrastando os países-alvo para uma colonização “mais profunda” por via de uma “integração” europeia ou em torno dos EUA. A maioria dos líderes locais e demagogos aceitam esta dupla agenda: “protestem hoje e submetam-se a novos senhores amanhã”. As massas nas ruas são enganadas e depois sacrificadas. Acreditam que chegará um ”novo dia” do consumismo ocidental, empregos mais bem pagos e maior liberdade pessoal... apenas para serem enganados quando os seus novos governantes enchem as prisões com opositores e muitos dos antigos manifestantes, sobem os preços, cortam salários, privatizam as companhias do estado, vendem as firmas mais lucrativas a estrangeiros e duplicam a taxa de desemprego.

Quando os oligarcas “encenam” revoltas de massas e tomam conta do regime, os grandes derrotados incluem o eleitorado democrático e muitos dos manifestantes. Pessoas de esquerda e progressistas, no Ocidente ou no exílio, que haviam apoiado as “revoltas de massas” sem pensar, irão publicar os seus ensaios acadêmicos sobre “a revolução (sic) traída”, sem admitirem a sua própria traição de princípios democráticos.

Se e quando a Ucrânia entrar na União Europeia, os exuberantes manifestantes de rua irão juntar-se a milhões de desempregados na Grécia, em Portugal e na Espanha, bem como a milhões de pensionistas brutalizados por “programas de austeridade” impostos pelos seus novos governantes, a “Troika” em Bruxelas. Se estes, que antes se manifestavam, tomarem mais uma vez as ruas, em revolta contra a “traição” dos seus líderes, poderão desfrutar da vitória, sob os bastões da “polícia treinada pela OTAN e União Europeia”, enquanto os meios de comunicação ocidentais se terão deslocado para outro sítio em apoio à “democracia”.

[*] James Petras, antigo professor de Sociologia na Universidade de Binghamton, Nova Iorque, participa há 50 anos na luta de classes, é consultor dos sem-terra e dos desempregados no Brasil e na Argentina e é co-autor de A Globalização Desmascarada (Zed Books). A obra mais recente de Petras é A Revolta Árabe e o Contra-ataque Imperialista. Pode ser contactado em jpetras@binghamton.edu.

19 de dezembro de 2013

Sarin de quem?

Seymour M. Hersh

London Review of Books

Barack Obama não contou a história inteira esse outono, quando tentou argumentar que Bashar al-Assad seria responsável pelo ataque com armas químicas próximo a Damasco no dia 21 de agosto 2013. Em alguns pontos omitiu informações importantes, em outros apresentou pressuposições como se fossem fatos. Mais importante, não reconheceu algo que toda a comunidade de inteligência dos Estados Unidos já havia reconhecido: que o exército sírio não é o único envolvido na guerra civil síria que tem acesso ao gás sarin, o agente de ação neurológica que, conforme estudo da Organização das Nações Unidas (ONU) – sem competência para fazer esse tipo de avaliação – tinha sido utilizado no ataque com foguete. Nos meses anteriores ao ataque, as agências de inteligência americanas produziram vários relatórios altamente secretos, que culminaram em uma formal Operations Order – documento de planejamento que precede invasão por terra – que cita provas de que a Frente al-Nusra, grupo jihadista afiliado à al-Qaeda, já dominava a mecânica da produção de gás sarin e podia produzir em grandes quantidades. Quando o ataque aconteceu, a Frente al-Nusra deveria ter sido um suspeito; mas a administração Obama selecionou a inteligência que lhe interessava para justificar um ataque contra Assad.

Em seu discurso em rede nacional de televisão sobre a Síria, dia 10 de setembro de 2013, Obama culpou fortemente o governo Assad pelo ataque de gás neurológico no subúrbio de Ghouta Leste, e deixou bem claro que estava preparado para fazer valer o alerta público que havia feito, de que qualquer uso de armas infringiria uma "linha vermelha": "O governo Assad matou com gás mais de mil pessoas – disse Obama. Sabemos que o regime de Assad foi responsável... E por isso, depois de cuidadosa deliberação, determinei que é do interesse da segurança nacional dos Estados Unidos responder ao uso de armas químicas pelo governo de Assad com ataque militar focado." Obama estava indo à guerra para "confirmar" uma ameaça que fizera publicamente, mas o fazia sem saber com certeza quem fizera o quê a quem no início da manhã de 21 de setembro de 2013.

Ele citou uma lista do que parecia ser evidência bem comprovada da culpa de Assad: "Nos dias que levaram ao 21 de agosto de 2013, sabemos que o pessoal das armas químicas de Assad preparava-se para um ataque próximo à área onde misturam o gás sarin. Distribuíram máscaras de gás aos seus soldados. Dispararam foguetes de uma área controlada pelo governo na direção de 11 bairros que o regime tentava limpar de forças da oposição." A certeza de Obama, naquele momento, encontrou eco imediato em Denis McDonough, seu chefe de gabinete, que disse ao New York Times: "Ninguém com quem eu falei duvida da inteligência" que liga diretamente Assad e seu governo, aos ataques com gás sarin.

Mas em recentes entrevistas com oficiais e consultores militares e de inteligência, atuais e aposentados, descobri grave preocupação, vez ou outra até medo, em torno do que vários deles veem como deliberada manipulação de inteligência. Um oficial de inteligência de alto nível, em e-mail para um colega, chamou de "farsa" as provas que o governo estava apresentando como tais, da responsabilidade de Assad. O ataque "não foi obra do atual governo" – escreveu ele. Outro ex-funcionário sênior de inteligência disse-me que o governo Obama alterara a informação disponível – alterara o timing e a sequência dos eventos – para permitir que o presidente e seus conselheiros usassem informação recolhida dias depois do ataque, como se tivesse sido recolhida e analisada em tempo real, durante o ataque. Essa distorção, disse ele, lembrou-o do incidente no Golfo de Tonkin em 1964, quando o governo Johnson inverteu a sequência de informação interceptada pela Agência de Segurança Nacional, para assim justificar um dos primeiros ataques com bombas dos Estados Unidos contra o Vietnã do Norte. O mesmo funcionário disse que há imensa frustração nos quadros da burocracia militar e da inteligência dos Estados Unidos: "Os rapazes erguem os braços aos céus e perguntam: 'Como se pode ajudar esse cara' – Obama – se ele e o pessoal dele na Casa Branca, cada vez que se reúnem, inventam inteligência?"

As reclamações focam-se no que Washington não teve: qualquer informação antecipada da fonte presumida do ataque. A comunidade militar de inteligência há anos produz um sumário matinal, super secreto, conhecido como Morning Report, para o secretário da Defesa e o comandante do Estado-Maior das Forças Conjuntas; uma cópia é enviada para o conselheiro de Segurança Nacional e para o diretor da Inteligência Nacional. O Morning Report não inclui informação política ou econômica, mas oferece um resumo de importantes eventos militares pelo mundo, com toda a inteligência existente sobre eles. Um consultor sênior de inteligência disse-me que um pouco depois do ataque ele revisou os relatórios de 20 a 23 de agosto de 2013. Em dois dias – 20 e 21 de agosto de 2013 – não havia menção à Síria. Dia 22 de agosto de 2013, o principal item no Morning Report falava do Egito; item subsequente discutia uma mudança interna na estrutura de comando de um dos grupos rebeldes na Síria. Nada sobre uso de gás de efeito neurológico em Damasco naquele dia. Só no dia 23 de agosto de 2013 é que o sarin tornou-se questão dominante, embora centenas de fotos e vídeos do massacre já fossem virais, em questão de horas, por YouTube, Facebook e outras páginas de mídias sociais. Nesse momento, o governo não sabia mais que o público.

Obama deixou Washington dia 21 de agosto de 2013, cedo, para um frenético tour de discursos em New York e Pennsylvania; segundo o gabinete de imprensa da Casa Branca, foi informado naquele dia, mais tarde, sobre o ataque e o crescente furor na imprensa e na opinião pública. A falta de qualquer inteligência imediata ficou evidente dia 22 de agosto de 2013, quando Jen Psaki, um dos porta-vozes do Departamento de Estado, disse a repórteres: "Não conseguimos determinar conclusivamente [o uso de] armas químicas. Mas estamos focados em cada minuto de cada dia, desde que aconteceram os eventos... fazendo todo o possível ao nosso alcance, para conhecer todos os detalhes dos fatos." Dia 27 de agosto de 2013 o tom do governo endureceu, quando o secretário de imprensa de Obama, Jay Carney, disse a repórteres – sem oferecer qualquer informação específica – que qualquer sugestão de que o governo sírio não foi o responsável "é tão absurda e sem sentido quanto sugerir que o próprio ataque não aconteceu".

A ausência de alarme imediato dentro da comunidade norte-americana de inteligência demonstra que não havia inteligência sobre intenções dos sírios nos dias anteriores ao ataque. E há pelo menos dois modos pelos quais os EUA poderiam ter sabido antecipadamente: os dois foram abordados num dos documentos top secret da inteligência dos EUA divulgados em meses recentes por Edward Snowden, ex-empregado terceirizado da Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos.

Dia 29 de agosto de 2013, o Washington Post publicou excertos do orçamento anual para programas da inteligência nacional, agência por agência, fornecidos por Snowden. Em consulta com o governo Obama, o jornal optou por publicar apenas uma mínima parte do documento de 178 páginas, classificado acima do mais top secret, mas resumiu e publicou uma seção relacionada a áreas-problema. Uma dessas áreas-problema era o "buraco" na cobertura de espionagem do gabinete de Assad. O documento dizia que as instalações de escuta eletrônica da Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos em todo o mundo haviam "conseguido monitorar comunicações encriptadas entre altos oficiais militares sírios no início da guerra civil lá". Mas havia "uma vulnerabilidade, que as forças do presidente Bashar al-Assad aparentemente descobriram logo depois". Em outras palavras, significa que a Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos já não conseguia acesso às conversas dos principais comandantes militares na Síria, o que incluiria comunicações cruciais de Assad – como ordens para um ataque com gás de efeito neurológico. (Em suas falas públicas desde 21 de agosto de 2013, o governo Obama jamais disse que teria informação específica que ligasse o próprio presidente Assad aos ataques).

A matéria publicada no Post também trouxe a primeira indicação de que havia um sistema sensor secreto dentro da Síria, instalado para garantir alerta imediato de qualquer mudança no status do arsenal de armas químicas do governo. Os sensores são monitorados pelo Gabinete Nacional de Reconhecimento, a agência que controla todos os satélites de inteligência dos Estados Unidos em órbita. Segundo o resumo do Post, o Gabinete Nacional de Reconhecimento tem também a tarefa de "extrair dados de sensores plantados no solo" dentro da Síria. O ex-funcionário sênior de inteligência, que tinha conhecimento direto do programa, disse-me que os sensores do Gabinete Nacional de Reconhecimento foram plantados próximos de todos os pontos conhecidos na Síria onde há equipamento para guerra química. São concebidos para garantir monitoramento constante da movimentação das ogivas químicas armazenadas pelos militares. Mas, muito mais importante em termos de alerta precoce, é a capacidade desses sensores para alertar a inteligência dos EUA e de Israel sempre que as ogivas forem carregadas com gás sarin. (País vizinho, Israel há muito tempo monitora mudanças que haja no arsenal químico da Síria, e trabalha em íntima conexão com a inteligência dos EUA, para alertas muito rápidos.) Uma ogiva química, depois de carregada com gás sarin, tem vida útil de poucos, bem poucos dias – porque o gás começa a corroer a própria ogiva: é arma de destruição em massa do tipo "para consumir imediatamente". "O exército sírio não tem três dias para preparar um ataque químico, disse-me aquele ex-funcionário sênior de inteligência. Criamos o sistema de sensores para reação imediata, como um alarme de incêndio ou um raid aéreo de advertência. Não se pode pensar em alarme para dali a três dias, porque todos os envolvidos já estariam mortos. É já, ou você virou história. Ninguém passa três dias preparando-se para disparar gás de efeito neurológico." E nenhum sensor detectou qualquer movimento nos meses e dias antes de 21 de agosto de 2013, disse aquele ex-funcionário sênior da inteligência. É claro que é possível que osarin tenha sido fornecido por outros meios ao exército sírio, mas a ausência de qualquer sinal de alarme significou que Washington não conseguira monitorar os eventos de Ghouta Leste enquanto se desenrolavam.

Os sensores, antes, já funcionaram, como os comandantes sírios sabem muito bem. Em dezembro passado o sistema de sensores recolheu sinais do que parecia ser produção de gás sarin num depósito de armas químicas. No primeiro momento, não se pôde saber se o movimento indicava exercícios do exército sírio, para treinamento (todos os exércitos do mundo fazem esse tipo de exercício “químico”, ou se haveria algum ataque real em preparação. Na ocasião, Obama preveniu publicamente a Síria de que o uso de gás sarin seria “totalmente inaceitável”; e mensagem semelhante foi encaminhada por vias diplomáticas. O evento era parte de exercícios, como adiante se confirmou, segundo o ex-funcionário sênior de inteligência: "Se o que os sensores viram em dezembro passado era tão importante que o presidente teve de dizer que parassem, por que o presidente Obama não fez exatamente o mesmo, três dias antes do ataque com gás, em agosto?"

É claro que a Agência de Segurança Nacional monitoraria o gabinete de Assad 24 horas por dia, todos os dias, disse o mesmo ex-funcionário. Outras comunicações – de várias unidades de combate dentro da Síria – sempre serão de longe muito menos importantes e não são analisadas em tempo real. "Há literalmente milhares de rádio frequências táticas usadas por unidades de campo na Síria para comunicações comuns de rotina– disse ele – e seria necessário um número imenso de técnicos em decriptação para ouvir tudo – e o retorno aproveitável seria zero."

Mas essa "conversa" é rotineiramente arquivada em computadores. Tão logo se entendeu a escala dos eventos de 21 de agosto de 2013, a Agência de Segurança Nacional montou um vasto esforço de busca de qualquer informe relacionável ao ataque, trabalhando no arquivo geral de comunicações arquivadas. Selecionaram-se uma ou duas palavras chaves e aplicou-se um filtro para separar as conversações relevantes. "O que aconteceu aqui é que o pessoal da Agência de Segurança Nacional começou com um evento – o uso de gás sarin – e saiu à procura de conversas que parecessem ter relação com aquele evento – disse o ex-funcionário." Isso não leva a avaliação muito confiável, a menos que você assuma como verdade indiscutível que Bashar Assad ordenou o ataque e saia à procura de qualquer coisa em que apoiar seu pressuposto inicial. Essa busca só pelos feijões "que interessam" foi similar ao processo usado para justificar a guerra do Iraque.

