26 de fevereiro de 2014

A revolução marrom na Ucrânia

O espetáculo em Kiev

Israel Shamir

Counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Eu sou um grande fã de Kiev, uma cidade afável de caráter burguês agradável, com seus abundantes pequenos restaurantes, ruas arborizadas limpas e bonomia dos seus beer gardens. Cem anos atrás, Kiev era predominantemente um resort russo, e algumas áreas centrais mantiveram este sabor. Agora Kiev é patrulhada por bandidos armados da Ucrânia Ocidental, por combatentes do Setor Direita (Pravy Sektor) neonazista, descendentes de Stepan Bandera, soldados traidores ucranianos e por seus camaradas-em-armas locais de caráter nacionalista.

Após um mês de confronto, o presidente Viktor Yanukovitch cedeu, assinou a rendição preparada pela UE − e escapou da dura justiça revolucionária por um triz. Os deputados do partido governista [Partido das Regiões] foram surrados e dispersos, os comunistas quase linchados, a oposição tem o parlamento só para eles, e nomeou novos ministros e tomou conta da Ucrânia. A Revolução Marrom ganhou na Ucrânia. Este grande país do leste europeu de cinquenta milhões de habitantes seguiu o caminho da Líbia. Os EUA e a UE venceram nesta rodada, e empurraram a Rússia de volta para o leste, exatamente como eles pretendiam.

Resta saber se os bandidos neonazistas que venceram a batalha vão concordar em entregar os doces frutos da vitória para os políticos, que são, Deus sabe, desagradáveis o suficiente. E mais importante, resta saber se as parte leste e sudeste onde se fala russo vão aceitar o domínio Marrom de Kiev, ou vão se separar e seguir seu próprio caminho, como o povo de Israel (segundo a Bíblia) após morte do rei Salomão se rebelou contra o seu herdeiro, dizendo “para as suas tendas, ó Israel!” e proclamou a independência do seu feudo (I Reis 12:16). Enquanto isso, parece que o desejo da parte leste de preservar a integridade do Estado ucraniano é mais forte do que sua antipatia pelos Marrons vitoriosos. Apesar de terem reunido os seus representantes para o que poderia ser uma declaração de independência, eles não se atrevem a reivindicar o poder. Essas pessoas pacíficas têm pouca resistência para conflitos.

O seu grande vizinho, a Rússia, não parece abertamente preocupada com esse desenvolvimento ameaçador. Ambas as agências de notícias russas, TASS e RIA, nem sequer colocam as terríveis notícias ucranianas no topo, como a Reuters e BBC fazem: para eles, os Jogos Olímpicos e o biatlon eram de maior importância, como você pode ver nessas telas:



Esta atitude “avestruz” é bastante típica da mídia russa: sempre que eles se encontram em uma posição embaraçosa, eles escapam mostrando o balé “O Lago dos Cisnes” na TV. Isso é o que eles fizeram quando a União Soviética entrou em colapso em 1991. Desta vez foram as Olimpíadas, em vez do ballet.

A oposição anti Putin na Rússia aprovou entusiasticamente o golpe ucraniano. Ontem Kiev, amanhã Moscou, cantavam. Maidan (a praça central de Kiev, o local das manifestações antigoverno) é igual a Bolótnaya (uma praça em Moscou, o local das manifestações antigoverno em dezembro de 2012) é outro slogan popular.

A maioria dos russos ficou irritada, mas não surpresa. A Rússia decidiu minimizar seu envolvimento na Ucrânia algumas semanas atrás como se quisessem demonstrar ao mundo sua não interferência. Seu comportamento beirou a imprudência. Enquanto ministros do exterior de países da UE e seus aliados se reuniam em Kiev, Putin enviou Vladimir Lukin, um emissário de direitos humanos, um político mais velho de baixo escalão com muito pouca influência, para lidar com a crise ucraniana. O embaixador russo, Sr. Zurabov, outra não entidade, desapareceu completamente de vista. (Agora ele foi chamado de volta a Moscou). Putin não fez nenhuma declaração pública sobre a Ucrânia, tratando-a como se fosse a Líbia ou o Mali, não um país vizinho tão perto do interior da Rússia.

Esta abordagem de não intervenção se poderia esperar: a Rússia não interferiu nas desastrosas eleições ucranianas de 2004, ou nas eleições georgianas que produziram os governos extremamente antirrussos. A Rússia se envolve apenas se houver uma verdadeira batalha em campo, e um governo legítimo pede ajuda, como na Ossétia, em 2008, ou na Síria, em 2011. A Rússia apoia aqueles que lutam por sua causa, caso contrário, a Rússia, de maneira um pouco decepcionante, fica de lado.

O Ocidente não tem tais inibições, e seus representantes foram extremamente ativos: a representante do Departamento de Estado dos EUA, Victoria "Foda-UE'' Nuland passou dias e semanas em Kiev, dando biscoitos aos insurgentes, entregando milhões de dólares contrabandeados para eles, se encontrando com seus líderes, planejando e traçando o golpe. Kiev foi inundada com os mais novos dólares americanos que saíram da prensa (de um tipo nunca visto em Moscou, me contaram amigos russos). A embaixada dos EUA espalhou dinheiro ao redor como um texano embriagado em um night club. Cada jovem disposto a lutar recebeu quinhentos dólares por semana, um lutador qualificado - até mil, um comandante de pelotão, dois mil dólares - um bom dinheiro para os padrões ucranianos.

Dinheiro não é tudo. Pessoas também são necessárias para um golpe bem-sucedido. Não havia uma oposição a Yanukovitch, que ganhou eleições democráticas e, consequentemente, três partidos perderam eleições. Os defensores dos três partidos poderiam reunir um monte de gente para uma manifestação pacífica. Mas eles lutariam na hora da verdade? Provavelmente não. Idem para os recipientes de generosos subsídios dos EUA e da UE (Nuland estimou o valor total de investimento americano na “construção da democracia” em cinco bilhões de dólares). Eles poderiam ser chamados para irem à praça principal para uma manifestação. No entanto, os beneficiários das ONGs são pessoas tímidas, não é provável que arriscassem o seu bem-estar. E os EUA precisavam de melhores combatentes para remover o presidente democraticamente eleito do poder.

Os ovos da serpente

No oeste da Ucrânia, eclodiram os ovos da serpente: os filhos e netos de colaboradores nazistas que absorveram o ódio aos russos com seu leite materno. Seus pais formaram uma rede sob Reinhard Gehlen, o chefe espião alemão. Em 1945, enquanto a Alemanha era derrotada, Gehlen jurou obediência aos EUA e entregou suas redes à CIA. Eles continuaram sua guerra de guerrilha contra os sovietes até 1956. Sua crueldade era legendária, porque eles tinham como objetivo aterrorizar a população até a total obediência. Notoriamente, eles estrangulavam ucranianos suspeitos de serem amigáveis aos russos com suas próprias mãos.

A confissão terrível de um participante fala de suas atividades em Volyn: "Uma noite, nós estrangulamos 84 homens. Nós estrangulamos adultos, já as crianças, segurávamos suas pernas, balançávamos e quebrávamos suas cabeças em um batente. Duas crianças bonitas..., Stepa e Olya, 12 e 14 anos de idade... nós retalhamos o mais jovem em duas partes, e não precisamos estrangular sua mãe Julia, ela morreu de ataque cardíaco, e assim por diante." Mataram centenas de milhares de poloneses e judeus, mesmo o terrível massacre Baby Yar foi feito por eles, com a conivência alemã, um pouco semelhante a conivência de Israel nos massacres de Sabra e Chatila de palestinos pelos fascistas libaneses da Falange.

Os filhos desses “Stepan Bandera” assassinos foram criados para odiar o comunismo, os soviéticos e russos, e na adoração dos atos de seus pais. Eles formaram a ponta de lança dos rebeldes anti-governamentais pró-EUA na Ucrânia, o Pravy Sektor (Setor Direita) liderado pelo fascista descarado Dmytro Yarosh. Eles estavam prontos para lutar, morrer e matar. Tais unidades atraem potenciais rebeldes de diferentes origens: seu porta-voz é um jovem russo que se tornou nacionalista ucraniano, Artem Skoropadsky, um jornalista do diário mainstream de propriedade de oligarcas, Kommersant-UA. Há jovens russos similares que se juntam às redes salafistas e se tornam homens-bomba nas montanhas do Cáucaso - jovens cujo desejo de ação e sacrifício não poderiam ser satisfeitas na sociedade de consumo. Esta é uma al-Qaeda eslava - tropas reais de assalto neonazistas, um aliado natural dos EUA.

E eles não lutam apenas pela associação com a UE e contra aderir ao acordo com a Rússia. Seus inimigos são também os russos na Ucrânia, e ucranianos étnicos de língua russa. A diferença entre os dois é discutível. Antes da independência, em 1991, cerca de três quartos da população preferiu falar russo. Desde então, os sucessivos governos têm tentado forçar as pessoas a usar o ucraniano. Para os ucranianos neonazistas, quem fala russo é um inimigo. Você pode comparar isso com a Escócia, onde as pessoas falam inglês, e os nacionalistas gostariam de forçá-los a falar a língua de Robert Burns.

Atrás da ponta de lança do Setor Direita, com seus lutadores anticomunistas e antirrussos fervorosos, há uma organização maior: a neonazista Liberdade (Svoboda), de Tyagnibok. Alguns anos atrás, Tyagnibok chamava para uma luta contra os russos e judeus, agora ele tornou-se mais cauteloso em relação aos judeus. Ele ainda é tão antirrusso como John Foster Dulles. Tyagnibok foi tolerado, ou mesmo encorajada por Yanukovitch, que queria tomar uma página do livro do presidente francês, Jacques Chirac. Chirac venceu o segundo turno das eleições contra o nacionalista Le Pen, enquanto, provavelmente, teria perdido contra qualquer outro adversário. Do mesmo modo, Yanukovitch desejou Tyagnibok para tornar-se o seu adversário a ser derrotado no segundo turno das eleições presidenciais.

Os partidos parlamentares (o maior deles é o partido de Yulia Timoshenko, com 25% dos assentos, o menor, o partido de Klitschko, o boxeador, com 15%) apoiariam a turbulência como uma forma de ganhar o poder que perderam nas eleições.

União dos nacionalistas e liberais

Assim, uma união de nacionalistas e liberais foi formada. Esta união é a marca registrada de uma nova política dos EUA na Europa Oriental. Ela foi testada na Rússia, há dois anos, onde os inimigos de Putin são compostos por estas duas forças, liberais pró-ocidentais e seus novos aliados, os nacionalistas étnicos russos, neonazistas suaves e os mais radicais. Os liberais não vão lutar, eles são impopulares com as massas, que incluem um percentual acima da média dos judeus, gays, milionários e colunistas liberais; os nacionalistas podem incitar as grandes massas quase tão bem quanto os bolcheviques, e vão lutar. Este é o coquetel anti Putin preferido pelos EUA. Essa aliança, na verdade, levou mais de 20% dos votos nas eleições da cidade de Moscou, depois de sua tentativa de tomar o poder por golpe foi rechaçada por Putin. A Ucrânia é sua segunda ação conjunta, bem-sucedida.

Tenham em mente: os liberais não precisam apoiar a democracia. Eles fazem isso somente se eles estão souberem que a democracia vai proporcionar o que eles querem. Caso contrário, eles podem unir forças com a al Qaeda, como agora na Síria, com os extremistas islâmicos, como na Líbia, com o Exército, como no Egito, ou com neonazistas, como agora na Rússia e na Ucrânia. Historicamente, a aliança liberal-nazista não funcionou, porque os velhos nazistas eram inimigos dos banqueiros e do capital financeiro, e, portanto, antissemitas. Este obstáculo poderia ser evitado: Mussolini foi amigável com judeus e tinha alguns ministros judeus em seu governo, ele contestou a atitude antissemita de Hitler dizendo que “os judeus são úteis e amigáveis”. Hitler respondeu que se ele permitisse isso, milhares de judeus iriam entrar para seu partido. Hoje em dia, este problema desapareceu: os neonazistas modernos são amigáveis com os judeus, os banqueiros e os gays. O assassino norueguês Breivik é uma amostra exemplar de um neonazista simpático aos judeus. Assim são os ucranianos e russos neonazistas.

