29 de abril de 2014

Como os EUA criaram a guerra do Afeganistão - e depois a perderam

A história não divulgada de como a rede Haqqani se tornou o maior inimigo da América

Anand Gopal

TomDispatch.com

Era uma manhã típica em Cabul. A Praça Malik Ashgar fervia de táxis Corolla, jipes verdes da Polícia, minivans barulhentas e motociclistas irritados. Havia meninos vendendo cartões de telefone e cambistas sacudindo maços de dinheiro para trocar, todos circulando entre os veículos e a fumaça dos escapamentos. Junto ao portão do Liceu Esteqial, uma das escolas de maior prestígio do país, estudantes chutavam uma bola de futebol. No Ministério da Educação, um antigo prédio de estilo soviético, à frente da escola, uma fila de funcionários saía para a calçada. Eu caminhava cruzando a praça, em direção ao ministério, quando vi o suicida-atirador.

Tinha feições escandinavas. Estava vestido com calça jeans e camiseta branca, carregando uma mochila grande. E pôs-se a atirar indiscriminadamente na direção do prédio do ministério. De onde eu estava, distante cerca de 50 metros, não podia ver a expressão dele, mas não parecia frenético nem em pânico. Procurei cobertura por trás de um táxi estacionado. Foi pouco antes de a polícia aparecer e a praça ficar deserta.

Vinte e oito pessoas, a maioria civil, morreram nos ataques no Ministério da Educação, Ministério da Justiça e em outros pontos da cidade naquele dia, em 2009. Posteriormente, autoridades americanas acusaram a Rede Haqqani – grupo nebuloso que operava a partir do Paquistão e que inaugurara a tática de usar vários homens-bombas em ataques urbanos que estiveram em todas as manchetes. Diferente de outros grupos Talibã, a abordagem dos Haqqanis era “global” e sofisticada: recrutavam árabes, paquistaneses e até europeus, influenciados pelo pensamento islâmico mais radical. O líder deles, o septuagenário senhor da guerra Jalaluddin Haqqani, era uma espécie de Osama bin Laden e Al Capone reunidos numa só pessoa, tão ferozmente ideológico quanto cruelmente pragmático.

Tanto que, muitos anos depois, seus seguidores continuam a lutar. Mesmo com os EUA retirando a maior parte de seus soldados esse ano, ainda assim 10 mil agentes das Forças Especiais, paramilitares da CIA e seus agregados lá permanecerão, para dar combate aos Haqqanis, aos Talibã e a grupos semelhantes, numa guerra que parece não ter fim. Com inimigos assim tão entrincheirados, o conflito ganhou hoje ares de inevitabilidade. Mas as coisas poderiam ter tomado rumo completamente diferente.

Hoje já é difícil imaginar, mas em meados de 2002 não havia insurgência alguma no Afeganistão: a al-Qaeda fugira do país e os Talibã já não existiam como movimento militar. Jalaluddin Haqqani e outras altas figuras dos Talibã estavam tentando contacto com o outro lado para firmar acordos e depor armas. Mas centenas de milhares de soldados dos EUA já haviam chegado a solo afegão, depois do 9/11, com um único objetivo: fazer guerra ao terror.

Como eu relato no meu novo livro, No good men among the living: America, the Talibã, and the war through Afghan eyes, os EUA fariam aquela guerra em qualquer caso, mesmo que não houvesse inimigo a combater. Para compreender como a guerra dos EUA no Afeganistão deu tão errado, por tanto tempo, é indispensável conhecer um pouco da história (não divulgada) daqueles dias. Nos primeiros anos depois de 2001, movida pela ideia fixa de que o mundo dividia-se rigidamente entre terroristas e não terroristas, Washington aliou-se a senhores da guerra e chefes de grupos armados afegãos. Os inimigos deles passaram a ser inimigos dos EUA e, com inteligência sempre precária e insuficiente, a luta comum desses todos foi reembalada sob o rótulo de “contraterrorismo”. A história de Jalaluddin Haqqani, que se converteu, de aliado potencial dos EUA, em seu principal inimigo, é um caso paradigmático de como a guerra ao terror gerou os próprios inimigos que ela visou a erradicar.

A campanha para erradicar os Haqqani: 2001

Jalaluddin Haqqani é um homem de peso médio, sobrancelhas grossas, nariz fino, sorriso largo e barba longa, a qual, se deixada luzir em toda sua glória, quase engole metade do rosto dele. Na terra onde nasceu, Loya Paktia – a área das três províncias do sudeste do Afeganistão – Jalaluddin Haqqani é um herói de guerra, mujahedeen que lutou contra os soviéticos, homem de bravura narrada em histórias que circulam de boca em boca e fama de resistência e de fé quase míticas (uma vez, ferido à bala, recusou analgésicos, porque estava jejuando). Nos anos finais da Guerra Fria, Jalaluddin Haqqani era adorado pelos americanos – o senador Charlie Wilson, texano, descrevia-o como “a bondade personificada” – e também por Osama bin Laden. Na década de 1980, os EUA o abasteceram com dinheiro e armas na batalha contra o governo que os russos apoiavam; e os grupos árabes radicais garantiam fluxo regular de recrutas para reforçar sua formidável força afegã.

As autoridades americanas tinham tudo isso em mente, quando começou a segunda Guerra do Afeganistão, em outubro de 2001. Na esperança de convencer Haqqani (que passara a apoiar os Talibã e a al-Qaeda nos anos pós-soviéticos) a mudar de lado, os EUA não atacaram o território dele em Loya Paktia, o qual foi preservado, no intenso bombardeio que os EUA lançaram contra todo o resto do país. E os Talibã, por sua vez, puseram-no no comando de toda a força militar deles; os dois lados mostraram que viam Jalaluddin Haqqani como o fator capaz de decidir o destino daquela guerra. Haqqani reuniu-se com altos comandantes dos Talibã e com Osama bin Laden e partiu para o Paquistão onde participou de incontáveis reuniões com paquistaneses e com afegãos patrocinados pelos EUA.

Representantes seus também começaram a reunir-se com funcionários americanos em Islamabad, capital do Paquistão, e nos Emirados Árabes Unidos; até que os EUA afinal lhe fizeram uma proposta: ele se entregaria, seria preso, cooperaria com as novas autoridades militares afegãs e, depois de tempo “razoável” de prisão, estaria liberado para partir para onde desejasse ir. Para Haqqani, um dos nomes mais conhecidos e respeitados de toda a Loya Paktia, a ideia de ser exposto preso, sentado atrás das grades, era absolutamente inaceitável. Arsala Rahmani, que acompanhava Haqqani naquele período, e seria senador no governo afegão, contou-me: "Ele queria ter posição destacada em Loya Paktia, e a “proposta” deles foi prendê-lo. Haqqani não acreditou no que ouviu dos americanos. Você pode imaginar insulto semelhante?"

Haqqani recusou a oferta americana, mas deixou a porta aberta para negociações futuras. Os EUA, contudo, já estavam completamente dominados pelo ethos do “ou conosco, ou contra nós”. "Eu, pessoalmente, sempre acreditei que Haqqani era um homem com o qual poderíamos ter trabalhado", um ex-funcionário da inteligência dos EUA disse ao jornalista Joby Warrick. "Mas naquele momento ninguém estava olhando além do horizonte, para onde estaríamos dali a cinco anos. Para os diplomatas e políticos dos EUA, a coisa sempre era 'fodam-se os barbudos de pele escura'."

No início de novembro, os EUA começaram a bombardear Loya Paktia. Duas noites depois, aviões bombardearam a casa de Haqqani na cidade de Gardez, perto da fronteira do Paquistão. Ele não estava ali, mas seu cunhado e um empregado da família morreram no ataque. Na noite seguinte, aviões dos EUA atacaram uma escola religiosa na vila de Mata China, uma das muitas escolas que Haqqani fizera construir no Afeganistão e no Paquistão, que ofereciam moradia, comida e educação a crianças pobres. Malem Jan, amigo da família Haqqani, foi um dos primeiros a chegar ao local. "Nunca vi nada semelhante", disse ele. "Eram muitos corpos. O teto desabara quase inteiro sobre as crianças. Vi uma criança ainda viva, mas foi impossível tirá-la a tempo." Trinta e quatro pessoas, quase todas crianças, perderam suas vidas.

Haqqani estava em sua residência principal, na vila próxima de Zani Khel, conjunto poeirento de casas de barro que tinha servido como fortaleza anti-soviética. "Ouvimos a explosão, depois o barulho dos aviões no céu", contou um primo, que vivia próximo dali. "Ficamos com muito medo." Haqqani mudou-se para a casa de Mawlawi Sirajuddin, um chefe local. Pouco depois, a casa foi sacudida, atingida diretamente por ataque aéreo. Haqqani foi ferido, mas conseguiu escalar a pilha de escombros e escapou. Sirajuddin teve menos sorte: naquele ataque perdeu a esposa Fatima, três netos, seis netas e dez outros parentes.

Na manhã seguinte, Haqqani enviou uma mensagem a seus subordinados e ex-subcomandantes, aconselhando-os que se rendessem. Mas os EUA já haviam localizado o aliado local em Loya Paktia que procuravam há tempos, Pacha Khan Zadran, suposto senhor-da-guerra e apoiador do rei afegão exilado. De sobrancelha cerrada e vastos bigodes, “PKZ” (como seria conhecido entre os americanos) fazia lembrar um Saddam Hussein afegão. Agitado, analfabeto e irritadiço, PKZ era, em vários sentidos, o oposto de Haqqani, sob cujo comando havia lutado durante algum tempo na jihad anti-soviéticos. Chegara a Loya Paktia pouco depois de os Talibã terem partido em meados de novembro e imediatamente se autodeclarou governador das três províncias. Em pouco tempo selou laços com os americanos, prometendo entregar-lhes o homem que mais procuravam: Jalaluddin Haqqani.

"Na última vez que o vi", disse Malem Jan, "ele estava preocupado e agitado. Disse-me apenas que saísse e me salvasse, porque Pacha Khan não nos deixaria vivos." Numa manhã de novembro, de madrugada, Haqqani cruzou a fronteira para o Paquistão. Nunca mais foi visto em público.

Uma tentativa de reconciliação voa pelos ares: 2001

Em 20 de dezembro de 2001, Hamid Karzai, apoiado pelos EUA, preparava-se para tomar posse como presidente “interino” do Afeganistão. Cerca de 100 dos principais líderes tribais de Loya Paktia partiram em comboio, naquela tarde, rumo a Cabul para congratular-se com Karzai e declarar-lhe lealdade, gesto que muito ajudaria a legitimar seu governo, entre a população da região da fronteira. Do Paquistão, Haqqani enviou membros da família, amigos íntimos e aliados políticos para participarem da comitiva – um ramo de oliveira oferecido ao novo governo.

Eram cerca de 30 carros; o comboio viajou durante horas pelo deserto. No fim da tarde, início da noite, chegou a uma colina, e teve que parar: PKZ e centenas de seus homens, armados, bloqueavam a estrada. Malek Sardar, membro idoso da tribo Haqqani aproximou-se dele. “Ele queria que os idosos o aceitassem como líder de Loya Paktia”, Sardar me contou-me. “Queria nosso sinal de aprovação e que assinássemos, ali, naquele momento”. Sardar prometeu voltar depois da posse, para discutir o assunto, mas PKZ continuou a bloquear a estrada. A caravana fez meia volta e partiu por outra rota, para Cabul.

Em seu telefone via satélite, Sardar entrou em contato com funcionários na capital afegã e com o consulado dos EUA em Peshawar, Paquistão, procurando ajuda. Mas já era tarde demais: PKZ, que estava em contato direto com figuras chaves do comando militar dos EUA, já havia lhes informado que “uma caravana ‘Haqqani-al Qaeda’ estava indo na direção de Cabul. Imediatamente, entre explosões ensurdecedoras, os carros começaram a explodir em chamas. “Viam-se as luzes no céu, fogo por todos os lados. As pessoas gritavam. E nós corremos”, contou Sardar. Os EUA bombardearam a caravana. Os ataques repetiram-se durante horas. Como Sardar e outros correram para duas vilas próximas, os aviões rodearam do alto e atacaram as vilas; destruíram quase 20 casas e mataram muitos moradores. Ao todo, cinquenta mortos; vários líderes proeminentes morreram naquele ataque.

Era final de dezembro, e em Qale Niazi, vila que servira de fortaleza dos Haqqani na década de 1980, o bombardeio levara alguns anciãos preocupados, a assumir o controle de um velho arsenal que havia ali. "Não queríamos que Pacha Khan pusesse as mãos naquelas armas, nem que as usasse; aquelas armas tinham de ser entregues ao governo de Karzai. E tomamos conta delas até o governo de Karzai chegar", disse o velho Fazel Muhammad.

Uma noite, Muhammad caminhava para a vila, para uma festa de casamento, quando ouviu os aviões dos EUA. Num segundo, as casas de barro que ele via à sua frente, explodiram. Um segundo ataque acertou o depósito de armas, detonando uma sequência de explosões. O céu clareou no meio da noite, mostrando mulheres e crianças que tentavam fugir. “Então vieram os helicópteros”, contou Muhammad, “e todas aquelas pessoas foram pulverizadas”.

