30 de janeiro de 2014

Abe está começando a tratar a administração Obama como um pato manco?

E Joe Biden foi designado saco de pancadas?

Peter Lee
China Matters

Sempre houve uma contradição implícita entre o desejo declarado de Shinzo Abe de “trazer de volta o Japão” e o desejo dos Estados Unidos de liderar a “Ásia Livre”. A divergência dos objetivos foi obscurecida pela ansiedade obcecada do establishment da Defesa dos Estados Unidos, empenhado em estimular o ímpeto crescente do Japão como “ativo pacifista” da “segurança” e da “defesa”. Bem, falemos logo de poder “militar”, para acrescentar credibilidade à dominação dos Estados Unidos no Pacífico Ocidental; e da consciência, do Japão, de que o apoio militar dos Estados Unidos - se devidamente explorado, mediante o Tratado de Segurança EUA-Japão – pode dar aos japoneses empurrão significativo na confrontação com a República Popular da China (RPC).

O governo Abe fez exatamente como desejavam os estrategistas militares americanos, tanto na disposição, pode-se falar até de forte empenho, para reconstruir seus exércitos e endossar o conceito de “autodefesa coletiva”, como, também, na questão altamente controversa de impor a relocação da base aérea de Futenma ao resistente povo de Okinawa, mediante uma combinação de afagos financeiros e pressão política nua e crua.

No entanto, há sinais de tensão no love-affair EUA-Japão, em larga medida porque o governo Obama realmente está decidido a explorar o potencial japonês de “intermediário honesto”, para escavar um papel para o próprio Estados Unidos como intermediador necessário entre Japão e China – movimento que a China está encorajando, para cavar, ela, uma ravina entre Tóquio e Washington.

Por isso, os Estados Unidos não estão dando ao Primeiro-Ministro, Shinzo Abe, o apoio em alto e bom som, que ele acredita que precise e merece. É possível também que o governo Abe esteja interpretando a atual política asiática moderada do Presidente Obama, do Vice-Presidente, Joe Biden e do Secretário de Estado, John Kerry como sonho transitório, precário, de um governo que entra em fase de “pato manco”, e que pode ser desafiado (cuidadosamente), enquanto o Japão espera um sucessor mais militantemente pró-Japão na Casa Branca.

Um dos aspectos menos comentados da política dos Estados Unidos para a Ásia foi a marcada divergência entre as respostas dos Estados Unidos e do Japão à criação, pelos chineses, de sua Zona Aérea de Identificação da Defesa (ZAID) no Mar do Leste da China. O Primeiro-Ministro Abe mergulhou imediatamente na retórica à moda Churchill de “não vai funcionar”, e declarou que nenhuma aeronave japonesa – inclusive os aviões de transporte comercial civil, que já haviam declarado que aceitavam a exigência de identificação – de modo algum respeitaria a ZAID chinesa.

Os Estados Unidos, conscientes talvez de que mantêm uma ZAID furiosamente defendida sobre a América do Norte, decidiram afirmar, apenas, o direito de aeronaves militares americanas voarem por onde quisessem dentro do espaço aéreo chinês; e despacharam para lá dois bombardeiros B-52, que decolaram de Guam e surgiram, sem se identificarem, na ZAID chinesa. Mas os Estados Unidos não recomendaram que empresas civis ignorassem a ZAID. A Coreia do Sul aproveitou o tumulto e expandiu sua própria ZAID, o que, parece, desejava fazer há muito tempo, ação que a China aprovou. Parece que hoje aeronaves civis da República da Coreia respeitam a ZAID chinesa.

Isso deixou o Japão praticamente fora, bastante isolado, estado de coisas que a imprensa-empresa ocidental cuidou atentamente de ignorar completamente, mas que parece ter despertado algum ressentimento contra os EUA, talvez no governo Abe, mas certamente entre os que, nos EUA, simpatizam com sua atitude de desafiar a China.

O Primeiro-Ministro Abe não conseguiu construir uma frente unida contra a ZAID chinesa, da primeira vez; durante o convescote da elite global em Davos, Suíça, tentou outra vez dar algum fôlego àquela frente.

Ian Bremmer, “especialista” em questões internacionais e um muito suspeitamente enorme exército de “especialistas” de think-tanks estavam todos preparados para amar o discurso (o texto, como é praxe em Davos, não foi distribuído para a patuleia). E amaram.

Primeiro, Bremmer:

E o Primeiro-Ministro Abe veio, e fez um grande discurso. O pessoal está otimista com a economia. A parte do discurso que mais preocupou o pessoal foi sobre Japão-China. E é compreensível que assim seja. Ele está criticando os chineses, por serem agressivos e militaristas. Comparou as relações Japão-China explicitamente às relações entre Alemanha e Grã-Bretanha em 1914, quando as relações econômicas eram boas, mas as tensões de segurança, digamos assim, não eram muito boas. E ele sabe o que aconteceu lá. 
Eu não diria que Abe está diretamente despertando o espectro da guerra, mas ele disse que a China está agindo de forma inaceitável, e que o Japão não tolerará essa ação [1].

Bremmer também sugeriu que a China estaria tirando vantagem de uma certa falta de decisão testicular dos EUA:

É claro que os chineses querem engajar-se seriamente com os EUA. Há muitas razões para isso: a economia dos EUA está em plena recuperação. Mas eles também estão vendo uma janela aqui, porque todos os linha-dura contra a China que havia no governo dos EUA já deixaram o governo. Hillary [Clinton] já não está no governo, Kurt Campbell já se foi, [o ex-Secretário do Tesouro Timothy] Geithner, sempre muito focado nessa região, também já se foi, e [ex-Conselheiro de Segurança Nacional Thomas] Donilon também já se foi. Assim sendo, eles veem uma oportunidade, agora que quem está conduzindo as relações EUA-China é Biden, ao mesmo tempo que vai mudando as regras em campo com o Japão.

Ao mesmo tempo, dois paus-mandados do Center for a New American Security,think-tank de segurança de “centro-esquerda”, declararam-se preocupados com a possibilidade de fazer-se paz entre EUA e a China e, em vez de paz, propuseram aumentar as tensões, com ajuda empenhada do Japão e outros aliados asiáticos:

Funcionários dos EUA tiveram o cuidado de não provocar a China, que parece cada dia mais interessada em acionar a musculatura militar que os chineses acabam de descobrir. Talvez por isso Biden tenha invocado o conselho que recebeu do pai, e invocou justamente na véspera de sua visita a Pequim. Disse que “o único conflito pior que conflito que alguém deseja é conflito que ninguém deseja”. Mas superenfatizar a estabilidade pode ser perigoso.” 
O ponto é, simplesmente, que um país com o poder de URSS ou China, insatisfeito com a ordem existente, motivado para fazer alguma coisa para mudá-la, e que não creia na firme decisão dos EUA, pode bem iniciar uma política de coerção e diplomacia temerária, mesmo sob a sombra de armas atômicas. 
Os EUA têm de injetar uma boa dose de risco saudável no cálculo de Pequim, por mais que lhes interesse cooperar com a China. Não implica abandonar o engajamento ou tentar conter a China, nem, muito menos, implica fomentar o conflito. Mas, sim, significa comunicar que Pequim tem menor habilidade para controlar a escalada do conflito do que parece supor. A China tem de entender que tentativas para agitar as águas podem resultar em precisamente os mesmos tipos de custos e conflitos que visam a evitar. 
Para que isso funcione, os EUA devem implementar políticas que realmente aumentem os riscos – políticos, econômicos ou outros – para Pequim, no caso de agir assertivamente. (...) Os militares dos EUA precisam de capacidades e de planos que não apenas os preparem para uma grande guerra, mas que, também ofereçam opções plausíveis, concretas, para responder às tentativas chinesas de explorar a percebida aversão dos EUA a qualquer instabilidade. Líderes em toda a Ásia estarão vigilantes e atentos. Excesso de cautela, sobretudo se a China é claramente o agente iniciador, pode ser lido como fraqueza dos EUA, o que perpetuará, em vez de reduzir, os incentivos da China na direção do aventureirismo. 
Os Estados Unidos podem aumentar ainda mais as apostas, aprofundando seus laços militares com o Japão... [2]

O senador John McCain, cujo confidente, Roy Pflauch, manobra o acesso, informa, cuidadoso e extensivo do governo Abe à direita norte-americana, também invocou a analogia com 1914 durante a sessão de aprovação do nome do novo embaixador dos EUA à República Popular da China, Max Baucus, indicação de que talvez todos os aliados de Abe em Washington cantam pelo mesmo hinário.

Uau, parece que todo mundo está louquinho para unir-se ao Japão contra a China, exceto o Vice-Presidente dos EUA, VPOTUS, Joe Biden! Quer dizer: quase todo mundo.

As relações entre o presidente Obama e o Primeiro-Ministro Abe do Japão são, na avaliação mais favorável, frias.

Abe, deve-se não esquecer, é Cheney-ita não reconstruído no que tenha a ver com a admiração e emulação da visão de mundo maniqueísta de Dick Cheney, especialmente no que se refira à China. (Deve-se notar, en passant, que foi “Scooter” Libby, escoteiro leal a Cheney, que apresentou Abe, na conferência que fez de setembro de 2013, no Hudson Institute).

Abe também tem sido insistente em seu silencioso acesso aos Republicanos, falcões linha mais dura, e elementos anti-Obama em Washington, mais recentemente, num esforço para obter a concordância dos EUA para a visita de Abe ao santuário de Yasukuni, e, como resultado, não tem nenhum amigo conhecido na Casa Branca, exceto o amigável e frequentemente demonizado como “suave com qualquer coisa”, Joe Biden.

Talvez a equipe de Obama não tenha avaliado a implicação de terem de manter-se agora ao lado do Japão! 1914! (acho meio esquisitas as analogias com a 2ª Guerra Mundial) – numa aliança anti-China, ou corre o risco de ser marcada pelo pincel do apaziguamento, e deixou ver seu desprazer.

Seja como for, Abe rapidamente retrocedeu da analogia com 1914, pondo a culpa no erro de interpretação de um intérprete, e correndo imediatamente para o modo de diz-que-diz. Ele não disse que é possível a guerra, se o mundo não enfrentar a China! Disse o contrário: que a guerra é impossível! Segundo o Japan Times:

O governo está dizendo com insistência que o que Abe quis dizer foi que uma guerra entre Japão e China é impossível, porque causaria devastação, não só nos dois países, mas em todo o mundo. 
“Esclareceremos pelos canais diplomáticos o que o primeiro-ministro quis dizer” – disse em conferência de imprensa o secretário do Gabinete Yoshihide Suga. 
Quando do encontro com jornalistas no Fórum Econômico de Davos, Suíça, Abe foi perguntado se uma guerra entre Japão e China é concebível e, na resposta, comparou as atuais tensões entre os países à rivalidade entre Grã-Bretanha e Alemanha, nos anos anteriores à I Guerra Mundial. 
Abe disse que seria “situação similar”, segundo o Financial Times e alguns outros veículos. 
Na sexta-feira pela manhã, o governo informou à BBC sobre a intenção de Abe, disse uma fonte no Ministério do Exterior. A emissora pública britânica estava entre os veículos que noticiavam intensamente os comentários do Primeiro-Ministro. Tóquio também inromaria imediatamente a Agência Reuters, disse a fonte. 
Muitas matérias “deixaram a impressão de que Abe não negara [a possibilidade de] um confronto militar (entre Japão e China) e daí brotou a interpretação errada” – disse outra fonte do governo.

E então, Abe voou para os ambientes acolhedores da Índia, onde foi convidado de honra nas celebrações do Dia da República, e assinou um pacote de acordos – e não houve vozes dissidentes quando tratou de fazer avançar uma aliança de segurança indiana-japonesa contra a República Popular da China.

A viagem, ao que parece, foi arranjada no último momento, a ponto de Abe ter de faltar aos preparativos para a abertura dos trabalho do Parlamento japonês [ing.Diet]. Pode-se especular livremente se seu desapontamento ante o governo Obama levou-o a dizer que o Japão, não, de modo algum, depende exclusivamente do patrão EUA para traçar o caminho que o levará até a Ásia do século XXI.

Abe descreveu o relacionamento Japão-Índia como “o maior potencial de relações bilaterais que há em todo o mundo”. Pode-se inserir aqui uma ilustração que mostre a águia careca em prantos, porque é outra indicação de que a rejeição, pelo governo Abe, da “justiça do vitorioso” da 2ª Guerra Mundial não é só questão de enfurecer a China; é uma rejeição contra a tutela diplomática e de segurança dos EUA e um anúncio de que o Japão dará prioridade aos próprios interesses, em vez de sacrificá-los como leal aliado dos EUA.

A visita foi anotada por um especialista indiano que escreveu na Nikkei Asia Review e explicitamente argumentou a favor da aliança Índia-Japão para conter a China e, de fato, apresentou os laços de segurança como o fundamento mais estável para laços econômicos.

Como em:

Japão e Índia, aliados estratégicos naturais, localizados nos flancos opostos do continente, têm papel protagonista a desempenhar para garantir o equilíbrio regional de poder e salvaguardar águas vitalmente importantes na ampla região do Indo-Pacífico – portal essencial para o comércio e o fornecimento de energia globais. (...) A lógica para a cooperação estratégica não é menos determinante. Se China, Índia Japão são o triângulo escaleno da Ásia – com a China como o lado A, mais longo; a Índia como lado B; e o Japão como lado C – a soma de B + C sempre será maior que A. Não chega pois a surpreender que Japão e Índia busquem acrescentar conteúdo estratégico ao relacionamento entre ambos, que rapidamente se aprofunda. 
De fato, as parcerias econômicas mais estáveis do mundo, como a comunidade Atlântica e a parceria Japão-EUA, foram construídas sobre a base sólida da colaboração de segurança. Laços econômicos nos quais não haja esse substrato estratégico tendem a ser menos estáveis e até voláteis, como se vê aparente nas relações econômicas da China com Japão, Índia e com os EUA. 
A “entente” transformadora Índia-Japão promete modelar positivamente a dinâmica de poder na Ásia. [4]

Após o retorno de Abe para Tóquio, imediatamente vazou para a rede de notícias Kyodo que o Vice-Presidente Biden tentara, sem sucesso, persuadir Abe a não visitar o Santuário Yasukuni em dezembro.

É situação muito interessante, porque a versão anterior dessa história era que o Primeiro-Ministro Abe recebera mensagens conflitantes de um pacote misto de enviados informais japoneses a Washington, sobre a atitude oficial dos EUA em relação àquela visita.

Mas telefonema de uma hora de duração, do Vice-Presidente dos EUA, dizendo “Por favor, não vá” é mensagem bem clara; absolutamente sem ambiguidades.

E, deve-se acrescentar, que o Primeiro-Ministro Abe desconsiderar o telefonema de Biden e ir, mesmo assim, ao santuário de Yasukuni, também é mensagem bem clara de que ele não está comprando seja o que for que Biden esteja vendendo.

Como escreve a Agência France Press: "Mas a notícia de que intervenções pessoais de Joe Biden, que sempre manteve boas relações de trabalho com altos funcionários japoneses, foram rejeitadas será um embaraço para a Casa Branca."

É possível que Abe supusesse que mereceria ser conversado, nessa questão vital, pelo Presidente Obama em pessoa; e que tenha desconsiderado o pedido dos norte-americanos por pura birra; mas o mais provável é que tenha querido deixar claro que os EUA não receberão fidelidade automática do Japão em questões que Abe entenda que andem contra interesses japoneses.

Também é possível que Abe tenha querido enviar a mensagem de que governo dos EUA que não apoie completamente o gambito do Japão contra a China não é, de fato, verdadeiro aliado – nem é líder real da coalizão asiática.

Será interessante observar para ver se Abe e seus aliados veem o presidente Obama como “pato manco”, e passarão a criticar organizadamente sua estratégia chinesa – atacando o conveniente intermediário Joe Biden – enquanto esperam novo governo, mais militante, em 2016, seja sob o comando da timoneira-arquiteta do “pivô” e detonadora-mór da China, Hillary Clinton; seja um adequado governo Republicano anti-China.

Indicadores chaves da atitude do governo Abe podem incluir uma leva de colunas em jornais nos EUA que digam que o governo Obama está sendo excessivamente circunspecto no confronto com a China; e que reforcem a já rotineira crítica contra o Vice-Presidente Biden (descrito como peso excessivamente leve na política exterior, tema que voltou a aparecer na imprensa-empresa norte-americana, depois que a China, sem delongas, recusou vistos de entrada a dois correspondentes do New York Times designados para trabalhar em Pequim, apesar da empenhada campanha que Biden fez a favor dos dois junto à liderança chinesa).

Afirmação ainda mais clara de uma política japonesa independente nos anos finais do governo Obama seria qualquer tipo de contato unilateral com a Coreia do Norte, que quebraria a frente unida China-Coreia do Sul-EUA, que tem sido a pedra de toda das negociações atualmente em curso. O chefe de gabinete de Abe já foi convocado para negar matérias publicadas segundo as quais enviados japoneses já se teriam encontrado com enviados da Coreia do Norte (República Popular Democrática da Coreia, RPDC) em Hanói.