Enquanto os bandidos originais de Bandera matavam todos os judeus (e poloneses) que cruzavam seu caminho, seus herdeiros modernos recebem algum apoio judeu valioso. Os oligarcas de origem judia (Kolomoysky, Pinchuk e Poroshenko) os financiam, enquanto um proeminente líder judeu, presidente da Associação das Organizações Judaicas e Comunidades da Ucrânia, Josef Zissels, apoiou-os e os justificou. Há muitos apoiadores de Stepan Bandera em Israel, pois eles geralmente afirmam que Bandera não era um antissemita, porque ele tinha um médico judeu (assim como Hitler). Os judeus não se importam com nazistas que não os incomodem. Os russos neonazistas atacam trabalhadores imigrantes tadjiques, e os ucranianos neonazistas atacam os falantes de russo. 

Revolução: esboço

A revolução pode ser descrita em poucas linhas: Yanukovitch não foi um presidente tão ruim, prudente, mas fraco. Ainda assim, a Ucrânia chegou à beira do abismo financeiro. (Você pode ler mais sobre isso no meu artigo anterior). Ele tentou salvar a situação, aliando-se à UE, mas a UE não tinha dinheiro de sobra. Em seguida, ele tentou fazer um acordo com a Rússia, e Putin ofereceu-lhe uma saída, sem sequer exigir dele que a Ucrânia se juntasse ao grupo liderado pela Rússia. Isto provocou a resposta violenta da UE e dos EUA, já que estavam preocupados que isso iria fortalecer a Rússia.

Yanuk, como as pessoas o chamam, tinha poucos amigos. Oligarcas poderosos ucranianos não ficaram impressionados por ele. Além das razões de costume, eles não gostavam dos hábitos predatórios do filho de Yanuk, que rouba as empresas dos outros. Aqui eles podem ter razão, porque o líder da Bielorrússia, o valente Lukashenko, disse que as formas não ortodoxas de aquisição de empresas do filho de Yanuk causaram desastre.

O eleitorado de Yanuk, as pessoas falantes de russo da Ucrânia (e eles são a maioria no país, como os escoceses que falam inglês são maioria na Escócia) ficaram desapontados com ele porque ele não lhes deu o direito de falar e educar seus filhos em russo. Os seguidores de Yulia Timoshenko não gostavam dele porque ele prendeu sua líder (ela mereceu: contratou assassinos, roubou bilhões de dinheiro do Estado ucraniano em conluio com um ex-primeiro-ministro, fez um acordo escuso com a Gazprom às custas dos consumidores ucranianos, entre outras coisas). Os nacionalistas radicais o odiavam por ele não erradicar o idioma russo. 

O ataque ao presidente eleito orquestrado pelos EUA seguiu as instruções de Gene Sharp para um golpe, a saber: (1) tomar uma praça central e organizar uma manifestação pacífica, (2) falar sem parar do perigo da dispersão violenta, (3) se as autoridades não fizerem nada, provocar derramamento de sangue, (4) acusar assassinato, (5) a autoridade fica horrorizada e estupefata e (6) é removida e (7) novos poderes assumem.

O elemento mais importante do sistema nunca foi expressado pelo astuto Sharp, e é por isso que o movimento Occupy Wall Street (que folheou o livro) não conseguiu alcançar o resultado desejado. Você tem que ter os Mestres do Discurso™, isto é, a mídia ocidental, do seu lado. Caso contrário, o governo vai esmagar você como fizeram com o Occupy e muitos outros movimentos similares. Mas aqui, a mídia ocidental ficou totalmente do lado dos rebeldes, porque os eventos foram organizados pela embaixada dos EUA.

No início, eles reuniam algumas pessoas conhecidas para uma manifestação pacífica na Praça da Independência (ou “Praça Maidan”): beneficiários de subvenções da USAID através da rede de ONGs, escreveu um especialista ucraniano, Andrey Vajra, redes de oligarca fugitivo Khoroshkovski, neonazis do Setor Direita e radicais de causa comum. A reunião pacífica foi ricamente entretida por artistas, alimentos e bebidas foram servidos gratuitamente, sexo livre foi encorajado − era um carnaval no centro da capital, e começou a atrair as massas, como aconteceria em todas as cidades do universo conhecido. Este carnaval foi pago pelos oligarcas e pela embaixada dos EUA.

Mas o carnaval não poderia durar para sempre. De acordo com (2), rumores de dispersão violenta foram espalhados. As pessoas ficaram com medo e se afastaram. Apenas uma pequena multidão de ativistas permaneceu na praça. Provocação de acordo com (3) foi fornecida por um agente ocidental dentro da administração, o Sr. Sergey Levochkin. Ele escreveu sua carta de demissão, a enviou e ordenou à polícia dispersar violentamente a manifestação. A polícia chegou e dispersou os ativistas. Ninguém foi morto, ninguém ficou gravemente ferido – hoje, depois de cem mortos, é ridículo sequer mencionar essa surra – mas a oposição acusou que houve mortes na época. A mídia mundial, essa poderosa ferramenta nas mãos dos Mestres do Discurso, denunciou “Yanukovitch massacrador de crianças”. A UE e os EUA ameaçaram sanções, diplomatas estrangeiros vieram, todos alegando que queriam proteger os manifestantes pacíficos, enquanto, ao mesmo tempo melhorar a multidão de Maidan com homens armados e combatentes do Setor Direita.

Nós citamos Gene Sharp, mas a Maidan teve uma influência adicional, o de Guy Debord e seu conceito de Sociedade do Espetáculo. Não era uma coisa real, mas um faz-de-conta muito bem-feito, como foi o seu antecessor, o golpe de Moscou de agosto de 1991. Yanukovitch fez de tudo para formar a resistência Maidan: ele enviava a polícia de choque para dispersar a multidão, e depois que eles faziam apenas metade do trabalho, ele os chamava de volta, e ele fez isso todos os dias. Após esse tratamento, mesmo um cão muito tranquilo mordia.

A qualidade irreal de espetáculo dos eventos de Kiev foi enfatizada pela chegada do belicista imperial, o filósofo neo-com, Bérnard-Henri Levy. Ele foi a Maidan como foi à Líbia e à Bósnia, reivindicando direitos humanos e ameaçando sanções e bombardeios. Sempre que ele aparece, a guerra está por vir. Espero estar longe de todos os países que ele pretenda visitar.

As primeiras vítimas da Revolução Marrom foram os monumentos - os de Lenin, porque eles odeiam o comunismo em todas as formas, e os da II Guerra Mundial, porque os revolucionários se solidarizam com o lado derrotado, os nazistas alemães.

A história nos dirá até que ponto Yanukovich e seus assessores entenderam o que eles estavam fazendo. De qualquer forma, ele incentivou o fogo de Maidan por seus ataques ineficientes por uma força policial desarmada. Os neonazistas de Maidan usaram snipers (franco-atiradores) contra a força policial, dezenas de pessoas foram mortas, mas o presidente Obama mandou Yanukovich desistir, e ele desistiu. Após novo tiroteio, ele enviava a polícia novamente. Um diplomata UE ameaçava com o tribunal de Haia, e ele chamava sua polícia de volta. Nenhum governo pode funcionar em tais circunstâncias.

Eventualmente, ele caiu, assinou na linha pontilhada e partiu para destino desconhecido. Os rebeldes tomaram o poder, proibiram o idioma russo e começaram a saquear Kiev e Lvov. Agora, a vida das pessoas tranquilas de Kiev foi transformada em um verdadeiro inferno: assaltos diários, espancamentos, assassinatos. Os vencedores estão preparando uma operação militar contra as áreas de língua russa no sudeste da Ucrânia. O espetáculo da revolução ainda pode ficar realmente sangrento.

Alguns ucranianos esperam que Yulia Timoshenko, recém-libertada da prisão, será capaz de controlar os rebeldes. Outros esperam que o presidente Putin vá prestar atenção aos eventos da Ucrânia, agora que seus Jogos Olímpicos, felizmente, terminaram. O espetáculo não acabou até que a gorda senhora (referência à Russia) cante, mas ela vai cantar – sua canção será vista e ouvida.

Israel Shamir can be reached at adam@israelshamir.net.

25 de fevereiro de 2014

A Venezuela está em chamas?

Como os protestos anti-governo continuam na Venezuela, Mike Gonzalez argumenta que somente um aprofundamento da revolução bolivariana pode salvá-la.

por Mike Gonzalez

Jacobin

Créditos: Gaz/Flickr.

Tradução / A imprensa e mídia globais mostrou imagens de uma Venezuela em chamas. Ônibus queimando, demonstrações de raiva, prédios públicos cercados. Mas essas imagens não são explicadas ou colocadas em um contexto e, com isso, as pessoas assumem que não passa de um motim, uma rebelião jovem contra a crise como as na Grécia e Espanha.

A realidade é muito diferente e mais complexa. O país, no fim das contas, é uma sociedade que declarou guerra ao neoliberalismo 15 anos atrás.

Caracas, onde essa série de eventos se iniciou, é uma cidade dividida. Sua parte leste é de classe média e próspera; ao oeste sua população é mais pobre. A divisão política reflete exatamente a divisão social. Leopoldo López, que tem sido o líder dessa nova fase violenta da oposição ao governo de Nicolas Maduro, foi prefeito de um dos distritos do leste.

Junto com outra proeminente anti-chavista de direita, Maria Corina Machado, López havia emitido uma chamada para uma reunião pública, no último domingo, afim de exigir a queda do governo. O Dia da Juventude, 12 de fevereiro, foi munição suficiente para levar os estudantes às ruas.

A maioria das barricadas queimadas foi construída em áreas da classe média. E os estudantes que as construíram vieram tanto de Universidades particulares quanto de estatais, que excluíram amplamente os estudantes pobres. Não havia quase nada acontecendo nas áreas mais pobres no oeste do país.

Ultimamente, o caráter classista dos protestos se fez claro. O novo sistema de ônibus do governo que oferece viagens boas e baratas, foi atacado. 50 deles só na sexta. A Universidade Bolivariana, que oferece maior educação para aqueles excluídos do sistema universitário, foi sitiada na sexta – mesmo com a fracasso dos protestos em destruí-la. Em diversos locais, médicos cubanos que dirigem o sistema de saúde "Barrio Adentro," foram atacados. Em um curioso acontecimento, uma escultura do arquiteto comunista Fruto Vivas, localizada na cidade de Barquisimeto, está sendo defendida por Chavistas depois de uma ameaça da oposição de destruí-la.

Maduro e seu gabinete responderam aos acontecimentos denunciando o teor violento crescente nas confrontações organizadas por fascistas e apoiadas pelos EUA. Existem, certamente, extremistas envolvidos e comprometidos em desestabilizar a situação. Dentre eles estão os paramilitares ligados ao tráfico de drogas, os quais a presença aumentou muito neste pais demasiadamente armado.

Mas por que a direita escolheu este momento em particular para tomar as ruas? Em parte, é uma resposta ao que parece ser uma fraqueza do governo Maduro, e especialmente do próprio presidente. Não é segredo que por trás dessa fachada de unidade governamental existe uma luta pelo poder entre os muito ricos e os grupos de influência dentro do governo – luta essa que se intensificou meses antes da morte de Chávez.

A presença militar no governo cresceu dramaticamente, e são amplamente controlados pelo grupo de Diosdado Cabello. O líder da corporação de petróleo e vice-presidente de economia, Rafael Rodriguez, tem um enorme poder econômico nas mãos.

Ao mesmo tempo, existe uma luta pelo poder dentro da direita. Todos os lideres proeminentes, incluindo Leopoldo López, Cristina Machado e Capriles, vêm das partes mais ricas da burguesia. Mas estão competindo. López e Machado estão em busca de um tipo de “golpe leve”: desestabilização econômica somada a uma mobilização contínua nas ruas para aprofundar as fraquezas do governo.

Capriles, no entanto, hesitava em apoiar os protestos, argumentava sobre um “governo de unidade nacional,” o qual Maduro aparentava legitimar. Há algumas semanas atrás, Maduro conversou com um dos capitalistas mais ricos do país, Mendoza, e outros setores da burguesia expressaram seu apoio para com o presidente. E essa estratégia tem o apoio de figuras importantes dentro e à margem do governo.

