30 de março de 2014

O trunfo de "Marianne": Março de 2014, 70º aniversário do programa do CNR

Annie Lacroix-Riz e Georges Gastaud


Tradução / Atormentada pelo insaciável MEDEF, dividida entre a Europa federal em construção e a euro-regionalização galopante do território nacional, esvaziada do seu emprego produtivo por uma grande burguesia que sacrifica a indústria ao financeiro todo-poderoso (cf. o comportamento da família Peugeot) desprovida da sua proteção social e dos seus serviços públicos vindos do CNR, agredida até na sua língua pela invasão do inglês todo-poderoso, a França Republicana está ameaçada de decomposição.

À sua cabeceira, François Hollande, pequeno procônsul do Eixo Washington-Berlim-Bruxelas, só tem olhos para o grande patronato "nacional" e internacional. Mais grave ainda, o povo francês é chamado a "escolher" entre dois tipos de morte igualmente desonrosos: abandonar-se ao Partido Mastrichtiano Único (Pmu), formado pelo PS, UMP, do centro e da Europa-Ecologia, e a euro-austeridade eterna, tornará rapidamente inviável a ex-"doce França" com milhões de franceses em situação precária e empobrecidos.

Que o nosso povo, levado pela atual vaga azul-castanho-azul-marinho, acabe por optar por UM’Pen em gestação, e será a subida implosiva do racismo de Estado, violências intercomunitárias sobre um fundo de caça aos desempregados (os pretensos "auxiliados"), aos sindicalistas e aos funcionários. Nos dois casos, assistiríamos à negação inusitada da herança da Revolução francesa, da Comuna, das leis de 1905, da Frente popular e do CNR, com a terceira-mundialização das classes populares à cabeça e uma parte maior das "camadas médias". As municipais recentes de resto confirmaram e agravaram este quadro inquietante confrontando a direita radicalizada de M. Coppé e instalando a extrema-direita na escala local.

Ora a "esquerda da esquerda" não tem atualmente a capacidade de impulsionar o levante popular urgente. A "esquerda" do PS está ridicularizada pela opção neoliberal dura escolhida por Hollande. Quanto à Frente de esquerda, continua infelizmente prisioneira da mentira reformista da "Europa social" e "do euro ao serviço dos povos" em nome dos quais há decênios o PS se inscreveu na euro-desmontagem das aquisições sociais e da República. Acrescentemos a esse quadro sombrio que os estados-maiores sindicais euro-formatados e holando-complacentes apresentam uma grande inércia, com uma cumplicidade mal dissimulada, perante os incessantes ataques anti-sociais da UE, do MEDEF e do governo Ayrault.

Mas existem pontos de apoio para um contra-ataque progressista. As lutas duras multiplicam-se nas fábricas e nos serviços públicos. No plano ideológico, intelectuais progressistas tão diversos como J. Nikonoff, F. Lordon, A. Bernier, J. Sapir, E. Todd, o casal Pinçon-Charlot, pronunciam-se para que a França saia do euro, ou seja da UE e da OTAN, para alguns deles. À escala europeia, partidos comunistas e progressistas afastam-se do Partido da Esquerda europeia (presidida por Pierre Laurent), que admite em última análise a funesta moeda única. Personalidades não comunistas como Oskar Lafontaine (RFA) ou Tony Benn (Grã-Bretanha) apontam o dedo ao euro e colocam em causa a ruinosa "construção" europeia. Não só está claro que a UE não é sinônimo de democracia, de justiça social ou de prosperidade, que esse bloco reacionário, anticomunista e grosseiramente russófobo não receia promover em Kiev forças abertamente nazistas, como os conjurados da OTAN e da "União transatlântica" em gestação (na qual a UE imperial aspira a fundir-se sob os auspícios de Washington) não param de provocar confrontos político-militares explosivos do Próximo Oriente aos pés da Rússia passando pela África.

Mas nestas condições ainda há uma cartada de mestre para "Marianne"

É essencialmente a carta ideológica vencedora de uma nova dialética entre o patriotismo republicano e o internacionalismo popular de nova geração. Não, a ligação à soberania nacional não se opõe à cooperação internacional: constitui pelo contrário a condição como o demonstram os países latino-americanos da Alternativa bolivariana das Américas (Alba). Tão pouco a defesa republicana da soberania nacional se opõe ao internacionalismo dos trabalhadores e à resistência anti-imperialista dos povos, pois é associando-se um ao outro, como foi o caso de 1936 ou durante a Resistência, que o patriotismo e o internacionalismo progressistas poderão vencer a aliança duvidosa do euro-atlantismo, nacionalismos reacionários, comunitarismos integristas e regionalismos da Antiga Senhora.

A seguir o mapa estratégico de uma ruptura progressista com o euro, a OTAN, a UE, e o conjunto das instituições do neoliberalismo em perspectiva, a ruptura revolucionária com o capitalismo. Se a França sair, pela via progressista desta prisão dos povos que é a UE, não só as bases de uma reconstrução da nossa economia produtiva poderiam ser reconstituídas, não apenas uma política avançada inspirada nos princípios do CNR poderia ver o dia, mas este desmoronamento politico salutar — necessariamente impulsionado pela Frente antioligárquica, soldando as camadas médias ao mundo do trabalho — lançaria o nosso povo à ofensiva suscitando a simpatia dos trabalhadores bem para lá do continente europeu.

É enfim o mapa tático de uma campanha de massas para deslegitimar sobre bases progressistas a monstruosa UE de Maastricht; para isso convém boicotar as eleições ao parlamento europeu. Já a maioria dos cidadãos europeus e principalmente os trabalhadores, os empregados, os pequenos camponeses e artesãos, recusam votar nestas eleições estrangeiras de que o único fim — a direita e a social-democracia tendo tomado o hábito de co-gerir o "parlamento" de Strasbourg — é extorquir aos povos um cheque em branco que permita à oligarquia instituir o "salto federal europeu" exaltado pelo MEDEF, o PS, os Verdes e a UMP; embora participar na mascarada signifique de fato "por um ato de cidadania", caucionar a obsolescência programada da República francesa. Ao apelo de forças republicanas diversas, quer venham do republicano Jean Moulin, do comunista Ambroise Croizat, do homem do 18 de Junho ou de Jean Jaurés, uma vasta frente francamente republicana poderia então organizar-se em todo o país para dar o seu pleno senso político em virtude da recusa de voto majoritário do nosso povo. Assim a "insurreição dos cidadãos" pedida pela Frente de esquerda sem produzir até agora o menor efeito tangível, poderia pôr em movimento milhões de cidadãos. Hoje, "dentro do possível" o campo do trabalho, da República e do progresso social poderia passar pela brecha de uma abstenção de cidadãos de massas para retomar a iniciativa nos planos social, cultural e político.

Para que o povo francês possa jogar essa cartada de mestre todos os que querem fazer viver os ideais muito atuais do CNR e forçar as barras da prisão euro-atlântica têm o dever, no "momento atual", de impor todos juntos um debate abrangente de massas sobre a saída unilateral da UE atlântica, da OTAN, e da ruinosa moeda única.

Annie Lacroix-Riz e Georges Gastaud militam no Polo de Resistência Comunista na França (PRCF).

28 de março de 2014

O paradoxo Obama

Continuidade e mudança... Para pior

Andrew Levine

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Barack Obama, candidato, prometeu mudanças; eleito, só entregou continuidade; mas a continuidade provocou mudança – para pior.

Em 2008, “mudança” significava qualquer coisa que os eleitores desejassem que significasse. Como o candidato, a palavra era uma mancha de teste Rorschach.

Muitos, provavelmente a maioria dos eleitores de Obama, não tinham sequer ideia de que tipo de mudança esperavam. Só sabiam que, no governo de George W. Bush, o país perdera dramaticamente o próprio rumo. Supunham que Obama daria algum jeito naquilo.

Alguns eleitores tinham expectativas mais específicas. Alguns pensavam que Obama varreria do país o neoliberalismo. Com uma crise financeira e econômica perigosa, a hora parecia ter chegado, o momento parecia maduro.

Alguns esperavam que Obama restaurasse o Estado de Direito e o respeito à lei, devolvendo as coisas, no mínimo, ao que eram antes do 11/9; muitos esperavam que os criminosos de guerra da era Bush fossem levados aos tribunais.

Outros supunham que o Partido Democrata voltaria a ser mais parecido com o que fora antes de os Clintons acabarem com ele.

A lista continua.

Claro, ninguém sabia o que “mudança” significaria para Obama. Talvez nem Obama soubesse. Não havia como ele ser mais vago.

Mas num ponto, todos, exceto talvez o próprio candidato e seus assessores mais próximos, concordavam: Obama transformaria o regime Bush-Cheney pós-11/9, transformaria totalmente, seria outro, completamente outro.

Não poderiam estar mais errados.

Talvez tivessem ideias diferentes; talvez Obama fosse doente do que os antigos gregos chamavam de akrasia, fraqueza de vontade. Talvez jamais tenha havido qualquer uma ali.

Os mais ardentes apoiadores de Obama, os que continuaram com ele quando já se tornara bem claro que nenhuma mudança viria, culparam os Republicanos; muitos ainda culpam, até hoje. A América corporativa garante-lhes palco noturno, todas as noites: chamam a coisa de MSNBC.

Mas enganam-se a si próprios. Nem ante a obstinação e determinação dos Republicanos, o governo Obama precisaria ser tão perfeitamente igual ao governo Bush-Cheney como se tornou.

Seja como for, os elogiadores de Obama têm um ponto a seu favor: os Republicanos são realmente aplicados, realmente se dedicaram a garantir que o governo Obama fosse um fracasso.

Assim, pode-se dizer que os elogiadores de Obama não são, propriamente ditos, iludidos. Apenas, que deram ao homem deles – e à oposição – demasiado crédito.

Quem sabe o que Obama realmente pensa sobre os assuntos do dia, ou como compreende a relação entre o que diz e suas reais intenções. A única coisa que se pode afirmar com certeza é que as palavras de Obama são vagas, sem compromisso; e que, para todos os objetivos práticos, Obama e seus companheiros Democratas são idênticos aos Republicanos.

Isso não é surpreendente, eles se alimentam do mesmo cocho. O antagonismo entre eles é tático, não estratégico ou ideológico.

De fato, o racismo modela as atitudes Republicanas, além de outras ansiedades de status e convicções ideológicas básicas. Os Democratas, no geral, são gente mais simpática. Mas, no fundo, os dois partidos só querem vencer as próximas eleições. Para eles trata-se de servir melhor ao 1%.

São péssimas notícias para os 99% de nós, cujos interesses e bem-estar não poderiam estar mais entregues às traças. Mas isso é o de menos. Quando nossos “líderes”, não importa o partido, põem os olhos em pontos bem além de nossas (cada dia mais policiadas e militarizadas) fronteiras, todo o planeta padece.

Ainda assim, seria de esperar que houvesse alguma, qualquer, pouca, que fosse, competência na Casa Branca e em todo o establishment da Política Externa dos EUA, proporcional à magnitude das tarefas. O que se constata de mais impressionante é que essa expectativa foi negligenciada igualmente, por governos Republicanos e Democratas, já há um quarto de século.

Quando James Baker e Brent Scowcroft deixaram o governo, quem, em sã consciência, suporia que teriam sido os melhores de tudo que viria depois deles? E, ainda antes, quem suporia que os dias de Zbigniew Brzezinski e Henry Kissinger seriam vistos como uma Idade de Ouro, quando gigantes marchavam sobre a face do planeta?

Barack Obama, como Bill Clinton e George W. Bush antes dele, puseram um bando de imbecis sem-noção, encarregados de lançar o peso dos EUA contra todo o mundo. Não é surpresa que, agora, a coisa toda já esteja desabando sobre a cabeça deles mesmos.

No caso de Bush, a loucura foi de tal ordem que até o cachorrinho de Bush poderia consertar alguma coisa. Mas então veio o presidente da “mudança” para dar andamento ao servicinho de antes.

Resultado disso, as vítimas do império sofreram um enormidade, mas, até agora, o império sobrevive sem arranhões. Grande demais para falir. Mas, ah, sim, até para isso, há limites.

O governo Obama extrapolou esses limites duas vezes. E duas vezes Vladimir Putin salvou Obama.

Putin salvou Obama de ser arrastado para uma guerra catastrófica contra o Irã, e Putin salvou-o de fazer naufragar os EUA envolvidos na guerra na Síria.

Mas o arqui-inimigo dos EUA não promete ter a mesma serventia, quando os gênios do Departamento de Estado e do Conselho Nacional de Segurança miram suas maquinações contra a própria Rússia.

O establishment de política exterior de Putin supera o de Obama em todos os campos e medidas. No instante em que deixar de interessar a eles ajudar a salvar Washington, a boa sorte de Obama acabará num minuto (hora de Nova York ou de Moscou, tanto faz).

Era melhor no tempo de Bush-Cheney? Não era. Mas o mundo mudou – em parte, porque as políticas de Obama nunca mudaram. Por isso, na maior parte, aquelas mesmas políticas são hoje mais tóxicas do que foram nos dias de Bush-Cheney.

Nesse sentido, até que mudamos, afinal de contas. Mas quando se fazem as contas, vê-se que estaríamos melhor, se tivéssemos conseguido menos do mesmo, em vez de mais do mesmo, como temos hoje.

Bush e Cheney atropelaram o devido processo legal e os direitos de privacidade, em nome da segurança. Com eles no poder, as limitações Constitucionais eram apenas pequeno inconveniente que eles se sentiam a vontade para ignorar.

Também para Obama. Mas, ao dar prosseguimento ao trabalho dos dois que o precederam, Obama piorou qualitativamente, tudo. Graças a Edward Snowden, temos hoje ideia de como era ruim e de como ficou muito pior.

Não sabemos o quanto de terrorismo foi contido, se algum terrorismo, de fato, foi contido, por Bush e Cheney – ou por Obama. O que, sim, sabemos, é que eles aumentaram muito a oferta de terroristas possíveis. Para isso serve invadir países dos outros; para isso serve aterrorizar populações civis, lançando sobre elas morte e desgraça.

Obama fez aumentar muito o nível do terror, mesmo que talvez tenha reduzido o nível geral de violência bélica.

Seus antecessores também usaram assassinos profissionais e drones. Mas, na quantidade, preferiram soldados e bombardeiros. No geral, faziam a coisa à moda antiga.

Obama, o candidato da paz, manteve todas aquelas guerras; escalou, até, algumas delas por algum tempo – o suficiente para repaginar as ocupações do Iraque e do Afeganistão.

Mas Obama deu preferência ao assassinato clandestino – a maioria dos assassinatos cometidos por Obama foram cometidos por assassinos mascarados e por drones. Com isso, Obama modificou a postura dos militares norte-americanos. De um ponto de vista moral, ficaram piores do que eram.

Agora, o terror já não é só o último recurso dos humilhados; agora, já é também primeira escolha de um exército super equipado, mais mortífero que todos os demais exércitos do mundo somados.

Ao assumir a coisa no ponto em que Bush e Cheney a deixaram, esse laureado do Prêmio Nobel pôs à solta o equivalente funcional de um exército de suicidas-bombas, lançando partes imensas do mundo muçulmano num perpétuo reino de terror.