Além disso, o embaixador indiano em Pionguiangue e o regime da RPDC já se manifestaram, com excesso, muito suspeito, de manifestações de mútua consideração. Segundo a imprensa norte-coreana, o embaixador da Índia recepcionou na embaixada enviados da RPDC, ocasião em que declarou:

A Índia valoriza e estimula os laços de tradicional amizade com a Coreia do Norte, na esperança de que o país prospere e obtenha progresso dinâmico. 
Declarou também sobre o fato de os dois países, nações-membro do Movimento dos Não Alinhados, terem visões semelhantes sobre várias questões internacionais. 
Declarou esperar que as tensões se dissipem, e que a Coreia possa ser reunificada pacificamente mediante o diálogo – e que a Índia dará todo o apoio possível a esse movimento. 
[O embaixador da Índia em Pionguiangue] Disse que o povo indiano reverencia o Presidente Kim Il Sung e o líder Kim Jong Il, líderes eternos do povo coreano. E observou que o Marechal Kim Jong Un, líder supremo do povo coreano está acompanhando com profunda atenção o desenvolvimento de relações bilaterais amistosas; e manifestou a certeza de que, sob sua liderança sábia, a causa da construção de uma nação pujante na Coreia do Norte será bem-sucedida. [5]

De qualquer forma, devem esperar surpresas na evolução da postura do Japão sobre segurança “no futuro próximo”. E, em relação aos Estados Unidos, não assumir que todas as surpresas serão agradáveis.

Notas:


2. Elbridge Colby e Ely Ratner, Roiling the Waters, Foreign Policy, 21 de janeiro de 2014.

3. Abe's remarks on WWI parallels to be clarified, Japan Times, January 24, 2014.

4. Brahma Chellaney, Japan and India: a transformative entente, Nikkei Asian Review, 23 de janeiro de 2014.

5. Indian Ambassador Hosts Reception, Korean Central News Agency (KCNA), 23 de janeiro de 2014.

29 de janeiro de 2014

OGM: a maior fraude alimentar

Vandana Shiva
The Asian Age

"Onde a mente é sem medo, e a cabeça é erguida
Onde o conhecimento é livre..."
Rabindranath Tagore

A liberdade de conhecimento é a liberdade de pensar livremente, sem a influência de interesses poderosos. É a liberdade de desenvolver a própria compreensão de uma realidade em evolução de modo a melhorar o bem estar de todos.

Nós, como sociedade, nos tornamos indiferentes quanto à poluição material — produzindo o crescimento de montanhas de lixo, rios poluídos, inclusive os sagrados Ganges e Yamuna que agora parecem “nalas” (esgotos), e o ar poluído que respiramos. Mas há uma poluição ainda mais séria e invisível — que afeta nossas mentes.

A intensificada brutalidade e a frequência da violência contra as mulheres é um sintoma; um estrelado Saifai Mahostav, enquanto as vítimas das rebeliões de Muzaffarnagar congelam na onda de frio, é outro sintoma.

De modo similar, a imposição de utilizar organismos geneticamente modificados está poluindo nossas sementes e nossos alimentos, nossa ciência e nossa democracia. A liberdade do conhecimento e a soberania do conhecimento está ameaçada pelos OGMs em múltiplos níveis. Primeiro, o conhecimento é “livre”, quando pode ser compartilhado livremente, quando o o conhecimento é um bem intelectual comum.

Os OGMs têm sido utilizados para privatizar o conhecimento e as sementes através dos Direitos de Propriedade Intelectual (Intellectual Property Rights, ou IPR), o que inclui patentes e copyrights. Se por um lado isso está impedindo a pesquisa pública relativa à melhoria no cultivo das plantas, por outro lado nega aos agricultores o direito de conservar sementes e compartilhar conhecimento e de continuar o processo de evolução da semente. Os IPR também negam a inovação coletiva e cumulativa das culturas indígenas e promovem a biopirataria. Por exemplo, vejamos o caso da patente do nim, concedida pelo Departamento de Agricultura dos Estado Unidos à multinacional WR Grace. A Índia ganhou a batalha que durou 10 anos junto ao Instituto Europeu de Patentes (European Patent Office, ou EPO) contra a patente concedida para um produto antifúngico derivado do nim. O EPO tinha concedido a patente ao Departamento de Agricultura dos Estados Unidos e à WR Grace em 1995, mas o governo da Índia argumentou com êxito que a planta medicinal do nim é parte do conhecimento tradicional indiano.

Segundo, o paradigma do reducionismo genético e determinismo genético (a crença de que os genes, em certas condições ambientais determinam os fenótipos morfológicos e comportamentais) — nos quais se baseia a engenharia genética — é uma violação da soberania do conhecimento. É um modelo artificial de como a vida funciona, pressupondo que os genes são “moléculas dominantes”, dando direção ao RNA (ácido ribonucleico) e às proteínas. Nas palavras da geneticista Dr. Mae Wan Ho: “Em vez do fluxo de informação linear e unidirecional estipulado pelo dogma central, do DNA ao RNA e às proteínas e à função biológica ‘de cima para baixo’, há uma intricada ‘conversa cruzada’ entre o organismo e o seu meio-ambiente, em todos os níveis, com ciclos de ‘feed-forward’ (alimentação para frente) e feedback (retroalimentação) nas redes epigenéticas e metabólicas das interações moleculares que marcam e modificam os genes, enquanto o organismo continua com sua função de vida... O organismo está fazendo sua própria modificação genética com grande fineza, uma dança molecular da vida que é necessária à sobrevivência. Infelizmente, os engenheiros genéticos não conhecem os passos ou o ritmo e a música da dança”.

A soberania do conhecimento na ciência da vida vai passo a passo com a consciência da soberania e a auto-organização dos sistemas vivos, das células até os organismos, aos ecossistemas, ao planeta vivo.

A terceira violação contra a soberania do conhecimento é o ataque contra os cientistas independentes que empreendem pesquisas e investigações científicas independentemente dos interesses corporativos.

O primeiro exemplo de um cientista que foi atacado foi o Dr. Arpad Putzai, bioquímico e nutricionista húngaro que foi solicitado pelo governo do Reino Unido para estudar a segurança dos OGMs. Em 1998, o Dr. Pusztai anunciou que os resultados de sua pesquisa mostraram que alimentar ratos com batatas geneticamente modificadas tinha um efeito negativo no revestimento de seu estômago e no sistema imunitário. Apesar de ser um especialista de fama internacional em lectinas vegetais, sendo o autor de 270 artigos especializados e três livros sobre o assunto, ele foi removido de seu laboratório no Rowett Research Institute, em Aberdeen, Escócia, onde tinha dedicado 36 anos. Foi-lhe imposta uma ordem de silêncio, impedindo-o de falar de seus resultados. Mais recentemente, em 2012, foi publicado um artigo no the Journal of Food and Chemical Toxicology pelo Dr. Seralini, da França, o qual tinha conduzido um estudo durante dois anos sobre a segurança dos OGMs. Quando foi pedido que a publicação retirasse o artigo, os editores recusaram, afirmando que o artigo tinha sido revisto por colegas especializados e avaliado. Daí a Monsanto indicou seu próprio editor de biotecnologia, o Dr. Goodman, que fez retirar o artigo.

Na Índia, dois ministros para o meio-ambiente que tentaram prosseguir com o trabalho de biossegurança, conforme sacramentado nas Regras para Organismos Geneticamente Modificados (Rules for Genetically Engineered Organisms) estipuladas pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (US Environmental Protection Agency), foram sacrificados para tentar abrir caminho aos OGMs. O novo ministro para o meio-ambiente da Índia, Veerappa Moily, indicou que procurará derrubar o impedimento de cultivo de OGM instituído por seus predecessores.

Espera-se que o apoio do Sr. Moily abrirá o caminho para que o governo submeta uma declaração junto à Corte Suprema de Justiça, consentindo testes no campo de alimentos GM numa base condicional. Essa é uma tentativa de subverter a comissão de especialistas técnicos, estabelecida pela Corte Suprema, a qual solicitou uma moratória sobre os testes de campo de 10 anos, até que seja criada uma robusta infraestrutura de biossegurança para a avaliação e a regulamentação. Há também uma tentativa de substituir as regras do EPA com desregulamentação e aprovação rápida para os OGMs, através da criação de uma Lei para a Entidade Reguladora de Biotecnologia (Biotechnology Regulatory Authority Act).

A quarta violação da liberdade do conhecimento e soberania do conhecimento é impedir a evolução do conhecimento público sobre como funciona a vida, como podemos produzir alimentos em maior quantidade e de melhor qualidade ecologicamente, o que é feito por meio do controle de publicações científicas assim como da mídia, de modo a promover um paradigma obsoleto de reducionismo genético e ciência mecanicista, e de se fazer falsas declarações de supostos milagres da engenharia genética.

Há uma adequada evidência de que os OGMs não aumentam a produção e não tratam da fome. Os “milagres” de biofortificação através da engenharia genética, como o do Golden Rice (arroz dourado) por remover a deficiência em vitamina A, e a banana GM por remover a deficiência em ferro, são menos evidentes do que as alternativas disponíveis pelo conhecimento e biodiversidade indígenas. Além disso, ao invés de controlar pragas e ervas daninhas, os OGMs levaram ao aparecimento de superpragas e de ervas super daninhas. O imperador dos OGMs está nu, mas a influência do setor da biotecnologia sobre a ciência, a mídia e as políticas públicas afetou todos aqueles cujas mentes estão submetidas, enquanto aplaudem esperando que novas roupas sejam dadas ao imperador.

A quinta violação da liberdade do conhecimento nega aos cidadãos seu direito de saber o que estão comendo. O setor de biotecnologia e alimentar gastou 40 milhões de dólares para influenciar e minar as iniciativas a favor de etiquetagem nos estados da Califórnia e Washington, e esse é um exemplo de poluição do conhecimento que erode a democracia alimentar.

A ironia é que os OGMs estão sendo promovidos em nome da ciência, enquanto ciência e conhecimento estão sendo sacrificados diariamente em nome de mentiras para alimentar a máquina de ganância e não as pessoas. Sem soberania do conhecimento não há soberania alimentar. Sem liberdade de conhecimento não há nem liberdade nem democracia.

Vandana Shiva é uma feminista e ativista ambiental da Índia. Ela é a fundadora e diretora do Navdanya Research Foundation for Science, Technology, and Ecology.

28 de janeiro de 2014

O mito do republicano moderado

O colapso do republicanismo liberal não surgiu a partir de uma certa perda de decência em uma época de polarização, mas a partir da transformação da luta de classes na América.

Kristoffer Smemo


Gov. de Michigan George Romney e seu filho, Mitt, olhando para o recinto da Feira Mundial de Nova Iorque em Maio de 1964. Fonte: AP

Tradução / A ascensão do Tea Party tem gerado uma poderosa nostalgia entre os liberais por uma geração de republicanos "sãos" e "razoáveis". Era uma vez, e assim o conto vai, esta raça de moderados estava disposta a fazer concessões, para acomodar muitas das reformas básicas do New Deal.

Essa narrativa nostálgica de republicanismo moderado venera um momento político cujo mais claro exemplo é o governo de Dwight Eisenhower, que disse, em carta frequentemente citada ao seu irmão direitista, Edgar, que qualquer republicano que "tentasse abolir a segurança social, o seguro-desemprego e pusesse fim às leis trabalhistas e aos programas de agricultura familiar" seria aniquilado nas eleições.

A acomodação emburrada de Eisenhower ao estado do bem-estar representou uma concessão tática a alguns específicos elementos da ordem política despertados pelas reformas do New Deal. Mas outro conjunto de republicanos – que emergiram pela primeira vez nos anos 1930 e 1940 nos níveis local e dos estados por toda a área urbano-industrial, no nordeste, no meio-oeste e na costa oeste dos EUA, locais onde a população trabalhadora mobilizara-se mais efetivamente sob os auspícios do New Deal – foi adiante. Esses republicanos, autoidentificados "republicanos liberais", fizeram concessões muito maiores, concessões estratégicas.

Essas concessões brotaram de um entendimento segundo o qual mobilizações de massa do povo trabalhador haviam criado um mundo no qual o New Deal estaria permanentemente integrado na paisagem política. Esses Republicanos liberais, de fato, tomaram a retórica e as instituições do próprio New Deal para forjar uma nova política conservadora, capaz de reprimir e de conter a constelação ascendente dos movimentos trabalhistas e de defesa de direitos civis.

Em muitos sentidos, foi o entrincheiramento defensivo da política do New Deal consumado por esses republicanos – muito mais, até, que a adesão proativa de seus contrapartes liberais democratas – que cimentou a hegemonia do liberalismo do meio do século. Sobretudo, foi o empoderamento político e econômico dos trabalhadores do chão de fábrica, que ativamente fizeram um novo pacto [New Deal], que fez nascer a notável habilidade daquele governo para transformar a paisagem política.

Embora projetado para priorizar a recuperação econômica capitalista, e eivado de exclusões discriminatórias, a legislação do New Deal, como as leis Wagner, da Seguridade Social e dos Padrões Justos de Trabalho, mesmo assim essas leis forçaram Republicanos e Democratas a se entender, fosse como fosse, com uma noção mais capacitante de "direitos civis" – noção que se ampliou, do direito do trabalho, diretamente para organizar na direção da igualdade racial e de gênero.

A avançada da militância trabalhista, para não falar das grandes migrações rumo às cidades norte-americanas, dividiram claramente o Partido Republicano entre representantes de distritos rurais e profundamente ansiosos ante o avanço da mudança social, e políticos urbanos, desesperados para preservar a própria relevância e viabilidade eleitoral, no meio do que Samuel Lubell chamou de "a revolta da cidade".

Um segmento significativo do Partido Republicano efetivamente se "New Dealizou" em um esforço para se adaptar a essas insurgências. New Dealizados ou Republicanos liberais não só reconheceram a legitimidade dos sindicatos; eles também cederam à pressão organizada para identificar a pobreza, a segregação e a discriminação no trabalho como problemas sociais que exigem a intervenção do governo. Bem como os seus antepassados Progressistas, os republicanos New Dealizados reconheceram que a produção em massa e a sociedade de consumo de massa só poderia ser governado por um estado expansivo.

Em termos bem claros, esses Republicanos liberais que primeiro chegaram a ter proeminência nacional nos anos 1940 e 1950 – como o governador de New York e duas vezes candidato à presidência Thomas Dewey; o governador da Califórnia e Juiz da Suprema Corte Earl Warren; o ex-executivo da indústria automobilística e governador de Michigan George Romney; e o herdeiro (e também ele) barão-ladrão e governador de New York Nelson Rockefeller – todos esses lutaram com unhas e dentes contra as possibilidades social-democrtas que o New Deal despertara e conjurara. Mas cada um desses fez uma imensa concessão estratégica, e todos assumiram que o New Deal permaneceria como realidade política.

Instituições como a Comissão Nacional de Relações Trabalhistas, ou a Administração da Seguridade Social serviram como alicerces para a estabilidade social, mas tiveram de ser despolitizadas e isoladas da pressão de baixo para cima, para assim preservarem as hierarquias profundamente entrincheiradas na sociedade norte-americana. Assim, o Republicanismo 'New Deal-izado' incorporou a luta entre reformadores que queriam remodelar a sociedade norte-americana e conservadores que lutavam para retardar as transformações sociais forjadas pela Grande Depressão, II Guerra Mundial e a distribuição profundamente desigual da riqueza do pós-guerra.

Para diferenciar os republicanos liberais e seus rivais conservadores da "Velha Guarda", como Robert Taft de Ohio, é preciso distinguir entre o campo da política eleitoral e a política legislativa. No momento crucial, no final dos anos 1940 quando a social-democracia norte-americana do pós-guerra ainda era uma (evanescente) possibilidade, Taft era um político com ambições presidenciais e, o mais importante de tudo, era um político que precisava ser reeleito senador. Havia co-patrocinado a legislação sobre moradias públicas do pós-guerra, ao lado do leão liberal Robert Wagner de New York, e depois de tremenda mobilização sindical contra seu projeto de reforma da legislação trabalhista, ele suavizara a própria posição sobre o trabalho organizado e estava à caça dos votos da classe trabalhadora no estado de Ohio, em campanha para a reeleição em 1950.

Diferente do troglodita, odiador-de-sindicalistas e Republicano conservador de New Jersey Fred Hartley Jr., Taft precisava de votos em todos o estados, não só num único distrito conservador. Como Corey Robin argumentou recentemente (e corretamente), Taft, anticomunista, antisindicalista, anti-New-Deal, não pode ser reabilitado hoje como alguma espécie de ícone da moderação; defini-lo como líder dos Republicanos de direita significa reconhecer as concessões táticas parceladas que Taft teve de fazer, sob as circunstâncias de um movimento trabalhista ainda potente. Como Eisenhower (e mais tarde Nixon), as concessões táticas que Taft teve de fazer só reconheceram o poder imediato e a popularidade da ordem do New Deal, não a sua legitimidade a longo prazo.

Republicanos realmente liberais registraram seu máximo impacto no plano estadual, ao assumir a durabilidade do New Deal como ordem política. Embora as eleições de 1936 sejam lembradas como o início de um regime federal de Democratas-pró-New Deal, apenas dois anos depois os Republicanos tiveram sua reestreia, que foi ganhando gás, estado após estado, e assim persistiu pelas duas décadas seguintes. Na eleição de 1944, 26 estados e 70% da população do país elegeram governadores Republicanos. Em estados como Califórnia, Michigan e New York, Republicanos New-Deal-izados pela primeira vez chegaram ao governo, capitalizando elementos da reforma do New Deal, ao mesmo tempo em que criticavam furiosamente a política de classe do mesmo New Deal.

Harold Stassen de Minnesota e Earl Warren ambos conseguiram ser eleitos defendendo resolutamente as virtudes da "livre" negociação coletiva, para minimizar o envolvimento coercitivo e desequilibrador dos governos, nas relações de trabalho. Warren opôs-se firmemente a leis antissindicais de direito ao trabalho, e até convenceu empresas fabricantes de aviões do sul da Califórnia e furiosamente conservadoras a retirar o apoio que estavam dando a um projeto de lei, de 1944, que proibia as closed shop, argumentando que esses ataques só faziam energizar o movimento operário.