Contra esse passado, a posição do governo chavista tem sido de pedir "paz" – o slogan ecoou pelo enorme número de venezuelanos que se mobilizaram atrás de Maduro. O canto "eles nunca voltarão" é muito significante. Eles reconhecem nos lideres da agitação as mesmas pessoas que implementaram os devastadores programas econômicos antes de Chávez nos anos 90 e quem tentou destruir seu governo duas vezes. Ao mesmo tempo, a tal ‘paz’ ainda tem que ser decidida. Ela significa abranger os problemas reais que as pessoas sofrem, e criar um calço entre uma classe media ansiosa e os auto-proclamados lideres da burguesia? Ou será alcançado por consenso com outros setores da mesma classe, talvez representados por Caprilles, que não tem nenhum compromisso com o socialismo?

A direita venezuelana não é estranha à violência. Em 11 de abril de 2002, lançou um golpe contra Chávez e assumiu o poder. Contata a mídia e exige o assassinato de chavistas tendo em vista o que seriam capazes de fazer. O golpe teve apoio de setores do exército, da igreja, da federação dos funcionários, da embaixada dos EUA e da Organização corrupta do sindicato nacional. Mas falhou devido o levante da massa pobre da população a favor de Chávez e que o trouxeram de volta.

Nove meses depois, a tentativa de destruir a indústria de petróleo e, com isso, a economia como um todo, foi frustrada novamente pela mobilização em massa da maioria dos Venezuelanos – as mesmas pessoas que levaram Chávez ao poder.

A situação presente é uma repetição de Abril? Entre 2002 e 2014, a direita falhou em expulsar Chávez; e o apoio ao então presidente subiu consistentemente até sua morte. Depois disso, seu sucessor Maduro, ganhou as eleições em Abril de 2013. Mas dessa vez, o candidato direitista Henrique Capriles Radonski chegou aos 250,000 votos de diferença, a menos de 1% de ganhar.

Foi uma expressão clara da frustração e raiva crescentes dentre os simpatizantes de Chávez. Em 2012 viram a inflação chegar a 50% e o nível aumentou inexoravelmente pelo ano passado. Atualmente, a cesta básica custa 30% a mais do que o salário mínimo – e isso se os produtos básicos forem encontrados na prateleiras vazias das lojas e mercados. A escassez é explicada, parcialmente, pela especulação por parte dos capitalistas – como aconteceu no Chile em 1972 – e também pelos aumentos nos custos dos importados, que fazem parte de uma proporção crescente do que é consumido no país. E não me refiro à objetos de luxo, mas sim comida, tecnologia básica e até gasolina.

Tudo isso é expressão de uma crise econômica vigorosamente negada pelo governo Maduro, mas óbvio para toda a população. A inflação é causada pela decadência da moeda venezuelana, o bolivar. A verdade é que a produção de qualquer coisa sem ser petróleo levou a uma parada virtual. A indústria de carros emprega 80,000 trabalhadores, só que, desde o inicio de 2014, produziu apenas 200 veículos – o que seria produzido normalmente em um dia.

Como é possível que um país com uma das maiores reservas de petróleo do mundo (e possivelmente de gás também) esteja agora endividado com a China e impossibilitado de financiar o desenvolvimento industrial que Chávez prometeu em seu primeiro plano econômico?

A resposta é mais política que econômica: corrupção em uma escala inimaginável combinada com a ineficiência e total ausência de estratégias econômicas. Nas últimas semanas, houve muitas denuncias públicas de especuladores e contrabandistas se apropriando de petróleo e quase de todo o resto existente na fronteira Colombiana. Além disso, houveram relatos da descoberta de milhares de containeres com comida apodrecida. Mas tudo isso já é de conhecimento comum por anos. É também sabido do envolvimento de setores do Estado e governo em todos esses fatos.

Chávez prometeu poder popular e o investimento da riqueza petrolífera do país em novos programas sociais. E de fato, seus programas de saúde e educação foram fontes de muito orgulho e garantia de um apoio garantido dentre a maioria dos Venezuelanos. Atualmente, esses fundos estão se esvaindo enquanto a renda do petróleo é usada para o pagamento de importações.

O que emergiu no país é uma nova classe burocrática que são, eles mesmos, os especuladores e donos dessa nova e fracassada economia. Atualmente, com o crescimento da violência, eles são vistos declamando discursos furiosos contra corrupção e usando a camisa vermelha e o boné do chavismo.

Mas os bilhões de dólares que desapareceram nos últimos anos e a riqueza acumulada pelos Chavistas são os sinais claros de que seus interesses prevaleceram. As promessas de controle pelas comunidades, vindo de baixo, de um socialismo que beneficiasse toda população, provaram-se vazias.

A direita esperava negociar com essa desilusão. Porém, a falha da direita em mobilizar uma parcela da classe trabalhadora é testemunho da lealdade que a população tem para com o governo chavista ou até mesmo com o próprio Chávez.

A solução não está nas alianças com os oponentes do chavismo, nem em convidar multinacionais como a Samsung para aproveitar a produção barata do seu equipamento no país. O que pode salvar o projeto bolivariano e a esperança que inspirou tantos é: a remoção dos burocratas e especuladores e a reconstrução do poder popular com base no socialismo genuíno – participativo, democrático e exemplar em recusar os valores e métodos do capitalismo que já foi desmascarado pela juventude revolucionária da Grécia, Espanha e Oriente Médio.

Roland Denis, um líder ativista venezuelano, resumiu a questão assim: "Ou transformamos este momento em uma oportunidade criativa para reativar nosso desejo coletivo de revolução, ou podemos começar a dizer adeus à história que vivemos nos últimos 25 anos."

A pantomina triunfalista de Ollie Rehn e a tragédia da Grande Depressão espanhola: o desemprego cresce 26%.

William K. Black


[Tradução] Acabaram de publicar-se dois artigos que todos os interessados na crise financeira global deveriam ler. Os dois tratam da Espanha. A Espanha tende a desfrutar de menor cobertura por parte da imprensa norte-americana do que a Irlanda e a Grécia mas é um país e uma economia muito maior. A sua bolha em relação ao PIB foi a segunda em envergadura entre as nações economicamente desenvolvidas. A Espanha é tão grande e o seu desemprego tão grave que "quase um quarto de todos os desempregados da União Europeia de 28 membros vivem em Espanha". Em Espanha, a bolha imobiliária foi financiada por um setor bancário fora de controle e os maiores empréstimos estão a causar um dano crescente aos bancos. "Os ativos bancários continuam a deteriorar-se, com um aumento moroso dos empréstimos não devolvidos".

Em finais de 2013, o governo espanhol e a UE procuraram desesperadamente apresentar a Espanha como uma história de êxito atribuído à austeridade e à "reforma laboral". É triste invocar como uma história de grande sucesso uma nação com 26% de desemprego poucas semanas antes da Espanha ter de admitir que a taxa de desemprego havia subido. Perguntei a um antigo estudante que é atualmente jornalista financeiro se consideraria a UE um fracasso perante o grande êxito de Espanha. Resposta: "Chipre".

Os dois artigos que recomendo devem ser lidos em conjunto. Comecemos com o artigo de Stephen Burgen Spain's Unemployment Rise Tempers Green Shoots of Recovery, publicado no dia 23 de janeiro de 2014.

"A taxa de desemprego em Espanha desceu para 25% de acordo com os dados oficiais. Os dados publicados pelas autoridades estatísticas espanholas mostraram que em 2013 se perderam mais 198 900 postos de trabalho. O número total de desempregados é agora de 5,9 milhões".

Estes números genéricos tornam-se piores quando se entra em pormenores. Duas tendências preocupantes mantiveram o desemprego em "apenas" 25%. A emigração em grande escala fez com que a taxa de desemprego seja muito mais baixa do que teria sido no caso de não se ter produzido (e com grave custo para a nação). O governo espanhol animou as empresas a criar postos de trabalho a tempo parcial, um tipo de emprego sem direitos trabalhistas normais. Os economistas insistem com a Espanha para empreender ações como esta a fim de reduzir os salários.

"O trabalho a tempo parcial subiu em 140.000 enquanto baixava em 339.000 o trabalho a tempo integral. O principal efeito das tão anunciadas reformas trabalhistas do governo tem sido o de aumentar o trabalho a tempo parcial, que agora representa 16,34% do total."

O governo espanhol respondeu à crise com uma austeridade que maximiza simultaneamente a drenagem fiscal que piora a Grande Depressão que açoita a Espanha e se encarniça contra os seus trabalhadores.

O primeiro-ministro afirma que o gabinete decidira congelar o salário mínimo para o próximo ano em 645,00 euros por mês, aumentando as pensões, já desligadas da inflação em apenas 0,25%.

O desemprego aumentou e está concentrado em lares e regiões.

"Mais da metade do desemprego em Espanha considera-se de longa duração, aqueles que estão há mais de um ano desocupados. 
O número de lares em Espanha em que nenhum dos membros consegue trabalho cresceu no último trimestre até chegar a 1,8 milhões". 

Muita gente já está há tanto tempo parada que perdeu o subsídio de desemprego.

O desemprego de longa duração levou ao aumento do número de pessoas que já não têm subsídio de desemprego. São 686.600 os lares em que nenhum dos membros dispõe de qualquer remuneração. Mas esse dano infligido aos trabalhadores espanhóis pelos vistos não é suficientemente alarmante para perturbar os economistas europeus que se lamentam de que a Espanha "impede que os salários caiam suficientemente rápido". A exigência é grotescamente inapropriada. Os economistas querem cortar os salários dos trabalhadores, o que reduzirá significativamente a procura. A sua ideia de remédio econômico é equivalente à do médico disposto a sangrar o paciente.

TINA torna TWNEA

O trio composto pelo FMI, a Comissão Europeia e o BCE é conhecido como Troika. A sua afirmação durante a crise tem sido "não há alternativa" (TINA na sigla em Inglês) à austeridade, à redução dos salários dos trabalhadores e às privatizações maciças. Os esforços da troika para apresentar agora a Espanha como uma história de sucesso sofreram um grave revés no dia 23 de janeiro de 2014, quando a Espanha anunciou que a sua taxa de desemprego tinha aumentado.

Os números apresentados no dia 23 de janeiro de 2014 foram recebidos em silêncio em Madrid. Mas numa entrevista concedida ao diário El Pais, o comissário europeu para assuntos econômicos e monetários Ollie Rehn, declarou que em Espanha a União Europeia procurava combinar o objetivo de umas finanças públicas solventes com reformas econômicas. 
'Não há alternativas fáceis, nem para Espanha nem para ninguém. Quem pensar que há uma maneira fácil de recuperar o acesso aos mercados sem tomar medidas dolorosas, engana-se', declarou o diário madrilenho. 'Levará dez anos a resolver a crise espanhola.'"

O "silêncio oficial" foi uma boa esperança. O comentário de Rehn mostra os perigos das loas extemporâneas. Rehn admite que a história de sucesso que liga a troika a Espanha é pura fantasia. Esperar 'resolver a crise espanhola em dez anos', é falar de 2024. A bolha imobiliária espanhola alcançou o seu ponto culminante em 2006. Isso significa que os economistas teoclássicos fracassaram na hora de travar uma bolha que se vinha a formar há pelo menos 6 anos (2000-2006) e que a austeridade chegou a causar em Espanha uma Grande Depressão tão grave, que o mais extremista dos propagandistas europeus da austeridade espera que levará 17 anos (2007-2024) a sair da fase de «crise». Rehn não faz conjecturas sobre os anos que continuará depois de 2024, em conseguir uma recuperação plena e um emprego pleno em Espanha. Rehn subestimou sistemática e espetacularmente o dano causado pela austeridade à economia e às pessoas. É o apologista máximo da austeridade, portanto tem o máximo interesse em considerá-la um êxito. Quando profetiza que a Espanha levará 17 anos a resolver a fase da «crise» da sua Grande Depressão, sabemos já que este tipo calcula perfeitamente a magnitude do desastre infligido à Espanha pelas suas políticas econômicas teoclássicas.

A maioria das nações recuperou-se bem mais depressa da Grande Depressão dos anos 30, e isso numa época em que as políticas macroeconômicas eram primitivas e frequentemente autodestrutivas. Não há a menor razão para que a Espanha e outras nações da periferia europeia experimentem hoje Grandes Depressões e muito menos Grandes Depressões dessa duração.

