30 de setembro de 2014

OTAN por trás do plano Erdogan

Manlio Dinucci

Il Manifesto

Criou-se uma situação "subterrânea" nos últimos dois anos, aproveitando o "caos da guerra civil na Síria": eis a forma como o presidente Obama reconstruiu numa entrevista ao "60 Minutos" a gênese do Emirado Islâmico, dizendo tê-lo "subestimado" e ter "sobrestimado" a capacidade do exército iraquiano de o combater. Razão pela qual os Estados Unidos "reconhecem que a solução está em vias de se tornar militar". Obama matou, assim, dois coelhos de uma só cajadada: por um lado, assume a falha de ter subestimado o EI, mas não a real, a de ter facilitado o seu desenvolvimento ao armar e infiltrar grupos islâmicos na Síria e no Iraque, por outro lado ele apresenta a imagem de uma administração de mãos limpas obrigado, agora, a usar a força militar para proteger do E.I. os civis sírios, curdos e iraquianos.

Os ataques dos EUA concentram-se em sítios com petróleo na Síria, sob o pretexto de que eles estão a ser explorados pelo EI: o golpe do plano é, certamente, para demolir toda a rede de indústrias e infra-estruturas sírias, restantes, afim de derrubar o governo de Damasco. Estes locais estão a ser atacados não apenas a partir do ar, mas também a partir do mar: dois navios de guerra dos Estados Unidos, o USS Arleigh Burke e o USS Philippine Sea, estão lançando, a partir do Mar Vermelho e do Golfo Pérsico, centenas de mísseis Cruzeiro sobre locais na Síria. Enquanto, ao mesmo tempo, que são armados e treinados "grupos rebeldes sírios moderados", prepara-se a operação terrestre sob a cobertura do dito "plano Erdoğan".

O plano, oficialmente proposto pelo presidente turco, prevê a criação de uma «zona tampão» em território sírio ao longo da fronteira com a Turquia, reforçada por uma «zona de exclusão aérea», estabelecida sobre o nordeste da Síria, formalmente para proteger os civis dos ataques de aviões governamentais sírios (que de fato, hoje em dia, já não podem sobrevoar a área, dominada pela Força Aérea dos Estados Unidos). O plano é, na verdade, o produto da estratégia dos EUA / OTAN: como o confirmaram o secretário da Defesa, Chuck Hagel e o general Martin Dempsey, a maior autoridade militar americana, que se declararam «disponíveis para apreciar o pedido do Presidente Erdoğan». A criação de uma zona tampão tornou-se «uma possibilidade», declarou o general Dempsey, acrescentando que tal requereria «ataques aéreos para inutilizar o sistema de defesa aérea do governo sírio». (The New York Times, 27 de setembro de 2014)

A Turquia está na vanguarda da operação militar contra a Síria: a OTANtem lá mais de vinte bases aéreas, navais e de espionagem eletrônica, reforçadas em 2013 por 6 baterias de mísseis Patriot americanas, alemãs e holandesas, podendo abater até qualquer aeronauta vogando no espaço aéreo sírio. A estas bases acrescentou-se um dos mais importantes comandos da Aliança: o Landcom, responsável por todas as forças terrestres dos 28 países membros, ativada em Izmir (Esmirna). O deslocamento do comando das forças terrestres aliadas da Europa para a Turquia - endossadas ao Oriente Médio (em particular à Síria, Iraque e Irã) e ao Cáspio - indica que, nos planos de EUA / OTAN prevê-se também o emprego de forças terrestres aliadas nesta área de importância estratégica fundamental. O Landcom, às ordens do general americano Ben Hodges, faz parte da JFC Naples, a Força Aliada conjunta cujo quartel-general está em Lago Patria, sob o comando do Almirante americano Mark E. Ferguson III: este é ao mesmo tempo comandante da Força Conjunta Aliada, das Forças navais americanas na Europa e das Forças Navais do AFRICOM. Um jogo estratégico de três cartas, que permite ao Pentágono manter sempre o comando.

Como, acerca disto, também mostram as investigações do New York Times e do The Guardian, nas províncias turcas de Adana e Hatay, fronteiriças à Síria, a CIA abriu centros de treinamento militar de combatentes para se infiltrarem na Síria, nos quais foram treinados grupos islâmicos (inicialmente qualificados por Washington como terroristas) provindo do Afeganistão, da Bósnia, da Chechênia, da Líbia e de outros países. As armas chegam sobretudo via Arábia Saudita e Catar. O comando das operações está a bordo de navios da OTAN, no porto de Alexandretta. É isto, pois, que está em vias de realizar o "plano Erdoğan".

29 de setembro de 2014

O poder político da expansão capitalista

Capitalismo de compadrio

Norman Pollack

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Vale tudo, para demonizar Putin, mesmo se, como hoje, a acusação é que ele viveria cercado de oligarcas – o que é muito mais a própria face dos Estados Unidos, se se olhasse no espelho. Não preciso nem quero discutir ou explicar os negócios da plutocracia local que modelaram a economia russa pós-soviética. Sinceramente, a visão distópica de Jeffrey Sachs, que manda rasgar o socialismo em farrapos, é pior que só ideia infeliz; a aceitação operacional que essa visão recebe na Rússia é trair um Mundo Socialista que, depois da morte de Stalin, poderia ter feito avançar a democratização de largas porções da economia política internacional e mordido porção considerável do poder e do desempenho econômico dos Estados Unidos. Em vez disso, parece estar acontecendo o exato inverso. Agora a Rússia, depois, sem demora a China, entram na alça de mira para serem politicamente enfraquecidas e na sequência politicamente desmembradas e/ou empurradas para o retrocesso econômico, porque a militarização pelos Estados Unidos do capital monopolista não tolerará oposição em sua estrutura recém definida de rivalidades intracapitalistas.

Putin e Li romperam a conexão histórica com Marx. Por isso eu, por exemplo, quero que se veja em Rússia e China versão abastardada do capitalismo de Estado, não alguma espécie de clara opção pelo socialismo democrático. Os bilionários, os palácios de veraneio na Côte d’Azur, os condomínios que são cidades completamente privatizadas na Belgravia, arrastam aqueles países para o nível mais americano de consumismo e desigualdade estrutural.

Mesmo assim, enfatizo aqui a Rússia, porque há uma diferença: Putin não saiu por aí armado para conquistar o mundo; uma Rússia estável numa ordem internacional igualmente estável parece bastar, e mantém dentro de limites estreitos quaisquer aspirações à hegemonia, se houver. Com Putin, nada há da retórica grandiloquente de Obama sobre salvar o mundo para a liberdade e a democracia; nada de orçamento militar que estrangula a sobrevivência do país e que, parece que por projeto, já destruiu a rede de proteção social; e nada, tampouco, com Putin, da expansão drástica da modernização nuclear, para tornar letal todo o estoque de armas e aperfeiçoar os meios para transporte e detonação das armas. Putin é líder mundial muito mais circunspecto que Obama e seus predecessores. O rótulo da KGB tem alto valor propagandístico na campanha de demonização de Putin, mas não há registro de que Putin algum dia tenha pessoalmente “ticado nome-sim nome-não”, numa lista de gente a ser assassinada por drones e ataques aéreos, como no mundo cercado por bases militares em que reina Obama. E a KGB seria, por acaso, talvez, mais repressiva e mais assassina que a CIA ou Forças Especiais dos Estados Unidos, promovendo mudança de regime? Ou mais invasiva, contra a privacidade dos cidadãos, que os programas de vigilância em massa da Agência de Segurança Nacional (NSA)?

Mas, sim, oligarcas são detestáveis, não importa a nacionalidade. E o New York Times publicou artigo assinado por Steven Lee Myers, Jo Becker e Jim Yardley, intitulado “Private Bank Fuels Fortunes of Putin’s Inner Circle” (28 de setembro de 2014), que lança luz sobre a ascensão de Putin ao poder e – embora os EUA insistam em ignorar o assunto e não se veja nenhuma referência ao tema na imprensa de “informação” − mesmo que seja item que muito contribuiria para demonizar Putin – lança luz também sobre os custos sociais destrutivos da PRIVATIZAÇÃO de recursos do Estado. Quando a Rússia põe-se sistematicamente a seguir os Estados Unidos, causa dano grave ao próprio potencial e realidade humanista. Paradoxalmente, a Velha Guerra Fria refletia diferenças ideológicas; mas a Nova Guerra Fria está parcialmente apagando aquelas diferenças, embora, sim, esteja subindo as apostas, porque dentro do capitalismo esconde-se hoje besta muito mais feroz do que a que se conhecia antes de 1917 e da Revolução Bolchevique: a da competição sem trégua pela supremacia planetária. De diferente hoje, também, que a Rússia não dá sinais de estar disposta, no governo de Putin, a entrar no jogo; como se invertesse, para parafrasear, o mote de Stálin: “capitalismo num só país”. Quanto a Obama, por que parar às portas da Rússia?

*

This is all about Bank Rossiya. Myers et. al. write, “In late March, the United States had made Bank Rossiya a primary target of sanctions, effectively ostracizing it from the global financial system. Now the Kremlin was pushing back, steering lucrative accounts its way to reduce the pain.” (I flinch when I see “Kremlin” referred to in The Times, a way of conjuring Uncle Joe back in command.) Would Putin have continued to show favoritism to the bank – for he did earlier to some extent – if the US hadn’t made it central to the sanctions, and stigmatized it specifically by making it personal? No-one should doubt his nationalism, in this case transcending issues of cronyism because Bank Rossiya, under attack, had in his mind become a stand-in for Russia itself. In effect, by way of comparison Obama é mais capitalista, que nacionalista: quando favorece JP Morgan, Chase, Boeing, etc., não mistura, embora possa deliberadamente jogar um/uma contra o/a outro/a, o banco, o banqueiro ou a empresa, e a nação. Porque a nação, para Obama, é secundária ante os interesses dos grupos que o apoiam (razão pela qual as comunidades militar e de inteligência são consideradas ferramentas indispensáveis).