George Romney, que denunciou Walter Reuther como "o homem mais perigoso em Detroit" durante a onda de greves 1945-46, também lutou para manter um sindicalismo aceitável para a comunidade empresarial, desconfiada depois de décadas de conflito no chão de fábrica. Como presidente da American Motors, lutou para tornar rotineira a livre negociação, e pregava que se limitasse a 10 mil o número de membros por sindicato. Esses esforços contribuíram para que os sindicatos acabassem cercados, como num gueto, naquele regime de relações trabalhistas privadas que reafirmava o tremendo poder de classe do capital sobre os trabalhadores.

A luta contra a militância favorável ao trabalho, nas indústrias, levou Republicanos New Deal-izados a forjar alianças com os segmentos mais elitizados da classe trabalhadora nos EUA. Enquanto o chão de fábrica de corporações gigantescas como a General Motors tornava-se ninho para a "cultura da unidade" proletária dos sindicatos reunidos no Congress of Industrial Organizations (CIO), os sindicatos reunidos na American Federation of Labor (AFL) da economia socialmente homogênea de trabalhadores especializados, brancos e do sexo masculino, representavam um mundo muito menos interessado no potencial igualitarista do New Deal.

A ravina cultural e ideológica que separava a massa de trabalhadores não especializados e diversos, e a "aristocracia do trabalho" dos tipicamente "velha guarda", do sexo masculino e nascidos nos EUA, criava um eleitorado ansioso para preservar seu lugar privilegiado num mercado de trabalho altamente estratificado e ansioso por mais e mais alianças. (O fato de os sindicatos ligados à AFL, caminhoneiros e empregados da construção civil, dentre outras categorias, tenham crescido duas vezes mais depressa que os sindicatos ligados ao CIO entre 1937 e 1945 só tornou mais atrativos os sindicatos organizados por categoria.)

Republicanos New Deal-izados viram nos sindicatos organizados por categoria uma classe trabalhadora fracionada, capaz de neutralizar a influência do CIO, de tendência esquerdizante; e de dividir a base laboral da tão alardeada coalizão do New Deal. Assim, o governador da California durante a guerra Earl Warren contava, como importantes aliados, com os Teamsters (então engajados numa feroz disputa por jurisdição contra o [sindicato] International Longshore and Warehouse Union ligado aos comunistas). Em Minnesota, o governador Harold Stassen e os Republicanos que o seguiram nos anos 1940s e ’50s indicaram sindicalistas de sindicatos de categorias para administrar a burocracia de mediação do trabalho estabelecida para paralisar o poderoso sindicato local dos Teamsters, liderado por trotskistas.

A posição dos Republicanos New-Deal-izados sobre discriminação no trabalho, a principal questão de direitos civis naquele momento, também cresceu a partir de um esforço para conter ou esterilizar qualquer oposição. Contra ativistas sindicalizados a favor de direitos civis, que reivindicavam a criação de uma agência institucionalmente forte, nos moldes da [comissão] National Labor Relations Board, competente para fazer frente à discriminação racial sistemática, os Republicanos aprovaram comissões fracas, sem poder algum, apenas 'investigativas' e para educação pública, e deixaram os serviços de processar e condenar para cortes judiciais, que avaliariam os confrontos, caso a caso.

Em New York, Thomas Dewey hasteou a bandeira do Partido de Lincoln sob intensa pressão da Frente Popular Negra da Cidade de New York [New York City’s Black Popular Front] e implantou no estado uma Comissão para Práticas de Emprego Justo [Fair Employment Practices Commission (FEPC)], que se basearia no que o sociólogo Anthony Chen descreve como "modelo de regulação social individualizado e indiferente à cor". Em Michigan, no final dos anos 1940 e início dos 1950, um bloco minoritário de Republicanos liberais, na luta para ultrapassar os rivais conservadores, construiu alianças cautelosas e frágeis com Democratas trabalhistas liberais, próximos da União dos Trabalhadores na Indústria Automobilística [United Auto Workers] para tentar aprovar (sem sucesso) a legislação da Comissão para Práticas de Emprego Justo.

Mais recentemente, nos anos 1960, George Romney foi presidente da primeira Comissão para Práticas de Emprego Justo estadual, mas, como no modelo que Dewey apoiara, lhe faltavam poderes efetivamente capacitantes; a Comissão sofreu de falta crônica de funcionários e de fundos, e os trabalhadores relatavam que preencher uma queixa gerava mais problemas do que ajudava a solucionar.

O governador Earl Warren também jogou com os direitos civis, mas mais como meio para esvaziar o que ele via como subversão "comunista" entre as minorias raciais. Na verdade, a mais bem conhecida opinião de Warren para a Suprema Corte, em Brown v. Board of Education, que sancionou um processo hesitante, em etapas, para a de-segregação racial das escolas, emergiu, funcionalmente, como gesto simbólico não concebido para desmontar as hierarquias racistas da sociedade norte-americana.

Nos últimos anos da década de 1960, contudo, Republicanos New Deal-izados descobriram que sua versão de moderação acabara sem eleitores. O Movimento dos Direitos Civis tornara-se cada vez mais militante, a Guerra do Vietnã desacreditara o internacionalismo da política exterior bipartidária e grande parte do movimento trabalhista acabara presa no tipo de negociação coletiva muito estreitamente concebida pela qual os Republicanos liberais tanto lutaram. Assim se abriu uma via para uma direita Republicana armada com livre mercado obrigatório, nada de sindicatos e nada de governo que oferecesse alguma moderação ou acomodação.

A fracassada campanha de Barry Goldwater em 1964 e a eleição de Richard Nixon quatro anos depois puseram fim às aspirações presidenciais dos Republicanos Romney e Rockefeller – o que evidenciou a vulnerabilidade eleitoral da posição dos Republicanos New Deal-izados. O viés "lei e ordem" da campanha de Nixon, por exemplo, empurrou Rockefeller a ordenar que policiais do estado de New York abrissem fogo no pátio da prisão de Attica e a aprovar leis antidrogas draconianas. Enquanto isso, o esforço de Nixon para construir uma "Nova Maioria" com a classe trabalhadora tinha raízes profundas em estratégias muito anteriores, entre os Republicanos New Deal-izados, para fraturar a nascente coalizão do New Deal.

Mas a destruição provocada pela fuga de capitais continuou a devorar a economia política sindicalizada do Nordeste e Meio-oeste do país, desestabilizando a base eleitoral, não só do trabalhismo liberal dos Democratas, mas também de um Republicanismo liberal baseado numa détente política com a classe trabalhadora organizada. As oportunidades econômicas e políticas que o conservadorismo do "Cinturão do Sol" criou finalmente capacitaram o Partido Republicano a abandonar de vez qualquer apoio a impostos, taxas, regulações e relações trabalhistas de cunho industrial antigo, em meio às crises dos anos 1970.

As lições têm dois aspectos. Primeiro, mesmo quando enfrentaram o novo consenso por trás da reforma social patrocinada pelo estado, os Republicanos New Deal-izados propuseram-se muito precisamente a restringir aquelas forças – um amálgama poderoso de classe trabalhadora e ativismo pró-direitos civis – que haviam sido empoderadas pelas políticas e ideologias igualitárias do New Deal.

Em segundo lugar, e mais importante: se há algo a considerar com nostalgia na política de meados do século, não é alguma ausência, ou alguma falta que façam Republicanos cujo conservadorismo foi temperado com mínimas pitadas de racionalidade e compaixão. É o fato notável de que a classe operária, quando organizada, tem o poder de remodelar até os setores mais reacionários da política americana.

27 de janeiro de 2014

Luta de classes no coração dos tigres asiáticos

Ásia. Como é o continente asiático do ponto de vista dos conflitos e lutas dos trabalhadores?

Simone Pieranni

Il Manifesto

Vietnã, Camboja, Indonésia, Coreia do Sul, Hong Kong, Mianmar, Bangladesh, Índia e, naturalmente, China: o que une esses países asiáticos no período entre o fim de 2013 e o início de 2014? Alguns fatores econômicos, certamente, mas sobretudo um elemento socioeconômico: as lutas de trabalhadoras e trabalhadores. Tratam-se de batalhas diversas, com desdobramentos e dinâmicas diferentes, mas que insistem em uma única diretriz: a melhoria das condições econômicas, a exigência dos direitos sindicais, o aumento dos salários e uma profunda crítica das condições de trabalho. No âmago dessas lutas se encerram também alguns elementos da economia globalizada: produções a baixo custo que sustentam economias inteiras, terceirização e produção para grandes marcas, tudo isso unido a um modelo de “fábrica do mundo” que limita as possibilidades de inovação sob o verniz da exportação, negócio seguro e requisitado pelas grandes marcas internacionais. E o campo onde isso tudo se desenrola é a Ásia, continente com conflitos vários e enormes diferenças políticas internas e frequentemente distante das bússolas da atenção midiática.

Em certo momento alguns desses países, como Hong Kong, Taiwan e a Coreia do Sul, foram denominados “tigres asiáticos”: nações integradas ao núcleo mais duro do capitalismo, capazes de exaltar e reunir o consenso dos mais notáveis expoentes do liberalismo mundial. A conclusão sempre foi a mesma: as contradições do liberalismo recaem sobre os direitos das pessoas e sobre a total ausência de tutelas sociais, provocando também empecilhos de natureza puramente econômica, financeira, fiscal, retributiva, inflacionária ou ambiental. O sistema não se sustenta. Mas sempre haverá – pelo menos é o que muitos esperam – uma zona franca na qual cravar fábricas com facilidades fiscais e empregar a dois centavos centenas de trabalhadoras e trabalhadores a serem enfiados em galpões, lá onde a vida dedicada ao trabalho e aquela “normal” se sobrepõem até a completa anulação dessa última.

A crise ocidental agravou ainda mais essa situação, pelo menos nos países que fizeram da exportação o próprio modelo produtivo. Sob essa colcha de exigências econômicas globais, capazes de criar estranhas alianças entre capital e regimes políticos discutíveis, escondem-se as armadilhas, constituídas por novas classes de trabalhadoras e trabalhadores que além de salários maiores pedem também direitos trabalhistas. É uma batalha que certamente não começou hoje, mas que na Ásia abriu uma nova fase de lutas sociais de natureza histórica.

A ex-fábrica do mundo

Os últimos anos na China puderam testemunhar as novas batalhas dos chamados “novos trabalhadores chineses”: jovens, em muitos casos possuidores de diploma universitário (no último ano, a China formou o número recorde de 7,5 milhões de graduados) e que se encontram nas cadeias de montagem de fábricas que produzem bens de consumo tecnológicos, tablets e smartphones, e que ao contrário de seus pais, que teriam aceitado qualquer condição de trabalho com o objetivo de sair da pobreza, são combativos e capazes de se mobilizar, desfrutando justamente os produtos de cuja fabricação participam.

Nokia, Apple e tantos outros produtores de eletrônicos viram seus estabelecimentos sacudidos por greves e protestos, enquanto Pequim e o governo chinês pressionaram não pouco por aumentos salariais, até porque a estratégia da nova liderança chinesa é de fato abandonar gradualmente a produção a baixo custo, em nome da inovação e do mercado interno.

Essa mudança na orientação do governo chinês significa consentir às trabalhadoras e aos trabalhadores a possibilidade de gastar menos por serviços sociais, nos quais estão sendo testados modelos baseados na experiência norte-americana, e consumir mais os produtos do mercado nacional, aliviando-as também dos custos sociais determinados pela existência do “hukou”, a licença de residência que fixa o acesso a programas sociais ao local de proveniência da trabalhadora ou do trabalhador.

Significa também redistribuição e melhorias na qualidade de vida, mesmo em face de um envelhecimento da população que cria impensáveis lacunas na disponibilidade de mão de obra nos pulmões produtivos da exportação chinesa. A China mesma atualmente terceiriza a produção, e busca novas trabalhadoras e trabalhadores para a produção a baixo custo – que certamente não pretende desmantelar por completo. Aliás, algumas empresas têm se desdobrado para manter a atual força de trabalho.

Como lembrou o Financial Times, “muitas fábricas em todo o delta do rio das Pérolas, a ‘fábrica do mundo’ na província de Guangdong, estão buscando maneiras de não perder a mão de obra empregada. Essa necessidade tem se tornado cada vez mais premente visto que as mudanças demográficas – especialmente a política do filho único e o estímulo do governo à criação de postos de trabalho nas províncias do interior – fizeram com que a contratação de pessoal se tornasse uma tarefa cada vez mais difícil”.

Vietnã, Indonésia e Mianmar

Assim como no gigante asiático – atualmente a segunda maior potência econômica mundial – tantas outras marcas estrangeiras encontram nos países vizinhos força de trabalho a baixo custo, além de contextos inicialmente pouco hostis. Mas os confrontos e os protestos são cada vez mais frequentes. No Vietnã, no início de janeiro, 11 pessoas ficaram feridas em confrontos entre trabalhadoras e trabalhadores e oficiais de segurança de uma fábrica da coreana Samsung. As motivações nasceram em um bate-boca entre guardas e trabalhadores e foram parar em reivindicações de melhores condições de trabalho.

A dinâmica vietnamita, porém, apresenta muitos pontos de contato com outros países da área: as empresas estrangeiras gozam de facilidades fiscais para estabelecerem-se em determinadas áreas, talvez pouco desenvolvidas ou mal aproveitadas pelos mecanismos de produção, e acabam criando cidades-fábrica, fazendo uso de salários baixíssimos. Em dezembro de 2013, 130 trabalhadoras e trabalhadores da Thazin Biscuit Factory, na zona industrial de Pyi­gy­i­da­gun em Mandalay, Mianmar, voltaram a protestar na porta da fábrica depois de um acordo prévio sobre o pagamento de horas-extras ter sido cancelado. O Departamento do Trabalho chegou a prometer considerar as exigências das trabalhadoras e trabalhadores por uma melhor retribuição das horas-extras e do trabalho em feriados nacionais e aos domingos, mas nada parece ter se movido desde então.

Ou ainda na Indonésia: segundo o “Global Voices”, em novembro de 2013 “as organizações de trabalhadores anunciaram greve geral por dois dias para exigir que o governo aumentasse o salário mínimo para US$ 334 ao mês. Segundo os organizadores, dois milhões de trabalhadoras e trabalhadores em 20 províncias cruzaram os braços. Uma série de protestos foi organizada em todo o país para chamar a atenção para a greve geral realizada nos dias 31 de outubro e 1º de novembro, com o fechamento das fábricas e manifestações para convencer outras pessoas a aderirem à greve. No dia 21 de outubro, os sindicatos conseguiram reunir 20 mil trabalhadoras e trabalhadores para abrir uma mesa de diálogo nacional”. Além do aumento dos salários, trabalhadoras e trabalhadores avançaram em outras exigências: aumento de 50% do salário mínimo, plano de saúde para todos, proibição da terceirização e abolição da lei antissindical.

26 de janeiro de 2014

As três principais mentiras da imprensa sobre as negociações de paz com a Síria

Por Shamus Cooke [*]


Créditos: Narciso Contreras/AP.

A máquina de mentiras da mídia está novamente girando em alta rotação, perfeitamente programada para acompanhar as negociações de paz para a Síria de “Genebra 2”. As mentiras são necessárias para garantir que o governo Obama continue a jogar com as cartas que esconde na manga, nas  negociações, as quais não estão sendo conduzidas para gerar paz alguma, mas, isso sim, para que levem ao sucesso o plano de “mudança de regime” do governo Obama para a Síria. Aqui, listo as três principais mentiras que se espalham pelo mundo graças à contribuição da imprensa ocidental e de seus jornalistas e “especialistas” empregados, sobre as conversações de “Genebra 2”.

1) A saída do presidente Bashar al-Assad do governo sírio teria sido “precondição” discutida e aprovada em Genebra 1, para Genebra 2.

Essa mentira tem sido repetida pelo governo Obama e pelos veículos da imprensa ocidental. Não tem fundamento. O governo Obama inventou que essa “precondição” teria sido registrada no “Comunicado de Genebra”, que foi um mapa do caminho redigido para orientar as conversações de paz de Genebra 2, discutido e aceito por alguns dos principais envolvidos nas negociações, inclusive pela Rússia.

O Comunicado fala, sim, de uma transição política negociada, mas NÃO diz, em lugar algum, que essa transição não poderia incluir o presidente Assad (e qualquer cláusula dessa natureza teria sido imediatamente rejeitada pela Rússia).

A verdade é que o Comunicado de Genebra inclui a seguinte cláusula:

“[um governo de transição] poderá incluir membros do atual governo sírio e da oposição, além de outros grupos; e terá de ser constituído por consentimento mútuo”.

Nada, em local algum daquele documento, menciona ou implica diretamente o presidente Assad.

Recentemente, o Los Angeles Times pisou fora da linha e expôs, clara e completamente a mentira:

“[John] Kerry tem citado repetidas vezes o “Comunicado de Genebra”, espécie de mapa do caminho redigido em junho de 2012, durante reunião organizada pela ONU. Mas esse documento absolutamente não exige a saída de Assad”.

A incansável repetição dessa mentira, pelo governo Obama, só provoca divisões e dificuldades para o processo de paz, enquanto vai minando qualquer chance de alcançar-se alguma paz.

O governo Obama tem batido o pé a respeito dessa pré-condição “Assad tem de sair”, porque sabe que, em eleições limpas, livres e justas que se disputem na Síria – como parte de um “processo transicional” apoiado pela ONU – o presidente Assad será, praticamente com certeza, reeleito. Esse é o resultado da união de várias minorias étnicas e religiosas sírias no apoio ao presidente, apoio cada vez mais assumido e declarado, desde que começaram a testemunhar as atrocidades sectárias diárias cometidas por “rebeldes” apoiados pelos EUA (atrocidades que a imprensa-empresa dos EUA existe para fazer ignorar e impedir de ver).