Observe-se que Rehn assume tacitamente que não surgirão entretanto choques negativos durante a próxima década, embora ache que a crise persistirá em Espanha. Poucos economistas pensam que essa suposição heróica seja remotamente provável. Pressionado para explicar porque esse grande êxito de há três semanas é um pesadelo, Rehn abandonou o discurso TINA de «não há alternativa» e adoptou o discurso de «não há alternativa fácil» TWNEA sigla em Inglês). Vale a pena recordar as suas palavras literais:

"Ollie Rehn afirmou que em Espanha a União Europeia procurou culminar o objectivo de umas finanças públicas solventes com reformas econômicas". 
'Não havia alternativas fáceis, nem para a Espanha nem para ninguém. Aqueles que pensam que haveria uma maneira fácil de recuperar o acesso aos mercados sem tomar medidas dolorosas, enganam-se', declarou ao diário madrilenho. 'Levará dez anos a resolver a crise espanhola.'"

Rehn admite, assim, que havia alternativas à austeridade e ao esmagamento dos salários dos trabalhadores. O que declara agora é que «não havia alternativas fáceis» (TWNEA). As alternativas (indeterminadas) a recuperar o «acesso aos mercados» não teriam sido «simples» e teriam de empregar «medidas dolorosas». A primeira coisa que salta à vista é que esta concessão se torna fatal para as pretensões e para as políticas de Rehn. É óbvio que uma alternativa não precisa de ser «simples» para ser superior à austeridade e à destruição salarial de Rehn, que geraram uma virulenta Grande Depressão, de cuja fase crítica espera Rehn, tardará em sair-se (se nada de mal ocorrer na economia mundial na próxima década) 17 anos. Logicamente, qualquer alternativa que inflija menor dor que optimistas 17 anos da alternativa de Rehn será melhor que a estratégia da Grande Depressão da troika. 

Os terríveis "objetivos ocultos" da UE

A austeridade como um "objectivo" perpétuo, não como meio para um fim

O que Rehn admite tacitamente torna-se mais fatal para as suas políticas do que parece à primeira vista, se examinarmos a forma em que apresenta o debate para defender a estratégia de uma Grande Depressão dirigida ao esmagamento dos salários dos trabalhadores. Já sei que «solvente» soa como uma palavra e um conceito a que nenhuma pessoa sensata se oporia. O antônimo de solvente é «insolvente», quebrado, em bancarrota, palavras todas de sobejas conotações negativas.

Rehn colocou um marco astuto na sua tese, mas o marco está concebido para confundir o público e os meios de comunicação com o objectivo de provocar o apoio às suas políticas, a umas políticas que causam um dano terrível ao público em geral e à classe trabalhadora em particular. «Solvente» é o código cifrado para austeridade. O marco de Rehn está pensado para que as pessoas possam pensar que se o governo tem défice é «insolvente» e irresponsável e se dirige para a catástrofe.

Como acontece sempre, o objetivo dos «austericidas» é difundir o lema de que o governo de um Estado soberano é «exatamente como» uma família. Rehn fugiu-lhe a boca para a verdade, revelando que isso é falso. Observe-se que Rehn nunca define o que é «solvência». Não o faz, porque, se tentasse, a falsidade do mesmo tornar-se-ia ainda mais óbvia. A "solvência" é um conceito falacioso. Não é um conceito que se use na auditoria de governos com moedas soberanas, porque aí seria inaplicável.

Rehn dá a entender que solvente significa que o governo não pode incorrer em défices, sob pena de consequências terríveis. Haveria quatro problemas insuperáveis se Rehn definisse os governos deste modo. Primeiro, foi a crise que causou os défices orçamentários, e não os défices os causaram a crise. Quando há uma Grande Depressão, os trabalhadores perdem os seus postos de trabalho e os seus salários (o que reduz as suas receitas fiscais). Segundo, as nações da UE incorrem tipicamente em défices. Terceiro, não é por ai que vai mal ao mundo.

Mas o quarto erro é o pior. Não há nada moralmente superior numa nação que disponha de superavit orçamentário. Utiliza-se quando a procura já é insuficiente, a procura será ainda mais insuficiente e aumentará o desemprego, a menos que a nação seja uma exportadora nata. (nem todos podemos ser exportadores natos). Uma Grande Depressão como a que vemos em Espanha gera um grande défice orçamentário por causa dos efeitos orçamentários, a que acabo de referir-me, do desemprego maciço. O que o governo nacional deveria fazer, segundo a maioria dos economistas, é cobrir a procura insuficiente aumentando a despesa pública em projetos úteis. Fazer isto é o melhor método e quase o único — para reduzir rapidamente o desemprego e arrancar a nação de uma Grande Depressão. A austeridade diminuirá o ritmo e o alcance da recuperação. Uma política monetária vigorosa é normalmente ineficaz para estimular a recuperação de uma crise grave.

A austeridade perpétua em forma de «orçamento equilibrado» não pode ser um objectivo racional de Estado nacional. O objectivo de um Estado nacional só pode ser o bem-estar do seu povo, e um orçamento equilibrado normalmente torna-se mau para a população. Rehn não pode ignorar isso. Nem sequer a UE é suficientemente louca para ordenar orçamentos equilibrados e lançar outra vez toda a UE na sua terceira recessão em seis anos. É crucial reconhecer que a Espanha, Itália e Grécia se encontram numa situação de Grande Depressão. Os seus níveis de desemprego estão abaixo dos níveis médios das nações europeias durante a Grande Depressão dos anos 30 (das poucas nações europeias de que temos dados de época considerados adequados pelos economistas).

O objetivo das reformas econômicas é reduzir os salários dos trabalhadores

Rehn só prossegue no seu marco conceptual confuso quando declara que o segundo objectivo da UE é as "reformas econômicas". Também aqui como o fez com a «solvência» se aproveita do termo vago. Aclarada a noção, fica também claro para o leitor que o termo é orwelliano e o objectivo, depreciativo, autodestrutivo, e indigno de qualquer governo. «Reformas econômicas» é léxico ‘lixo’ em código cifrado da troika. Podemos traduzi-lo assim «forçar os cortes de salários aos trabalhadores». Esse não pode ser o objectivo legítimo de um Estado nacional. É uma guerra de classes com a qual os trabalhadores perdem e os altos executivos das grandes empresas se tornam ainda mais ricos. Rehn nem sequer trata de explicar a legitimidade desse objectivo. Já não pode declarar que os lucros das grandes empresas são «demasiado baixos» e os salários «demasiado altos», porque os lucros das empresas são frequentemente muito altos. O marco conceptual eleito por Rehn põe os trabalhadores a competir entre si em todos e em cada um dos Estados da UE, a ver quem ganha a corrida para o abismo de salários e direitos sociais. Aos espanhóis dizem-lhes que têm de cortar os salários dos trabalhadores para serem competitivos com os trabalhadores italianos, que por sua vez terão de competir com os gregos... Chamo a isso a dinâmica da via de Bangladesh".

A formulação rehniana dos objetivos da UE revela que esses objetivos não são o objetivo legítimo de nenhum dos Estados membros da UE. Rehn garante que os objetivos da EU são reduzir a despesa pública dos governos nacionais e cortar drasticamente os salários dos trabalhadores. Os objetivos da UE na formulação de Rehn são ideológicos e consegui-lo redundaria num grande desastre para os povos da União Europeia.

Observe que objetivos não fazem parte da lista de objetivos primordiais da UE de Rehn

O emprego pleno não é um objetivo. Uma redução rápida e espetacular do desemprego não é um objectivo. Reduzir a pobreza não é um objectivo. Proporcionar educação superior não é um objectivo. Fazer com que a recuperação de Espanha seja suficientemente forte para deter a sangria migratória dos seus licenciados universitários não é um objectivo. Prevenir crises futuras assegurando que cada Estado nacional regule energicamente a sua banca não é um objectivo. Reduzir o risco financeiro global representado pelas Entidades Sistemicamente Perigosas (SDIs, sigla em Inglês), exigindo a sua contração até deixarem de representar um risco também não é um objectivo. Atuar energicamente contra a mudança climática global não é um objetivo.

Não haveria "uma maneira simples de recuperar o acesso aos mercados, sem medidas dolorosas?"

Mais uma vez Rehn trata de marcar conceitualmente o debate, de modo que só irracionalmente se pode concordar com ele. Só os adolescentes acham que algo importante na vida pode ser simples e indolor. A maturidade ensina que a vida não é simples nem indolor. Mas Rehn perde apesar de utilizar um marco retórico desenhado para inclinar a balança a seu favor. A razão por que Rehn perde tem uma ironia fantástica que nos leva directamente ao segundo artigo que queria comentar aqui e cuja leitura vivamente recomendo.

Mas antes precisamos ver primeiro o aspecto da crise financeira que permite valorizar as teses de Rehn sobre a luta das nações da Periferia para «recuperar o acesso aos mercados (é o jargão habitual para referência à restauração da capacidade espanhola de empréstimo).

A crise financeira e as falhas críticas inerentes ao desenho do euro (pelo qual, as nações membros cederam a sua soberania monetária) levou a uma espiral da morte em que os «vigilantes dos títulos» bancos, (fundos de risco) pediam taxas de juro mais elevadas para comprar divida soberana das nações da periferia europeia, o que incrementava o défice destas, o que dava às agências de qualificação o pretexto de degradar a sua qualificação, o que, por sua vez, incrementava as taxas de juro exigidas à dívida emitida pelas nações periféricas da UE... O BCE adotou uma política de auxílio aos vigilantes dos títulos porque estes obrigavam a Periferia a cortar drasticamente os seus orçamentos e a fazer «reformas» para cortar salários. Mas o BCE não queria uma quebra verdadeira, porque isso podia levar à desintegração do euro. Portanto, o BCE interveio, desde logo depois de deixar passar meses e com diversos atrasos oportunos. Geralmente esperava que a nação se achasse à beira do colapso. Isso dava ao BCE a alavanca para se assegurar de que as nações da periferia cediam às exigências da troika e tomariam seus os seus objetivos gémeos: austeridade para sempre e cortes drásticos nos salários dos trabalhadores.

Mas a troika descobriu que tinha perdido o controlo dos vigilantes dos títulos. A troika havia desempenhado o papel de «quebra-costas» do tubarão prestamista a entidades privadas e os vigilantes dos títulos descobriram que transformar as crises financeiras em emergências maximizava os seus benefícios. Os assaltos coordenados dos vigilantes não tardaram em transformar a Periferia da UE no espetáculo das "crises semanais".

"A Espanha foi empurrada para a beira de um resgate soberano total em 2012, mas salvou-se em boa medida graças à promessa do BCE de interferir caso necessário no mercado de bônus, o que fez baixar os custos do empréstimo nacional."

O BCE foi assumindo dezenas de milhões de ativos tóxicos, sem que visse fim ao processo. A situação era desesperada e todo o adulto sabe que não há meios «simples» e «indolores» para restaurar a capacidade de acesso da Espanha aos mercados de crédito.

O BCE trava as incursões dos vigilantes dos títulos da Periferia

A ironia é que havia um meio simples e indolor para que o BCE pudesse travar os ataques dos vigilantes de títulos às nações da UE. O artigo de Benn Stell e Dinah Walker publicado a 24 de Janeiro e intitulado «A Eurocrise morreu! Viva a Eurocrise» explica por que sabemos que Rehn se enganou voluntariamente a respeito da terrível dor causada pela restauração do acesso espanhol aos mercados de dívida.

"Tudo se deve a Mário Draghi. Nunca na história dos bancos centrais um homem fez tanto com tão poucas palavras e com menos ações ainda. 
Depois de haver anunciado a criação de um programa de Operações Monetárias sobre Títulos (OMT) em agosto de 2012. Draghi teve o gosto de sentar-se à espera enquanto via descer continuamente os diferenciais entre os títulos públicos espanhóis e alemães sem precisar de comprar um só título. Os diferenciais italianos comportaram-se do mesmo modo."

Logo que os vigilantes de títulos começaram os seus ataques muitos economistas de várias persuasões explicaram que havia uma maneira simples e indolor com o que BCE podia travar os vigilantes e urgiram o BCE a atuar sem demora. Jean Claude Trichet negou-se. Draghi, seu sucessor à frente do BCE seguiu o conselho dos economistas. Durante 18 meses os resultados foram óbvios, portanto Rehn não revela mais do que desrespeito pela realidade com a sua história do "acesso aos mercados" que qualquer pessoa minimamente familiarizada com o mundo das finanças sabe que é falso. Mas Draghi continua a usar o BCE para forçar as nações da UE a aceitar os objetivos da troika (austeridade e cortes salariais) se querem receber a proteção do BCE perante os vigilantes dos títulos. Draghi dirige obstinadamente o equivalente a um bando de proteção mafiosa.