When the obscure Market Council shifted the business of the wholesale electricity market to Bank Rossiya, “a tidy coup set to yield an estimated $100 million or more in annual commissions,” there were other “state corporations, local governments and even the Black Sea Fleet... suddenly shifting their accounts to the bank, too,” creating “an enormous windfall.” Mas os jornalistas do New York Times não mencionam que várias das tais atividades pouco recomendáveis no Banco Rossiya aconteceram em abril, depois de as sanções já terem sido declaradas; o banco reagiu contra o regime de sanções, muito mais do que “recompensou empresários amigos”. Seja como for, o Bank Rossiya – se se desconta a retórica incendiária dos jornalistas – contribuiu para converter em bilionários “vários apoiadores de Putin, cuja influência sobre setores estratégicos da economia auxiliaram Putin a manter-se firmemente agarrado ao poder”. Parece ser verdade que, sim, a amizade com Putin alterou a distribuição da riqueza, mesmo que Putin, pessoalmente, não se tenha beneficiado.

Como paradigma do desenvolvimento capitalista, porém, lá está a transformação, de socialismo burocrático para capitalismo de Estado, com ou sem o papel de vanguarda entregue ao círculo presumido íntimo de Putin. (Bem provavelmente, o mesmo conjunto geral de dinâmicas históricas também se aplica à China, de Mao a Li; mas o capitalismo clientelista parece estar mais claramente identificado na China que na Rússia). Se a Rússia tivesse conseguido fazer uma transformação pacífica depois do fim da União Soviética, em mundo no qual o capitalismo não tivesse sido veículo para dominação internacional, talvez o resultado poderia ter sido uma economia mais genuinamente mista, depilada de bilionários e de favoritos do governo.

Isso não aconteceu. Na matéria do New York Times, os jornalistas acertam, no essencial geral, quando escrevem que: “Putin chegou ao poder prometendo eliminar, “como classe”, os oligarcas que haviam acumulado fortunas descomunais – e, para o modo de pensar do novo presidente, excessiva parcela de poder político – durante o governo do predecessor de Putin, Boris N. Yeltsin, no caos pós-comunista dos anos 1990. Em vez disso, o que se viu foi o surgimento de uma nova classe de magnatas, homens de sombrias origens soviéticas que devem a Putin a vasta riqueza que acumularam e que, em troca, lhe garantem total fidelidade política.”

Lamentavelmente, os bancos serão os bancos. O Bank Rossiya (como disse Willie Sutton: “roubo bancos porque é lá que está o dinheiro”), é resultado do talento para o empreendedorismo, de gente como Yuri Kovalchuk, presidente e maior acionista, “físico por formação acadêmica, às vezes chamado “o Rupert Murdoch da Rússia”, pelo papel que teve na coordenação e arquitetura dos interesses do seu banco, na “mídia”. Recorre também a “sombrias estruturas corporativas”, como empresas em paraísos fiscais, como as Ilhas Virgem britânicas. Quanto aos acionistas, foi gratificante ver na lista o nome de Sergei Roldugin, violoncelista que usou seu investimento no banco para converter um palácio do século XIX em São Petersburgo, em “casa da música e academia para formação de músicos clássicos” (o exemplo-propaganda vai aqui, grátis). Não se discute o clientelismo – o New York Times cita vários exemplos, além de enorme quantidade de oligarcas conhecidos associados ao banco. “Conexões de negócios”, escrevem os jornalistas do New York Times, “tornaram-se conexões profundamente pessoais” [também com] “Putin, que, com sete empresários, muitos dos quais acionistas do Bank Rossiya, formaram [em 1996, o que os jornalistas não esclarecem], uma cooperativa de casas de verão, dachas, chamada Ozero [“lago”], no nordeste de São Petersburgo”. 

Mas, e tudo isso será, como esbravejam os críticos, “cleptocracia legalizada”? A discussão seria longa, desinteressante e inconclusiva. Para reduzir ao que importa, basta dizer que o fator pessoal aparece bem separado das considerações de Estado, na cabeça de Putin. Um daqueles oligarcas, Gennady Timchenko, que negocia petróleo e investe no Bank Rossiya (e que está hoje sob sanções impostas pelos EUA), explicou que: “... nunca lhe ocorreria questionar o presidente da Rússia sobre suas políticas na Ucrânia, fosse qual fosse o custo delas para empresas como as suas. 'Seria impossível', disse ele ao New York Times, referindo-se ao presidente da Rússia formalmente pelo primeiro nome e nome do pai. Vladimir Vladimirovich age com vistas a defender os interesses da Rússia, sempre, em qualquer situação. Não faz concessões. Nem jamais passaria por nossa 'cabeça discutir essas coisas'”. Essa fala é extremamente importante. O capitalismo de estado não é necessariamente a interpenetração de empreendimentos, empresas, empresários e governo, que tantas vezes apresentei em artigos para CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names em que examinava as dinâmicas estruturais que estão levando os Estados Unidos para a fase fascista do capitalismo avançado.

Ainda que Vladimir Vladimirovich não seja exatamente Tolstoi reencarnado, mesmo assim vê-se, em Putin, que o capitalismo na Rússia é mais russo, que nua-e-cruamente capitalista. Os Estados Unidos sempre foram e permanecem puros capitalistas, impondo as mais repressivas políticas domésticas (vigilância massiva, clima de hostilidade contra os trabalhadores, o trabalhismo e o trabalho, vasta disparidade na distribuição da riqueza) e também as mais violentas políticas externas (guerra, intervenção, luta pela hegemonia) para tentar dar sustentabilidade ao capitalismo puro dos Estados Unidos. Essa é diferença muito grande entre Rússia e Estados Unidos, com os Estados Unidos declarando intolerável que a Rússia, talvez hoje ainda mais que sob a forma soviética, coloque outros fatores acima e por cima do capitalismo como os Estados Unidos o praticam: como sistema integralmente agressivo-expansivo, sem parar ante nenhum obstáculo em seu avanço global. Foi fácil opor-se e condenar o socialismo. É menos fácil opor-se e condenar essa formação política nacionalista-capitalista que se vê hoje na Rússia de Putin, porque a simples existência dessa formação dentro do capitalismo já obriga a ver outras potencialidades, dentre as quais, que, mesmo no capitalismo, há meios para garantir melhor atenção e melhores condições de vida para os próprios cidadãos, do que o que se vê hoje nos Estados Unidos.

Meu comentário ao artigo de Myers-Becker-Yardley no The New York Times, mesma data, a seguir:

“Excelente documentação. Mas análise efetivamente e realmente comparativa mostra o quê? Que o capitalismo de empresários-cupinchas (oficialmente chamado “capitalismo clientelista”) está vivo e em ótimas condições tanto na Rússia como no Ocidente. Criticar o ocidente pelos mesmos mal-feitos soa estranho, porque os mesmos pressupostos valem igualmente para EUA e Rússia. Os EUA vivem hoje a fingir as mesmas puras convicções de algum anticomunismo, como na Primeira Guerra Fria (não há como negar que já estamos na Segunda), quando, na verdade os EUA invejam muito o sucesso capitalista da Rússia. Os EUA atacam Putin como a raposa ataca uvas que não pode alcançar. O que foi o ‘resgate’ dos bancos norte-americanos “grandes demais para quebrar”, se não o capitalismo mais clientelista? O que é o íntimo relacionamento entre o Pentágono e as grandes empresas do complexo industrial da Defesa, se não o capitalismo mais clientelista? Não é preciso que algum líder, no caso Putin, ou exiba ou não exiba ele, pessoalmente, a doença. O capitalismo clientelista pode ser e é SISTÊMICO, nos Estados Unidos. E Obama mantém-se passivo e deixa aumentar a enorme clivagem, que só cresce em relação a distribuição da riqueza. 
Putin pode dizer e comprovar que não enriqueceu no capitalismo clientelista e, na verdade, aceito sem dificuldade seu argumento de que suas políticas são motivadas por considerações geopolíticas e geoestratégicas, não por o que deseje um ou outro banqueiro ou oligarca. Os EUA e Obama podem dizer o mesmo? Como poderiam, se não fazem outra coisa além de obrar servilmente a favor dos interesses de empresários e empresas norte-americanas por todo o planeta, armados até os dentes e matando sem parar, especialmente, hoje, no Oriente Médio? O negócio das sanções chega a ser engraçado: folha de parreira que nem esconde o plano ambicioso dos EUA para conter, isolar e enfraquecer a Rússia – na sequência, como já disse, atacarão a China – com os EUA cada vez mais desesperados para recuperarem o trono na estrutura global. Com a ascensão de Rússia e China, os EUA que tratem de aprender a partilhar o poder. Será isso, ou o colapso.”

Batalha do trabalho contra a exploração pelo capital, 150 anos atrás e hoje

Marcello Musto*


Em 28 de setembro de 1864, a Associação Internacional dos Trabalhadores foi fundada em Londres. Tornou-se o protótipo de todas as organizações do movimento operário, que tanto reformistas como revolucionários tomaram subsequentemente como seu ponto de referência.

Muito rapidamente, a Internacional despertou paixões em toda a Europa. Graças à sua atividade, os trabalhadores conseguiram compreender melhor os mecanismos do modo de produção capitalista, tornar-se mais conscientes das suas próprias forças e desenvolver novas e mais avançadas formas de luta pelos seus direitos e interesses.