*

A Casa Branca precisou de nove dias para montar o seu caso contra o governo sírio. Em 30 de agosto de 2013 convidou um grupo seleto de jornalistas de Washington (pelo menos um repórter crítico, Jonathan Landay, correspondente de segurança nacional da rede McClatchy Newspapers, não foi convidado), aos quais entregou um documento cuidadosamente rotulado como "uma avaliação feita pelo governo", em vez de avaliação feita pela comunidade de inteligência. O documento expunha o que, na essência, não passava de argumento político para inflar o caso do governo Obama contra o governo Assad. Mas era mais específico do que Obama seria adiante, em seu discurso de 10 de setembro de 2013: a inteligência dos Estados Unidos, disse ele, sabia que a Síria "começou a preparar munição química" três dias antes do ataque. Em discurso agressivo, naquele mesmo dia, John Kerry deu mais detalhes. Disse que "pessoal sírio de armas químicas estava em solo na área, fazendo preparativos" no dia 18 de agosto de 2013. "Sabemos que elementos do governo sírio receberam ordens para preparar-se para o ataque, vestindo máscaras contra gases e tomando precauções associadas a armas químicas". A avaliação pelo governo e os comentários de Kerry fizeram parecer que o governo estivera acompanhando o ataque com sarin enquanto acontecia. Essa versão dos eventos, falsa, mas que não foi desmentida, foi fartamente reproduzida e noticiada naquele momento.

Uma reação não prevista veio sob a forma de reclamações da liderança do Exército Sírio Livre e outros, indignados por não terem sido prevenidos. "É inacreditável que não tenham alertado as pessoas, nem tentado deter os criminosos antes do crime" – disse à Foreign Policy, Razan Zaitouneh, membro da oposição, que vivia numa das cidades atingidas pelo gás sarin. O Daily Mail foi mais incisivo: "O relatório da Inteligência diz que os funcionários dos Estados Unidos sabiam sobre o ataque com gás sarin na Síria, três dias antes de o gás matar mais de 1.400 pessoas – inclusive mais de 400 crianças." (O número de mortes pelo ataque varia muito, de pelo menos 1.429, como disse inicialmente o governo Obama, a número bem inferior. Um grupo sírio de direitos humanos relatou 502 mortos; Médicos sem Fronteiras falam de 355; e matéria francesa listou 281 mortos. O número espantosamente preciso de que os Estados Unidos falaram, como disse mais tarde o Wall Street Journal, foi baseado não em alguma contagem real de corpos, mas numa extrapolação feita por analistas da Agência Central de Inteligência (CIA), que escanearam mais de cem vídeos de YouTube de Ghouta Leste num sistema de computação à procura de imagens de mortos. Em outras palavras: foi pouco mais que simples palpite).

Cinco dias depois, um porta-voz do Gabinete do Diretor da Inteligência respondeu às reclamações. Declaração à Associated Press dizia que a inteligência na qual se apoiaram as primeiras declarações do governo ainda não era conhecida no momento do ataque; que fora recuperada só subsequentemente: "Sejamos claros: os Estados Unidos não estavam vigiando, em tempo integral, quando aconteceu esse horrível ataque. A comunidade de inteligência conseguiu reunir e analisar informação depois do fato, e determinar que elementos do regime Assad, sim, deram passos para preparar-se antes de usar armas químicas." Mas, dado que a imprensa-empresa norte-americana já tinha a história à qual se agarrar, deu-se rala atenção à retratação. Dia 31 de agosto de 2013, o Washington Post, repetindo a avaliação do governo, noticiou com destaque, na primeira página, que a inteligência norte-americana conseguira gravar “cada passo” do ataque pelo Exército Sírio em tempo real, "das extensivas preparações para o lançamento dos foguetes, até as avaliações posteriores por oficiais sírios". O Post não publicou a retratação distribuída pela AP. Assim, a Casa Branca manteve o controle sobre a narrativa.

Portanto, quando Obama disse, dia 10 de setembro de 2013, que seu governo sabia que o pessoal de Assad preparara o ataque, baseava sua fala não em inteligência interceptada enquanto acontecia, mas em comunicações analisadas dias depois de 21 de agosto de 2013. O ex-funcionário sênior explicou que a caça por conversa "que interessasse" voltou ao exercício detectado em dezembro, sobre a qual, como Obama disse depois publicamente, o Exército Sírio mobilizara pessoal das armas químicas e distribuíra máscaras entre os soldados. A avaliação distribuída pela Casa Branca e a fala de Obama nada tinham, em dezembro, a ver com os específicos eventos que levaram ao ataque do dia 21 de agosto de 2013; eram simples reprodução do que os militares sírios fariam no caso de algum ataque químico. "Requentaram uma história já passada – disse o ex-funcionário sênior – e há muitas peças e partes diferentes. O modelo que usaram foi o modelo de dezembro." É possível, é claro, que Obama não soubesse que aquele relato havia sido obtido de uma análise dos manuais e protocolos sírio a serem usados para ataque com gás, e não eram conclusão a partir de provas reais de eventos reais. Fosse como fosse, Obama analisou precipitadamente, temerariamente, e só superficialmente, as (nenhuma) provas que lhe exibiram.

Toda a imprensa entrou no mesmo jogo e o manteve pautado. O relatório da ONU de 16/9, confirmando o uso de sarin, foi suficientemente cauteloso; observou que o acesso de seus investigadores aos sítios dos ataques, que só aconteceu cinco dias depois, fora controlado por forças rebeldes. "Como com outros sítios – dizia o relatório – as locações foram pisoteadas por outros indivíduos antes da chegada da missão (...).Durante o tempo que passamos nessas locações, chegavam indivíduos carregando munição suspeita, indicado que provas potenciais estejam sendo retiradas e possivelmente manipuladas." Apesar disso tudo, o New York Times avaliou o relatório, como o avaliaram oficiais britânicos e norte-americanos, e disseram que ali havia provas cruciais em apoio ao que dizia o governo. Um anexo ao relatório da ONU reproduzia fotografias publicadas em YouTube de munição recolhida, inclusive um foguete que “sugestivamente combina” com as especificações de munição de artilharia de 330mm de calibre. O New York Times escreveu que a existência dos foguetes provaria, essencialmente, que o governo sírio foi responsável pelo ataque, “porque a arma em questão não havia sido documentada nem relatada como pertencente à insurgência”.

Theodore Postol, professor de tecnologia e segurança nacional no MIT, revistou, trabalhando com um grupo de colegas especialistas, as fotos feitas pelos inspetores da ONU, e concluíram que o foguete de grande calibre eram munição improvisada de fabricação, provavelmente, local. Disse-me que seria “algo que se pode fabricar num ateliê modesto de ferramentaria”. O foguete nas fotos, acrescentou, absolutamente não satisfaz as especificações de foguete similar, embora menor, que se sabe que existe no arsenal sírio. O New York Times, mais uma vez confiando nos dados do relatório da ONU, também analisou a linha de voo de dois foguetes disparados, os quais se supõe que tenham transportado sarin, e concluiu que o ângulo de descida “aponta diretamente” para provar que foram lançados de uma base síria localizada a mais de 9 km da zona de aterrissagem. Postol, que trabalhou como conselheiro científico do chefe de operações navais no Pentágono, disse que as asserções no Times e noutras publicações “não se baseiam em observação real”. Concluiu que as análises da linha de voo, sobretudo, são, como escreveu num e-mail, “totalmente doidas”, porque estudo aprofundado comprovou que “não há qualquer evidência, e nada sugere” que o alcance dos foguetes improvisados fosse superior a dois quilômetros. Postol e um colega, Richard M. Lloyd, publicaram uma análise duas semanas depois de 21/8, no qual avaliavam, corretamente, que os foguetes envolvidos carregavam quantidade de sarin muito superior à estimada antes. O Times noticiou extensamente essa análise, apresentando Postol e Lloyd como “importantes especialistas em armas”. O mais recente estudo dos dois sobre o alcance e a rota de voo dos foguetes, que desmente matéria anterior do Times, foi enviado por e-mail ao jornal na semana passada; até essa data, ainda não foi nem comentado nem publicado.

*

A falsa interpretação que a Casa Branca deu ao que sabia sobre o ataque, e quando soube, correspondeu à rapidez com que ignorou toda a inteligência que poderia minar sua narrativa: a informação sobre a Frente al-Nusra, o grupo islamista rebelde que Estados Unidos e ONU classificaram como organização terrorista. A Frente Al-Nusra é conhecida por ter executado muitos ataques de suicidas-bombas contra cristãos e outras seitas muçulmanas não sunitas dentro da Síria, e por ter atacado também seu aliado nominal na guerra civil, o secular Exército Sírio Livre. O seu objetivo declarado é derrubar o governo de Assad e estabelecer a Lei da Xaria. (Dia 25 de setembro de 2013, a frente al-Nusra uniu-se a outros grupos de islâmicos rebeldes, para repudiarem o Exército Sírio Livre e também outra facção secular, a Coalizão Nacional Síria).

A onda de interesse norte-americano na Frente al-Nusra e no gás sarin começou de uma série de ataques químicos de pequena escala em março e abril; naquele momento, o governo sírio e os rebeldes insistiam, cada um, que o responsável era o outro. Por fim, a ONU concluiu que quatro ataques químicos, sim, haviam acontecido; mas não atribuiu a responsabilidade a nenhum dos lados. Um funcionário da Casa Branca disse à imprensa no final de abril que a comunidade de inteligência avaliara “com variáveis graus de certeza” que o governo sírio fora responsável pelos ataques. Assad, sim, havia transgredido a “linha vermelha” de Obama. A avaliação de abril ganhou manchetes, mas detalhes muito significativos perderam-se no processo. Um funcionário não identificado que coordenava obriefing reconheceu que as avaliações da comunidade de inteligência: "(...) não só, só elas, suficientes. Queremos – disse ele – investigar acima e além dessas avaliações da inteligência, para reunir os fatos de modo a podermos estabelecer um conjunto confiável e comprovável de informação que possa embasar então nossa tomada de decisão." Em outras palavras, a Casa Branca não tinha nenhuma prova direta do envolvimento do Exército Sírio ou do governo do presidente Bashar al-Assad, fato que só muito ocasionalmente apareceu registrado na cobertura oferecida pela imprensa-empresa. E a conversa “durona” de Obama funcionou bem com a opinião pública e o Congresso, que via Assad como assassino cruel e sanguinário.

Dois meses depois, uma declaração da Casa Branca anunciou mudança na avaliação da culpabilidade síria; e declarou que a comunidade de inteligência, agora, tinha “alta certeza” de que o governo Assad fora responsável pelas 150 mortes nos ataques com sarin. Mais e mais manchetes foram geradas e a imprensa-empresa foi informada de que Obama, em resposta à nova inteligência, havia ordenado em ajuda não letal à oposição síria. Não se ofereciam detalhes, nem se identificavam os detalhes nos quais se baseava a matéria. A declaração da Casa Branca dizia que análises laboratoriais confirmaram o uso de sarin, mas que prova positiva da presença de sarin “nada diz sobre como os indivíduos foram expostos ou sobre quem foi o responsável pela disseminação”. A Casa Branca também declarou que: "Não temos relatório confiável provado, que indique que a oposição na Síria adquiriu ou usou armas químicas." A declaração acima contrariava as provas que, naquele momento, fluíam em quantidade para as agências de inteligência dos EUA.

Já no final de maio, o ex-funcionário sênior da inteligência contou-me, a CIA já levara ao conhecimento do governo Obama o que se sabia sobre a Frente al-Nusra e seu trabalho com sarin; e enviara relatórios alarmantes de que outro grupo sunita fundamentalista ativo na Síria – al-Qaeda in Iraq (AQI) – também já dominava o processo de produzir sarin. Naquele momento, a Frente Al-Nusra estava operando em áreas próximas de Damasco, incluindo Goutha do Leste. Documento da inteligência distribuído em meados do verão tratava longamente de Ziyaad Tariq Ahmed, especialista em armas químicas dos militares iraquianos, que ter-se-ia mudado para a Síria e que estaria operando em Ghouta Leste. O consultor disse-me que Tariq havia sido identificado como “um sujeito da al-Nusra, com currículo de ter preparado gás mostarda no Iraque e homem que está implicado na produção e uso do gás sarin”. Os militares dos EUA o consideram alvo “de alto valor”.

Dia 20/6, um telegrama top secret de quatro páginas, reunindo tudo o que se sabia sobre as capacidades da al-Nusra para produzir/usar gás sarin, foi passado para David R. Shedd, vice-diretor da Agência de Inteligência da Defesa. "O que passaram para Shedd foi informação ampla e extensa – disse o consultor. Não foi um punhado de 'acreditamos que'". O mesmo consultor disse-me que esse telegrama não dizia nem sugeria que nem os rebeldes nem o Exército Sírio teriam iniciado os ataques em março e abril; mas, sim, confirmava relatórios anteriores de que a Frente al-Nusra tinha meios e competências para comprar e usar gás sarin. Uma amostra do sarin que havia sido usado também fora recuperada – com a ajuda de um agente israelense – mas, segundo o consultor com o qual falei, não há nenhuma referência à amostra, naquele telegrama nem em outros.

Independentemente dessas avaliações, o Estado-Maior das Forças Conjuntas dos EUA, sob a pressuposição de que soldados dos EUA poderiam ser mandados à Síria para capturar o estoque de agentes químicos, requereu uma análise de todas as fontes, sobre a ameaça potencial. "A Ordem de Operação é base para a execução de operação militar, se for ordenada – explicou-me o ex-funcionário sênior da inteligência. – Inclui a possível necessidade de mandar soldados dos EUA para um sítio químico na Síria, para impedir que seja tomado por rebeldes. Se os rebeldes jihadistas estivessem prestes a tomar o sítio químico, os EUA pressupúnhamos que Assad não lutaria contra nós porque estaríamos protegendo os [produtos] químicos de serem capturados pelos rebeldes." "Todas as Ordens de Operação contêm um item que trata de alguma específica ameaça de inteligência. Tínhamos analistas da CIA, da Agência de Inteligência da Defesa, especialistas em armas e gente de “I & W” trabalhando naquele problema... Concluíram que as forças rebeldes eram capazes de atacar com gás sarin uma força dos EUA, porque sabiam e podiam produzir o gás letal. O exame fora feito a partir de sinais e de inteligência humana, e considerava também intenções manifestas e a capacidade técnica comprovada dos rebeldes."