E sobre o desemprego?

Rehn não disse que não há um meio «simples» e «indolor» de evitar o desemprego e incrementar o crescimento econômico. A UE enfrenta complexas e dolorosas restrições sofridas pelas nações que desejam baixar o desemprego e promover o crescimento econômico.

A UE não dispõe de uma moeda verdadeiramente soberana e ao juntar nações desligou-se dos três meios mais efetivos para baixar o desemprego e promover o crescimento econômico quando chega a recessão. Não podem dar estímulos significativos, não podem desvalorizar a moeda e não podem adotar uma política monetária agressiva. A UE está atualmente como um corredor que começou o seu percurso seguindo o conselho de algum louco que na Internet sugeriu amarrar um peso morto aos tornozelos com grilhetas, para não correr depressa demais e acabar por partir uma perna. É certo que o corredor já não pode correr, mas isso não quer dizer que não haja um modo indolor que lhe permita correr. Precisa das chaves para abrir as grilhetas e a educação para compreender o que jamais ouvirá de charlatães como Rehn.

As nações podem dar excelentes passos para correr mais depressa e evitar partir (as pernas) criando um sistema forte de estabilização automática antes de chegar o golpe da próxima crise. Os estabilizadores ajudam a reduzir a grandeza da queda da economia durante a recessão, de modo que a nação não tenha de procurar uma saída a partir do fundo do poço. E além disso aceleram a recuperação. Os estabilizadores automáticos infligem alguma dor quando a economia está no auge (sobem os impostos e a fiscalidade progressiva aumenta mais depressa). Mas essa dor afeta sobretudo as pessoas que no tempo do auge estão a melhorar, de modo que a dor será menos insuportável.

Rehn fala de quando a política fiscal atua noutra direção quando a nação se acha numa recessão grave ou numa depressão. Nessas circunstâncias, a política fiscal adequada não inflige dor. A despesa pública nacional aumenta, proporcionando serviços vitais quando mais são necessários. Baixam os impostos, principalmente daqueles que estão mais necessitados, se o sistema fiscal é progressivo. Podem construir-se infra-estruturas úteis e realizar trabalhos de manutenção preventiva em benefício das gerações futuras.

Como falcão do défice, Rehn aceita os défices e as dívidas. Rehn repete o erro que os economistas de Roosevelt cometeram em 1937 quando convenceram o presidente de que devia pôr fim aos aumentos da despesa pública, assim o que vinha sendo até então uma recuperação robusta tornou-se a segunda volta da Grande Depressão. Rehn teria alertado em 1941 que os Estados Unidos entrariam numa dívida ruinosa para financiar a II Guerra Mundial e que essa dívida condenaria os Estados Unidos a décadas de ruína econômica. Ter-se-ia equivocado como está provado que se equivoca agora. Até os economistas do FMI tiveram de admitir a sua surpresa perante a efetividade apresentada pelos programas de estímulos nesta crise.

Não é "simples", principalmente se os estabilizadores automáticos estiverem enfraquecidos, servir-se da política fiscal para reduzir a gravidade e a duração da depressão. Há dificuldades políticas e dificuldades propriamente técnicas de realização. É bom ter identificado antes da crise projetos úteis de infra-estrutura e manutenção e ter planeado previamente que programas terão de ser levados à prática. Por mais insignificante que seja a magnitude do pacote de estímulos norte-americano na crise, e por mais que esteja orientado para o corte fiscal a favor dos ricos, os dados demonstram a sua eficácia substancial para impedir uma queda drástica e gerar uma recuperação moderada. As dificuldades não estão na economia mas nas políticas criadas pelas austeridades que exigem que os poderosos sangrem o paciente para o curar.

William K. Black é autor de The best way to rob a bank is to own one e professor associado de Economia e Direito na Universidade do Missouri em Kansas City. Passou anos trabalhando na política de regulação e prevenção de fraudes como Diretor Executivo do Instituto da Prevenção da Fraude. Diretor de Litígios da Junta Federal de Empréstimos do Banco Hipotecário e Diretor Adjunto da Comissão Nacional para a Reforma das Instituições Financeiras, além de outros cargos.

24 de fevereiro de 2014

Ucrânia: A UE não está prometendo a lua aos manifestantes... apenas a Grécia

Considerando os enormes problemas econômicos do país, vários ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia estão prometendo ajudar a Ucrânia a obter um empréstimo do FMI.

Gaël De Santis

L'Humanité

A União Europeia (UE) tem querido aproximar-se dos manifestantes que exigem mudança na Ucrânia. Mas vai cumprir as suas promessas nos próximos meses? A questão é urgente. No dia 21 de novembro, quando o presidente Viktor Yanukovich virou as costas à UE, a fim de juntar-se à união aduaneira da Rússia, ele fez segredo de que sua escolha foi motivada pela situação catastrófica das finanças de seu país. Em 17 de dezembro, a Rússia ofereceu uma tábua de salvação: um empréstimo de 15 bilhões de dólares e uma redução nos preços do gás. Três bilhões de dólares foram desembolsados no final de dezembro. Outros dois bilhões deveriam ter sido entregues em janeiro, mas Moscou preferiu aguardar um retorno à calma.

Sobre esta matéria, o que Bruxelas propõe? Nada, a não ser que conte os 610 milhões de euros planejados para 2012, se Kiev assinasse um acordo de associação com a UE. Para a emergência, os europeus parecem ter reservado o mesmo destino da Grécia para os ucranianos, convocando o Fundo Monetário Internacional (FMI). No sábado, o secretário dos Negócios Estrangeiros britânico, William Hague, revelou um acordo com o seu homólogo alemão, Frank-Walter Steinmeister para "pressionar para a assistência financeira vital do FMI".

Na sexta-feira, a Standard & Poors baixou a notação da Ucrânia para CCC, uma pontuação perto do default. Kiev deve pagar 13 bilhões de dólares em 2014. Sem a ajuda da Rússia, esta é uma tarefa impossível. Os títulos de curto prazo estão sendo negociados a uma taxa proibitiva de 34,5 por cento, em comparação com 5 por cento há cinco meses. E isso é, sem levar em conta a moeda, a hryvnia, que perdeu 10 por cento do seu valor. As reservas de moeda da Ucrânia vão durar apenas dois meses, de acordo com Thomas Baumann da Associação Alemã das Câmaras de Comércio. Se o FMI oferece a Ucrânia um empréstimo, será ao preço de reformas estruturais liberais.

No longo prazo, os países da UE esperam tirar proveito da atual situação débil da Ucrânia a fim de impor o acordo de associação UE que Yanukovich se recusou a assinar, em novembro. "Eu acredito que, sim, eles vão assinar este acordo," congratulou-se o comissário de Comércio da UE, Karel De Gucht, ontem - enquanto a Lituânia pedia "uma assinatura sem demora".

No entanto, este acordo poderia acelerar a desintegração da Ucrânia. É essencialmente um tratado de livre comércio que empurra Kiev para assumir grandes quantidades de legislação da UE. Assim que a Ucrânia adotar as diretivas europeias, 99% das tarifas alfandegárias cairão. Este modelo teve um efeito catastrófico para países como a Tunísia antes da Primavera Árabe. Para sobreviver, a indústria ucraniana teria de se tornar tão competitiva como a da UE. Isso está longe de ser o caso. A indústria do país está situado em sua maior parte, no leste de língua russa do país e é orientada para Moscou. Desde 2004, as exportações para a Rússia subiram 58%, observa o economista Jacques Sapir no seu blog. A Ucrânia precisa de orientar-se quer para o Oeste quer para Leste, a fim de desenvolver a sua economia - um fato que os líderes europeus não se devem esquecer, ou então correm o risco de brincar com fogo.

Coreia do Norte: "L’Humanité” não merece isso!

Jean-Pierre Page

Parlons Clair

Sob o título insinuante de "é um escândalo: a Coreia do Norte reino do horror e do sadismo", L’Humanité de 19 de fevereiro destaca-se de novo neste jornalismo de arrogância, fiel à ideologia dos dias de hoje!

O artigo junta à desonestidade, a ignorância que frequentemente caracteriza a rubrica internacional do que foi o diário de Jaurès, o jornal do anticolonialismo e do anti-imperialismo! O “direito do homismo” tipo ONG, que inspira doravante a política internacional do PCF, é tanto mais chocante quanto o partido ainda se diz partido dos comunistas.

Aqui, não é minha intenção fazer um julgamento sobre a política norte-coreana – é um outro debate e é em primeiro lugar aos norte-coreanos que compete fazê-lo, como tem expressado a escolha consciente do tipo de sociedade em que querem viver! A política francesa e a da Europa, com o que as caracteriza, deveria encorajar-nos a uma maior modéstia! Eu quero referir-me unicamente à maneira como se informam os leitores sobre os procedimentos adotados a nível internacional contra a Coreia do Norte.

Este artigo do l’Humanité apela, assim, a que faça três observações que tocam no conteúdo e na forma!

1 – Muitos países do mundo, como Cuba, a China, mas também os EUA, que não permitem que os seus cidadãos sejam julgados no exterior, recusam, em nome do respeito pela sua soberania e independência – e por que são contra todas as formas de ingerência – as pretendidas investigações internacionais, que são realizados por um organismo da ONU como o Office of the High Commissioner for Human Rights (OHCHR).
Este Comissariado – e isto não é um detalhe – tem 90% do seu pessoal dependente de fundos voluntários, sob contratos não permanentes e, muitas vezes, de curta duração. Estes fundos voluntários só existem com o financiamento e as boas graças dos países ocidentais, principalmente dos EUA, que os utilizam ao serviço dos seus interesses e dos seus objetivos geo-políticos.

Tudo isto diz muito sobre a independência do OHCHR, em Genebra. Não obstante, para que tal investigação possa ser realizada é necessário, de acordo com os princípios da Carta das Nações Unidas, ter esgotado todos os mecanismos internos de investigação, que os Estados podem e devem concretizar. Isto faz parte da sua prerrogativa e, no caso da Coreia do Norte, não se está lá.

Quando se decide ignorar, como, neste caso, foi decidido pelos ocidentais, estas investigações são realizadas no exterior do país, com todas as formas possíveis e imagináveis de testemunhos: entrevistas de refugiados nacionais, comunicações telefônicas, filmes, reportagens de televisão, imprensa escrita e mesmo através da utilização de conversas por Skype, etc. Pode-se imaginar como, nestas condições, é fácil orientar as coisas – e não invoco as pessoas que se podem contrabandear, os que vão aos locais com certas missões, ou os que se podem fazer viajar para recolher os seus testemunhos! Assim, trata-se na verdade e sempre de um relatório com acusações esmagadoras, a maioria das vezes com base em simples declarações (ou seja, uma ausência de provas que se assimila deliberadamente a provas). Por isso, não podem passar no silêncio estes métodos totalmente unilaterais. L’Humanité ignora-os; mas, pior, chega já à conclusão de que, segundo o autor, se deve pressupor a convocação dos dirigentes norte-coreanos perante o TPI2, cuja falta de independência não parece colocar qualquer problema ao autor do artigo! O Tribunal Penal Internacional (TPI) dedica-se exclusivamente aos líderes do terceiro mundo; "curiosamente", nunca se dedica aos dirigentes americanos ou europeus. É ainda mais bizarro que isso possa ter escapado à sagacidade desse jornalista, mas, no entanto, escapou!

As expetativas e as conclusões são assim conhecidas com antecedência, uma vez que são decididas pelos inspiradores da ocorrência e, como sempre, pelos ocidentais! Parece e é angustiante que, neste espírito, a secção internacional do l’Humanité não tenha ouvido falar da aplicação do R2P (responsability to protect). A R2P tornou-se para os ocidentais e os EUA, muito particularmente, a verdadeira Bíblia que deve refundar as relações internacionais. Esta nova arquitetura visa romper definitivamente com o multilateralismo, considerado obsoleto e que deve desaparecer em benefício do unilateralismo!