O 150º aniversário da Internacional, ao contrário, ocorre em um contexto muito diferente. O mundo do trabalho sofreu uma derrota de época e está no meio de uma profunda crise.

Depois de um longo período de políticas neoliberais em quase todo o mundo, o sistema contra o qual os trabalhadores lutaram e conquistaram vitórias importantes voltou a ser mais explorador.

Décadas de assalto aos direitos dos trabalhadores obrigaram as organizações trabalhistas a buscar novos caminhos - descobrir caminhos de colaboração e solidariedade que possam novamente fazer ganho contra o enorme poder do capital globalizado.

Como antes, os trabalhadores devem descobrir como transformar o poder de seu número e compromisso em uma força que irá realizar para eles substanciais benefícios sociais e econômicos. As lições da Internacional podem ajudar a reverter a tendência.

As organizações de trabalhadores que fundaram a Internacional eram um grupo heterogêneo. A força motriz central foi o sindicalismo britânico, cujos líderes conceberam em grande parte a Internacional como um instrumento para bloquear a importação de mão-de-obra estrangeira em caso de greves.

Outra força significativa na organização foram os "mutualistas", uma tendência moderada - longamente dominante na França - inspirada nas teorias de Pierre-Joseph Proudhon.

O terceiro grupo em importância foram os comunistas em torno da figura de Karl Marx.

As fileiras da Internacional incluíam muitos trabalhadores inspirados em teorias utópicas e exilados que tinham idéias vagamente democráticas.

Garantir a coabitação de todas essas correntes na mesma organização foi a grande realização política de Marx. Seus talentos lhe permitiram conciliar o aparentemente irreconciliável, garantindo que a Internacional não seguisse rapidamente as muitas associações de trabalhadores anteriores no caminho para o esquecimento.

Foi Marx quem deu um propósito claro para a Internacional e que conseguiu um programa político não-exclusivista, mas firmemente trabalhista, que ganhou apoio de massas além do sectarismo. A alma política de seu Conselho Geral era sempre Marx: redigiu todas as suas principais resoluções.

O final da década de 1860 e início da década de 1870 foi um período repleto de conflitos sociais. Muitos trabalhadores que tomaram parte em ações de protesto decidiram fazer contato com a Internacional, cuja reputação rapidamente se espalhou amplamente.

Em toda a Europa, a Associação aumentou o número de seus membros e desenvolveu uma estrutura organizacional eficiente. Alcançou, além disso, o outro lado do Atlântico através dos esforços dos imigrantes nos Estados Unidos.

Assim, para todas as dificuldades ligadas a uma diversidade de nacionalidades, línguas e culturas políticas, a Internacional conseguiu alcançar a unidade e a coordenação em uma ampla gama de organizações e lutas espontâneas. Seu maior mérito era demonstrar a importância crucial da solidariedade de classe e da cooperação internacional.
Quando a Internacional se dissolveu em 1872, era uma organização muito diferente da que tinha sido no momento de sua fundação: os reformistas já não constituíam a maior parte da organização e o anticapitalismo se tornara a linha política de toda a Associação (incluindo tendências recentemente formadas, como o anarquismo liderado por Mikhail Bakunin).

O quadro mais amplo também era radicalmente diferente. A unificação da Alemanha em 1871 confirmou o início de uma nova era - evidente também na unificação italiana e na Restauração Meiji no Japão - onde o Estado-nação se tornaria a forma central de identidade política, jurídica e territorial.

Isso colocou um ponto de interrogação sobre qualquer órgão supranacional que exigisse que os membros renunciassem a uma parte considerável da liderança política.

Em décadas posteriores, o movimento operário adotou um programa socialista consistente, que se expandiu por toda a Europa e depois pelo resto do mundo, e construiu novas estruturas de coordenação supranacional.

Além da continuidade dos nomes (a Segunda Internacional de Kautsky, de 1889-1916, a Terceira Internacional de Lenin, de 1919 a 1943, ou a Internacional Socialista do Chanceler Alemão Willy Brandt, de 1951 a hoje), as várias "Internacionais" de política socialista se referiram - embora de formas muito diferentes - ao legado da Primeira Internacional.

Assim, sua mensagem revolucionária provou ser extraordinariamente fértil, produzindo resultados ao longo do tempo muito maiores do que aqueles alcançados durante a sua existência.

A Internacional ajudou os trabalhadores a entenderem que a emancipação do trabalho não poderia ser conquistada em um único país, mas era um objetivo global.

Ela também espalhou uma consciência em suas fileiras que eles tinham que atingir a meta através de sua própria capacidade de organização, em vez de delegá-la a alguma outra força, e que - aqui a contribuição teórica de Marx era fundamental: era essencial superar os limites do próprio sistema capitalista, uma vez que as melhorias dentro dele, embora necessárias para prosseguir, não eliminariam a exploração e a injustiça social para com os trabalhadores.

Grandes mudanças políticas e econômicas sucederam-se nos últimos 25 anos: o colapso do bloco soviético, a ascensão à importância das questões ecológicas, as mudanças sociais geradas pela globalização e uma das maiores crises econômicas do capitalismo na história que, de acordo com números da Organização Internacional do Trabalho, adicionou outros 27 milhões de desempregados desde 2008 para levar o total para mais de 200 milhões.

Além disso, as "reformas" do mercado de trabalho (um termo que, com o tempo, mudou o seu significado progressista original) que introduziram, ano após ano, mais flexibilidade e mais fácil rescisão dos trabalhadores criaram desigualdades mais profundas do que supostos melhoramentos no emprego. A situação atual em muitos países europeus, com taxas alarmantes de desemprego, é paradigmática deste fracasso.

No entanto, os movimentos de protesto global que têm sido recentemente ativos na maioria das partes do mundo se distinguiram até agora pelo caráter muito geral de sua demanda por igualdade social, sem dar suficiente atenção aos novos problemas e mudanças radicais no mundo do trabalho.

De fato, em um período ligeiramente anterior, vários autores apresentaram a tese de que o "fim do trabalho" estava à vista. Desta forma, o trabalho, tendo sido um protagonista chave ao longo do século XX, tornou-se cada vez mais um jogador fraco e secundário, com os sindicatos com cada vez mais dificuldades de representar e organizar os trabalhadores mais jovens ou migrantes, num mercado de trabalho cada vez mais flexível, onde os postos de trabalho são inseguros e cada vez mais desprovidas de direitos.

No entanto, se a globalização capitalista enfraqueceu o movimento operário, também abriu, em muitos aspectos, novas vias, através de uma maior capacidade de comunicação, que podem facilitar a cooperação e solidariedade internacional dos trabalhadores.

Com a recente crise do capitalismo - que agudizou mais do que nunca a divisão entre capital e trabalho - o legado político da organização fundada em Londres em 1864 recuperou profunda relevância. Suas lições hoje são mais oportunas do que nunca.

* Marcello Musto leciona teoria sociológica da Universidade de York, Toronto. Ele é um especialista no pensamento de Karl Marx e na história do movimento operário. Seu último livro intitula-se "Trabalhadores, uni-vos! Antologia política da I Internacional" (Boitempo Editorial: São Paulo, 2015).

28 de setembro de 2014

É perfeitamente razoável negociar com vilões como EIIL, então por que não fazê-lo e salvar algumas vidas?

Ninguém critica o governo de Israel quando ele troca prisioneiros com o Hezbollah


Robert Fisk

Ele se ofereceu para fazer um acordo com o Estado Islâmico. Não, não se trata de David Cameron e nem de Obama, é claro. Estou falando de Walid Jumblatt, líder libanês. Ele está exigindo que o governo do Líbano troque prisioneiros islâmicos por 21 soldados e policiais detidos pelo EI e pela Jabhat al-Nusra.

No caso de você ter esquecido – ou simplesmente não saber da história porque estes homens eram libaneses, não ocidentais – gostaria de acrescentar que um dos soldados foi morto com um tiro na cabeça. Dois deles foram decapitados. Com vídeo, é claro. Assim, suas famílias puderam ver a sua decapitação no conforto da sua casa.

Por isso, vamos ser claros a esse respeito. O exército libanês, a única instituição séria no país, foi emboscado em agosto passado na cidade sunita de Arsal, na fronteira sírio-libanesa. Arsal é ao mesmo tempo uma cidade e um campo de refugiados, além de quartel general do EI – inimigos mortais, como nós jornalistas gostamos de dizer, do presidente sírio Bashar al-Assad -, e é por isso que Jumblatt não será condenado pelo Sr. Cameron ou por Obama. Afinal, Cameron e Obama estão bombardeando o EI, certo? Mas eles também querem derrubar Assad, não é mesmo? Problema.

Agora, Jumblatt é um cara generoso – e por que não seria quando as famílias dos 21 soldados que ainda estão desaparecidas e policiais implorou-lhe para dizer ao governo libanês para trocar seus filhos e maridos e irmãos para os islâmicos presos? O porta-voz do Jumblatt anunciou que o governo “não pode negociar sob a ponta de uma faca”. Mas todos nós sabemos o que isso significa. Você pode.

E eu estou impressionado com o quão diferentes os libaneses são dos britânicos. Esta manhã, as famílias dos 21 soldados e policiais planejam armar barracas em frente às casas dos ministros do governo. Ontem, eles bloquearam estradas em todo o Líbano. Pelo menos um jornal afirmou que o governo estava matando seus próprios soldados, recusando-se a negociar.

Presos mantidos em Roumieh, prisão ao norte de Beirute, por sua luta contra o exército em 2007 no campo palestino de Nahr el-Bared, ainda não foram julgados. Isis wants them freed. Interesting. Because they belonged to a group called Fatah al-Islam and were – at the time – allegedly sent into Lebanon with the permission of the Syrian authorities. Is Fatah al-Islam really Isis? Did Isis exist in 2007 – seven years ago?