Pela manhã, Fazel Muhammad correu à casa dos parentes, onde acontecera a festa de casamento, mas só encontrou tijolos de barro pulverizados, molduras de retratos retorcidos, panelas e vasilhas deformadas, um sapato de criança, um escalpo com uma trança e vários dedos humanos. Adiante, comissão tribal encarregada de investigar o massacre descobriu que PKZ fornecera à “inteligência” norte-americana a informação de que Qale Niazi seria fortaleza dos Haqqani. Segundo investigação conduzida pela ONU, 52 pessoas morreram naquela festa de casamento: 17 homens, 10 mulheres e 25 crianças.

Reconciliação e chamas: 2002

Em seis semana, a campanha norte-americana para matar Jalaluddin Haqqani resultara em 159 civis mortos, uma vila varrida do mapa, 37 lares destruídos, uma liderança tribal fraturada e a ascensão de um homem, Pacha Khan Zadran, como principal ator em Loya Paktia. Enquanto isso, Haqqani e seus seguidores viviam clandestinos no Paquistão, assistindo enquanto as três províncias onde haviam sido homens ricos e prestigiados lhes escapavam das mãos. A vida no Paquistão não melhorou. Enquando Haqqani continuava escondido em Peshawar, sua família retirou-se para um subúrbio de Miram Shah, capital da agência tribal do Waziristão Norte. Os militares paquistaneses, então, estavam trabalhando em íntima associação com Washington para cercar suspeitos de pertencerem à al-Qaeda ou de serem membros dos Talibã. Em dezembro, a casa da família em Miram Shah foi atacada, e Sirajuddin, filho de Jalaluddin Haqqani, foi preso. Semanas depois, invadiram o esconderijo em Peshawar. Jalaluddin Haqqani escapou por um triz.

Nos meses seguintes, equipes de Forças Especiais dos EUA fizeram várias incursões secretas no Paquistão, atacaram casas e escolas Haqqani, levando o terror à comunidade local. "Nunca permitiremos que destruam nossas instituições religiosas, disse Hajji Salam Wazir, líder tribal. Foi supresa, para mim, o modo como os norte-americanos usam os muçulmanos, acrescentou. Até ontem, Haqqani era herói e combatente da liberdade, para os EUA. Mandaram especialistas deles para treiná-lo. Hoje, virou “terrorista”."

Recolhido entre a ameaça de ser preso por paquistaneses e assassinado por norte-americanos, Haqqani decidiu recorrer outra vez ao novo governo afegão. Em março de 2002, mandou seu irmão, Ibrahim Omari, ao Afeganistão, com uma proposta de reconciliar-se com Karzai. Em cerimônia pública, da qual participaram centenas de anciãos líderes tribais e dignitários locais, Omari jurou fidelidade ao novo governo e conclamou os seguidores de Haqqani a voltar do Paquistão e trabalhar com o novo governo de Karzai. Foi nomeado chefe do conselho tribal da província de Paktia, instituição criada para reunir os anciãos das tribos e o governo de Cabul. Em pouco tempo, centenas de antigos subcomandantes de Haqqani, que viviam na clandestinidade, escondidos de PKZ, saíram do frio.

Entre eles, estava Malem Jan. De longos cílios escuros, olhos pintados com muitoKohl e unhas cuidadas, gostava de dançar e dançava muito, para deleite dos companheiros. Era também comandante de vastíssima experiência de combate; lutara, no início dos anos 1990s, sob comando de Haqqani, contra o governo soviético. Na primavera de 2002, reconvocou seus antigos combatentes e, em pouco tempo, todos estavam trabalhando a serviço da CIA como unidade paramilitar, encarregados da segurança de missões dos EUA que caçavam a al-Qaeda.

“Foram bons tempos” – Malem Jan relembrou. – “Trabalhávamos juntos, comíamos juntos, conversávamos muito”. – As milícias da CIA, das quais havia uma meia dúzia em Loya Paktia, rapidamente cresceram e transformaram-se num exército clandestino de 3 mil homens, chamados, em grupo de “Equipes de Perseguição de Contraterrorismo”, que opera até hoje fora da jurisdição do governo afegão e só recebe ordens das forças dos EUA.

Os contatos entre Haqqani e a CIA foram retomados, com seu irmão Omari servindo de intermediário. Planejou-se um encontro entre o próprio Haqqani e representantes da Agência. Na negociação, o ponto chave foi a garantia de que Haqqani poderia voltar ao Afeganistão e participar na política da província de Loya Paktia. O problema era PKZ, enciumado com tais manobras e sempre interessado em manter o controle sobre as três províncias. “Tenho de ser nomeado governador” – disse ao jornal Austin American-Statesman. “Se não for eu, será alguém da al-Qaeda”.

Quando Karzai nomeou um novo governador para a província Paktia, PKZ logo respondeu: cercou a casa do governador e matou 25 pessoas. Simultaneamente, convenceu os norte-americanos a fechar o cerco contra os Haqqanis. Uma noite, quando Omari estava visitando um funcionário do governo, perto de Cabul, apareceram forças das Operações Especiais dos EUA – sem conhecimento daCIA – e o prenderam. Na mesma semana, outros seguidores dos Haqqanis foram presos, em vários pontos da província Loya Paktia.

No instante em que percebeu o que estava acontecendo Malem Jan fugiu para o Paquistão, mas vários de seus subordinados foram presos e enviados para a nova prisão norte-americana na Base Aérea Bagram, centro militar de comando que estava em rápida expansão. Swat Khan, seu vice-comandante, contou que, no primeiro interrogatório, foi pendurado ao teto pelos pulsos. Depois, foi espancado. Finalmente o mandaram para Guantánamo, onde, alguns anos depois, tentou o suicídio. “Cada vez que fecho os olhos, tudo reaparece” – contou-me ele, depois que foi libertado. – “O pesadelo nunca sai de mim”.

A CIA demorou meses até dar-se conta de que Omari estava preso numa prisão dos EUA. Quando afinal foi libertado, parecia outro homem. Era um dia de outono, frio, numa colina perto da cidade de Khost, onde centenas de anciãos das tribos e funcionários do governo foram recebê-lo. Havia autoridades das tribos e das vilas atacadas e bombardeadas pelos aviões norte-americanos e pelas forças de PKZ, anciãos sobreviventes do ataque à caravana, agricultores cujos filhos haviam sido mandados para Guantanamo.

“Primeiro, nem o reconheci” – disse Malek Sardar, ancião de uma das tribos. – “Não falou sobre o que o fizeram passar, e pareceu-nos doloroso demais perguntar qualquer coisa”. Aos poucos, com voz fraca, Omari falou ao grupo ali reunido. Que ninguém nunca mais esperasse coisa alguma, nem do governo de Karzai, nem dos norte-americanos. Alguns velhos gritaram insultos a Karzai. Outros disseram que os norte-americanos eram iguais aos soviéticos. Omari jurou que não voltaria a pisar em terra afegã, enquanto não estivesse livre de “todos os infiéis”. Pouco depois, partiu para o Paquistão.

A Rede Haqqani: 2004-2014

No verão de 2004, Malem Jan estava sentado com Sirajuddin Haqqani, o segundo filho de Jalaluddin, em sua base no Paquistão, no Waziristão Norte, na cidade de Miram Shah, quando ouviram seus nomes na BBC. Os norte-americanos ofereciam recompensas, respectivamente, de US$250 mil e de US$200 mil, por qualquer informação que levasse à prisão deles. Introvertido, religioso e furiosamente inteligente, o mais jovem dos Haqqani imediatamente decidiu tomar as rédeas da depauperada rede de seu pai. Sorriu, ante a ideia de que seu porta-voz, Malem Jan, valesse recompensa maior que a oferecida por ele. E zombou: “Dizem que a cabeça que vale prêmio mais alto já está mais perto de Deus”.

A partir dali, os Haqqanis entraram em guerra declarada contra os norte-americanos. Enquanto seu pai comandara a Loya Paktia contando com apoio popular, Sirajuddin comandou das sombras, pelo medo – assassinatos, sequestros, extorsão, estradas minadas. Miram Shah tornara-se capital mundial da Jihad radical, lar da al-Qaeda e de sortimento variado de chechenos, uzbeques e europeus que, todos, combatiam sob a bandeira dos Haqqani. O ISI, serviço secreto do Paquistão, apoiava também os Haqqanis, como meio de influenciar nos eventos internos do Afeganistão, apesar de, publicamente, Islamabad apresentar-se como aliada de Washington.

Ao classificar alguns grupos como terroristas, e, na sequência, agir como se sua própria classificação fizesse algum sentido, os EUA, sem ver o que faziam, geraram as próprias condições de existência do que, em tese, estariam combatendo. Em 2010, a rede Haqqani já era a ala mais mortal de uma insurgência armada cada dia mais violenta, que matava civis sem conta, além de muitos soldados norte-americanos. Já era quase impossível, então, sequer recordar que, em meados de 2002, os EUA não tinham inimigos no Afeganistão: os remanescentes da al-Qaeda haviam fugido para o Paquistão, os Talibã haviam entrado em colapso, e os Haqqanis tentavam o acordo e a reconciliação.

Se Pacha Khan Zadran conseguiu convencer seus aliados norte-americanos do contrário disso, foi por causa da lógica da guerra ao terror. “Terrorismo” deixou de ser definido como um conjunto de táticas (captura de reféns, assassinatos, carros-bomba). E passou a ser entendido como algo que fazia parte da própria identidade dos perpetradores, como o peso, ou o temperamento. Significava que, uma vez declarado “terrorista”, Jalaluddin Haqqani nunca mais deixaria de ser terrorista, mesmo quando tentou a reconciliação. Por sua vez, quando, adiante, PKZ rompeu com o governo Karzai e tomou os norte-americanos como alvos, foi rotulado não como terrorista, mas como um “renegado”. (PKZ conseguiu fugir para o Paquistão, foi preso, entregue ao governo afegão, e, adiante, foi eleito para o Parlamento).

Em anos recentes, os EUA movem campanha intensa de ataques, por drones, contra os Haqqanis em sua fortaleza no Waziristão Norte. Dezenas de seus comandantes foram mortos, inclusive o principal comandante militar, Badruddin Haqqani. Muitos têm sido presos. Hoje, a rede Haqqani não é nem sombra do que foi. 

Mas a influência do grupo continua bem viva. Em 2012, recebi um telefonema da família de Arsala Rahmani, senador afegão do qual me tornei amigo. Naquela manhã, um atirador acompanhou o carro onde Rahmani viajava, parou ao lado dele num cruzando e o matou a queima roupa. Depois, ouvi que um ex-comandante dos Haqqanis, de nome Najibullah era o responsável por aquele assassinato; ele criara sua própria facção, Mahaz-e-Fedayeen, cuja violência faz os Haqqanis parecerem amadores. Hoje já tomado como inimigo das forças do contraterrorismo norte-americano, esse grupo é mais um – mas não o último – inimigo numa guerra que parece nunca acabar.

28 de abril de 2014

Por que Putin está na alça de mira de Washington?

Ucrânia, Rússia e China

Mike Whitney

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

“Washington quer enfraquecer Moscou economicamente, cortando suas receitas do gás, erodindo assim sua capacidade de defender-se ou a seus interesses. Uma integração econômica entre Ásia e Europa não interessa aos Estados Unidos. Uma possível aliança de fato entre Rússia e União Européia seria uma ameaça direta à hegemonia global dos Estados.”

As provocações dos Estados Unidos na Ucrânia não podem ser entendidas sem se entender antes o “Pivoteamento para a Ásia” de Washington, que faz parte de um plano estratégico mais amplo para transferir a atenção do Oriente Médio para a Ásia. Atualmente, o assim chamado “reequilíbrio” é um projeto para controlar, de maneira compatível com as ambições hegemônicas dos Estados Unidos, o crescimento da China. Há várias correntes de pensamento sobre como se poderia conseguir isso, mas falando bem simplesmente, elas dividem-se em duas categorias: “matadores de dragões” e “amigos do panda”. Matadores de dragões são a favor de uma estratégia de contenção, enquanto os amigos do panda são a favor de uma espécie de noivado. Qual política será adotada ainda não foi objeto de escolha definitiva, mas já ficou claro, pelas hostilidades no Mar do Sul da China e Ilhas Senkaku, que o plano dependerá muito de força militar.

Então, o que é que controlar a China tem a ver com a poeira levantada na Ucrânia?

Tudo. Washington vê a Rússia como uma crescente ameaça a seus planos de dominação regional. Este é o problema: O problema é que Moscou está se fortalecendo cada vez mais com a expansão de sua rede de oleodutos e gasodutos para a Europa, através da Ásia Central. Não por outra razão, Washington decidiu usar a Ucrânia como o palco para um ataque à Rússia, porque uma Rússia forte e que esteja economicamente integrada com a Europa é uma ameaça à hegemonia dos Estados Unidos. Washington precisa de uma Rússia fraca e que não ameace sua presença na Ásia Central ou seus planos de controlar recursos energéticos vitais.