Assad provavelmente será eleito, se houver eleições, dado que simplesmente não há qualquer outro nome, no governo ou na oposição, que se compare a ele no reconhecimento que merece dos sírios e na popularidade. Os “rebeldes” apoiados pelos EUA que estão fazendo guerra contra a Síria fortaleceram a imagem política do presidente Assad – mas essa é informação que ninguém jamais obterá da imprensa-empresa ocidental, monoliticamente contra os sírios.

“Exigir” a saída de Assad tampouco tem qualquer sentido, se se considera a situação em campo. Os “rebeldes” apoiados pelos EUA jamais conseguiram controlar mais que uma única cidade síria, de nome Raqaa, a qual é dominada pela al-Qaeda e governada sob uma interpretação à moda dos Talibã da lei islâmica, e que inclui, dentre outros, o banimento de qualquer tipo de música. Os “rebeldes” não têm poder em campo que os autorize a exigir seja o que for, muito menos que “Assad tem de sair”.

2) As milícias “rebeldes” apoiadas pelos EUA seriam grupos terroristas islamistas “moderados”.

O simples fato de alguém dizer publicamente tal absurdo, sem provocar gargalhadas, é prova do grande sucesso da propaganda que se faz pela empresa-imprensa jornalística ocidental. A narrativa jornalística ocidental pinta os rebeldes financiados pelos EUA como “bons”, em luta contra, ao mesmo tempo, o governo sírio e os “maus” rebeldes associados à al-Qaeda.

Mas os tais “bons” terroristas que integram a Frente Islâmica apoiada pelos EUA partilham a mesma visão quanto ao futuro da Síria que os rebeldes da al-Qaeda: todos defendem uma versão fundamentalista da lei da Xaria, segundo a qual as mulheres vivem praticamente em prisão domiciliar e minorias religiosas são cidadãos de segunda classe (grupos muçulmanos não sunitas seriam massacrados na Síria, como já estão sendo, nas áreas das quais o governo sírio ainda não conseguiu varrer os terroristas – mais um fato minimizado ou apagado do noticiário pela imprensa-empresa jornalística ocidental).

A mentira sobre os “rebeldes moderados” foi também exposta recentemente, quando um alto comandante da mais poderosa das milícias em guerra contra o governo sírio, o grupo Ahrar al Sham, integrante da Frente Islamista e apoiado pelos EUA, declarou que seu grupo é o único “verdadeiro” representante da al-Qaeda na Síria.

O grupo Ahrar al Sham é conhecido há muito tempo como grupo extremista terrorista do tipo al-Qaeda; a imprensa-empresa jornalística ocidental simplesmente apagou essa informação. Mas quando essa associação foi divulgada e “oficializada”, os jornais, televisões e jornalistas norte-americanos optaram por ignorar a evidência, porque noticiar o fato destruiria a mentira sobre “terroristas moderados”. Jornais, televisões e jornalistas ocidentais também continuaram a ignorar o fato de que a Frente Islâmica “moderada” apoiada pelos EUA lançou, ela própria, um manifesto no qual se filia às ideias extremistas do grupo Ahrar al Sham, a al-Qaeda “autêntica”.

3) Haveria novas provas de que o governo sírio pratica tortura “em escala industrial”.

Recentemente, a empresa-imprensa ocidental apareceu com “plantão de notícias” no qual se “informava” sobre novas provas que mostrariam “tortura e assassinatos em massa ao estilo nazista”, pelo governo sírio, matéria divulgada exatamente no início das negociaçõess de paz de Genebra 2. Não se sabe se o governo sírio mata ou não mata. E continua-se sem saber depois do “noticiário”, porque não há ali sequer uma prova válida de coisa alguma. A mentira, nesse caso, é que o “jornalismo” ocidental apresentou como verdade indiscutível o que nada assegura que não seja, do começo ao fim, só mentiras.

Tudo o que realmente sabemos é que existem centenas de fotos de pessoas mortas que alguma “fonte confiável” diz que foram mortas pelo governo sírio. A tal fonte confiável sempre é assim qualificada por intelectuais pró-ocidente que conquistaram “credibilidade” midiática porque ajudaram a condenar criminosos de guerra na Corte Internacional Criminal [orig. International Criminal Court (ICC)]. Mas, como escreveu Diane Johnstone em seu excelente livro Fools Crusade, sobre a guerra contra a Iugoslávia – e também em vários artigos – a Corte Internacional Criminal tem sido, há muito tempo, usada como ferramenta das potências ocidentais para criar pretexto para uma ou outra guerra, ou como ferramenta para justificar uma guerra, depois do fato.

As evidencias da atrocidade “nazista” foram escritas em estudo pago pelo governo do Qatar, o qual há muito tempo mobiliza dinheiro, armas, jihadistas para ajudar os rebeldes anti-Assad na Síria.

Mais uma vez, não se pode saber se a história é verdadeira ou falsa. Mas investigação dessa magnitude e importância teria de ser feita pela ONU ou por outra instituição mais respeitável [que um escritório privado de advocacia]. A mesma dinâmica enviesada viu-se no caso do ataque com armas químicas, do qual jamais apareceu qualquer prova, embora longa fila de “especialistas” tenham sido vistos e ouvidos na televisão ou citados em longas matérias jornalísticas, todos “comprovando” a culpa do governo sírio. Até que, afinal, Seymour Hirsch jornalista premiado com o Pulitzer, desmontou as “versões” dos “especialistas” e demonstrou que o governo Obama mentira sobre os rebeldes não terem capacidade para executar ataque químico daquele tipo. As empresas-imprensa do “jornalismo” ocidental ignoraram o trabalho de Hirsh.

Como essas mentiras implantam-se a ponto de se tornarem traços permanentes na imprensa-empresa ocidental? Artigo excelente publicado no The Guardian recentemente discutiu em profundidade as principais fontes de que se serviu a imprensa-empresa ocidental para compreender o conflito sírio.

O artigo expôs o quase inacreditável viés de algumas das principais fontes ouvidas pelas empresas de jornalismo ocidentais sobre a Síria, e o motivo pelo qual se escolheram sempre fontes “especializadas”: para assegurar que as fontes tivessem agendas políticas alinhadas com as decisões da política externa dos EUA. O outro lado do conflito permaneceu completamente ignorado nos veículos da grande imprensa-empresa, exceto quando foi tomado como alvo a ser ridicularizado. Por isso, norte-americanos e europeus têm visão completamente tendenciosa, quando não completamente irreal e fantasiosa, sobre o que está acontecendo na Síria. E foi assim sistematicamente, desde o início do conflito – exatamente como aconteceu nas guerras da Iugoslávia, Afeganistão, Iraque e Líbia.

O resultado da ignorância construída pela imprensa e seus jornalistas foi mais mortes num país que, hoje, já tem milhões de refugiados e mais de 100 mil mortos.

Obama parece decidido a explorar o atual momento exclusivamente para fazer crer que, se as conversações de paz fracassarem, a culpa terá sido do governo sírio.

Sem ter conseguido derrotar Assad em campo e em guerra à distância, guerreada por seus prepostos, o governo Obama tenta, agora, vencer a guerra de propaganda. Assim, se as conversações pró-paz fracassarem, Obama poderá reiniciar suas conversações pró-guerra, “porque” “todas as demais opções fracassaram”.

[*] Shamus Cooke é assistente social, sindicalista e escritor da Workers Action.

Shamus Cooke, "Top Three Media Lies About the Syrian Peace Talks", CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names, 26 de janeiro de 2014.

Retificação de nomes II: Vamos chamar um golpe um golpe

Peter Lee


Como parte da campanha deste autor para retificar nomes, que já retificou o nome da política externa do Japão – a qual deve ser referida a partir de agora como “Restauração Militar do Japão” – tenho a honra de decretar que os eventos que ocorrem no Egito, Tailândia e Ucrânia não são revoluções, são golpes.
Uma revolução, como a palavra diz, implica o fim de um sistema de governo existente, quase sempre autoritário, em favor de um sistema de governo novo, usualmente mais democrático.

Um golpe, por outro lado, envolve grupos ruidosos usando ação de rua para derrubar um governo eleito que consideram desagradável.

Egito-2013 foi um golpe contra um governo eleito, por uma massa critica de pessoas nas ruas e quarteis que não queriam esperar um ano ou dois para disputar o poder através das eleições.

Esse estado de coisas feias tem provocado dano em pessoas encantadas pela visão de heroicas massas liberais, amantes da democracia, que derrubam governos autoritários.

Juan Cole insiste em vender a derrubada do governo de Mursi no Egito como uma “revocouption”, metendo à força uma certa dose de legitimidade no golpe dos militares; declarando que o golpe seria continuação da revolução original, graças às manifestações de rua contra Mursi e à redação de uma nova constituição (e, assim, excluindo da história revolucionária oficial o papel da Fraternidade Muçulmana na derrubada do governo Mubarak). Não venda, oh poderoso promotor da intervenção na Líbia, que suponho poder ser rebatizada “fuckupalotaboomboom”, com a descida daquele país ao caos.

Atualmente, o mandato popular para o golpe contra Mursi repousa sobre um precário cálculo, segundo o qual cerca de 5% de egípcios a mais votaram no referendo constitucional de 2014 boicotado pela FM (que passou por um Saddam Hussein-digno 98,1%), que no referendo de 2012 boicotado pelos anti-FM.

Uma situação semelhante ocorre na Ucrânia, onde a oposição decidiu que um golpe é preferível a esperar por outra eleição, sobretudo quando o ocidente trabalha tão empenhadamente em defesa das forças antigoverno. O empenho da Europa e dos Estados Unidos em promover seus interesses geoestratégicos à custa de eleições seria cômico, se não fosse o fato de que grupos neonacionalistas estão sendo usados como tropas de choque para abalar o governo da Ucrânia. Vai ser interessante ver até que ponto irão os “analistas” distantes ao elogiar a paisagem de coquetéis Molotov e “ativistas” contra “o governo”. Como Belle Waring escreveu e depois apagou no blog Crooked Timber – quando percebem que tais cenas podem ser encenadas em seus países.

Quanto à Tailândia, os Camisa Amarela pretendem especificamente: a) derrubar o governo; b) impedir a possibilidade de uma nova eleição que eles possam perder; e c) convencer o exército a intervir do lado deles. Nada pode ser mais golpe do que isso.

Quando eu fui para a escola em um período reconhecidamente ingênuo e otimista da história, ensinaram-me a respeitar eleições, aprendi que respeito ao processo eleitoral por ambos os vencedores e perdedores era primordial, porque senão o país iria para o inferno... como está acontecendo no Egito, na Ucrânia e na Tailândia (e nos Estados Unidos em 1860).

Embora eu tenha considerado corrompido todo o processo da recontagem de votos nas eleições presidenciais, do primeiro momento até a decisão da Suprema Corte no processo Bush vs. Gore, depois que a Suprema Corte se manifestou dei o caso por encerrado. Felizmente Al Gore não exigiu que eu fosse para a praça, com meu capacete, taco de beisebol, e garrafa de gasolina misturada com detergente, para derrubar o governo Bush (embora seja compreensível que milhões de pessoas atacadas, feridas e mortas pelo governo terrorista de Bush, a começar pelo povo do Iraque, pensem diferente.) Alguns anos depois, os Democratas afinal chegaram à presidência. Assim, os Democratas tiveram oportunidade legal e legítima para fuder tudo & todos à sua própria maneira especial, e a agitação para um golpe de Estado contra o governo ainda parece ser algo com poucos adeptos nos Estados Unidos.

No exterior, a história é diferente. O atual trio de golpes que está em andamento no mundo não suscitou  o apaixonado “temos que respeitar o processo eleitoral”: silêncio total nessa direção, tanto do governo, quanto dos “especialistas” da mídia. Na Ucrânia, a avidez dos Estados Unidos em defesa do movimento antigoverno é notável; no Egito, não queremos irritar o exército e colocar em perigo o acordo de paz com Israel; e na Tailândia, não entendo nada. Talvez estejamos apenas interessados em ficar do lado do exército.

No fundo, suponho, está a ideia de que não importa se é uma “revolução colorida” ou um golpe de Estado; agitação local é apenas mais um meio para promover e proteger os interesses dos Estados Unidos. Mas sempre dão alguma munição extra à República Popular da China, que pode argumentar que os Estados Unidos não têm interesse algum em democracia (eu poderia apontar que os Estados Unidos são uma república e não uma democracia, uma distinção que 200 anos de proteção da riqueza e da propriedade, e limites de jure e de fato contra a soberania popular, já comprovaram que não é distinção trivial) – nem em eleição alguma; os Estados Unidos só têm interesses no próprio caminho.

24 de janeiro de 2014

Clichês ou verdades sobre a I Guerra Mundial? Resposta a Nicolas Offenstadt

Por Annie Lacroix-Riz [*]

Crédito: Autor desconhecido.

O Le Monde tem por hábito enunciar a “doxa” histórica (sobre a URSS e o seu “tirano vermelho”, sobre o patronato não “colaborador”, com Louis Renault à cabeça, sobre o democrático coronel de La Rocque, etc.). Anunciando, em 4 de novembro de 2013, o matraquear ideológico de um ano (no mínimo) que nos espera, o “jornal de referência” encarregou, pois, o medievalista Nicolas Offenstadt, de resto especialista em “memórias” da Grande Guerra, de “terminar com dez ideias recebidas sobre” ela. Porque, explica-nos este último, “o seu forte impacto sobre a sociedade francesa alimenta a circulação de imagens e clichês que não correspondem ao estado dos conhecimentos dos historiadores”. Na conferência do panteão mitológico figuraria a ideia de que “a guerra era desejada pelos industriais e financeiros”. Citemos: 

As interpretações marxistas das origens da guerra, assentes nas reflexões de Lenin sobre o imperialismo como estágio supremo do capitalismo, atribuem um papel central às rivalidades econômicas acentuadas pela baixa tendencial da taxa de lucro e ao caráter predatório dos meios industriais. Há algumas relações de forças comerciais entre os blocos na China ou no Império otomano, entre britânicos – inquietos com o “made in Germany” – e alemães. A corrida aos armamentos no período imediatamente anterior à guerra, em todos os países, reforça esta interpretação. Mas a historiografia mostrou que as interdependências eram de fato muito fortes entre as economias e que, para alguns setores (seguros, sociedades mineiras...), a paz era preferível à guerra. A City era pois empurrada para defender a paz. Além disso, em matéria de política externa, os meios industriais e financeiros não estavam unidos. [1] 

O “clichê” presumido não levanta qualquer espécie de objeção. Os marxistas contentam-se em analisar a economia capitalista antes de 1914 sem referência ao eventual “desejo” dos banqueiros e dos industriais: Lenin, tão hegeliano como Marx, observa as práticas dos “capitalistas fora da sua vontade e da sua consciência”. 

Respiga, no Imperialismo, fase suprema do capitalismo, na véspera da guerra, as práticas do “capital financeiro [,] resultado da fusão do capital de alguns grandes bancos monopolistas com o capital de grupos industriais monopolistas” na fase imperialista nascida da primeira crise sistêmica do capital (1873): fala, não dos banqueiros e industriais, mas de um “punhado de monopolistas”, “cartéis e trusts” que levaram então a cabo a “partilha do mundo”.

A “oligarquia financeira” – atualmente mais do que centenária – resistiu à baixa dos preços e da taxa de lucro cartelizando, baixando os salários e os lucros não monopolistas, em resumo, lançando o peso da crise “sobre o resto da população”. Mas não conseguiu abolir a sobreprodução, isto é, a insuficiência da taxa de lucro esperado em relação ao capital investido ou a investir, nem superar as rivalidades e contradições que a dilaceram. Criou ou reforçou cartéis e trustes (efetivamente ”interdependentes”, para citar Nicolas Offenstadt), mas estes frutos e aceleradores do desenvolvimento desigual do capital não “suprimem as crises”. Agravando a concorrência dos setores cartelizados, a crise obriga os monopólios a destruir maciçamente o capital e a repartilhar o globo: a sua “caça às colônias” ou zonas equiparadas (impérios otomano e russo) reforça-se “depois de 1880”; no início do século XX, desenvolvem-se “guerras periféricas” até ao coração do continente europeu e os planos visando “anexar, não apenas as regiões agrícolas, mas também as regiões industriais (a Bélgica é cobiçada pela Alemanha, a Lorena pela França.)”

É então que Kautsky, o mais prestigiado marxista vivo depois da morte de Engels, alia o reformismo, ideologia na altura triunfante dos “agentes da burguesia dentro do movimento operário”: forja a “teoria do ultra-imperialismo” [ou super-imperialismo] pacífico, segundo o qual os capitais concentrados-cartelizados “preferem” o compromisso ao conflito. Este sonho desmobilizador valeu-lhe os ataques de Lenin, antes da guerra generalizada eclodir. “Os cartéis internacionais, nos quais Kautsky vê o embrião do ultra-imperialismo (do mesmo modo que a fabricação de comprimidos de laboratório “pode” ser proclamado embrião da ultra-agricultura) não nos dão o exemplo de uma partilha e repartilha do mundo, da transição da partilha pacífica para a partilha não pacífica e inversamente? […] O capitalismo transformou-se num sistema de opressão colonial e de estrangulamento financeiro da imensa maioria da população do globo por um punhado de países “avançados”. E a partilha deste saque tem lugar entre duas ou três aves de rapina universalmente poderosas, armadas da cabeça aos pés (América, Inglaterra, Japão) [sem esquecer a Alemanha e a França], que arrastam toda a terra para a partilha do seu saque.”

