30 de março de 2014

Máximo apoio ao candidato do Partido Comunista da Ucrânia

Gueorgui Kriuchkov*


Tradução / A Junta Eleitoral Central aceitou processar documentos do Primeiro Secretário do Comitê Central do Partido Comunista da Ucrânia, Piotr Nikoláyevich Simonenko, para ser registrado como candidato do Partido Comunista à Presidência da Ucrânia. Sua candidatura foi proposta no 47º Congresso extraordinário do nosso partido.

No Congresso, alguns camaradas, ainda considerando que Simonenko é, sem dúvida, um candidato digno, expressaram suas dúvidas sobre se valia a pena expor nosso líder nas atuais circunstâncias, quando cresce a ameaça do fascismo no país e quando os neonazistas que ocuparam o poder após o golpe de Estado, juntamente com seus colaboradores da coalizão governante, desataram uma campanha de terror físico e moral contra os comunistas.

Na sociedade também se pode ouvir perguntas do tipo "O Partido Comunista não tem nenhuma outra candidatura além da do Primeiro Secretário? Não há mais ninguém para se candidatar ao mais alto cargo institucional no país?"

Como podemos responder essa questão? Em primeiro lugar, obviamente há no Partido Comunista gente perfeitamente capacitada para ser promovida como candidato a Presidente. No Congresso falou-se nesses nomes. Na minha opinião, em outras circunstâncias, em uma época normal, essa decisão estaria justificada.

Mas hoje, interessa ao nosso partido se desenvolver em condições excepcionais, em uma situação de psicose anticomunista, de calúnias e perseguições, sob a ameaça real de uma nova e ilegal proibição de sua atividade. É preciso ver a realidade. Por mais que se rejeitem uns aos outros os candidatos a presidente do atual governo (são como aranhas em um frasco) e aqueles que se autodenominam opositores, todos eles coincidem em um ponto: em seu apaixonado anticomunismo, nos ataques contra nosso partido, em sua aspiração por nos afastar do jogo politico na Ucrânia. Na Rada (Conselho Supremo), estão preparados os projetos de resolução que ilegalizarão a ideologia comunista e o Partido Comunista. A sede central do Partido Comunista foi saqueada e segue ocupada por ativistas nazistas. Apesar de todas as denúncias aos órgãos competentes e nossas denúncias na Rada para que nossa sede seja liberada, a reação é nula.

Os que expressam os interesses dos clãs oligárquicos traidores, tanto no governo como na oposição, não podem aguentar um partido, que é a única entre todas as forças políticas, que propõe à sociedade uma alternativa real ao caminho desastroso que reforça as posturas das classes exploradoras e os sucessivos ataques contra os direitos sociais e econômicos dos trabalhadores, e que reforçam o status da Ucrânia de território submetido ao Ocidente.

Nessas condições, é muito importante que uma missão tão dura como a de defender a postura e o nome do Partido Comunista como defensor consistente dos interesses dos trabalhadores, a tenha aceitado seu líder, dirigente político experiente, que tem dedicado sua vida à luta pela justiça social e os direitos dos trabalhadores.

Cada campanha eleitoral representa uma dura prova para o partido. Nesta ocasião, a participação do Partido Comunista na campanha eleitoral e o apoio ao seu candidato, possivelmente por uma grande quantidade de eleitores, adquire um significado especialmete importante, trascendental.

O partido deve declarar convincentemente que, apesar de todas as dificuldades, segue existindo, segue atuando, defendendo com afinco e firmeza os interesses dos trabalhadores.

O Congresso do Partido colocou como tarefa ante todos os comunistas, ante todas as organizações do Partido, conquistar um apoio massivo, o máximo possível, nas eleições presidenciais, em respaldo à candidatura do Partido Comunista e de seu Primeiro Secretário.

* Gueorgui Kriuchkov é membro do Comitê central do Partido Comunista da Ucrânia.

O trunfo de "Marianne": Março de 2014, 70º aniversário do programa do CNR

Annie Lacroix-Riz [*] e Georges Gastaud [**]


[Tradução] Atormentada pelo insaciável MEDEF, dividida entre a Europa federal em construção e a euro-regionalização galopante do território nacional, esvaziada do seu emprego produtivo por uma grande burguesia que sacrifica a indústria ao financeiro todo-poderoso (cf. o comportamento da família Peugeot) desprovida da sua proteção social e dos seus serviços públicos vindos do CNR, agredida até na sua língua pela invasão do inglês todo-poderoso, a França Republicana está ameaçada de decomposição.

À sua cabeceira, François Hollande, pequeno procônsul do Eixo Washington-Berlim-Bruxelas, só tem olhos para o grande patronato "nacional" e internacional. Mais grave ainda, o povo francês é chamado a "escolher" entre dois tipos de morte igualmente desonrosos: abandonar-se ao Partido Mastrichtiano Único (Pmu), formado pelo PS, UMP, do centro e da Europa-Ecologia, e a euro-austeridade eterna, tornará rapidamente inviável a ex-"doce França" com milhões de franceses em situação precária e empobrecidos.

Que o nosso povo, levado pela atual vaga azul-castanho-azul-marinho, acabe por optar por UM’Pen em gestação, e será a subida implosiva do racismo de Estado, violências intercomunitárias sobre um fundo de caça aos desempregados (os pretensos "auxiliados"), aos sindicalistas e aos funcionários. Nos dois casos, assistiríamos à negação inusitada da herança da Revolução francesa, da Comuna, das leis de 1905, da Frente popular e do CNR, com a terceira-mundialização das classes populares à cabeça e uma parte maior das "camadas médias". As municipais recentes de resto confirmaram e agravaram este quadro inquietante confrontando a direita radicalizada de M. Coppé e instalando a extrema-direita na escala local.

Ora a "esquerda da esquerda" não tem atualmente a capacidade de impulsionar o levante popular urgente. A "esquerda" do PS está ridicularizada pela opção neoliberal dura escolhida por Hollande. Quanto à Frente de esquerda, continua infelizmente prisioneira da mentira reformista da "Europa social" e "do euro ao serviço dos povos" em nome dos quais há decênios o PS se inscreveu na euro-desmontagem das aquisições sociais e da República. Acrescentemos a esse quadro sombrio que os estados-maiores sindicais euro-formatados e holando-complacentes apresentam uma grande inércia, com uma cumplicidade mal dissimulada, perante os incessantes ataques anti-sociais da UE, do MEDEF e do governo Ayrault.

Mas existem pontos de apoio para um contra-ataque progressista. As lutas duras multiplicam-se nas fábricas e nos serviços públicos. No plano ideológico, intelectuais progressistas tão diversos como J. Nikonoff, F. Lordon, A. Bernier, J. Sapir, E. Todd, o casal Pinçon-Charlot, pronunciam-se para que a França saia do euro, ou seja da UE e da OTAN, para alguns deles. À escala europeia, partidos comunistas e progressistas afastam-se do Partido da Esquerda europeia (presidida por Pierre Laurent), que admite em última análise a funesta moeda única. Personalidades não comunistas como Oskar Lafontaine (RFA) ou Tony Benn (Grã-Bretanha) apontam o dedo ao euro e colocam em causa a ruinosa "construção" europeia. Não só está claro que a UE não é sinônimo de democracia, de justiça social ou de prosperidade, que esse bloco reacionário, anticomunista e grosseiramente russófobo não receia promover em Kiev forças abertamente nazistas, como os conjurados da OTAN e da "União transatlântica" em gestação (na qual a UE imperial aspira a fundir-se sob os auspícios de Washington) não param de provocar confrontos político-militares explosivos do Próximo Oriente aos pés da Rússia passando pela África.

Mas nestas condições ainda há uma cartada de mestre para "Marianne"

É essencialmente a carta ideológica vencedora de uma nova dialética entre o patriotismo republicano e o internacionalismo popular de nova geração. Não, a ligação à soberania nacional não se opõe à cooperação internacional: constitui pelo contrário a condição como o demonstram os países latino-americanos da Alternativa bolivariana das Américas (Alba). Tão pouco a defesa republicana da soberania nacional se opõe ao internacionalismo dos trabalhadores e à resistência anti-imperialista dos povos, pois é associando-se um ao outro, como foi o caso de 1936 ou durante a Resistência, que o patriotismo e o internacionalismo progressistas poderão vencer a aliança duvidosa do euro-atlantismo, nacionalismos reacionários, comunitarismos integristas e regionalismos da Antiga Senhora.

A seguir o mapa estratégico de uma ruptura progressista com o euro, a OTAN, a UE, e o conjunto das instituições do neoliberalismo em perspectiva, a ruptura revolucionária com o capitalismo. Se a França sair, pela via progressista desta prisão dos povos que é a UE, não só as bases de uma reconstrução da nossa economia produtiva poderiam ser reconstituídas, não apenas uma política avançada inspirada nos princípios do CNR poderia ver o dia, mas este desmoronamento politico salutar — necessariamente impulsionado pela Frente antioligárquica, soldando as camadas médias ao mundo do trabalho — lançaria o nosso povo à ofensiva suscitando a simpatia dos trabalhadores bem para lá do continente europeu.

É enfim o mapa tático de uma campanha de massas para deslegitimar sobre bases progressistas a monstruosa UE de Maastricht; para isso convém boicotar as eleições ao parlamento europeu. Já a maioria dos cidadãos europeus e principalmente os trabalhadores, os empregados, os pequenos camponeses e artesãos, recusam votar nestas eleições estrangeiras de que o único fim — a direita e a social-democracia tendo tomado o hábito de co-gerir o "parlamento" de Strasbourg — é extorquir aos povos um cheque em branco que permita à oligarquia instituir o "salto federal europeu" exaltado pelo MEDEF, o PS, os Verdes e a UMP; embora participar na mascarada signifique de fato "por um ato de cidadania", caucionar a obsolescência programada da República francesa. Ao apelo de forças republicanas diversas, quer venham do republicano Jean Moulin, do comunista Ambroise Croizat, do homem do 18 de Junho ou de Jean Jaurés, uma vasta frente francamente republicana poderia então organizar-se em todo o país para dar o seu pleno senso político em virtude da recusa de voto majoritário do nosso povo. Assim a "insurreição dos cidadãos" pedida pela Frente de esquerda sem produzir até agora o menor efeito tangível, poderia pôr em movimento milhões de cidadãos. Hoje, "dentro do possível" o campo do trabalho, da República e do progresso social poderia passar pela brecha de uma abstenção de cidadãos de massas para retomar a iniciativa nos planos social, cultural e político.

Para que o povo francês possa jogar essa cartada de mestre todos os que querem fazer viver os ideais muito atuais do CNR e forçar as barras da prisão euro-atlântica têm o dever, no "momento atual", de impor todos juntos um debate abrangente de massas sobre a saída unilateral da UE atlântica, da OTAN, e da ruinosa moeda única.

[*] Annie Lacroix-Riz, professora emérita de história contemporânea, Universidade de Paris 7, autora de Nas Origens do pelourinho europeu (1960-1965). A França sob a influência alemã e americana (2014).
[**] Georges Gastaud, filósofo, conhecido autor do livro Patriotismo e internacionalismo (2010).

Annie Lacroix-Riz e Georges Gastaud militam no Polo de Resistência Comunista em França (PRCF).

28 de março de 2014

O paradoxo Obama

Continuidade e mudança... Para pior

Andrew Levine

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Barack Obama, candidato, prometeu mudanças; eleito, só entregou continuidade; mas a continuidade provocou mudança – para pior.

Em 2008, “mudança” significava qualquer coisa que os eleitores desejassem que significasse. Como o candidato, a palavra era uma mancha de teste Rorschach.