Atualmente a Rússia fornece cerca de 30% (trinta por cento) do gás natural usado na Europa Ocidental e Central, dos quais 60% (sessenta por cento) passa pela Ucrânia. O povo e as empresas da Europa necessitam desse gás para ou esquentar suas casas ou mover suas máquinas. O fortalecimento mútuo de vendedores e compradores é o que resulta das relações comerciais entre Rússia e União Européia. Os Estados Unidos nada ganham com a parceria entre União Européia e Rússia, sendo esta a causa que faz Washington querer bloquear o acesso de Moscou a mercados tão essenciais. Essa forma de sabotagem comercial é um ato de guerra.

Ao mesmo tempo, as grandes companhias petrolíferas ocidentais pensaram que poderiam competir com Moscou construindo gasodutos alternativos que significaria atender à prodigiosa demanda da União Européia por gás natural. Porém o plano falhou e então Washington resolveu apelar para o plano B; interpondo-se entre os dois parceiros comerciais, os Estados Unidos esperam supervisionar de perto a distribuição futura de suprimento de energia e controlar o crescimento econômico em dois continentes.

O problema que Obama & Co. vão ter será convencer as pessoas na União Européia que é do seu interesse pagar o dobro do que pagam em 2014 para aquecer suas casas em 2015, porque é isso o que vai acontecer se o plano de Washington for bem sucedido. No empenho de cumprir esta meta, os Estados Unidos empreendem todos os esforços para atrair Putin a uma confrontação e por isso a mídia o denuncia como um terrível agressor e uma ameaça enorme para a segurança da União Européia. Alcançariam a justificativa necessária para interromper o fluxo de gás da Rússia para a UE através da demonização de Putin, e ao mesmo tempo, estariam enfraquecendo a economia russa, enquanto providenciariam novas oportunidades à OTAN para estabelecer bases operacionais no perímetro ocidental da Rússia.

Para Obama não faz a menor diferença se as pessoas serão exploradas em relação ao preço do gás ou se simplesmente congelará até a morte no inverno. O que lhe importa mesmo é o “pivoteamento” para os mercados mais promissores e prósperos do próximo século. O que importa é destruir Moscou cortando fundo nas suas receitas do gás e reduzindo sua capacidade de autodefesa, bem como de seus interesses. O que importa é a hegemonia global e dominar o mundo. Isso é o que realmente importa. Todos sabem disso. Tentar acompanhar os acontecimentos da Ucrânia como se fossem isolados do panorama geral é simplesmente ridículo, porque eles fazem parte da mesma estratégia doentia. Parece um filme antigo sobre a segurança nacional dos Estados Unidos, narrado pelo conselheiro Zbigniew Brzezinski em discursos sobre política externa – no que diz respeito aos Estados Unidos, não faz sentido ter políticas separadas para Europa e Ásia:

“Com a Eurásia desempenhando atualmente um papel decisivo no tabuleiro de xadrez da geopolítica, não basta mais ter uma política para a Ásia e outra para Europa. No território da Eurásia, o que acontece com a distribuição do poder tem importância vital para a primazia global da América e seu legado histórico.” (“O perigo da guerra na Ásia”, World Socialist Web Site)

Tudo se resume ao “pivoteamento” para a Ásia e ao futuro do Império. É por esse motivo que a CIA e o Departamento de Estado americano engenharam um golpe de estado com o fim de expulsar do poder o presidente Victor Yonuchovych, colocando em seu lugar um fantoche para obedecer as ordens de Obama. É por este motivo que o primeiro ministro imposto, Arseniy Yatsenyuk, ordenou duas “operações antiterror”: reprimir ativistas desarmados no oriente da Ucrânia que se opõem à Junta no poder em Kiev. É por este motivo que o governo Obama tem evitado travar com Putin um diálogo construtivo destinado a encontrar uma solução pacífica para a crise atual na Ucrânia. Tudo isso ocorre porque Obama quer atrair Putin para uma prolongada e desgastante guerra civil que enfraquecerá a Rússia, colocará Putin em descrédito e fará a opinião pública pender para o lado dos Estados Unidos e da OTAN. Por que Washington afasta enfaticamente uma política que certamente faria alcançar o objetivo que se busca? Porque sim. Leiam um trecho de um artigo publicado no site antiwar.com:

“Relatórios oriundos de Moscou dizem que o Presidente Putin 'encerrou' todas as negociações com o Presidente Obama, e disse que 'não está interessado' em falar com os Estados Unidos novamente sobre o atual desenvolvimento da crise, de suas ameaças e atitudes hostis. 
Putin e Obama falaram regularmente por telefone sobre a Ucrânia em março e início de abril, mas Putin não tem conversas diretamente com o presidente Obama desde 14 de abril, e o Kremlin informa não ver mais nenhuma necessidade de mais negociações.” (“Putin suspende negociações em meio às ameaças de sanções”, antiwar.com)

Ele nada tem a ganhar em negociações com Obama. Putin já sabe o que Obama quer. Ele quer a guerra. Isso é assim porque o Departamento de Estado e a CIA querem derrubar seu governo. Não é por outro motivo que o diretor da CIA John Brennan surgiu em Kiev justamente um dia antes da ordem de Yatsenyuk determinando a primeira tentativa de reprimir os ativistas pró Rússia no leste. É também por isso que o vice presidente Joe Biden esteve em Kiev, “por coincidência” apenas horas antes de Yatsenyuk lançar a segunda tentativa de repressão aos ativistas no oriente da Ucrânia. Finalmente, é por esse motivo que Yatsenyuk promoveu o cerco à cidade oriental de Slavyanski enquanto prepara um ataque contra os ativistas pró Rússia. A causa de tudo isso é a crença dos Estados Unidos de que uma conflagração violenta serve aos seus interesses geopolíticos na área. É inútil conversar com esse pessoal sobre o assunto, o que levou Putin a parar de tentar.

Atualmente o governo Obama está forçando uma nova rodada de sanções contra a Rússia, mas os membros da União Européia estão arrastando os pés. Segundo a RT:

“'No momento, não há consenso entre os membros da União Européia sobre quais medidas contra a Rússia seriam aceitáveis, ou mesmo se são necessárias', disse uma fonte da diplomacia européia à agência Itar-Tass. 
Falando sob condição de anonimato, um diplomata afirmou que apenas uma invasão abertamente realizada pela Rússia contra a Ucrânia ou provas irrefutáveis de militares russos clandestinamente presentes na Ucrânia causariam uma mudança de posição da União Européia em relação às sanções econômicas. “Até agora, todas as supostas evidências tornadas públicas tanto por Kiev quanto por Washington sobre o alegado envolvimento de agentes russos na Ucrânia se revelaram inconclusivas ou mesmo falsas.” (“Estados Unidos falharam na imposição de sanções econômicas contra a Rússia através de seus aliados da União Européia”, RT)

Mais uma vez: o envolvimento de tropas russas no conflito é essencial para que Washington alcance seus objetivos.

No último domingo, a RT exibiu imagens de satélite mostrando forte acúmulo de tropas em torno da cidade ucraniana de Slavyansk. De acordo com o repórter da Rússia Today:

“160 tanques, 230 APCs (blindados de transporte) e BMDs (blindados para operações de infantaria) e pelo menos 150 peças de artilharia a lançadores de mísseis, incluindo “Grad” e “Smerch”, lança-mísseis múltiplos, foram deslocados para a área. Um total de 15.000 tropas se posicionam nas proximidades de Slavyansk, disse ele. 
Sergey Shoigu, Ministro da Defesa russo, afirmou que o grande incremento de tropas ucranianas, assim como os exercícios militares e desenvolvimento adicional de forças armadas da OTAN na região “forçaram” a Rússia a responder com seus próprios exercícios militares... “Se a opção de Kiev for a escalada de repressão aos insurgentes na Ucrânia oriental usando contra eles armas assim pesadas, então a Rússia se reserva o direito de usar seus próprios meios militares para deter a carnificina.” (“Tanks, APCs, 15,000 troops’: Satellite images show Kiev forces build-up near Slavyansk”, RT)

Putin tem afirmado repetidamente que vai responder caso cidadãos de etnia russa sejam mortos na Ucrânia. Essa é a linha vermelha. Sergey Lavrov, Ministro de Relações Exteriores da Rússia fez questão de reforçar esta mensagem na entrevista concedida na última semana para Sophie Shevardnaze, repórter da RT. Lavrov, normalmente calmo, condenou o ataque de Yatsenyuk a civis na Ucrânia como “criminoso” e avisou que qualquer ataque contra cidadãos russos será considerado um ataque contra a própria Federação Russa.

A declaração foi seguida de uma preocupante movimentação de tropas russas na fronteira da Ucrânia, o que indica que a Rússia pode estar se preparando para uma intervenção para conter a violência contra civis. De acordo com a agência russa de notícias Star Tass, “o Ministro da Defesa Sergey Shoigu afirmou que 'a partir de hoje, os exercícios dos grupos de batalhões táticos começarão nas áreas de fronteira com a Ucrânia.' Também a aviação efetuará vôos de simulação de ações militares perto da fronteira.”

Então, esta é a situação: no fim das contas, parece que Putin acabará sendo levado para a batalha, conduzido pelas provocações de Obama. Mas será que as coisas tomarão mesmo o rumo que Obama acha que tomarão?

Será que Putin seguirá mesmo o roteiro escrito por Washington e deixará suas tropas no leste, onde serão atormentadas por guerrilhas fundadas e apoiadas pelos Estados Unidos e por neonazistas, ou tem alguma outra carta na manga como, por exemplo, uma rápida blitz até Kiev com imediata remoção da Junta governamental, chamando em seguida forças de manutenção que impeçam qualquer violência adicional, voltando em seguida para suas próprias fronteiras, em segurança?

Seja qual for a estratégia não vamos demorar muito para vê-la implementada. Se o exército de Yatsenyuk atacar Slavyansk, Putin enviará seus tanques e será um jogo totalmente novo.

23 de abril de 2014

Alguns traços do oportunismo na América

Pável Blanco Cabrera [*] e Héctor Colío Galindo [**]

Revista Comunista Internacional

Tradução / O oportunismo, reformismo e revisionismo procuram atualmente, num discurso renovado, os velhos objetivos de separar a classe operária e os seus partidos comunistas dos fundamentos do marxismo, da luta revolucionária contra o capitalismo, do princípio da ditadura do proletariado, do papel revolucionário da classe operária e o seu partido de vanguarda na revolução socialista e na construção do socialismo-comunismo.

Constitui uma grande lição a luta contra o oportunismo e a degeneração da II Internacional a iniciativa liderada pelos bolcheviques e outros marxistas que se agruparam na esquerda de Zimmerwald, os espartaquistas na Alemanha e de muitos partidos, tendências e grupos que estiveram na base da III Internacional, a Internacional Comunista.

Historicamente, o oportunismo procurou deformar, caluniar, suavizar, domesticar o marxismo, submetendo-o ao ataque direto, tergiversando sobre os clássicos, chegando até à mutilação grosseira dos textos [1] para apresentar versões úteis à política do gradualismo, do parlamentarismo, à coexistência com o capitalismo e abandono da luta pelo poder. O oportunismo levou os partidos da II Internacional a uma posição claudicante e assumiu cumplicidade criminosa com o imperialismo durante a I Guerra Mundial; serviu diretamente como aparelho de repressão do capital contra a revolução alemã e foi responsável pelo assassínio de Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht.

Todas as forças do oportunismo se voltaram contra a Grande Revolução Socialista de Outubro e apoiaram a contra-revolução que procurou derrubar o poder soviético dos operários e camponeses, justificando a intervenção imperialista, o cerco sanitário.

A experiência veio demonstrar que a luta contra o oportunismo, reformismo e revisionismo é de grande importância ideológica, visto ser um problema de vida ou morte para a existência do partido da classe operária, para a revolução proletária e para a construção do poder operário. Vladimir Illich Lenin insistiu em várias obras que a luta pelo socialismo é incompleta sem a luta contra o oportunismo, e isso foi o traço de identidade dos novos partidos construídos pela Internacional Comunista, como se reflete em vários dos seus documentos, que falam da luta constante e implacável contra os "auxiliares da burguesia", em reconhecer a necessidade de um ruptura total e absoluta com o reformismo "já que sem isso é impossível uma política comunista consequente" [2], senão a III Internacional acabaria — alertava — por se assemelhar muito à II Internacional.

E esta frente ideológica não se pode considerar temporal, concluída ou reduzida a uma etapa que ficou no passado da história do movimento comunista.

O oportunismo é uma força auxiliar da burguesia para atrasar os processos de incremento na luta de classes, conter a vaga revolucionária e fomentar a contra-revolução, mas não devemos subestimar que a sua actuação é constante e em todos os períodos, mas com uma periculosidade crescente quando é possível que, pelo ciclo do capital, entre a classe trabalhadora haja condições para a radicalização da consciência. Hoje mesmo, na Europa e na América, é um suporte fundamental do imperialismo, recebendo inclusive financiamento dos monopólios para a acção política, desde ONG's, actividades ideológicas e, sobretudo, promoção de formas alternativas da gestão capitalista de "rosto humano". Este é o papel do Partido da Esquerda Europeia, a que perigosamente se liga cada vez mais o Foro de São Paulo [3] , apesar de uma retórica que critica a gestão neoliberal e que promove políticas públicas assistencialistas [4]

As manifestações do oportunismo existem hoje em nível duplo. O primeiro, solapando internamente os partidos comunistas e operários para perderem os seus traços de identidade, as suas características revolucionárias e acabarem transformados em partidos formalmente comunistas, mas na verdade social-democratas, transformando-se em organizações oportunistas. O segundo é a promoção de agrupamentos directamente com esse carácter, integradas por ex-comunistas, maoístas, trotskistas, social-democratas, como o Bloco de Esquerda em Portugal e o Syriza na Grécia.