Os drones de Obama são especialmente daninhos.

Por um lado, porque são ainda piores que suicidas-bombas, porque aterrorizam mais eficientemente populações civis. Gente comum pode evitar locais que suicidas-bombas tendem a escolher como alvos; mas ninguém consegue pôr-se a salvo daqueles drones.

E, de um ponto de vista moral, matar com drones é, visivelmente, crime pior. Suicidas-bombas dão a vida pela própria causa. No fim do dia de trabalho, os operadores de drones norte-americanos jantam em casa com a família.

Os seus superiores, os que ordenam a matança, esses, envolvem-se ainda menos. Quem decide quem morrerá é Obama; seus funcionários decidem onde e quando; os sub-dos-subs apertam os botões. Quanto mais altos na cadeia de comando, mais eles têm cara de satisfeitos consigo mesmos.

Em questões ambientais, Obama também piorou as coisas, só por ter prosseguido nas políticas de nada fazer dos predecessores. Enquanto isso, as mudanças ecológicas continuam e rapidamente todos os perigos só fazem aumentar.

O governo Obama introduziu algumas poucas mudanças para melhor: por exemplo, nos padrões de emissões de gás carbônico. Mas nada fez contra as grandes causas do aquecimento global. Assim, a cada ano que passa, aproximam-se os pontos sem volta; alguns já ficaram para trás.

E há também a tendência, em Obama, de aprofundar os danos iniciados pelos predecessores, o que Obama consegue mediante políticas de implementação mais efetivas.

Mas o que Obama mais faz é falar e engambelar quem o ouça. Por exemplo: Obama falou muitas vezes a favor da reforma das leis da imigração; sim, mas... o recorde de deportações de Obama é muito superior ao de Bush. Contra o trabalho organizado, também, Obama fez muito mais que Bush.

Em linha semelhante, Obama jamais disse uma palavra que não fosse a favor da transparência no governo e da importância de uma imprensa crítica vigorosa. Quem o ouça falar, pensará que é o melhor amigos dos vazadores. Sim, mas, também nesse quesito, Obama tem sido pior que Bush e Cheney ou, na verdade, pior que todos os presidentes antes dele, exceto talvez, Richard Nixon.

O homem fala como papagaio. Não diz coisa com coisa. Claro, nas questões domésticas, ele tem lá suas razões, prestem ou não. Mas no front diplomático, parece não haver sequer uma linha de pensamento coerente por trás do que ele diz; nem ele nem sua equipe, nada, sequer alguma vaga ideia.

Por isso o mundo hoje é ainda mais perigoso do que quando Obama assumiu.

O problema não é só que a Guerra ao Terror, e sua continuação no governo Obama, tenha sido estupendamente contraproducente; que criou e reuniu terroristas muito mais depressa do que os assassinos profissionais e os drones e os “coturnos em solo” conseguiam matá-los.

Já se vai tornando claro também que as guerras Bush-Obama desestabilizaram toda a região – da Líbia ao Paquistão e ultimamente, sob o “comando” de Obama, também das margens do Tigre ao Mar Mediterrâneo.

O Leste da África, áreas muçulmanas muito distantes, no Oceano Pacífico, também foram incendiadas, e estão hoje em situação pior que antes.

As guerras do governo Bush-Obama também reforçaram o papel do Irã como potência regional. Seja isso bom, ou mau, é claro que esse jamais foi o objetivo dos EUA e de Israel.

Claro, o sem-noção total é faca de dois gumes. A América Latina muito se beneficiou do fato de os EUA estarem metidos simultaneamente em vários pântanos no Oriente Médio.

Enquanto Bush e Obama olhavam para outro lado, floresceram movimentos populares na Nicarágua, no Equador, na Bolívia e no Uruguai. E também o Brasil e a Argentina começam a deslocar-se para a esquerda.

E, apesar de várias tentativas desde o 11/9 – a mais recente está ainda em andamento nesse momento – os EUA não conseguiram derrubar o governo democraticamente eleito da Venezuela. A guerra sem fim que os EUA fazem contra Cuba está hoje mais perdida que antes.

Ao sul dos EUA, os ataques do 11/9 – ou, melhor dizendo, a reação dos EUA àqueles ataques – foram, pode-se dizer, um presente de Deus.

Já é cada dia mais evidente que, pelo menos num sentido, também foram presente de Deus para o resto do mundo. As manobras contraproducentes dos EUA contra o mundo muçulmano levaram a um beco sem saída os planos de EUA e União Europeia para levar as fronteiras do “ocidente” até as portas da Rússia e para cercar a Rússia com bases da OTAN.

Esse plano foi posto em andamento nos tempos de Clinton. A Rússia então não estava em posição de poder oferecer muita resistência – não naquele momento, quando cleptocratas governavam o país, e a maioria da população russa padecia dificuldades econômicas, desemprego e perda de serviços públicos, resultados da restauração, na Rússia, de um sistema econômico antiquado.

O sucesso dos EUA−Europa (principalmente, a Alemanha), no desmembramento da Iugoslávia, serviu então como prática e estímulo. Com o novo milênio chegando, o futuro parecia aberto para eles.

Mas então veio o 11/9 e as prioridades mudaram. Hoje, parece que estão mudando outra vez, para trás.

Evidentemente os sétimos céus da política exterior dos EUA convenceram-se de que, além de prosseguirem contra o Oriente Médio, a Ásia Central e o subcontinente indiano, é hora de meterem também a Rússia, de volta, na alça de mira.

Tudo isso pode ter a ver também com o petróleo, pelo menos em alguma medida; mas o petróleo não é o fator principal. E vai bem além das exigências de comandar algum império global ou tornar o mundo seguro – ou ainda mais seguro – só para os capitalistas ocidentais.

Os capitalistas ocidentais não precisam de nenhum tipo de renascimento do fascismo europeu e do antissemitismo europeu. Nem eles precisam, nem nós precisamos. Tampouco, nem eles nem nós precisamos de movimentos à Al-Qaeda brotando por todo o Oriente Médio, ou pelo centro e sul da Ásia.

Mas as políticas de nossos “líderes” levaram todos a isso. Desnecessário dizer que chegaram onde não lhes interessava chegar. Mas, sendo assim, o que, afinal, eles têm em mente? Bobagem procurar. Nada têm em mente que seja, sequer remotamente, coerente; o mais provável é que absolutamente não saibam o que fazem.

Mesmo assim, seguem “em frente”. Com os velhos “satélites” soviéticos já pendurados nos EUA e na Europa, a única coisa que lhes resta é levar a União Europeia e a própria OTAN para dentro da própria velha União Soviética.

A ideia é ridícula, risível, e não só porque a Rússia é hoje muito mais poderosa do que foi nos anos 1990s. Se o império Americano não estivesse em mãos tão incompetentes, nada disso estaria acontecendo.

Derrubar governos recalcitrantes nunca foi difícil para os serventes do império. Os velhos métodos foram aperfeiçoados, primeiro, na América Latina. Depois da IIª Guerra Mundial, foram aplicados no resto do mundo.

A fórmula é simples: invista dinheiro pesado em criar o caos. Depois, no momento adequado, apoie com discrição golpes de estado locais, perpetrados por fregueses ou simpatizantes.

É exatamente o que estão fazendo nesse momento – até aqui sem sucesso – na Venezuela.

Mas, até hoje, os “líderes” dos EUA sempre tiveram o bom senso de manter suas maquinações confinadas nas esferas de influência dos EUA ou em áreas periféricas que não gerassem graves preocupações de segurança para as grandes potências.

Depois da II Guerra Mundial, não havia grande potência maior que a União Soviética. Era aceitável encorajar dissidentes lá e na Europa Oriental. Mas nenhum “líder” norte-americano seria suficientemente doido para falar em “mudança de regime”; não, é claro, com a possibilidade de desencadear uma guerra nuclear. O papel de Eisenhower no Levante da Hungria em 1956 foi, nesse sentido, exemplar.

A Rússia pós-1991 ainda era capaz de reduzir o planeta a poeira. Assim sendo, até Bill Clinton mostrou algum bom senso. Foi levado pelas circunstâncias – mas não ao ponto de total temeridade. E safou-se.

É pouco provável que sua esposa tenha tido muito a ver com os planos de ampliar a União Europeia ou de levar a OTAN para a fronteira da Rússia. Não parece tampouco que fosse item de sua lista-de-supermercado quando foi Secretária de Estado do governo Obama.

Mas Hillary Clinton pula, lépida, em qualquer vagão que passe por ali. E, sim, já abraçou abertamente a causa. Em sua alocução de estreia, já logo declarou que Vladimir Putin “é Hitler”.

Frase idiota. Mas, se se considera a fonte, perfeitamente esperável.

Obama foi além dessa, nas imbecilidades. Falando na Bélgica, depois de reunir-se com líderes do G-7 (mais, e agora menos, 1), não teve vergonha nem de insultar o presidente da Rússia: disse que não passa (ria) de líder de potência regional cujas ações manifestam fraqueza. Falou como maluco. Obama chamou Putin, de fraco. Como consegue ainda olhar a própria cara no espelho?

Mas... e como consegue olhar alguém de frente, depois de acusar Putin de ter violado a lei internacional? Obama é inacreditável.

Será que a ideia de reviver as políticas da era Clinton é ideia de Obama? Ou se devem culpar eminências secundárias como John Kerry, ou aqueles horrendos “interventores humanitários” que Obama cobriu de poderes? Seja a culpa de quem for, a ideia de gerar riscos de segurança nacional para a Rússia é a pior ideia que alguém teve, nos EUA, desde o dia em que George W. Bush, caído em desgraça, saiu da Casa Branca.

Se Obama era dito “menos ruim” que John McCain em 2008, era, precisamente, porque se dizia não cúmplice desse tipo de ideia. Se se observa a inclinação que McCain manifesta hoje de não se envergonhar de exibir a própria temeridade tresloucada, Obama & McCain fazem, isso sim, perfeita dupla.

Seja como for, já está claro que EUA e União Europeia – e os nacionalistas ucranianos cujo golpe encorajaram – perderam tudo, pelo menos num item: nada e ninguém desfará a incorporação da Crimeia à Rússia.

Com todos os erros e falhas, Putin e sua equipe são tão absolutamente melhores que Obama e sua gangue, que, a partir do momento em que se organizam para agir, os russos sempre se saem melhor, mesmo que tenham de jogar com cartas mais fracas.

Felizmente, os russos não são só mais espertos: também são mais sábios. Sabem quando não forçar a própria boa sorte; por isso, esperemos, saberão lidar com opositores tão totalmente sem-noção, sem rumo e sem vergonha quanto os que lhes apareceram agora.

Por isso, é bem provável que os EUA nos safemos de mais essa. Os perigos que Obama et. alii lançaram sobre o mundo, quando resolveram meter as garras na Ucrânia, continuarão, provavelmente, contidos.

Diferente dos EUA, a Rússia tem interesses legítimos de segurança nas repúblicas ex-soviéticas. Obama e sua gangue são, portanto, como crianças brincando com fósforos. Os russos, como tudo indica, também sabem resistir a provocações imbecis.

Porque, sim, os russos foram provocados. E continuarão a ser provocados. Obama pode, sim, decidir pôr fim às provocações, mas, até aqui, só tem feito o contrário.

Nos últimos dias, a animosidade anti-Rússia parece já ter ultrapassado todos os muros de Washington. E para onde andem Democratas e Republicanos, atrás deles segue toda a imprensa-empresa. Os suspeitos de sempre estão ocupadíssimos, tentando provocar o máximo dano possível, com a maior velocidade possível.

Nunca mais, desde a invenção da Guerra do Iraque, viu-se tanta propaganda de promoção dos erros e loucuras do governo dos EUA, como agora. A National Public Radio (NPR) está excepcionalmente insuportável. Eu, pessoalmente, já não suporto ouvir aquilo, nem para manter uma vozinha de fundo, enquanto trabalho.

Se os russos não morderem a isca e não descerem ao nível de Obama, as consequências são terríveis.

E o futuro não será melhor, se não morderem nem descerem. A equipe Obama faz o que bem entende com tanta frequência, que quanto mais fazem, mais querem fazer.

Portanto, se não forem detidos, as provocações continuarão, cada dia mais perigosas. Há outras repúblicas ex-soviéticas por lá; e não se pode esquecer que Obama ainda comicha de vontade de pivotear-se “na direção da Ásia”.

Em outras palavras, Obama também está olhando na direção da China. É terrível. Tampouco nisso, vê-se qualquer sinal de prudência naquela cabeça.

É grave ironia – e patética ironia – que a melhor esperança dos norte-americanos para evitar as piores consequências das políticas de Bush-Obama seja hoje um conservador russo, homem-forte liberal – presidente com inclinações autocráticas, mas, também, político consistente e competente, com senso histórico, suficientemente esperto e sábio para não se pôr a cometer loucuras armadas pelo planeta. Não é o melhor que se pode esperar da democracia. Apenas mostra o quanto a democracia norte-americana está distante da democracia ideal.

Mas, com presidente incompetente, sem vergonha e sem noção – e sistema político tão corrupto e degradado que já não garante a mudança para a qual os eleitores votam – o que temos hoje nos EUA é o máximo de “hope” e de “change” que sobrou para nós.

Como Vladimir Putin tornou-se mal

Os EUA e o Reino Unido condenaram-no pela Crimeia mas o apoiou durante a guerra na Chechênia. Por que? Porque agora ele se recusa a jogar o jogo.

Tariq Ali

The Guardian

[Tradução] Mais uma vez, parece que a Rússia e os Estados Unidos estão encontrando dificuldades para chegar a acordo sobre a forma de lidar com as respectivas ambições. Este choque de interesses atingiu o auge na crise ucraniana. A provocação, neste caso particular, como sugere a gravação que vazou de uma diplomata dos EUA, Victoria Nuland, dizendo “Foda-se a União Europeia”, veio de Washington.

Várias décadas atrás, no ápice da Guerra Fria, George Kennan, um estrategista da política externa americana informou a audiência de suas palestras: “Não há, deixe-me assegurá-los, nada na natureza mais egocêntrico do que a democracia em apuros. Logo ela se torna vítima de sua própria propaganda. Em seguida, ela tende a dar a sua causa um valor absoluto que distorce a sua própria visão... O inimigo se torna a personificação de todo o mal. Ela é o centro de todas as virtudes”.

E assim continua. Washington sabe que a Ucrânia tem sido sempre um assunto delicado para Moscou. Os ultranacionalistas que lutaram com o Terceiro Reich durante a Segunda Guerra Mundial mataram 30 mil soldados russos e comunistas. Pavel Sudoplatov, um chefe da inteligência soviética, escreveu em 1994: “As origens da Guerra Fria estão intimamente entrelaçadas com o apoio ocidental à agitação nacionalista nas áreas bálticas e na Ucrânia ocidental.”

Quando Gorbachev assinou o acordo da reunificação alemã, o secretário de Estado dos EUA Baker assegurou-lhe que “não haveria expansão da jurisdição da Otan nem uma polegada para o leste”. Gorbachev repetiu: “Qualquer expansão da Otan é inaceitável.” A resposta de Baker: “De acordo”. Uma das razões que levaram Gorbachev a apoiar publicamente Putin na Crimeia é que sua confiança no Ocidente foi tão cruelmente traída.