Em cada país, uma historiografia documentada, nem sempre marxista, corroborou, tanto para 1914 como para 1939, “as interpretações marxistas das origens da guerra”. A tese do conservador Fritz Fischer, Dozent (assistente universitário) no tempo de Hitler, Os Objetivos da Guerra da Alemanha Imperial 1914-1918, demonstra a unanimidade a favor da guerra de saque do “punhado” de decisores alemães, apoiados pela quase totalidade das forças políticas (SPD “maioritário” inclusive). Essa obra com mais de 50 anos (1961, traduzida em 1970) não tem uma única ruga. Por certo, a historiografia dominante exclui-o das bibliografias oficiais dos concursos de admissão em história desde os anos 2000: essa não menciona senão Georges-Henri Soutou, O Ouro e o Sangue, Os Objetivos Econômicos de Guerra da I Guerra Mundial (1989), que contesta o consenso dos decisores alemães na matéria e refuta Fischer em tudo ou quase tudo. Que importância tem o fato de as fontes originais confirmarem o consenso sobre a guerra e sobre os seus objetivos econômicos (após hesitações sobre os compromissos possíveis) do bloco Banco da França, Comitê siderúrgico e hulheiro, mentor do Estado francês. “A City […] está mais virada para defender a paz”? Não, antes de 1914 procurou estabelecer um compromisso colonial com o Reich em detrimento dos seus rivais comuns, franceses, portugueses, belgas e recomeçou antes de 1939. Em 1937, o embaixador da França em Londres, Charles Corbin, demonstrou, através dos arquivos, que o objetivo do Pacto de não agressão do tandem Chamberlain-Halifax (então centrado na expansão para a Áustria e a Checoslováquia) tinha traços do de 1912 aplicado ao terreno colonial: Londres tinha então entregado de bandeja a Berlim a possibilidade de suplantar todos os impérios coloniais europeus salvo o britânico [2]. Estas duas tentativas tão duradouras e acrisoladas, falharam finalmente porque a crise sistêmica do capitalismo condenava momentaneamente o compromisso. O que é válido para a Inglaterra também o é para as relações dos Estados Unidos com o Reich e com o Japão.

Nicolas Offenstadt não se refere à “historiografia”, mas apenas “à historiografia dominante” antimarxista, ministrada hoje em dia pela Universidade aos futuros professores e exclui toda a outra: a dos Sonâmbulos de Christopher Clark que, em qualquer coisa como 670 páginas, pretende demonstrar, suscitando a admiração geral, que os dirigentes de todos os países “caminharam para a guerra” manipulados por este ou aquele (ah, o tema de Helena e a Guerra de Tróia proclamado “novo”!), vítimas de maldições (mas Clark não se esquece de desculpar a Alemanha arrastada pela Áustria pela eclosão do conflito para oprimir os sérvios, os russos, etc.). Este ruído alimenta a propaganda sobre “a União Europeia” como penhor da paz eterna – como os cartéis dos séculos XVIII e XIX? – enterra os arquivos diplomáticos, econômicos e militares que anunciaram sem descanso a guerra geral no decurso das crises que precederam 1914 e 1939 [3].

A historiografia americana, tão rica a respeito da “partilha do mundo”, demonstra desde os trabalhos de William Applemen Williams (A Tragédia da Diplomacia Americana, 1ª edição, 1959) a pertinência do juízo de Lenin sobre as relações germano-americanas de 1916: “O capital financeiro da América e dos outros países, que partilham pacificamente o mundo com a participação da Alemanha, por exemplo no sindicato internacional das ferrovias e o truste internacional da marinha mercante, não estão a proceder a uma repartilha na base de novas relações de forças que mudam de uma maneira absolutamente não pacífica?”

O Pacto de não agressão, antes de 1914 (como antes de 1939), visava impedir a guerra? Não, apenas negociar as condições do ocorrido e depois as consequências nas melhores condições para os rivais-aliados. Existem boas amizades entre banqueiros “inimigos”, não se “faz votos” de se extirparem, ainda se visitam mutuamente em tempos de guerra. Mas, porque é necessário, mesmo pelas armas – objeto de super lucros gigantescos – desembaraçarem-se do capital “excedentário”, incluindo forças produtivas humanas, e abrir os mercados aferrolhados, manda-se para o inferno os povos que não souberam dizer não (outro objeto de “cliché” que mereceria ser posto no seu lugar). Recusar examinar, pela teoria e pelas fontes históricas, a natureza bélica do capital leva a dar crédito à mitologia “psicológica” do desencadeamento fatal mas evitável (!) dos acontecimentos. É mais sedutor, certamente, do que a lembrança de Lenine acerca das “dezenas de milhões de cadáveres e de mutilados deixados pela guerra feita para determinar qual dos dois grupos de salteadores financeiros – inglês ou alemão [americano, etc.] deve receber a maior parte do saque.”.

Na conjuntura atual, triunfam de novo confrontos inter-imperialistas sobre a ”repartilha” dos recursos mundiais tão impiedosos como os que desembocaram nas duas guerras mundiais, sobre um fundo de “união sagrada” europeia e nacional, “apequena história sentimental de Kautsky sobre o “ultra-imperialismo “pacífico”“. O que é atribuído “à historiografia” é da responsabilidade da cortina de chumbo antimarxista que cai sobre a sociedade e a Universidade. A Primeira Guerra mundial foi mesmo, tal como a segunda, uma guerra de rapina e de “repartilha do mundo” entre gigantes imperialistas. Sobre a natureza do capital, as suas crises e as suas guerras, não se cinjam ao Le Monde nem à “historiografia” antimarxista. Vão a correr ler Marx e Lenine (O imperialismo, fase suprema do capitalismo esclarece as coisas sobre o “capitalismo financeiro” pretensamente recente e permite, mais geralmente, não morrer idiota), e informem-se acerca da “historiografia” crítica.

Notas:

Entre as “dez ideias recebidas” que Nicolas Offenstadt combate aparece, em nº. 3, uma grande mentira pregada aos estudantes da França há cerca de cem anos, que “os táxis desempenharam um papel decisivo na batalha do Marne”. Mas porque é que o historiador, que argumenta normalmente contra os alegados “clichês”, renuncia aqui a estabelecer a verdade? Será porque seria necessário lembrar que, segundo a fórmula de março de 1939 do Subsecretário de Estado permanente do Foreign Office, Robert Vansittart, “a França não teria tido a mínima hipótese de sobreviver em 1914, se não tivesse havido a frente oriental? [4]

[1] Itálico da minha autoria. As citações seguintes, extraídas de O Imperialismo fase suprema do capitalismo, em itálico no texto.

[2] Despachos 918 e 924, Londres, 15 e 16 de novembro de 1937 (em duas colunas escolher comparativo de textos intitulado “as viagens a Berlim de Lord Haldane e de Lord Halifax, 1912-1937”), Grã-Bretanha 19181940, 287-287 bis, MAE, Comparação, Annie Lacroix-Riz, Le Choix de la défaite: les élites françaises dans les années 1930 [A escolha da derrota: as elites francesas nos anos 30 (NT)], Paris, Armand Colin, p. 418-419.

[3] Ver designadamente a riquíssima Nouvelle, série 1897-1918, arquivos do ministério dos Negócios estrangeiros (La Courneuve). Questões da formação de professores, Lacroix-Riz, L'histoire contemporaine toujours sous influence, Paris, Le temp des cerises, 2012, cap 1 e passim.

[4] Michael Carley, 1939, The alliance that never was and the coming of World War II, Ivan R. Dee, 1999, p.4, sublinhado no texto (tradução francesa, PU de Montreal, 2001).

[*] Professora emérita de História contemporânea, Universidade de Paris VII.

Annie Lacroix-Riz, "Clichés ou vérités sur la première guerre mondiale? Résponse à Nicalas Offenstadt", Initiative Communiste, n°. 140, janeiro, 2014, p. 14-15.

22 de janeiro de 2014

O que aconteceu com os verdes alemães?

Joachim Jachnow

New Left Review

Em 24 de março de 1999 caíram as primeiras bombas sobre as centrais elétricas e de abastecimento de água de Belgrado, deitando abaixo a eletricidade da cidade e destruindo as infra-estruturas vitais, fábricas, ferrovias, pontes. [1] A Luftwaffe alemã estava de volta aos Bálcãs, quase 58 anos depois do último bombardeamento da capital jugoslava em 1941, os seus ataques estranhamente repetindo a infame estratégia do general Lohr de destruir os centros administrativos e logísticos de uma cidade já aberta, descrita agora no jargão da NATO, como alvos de "duplo objetivo". O ressurgimento militar alemão dificilmente poderia ter sido anunciado de forma mais tonitruante. A sua força aérea fez perto de quinhentos ataques no âmbito da Operação das Forças Aliadas contra o que restava da Jugoslávia já esgotada pela decomposição da economia, pela intervenção ocidental e pelo nacionalismo étnico – muitas vezes promovido externamente com a diplomacia austro-alemã na dianteira. O bombardeamento da NATO não só deixou civis mortos, incendiou hospitais e deixou escolas em ruínas, mas também serviu para fazer escalar a tragédia que, alegadamente, era suposto prevenir, lançando achas para a fogueira, intensificando os crimes da guerra civil e provocando a fuga em massa dos civis. O dirigente do Partido Verde Joschka Fischer tinha tido razão quando em 1994 declarou que o envolvimento das forças da Alemanha em países "onde as tropas de Hitler tinham entrado durante a Segunda Guerra" só iria atiçar as chamas do conflito. [2]

Os compromissos deste Manifesto foram abandonados poucos meses depois, quando os Verdes com uns meros 6.7 de votação nas eleições de setembro de 1998 assinaram um acordo de coligação com o SPD de Schröder que dava lugar de destaque à NATO. O próprio Fischer tinha sido referenciado nos planos da administração Clinton para a Jugoslávia mesmo antes de ser indicado para o ministério, durante uma viagem a Washington com Schröder e Lafontaine. [3] Como em cada passo da carreira de Fischer, a auto-promoção foi vendida como uma dolorosa realização de verdades mais elevadas cuja aceitação não significava trair, antes cumprir mais perfeitamente os ideais para uma melhor sociedade. Os órgãos de comunicação social alemães quase unanimemente promoveram a linha de Schröder-Fischer de intervenção militar, apoiada por intelectuais como Gunter Grass e Jurgen Habermas; críticos como Peter Handke foram anatemizados como amigos dos criminosos de guerra sérvios. Contudo, uma grande parte da população alemã estava relutante em desculpar o uso de armas em nome dos "direitos humanos" que incluía largamente a base eleitoral do Verdes; a resistência cresceu rapidamente. Os Verdes antiguerra exigiam que o partido convocasse um congresso extraordinário por altura dos bombardeamentos da NATO com uma presença massiva de polícias para "proteger" a reunião dos membros de base. Por um breve momento parecia que os Verdes se podiam partir e o governo cair. Superando mesmo a retórica de Blair, Fischer disse ao Congresso que a repressão sérvia dos Kosovares seria "outra Auschwitz"; quem se opusesse à intervenção da NATO seria pois responsável por um segundo holocausto. No fim do dramático, por vezes violento encontro, a resolução de compromisso do comité federal, efetivamente um arranjo que deu carta branca aos ministros Verdes, ganhou com 444 votos contra 318. Assim, o regresso dos militares alemães à guerra ofensiva, explicitamente proibido pela Constituição devido aos crimes de guerra nazi, foi legitimado através da exploração moral dos mesmos. Depois de o partido ter renunciado a esta pedra fundacional da política dos Verdes, tudo o resto estava à venda. No período imediatamente a seguir à guerra da Jugoslávia, cerca de um terço dos membros saíram e foram substituídos por novas admissões mais aptas a serem influenciadas pelas orientações da liderança. Antes defensores do Estado de bem-estar e proponentes da redistribuição econômica, os Verdes tornaram-se entusiásticos apoiantes da Agenda 2010 neoliberal de Schroder, que levou a um tremendo saque dos ativos públicos, da segurança social e dos fundos de pensões, ao mesmo tempo que continha salários e concedia cortes nos impostos às empresas em biliões de euros, ou seja, uma redistribuição da riqueza dos pobres para os ricos. Ainda mais surpreendente foi a total rendição dos Verdes à indústria nuclear alemã; a luta pela retirada faseada das fábricas nucleares tinha sido a questão central do partido, sobrevivendo como as promessas eleitorais sine qua non dos Verdes ao longo de muitos anos de compromissos parlamentares. Agora que os Verdes estavam no governo, reatores em fim de vida recebiam um aumento de vida de pelo menos mais dez anos, enquanto perigosos depósitos de lixo nuclear e uma garantia de dívida para toda a indústria eram empurrados pelo Ministro do Ambiente Jürgen Trittin que ficava indiferente à criminalização das manifestações contra o nuclear no governo de Schröder-Fischer. Num registo semelhante, os Verdes aprovavam novas leis de segurança, restrições aos direitos civis, discriminação contra os estrangeiros e militarização da polícia, fazendo com que a legislação de emergência de 1968 que tinha então provocado tanta controvérsia, parecesse quase trivial a posteriori. Foi a consubstanciação por parte do SPD e do seu parceiro Verde de forçar através de projetos legislativos, que eles próprios tinham obstaculizado com sucesso durante os longos anos de oposição na era Kohl. [4]

Fatos cinzentos

Mas será que esta conversão política de um partido antes dissidente é assim tão inesperada? O fenômeno do volte face dos Verdes é geralmente apresentado na mídia alemã como os últimos passos num lento movimento em dircção à maturidade e não uma perversão: os hippies de cabelos compridos de Birkenstock finalmente se desfaziam das suas fantasias utópicas de modo a tornarem-se maduros homens de estado nos seus ternos cinzentos, ombreando de boa vontade o peso da responsabilidade. Muito do coro dos representantes da mídia celebrava de forma narcísica a sua própria "maturidade" na medida em que eles próprios tinham feito parte dos mesmos movimentos. Os elogios ao novo modelo dos Verdes refletiam o grau de reconciliação das camadas dissidentes da sociedade alemã pós 68 com as condições dominantes; os adeptos dos órgãos de comunicação social eram muitas vezes antigos camaradas que tinham eles próprios passado por transformações impressionantes. Thomas Schmid é um caso paradigmático, um grande amigo de Fischer e de Cohn-Bendit no estreito meio da Frankfurt dos anos 70, compartilhando uma atitude compreensiva em relação à Fracção do Exército Vermelho, convertido num proponente da "política pragmática" em 1983 e agora editor-chefe do Die Welt, a publicação que, juntamente com o Bildzeitung, personificava o espírito de Adenauer por excelência, com a sua direção editorial enfeitada com antigos nazistas. Mais significativamente, órgãos da imprensa alternativa tais como jornais diários de Berlin há já muito haviam assumido um papel de "estadistas" permitindo o mínimo necessário de pensamento não conformista, de modo a tornar o pensamento único mais fácil de engolir.

He who pays/ plays the piper...? É uma expressão que reflete uma crítica corrente da esquerda e alguns Verdes que recentemente se retiraram e que se prostituíram desavergonhadamente aos seus antigos inimigos nas indústrias nuclear e farmacêutica a preços que, anteriores políticos recebendo subornos comparativamente modestos dos barões da indústria como Flick, nem sequer sonharam. [5] Pode-se certamente argumentar que alguns dos que se agruparam em torno de Fischer e de Cohn-Bendit, que tinham exigido políticas reformistas e participação no governo desde o princípio dos anos 80, ambicionavam agarrar o partido como um veículo das suas ambições pessoais com vista às manjedouras douradas do parlamentarismo, agora que entravam na meia-idade e estavam ultrapassados os seus sonhos de mudança revolucionária. Christian Schmidt, um jornalista freelancer na esquerda não-alinhada, activo no exíguo movimento dos anos 80, fornece um detalhado para não dizer repugnante relato dos Spontis de Frankfurt e do seu papel no Partido Verdes durante os anos 80 e 90 em "Wir sind die Wahnsinnigen" (Nós somos os Loucos) de 1998. Mais recentemente, Jutta Ditfurth, uma figura central no partido nos anos 80 que foi expulsa do comité federal pelos roaders parlamentares em 1989, publicou um ataque violento ad hominem. (6)

Contudo seria demasiado fácil atribuir exclusivamente a culpa a uma clique chauvinista entre os minoritários de Frankfurt cujos membros provaram ser eminentemente corruptíveis, ou sugerir que os dirigentes Realos tinham tido sempre a intenção de levar o partido para a direita. Isso seria confundir um sintoma com uma causa. O surgimento de um certo tipo de personalidade dentro do aparelho do partido é um fenómeno generalizado com o qual a esquerda se tem confrontado durante muito tempo. Significaria também ignorar a cooptação mais vasta dos movimentos sociais, da segunda vaga do feminismo até ao ambientalismo, dentro dos quais ocorreu a deformação dos Verdes; a capacidade do capitalismo contemporâneo de absorver os aspectos vitais das análises críticas dos novos movimentos sociais de modo a rejuvenescer os seus próprios processos de reprodução foi explorada por Luc Boltanski, Eve Chiapello e Nancy Fraser, entre outros. (7)

No extremo oposto a Schmidt e Ditfurth, "Die Grünen: Verstaatlichung einer Partei" ('Os Verdes: Estatização de um Partido') 1998 de Paul Tiefenbach, oferece um relato sociológico mais complexo inspirado na "Lei de Ferro da Oligarquia", que sugere que os partidos inevitavelmente se adaptarão e serão absorvidos pelo sistema político estatal existente. (8) Mas este funcionalismo fatalista serve para desvalorizar não só as verdadeiras lutas e escolhas que determinaram a trajectória do partido, mas também as especificidades dos desenvolvimentos políticos e económicos alemães e internacionais que ajudaram a dar forma ao seu curso ao longo das últimas três décadas. Um relato mais satisfatório precisaria de examinar a interacção dos factores subjectivo e objectivo. A experiência dos Verdes alemães é particularmente instrutiva como exemplo raro de projecto de construção de um partido que tentou destilar muito do pensamento associado aos movimentos anti-nuclear, ecológico e feminista e cujos protagonistas anteciparam o perigo da incorporação e procuraram muito conscienciosamente implementar contra medidas; o seu falhanço levanta a questão de que estratégias devem ser adoptadas para políticas emancipatórias no futuro. (9) Mas, tal como Gramsci uma vez disse, a história de um partido é a história de uma nação em forma de monografia. As últimas décadas trouxeram não só a reunificação da Alemanha mas o seu ressurgimento como a potência dominante na Europa. No que se tornou o Partido Verdes e que funções desempenha na nova Alemanha?