A frente ideológica contra o oportunismo é uma necessidade: não estar atento a ele, desdenhá-lo, omiti-lo, leva à liquidação dos partidos comunistas. Por exemplo, o PCM abraçou a tendência browderista, como outros partidos da América Latina (como sabemos, o PC dos Estados Unidos esteve a um passo da dissolução com a intentona de o transformar numa associação, uma espécie de clube ideológico). No México, esse modelo era a Liga Socialista, onde deveria dissolver-se o PCM. Os partidos colombiano, cubano e dominicano mudaram de nome inscritos naquela corrente. O PCM dissolveu as suas células na indústria e sindicatos e renunciou provisoriamente ao centralismo democrático, e mudou de nome de Partido Comunista do México para Partido Comunista Mexicano; além das graves lesões à estrutura leninista, adoptaram-se políticas de coexistência com secções da burguesia a que se chamou "nacional" e "progressista" e se renunciou à via revolucionária para a conquista do poder. A Carta de J. Duclos, assim como as críticas de outros partidos, geraram reacções de reagrupamento militante dos comunistas para evitar a liquidação e reconstruir os partidos.

A frente ideológica contra o oportunismo é uma necessidade; descuidá-la, desdenhá-la, omiti-la, leva à liquidação dos partidos comunistas.

Em documentos posteriores, [5] o PCM reconhecia que a condenação ao browderismo foi apenas formal e isso repercutiu-se nos anos seguintes, pois não se ligou a certas políticas de orientação oportunista promovidas a partir do XX Congresso do PCUS, como o caso das chamadas "vias nacionais" para o socialismo, a possibilidade do caminho pacífico, adoptando-a não como uma excepção, mas sim como uma generalidade para o movimento comunista, apoiado nas políticas dos partidos francês e italiano.

O PCM deixou-se permear e começou a corroer-se até à sua dissolução em 1981, para se transformar, primeiro, num partido socialista e, logo depois, no Partido da Revolução Democrática (filiado na Internacional Socialista, promotor da gestão keynesiana e repressor do movimento operário e popular), um partido da classe dominante propagandeado como o partido da esquerda no México. As condições difíceis de reconstrução do PCM e o nível de desenvolvimento político da classe operária na luta mostram que o objectivo de liquidar nos anos 80 o PCM era o de assestar um golpe demolidor na luta proletária, atrasá-la em décadas.

É tão actual este assunto que hoje mesmo, nos Estados Unidos, o Partido Comunista enfrenta um problema semelhante ao que teve com Earl Browder, quando a corrente oportunista chefiada por Sam Webb, o Presidente do Partido, propôs uma plataforma para o despojar das suas características, liquidá-lo e transformá-lo numa força auxiliar do Partido Democrata. Essa plataforma contém muitos elementos promovidos pelo eurocomunismo, pelo processo que levou à liquidação do PCM, e que hoje corroem vários partidos comunistas, incluindo alguns da América.

Insistimos na importância de combater as tendências oportunistas; enunciar os traços que manifesta na América vai mostrar-nos que, para além de algumas especificidades, é geral o oportunismo internacional.

O geral e o específico, e o desvio que implica acentuar as particularidades

O marxismo-leninismo, base ideológica dos partidos comunistas, teoria revolucionária da classe operária, apoia-se no materialismo dialéctico, o materialismo histórico e a economia política. Procura extrair o que é mais geral da realidade ao estudar o desenvolvimento da história, os modos de produção, o conflito socio-classista, as regularidades na sociedade, as leis que regem as mudanças e revoluções.

As particularidades, o específico, devem levar-se em conta, pois o marxismo-leninismo enriquece-se criativamente, mas não podem ser o determinante nos pontos essenciais, na análise.

Com o argumento de se demarcar do dogmatismo e da análise alheia à realidade produz-se um apelo à adulteração do marxismo, reproduzindo a crítica academicista que assume como objectivo dissociar Engels de Marx e Lenine de Marx. Alguns partidos latino-americanos, demarcam-se do leninismo – hoje mesmo, o PC dos Estados Unidos tem essa posição – que, afirmam, corresponde às particularidades da Rússia e a outra etapa histórica. No fundo, trata-se da renúncia às posições revolucionárias do marxismo o que, do ponto de vista teórico, é insustentável. É também uma fonte de desvios políticos que levam ao movimentismo, desvirtuam o papel do partido e o papel da classe operária.

A chamada latino-americanização do marxismo tem muito em comum com operações corrosivas anteriores, como as de Santiago Carrillo e dos eurocomunistas e o "marxismo ocidental", já que recusa abertamente o materialismo dialéctico, a ditadura do proletariado e dirige um ataque à história dos partidos comunistas.

É notável como alguns partidos comunistas se deixam assimilar acriticamente por essas posições e as promovem, por exemplo ao assumir a distribuição da editora Ocean Sur de origem trotskista, em cujo catálogo de publicações predomina o ataque ao socialismo construído no século XX, e se difundem críticas ao marxismo-leninismo chamando-lhe "ideologia estatal soviética"; tudo isso, apoiado na promoção editorial de materiais relativos à Revolução Cubana.

Aspectos essenciais do materialismo dialéctico e o ateísmo filosófico, são postos de lado pela pressão de correntes como a teologia da libertação.

É da mesma fonte o argumento de que o marxismo é eurocêntrico; mas uma mescla eclética de verniz místico é alcandorada ao latino-americano como o alfa e o ómega.

Não há preocupação com a reedição dos clássicos, mas sim com a divulgação destes deformadores modernos que, por estarem delimitados ao claustro universitário colocamo-los no folclore, mas que exercem grande influência em alguns partidos comunistas. A debilidade na frente ideológica, o desenvolvimento limitado de investigações e trabalhos teórico-científicos a partir das nossas posições de classe leva alguns partidos a serem surpreendidos pelo contrabando ideológico dos que atacam o marxismo apresentando-se como "marxistas". Como exemplo, recordamos o caso ocorrido não há muitos anos de H. Dieterich, um dos ideólogos do "socialismo do século XXI", a que a imprensa de alguns partidos comunistas dava algum espaço.

O desvio ideológico, o ecletismo, o acento pela especificidade, estão na base de novas revisões do marxismo.

Outro traço negativo é o que deixa de lado as leis gerais da revolução, apelando à "originalidade" de processos sociais anteriores e em curso. Uma premissa do movimento comunista internacional sustentada desde o triunfo da Grande Revolução Socialista de Outubro é o carácter da época, que situamos como a do imperialismo e das revoluções proletárias, a da transição do capitalismo ao socialismo; nós consideramos que o triunfo intemporal da contra-revolução não altera a premissa.

Programaticamente, o oportunismo introduz um debate e uma estratégia sobre a transição, que deixam para trás as tarefas da classe operária e do seu partido comunista. Qual é o argumento? Sobretudo a partir do triunfo da Revolução Chinesa, nova recepção das ideias de Mao Tse Tung sobre as contradições no seio da burguesia e a existência de um "sector nacional" desta em antagonismo com o imperialismo. Esta burguesia nacional transforma-se, segundo aquela perspectiva, numa aliada estratégica da classe operária na luta anti-imperialista e para alcançar a meta programática de romper os grilhões da dependência com o imperialismo norte-americano. Existem matizes em torno das causas da dependência; alguns defendem a concepção errada que o colonialismo é idêntico às relações feudais ou semifeudais; outros defendem a caracterização de um capitalismo deformado e incompleto, o que coloca uma série de questões a uma política de classe marxismo-leninista e às tarefas dos partidos comunistas.

Em primeiro lugar, as do próprio desenvolvimento das relações capitalistas mostram que o posicionamento sobre dependência não é dialéctico. Os processos de acumulação, concentração e centralização levam ao aparecimento dos monopólios, que acabam por predominar na economia e na política, independentemente de fronteiras ou nacionalidades. O que existe é uma relação de interdependência que coloca de um lado os monopólios e do outro a classe operária; ou seja, a contradição capital-trabalho. Vejamos:

Aqueles que no México afirmam que a principal tarefa é conquistar a independência em relação aos Estados Unidos e trabalham para uma aliança pluriclassista com sectores da burguesia interessados, esquecem que o que chamam burguesia nacional subentende hoje monopólios que fazem já parte do imperialismo, que exportam capitais e exploram trabalhadores em vários países [6] . Alguns desses monopólios mexicanos são dominantes a nível continental e, inclusive no interior dos Estados Unidos (como o caso das telecomunicações e algumas mineradoras).

A luta pela independência assim concebida não é nada mais do que a procura de uma nova forma de gestão do capitalismo com aliados demasiado fictícios.

De resto, é incompleta a apreciação de que o imperialismo só existe nos Estados Unidos. O imperialismo é o capitalismo dos monopólios e tem um dos seus centros nos Estados Unidos, mas também os tem na União Europeia e em toda a acção dos monopólios e relações inter-estatais. Damos como exemplo o sul do continente, onde a expansão dos monopólios brasileiros é uma realidade; ou o Mercosul, que é uma aliança inter-estatal de carácter capitalista e tem relações de interdependência cada dia mais estreitas com a União Europeia [7]

Esta concepção de alianças com sectores da burguesia foi rebaptizada contemporaneamente como "progressismo", e vários partidos comunistas colaboram com eles na formação de governos que não ocultam a sua natureza de classe e praticam políticas de superlucros dos monopólios, de que o Brasil é exemplo evidente.

Numa tal política de alianças, o papel da classe operária e dos partidos comunistas é secundário; é um problema perigoso, pois a independência de classe e a autonomia do partido deixam de ser as tarefas prioritárias, o dever absoluto; deixam de ser organizações de militantes e transformam-se em agrupamentos de filiados, para quem o socialismo se torna uma opção distante, e ao fixarem uma etapa intermédia de longa duração coloca-as na colaboração de classes, nos pactos sociais e num parlamentarismo funcional ao progressismo, que é uma forma de gestão do capitalismo.

O imperialismo é o capitalismo dos monopólios e tem como um dos seus centros os Estados Unidos mas também a União Europeia

Os processos da Venezuela, Equador e Bolívia apresentam uma problemática diferente devido à posição de alguns partidos que renunciam à teoria marxista do Estado. O processo social venezuelano é muito importante, mas ainda não é uma revolução, como chamar revolução a um processo de onde não surgiu um novo Estado, onde o anterior não foi destruído e constitui a estrutura com que se continua a governar? Onde não se socializaram os meios de produção nem se impulsionou o sector primário e secundário da economia? Reconhecemos que é uma disjuntiva com tensões e conflitos, onde ainda está por resolver o rumo definitivo, onde hoje predominam as posições das camadas médias, e sujeito a ataques financiados pelos monopólios. Não temos uma posição neutra, colocamo-nos solidários com as forças mais avançadas, a começar pelo PCV. Mas é inexacto e erróneo promove-la como caminho, chamando revolução ao que ainda o não é.

O ataque ao socialismo construído no século XX, argumento do oportunismo

Um dos traços distintivos do oportunismo é o ataque à experiência da construção socialista na URSS e outros países, a quem injuria, retomando argumentos do trotskismo e do anticomunismo.

Os oportunistas resumem as suas posições na ausência de condições objectivas para o socialismo, como o fez Kautski na sua época, em supostas tendências antidemocráticas e burocráticas, atacando a planificação da economia e propondo a coexistência de diversos tipos de propriedade, assim como das relações mercantis.

Toda a artilharia acumulada pelo capital é apresentada em novas versões. Alguns partidos comunistas confrontam esta situação, outros omitem o tema e outros ainda, juntam-se a tais posições. Por isso, vários partidos comunistas incorporam, não apenas a nível de propaganda mas como concepção programática, a proposta do "socialismo do século XXI" que, como já alertaram os marxistas-leninistas é uma manifestação contra a revolução socialista e o trabalho dos comunistas.

Estes indícios do oportunismo no continente não são desconexos, e embora não se expressem com coerência, nitidez e em certas ocasiões procurem misturar-se com o marxismo-leninismo, colocam o movimento comunista perante sérios problemas.

Inclusive, certos indícios de beligerância com uma preocupante tendência oportunista foram expressos pelo PC do B durante o último Encontro dos Partidos Comunistas e Operários efectuado em Atenas, em Dezembro de 2011, quando eufemisticamente afirmou que a participação dos comunistas em governos progressistas é uma demonstração de maturidade, e que a crítica a isso é uma posição sectária e afastada das massas; a colaboração de classes será assim o correcto, enquanto a independência de classe e autonomia do Partido Comunista seriam o incorrecto. É evidente que as posições oportunistas minam o PC do B.

Numa apreciação muito geral, na América – excepção feita a Cuba – predominam as relações capitalistas, independentemente de em alguns países se afirmarem ainda relações pré-capitalistas no campo. Está definido o antagonismo entre capital e trabalho, e a tendência para a proletarização, aumenta entre as camadas médias. Como em todo o mundo, os limites históricos do capitalismo situam o impostergável objectivo para a classe operária de lutar pelo derrubamento da burguesia e a construção do socialismo-comunismo. O oportunismo, como força de choque do capital, procura evitá-lo. É necessário que os partidos comunistas estejam em guarda e o combatam permanentemente.