2 – Evidentemente que o artigo não toma em conta a composição da comissão de peritos sobre a Coreia do Norte, que não são funcionários internacionais, mas sim nomeados pela Comissão de Inquérito e o Conselho dos Direitos do Homem da ONU. Para compreender bem do que se trata e se se quisesse fazer prova de seriedade, deveria começar-se por escrutinar os membros deste grupo de peritos!

O Presidente é um australiano: Michael Kubryk, um magistrado muito conservador e repressivo, com reputação desastrosa e que ficou conhecido com o dossier do Camboja. Ele recebeu, entre todas as suas distinções por serviços prestados aos governos ocidentais, o título de "Vida honrosa" no protocolo australiano!

A seguir, vem Marzuki Darusman, outro magistrado, indonésio, que elaborou o relatório Darusman, esmagador contra o Sri Lanka, que, contudo, o L’Humanité considera um relatório oficial da ONU. Embora neste caso o relatório não tenha qualquer estatuto jurídico ONUSIANO, pois trata-se de um relatório solicitado a título pessoal pelo Secretário-Geral da ONU. Depois, a mídia procura impor internacionalmente a ideia oposta (tratar-se-ia assim "da posição oficial da ONU"). Darusman foi um confidente de Suharto desde o período da ditadura e da repressão sangrenta contra os comunistas na Indonésia, um verdadeiro genocídio político de cerca de 3 milhões de vítimas.

Foi um dos dirigentes do partido de Suharto e, como alto magistrado, podemos imaginar quantos pôde enviar para a prisão de Buru, como o grande poeta indonésio que foi muitas vezes candidato ao Nobel, o meu amigo Pramoedya Anter Toer.

Finalmente, também faz parte da comissão de peritos Sonja Biserko, magistrada sérvia, completamente vendida aos ocidentais e em particular aos americanos e às instituições da UE. Ela é membro, entre muitas outras coisas, do famoso Instituto da Paz dos EUA, em Washington, cujo nome é um eufemismo, e que, com o Instituto Brookings e o Instituto Memorial do Holocausto dos EUA patrocinaram o famoso relatório de Madeleine Albright e Richard Williamson sobre o R2P. Sem me estender sobre o Instituto Brookings, um dos mais famosos Think Tank4 americanos, pode observar-se na composição do seu "Conselho de Administradores", quase exclusivamente, dirigentes das maiores empresas norte-americanas, designadamente: a Goldman and Sachs, a Nike, e, sobretudo, o famoso "grupo Carlyle", liderado durante muito tempo por Frank Carlucci, um dos antigos patrões da CIA. "O grupo Carlyle", fortemente implicado no Iraque, está intimamente ligado, como sabemos, a Dick Cheney e às famílias Bush e Ben Laden. Podemos pois agora imaginar – e sem nos enganarmos – o que será o relatório deste grupo de especialistas que têm a simpatia do jornal l’Humanité.

3 – Isto dito, as coisas não são tão simples, o que mostra ainda mais uma vez a espantosa ignorância deste jornalista!

Se ele fizesse o esforço de ser mais convincente poderia ter usado usar como argumento o fato de, durante vários anos, a ação para sancionar a Coreia do Norte ter sofrido uma evolução da posição chinesa, russa e cubana. Estes últimos opuseram-se de imediato ao processo de investigação, depois de há dois anos se terem abstido; finalmente, este ano, não tomaram parte na votação em que a resolução foi aprovada, por consenso, pelo Conselho dos Direitos do Homem da ONU, o que, obviamente, significa na linguagem internacional: unanimidade!

Como l’Humanité ganharia em credibilidade se, no plano internacional, fizesse prova de um verdadeiro espírito crítico e não de um seguidismo angustiante do pensamento dominante, sobre o qual sabemos, desde Marx, que é o pensamento da classe dominante!

Solução do FMI para a crise: mais do mesmo

Michael Roberts

The Next Recession

Os ministros de Economia e Finanças do G20 se reuniram em Sydney, na Austrália, no último fim de semana e anunciaram que o objetivo do G20 era aumentar a taxa de crescimento mundial em 0,5% ao ano, de modo que a produção mundial aumente 2% ou 2,25 bilhões de dólares para o ano de 2018. Em novembro, o G20 se reunirá novamente em Brisbane, Austrália, para delinear as medidas reais que acreditam ser necessárias para alcançar esse ritmo de crescimento mais rápido.

Como isso será feito? Um documento de apoio elaborado pelo FMI descreve a estratégia do documento do FMI para a reunião do G20 em Sydney. Basicamente, tudo se reduz à adoção de mais medidas neoliberais de desregulação dos mercados, particularmente em serviços como financiamento, seguros e consultorias empresariais, à “reforma” do mercado de trabalho para a redução do gasto com aposentadorias, ao aumento de poder dos empresários para contratar e demitir, e à redução dos direitos trabalhistas – assim como mais investimentos em infraestrutura, isto é, que os governos proporcionem trabalho às empresas de construção civil do setor privado com o dinheiro dos cortes nos gastos sociais.

Em outras palavras, será mais das mesmas políticas aplicadas antes, e que não evitaram o colapso financeiro mundial e a grande recessão. O FMI estima que a economia mundial cresceu apenas 3% no ano passado, e espera que cresça 3,75% este ano e 5% em 2015. Mas, como o documento do FMI ressalta: “No entanto, cinco anos depois da Grande Recessão, a produção se mantém muito abaixo do nível da tendência a longo prazo, especialmente nas economias avançadas. Em 2013 (per capta), as perdas de produção em relação à tendência chegaram a 8% para o G-20 em seu conjunto, com uma perda maior nas economias avançadas com déficit (11%). Os volumes de comércio (exportações e importações reais) também estão muito abaixo das tendências. Cabe destacar que a recuperação também foi muito mais lenta do que o previsto na esteira da crise: em 2013, o nível do PIB real do G-20 foi 2% abaixo da projeção do cenário preparado para o Processo de Avaliação Mútua de 2010”.


Pior ainda: o FMI calculou que a economia mundial se manterá em uma recuperação muito frágil e nunca recuperará as perdas da Grande Recessão, a menos que os governos adotem medidas específicas. “É importante destacar que, no futuro, as projeções de referência do WEO a médio prazo sugerem uma crise permanente relacionada às perdas de produção conjunta para o G-20, impulsionada por grandes perdas para as economias avançadas, nais quais se prevê que o crescimento potencial continuará sendo, em geral, fraco”. De fato, o gráfico mostra que a perda de produção conjunta do G-20 é cada vez maior, e não menor.

O FMI também confirmou a opinião manifestada muitas vezes neste blog: de que o fator chave na crise mundial foi o colapso dos investimentos, e não o ponto de vista do keynesiano simplório, de que foi a falta de poder aquisitivo dos consumidores. “Uma descomposição da demanda das perdas de produção mostra que os investimentos nos países do G-20 se mantiveram muito abaixo da tendência a longo prazo, em 18%. as perdas são especialmente grandes nas economias com um déficit importante, mas também nas economias com um superávit significativo ou um déficit emergente. Para o G-20 em seu conjunto, o consumo é apenas ligeiramente inferior à tendência. No entanto, isso mascara variações regionais, com um consumo baixo nas economias com déficit significativo e superior à tendência nas economias emergentes”.

O FMI chegou a afirmar que o motivo da frágil recuperação também está relacionado ao que parece ser uma desaceleração permanente na acumulação de capital. Aparentemente, o “efeito de limpeza” das quebras e da liquidação dos capitais mais frágeis da Grande Recessão não foi suficiente para reestabelecer os níveis de investimento: “o efeito amedrontador da crise (por exemplo, a má alocação do capital, difícil de corrigir, antes das fases anteriores à crise, os cortes nos gastos em pesquisa e desenvolvimento) pode ter atuado contra o 'efeito de limpeza' (o fato de que as empresas menos produtivas sejam as primeiras a quebrar). A desaceleração da acumulação de capital também afetará negativamente o crescimento potencial”.

Evidentemente, o documento do FMI não explica por que o “efeito de limpeza” não foi suficiente. Este blog argumentou que é porque a rentabilidade das principais economias não se recuperou o suficiente e o peso morto do capital fictício continua sendo um fardo para os novos investimentos. Provavelmente, será necessária uma nova recessão para deixar isso mais claro. Por sua vez, o FMI defende o mais do mesmo na política econômica. Em primeiro lugar, as injeções monetárias dos bancos centrais devem continuar: “A política monetária deveria continuar apoiando a demanda nas economias avançadas, em vista das ainda grandes brechas de produção e da consolidação fiscal em curso”.

O FMI reconhece que a consolidação fiscal (uma frase bonita para as políticas de austeridade de reduzir o gasto público e os serviços sociais) contribuiu para lenta recuperação, mas ainda assim continuará apoiando a austeridade: “a consolidação fiscal gradual deve prosseguir a médio prazo”.

Mas a principal forma por meio da qual o FMI considera que a economia mundial pode recuperar de novo a tendência ao crescimento é com as “reformas estruturais”, ou reformas da oferta, que foram aplicadas no período neoliberal anterior à Grande Recessão. Segundo o FMI, é necessário fazer mais do mesmo.

Em primeiro lugar, “as reformas do mercado de produtos podem melhorar a produtividade mediante o aumento da competência e/ou melhorar o meio empresarial”. O que essas “reformas” implicam? Segundo o FMI, a reforma do mercado de produtos significa uma “redução de 20% na regulação das indústrias de serviços”, ao passo que a reforma do mercado de trabalho significa uma “redução de 20% na rigidez da legislação de proteção ao emprego”. Significa flexibilizar “uma legislação excessivamente restritiva de proteção ao emprego”; promover o aumento da taxa de atividade trabalhista mediante o aumento no gasto para o cuidado das crianças; promover a reforma das aposentadorias (isto é, cortes) e “em alguns casos, a redução das taxas de reposição dos subsídios por desemprego”.

Quanto ao investimento em infraestrutura, o FMI reconhece que há enormes necessidades sociais em todo o mundo. Mas acredita que esse tipo de investimento deve ser realizado pelo setor privado utilizando o dinheiro dos contribuintes: “Os países também poderiam fomentar uma maior participação do setor privado na provisão de serviços de infraestrutura, inclusive mediante iniciativas público-privadas”, a fim de aumentar esse investimento em apenas 0,5% em dois anos. E como isso será pago? Bem, mediante “uma redução dos repasses gerais”, o que significa cortes em gasto social e em outros subsídios sociais.

É isso o que temos. O FMI ressalta que as economias do G-20 não se recuperaram das enormes perdas sofridas na produção durante a Grande Recessão, e que o crescimento econômico continua sendo muito inferior à tendência anterior de crescimento. O motivo principal é que o setor capitalista não investe o suficiente para conseguir que as economias voltem a crescer. A resposta que os líderes do G-20 adotaram para superar esse fracasso é aumentar a desregulamentação, reduzir os direitos dos trabalhadores e aumentar o gasto público em infraestrutura – mas por meio de empresas privadas de construção, e com novos cortes nos gastos sociais.

Trata-se de uma continuação das políticas que já fracassaram. Por outro lado, é pouco provável que sejam adotadas de modo coordenado pelos governo do mundo. Para a mão de obra, temos o mesmo. Enquanto isso, a miséria continuará.

Michael Roberts é um reconhecido economista marxista britânico que trabalhou por 30 anos em Londres como analista econômico.

A emergência de uma tempestade global

Jack Rasmus

Z Magazine 

[Tradução] A consequência de três frentes de mau tempo convergentes seria algo parecido com uma tempestade perfeita em alto-mar. Três tendências econômicas globais significativas começaram a se intensificar e a convergir nos últimos meses: (1) uma desaceleração da economia da China junto com uma instabilidade financeira crescente em seu sistema bancário paralelo [shadow banking system]; (2) um colapso das moedas dos mercados emergentes (Índia, Brasil, Turquia, África do Sul, Indonésia etc.) e suas respectivas desacelerações econômicas; (3) um desvio contínuo rumo à deflação nas economias da zona do euro, liderado pelo aumento de problemas na Itália e pela estagnação econômica que atinge até a França, a segunda maior economia da zona do euro.

Além disso, os problemas nessas três áreas fundamentais da economia global deram início a uma retroalimentação. Desde o início de fevereiro de 2014, os mercados de ações dos Estados Unidos da América (EUA) começaram um grande ajuste e queda. Os efeitos de curto e médio prazo sobre a economia real e política dos EUA também começaram a aparecer, como mostram os dados mais recentes do enfraquecimento dos setores de construção, indústria, criação de empregos e vendas de automóveis em janeiro.