Enquanto Washington acreditava que os líderes russos cegamente faziam o que lhe interessava (especialmente o bêbado Yeltsin), Moscou teve apoiou. O ataque de Yeltsin ao parlamento russo em 1993 foi festejado nos meios de comunicação ocidentais. As agressões à Chechênia por Yeltsin e depois por Putin foram tratadas como um pequeno problema local por George Bush e Tony Blair. “A Chechênia não é o Kosovo”, disse Blair depois de sua reunião com Putin em 2000.

O livro de Tony Wood, “Chechênia: a favor da independência”, fornece capítulo e versículo dos horrores que foram infligidos a esse país. A Chechênia tinha sido independente entre 1991 e 1994. Seu povo observou a velocidade com que as repúblicas bálticas fizeram sua independência e queria o mesmo para si.

Em vez disso, foram bombardeados. Grozny, a capital, foi praticamente reduzida a pó. Em fevereiro de 1995 dois economistas russos corajosos, Andrey Illarionov e Boris lvin, publicaram um texto no Moscow News a favor da independência da Chechênia e o jornal também publicou algumas excelentes reportagens que revelaram atrocidades em grande escala, superando o cerco a Sarajevo e o massacre de Srebrenica. Estupro, tortura, refugiados desabrigados e dezenas de milhares de mortos. Nenhum problema para Washington e seus aliados da União Europeia.

No cálculo dos interesses ocidentais não há sofrimento, qualquer que seja a sua dimensão, que não possa ser justificado. Chechenos, palestinos, iraquianos, afegãos, paquistaneses são de pouca importância. No entanto, o contraste entre a atitude do Ocidente em relação à guerra na Chechênia e a Crimeia é surpreendente.

A invasão da Crimeia não teve nenhuma perda de vida e a população claramente queria fazer parte da Rússia. A reação da Casa Branca foi o oposto da sua reação à Chechênia. Por quê? Porque Putin, ao contrário de Yeltsin, está se recusando a baixar a cabeça para a expansão da Otan, as sanções ao Irã, a Síria etc. Como resultado, ele se tornou o mal encarnado. E tudo isso porque decidiu contestar a hegemonia dos EUA usando os métodos frequentemente implantados pelo Ocidente. (As repetidas incursões da França na África são apenas um exemplo.)

Se os EUA insistem em usar o ímã da Otan para atrair a Ucrânia, é provável que Moscou irá separar a parte oriental do país. Aqueles que realmente valorizam a soberania ucraniana devem optar pela independência real e uma neutralidade positiva: nem um brinquedo do Ociente e nem de Moscou.

O negócio do FMI na Ucrânia

Indo em direção a crise como a Grécia?

Jack Rasmus

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Em 27 de março de 2014 o FMI divulgou os traços gerais dos seus termos e condições para empréstimos e outras medidas destinados à economia ucraniana. O que significam aqueles termos e condições é menos um resgate da economia ucraniana do que o anunciar de uma crise econômica como a grega para a massa do povo ucraniano.

A economia da Ucrânia entrou claramente numa recessão, a sua terceira desde 2008, em algum momento no segundo semestre de 2013. Algumas estimativas recentes da provável contração da economia em 2014-15 variam de 5% a 15% em termos de declínio do PIB.

O texto do "IMF Standby Agreement with Ukraine" divulgado em 27 de março reconhece a atual grave instabilidade econômica da ucraniana. O que deixa de reconhecer, contudo, é como o pacote do FMI impactará ainda mais adversamente aquela economia.

O acordo proposto pelo FMI fala em US$14 a US$18 bilhões de apoio financeiro a serem fornecidos ao longo dos próximos dois anos, 2014-15. Outros US$9 bilhões potenciais virão de outros países, embora de forma ainda não especificada. O Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento aparentemente fornecerá US$2 bilhões daqueles US$9 bilhões. Presumivelmente o pacote da ajuda americana e torno dos US$1-US$2 bilhões agora atualmente a tramitar no Congresso dos EUA representa mais um elemento dos US$9 bilhões. Os US$5 bilhões dos restantes US$9 milhões de financiamento não-FMI ainda não estão identificados.

O total de US$27 bilhões está bem acima dos US$15 bilhões que eram falados nas semanas anteriores pela imprensa pública e mais do que os US$20 bilhões que a Ucrânia pediu ao FMI no fim de 2013 – uma indicação de que a economia tem estado a deteriorar-se mais rapidamente do que o informado a partir do princípio de 2014.

Em artigos anteriores sobre a situação econômica da Ucrânia há algumas semanas, o autor deste texto estimara que pelo menos US$50 bilhões seriam necessários para estabilizar a economia da Ucrânia nos próximos dois anos. Aquele número pode mesmo elevar-se em 2015.

A declaração de 27 de março do FMI trata do que considera as mais importantes fraquezas da economia ucraniana e que exigem atenção imediata e concentrada. Aquelas fraquezas incluem o atual défice comercial da Ucrânia, suas reservas de divisas internacionais em declínio rápido, seu défice orçamental e o défice do orçamento da sua companhia nacional de gás de propriedade do Estado, a Naftogaz.

O FMI estima que o défice comercial da Ucrânia (exportações menos importações) em cerca de 9% do PIB (US$17 bilhões por ano) é devido à estagnação das exportações. O que o FMI propõe a fim de resolver isto é permitir que a divisa da Ucrânia continue a "flutuar mais livremente". A divisa ucraniana até então em 2014 já caiu 26% em relação ao dólar. Assim, a ideia é permitir que a divisa decline ainda mais. Em teoria, isso tornará as exportações ucranianas mais competitivas e por sua vez reduzirá o défice comercial. O problema é que também resultará numa ascensão drástica do custo das importações e portanto inflação para as famílias ucranianas. A política do FMI de promover ainda mais declínio da divisa significará, por outras palavras, ainda mais inflação interna, atingindo primariamente as famílias e portanto menos gastos das mesmas com outros bens e serviços.

Permitir que a divisa decline ainda mais sugere que a política do FMI é no sentido de o banco central ucraniano não intervir agressivamente nos próximos meses para apoiá-la nos mercados globais. Isso liberta mais dos fundos do FMI para pagamentos de serviço de dívida a bancos ocidentais pelos empréstimos atuais e passados. Como indica a declaração do FMI, "grandes reembolsos de dívida externa assomam em 2014-15". O montante dos pagamentos da dívida é estimado em US$ 6,2 bilhões. Assim, as famílias ucranianas pagarão em parte a dívida aos bancos ocidentais tendo de ajustar-se a inflação mais alta e reduzindo seu gasto real.

Uma vez que US$6,2 bilhões do pacote total do FMI de US$27 bilhões irão para pagamentos do serviço da dívida ao ocidente, isso também significa que potencialmente restarão apenas US$21 bilhões do salvamento do FMI para estimular a economia ucraniana. Mas a palavra chave aqui é "potencialmente", desde que muito menos do que os US$21 bilhões irão realmente para a economia – e serão compensados por muito mais "retirados" pelo acordo com o FMI.

Uma injeção líquida do FMI de US$21 bilhões é uma ilusão econômica. Eis o porquê.

Em primeiro lugar, a economia da Ucrânia declinará devido ao pacote do FMI porque as suas medidas exigem grandes mudanças nas políticas monetária e orçamental do país que arrefecerão, não estimularão, a economia ucraniana.

Exemplo: a declaração do FMI pede uma política monetária que tenha em vista "estabilidade de preços interna mantendo ao mesmo tempo uma taxa de câmbio flexível". Isso significa que ao banco central, o Banco Nacional da Ucrânia (BNU), será exigido reduzir a ofertar monetária do país e portanto elevar taxas de juros internas, como parte de "uma estrutura objetivando a inflação nos doze meses seguintes para ancorar firmemente expectativas inflacionárias". Traduzindo o jargão econômico, isso significa que a política do BNU e do FMI de elevar taxas de juro enfraquecerá a economia a fim de compensar pressões inflacionárias esperadas das importações que ocorrerão com um novo declínio da divisa. Essa política de alta da taxa de juro destinada a compensar a esperada inflação importada deprimirá mais uma vez a economia real. E isso traduz-se numa nova perda de empregos quando os negócios cortarem a produção devido à ascensão dos custos com juros.

Mas isso ainda não é nem a metade. As medidas do FMI não só resultarão em aumento da inflação importada como produzirão ainda maiores pressões inflacionárias devido aos termos ditados pelo FMI quanto ao gás natural da Ucrânia. As estimativas são de que os preços do gás natural aumentarão em 79% devido ao aumento de 50% nos preços do gás ditado pelo FMI. Simultaneamente, como os preços do gás irão aumentar, os subsídios ao gás para as famílias serão totalmente eliminados ao longo dos próximos dois anos, segundo o FMI.

Tem-se informado que os subsídios ao gás para as famílias equivalem a 7,5% do PIB da Ucrânia. Assim, eliminar subsídios ao gás significa uma redução no consumo de US$6,5 bilhões por ano, pois as famílias terão de reduzir outros consumos para pagar agora pelas altas do preço do gás e a remoção gradual dos subsídios.

Essa remoção gradual dos subsídios e o aumento de 79% dos preços do gás significa um corte de US$13 bilhões no consumo real durante dois anos, 2014-15. Isso reduz em US$13 milhões os restantes US$21 bilhões do pacote do FMI, deixando apenas US$8 bilhões de potencial líquido para estimular a economia real. Contudo, essa ainda não é o quadro completo do impacto negativo do acordo com o FMI sobre a economia ucraniana.

O FMI também reclama reformas na "Política orçamental", ou aquilo a que chama a necessidade de "implementar ajustamento orçamental mais profundo" que "reduzirá o défice orçamental para cerca de 2,5% do PIB em 2016". Esse corte de 2,5% no orçamento representa outros US$4,5 bilhões de cortes nos gastos anuais total do governo ucraniano (e/ou aumentos de impostos), presumivelmente em cada um dos dois anos seguintes.

Os cortes nas despesas sem dúvida virão de reduções de emprego no governo e cortes nos salários para os trabalhadores remanescentes. Eles sem dúvida incluirão cortes profundos no sistema de pensões afetando todos os aposentados, os quais alguns estimam que significará cortes em pensões de até 50% em 2016. É possível que US$4,5 a US$9 bilhões em redução no défice do governo ao longo dos dois anos signifiquem altas nos impostos sobre vendas para famílias consumidoras quando os impostos sejam cortados para os negócios, uma vez que a declaração do FMI de 27 de março também clama por "medidas para facilitar o reembolso de IVA para os negócios".

Na sua declaração de 27 de março o FMI não especificou os cortes de empregos, salários e pensões que exige. Está claramente à espera que o governo interino ucraniano inflija esses ferimentos sobre si próprio e o povo ucraniano, a seguir aos quais a administração do FMI aprovará o acordo oferecido.

Em resumo, o documento de 27 de março reclama o pagamento de US$6,5 bilhões de serviço de dívida aos bancos e prestamistas ocidentais durante os próximos dois anos. Além disso exige a redução dos subsídios ao gás para as famílias em outros US$13 bilhões mais a remoção total dos mesmos. E indiretamente apela ao governo ucraniano para cortar despesas em pelo menos US$8 bilhões (2,5% do PIB) durante os próximos dois anos – na forma de cortes de empregos e salários na função pública e reduções no pagamento de pensões de prováveis 50% para a generalidade dos aposentados.

A soma de tudo isso, e não surpreendentemente, é cerca de US$27 bilhões. São US$27 bilhões de gastos e estímulos retirados da economia real ucraniana por imposição do FMI. Por outras palavras, quase os US$27 bilhões que o FMI supostamente providenciará para o PIB segundo o anúncio de 27 de março. O que significa que famílias ucranianas pagarão pelos US$27 bilhões do pacote do FMI com preços de gás mais elevados, eliminação de subsídios ao gás, cortes em empregos e salários no governo e grandes reduções no pagamento de pensões.

Mas os US$27 bilhões não são realmente um "compromisso equilibrado". São realmente um estímulo negativo para a Ucrânia devido à concordata com o FMI. É de recordar que os US$6,2 bilhões em pagamentos de serviço da dívida a saírem para o ocidente não terão qualquer impacto positivo sobre o PIB da Ucrânia. Assim, acima de tudo, são realmente apenas os US$21 bilhões líquidos do FMI "para dentro" contra os US$27 bilhões ucranianos levados "para fora" da economia pelas exigências do FMI. Mas mesmo US$21 bilhões "in" contra US$27 bilhões "out" não é ainda a verdadeira estimativa líquida.

Os US$27 bilhões retirados refletem um "efeito multiplicador" da despesa da família consumidora que é muito maior dos que os US$21 bilhões de injeção interna líquida do FMI na Ucrânia. Se se assumir de modo conservador um efeito multiplicador de 1,5, o montante retirado da economia ucraniana e superior a US$40 bilhões ao longo dos próximos dois anos – uma quantia maciça uma vez que o PIB da Ucrânia em 2012 não era mais do que US$175 e estava em estagnação em 2013. Naturalmente, os US$40 bilhões "saídos" são ajustados pelos US$21 bilhões entrados e seu efeito multiplicador. Mas enquanto os US$40 bilhões "saídos" verificar-se-ão com certeza, não há garantia de que toda a injeção de US$21 bilhões do FMI venha realmente a acontecer.

Uma parte daqueles US$21 bilhões sem dúvida serão "postos de lado" pelo banco central ucraniano para reforçar suas reservas de divisas estrangeiras, hoje em torno de apenas US$10 bilhões ou menos. Algo dela será utilizado para apoiar negociantes ucranianos na compra de importações europeias de bens intermediários, que se prevê aumentarem de custo significativamente à medida que a divisa da Ucrânia continue a declinar. E algo da mesma irá para empréstimos do BNU a negociantes ucranianos que entesourarão o dinheiro e não o utilizarão para expandir a produção. Tudo isto significa que não mais do que a metade da injeção líquida de US$21 bilhões do FMI afetará realmente a economia real ucraniana. Dadas estas "fugas", os efeitos multiplicadores das injeções do FMI sem dúvida demonstrar-se-ão negativos. Não é irrazoável assumir que não mais do que uns US$10 bilhões líquidos dos US$21 bilhões do FMI entrarão como estímulo na economia real da Ucrânia.

Isso deixa não mais do que uns US$10 bilhões de estímulo líquido durante dos próximos dois anos, compensados por um "multiplicador" de US$40 bilhões de reduções na economia real durante os mesmos dois anos. Uma redução líquida de US$30 bilhões no PIB da Ucrânia em dois anos, ou cerca de US$15 bilhões por ano, representa um declínio cumulativo no PIB de pelo menos 18%. E isso é uma Depressão como na Grécia.

Ao absorver a economia ucraniana na Eurozona, esta última está com efeito a tomar sob a sua asa econômica uma outra "Grécia" e "Espanha". E como no caso destas economias, aqueles que pagarão não serão os banqueiros nem os negociantes multinacionais e sim o povo ucraniano. Mas isso é a história essencial e repetida e o legado global dos acordos com o FMI durante as últimas três décadas.