Notas:

[1] Por exemplo, a Introdução à luta de classes em França de 1895, de F. Engels.
[2] Por exemplo, Condições de Ingresso na Internacional Comunista, redigido por Lenin para o Congresso Mundial do Comintern.
(3) Base objectiva disso é a maior interdependência do Mercosul com a União Europeia, o aumento das relações económicas.
(4) O anti-neoliberalismo questiona uma forma de gestão do capitalismo, mas a alternativa não é necessariamente anticapitalista, socialista-comunista, mas em muitos casos opta por outras gestões, como o keynesianismo, tal como o demonstram os processos "progressistas" na Argentina, Uruguai e Brasil.
(5) A luta interna no Partido durante os anos de 1939 a 1948. Características principais, Comité Central do Partido Comunista Mexicano.
(6) Por exemplo, América Móvil, Industrial Minera México, Cemex, Grupo Bimbo.
(7) Não há que ignorar que o chamado "progressismo", predominante no Forum de São Paulo e em outros governantes no Brasil, Argentina e Uruguai, é o que impulsiona a internacionalização do Forum de São Paulo, sobretudo baseado em fortes ligações ao Partido da Esquerda Europeia.

[*] Primeiro-Secretário do Partido Comunista do México.
[**] Membro do Bureau Político do PCM. 

22 de abril de 2014

Ucrânia: Da crise à catástrofe

Os perigos da intervenção

Patrick Cockburn


"No curto instante que nos sobra entre a crise e a catástrofe, bem podemos beber uma taça de champanhe", disse Paul Claudel, o poeta francês, dramaturgo e embaixador nos Estados Unidos no princípio dos anos 30 do século XX, referindo-se às poucas esperanças de evitar um desastre financeiro. Mas as suas palavras parecem ser bons conselhos, apesar de desesperados, para a Ucrânia nos últimos dias, quando se aproxima o seu "momento de champanhe".

Uma catástrofe na forma de guerra civil, de invasão russa e de divisão do país, não é inevitável, mas está ao virar da esquina. O acordo alcançado entre a Rússia, os EUA, a União Europeia e a Ucrânia no dia 17 de abril de 2014, segundo o qual os manifestantes no leste da Ucrânia poderiam desocupar os edifícios públicos ocupados e entregar as armas em troca de uma maior autonomia dos distritos pró-russos, pouco diminuiu o impulso para a guerra civil. Os manifestantes insistem que têm tanta legitimidade quanto o que chamam de "a junta Kiev", que chegou ao poder através das manifestações de rua que derrubaram um governo eleito, mas corrupto e incompetente.

Os meios de comunicação ocidentais centraram-se obsessivamente na questão de saber em que medida os milicianos pró-russos no leste da Ucrânia obedecem as ordens do Kremlin, mas essa atenção obscurece uma característica mais significativa do panorama político ucraniano. Todas as eleições na Ucrânia desde a queda da União Soviética em 1991, mostraram que o país se divide quase por igual entre pró-russos e pró-ocidentais, em que cada lado tem a capacidade de vencer as renhidas eleições. Pretender que a rebelião no leste da Ucrânia é falsa e orquestrada pela Rússia é uma ilusão perigosa.

Ainda que a Ucrânia seja diferente do Iraque e do Afeganistão, há algumas fatídicas semelhanças no envolvimento ocidental nos três países. A caraterística comum mais importante é que cada país está profundamente dividido, e afirmar o contrário é um convite ao desastre. Em 2001, a maioria dos afegãos gostou de ver a fuga dos talibã, mas estes e a comunidade pashtun – cerca de 42% da população afegã – na qual os talibã têm as suas raízes, não podiam ser ignorados ou marginalizados com sucesso. A criação de um governo dominado pelos velhos líderes anti-talibã da Aliança do Norte desestabilizou automaticamente o país.

Algo semelhante ocorreu no Iraque. No tempo de Saddam Hussein e dos seus antecessores, a comunidade sunita, cerca de 20% dos iraquianos, detinha as alavancas fundamentais do poder à custa dos árabes xiitas e dos curdos, que representam quatro quintos da população. A queda de Saddam significou que uma revolução étnica e sectária era inevitável, mas a crença dos EUA e da Grã-Bretanha de que os únicos descontentes no Iraque de 2003 eram os remanescentes do antigo regime, subestimava totalmente o perigo de uma revolta sunita.

Tony Blair afirmou recentemente que tudo teria corrido bem, no Iraque ocupado, se não tivesse havido uma interferência perversa de forças externas como o Irã e a Síria. Mas os estados soberanos não existem de forma isolada. Ocupá-los – como ocorreu em Cabul e Bagdá – ou conquistar uma influência predominante, como os EUA e a UE têm estado a fazer em Kiev, transforma a geografia política de toda uma região. Era uma ingenuidade absurda por parte das autoridades dos EUA imaginar que o Paquistão, ou mais precisamente, o exército do Paquistão, aceitaria filosoficamente o colapso de décadas de esforço para controlar o Afeganistão após 2001. Da mesma forma, no Iraque, a administração Bush, eufórica com a vitória sobre Saddam, apregoava alegremente a sua intenção de promover a mudança de regime em Teerã e Damasco. Como era de esperar, os iranianos e os sírios fizeram esforços determinados para garantir que os EUA nunca conseguissem estabilizar o seu controle sobre o Iraque.

Levar a Ucrânia no seu conjunto a passar de pró-russa para anti-russa é uma derrota estratégica devastadora para a Rússia que esta nunca aceitaria sem reagir. Uma Ucrânia hostil reduziria de forma permanente o estatuto da Rússia como grande potência e empurraria a sua influência para o extremo oriente da Europa. Ora, se a Ucrânia tinha tanta importância para a Rússia, foi uma imprudência dos seus dirigentes confiarem no presidente Viktor Ianukovich e na sua gangue de escroques cujo poder se evaporou tão rapidamente. Mas também foi ilusório e irresponsável por parte da UE e dos Estados Unidos não ver ou não se importar com as consequências explosivas de apoiar a subida ao poder de um governo pró-ocidental não eleito em Kiev, levando para o gabinete grupos extremistas ultra-nacionalistas, e depois tratá-lo como se tivesse total legitimidade.

Mas não são só os diplomatas e políticos ocidentais que cometem erros. A imprensa estrangeira apresentou uma visão simplista do que está a acontecer na Ucrânia, tal como o fez no Afeganistão, no Iraque, na Líbia e na Síria. O antigo regime foi, em todos estes casos, demonizado e os seus opositores glorificados, de tal forma que a imagem dos acontecimentos apresentada ao público se aproxima com frequência da fantasia.

O mesmo está a acontecer na Ucrânia. Os meios de comunicação concentram-se sobretudo na credibilidade, ou na falta dela, dos separatistas do leste da Ucrânia, e muito pouco no novo governo de Kiev. De fato, o que mais chama a atenção em ambos os lados é a sua ineficácia quase cômica: há três meses, Ianukovich atuou como se tivesse a força política e militar para esmagar a oposição só para se ver obrigado depois a fugir quase sozinho através da fronteira com a Rússia. Na semana passada, Kiev enviava confiantemente tropas para esmagar "terroristas" e restabelecer a sua autoridade no leste, apenas para ver as suas forças abandonarem calmamente os veículos e desertarem. Quando as forças de segurança do governo mataram manifestantes em Mariupol, ficou claro que pertenciam a unidades da recém-formada Guarda Nacional recrutadas entre os manifestantes ultra-nacionalistas.

O resultado desta falta de apoio organizado, diante das profundas e reais divisões populares, é que se desenvolvem os vazios de poder que são preenchidos por sombrias milícias. Este é em grande medida o padrão das guerras recentes no Oriente Médio. No Afeganistão, por exemplo, o que chama a atenção não é a força dos talibã, mas a debilidade e a impopularidade do governo. No Iraque, o governo tem uma força de segurança de 900.000 membros e rendimentos do petróleo de 100 bilhões de dólares por ano, mas, nos últimos três meses, o Estado Islâmico do Iraque e do Levante, uma organização criticada pela al-Qaeda pela sua excessiva violência, governou Fallujah, 40 milhas a oeste de Bagdá.

A catástrofe na Ucrânia ainda se pode evitar através do compromisso e da moderação, mas o mesmo valia para o Afeganistão, o Iraque e a Síria. Estes países foram dilacerados pelas guerras porque as potências estrangeiras tinham a falsa crença de que podiam obter vitórias fáceis, e uma apreciação errada na escolha do sócio a nível local, uma fação de interesses próprios e com muitos inimigos. Na Síria, por exemplo, os EUA e os seus aliados afirmam há três anos que os verdadeiros representantes do povo sírio são exilados desacreditados, mas bem financiados, que não se atrevem a visitar nem as áreas controladas pelo governo nem as controladas pelos rebeldes.

O que torna a Ucrânia tão perigosa é que todas as partes exageram o seu apoio, subestimam o dos seus opositores, e depois exageram as suas ações. Aceitando um governo legítimo em Kiev instalado por ação direta, os EUA e a UE desestabilizaram irresponsavelmente uma extensão da Europa, algo que deveria ter sido óbvio nesse momento. Para citar Paul Claudel novamente: "É uma sorte que os diplomatas tenham o nariz grande, já que em geral não conseguem ver para além dele".

Plano de ação da OTAN na Ucrânia direto do Dr. Strangelove

John Pilger

The Guardian

Há poucos dias assisti de novo o filme Dr. Strangelove. Já o assisti talvez uma dúzia de vezes; dá sentido a notícias sem sentido. Quando o major T.J. 'King' Kong entra em conflito com os russos e envia o bombardeiro nuclear B52 contra um alvo na Rússia, quem tem que tranquilizar o Presidente é o general 'Buck' Turgidson. Ataque primeiro, diz o general, afinal "são apenas 10 a 20 milhões de mortos, no máximo". Presidente Merkin Muffley: "Não vou ficar na história como o maior assassino de massas desde Adolf Hitler". General Turgidson: "Talvez fosse melhor, senhor Presidente, que se preocupasse mais com o povo americano do que com a sua imagem nos livros de história".

O gênio do filme de Stanley Kubrick é que representa com rigor a loucura e os perigos da guerra-fria. A maior parte dos personagens baseia-se em pessoas reais e em maníacos reais. Não há hoje ninguém equivalente a Strangelove, porque a cultura popular está dirigida quase totalmente para as nossas vidas interiores, como se a identidade seja o zeitgeist moral e a verdadeira sátira seja redundante; mas os perigos são os mesmos. O relógio nuclear parou às cinco para a meia-noite; as mesmas bandeiras falsas estão hasteadas sobre os mesmos alvos pelo mesmo "governo invisível", como Edward Bernays, o inventor das relações públicas, descreveu a propaganda moderna.

Em 1964, o ano em que foi realizado Strangelove, "a diferença de mísseis" era a falsa bandeira. A fim de construir mais armas nucleares, e maiores, e de prosseguir uma política de dominação não declarada, o presidente John Kennedy aprovou a propaganda da CIA de que a União Soviética estava mais avançada do que os EUA na produção de Mísseis Balísticos Intercontinentais. Isso encheu primeiras páginas como a "ameaça russa". Na realidade, os americanos estavam muito à frente na produção de ICBMs, os russos nunca estiveram perto deles. A guerra-fria baseou-se em grande parte nesta mentira.

Desde o colapso da União Soviética, os EUA têm cercado a Rússia com bases militares, aviões nucleares e mísseis, ao abrigo do "Projeto de Ampliação da OTAN". Renegando uma promessa dos EUA feita ao presidente soviético Mikhail Gorbachev em 1990 de que a NATO não avançaria "nem um centímetro para Leste", a NATO entrou à grande na Europa de Leste. No antigo Cáucaso soviético, a ocupação militar da NATO é a mais ampla desde a segunda guerra mundial.

Em fevereiro, os Estados Unidos montaram um dos seus golpes "coloridos" contra o governo eleito da Ucrânia; as tropas de choque eram fascistas. Pela primeira vez, desde 1945, um partido pró-nazista, abertamente anti-semita controla áreas chave do poder estatal numa capital europeia. Nenhum líder da Europa ocidental condenou este renascimento do fascismo na fronteira com a Rússia. Morreram cerca de 30 milhões de russos na invasão do seu país pelos nazistas de Hitler, que foram apoiados pelo Exército Insurgente Ucraniano, o UPA, responsável por inúmeros massacres de judeus e polacos. O UPA era a ala militar, que inspira o atual partido Svoboda.

Desde o golpe de Washington em Kiev – e da reação inevitável de Moscou na Crimeia russa, para proteger a sua Frota do Mar Negro – a provocação e o isolamento da Rússia têm sido invertidos nos noticiários como uma "ameaça russa". Isto é uma propaganda fossilizada. O general da Força Aérea americana que chefia as forças da OTAN na Europa – nada mais nada menos que o general Breedlove – afirmou há mais de duas semanas que tinha fotos que mostravam 40 mil tropas russas a "concentrarem-se" na fronteira com a Ucrânia. Colin Powell também afirmou ter fotos de armas de destruição em massa no Iraque. O que é certo é que o golpe temerário e predatório de Obama na Ucrânia desencadeou uma guerra civil e Vladimir Putin está sendo atraído para uma armadilha.