Para lembrar que os libaneses são humanos como nós, eis o texto de uma mensagem que o cabo Sulieman Dirani, do exército libanês, enviou à sua família conclamando seus parentes a protestar nas ruas do Líbano: “Peço ao exército libanês e ao estado libanês que tenha consciência e simpatia com os nossos pais e mães e considerem-nos seus filhos. Peço a eles para ver como nossos pais e mães estão dormindo nas ruas sem ninguém mostrar qualquer interesse no assunto.”

E talvez esses soldados possam viver. O governo libanês tem um homem duro que lida com os civis seqüestrados. Ele se chama Abbas Ibrahim, um homem corajoso que costumava andar desarmado no campo palestino de Ein el-Helweh em Sidon para falar com os homens de Osama bin Laden. Ele agora é chefe da “Segurança geral” libanesa. E sim, ele é um general. Organizou a libertação de freiras cristãs detidas pela Jabhat al-Nusra na cidade síria de Yabroud. Muitos outros devem a sua vida a este homem. Não é da sua coragem que eu estou falando. É do fato de que o governo libanês está disposto a conversar com os bandidos. Nós não fazemos isso, é claro. Mas por que não?

Perfeitamente razoável, governos respeitáveis trocam prisioneiros. Veja Israel. O país devolve combatentes do Hezbollah por apenas alguns soldados israelenses capturados. Já fez isso muitas vezes. Ninguém critica o governo israelense. Em todo o Oriente Médio, prisioneiros são libertados para outros cativos. A liberação dos de soldados em troca de outros cativos remonta ao tempo das Cruzadas.

Mas há outros problemas no Líbano. Um terço da população é agora síria. E os militares estão profundamente preocupados com o fato de que o EI está no interior do país. Não apenas em Arsal. Mas no sul do Líbano, também. Refugiados sírios estão partindo de Shebaa, perto da fronteira com Israel. Na verdade, parte de Shebaa é reivindicada por Israel – embora mapas do antigo mandato francês sugerem que a terra é ocupada pela Síria. Mas os israelenses devem estar preocupados ao ouvirem falar de um novo slogan que estava pintando nas paredes de Hasbaya, uma pequena e bela cidade ao norte de Shebaa. Ele pregava um futuro Estado Islâmico no Líbano.

26 de setembro de 2014

Gaza e o "crime dos crimes"

Ronnie Kasrils


Tradução / Nelson Mandela declarou várias vezes que “a Palestina é a maior questão moral do nosso tempo”. Após termos derrubado o regime de apartheid em 1994, ele continuou a dizer que “nós, sul-africanos, não podemos considerar-nos livres enquanto o povo palestiniano não for livre”.

Nós, entre milhões de sul-africanos, demarcamo-nos coletivamente do horrendo ataque de Israel contra a população de Gaza durante os 51 dias de pesadelo da “Operação Fronteira Protetora” e da permanente crueldade em curso na Cisjordânia. Quando os ataques terminaram, ficamos chocados para lá do imaginável quando vimos uma comunidade de 1,8 milhão de habitantes em ruínas; Khozaa, Shujaiyya, Beit Hanoun, com famílias e bairros inteiros desaparecidos.

Segundo as Nações Unidas, 2.131 palestinos foram mortos durante a ofensiva israelense. Desses, 501 eram crianças, 70% abaixo dos 12 anos.

O ministro da Saúde de Gaza registou 10.918 pessoas feridas, incluindo 3.312 crianças e 2.120 mulheres. Segundo as Nações Unidas, 244 escolas foram bombardeadas e uma delas utilizada como base militar pelos soldados israelenses. A organização de direitos humanos Al Mezan documentou pelo menos 10.920 casas atingidas ou destruídas, das quais 2.853 foram completamente arrasadas. Oito hospitais - seis deles ficando fora de serviço -, 46 ONGs, 50 barcos de pesca, 161 mesquitas e 244 veículos foram igualmente atingidos.

80% das famílias de Gaza não têm como alimentar-se e são dependentes de ajuda. Quintas agrícolas junto à fronteira foram definidas como zona de proteção que Israel estende unilateralmente fazendo fogo diretamente sobre os agricultores. Quando se priva uma população dos seus meios de vida e de movimento, quando os feridos não têm acesso aos cuidados médicos, quando os exilados são forçados repetidamente a refugiar-se em tendas de lona, e quando tudo isto acontece debaixo de ataques ferozes por terra, mar e ar, com a comunidade internacional a olhar calmamente enquanto se arma Israel - o que se deve lhe deve chamar?

"O crime dos crimes"

Pela primeira relativamente a Israel e às suas ações em Gaza, o Tribunal Russell sobre a Palestina [TRP], do qual tenho orgulho em ser um jurado, examinou o crime de genocídio. Como explica o professor John Dugard, um outro jurista do Tribunal: "O crime de genocídio é o crime dos crimes. Devemos encará-lo com muito cuidado. No entanto, a Operação Fronteira Protetora foi de uma tal gravidade que o Tribunal Russell acredita ser necessário considerar se esse crime foi cometido".

As características desse crime envolvem matar, causar danos corporais ou infligir condições de vida calculadas para causar destruição física na totalidade ou em parte de um grupo nacional, étnico, racial ou religioso. Contrariamente ao crime contra a humanidade, ele tem de ser cometido com a intenção de destruir o grupo, na totalidade ou em parte. O que nós constatamos nesta sessão do Tribunal, é que estamos no limite de um apartheid genocida, com incitação ao genocídio, um perigo real, articulado a vários níveis da sociedade israelense, tanto nos meios sociais como tradicionais, desde adeptos de futebol, agentes da polícia, comentadores nos meios de comunicação, chefes religiosos, legisladores e ministros do governo.

O povo da África do Sul, excetuando uma minoria de sionistas e seus adeptos, está horrorizado. Conhecemos o apartheid. Nós, lutadores pela liberdade que visitamos os territórios palestinos ocupados, declararam unanimemente: “Recordamo-nos do apartheid, mas o que vemos aqui é muito pior”. O sistema do apartheid na África do Sul precisava de força de trabalho barata dos negros para fazer funcionar a economia e por isso o Estado deixava-os viver - ou melhor, sobreviver. Mas ainda havia enormes semelhanças com o apartheid israelense.

Como em Israel, as pessoas “não-brancas” ou “não-europeias” (termos do apartheid) eram privadas de direitos iguais e de liberdade de movimento; viam as suas casas nas cidades brancas serem demolidas e eram transferidas para guetos sem eletricidade; enfrentavam check-points, buscas humilhantes, assédio constante e exigências rigorosas para obter autorizações de trabalho. Quem não podia exibir uma autorização de trabalho e era encontrado numa cidade branca, ia diretamente para a prisão. Qualquer resistência era tratada com a repressão policial, encarceramento, tortura e por vezes massacres como o mais infame deles, em Sharpeville em 1960, onde 69 manifestantes pacíficos foram abatidos a tiro. No entanto, nenhuma township negra nem nenhum bantustão foi alguma vez bombardeado do céu ou atacado por tanques e artilharia.

Durante aqueles maus velhos tempos, o povo da África do Sul aprendeu as lições da luta. A primeira de todas era nunca se render à repressão e continuar a resistir. Submeter-se significava efetivamente validar e exonerar o sistema do opressor. Ficar intimidado ou chocado pela repressão punitiva até à submissão significava dar a oportunidade ao opressor de afirmar que os oprimidos estavam conformados com a sua sorte. Eles iriam então gabar-se de que os seus “negros” estavam melhor e mais felizes do que os da África independente.

Assim, nós, os sul-africanos que levamos a cabo a luta, compreendemos muito bem o direito de um povo a resistir à tirania e à ocupação. Até o direito de resistir com armas é reconhecido na lei internacional. Na nossa luta contra o apartheid sempre rejeitamos com desprezo as acusações de "terrorismo" proferidas contra nós pelos apaniguados de Reagan e Thatcher e fomos inspirados pela comunidade internacional que entendia e apoiava a nossa justa luta.

Dever moral

Com um legado destes, beneficiamos da solidariedade internacional e do movimento de boicote, desinvestimento e sanções (BDS) e compreendemos o nosso dever moral. Não podemos tolerar uma crítica que questione o direito do povo palestino a resistir por todos os meios que julgue necessários. Rejeitamos a tentativa de equiparar a violência dos dois lados, como se pudesse haver paridade entre o terrorismo do Estado de Israel e a resistência palestina. Rejeitamos o absurdo do “terrorismo” da resistência com o sinistro motivo dos “túneis escavados”. Os palestinianos têm o direito de fazê-los, como nós por vezes fizemos durante a nossa luta armada e como os judeus do gueto de Varsóvia fizeram na sua ação corajosa, quando do levantamento de 1943 contra os nazistas. Compreendemos facilmente que foram precisamente esses túneis nas fronteiras de Gaza que detiveram as forças terrestres israelenses de avançar para infligir uma ainda maior carnificina.

As manifestações de solidariedade em vilas e cidades da África do Sul (200.000 na Cidade do Cabo) levaram a que o nosso governo do ANC e todos os governos por todo o lado deixassem o jogo de apelar aos dois lados para pararem com a violência como uma pré-condição para o cessar-fogo e as negociações. Vamos com certeza continuar até pressionar o governo a implementar a BDS contra o apartheid de Israel - assim como o ANC pediu que fizessem a todos os governos durante a nossa luta -, e que não diga que isso é tarefa da sociedade civil, como desculpa para nada fazer. São os governos que aplicam sanções e asseguram que elas sejam implementadas pelos setores público e privado.