Movimento e partido

Os canteiros de onde brotou o Partido Verdes, nos negros anos de finais de 70 e princípios de 80 sob a chancelaria de chumbo de Helmut Schmidt, foram os grupos de acção de cidadãos –Bürgerinitiativen – mobilizados contra o programa intensificado de energia nuclear do SPD e contra a poluição industrial e as chuvas ácidas que estavam a matar rios e florestas. Ecologistas, feministas, estudantes e redes contra cultura juntaram-se a agricultores e donas de casa em protestos de massas que pararam locais onde iam ser construídas fábricas nucleares em Wyhl (Baden-Württemberg), Grohnde (Baixa Saxónia) e Brokdorf (Schleswig-Holstein).A crítica à política industrial apoiada por todos os três partidos do sistema foi o ponto de partida decisivo para este movimento heterogéneo que recebia o seu ímpeto não só do desassossego civil de 68 e dos anos seguintes, mas também de camadas mais conservadoras igualmente alienadas com a moderna sociedade capitalista e com o seu Estado que supostamente defendiam formas tradicionais de vida contra a "grande máquina". Foi um passo natural para estes grupos construírem listas alternativas "verdes" contra os partidos que governavam nas eleições locais, mas a maioria opunha-se, por uma questão cultural e não por razões teóricas profundas, a qualquer forma de centralização política. Uma primeira tentativa de ecologistas conservadores em torno do primeiro deputado Herbert Gruhl da CDU de unir as várias listas regionais verdes e grupos ambientalistas num único partido foi condenada ao fracasso porque era incompatível com a natureza anti autoritária e descentralizada dos grupos de acção local.

Concordaram, no entanto, em construir uma lista SPV – Die Grünen nas primeiras eleições para o Parlamento Europeu em Outubro de 1979, encabeçada por Petra Kelly, uma ambientalista de 32 anos a trabalhar na Comissão Europeia em Bruxelas. A lista teve 3.2 por cento de votos e uma boa subvenção para os custos da campanha dos Verdes. Foi um ponto de viragem. Rudolf Bahro, o eco-marxista dissidente da Alemanha Oriental recentemente chegado à Alemanha Ocidental depois de ter sido acusado na RDA, fez um apelo para uma nova política que fosse ao encontro do desafio existencial de uma catástrofe ambiental em que as necessidades das espécies se sobreporiam às de classe; apelou a uma aliança que se estendia de Herbert Gruhl a Rudi Dutschke. Em duas conferências tempestuosas em 1980, mil delegados das campanhas locais assim como mais várias centenas de grupos de esquerda, feministas e contra cultura, concordaram em constituir aquilo que Petra Kelly descreveria como um "partido contra-partido". Os conservadores de Gruhl e o agrupamento racista völkisch "sangue e terra" dirigido por Baldur Springmann lutaram ferozmente para barrar as organizações de extrema esquerda e maoistas mas foram derrotados pela maioria, que rejeitou por princípio qualquer forma de censura ou exclusão política. Muito conscientes do perigo da cooptação parlamentar, os Verdes montaram salvaguardas radicais contra ela: os membros eleitos para as assembleias estaduais ou federais deveriam demitir-se a meio do seu mandato para serem substituídos pelo seguinte membro Verde na lista, contra as normas da Constituição alemã da "liberdade" dos representantes eleitos de responderem pela sua consciência e não pelo programa do partido. Os deputados verdes deveriam ser mandatados pelas conferências do partido. Uma forte presença feminista assegurava rigorosa igualdade de género: 50 por cento dos lugaress partidários seriam ocupados por mulheres; os nomes de homens e de mulheres alternariam nas listas eleitorais (o princípio do "fecho de correr"). Um comité federal com uma liderança de três pessoas era eleito directamente pela conferência anual. Ser membro formal não era condição de participação: todas as reuniões e votações do partido eram abertas ao público.

O aumento de membros do partido foi enorme, passando de 16 mil na Primavera de 1980 para mais de 30 mil quatro anos mais tarde. Enquanto os Verdes mais conservadores se conservavam fortes nas terras do sul, sobretudo em Baden-Württemberg, nas cidades do Norte – Hamburg, Bremen, Frankfurt, Berlim Ocidental – a esquerda radical em breve se tornou hegemónica. Aqui, numerosos agrupamentos heterodoxos de esquerda, juntamente com os maoistas doutrinários do KBW (Kommunistischsr Bund Westdeutschland) e os Spontis de Frankfurt associados a Fischer e a Cohn-Bendit agruparam-se para se juntar ao projecto de construção do partido. De facto, para grande parte da esquerda alemã, os Verdes tornaram-se uma espécie de último refúgio. Desde que os comunistas tinham perdido o seu poiso no Bundestag em 1953 e desde então proibidos pelo Tribunal Constitucional, todas as tentativas para lançar um partido à esquerda do SPD tinham falhado. A repressão do Estado contra os dissidentes esquerdistas, claramente renovada no início dos anos 70 pelo Radikalenerlaß (promulgação do extremismo) e o Berufsverbot (interdição de trabalho) de Willy Brandt tornou ainda mais difícil construir uma nova formação. No outro lado da fronteira da Guerra Fria, um socialismo real burocrático e ditatorial provocava mais divisões dentro da esquerda alemã ocidental, indo da aprovação doutrinária à virulenta reprovação. Contudo, a extrema-esquerda enquanto tal, nunca predominou no partido, especialmente porque importantes partes dos membros e do núcleo duro do eleitorado dos Verdes apoiava essencialmente posições liberais em questões sociopolíticas ou tinha uma compreensão mais conservadora do ambientalismo. Nem os novos aderentes de esquerda foram capazes de desenhar uma moldura teórica comum para os Verdes.

No fim, o seu triunfo pode ter sido uma vitória de Pirro. Enquanto a junção de tantas correntes debaixo do chapéu Verde parecia a princípio ter unificado a esquerda estilhaçada da Alemanha Ocidental, contribuiu depois para a divisão e cooptação desses elementos. Muitos dos primeiros sectários, especialmente do KBW, passaram por rápidas conversões políticas, surgindo em meados dos anos 80 como eco libertários do mercado livre. (10) Há aqui óbvios paralelos com os nouveaux philosophes franceses de finais dos anos 70 ou com os ex esquerdistas neo conservadores nos EUA em muito menor número. Mas embora dificilmente se trate de um fenómeno novo na história, a forma como estas renegações colectivas acontecem tem algo a ver com os resultados. A literatura sobre ciência política geralmente falha em discutir esta conversão, preferindo repetir o mito que representa os Verdes como um surgimento de sucesso dos novos movimentos sociais que ajudaram a modernizar a sociedade alemã quebrando as suas "estruturas incrustadas". Contudo, o Partido Verdes foi, em boa medida, uma resposta ao declínio dos movimentos sociais: trouxe o legado da derrota e dos desvios frustrados – o sectarismo, o imediatismo, a "luta armada" que culminou no Outono Alemão de 1977, ou simplesmente a apatia – que esse fracasso tinha precipitado. Não representou o triunfo de uma geração sobre a ordem estabelecida, mas sim a obstrução das primeiras lutas emancipatórias.

As contradições inerentes dos Verdes também podiam ser vistas como sintomáticas da cultura política e intelectual pós moderna em que o partido se desenvolveu. Este eclectismo não reflectia apenas as origens dos Verdes como um "lugar de encontro" – Sammelbecken para citar os seus dirigentes – de diversas tendências políticas que queriam assegurar a entrada no parlamento. Todas as tentativas para forjar uma perspectiva teórica coerente destas correntes mostraram ser impossíveis devido às suas antinomias ideológicas; eco-libertários abraçando um individualismo hedonista ou as formas instintivas de imitação do socialismo dos ecologistas radicais eram, no fim de contas, expressões da falta de uma maior narrativa. O seu lugar estava cheio da ameaça percepcionada de uma natureza e humanidade em perigo, suficientemente abstracta para ser inclusiva; a prioridade era limpar a confusão que a modernidade tinha criado sem desenvolver um novo horizonte emancipatório. Esse minimalismo combinado com a máxima abertura aos diferentes olhares sobre o mundo era a condição da própria existência do partido já que era a única maneira de integrar os restos heterogéneos dos ecologistas, esquerdistas, pacifistas, conservantistas, antroposofistas, agricultores orgânicos ou cristãos. Tal como Bahro, Petra Kelly encontraria virtualidades nesta incoerência:

A variedade de correntes enriquece o nosso partido, mesmo na falta de um consenso comum na análise da sociedade. Não quero excluir comunistas ou conservadores e não tenho de o fazer. As correntes aprendem umas com as outras, Não há destruição mútua mas sim uma convergência de pontos de vista. É nisto que o nosso movimento é novo. (11)

Uma maioria partilhava a fervorosa crença de que "algo tem de ser feito" quanto à crise ambiental, mas as soluções propostas eram incompatíveis. (12) De igual modo, o compromisso do governo do SPD no início dos anos 80 para instalar mísseis nucleares Pershing II em território alemão, sob comando da NATO, i.e. dos Estados Unidos, mobilizou mais de um milhão de pessoas contra a intensificação da Guerra Fria. No entanto, embora os Verdes estivessem de acordo na sua oposição às armas nucleares e à energia nuclear "civil", nunca houve um consenso mais vasto sobre as causas mais profundas subjacentes a estes sintomas. O resultado final foi uma "estratégia adicional", um processo de acomodação que numa etapa resultou num programa de 500 páginas para os Verdes do Reno Norte – Vestefália.

A dialética do sucesso parcial

Nas eleições federais de 1983 no começo do reinado de 16 anos de Helmut Kohl como Chanceler alemão, os Verdes derrubaram a barreira dos 5% com dois milhões de votos, ganhando 27 lugares no Bundestag então dominado pela CDU; já tinham entrado nas assembleias rurais e das cidades-estado. (13) Os sucessos eleitorais trouxeram novas tensões: a necessidade de preencher postos e lugares com pessoal ameaçava dominar o grupo de membros que, segundo os padrões alemães era diminuto em comparação com o eleitorado dos Verdes. (14) Apesar dos princípios da rotatividade a meio do mandato, respeitados por quase todos os Verdes com excepção de Kelly, e dos mandatos do partido, uma fracção parlamentar do Bundestag, com pessoal a tempo inteiro dez vezes o tamanho da sede do partido, começava agora a cristalizar-se contra o comité federal mais radical, enquanto também se abriam diferenças sobre táctica de "coligação" ou de "tolerância" em relação ao SPD nas assembleias rurais e citadinas. Estas divisões coincidiram com a formação de quatro agrupamentos dentro do partido, frequentemente separados uns dos outros apenas por nuances tácticas, sobretudo relacionadas com o SPD.

A maior, embora mais mal definida destas tendências, era a dos ecologistas radicais, apelidados "fundamentalistas" ou Fundis pelos seus adversários do partido e também pelos aliados destes últimos na imprensa. Os ecologistas radicais dominaram grandemente o comité federal até 1988, com Jutta Ditfurth como sua dirigente mais conhecida. Agarravam-se à ideia de uma nova política ambiental como meio de uma mudança sistémica total, levando ao fim da sociedade militar-industrial e do seu Estado. Nesta perspectiva, o Bundestag era apenas uma arena que permitiria aos activistas dos movimentos sociais atingir um público muito mais vasto, com uma vaga ideia de criar uma crise geral no sistema político; por isso, opunham-se, por princípio, em entrar em governos de coligação com o SPD. Sob a sua direcção, os primeiros congressos Verdes estabeleceram condições impossíveis de alcançar para negociações de coligação: o encerramento imediato de todas as fábricas nucleares, fim dos mísseis nucleares da NATO em território alemão, etc.

Os eco socialistas concentrados sobretudo nas cidades do norte eram uma força menor mas a sua contribuição intelectual era mais substancial. Os debates teóricos no jornal eco-socialista Moderne Zeiten (Tempos Modernos) edição em Hanover, analisavam o desastre ecológico como resultado das forças destrutivas, quer "civis" quer militares, do modo de produção capitalista. (15) No seu O Futuro dos Verdes de 1984, Thomas Ebermann e Rainer Trampert previam uma aliança da classe trabalhadora e dos movimentos sociais, argumentando que os processos de produção não podiam ser transformados sem a agência dos trabalhadores. Embora hostis ao aparelho de Estado e a qualquer projecto reformista, estavam preparados para ver a política parlamentar como forma de se alcançar certos projectos de lei e obstruir outros; assim, a ideia de "tolerar" um governo SPD minoritário, apoiando-o ou opondo-se-lhe, caso a caso, era largamente discutido nestes círculos.

Em contraste, os reformistas como Fischer, Cohn-Bendit e Hubert Kleinert chamados de "realistas" ou "Realos" por uma imprensa favorável, viam os Verdes como um parceiro minoritário de coligação com o SPD e estavam preparados para fazer compromissos drásticos de modo a entrarem no governo e implementarem "pequenas mudanças para melhor". Não em vão foram apelidados de "Koalos" pelos seus opositores ecologistas radicais que os viam como tentando social democratizar os Verdes. A sua base situava-se em Hesse e no "Realo Sul" Baviera e Baden-Württemberg. Nos seus contributos para o debate interno, os Realos argumentavam que a mudança do governo federal ocorrida em 1982, com a troca dos decisores do FDP do SPD para a CDU, abria a possibilidade de uma coligação Vermelha-Verde como uma "nova esperança"; criticando a posição da maioria ecologista radical de "oposição fundamental ao sistema", exigiam "uma política de reforma ecológica". (16) Como Kleinert explicava à revista Stern em 1988, isto obrigava a "uma mistura de políticas reguladoras mediadas pelo Estado e também uma economia ecológica com elementos de mercado". Fischer era ainda mais claro no seu livro Der Umbau der Industriegesellschaft (A Reconstrução da Sociedade Industrial) de 1989: "a reforma ecológica do sistema industrial será determinada pelo modo económico existente do capitalismo ocidental"; as forças do mercado eram um meio melhor de reconfigurar a economia e o ambiente do que a intervenção política. (17) Nisto, as ideias de Fischer vinham alinhar-se com as da quarta tendência, os eco libertários. Inicialmente, uma pequena minoria de indivíduos bem relacionados, estes Verdes do mercado livre viriam exercer uma influência crescente no partido através da sua aliança com os Realos.

Momento decisivo

As diferenças relativamente à política de coligação foram temporariamente remendadas por um acordo da conferência de 1984 que dizia que estas deviam ser decididas a nível local. Mas elas irromperam de novo em 1985 quando os Verdes de Hesse entraram num governo rural (Land) com o SPD, apesar das claramente boas relações deste com as "sujas" companhias farmacêuticas e nucleares. Com Fischer a presidir como o primeiro ministro de estado verde para o ambiente, o partido começou a quebrar virtualmente todas as promessas que alguma vez tinha feito, inclusive permitir que as fábricas nucleares continuassem a toda a força depois da explosão de Chernobyl, literalmente contra a posição oficial dos Verdes, até que Fischer foi finalmente despedido por Holger Börner do SPD. Este rotundo falhanço levou a furiosas denúncias na conferência dos Verdes e Jutta Ditfurth , a principal crítica de Fischer foi reeleita para o comité federal com uma maioria de dois terços. Nas eleições federais de 1987, os Verdes tiveram 8,3% , com três milhões de votos. Formavam agora um bloco de 42 parlamentares no Bundestag com direitos alargados a pessoal a tempo inteiro e fundos para investigação.

Mas o peso conjunto dos parlamentares estava agora a virar-se contra os radicais, ajudados pelas maiorias estruturais a favor do reformismo e da construção de coligações entre as Bürgerinitiativen de base comunitária e a base eleitoral dos Verdes. Recebiam apoio externo da instituição política e dos seus aliados nos media, apreensivos com a perspectiva de "instabilidade" e de políticas anti-NATO no Bundestag, num momento em que Gorbachev apostava num novo acordo para a Europa. Internamente, discussões ferozes por causa de um Manifesto das Mães que atacava as feministas Verdes por inadvertidamente privilegiarem mulheres sem filhos, serviam para confundir e desmoralizar os ecologistas radicais e a esquerda. Uma nova facção Grüner Aufbruch (Levantamento Verde), dirigida pelo membro do Bundestag Antje Vollmer e pelo ex parlamentar de Bremen do KBW Ralf Fücks, que declarava querer pôr um fim às infinitas querelas internas entre Realos e Fundis, reuniu em 1988 a conferência de Karlsruhe para purgar Ditfurth e os ecologistas radicais do comité federal e instalar os Realos e eles próprios no poder. A conferência também viu a emergência do Forum da Esquerda (Linkes Forum) formado por Ludger Volmer e outros: outra facção "realista" que se via como "não dogmática" e apostava na participação no governo. Ocorreu um azedo contra-ataque mas os radicais e os eco socialistas tinham sido definitivamente postos de lado.