Na sequência dos conflitos de 13 anos que começaram no Afeganistão muito depois de Osama bin Laden ter fugido, de terem destruído o Iraque sob uma falsa bandeira, depois de inventarem um "inimigo nuclear" no Irã, de enviarem a Líbia para uma anarquia hobbesiana e de apoiaram os jihadistas na Síria, os EUA têm finalmente uma nova guerra fria para complementar a sua campanha mundial de morte e terrorismo com aviões telecomandados.

Um Plano de Ação para Adesão à OTAN (MAP) – diretamente da sala de guerra de Strangelove – é o presente do general Breedlove à nova ditadura na Ucrânia. "Rapid Trident" vai instalar tropas americanas na fronteira com a Rússia e "Sea Breeze" vai colocar navios de guerra americanos à vista de portos russos. Simultaneamente, os exercícios de guerra da OTAN por toda a Europa de Leste destinam-se a intimidar a Rússia. Imaginem qual seria a resposta se esta loucura se invertesse e acontecesse nas fronteiras da América. É ver o general 'Buck' Turgidson.

E ainda há a China. Em 24 de abril, o presidente Obama vai iniciar uma visita à Ásia para promover a sua "Campanha para a China". O objetivo é convencer os seus "aliados" na região, em especial o Japão, a rearmarem-se e prepararem-se para a eventual possibilidade de guerra com a China. Em 2020, quase dois terços de todas as forças navais no mundo estarão concentradas na área Ásia-Pacífico. É a maior concentração militar naquela grande região desde a II Guerra Mundial.

Em um arco que se estende desde a Austrália até o Japão, a China enfrentará os mísseis e os bombardeiros nucleares americanos. Está a ser construída uma base naval estratégica na ilha coreana de Jeju a menos de 640 km da metrópole chinesa de Xangai, centro industrial do único país cujo poder econômico vai provavelmente ultrapassar o dos EUA. A "campanha" de Obama destina-se a minar a influência da China naquela região. É como se uma guerra mundial tivesse começado por outros meios.

Isto não é uma fantasia Strangelove. O secretário da Defesa de Obama, Charles 'Chuck' Hagel, esteve em Beijing na semana passada para entregar um aviso ameaçador de que a China, tal como a Rússia, pode vir a conhecer o isolamento e a guerra se não se submeter às exigências dos EUA. Comparou a anexação da Crimeia à complexa disputa territorial da China com o Japão sobre as ilhas desabitadas no Mar da China Oriental. "Não podem ir pelo mundo afora", disse Hagel descaradamente, "e violar a soberania das nações pela força, coerção e intimidação". Quanto ao movimento maciço de forças navais e de armas nucleares da América para a Ásia, isso é "um sinal da ajuda humanitária que as forças armadas americanas podem proporcionar".

Obama está neste momento à procura de um orçamento para armas nucleares, maior do que no pico histórico durante a guerra-fria, a era de Strangelove. Os Estados Unidos estão avançando na sua antiga ambição de dominar o continente eurasiano, estendendo-se da China à Europa: um "destino manifesto" assegurado pelo poder. (Este artigo foi alterado em 22 de abril de 2014 para esclarecer uma referência a uma promessa dos EUA de que a OTAN não iria expandir para o Leste.)

EUA persegue "paz" sob condições de Israel

Ramzy Baroud

The Palestine Chronicle

Créditos: Yuri Gripas/Reuters.

[Tradução] Para entender como tem sido imprudente o mais recente “processo de paz” dos EUA, basta um olhar crítico para alguns dos personagens envolvidos nesse teatro político. Particularmente, um personagem tem destaque como uma prova de quanto é fútil o exercício desse processo. Trata-se de Martin Indyk.

Ex embaixador em Israel, Indyk foi escolhido pelo Secretário de Estado John Kerry para desempenhar as funções de enviado especial nas negociações entre a Autoridade Palestina e Israel. Normalmente, a escolha de Kerry pode parecer pouco inteligente. Muitas vezes, ex embaixadores tem o conhecimento necessário para desempenhar tarefas difíceis em países onde tenha servido anteriormente. Ocorre que as circunstâncias nesse caso não são o que se poderia chamar de normais e Indyk não possui as habilidades necessárias como diplomata, no sentido estrito do termo.

Conforme foi se deteriorando o processo de paz mediado pelos Estados Unidos, Kerry tomou uma de suas peculiares atitudes, nomeando e despachando Indyk para Jerusalém. Indyk assumiu a tarefa de falar com ambos os lados separadamente na data de 18 de abril, de 2014. A mídia internacional entendeu e descreveu o acontecimento como um esforço derradeiro para a retomada das negociações e para ajudar a preencher as divergências entre os mandatários da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas e de Israel, Benjamim Netannyahu.

A visita do enviado de Kerry aconteceu um dia depois que foram relatadas conversas intensas e difíceis entre negociadores palestinos e israelenses. No entanto, “nenhum avanço foi feito”, disse uma fonte palestina oficial à AFP depois da reunião de 18 de abril de 2014.

Não que fosse esperado qualquer progresso. A resolução do conflito em si mesmo não era o tema discutido por ambas as partes e sim um adiamento do prazo que permitisse que Kerry costurasse um “acordo geral”, previsto para 29 de abril de 2014.

Para os Estados Unidos é interessante manter essa farsa, por diferentes razões que não a paz. Ocorre que sem um “processo de paz” os Estados Unidos não terão uma plataforma política importante no Oriente Médio. “Mediador honesto” é um título auto concedido pelas administrações dos EUA.

Evidentemente, não é preciso ser um gênio para perceber que “honestos” os Estados Unidos não são nas suas relações com estas duas partes. De fato, em vez de um terceiro imparcial, os Estados Unidos sempre estiveram e estão em campo firmemente ao lado dos israelenses. A sua influência financeira e política foi usada como uma plataforma que permitiu patrocinar avanços, em primeiro lugar, de Israel, depois seus próprios interesses. Um exemplo? Indyk.

O potencial agente do prenúncio de paz, Martin Indyk, em 1982 trabalhou para o grupo de lobby pró Israel AIPAC. O AIPAC é uma força de direita que tem investido energia e recursos ilimitados com a intenção de impedir todo e qualquer avanço ou resolução justa e pacífica para o conflito Palestina/Israel. Tal é a sua influência e força, como por exemplo sobre o Congresso, que se diz que o Capitólio acabou por se tornar um território ocupado por Israel e seus aliados.

No entanto, a contribuição mais valiosa de Indyk para Israel foi a fundação do Instituto Washington para a política do Oriente Próximo (WINEP). Em 1985, um outro lobby israelense fez um estrago sem tamanho para a credibilidade externa dos EUA no Oriente Médio através de intelectuais e “especialistas” deste lobby.

Escrevendo em Mondoweiss no último ano, Mac Blumenthal lembrou de declarações interessantes feitas por Indyk na primeira convenção da “J Street” em Washington DC em 2009. A “J Street” é um outro grupo de lobby pró Israel que maliciosamente procura se distinguir como pró paz, levando muitas pessoas a concluir, enganosamente, que a influência da AIPAC em Washington estaria em declínio e sendo desafiada por um lobby rival. No entanto, com políticas habilmente formuladas e dado o passado colorido de seus convidados de honra para palestras indicam justamente o contrário. Indyk, como hábil lobista de direita, estava realmente entre seus melhores amigos.

“Posso me lembrar de encontrar um auditório lotado para ouvir de Indyk como ele fez “Aliyah para Washington” durante a década de 1980, garantindo assim que a política dos Estados Unidos se mantivesse inclinada a favor de Israel, culpando Yasser Arafat pelo fracasso de Camp David,” lembrou Blumenthal.

Ele continuou citando Indyk: “Eu cheguei a essa conclusão há 35 anos. Na época era estudante em Jerusalém, quando a guerra do Yom Kippur estourou”, disse Indyk.

“Naqueles dias terríveis, eu era voluntário, pois a sobrevivência de Israel parecia estar em perigo e eu testemunhei a miséria da guerra, assim como o papel crítico que os Estados Unidos desempenharam, através do ativismo diplomático de Henry Kissinger, para forjar a paz em meio a essa guerra terrível.”

Estes não eram apenas comentários de Indyk, mas a reflexão do compromisso eterno do homem, não para promover a paz, mas com Israel, ou, mais precisamente, a paz que convenha e seja prevista por Israel, o que acaba por se constituir no núcleo da crise atualmente em curso.

O primeiro Ministro Israelense, Netanyahu nunca deixa de falar sobre a paz, assim como seu Ministro das Relações Exteriores Avigdor Lieberman. Mesmo o Ministro da Economia, Naftali Bennet, líder do partido extremista “A Casa Judaica”, largamente conhecido por sua retórica extremamente belicosa, é um ardente defensor da Paz.

Ocorre que a paz que desejam não é a paz baseada na justiça, ou a paz prevista pelas leis humanitárias internacionais. Trata-se de uma paz especificamente adaptada para permitir a Israel manter sua agenda explicitamente racista, e uma política colonizadora de invasão e grilagem de terras.

Sem surpresa. Esse é exatamente o mesmo tipo de “paz” que imaginam os Estados Unidos. A nova “paz” da agenda de Kerry não é inteiramente uma repetição de antigos programas. É isso também, mas engloba quase que de maneira completa as rebuscadas idéias de Lieberman e de grupos de direita, ou seja, anexações – Vale do Jordão – troca de terras dadas em vista de blocos principais de assentamentos. Lieberman soava como um político demente quando aventou essas idéias alguns anos atrás. Graças a Kerry, atualmente é exatamente esse o pensamento dominante.

Então, esse mesmo Indyk, com uma vida dedicada a promover a “paz” no estilo israelense, não mais que de repente marcado como um “negociador honesto” que tentará reviver as negociações, exercendo “pressão” sobre “ambos os lados” como qualquer intermediador hábil faria nessa situação.

Mas Indyk não é o único advogado do diabo que se tornou, de repente, “lobista da paz”. Ele é apenas um entre muitos. Um dos falcões políticos dos EUA, Dennis Ross, considerado essencial em Washington durante muito tempo e dedicado defensor da desastrosa Guerra do Iraque, serviu como coordenador especial de Bill Clinton para o Oriente Médio. Pois foi escolhido a dedo pelo atual presidente, Barak Obama, logo no início de seu mandato, para continuar a exercer o mesmo papel na nova administração. Se não bastasse a forte ligação do “diplomata” com neoconservadores, em especial os envolvidos no já extinto grupo pró guerra conhecido como Projeto para o Novo Século Americano, ele também atuou ativamente como consultor do WINEP, o mesmo lobby fundado por Indyk e já mencionado.

Claro que isso não foi coincidência. O WINEP, como outros grupos extremamente agressivos pró Israel serviu para formar uma plataforma de defesa para Israel e para os assim chamados “promotores da paz” israelenses. Dennis e Indyk, curiosamente, culparam os palestinos pelo fracasso das negociações anteriores, em uníssono. Maliciosamente, Blumenthal destacou o discurso de Indyk na “J Street”, destacando a culpa do falecido Yasser Arafat, com “aquele seu grande sorriso de merda” pelo fracasso dos parâmetros de paz de Clinton, apesar do fato de que na realidade, Arafat tinha aceitado todos os termos do tratado.

Vamos a um pouco das reminiscências de Indyk: “eu me lembro de Shimon Peres dizendo para mim no momento em que Arafat tinha que decidir se aceitaria ou não os parâmetros de Clinton, que, dizia ele, a história é um cavalo que passa a galope por sua janela e o ato de um verdadeiro estadista é aproveitar o momento e saltar sobre o cavalo a galope. Claro que Arafat deixou o cavalo passar a galope, deixando palestinos e israelenses atolados na miséria de sua própria história."

Pois agora é esse Indyk, o valente lobista israelense que está sendo enviado, junto com outro cavalo a galope, para a janela de Abbas. Todos nós sabemos muito bem como isso acaba. Posso imaginar Indyk dando outra palestra em conferências da AIPAC ou J Street ridicularizando Abbas por não saltar no cavalo.

Ramzy Baroud é um colunista internacional sindicalizado, consultor de mídia e editor do The Palestine Chronicle.

Obama: "Refazer o Oriente Médio": O Gulag americano

James Petras

The Official James Petras Website

Introdução

Tradução / Durante o início do seu primeiro mandato, o presidente Obama prometeu “refazer o Oriente Médio numa região de prosperidade e liberdade”. Seis anos depois, a realidade é totalmente contrária: o Oriente Médio é governado por regimes despóticos cujas prisões transbordam de presos políticos. A grande maioria dos ativistas pró-democracia que foram presos foram submetidos a duras torturas e cumprem longas penas de prisão. Os governantes não têm legitimidade, uma vez que tomaram o poder e o mantiveram através de um estado policial centralizado e da repressão militar. Decisivas para a construção da série de prisões desde o norte de África até aos estados do Golfo são a intervenção direta de militares americanos e da CIA, os fornecimentos maciços de armas, as bases militares, as missões de treinamento e as Forças Especiais.