As conclusões do TRP serviram para informar e mobilizar governos, instituições, sociedade civil e movimentos de solidariedade para implementarem as tácticas e políticas de Boicote, Desinvestimento e Sanções. Mais significativa foi a investigação do TRP sobre a prática por Israel de limpeza étnica e atualmente daquilo que o Tribunal Russell articulou como assassinato, perseguição e extermínio.

O bárbaro e violento ataque contra Gaza de julho-agosto 2014 será o centro da nossa campanha pela responsabilização, não apenas de Israel mas de outros países. A Israel e aos seus cúmplices não deve ser permitido exterminarem um povo impunemente. Temos de impedir que o crime de genocídio aconteça. O que vimos em Gaza em 2014 pode acontecer e acontecerá de novo se o mundo permanecer silencioso. O mundo tem de estar com o povo de Gaza, da Cisjordânia e com os refugiados palestinos. Isto é para o bem da paz e da justiça, para todos os que vivem em toda a terra de Israel/Palestina.

O Paradoxo de Chomsky

Jeffrey St. Clair

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Uma noite, sobre uma garrafa de whiskey irlandês, Alexander Cockburn contou-me uma história sobre os dentes de Noam Chomsky. Um dia, esse grande cérebro foi ao dentista ver se estava tudo bem com os seus dentes, depois de vários anos de negligência. Durante o exame, o dentista verificou um grande desgaste do esmalte dos molares de Chomsky.

“Noam, você range os dentes?”

“Que eu saiba, não.”

“Bem, o esmalte está bastante desgastado. Talvez ranja os dente de noite. Pode perguntar à sua mulher se ela tem reparado nisso?”

Chomsky regressa à sua casa de Lexington, perto do campus universitário do MIT e conta à sua mulher Carol a conversa com o dentista. Nessa noite e na seguinte, Carol ficou acordada depois de Noam ter adormecido, tentando verificar algum ranger noturno, mas não se apercebe de nada de anormal.

No entanto, Carol reparou num furioso cerrar de dentes durante a manhã, à mesa do pequeno almoço, enquanto Noam lê o jornal New York Times.

Chomsky ensinou duas gerações a lerem os jornais oficiais, a detetarem as farpas metidas nas histórias, os subtis desvios e falsas construções, as decisivas omissões do contexto, e o servilismo perante o poder. O que Chomsky não conseguiu fazer foi ensinar-nos como deixar de ler o New York Times. Como consequência, milhares de ativistas em todo o mundo pegam no Times (ou no Guardian ou no Washington Post) todas as manhãs, com marcadores vermelhos na mão, e começam a sublinhar e a desgastar o esmalte dos seus dentes.

Sendo luditas, Cockburn e eu chegamos tarde à internet. O nosso jornal CounterPunch só entrou em linha no final da década de 1990, quando o sol se punha sobre o governo de Clinton. Mas não demorou muito até nos apercebermos que a internet disponibilizava uma solução para aquilo a que chamávamos o Paradoxo de Chomsky, um dilema existencial que frequentemente deixa a Esquerda num ambiente hostil a lutar contra fantasmas — ou seja, uma realidade política construída pelos editores dos meios de comunicação de elite.

Depois de alguns anos a publicar na internet para uma audiência de mais de um milhão de leitores por mês, tornou-se claro que a velha luta "David conta Golias" dos panfletários de esquerda batalhando contra os barões unidos da imprensa, começava a equilibrar-se. Numa tela de 12 polegadas o CounterPunch é tão grande como o New York Times ou Rupert Murdoch, que despejou 580 milhões de dólares no Myspace.com em 2006 quando tardiamente se apercebeu que o mundo tinha mudado.

Jeff Bezos, o titã da Amazon, rebentou com 250 milhões de dólares no decrépito Washington Post. Porquê? Vaidade? O que é um oligarca sem o seu próprio jornal? O velhos impérios dos jornais estão mortos ou moribundos.

Há vinte anos atrás o Los Angeles Times era um super poder. Hoje cambaleia entre um corte selvagem de custos e uma demissão forçada. Será que as grandes primeiras páginas e os tabloides irão desaparecer? Não, num futuro previsível, tal como os trens não desapareceram com o advento das grandes rodovias. Uma indústria madura trará retorno econômico e atrairá investidores interessados em dinheiro ou poder, muito antes dos seus dias de glória terminarem. Mas é um mundo em decadência e o sistema de propaganda está a deteriorar-se.

A esquerda está tão habituada a ser tratada pior do que cão que nem é capaz de agradecer a sorte quando ela lhe bate à porta. Há trina anos atrás, muitos dos artigos que publicamos diariamente no CounterPunch desafiando a insanidade oficial divulgada pela imprensa de massas, seriam condenados a aparecer em revistas de pequena circulação ou a resumos de 30 segundos na rádio Pacífica. Há trinta anos atrás, para saber o que realmente se passava em Gaza, seria preciso ter um rádio de onda curta decente ou um aparelho de fax. Agora não. Agora podemos ter relatos a partir de Gaza ou Ramallah ou Oaxaca ou Vidharba e disponibilizá-los a uma audiência mundial numa questão de minutos.

Naturalmente, o Estado não gosta de perder o controle. Claro, poderá começar a policiar mais a internet e a encerrar sítios mais frequentemente. O custo de acesso pode disparar. Tudo isso pode acontecer e, na ausência de resistência, provavelmente acontecerá. Mas neste momento há novas oportunidades para serem exploradas e usadas, finalmente, em benefício dos radicais.

25 de setembro de 2014

EI, EUA e Turquia: Todos estão loucos?

O plano do mestre

Kemal Okuyan

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Vem-nos sendo dito que o processo de confrontação aberta que ocorre no Oriente Médio está fora de controle, que as ações dos principais atores envolvidos perderam qualquer racionalidade e que poderão ocorrer alianças ou confrontos inesperados nos próximos tempos. E em todos os casos é o Estado Islâmico (EI) que está à frente no debate. Vem-nos sendo dito que a existência dessa organização sanguinária é o resultado da falta de perspectiva e de planejamento, que é também o resultado de uma estratégia imediatista do imperialismo e de fanatismo religioso. Vem sendo mencionado que o ator que foi posto no palco para desempenhar outro papel começou a improvisar por conta própria de maneira tão acentuada que o diretor, o roteirista e os figurinistas ficaram pasmos com sua perda de controle.

Quando o assunto em questão são as políticas dos EUA para a região, encontramos muito frequentemente o conceito de “caos organizado”. Obviamente que não devemos entender isso como o planejamento e a criação do caos em cada um dos mínimos detalhes. Numa região onde a energia destrutiva pode continuar recriando a si mesma, providenciando insumos que acionam a liberação dessa energia, os EUA estão tentando fazer com que as coisas cheguem num estágio diferenciado de controle, num amplo domínio político no qual diferentes elementos começam a mover-se em diferentes direções e onde estes confrontam uns aos outros abertamente. Das relações políticas francas e declaradas às relações dissimuladas, o estabelecimento dessas entre todos os elementos vem se expandindo, abrindo continuamente novos canais de intervenção...

Em resumo, no atual estágio não há nenhuma razão para declarar que certos atores estão fora de controle ou que não são administráveis. Afinal, será que esses atores já foram administrados segundo seu sentido implícito? Estamos constantemente falando sobre grupos islâmicos e tentando imaginar quando que a Al-Qaeda, Talibã, Al-Nusrah e agora o Estado Islâmico foram aliados dos EUA e quando passaram a ser inimigos. Vamos olhar por outra perspectiva. Saddam Hussein. que foi deposto pela ocupação militar estadunidense sobre o Iraque, não havia ele mesmo sido conduzido pelos EUA a entrar em guerra contra o Irã? Mais tarde, ele não recebeu o aval de Washington para ocupar o Kuwait? E ainda assim não acabou tendo seu nome adicionado a lista de inimigos dos EUA logo depois?

Estivera Saddam fora de controle ou estava o imperialismo estadunidense seguindo uma “estratégia” dinâmica que amadureceu em menos tempo que qualquer um poderia ter conseguido para a situação política dessa região? Essa estratégia que constantemente se choca contra um muro pode ser vista como um carrinho de bate-bate que muda de direção a cada vez que acerta um obstáculo. Dessa maneira, os EUA conseguem controlar a situação até que alguém lhe tome o carrinho de assalto ou lance um carrinho mais potente para brincar na região; região esta que mais parece um campo minado...

O Estado islâmico está fora de controle, a Turquia vem sendo governada por maníacos e os EUA estão em choque... Será realmente possível explicar tudo isso que está acontecendo nesses termos?

Se prestarmos atenção torna-se claro que o ISIS está se comportando de maneira previsível e lógica. Querem mesmo que acreditemos que seus líderes são psicopatas? Ok, talvez sejam em parte, mas não são tão mais do que os que estão em Washington ou Ankara! Dessa forma, o que determina o comportamento do Estado Islâmico?

Fanatismo religioso... Mais presente em suas bases que em suas lideranças.

Dinheiro... Em grandes quantidades.

O desejo de governar e dominar... Numa versão que cresce a cada dia que passa.

Influência externa... Quanto a isso, absolutamente nenhuma dúvida!

A pergunta que deveríamos estar nos fazendo é se os EUA foram pegos despreparados pelas últimas ações do ISIS. Deixe-me apresentar a resposta... A reação do governo dos EUA à tomada da cidade de Mosul pelo Estado Islâmico é parecida com a reação de Davutoglu ao ataque a Reyhanli. O governo dos EUA está extremamente satisfeito com a agenda do Estado Islâmico. Com o passar do tempo podem ocorrer consequências indesejadas, mas isso é algo que eles irão relevar sobre a atuação política do ISIS. Essa não foi sempre a questão?