Os Verdes ainda andavam às voltas por causa da sangria interna que se seguiu a estes conflitos quando o Muro de Berlim foi derrubado no Outono de 1989. Tornou-se evidente a extensão do partido e do seu eleitorado na cultura política da Alemanha Ocidental com a implosão do socialismo real no Leste. Os Verdes reagiram com perplexidade à perspectiva de unificação andando atrás dos desenvolvimentos moldados por outros. O partido estava dividido entre a indiferença e a paralisia. A esquerda enfraquecida expressou as suas profundas preocupações acerca das prováveis consequências da anexação económica para o povo da RDA e o empurrão expansionista de uma nova Grande Alemanha e assim opôs-se ao movimento pela unificação. Embora os Verdes Ocidentais fossem praticamente a única formação política da RFA a ter tido algum contacto directo com um segmento da oposição da Alemanha de leste, o domínio dos Realos da fracção do Bundestag tornou impossível usar isso para articular alternativas de ambos os lados do muro caído. O Partido Verde Oriental tinha saído do movimento ambientalista dissidente na RDA; tinha-se posicionado como uma oposição interna à emulação do regime do crescimento industrial do ocidente e tinha sempre lutado pela ideia de direitos civis colectivos e não apenas individuais. Diferia assim de forma bastante profunda dos três grupos liberais de direitos civis que chegaram em 1990 com apoio do Ocidente, para formar a aliança eleitoral de Bündnis 90. (18) A liderança Realo exercia agora o seu poder para dar apoio unilateral, dinheiro e equipamento a Bündnis 90 nas eleições para a Câmara Popular (Volkskammer) em Março de 1990, enquanto abandonava os Verdes Orientais. Foi neste contexto de retrocesso social e político, com a colonização da economia e da vida do Leste pelo Ocidente no meio da crescente violência racista e ainda com a marginalização de quaisquer políticas alternativas quer no Oriente quer no Ocidente, que muitos dos ecosocialistas, Ebermann, Trampert e outros, finalmente deixaram o partido na primavera de 1990, denunciando a sua conversão num pilar do regime.

Contra fatos

As coisas podiam ter sido de outra maneira? As crises ambientais dos anos 70 e 80 provavelmente ofereceram uma oportunidade maior para uma crítica renovada do capitalismo industrial que colocaria em primeiro plano o desastre ecológico como uma consequência necessária das forças destrutivas, " civis" e militares, desse modo de produção. As tentativas corajosas dos eco-socialistas de chegarem a uma compreensão mais profunda da ameaça letal que se coloca aos recursos limitados do mundo natural, permaneceram embrionárias. Contudo, um ambientalismo nascente dava a oportunidade de reconstituir a classe trabalhadora como um sujeito político, uma genuína colectividade do trabalho, quer na prática quer na teoria. Longe de serem preocupações "pós-materiais", o medo da poluição, da radio actividade e outros perigos da sociedade industrial juntavam trabalhadores da indústria química com assalariados da classe média. Uma coisa é certa, a maior parte da classe trabalhadora continuava a ser a favor da expansão industrial, como condição da sua própria prosperidade. Mas a crise do fordismo tornava um número crescente de trabalhadores, geralmente aqueles que eram mais especializados, mais propensos às exigências ambientais. No entanto, as correntes de esquerda dentro dos Verdes eram incapazes de desenvolver uma estratégia consistente a longo prazo, destinada a integrar a classe assalariada numa concepção renovada de eco-socialismo.

Os ecologistas radicais, mesmo fazendo uso de uma fraseologia socialista, mostravam pouco interesse numa teorização mais profunda; com efeito, mostravam frequentemente até uma profunda aversão a tal. A sua prioridade era o activismo instintivo dos movimentos sociais, por cujo sustento lutavam, mesmo quando começavam a cair em declínio. Os seus esforços não eram sem sucesso; usavam o Bundestag para elevar a consciência do público para as piores formas de poluição industrial, reforçavam a aliança contra a construção de novas fábricas nucleares e desmascaravam o sujo rosto do lóbi industrial do regime político. Mas sem alianças mais profundas que fossem para além dos meios políticos dos Verdes, no futuro a sua estratégia estava destinada ao fracasso. As parcerias exitosas com o trabalho organizado eram por vezes formadas a nível local, mas nunca eram desenvolvidas pela direcção federal como parte de um plano coerente.

Nem os mecanismos com intenção de parar o surgimento de uma oligarquia partidária provaram afinal ser eficazes. Apesar da sua profunda consciência dos perigos da hierarquização e da ênfase na democracia participativa, desde o princípio que os Verdes dependiam das celebridades mediáticas. Os Realos sabiam bem como jogar essa carta, pois não só tinham redes de jornalistas simpatizantes, como eles próprios se podiam oferecer à comunicação social como figuras dinâmicas, bem colocadas para domesticar o conjunto do partido. Os princípios iniciais de rotatividade dos mandatos, emprestados da Comuna de Paris e do anarco sindicalismo espanhol mostraram ser ineficazes contra esta camada de personalidades sequiosas de poder. Desde uma fase inicial que o partido mostrou sintomas de uma vida dupla: enquanto as maiorias continuavam a votar uma agenda radical nas assembleias Verdes, a fracção parlamentar dominada por reformistas, ignorava-os tacitamente, até que finalmente o partido substituiu. Por detrás desta mudança estavam as tendências regressivas dos anos 80; as forças que se juntavam da reacção neoliberal no ocidente, a estagnação do capitalismo do bem-estar, a renovada Guerra Fria, a lenta implosão do bloco do Comecon. Uma grande parte do eleitorado Verde não só chegara à maioridade durante este período, como procurava encostar-se a um lugar para si próprio nas esferas superiores do emprego do estado, dos media, das indústrias dos serviços ou no sector de negócios "alternativo" ou "bio" em expansão. E assim ajudava a configurar o partido como um lóbi para esta camada da classe média bastante satisfeita consigo mesma.

O partido da guerra

Contudo, nas primeiras eleições federais da Alemanha reunificada em Dezembro de 1990, os Realos triunfantes viram a taça da vitória ser-lhes retirada dos lábios. Nas terras do ocidente (Western Länder) o Partido Verde teve apenas 4,8%, ficando abaixo do limiar mínimo; os seus 44 lugares e recursos federais foram apagados e os seus dirigentes máximos excluídos do Bundestag. Só os Verdes da Alemanha Oriental, agora num casamento forçado com os Bündnis 90 passaram a fasquia dos cinco por cento, com 6,1%. A resposta de Fischer foi culpar os elementos radicais residuais pela humilhação eleitoral. Na conferência dos Verdes de 1991 em Neumünster, os Realos começaram por limpar o partido: os princípios da democracia participativa foram abolidos, os papéis de liderança individual e a "profissionalização" abraçados. Ludger Volmer do Linkes Forum (Fórum da Esquerda) foi eleito porta-voz do partido e uma série de reformas extremamente modestas foi redigida como base para futuras coligações Vermelhas-Verdes. Esta conferência viu a partida dos ecologistas radicais em torno de Ditfurth do que viam como um partido "autoritário, dogmático e hierárquico". Em 1993, Fischer distribuiu um anteprojecto ideológico para a "esquerda depois do socialismo" que era tão ecléctico como intelectualmente árido. (19) A questão do liberal reformismo Verde, o "cidadão consumidor liberal urbano" definido pelo "estilo de vida individual" enquanto "protesta contra a energia nuclear" e tem empatia pelos" pobres e marginalizados", era agora muito útil. (20)

Com o entusiástico apoio aos novos Verdes "reformados" por parte da comunicação social, o partido recuperou a sua posição no Bundestag em 1994, com 7,3% dos votos e 49 lugares. A restante ala esquerda do partido, agora representada pelo Linkes Forum e seus co-pensadores no círculo Babelsberg, tinha ficado presa na dinâmica da Realpolitik, com propostas de reforma cada vez mais fracas como base para participação no governo, apesar de experiências menores nas Länder — Baixa Saxónia, Hesse, Norte do Reno – Vestefália, Berlim. Se o agrupamento do Linkes Forum–Babelsberg secou a neoliberalização do partido durante algum tempo, foi pelo preço do compromisso eterno com os Realos, cuja vitória final foi só adiada até ao momento da coligação federal Vermelha-Verde de 1998. No fim, a política externa foi o teste crucial, com o desmembramento da Jugoslávia a oferecer terreno fértil para o intervencionismo militar unilateral da Nova Ordem Mundial. Como acima foi dito, Cohn-Bendit e Fischer tinham estado a preparar o terreno para a remilitarização da Alemanha, embora mesmo eles considerassem essencial um mandato da ONU para qualquer operação da Luftwaffe. A grande mudança para o SPD em 1998 levou os Verdes ao poder como parceiros de coligação, embora a sua própria parte da votação tivesse caído para 6,7%. Poucos esperavam, contudo, que o novo governo acasalasse para a guerra de expansão da NATO na Jugoslávia, ou que dirigentes Verdes em breve andassemà volta do Pentágono nos seus apelos para uma invasão terrestre.

O Fórum da Esquerda (Linkes Forum) organizava agora a sua própria capitulação. Ludger Volmer, nesta altura secretário de Estado de Fischer, foi o mais proeminente desertor, rompendo as anteriores promessas, para se juntar pela "necessidade" da guerra. Ele e outros tornar-se-iam as cabeças da nova perspectiva. Privados de aliados poderosos no comité federal que desafiassem directamente os Realos, e com a comunicação social quase unanimemente a promover a linha Schröder–Fischer, os dissidentes que restavam foram facilmente derrotados. Alguns idealistas aguentaram-se até aos dias de hoje dentro do partido, sobretudo agrupados em torno da rede Grüne Emanzipatorische Linke (Esquerda Verde Emancipatória), mas a sua continuada presença fez mais para dar uma certa capa de "esquerda" à direcção do que para apresentar os seus próprios projectos. Outros voltaram aos movimentos sociais, envolveram-se em novas redes políticas tais como a ATTAC, ou juntaram-se ao PDS e, ao Die Linke, depois de 2007. (21)

Não deve ser subestimada a importância do papel de Fischer em trazer não apenas os Verdes mas uma muito maior camada dissidente da sociedade alemã pós-68, alinhada com os requisitos dos Aliados. O antes auto intitulado anti-imperialista estava bem posicionado para assegurar a um público incerto que a Luftwaffe não tinha outro propósito nos Balcãs do que impedir um alegado genocídio, ajudando assim uma Alemanha reunificada a preparar-se para as guerras do novo século. Mesmo o geralmente antiquado Frankfurter Allgemeine afirmaria que "sem Fischer e a sua biografia, esta guerra podia ter levado a uma emergência doméstica, uma emergência estilo guerra civil". "Se tivéssemos perdido apoio público na Alemanha, tê-lo-íamos perdido em toda a aliança", referia o porta-voz da NATO Jamie Shea, descrevendo Fischer como um exemplo de um líder político que não "corria atrás da opinião pública, antes sabia como moldá-la". (22) Os veteranos de 1968 e a invocação retórica do nazismo foram necessários para santificar o bombardeamento alemão de Belgrado.

Uma vez lançados, os Verdes provaram ser dos mais entusiastas adeptos da guerra no Bundestag. Enquanto o Partido Verde dos EUA se opunha resolutamente à decisão da administração Bush de avançar com a guerra no Afeganistão em 2001, Fischer fazia das tripas coração para assegurar que Schröder tivesse o apoio dos Verdes para enviar tropas alemãs. Tal como os Verdes americanos escreviam numa carta aberta:

A maior parte dos Verdes em todo o mundo reconhecem que esta é uma guerra pelo domínio do petróleo e político e não fará nada para proteger os cidadãos americanos ou outros povos do terrorismo. Joschka Fischer e os Verdes que estão a apoiar o governo alemão puseram o poder à frente dos princípios. A sua afirmação de que têm de participar no esforço de guerra de modo a torná-la mais humana, é obscena. Parecem estar a dizer que ao manterem-se no governo podem tornar "humanitárias" as bombas de fragmentação ou os revestimentos de urânio empobrecido "livres de produtos cancerígenos". É um disparate. (23)

A resposta de Fischer e Schröder foi uma tentativa grotesca de representar a oposição à guerra, análoga ao "unilateralismo alemão" da era nazi, isto é, à agressão militar. Numa carta conjunta aos deputados do Bundestag, eles afirmavam:

A alternativa à participação seria um unilateralismo alemão que vai contra a lição decisiva do nosso passado: ligações multilaterais sim, renacionalização não. Um "novo unilateralismo alemão", qualquer que fosse a sua justificação, causaria incompreensão e desconfiança entre os nossos parceiros e vizinhos. (24)

Em 2002, o expediente eleitoral provou ser mais significativo do que tais lições da história e Schröder optou por se opor ao apoio à invasão do Iraque. Mas esta postura, que foi boa para manter no poder a coligação SPD-Verdes, não deveu nada à influência de Fischer. Tal como ele próprio explicou, Schröder foi inteiramente responsável pela linha do governo. Os Verdes, o agora mais seguro atlanticista dos partidos alemães, sancionaram o envio das "nossas tropas", para citar Angelika Beer a porta-voz verde da Defesa, uma antiga maoista e co-fundadora do partido, para a "guerra do terror" sempre em expansão e da Marinha alemã para patrulhar a costa leste africana. Segundo uma sondagem de 2011, não há nenhum segmento da população alemã que apoie mais entusiasticamente o envolvimento militar do que o eleitorado verde. (25) Quando o governo de Merkel–Westerwelle decidiu não se juntar à guerra anglo-franco-americana à Líbia, os seus críticos mais ferozes encontraram-se no Partido verde; enquanto a força aérea da NATO despejava bombas de urânio empobrecido sobre Tripoli, o antes partido da paz condenava a "atitude irresponsável" dos que tinham deixado a Luftwaffe em terra. Ao que parece, apercebendo-se de que a analogia com Auschwitz começava a sofrer de desgaste, o deputado Tom Koenigs argumentou que a Alemanha devia juntar-se ao bombardeamento para compensar o facto de que tinha vendido muitas armas à ditadura criminosa de Kaddafi, tendo Schröder e Fischer levantado o embargo das armas.

Eco-comerciantes

O Partido Verde no seu todo nunca tinha verdadeiramente lutado com a contradição entre sustentabilidade ambiental e o expansionismo económico que é inerente à acumulação capitalista; nem a maioria tinha desenvolvido uma crítica consistente ao que a princípio era um pequeno grupo de eco-libertários no seu interior que pregavam o "evangelho da eco-eficiência"; a favor dos mercados livres e em oposição à intervenção do Estado, isto era inicialmente dirigido do mesmo modo contra a "grande máquina" do industrialismo e do estatismo. (26) As políticas pró mercado começaram a ficar em primeiro plano quando os Realos tomaram controlo firme do partido em fins dos anos 80; com os crescentes deficits fiscais impossibilitando a despesa keinesiana marginal necessária para as políticas social-democráticas verdes, o pensamento neoliberal tornou-se cada vez mais predominante, como a única possível solução para a crise profunda da Alemanha Modelo. Mas os eco-libertários também passaram por uma transformação: o discurso de uma economia descentralizada e do individualismo cívico liberto da excessiva burocracia deu lugar ao entusiasmo pela tecnocracia das corporações globalizadas e dos aparelhos de estado, alumiando o caminho para um supostamente "capitalismo verde" em total concordância com os diktats do FMI e do Banco Mundial, dependendo dos mecanismos do mercado e das soluções tecnológicas.

Com o governo de Schröder–Fischer, os Verdes emergiram como os mais dinâmicos proponentes do programa de terapia de choque neoliberal para a Alemanha – Agenda 2010 – uma vez que a curta tentativa de Lafontaine para recuperar o keinesisanismo social do Reno tinha sido derrotada. Os salários e os subsídios de desemprego foram amarrotados, as taxas colectivas cortadas; incentivada pela expansão do crédito internacional, o aumento das exportações pós 2005 da Alemanha descolou no meio de níveis crescentes de desigualdade e de privação social. Os protestos contra a Agenda 2010 partiram o SPD, com os dissidentes mais tarde a ajudar a fundar o Die Linke e a coligação Vermelha-Verde a ser despejada nas eleições de 2005. Mas a filiação do novo modelo do Partido Verde não tinha escrúpulos. Tendo internalizado a ideia de que "todos os outros sistemas são piores do que o capitalismo", os Verdes acham agora impensável a ideia do crescimento zero, deixemos o "negativo" em paz. Tornaram-se estridentes adeptos em nome das corporações que esperam aproveitar da transição para as fontes de energia "verde", e dos que vendem produtos "ecológicos". Muito do capital político do partido deriva deste sector como força modernizadora, fornecendo o tipo de pseudo-ambientalismo que promete tornar-se uma mercadoria lucrativa face ao desastre global, preparando novos terrenos para a acumulação de capital. (27) Dos e-carros ao Desertec, promovem activamente as chamadas "tecnologias verdes" que já provaram não serem nem pacíficas nem ecológicas nas suas repercussões. (28)

Embora Fischer descartasse a ideia de os Verdes entrarem numa coligação encabeçada pela CDU depois das eleições de 2005, tais alianças em breve iam sendo feitas a nível do estado (com efeito, elas tinham sido promovidas pelos eco-libertários como Thomas Schmid desde o início dos anos 80). Em 2008, o ascenso do Die Linke ofereceu a possibilidade de uma coligação Vermelho-Vermelho-Verde em Hamburgo; os Verdes arruinaram isso, fazendo uma coligação com a CDU: Em Saarland, no ano seguinte, uma forte mudança para Die Linke deixou de novo os Verdes como decisores; vetaram uma coligação de esquerda com o SPD e o Die Linke de Lafontaine e entraram no governo com a CDU e o FDP. Na empedernida conservadora Baden-Württemberg, uma série de protestos massivos contra planos ambiciosos promovidos pela CDU no poder para reconstruir a estação de Estugarda com custos enormes, levou à eleição em 2011 do primeiro ministro presidente Verde Winfried Kretschmann. Kretschmann, antes um veterano do KBW, não podia ter sido mais convencido e vaidoso ao apresentar-se ao eleitorado como um católico da província de boa cepa pequeno-burguesa. Uma vez no poder, começou a retroceder em cancelar a nova estação, declarando que teria de haver um referendo. Os Verdes estão presentemente à frente da sua construção.