Muitos, provavelmente a maioria dos eleitores de Obama, não tinham sequer ideia de que tipo de mudança esperavam. Só sabiam que, no governo de George W. Bush, o país perdera dramaticamente o próprio rumo. Supunham que Obama daria algum jeito naquilo.

Alguns eleitores tinham expectativas mais específicas. Alguns pensavam que Obama varreria do país o neoliberalismo. Com uma crise financeira e econômica perigosa, a hora parecia ter chegado, o momento parecia maduro.

Alguns esperavam que Obama restaurasse o Estado de Direito e o respeito à lei, devolvendo as coisas, no mínimo, ao que eram antes do 11/9; muitos esperavam que os criminosos de guerra da era Bush fossem levados aos tribunais.

Outros supunham que o Partido Democrata voltaria a ser mais parecido com o que fora antes de os Clintons acabarem com ele.

A lista continua.

Claro, ninguém sabia o que “mudança” significaria para Obama. Talvez nem Obama soubesse. Não havia como ele ser mais vago.

Mas num ponto, todos, exceto talvez o próprio candidato e seus assessores mais próximos, concordavam: Obama transformaria o regime Bush-Cheney pós-11/9, transformaria totalmente, seria outro, completamente outro.

Não poderiam estar mais errados.

Talvez tivessem ideias diferentes; talvez Obama fosse doente do que os antigos gregos chamavam de akrasia, fraqueza de vontade. Talvez jamais tenha havido qualquer uma ali.

Os mais ardentes apoiadores de Obama, os que continuaram com ele quando já se tornara bem claro que nenhuma mudança viria, culparam os Republicanos; muitos ainda culpam, até hoje. A América corporativa garante-lhes palco noturno, todas as noites: chamam a coisa de MSNBC.

Mas enganam-se a si próprios. Nem ante a obstinação e determinação dos Republicanos, o governo Obama precisaria ser tão perfeitamente igual ao governo Bush-Cheney como se tornou.

Seja como for, os elogiadores de Obama têm um ponto a seu favor: os Republicanos são realmente aplicados, realmente se dedicaram a garantir que o governo Obama fosse um fracasso.

Assim, pode-se dizer que os elogiadores de Obama não são, propriamente ditos, iludidos. Apenas, que deram ao homem deles – e à oposição – demasiado crédito.

Quem sabe o que Obama realmente pensa sobre os assuntos do dia, ou como compreende a relação entre o que diz e suas reais intenções. A única coisa que se pode afirmar com certeza é que as palavras de Obama são vagas, sem compromisso; e que, para todos os objetivos práticos, Obama e seus companheiros Democratas são idênticos aos Republicanos.

Isso não é surpreendente, eles se alimentam do mesmo cocho. O antagonismo entre eles é tático, não estratégico ou ideológico.

De fato, o racismo modela as atitudes Republicanas, além de outras ansiedades de status e convicções ideológicas básicas. Os Democratas, no geral, são gente mais simpática. Mas, no fundo, os dois partidos só querem vencer as próximas eleições. Para eles trata-se de servir melhor ao 1%.

São péssimas notícias para os 99% de nós, cujos interesses e bem-estar não poderiam estar mais entregues às traças. Mas isso é o de menos. Quando nossos “líderes”, não importa o partido, põem os olhos em pontos bem além de nossas (cada dia mais policiadas e militarizadas) fronteiras, todo o planeta padece.

Ainda assim, seria de esperar que houvesse alguma, qualquer, pouca, que fosse, competência na Casa Branca e em todo o establishment da Política Externa dos EUA, proporcional à magnitude das tarefas. O que se constata de mais impressionante é que essa expectativa foi negligenciada igualmente, por governos Republicanos e Democratas, já há um quarto de século.

Quando James Baker e Brent Scowcroft deixaram o governo, quem, em sã consciência, suporia que teriam sido os melhores de tudo que viria depois deles? E, ainda antes, quem suporia que os dias de Zbigniew Brzezinski e Henry Kissinger seriam vistos como uma Idade de Ouro, quando gigantes marchavam sobre a face do planeta?

Barack Obama, como Bill Clinton e George W. Bush antes dele, puseram um bando de imbecis sem-noção, encarregados de lançar o peso dos EUA contra todo o mundo. Não é surpresa que, agora, a coisa toda já esteja desabando sobre a cabeça deles mesmos.

No caso de Bush, a loucura foi de tal ordem que até o cachorrinho de Bush poderia consertar alguma coisa. Mas então veio o presidente da “mudança” para dar andamento ao servicinho de antes.

Resultado disso, as vítimas do império sofreram um enormidade, mas, até agora, o império sobrevive sem arranhões. Grande demais para falir. Mas, ah, sim, até para isso, há limites.

O governo Obama extrapolou esses limites duas vezes. E duas vezes Vladimir Putin salvou Obama.

Putin salvou Obama de ser arrastado para uma guerra catastrófica contra o Irã, e Putin salvou-o de fazer naufragar os EUA envolvidos na guerra na Síria.

Mas o arqui-inimigo dos EUA não promete ter a mesma serventia, quando os gênios do Departamento de Estado e do Conselho Nacional de Segurança miram suas maquinações contra a própria Rússia.

O establishment de política exterior de Putin supera o de Obama em todos os campos e medidas. No instante em que deixar de interessar a eles ajudar a salvar Washington, a boa sorte de Obama acabará num minuto (hora de Nova York ou de Moscou, tanto faz).

Era melhor no tempo de Bush-Cheney? Não era. Mas o mundo mudou – em parte, porque as políticas de Obama nunca mudaram. Por isso, na maior parte, aquelas mesmas políticas são hoje mais tóxicas do que foram nos dias de Bush-Cheney.

Nesse sentido, até que mudamos, afinal de contas. Mas quando se fazem as contas, vê-se que estaríamos melhor, se tivéssemos conseguido menos do mesmo, em vez de mais do mesmo, como temos hoje.

Bush e Cheney atropelaram o devido processo legal e os direitos de privacidade, em nome da segurança. Com eles no poder, as limitações Constitucionais eram apenas pequeno inconveniente que eles se sentiam a vontade para ignorar.

Também para Obama. Mas, ao dar prosseguimento ao trabalho dos dois que o precederam, Obama piorou qualitativamente, tudo. Graças a Edward Snowden, temos hoje ideia de como era ruim e de como ficou muito pior.

Não sabemos o quanto de terrorismo foi contido, se algum terrorismo, de fato, foi contido, por Bush e Cheney – ou por Obama. O que, sim, sabemos, é que eles aumentaram muito a oferta de terroristas possíveis. Para isso serve invadir países dos outros; para isso serve aterrorizar populações civis, lançando sobre elas morte e desgraça.

Obama fez aumentar muito o nível do terror, mesmo que talvez tenha reduzido o nível geral de violência bélica.

Seus antecessores também usaram assassinos profissionais e drones. Mas, na quantidade, preferiram soldados e bombardeiros. No geral, faziam a coisa à moda antiga.

Obama, o candidato da paz, manteve todas aquelas guerras; escalou, até, algumas delas por algum tempo – o suficiente para repaginar as ocupações do Iraque e do Afeganistão.

Mas Obama deu preferência ao assassinato clandestino – a maioria dos assassinatos cometidos por Obama foram cometidos por assassinos mascarados e por drones. Com isso, Obama modificou a postura dos militares norte-americanos. De um ponto de vista moral, ficaram piores do que eram.

Agora, o terror já não é só o último recurso dos humilhados; agora, já é também primeira escolha de um exército super equipado, mais mortífero que todos os demais exércitos do mundo somados.

Ao assumir a coisa no ponto em que Bush e Cheney a deixaram, esse laureado do Prêmio Nobel pôs à solta o equivalente funcional de um exército de suicidas-bombas, lançando partes imensas do mundo muçulmano num perpétuo reino de terror.

Os drones de Obama são especialmente daninhos.

Por um lado, porque são ainda piores que suicidas-bombas, porque aterrorizam mais eficientemente populações civis. Gente comum pode evitar locais que suicidas-bombas tendem a escolher como alvos; mas ninguém consegue pôr-se a salvo daqueles drones.

E, de um ponto de vista moral, matar com drones é, visivelmente, crime pior. Suicidas-bombas dão a vida pela própria causa. No fim do dia de trabalho, os operadores de drones norte-americanos jantam em casa com a família.

Os seus superiores, os que ordenam a matança, esses, envolvem-se ainda menos. Quem decide quem morrerá é Obama; seus funcionários decidem onde e quando; os sub-dos-subs apertam os botões. Quanto mais altos na cadeia de comando, mais eles têm cara de satisfeitos consigo mesmos.

Em questões ambientais, Obama também piorou as coisas, só por ter prosseguido nas políticas de nada fazer dos predecessores. Enquanto isso, as mudanças ecológicas continuam e rapidamente todos os perigos só fazem aumentar.

O governo Obama introduziu algumas poucas mudanças para melhor: por exemplo, nos padrões de emissões de gás carbônico. Mas nada fez contra as grandes causas do aquecimento global. Assim, a cada ano que passa, aproximam-se os pontos sem volta; alguns já ficaram para trás.

E há também a tendência, em Obama, de aprofundar os danos iniciados pelos predecessores, o que Obama consegue mediante políticas de implementação mais efetivas.

Mas o que Obama mais faz é falar e engambelar quem o ouça. Por exemplo: Obama falou muitas vezes a favor da reforma das leis da imigração; sim, mas... o recorde de deportações de Obama é muito superior ao de Bush. Contra o trabalho organizado, também, Obama fez muito mais que Bush.

Em linha semelhante, Obama jamais disse uma palavra que não fosse a favor da transparência no governo e da importância de uma imprensa crítica vigorosa. Quem o ouça falar, pensará que é o melhor amigos dos vazadores. Sim, mas, também nesse quesito, Obama tem sido pior que Bush e Cheney ou, na verdade, pior que todos os presidentes antes dele, exceto talvez, Richard Nixon.

O homem fala como papagaio. Não diz coisa com coisa. Claro, nas questões domésticas, ele tem lá suas razões, prestem ou não. Mas no front diplomático, parece não haver sequer uma linha de pensamento coerente por trás do que ele diz; nem ele nem sua equipe, nada, sequer alguma vaga ideia.

Por isso o mundo hoje é ainda mais perigoso do que quando Obama assumiu.

O problema não é só que a Guerra ao Terror, e sua continuação no governo Obama, tenha sido estupendamente contraproducente; que criou e reuniu terroristas muito mais depressa do que os assassinos profissionais e os drones e os “coturnos em solo” conseguiam matá-los.

Já se vai tornando claro também que as guerras Bush-Obama desestabilizaram toda a região – da Líbia ao Paquistão e ultimamente, sob o “comando” de Obama, também das margens do Tigre ao Mar Mediterrâneo.

O Leste da África, áreas muçulmanas muito distantes, no Oceano Pacífico, também foram incendiadas, e estão hoje em situação pior que antes.

As guerras do governo Bush-Obama também reforçaram o papel do Irã como potência regional. Seja isso bom, ou mau, é claro que esse jamais foi o objetivo dos EUA e de Israel.

Claro, o sem-noção total é faca de dois gumes. A América Latina muito se beneficiou do fato de os EUA estarem metidos simultaneamente em vários pântanos no Oriente Médio.

Enquanto Bush e Obama olhavam para outro lado, floresceram movimentos populares na Nicarágua, no Equador, na Bolívia e no Uruguai. E também o Brasil e a Argentina começam a deslocar-se para a esquerda.