Há provas de que durante o verão alguns membros do Comando do Estado-Maior das Forças Conjuntas dos EUA estavam preocupados ante a possibilidade de invasão por terra à Síria, e pelo desejo manifesto de Obama de oferecer apoio não letal a facções rebeldes. Em julho, o general Martin Dempsey, comandante do Estado-Maior das Forças Conjuntas, apresentou avaliação sombria e disse à Comissão de Serviços Armados do Senado, em audiência pública, que “milhares de forças de operações especiais e outras forças de terra” serão necessárias para tomar todo o arsenal químico da Síria, extremamente disperso, além de “centenas de aviões, barcos, submarinos e outros tipos de veículos”. Estimativas do Pentágono falam em cerca de 70 mil soldados necessários nessa operação, em parte porque as forças dos EUA teriam de proteger também a frota de foguetes sírios: capturar grandes volumes dos produtos químicos que produzem gás sarin, sem ter os meios para lançar o gás, pouca utilidade teria para alguma força rebelde. Numa carta para o senador Carl Levin, Dempsey alerta que qualquer decisão de capturar o arsenal sírio traria consequências não desejadas: "Ao longo dos últimos dez anos, aprendemos porém que não basta simplesmente alterar o equilíbrio do poder militar, sem considerar atenta e cuidadosamente o que é necessário para preservar o funcionamento do estado (...) Se as instituições do regime entrarem em colapso na ausência de qualquer oposição viável, podemos acabar, inadvertidamente, empoderando extremistas ou lançando em operação as mesmas armas químicas que estamos tentando controlar."

Consultada sobre essa carta, a CIA preferiu não se manifestar. Porta-vozes da Agência de Inteligência da Defesa e do Gabinete do Diretor da Inteligência Nacional disseram que não sabiam do relatório enviado a Shedd; depois de receber os dados de identificação do telegrama, enviados por nós, disseram que não haviam localizado o telegrama. Shawn Turner, relações públicas do Gabinete do Diretor da Inteligência Nacional, disse que nenhuma agência de inteligência dos EUA, incluída a Agência de Inteligência da Defesa, “avalia que a Frente al-Nusra tenha conseguido desenvolver alguma capacidade para produzir gás sarin”.

Os funcionários de Relações Públicas do governo Obama não estão tão preocupados com o potencial militar da Frente al-Nusra quanto Shedd nas suas declarações públicas. No final de julho, Shedd apresentou relatório alarmante da força da Frente al-Nusra, durante o Aspen Security Forum, no Colorado. “Contabilizo nada menos que 1.200 diferentes grupos na oposição [ao governo de Bashar Al-Assad]” – disse Shedd, como se ouve nas gravações de sua conferência. E dentro da oposição, a Frente al-Nusra é a mais efetiva e está ganhando força. Isso, disse Shedd, é motivo de grave preocupação para nós. Se essa força for deixada agir sem qualquer oposição, temo muito que os elementos mais radicais – e citou também o grupo al-Qaeda in Iraq –prevaleçam. A guerra civil - ele continuou - só ficará cada vez pior ao longo do tempo (...) Há inominável violência ainda por vir. Shedd não fez qualquer referência a armas químicas em sua fala, porque, de fato, não podia: os relatórios que seu gabinete recebera eram todos ultra top secret.

*

Uma série de despachos secretos vindos da Síria durante o verão relatavam que membros do Exército Sírio Livre andavam reclamando a agentes da inteligência dos Estados Unidos sobre repetidos ataques que estavam sofrendo de combatentes da Frente al-Nusra e da al-Qaeda. Os relatórios, segundo o consultor sênior de inteligência com o qual falamos e que leu aqueles relatórios, traziam provas de que o Exército Sírio Livre estava "mais preocupado com aqueles doidos do que com o governo de Assad". O Exército Sírio Livre é formado em grande parte por desertores do exército sírio. O governo Obama, empenhado em derrubar Assad e em manter o apoio aos rebeldes, procurou, em todas as falas públicas a partir do ataque [com gás sarin], apagar a influência das facções salafistas e wahhabistas. No início de setembro, John Kerry disse, estupefato, em uma audiência no Congresso, que a Frente al-Nusra e outros grupos islâmicos seriam minoria na oposição síria. Mais tarde ele retirou o que dissera.

Em todos as suas falas públicas e privadas depois do dia 21 de agosto de 2013, o governo Obama desconsiderou toda a inteligência que havia sobre a possibilidade real de que a Frente al-Nusra tivesse acesso possível ao gás sarin; e continuou a afirmar que só o governo Assad teria armas químicas. Essa foi a mensagem que se lia nos vários memorandos secretos distribuídos aos membros do Congresso nos dias depois do ataque, quando Obama tentava obter apoio para sua planejada ofensiva aérea contra instalações dos militares sírios. Um deputado, com mais de duas décadas de experiência em questões militares, disse-me que concluiu a leitura de um daqueles memorandos secretos absolutamente convencido de que "só o governo de Assad, não os rebeldes, tinham gás sarin".

Assim também, depois da divulgação do relatório da ONU, dia 16 de setembro de 2013, confirmando que havia sido usado gás sarin no ataque de 21 de agosto de 2013, Samantha Power, embaixadora dos Estados Unidos à ONU, disse, numa conferência de imprensa: "É muito importante observar que só o governo [de Assad] possui sarin, e que não temos prova de que a oposição possua sarin." Não se sabe se os relatórios altamente classificada sobre a Frente al-Nusra chegaram ao gabinete de Power, mas o comentário dela é reflexo da atitude que, então, se via em todo o governo Obama. "A conclusão imediata e geral era que Assad fizera tudo" – disse-me o ex-funcionário sênior de inteligência. – "O novo diretor da CIA, [John] Brennan, pula sobre essa conclusão" corre até a Casa Branca e diz: 'Vejam o que consegui!'. Foi tudo verbal; eles só tinham, de prova, as camisas manchadas de sangue. Houve muita pressão para arrastar Obama à mesa, para ajudar os rebeldes, e havia uma ilusão de que que isso [ligar Assad ao ataque com sarin] forçaria a mão de Obama: 'É o telegrama Zimmermann da rebelião síria! E agora Obama pode reagir'. Pura ilusão, na ala Samantha Power dentro do governo Obama. Infelizmente, alguns dos comandantes do Estado-Maior que foram alertados de que Obama preparava-se para atacar não tinham certeza de que era uma coisa boa."

O proposto ataque com mísseis norte-americanos contra a Síria jamais recebeu apoio da opinião pública; e Obama rapidamente mudou de ideia e agarrou-se à ONU e à proposta dos russos, a favor do desmantelamento dos arsenais químicos sírios. Qualquer possibilidade de ação militar foi afinal definitivamente descartada dia 26 de setembro de 2013, quando o governo Obama acompanhou o voto da Rússia e aprovou projeto de resolução da ONU que pedia que o governo Assad se livrasse de seu arsenal químico. O recuo de Obama trouxe alívio a vários altos comandantes militares. (Um conselheiro de alto nível de operações especiais disse-me que o mal concebido ataque de mísseis dos Estados Unidos contra instalações da Força Aérea síria e silos de mísseis sírios, como foi concebido inicialmente pela Casa Branca, teria sido "praticamente como garantir apoio aéreo próximo à Frente al-Nusra".).

A distorção que o governo Obama criou em todos os fatos que cercam o gás sarin levanta uma questão inevitável: será que afinal conhecemos toda a história do muito que Obama desejava afastar-se da "linha vermelha" que ele mesmo criara, sua ameaça de bombardear a Síria? Primeiro, disse que tinha "caso muito firme" a favor do ataque, e então, de repente, aceita entregar a decisão ao Congresso; e em seguida aceita a oferta de Assad, que se dispõe a entregar seu arsenal químico. Parece razoável e possível que, em algum momento desse processo, Obama tenha recebido informação que andava na direção contrária de tudo que a inteligência dos Estados Unidos lhe dizia: provas suficientemente fortes para convencê-lo, rapidamente, a cancelar o plano de ataque e ver-se obrigado a encarar a crítica que, sem dúvida possível, viria dos Republicanos.

A Resolução da ONU, que foi adotada dia 27 de setembro de 2013 pelo Conselho de Segurança, tratava indiretamente da noção de que forças rebeldes como a al-Nusra também seriam obrigadas a desarmar-se: "... nenhuma parte na Síria deve usar, desenvolver, produzir, comprar, armazenar, possuir ou transferir armas [químicas]." A Resolução também exige que o Conselho de Segurança seja notificado imediatamente no caso de qualquer dos "atores não estatais" adquirirem armas químicas. Nenhum grupo foi citado nominalmente. Enquanto o governo sírio continua a processar a eliminação de seu arsenal químico, a ironia é que, depois que os agentes precursores encontrados nos arsenais do governo do presidente Bashar al-Assad tiverem sido destruídos, a Frente al-Nusra e seus aliados islâmicos talvez acabem sendo a única facção dentro da Síria com acesso aos ingredientes que produzem o gás sarin, arma estratégica sem concorrente naquela zona de guerra. Pode haver muito mais a negociar.

Mandela se foi, mas o apartheid está bem vivo na Austrália

Por John Pilger

No fim dos anos 1960 o editor-chefe do London Daily Mirror, Hugh Cudlipp, atribuiu-me mais uma missão. Devia retornar à minha pátria, a Austrália, e "descobrir o que está por trás da sua face radiante". O Mirror fizera uma campanha incansável contra o apartheid na África do Sul, onde havia relatado o que estava por trás da sua "face radiante". Como australiano, eu fora bem recebido naquela fortaleza da supremacia branca. "Admiramos vocês aussies ", diziam as pessoas. "Vocês sabem como tratar os seus negros".

Eu ficava ofendido, é claro, mas também sabia que apenas o Oceano Índico separava as atitudes raciais das duas nações coloniais. Do que eu não estava consciente era de como a semelhança provocou tamanho sofrimento entre o povo original do meu próprio país. Quando crescia, meus livros escolares haviam deixado claro, para citar um historiador: "Nós somos civilizados e eles não são". Recordo como a uns poucos talentosos jogadores da Aboriginal Rugby League foi permitido atingirem sua glória desde que eles nunca mencionassem o seu povo. Eddie Gilbert, o grande jogador aborígene de críquete, o homem que bateu Don Bratman com um resultado zero ( duck ) , foi impedido de jogar outra vez. Isso não era atípico.

Em 1969 voei para Alice Springs no coração vermelho da Austrália e encontrei-me com Charlie Perkins. Num tempo em que o povo aborígene nem sequer era contado no recenseamento – ao contrário dos carneiros – Charlie era apenas o segundo aborígene a obter um grau universitário. Ele tem feito bom uso desta distinção liderando "campanhas itinerantes" ("freedom rides") em cidades racialmente segregadas no sertão australiano da Nova Gales do Sul. Ele apanhou a ideia das campanhas itinerantes nas que se verificaram no Sul Profundo (Deep South) dos Estados Unidos.

Alugámos um velho Ford, apanhámos a mãe de Charlie, Hetti, uma anciã do povo aranda, e fomos para o que Charlie descreveu como "inferno". Era Jay Creeki, uma "reserva nativa", onde centenas de aborígenes eram encurralados em condições que eu só tinha visto na África e na Índia. De uma torneira do lado de fora pingava um líquido castanho; ali não havia instalações sanitárias; a comida, ou "rações", era fécula e açúcar. As crianças tinham pernas finas como palitos e barrigas inchadas pela desnutrição.

O que me impressionou foi o número de mães e avós enlutadas – desoladas pelo roubo de filhos pela polícia e autoridades do "bem-estar" que, durante anos, haviam levado aquelas crianças com pelo mais clara. A política era a "assimilação". Hoje, isto mudou apenas no nome e na racionalização.

Os rapazes acabariam a trabalhar em fazendas dirigidas por brancos, as meninas como serviçais em lares da classe média. Isto era trabalho escravo não declarado. Eles eram conhecidos como a Geração Roubada. Hetti Perkins contou-me que quando Charlie era criança ela teve de mantê-lo atado às suas costas e escondia-o sempre que ouvia o tropel dos cavalos da polícia. "Eles não o levaram", disse ela, com orgulho.

Em 2008, o primeiro-ministro Kevin Rudd pediu desculpas por este crime contra a humanidade. Os aborígenes mais velhos ficaram gratos; acreditaram que o primeiro povo da Austrália – a mais duradoura presença humana sobre a terra – podia finalmente receber a justiça e o reconhecimento que lhe fora negado durante 220 anos.

O que poucos deles ouviram foi o PS adicional das desculpas de Rudd. "Quero ser categórico acerca disto", disse ele. "Não haverá indemnização". Que a 100 mil pessoas profundamente ofendidas e marcadas pelo ódio racista – resultado de uma forma de movimento eugenista com ligações ao fascismo – não fosse dada qualquer oportunidade para restabelecerem suas vidas era chocante, embora não surpreendente. A maior parte dos governos em Canberra, conservadores ou trabalhistas, tem insinuado que os primeiros australiano são culpáveis pelo seu sofrimento e pobreza.

Quando o governo trabalhista na década de 1980 prometeu "plena reparação" e direitos à terra, o poderoso lobby mineiro avançou com o ataque, gastando milhões a fazer campanha de que "os negros tomariam nossas praias e cerca de arame farpado". O governo capitulou, muito embora a mentira fosse grotesca; o povo aborígene mal chega a três por cento da população australiana.

Hoje, crianças aborígenes estão outra vez a ser roubadas das suas famílias. As palavras burocráticas são "removidas" para "protecção da criança". Em Julho de 2012 havia 13.299 crianças aborígenes em instituições ou entregues a família brancas. Hoje, o roubo destas crianças é mais intenso do que em qualquer momento durante o último século. Entrevistei numerosos especialistas em cuidados infantis que encaram isto como uma segunda geração roubada. "Muitos dos garotos nunca vêem outra vez as suas mães e comunidades", disse-me Olga Havnen, autora de um relatório para o governo do Território do Norte. "No Território do Norte, foram gastos $80 milhões na vigilância e remoção de crianças e menos de $500 mil no apoio a estas famílias empobrecidas. Muitas vezes não é dado qualquer aviso às famílias e elas não têm ideia para onde os seus filhos foram levados. A razão apresentada é negligência – o que quer dizer pobreza. Isto é destruir a cultura aborígene e é racista. Se o apartheid da África do Sul tivesse feito isto, teria havido um alvoroço".

Na cidade de Wilcannia, Nova Gales do Sul, a esperança de vida dos aborígenes é de 37 anos – mais baixa do que na República Centro-Africana, talvez o país mais pobre da Terra, actualmente devastado pela guerra civil. Outra distinção de Wilcannia é que o governo cubano realiza ali um programa de alfabetização, ensinando jovens aborígenes a ler e escrever. É nisto que os cubanos são famosos – nos países mais pobres do mundo. A Austrália é um dos mais ricos do mundo.

Filmei condições semelhantes há 28 anos atrás, quando fiz meu primeiro filme acerca dos indígenas da Austrália, The Secret Country . Vince Forrester, um ancião aborígene que então entrevistei, aparece no meu novo filme, Utopia. . Ele levou-me a uma casa em Mutitjulu onde viviam 32 pessoas, na maior parte crianças, muitos deles a sofrerem otite média, uma doença infecciosa totalmente evitável que prejudica a audição e a fala. "Setenta por cento das crianças nesta casa está parcialmente surda", disse ele. Voltando-se directamente para a minha câmara, disse: "Australianos, isto é o que nós chamamos um insulto aos direitos humanos".