Três fases da crise econômica global

A primeira fase da atual — e contínua — crise econômica global teve como centro a economia dos EUA, durante o período de 2007 a 2010. Uma economia real já decadente em 2007 foi castigada por outra crise financeira grave em 2008, que derrubou os mercados de crédito dos EUA em geral e precipitou uma recessão épica, muito severa.

As políticas econômicas norte-americanas de 2008-09 em resposta à crise serviram para resgatar as instituições financeiras, as corporações e investidores ricos, mas pouco fizeram para salvar o restante da economia. A teoria pregava que, se fossem resgatados, os bancos, corporações e investidores responderiam investindo e criando empregos nos EUA. Porém, não foi o que aconteceu. Grande parte dos $3 trilhões de estímulo fiscal de 2008 a 2010 (cortes de impostos e gastos do governo) resgatou os as corporações não bancárias dos EUA, que então guardaram o dinheiro ou o investiram no exterior. Enquanto isso, mais de $15 trilhões em estímulos monetários — na forma de cinco anos de empréstimos com juros quase zero, oferecidos pelo Federal Reserve [FED, o banco central norte-americano] às instituições financeiras — resgataram a América financeira. Foram complementados por mais de $4 trilhões de expansão monetária por meio de quantitative easing (QE) – compras de títulos do FED mantidos por bancos ricos e outras instituições financeiras.

Juntos, os programas de estímulos fiscais e monetários estabeleceram altas recordes nos mercados de ações, de títulos e derivativos globais e norte-americanos, além de outros mercados de ativos financeiros. Beneficiaram as famílias mais ricas, mas deixaram 80% das demais — mais de 100 milhões de norte-americanos — para trás. Como resultado, e sem qualquer surpresa, os investidores mais ricos e suas instituições acumularam 95% de toda receita de 2009 a 2013. Esses ganhos não fluíram para a economia dos EUA, mas sim para os mercados emergentes estrangeiros, para a especulação de títulos financeiros ou foram de algum modo guardados como saldo em caixa e em contas em paraísos fiscais no exterior.

A segunda fase da crise global ficou centrada na Europa. Acompanhando o forte declínio norte-americano em 2008-09, as economias dos países da zona do euro experimentaram uma recuperação ainda mais breve e fraca do que os EUA em 2009-10. Depois disso, esses países caíram em uma segunda recessão em 2011-12. Nesse período, a instabilidade e a crise financeira mudaram de endereço dos EUA para a zona do euro na segunda fase na crise global.

A crise financeira do euro assumiu a aparência de uma crise de dívida soberana (governamental), mas em sua essência essa crise sempre foi do sistema financeiro-bancário da zona do euro. Por não terem um banco central como o Federal Reserve, os governos da zona do euro tentaram resgatar seus bancos após 2008 por meio de empréstimos aos governos que, por sua vez, resgatariam seus respectivos bancos. Porém, devido à falta de fundos para o resgate e problemas com a distribuição dos resgates para os bancos por meio dos governos, não foi possível resolver a crise. Enquanto isso, os governos das economias mais afetadas na zona do euro se afundaram ainda mais em dívidas. Então, esses governos tentaram compensar os déficits cada vez maiores por meio de políticas de “austeridade”, criadas para fazer o cidadão comum pagar pela dívida crescente do governo e pelos resgates aos bancos. A estratégia da zona de euro de resgatar os bancos por meio da extensão da dívida soberana [a dos Estados], em vez de uma injeção de liquidez do banco central como nos EUA, não teve êxito. A dívida soberana continuou a crescer, os bancos da zona do euro se enfraqueceram, e as políticas de “austeridade” causaram uma deterioração econômica ainda maior, na qual os déficits exacerbados e a situação da dívida soberana pioraram.

Na mudança estratégica mais recente, os governos da zona do euro estão adotando políticas para estimular suas economias à custa dos salários e benefícios dos trabalhadores. O que recebe o nome, eufemisticamente, de “reforma do mercado de trabalho”, significa redução de salários para tornar as exportações da zona do euro mais competitivas globalmente. Em vez de desvalorizar formalmente o euro e outras moedas europeias, a estratégia é desvalorizar por meio da redução do salário.

No entanto, nem o aumento dos empréstimos bancários, nem a redução dos custos dos negócios, geraram investimentos e recuperação, nos EUA ou na Europa. O investimento real, criador de empregos, está diminuindo no mundo todo. Nos EUA e na Europa, os investidores ricos, suas corporações e suas instituições financeiras guardaram o dinheiro, investiram em mercados financeiros globais ou investiram em economias reais de mercados emergentes (China, Brasil etc.). E foi isso, até agora.

A terceira fase da crise econômica global teve início em 2014. O enorme desvio de capital dos EUA e da Europa para a China e para os mercados emergentes que ocorreu de 2009 a 2013, possibilitado pelas políticas de resgate introduzidas nos EUA e na Europa durante esses anos, está começando a regressar dos mercados emergentes.

Dessa forma, o epicentro da crise global, que ocorreu pela primeira vez em 2008 nos EUA e mudou para a Europa entre 2010 e 2013, agora está voltando novamente para as economias dos mercados emergentes. Uma instabilidade financeira e econômica está surgindo e avançando nos mercados emergentes, inclusive na China.

Desaceleração e fragilidade crescente na China

Antes da crise financeira global e da recessão de 2008, a economia da China estava crescendo a uma taxa anual de 14%. Hoje, a taxa é de 7,5%, com uma forte possibilidade de uma taxa ainda menor de crescimento em 2014. O país desacelerou economicamente em 2008, mas se recuperou rapidamente e cresceu com mais rapidez ainda em 2009, ao contrário dos EUA e da Europa. Um enorme estímulo fiscal de aproximadamente 15% de seu PIB, ou três vezes o tamanho do estímulo para os EUA em 2009, foi responsável pela rápida recuperação da China. Esse estímulo fiscal se concentrou em investimentos diretos do governo em infraestrutura, ao contrário do estímulo americano de 2009 que se concentrou em grande parte em subsídios e corte de impostos para empresas e investidores. Em 2007-08, a China também não apresentava o problema de sistema bancário paralelo. Dessa forma, as políticas monetárias de expansão apresentadas, junto com o estímulo, auxiliaram ainda mais sua rápida recuperação em 2010. No entanto, desde 2012, a China enfrenta um problema cada vez maior com bancos paralelos globais que desestabilizam o mercado imobiliário e o mercado de dívida pública local. Ao mesmo tempo, desde 2012, a economia não financeira da China, incluindo seus setores industrial e de exportação, também tem mostrado sinais distintos de desaceleração.

No lado financeiro, a dívida total (pública e privada) na China subiu de 130% do PIB em 2008 para 230% do PIB, com a participação dos bancos paralelos subindo de 25% em 2008 para 90% do total em 2013. Assim, a participação dos bancos paralelos na dívida total quase quadruplicou e representa praticamente todo o aumento da relação entre dívida e PIB, desde 2008. Como resultado, os bancos paralelos são a força motriz por trás do problema crescente da dívida local e da fragilidade financeira chinesa.

Grande parte do aumento da dívida foi direcionada para uma bolha imobiliária, acompanhada de uma bolha de dívida pública local, uma vez que os governos locais levaram ao limite os projetos imobiliários, novos empréstimos empresariais e projetos de infraestrutura. A dívida pública local foi estimada em 2011 pelo governo central da China em $1,7 trilhões. De acordo com algumas estimativas, ela cresceu, em apenas dois anos, mais de $5 trilhões. Grande parte dessa dívida também é de curto prazo. Assim, ela é altamente instável, está sujeita a padrões imprevisíveis e pode se espalhar e desestabilizar um segmento muito maior do sistema financeiro na China, algo parecido com o que ocorreu antes com os créditos imobiliários subprime nos EUA.

O aumento da dívida do setor privado está se aproximando de proporções críticas na China. Um evento importante de instabilidade global pode facilmente surgir, caso ocorra uma inadimplência de um banco ou produto financeiro. De certa maneira, a situação atual da China parece cada vez mais com os mercados imobiliário e de dívida pública local e estadual americana de 2006. Em outras palavras, a China pode estar se aproximando de seu momento Lehman Brothers. Na verdade, isso quase aconteceu há alguns meses, com fundos financeiros. Temendo uma possível inadimplência do Fundo de Crédito Chinês, e seu spread, os investidores foram resgatados no último momento pelo governo central de Beijing. De acordo com o Wall St. Journal , o evento “expõe a fraqueza do sistema bancário paralelo que surgiu em 2009”.

A instabilidade financeira crescente dos mercados locais da China é um possível problema grave, também para a economia global, uma vez que a China e a economia mundial começaram a desacelerar em 2014.

No início de 2013, os formuladores de política da China reconheceram o problema crescente dos bancos paralelos e das bolhas em seus mercados imobiliários e de investimento locais. Os especuladores elevaram os preços dos imóveis em mais de 20% nas principais cidades em 2013 — muito acima da taxa anual de inflação imobiliária, mais ou menos estável entre 3 a 5%, até 2010. Os líderes da China tentaram controlar os bancos paralelos em maio-junho de 2013 reduzindo o crédito em toda a economia. Porém, isso provocou uma grave desaceleração do restante da economia na primavera (chinesa) de 2013. Então, os políticos ligaram novamente a torneira monetária durante o verão de 2013 e acrescentaram outro minipacote de estímulo fiscal, para acelerar a economia. Esse estímulo favoreceu os gastos públicos com infraestrutura de transporte, a redução dos custos de exportação para empresas e a redução de impostos para empresas menores. A economia se recuperou na segunda metade de 2013.

No início de 2014, a bolha imobiliária pareceu ganhar força novamente, enquanto a economia real mostrou sinais de desaceleração. Os formuladores de políticas da China deram sinais de que pretendem atacar sua bolha de bancos paralelos/imobiliária durante a primavera deste ano. Isso provavelmente significará outra desaceleração da economia chinesa provocada por decisão política, assim como ocorreu na primavera de 2013. Mas isso não é tudo. Acima da instabilidade financeira, e da desaceleração econômica que o enfrentamento dessa instabilidade provocará, estão diversos outros fatores que colaboram ainda mais com a desaceleração da economia chinesa em 2014.

Além do recente estímulo fiscal sobre a economia e seus mercados imobiliários superaquecidos, outra fonte importante do crescimento econômico chinês é seu setor industrial — especificamente a indústria de exportação. E ela também está desacelerando. Os motivos são mudanças internas da economia chinesa e o aumento de problemas nas economias da zona do euro e dos mercados emergentes.

A China está lidando com um aumento geral de salários e uma taxa de câmbio cada vez mais desfavorável para sua moeda, o Yuan. Esses dois fatores estão elevando os custos de fabricação e, por sua vez, tornando suas exportações menos competitivas. Os custos cada vez maiores de produção estão causando até um êxodo de corporações multinacionais globais da China, rumo a economias com custos ainda menores, como Vietnã, Tailândia e outros locais.

A maioria das exportações da China vai para a Europa e para os mercados emergentes, não apenas para os EUA. E à medida que as economias dos mercados emergentes desaceleram, a demanda por produtos fabricados pela China e as exportações diminuem. Por outro lado, enquanto a própria China desacelera economicamente, ela reduz suas importações de commodities, produtos semiacabados e matérias-primas dos mercados emergentes (e também de mercados importantes, como Austrália e Coreia).

Há efeitos parecidos no comércio na China e na zona do euro. Na verdade, a China é o país que mais demanda exportações da Alemanha — mais do que toda a Europa. Portanto, se a China desacelerar, ela comprará cada vez menos produtos europeus, o que prejudicará ainda mais as já estagnadas economias da zona do euro. Da mesma forma, a estagnação da Europa significa menos demanda de produtos da China, reduzindo ainda mais a fabricação chinesa. Em outras palavras, a desaceleração interna da China exacerbará a estagnação e a deflação na Europa e também contribuirá para uma desaceleração econômica ainda maior, já em andamento, nos mercados emergentes.