Jack Rasmus é autor de Epic Recession: Prelude to Global Depression e Obama's Economy: Recovery for the Few (2012). Seu site é Kyklos Productions e o seu blog é Jack Rasmus.

26 de março de 2014

Ética e moral no Fim da História

Pete Dolack


Tradução / Estranho, não é?, que sistemas que supostamente representam o ápice do desenvolvimento humano – até mesmo o fim da história – não tenham espaço para ética e moralidade.

Talvez isso se torne inevitável quando uma ideologia se desenvolve a um ponto em que a economia é considerada algo separado do meio ambiente. A partir desse ponto de vista dúbio – para ser bastante singelo – a trajetória que leva a ver o meio ambiente — e as riquezas naturais e a vida que fazem parte dele — como nada mais do que uma vaca a ser ordenhada à vontade, não é muito longa. Uma floresta não conta nada a não ser que possa ser transformada em dinheiro, o que em geral significa derrubá-la. Água limpa? Ar limpo? Artigos de luxo para aqueles que podem pagar por eles e, em consequência, lucro para os que podem engarrafá-los e criar um mercado para esses produtos.

Um artigo muito bem pensado, publicado na edição de maio de 2009 do Monthly Review me fez pensar mais sobre isso. Os autores do artigo intitulado Capitalismo no País das Maravilhas, escrito por Richard York, Brett Clark e John Bellamy Foster, discute modelos usados por economistas consagrados, que variam apenas na medida do quanto descontam a vida no futuro. Sim, é de um sangue frio exatamente como soa.

Economistas neoclássicos baseiam suas conclusões cada vez mais insanas no fato de que o aquecimento global não é um grande problema, no pior dos casos vai provocar pequenos estragos econômicos, na versão conveniente e para o benefício de poucos, de que gerações futuras serão mais ricas e portanto será mais barato para nossos descendentes limpar nossa sujeira do que seria para nós.

Os autores escrevem:

“A diferença entre eles não diz respeito à ciência por trás da mudança climática mas nas suas suposições a respeito da correção de transferir o ônus para gerações futuras. Isso deixa clara a ideologia inserida no pensamento neoclássico ortodoxo, uma área que em geral se apresenta como se usasse métodos objetivos, até mesmo naturalistas, para desenhar modelos econômicos. Entretanto, para além de todas as equações e do jargão técnico, o paradigma econômico dominante é construído sobre um sistema de valores que premia a acumulação de capital no curto prazo, enquanto desvaloriza tudo mais relativo ao presente e ao futuro”.

A partir daí, economistas ortodoxos descem uma ladeira escorregadia na qual alguns humanos têm valor e outros, não. Um exemplo desta mentalidade é o memorando de Lawrence Summers, escrito quando ele era economista chefe do Banco Mundial, no qual ele afirmou:

“Eu acho que a lógica econômica por trás de jogar lixo tóxico em países de salários baixos é impecável e nós devemos encará-la. [...] Os custos da poluição provavelmente são não-lineares, os incrementos iniciais da poluição têm, provavelmente, um custo inicial bem baixo. Eu sempre achei que países pouco populosos da África são amplamente subpoluídos”.

A atitude de Summers, apesar de não se expressar de forma tão direta, não está fora de compasso com a profissão dele. Os autores de Capitalismo no País das Maravilhas deixam bem claras as ramificações deste tipo de pensamento:

“De fato, a vida humana só vale o quanto cada pessoa contribui para a economia, o que é medido em termos monetários. Então, se o aquecimento global aumenta a mortalidade em Bangladesh, o que parece ser o caso, isso só se reflete em termos de modelo econômico na medida em que as mortes em Bangladesh afetam a economia (global). Já que Bangladesh é muito pobre, os modelos econômicos [...] estimarão que não vale à pena evitar mortes lá, já que essas perdas se mostrarão minúsculas nas medidas. [...] Essa ideologia econômica, claro, se estende para além da vida humana, já que todas as milhões de espécies da terra são avaliadas de acordo apenas com o que contribuem para o Produto Interno Bruto. Então, preocupações éticas a respeito do valor intrínseco da vida humana e da vida de outras criaturas são completamente invisíveis nos modelos econômicos-padrão. Aumentar mortalidade humana e acelerar a velocidade de extinção, para muitos economistas, são problemas apenas se afetam o ‘resultado final’. Em outros aspectos, eles são invisíveis: como no mundo natural como um todo”.

Essa é a irracionalidade e a imoralidade subjacente que impelem industriais e financistas a permitir que o “mercado” tome todas as decisões sociais. Mercados não são nada mais do que interesses agregados dos maiores e mais poderosos industriais e financistas. Através de seu controle da economia mundial, eles são capazes de exercer poder decisivo sobre os governos, que não são entidades sem corpo flutuando acima da sociedade e sim reflexo do poder e das fraquezas relativas das forças sociais.

A corporação moderna tem uma obrigação legal de prover o máximo de lucro possível a seus acionistas. Em outras palavras, é esperado que atue de forma a aumentar seus lucros sem se preocupar com mais nada. A corporação é considerada uma pessoa, de acordo com a legislação norte-americana – uma pessoa que não tem limites biológicos, nem barreiras para seu crescimento. Joel Bakan, na introdução de seu livro Corporação: a Busca Patológica de Lucro e Poder resumiu desta forma a instituição dominante do capitalismo:

“O mandato da corporação, definido por lei, é buscar, incessantemente e sem exceção, o seu interesse próprio, sem se preocupar com as consequências muitas vezes negativas que pode provocar aos outros. Como resultado, eu argumento, a corporação é uma instituição patológica, detentora de um poder perigoso sobre as pessoas e as sociedades”.

Mesmo sem considerar a "corporação humanizada", entretanto, a competição incessante do capitalismo levaria a esse comportamento e os vencedores desta competição são aqueles mais dispostos a destruir todos os obstáculos, humanos e do meio ambiente, enquanto repassam os custos aos outros.

Relamente, não podemos fazer algo melhor que isso?

Importar-se demais. Essa é maldição das classes trabalhadoras

Por que a lógica básica da austeridade foi aceita por todo mundo? Porque a solidariedade passou a representar um flagelo?

David Graeber

The Guardian

Crédito: Matt Kenyon.

Tradução / “O que eu não consigo entender é porque as pessoas não estão protestando nas ruas?” Eu ouço isso, de vez em quando, vindo de pessoas de boa condição e poderosos. Há uma espécie de incredulidade. “Afinal de contas”, o subtexto parece ser, “nós ficamos furiosos quando alguém ameaça nossos paraísos fiscais; se alguém ameaçasse o meu acesso a comida ou moradia, eu certamente estaria queimando bancos e/ou ocupando o parlamento. O que há de errado com as pessoas?”

É uma boa pergunta. Você imaginaria que um governo que provocou tanto sofrimento àqueles com menos condições de resistir, sem ao menos mudar os rumos da economia, correria risco de suicídio político. Em vez disso, a lógica básica da austeridade foi aceita por quase todo mundo. Por quê? Por que políticos que prometem sofrimento prolongado ganham qualquer condescendência da classe trabalhadora, pra não falar em apoio?

Acredito que a própria incredulidade com a qual comecei fornece uma resposta parcial. Os trabalhadores podem ser, como incessantemente nos lembram, menos meticulosos com assuntos de lei e propriedade que seus “superiores”, mas eles também são muito menos obcecados consigo mesmos. Eles se importam mais com seus amigos, famílias e comunidades. No conjunto, ao menos, são pessoas fundamentalmente melhores.

Em certa medida isso parece refletir uma lei sociológica universal. Há muito as feministas apontam que aqueles que estão na parte de baixo de qualquer arranjo social desigual tendem a pensar mais sobre, e portanto importar-se mais com, aqueles no topo do que os do topo em relação a eles. As mulheres em toda parte tendem a pensar e saber mais sobre as vidas dos homens do que os homens pensam sobre as mulheres, assim como os negros sabem mais sobre os brancos, os empregados sobre os empregadores e os pobres sobre os ricos.

E sendo os humanos as criaturas empáticas que são, o conhecimento leva à compaixão. Os ricos e poderosos, no entanto, podem permanecer alheios e indiferentes, porque podem se garantir. Vários estudos psicológicos recentes confirmam isso. Pessoas nascidas em famílias da classe trabalhadora invariavelmente se dão melhor em testes de percepção dos sentimentos alheios do que os filhos dos ricos ou das classes médias. De certa forma, o resultado não é exatamente inesperado. Afinal, isso é o que ser “poderoso” fundamentalmente significa: não ter de prestar muita atenção no que os outros ao redor estão pensando e sentindo. Os poderosos empregam outros para fazê-lo por eles.

E quem eles empregam? Principalmente filhos das classes trabalhadoras. Aqui, creio que tendemos a ser tão cegos por uma obsessão com o (ouso dizer, uma romantização do?) trabalho fabril como nosso paradigma de “trabalho de verdade” que nos esquecemos do que a maior parte do trabalho humano de fato consiste.

Mesmo na época de Karl Marx ou Charles Dickens, os bairros de trabalhadores abrigavam mais empregadas domésticas, engraxates, varredores, cozinheiros, enfermeiros, taxistas, professores, prostitutas e feirantes que empregados em minas de carvão, fábricas têxteis ou fundições. Hoje, isso é ainda mais verdadeiro. O que consideramos arquetipicamente como trabalho de mulheres – cuidar de pessoas, encarregar-se de suas vontades e necessidades, explicar, confortar, antever o que o patrão quer ou está pensando, para não mencionar cuidar, vigiar e conservar plantas, animais, máquinas e outros objetos – representa uma proporção muito maior daquilo que a classe trabalhadora faz quando está trabalhando do que martelar, talhar, carregar ou colher coisas.

Isso é verdade não apenas porque a maioria das pessoas da classe trabalhadora são mulheres (pois a maioria das pessoas em geral são mulheres), mas porque temos uma versão distorcida do que os homens fazem. Como os trabalhadores do metrô em greve recentemente tiveram de explicar a usuários indignados, os funcionários do metrô não passam a maior parte de seu tempo recolhendo bilhetes: eles passam a maior parte de seu tempo explicando coisas, consertando coisas, procurando crianças perdidas, e cuidando dos idosos, doentes e desorientados.

Se pensarmos bem, não é isso, basicamente, a vida? Os seres humanos são projetos de criação mútua. A maior parte do trabalho que fazemos é uns com os outros. As classes trabalhadoras apenas fazem uma parte desproporcional. Elas são as classes cuidadoras, e sempre foram. É apenas a incessante demonização dos pobres por aqueles que se beneficiam dos seus cuidados que torna difícil, num fórum público como este, reconhecê-lo.

Como filho de uma família de classe trabalhadora, posso atestar que é disso mesmo que nos orgulhamos. Constantemente nos disseram que o trabalho é uma virtude em si – que ele forma caráter ou coisa assim – mas ninguém acreditava nisso. A maioria de nós entendia que o melhor seria evitar o trabalho, a menos que ele beneficiasse outras pessoas. Mas do trabalho que você fizesse, fosse ele construir pontes ou esvaziar penicos, você poderia se orgulhar. E há outra coisa de que definitivamente nos orgulhávamos: que somos pessoas que cuidam umas das outras. Isso é o que nos distinguia dos ricos que, na nossa percepção, a metade do tempo sequer se dedicava a cuidar de seus próprios filhos.

Há uma razão pela qual a maior virtude burguesa é a austeridade, e a maior virtude na classe trabalhadora é a solidariedade. Porém essa é precisamente a corda na qual a classe hoje está pendurada. Houve um tempo em que se preocupar com sua comunidade podia significar lutar pela própria classe trabalhadora. Naqueles dias costumávamos falar de “progresso social”. Hoje vemos os efeitos de uma guerra sem trégua contra a própria noção de uma política da classe trabalhadora ou comunidade de classe trabalhadora. Isso deixou a maioria dos trabalhadores com poucos meios de expressar essa preocupação, senão dirigindo-a a noções artificiais: “nossos netos”; “a nação”; seja através de patriotismo chauvinista ou de apelos ao sacrifício coletivo.

Como resultado, tudo está posto ao revés. Gerações de manipulação política finalmente transformaram esse senso de solidariedade num flagelo. Nossa preocupação com o outro foi transformada em arma contra nós mesmos. E assim deve permanecer até que a esquerda, que pretende falar pelos trabalhadores, comece a pensar séria e estrategicamente sobre no que consiste a maior parte do trabalho, e o que aqueles que o realizam pensam ser a virtude contida nele.

David Graeber é um antropólogo, ativista político e autor norte-americano. He is currently reader in social anthropology at Goldsmiths College, University of London, and was formerly an associate professor of anthropology at Yale University. David is a member of the labour union Industrial Workers of the World, and has played a role in events such as the 2002 New York protests against the World Economic Forum. Seu livro mais recente é Dívida: os primeiros 5.000 anos (2011).

24 de março de 2014

Mais uma vez, a Austrália está roubando suas crianças indígenas

John Pilger

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

A gravação é torturante. Há a voz de uma criança gritando enquanto é arrancada da mãe, que implora: “Não há nada de errado com o meu bebê. Por que você está fazendo isso conosco? Eu deveria ter sido enforcada anos atrás, não é mesmo? Porque (como uma aborígene australiana) a gente é culpada antes de ser declarada inocente”. A avó da criança exige saber por que “o roubo de nossas crianças está acontecendo de novo”. Enquanto um funcionário do serviço social diz: “Eu vou levá-lo, amiga”.

O que aconteceu com uma família aborígene na zona rural do estado de Nova Gales do Sul está acontecendo por toda a Austrália numa escandalosa e, de modo geral, não reconhecida violação dos direitos humanos que evoca a “geração roubada” do século passado. Até os anos 1970, milhares de crianças mestiças foram tiradas de suas mães por funcionários do serviço social australiano. As crianças eram entregues a instituições como mão de obra barata ou escrava; muitas sofreram abusos.

Descrita pelo responsável pela Proteção dos Aborígenes como “eliminação da cor”, a política era conhecida como assimilação. Foi influenciada pelo mesmo movimento eugenista que inspirou os nazistas. Em 1997, um relatório marcante, intitulado “Bringing Them Home” (traga-os de volta para casa), revelou que cerca de 50.000 crianças e suas mães tinham sofrido “a humilhação, a degradação e a pura brutalidade do ato de separação forçada... produto de políticas deliberadas e calculadas do Estado”. O relatório classificou isso como genocídio.

A assimilação continua sendo uma política do governo australiano de todas as formas, menos no nome. Eufemismos como “Reconciliação” e “Futuro mais Forte” encobrem uma engenharia social semelhante e um persistente racismo insidioso na elite política, na burocracia e, de modo geral, na sociedade australiana. Quando em 2008, o primeiro-ministro Kevin Rudd pediu perdão pela “geração roubada”, ele acrescentou: “Quero ser franco sobre isso. Não haverá compensação”. O jornal “The Sydney Morning Herald” cumprimentou Rudd pela “manobra esperta” que “removeu um pedaço de destroços políticos, o que responde a algumas das necessidades emocionais de seus partidários, mas não muda nada”.