A maioria dos australianos raramente é confrontada com o segredo mais sujo da sua nação. Em 2009, o respeitado Relator Especial das Nações Unidas, Professor James Anaya, testemunhou condições semelhantes e descreveu as políticas de "intervenção" do governo como racistas. O então ministro para a Saúde Indígena, Tony Abbott, para "fazer algo útil" e parar de ouvir "a brigada da vítima". Abbott é agora o primeiro-ministro da Austrália.

Na Austrália Ocidental são escavados minérios da terra aborígene e despachados para a China com um lucro de mil milhões de dólares por semana. Neste, o estado mais rico e mais próspero, as prisões enchem-se com aborígenes esmagados, incluindo jovens cujas mães postam-se às portas da prisão, suplicando pela sua libertação. Aqui o encarceramento de australianos negros é oito vezes superior ao dos negros sul-africanos durante a última década do apartheid.

Quando Nelson Mandela foi enterrado esta semana, a sua luta contra o apartheid foi devidamente celebrada na Austrália, embora a ironia estivesse ausente. O apartheid foi derrotado em grande medida por uma campanha global da qual o regime sul-africano nunca se recuperou. Um opróbrio semelhante raramente deixou marca na Austrália, principalmente porque a população aborígene é tão pequena e porque os governos australianos têm conseguido dividir e cooptar uma liderança dividida com gestos e promessas vagas. Isso pode estar a mudar. Uma resistência está a crescer, apesar de tudo, nas terras centrais aborígenes, especialmente entre os jovens. Ao contrário dos EUA, Canadá e Nova Zelândia, que fizeram tratados com o seu povo original, a Austrália tem apresentado gestos muitas vezes incluídos nas leis. Contudo, no século XXI o mundo exterior começa a prestar atenção. O espectro da África do Sul de Mandela é uma advertência.

O trailer de Utopia, o novo filme de John Pilger, pode ser assistido aqui.

O original encontra-se no London Daily Mirror e em John Pilger.

Este artigo encontra-se em Resistir.

11 de dezembro de 2013

Socialismo: Transformando “miséria histérica” em “tristeza ordinária”

A Esquerda quer dar às pessoas a chance de fazer algo mais com suas vidas, lhes dando tempo e espaço longe do mercado.

Corey Robin


Tradução / No New York Times de ontem, Robert Pear fala sobre um fato pouco conhecido sobre o Obamacare: os pacotes de convênio disponíveis no modelo federal têm franquias muito altas. Atraídas pelas mensalidades baixas, as pessoas acabam se descobrindo ferradas por franquias, co-pagamentos, encargos por serviços e profissionais fora da rede, e todas as diferentes palavras e maneiras que as companhias de convênio inventam para esconder o fato de que você está pagando os olhos da cara.

Pelas apólices oferecidas na opção federal, como em muitos estados, as franquias anuais muitas vezes superam $5,000 para um indivíduo e $10,000 para um casal. 
Seguradoras inventaram novas apólices assumindo que os consumidores escolheriam um plano baseado principalmente no preço, como refletido na mensalidade. Mas convênios com mensalidades mais baixas geralmente possuem franquias mais altas. 
Em El Paso, Texas, por exemplo, para um marido e esposa ambos de 35 anos, um dos planos mais baratos na opção federal, oferecido pela Blue Cross and Blue Shield, tem uma mensalidade menor que $300 por mês, mas a franquia anual é de mais de $12,000. Para um casal de 45 anos buscando um convênio de opção federal em Saginaw, Michigan, uma apólice com uma mensalidade de $515 por mês tem uma franquia de $10,000. 
Em Santa Cruz, Califórnia, onde esse mercado é operado pelo Estado, Robert Aaron, um engenheiro autônomo de 56 anos, disse que estava procurando um plano de baixo custo. O melhor que pôde encontrar tinha uma mensalidade de $488. Mas a franquia anual era de $5,000 e isso, ele diz, “soa realmente alto.” 
Como contraste, de acordo com a Fundação Kaiser Family, a média das franquias anuais em planos de saúde pagos pelos empregadores é de $1,135.

É verdade que se você é parte de uma família de três, recebendo anualmente até $48,825 (ou, se você é um indivíduo ganhando até $28,725 anuais), você é elegível para subsídios. Esses podem ser bem substantivos nos extremos mais baixos da escada de renda. Mas enquanto você começa a se aproximar daqueles limites superiores (que nem são realmente tão altos; de fato, abaixo da renda familiar média), os subsídios começam a minguar. Deixando indivíduos e famílias com uma conta e tanto, como mesmo este texto, que em geral é otimista sobre o Obamacare, reconhece.

Além dos números, o que sempre me atinge nestas discussões é simplesmente o quão complicado o Obamare é. Mesmo se nós aceitarmos as premissas de seus defensores, o número de passos, detalhes, ressalvas e qualificações que são necessárias para defendê-lo, é por si mesmo um problema político massivo. Como estamos vendo agora.

Mais importante que as questões política, a complexidade bizantina é um sintoma do que a cidadã comum tem de confrontar quando ela tenta arrumar cobertura de saúde para si e sua família. Como qualquer um que têm mesmo bons planos sabe, navegar o mundo de números, formulários e ligações telefônicas pode ser uma proposição assustadora. Isso requer um tempo excessivo, obstinação, experiência, inteligência e charme manipulativo (para que não acabe se encontrando no lado errado de um operador telefônico descontente). O Obamacare se encaixa bem com esse mundo e o multiplica.

Não estou interessado em discutir aqui o que era possível através de reforma na Saúde e o que não era; nós já tivemos esse debate mil vezes. Mas pensei que poderia ser útil levantar novamente parte deste post que fiz, quando comecei a escrever em meu blog, sobre quanto tempo e energia nosso mundo capitalista requer que nós gastemos, e o que uma abordagem de esquerda para a economia poderia ter a dizer sobre isso tudo. É esse mundo da experiência cotidiana – o que é tentar e arranjar bens básicos para si mesmo e/ou sua família – o que eu gostaria que tanto “liberais” e esquerdistas tivessem mais contato com.

O texto segue uma ideia que tenho sobre o socialismo e o estado de bem-estar social por vários anos. Plagiando Freud e bebendo do meu próprio utopismo anti-utópico, acredito que o objetivo do socialismo é converter miséria histérica em infelicidade comum. Deus, isso seria tão bom!

***

Há um argumento mais profundo e mais substantivo a ser feito para uma abordagem de Esquerda para a economia. Na utopia neoliberal, todos nós somos forçados a gastar um tempo excessivo mantendo rasto de toda e qualquer faceta de nossas vidas econômicas. Isso, de fato, é um objetivo declarado abertamente:uma vez que sejamos mais conscientes sobre nosso dinheiro, de onde ele vem e para onde vai, neoliberais acreditam que seremos mais responsáveis ao gastá-lo e investí-lo. É claro, os ricos têm contadores, advogados, assistentes pessoais e outros para fazer isso para eles, então o argumento não se aplica a eles, mas essa é uma outra história, para outro dia.

O sonho é que nós todos teríamos nosso gazilhão de contas individuais – uma para aposentadoria, uma para doença, uma para desemprego, uma para as crianças, e assim por diante, cada uma conectada com nosso emprego, para que entendêssemos que tudo de bom na vida depende de nossos chefes (e não do governo) – e a cada dia nós iríamos checar como as coisas estariam indo, o que precisaria ser atendido, o que poderia ser melhor investido em outro lugar. É como se, no sonho neoliberal, seríamos todos aposentados em Boca, com nada melhor para fazer do que contatar o nosso corretor, exceto é claro que não seríamos. De fato, se Republicanos (e alguns Democratas) pudessem fazer as coisas do seu jeito, nós nunca nos aposentaríamos.

Na vida real (ou pelo menos em nossa vida preferida), nós temos outras coisas melhores para fazer. Nós temos livros para ler, filhos para criar, amigos para encontrar, pessoas amadas para cuidar, diversões para curtir, bebidas para beber, caminhadas para fazer, internet para navegar, sofás para deitar, jogos para jogar, filmes para assistir, protestos para fazer, movimentos para construir, marchas para marchar, e mais. Na maioria dos dias, não temos tempo para fazer nada disso. Nós estamos trabalhando por horas demais e por salário de menos, e nas poucas horas (minutos) que sobram depois que as crianças estão dormindo, a louça e as roupas estão lavadas, nós temos de pechinchar com companhias de seguro sobre as contas do médico, lidar com funcionários da escola precisando de formulários assinados, e mais.

O que é mais espantoso sobre a proposta de Romney – e a visão de mundo neoliberal, em geral – é que ela apenas contribuiria para aumentar esse aborrecimento imenso, essa merda incrível da vida cotidiana. Uma conta a mais para acompanhar, uma campainha a mais para responder. Por que qualquer um iria querer viver assim? Eu não sei mesmo, mas acho que esse é o objetivo dos neoliberais: não apenas que a gente seja mais responsável com nosso dinheiro, mas também que a gente seja mais consumido por ele, para que a gente não tenha tempo para nada mais. Especialmente nada, como Política, que poderia perturbar a ordem social como ela está.

Nós vimos uma versão disso durante o debate sobre o plano de assistência médica de Obama. Eu me lembro distintamente, apesar de agora não conseguir encontrar, de um daqueles garotos-prodígio da Saúde – talvez tenha sido Ezra Klein – com risinhos sobre a Economia elegante e o visual legal do plano de Obama: como você poderia ir para a internet, checar o plano, comparar esta pequena brecha de um plano com aquela pequena brecha de outro, e o quão ótimo isso tudo era por que era simplesmente complicado para caralho.

Pensei comigo: ou você é muito jovem, ou um acadêmico. E como sou um acadêmico, e pude apenas experimentar vertigem ao olhar para todos aqueles malditos gráficos e tabelas, decidi que, quem quer que você fosse, seria muito jovem. Apenas alguém nos seus vinte e tantos anos – esperto o bastante para dominar uma lei incomumente complicada sem ter de fazer uso real dela – poderia olhar aquele Everest de palavras e números e dizer: Sim! Aí está a Liberdade!

É a isso que a visão neoliberal nos reduz: homens e mulheres tão confrontados pelos aborrecimentos do dia-à-dia que ou somos forçados a dominá-los, como o garoto-maravilha da blogosfera, ou nos tornamos seus escravos. Ou somos atletas do mercado ou a equipe de suporte que toma conta da corrida.

Não é isso que a Esquerda quer. Nós queremos dar às pessoas a chance de fazer algo mais com suas vidas, alguma coisa além de meramente tomar conta delas, sem ter que tomar um desvio de trinta anos em Wall Street para chegar lá. O jeito de fazer isso não é imergir as pessoas mais ainda nos caminhos e meios do mercado, mas dando a elas tempo e espaço para sair disso. É isso que um bom Estado de Bem-Estar Social, uma verdadeira Social-Democracia faz: ao invés de ser consumido pela vida, ela lhe permite construir sua vida [14]. Livremente. Uma campainha a menos para responder, não uma a mais.

10 de dezembro de 2013

Confissões de um marxista irregular em meio a uma repugnante crise europeia

Em maio de 2013, fui convidado para falar sobre esse assunto no 6º Festival Subversivo em Zagreb, Croácia. Só agora consegui escrever e ampliar em alguns aspectos significativas, o que disse naquela conferência.*

Yanis Varoufakis

Thoughts for the post-2008 world

Resumo:

A Europa está passando por uma recessão que difere substancialmente de uma recessão capitalista “normal”, do tipo que é superado através de uma compressão salarial que ajuda a restabelecer a rentabilidade. O presente deslizar a longo-prazo em direção a uma depressão assimétrica e à desintegração monetária coloca os radicais perante um terrível dilema: Devemos usar esta crise capitalista de rara profundidade como uma oportunidade para fazer campanha pelo desmantelamento da União Europeia, dada a sua aquiescência entusiástica para com o credo e as políticas neoliberais? Ou devemos aceitar que a Esquerda não está pronta ainda para uma mudança radical e fazer antes campanha pela estabilização do capitalismo europeu? Este artigo argumenta que, por pouco sedutora que a última proposição possa soar aos ouvidos do pensador radical, é dever histórico da esquerda, nesta conjuntura particular, estabilizar o capitalismo; salvar o capitalismo europeu de si próprio e dos ineptos tratadores da inevitável crise da zona euro. Baseando-se nas suas experiências pessoais e no seu próprio percurso intecletual, o autor explica as razões pelas quais Marx deverá continuar a estar no centro da nossa análise do capitalismo, mas também por que razão devemos ser "irregulares" em nosso marxismo. Além disso, o artigo explica porque uma análise marxista, tanto do capitalismo europeu como do atual estado da esquerda, nos obriga a trabalhar em prol de uma ampla coligação, mesmo com direitistas, cujo objectivo deverá ser a resolução da crise na Zona Euro e a estabilização da União Europeia. Em suma, o artigo sugere que os radicais deverão, no contexto da presente calamidade europeia, trabalhar para minimizar o sofrimento humano, reforçando as instituições públicas da Europa, e, deste modo, ganhar tempo e espaço para desenvolver uma alternativa verdadeiramente humanista.

Palavras-chave: crise da Zona do Euro, crítica imanente, dialética, marxismo

1. Introdução: uma profunda confissão

Tradução / O capitalismo global teve seu segundo espasmo em 2008, iniciando uma reação em cadeia que empurrou a Europa para uma espiral descendente que está ameaçando os europeus com um vórtice de depressão quase permanente, de cinismo, desintegração e misantropia.

Nos últimos três anos, tenho-me dirigido a audiências excecionalmente diversificadas sobre os destinos da Europa. A milhares de manifestantes anti-austeridade na Praça Syntagma de Atenas, a funcionários do Banco de Reserva Federal de Nova Iorque, a deputados verdes no Parlamento Europeu, a analistas da Bloomberg em Londres e Nova Iorque, a crianças em idade escolar em subúrbios pobres na Grécia e Estados Unidos, a ativistas do Syriza em Salónica, à Câmara dos Comuns em Londres, a gestores de fundos em Manhattan e na City de Londres, a lista é tão longa como é persistente a denegação pelos nossos líderes europeus do humanismo e da razão. Apesar da diversidade dos públicos, a mensagem tem sido coerente: a crise atual na Europa não é apenas uma ameaça para os trabalhadores, para as pessoas que perderam tudo, para os banqueiros, para determinados grupos, classes sociais, ou mesmo para as nações. Não, a atual postura europeia representa uma ameaça para a civilização como a conhecemos.