E, apesar de várias tentativas desde o 11/9 – a mais recente está ainda em andamento nesse momento – os EUA não conseguiram derrubar o governo democraticamente eleito da Venezuela. A guerra sem fim que os EUA fazem contra Cuba está hoje mais perdida que antes.

Ao sul dos EUA, os ataques do 11/9 – ou, melhor dizendo, a reação dos EUA àqueles ataques – foram, pode-se dizer, um presente de Deus.

Já é cada dia mais evidente que, pelo menos num sentido, também foram presente de Deus para o resto do mundo. As manobras contraproducentes dos EUA contra o mundo muçulmano levaram a um beco sem saída os planos de EUA e União Europeia para levar as fronteiras do “ocidente” até as portas da Rússia e para cercar a Rússia com bases da OTAN.

Esse plano foi posto em andamento nos tempos de Clinton. A Rússia então não estava em posição de poder oferecer muita resistência – não naquele momento, quando cleptocratas governavam o país, e a maioria da população russa padecia dificuldades econômicas, desemprego e perda de serviços públicos, resultados da restauração, na Rússia, de um sistema econômico antiquado.

O sucesso dos EUA−Europa (principalmente, a Alemanha), no desmembramento da Iugoslávia, serviu então como prática e estímulo. Com o novo milênio chegando, o futuro parecia aberto para eles.

Mas então veio o 11/9 e as prioridades mudaram. Hoje, parece que estão mudando outra vez, para trás.

Evidentemente os sétimos céus da política exterior dos EUA convenceram-se de que, além de prosseguirem contra o Oriente Médio, a Ásia Central e o subcontinente indiano, é hora de meterem também a Rússia, de volta, na alça de mira.

Tudo isso pode ter a ver também com o petróleo, pelo menos em alguma medida; mas o petróleo não é o fator principal. E vai bem além das exigências de comandar algum império global ou tornar o mundo seguro – ou ainda mais seguro – só para os capitalistas ocidentais.

Os capitalistas ocidentais não precisam de nenhum tipo de renascimento do fascismo europeu e do antissemitismo europeu. Nem eles precisam, nem nós precisamos. Tampouco, nem eles nem nós precisamos de movimentos à Al-Qaeda brotando por todo o Oriente Médio, ou pelo centro e sul da Ásia.

Mas as políticas de nossos “líderes” levaram todos a isso. Desnecessário dizer que chegaram onde não lhes interessava chegar. Mas, sendo assim, o que, afinal, eles têm em mente? Bobagem procurar. Nada têm em mente que seja, sequer remotamente, coerente; o mais provável é que absolutamente não saibam o que fazem.

Mesmo assim, seguem “em frente”. Com os velhos “satélites” soviéticos já pendurados nos EUA e na Europa, a única coisa que lhes resta é levar a União Europeia e a própria OTAN para dentro da própria velha União Soviética.

A ideia é ridícula, risível, e não só porque a Rússia é hoje muito mais poderosa do que foi nos anos 1990s. Se o império Americano não estivesse em mãos tão incompetentes, nada disso estaria acontecendo.

Derrubar governos recalcitrantes nunca foi difícil para os serventes do império. Os velhos métodos foram aperfeiçoados, primeiro, na América Latina. Depois da IIª Guerra Mundial, foram aplicados no resto do mundo.

A fórmula é simples: invista dinheiro pesado em criar o caos. Depois, no momento adequado, apoie com discrição golpes de estado locais, perpetrados por fregueses ou simpatizantes.

É exatamente o que estão fazendo nesse momento – até aqui sem sucesso – na Venezuela.

Mas, até hoje, os “líderes” dos EUA sempre tiveram o bom senso de manter suas maquinações confinadas nas esferas de influência dos EUA ou em áreas periféricas que não gerassem graves preocupações de segurança para as grandes potências.

Depois da II Guerra Mundial, não havia grande potência maior que a União Soviética. Era aceitável encorajar dissidentes lá e na Europa Oriental. Mas nenhum “líder” norte-americano seria suficientemente doido para falar em “mudança de regime”; não, é claro, com a possibilidade de desencadear uma guerra nuclear. O papel de Eisenhower no Levante da Hungria em 1956 foi, nesse sentido, exemplar.

A Rússia pós-1991 ainda era capaz de reduzir o planeta a poeira. Assim sendo, até Bill Clinton mostrou algum bom senso. Foi levado pelas circunstâncias – mas não ao ponto de total temeridade. E safou-se.

É pouco provável que sua esposa tenha tido muito a ver com os planos de ampliar a União Europeia ou de levar a OTAN para a fronteira da Rússia. Não parece tampouco que fosse item de sua lista-de-supermercado quando foi Secretária de Estado do governo Obama.

Mas Hillary Clinton pula, lépida, em qualquer vagão que passe por ali. E, sim, já abraçou abertamente a causa. Em sua alocução de estreia, já logo declarou que Vladimir Putin “é Hitler”.

Frase idiota. Mas, se se considera a fonte, perfeitamente esperável.

Obama foi além dessa, nas imbecilidades. Falando na Bélgica, depois de reunir-se com líderes do G-7 (mais, e agora menos, 1), não teve vergonha nem de insultar o presidente da Rússia: disse que não passa (ria) de líder de potência regional cujas ações manifestam fraqueza. Falou como maluco. Obama chamou Putin, de fraco. Como consegue ainda olhar a própria cara no espelho?

Mas... e como consegue olhar alguém de frente, depois de acusar Putin de ter violado a lei internacional? Obama é inacreditável.

Será que a ideia de reviver as políticas da era Clinton é ideia de Obama? Ou se devem culpar eminências secundárias como John Kerry, ou aqueles horrendos “interventores humanitários” que Obama cobriu de poderes? Seja a culpa de quem for, a ideia de gerar riscos de segurança nacional para a Rússia é a pior ideia que alguém teve, nos EUA, desde o dia em que George W. Bush, caído em desgraça, saiu da Casa Branca.

Se Obama era dito “menos ruim” que John McCain em 2008, era, precisamente, porque se dizia não cúmplice desse tipo de ideia. Se se observa a inclinação que McCain manifesta hoje de não se envergonhar de exibir a própria temeridade tresloucada, Obama & McCain fazem, isso sim, perfeita dupla.

Seja como for, já está claro que EUA e União Europeia – e os nacionalistas ucranianos cujo golpe encorajaram – perderam tudo, pelo menos num item: nada e ninguém desfará a incorporação da Crimeia à Rússia.

Com todos os erros e falhas, Putin e sua equipe são tão absolutamente melhores que Obama e sua gangue, que, a partir do momento em que se organizam para agir, os russos sempre se saem melhor, mesmo que tenham de jogar com cartas mais fracas.

Felizmente, os russos não são só mais espertos: também são mais sábios. Sabem quando não forçar a própria boa sorte; por isso, esperemos, saberão lidar com opositores tão totalmente sem-noção, sem rumo e sem vergonha quanto os que lhes apareceram agora.

Por isso, é bem provável que os EUA nos safemos de mais essa. Os perigos que Obama et. alii lançaram sobre o mundo, quando resolveram meter as garras na Ucrânia, continuarão, provavelmente, contidos.

Diferente dos EUA, a Rússia tem interesses legítimos de segurança nas repúblicas ex-soviéticas. Obama e sua gangue são, portanto, como crianças brincando com fósforos. Os russos, como tudo indica, também sabem resistir a provocações imbecis.

Porque, sim, os russos foram provocados. E continuarão a ser provocados. Obama pode, sim, decidir pôr fim às provocações, mas, até aqui, só tem feito o contrário.

Nos últimos dias, a animosidade anti-Rússia parece já ter ultrapassado todos os muros de Washington. E para onde andem Democratas e Republicanos, atrás deles segue toda a imprensa-empresa. Os suspeitos de sempre estão ocupadíssimos, tentando provocar o máximo dano possível, com a maior velocidade possível.

Nunca mais, desde a invenção da Guerra do Iraque, viu-se tanta propaganda de promoção dos erros e loucuras do governo dos EUA, como agora. A National Public Radio (NPR) está excepcionalmente insuportável. Eu, pessoalmente, já não suporto ouvir aquilo, nem para manter uma vozinha de fundo, enquanto trabalho.

Se os russos não morderem a isca e não descerem ao nível de Obama, as consequências são terríveis.

E o futuro não será melhor, se não morderem nem descerem. A equipe Obama faz o que bem entende com tanta frequência, que quanto mais fazem, mais querem fazer.

Portanto, se não forem detidos, as provocações continuarão, cada dia mais perigosas. Há outras repúblicas ex-soviéticas por lá; e não se pode esquecer que Obama ainda comicha de vontade de pivotear-se “na direção da Ásia”.

Em outras palavras, Obama também está olhando na direção da China. É terrível. Tampouco nisso, vê-se qualquer sinal de prudência naquela cabeça.

É grave ironia – e patética ironia – que a melhor esperança dos norte-americanos para evitar as piores consequências das políticas de Bush-Obama seja hoje um conservador russo, homem-forte liberal – presidente com inclinações autocráticas, mas, também, político consistente e competente, com senso histórico, suficientemente esperto e sábio para não se pôr a cometer loucuras armadas pelo planeta. Não é o melhor que se pode esperar da democracia. Apenas mostra o quanto a democracia norte-americana está distante da democracia ideal.

Mas, com presidente incompetente, sem vergonha e sem noção – e sistema político tão corrupto e degradado que já não garante a mudança para a qual os eleitores votam – o que temos hoje nos EUA é o máximo de “hope” e de “change” que sobrou para nós.

Como Vladimir Putin tornou-se mal

Os EUA e o Reino Unido condenaram-no pela Crimeia mas o apoiou durante a guerra na Chechênia. Por que? Porque agora ele se recusa a jogar o jogo.

Tariq Ali

The Guardian

[Tradução] Mais uma vez, parece que a Rússia e os Estados Unidos estão encontrando dificuldades para chegar a acordo sobre a forma de lidar com as respectivas ambições. Este choque de interesses atingiu o auge na crise ucraniana. A provocação, neste caso particular, como sugere a gravação que vazou de uma diplomata dos EUA, Victoria Nuland, dizendo “Foda-se a União Europeia”, veio de Washington.

Várias décadas atrás, no ápice da Guerra Fria, George Kennan, um estrategista da política externa americana informou a audiência de suas palestras: “Não há, deixe-me assegurá-los, nada na natureza mais egocêntrico do que a democracia em apuros. Logo ela se torna vítima de sua própria propaganda. Em seguida, ela tende a dar a sua causa um valor absoluto que distorce a sua própria visão... O inimigo se torna a personificação de todo o mal. Ela é o centro de todas as virtudes”.

E assim continua. Washington sabe que a Ucrânia tem sido sempre um assunto delicado para Moscou. Os ultranacionalistas que lutaram com o Terceiro Reich durante a Segunda Guerra Mundial mataram 30 mil soldados russos e comunistas. Pavel Sudoplatov, um chefe da inteligência soviética, escreveu em 1994: “As origens da Guerra Fria estão intimamente entrelaçadas com o apoio ocidental à agitação nacionalista nas áreas bálticas e na Ucrânia ocidental.”

Quando Gorbachev assinou o acordo da reunificação alemã, o secretário de Estado dos EUA Baker assegurou-lhe que “não haveria expansão da jurisdição da Otan nem uma polegada para o leste”. Gorbachev repetiu: “Qualquer expansão da Otan é inaceitável.” A resposta de Baker: “De acordo”. Uma das razões que levaram Gorbachev a apoiar publicamente Putin na Crimeia é que sua confiança no Ocidente foi tão cruelmente traída.