Hoje, o roubo de crianças aborígenes –incluindo bebês retirados da sala de parto– é agora mais disseminado do que em qualquer época durante o último século. Até junho do ano passado, quase 14 mil crianças aborígenes tinham sido “removidas”. Isso é cinco vezes o número da época em que o relatório “Bringing them Home” foi redigido. Mais de um terço das crianças retiradas de suas famílias são aborígenes – cerca de 3% da população. Com a taxa atual, essa remoção em massa de crianças aborígenes vai resultar em uma geração roubada de mais de 3,3 mil crianças somente no Território do Norte.

Pat (nome fictício) é a mãe cuja angústia foi secretamente gravada em um telefone enquanto quatro funcionários do Departamento de Serviços à Criança e seis policiais chegaram em sua casa. Na gravação, um funcionário alega que eles vieram somente para uma “avaliação”. Mas dois dos agentes de polícia, que conheciam Pat, disseram a ela que não viam nenhum risco para o filho dela e alertaram-na para que ”saísse rapidamente”. Pat fugiu, segurando o filho, mas o bebê de 1 ano foi depois apreendido sem que ela soubesse por quê. Na manhã seguinte, um agente de polícia voltou para lhe pedir desculpas e disse que o bebê dela nunca deveria ter sido levado. Pat não tem nenhuma ideia de onde está seu filho.

Pat tanto procurou cumprir as normas como enfrentou com coragem a burocracia punitiva que pode remover crianças com base em rumores. Ela foi duas vezes inocentada de falsas acusações, incluindo “sequestro” dos próprios filhos. Um psicólogo a descreveu como capaz e boa mãe.

A maioria das famílias aborígenes vive no limite. Sua expectativa de vida nas cidades a curta de distância de voo de Sydney é muito baixa, cerca de 37 anos. A Austrália é o único país desenvolvido que não erradicou o tracoma, um tipo de infecção bacteriana que causa cegueira nas crianças aborígenes.

Josie Crawshaw, ex-diretora de uma respeitada organização de apoio a famílias em Darwin, disse-me: “Em áreas remotas, autoridades vão com um avião nas primeiras horas do dia e levam as crianças para milhares de quilômetros de distância de sua comunidade. Não há explicação, nenhum apoio, e as crianças podem sumir para sempre”.

Em 2012, a coordenadora geral de Serviços Remotos para o Território do Norte, Olga Havnen, foi destituída quando revelou que cerca de US$ 75 milhões tinham sido gastos na vigilância e remoção de crianças aborígenes, em comparação com apenas US$ 469 mil para apoiar as mesma famílias pobres. Segundo a coordenadora, “as razões básicas para a remoção de crianças são questões de bem-estar diretamente relacionadas com a pobreza e a desigualdade. O impacto nas famílias é simplesmente horroroso porque se eles não são reunidos dentro de seis meses, é provável que não se encontrarão novamente. Se a África do Sul estivesse fazendo isso, haveria um escândalo internacional”.

Ela e outros profissionais com longa experiência que entrevistei repetiram os argumentos do relatório “Bringing them Home”, que descreve uma “atitude” oficial na Austrália que considera todas as pessoas aborígenes como “moralmente deficientes”. Um porta-voz do Departamento de Serviços Comunitários disse que a maioria das crianças indígenas removidas em Nova Gales do Sul foram enviadas para cuidadores indígenas. De acordo com redes de apoio aos indígenas, isso é uma cortina de fumaça; não se trata de famílias e esse tipo de ação é monitorado pelo divisionismo que é a verdadeira realização da burocracia.

Encontrei um grupo de avós aborígenes, sobreviventes da primeira “geração roubada”, todas agora com netos roubados. “Vivemos em um estado de medo, outra vez”, dizem elas. David Shoebridge, um parlamentar de State Greens, disse-me: “A verdade é que existe um mercado entre os brancos para essas crianças, especialmente bebês.”

O parlamento de Nova Gales do Sul irá em breve debater a legislação que introduz a adoção forçada e a “tutela”. Crianças com menos de dois anos estarão disponíveis – sem o consentimento da mãe– se tiverem sido “removidas” há mais de seis meses. Mas muitas mães aborígenes, como Pat, podem levar seis meses simplesmente para entrar em contato com seus filhos. “Isso está destinado a fazer com que as famílias aborígenes fracassem”, disse Shoebridge.

Perguntei a Josie Crawshaw o por quê: “A ignorância deliberada na Austrália sobre seu primeiro povo nativo tornou-se agora o tipo de intolerância que chega ao ponto de esmagar um grupo inteiro da humanidade, e não se faz nenhum barulho por isso.”

Retrato do Uruguai, o país que surpreende o mundo

Juan Jose Millas viaja ao Uruguai para se encontrar com o atípico presidente Mujica. Uma viagem que traça o retrato de um homem e de uma nação.

Juan José Millás



Créditos: Jordi Socías / El País.

Tradução / A tempestade se anunciava, em tal estado de exaltação, que mais se parecia às sensações que precedem as piores enxaquecas. Em pleno meio dia, toda a atmosfera tornava-se escura (como se Deus tivesse fechado os olhos), e se levantava por todos os cantos um ar estranho, de tonalidades psíquicas, produtor de uma euforia gratuita. Cada greta das paredes adquiria uma relevância misteriosa, como se em seu interior, ao invés de certamente viver uma barata, vivesse uma libélula. Logo o céu desabava, com a mesma violência com a qual a polícia, à sua maneira, manda abaixo a porta de uma casa de narcotraficantes; e a água começava a cair em grandes jorros. Em quinze minutos, os edifícios já estavam ensopados como uma esponja recém-tirada da água e colocada sobre a borda de uma banheira. Crianças brincavam entre as poças de água, enquanto a realidade permanecia suspensa.

O clima montevideano sofria de transtornos de caráter. 

No quarto do hotel, onde a janela se abria para um pátio de luzes, era natural sentir-se como um desses personagens de Onetti que, nus sobre a cama, sem parar de fumar, escutam obsessivamente os ruídos vindos do exterior, enquanto tentam compor em sua cabeça uma imagem do mundo.

O mundo.

O mundo, a princípio, eram as ruas que se desdobravam até este estranhíssimo lugar, onde se encontram as águas do Rio Prata com as do Oceano Atlântico, duas monstruosidades naturais a copular sem nenhuma pausa. Às vezes o mar penetra no rio, às vezes é o rio quem se introduz no mar – depende dos ventos, das marés, das chuvas, dos efeitos das mudanças climáticas. Esta sobreposição afeta a fauna: peixes de mar que se precipitam, de súbito, na água doce, e peixes de rio que se encontram de pronto em toda a dimensão do mar salgado.

- Morrem os peixes quando atravessam a fronteira? – perguntei a um pescador.

- Ou saem a tempo, ou se adaptam – disse ele.

- Mas morrem, por vezes? – insisti, em uma preocupação íntima.

- Acredito que ou saem ou se adaptam – insistiu ele também.

O País semanal havia nos enviado ao outro lado do mundo para que escrevêssemos uma reportagem, de modo que ao cair da tarde o fotógrafo Jordi Socías e eu saímos a caminhar, tomando uma das tantas ruas que davam até o estuário. Já estávamos andando havia uma hora, quando vimos sair um sujeito com uma sacola de uma loja de delicatessen.

- Vendem bons vinhos aí? – perguntou Socías.

- Muitos bons – respondeu o homem – e um pão excelente. Mas já estão fechando.

Era um sujeito de classe alta, aberto a conversas, de modo que perguntamos a ele se estávamos muito longe do mercado.

- Não vá até lá – disse ele – a esta hora estará às moscas.

- E se tomarmos o caminho pela avenida?

- Nem pensar, está fechada também. Subam por esta rua, e a quatrocentos metros encontraram alguns bares, como os de Madrid ou Paris.

- Mas nós não queremos ver Madrid ou Paris. Queremos ver Montevidéu. – disse Socías.

O sujeito nos espiou como se estivéssemos loucos, e se afastou cuidadosamente de nós dois, que continuamos a caminhar na direção proibida. Realmente, estava mesmo às moscas.

- É que aqui você tem que vir pela manhã. – nos avisaram no mercado.

Há lugares de Montevidéu que só são Montevidéu em certos horários: quando é manhã, ou quando é a hora de comer. Logo se transformam em outra cidade, na qual todos os dias são sempre uma tarde de domingo, como acontece na vida de algumas pessoas: na de Felisberto Hernandéz, por exemplo, escritor uruguaio enormemente infeliz, que havíamos lido antes de viajar.

Montevidéu era um estado de espírito.

***

Retornei ao quarto de hotel já em estado líquido. Tirei a roupa – exceto as meias (porque tenho a superstição de que me mantêm os pés unidos às pernas), enchi a banheira de água fria, entrei nela, acendi um cigarro e abri um romance de Onetti justo no instante em que o personagem dizia: “eu sou um homem solitário, fumando em um lugar qualquer da cidade; a noite me rodeia, vai desdobrando-se como um rito, gradualmente, e nada tenho a ver com ela”.

Larguei o livro em um gesto de defesa. A temperatura do meu corpo já não era febril. Lembrei-me do sujeito que pretendia que, em Montevidéu, ao invés de vermos Montevidéu, víssemos Madrid ou Paris, e então me veio à cabeça uma pergunta: “Uruguai é um país europeu ou latino-americano?”. Era como se eu perguntasse se as águas, no estuário do Rio da Prata, eram mais fluviais que marítimas ou mais marítimas que fluviais. O aconselhável seria erguer o dedo e levá-lo a boca, comprovando assim se pertencia ou não ao sal. Montevidéu conhecia com intimidade os romances aflitos de Onetti, tanto quanto a prosa indócil de Levrero.

***

O que acabo de contar, na verdade, aconteceu em outro momento, mas aqui foi lançado desta forma, não sei por quê. Digamos que seja pela mudança de horário. O que realmente aconteceu tão logo chegamos, com a maleta já disposta sobre a cama do quarto do hotel, foi o seguinte: tocou o telefone, e quem nos chamava era o secretário de comunicação do presidente do Uruguai.

- Às três e meia – disse ele – chegará um carro para pegá-los e levá-los até a chácara de Mujica.

Olhei o relógio: era meio dia.

- Mas havíamos combinado que o encontro seria amanhã – observei, com cautela.

- Amanhã não pode ser – concluiu o secretário.

Desliguei e avisei o fotógrafo. Socías e eu éramos dois senhores já velhos, que nos arrastamos por treze horas de avião, um fuso horário e um salto abismal do inverno espanhol até o verão uruguaio. Estávamos animados, sim, mas justamente por nos sentirmos tão bem é que começávamos a suspeitar do nosso equilíbrio mental.

Quando o carro chegou, chovia com uma inclemência extraordinária – como se quisessem machucar alguém com aquelas águas. E apesar de ainda restarem cinco ou seis horas de luz (de luz escura) porque em Montevidéu, em fevereiro, anoitece tarde, as ruas já se haviam apagado como os corredores de um escritório em um dia de feriado.

O automóvel seguiu navegando. Alcançamos uma zona rural. A chuva havia parado um pouco, e através dos vidros molhados, em meio às terras de cultivos, víamos aqui ou ali, distribuídos de forma irregular, galpões que talvez fossem casas, casas que talvez fossem galpões. E cachorros, muitos deles, que vinham correndo para saudar o carro. Havia galinhas, também. Neste instante, apareceu no meio do caminho um cachorro morto que, tão logo nos aproximamos, mostrou-se estar vivo. Ainda assim, custou a sair da direção do carro, como se não acreditasse que este realmente existisse, ou tampouco se importasse. Foi quando o condutor parou o automóvel em uma encruzilhada.

- É aqui – disse.

Havíamos chegado em Rincón del Cerro. Descemos do carro e vimos, no meio do campo, uma guarita de vigilância, de estética semelhante à dos banheiros portáteis – o que conferia à paisagem certo ar surreal. E ali mesmo, à direita, um pouco oculta pela vegetação, nos apontaram a casa de José Mujica, o presidente da República Oriental do Uruguai. Diziam que a casa era muito modesta. Mentira. É pobre. Poderíamos dizer que é como um barracão confortável, com telhado de zinco, em cuja porta nos esperava este ancião que já se tornou uma espécie de moda em seu país. Trajava uma calça desgastada e uma camisa azul.

- Senhor presidente – disse, estendendo-lhe a mão.

- Fora, Manuela! – gritou ele a uma cachorra de três patas, que já havia se adiantado a nos dar as boas vindas.

José Mujica Cordano, o dono da cachorra aleijada, contava 80 anos – quinze dos quais passou preso, por pertencer ao Movimento de Liberação Nacional Tupamaros. Possui em seu currículo de guerrilheiro duas fugas e, em seu corpo, seis feridas de bala. Detido pela última vez em 1972, não voltaria a ver a luz do dia até 1985. Entrou, portanto, com 37 anos e saiu com 50. Durante este tempo, conheceu no cárcere da ditadura vergonhas das mais terríveis. Desnudo, com as mãos e os pés atados, aplicavam-lhe choques nas áreas genitais e na língua. O aguilhão elétrico era um dos instrumentos preferidos pelos militares, mas não era o único, nem o mais sofisticado. Outra prática também alcançou sua fama, consistindo-se em obrigar o preso a caminhar pela estrutura externa das janelas, do sexto piso, por exemplo, com uma carapuça tapando a cabeça, fazendo-o sentir apenas o vazio por baixo de seus pés. Havia também a “banheira”, o afogamento com panos embebecidos de água, as simples surras, e, enfim, a fome, o isolamento, os cachorros… Cada prisão tinha a sua especialidade.

Segundo relatado por Walter Pernas, em Comandante Facundo, o então presidente do Uruguai, que havia perdido os dentes devido às surras que recebia diariamente, chegou a comer papel higiênico e sabão – além das moscas que chegavam até sua cela (com frequência, um simples buraco), atraídas pelo forte cheio de fezes que exalava do preso. Havia chupado, com suas gengivas desnudas, em busca de um pouco de cálcio, os ossos que jogavam os carcereiros depois que os cachorros já os haviam devorado. Bebeu de sua própria urina, dormiu durante anos sobre um chão de cimento, exposto a frios intoleráveis e calores asfixiantes. Havia passado semanas ou meses sem ver a luz, anos sem conversar com ninguém que não fossem os ratos ou os insetos que conviviam com ele ou faziam-lhe visitas. Perdeu a noção do espaço e do tempo, delirou, emagreceu até ser capaz de contar cada um dos ossos de seu esqueleto. Defecava-se e mijava-se constantemente, pois, fruto das surras, das balas e da alimentação, sofria de problemas renais e digestivos. Conta Walter Pernas que ele já não podia caminhar erguido, como um homem, e nos momentos de maior deterioração física e psíquica os militares levavam seus filhos até a prisão para que vissem a besta e a insultassem. Viajou, enfim, várias vezes até o limite da morte, de onde regressava alucinado, com os olhos desvairados e praticamente sem massa muscular sobre a qual se sustentar. Levavam-no de uma prisão a outra, de um buraco a outro, como um saco de mercadoria suja, jogando-o sem cerimônias sobre o caminhão militar e de lá o tirando a pontapés e socos. Conhecedores de sua diarreia crônica e seus problemas urinários, os carcereiros não prestavam atenção às suas súplicas para usar o banheiro. Mas, através de sua própria constância, e da de sua mãe, conseguiu com o passar dos anos que o deixassem possuir um urinol do qual não se separava, e que se converteu, com o tempo, no símbolo de uma pequena vitória sobre seus sequestradores. Abandonou o cárcere abraçado a ele, já convertido em um vaso de flores. Apenas quatro dias após sua soltura, pronunciou um discurso político no qual era impossível encontrar qualquer vestígio de ressentimento. A natureza, disse então, pôs nossos olhos na frente do rosto, para que sempre possamos olhar adiante.