Outra pergunta emerge exatamente sobre esse tema. O que a Turquia está planejando fazer? Estará o seu governo desempenhando o novo papel que lhe foi atribuído como parte da redistribuição de funções entre os demais atores promovida pelos EUA ou estará a equipe de Erdogan-Davutoglu seguindo um caminho de insanidade que os levará a um lado contrastante com os EUA? Nenhuma das duas. Para ser mais preciso a pergunta que devemos fazer não é essa.

A Turquia não atua na região isoladamente a partir da incorporação mecânica de uma estratégia dos EUA. Como uma condição importante em seus processos decisórios, ela também deixa algum espaço para suas próprias prioridades políticas e ideológicas. Essa decisão nem sempre precisa estar alinhada com as estratégias dinâmicas dos EUA. Isso é impossível em todo o caso.

Vamos nos aprofundar na questão do Estado Islâmico um pouco mais. Entre os países que se juntaram à coalizão liderada pelos EUA contra o Estado Islâmico não estão ainda alguns que seguem financiando a mesma organização? Sim, há. No caso, a Arábia Saudita, o Qatar e a Jordânia iriam interromper os repasses de dinheiro e armas para o ISIS e não demoraria ao todo mais de uma semana para que toda a negociata estivesse interrompida. Entretanto, além de algumas questões simbólicas, nada de mais substancial foi feito nesse quesito. Em outras palavras, a coalizão reacionária continua financiando a organização a qual eles haviam declarado como “inimiga”. Quem acreditará em vocês depois disso? Mas eles querem que acreditemos que o ISIS está fora de controle. Vamos definir isso então: foi desejável que o ISIS estivesse fora de controle!

O governo do AKP anuncia publicamente, justamente sobre esse assunto, seu compromisso com o Estado Islâmico. Ele finge estar relutante a juntar-se à coalizão, ele não pode declarar o ISIS como “terrorista” e de tempos em tempos ele acaba confrontando o governo dos EUA. A existência de laços militares, econômicos, políticos e ideológicos entre a Turquia e o Estado Islâmico é de conhecimento público. Não é relevante debater se esses laços existem, mas sim em qual escala estão e quão profundo eles são. Isso é o que importa para o debate.

Como que Erdogan conseguiu tanta liberdade de movimentação? Por que, se os EUA estão forjando um “sistema” alheio a este caos eles precisarão de um supervisor que possa falar a mesma língua dos estados tribais islâmicos. O AKP também sabe que esse ator diferenciado não pode ser ninguém mais que eles mesmos. Não há nenhuma outra força mais apropriada para cumprir este papel. Um governo secularista na Turquia desejando colaborar com os EUA pode desempenhar também papéis bastante variados, mas ele não pode falar a linguagem ideológica reacionária que só o AKP pode fazer. Para que o AKP permaneça no poder, ele deve responsabilizar-se pelo Estado Islâmico e outros grupos. Os EUA compreendem isto. E para a perpetuação das justificativas para a intervenção estadunidense na região o ISIS precisa estar apoiado por alguém, precisa estar fortalecido, ao menos por algum tempo. Os EUA compreendem e fecham os olhos para a situação.

E enquanto tudo isso acontece, o AKP está cavando a própria cova. Com o anseio de ser a força política hegemônica de uma União do Oriente Médio (ou seja, uma união de estados tribais), como o novo Império Otomano, ele está se metendo em aventuras aquém de suas capacidades. Sem levar em conta a possibilidade de que um dia seus mestres da “estratégia dinâmica” poderão virar-lhe as costas e dizer “você é meu inimigo agora”...

23 de setembro de 2014

Pegar o dinheiro e ir embora

Gabriele Battaglia

China Files

Tradução / Em janeiro deste ano, o consulado de Hong Kong no Canadá se viu soterrado por uma montanha formada por 53.580 solicitações para obtenção do status de “investidor federal canadense”, no âmbito do programa de imigração para pessoas ricas mais popular do mundo. O sistema ficou sobrecarregado, e o governo de Ottawa foi obrigado a congelar os vistos.

O acúmulo de papeis foi causado por chineses da República Popular, que representam mais de 70% das solicitações ao programa. De acordo com as regras canadenses, candidatos com patrimônio de pelo menos 1,6 milhão de dólares canadenses [cerca de 3,4 milhões de reais] podem obter o visto de residência com a condição de que “invistam” o valor mínimo de 800 mil dólares [cerca de 1,7 milhão de reais] sob a forma de empréstimo, sem juros, durante cinco anos, em benefício do Canadá.

Este é um fenômeno que Pequim tem tentado desencorajar já há algum tempo: o êxodo dos novos ricos que, após terem acumulado fortunas em mais de trinta anos de boom econômico, exportam riquezas, famílias e eles mesmos para fora da China, seja em busca de uma qualidade de vida “ocidental”, seja por medo da campanha anticorrupção lançada pelas autoridades chinesas. Agora, um estudo da instituição financeira britânica Barclays concluiu que quase metade dos chineses endinheirados pretende se mudar para o exterior nos próximos cinco anos.

O problema não diz respeito somente aos homens de negócio, mas também ao Partido. Nesse caso, tratam-se dos chamados “funcionários nus”, aqueles que permanecem trabalhando no país enquanto transferem família e – sobretudo – contas correntes para além das fronteiras, na esperança de atravessá-las em breve.

Em junho passado, autoridades da província de Guangdong, no sul da China, descobriram que os funcionários que tinham transferido tudo para o exterior somavam mais de mil. Lançou-se então uma campanha de dissuasão: tragam a família de volta ou recebam um rebaixamento na carreira profissional. Uma campanha que, acredita-se, deve se estender a nível nacional.

A pesquisa realizada pela Barclays, baseada em entrevistas com mais de duas mil pessoas chinesas com patrimônio líquido total de 1,5 milhão de dólares, revela que 47% delas pretendem se mudar para o exterior, enquanto a média mundial é de 29%. Os potenciais emigrantes de luxo citam como motivações as melhores oportunidades de estudo e trabalho para os filhos (78%), a segurança econômica e o clima mais agradável (73%), acesso a saúde e serviços sociais melhores (18%). E, confirmando a predileção pela rota Hong Kong-Canadá, descobre-se que o principal destino é a ex-colônia britânica (30%), seguida do país norte-americano (23%).

Mesmo que os verdadeiros motivos sejam a campanha anticorrupção de Xi Jinping (ou seja, os esqueletos no armário) ou os temores sobre o futuro da economia chinesa, a situação reflete certa desconfiança com relação ao próprio país e a quem o governa.

Parece não ter dado muito certo o pacto histórico e silencioso sancionado por Deng Xiaoping com as “reformas e aberturas” do fim dos anos 1970: “enriquecer é glorioso; ganhem dinheiro que no governo pensamos nós, o Partido”. Tal pacto transformou milhões de funcionários políticos em homens de negócios e, passado o choque Tian’anmen, houve uma ratificação institucional com a teoria das três representações de Jiang Zemin, o grande ancião que até hoje puxa algumas cordinhas nos bastidores do governo chinês. Em 2000, o Partido deixou claro que não representava mais soldados, operários e camponeses, mas sim “as forças produtivas mais avançadas do país”, e a partir daquele momento passou às mãos de empreiteiros, magnatas e administradores de empresas.

Assim terminava a igualdade plana de Mao Zedong e se iniciava o capitalismo chinês, que em trinta anos produziu uma desigualdade social que hoje chega ao ponto de ser politicamente desestabilizadora. Por esse motivo, a liderança de Xi Jinping ambiciona hoje um crescimento mais equilibrado e, com as reformas lançadas em novembro de 2013, busca transferir riqueza da parte mais rica do país àquela que ficou para trás. Mas eis que um dos dois lados do acordo, depois de ter feito fortuna, pega o dinheiro e vai embora.

O fenômeno é percebido como uma ameaça para o poder chinês porque é justamente através da classe média urbana resultante de trinta anos de reformas e aberturas que o Partido busca o consenso.

As respostas das pessoas entrevistadas pela Barclays revelam o desejo de uma melhor qualidade de vida. Não por acaso, as motivações dos chamados “incidentes de massa”, protestos que envolvem mais de cem pessoas, são sempre muito mais as questões ambientais do que os conflitos de trabalho e as expropriações de terras, que eram então típicos de uma cidadania ainda operária e camponesa.

Há uma classe média que protesta, e uma que arruma as malas e se manda. Paradoxalmente, para as autoridades, a primeira é a menos perigosa.

Ataques aéreos na Síria: ataques dos Estados Unidos sobre EIIL podem ajudar Bashar al-Assad manter seu regime vivo

Mas o líder sírio vai estar assistindo com preocupação como o uso do poder aéreo dos EUA se amplia para incluir mais alvos fora do seu objetivo inicial declarado

The Independent

Robert Fisk

No momento em que os Estados Unidos ampliaram a sua guerra contra o Estado Islâmico (EI) na Síria, o presidente Bashar al Assad ganhou um apoio militar e político maior do que qualquer outro líder árabe poderia se vangloriar. Com as bombas e mísseis que explodem no leste e norte da Síria, Assad agora pode contar com os Estados Unidos; Rússia; China; Irã; a milícia do Hezbollah; a Jordânia e uma séria de países ricos do Golfo; para manter vivo seu regime. Se alguma vez o velho provérbio árabe – “o inimigo de meu inimigo é meu amigo” – conteve alguma sabedoria, Assad comprovou que estava correto.