Enquanto Washington acreditava que os líderes russos cegamente faziam o que lhe interessava (especialmente o bêbado Yeltsin), Moscou teve apoiou. O ataque de Yeltsin ao parlamento russo em 1993 foi festejado nos meios de comunicação ocidentais. As agressões à Chechênia por Yeltsin e depois por Putin foram tratadas como um pequeno problema local por George Bush e Tony Blair. “A Chechênia não é o Kosovo”, disse Blair depois de sua reunião com Putin em 2000.

O livro de Tony Wood, “Chechênia: a favor da independência”, fornece capítulo e versículo dos horrores que foram infligidos a esse país. A Chechênia tinha sido independente entre 1991 e 1994. Seu povo observou a velocidade com que as repúblicas bálticas fizeram sua independência e queria o mesmo para si.

Em vez disso, foram bombardeados. Grozny, a capital, foi praticamente reduzida a pó. Em fevereiro de 1995 dois economistas russos corajosos, Andrey Illarionov e Boris lvin, publicaram um texto no Moscow News a favor da independência da Chechênia e o jornal também publicou algumas excelentes reportagens que revelaram atrocidades em grande escala, superando o cerco a Sarajevo e o massacre de Srebrenica. Estupro, tortura, refugiados desabrigados e dezenas de milhares de mortos. Nenhum problema para Washington e seus aliados da União Europeia.

No cálculo dos interesses ocidentais não há sofrimento, qualquer que seja a sua dimensão, que não possa ser justificado. Chechenos, palestinos, iraquianos, afegãos, paquistaneses são de pouca importância. No entanto, o contraste entre a atitude do Ocidente em relação à guerra na Chechênia e a Crimeia é surpreendente.

A invasão da Crimeia não teve nenhuma perda de vida e a população claramente queria fazer parte da Rússia. A reação da Casa Branca foi o oposto da sua reação à Chechênia. Por quê? Porque Putin, ao contrário de Yeltsin, está se recusando a baixar a cabeça para a expansão da Otan, as sanções ao Irã, a Síria etc. Como resultado, ele se tornou o mal encarnado. E tudo isso porque decidiu contestar a hegemonia dos EUA usando os métodos frequentemente implantados pelo Ocidente. (As repetidas incursões da França na África são apenas um exemplo.)

Se os EUA insistem em usar o ímã da Otan para atrair a Ucrânia, é provável que Moscou irá separar a parte oriental do país. Aqueles que realmente valorizam a soberania ucraniana devem optar pela independência real e uma neutralidade positiva: nem um brinquedo do Ociente e nem de Moscou.

O negócio do FMI na Ucrânia

Indo em direção a crise como a Grécia?

Jack Rasmus

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Em 27 de março de 2014 o FMI divulgou os traços gerais dos seus termos e condições para empréstimos e outras medidas destinados à economia ucraniana. O que significam aqueles termos e condições é menos um resgate da economia ucraniana do que o anunciar de uma crise econômica como a grega para a massa do povo ucraniano.

A economia da Ucrânia entrou claramente numa recessão, a sua terceira desde 2008, em algum momento no segundo semestre de 2013. Algumas estimativas recentes da provável contração da economia em 2014-15 variam de 5% a 15% em termos de declínio do PIB.

O texto do "IMF Standby Agreement with Ukraine" divulgado em 27 de março reconhece a atual grave instabilidade econômica da ucraniana. O que deixa de reconhecer, contudo, é como o pacote do FMI impactará ainda mais adversamente aquela economia.

O acordo proposto pelo FMI fala em US$14 a US$18 bilhões de apoio financeiro a serem fornecidos ao longo dos próximos dois anos, 2014-15. Outros US$9 bilhões potenciais virão de outros países, embora de forma ainda não especificada. O Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento aparentemente fornecerá US$2 bilhões daqueles US$9 bilhões. Presumivelmente o pacote da ajuda americana e torno dos US$1-US$2 bilhões agora atualmente a tramitar no Congresso dos EUA representa mais um elemento dos US$9 bilhões. Os US$5 bilhões dos restantes US$9 milhões de financiamento não-FMI ainda não estão identificados.

O total de US$27 bilhões está bem acima dos US$15 bilhões que eram falados nas semanas anteriores pela imprensa pública e mais do que os US$20 bilhões que a Ucrânia pediu ao FMI no fim de 2013 – uma indicação de que a economia tem estado a deteriorar-se mais rapidamente do que o informado a partir do princípio de 2014.

Em artigos anteriores sobre a situação econômica da Ucrânia há algumas semanas, o autor deste texto estimara que pelo menos US$50 bilhões seriam necessários para estabilizar a economia da Ucrânia nos próximos dois anos. Aquele número pode mesmo elevar-se em 2015.

A declaração de 27 de março do FMI trata do que considera as mais importantes fraquezas da economia ucraniana e que exigem atenção imediata e concentrada. Aquelas fraquezas incluem o atual défice comercial da Ucrânia, suas reservas de divisas internacionais em declínio rápido, seu défice orçamental e o défice do orçamento da sua companhia nacional de gás de propriedade do Estado, a Naftogaz.

O FMI estima que o défice comercial da Ucrânia (exportações menos importações) em cerca de 9% do PIB (US$17 bilhões por ano) é devido à estagnação das exportações. O que o FMI propõe a fim de resolver isto é permitir que a divisa da Ucrânia continue a "flutuar mais livremente". A divisa ucraniana até então em 2014 já caiu 26% em relação ao dólar. Assim, a ideia é permitir que a divisa decline ainda mais. Em teoria, isso tornará as exportações ucranianas mais competitivas e por sua vez reduzirá o défice comercial. O problema é que também resultará numa ascensão drástica do custo das importações e portanto inflação para as famílias ucranianas. A política do FMI de promover ainda mais declínio da divisa significará, por outras palavras, ainda mais inflação interna, atingindo primariamente as famílias e portanto menos gastos das mesmas com outros bens e serviços.

Permitir que a divisa decline ainda mais sugere que a política do FMI é no sentido de o banco central ucraniano não intervir agressivamente nos próximos meses para apoiá-la nos mercados globais. Isso liberta mais dos fundos do FMI para pagamentos de serviço de dívida a bancos ocidentais pelos empréstimos atuais e passados. Como indica a declaração do FMI, "grandes reembolsos de dívida externa assomam em 2014-15". O montante dos pagamentos da dívida é estimado em US$ 6,2 bilhões. Assim, as famílias ucranianas pagarão em parte a dívida aos bancos ocidentais tendo de ajustar-se a inflação mais alta e reduzindo seu gasto real.

Uma vez que US$6,2 bilhões do pacote total do FMI de US$27 bilhões irão para pagamentos do serviço da dívida ao ocidente, isso também significa que potencialmente restarão apenas US$21 bilhões do salvamento do FMI para estimular a economia ucraniana. Mas a palavra chave aqui é "potencialmente", desde que muito menos do que os US$21 bilhões irão realmente para a economia – e serão compensados por muito mais "retirados" pelo acordo com o FMI.

Uma injeção líquida do FMI de US$21 bilhões é uma ilusão econômica. Eis o porquê.

Em primeiro lugar, a economia da Ucrânia declinará devido ao pacote do FMI porque as suas medidas exigem grandes mudanças nas políticas monetária e orçamental do país que arrefecerão, não estimularão, a economia ucraniana.

Exemplo: a declaração do FMI pede uma política monetária que tenha em vista "estabilidade de preços interna mantendo ao mesmo tempo uma taxa de câmbio flexível". Isso significa que ao banco central, o Banco Nacional da Ucrânia (BNU), será exigido reduzir a ofertar monetária do país e portanto elevar taxas de juros internas, como parte de "uma estrutura objetivando a inflação nos doze meses seguintes para ancorar firmemente expectativas inflacionárias". Traduzindo o jargão econômico, isso significa que a política do BNU e do FMI de elevar taxas de juro enfraquecerá a economia a fim de compensar pressões inflacionárias esperadas das importações que ocorrerão com um novo declínio da divisa. Essa política de alta da taxa de juro destinada a compensar a esperada inflação importada deprimirá mais uma vez a economia real. E isso traduz-se numa nova perda de empregos quando os negócios cortarem a produção devido à ascensão dos custos com juros.

Mas isso ainda não é nem a metade. As medidas do FMI não só resultarão em aumento da inflação importada como produzirão ainda maiores pressões inflacionárias devido aos termos ditados pelo FMI quanto ao gás natural da Ucrânia. As estimativas são de que os preços do gás natural aumentarão em 79% devido ao aumento de 50% nos preços do gás ditado pelo FMI. Simultaneamente, como os preços do gás irão aumentar, os subsídios ao gás para as famílias serão totalmente eliminados ao longo dos próximos dois anos, segundo o FMI.

Tem-se informado que os subsídios ao gás para as famílias equivalem a 7,5% do PIB da Ucrânia. Assim, eliminar subsídios ao gás significa uma redução no consumo de US$6,5 bilhões por ano, pois as famílias terão de reduzir outros consumos para pagar agora pelas altas do preço do gás e a remoção gradual dos subsídios.

Essa remoção gradual dos subsídios e o aumento de 79% dos preços do gás significa um corte de US$13 bilhões no consumo real durante dois anos, 2014-15. Isso reduz em US$13 milhões os restantes US$21 bilhões do pacote do FMI, deixando apenas US$8 bilhões de potencial líquido para estimular a economia real. Contudo, essa ainda não é o quadro completo do impacto negativo do acordo com o FMI sobre a economia ucraniana.

O FMI também reclama reformas na "Política orçamental", ou aquilo a que chama a necessidade de "implementar ajustamento orçamental mais profundo" que "reduzirá o défice orçamental para cerca de 2,5% do PIB em 2016". Esse corte de 2,5% no orçamento representa outros US$4,5 bilhões de cortes nos gastos anuais total do governo ucraniano (e/ou aumentos de impostos), presumivelmente em cada um dos dois anos seguintes.

Os cortes nas despesas sem dúvida virão de reduções de emprego no governo e cortes nos salários para os trabalhadores remanescentes. Eles sem dúvida incluirão cortes profundos no sistema de pensões afetando todos os aposentados, os quais alguns estimam que significará cortes em pensões de até 50% em 2016. É possível que US$4,5 a US$9 bilhões em redução no défice do governo ao longo dos dois anos signifiquem altas nos impostos sobre vendas para famílias consumidoras quando os impostos sejam cortados para os negócios, uma vez que a declaração do FMI de 27 de março também clama por "medidas para facilitar o reembolso de IVA para os negócios".

Na sua declaração de 27 de março o FMI não especificou os cortes de empregos, salários e pensões que exige. Está claramente à espera que o governo interino ucraniano inflija esses ferimentos sobre si próprio e o povo ucraniano, a seguir aos quais a administração do FMI aprovará o acordo oferecido.

Em resumo, o documento de 27 de março reclama o pagamento de US$6,5 bilhões de serviço de dívida aos bancos e prestamistas ocidentais durante os próximos dois anos. Além disso exige a redução dos subsídios ao gás para as famílias em outros US$13 bilhões mais a remoção total dos mesmos. E indiretamente apela ao governo ucraniano para cortar despesas em pelo menos US$8 bilhões (2,5% do PIB) durante os próximos dois anos – na forma de cortes de empregos e salários na função pública e reduções no pagamento de pensões de prováveis 50% para a generalidade dos aposentados.

A soma de tudo isso, e não surpreendentemente, é cerca de US$27 bilhões. São US$27 bilhões de gastos e estímulos retirados da economia real ucraniana por imposição do FMI. Por outras palavras, quase os US$27 bilhões que o FMI supostamente providenciará para o PIB segundo o anúncio de 27 de março. O que significa que famílias ucranianas pagarão pelos US$27 bilhões do pacote do FMI com preços de gás mais elevados, eliminação de subsídios ao gás, cortes em empregos e salários no governo e grandes reduções no pagamento de pensões.