- Fora, Manuela! – voltou a gritar Pepe Mujica à cachorra de três patas.

Manuela foi embora e entramos na casa, que cheirava a umidade.

- O Uruguai está se tropicalizando – disse Mujica – não sei como ainda pode ter gente negando a mudança climática.

Sentamo-nos no “hall” da entrada, que também era a sala de onde se distribuíam os outros cômodos da casa (um dormitório, um banheiro e a cozinha: quarenta ou quarenta e cinco metros no total). E percebi com horror que ele esperava que eu o entrevistasse. Dirigi-me a ele, então.

À primeira de minhas perguntas me respondeu que os governantes já não mandavam nada.

- Quem manda, então? – perguntei.

- Os grandes poderes financeiros. Já não é o cachorro que abana a cauda, mas a cauda que balança o cachorro.

- E você diz isso aos chefes de Estado e aos presidentes com os quais se reúne?

- Sim.

- E o que eles dizem?

- Me dão razão, mas olham para o outro lado. Cultivam a ilusão de voltar a serem presidentes, não se atrevem a enfrentar o inimigo. Dissimulam, mas a verdade é que somos marionetes.

- E como pôde governar por quase cinco anos sendo consciente destas limitações?

- Este é um paisinho muito especial. Mais de 50% do movimento bancário está na mão do Estado. Os uruguaios nos ensinam que, quando temos um peso, devemos ir até o Banco da República, que é o banco do Estado. E não que nos trate bem, mas temos confiança nele. O sistema bancário privado é débil.

- Todos os setores estratégicos do Uruguai estão nacionalizados.

- Não ponha a culpa em mim. Quando eu nasci já estava tudo assim. É uma construção da história.

Enquanto conversávamos, e como a porta havia ficado aberta, devido ao calor, entra Manuela, entra um galgo coxo, entra outro cachorro de raça indefinida, e todos nos miram, uivam, pedem carícias, creio que entra também um gato e se enrosca entre minhas pernas, as moscas zumbem excitadas… Lá fora, junto ao barulho da chuva se escuta, de vez em quando, uma profusão de cantos de galos. Observo Mujica, e me parece que vai e vem dentro de si mesmo, como se tivesse uma gangorra dentro da sua cabeça. Quando regressa, se junta ao mundo com uma pitada de cortesia e outra de malícia. Pergunto a mim mesmo que interesse podemos despertar nele, este par de espanhóis dentro de sua casa. Pergunto-me também se suas respostas são tão mecânicas como minhas perguntas. Ele diz que o Uruguai é um país menos rico, que adormeceu a partir da década de 60, depois de ser campeão do mundo no Maracanã.

- Cinquenta anos de nostalgia – acrescenta.

Diz que se burocratizaram, que encheram de gente as propriedades do Estado, que tinham um teatro (o Solís) com um empregado para subir o telão e outro para baixá-lo. Diz que ainda tem um problema com a burocracia estatal. Reconhece que os sindicatos dos funcionários, muito poderosos, lhe torceram um pouco o braço. Diz que tem paciência, que é preciso seguir lutando e semeando, e que já pensou muito, pois no cárcere tinha bastante tempo para pensar, e aprendeu que tudo muda, mas sempre devagar. Diz que quando jovem andava sempre “muito apressado”, que passou entre 25 e 30 anos de sua vida, a metade preso, a metade mais ou menos livre, ou “prisioneiro de meus próprios esquemas”. Diz que há 20 ou 30 anos atrás era possível discutir se havia guerras justas ou não, e que justas eram aquelas que significavam um processo de liberação nacional ou tentativa de liberação de nações que se sentiam submetidas, mas que hoje, do jeito que estão as coisas, todas as guerras são para que os mais fracos sofram ainda mais. Diz que é preciso tratar de mudar as coisas através da paz, que é preciso levar a cabo políticas de Estado e estas são as em que, a partir de posições distintas, buscam-se pontos de acordo. Diz que têm aparecido problemas que nenhum país pode resolver por si mesmo, que ou governamos a globalização ou a globalização governará a todos nós. Diz que a democracia e o socialismo são compatíveis, mas com a condição de que um não engula o outro. Diz que o que mais importa destacar de seu mandato é a luta contra a pobreza e a indigência, e o crescente clima de estabilidade política e confiança que vem atraindo os investimentos estrangeiros. Pergunta se queremos um uísque, diz que não teremos outro remédio senão voltar à economia produtiva, e que neste terreno o Uruguai está muito bem situado, pois tem uma excelente produção de lácteos, de carne, de cereais. Diz que produzem trigo, soja, que exportam arroz, que são bons vendedores de carne de vaca, que exportam peixes pois comem muito pouco, que possuem um mar precioso mas têm vivido de costas para ele já que são descendentes de galegos. Diz que fala muito com os chineses, que são seu principal cliente, que compram toda sua soja e estão aumentando sua presença, que nas campanhas eleitorais as bandeiras são todas chinesas. Diz que o problema da Europa é ter-se descuidado da economia produtiva, subordinando-a a engrenagem financeira, e daí a imagem da cauda que move o cachorro, quando o importante é o cachorro...

Vem-me à cabeça que o secretário de comunicação nos disse que teríamos uma hora ou uma hora e meia, e que Jordi Socías também precisa de um tempo para tirar as fotos. Então sou invadido por um gesto de impotência, apago o cigarro, e digo a Mujica, ao presidente do Uruguai, ao Pepe, como o chamam:

- Olha, eu não sei fazer entrevistas, não sei fazer isso que estou fazendo.

Mujica se retira um momento até a gangorra que tem dentro de si (e fecham-se um pouco os seus olhos), volta (abrindo-os), e me observa através das fendas pelas quais observa o mundo, como se ainda continuasse dentro de uma célula, como se o corpo todo fosse uma célula e os olhos aquele olho mágico das portas.

- O que eu sei – continuei – é contar o que me acontece. Se o senhor me permitir vir tomar café da manhã em sua casa, te acompanhar até o trabalho, ver como se move, como age, enfim, então eu contaria tudo isso...

Como a situação, aparentemente, tornou-se um pouco difícil (afinal nem Mujica nem seu secretário de comunicação poderiam entender que enviaram a eles, do outro lado do mundo, um sujeito que não sabe fazer entrevistas), interveio Socías:

- O que Mirás quer dizer é que tudo o que ele saber fazer é contar histórias.

- Vamos tomar um trago – conclui Mujica.

E vamos até a cozinha, onde nos serve um uísque. Jordi começa a fazer as fotos. Não parece, de forma alguma, que estamos com um presidente ou algo parecido. Então me lembro de que este homem doa 87% de seu salário a um projeto de moradias para pobres, e pergunto a ele se ainda lhe resta dinheiro suficiente para viver. Ele me diz que sim, e que ele e sua senhora, depois de se juntarem ao partido, ainda possuem 45.000 pesos – uns dois mil euros.

– Por favor – acrescenta Mujica, escandalizado – Este salário, para mim, dá e sobra!

Sua esposa, que no momento não se encontra na casa, é Lucía Topolansky, senadora e também ex-tupamara, além de ex-presa política da ditadura. Os dois se conheceram meses antes de entrarem no presídio e ao sair, treze anos depois, foram viver juntos. Casaram-se há quatro ou cinco anos, apenas para atestar a união nos papéis – pois já temos uma certa idade, ele me diz, e nunca se sabe. Assim, frente a um Juiz, selaram o matrimônio, nesta mesma cozinha na qual nos encontramos agora e que é uma cozinha típica de gente humilde mas limpa, pois diz Mujica que a vantagem em viver em uma casa tão pequena como esta é que com uma varrida rápida os dois já conseguem limpá-la, como em um relâmpago.

E por falar em relâmpagos, alguns caem, do lado de fora da casa. Mesmo assim, o presidente da República cede aos apelos do fotógrafo e sai para fazer algumas fotos, pois dentro da casa temos problemas com a luz. Por sorte, já deixou de chover, ou pelo menos chove agora de uma maneira mais branda, e Mujica posa, quase sem protestar, aqui ou ali, enquanto vai e vem de dentro de sua gangorra mental. Quando retorna, é sempre com um sorriso, como se nós dois causássemos a ele alguma graça. Em um desses retornos, me olha fixo e pergunta por que é que não vamos amanhã até a Torre Executiva, na praça da Independência, onde possui seu escritório. Nos apressamos a dizer que sim, estaremos lá às 11 da manhã como dois pregos fincados. Ele então volta à sua gangorra e, quando retorna, pergunta por que não o acompanhamos também a Anchorena, onde está a residência de verão dos presidentes do Uruguai, e nós dissemos logo que claro, vamos sim, com certeza. E combinamos que ele nos mandará um carro às oito da manhã do sábado, pois o local está a três horas de distância e convém sair mais cedo.

Com essas promessas, nos despedimos – um pouco assombrados, na verdade, de nos seja dedicado tanto tempo assim, pois afinal Mujica, além de dirigir um país, tem mais entrevistas marcadas que uma estrela de rock. Mas tudo bem, penso eu: talvez ele tenha sentido um pouco de pena de nós dois. Tudo bem.

E assim voltamos satisfeitos ao hotel, de onde, após deixar nossas coisas, saímos a passeio – em um passeio típico de classe alta, que não quer, de modo algum, se aproximar do mercado.

No dia seguinte, e novamente por baixo de chuvas e ventos tropicais – desses capazes de virar o guarda chuva ao revés – vamos encontrá-lo em seu escritório. Quando entramos, está no meio de um pronunciamento radiofônico feito através do telefone que leva pregado à orelha, como se não tivessem inventado o viva-voz ou como se o presidente da República não pudesse permitir-se ao luxo de uma tecnologia RSDI ou RDSI – nunca sei como se diz.

Ele nos faz sinais para entrarmos. Está falando sobre os fenômenos climáticos intensos que acontecem atualmente no Uruguai e que já arruinaram casas, inundaram povoados e destruíram estradas. Secas, diz ele, inundações, nevadas em lugares incríveis, subida dos níveis dos mares… existem ilhas do Caribe que em um só dia perderam um ponto ou dois do PIB por culpa destas catástrofes. Mujica diz que precisamos de políticas a nível global, mas que o mundo de hoje só se entretém com o que é urgente. Diz que isto vem desencadeando graves problemas para o homem e que deveria ser logo pelo homem corrigido, e que não deveríamos pensar como países, mas como espécies. Então começa a estabelecer uma comparação entre a mudança climática e as tempestades financeiras. Diz que no Uruguai tiveram, entre 2001 e 2002, um desastre financeiro que deixou 40% da população abaixo do nível de pobreza. E diz que isto aconteceu porque deixaram o sistema financeiro muito solto.

- O Uruguai de hoje – acrescenta – ainda pode ter temporais, mas não terá temporais financeiros porque o sistema já está controlado. Em algum momento – conclui – deixará de chover; contaremos as perdas e os feridos, e ajudaremos a quem for preciso ajudar, mas estamos a salvo de um problema financeiro de caráter mundial.

Desliga o telefone e nos convida a sentar. O escritório, seis ou sete vezes maior que sua casa, é bem iluminado, de teto alto, mas um pouco impessoal e frio, como o são os escritórios de políticos. Sobre os problemas financeiros aos quais acaba de se referir em seu pronunciamento pelo rádio, Mujica lembra-se de 2002, e do “corralito” argentino.

- Ficamos sem saída – diz. A partir daí começamos a controlar o sistema financeiro. Os bancos de fora, como o Santander, são uma praga para o Uruguai, mas temos todos eles agarrados pelo pescoço. Alguns bancos do Estado são mais fortes, mas, por outro lado, são menores.

Em cima de sua mesa de trabalho, que está à direita de Mujica, há uma série de objetos espalhados e, dentre todos, o que mais se destaca é uma maquete de um trem em alta velocidade.

- Quase todos esses presentes – ele explica – são chineses. Eles vêm te oferecer uma ferrovia e trazem uma maquete como esta. É ótimo, não?

- Então eles vieram te oferecer uma ferrovia?

- Sim. Como o país cresceu muito, agora temos um sério problema de comunicação. Precisamos analisar melhor essa situação, e provavelmente vamos ter que fechar negócio com os chineses, que são quem tem capacidade para construir ferrovias.

- Na Espanha – respondo, atacado por um súbito instinto comercial que não reconheço em mim mesmo – também fazemos ótimos trens.

- Sim – ele admite – o problema é a capacidade financeira que possuem os chineses. Este é o ponto.

- Quer dizer que fazem a prazo?

- Sim, te dão o ouro e o mouro, como se diz. São bem generosos.

- Os chineses estão comprando tudo.

- Mas nós não vendemos as terras, e vamos cada vez vender menos. Vamos cuidar da terra e da água porque é a matéria prima que mais vale. Este é um país pequeno, mas 90% do território é produtivo. Não se pode vender uma faixa de terra verde assim tão facilmente. Como a humanidade cresce e quer viver cada vez melhor, o caminho dos alimentos, que parecia algo secundário, agora já é dos mais importantes.

Depois de visitar as dependências da Torre Executiva, nos despedimos de José Mujica — o Pepe, para seus conterrâneos. E combinamos de nos ver no sábado (era ainda quinta-feira), dia em que, como nos havia prometido, viajaríamos juntos até Anchorena, localidade situada na região da Colônio e residência de verão do presidente da República.

***

A The Economist, prestigiosa publicação britânica, teria por acaso enlouquecido das ideias quando anunciou o Uruguai “País do Ano por sua receita para a felicidade”?

Era esta a minha pergunta.

Vejamos. O Uruguai é um país pequeno (176 215 quilômetros quadrados, 70% da área do estado de São Paulo), com saída para o oceano Atlântico e para o Rio da Prata. Faz divisa ao norte com o Brasil e ao oeste com a Argentina, de forma que, observando o mapa do Cone Sul latino-americano, e a partir da convenção segundo a qual o norte está acima e o sul está abaixo, e que a força da gravidade faz ir para baixo o que está em cima, o Uruguai parece um pedaço de terra empurrado até o mar pelos dois gigantes mencionados. Esta situação de encaixotamento faz que com que assumam, alguns uruguaios, um certo caráter claustrofóbico que explicaria em parte o fato de que a emigração tenha se constituído um fenômeno constante através de sua história. Era um lugar do qual era imperativo sair, ainda que nos últimos anos tenha se convertido em um lugar ao qual se deveria voltar. A população é de 3.200.000 habitantes, dentre os quais a metade vive na capital, Montevidéu.