Essa desaceleração também será resultado de políticas públicas projetadas para mudar a estrutura da economia visando mais consumo. Essa mudança começará logo após a reunião do Partido Comunista, em março de 2014. Porém, o consumo na China representa apenas 35% da economia (diferente dos 70%, nos EUA), enquanto o investimento estatal chinês está bem acima dos 40% do PIB. Não é provável que o consumo cresça rápido o suficiente para compensar a redução no investimento, pelo menos não inicialmente.

Por isso, uma longa lista de mudanças iminentes e tendências importantes na China apontam para uma desaceleração, de quase $10 trilhões por ano, no crescimento nessa economia global fundamental. O que acontece na China, a segunda maior economia do mundo, continuará influenciando negativamente os mercados emergentes que já estão em processo de desaceleração e uma zona do euro cronicamente estagnada.

A zona do euro escorrega para a deflação
Depois de passar por uma recuperação ainda mais fraca e breve da crise financeira e recessão americana de 2008-09, comparada com as recuperações dos EUA e da China, a Europa entrou novamente em uma verdadeira recessão de queda dupla, de forma relativamente rápida, em 2011-2012. No segundo trimestre de 2013, a zona do euro emergiu dessa queda dupla oficial, mas apenas vagamente, crescendo míseros 0,4% pela taxa do PIB. A taxa de crescimento geral da zona do euro de todo o ano de 2013 não deve exceder 0,8%, se tanto. As previsões de crescimento para 2014 foram repetidamente rebaixadas pelo FMI e por outras fontes de pesquisa.

A Alemanha, economia mais forte da zona do euro, cresceu apenas 1,3% em 2013. Parece que outras economias importantes como a Itália e a França retornaram às suas taxas de crescimento ligeiramente negativas na segunda metade de 2013, e em toda a periferia sul da zona do euro a estagnação em níveis de depressão continua.

Alguns dizem que o crescimento da Alemanha, resultado das exportações, provoca um crescimento mais lento do restante das economias da zona do euro, pelo menos na periferia. Por exemplo, as exportações da Alemanha para a Espanha e outros locais, que compram seus produtos, exigem que a Alemanha e outras economias emprestem dinheiro para as economias periféricas, de modo que as últimas possam comprar produtos da Alemanha. Portanto, argumenta-se que as exportações da Alemanha dentro da Europa são possibilitadas por um aumento contínuo de déficits e da dívida nas economias periféricas da zona do euro. Dessa forma, a periferia é forçada a empregar o corte de déficit (“austeridade”), a fim de pagar pelo crédito da Alemanha. Como consequência, essa “austeridade” desacelera as economias periféricas, exigindo novos empréstimos para comprar as exportações e assim por diante.

Os EUA e outras economias fora da Alemanha começaram a exigir, de Berlim, um estímulo à própria economia interna do país — com aumento dos gastos públicos e outras medidas — e não focando apenas nas exportações. Até o momento, a Alemanha resistiu a esses apelos e continua a conduzir sua economia com base no setor exportador. Com isso, mantém a periferia da zona do euro em um tipo de servidão econômica. Isso não vai mudar. As exportações da Alemanha para a China provavelmente cairão, e, com isso, a Alemanha sem dúvida vai aderir ainda mais à sua estratégia de exportação dentro da zona do euro. Dessa forma, a periferia continuará dependente dela e será forçada a manter as políticas de “austeridade” que aprisionarão a zona do euro em uma recuperação, no máximo, moderada e causarão uma possível recessão de queda tripla, em um futuro não tão distante. Enquanto isso, a Alemanha também continuará resistindo à criação de algo que lembre uma verdadeira união bancária na zona do euro, fazendo com que a fragilidade bancária da Europa perdure sem qualquer solução.

A estagnação contínua da zona do euro está refletida com mais força em seu desvio rumo à deflação do que nos números de PIB. Os preços caem e ficam negativos quando não há demanda por produtos e serviços por parte da população geral. A demanda por bens e serviços depende do aumento da receita das famílias, e isso depende de empregos. A economia da zona do euro está travada praticamente em todos os locais, com uma taxa de desemprego de 12 a 13% em média há 4 anos. As taxas de desemprego na periferia permanecem em níveis de depressão de 25% ou mais. O desemprego entre os jovens é especialmente grave, de 40 a 60% na periferia e mais de 20% mesmo em economias como a da França. Além disso, os empregos criados são principalmente de meio período e temporários, com um salário baixo; um problema comum nas economias capitalistas dos EUA e do mundo. Salários baixos e cada vez menores na zona do euro, desemprego altíssimo e políticas de austeridade cortando gastos e serviços públicos, e agora querendo mexer no salário, tudo isso é traduzido como um desvio contínuo rumo à deflação.

A fraqueza da economia da zona do euro expressa-se não apenas nas tendências de deflação geral, na insistência da Alemanha em seu foco de exportação dentro da zona ou na dependência da Alemanha da demanda cada vez menor da China por seus produtos. Também fica evidente pela amplitude da crise interna da zona do euro, que afeta desde as economias periféricas até as principais, como a da França.

Ao final de 2013, a produção industrial francesa começou a declinar. O crescimento das exportações francesas está desacelerando. Os investimentos comerciais caíram durante todo o ano de 2013. E a economia ficou estagnada em crescimento zero, na melhor das hipóteses. A França tornou-se o novo doente da zona do euro, juntando-se a Itália e às economias da periferia sul.

Sobrepondo-se às forças internas mencionadas acima, que mantêm a economia estagnada na Europa, está o declínio acelerado dos valores das moedas nos mercados emergentes. Isso significa um euro em elevação e torna as exportações da Europa para os mercados emergentes mais caras. Menos exportações significam uma desaceleração ainda maior da indústria e da economia na zona do euro. Além disso, a instabilidade das moedas nos mercados emergentes pode afetar negativamente as economias da Europa Oriental que ainda não fazem parte oficialmente da zona do euro. Por fim, a instabilidade da moeda nos mercados emergentes significa que as empresas da zona do euro que fazem negócios importantes nessas economias enfrentarão perdas consideráveis de receita e lucros. Isso pode reduzir os gastos em investimentos em casa, para tentar compensar as perdas no exterior.

Resumindo, a zona do euro já está envolta em graves problemas econômicos. A nova desaceleração na China e nos mercados emergentes apenas piorará a situação.

Crise da moeda nos mercados emergentes

Por último, mas não menos importante, a pressão atmosférica também está subindo, sugerindo tempestade, nos mercados emergentes. É resultado do compromisso claro do Federal Reserve norte-americano em reduzir a expansão monetária por meio dequantitative easing (QE). Na reunião do FED de 29 de janeiro, 10 bilhões de dólares foram retirados das compras de títulos de bancos e investidores, que provocam emissão de dinheiro. O quantitative easing caiu agora para US$65 bilhões por mês, contra $85 bilhões em 2013. É provável que a política seja encerrada no próximo ano, lenta porém progressivamente.

Como consequência direta da mudança de política de QE do FED, os mercados emergentes começaram a se desestabilizar financeiramente e a desacelerar economicamente outra vez, um fenômeno que lembra a crise asiática de 1997-2000. Já voláteis e vacilantes em 2013, devido à indecisão sobre o futuro da QE, as moedas das economias emergentes começaram a perder valor novamente quando ficou clara a opção por encerrar gradualmente esta política. Isso ocorreu desde a Ásia até a América Latina, passando pela Turquia e outras praças mais a leste. Diversas tentativas realizadas até o momento pelos bancos centrais desses países, para intervir a fim de elevar o valor de suas moedas e se defender da fuga do capital, falharam.

Embora o FED tenha dado, em maio do ano passado, nove meses aos mercados emergentes para que se preparassem, eles não o fizeram de forma decidida. Agora, o fluxo maciço de capital barato que migrou para eles após 2008 (fugindo de taxas de juros próximas de zero no centro do sistema) está voltando rapidamente para os EUA, Europa, Japão e para o Ocidente.

O cenário de declínio das moeda, fuga de capitais e desaceleração da economia promete tornar-se uma espiral de degradação perigosa e autoamplificadora. À medida que o capital deixa os mercados emergentes, suas moedas entram cada vez mais em risco de colapso. A partir do final de 2013, em questão de meses, as principais moedas dos países emergentes caíram de 10 a 20%.

Os investidores estrangeiros não querem investir nesses países enquanto suas moedas perdem o valor, uma vez que isso significa aceitar perdas grandes em suas aplicações. Vendem os seus investimentos nesses locais e convertem (ou seja, vendem) as moedas desses países em moedas seguras, como o dólar ou o iene. A venda de investimentos e moedas desdobra-se rapidamente em um colapso nos valores do mercado de ações desses países. Desde o início de 2014, as ações dos mercados emergentes também estão em queda livre. Os declínios do mercado de ações causam ainda mais vendas da moeda pelos investidores estrangeiros. E assim por diante, em um círculo vicioso de venda de investimentos, conversão de moedas, colapsos de mercado de ações, fuga de capital e desaceleração do investimento real e das economias nos mercados emergentes.

À medida que desaceleram, ocorre a tentativa de restaurar o crescimento doméstico estimulando as exportações. Isso normalmente se traduz em tornar suas exportações mais competitivas por meio da redução dos custos de produção — ou seja, corte de empregos e redução de salários, assim como na zona do euro.

O processo tem sido mais intenso em países como Índia, Turquia, África do Sul, Brasil, Indonésia e Rússia. Todos elevaram, ou estão prestes a elevar, as taxas de juros a fim de diminuir o declínio de suas moedas e reduzir a fuga de capital. Nesse processo, suas economias domésticas estão caminhando para um crescimento mais lento. Provavelmente, diversas delas entrarão em recessão antes do final de 2014. A rápida desaceleração econômica desses países resultará na desaceleração das economias da China e da zona do euro.

Talvez a crise econômica dos mercados emergentes que está começando a se formar seja a frente de tempestade mais grave das três em questão. Desencadeado pela mudança de política do FED, nos últimos meses, ela causará, por sua vez, uma deterioração ainda maior e uma desaceleração das economias da zona do euro e da China. As crises se retro-alimentam.

Em outras palavras, é possível que uma tempestade perfeita esteja se formando, e ela reduzirá o comércio global em 2014, com consequências para economias domésticas dos megablocos regionais, como a zona do euro, a China e os mercados emergentes. A pergunta é: qual será o desempenho da economia dos EUA frente ao pior dos cenários, e à medida que o grupo formado pela zona do euro, pela China e pelos mercados emergentes se consome de uma forma negativa?

Observações de conclusão

A economia global está entrando em uma terceira fase da crise econômica contínua. Essa fase, que surge em 2014, é caracterizada pela intensificação dos efeitos da retroalimentação, ou amplificação mútua, entre os diversos blocos da economia global. Na segunda fase, durante os anos de 2010 e 2013, os efeitos da amplificação mútua entre os setores globais diminuíram. A economia norte-americana estabilizou-se em uma taxa de crescimento de recuperação baixa a estagnada; a China e os mercados emergentes se recuperaram de forma rápida e robusta; e a Europa caiu em uma crise bancária silenciosa própria e em uma recessão de queda dupla moderada.

No entanto, 2014 e a terceira fase podem ser diferentes, com mais semelhanças com a primeira fase, 2007-2009, do que com a segunda. Este ano pode registrar o retorno dos efeitos da amplificação mútua na economia global. A China começou a desacelerar economicamente e a experimentar uma instabilidade financeira crescente. Pode ficar comprovado que a desaceleração e a instabilidade serão muito piores do que o previsto. Caso uma das opções acorra, o efeito da China no restante da economia global pode ser considerável, e especificamente para os outros dois setores mais fracos: as economias da zona do euro e dos mercados emergentes. Uma economia já muito frágil na zona do euro pode cair facilmente em uma recessão, com efeitos negativos de retroalimentação na China e nos mercados emergentes. Porém a crise nos mercados emergentes que está surgindo pode demonstrar-se a mais desestabilizadora de todas, com seus efeitos de retroalimentação possivelmente ainda maiores. Todos os três setores podem provocar, por meio de suas interações, um resultado global muito mais grave. O modo como a economia dos EUA responderá à tempestade global perfeita que está se formando será algo interessante, para dizer o mínimo.

Jack Rasmus é autor de Epic Recession: Prelude to Global Depression (2010) e Obama’s Economy: Recovery for the Few, 2012. Ele também é apresentador do programa semanal de rádio, Alternative Visions, na Progressive Radio Network.