Em sua casa em Damasco, o líder sírio pôde refletir sobre o fato de que a nação mais poderosa da Terra – que no ano passado quis bombardear seu país até o esquecimento – está agora atacando aos seus inimigos mais ferozes. Sunitas sauditas, cujas doações de “caridade” financiaram o “Estado islâmico” também sunita, agora veem que seu governo supostamente ajuda os Estados Unidos a destruí-lo. Assim como o Irã xiita e seus protegidos do Hezbollah combatem os algozes sunitas e cortadores de pescoços em sua região, bombas e mísseis americanos caem para destruir os inimigos frente a eles.

Desde que Churchill se aliou com Stalin em 1941, um antigo amigo da Alemanha nazista (sic), nenhum presidente pôde ter encontrado um antagonista tão terrível transformado rapidamente em um irmão de armas. Porém – e esse é um grande “porém” – o regime sírio baasista não é tão estúpido a ponto de levar a palavra “amigo” a sério. Obama é a última pessoa com a qual Assad queria se associar – como não quer se lembrar de Vladimir Putin – e o regime sírio irá observar com a mais profunda preocupação o quanto o uso promíscuo da força aérea dos Estados Unidos se estende inexoravelmente e inclui mais e mais objetivos fora de seu objeto declarado.

A margem das baixas civis na província de Idlib, os alvos dos Estados Unidos sobre a Al Qaida vinculada a Jabhat al Nusra, sugerem que o Pentágono tenha, ainda mais, o  EI na mira. Por exemplo, quão pronto se está antes de que um míssil exploda em um depósito de armadas do regime sírio – por “erro”, obviamente - ou em outras instalações do governo? Como os Estados Unidos decidiram financiar e treinar a “oposição moderada” para lutar contra o EI e o regime sírio, por que não bombardearia ambos os inimigos? E como os sírios, que apoiam o que resta desses “moderados”, reagiriam às bombas americanas em Idlib, que mataram aos seus companheiros civis no lugar de forças de Assad – bombas que, de fato, parecem ter sido tão letais como as munições lançadas sobre eles por aviões de Assad?

Em relação aos árabes do Golfo, não há, até agora, evidências de que fisicamente tenham bombardeado qualquer alvo na Síria. Apenas a Jordânia afirmou ter atacado o EI; o restante dos aliados do rei Abdullah na árabe “coalizão dos dispostos” – que logo esqueceu-se de que esta era a expressão de George W. Bush para aquelas nações que apoiaram a invasão do Iraque em 2003 – parece ter limitado sua cooperação a proporcionar pistas de aterrissagem, a dar combustíveis aos aviões e a talvez patrulhar as tranquilas águas do Golfo. Em suas audiências no Capitólio na semana passada, os congressistas o assediaram com perguntas ao secretário de Estado John Kerry sobre quantos aviões árabes estariam bombardeando o EI. Kerry controlou suas respostas.

Os árabes do Golfo, afinal, estiveram aqui antes. Recordam claramente as afirmações exageradas do êxito militar aéreo – de bombas inteligentes que não assassinam civis, dos mísseis de cruzeiro que destruíram refúgios e dos campos de treinamento e dos “centros de comando e controle” em 1991 e 2003. Tudo resultou em um arriscado menu de guerra. Todavia, agora os americanos estão requentando esses antigos lanches para o conflito do EI.

Estavam estes islâmicos “guerreiros” realmente sentados – bebendo chá, talvez – em “campos de treinamento” para que os americanos pudessem mata-los? O EI vangloria-se por ter um “centro de comando e controle” – um bunker de computadores e cintilantes indicadores de objetivos – em lugar de um punhado de telefones móveis? Contudo, disseram que havia sido destruído, nada menos que um “centro de controle e comando”.

E, como tantas vezes em meio à emoção de uma nova escalada do conflito, os “especialistas” e os decrépitos ex-embaixadores em nossas telas devem folhear um dos livros de história antes de explicar “nossas” ações. O “Estado islâmico” foi criado a partir da al-Qaida no Iraque, que absorveu a resistência anti-americana para a ocupação. Se os senhores Bush e Blair não tivessem embarcado na aventura iraquiana, alguém pensaria que os Estados Unidos estariam ajudando a Assad a destruir seus inimigos hoje?

“Ironia” não está à altura das palavras do “enviado de paz” no Oriente Médio, que se transformou esta semana em um enviado de guerra oferecendo a perspectiva de mais tropas ocidentais no mundo muçulmano. Supõe-se assim que o regime sírio deve rir ou chorar?

Obama ignora Congresso novamente para lançar ataque contra a Síria sem base legal

Presidente comete delito passível de impeachment

Paul Joseph Watson

InfoWars

O presidente Barack Obama violou flagrantemente, mais uma vez, a Constituição dos EUA e lançou ataques aéreos contra território sírio, sem qualquer amparo legal e sem qualquer tipo de legitimação pelo Congresso.

Em movimento que ameaça pôr fogo em toda a região, Washington disparou uma onda de ataques com mísseis cruzadores Tomahawk contra alvos do ISIL, na noite de ontem. Os primeiros relatos falam de oito civis mortos, inclusive três crianças, no bombardeio contra a cidade de Raqqa.

Apesar de o governo ter hoje amplo apoio para sua campanha militar contra o ISIL – quase dois terços dos cidadãos americanos defendem ataques aéreos contra o território sírio, há muita desconfiança de que, na sequência, Washington passará a atirar contra o regime do presidente Assad, que os EUA tentam derrubar, sem sucesso, já há mais de dois anos.

Seja qual for a necessidade ou alguma justificativa para a campanha contra o ISIL, a decisão de Obama, de ignorar, mais uma vez o Congresso, como fez antes, quando ordenou o desastrado ataque à Líbia, reforça o precedente de a Casa Branca ordenar ataques militares sem absolutamente nenhum fundamento legal.

Pouco depois de aparecerem os primeiros relatos dos ataques aéreos dos EUA contra a Síria, o Congressista Justin Amash também resumiu o sentimento de vários deputados, que lastimavam que o Congresso não se tivesse empenhado em qualquer tipo de discussão sobre o novo conflito.

Apesar de o Congresso ter recentemente aprovado um plano para armar os chamados rebeldes sírios “moderados” (muitos dos quais já se compuseram com o ISIL ou venderam as próprias armas àqueles terroristas), os deputados não deram luz verde para que o presidente lançasse qualquer tipo de ataque aéreo.

"O Congresso não autorizou nenhuma nova guerra", escreveu Lynn Sweet. "A cadeia de eventos que começou com os ataques da segunda-feira (22 de setembro de 2014) na Síria pode diluir a pressão por outra votação de autorização. Não importa o que venha a acontecer, o Congresso pode hesitar no movimento de negar a Obama autorização para guerra... quando, de fato, os EUA estão outra vez em guerra."

O presidente Obama diz que tem instrumentos legais para atacar o ISIL, baseado na mesma Autorização para Uso de Força Militar, AUFM [Authorization to Use Military Force (AUMF)] de 2001 que precedeu a GGaT (Guerra Global ao Terror). Porém, como observa W. James Antle, aquela lei só cobre "... nações, organizações ou pessoas” que “planejaram, autorizaram, cometeram ou ajudaram os atos terroristas que aconteceram dia 11 de setembro de 2001, ou que abrigaram aquelas organizações ou pessoas."

O argumento do presidente é implausível, porque a AUFM de 2001 exige nexo com a al-Qaeda ou forças associadas à al-Qaeda contra as quais os EUA estejam em luta – disse Robert Chesney, professor da Faculdade de Direito da Universidade do Texas, falando a The Daily Beast. Dado que o ISIL rompeu com a al-Qaeda, o argumento do presidente é imprestável.

Antes de atacar a Líbia, Obama dedicou-se empenhadamente em esvaziar o poder do Congresso, insistindo em que sua própria autoridade viria do Conselho de Segurança da ONU, e que a aprovação pelo Congresso não seria necessária. "Nem preciso entrar na questão Constitucional", vangloriou-se o presidente.

Desta vez, Obama sequer se deu o trabalho de buscar algum carimbo da ONU, nem discutiu se o Congresso teria ou não direito de se manifestar sobre se os EUA poderiam comprometer-se em mais uma campanha militar que pode, muito facilmente, converter-se em conflito generalizado, dado que o presidente Assad disse que qualquer ação militar dos EUA dentro do território da Síria seria tratado como ato de guerra.

Segundo o Congressista Walter Jones, uma vez que Obama não obteve aprovação no Congresso para o ataque contra a Líbia em 2011, "... seu ato constitui crime de primeiro grau seguido de infração gravíssima nos termos do artigo II, seção 4 da Constituição dos EUA."

Agora, pela segunda vez, ao atropelar o Congresso, Obama outra vez viola a Constituição dos EUA e pela segunda vez comete crime para o qual a pena prevista é o impeachment.

Apocalypse Now, edição iraquiana

Lutar no Iraque até o inferno congelar

Peter Van Buren

Tom Dispatch

Usei, no título, uma fórmula irônica, antes de mergulharmos na questão pesada do Iraque. Pensei também em começar contando como, em 2011, fiz contato com autor muito conhecido, para pedir-lhe que escrevesse umas linhas sobre o livro que eu estava lançando We Meant Well: How I Helped Lose the Battle for the Hearts and Minds of the Iraqi People [Nossa intenção foi boa: Como ajudei a perder a guerra pelos corações e mentes do povo iraquiano], e ele, sábio, declinou do meu convite e acrescentou, irônico: “E você por acaso pensa que escreveu o último livro sobre fracassos dos EUA no Iraque?”.