Se o meu prognóstico é correto - e a crise europeia não é apenas mais uma crise cíclica, a ser superada em breve, à medida que a taxa de lucro recupera na sequência da inevitável compressão dos salários - a questão que se coloca aos radicais é a seguinte: devemos saudar alegremente este afundamento do capitalismo europeu, como uma oportunidade para substituir o capitalismo por um sistema melhor? Ou será que nos devemos preocupar com isso, a tal ponto que encetemos mesmo uma campanha para estabilizar capitalismo europeu? A minha resposta tem sido clara ao longo dos últimos três anos e a sua natureza é traído pela lista acima mencionada das diversas audiências que procurei influenciar. A presente crise na Europa está, a meu ver, grávida, não de uma alternativa progressiva, mas sim de forças radicalmente regressivas, com capacidade para provocar um banho de sangue, extinguindo do mesmo passo qualquer esperança em desenvolvimentos progressivos por várias gerações vindouras.

Por ter estes pontos de vista, tenho sido acusado, por vozes radicais bem intencionados, como um "derrotista"; como um menshevique do nosso tempo que incansavelmente se empenha a favor de esquemas cujo objetivo é salvar o atual sistema sócio-económico europeu insustentável. Um sistema que representa tudo aquilo a que um radical se deveria opor e lutar contra: uma União Europeia anti-democrática, irreversivelmente neoliberal, altamente irracional, transnacional, que não dispõe de capacidade praticamente nenhuma para evoluir no sentido de uma comunidade verdadeiramente humanista, dentro da qual as nações da Europa possam respirar, viver e desenvolver-se. Esta crítica, confesso, dói. E dói porque ela contém bem mais do que um grão de verdade.

Na verdade, eu partilho o ponto de vista de que a União Europeia é um cartel fundamentalmente anti-democrático, irracional, que colocou os povos da Europa no caminho da misantropia, do conflito e da recessão permanente. E também sou sensível à crítica de que tenho feito campanha por uma agenda fundada no pressuposto de que a esquerda foi, e continua a estar, completamente derrotada. Por isso, sim, neste sentido, sinto-me compelido a reconhecer que desejaria que a minha campanha fosse de um outro género; preferiria estar promovendo uma agenda radical cuja razão de ser fosse a substituição do capitalismo europeu por um sistema diferente, mais racional – em vez de simplesmente fazer campanha pela estabilização do capitalismo europeu, o qual está em contradição com a minha definição do que será uma boa sociedade.

Neste ponto, talvez seja pertinente a emissão de uma confissão de segunda ordem: a confissão de que... as confissões tendem a ser auto-justificativas. De facto, as confissões estão sempre à beira do que John von Neumann disse uma vez sobre Robert Oppenheimer, ao ouvir que o seu ex-diretor do Projeto Manhattan havia se tornado militante anti-nuclear e confessou a culpa sobre a sua contribuição para as carnificinas em Hiroshima e em Nagasaki. As palavras cáusticas de Von Neumann foram estas:

"Ele está confessando o pecado a fim de reclamar a glória."

Felizmente, não sou nenhum Oppenheimer e, portanto, não vai ser muito difícil de evitar a confissão de múltiplos pecados como meio de auto-promoção. Fá-lo-ei antes como uma janela a partir da qual possamos examinar o meu ponto de vista sobre o repugnante capitalismo europeu, emerso em crise, profundamente irracional, cuja implosão, apesar de seus muitos males, deve ser evitada a todo o custo. Trata-se de uma confissão para convencer os radicais de que temos uma missão contraditória: deter o capitalismo europeu na sua queda-livre, a fim de comprar o tempo de que precisamos ainda para formular a sua alternativa.

2. Por que razão marxista?

Quando escolhi a minha tese de doutoramento, em 1982, escolhi propositadamente um tópico altamente matemático e um tema que Marx achava ser irrelevante. Quando, mais tarde, embarquei numa carreira acadêmica, como professor em departamentos de economia convencionais, o contrato implícito entre mim e as direções universitárias que me ofereceram esses lugares foi que eu ensinasse o tipo de teoria económica que não deixava espaço para Marx. No final da década de 1980, sem que eu o soubesse, fui contratado pelo Departamento de Economia da Universidade de Sydney, por forma a excluir um candidato de esquerda. Em seguida, depois de voltar para a Grécia, no ano 2000, eu apostei em George Papandreou, na esperança de ajudar a conter o regresso ao poder de uma ressurgente direita, empenhada em empurrar a Grécia para uma posição xenófoba (tanto internamente, com a repressão sobre os trabalhadores imigrantes, como em política externa). Como todo o mundo sabe, agora, o partido do senhor Papandreou não apenas falhou na travagem da xenofobia, como, no final, acabou por presidir à mais virulenta das políticas macroeconómicas neoliberais que se promoveram entre os chamados “resgates” na Zona Euro, desta forma, involuntariamente, fazendo com que os nazistas regressassem às ruas de Atenas. Embora eu me tenha demitido de assessor do senhor Papandreou, no início de 2006, transformando-me no mais feroz crítico do seu governo e da sua desastrosa gestão da implosão grega pós-2009, a minha intervenção no debate público sobre a Grécia e a Europa (por exemplo, a Modesta Proposta para resolver a Crise do Euro, de que fui co-autor e pela qual tenho feito campanha) não contém o mais leve traço de marxismo.

Tendo em vista este longo caminho feito na academia e os debates políticos na Europa em que intervim, pode parecer surpreendente ouvir assumir-me (“come out of the proverbial closet”) como marxista. Este tipo de declarações não surge naturalmente em mim. Eu desejaria poder evitar hetero-definições (ou seja, ser definido pela cosmogonia e método de uma outra pessoa). Marxista, hegeliano, keynesiano, humeano, eu tenho uma tendência natural para dizer que não sou nada destas coisas; que passei os meus dias tentando tornar-me a abelha de Francis Bacon: uma criatura que recolhe o néctar de um milhão de flores e o transforma, nas suas entranhas, em algo de novo, algo de próprio, algo que deve qualquer coisa a todas as plantas mas não se deixa definir por uma única flor. Infelizmente, isso seria falso e uma forma muito pouco apropriada de começar uma… confissão.

Na verdade, Karl Marx foi o responsável por elaborar a minha perspectiva do mundo em que vivemos, desde a minha infância até o dia de hoje. Não é algo que eu me voluntarie muito para abordar na "sociedade educada", nestes dias, porque a mera menção da palavra M faz as audiências debandar. Mas eu também nunca o neguei. Na verdade, depois de alguns anos a dirigir-me a audiências com as quais eu não partilho o mesmo meio ideológico, tem surgido em mim, recentemente, a necessidade de falar abertamente sobre a influência de Marx no meu pensamento. Para explicar também a razão pela qual, ainda que um marxista impenitente, eu acho que é importante resistir-lhe apaixonadamente, em uma variedade de maneiras. Para sermos, por outras palavras, irregulares no nosso marxismo.

Se toda a minha carreira académica ignorou em grande parte Marx, e as minhas atuais recomendações políticas são impossíveis de descrever como marxistas, por que razão abordar o meu marxismo agora? A resposta é simples: Até mesmo a minha economia não-marxista foi guiada por uma mentalidade fortemente influenciada por Marx. O teórico social radical pode desafiar a economia convencional de duas maneiras diferentes, como eu sempre pensei. Uma maneira de fazer isso é através de crítica imanente. Aceitar os axiomas convencionais e, em seguida, expor suas contradições internas. Dizer: "Não vou contestar as suas suposições, mas eis porque as suas próprias conclusões não são as que decorrem logicamente a partir delas." Este foi, de fato, o método de Marx na neutralização da Economia Política britânica. Ele aceitou todos os axiomas de Adam Smith e David Ricardo, a fim de demonstrar que, no contexto de suas premissas, o capitalismo era um sistema contraditório. A segunda via que um radical teórico pode prosseguir é, naturalmente, a construção de teorias alternativas às estabelecidas, na esperança de que possam ser levados a sério (que é o que, mais tarde, os economistas marxistas do século 20 têm vindo a fazer).

A minha opinião sobre este dilema sempre foi a de que os poderes estabelecidos nunca são perturbados pelas teorias que embarcam de pressupostos diferentes dos seus próprios. Nenhum economista consagrado vai sequer prestar atenção a um modelo marxista ou neo-ricardiano, por estes dias. A única coisa que pode desestabilizar e genuinamente desafiar os economistas convencionais neoclássicos é a demonstração da inconsistência interna de seus próprios modelos. Foi por essa razão que, desde o início, eu escolhi entrar bem nas “entranhas” da teoria neoclássica e gastar praticamente nenhuma energia a tentar desenvolver modelos alternativos, marxistas, de capitalismo. Os meus motivos para assim proceder foram, assim o sustento, bastante… marxistas (1).

Quando instado a comentar o mundo em que vivemos, em vez de recorrer ao que diz a ideologia dominante sobre o seu funcionamento, eu não tinha outra alternativa senão regressar à tradição marxista que tinha moldado meu pensamento desde que o meu pai metalurgista imprimiu em mim, quando eu ainda era uma criança, o efeito das mudanças tecnológicas e da inovação no processo histórico. Como, por exemplo, a passagem da Idade do Bronze para a Idade do Ferro acelerou a história; como a descoberta do aço acelerou o tempo histórico por um fator de dez; e como as tecnologias de informação com base no silício são fator de rápidas descontinuidades sócio-económicas e históricas.

Este constante triunfo da razão humana sobre os nossos meios tecnológicos e a natureza, que também serve para expor periodicamente a situação de atraso das nossas relações e convenções sociais, é um insubstituível lampejo que devo a Marx. A sua perspectiva materialista histórica foi reforçada pelas formas mais interessantes e inesperadas. Quem quer que já tenha assistido a um episódio de Star Trek Voyagerintitulado "um piscar de olhos”, vai reconhecer uma maravilhosa representação do funcionamento do materialismo histórico em quarenta e cinco minutos; uma surpreendente narrativa sobre o processo pelo qual o desenvolvimento dos meios de produção gera os avanços tecnológicos que constantemente socavam a superstição e fornecem os impulsos históricos que, de uma forma não-linear, dão origem a novas etapas de civilização.

O meu primeiro encontro com os textos de Marx veio muito cedo na vida, como resultado dos estranhos tempos em que cresci, com a Grécia a sair do pesadelo da ditadura neo-fascista de 1967-74. O que chamou a minha atenção foi o insuperável, hipnotizante, dom de Marx para escrever um dramático guião para a história humana, na verdade a danação humana, entrelaçado com a possibilidade muito real de salvação e de uma autêntica espiritualidade. Ao ler as linhas, como…

"a sociedade burguesa moderna, com suas relações de produção, de troca e de propriedade, uma sociedade que conjurou um tão gigantesco conjunto de meios de produção e de troca, assemelha-se ao feiticeiro que já não é capaz de controlar os poderes do mundo infernal que ele próprio chamou com os seus feitiços." (Manifesto do Partido Comunista, 1848)

Foi como deparar com a reunião de, por um lado, o Dr. Fausto e o Dr. Frankenstein, e, por outro lado, de Adam Smith e David Ricardo, criando uma narrativa povoada por personagens (trabalhadores, capitalistas, funcionários, cientistas) que foram asdramatis personae da história, os agentes que se esforçaram por utilizar a razão e a ciência no contexto da capacitação da humanidade, enquanto, contrariamente às suas intenções, desencadearam efetivamente as forças demoníacas que foram usurpando e subvertendo a sua própria liberdade e humanidade.

Esta perspectiva dialética, em que tudo nos aparece grávido com seu oposto, e os ansiosos olhos com que Marx vislumbrou o potencial de mudança na aparentemente mais constante e imutável das estruturas sociais, ajudou-me a compreender as grandes contradições da era capitalista. Dissolveu o paradoxo de uma idade que gerou a mais notável riqueza e, no mesmo fôlego, a mais gritante pobreza. Hoje, analisando a crise europeia, a crise de realização nos Estados Unidos, a estagnação a longo-termo do capitalismo japonês, a maioria dos comentadores não consegue apreciar o processo dialético desenvolvendo-se bem sob o seu nariz. Eles reconhecem a montanha de dívidas e perdas bancárias mas negligenciam o lado oposto da mesma moeda, a sua antítese: a montanha de poupanças ociosas que estão "congeladas" pelo medo e, assim, deixam de ser convertidas em investimentos produtivos. Uma atenção tipicamente marxista às oposições binárias poderia ter aberto os seus olhos...

Uma das principais razões por que a opinião estabelecida falha completamente a chegada a termos com a realidade contemporânea é que ela nunca compreendeu a "produção conjunta", dialeticamente tensa, de dívidas e de excedentes de produção, de crescimento e de desemprego, de riqueza e de pobreza, de espiritualidade e de depravação, do bem e do mal, de novas perspectivas de prazer e novas formas de escravidão, de liberdade e de apoderamento do outro; esta mistura de oposições binárias para as quais o guião dramático de Marx nos alertara, como sendo as fontes da astúcia da história.

Desde os meus primeiros passos a pensar como um economista, até ao presente dia, ocorreu-me que Marx tinha feito uma "descoberta", que deve permanecer no coração de qualquer análise útil do capitalismo. Foi, é claro, a descoberta de uma outra oposição binária profundamente entranhada no trabalho humano. A oposição entre as duas “naturezas” muito diferentes do trabalho: (i) o trabalho como atividade criadora de valor ("cuspidora de fogo") que nunca pode ser especificada ou quantificada com antecedência (e, portanto, impossível de mercantilização), e (ii) o trabalho como uma quantidade (por exemplo: número de horas trabalhadas) que está à venda e tem um preço. É isso que distingue o trabalho de outros insumos da produção, tais como a eletricidade: a sua dupla e contraditória natureza. Uma diferenciação e contradição que a Economia Política negligenciou, antes de Marx aparecer, e que os economistas convencionais se recusam firmemente a reconhecer ainda hoje.

Tanto a energia elétrica como o trabalho podem ser pensados como mercadorias. Na verdade, os empregadores usam todo o seu engenho - bem como o dos seus gestores de recursos humanos - para quantificar, medir e homogeneizar o trabalho. Entretanto, aspirantes a empregados passam por um espremedor, numa ansiosa tentativa para mercantilizar a sua mão-de-obra, escrevendo e re-escrevendo o seu CV, a fim de se retratarem como fornecedores de quantificáveis unidades de trabalho. E é aí que está o busílis! Pois que se os trabalhadores e os empregadores tiverem sucesso na mercantilização integral do trabalho, o capitalismo irá perecer. Esta é uma percepção sem a qual o capitalismo, na sua tendência para gerar crises, nunca pode ser totalmente entendido e, além disso, uma visão a que ninguém tem acesso sem ter tido algum grau de exposição ao pensamento de Marx.