Mas os US$27 bilhões não são realmente um "compromisso equilibrado". São realmente um estímulo negativo para a Ucrânia devido à concordata com o FMI. É de recordar que os US$6,2 bilhões em pagamentos de serviço da dívida a saírem para o ocidente não terão qualquer impacto positivo sobre o PIB da Ucrânia. Assim, acima de tudo, são realmente apenas os US$21 bilhões líquidos do FMI "para dentro" contra os US$27 bilhões ucranianos levados "para fora" da economia pelas exigências do FMI. Mas mesmo US$21 bilhões "in" contra US$27 bilhões "out" não é ainda a verdadeira estimativa líquida.

Os US$27 bilhões retirados refletem um "efeito multiplicador" da despesa da família consumidora que é muito maior dos que os US$21 bilhões de injeção interna líquida do FMI na Ucrânia. Se se assumir de modo conservador um efeito multiplicador de 1,5, o montante retirado da economia ucraniana e superior a US$40 bilhões ao longo dos próximos dois anos – uma quantia maciça uma vez que o PIB da Ucrânia em 2012 não era mais do que US$175 e estava em estagnação em 2013. Naturalmente, os US$40 bilhões "saídos" são ajustados pelos US$21 bilhões entrados e seu efeito multiplicador. Mas enquanto os US$40 bilhões "saídos" verificar-se-ão com certeza, não há garantia de que toda a injeção de US$21 bilhões do FMI venha realmente a acontecer.

Uma parte daqueles US$21 bilhões sem dúvida serão "postos de lado" pelo banco central ucraniano para reforçar suas reservas de divisas estrangeiras, hoje em torno de apenas US$10 bilhões ou menos. Algo dela será utilizado para apoiar negociantes ucranianos na compra de importações europeias de bens intermediários, que se prevê aumentarem de custo significativamente à medida que a divisa da Ucrânia continue a declinar. E algo da mesma irá para empréstimos do BNU a negociantes ucranianos que entesourarão o dinheiro e não o utilizarão para expandir a produção. Tudo isto significa que não mais do que a metade da injeção líquida de US$21 bilhões do FMI afetará realmente a economia real ucraniana. Dadas estas "fugas", os efeitos multiplicadores das injeções do FMI sem dúvida demonstrar-se-ão negativos. Não é irrazoável assumir que não mais do que uns US$10 bilhões líquidos dos US$21 bilhões do FMI entrarão como estímulo na economia real da Ucrânia.

Isso deixa não mais do que uns US$10 bilhões de estímulo líquido durante dos próximos dois anos, compensados por um "multiplicador" de US$40 bilhões de reduções na economia real durante os mesmos dois anos. Uma redução líquida de US$30 bilhões no PIB da Ucrânia em dois anos, ou cerca de US$15 bilhões por ano, representa um declínio cumulativo no PIB de pelo menos 18%. E isso é uma Depressão como na Grécia.

Ao absorver a economia ucraniana na Eurozona, esta última está com efeito a tomar sob a sua asa econômica uma outra "Grécia" e "Espanha". E como no caso destas economias, aqueles que pagarão não serão os banqueiros nem os negociantes multinacionais e sim o povo ucraniano. Mas isso é a história essencial e repetida e o legado global dos acordos com o FMI durante as últimas três décadas.

Jack Rasmus é autor de Epic Recession: Prelude to Global Depression e Obama's Economy: Recovery for the Few (2012). Seu site é Kyklos Productions e o seu blog é Jack Rasmus.

A crise na Ucrânia e a reestruturação do mundo

Pierre Charasse

A crise na Ucrânia pôs em evidência a magnitude de manipulação da opinião pública ocidental pela grande mídia, canais de TV como CNN, Foxnews, Euronews e muitos outros, bem como toda a imprensa alimentada por agências de notícias ocidentais. A maneira com que o público ocidental é mal informado é impressionante; mas, ainda é fácil de ter acesso a uma riqueza de informações por todos os lados. É preocupante ver quantos cidadãos do mundo estão sendo atraídos para uma russofobia, nunca vista mesmo nos piores momentos da Guerra Fria. A imagem que entra o inconsciente coletivo através da máquina de poderosos meios de comunicação ocidentais é que os russos são "bárbaros e atrasados" em relação ao mundo ocidental "civilizado". O discurso muito importante que Vladimir Putin fez em 18 de março, após o referendo na Crimeia, literalmente foi boicotado pelos meios de comunicação ocidentais, pois estes abriram um grande espaço para as reações ocidentais, todas negativas, é claro. No entanto, em seu discurso, Putin explicou que a crise na Ucrânia não foi desencadeada pela Rússia e apresentou, com grande racionalidade, a posição da Rússia e os legítimos interesses estratégicos de seu país no conflito pós-ideológico.

Humilhada por seu tratamento pelo Ocidente desde 1989, a Rússia acordou com Putin e começou a reconectar-se com uma política de grande poder, tentando reconstruir as linhas da força histórica tradicional da Rússia czarista e da União Soviética. A geografia muitas vezes controla a estratégia. Tendo perdido grande parte de seus territórios"históricos", nas palavras de Putin, e população russa e de nacionalidade russa, a Rússia estabeleceu um grande projeto nacional e patriótico para recuperar o seu estatuto de superpotência com ação "global", garantindo a segurança de suas fronteiras terrestres e marítimas. Isso é exatamente o que o Ocidente quer evitar em sua visão de mundo unipolar. Bom jogador de xadrez que é, Putin está vários passos à frente graças a um profundo conhecimento da história, do mundo real e das aspirações de grande parte da população dos territórios anteriormente controlados pela União Soviética. Ele conhece a União Europeia perfeitamente, suas divisões e fraquezas, a capacidade militar da OTAN e o estado da opinião pública ocidental relutante em ver um aumento nos gastos militares em tempos de recessão econômica. Ao contrário da Comissão Europeia, cujo projeto coincide com o dos Estados Unidos para fortalecer o bloco político-econômico-militar Euro-Atlântico, os cidadãos europeus em sua maioria não procuram maior expansão da UE para o leste, nem com a Ucrânia ou com a Geórgia, e nem com qualquer outro país da União Soviética.

Com sua postura e suas ameaças de sanções, a UE, servilmente alinhada com Washington, mostra que é impotente para "punir" a Rússia a sério. Seu peso real não é igual às suas ambições sempre proclamadas de moldar o mundo à sua imagem. O governo russo muito responsivo e malicioso tem apresentado "reações graduais", ridicularizando as medidas ocidentais punitivas. Putin, altivo, permite-se mesmo ao luxo de anunciar que vai abrir uma conta no banco Rossyia de Nova York para depositar seu salário! Ele não mencionou ainda a limitação do fornecimento de gás à Ucrânia e à Europa Ocidental; mas, todos sabem que ele tem esta carta na mão, o que já obrigou os europeus a pensar sobre a reorganização completa do seu abastecimento de energia, que vai levar anos para se materializar.

Os erros e as divisões ocidentais colocam a Rússia em posição de força. Putin goza de popularidade excepcional no seu país e nas comunidades russas em países vizinhos, e podemos ter certeza de que seus serviços de inteligência já penetraram profundamente os países anteriormente controladas pela União Soviética, fornecendo informações abundantes de primeira mão sobre o equilíbrio do poder interno. Seu aparato diplomático dá argumentos fortes para remover o monopólio da interpretação do direito internacional do "Ocidente", particularmente sobre a espinhosa questão da autodeterminação. Como seria de esperar, Putin não hesita em citar o precedente de Kosovo para difamar a duplicidade do Ocidente, sua inconsistência, e o papel desestabilizador que desempenhou nos Bálcãs.

Enquanto a propaganda da mídia ocidental estava em pleno andamento após o referendo de 16 de março na Crimeia, gritos ocidentais caíram subitamente um tom e o G7, no seu Encontro de Haia às margens da conferência sobre segurança nuclear, não ameaçou excluir a Rússia do G8, como tinha alardeado alguns dias antes, mas simplesmente anunciou que "não participaria do Encontro de Sochi." Isto lhe deu a oportunidade de reativar a qualquer momento esse fórum privilegiado de diálogo com a Rússia, criado em 1994 a seu pedido expresso. Primeiro recuo do G7. Obama, por sua vez, apressou-se a anunciar que não haveria nenhuma intervenção militar da OTAN para ajudar a Ucrânia, mas apenas uma promessa de cooperação para reconstruir o potencial militar desse país, composto em grande parte de equipamentos soviéticos obsoletos. Segundo recuo. Vai levar anos para colocar um exército ucraniano digno desse nome a seus pés e, perguntamo-nos, quem vai pagar tendo em conta a situação das finanças do país. Além disso, não sabemos exatamente qual é a situação das forças armadas da Ucrânia depois de Moscou ter convidado, com algum sucesso ao que parece, os ucranianos militares, herdeiros do exército vermelho, a se alistarem no exército russo, mantendo sua patente individual.

A frota ucraniana já está totalmente sob controle russo. Finalmente, em outra espetacular reversão por parte dos Estados Unidos: teria havido conversações secretas muito avançadas entre Moscou e Washington para adotar uma nova Constituição na Ucrânia, para instalar um governo de coalizão cujos extremistas neonazistas seriam excluídos em Kiev por ocasião das eleições de 25 de maio e, especialmente, para impor um status neutro na Ucrânia, sua "Finlandização" (recomendado por Henry Kissinger e Zbigniew Brzezinski), que proíbe sua entrada na OTAN, mas permite acordos econômicos com a UE e com a União Aduaneira da Eurásia (Rússia, Bielorrússia, Cazaquistão). Se tal acordo for alcançado, a UE será confrontada com um fato consumado e terá que conformar-se a pagar a conta dessa decisão russo-americana. Com essas garantias, Moscou poderia considerar que seus requisitos de segurança foram atendidos. Teria recuperado o pé em sua antiga esfera de influência com o acordo de Washington, e abster-se-ia de fomentar o separatismo em outras províncias ucranianas ou na Transnístria (província Moldávia povoada pelos russos) enquanto reafirmando seu forte respeito para com as fronteiras europeias. O Kremlin ao mesmo tempo teria oferecido uma saída honrosa para Obama. Um golpe de mestre para Putin.

Conseqüências geopolíticas da crise na Ucrânia

O G7 não havia calculado que, tomando medidas para isolar a Rússia, além do fato de estar aplicando a si mesmo um "castigo sado-masoquista", nas palavras de Hubert Vedrine, antigo ministro francês dos negócios estrangeiros, estaria, apesar disso, precipitando um processo, já em curso, de reestruturação profunda do mundo em benefício de um grupo não-ocidental, liderado por China e Rússia, sob a égide dos BRICS. Em resposta ao comunicado do G7, de 24 de março, os chanceleres dos BRICS manifestaram sua rejeição a quaisquer medidas para isolar a Rússia e imediatamente aproveitaram a oportunidade para denunciar as práticas de espionagem dos Estados Unidos contra seus líderes e, como boa medida, exigiram que os Estados Unidos ratificassem a nova distribuição do direito de voto no FMI e no Banco Mundial como um primeiro passo para uma "ordem mundial mais justa". O G7 não esperava uma resposta tão rápida e virulenta dos BRICS. Esse episódio pode sugerir que o G20, do qual o G7 e os BRICS são os dois principais pilares, poderia atravessar uma grave crise antes do próximo encontro em Brisbane (Austrália), em 15 e 16 de novembro, especialmente se o G7 continuar a marginalizar e punir a Rússia. É quase certo que haverá uma maioria no G20 a condenar as sanções contra a Rússia, o que na verdade terá o efeito de isolar o G7. Em sua declaração à imprensa, os ministros dos BRICS sentiram que, decidir quem é membro do grupo e qual é seu propósito, cabe a todos os seus membros "em igualdade de condições", e nenhum dos seus membros "pode unilateralmente determinar sua natureza e seu caráter." Os ministros clamam que a crise atual se resolva no contexto das Nações Unidas, "com calma, visão ampla, renunciando à linguagem hostil, às penas e às sanções". Uma afronta para os países do G7 e da União Europeia! O G7, que colocou-se sozinho num beco sem saída, está avisado de que será necessário fazer concessões significativas, se quiser continuar a ter alguma influência no G20.