Prosseguiremos documentando a escala e o alcance da repressão política em cada estado policial apoiado pelos EUA. Descrevemos depois a escala e alcance da ajuda militar americana de apoio a esse “refazer do Oriente Médio” numa série de prisões políticas conduzidas pelo e para o império dos EUA.

Os países e regimes incluem o Egito, Israel, Arábia Saudita, Bahrein, Iraque, Iêmen, Jordânia e Turquia, todos eles promotores e defensores dos interesses imperiais dos EUA contra a maioria pró-democracia representada pelos seus movimentos sociopolíticos independentes.

Egito: Estado vassalo estratégico

Desde há muito estado vassalo e o maior país árabe do Oriente Médio, a atual ditadura militar do Egito que resultou de um golpe em julho de 2013 lançou uma onda de repressão selvagem a seguir à tomada do poder. De acordo com o Centro Egípcio dos Direitos Sociais e Econômicos, foram presos entre julho e dezembro de 2013 21.317 manifestantes pró-democracia. Em abril de 2014, foram encarcerados mais de 16.000 presos políticos. Os julgamentos sumários por tribunais ad-hoc resultaram em penas de morte para centenas e longas penas de prisão para a maior parte. O regime de Obama recusou chamar golpe à derrubada militar do governo Morsi democraticamente eleito, para poder continuar a fornecer ajuda militar à junta. Em troca, a ditadura militar continua a apoiar o bloqueio israelense a Gaza e a apoiar as operações militares dos EUA no Oriente Médio.

Israel: o maior carcereiro da região

Israel, cujos apoiadores nos EUA designam a “única democracia no Oriente Médio”, é de fato o maior carcereiro na região.

De acordo com o grupo israelense de direitos humanos B’Tselm, entre 1967 e dezembro de 2012, foram feitos prisioneiros 800.000 palestinos, 20% da população. Mais de 100.000 foram mantidos em “detenção administrativa” sem acusação ou julgamento. Quase todos foram torturados e brutalizados. Israel tem atualmente 4.881 prisioneiros políticos nas cadeias. O que faz do estado judeu escolhido por Deus o primeiro carcereiro, contudo, é a manutenção de 1,82 milhões de palestinianos que vivem em Gaza numa prisão virtual a céu aberto. Israel condiciona viagens, comércio, construção, produção e culturas através de bloqueios e policiamentos aéreo, marítimo e terrestre. Além disso, 2,7 milhões de palestinos dos Territórios Ocupados (Margem Ocidental) estão cercados por muros como os das prisões, sujeitos a incursões militares diárias, detenções arbitrárias e assaltos violentos pelas forças armadas israelenses e pelos colonos israelenses vigilantes empenhados no perpétuo despojar dos habitantes palestinos.

Arábia Saudita: monarquia absolutista

De acordo com o “refazer do Oriente Médio” do presidente Obama, a Arábia Saudita figura como o “aliado mais fiel no mundo árabe”. Como estado vassalo leal, as suas prisões transbordam de dissidentes pró-democracia encarcerados por procurarem eleições livres, liberdades civis e o fim de políticas misóginas. De acordo com a Comissão de Direitos Humanos Islâmicos, os sauditas detêm 30.000 presos políticos, a maior parte arbitrariamente detidos sem acusação ou julgamento.

A ditadura saudita desempenha um papel principal no financiamento dos regimes de estados policiais na região. Despejaram 15 bilhões de dólares nos cofres da junta do Egito a seguir ao golpe militar, como recompensa pela purga sangrenta em massa dos eleitos e seus apoiadores pró-democracia. A Arábia Saudita desempenha um importante papel no apoio ao domínio de Washington, financiando e armando “regimes carcerários” no Paquistão, Iêmen, Bahrein, Jordânia e Egito.

Bahrein: pequeno país – muitas prisões

De acordo com o respeitado Centro de Direitos Humanos local, o Bahrein possui a duvidosa distinção de ser o primeiro país globalmente em número de presos políticos per capita. Segundo o The Economist (4 de fevereiro de 2014), o Bahrein tem 4.000 presos políticos para uma população de 750.000. De acordo com o Pentágono, a ditadura absolutista do Bahrein desempenha um papel vital no proporcionar aos EUA bases aéreas e marítimas para o ataque ao Iraque, ao Irã e ao Afeganistão. A maioria dos dissidentes pró-democracia estão presos por procurarem acabar com a vassalagem, a autocracia e o servilismo perante os interesses imperiais dos EUA e da ditadura saudita.

Iraque: Abu Ghraib com caracteres árabes

Tendo começado na invasão e ocupação americanas do Iraque em 2003 e prosseguido com o seu vassalo primeiro-ministro Nouri Al-Maliki, dezenas de milhares de cidadãos iraquianos foram torturados, encarcerados e assassinados. A junta iraquiana no poder continuou a apoiar-se nas tropas e forças especiais dos EUA e a envolver-se no mesmo tipo de “varreduras” militares e policiais que aniquilam qualquer pretensão democrática. Al-Maliki apoia-se em ramos especiais da sua polícia secreta, a notória Brigada 56, para assaltar comunidades da oposição e baluartes dissidentes. Quer o regime xiita, quer a oposição sunita se envolvem em contínuas lutas terroristas. Ambos serviram de colaboradores próximos de Washington em momentos diferentes.

A lista diária de mortos é da ordem das centenas. O regime de Al- Maliki assenhoreou-se dos centros de tortura (incluindo Abu Ghraib) e das técnicas e prisões antes chefiadas e conduzidas pelos EUA e retiveram os conselheiros americanos das “Forças Especiais” para a supervisão das batidas policiais aos críticos dos direitos humanos, sindicalistas e dissidentes democratas.

Iêmen: satélite do grupo EUA-Arábia Saudita

O Iêmen foi governado durante décadas por ditadores clientes dos EUA e Arábia Saudita. O governo autocrático de Ali Abdullah Saleh foi acompanhado com a prisão e tortura de milhares de ativistas pró-democracia, tanto seculares como religiosos, do mesmo modo que serviu de centro clandestino de tortura para dissidentes políticos raptados e transportados pela CIA no seu chamado programa de “rendição”. Em 2011, apesar da prolongada e violenta repressão pelo regime de Saleh apoiado pelos EUA, explodiu uma rebelião de massas ameaçando a existência do Estado e as ligações aos regimes americano e saudita. Para preservarem o seu domínio e as ligações aos militares, Washington e a Arábia Saudita orquestraram um “rearranjo” do regime: fizeram-se eleições manipuladas e tomou o poder um tal Abdo Rabbo Mansour Hadi, leal amigo de Saleh e criado de Washington. Hadi continuou onde Saleh tinha ficado: raptos, tortura e assassínio de manifestantess pró-democracia. Washington optou por chamar ao regime de Hadi “uma transição para a democracia”. De acordo com o Yemen Times (4 de maio de 2014), mais de 3.000 presos políticos enchem as prisões do Iêmen. “Democracia de cárcere” serve para consolidar a presença militar americana na península da Arábia.

Jordânia: um Estado policial cliente de longa duração

Durante mais de meio século, três gerações de monarcas absolutistas no trono da Jordânia estiveram na lista de pagamentos da CIA e serviram os interesses dos EUA no Oriente Médio. Os governantes vassalos da Jordânia brutalizam os nacionalistas árabes e os movimentos de resistência palestinos e assinaram um chamado “acordo de paz” com Israel para reprimirem qualquer apoio através da fronteira da Palestina e proporcionam bases militares de apoio ao treinamento, armamento e financiamento dos mercenários que invadem a Síria pelos EUA, Arábia Saudita e UE.

A corrupta monarquia e a sua íntima oligarquia controlam uma economia perpetuamente dependente de subsídios estrangeiros para se manter à tona: desemprego acima dos 25% e metade da população subsistindo na pobreza. O regime encarcerou milhares de opositores pacíficos. De acordo com um recente relatório da Amnistia Internacional (Jordan 2013), a ditadura do rei Abdullah “prendeu milhares sem acusação”. A monarquia de cárcere desempenha um papel central fortalecendo a construção do império americano no Oriente Médio e facilitando a apropriação de terra por Israel na Palestina.

Turquia: bastião da OTAN e democracia de cárcere

No reinado do auto-intitulado “Partido Justiça e Desenvolvimento” liderado por Tayyip Erdoğan, a Turquia transformou-se numa importante base operacional militar para a invasão da Síria apoiada pela OTAN. Erdoğan tem tido as suas diferenças com os EUA, especialmente o esfriar de relações da Turquia com Israel sobre a apreensão pela última de um navio turco em águas internacionais e o assassinato de nove ativistas humanitários turcos desarmados. Mas, à medida que a Turquia se tornou mais dependente dos fluxos internacionais de capital e da integração em guerras internacionais da OTAN, Erdoğan tornou-se mais autoritário. Enfrentando desafios populares em larga escala à sua privatização arbitrária de espaços públicos e a despejos em bairros da classe trabalhadora, Erdoğan lançou uma purga da sociedade civil, dos movimentos de classe e das instituições do Estado. Em face das manifestações pró-democracia de grande dimensão no verão de 2013, Erdoğan desencadeou um assalto selvagem aos dissidentes. De acordo com os grupos de direitos humanos, mais de 5.000 pessoas foram presas e 8.000 feridos durante os protestos no Parque Gezi. Antes, Erdoğan estabeleceu “Tribunais Autorizados Especiais” que organizaram julgamentos políticos de fachada baseados em provas falsificadas que facilitavam a detenção e prisão de centenas de oficiais militares, ativistas partidários, sindicalistas, advogados de direitos humanos e jornalistas, em particular os críticos do seu apoio à guerra contra a Síria. Apesar da retórica conciliatória, as prisões de Erdogan encerram vários milhares de dissidentes curdos, incluindo ativistas eleitorais e juristas (Global Views, 17 de outubro de 2012).

Enquanto Erdoğan serviu como âncora islâmico leal e capaz contra os movimentos populares democráticos e nacionalistas no Oriente Médio, a sua procura de maior influência turca na região levou os EUA a aprofundar os laços políticos com o movimento Gulenista mais submisso, pró-Washington e pró-Israel, infiltrado no aparelho de Estado, no comércio e no ensino. Este movimento adotou uma estratégia permeacionista: sanear os adversários na sua marcha tranquila para o poder por dentro do Estado. Os EUA apoiam-se ainda na “democracia do cárcere” de Erdoğan para reprimir movimentos anti-imperialistas na Turquia, para servir de âncora militar para a guerra contra a Síria, para apoiar sanções contra o Irã e para apoiar o regime pró-OTAN de Maliki no Iraque.

O gulag do Oriente Médio e a ajuda militar americana

Os regimes de Estado policial e a cultura política autoritária de longo prazo no mundo árabe são um produto do apoio militar de longo prazo dos EUA aos governos despóticos. A ausência de democracia é uma condição necessária para a expansão e o avanço da presença militar imperial dos EUA na região.

Um pequeno exército de acadêmicos, especialistas, jornalistas e anti-islâmicos da mídia americana ignoram totalmente o papel dos EUA na promoção, apoio e reforço de ditadores reinantes e na repressão de movimentos de massas profundamente democráticos que têm surgido ao longo de um grande período de tempo. Tendo como liderança acadêmicos desde sempre pró-Israel de universidades da Ivy League no Oriente Médio, estes propagandistas clamam que as ditaduras árabes são um produto da “cultura islâmica” ou da “personalidade autoritária dos árabes” em busca de um “homem forte” que os guie e governe. Ignorando ou distorcendo a história das lutas da classe trabalhadora e os protestos e posições pró-democracia em todos os principais países árabes, estes intelectuais justificam as ligações americanas às ditaduras como “política realista” dadas as “opções disponíveis”. Onde quer que a real democracia comece a emergir e onde os direitos políticos comecem a ser exercidos, Washington promove golpes e intervém para apoiar o aparelho repressivo estatal (Bahrain 2011-2014, Iémen 2011 a 2014, Egito 2013, Jordânia 2012, entre muitos outros casos). Enquanto a maioria dos especialistas sobre o Oriente Médio responsabilizam os cidadãos árabes pelos regimes autoritários, ignoram completamente e encobrem a maioria racista de Israel que apoia solidamente o encarceramento e tortura de centenas de milhares de palestinos pró-democracia.

Compreender o gulag do Médio Oriente requer uma discussão da “política de ajuda” que é central para a sustentação dos “regimes carcerários”.