3. A ficção científica torna-se documentário

No clássico filme 1953 The Invasion of the Body Snatchers (2), a força alienígena não nos ataca de frente, ao contrário de, por exemplo, A Guerra dos Mundos de H. G. Wells. Em vez disso, os seres humanos são tomadas por dentro, até que nada resta do seu espírito e das suas emoções humanas. Os seus corpos são tudo o que resta, como carapaças que antes continham uma vontade livre e que agora trabalham, passam pelos movimentos da “vida” de todos os dias e cumprem a sua função como simulacros humanos “libertos” da inquantificável sutileza da natureza humana. Este processo é equivalente à transformação que será necessário operar para tornar o trabalho humano um insumo não muito distinto das sementes, da eletricidade, ou mesmo dos robôs. Em linguagem moderna, é o que se teria verificado se o trabalho humano se tornasse perfeitamente redutível ao capital humano e, portanto, apto para inserção nos modelos dos economistas vulgares.

Já que pensamos nisso, todas e cada uma das teorias econômicas não-marxistas que tratam dos insumos de produção humanos e não-humanos como intercambiáveis e como quantidades qualitativamente equivalentes, assume que a desumanização do trabalho humano é completa. Mas, se alguma vez esta pudesse ser concluída, o resultado seria o fim do capitalismo como um sistema capaz de criar e distribuir valor. Para começar, uma sociedade de simulacros desumanizados, da autómatos, assemelhar-se-ia a um relógio mecânico cheio de dentes e de molas, cada um com a sua própria função exclusiva, conjuntamente constituindo um único “bem”: a contagem do tempo. No entanto, se essa sociedade contivesse nada mais que outros autómatos, a contagem do tempo não seria um “bem”. Seria uma "saída", sem dúvida, mas porquê um "bem"? Sem humanos reais para experimentar a função do relógio, não pode haver uma tal coisa como um “bem” ou um “mal”. Uma "sociedade" de autómatos, tal como os relógios mecânicos ou algum circuito integrado, seria cheia de partes constitutivas, demonstrando uma funcionalidade, mas nada que possa ser utilmente descrito como "bem" ou "mal", ou mesmo como "valor".

Assim, em resumo, se o capital alguma vez conseguir quantificar, e posteriormente, totalmente mercantilizar, o trabalho, como está constantemente a tentar fazer, também espremerá do mesmo passo aquela indeterminada, recalcitrante liberdade humana dentro do trabalho que permite a geração de valor. O brilhante vislumbre de Marx na essência da crise capitalista foi justamente este: quanto maior for o sucesso do capitalismo em tornar o trabalho uma mercadoria, menor será o valor de cada unidade de produção que gera, menor a taxa de lucro e, em última análise, mais perto ficará a próxima desagradável recessão da economia como um sistema. A representação da liberdade humana como uma categoria econômica é única em Marx, tornando possível uma distintamente dramática e analiticamente arguta interpretação da propensão do capitalismo para arrebatar a recessão, e até mesmo a depressão, das garras de "crescimento".

Quando Marx estava escrevendo que o trabalho é fogo vivo dador de forma; a transitoriedade das coisas; a sua temporalidade; ele estava fazendo a maior contribuição que qualquer economista já fez, desde sempre, à nossa compreensão da aguda contradição sepultada no DNA do capitalismo. Quando ele retratou o capital como "…uma força à qual nos temos que submeter… [ele] desenvolve uma energia muito cosmopolita, universal, que rompe com todos os limites e todas as fronteiras, colocando-se a si próprio como a única política, a única universalidade, o único limite e o único vínculo" (3), ele estava a sublinhar a realidade de que o trabalho pode ser comprado por capital líquido (isto é, dinheiro), na sua forma mercadoria, mas que vai sempre carregar consigo uma vontade hostil para com o comprador capitalista. Mas Marx não estava apenas, com isso, fazendo uma observação psicológica, filosófica ou política. Ele estava, em vez disso, a fornecer uma notável análise da razão porque, no momento em que o trabalho (como uma atividade não quantificável) perde esta hostilidade, ela se torna estéril, incapaz de produzir valor.

Em um tempo em que os neoliberais aprisionaram a maioria nos seus tentáculos teóricos, ruminando incessantemente a ideologia do aumento da produtividade da mão-de-obra na tentativa de melhorar o seu nível de competitividade, a fim de criar "crescimento", etc., a análise de Marx oferece um poderoso antídoto. O capital nunca poderá triunfar na sua luta para transformar trabalho em um insumo infinitamente elástico e mecanizado sem destruir-se a si próprio. É isso que nem os neoliberais nem os keynesianos alguma vez compreenderão! "Se toda a classe dos trabalhadores assalariados fosse aniquilada por máquinas", escreveu Marx "quão terrível que seria para o capital, que, sem o trabalho assalariado deixa de ser capital!" (4). Quanto mais o capital se aproxima da sua "vitória final" sobre o trabalho, mais a nossa sociedade se parece com um outro filme de ficção científica. Um filme que havia sido prefigurado por, esse mesmo, Karl Marx: The Matrix.

O que é único em The Matrix é que, neste filme, a rebelião dos nossos artefatos não foi apenas um simples caso de criador-cídeo. Ao contrário da Coisa de Frankenstein, que ataca os humanos irracionalmente, fruto da sua pura angústia existencial, ou das máquinas da série O Exterminador, que só querem exterminar todos os seres humanos com vista a consolidar no futuro uma posição dominante no planeta, em The Matrix, o emergente império das máquinas está empenhado em conservar a vida humana para os seus próprios fins; em nos manter vivos, como um recurso primário. O Homo Sapiens, não obstante ter sido quem inventou a escravidão humana, e apesar do nosso histórico sem precedentes de infligir indescritíveis horrores aos nossos semelhantes, não poderia ter sequer imaginado o desprezível papel que as máquinas lhe atribuiriam em The Matrix: amarrados em engenhocas que nos imobilizaram para economizar energia, as máquinas alimentaram-nos à força com uma mistura de nutrientes nauseabundos, adequados para a máxima geração de calor.

No entanto, as máquinas rapidamente descobriram que os humanos não duram muito tempo quando o seu espírito está quebrado e a sua liberdade lhes é totalmente negada. A nossa curiosa necessidade de liberdade estava, deste modo, ameaçando a eficácia das suas fábricas de energia alimentadas a humanos. Assim, as máquinas proveram-nos com aquilo que Marx teria chamado de uma "falsa consciência". Elas forçaram não apenas nutrientes para os nossos corpos, mas também ilusões nas nossas mentes, a que o nosso espírito almejava. De forma engenhosa, elas ligaram elétrodos aos nossos crânios, com os quais alimentaram diretamente em nosso cérebro, uma vida virtual, mas absolutamente realista, que, como seres humanos, poderíamos suportar. Enquanto nossos corpos continuavam brutalmente conetados a seus geradores de energia, alimentando-os com a electricidade proveniente de nosso calor corporal, o programa de computador das máquinas conhecido como Matrix enchia as nossas mentes com uma vida imaginária, ilusória, mas no entanto muito “real” e “normal”. Dessa forma, nossos corpos, alheios à realidade, poderiam viver durante décadas, para grande utilidade das máquinas responsáveis por gerar energia suficiente para manter o seu novo mundo. O olvido humano revelou-se um factor de produção determinante na economia de Matrix.

"As máquinas têm adquirido o poder diretor sobre o trabalho humano e seus produtos"(5). Foi desta forma que Marx descreveu a “ascenção das máquinas", como um cruzamento entre uma tragédia shakespeariana e outra da Grécia antiga, que evoluiu contra o pano de fundo de uma nova revolução industrial, em que uns poucos eram proprietários das máquinas e os muitos trabalhavam nelas. A tese de Marx era que, no universo do capital, nós já somos trans-humanos. The Matrix não é futurologia. Ela tem sido parte de nossa realidade já há algum tempo! Trata-se de um documentário de grande qualidade sobre a nossa época ou, para ser mais preciso, da tendência da nossa época para expulsar para fora do trabalho humano todas as suas características que o impedem de se tornar totalmente flexível, perfeitamente quantificado, infinitamente divisível. Quanto a Marx, o seu papel foi o de nos providenciar a opção pela "pílula vermelha" (6); a possibilidade de olharmos bem em face, sem o calmante ilusório de ideologia burguesa, a feia realidade de um sistema que produz as crises e a miséria como seu rumo próprio, por desígnio, e certamente não por acaso.

Leia-se qualquer manual de gestão, qualquer artigo em alguma revista sobre a economia da educação, todos as diretivas que tenham vindo da União Europeia em matéria de formação, escolas, universidades, programas de aumento da produtividade, competitividade, etc., o que você irá reconhecer imediatamente é que já estamos vivendo em nossa própria versão da Matrix. Os esforços inexoráveis do capital com o objetivo de quantificar e usurpar o trabalho infetam todos esses documentos, que estão promovendo uma sociedade em que as pessoas são aspirantes a se tornarem autómatos. Uma ideologia cuja extensão programática é a transformação do trabalho humano em uma versão da energia térmica, que permite às máquinas uma maior margem de manobra para a função e para a fabricação de outras máquinas, às quais, tragicamente, falta a capacidade de gerar… valor.

Neste sentido, a nossa Matrix só pode ser provisória, uma vez que quanto mais se aproxima da sua aperfeiçoada versão em filme, o mais provável é a ocorrência de uma monumental crise, com os valores económicos a cair abaixo do chão e a chegada de uma grande recessão. A ascenção das máquinas é revertida e o investimento nelas torna-se negativo. Nesta perspectiva marxiana, voltando ao filme uma vez mais, o bando de seres humanos libertos, nas entranhas da sociedade das máquinas (que dirigem a ressurreição humana contra as máquinas), simboliza a resistência humana a tornar-se capital humano; a irredutível e inerente hostilidade para com a quantificação que permanece incorporada dentro do coração e da mente, mesmo daqueles que gastam todas as suas energias tentando se tornarem mercantilizados, em nome de seus empregadores. A deliciosa ironia, nesta matéria, é que a própria hostilidade que o capital está tentando erradicar no trabalho é o que faz com que o trabalho seja capaz de produzir valor, permitindo assim ao capital que se acumule.

4. O que Marx fez por nós?

Paul Samuelson, certa vez, denegriu Karl Marx, chamando-lhe um ricardiano menor. Quase todas as escolas de pensamento, incluindo alguns economistas progressistas, gostam de alardear que, embora Marx seja uma figura poderosa, muito pouco, se alguma coisa, do seu contributo, continua relevante hoje em dia. Permitam-me que discorde.

Além de ter capturado o drama básico da dinâmica do capitalismo (veja-se a seção anterior), Marx deu-me as ferramentas com as quais me tornei imune aos efeitos tóxicos da propaganda dos inimigos neoliberais da verdadeira liberdade e racionalidade. Por exemplo, é fácil sucumbir à idéia de que a riqueza é produzida em privado e, em seguida, apropriada por um Estado quase-ilegítimo, através da tributação, se não tivermos sido expostos antes à argumentação pungente de Marx de que é exatamente o contrário que sucede: a riqueza é produzida coletivamente e, em seguida, apropriada em privado por intermédio de relações sociais de produção e direitos de propriedade que dependem, para sua reprodução, quase exclusivamente, da falsa consciência. Da mesma forma com o conceito de "autonomia", que ressoa tão bem neste nosso mundo da "pós-modernidade". Ele também é produzido coletivamente, por meio da dialética do reconhecimento mútuo, e, em seguida, apropriado em privado. Se Marx tivesse sido levado a sério (tanto por marxistas como pelos seus detratores, é preciso dizê-lo), muitas inanidades que se acumularam ao longo do tempo nos anais dos estudos culturais teriam sido evitadas.

Phil Mirowski apontou recentemente (7), com grande eloquência, o sucesso dos neoliberais em convencer uma grande variedade de pessoas de que os mercados não são apenas um meio útil mas também um inalienável fim em si próprios. Que enquanto a ação coletiva e as instituições públicas são sempre incapazes de "encontrar o caminho certo", a desenfreada operação descentralizada de múltiplos interesses privados gera uma espécie de providência secular e divina que garantidamente produz não só os resultados certos, mas também os mais adequados desejos, carácteres, até mesmo ethos. O melhor exemplo da grosseria neoliberal é, evidentemente, o debate sobre as alterações climáticas e o que fazer a seu respeito. Os neoliberais vieram pressurosamente defender o ponto de vista de que, se há alguma coisa a ser feita, ela deve tomar a forma da criação de um quase-mercado de "males" (p. ex., um regime de comércio das emissões) já que somente os mercados "sabem" como atribuir preços adequadamente a bens e a males. Para entender porque razão este quase-mercado está condenado ao fracasso e, mais importante ainda, de onde vem a motivação para tais "soluções", não faremos mal em familiarizarmo-nos com a lógica da acumulação de capital que Marx descreveu e que Michal Kalecki adaptou a um mundo dominado por oligopólios em rede.

No século 20, os dois movimentos políticos que buscaram as suas raízes no pensamento de Marx foram os partidos comunistas e social-democratas. Os dois, para além de outros erros (e, na verdade, crimes) cometidos, em seu próprio detrimento, não conseguiram seguir as indicações de Marx num capítulo fundamental: em vez de abraçar a liberdade e a racionalidade como suas palavras de ordem e conceitos organizativos, eles optaram pela igualdade e pela justiça, deixando a liberdade para os neoliberais. Marx foi categórico: O problema com o capitalismo não é que seja injusto, mas que é irracional, pois que como sua prática habitual condena gerações inteiras à privação e ao desemprego, transformando os próprios capitalistas em autómatos angustiados, também eles escravizados pelas máquinas que supostamente possuem, vivendo em permanente medo de que, a menos que mercantilizem totalmente os outros seres humanos, para que possam servir mais eficientemente a acumulação de capital, deixarão eles próprios de ser… capitalistas.

Assim, se o capitalismo é injusto é porque escraviza toda a gente, trabalhadores e capitalistas, como em The Matrix; ele desperdiça recursos humanos e naturais; espalha a infelicidade, a iliberdade e as crises a partir das mesmas “linhas de produção” que bombeiam artefatos notáveis e riquezas inauditas. Depois de não ter conseguido modelar uma crítica do capitalismo em termos de liberdade e racionalidade, como Marx pensava essencial, a social-democracia e a esquerda em geral permitiram aos neoliberais que usurpassem o manto da liberdade e ganhassem assim um espetacular triunfo no concurso das aptidões e ideologias (8).