Além disso, dois importantes eventos estão a ocorrer nas próximas semanas.

Primeiro, Vladimir Putin vai pagar uma visita oficial à China em maio. Os dois gigantes estão prestes a assinar um grande acordo de energia que afetará substancialmente o mercado global de energia, tanto estrategicamente quanto financeiramente. As transações deixarão de ser em dólares, mas passarão a ser nas moedas nacionais dos dois países. Voltando-se para a China, a Rússia não terá nenhum problema para vender sua produção de gás no caso de a Europa Ocidental decidir mudar de fornecedor. E, com a mesma aproximação, China e Rússia poderiam assinar um acordo de parceria industrial para a produção do caça Sukhoi 25, um desenvolvimento altamente simbólico.

Durante o encontro dos BRICS no Brasil em julho, o Banco de Desenvolvimento do grupo, cuja criação foi anunciada em 2012, pode tomar forma e oferecer uma alternativa aos financiamentos pelo FMI e pelo Banco Mundial, sempre relutantes em mudar o funcionamento das suas regras de financiamento para dar mais peso às economias emergentes e suas moedas, além do dólar.

Finalmente, há um aspecto importante da relação entre a Rússia e a OTAN que escassamente é comentado na mídia mas que é muito revelador do estado de dependência em que o "Ocidente" se encontra enquanto retira as suas tropas do Afeganistão. Desde 2002, a Rússia concordou em cooperar com os países ocidentais para facilitar a logística das tropas no teatro afegão. A pedido da OTAN, Moscou autorizou o trânsito de equipamentos não-letais para a ISAF (Força de Assistência à Segurança Internacional), por via aérea ou terrestre entre Dushanbe (Tajiquistão), Uzbequistão e Estônia, através de uma plataforma multimodal em Oulianovk, na Sibéria. Isso não é nada menos do que transportar todos os suprimentos para milhares de homens que operam no Afeganistão, entre os quais estão toneladas de cerveja, vinho, tortas, hambúrgueres, alface fresca, todos transportados por aeronaves civis russas, desde que as forças ocidentais não têm ativos de ar suficiente para suportar uma implantação militar dessa magnitude. O acordo OTAN-Rússia de outubro 2012 amplia a cooperação para a instalação de uma base russa no Afeganistão com 40 helicópteros onde pessoal afegão é treinado na luta antidroga que o Ocidente abandonou. A Rússia continua a recusar-se a permitir o trânsito, através do seu território, de equipamentos pesados, o que tem-se constituído em grave problema para a OTAN no momento da retirada de suas tropas. Na verdade, eles não podem viajar por terra via Kabul-Karachi por causa de ataques a comboios pelos talibãs. Sendo impossível o caminho pelo norte (Rússia), o equipamento pesado voa de Cabul para os Emirados Árabes, sendo então enviado para portos europeus, o que quadruplica o custo da retirada. Para o governo russo, a intervenção da OTAN no Afeganistão tem sido um fracasso; mas, sua retirada precipitada, antes do final de 2014, vai aumentar o caos e afetar a segurança da Rússia, podendo causar um ressurgimento do terrorismo.

A Rússia também tem importantes acordos com o Ocidente no campo dos armamentos. O mais importante é provavelmente o assinado com a França para a fabricação de duas operadoras de helicóptero para seus arsenais por US $ 1,3 bilhões euros. Se o contrato for cancelado com as sanções, a França deve reembolsar quantias já pagas, bem como pagar penas contratuais, e perderá milhares de empregos. O pior é, provavelmente, a perda de confiança, do mercado, na indústria de armamento francêsa, como observado pelo Ministério da Defesa russo.

Não nos esqueçamos de que, sem a intervenção da Rússia, os países ocidentais nunca seriam capazes de chegar a um acordo com o Irã sobre não-proliferação nuclear, ou com a Síria sobre o desarmamento químico. Esses são fatos sobre os quais os meios de comunicação ocidentais estão silenciosos. A realidade é que, por causa de sua arrogância, sua falta de conhecimento da história, sua falta de jeito, o bloco ocidental precipitou a desconstrução sistemática da ordem mundial unipolar e oferece, numa bandeja, para a Rússia e para a China, apoiadas pela Índia, pelo Brasil, pela África do Sul e por muitos outros países, uma "janela de oportunidades" para reforçar a unidade de um bloco alternativo. A evolução estava-se movendo para a frente, mas lenta e gradualmente (ninguém quer dar um pontapé no formigueiro e. de repente, desestabilizar o sistema global); mas, de repente, tudo está andando mais rápido e a interdependência está mudando as regras do jogo.

Sobre o encontro do G20 em Brisbane, será interessante ver como o México posiciona-se, após os encontros do G7 em Bruxelas em junho, e o dos BRICS no Brasil em julho. A situação é muito fluida e irá evoluir rapidamente, o que exigirá grande flexibilidade diplomática. Se o G7 persistir em sua intenção de marginalizar ou excluir a Rússia, o G20 pode desintegrar-se. O México, apanhado nas redes do TLCAN [Tratado de Livre Comércio de América do Norte - nt] e do futuro TPP [Trans-Pacific Partnership - nt], deve escolher entre afundar com o Titanic do Ocidente ou adotar uma linha independente, mais em harmonia com os seus interesses como uma potência regional com ambições globais, aproximando-se dos BRICS.

27 de março de 2014

Depois do golpe em Kiev, o Ocidente vai se concentrar em Moscou

Sergei Markov


Tradução / Em conversa com o presidente Barack Obama dos EUA há algumas semanas, a chanceler alemã Angela Merkel teria dito que tinha a impressão de que o presidente Vladimir Putin viveria em outro mundo.

A frase, mal interpretada e fora de qualquer contexto, foi rapidamente repetida pela mídia ocidental e foi manchete durante dias.

Mas tudo sugere que Merkel – se disse o que se diz que teria dito – só o teria feito por não compreender a realidade da Rússia, o que acontece com muita frequência entre os “especialistas” ocidentais.

O golpe ocidental de 22/2 em Kiev foi só o aperitivo. O prato principal virá quando EUA e União Europeia se alinharem completamente à oposição na Rússia, na tentativa de mais um golpe, dessa vez tentando derrubar Putin e criar em Moscou um governo à moda Maidan.

Mas qual é a realidade russa? Se se fala da natureza dos conflitos na Crimeia e na Ucrânia, o entendimento que os russos têm desses eventos é em tudo diferente do que o ocidente vê – e divulga – nos mesmos eventos.

Na realidade russa, os protestos e o golpe de Maidan não fizeram a Ucrânia aproximar-se de mais democracia nem de governo legal, mas a empurraram na direção oposta: rumo à violência contra jornalistas, opositores políticos e cidadãos comuns. As autoridades do governo de Kiev estão sob controle de uma minoria extremista armada e violenta, que já planeja campanha de repressão em grande escala contra russos étnicos e outros grupos.

Do ponto de vista dos russos, não há governo legítimo na Ucrânia, depois que os “revolucionários” derrubaram o presidente democraticamente eleito.

Para nós, russos, a Ucrânia não tem autoridade soberana, porque os principais governantes do país não foram eleitos: foram nomeados, por trás das cortinas, pelos EUA. O que, se não isso, explicaria que o desconhecido Oleksandr Turchynov seja hoje presidente da Ucrânia, e Vitaly Klitschko, conhecido aspirante ao posto, mas não “eleito” pela vice-secretária de Estado dos EUA Victoria Nuland, tenha sido afastado? E por que e como Arseniy Yatsenyuk chegou a primeiro-ministro, apesar de não ser popular entre os ucranianos e de só ter sido “eleito”, exclusivamente, pela mesma sra. Nuland?

Os planos de Nuland para a Ucrânia tornaram-se afinal conhecidos depois do vazamento de uma conversa telefônica [“Foda-se a União Europeia”], semanas antes do golpe que derrubaria o presidente Viktor Yanukovych.

Pelo modo como os russos veem as coisas, os deputados ucranianos foram ameaçados e forçados a aprovar ministros que sequer conheciam. O que se vê é que a Ucrânia é hoje governada por uma junta composta de várias milícias. Além de Turchynov e Yatsenyuk, aquela junta inclui Andrei Parubiy, chefe do Conselho de Segurança e Defesa Nacional. Foi também chefe das forças de autodefesa da Praça Maidan, grupo armado que, em fevereiro, assumiu o controle das manifestações antes pacíficas, obedecendo ordens de Washington. A junta inclui também Dmitry Yarosh e Oleh Tyahnybok, chefes, respectivamente, das milícias armadas dos partidos neonazistas Setor Direita (Pravy Sektor) e Svoboda.

Quem são esses chefes? O que se ouve é que seriam nacionalistas, mas todos exibem símbolos neonazistas. Numa referência aos fascistas da II Guerra Mundial apresentam-se como seguidores de Stepan Bandera, Roman Shukhevych e do teórico fascista Dmitry Dontsov. Bandera e Shukhevych, como os russos sabem, juraram, ambos, fidelidade a Hitler. Entraram na Ucrânia em 1941 acompanhando a Wehrmacht, ou, mais precisamente, a SD – a divisão de inteligência dos nazistas alemães, onde serviam. Essa SD nazista forneceu armas, munição e empregos administrativos a extremistas ucranianos, nos territórios ocupados. Sob ordens dos alemães, esses extremistas combateram ativamente contra a resistência dos partisans soviéticos.

Os russos sabem também que, durante os três anos que Bandera passou, depois, num campo alemão de concentração de prisioneiros, sempre teve regalias, tinha um rádio e acesso à biblioteca. Em 1944, o líder nazista Heinrich Himmler retirou Bandera da prisão e o pôs de volta no serviço ativo, abastecido com dinheiro e armas.

Durante a Guerra Fria, os EUA e seus aliados usaram veteranos do grupo de Bandera em sua luta contra a União Soviética, fingindo ignorar seu passado de colaboradores dos nazistas. Mas os russos sempre vimos esses banderistas como fascistas e cúmplices de Hitler. Shukhevych, por exemplo, comandou o conhecido batalhão de execução e castigo Nachtigall, responsável por assassinato em massa de judeus e outros civis.

Hoje, os partidos Setor Direita e Svoboda atualizam muitas das ideias e práticas dos nazistas, usam símbolos nazistas estilizados, bandeiras nazistas e saudações nazistas (“Glória à Ucrânia – Glória aos Heróis”, saudação associada ao movimento dos nazistas bandeiristas). Esses dois grupos extremistas ucranianos pregam o antissemitismo, o ódio a outras etnias e povos, a russofobia, a glorificação de veteranos nazistas e são ativos “negadores” (negam que os nazistas tenham cometido qualquer crime).

Resultado disso tudo, os russos sabemos que os partidos Svoboda e Setor Direita não são “apenas” nacionalistas radicais, mas neonazistas de linha duríssima, que chegaram ao poder e agora controlam o governo e as principais forças policiais da Ucrânia.