Os Verdes pagaram pouquíssimo em termos eleitorais pela sua mutação política. O eleitorado dos Verdes não se expandiu muito ao longo dos anos – partindo de 8.3% em 1987 até 10.7% em 2009 – mas envelheceu, ficou mais rico e mais conservador, tal como os dirigentes do partido. O apoio aos Verdes cresceu entre os votantes com formação universitária e entre os profissionais, enquanto foi sempre piorando em termos da classe trabalhadora e (especialmente) dos sindicatos. Em 1987, 60% dos votantes Verdes tinham menos de 35 anos; em 2009, 60% tinham mais de 40. No entanto, o partido tem um número significativo de novos seguidores entre os novos ricos do "milénio", sobretudo jovens mulheres: em 2009, a percentagem de votantes entre os 18 e os 25 anos era de 15,4%, subindo para quase 19% de mulheres nessa faixa etária. (29) Em Abril de 2013, uma sondagem sugeria que 54% dos votantes Verdes apoiariam uma coligação federal com a CDU este Setembro, enquanto 64% dos votantes CDU ficariam satisfeitos com um governo Negro-Verde em Berlim. (30) Cohn-Bendit disse ao Bild (25 de Abril 2013) que uma aliança CDU-Verde seria uma "opção realista", na condição de os Verdes ficarem com os ministérios das Finanças e da Energia. No entanto, na conferência do Partido Verdes em Abril de 2013 em Berlim, Jürgen Trittin, Renate Künast e Claudia Roth conduziram uma rebelião pró-SPD, votando por um aumento nas taxas mais altas como política do partido, para desapontamento de Kretschmann e do Presidente da Câmara de Tübingen, Boris Palmer. (31)

Se esta posição vai sobreviver aos resultados das eleições de Setembro de 2013 é coisa que se irá ver. Os Verdes podem ainda jogar o rei (ou a rainha) em Berlim. Tempo houve em que essa perspectiva podia ter causado ansiedade em Washington, mas os Verdes são hoje em dia o partido alemão preferido da Embaixada americana. E por que não? O Partido Verdes reduziu a luta pela emancipação universal aos trocos do consumismo "orgânico" e do "comércio justo". A inofensiva memória de um passado dissidente serve agora como inesgotável fonte de legitimidade não só pelas suas acções mas pelo poder alemão e pelo próprio aparelho de estado. A realidade está de pernas para o ar: ao que parece não foram os Verdes que mudaram mas sim o mundo, tornando a oposição à guerra ontem, a fonte moral para a "intervenção humanitária" hoje. Hoje, a NATO surge como o instrumento chave para o desarmamento nos documentos políticos do partido, enquanto o Tratado de Lisboa, a carta de facto da UE para uma oligarquia tecnocrática, se torna um passo maior para a democracia e a transparência e o domínio económico sobre a Grécia é exercido em nome da solidariedade europeia. Deixemos os conservadores fazer guerra debaixo do estandarte dos interesses nacionais; os Verdes enviarão o exército em nome de um justo e honrado "governo mundial dos cultos". Isto não é para sugerir que os Verdes fazem deliberadamente o contrário do que pretendem; pelo contrário, e muito mais assustador, eles podem mesmo querer dizer isso.

Notas:

[1] Agradeço a Friedrich Heilmann e Frieder Otto Wolf por gastarem tempo em partilhar comigo as suas opiniões políticas sobre a trajectória do Partido Verdes.

[2 ]'Ich bin der festen Überzeugung, daß deutsche Soldaten dort, wo im Zweiten Weltkrieg die Hitler-Soldateska gewütet hat, den Konflikt anheizen und nicht deeskalieren würden': Die Tageszeitung, 30 Dezembro 1994.

[3] Os órgãos de comunicação social alemães continuam a reproduzir a narrativa de que o governo de Schröder–Fischer foi apanhado desprevenido pelos desenvolvimentos na Jugoslávia; permanece pouco claro até que ponto o governo da RFA – com Kohl e Schröder – foi, ele próprio, uma força por detrás da guerra dos Balcãs. Por outro lado, foi sugerido que os E.U.A., preocupados com o facto de que a U.E. pudesse ficar mais independente com a hegemonia da Alemanha reforçada, agarraram a oportunidade para firmar a remilitarização da RFA dentro de uma NATO refundada. Vide Richard Holbrooke, 'America, A European Power', Foreign Affairs, vol. 74, no. 2, Março–Abril 1995.

[4] A revolta com a traição dos Vermelho-Verde em breve encontrou vozes aguerridas nas ruas: os manifestantes agarraram num grito dos anos de Weimar —Wer hat uns verraten? Sozialdemokraten! ('Quem nos traiu? Os Sociais-democratas!') — e acrescentaram uma frase Wer war mit dabei? Die Grüne Partei! ('Quem estava com eles? Os Verdes!')

[5] Em 2009, Joschka Fischer foi contratado como assessor para o projecto do gasoduto Nabucco, com um salário milionário; serve como "conselheiro estratégico sénior" no grupo Stonebridge de Madeleine Albright e consta da folha de pagamentos da BMW, da Siemens e de outras como consultor e "lobista"; Andrea Fischer, anterior Ministra da Saúde Verde faz lobby pelas indústrias dos cuidados de saúde e farmacêuticas; Gunda Röstel, antigo porta-voz dos Verdes, juntou-se à administração de Gelsenwasser/eon que naturalmente tem uma ala nuclear; Margareta Wolf, secretária principal Verde (Staatssekretärin) de Jürgen Trittin no Ministério Federal do Ambiente, tornou-se uma lobista paga para a indústria nuclear; Matthias Berninger, secretária principal Verde de Renate Künast no Ministério Federal da Defesa do Consumidor, Alimentação e Agricultura, trabalha agora para a Mars, Inc.; Marianne Tritz, a activista anti-nuclear Verde faz agora lobby pela indústria tabaqueira; Cohn-Bendit trabalha para um lobby financiado pela Amazon, Microsoft, Google, Yahoo, Ebay e Facebook para influenciar a legislação da UE em seu favor e assim por diante.

[6] Christian Schmidt: Wir sind die Wahnsinnigen, ("Nós somos os Loucos"), Düsseldorf 1998; Jutta Ditfurth, Krieg, Atom, Armut, Was sie reden, was sie tun (Guerra, Átomo, Miséria, o que vocês dizem, o que vocês fazem): Os Verdes, Berlim 2011.

[7] Luc Boltanski e Eve Chiapello, The New Spirit of Capitalism (O Novo Espírito do Capitalismo), Londres, 2007; Nancy Fraser, 'Feminism, Capitalism and the Cunning of History' (Feminismo, Capitalismo e a Astúcia da História), nlr 56, Março – Abril 2009.

[8] Paul Tiefenbach, Die Grünen: Verstaatlichung einer Partei, (Os Verdes: Nacionalização de um Partido) Colónia 1998.

[9] Frieder Otto Wolf aborda a questão de se a construção do partido deve estar na ordem do dia no seu ensaio, 'Party-Building for Eco-Socialists', Socialist Register 2007.

[10] Na sua época áurea, o KBW tinha uma fortuna de milhões, possuindo propriedades no novo quarteirão dos bancos de Frankfurte, dúzias de automóveis do último modelo e uma moderna impressora; algumas destas coisas foram para apoiar os Verdes. Vários dos seus quadros fizeram o seu percurso em outras instituições do Estado e do negócio e também no Partido Verde. 'Die Beerdigung war "eher heiter" (O enterro foi mais sereno), Die Tageszeitung, 18 Fevereiro1985.

[11] Werner Hülsberg, The German Greens: A Social and Political Profile, Londres 1988, p. 124.

[12] Alguns recém-chegados nem sequer partilharam a preocupação com questões ambientais. Como Fischer disse: "Uma vez por todas, vamos ser honestos: quem de nós está interessado na crise da água em Vogelsberg, nas auto-estradas em Frankfurt ou nas fábricas de energia nuclear em qualquer sítio, porque eles se sentem pessoalmente preocupados?" Vide Ditfurth, Krieg, Atom, Armut, (Guerra, Átomo, Miséria) p. 69.

[13] Em 1980, os Verdes entraram na Assembleia de Baden-Württemberg com 5.3%; em 1981, em Berlim com 7.2%; em 1982, em Hamburgo com 7.7%, na Baixa Saxónia com 6.5% e em Hesse com 8%; em 1983, em Bremen com 5.4%. Em 1984 começaram a ter grandes ganhos em cidades universitárias conservadoras—Heidelberg, Freiburg, Tübingen— chegando a seguir à CDU com 14–20%.

[14] Nos anos 80, os Verdes tinham 30,000–40,000 membros para 2–3milhões de votantes, ao passo que o SPD tinha um milhão de membros para 14–15milhões de votantes. Os ratios em 1983 eram de 87 votantes verdes para cada membro do partido; em comparação, para a SPD e os Democratas Cristãos eram de 16:1 e 20:1 respectivamente: Hülsberg, The German Greens, p. 108. Uma sondagem de 1989 dos 5,000 Verdes em Hesse revelou que 4,000 eram funcionários ou detentores de um mandato. As pressões sobre as mulheres eram particularmente fortes, dada a quota dos 50%, visto que as mulheres constituíam apenas 30-35% dos membros filiados. Vide Margrit Mayer e John Ely, eds, The German Greens: Paradox Between Movement and Party, Philadelphia 1998, p. 10.

[15] Ver também Frieder Otto Wolf, 'Eco-Socialist Transition on the Threshold of the 21st Century', nlr 1/158, Julho–Agosto 1985.

[16] Wolfgang Ehmke, Joschka Fischer, Jo Müller e outros, 'Verantwortung und Aufgabe der Grünen', Grüner basis-dienst, (Responsabilidade e Tarefa dos Verdes) no. 1, 1985, p. 15, citado em Roland Roth e Detlef Murphy, 'From Competing Factions to the Rise of the Realos', em Mayer e Ely, German Greens, p. 58.

[17] Stern, 4 Abril 1988, e Joschka Fischer, Der Umbau der Industriegesellschaft: Plädoyer wider die herrschende Umweltlüge, (A Reconstrução da Sociedade Industrial: Defesas contra a Mentira Reinante do Ambiente) Frankfurt-no-Meno 1989, pp. 59–61. Fischer tinha sequestrado o título do programa dos Verdes de 1986 que tinha tido uma forte orientação operária, exigindo a socialização dos bancos e dos meios de produção.

[18] Infelizmente, pouca coisa foi publicada sobre os dissidentes Verdes na RDA. Um primeiro relato que permanece valioso pode ser encontrado em Carlo Jordan e Hans Michael Kloth, Arche Nova, Berlim 1995. Friedrich Heilmann deu uma breve retrospectiva sobre o debate em torno da reunificação em 'Green Environmental Politics: Basic Values and Recent Strategies', em Ingolfur Blühdorn, ed., The Green Agenda: Environmental Politics and Policy in Germany, Keele 1995, pp. 143–66.

[19] Joschka Fischer, Die Linke nach dem Sozialismus, (A Esquerda depois do Socialismo) Hamburgo 1993.

[20] Vide o Manifesto Realo por Joschka Fischer, Hubert Kleinert, Udo Knapp e Jo Müller, 'Sein oder Nicht-sein: Entwurf für ein Manifest grüner Realpolitik' (Ser ou Não Ser: Rascunho para um Manifesto da Realpolitik Verde), 1988.

[21] Claro que não há garantia que com o tempo o Die Linke rivalize com os Verdes. De acordo com uma fuga de informação, o dirigente do partido Gregor Gysi deu garantias privadas ao embaixador dos EUA acerca da político do Dia Linke em relação à NATO: a sua exigência de um novo pacto de segurança que envolvesse a Rússia foi uma mera manobra táctica para adocicar a ala radical do partido, que de outro modo poderia insistir para que a Alemanha abandonasse a NATO unilateralmente.

[22] Vide Frank Schirrmacher, 'Der lange Weg zu sich selbst: Wofür Joschka Fischer haftet'(O longo caminho para si próprio: por que responde Joschka Fischer?) , Jornal Frankfurter Allgemeine, 1 Outubro 2001; Jamie Shea: entrevista para a rádio Westdeutscher Rundfunk documentário televisivo, 'Es begann mit einer Lüge'(Começou com uma mentira), Fevereiro 2001.

[23] Carta Aberta aos Verdes, Open Letter to the German Greens, 7 Novembro 2001, citado em Jim Green, 'German Greens Off to War Again', Synthesis/Regeneration 27, Winter 2002.

[24] Citado em Verdes, 'German Greens Off to War Again'.

[25] Leipziger Volkszeitung, 22 Abril 2011.

[26] Pedi emprestado o termo "evangelho da eco-eficiência"que sintetiza perfeitamente a quimera de um capitalism amigo do ambiente, a partir do estudo inovador de Juan Martínez Alier, The Environmentalism of the Poor: A Study of Ecological Conflicts and Valuation, Cheltenham 2002. Este ramo ilusório de ambientalismo "amigo do mercado" é especialmente popular em Baden-Württemberg, coração da indústria automóvel alemã e também do eco-libertarismo e primeiro território (Land) a lançar um governo encabeçado por Verdes em 2011.

[27] Os representantes verdes são agora muito bem vindos para expor os seus pontos de vista junto aos accionistas dos velhos gigantes dos combustíveis fósseis tais como a RWE ou a EON, onde os podem avisar de que "não é só o planeta mas o valor das suas acções que está em risco" como recentemente fez o deputado europeu Sven Giegold.

[28] Ozzie Zehner escreveu uma crítica irresistível sobre o uso da tecnologia "eco-friendly"para fazer a lavagem um modelo insustentável de economia de crescimento sem fim com implicações catastróficas na natureza e na humanidade: Zehner, Green Illusions: The Dirty Secrets of Clean Energy and the Future of Environmentalism, Lincoln, ne 2012.

[29] Vide Lutz Mez, 'Who Votes Green?', em Mayer e Ely, German Greens, p. 82; Bernard Wessels, Jan Engels e Gero Maas, 'Demographic Change and Progressive Political Strategy in Germany', Centre for American Progress, Washington, dc 2011; Federal Returning Officer, Wahl zum 17 Deutschen Bundestag am 27 September 2009 (Eleição para 17 Bundestag Alemães), ch. 4, 'Wahlbeteiligung und Stimmabgabe der Männer und Frauen nach Altersgruppen' (Afluência às urnas e voto dos homens e das mulheres segundo grupos etários), Wiesbaden 2010.

[30] Forsa poll, citado em Derek Scally, 'Greens contemplate a post-election future with Merkel', Irish Times, 26 April 2013.

[31] A experiência de Trittin como Ministro do Ambiente na coligação federal Vermelha-Verde devia ter sido instrutiva. "Em áreas-chave, Trittin era forçado a implementar as directivas de Schröder, mas assumir a responsabilidade política. Em Junho de 1999, por exemplo, Schröder ordenou a Trittin que vetasse a passagem de uma nova directiva da UE sobre a reciclagem de carros velhos, aparentemente seguindo directamente intervenções da indústria automóvel alemã para o chanceler".Rüdig, 'Germany', em Ferdinand Müller-Rommel e Thomas Poguntke, eds, Green Parties in National Governments, Londres 2002, p. 98. A viagem de Trittin de Babelsberg para Bilderberg—ele participou na conferência do grupo em 2012 em Chantilly, Virginia—é quase tão impressionante como o caminho seguido por Joschka Fischer.

Mas Fischer era agora Ministro dos Negócios Estrangeiros e Vice-Chanceler do primeiro governo federal Vermelho-Verde da Alemanha. Esquecidas as suas previsões, Fischer e a direcção do Partido Verde viram como obrigação moral da Alemanha, se não entrar mais uma vez pela Jugoslávia adentro, pelo menos lançar bombas no seu território de uma altura segura e, naturalmente, para fins humanitários. As bases Verdes estavam mais relutantes: nenhum partido da Europa Ocidental tinha sido tão claramente identificado com as exigências do movimento da paz pelo desarmamento nuclear e pelo fim da NATO. Os Verdes alemães tinham raízes históricas profundas na oposição à militarização da Alemanha Ocidental e em movimentos de solidariedade com as lutas anti-imperialistas. Mas, depois de longas lutas internas, o partido tinha-se tornado num membro estabelecido dentro do sistema parlamentar alemão. Estava tacitamente compreendido que entrar no governo federal envolvia apoiar quer a NATO quer a "economia de mercado". O membro Verde do Parlamento Europeu Daniel Cohn-Bendit, um apoiante de longa data de Fischer, tinha estado a preparar o terreno para a intervenção militar desde o início das guerras de secessão da Jugoslávia e apelava agora para o envio de tropas terrestres – uma invasão terrestre. No entanto, o manifesto eleitoral dos Verdes de 1998 declarava que os Verdes alemães se oporiam quer à "aplicação da paz militar quer às missões de combate"; aspirava à retirada, não à expansão da NATO.