Ainda no que respeita ao triunfo neoliberal, talvez a sua mais importante dimensão seja aquilo que veio a ser conhecido como o "défice democrático". Rios de lágrimas de crocodilo fluiram àcerca do declínio das nossas grandes democracias durante as últimas três décadas de financeirização e de globalização. Marx teria rido muito e bem alto daqueles que parecem ficar surpreendidos, ou contrariados, pelo "défice democrático". Qual era o grande objetivo por detrás do liberalismo do século XIX? Ele foi, como Marx não se cansou de salientar, separar a esfera económica da esfera política e confinar as decisões políticas a esta última, deixando a esfera económica para o capital. O que estamos assistindo hoje é a um esplêndido sucesso do liberalismo na realização disto. Dê uma olhada na África do Sul, hoje, mais de duas décadas depois de Nelson Mandela ter sido libertado e de a esfera política ter, finalmente, abraçado toda a população. A situação do ANC foi que, a fim de lhe ser permitido dominar a esfera política, teve que aceitar a impotência sobre o económico. E se você pensa de outra forma, sugiro que converse com as dezenas de mineiros alvejados a tiro por guardas armados pagos por seus empregadores, após terem ousado exigir um aumento salarial.

5. Por que razão irregular? Os dois erros imperdoáveis de Marx

Tendo explicado a razão pela qual devo todo entendimento que possa ter do nosso mundo social, em grande medida, a Karl Marx, agora quero explicar por que eu continuo extremamente zangado com ele. Por outras palavras, vou descrever brevemente porque eu sou, por escolha própria, um marxista irregular ou inconsistente. Marx cometeu dois erros espetaculares, sendo um deles um erro de omissão e o outro de comissão. Estes erros são importantes, até esta data, porque eles dificultam a eficácia da esquerda no combate à misantropia organizada, especialmente na Europa.

O primeiro erro de Marx, que eu sugiro seja devido a omissão, foi que ele foi insuficientemente dialéctico, insuficientemente reflexivo. Ele não conseguiu fazer a devida reflexão, e manteve um prudente silêncio, sobre o impacto que sua própria teorização tinha sobre o mundo que estava teorizando. Sua teoria é de um poder discursivo excepcional, e Marx tinha noção do seu poder. Por que razão ele não mostrou preocupação com que seus discípulos, pessoas com uma melhor compreensão dessas ideias fortes que, em média, os trabalhadores, pudessem usar o poder que lhes era assim cometido, por via das idéias do próprio Karl Marx, a fim de abusar de outros companheiros, construir a sua própria base de poder, ganhar posições de influência, seduzir estudantes impressionáveis, etc.?

Para dar um segundo exemplo, sabemos que o sucesso da Revolução Russa levou o capitalismo, na devida altura, a um recuo estratégico, a conceder segurança social e serviços nacionais de saúde, até mesmo à ideia de obrigar os ricos a pagar para que massas de estudantes pobres pudessem frequentar aulas em universidades progressistas. Ao mesmo tempo, nós também vimos como a fanática hostilidade para com a União Soviética, manifestada desde a primeira hora com uma série de invasões, despertou a paranóia entre os socialistas e criou um clima de medo que se revelou particularmente fértil para figuras como José Estaline e Pol Pot. Marx nunca entreviu a chegada deste processo dialético. Ele simplesmente não considerou a possibilidade de que a criação de um Estado dos trabalhadores forçasse o capitalismo a tornar-se mais civilizado, enquanto o Estado dos trabalhadores seria infetado com o vírus do totalitarismo à medida que a hostilidade do resto do mundo (capitalista) para com ele crescia cada vez mais.

O segundo erro de Marx, aquele que eu caraterizo como de comissão, foi pior. Foi a sua assunção de que a verdade sobre o capitalismo poderia ser descoberta na matemática dos seus modelos (os chamados "esquemas de reprodução”). Este foi o pior desserviço que Marx poderia ter prestado ao seu próprio sistema teórico. O homem que nos equipou com a liberdade humana, como sendo um conceito económico de primeira ordem; o estudioso que elevou a indeterminação radical a ocupar o seu devido lugar na economia política; foi a mesma pessoa que acabou por jogar com modelos algébricos simplistas, em que unidades de trabalho foram, naturalmente, totalmente quantificadas, esperando contra toda a esperança retirar dessas equações algumas informações adicionais sobre o capitalismo. Depois da sua morte, os economistas marxistas desperdiçaram longas carreiras entregues ao mesmo tipo de mecanismo escolástico, acabando com o que Nietzsche uma vez descreveu como "pedaços de mecanismo que chegam ao sofrimento". Totalmente imersos em irrelevantes debates sobre o “problema da transformação” e o que fazer sobre isso, tornaram-se finalmente uma espécie quase extinta, enquanto o colosso neoliberal ia esmagando todas as dissidências no seu caminho.

Como pôde Marx iludir-se a este ponto? Por que será que ele não reconheceu que nenhuma verdade sobre o capitalismo poderia alguma vez brotar de um qualquer modelo matemático, por mais brilhante que fosse o seu criador? Não tinha ele os instrumentos intelectuais para perceber que as dinâmicas capitalistas emergem da parte não quantificável do trabalho humano; ou seja, a partir de uma variável que não poderá nunca ser bem definida matematicamente? É claro que sim, pois que ele mesmo forjou essas ferramentas! Não, a razão para o seu erro é um pouco mais sinistra: tal como os economistas vulgares que ele tão brilhantemente denunciou (e que continuam a dominar os departamentos de Economia hoje em dia), ele cobiçou o poder que a "prova" matemática lhe daria.

Se estou certo, Marx sabia o que estava fazendo. Ele compreendeu, ou tinha a capacidade de saber, que uma teoria compreensiva do valor não pode ser acomodada dentro de um modelo matemático de uma economia capitalista dinâmica e em crescimento. Ele estava, não tenho qualquer dúvida, ciente de que uma boa teoria económica deve respeitar a máxima de Hegel de que "as regras do indeterminado são elas próprias indeterminadas". Em termos económicos, isto significa o reconhecimento de que o poder de mercado e, consequentemente, a lucratividade, dos capitalistas não era necessariamente redutível à sua capacidade de extrair trabalho dos seus empregados; que alguns capitalistas podem extrair mais de um dado conjunto de trabalhadores ou de uma determinada comunidade de consumidores, por razões que são externas à sua própria teoria.

Infelizmente, esse reconhecimento seria o mesmo que aceitar que as suas "leis" não eram imutáveis. Ele teria de conceder, perante vozes concorrentes no movimento sindical, que sua teoria era indeterminada e que, portanto, os seus pronunciamentos não poderia ser tidos como certos e inequívocos. Que eles seriam permanentemente provisórios. Mas Marx sentia um irreprimível desejo de esmagar pessoas como o cidadão Weston (9) que ousou preocupar-se com o facto de que um aumento salarial (conseguida através de uma greve) poderia revelar-se uma vitória pírrica se os capitalistas empurrassem de seguida os preços para cima. Em vez de simplesmente argumentar contra pessoas como Weston, Marx obstinou-se em provar com precisão matemática que eles estavam errados, eram não-científicos, vulgares, indignos de atenção séria.

Houve ocasiões em que Marx percebeu, e confessou, ter errado do lado do determinismo. Depois que ele se mudou para o terceiro volume de O Capital, viu que, mesmo uma complexidade mínima (por ex., assumindo diferentes graus de intensidade de capital em diferentes setores) descarrilava o seu argumento contra Weston. Mas tão empenhado estava ele com o seu monopólio sobre a verdade que cavalgou sobre o problema, de forma assombrosa mas um pouco às cegas, impondo por fiat o axioma que, no final, confirmava a sua original "prova"; prova essa com a qual ele já batera antes na cabeça do cidadão Weston. Estranhos são os rituais do vazio e tristes, também, quando conduzidos por mentes excepcionais, como a de Karl Marx e um número considerável de seus discípulos no século XX.

Essa vontade de ter o modelo ou argumento “completo”, “fechado”, ou seja, a "palavra final", é algo que eu não posso perdoar a Marx. Ela revelou-se, afinal de contas, responsável por uma grande parte de erro e, mais significativamente ainda, de autoritarismo. Erros e autoritarismo que são, em grande parte, responsáveis pelo estado atual de impotência da esquerda como uma força para o bem e como contraponto aos abusos da razão e da liberdade que a tripulação neoliberal comete nos dias de hoje.

6. A ideia radical de Keynes

Keynes era um inimigo da esquerda. Ele gostava do sistema de classes que o gerou, não queria ter nada a ver (pessoalmente) com a gentinha "lá de baixo", tendo trabalhado duro e inteligentemente a fim de arranjar ideias que permitissem ao capitalismo sobreviver contra a sua própria propensão para espasmos potencialmente mortais. Um pensador liberal burguês, com abertura mental e espírito livre, Keynes tinha o raro dom de não se esquivar a um desafio aos seus próprios pressupostos. No meio da grande depressão, ele não teve qualquer problema em quebrar a tradição marshalliana que havia sido o seu legado. Ao perceber que o emprego se afundava mais ainda à medida que os salários diminuiam, e que os investimentos se recusavam a subir mesmo após um longo período de taxas de juro a zero, ele estava preparado para rasgar os "manuais" e re-considerar o capitalismo à sua maneira.

O seu radical re-pensamento tinha de começar em algum lugar. Começou quando Keynes quebrou fileiras com os seus pares, fazendo o impensável: revisitando a briga entre David Ricardo e Thomas Malthus e tomando o partido do clérigo. Em termos inequívocos, no meio da grande depressão, escreveu: "Se ao menos Malthus, em vez de Ricardo, tivesse sido o tronco fundador da economia do séc. XIX, o mundo seria hoje um lugar incomparavelmente mais sábio e mais rico!" (10). Com esta declaração incendiária, Keynes não estava a subscrever a posição de Malthus favorável aos rentistas aristocráticos, nem as suas opiniões teológicas sobre o poder redentor do sofrimento (11). Em vez disso, Keynes sufragou o cepticismo de Malthus quanto: (a) à sabedoria daqueles que procuram uma teoria do valor que seja consistente com a complexidade e dinâmica do capitalismo e (b) à convicção de Ricardo, que Marx mais tarde herdou, de que uma persistente depressão é incompatível com o capitalismo.

Por que razão Keynes não convergiu com Marx, que foi afinal de contas o primeiro economista político a explicar as crises como elementos constitutivos da dinâmica capitalista? Porque a Grande Depressão não foi como as outras crises, do tipo que Marx tinha explicado tão bem. No Vol. I de O Capital Marx contou a história das recessões redentoras, ocorridas devido à dupla natureza do trabalho e dando origem a períodos de crescimento que estão grávidos com a próxima recessão que, por sua vez, gera a próxima retoma, e assim por diante. No entanto, não havia nada de redentor na Grande Depressão. A depressão dos anos 1930 era apenas isso: uma depressão que se comportava muito como um equilíbrio estático - um estado da economia que parecia perfeitamente capaz de se perpetuar a si próprio, com a esperada recuperação recusando-se obstinadamente a surgir ao longo do horizonte, mesmo depois de a taxa de lucro recuperar, em resposta ao colapso dos salários e das taxas de juros.

A preciosa “descoberta” de Keynes sobre o capitalismo era dupla: (A) Era um sistema inerentemente indeterminado, apresentando o que os economistas de hoje podem referir como uma infinitude de equilíbrios múltiplos, alguns dos quais se compatibilizavam com o desemprego em massa, e (B) Ele poderá cair, de um momento para o outro, imprevisivelmente, em um desses terríveis equilíbrios sem rima ou razão, apenas porque uma parcela significativa dos capitalistas temeram que ele pudesse fazê-lo.

Em linguagem simples, isto significa que, no que diz respeito à previsão de depressões e da sua superação pelas forças do mercado, "raios nos partam se sabemos!"; que não temos maneira de saber o que o capitalismo irá fazer amanhã, mesmo que ele hoje pareça ir de vento em popa; que pode muito bem cair redondo no chão e recusar voltar a erguer-se novamente. A noção keynesiana de "espíritos animais" representou uma ideia profundamente radical, capturando a radical indeterminação sepultada dentro do prórpio ADN do capitalismo. Uma ideia que Marx introduziu, pela primeira vez, com a sua análise da natureza dialética do trabalho, mas depois, no processo de escrita de O Capital, atrofiou, por forma a estabelecer os seus teoremas como provas matemáticas incontestáveis. De todas as passagens na Teoria Geral de Keynes, esta ideia da natureza caprichosamente auto-destrutiva do capitalismo é aquela que precisamos de recuperar e usar para re-radicalizar o marxismo.

7. A lição da Senhora Thatcher para os radicais europeus de hoje

Eu me mudei para a Inglaterra para frequentar a universidade em Setembro de 1978, seis meses, pouco mais ou menos, antes da vitória da Sr.ª Thatcher que mudou a Grã-Bretanha para sempre. Vendo o governo trabalhista se desintegrar, sob o peso do seu degenerado programa social-democrata, levou-me a um erro de primeira ordem: ao pensamento de que talvez a vitória da Sr.ª Thatcher fosse uma coisa boa, oferecendo às classes média e trabalhadora da Grã-Bretanha um choque curto e forte, necessário para revigorar a política progressiva. Para dar à esquerda a oportunidade de re-pensar a sua posição e de criar uma nova e radical agenda para um novo tipo de política, eficaz e progressiva.

Mesmo enquanto o desemprego duplicava e, em seguida, triplicava, sob as "intervenções" neoliberais radicais de Margaret Thatcher, eu continuei a albergar esperanças de que Lênin tinha razão: "As coisas têm que piorar antes de ficarem melhores". À medida que a vida se tornou mais agreste, mais estúpida e, para muitos, mais curta, ocorreu-me que eu poderia estar tragicamente errado: as coisas poderiam piorar em perpetuidade, sem nunca chegarem a melhorar. A esperança de que a deterioração dos bens públicos, a diminuição da vida para a maioria, a propagação da privação a todos os cantos da Terra levaria, automaticamente, a um renascimento da esquerda foi apenas isso: esperança!

A realidade foi, no entanto, dolorosamente diferente. A cada volta do torniquete da recessão, a esquerda se tornou mais introvertida, menos capaz de produzir uma convincente agenda progressista e, entretanto, a classe operária estava sendo dividida entre aqueles que saíram da sociedade e os cooptados para a mentalidade neoliberal. A noção de que a deterioração das "condições objectivas" iria, de alguma forma, dar origem a "condições subjetivas" das quais uma nova revolução política iria sair, foi bem e verdadeiramente falsa. Tudo o que surgiu a partir do thatcherismo foram os vigaristas, a extrema financeirização, o triunfo do centro comercial sobre a loja da esquina, a fetichização do alojamento e... Tony Blair.

Em vez de radicalizar a sociedade britânica, a recessão que o governo Thatcher tão cuidadosamente projetou, como parte da sua luta de classes contra o trabalho organizado e contra as instituições públicas da segurança social e de redistribuição que haviam sido criadas no pós-guerra, destruiu permanentemente a própria possibilidade de uma política radical e progressiva na Grã-Bretanha. Na verdade, tornou impossível a própria noção de valores que transcendam aquilo que o mercado determinar como preços “justos”.