Havia vários prisioneiros políticos na Ucrânia, mesmo antes de esses grupos tomarem o poder. No primeiro dia de “governo”, esse novo “governo” supostamente pró-Europa tomou a decisão de suspender a vigência da Carta Europeia para Idiomas Regionais e Minoritários; na sequência, fecharam todas as páginas do governo ucraniano distribuídas em língua russa; e proibiram as aulas dadas em russo, nas escolas. Quando a Corte Constitucional recusou-se a reconhecer o golpe, as autoridades neonazistas dissolveram a Corte e emitiram acusações contra todos os juízes.

Na Rússia, todos sabemos de tudo isso e, também, que militantes neonazistas mataram a tiros cidadãos que se manifestavam pacificamente em Carcóvia; sabemos também que os mesmos matadores receberam salvo-conduto para retornar a Kiev.

Quem conhece de perto essa realidade, percebe que EUA e União Europeia agem irracionalmente quando abandonam o povo ucraniano à sanha das autoridades extremistas em Kiev e apoiam aqueles criminosos que hoje ocupam postos de governo em Kiev.

Quanto às sanções... Quem no mundo entenderá por que Andrei Fursenko, assessor do presidente Putin e ex-ministro, aparece naquela lista? Talvez... porque é proprietário de uma dacha na cooperativa Ozero?!

Os russos percebemos também que a lista de nomes “sancionados” foi diretamente copiada do artigo que o “vazador” Alexei Navalny publicara semana passada no The New York Times, imediatamente antes de as sanções serem anunciadas. A única explicação que os russos vemos para tudo isso é que o Departamento de Estado dos EUA está interessado em inflar o “prestígio” e a “influência” de Navalny na Rússia...

Aos olhos dos russos, ante a realidade da Rússia, a conclusão óbvia é que EUA e União Europeia tentam ajudar a oposição russa interessados, todos, em derrubar Putin e em implantar em Moscou um governo à moda neonazista de Maidan.

O plano para um golpe na Rússia? É simples: primeiro, instalarão em Kiev algum governante semelhante ao ex-presidente da Geórgia Mikheil Saakashvili – anti-Rússia cabeça quente e ambicioso, disposto a fazer o que o ocidente mandar fazer. Depois, pagarão para rearmar o exército ucraniano. Em seguida, em 2017 – às vésperas das eleições presidenciais na Rússia – despacharão para a Crimeia e também para outros pontos da Rússia, aquele exército ucraniano rearmado. Foi exatamente o que se viu acontecer em 2008, com o deslocamento de tropas georgianas.

Mas... será que o ocidente realmente acredita que o presidente Putin receberá sem reagir essa agressão militar contra a Rússia?

A Rússia exige providências imediatas e acordo claro: que se constitua imediatamente uma nova coalizão de governo na Ucrânia; que os extremistas, ultranacionalistas e fascistas sejam desarmados; que se institua nova Constituição federalista e novo federalismo; que se deem garantias constitucionais de igualdade de direitos aos falantes de russo e de ucraniano; e que se realizem eleições limpas, livres e justas.

Mas, em vez disso, EUA e União Europeia só fazem ameaçar e insistir que a Rússia aceite sem qualquer reação o status quo.

Será que algum líder ocidental realmente supõe que Putin algum dia venha a aceitar o modo distorcido como o ocidente está apresentando as realidades em campo na Ucrânia?

De fato, ao insistir que Putin capitule, o ocidente vai, aos pontos deixando-o sem alternativas; só lhe restará a via de responder militarmente. E a história ensina claramente que diante desse tipo de dura realidade, a Rússia nunca escolheu a capitulação: sempre escolheu a guerra.

26 de março de 2014

Ética e moral no Fim da História

Pete Dolack

Systemic Disorder

Tradução / Estranho, não é?, que sistemas que supostamente representam o ápice do desenvolvimento humano – até mesmo o fim da história – não tenham espaço para ética e moralidade.

Talvez isso se torne inevitável quando uma ideologia se desenvolve a um ponto em que a economia é considerada algo separado do meio ambiente. A partir desse ponto de vista dúbio – para ser bastante singelo – a trajetória que leva a ver o meio ambiente — e as riquezas naturais e a vida que fazem parte dele — como nada mais do que uma vaca a ser ordenhada à vontade, não é muito longa. Uma floresta não conta nada a não ser que possa ser transformada em dinheiro, o que em geral significa derrubá-la. Água limpa? Ar limpo? Artigos de luxo para aqueles que podem pagar por eles e, em consequência, lucro para os que podem engarrafá-los e criar um mercado para esses produtos.

Um artigo muito bem pensado, publicado na edição de maio de 2009 do Monthly Review me fez pensar mais sobre isso. Os autores do artigo intitulado Capitalismo no País das Maravilhas, escrito por Richard York, Brett Clark e John Bellamy Foster, discute modelos usados por economistas consagrados, que variam apenas na medida do quanto descontam a vida no futuro. Sim, é de um sangue frio exatamente como soa.

Economistas neoclássicos baseiam suas conclusões cada vez mais insanas no fato de que o aquecimento global não é um grande problema, no pior dos casos vai provocar pequenos estragos econômicos, na versão conveniente e para o benefício de poucos, de que gerações futuras serão mais ricas e portanto será mais barato para nossos descendentes limpar nossa sujeira do que seria para nós.

Os autores escrevem:

“A diferença entre eles não diz respeito à ciência por trás da mudança climática mas nas suas suposições a respeito da correção de transferir o ônus para gerações futuras. Isso deixa clara a ideologia inserida no pensamento neoclássico ortodoxo, uma área que em geral se apresenta como se usasse métodos objetivos, até mesmo naturalistas, para desenhar modelos econômicos. Entretanto, para além de todas as equações e do jargão técnico, o paradigma econômico dominante é construído sobre um sistema de valores que premia a acumulação de capital no curto prazo, enquanto desvaloriza tudo mais relativo ao presente e ao futuro”.

A partir daí, economistas ortodoxos descem uma ladeira escorregadia na qual alguns humanos têm valor e outros, não. Um exemplo desta mentalidade é o memorando de Lawrence Summers, escrito quando ele era economista chefe do Banco Mundial, no qual ele afirmou:

“Eu acho que a lógica econômica por trás de jogar lixo tóxico em países de salários baixos é impecável e nós devemos encará-la. [...] Os custos da poluição provavelmente são não-lineares, os incrementos iniciais da poluição têm, provavelmente, um custo inicial bem baixo. Eu sempre achei que países pouco populosos da África são amplamente subpoluídos”.

A atitude de Summers, apesar de não se expressar de forma tão direta, não está fora de compasso com a profissão dele. Os autores de Capitalismo no País das Maravilhas deixam bem claras as ramificações deste tipo de pensamento:

“De fato, a vida humana só vale o quanto cada pessoa contribui para a economia, o que é medido em termos monetários. Então, se o aquecimento global aumenta a mortalidade em Bangladesh, o que parece ser o caso, isso só se reflete em termos de modelo econômico na medida em que as mortes em Bangladesh afetam a economia (global). Já que Bangladesh é muito pobre, os modelos econômicos [...] estimarão que não vale à pena evitar mortes lá, já que essas perdas se mostrarão minúsculas nas medidas. [...] Essa ideologia econômica, claro, se estende para além da vida humana, já que todas as milhões de espécies da terra são avaliadas de acordo apenas com o que contribuem para o Produto Interno Bruto. Então, preocupações éticas a respeito do valor intrínseco da vida humana e da vida de outras criaturas são completamente invisíveis nos modelos econômicos-padrão. Aumentar mortalidade humana e acelerar a velocidade de extinção, para muitos economistas, são problemas apenas se afetam o ‘resultado final’. Em outros aspectos, eles são invisíveis: como no mundo natural como um todo”.

Essa é a irracionalidade e a imoralidade subjacente que impelem industriais e financistas a permitir que o “mercado” tome todas as decisões sociais. Mercados não são nada mais do que interesses agregados dos maiores e mais poderosos industriais e financistas. Através de seu controle da economia mundial, eles são capazes de exercer poder decisivo sobre os governos, que não são entidades sem corpo flutuando acima da sociedade e sim reflexo do poder e das fraquezas relativas das forças sociais.

A corporação moderna tem uma obrigação legal de prover o máximo de lucro possível a seus acionistas. Em outras palavras, é esperado que atue de forma a aumentar seus lucros sem se preocupar com mais nada. A corporação é considerada uma pessoa, de acordo com a legislação norte-americana – uma pessoa que não tem limites biológicos, nem barreiras para seu crescimento. Joel Bakan, na introdução de seu livro Corporação: a Busca Patológica de Lucro e Poder resumiu desta forma a instituição dominante do capitalismo:

“O mandato da corporação, definido por lei, é buscar, incessantemente e sem exceção, o seu interesse próprio, sem se preocupar com as consequências muitas vezes negativas que pode provocar aos outros. Como resultado, eu argumento, a corporação é uma instituição patológica, detentora de um poder perigoso sobre as pessoas e as sociedades”.

Mesmo sem considerar a "corporação humanizada", entretanto, a competição incessante do capitalismo levaria a esse comportamento e os vencedores desta competição são aqueles mais dispostos a destruir todos os obstáculos, humanos e do meio ambiente, enquanto repassam os custos aos outros.

Relamente, não podemos fazer algo melhor que isso?

Importar-se demais. Essa é maldição das classes trabalhadoras

Por que a lógica básica da austeridade foi aceita por todo mundo? Porque a solidariedade passou a representar um flagelo?

David Graeber

The Guardian

Crédito: Matt Kenyon.

Tradução / “O que eu não consigo entender é porque as pessoas não estão protestando nas ruas?” Eu ouço isso, de vez em quando, vindo de pessoas de boa condição e poderosos. Há uma espécie de incredulidade. “Afinal de contas”, o subtexto parece ser, “nós ficamos furiosos quando alguém ameaça nossos paraísos fiscais; se alguém ameaçasse o meu acesso a comida ou moradia, eu certamente estaria queimando bancos e/ou ocupando o parlamento. O que há de errado com as pessoas?”

É uma boa pergunta. Você imaginaria que um governo que provocou tanto sofrimento àqueles com menos condições de resistir, sem ao menos mudar os rumos da economia, correria risco de suicídio político. Em vez disso, a lógica básica da austeridade foi aceita por quase todo mundo. Por quê? Por que políticos que prometem sofrimento prolongado ganham qualquer condescendência da classe trabalhadora, pra não falar em apoio?

Acredito que a própria incredulidade com a qual comecei fornece uma resposta parcial. Os trabalhadores podem ser, como incessantemente nos lembram, menos meticulosos com assuntos de lei e propriedade que seus “superiores”, mas eles também são muito menos obcecados consigo mesmos. Eles se importam mais com seus amigos, famílias e comunidades. No conjunto, ao menos, são pessoas fundamentalmente melhores.

Em certa medida isso parece refletir uma lei sociológica universal. Há muito as feministas apontam que aqueles que estão na parte de baixo de qualquer arranjo social desigual tendem a pensar mais sobre, e portanto importar-se mais com, aqueles no topo do que os do topo em relação a eles. As mulheres em toda parte tendem a pensar e saber mais sobre as vidas dos homens do que os homens pensam sobre as mulheres, assim como os negros sabem mais sobre os brancos, os empregados sobre os empregadores e os pobres sobre os ricos.