Talvez por realmente parecer encaixotado entre Argentina, Brasil, e o oceano, ou talvez por seu tamanho, por seu clima, ou porque é um país constituído quase em 90% por imigrantes europeus (e desenraizados, portanto), ou ainda talvez por todos estes fatores reunidos, além de outros que no momento não me ocorrem, o uruguaio está sempre a exagerar-se para menos (assim como, segundo dizem, o argentino sempre se exagerar para mais). Se, de acordo com a piada, o argentino se suicida jogando-se ao abismo de seu ego, o uruguaio apenas quebraria a perna se se jogasse do seu. Ou melhor: digamos que se trata de um país com baixa autoestima.

Tudo isto, dirão vocês, são generalizações e devaneios. Certo, mas generalizações e devaneios estão tão presentes na vida cotidiana, nas conversas e leituras, que por vezes convém levá-los um pouco a sério. Observem que quando um uruguaio alcança certo sucesso, vai direto a Buenos Aires, onde não o recebem como uruguaio, mas como rio-platense: um modo simples de apropriar-se dele sem exatamente faltar com a verdade. Sobre o herói uruguaio José Artigas, Cristina Kirchner não só diz que era argentino, como que também não queria ser uruguaio. Às vezes parece que o Uruguai só tem razão de existir como contraponto da Argentina. Jorge Drexler assegura que ser uruguaio consiste em não ser argentino. E isto tudo sem entrarmos, por ora, na questão se Gardel era daqui ou dali (parece que era uruguaio, mas adotou nacionalidade argentina em 1923).

O uruguaio, enfim, seria melancólico, mal humorado, manhoso… quando não decididamente triste. No Uruguai, e isto é um dado, está a taxa mais alta de suicídio da América Latina, assim como uma incidência exagerada de falecimentos por câncer. Há uruguaios que, para demonstrar a pouca coisa que são, te fazem saber que seu país é o único do mundo que carece de nome. E é verdade. Oficialmente, se chama República Oriental do Uruguai: significa que é uma república situada a leste do rio Uruguai. Seria como se você, leitor, fosse conhecido como “o cunhado da Rosa” – se tivesse, claro, uma cunhada com este nome.

Como é possível, então, que com todos estes antecedentes, The Economist ainda outorgue ao Uruguai o título de “País do Ano” por sua “receita para a felicidade humana”? Eles ficaram loucos?

Não: o seminário britânico está em perfeito juízo mental. E isto não se deve ao fato de, nos últimos anos, o Uruguai ter descriminalizado o aborto, e legalizado o casamento gay e a marihuana. Tudo isto, em realidade, é a espuma. As questões de fundo resultam menos espetaculares, menos midiáticas, mas sem estas não teriam sido possíveis todas as outras.

Em 2005, quando ganhou as eleições a Frente Ampla – coalizão que agrupa os partidos de esquerda – o Uruguai se encontrava em plena decadência, em parte como consequência do desastre bancário argentino de 2002 e em parte pelas políticas neoliberais anteriores. Havia-se chegado ao ponto de 40% da população se encontrar abaixo do nível de pobreza. O salário desabara, a emigração era um fenômeno massivo, os níveis de inflação estavam insuportáveis, a dívida externa parecia impossível de saldar… As constantes vitais, resumindo, falavam de um país em estado de coma, um país deprimido, sem interesse nenhum por si mesmo e tampouco para os investidores financeiros.

Hoje em dia, nove anos depois desta situação, o desemprego é de 6,5% e os salários recuperaram o poder aquisitivo anterior à crise. Neste instante, e segundo um estudo de Americas Quarterly, o Uruguai lidera o ranking de inclusão social de todas as Américas, à frente de Chile e Estados Unidos. O estudo foi desenvolvido através de 21 indicadores nos quais o país aparece nos primeiros lugares em gasto social em relação ao PIB e em acesso ao trabalho. A inflação, abaixo de 10% (excelente se comparada a seus vizinhos), constitui, contudo, um motivo de inquietação para as autoridades.

Em um tempo recorde, o governo da Frente Ampla – dirigido por Tabaré Vázquez, e do qual José Mujica foi ministro de Pecuária, Agricultura e Pesca – promoveu planos de desenvolvimento que se traduziram na criação de postos de trabalho. Os direitos trabalhistas, perdidos durante a época do liberalismo, foram recuperados. Definiram-se pautas salariais, e fixaram-se novas condições de trabalho. Assim foram impulsionadas leis sociais que garantiram aos trabalhadores do campo, por exemplo, que lutavam de sol a sol, começar a ter jornadas de oito horas. Novos investimentos foram realizados (no Uruguai estão as duas maiores fábricas de celulose do mundo e há uma terceira em planejamento). No momento em que escrevo esta reportagem, estão prestes e fechar um contrato com uma multinacional para a extração de ferro, com uma perspectiva de trabalho para 15 ou 20 anos (Projeto Aratirí). Este desenvolvimento produtivo se traduz na melhoria de condições de vida da maioria da população, pois vem acompanhado de uma melhor distribuição de renda que, em geral, tem aumentado (o Estado arrecada mais, porque modernizou e profissionalizou o sistema fiscal).

Quando José Mujica ganhou as eleições em 2009,continuou com a política econômica de seu antecessor, sempre acrescentando a ela aspectos sociais. Com parte dos ganhos do Banco da República, criou um fundo para apoiar iniciativas produtivas comunitárias de economia social: o que ele chama de “busca para outros modelos de desenvolvimento que não sejam capitalistas”. Espécies de cooperativas, formas diferentes de propriedade das quais se exige resultados, e que possuem um controle muito estrito de economistas e experts.

Durante estes anos, e tal como indica o estudo acima, também se desenvolveu o trabalho com pessoas excluídas, com a gente que nos tempos de indigência se refugiou em assentamentos situados ao redor da capital. Foram articulados planos de emergência, para que estas pessoas não se perdessem da sociedade – primeiro, com procedimentos assistenciais, e depois com programas de construção de moradias, casas de assistência, policlínicas… Alguns destes assentamentos se legalizaram, dotando-se de serviços, e na atualidade formam uma paisagem de bairros modestos mas habitáveis, porque seus donos se preocupam em sempre melhorá-los.

A taxa de desocupação, atualmente muito baixa, contribuiu para que, em uma segunda etapa, estes grupos condenados a princípio à marginalização enfim se incorporassem à sociedade. Há um salário mínimo (em torno de 500 dólares), há um sistema nacional de saúde, aposentadoria, e não há analfabetismo. Cerca de 98% da população tem água potável e 70% dispõem de uma rede pública de saneamento. Falando de aspectos tecnológicos, o Uruguai é o principal exportador de software da América Latina (a ocupação no setor de tecnologia informática é plena) e começa a caminhar com passos firmes nos avanços biotecnológicos, muito ligados aos setores agropecuário e de alimentação.

Alguém pode concluir que talvez foi este conjunto brevemente esboçado de conquistas econômicas e sociais que conduziu The Economist a declarar o Uruguai “País do Ano por sua receita para a felicidade humana”. Se ainda tinha algo faltando, enfim veio a cereja do bolo: o presidente José Mujica, Pepe, que se atrevia a levar a vida que desejava para todos.

O panorama, portanto, é idílico? E isto é um consenso geral? Digo logo que não. As fábricas de celulose, e isto para falar de um só exemplo, obrigaram parte do país a ser reflorestada – levando em conta que o Uruguai, ao todo, é uma planície apenas levemente ondulada, praticamente sem elevações. A reflorestação, que afeta a 2% do território, foi feita fundamentalmente à base de eucalipto, espécie odiada por ecologistas, pois chupa muita água, degrada o solo e ameaça a biodiversidade. Outra das grandes iniciativas do governo Mujica, a mineradora de ferro a céu aberto (o Projeto Aratirí), tem também seus contrapontos, pelo impacto no meio ambiente. De qualquer maneira, os índices de popularidade de Mujica se mantêm em níveis mais que aceitáveis. E assim também segue a aprovação em relação à gestão governamental. De fato, poucos duvidam de que a Frente Ampla volte a ganhar as eleições quando, dentro de um ano, Mujica termine seu mandato.

Resumindo, não é o que dizemos nós: é o que diz a realidade – e reflete o The Economist.

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Pegamos o ônibus 116 para ir a Pocitos – que é um bairro de Montevidéu, não se assuste tão rápido, como dizemos em Madrid. Disseram-nos que ali vendiam peixe, o que constitui uma raridade. Os montevideanos não costumam comer peixes, apesar de terem à sua disposição um rio e um oceano com as espécies mais variadas. Uma despensa gigantesca que ignoram porque só comem carne e massas. Um dia carne, e outro dia massa. Carecem de uma cozinha propriamente dita. Há dias nos quais pode-se sair do hotel e sentir cheiro de churrasco, e em outros dias, o cheio é de macarrão. Se por acaso quiser ir contra a corrente, o único que pode fazer é comer churrasco quando o cheiro é de massa e comer macarrão quando o cheio é de carne.

Mas nos haviam dito que no Mercado do Buceo, em Pocitos, não apenas vendiam peixes e mariscos, como também possuíam um restaurante especializado em produtos do mar. Pegamos, portanto, o 116 (e para você tanto faz se eu dissesse que era o 120) e nos colocamos em marcha. Dentro do ônibus, um pouco atrás do espaço do motorista, havia um assento especial, uma espécie de trono que parecia conferir certa autoridade a quem nele se sentasse. Eu logo o ocupei, claro, como qualquer pessoa com complexo de inferioridade, e na seguinte parada se aproximou de mim uma senhora que tentou me oferecer dinheiro. O motorista riu.

- É que este é o assento do cobrador – ele disse – mas ele está de férias. De qualquer maneira, é um cargo em vias de extinção.

- Na Espanha – eu disse – os cobradores de ônibus entraram em extinção ainda na Era Cenozóica.

Começamos então a conversar sobre este assunto, e logo sobre outro, e sobre mais um, e quando dei por mim já se havia formado uma roda muito agradável de quatro ou cinco pessoas. Em um momento, perguntei ao motorista:

- É permitido a você falar com os passageiros?

- Não, mas mesmo assim eu falo.

Eu disse a eles que nos ônibus italianos existe um cartaz: “Proibido falar com o motorista”. Mas eles não riram. Quando estávamos quase chegando ao destino, o celular do motorista toca. Ele o atende, fala com alguém, talvez sua esposa, e o desliga.

- É permitido a você falar no telefone?

- Não, mas mesmo assim eu faço. Sou um delinquente, hahaha.

O famoso restaurante de frutos do mar revelou-se ser de terceira categoria, mas Pocitos, situado na costa de uma das praias formadas pelo rio da Prata, nos pareceu um bairro agradável, de classe média alta. O que sempre queríamos ter sido.

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Nesta noite, assim que chegamos ao hotel, tocou o telefone. Era a Presidência do Governo. Mujica se sentia indisposto e havia cancelado a viagem a Anchorena. Ó Deus, eu disse a mim mesmo contrariado, e avisei a Jordi Socías, que também lamentou a nossa sorte.

Hesitei entre dormir com o ar condicionado, e pegar uma bronquite; ou com a janela aberta, e ser devorado pelos mosquitos. Escolhi os mosquitos e logo após fechar os olhos fui desperto por uma picada fortíssima no braço. Levantei, acendi a luz, coloquei os óculos, armei-me de um jornal e analisei todas as paredes brancas do quarto, em busca do bicho. Então reparei na existência de manchas negras e irregulares, como testes incompletos de Roschard, formadas pelos corpos de mosquitos que tinham sido esmagados por antigos hóspedes. Compreendi que naquele quarto haviam acontecido verdadeiras barbáries. E nisto, descobri meu chupador de sangue, que era muito grande para inseto, apesar de ainda pequeno para colibri, e baixei sobre ele todo o peso do jornal. E da minha ira. Na parede ficou uma mancha vermelha que com o tempo passou a ser negra. E ao voltar para a cama, lembrei-me de um cartaz que havia visto esse dia no Cemitério Central (um dos mais importantes de Montevidéu) no qual se solicitava aos visitantes que não deixassem água nos recipientes destinados às flores, pois a água podre era um excelente caldo de cultivo para o mosquito da dengue. Calculei a distância que havia do cemitério até o hotel, e não me pareceu provável que viesse de lá aquele que havia me picado.

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A mudança de planos, devido à indisposição de Mujica, nos obrigou a reorganizar nossa viagem. Tendo em vista que não voltaríamos a encontrar com ele, dedicamos os seguintes dias a flanar por Montevidéu, a conhecer o país, a falar com as pessoas. O país se conhecia de muitas maneiras – por exemplo, comprando tabaco. Jordi Socías e eu não fumamos na Espanha, mas no estrangeiro sim. Temos a superstição de que no estrangeiro podemos ser punidos por muitas coisas, mas nunca por fumar. Na primeira caixinha de cigarros que compramos, via-se uma fotografia de dois homens que na realidade eram o mesmo, mas um estava saudável e o outro levava um tubo de oxigênio.

- Em que etapa da doença você está? – perguntava o saudável à sua versão doente.

Nada de “fumar mata” ou “fumar produz câncer”, essa coisa que vai direto ao estômago e é tão nossa. Tudo muito mais sutil, mais uruguaio, mais português ou galego, se vocês preferirem. Ficamos vidrados em comprar pacotes de cigarros porque havia uma grande variedade destas imagens. Em uma delas, uma mulher jovem e bela se olhava no espelho, onde aparecia uma versão de si mesma deteriorada pela quimioterapia.

- Em que etapa da doença você está? – perguntava mais uma vez a mulher sana à que estava doente, em uma frieza atroz.

Comprar tabaco era, para nós, uma forma de conhecer o país. Visitar as feiras ou os pequenos mercados de Montevidéu também o era. A Tristán Narvaja, por exemplo, onde existiam, uma atrás da outra, uma série de livrarias que combinavam sem problemas as maiores novidades editoriais com os livros mais clássicos. Se tivéssemos que deduzir o grau de cultura dos uruguaios pelos títulos que vinham nas capas, diríamos que se trata de um dos povos mais letrados do mundo. Por outro lado, se tivéssemos que deduzir isto da visita ao zoológico de Montevidéu, diríamos que o típico uruguaio é um sujeito para o qual não importa muito o sofrimento dos demais – e dos animais, muito menos. Jamais tínhamos visto um zoológico mais triste, mais enfermo, mais parecido com uma prisão medieval. Os animais nos olhavam como se estivessem condenados à prisão perpétua.

Além de fumar e de visitar o zoológico, viajamos pelo interior, em um carro alugado, enfrentando as tempestades dos trópicos em meio às quais o automóvel esteve a ponto de naufragar em diversas ocasiões. O interior do Uruguai é idêntico a si mesmo. Percorridos cem quilômetros, já havíamos visto tudo. Uma planície cujas suaves ondulações aumentavam, dentro do carro, a sensação de estar viajando em um barco e não em um automóvel. De ambos os lados da estrada, plantações de soja, milho, arroz, entre outros cereais. De vez em quando, um grupo de vacas ou de ovelhas. Era possível passar por dezenas de quilômetros sem ver um só ser humano, sem descobrir uma casa, um povoado, um posto de gasolina. Isto se deve em parte ao fato de que a densidade da população é muito baixa (não chega a 19 habitantes por quilômetro quadrado, quando na Espanha, por exemplo, é de 93). Nós queríamos ter chegado até a fronteira com o Brasil, mas o tempo se tornou impossível.