A ajuda dos EUA ao Egito: bilhões para ditadores

O Estado policial egípcio é uma âncora do “arco imperial” dos EUA desde o norte de África até ao Oriente  Médio. O Egito esteve ativamente empenhado na desestabilização da Líbia, do Sudão, do Líbano, da Síria e colaborou com o desalojamento dos palestinos por Israel. A ditadura de Mubarak recebeu de Washington 2 bilhões de dólares por ano – cerca de 65 bilhões para os seus serviços imperiais. A ajuda dos EUA reforçou a sua capacidade para encarcerar e torturar ativistas pró-democracia e sindicalistas. Washington prosseguiu o apoio militar ao regime ditatorial depois do golpe militar contra o primeiro governo democraticamente eleito do Egito na ordem de 1,55 bilhões de dólares para 2014. Apesar dos “sinais de preocupação” pelo assassinato de milhares de manifestantes pró-democracia pelo novo homem forte militar, general Abdul Fattah al-Sisi, não houve qualquer corte no financiamento para o chamado “contra-terrorismo” e “segurança”. Para continuar a financiar a ditadura sob legislação do Congresso dos EUA, Washington recusou caracterizar a tomada violenta do poder como golpe, referindo-se a ela como uma “transição para a democracia”. O papel chave do Egito na política externa dos EUA é a proteção do flanco ocidental de Israel. A ajuda dos EUA ao Egito é produto da pressão e influência da configuração de poder sionista no Congresso e na Casa Branca. A ajuda dos EUA está dependente do “policiamento” da fronteira de Gaza pelo Egito, garantindo que o bloqueio por Israel é efetivo. A Casa Branca apoia a repressão pelo Cairo da maioria nacionalista e anticolonial dos egípcios contrária ao desalojamento dos palestinos. Uma vez que são os interesses israelenses a definir a política externa dos EUA no Oriente Médio, o financiamento por Washington da ditadura carcereira do Egito está de acordo com a estratégia sionista de Washington.

Israel: o eixo americano no Oriente Médio

A maior parte dos especialistas independentes e conhecedores concordam que a política dos EUA no Oriente Médio é largamente ditada por uma multidão de fiéis sionistas que ocupam posições-chave de tomada de decisão no Tesouro, no Departamento de Estado, no Pentágono e no Comércio, assim como pelo domínio do Congresso pelos presidentes das 52 maiores organizações americano-judaicas e respectivos 171.000 ativistas pagos a tempo integral. Enquanto existe alguma verdade no que alguns críticos citam como divergência entre o “real interesse nacional” dos EUA e as ambições coloniais de Israel, o fato é que os dirigentes dos EUA em Washington entendem haver convergência entre o domínio imperial e o militarismo israelense. Na verdade, um Egito submisso serve os interesses imperiais mais vastos dos EUA e os interesses coloniais de Israel. A guerra de Israel no Líbano contra o movimento anti-imperialista Hezbollah serviu tanto aos esforços dos EUA para instalarem um cliente dócil, como aos esforços de Israel para destruírem um partidário da autodeterminação palestina. A divergência de Washington com Israel sobre o despojamento de todos os palestinianos por Israel vai contra o interesse de Washington num mini-estado palestiniano governado por funcionários árabes neocoloniais. Como resultado da influência sionista, Israel é o maior beneficiário per capita de ajuda americana no mundo, apesar de possuir um nível de vida mais elevado do que 60% dos cidadãos americanos. Entre 1985-2014, Israel recebeu mais de 100 bilhões de dólares, dos quais 70% para fins militares, incluindo a mais avançada tecnologia sobre armamentos. Israel, que é o país com o recorde mundial de presos políticos e ataques militares contra países vizinhos nos últimos quarenta anos, tem também o recorde de ajuda militar americana. Israel, como primeira “democracia carcerária” é um elo chave no Gulag que se estende do norte de África até aos estados do Golfo.

Arábia Saudita

A Arábia Saudita compete com Israel como centro de encarceramento de dissidentes pró-democracia. Os sauditas reciclam centenas de bilhões de petro-rendas através da Wall Street, enriquecendo déspotas sauditas locais e banqueiros de investimento pró-israelenses no exterior. A convergência sauditas-EUA-Israel é mais do que circunstancial. Partilham interesses militares na guerra contra os movimentos árabes pró-independência e pró-democracia através do Oriente Médio. A Arábia Saudita alberga a maior base militar dos EUA e as maiores operações de espionagem no Golfo. Apoiou a invasão do Iraque. Financia milhares de mercenários islâmicos na guerra por procuração dos EUA-OTAN contra a Síria. Invadiu o Bahrein para esmagar o movimento pró-democracia. Intervém com Washington em apoio ao estado policial do Iêmen. É o maior e mais lucrativo mercado para o complexo militar-industrial dos EUA. As vendas militares dos EUA entre 1951-2006 totalizaram 80 Bilhões de dólares. Em outubro de 2010, assinou a compra de 60,5 bilhões de armas e serviços aos EUA.

Bahrein: um porta-aviões dos EUA com nome de país

O Bahrein serve de base naval da 5ª Frota dos EUA e é uma base operacional para atacar o Irã. Tem estado ao serviço da ocupação do Afeganistão e do controle americano das rotas de transporte marítimo do petróleo. A ditadura de Al-Khalifa está extremamente isolada, é altamente impopular e enfrenta constante pressão da maioria pró-democracia. Para amparar os governantes seus vassalos, Washington aumentou as vendas militares ao pequeno estado de 400 milhões entre 1993-2000 para 1400 milhões de dólares na década seguinte. Washington aumentou as vendas e o programa de treinamento militar na proporção direta do aumento do descontentamento democrático, resultando no aumento geométrico do número de presos políticos.

Iraque: guerra, ocupação e os campos da morte de uma democracia carcerária

A invasão americana e ocupação do Iraque levaram ao massacre de cerca de 1,5 milhões de iraquianos (a maior parte civis, não combatentes) com um custo de 1,5 bilhões de dólares e 4.801 mortos militares americanos. Em 2006, as “eleições” preparadas pelos EUA levaram à instalação do regime de Maliki, suportado pelas armas, por mercenários, por conselheiros e pelas bases americanas. De acordo com um estudo recente para o Gabinete de Investigação do Congresso (fevereiro de 2014) por Kenneth Kilzman, há 16.000 militares e “empreiteiros” americanos atualmente no Iraque. Mais de 3500 empreiteiros militares americanos no Gabinete de Cooperação de Segurança dão apoio ao estado policial corrupto de Maliki. A democracia carcerária foi abastecida com mísseis e drones americanos e mais de 10 bilhões de dólares de assistência militar, o que inclui 2,5 bilhões de ajuda e 7,9 bilhões de vendas entre 2005-2013. Para 2014-2015, Malaki pediu 15 bilhões de dólares em armas, incluindo 36 aviões de combate americanos F-16 e grande número de helicópteros de ataque Apache. Em 2013, o regime de Malaki registou 8.000 mortes políticas resultantes da guerra interna.

O Iraque é um centro crucial para o controle americano do petróleo e do Golfo e como plataforma de lançamento para atacar o Irã. Enquanto Maliki faz “gestos” para o Irã, o seu papel como ligação avançada no gulag imperial dos EUA define a sua “função” real na região do Golfo.

Iémen: o posto avançado militar do deserto para o gulag americano

O Iêmen é um dispendioso posto avançado militar para o despotismo saudita e para o poder americano na península arábica. Segundo o estudo “Iêmen: Bases e Relações com os EUA” de Jeremy Sharp para o Serviço de Investigação do Congresso (2014), os EUA forneceram 1,3 bilhões de dólares de ajuda militar ao Iêmen entre 2009-2014. A Arábia Saudita doou 3,2 bilhões de dólares em 2012 para apoiar a ditadura de Saleh perante um levantamento anti-ditatorial popular de massas. Washington preparou uma transferência de poder de Saleh para o “Presidente” Hadi e assegurou a sua continuidade duplicando a ajuda militar para manter as prisões cheias e a resistência em cheque. De acordo com o New York Times (31 de junho de 2013), Hadi era um “continuador do ditador Saleh”. A continuidade da democracia carcerária no Iêmen é uma ligação crucial entre o eixo Egito-Israel-Jordânia e o gulag imperial Bahrain-Arábia Saudita.

Jordânia: eterno vassalo e monarquia mendicante

A monarquia despótica da Jordânia tem estado na lista de pagamentos dos EUA há mais de meio século. Serviu recentemente como centro de tortura de vítimas raptadas e capturadas pelas Forças Especiais dos EUA envolvidas no programa “rendição”. A Jordânia colaborou com Israel no assalto e prisão de palestinos envolvidos na luta pela liberdade. Atualmente, a Jordânia com a Turquia servem para treinamento e depósito de armas para os terroristas mercenários que invadem a Síria apoiados pela OTAN. Graças à sua colaboração com Israel, Washington e a OTAN, a corrupta monarquia carcerária recebe ajuda militar e econômica de larga escala e a longo termo. A monarquia e a sua extensa rede de patifes, carcereiros e família, rapam dezenas de milhões de dólares de ajuda externa, lavados em contas estrangeiras em Londres, na Suíça, no Dubai e em Nova Iorque. Segundo o relatório do Serviço de Investigação do Congresso (27 de janeiro de 2014), a ajuda americana à ditadura real jordana atinge 660 milhões de dólares por ano. Uma ajuda militar adicional de 150 milhões foi canalizada para o regime com o desencadear da intervenção da OTAN na Síria. O fundo foi destinado a aumentar a infra-estrutura ao redor da fronteira Jordânia-Síria. Além disso, a Jordânia serve como o principal condutor de armas para os terroristas que atacam a Síria: 340 milhões de dólares para “contingências no exterior” são provavelmente conduzidos através de Amman para armar os terroristas que invadem a Síria. Em Outubro de 2012, a Jordânia assinou acordos com os EUA permitindo que um grande contingente de Forças Especiais estabelecesse campos de aviação e bases para fornecimento e armamento dos terroristas.

Turquia: Estado vassalo leal com ambições regionais

Como baluarte militar da OTAN a sul, na fronteira da Rússia, a Turquia tem estado na lista de pagamentos dos EUA há mais de 66 anos. De acordo com o estudo recente de James Zanotti “Cooperação Turquia-EUA na Defesa: Perspectivas e Desafios” (Serviço de Investigação do Congresso, 8 de abril  de 2011), em troca do apoio ao poder militar da “democracia carcerária” da Turquia, os EUA asseguraram uma presença militar importante, incluindo uma grande base aérea em Incirlik, um grande centro operacional abrigando 1800 militares americanos. A Turquia colaborou com a invasão e ocupação americanas do Afeganistão e apoiou o bombardeamento da Líbia pela OTAN. Hoje, a Turquia é o centro militar operacional mais importante para os terroristas jihadistas que invadem a Síria. Apesar das periódicas e demagógicas pretensões nacionalistas do presidente Erdoğan, os construtores do império dos EUA continuam a ter acesso às bases turcas e a corredores de transporte para as suas guerras, ocupações e intervenções no Oriente Médio e na Ásia central e do sul. Em troca, os EUA instalaram sistemas de mísseis defensivos e aumentaram largamente as vendas de armas pela chamada “assistência de segurança”. Entre 2006-2009, as vendas militares dos EUA ultrapassaram 22 bilhões de dólares. Em 2013-2014, as tensões entre a Turquia e os EUA aumentaram quando Erdoğan começou a sanear o Estado de gulenistas, uma quinta-coluna apoiada pelos EUA que infiltrava o estado turco e usava as suas posições para apoiar uma colaboração mais próxima com os interesses militares de Israel e dos EUA.

Conclusão

A expansão do império americano através do norte de África e Oriente Médio foi montada com o armamento e financiamento de estados-vassalos para servirem de postos avançados do império. Estes regimes vassalos, governados por monarquias ditatoriais e governantes autoritários civis e militares, apoiam-se na força e na violência para sustentar o seu domínio. Os EUA forneceram armas, conselheiros e financiamento que lhes permitam dominar. O arco de bases militares imperiais americanas que se estende do Egito, através de Israel, da Turquia, da Jordânia, do Iêmen, do Iraque, do Bahrain e da Arábia Saudita, está protegido por uma série de campos de prisioneiros contendo dezenas de milhares de presos políticos.

O envolvimento americano e a sua  presença generalizada na região são acompanhados por uma série de democracias carcerárias e ditaduras. Ao contrário dos especialistas políticos liberais e conservadores e dos acadêmicos, a política americana durante mais de 50 anos procurou ativamente, instalou e protegeu tiranos sanguinários que pilharam o erário público, concentraram riqueza, entregaram a soberania e subdesenvolveram as suas economias.

Os acadêmicos pró-Israel em prestigiadas universidades americanas têm sistematicamente distorcido as bases estruturais da violência, do autoritarismo e da corrupção no mundo islâmico, responsabilizando as vítimas, os povos turco e árabe, e ignorando o papel dos construtores do império americano no financiamento e no armamento de governos autoritários civis e militares e de monarquias absolutistas e respectivos militares, funcionários judiciais e policiais corruptos.

Ao contrário dos enganadores volumes publicados pelas prestigiosas imprensas universitárias e escritos por altamente respeitados propagandistas políticos pró-Israel, o refazer do Médio Oriente depende da força das correntes democráticas na sociedade islâmica. Elas encontram-se nos movimentos estudantis, entre os sindicalistas e os desempregados, nos intelectuais nacionalistas e nas forças seculares e islâmicas que se opõem ao Império dos EUA por razões muito práticas e óbvias. Junto com Israel, os EUA são os principais organizadores da vasta cadeia de campos prisionais políticos que destroem as mais criativas e dinâmicas forças na região. Mais vassalagem árabe provoca a explosão periódica da vibrante cultura e movimento democráticos, embora infelizmente também resulte em maior ajuda militar e presença dos EUA. O verdadeiro choque de civilizações é entre as aspirações democráticas das classes populares orientais e o profundamente imbuído autoritarismo do imperialismo euro-americano.