E sendo os humanos as criaturas empáticas que são, o conhecimento leva à compaixão. Os ricos e poderosos, no entanto, podem permanecer alheios e indiferentes, porque podem se garantir. Vários estudos psicológicos recentes confirmam isso. Pessoas nascidas em famílias da classe trabalhadora invariavelmente se dão melhor em testes de percepção dos sentimentos alheios do que os filhos dos ricos ou das classes médias. De certa forma, o resultado não é exatamente inesperado. Afinal, isso é o que ser “poderoso” fundamentalmente significa: não ter de prestar muita atenção no que os outros ao redor estão pensando e sentindo. Os poderosos empregam outros para fazê-lo por eles.

E quem eles empregam? Principalmente filhos das classes trabalhadoras. Aqui, creio que tendemos a ser tão cegos por uma obsessão com o (ouso dizer, uma romantização do?) trabalho fabril como nosso paradigma de “trabalho de verdade” que nos esquecemos do que a maior parte do trabalho humano de fato consiste.

Mesmo na época de Karl Marx ou Charles Dickens, os bairros de trabalhadores abrigavam mais empregadas domésticas, engraxates, varredores, cozinheiros, enfermeiros, taxistas, professores, prostitutas e feirantes que empregados em minas de carvão, fábricas têxteis ou fundições. Hoje, isso é ainda mais verdadeiro. O que consideramos arquetipicamente como trabalho de mulheres – cuidar de pessoas, encarregar-se de suas vontades e necessidades, explicar, confortar, antever o que o patrão quer ou está pensando, para não mencionar cuidar, vigiar e conservar plantas, animais, máquinas e outros objetos – representa uma proporção muito maior daquilo que a classe trabalhadora faz quando está trabalhando do que martelar, talhar, carregar ou colher coisas.

Isso é verdade não apenas porque a maioria das pessoas da classe trabalhadora são mulheres (pois a maioria das pessoas em geral são mulheres), mas porque temos uma versão distorcida do que os homens fazem. Como os trabalhadores do metrô em greve recentemente tiveram de explicar a usuários indignados, os funcionários do metrô não passam a maior parte de seu tempo recolhendo bilhetes: eles passam a maior parte de seu tempo explicando coisas, consertando coisas, procurando crianças perdidas, e cuidando dos idosos, doentes e desorientados.

Se pensarmos bem, não é isso, basicamente, a vida? Os seres humanos são projetos de criação mútua. A maior parte do trabalho que fazemos é uns com os outros. As classes trabalhadoras apenas fazem uma parte desproporcional. Elas são as classes cuidadoras, e sempre foram. É apenas a incessante demonização dos pobres por aqueles que se beneficiam dos seus cuidados que torna difícil, num fórum público como este, reconhecê-lo.

Como filho de uma família de classe trabalhadora, posso atestar que é disso mesmo que nos orgulhamos. Constantemente nos disseram que o trabalho é uma virtude em si – que ele forma caráter ou coisa assim – mas ninguém acreditava nisso. A maioria de nós entendia que o melhor seria evitar o trabalho, a menos que ele beneficiasse outras pessoas. Mas do trabalho que você fizesse, fosse ele construir pontes ou esvaziar penicos, você poderia se orgulhar. E há outra coisa de que definitivamente nos orgulhávamos: que somos pessoas que cuidam umas das outras. Isso é o que nos distinguia dos ricos que, na nossa percepção, a metade do tempo sequer se dedicava a cuidar de seus próprios filhos.

Há uma razão pela qual a maior virtude burguesa é a austeridade, e a maior virtude na classe trabalhadora é a solidariedade. Porém essa é precisamente a corda na qual a classe hoje está pendurada. Houve um tempo em que se preocupar com sua comunidade podia significar lutar pela própria classe trabalhadora. Naqueles dias costumávamos falar de “progresso social”. Hoje vemos os efeitos de uma guerra sem trégua contra a própria noção de uma política da classe trabalhadora ou comunidade de classe trabalhadora. Isso deixou a maioria dos trabalhadores com poucos meios de expressar essa preocupação, senão dirigindo-a a noções artificiais: “nossos netos”; “a nação”; seja através de patriotismo chauvinista ou de apelos ao sacrifício coletivo.

Como resultado, tudo está posto ao revés. Gerações de manipulação política finalmente transformaram esse senso de solidariedade num flagelo. Nossa preocupação com o outro foi transformada em arma contra nós mesmos. E assim deve permanecer até que a esquerda, que pretende falar pelos trabalhadores, comece a pensar séria e estrategicamente sobre no que consiste a maior parte do trabalho, e o que aqueles que o realizam pensam ser a virtude contida nele.

David Graeber é um antropólogo, ativista político e autor norte-americano. He is currently reader in social anthropology at Goldsmiths College, University of London, and was formerly an associate professor of anthropology at Yale University. David is a member of the labour union Industrial Workers of the World, and has played a role in events such as the 2002 New York protests against the World Economic Forum. Seu livro mais recente é Dívida: os primeiros 5.000 anos (2011).

24 de março de 2014

Mais uma vez, a Austrália está roubando suas crianças indígenas

John Pilger

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

A gravação é torturante. Há a voz de uma criança gritando enquanto é arrancada da mãe, que implora: “Não há nada de errado com o meu bebê. Por que você está fazendo isso conosco? Eu deveria ter sido enforcada anos atrás, não é mesmo? Porque (como uma aborígene australiana) a gente é culpada antes de ser declarada inocente”. A avó da criança exige saber por que “o roubo de nossas crianças está acontecendo de novo”. Enquanto um funcionário do serviço social diz: “Eu vou levá-lo, amiga”.

O que aconteceu com uma família aborígene na zona rural do estado de Nova Gales do Sul está acontecendo por toda a Austrália numa escandalosa e, de modo geral, não reconhecida violação dos direitos humanos que evoca a “geração roubada” do século passado. Até os anos 1970, milhares de crianças mestiças foram tiradas de suas mães por funcionários do serviço social australiano. As crianças eram entregues a instituições como mão de obra barata ou escrava; muitas sofreram abusos.

Descrita pelo responsável pela Proteção dos Aborígenes como “eliminação da cor”, a política era conhecida como assimilação. Foi influenciada pelo mesmo movimento eugenista que inspirou os nazistas. Em 1997, um relatório marcante, intitulado “Bringing Them Home” (traga-os de volta para casa), revelou que cerca de 50.000 crianças e suas mães tinham sofrido “a humilhação, a degradação e a pura brutalidade do ato de separação forçada... produto de políticas deliberadas e calculadas do Estado”. O relatório classificou isso como genocídio.

A assimilação continua sendo uma política do governo australiano de todas as formas, menos no nome. Eufemismos como “Reconciliação” e “Futuro mais Forte” encobrem uma engenharia social semelhante e um persistente racismo insidioso na elite política, na burocracia e, de modo geral, na sociedade australiana. Quando em 2008, o primeiro-ministro Kevin Rudd pediu perdão pela “geração roubada”, ele acrescentou: “Quero ser franco sobre isso. Não haverá compensação”. O jornal “The Sydney Morning Herald” cumprimentou Rudd pela “manobra esperta” que “removeu um pedaço de destroços políticos, o que responde a algumas das necessidades emocionais de seus partidários, mas não muda nada”.

Hoje, o roubo de crianças aborígenes –incluindo bebês retirados da sala de parto– é agora mais disseminado do que em qualquer época durante o último século. Até junho do ano passado, quase 14 mil crianças aborígenes tinham sido “removidas”. Isso é cinco vezes o número da época em que o relatório “Bringing them Home” foi redigido. Mais de um terço das crianças retiradas de suas famílias são aborígenes – cerca de 3% da população. Com a taxa atual, essa remoção em massa de crianças aborígenes vai resultar em uma geração roubada de mais de 3,3 mil crianças somente no Território do Norte.

Pat (nome fictício) é a mãe cuja angústia foi secretamente gravada em um telefone enquanto quatro funcionários do Departamento de Serviços à Criança e seis policiais chegaram em sua casa. Na gravação, um funcionário alega que eles vieram somente para uma “avaliação”. Mas dois dos agentes de polícia, que conheciam Pat, disseram a ela que não viam nenhum risco para o filho dela e alertaram-na para que ”saísse rapidamente”. Pat fugiu, segurando o filho, mas o bebê de 1 ano foi depois apreendido sem que ela soubesse por quê. Na manhã seguinte, um agente de polícia voltou para lhe pedir desculpas e disse que o bebê dela nunca deveria ter sido levado. Pat não tem nenhuma ideia de onde está seu filho.

Pat tanto procurou cumprir as normas como enfrentou com coragem a burocracia punitiva que pode remover crianças com base em rumores. Ela foi duas vezes inocentada de falsas acusações, incluindo “sequestro” dos próprios filhos. Um psicólogo a descreveu como capaz e boa mãe.

A maioria das famílias aborígenes vive no limite. Sua expectativa de vida nas cidades a curta de distância de voo de Sydney é muito baixa, cerca de 37 anos. A Austrália é o único país desenvolvido que não erradicou o tracoma, um tipo de infecção bacteriana que causa cegueira nas crianças aborígenes.

Josie Crawshaw, ex-diretora de uma respeitada organização de apoio a famílias em Darwin, disse-me: “Em áreas remotas, autoridades vão com um avião nas primeiras horas do dia e levam as crianças para milhares de quilômetros de distância de sua comunidade. Não há explicação, nenhum apoio, e as crianças podem sumir para sempre”.

Em 2012, a coordenadora geral de Serviços Remotos para o Território do Norte, Olga Havnen, foi destituída quando revelou que cerca de US$ 75 milhões tinham sido gastos na vigilância e remoção de crianças aborígenes, em comparação com apenas US$ 469 mil para apoiar as mesma famílias pobres. Segundo a coordenadora, “as razões básicas para a remoção de crianças são questões de bem-estar diretamente relacionadas com a pobreza e a desigualdade. O impacto nas famílias é simplesmente horroroso porque se eles não são reunidos dentro de seis meses, é provável que não se encontrarão novamente. Se a África do Sul estivesse fazendo isso, haveria um escândalo internacional”.

Ela e outros profissionais com longa experiência que entrevistei repetiram os argumentos do relatório “Bringing them Home”, que descreve uma “atitude” oficial na Austrália que considera todas as pessoas aborígenes como “moralmente deficientes”. Um porta-voz do Departamento de Serviços Comunitários disse que a maioria das crianças indígenas removidas em Nova Gales do Sul foram enviadas para cuidadores indígenas. De acordo com redes de apoio aos indígenas, isso é uma cortina de fumaça; não se trata de famílias e esse tipo de ação é monitorado pelo divisionismo que é a verdadeira realização da burocracia.

Encontrei um grupo de avós aborígenes, sobreviventes da primeira “geração roubada”, todas agora com netos roubados. “Vivemos em um estado de medo, outra vez”, dizem elas. David Shoebridge, um parlamentar de State Greens, disse-me: “A verdade é que existe um mercado entre os brancos para essas crianças, especialmente bebês.”

O parlamento de Nova Gales do Sul irá em breve debater a legislação que introduz a adoção forçada e a “tutela”. Crianças com menos de dois anos estarão disponíveis – sem o consentimento da mãe– se tiverem sido “removidas” há mais de seis meses. Mas muitas mães aborígenes, como Pat, podem levar seis meses simplesmente para entrar em contato com seus filhos. “Isso está destinado a fazer com que as famílias aborígenes fracassem”, disse Shoebridge.

Perguntei a Josie Crawshaw o por quê: “A ignorância deliberada na Austrália sobre seu primeiro povo nativo tornou-se agora o tipo de intolerância que chega ao ponto de esmagar um grupo inteiro da humanidade, e não se faz nenhum barulho por isso.”