- Não continuem – nos aconselharam em um pedágio – o tempo está muito bravo.

Como não podíamos deixar de conhecer Punta del Este, lendário resort de milionários argentinos, fomos até lá também, mas acabou nos mostrando ser como Benidorm ou qualquer outro lugar turístico com uma fixação desmedida pelo cimento. Decepcionante, ainda que previsível. Seguindo pela costa, chegamos até José Ignacio, onde por fim comemos um bom peixe assado. Disseram-nos que a costa se tornava mais interessante quanto mais afastada estivesse das grandes aglomerações, e era verdade. Mas tivemos que dar a volta antes de chegar à Punta del Diablo.

As pessoas nos perguntavam o que havíamos achado do Pepe, e nós respondíamos que se parecia com todos eles. Advertimos que a impressão que se tinha de Mujica lá fora não coincidia exatamente com a que se tinha dentro (ninguém é profeta em sua terra). Armados dos cuidados com os quais é conveniente tratar de qualquer generalização, podemos dizer que as classes médias e a elite intelectual do Uruguai observam Mujica com certa condescendência. Agradecem a ele que tenha, enfim, colocado o Uruguai no mapa, mas sua forma de viver ainda é para eles um pouco pitoresca demais.

- Parece que ele tem uma essência melancólica, este louco – nos disse um jornalista, para explicar o fato de que Mujica preferia a chácara ao palácio presidencial.

E as classes altas, por fim, não aprovavam o fato de que ele vivesse tão humildemente, nem que aparecesse nas televisões de meio mundo com as calças de esporte redobradas até os joelhos (tem problemas de circulação e se sente aliviado quando deixa as pernas descobertas). Ninguém negava, porém, as profundas transformações sofridas, para bem, pelo país por baixo de seu mandato. Mas não deixavam de lembrar falhas aqui ou ali, na maioria das vezes de caráter econômico, ainda que recriminassem também seus fracassos nas reformas da Administração e Ensino, dois dos pilares de seu programa eleitoral. Queixavam-se ainda de insegurança, ainda que Socías e eu possamos dizer que em nenhum momento, em nenhuma hora, em nenhuma rua, tivemos um incidente por mínimo que seja, e nem mesmo a sensação de que poderíamos ter tido algum. Montevidéu nos pareceu uma das cidades mais seguras do mundo, ou pelo menos tão segura como Madrid, Barcelona ou qualquer outra cidade europeia.

- O velho – nos disseram alguns, referindo-se a Mujica – se transformou num personagem, e já não dá para saber quando é um ou outro que fala.

Pareceu-nos que a admiração por Mujica crescia à medida que descendíamos a escala social. Da metade para baixo, gozava de uma reputação comovedora. Viam-no como um de seus, e parecia um sinal de extrema coerência que ele houvesse aplicado à sua vida o grau de austeridade que pregava aos demais.

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Daí em meia semana recebemos uma chamada da Presidência do Governo. Disseram-nos que Mujica lamentava não haver podido cumprir com sua palavra de nos levar até Anchorena e que, se estivéssemos dispostos, poderíamos ir na quinta-feira. O fato de que o presidente da República se sentia culpado por não haver cumprido com a palavra dada a dois jornalistas espanhóis (ou finlandeses, dá no mesmo) nos parecia insólito. Seria uma piada? Apressamo-nos a dizer que sim, claro, e ficaram de nos pegar às 13 horas no hotel. De lá iríamos encontrar o presidente, que estaria em sua chácara, e depois viajaríamos até Anchorena (umas três horas), veríamos tudo com tempo e voltaríamos à noite. O programa era pesado para um senhor de 80 anos que levava, além disso, uma dura semana de trabalho. Desde qualquer ponto pelo qual pudesse ser observada, aquela atitude conosco era realmente de uma generosidade sem limites.

O automóvel presidencial mostrou-se ser um Volkswagen de aparência comum, sem nenhum sinal interno ou externo que pudesse delatar a condição de seu ocupante. O motorista, enquanto nos dirigíamos à chácara, nos disse:

- O Pepe é como nós, uruguaios: não esconde nada. Ele vai ao supermercado, à mercearia. Se tem vontade de comer um churrasco, vai ao açougue. Ele faz suas próprias coisas, não manda serviços. Passa a vassoura no chão. E adora dirigir seu fusquinha (um Volkswagen muito antigo).

- Como eu havia prometido, vamos lá, tiramos umas fotos, tomamos qualquer coisa e voltamos – diz Mujica saindo de sua casa com a cara lavada e o cabelo ainda molhado, como se tivesse acabado de acordar de uma sesta.

Anchorena, segundo nos haviam dito, era uma fazenda de mais de mil e trezentos hectares que um argentino com tal sobrenome havia presentado o Governo uruguaio, com a condição de, em troca, visitar a residência de verão do presidente. O presente incluía, ainda, outras condições: que não poderia nunca ser vendido, e que o presidente deveria passar no local pelo menos trinta dias durante cada ano. E tudo isto havia acontecido porque o tal Anchorena, pertencente a uma das famílias mais ricas da Argentina, tinha subido um dia em um balão e ido até o outro lado do Rio da Prata, em Buenos Aires, e aterrissado do lado de cá, no Uruguai, ali onde o rio San Juan desemboca no Prata. O lugar lhe pareceu tão lindo que construiu nele uma casa inglesa de proporções gigantescas, além de diversas estalagens para o serviço e os cavalos. Trouxe espécies de animais de todo o mundo, e reflorestou o lugar – que hoje em dia é um deslumbrante parque natural.

Durante a viagem até Anchorena, Mujica ia sentado no assento do copiloto; Socías, atrás do condutor, com a câmera ligada. Eu, atrás de Mujica.

- O que aconteceu no sábado passado? – perguntei.

- Fui caminhar. Chovia e estava sem roupas de frio. Mas já tomei uns remédios.

Enquanto viajávamos, disse que a chuva nos tinha “pregado uma boa peça”. E nos contou que nasceu em uma chácara e que dedicou vários anos de sua vida a estudar a criação de animais domésticos por todo o mundo, para conhecer aquela que era a maior riqueza de seu país. Então toca o telefone celular, um velho Nokia, e ele o atende. “Olá meu velho”, responde, “diga que vou vê-la”. Desliga. Diz que até os 17 ou 18 anos recebeu aulas de don José Bergamín. Que até os 20 anos leu literatura e filosofia. Que Bergamín dava-lhe aulas de composição literária. Que logo sentiu maior inclinação pelas leituras de caráter científico. Diz que sua geração tem a Espanha como a segunda pátria, que leram muito a Geração de 98. E a Ortega. Diz que pôs como ministro da Agricultura um cultivador de arroz pois 90% da água corrente é levada pelo arroz. Que normalmente tem problemas de seca porque a maior parte da água se perde no mar. Que tem que tirar a água do mar e isso é o que fazem aqueles que cultivam o arroz. Já a soja, diz, é um cultivo recente.

- Aqui – e mostra um ponto da paisagem – está sendo construída uma faculdade de veterinária.

Diz que o que os velhos anarquistas faziam primeiro era fundar uma biblioteca e abrir uma imprensa. Que entre 1900 e 1920, no Uruguai, os anarquistas gozaram de grande influência. E que logo deixaram o anarquismo, mas seguiram preocupados com a questão social. Os anarquistas, acrescenta, criaram os sindicatos.

- Meu pai – diz – morreu quando eu tinha sete anos. Vivia em uma chácara muito pequena, com minha mãe. Mas começaram a deixar as chácaras, e a construir bairros operários. Era um cenário de homens simples e fortes, roupas e instrumentos de trabalho. Ali eu comecei a me politizar. Depois, no Liceu, militei em uma agrupação libertária. Nosso lema era: “que te expulsem do trabalho por lutar, mas não por não trabalhar”. Os anarquistas modernos lutam para não trabalhar.

Diz que no ano passado, quando foi para a Espanha em uma visita oficial, e o levaram a La Zarzuela para ver o Rei, pensou consigo mesmo que aquilo era um disparate. Que não era possível que gastassem dinheiro desta forma enquanto há tantas pessoas com tantas necessidades. Diz que na chácara de sua mãe cultivavam, principalmente, flores. Que naquela época se cultivava muita flor porque era mais forte o culto aos mortos. Insiste que pode-se vender o ar, mas a terra não. É preciso cuidar de toda esta terra verde, diz, olhando para lado e outro da estrada. O petróleo se esgota, mas a terra não se esgotou nunca.

- Está amarelo assim – diz, apontando as plantações de soja – porque choveu tanto que perdeu o nitrogênio. O nitrogênio é muito solúvel em água.

Diz que a foto com o elefante morto em caçada, definitivamente, queimou o filme do rei Juan Carlos. Que a aquela com Corinna era até perdoável, mas a do elefante foi horrível.

- E sobre o que conversaram durante aquela ceia, em La Zarluela? – perguntei.

- Sobre a situação do mundo – responde.

- E para esta conversa empregaram muitos lugares-comuns?

- Os chefes de Estado também vão ao banheiro. São homens.

- Consegue imaginar o Rei da Espanha jantando na sua casa?

- Ele talvez teria dificuldades para comer em minha casa, mas eu não tenho para comer na dele. Eu respeito e me sento em qualquer mesa, mas sei qual é a minha.

Diz agora que 3000 quilos de soja por hectare equivalem a 1500 dólares em valor bruto.

- Valor líquido – acrescenta – 500 dólares. É rentável para um trabalho de quatro meses.

E logo diz que acreditar no dólar é como acreditar nos Reis Magos. Como se fosse a um lojista e se medisse uma tela com um metro de borracha, que pudesse tanto esticar quanto encolher. Diz que apesar de ser ateu dá muita importância filosófica e política à religião.

- Para mim – acrescenta – ser ateu não me deu nenhum problema, porque sou uruguaio. Batlle era um grande anticlerical, escrevia “deus” com letra minúscula. Eu não sou anticlerical.

***

Anchorena era melhor do que nos haviam contado. Era simplesmente o paraíso. Havia uma casa imensa, de princípios do século XX, cuja propriedade se conserva tal e qual havia sido construída. A imensa cozinha te fazia se sentir um pouco diminuído, por toda sua decoração à lá romances dos finais do XIX, e os banheiros ainda conservavam o piso e os sanitários originais. O presidente Mujica nos conduzia de um lado a outro com um gesto de incredulidade, como se, apesar de tê-la visitado em diversas ocasiões, ainda não acreditasse em todo aquele desperdício. Quando ia até lá passar o fim de semana com sua esposa, se alojavam em uma dependência anexa, que talvez já tivesse sido usada, antigamente, para os serviços, e que chamavam de “el hotelito”. Ao passar em frente a um banheiro, pergunto se posso utilizá-lo e ele me diz com expressão de assombro:

- Pode utilizar o que quiser! Há muitos!

E acrescenta:

- A esta casa trazemos gente como Bush, como a presidenta argentina… E assim que se vão, limpamos e fechamos. Se algum dia me visitar o Rei da Espanha, é para cá que vou trazê-lo.

Depois de tomar um
“refrigerio”, Mujica se põe ao volante de uma espécie de caminhonete na qual também vamos Socías e eu, e assim nos perdemos os três pela enorme fazenda. A cada instante, passam à frente do carro alguns grupos de cervos – eles existem em centenas, talvez milhares. A situação nos parece um pouco delirante, em verdade: nenhum presidente de nenhum lugar do mundo dispensaria sua segurança em um trajeto não isento de riscos, e com dois desconhecidos a bordo. De fato, há toda uma gama de árvores e vegetações entre as quais a caminhonete desliza superando, milagrosamente, toda as ervas daninhas, sulcos, terra molhada pelas chuvas recentes.

Em uma das paradas que fazemos, pergunto a ele quanto dinheiro leva consigo.

Pepe tira do bolso de trás da calça uma carteira velha:

- Vinte ou trinta mil pesos – diz, dando uma olhada em seu interior – Eu não tenho cartão de crédito, pago tudo em dinheiro. Uma vez, anos atrás, fui comprar uma moto e queriam me vender ações. Me dei conta que o que queriam me vender não era a moto, mas o crédito. Paguei em dinheiro, mas não consegui que me descontassem mais de cem dólares.

A carteira do presidente da República está cheia de papeizinhos com notas e números, talvez telefones anotados com pressa. Observo que leva também alguns dólares:

- E estes dólares?

- Ah! – diz – levo-os por via das dúvidas, para quando sair ao estrangeiro. Mas não posso gastá-los porque assim que desço do avião me levam e trazem a todas as partes. Devem ser os dólares mais viajados do mundo. Já foram à China e voltaram, quer dizer, já estiveram em todas as partes.

Terminamos a viagem em uma pequena praia na costa do Rio da Prata, da qual se vê, à distância, Buenos Aires. 


Um pinho, arrancado pelo vento, rodopia e desliza pelo ar, mas logo consegue sobreviver agarrando-se na areia.

- Parece mentira – diz Mujica – que não cuidamos da vida, que é um parêntese. Temos toda a eternidade para não ser.

Na volta, nos ensina sobre vacas e as instalações que foram construídas para elas, pois está empenhado em converter Anchorena em uma fazenda produtiva, de maneira que, com a renda obtida, possam-se pagar os gastos de manutenção do local, onde trabalham umas vinte pessoas.

Terminamos a tarde em Colônia, localidade à qual pertence Anchorena, e de onde saem as embarcações para Buenos Aires, tomando um café no terraço de uma cafeteria. A partir deste instante, Mujica se converte em uma propriedade da gente que dele se aproxima, beija-o, toca-o, pergunta por Manuela ou pede que resolva isto ou aquilo. Mujica pega o telefone e faz ligações aqui e ali. Parece que pôs seu escritório a céu aberto. A mesa da cafeteria se converte, por um momento, na mesa de um escritório no qual o presidente toma nota de todas as solicitações.

- É muito importante desmistificar a presidência – diz depois – Isto tem um sentido político: reforçar o republicanismo. A distância entre os políticos e seu povo está criando muito descrédito. E a pior enfermidade é a do povo que não crê em seu Governo. Quando as pessoas dizem: ah, são todos iguais. Pois não.

***

Voltamos à noite, esgotados e em silêncio. Creio que todos dormiam, menos o motorista e eu. Já mais próximos de Montevidéu, paramos em um pedágio, onde o sistema não estava funcionando. O motorista abaixa o vidro do carro:

- Este é o carro presidencial – diz para a garota da cabine – Levo aqui ao meu lado o presidente.

A garota insiste que o sistema caiu e que não podemos passar sem pagar. Mujica, que está muito cansado, inclina-se para dizer:

- Deixa-me passar, querida – suplica.

A garota hesita e diz que tem que falar com seu chefe. Por fim, pagamos.

Alguns minutos depois, deixamos o presidente em sua chácara, onde não se vê nenhuma luz, de modo que seu corpo logo se perde em meio à escuridão. Mujica é tragado pela noite, com seus andares de velho. Nossa viagem chegou ao seu fim.

Nas paredes do Cemitério Central eu vi, outro dia, com pretensões de um epitáfio, um grafite que dizia assim:

“Já te contei”. Pois bem, já te contei.