A lição que a Sr.ª Thatcher me ensinou, pela via dolorosa, no que se refere à aptidão de uma recessão de longa duração para minar a política progressista e enraizar a misantropia na própria fibra da sociedade, é algo que transporto comigo até à crise europeia de hoje. É, de fato, a mais importante determinante da minha posição em relação à crise do Euro, que tem ocupado quase exclusivamente o meu tempo e o meu pensamento ao longo dos últimos anos. Esta é a razão pela qual tenho prazer em confessar o pecado que me é imputado por críticos radicais da minha posição "menchevique” sobre a Zona Euro: o pecado de ter optado por não propor programas políticos radicais que visem explorar a crise do Euro como uma oportunidade para derrubar o capitalismo europeu, para desmantelar a terrível Zona Euro e para minar a União Europeia dos cartéis e dos banqueiros falidos.

Sim, eu gostaria de apresentar uma agenda radical. Mas, não, não estou disposto a cometer o mesmo erro duas vezes. Que bem é que pudemos alcançar na Grã-Bretanha, no início da década de 1980, promovendo uma agenda de mudança socialista que a sociedade britânica desprezava, enquanto se precipitava de cabeça para a armadilha neoliberal da Sr.ª Thatcher? Precisamente nada. Que bem nos trará hoje o apelo ao desmantelamento da Zona Euro, da própria União Europeia, quando o capitalismo europeu está a fazer o seu melhor para pôr em causa a Zona Euro, a União Europeia e, na verdade, a si próprio?

Uma saída grega, portuguesa ou italiana da Zona Euro, em breve se transformará numa fragmentação do capitalismo europeu, produzindo uma região excedentária em séria recessão, a leste do Reno e ao norte dos Alpes, enquanto o resto da Europa estará encerrado num círculo vicioso de estagflação. Quem você acha que vai beneficiar com isto? A esquerda progressista, que irá renascer como Fénix das cinzas das instituições públicas da Europa? Ou a Aurora Dourada nazi, o sortido dos neo-fascistas, os xenófobos e os vigaristas? Não tenho a menor dúvida de qual destes dois irá beneficiar de uma desintegração da Zona Euro. Eu, por mim, não estou disposto a soprar novos ventos para as velas desta versão pós-moderna dos anos 1930. Se isto significa que sejamos nós, os marxistas apropriadamente irregulares, quem deva tentar salvar o capitalismo europeu de si mesmo, pois que assim seja. Não por amor ou apreço para com o capitalismo europeu, a Zona Euro, Bruxelas, ou o Banco Central Europeu, mas apenas porque queremos minimizar o desnecessário sofrimento humano trazido por esta crise; as inúmeras vidas cujas perspetivas serão ainda mais esmagadas, sem qualquer benefício para as futuras gerações de europeus.

8. Conclusão: que devem fazer os marxistas?

As elites da Europa estão se comportando hoje como um patético conjunto de dirigentes sem rumo, que não entendem nem a natureza da crise a que estão presidindo nem as suas implicações para a sua própria sorte - e muito menos para o futuro da civilização europeia. Atavisticamente, eles estão optando por pilhar os decrescentes recursos dos fracos e despossuídos, a fim de tapar os buracos negros escancarados dos seus banqueiros falidos, recusando-se a reconhecer a impossibilidade da tarefa. Tendo criado uma união monetária que (A) removeu todos os amortecedores de choques da macro-economia da Europa e (B) assegurou que, quando o choque viesse, seria gigantesco, eles estão agora investindo na negação, esperando, irracionalmente, por algum milagre que os deuses possam oferecer, desde que um número suficiente de vidas humanas seja sacrificado no altar da competitiva austeridade.

De cada vez que os beleguins da troika visitam Atenas, Dublin, Lisboa, Madrid; com cada pronunciamento do Banco Central Europeu e da Comissão Europeia sobre a próxima curva do torniquete da austeridade, a efetuar em Paris ou em Roma, o verso de Berthold Brecht vem à mente: "A força bruta está fora de tempo. Para quê enviar um assassino contratado quando um oficial de justiça serve?" A pergunta é a seguinte: como é que vamos resistir-lhes?

Sempre alerta para a culpa colectiva da esquerda sobre o feudalismo industrial a que condenamos milhões de pessoas, ao longo de décadas, em nome da… política progressista, devo fazer ainda assim um paralelo entre a União Soviética e a Europeia. Apesar das suas grandes diferenças, uma coisa elas têm em comum: a uniforme "linha de partido", que funciona na perfeição a partir de cima (o Politburo ou Comissão) até à parte inferior (o mais insignificante ministro em cada Estado-membro, ou o último comissário, debitando as mesmas inanidades). Os apparatchiks soviéticos e europeus compartilham a determinação de uma seita cristã em reconhecer factos somente se eles são coerentes com a profecia e os seus textos sagrados. O Sr. Olli Rehn, por exemplo, que é o comissário da União Europeia com responsabilidade sobre assuntos económicos e financeiros, recentemente teve a ousadia de reprovar ao Fundo Monetário Internacional ter apontado erros no cálculo dos multiplicadores fiscais da Zona Euro, porque essa revelação "( …) minava a confiança da população europeia em suas instituições". Nem mesmo Leonid Brejnev teria ousado fazer uma tal declaração pública!

Com as elites da Europa em estado de profunda negação e desordem, com as suas cabeças enterradas na areia como avestruzes, a esquerda tem de admitir que, simplesmente, não está ainda pronta para cobrir a lacuna que um colapso do capitalismo europeu vai abrir, até ao pleno funcionamento de um sistema socialista, que seja capaz de gerar prosperidade para as massas. A nossa tarefa deve ser dupla: avançar uma análise da situação actual que europeus não-marxistas bem intencionados, até aqui atraídos pelas sirenes do neoliberalismo, achem útil. E acompanhar esta análise sólida com propostas para estabilizar a Europa - para acabar com a espiral descendente que, no final das contas, reforça apenas os fanáticos e incuba o ovo da serpente. Ironicamente, aqueles de nós que detestamos a Zona Euro têm a obrigação moral de a salvar!

Isso é o que estamos a tentar fazer com a nossa ‘Modesta Proposta’ (12). Ao abordar diversas audiências, que vão de ativistas radicais aos gestores de fundos, a idéia é forjar alianças estratégicas mesmo com gente da direita, com quem possamos partilhar um simples interesse: o interesse em terminar a cadeia circular negativa entre austeridade e crise, entre Estados em bancarrota e dorsos derreados de exaustão; uma cadeia circular negativa que prejudica tanto o capitalismo como a qualquer programa progressista visando substituí-lo. É desta forma que eu defendo a minha tentativa de mobilizar para a causa da ‘Modesta Proposta’ pessoas como Bloomberg, jornalistas do New York Times, deputados conservadores ao parlamento britânico, financiadores preocupados com o estado perigoso da Europa.

O leitor vai permitir-me concluir com duas confissões finais. Ao mesmo tempo que estou feliz por defender como genuinamente radical o exercício de uma modesta agenda para a estabilização de um sistema que desprezo, não vou fingir estar entusiasmado com ela. Isto pode ser o que temos de fazer, nas circunstâncias atuais, mas estou triste porque, provavelmente, já não vou estar por perto para ver uma agenda mais radical ser objeto de ponderada decisão. Por último, uma confissão de um carácter estritamente pessoal: sei que corro o risco de, sub-repticiamente, diminuir a tristeza do abandono de qualquer esperança na substituição do capitalismo em minha vida, entregando-me à sensação de me ter tornado “agradável” para os círculos da "sociedade educada". A sensação de auto-satisfação por ser homenageado pelos fortes e poderosos começou de facto, ocasionalmente, a entrar em mim. E que sensação tão feia, corruptora e corrosivo ela é!

O meu nadir pessoal aconteceu em um aeroporto. Algum organismo endinheirado tinha-me convidado para dar uma palestra sobre a crise europeia e tinha desenbolsado a ridícula soma necessária para me comprar uma passagem de primeira classe. No meu caminho de volta a casa, cansado e já com vários voos sob o meu cinto, eu estava fazendo o meu caminho na longa fila dos passageiros da classe económica, para chegar ao meu portão. De repente notei, com considerável horror, como era fácil para a minha mente infetar-se com a noção de que eu tinha “direito” a contornar a multitude, o hoi polloi. Percebi o quão facilmente poderia esquecer o que a minha mente educada à esquerda sempre soube: que nada consegue reproduzir-se melhor do que um falso sentimento de direito. Concluir alianças com forças reacionárias, como penso que se deve fazer hoje para estabilizar a Europa, faz-nos correr o risco de sermos co-optados, de despejar o nosso radicalismo através do caloroso brilho de se ter "chegado" aos corredores do poder.

Confissões radicais, como as que eu tenho tentado esboçar aqui, são talvez o único antídoto programático para os deslizes ideológicos que ameaçam transformar-nos em peças da máquina. Se estamos prontos a estabelecer alianças com o diabo (por exemplo, com o FMI, com os neoliberais que, apesar disso, colocam objeções àquilo a que eu chamo "bancarrotocracia”, etc. ), devemos evitar tornarmo-nos como os socialistas que falharam a transformação do mundo, mas conseguiram muito bem melhorar… as suas particulares circunstâncias. O truque é evitar o maximalismo revolucionário que, no final, apenas ajuda os neoliberais a ignorar toda a oposição à sua auto-destrutiva grosseria, conservando na nossa mente a fealdade inerente do capitalismo, ao mesmo tempo que tentamos salvá-lo de si próprio, para fins estratégicos. Confissões radicais podem ser úteis para tentar este difícil equilíbrio. Afinal, o humanismo marxista é uma luta constante contra aquilo em que estamos a tornar-nos.

Notas:

(1) Para exemplos da investigação daí resultante, ver Varoufakis (2013) e Varoufakis, Halevi e Theocarakis (2011).

(2) Este filme é, na verdade, de 1956, tendo sido exibido no Brasil sob o título “Vampiros de Almas: A Terra em perigo” (em Portugal “Vampiros da Noite: A Terra em perigo”). Foi dirigido por Don Siegel com base na novela de ficção científica The Body Snatchers, de Jack Finney, publicada em 1954. [NT]

(3) Ver Karl Marx (1844, 1969), Economic and Philosophical Manuscripts.

(4) Marx em “Wage-Labour and Capital", publicado originalmente em Neue Rheinische Zeitung, 5-8 e 11 de Abril, 1849. [Transmitido como lições em 1847] Editado com uma Introdução por Friedrich Engels em 1891. Traduzido por Harriet E. Lothrop, New York: Labor News Company.

(5) Ver Karl Marx (1844, 1969), Economic and Philosophical Manuscripts.

(6) Logo no início de Matrix, uma guerrilheira urbana que ajudara o nosso Thomas Anderson, também conhecido como Neo, a fugir dos típicos “agentes”, oferece-lhe uma escolha difícil entre dois comprimidos. Se ele tomar a pílula azul, será devolvido para sua cama e acordará de manhã pensando que a coisa toda foi um pesadelo antes de retomar sua vida “normal”. No entanto, se ele optar pela pílula vermelha, irá aprender a verdade sobre a sua vida e sobre a sociedade. Num triunfo da descuidada curiosidade sobre a sedução dos prazeres simples, Neo recusa a perspetiva da venturosa ignorância oferecida pela pílula azul, optando pela cruel realidade prometida pela vermelha.

(7) Ver Mirowski (2013).

(8) Para mais informações sobre este argumento ver Varoufakis (1991) e Varoufakis (1998).

(9) Ver Marx, “Wages, Prices and Profit”, em que o debate com o cidadão Weston é narrado pelo próprio Marx.

(10) Veja-se o seu ensaio sobre Malthus, "Robert Malthus: The First of the Cambridge Economists", escrito em 1933, in John Maynard Keynes (1972). The Collected Works of John Maynard Keynes, Vol. X: Essays in Biography, London: Macmillan. A citação aparece nas pp. 100-1. Originalmente publicado em Essays in Biography, 1933.

(11) Malthus fez o seu nome com o prognóstico de que o crescimento demográfico ultrapassaria sempre os recursos da Terra, maugrado os nossos melhores esforços, e que, por conseguinte, a fome era um mecanismo "equilibrante" imperativo. Como homem de sotaina, ele explicou isto como parte do desígnio de Deus: o sofrimento das massas, as barrigas inchadas das crianças inebriadas, as faces de esgotamento do processo de luto das mães, tudo foram oportunidades divinamente concedidas para os seres humanos abraçarem o bem e lutarem contra o mal.

(12) Ver Y. Varoufakis, S. Holland e J. K. Galbraith (2013). A Modest Proposal for Resolving the Euro Crisis, Versão 4.0.

Bibliografia:

Keynes, J. M. (1933, 1972). “Robert Malthus: The First of the Cambridge Economists,” penned in 1933, in The Collected Works of John Maynard Keynes, Vol. X: Essays in Biography, London: Macmillan.

Marx, K, (1865, 1969). “Wages, Prices and Profit’ in Value, Price and Profit, New York: International Co.

Marx, K. (1844, 1969). Economic and Philosophical Manuscripts, in Marx/Engels Selected Works, Moscow, USSR: Progress Publishers.

Marx, K. (1849, 1902). “Wage-Labour and Capital”, publicado originalmente em Neue Rheinische Zeitung, 5-8 e 11 de Abril, 1849. [Transmitido como lições em 1847] Editado com uma Introdução por Friedrich Engels em 1891. Traduzido por Harriet E. Lothrop, New York: Labor News Company.

Marx, K. (1972). Capital: Vol. I-III. London: Lawrence and Wishart.

Mirowski, P. (2013). Never Let a Good Crisis Go To Waste: How Neoliberalism survived the financial meltdown, London and New York: Verso.

Varoufakis Y. (2013). Economics Indeterminacy: A personal encounter with the economists’ peculiar nemesis, London and New York: Routledge.

Varoufakis, Y. (1991). Rational Conflict, Oxford: Blackwell.

Varoufakis, Y. (1998). Foundations of Economics: A beginner’s companion, London and New York: Routledge.

Varoufakis, Y., J. Halevi and N. Theocarakis (2011). Modern Political Economics: Making sense of the post-2008 world, London and New York: Routledge.

Varoufakis, S. Holland and J. K. Galbraith (2013). A Modest Proposal for Resolving the Euro Crisis, Version 4.0.

* Artigo redigido sobre as notas para a palestra intitulada “Confissões de um Marxista errático”, que o autor proferiu no dia 14 de maio de 2013, no 6th Subversive Festival, “The Utopia of Democracy” [A Utopia da Democracia], Zagreb, Croácia, 4 a 18 de maio de 2013. Par um vídeo dessa apresentação, clique aqui.