Mas não posso continuar no mesmo passo irônico. Como americano que ama profundamente o próprio país, absolutamente não consigo, está acima das minhas forças, acreditar que Washington mergulhou outra vez no pântano das questões iraquianas entre sunitas e xiitas. Qualquer jovem soldado agora incluído entre os 1.600 coturnos não-em-solo no Iraque tinha oito anos quando aconteceu a primeira invasão, em 2003. Provavelmente, teve de perguntar ao pai sobre a coisa. Afinal, há menos de três anos, quando o pai afinal voltou para casa de “cabeça erguida”, o presidente Obama garantiu aos americanos  que “deixamos para trás um Iraque soberano, estável e autoconfiante”. O que aconteceu, afinal, no piscar de um olho?

Os Filhos do Iraque

Às vezes, nesses dias, quando ligo a TV, toma conta de mim a impressão de estar vendo outra vez as mesmas paisagens do Iraque que conheço bem. Com 22 anos como diplomata a serviço do Departamento de Estado, passei 12 longos meses no Iraque, em 2009-2010, como parte da ocupação americana. Minha função era comandar duas equipes na“reconstrução” da nação. Na prática, significava pagar por escolas que jamais seriam completadas, por padarias em ruas sem água nem eletricidade, e organizar incontáveis eventos de propaganda sobre “temas da semana” que Washington gerava (“pequenos negócios”, “empreendedorismo”, “empoderamento das mulheres”, “construção da democracia”).

Organizamos até desconjuntados jogos de futebol, nos quais o dinheiro do contribuinte americano era usado para coagir relutantes equipes de sunitas a enfrentar cara a cara hesitantes equipes de xiitas, na esperança de que, sabe-se lá como, o caos criado pela invasão americana pudesse ser suavizado entre as quatro linhas. Uma tarde, fracassamos horrivelmente no esforço para reconciliar a milenar fratura entre sunitas e xiitas que nós mesmos despertáramos e convertêramos em limpeza étnica como meio de vida em 2003-2004, embora o placar tenha sido gerenciado atentamente para não sair do empate entre iraquianos e soldados do 82º Batalhão Aeroembarcado com os quais trabalhei.

Em 2006, os EUA negociaram a ascensão ao poder do Primeiro-Ministro Nouri al-Maliki, político xiita escolhido a dedo para unir o Iraque. Plano horrível, perfeita, luminosa mentira, logo apareceu sobre a mesa. Aplicando quantidades imensas de dinheiro, os emissários de Washington criaram a grupo de sunitas unidos por laços frágeis e apresentados como “moderados”, que aceitaram parar temporariamente o massacre, em troca da promessa de que teriam lugar à mesa do Novo Iraque (do Iraque ainda-mais-novo).

O “espaço político” para tudo isso foi criado por escalada massiva do esforço militar americano, que, de tão massiva, recebeu nome especial aprovado pelo pessoal da “publicidade & marketing’: a avançada.

Fui encarregado de reunir-me com os líderes da Sahwa na minha área. Meu trabalho naquele momento era persuadi-los a não abandonar o barco, ficar onde estavam só um pouco mais, embora eles tivessem certeza de que haviam sido nossos aliados por, precisamente, tempo demais. O governo xiita de Maliki em Bagdá, que já estava ignorando todas as sugestões dos EUA para ser inclusivo, não fazia outra coisa além de garantir que não houvesse nenhum “filho do Iraque” sunita, no Iraque dele.

Falsas alianças e puxadas de tapetes não eram estranhos aos sunitas senhores-da-guerra com os quais me cabia trabalhar. Frequentemente, nossa conversa – embalada por número incalculável de pequenos copos de chá doce, mexido com colheres de metal quentes ao rubro – mudava, de xiitas e americanos, para a luta dos bisavós deles contra os britânicos. A vingança cobre várias gerações, eles me garantiam; e as lembranças vão muito muito longe no Oriente Médio, avisavam.

Quando afinal saí de lá, em 2010, um ano antes de os militares americanos afinal partirem, a verdade em campo já deveria ser perfeitamente evidente para qualquer um capaz de ver. O Iraque já havia sido tacitamente fraturado em vários pequenos “estados” controlados por sunitas, xiitas e curdos. O governo de Bagdá convertera-se em típica cleptocracia de terceiro-mundo mantida por dinheiro dos EUA, mas com viés particularmente repugnante: era também governo de um grupo de autocratas dedicados a perseguir, marginalizar, degradar e, talvez, algum dia, destruir a minoria sunita do país.

A influência dos EUA evanescia rapidamente, deixando o Departamento de Estado, um pequenos contingente militar, vários espiões e "terceirizados" de empresas privadas obrigados a esconder-se por trás das muralhas da embaixada de um bilhão de dólares (a maior do planeta!), que fora erguida em momento de surto de húbris imperial. A potência estrangeira que tinha a maior influência sobre os eventos então era o Irã, país que, certo dia, o governo Bush decidiu derrubar, junto com Saddam Hussein, como parte do Eixo do Mal.

Os netos do Iraque

Os custos espantosos  de tudo isso – US$ 25 bilhões para treinar o exército iraquiano; US$ 60 bilhões para a reconstrução-que-nada-constrói; US$ 2 trilhões para a guerra em geral; quase 4.500 americanos mortos e mais de 32 mil feridos; e no Iraque mais de 190.000 mortos (com estimativas que falam de um milhão de mortos) – podem ser agora avaliados em relação aos resultados. A tentativa, durante nove anos, de criar um estado-cliente dos EUA no Iraque fracassou, tragicamente e completamente. A prova está hoje nas primeiras páginas de todos os jornais.

Fazendo uma conta em termos os mais brutais, gastamos sangue e voltamos sem petróleo. Em vez do que queríamos, a guerra ao terror da América resultou na dissolução de uma estase que havia no Oriente Médio pós-Guerra Fria que, estranhamente, foi preservada pelo autocrata iraquiano derrubado, Saddam Hussein. Agitamos um ninho de vespas de fervor islâmico, sectarismo, fundamentalismo e pan-nacionalismo. Ano após ano, os grupos islâmicos de terror ficaram mais fortes. Aquele horrível raio que expôs a política americana para o Oriente Médio sob luz tão horrenda persistirá até os dias de nossos netos. Poderia ter havido tantos e tão variados futuros. Agora só restam uns poucos, e as pilhas de mortos só crescem sobre as ruínas na nossa húbris. Eis o que conseguimos. Eis o que ganhamos.

Com um novo presidente eleito em 2008, em parte por causa do que prometera, que poria fim ao envolvimento militar americano no Iraque, a estratégia de Washington sofreu uma metamorfose e virou o mantra mais midiático-palatável do tal “sem coturnos no solo”. Em vez dos coturnos, apoiados por agressiva inteligência de guerra e aplicação “cirúrgica” de ataques de drones e outros tipos de poder aéreo, as operações secretas dos EUA passaram a associar-se com elementos “moderados” dentro de governos islâmicos, ou com elementos rebeldes da oposição a eles – conforme Washington optasse por apoiar governo-bandido ou oposição-bandida.

Resultados? Caos na Líbia, cuja extensão se avalia pelo fluxo de armamento avançado dos arsenais de Muammar Gaddafi, deposto, que se espalhou por todo o Oriente Médio e partes significativas da África; caos no Iêmen; caos na Síria; caos na Somália; caos no Quênia; caos no Sudão do Sul e, claro, caos no Iraque.

E então apareceu o Estado Islâmico (EI) e o novo “califado”, filho parido por uma ocupação negligente, no leito de um governo xiita autocrático decidido a acabar com os sunitas de uma vez por todas. E de repente... Lá se vão os EUA outra vez de volta ao Iraque. O que, em agosto de 2014 foi inicialmente divulgado como esforço humanitário limitado para salvar os iazidis, pequena seita religiosa da qual ninguém em Washington nem em lugar algum dos EUA jamais ouvira falar, logo se metamorfoseou e já lá se iam os 1.600 soldados americanos de volta ao solo no Iraque, e os aviões dos EUA de volta aos céus do Curdistão no norte, até o sul de Bagdá. Na sequência, os iazidis também foram ou abandonados ou salvos; ou então já ninguém em Washington precisava deles para coisa alguma. Quem sabe quem, naquele momento, teria alguma vez pensado neles? Serviram, isso sim, ao objetivo para o qual foram lembrados: aparecer como casus belli dessa guerra. A agonia dos iazidis, pelo menos, foi horrendamente real, diferente do ataque inventado no Golfo de Tonkin que levou à vastíssima guerra no Vietnã em 1964, e das inexistentes Armas de Destruição em Massa que nunca existiram, senão como pretexto para que os EUA invadissem o Iraque em 2003.

A  mais recente guerra no Iraque exibe “instrutores” de Operações Especiais, ataques aéreos contra combatentes do Estado Islâmico armados com armas americanas que o Exército do Iraque abandonou (e armamento que, evidentemente, será refornecido por Washington ao Exército do Iraque), aviação americana levantando voo de dentro do Iraque e, também, de um porta-aviões no Golfo Persa e possivelmente de vários pontos, e com guerra aérea através da fronteira, dentro da Síria.

É preciso unir muitos pontos de virada, para ter um círculo

A verdade em campo hoje é tragicamente familiar: um Iraque ainda mais dividido em estados em luta uns contra outros; uma cleptocracia, no governo de Bagdá, já começando a ser reanimada com o sangue novo de mais dinheiro americano despejado lá; e mais um primeiro-ministro xiita recebendo a mesma lista de tarefas a cumprir que Washington mandou para lá em 2003-2011: amolecer os sunitas; unificar o Iraque; tornar o país mastigável. O Departamento de Estado ainda permanece lá, escondido por trás das muralhas daquela embaixada de 1 bilhão de dólares. Mais dinheiro será consumido para treinar o exército iraquiano já destruído e em colapso. E o Irã continua a ser, como sempre foi, a potência estrangeira com maior capacidade para influenciar aqueles eventos.

Mas há uma estranha diferença a ser observada: na guerra do Iraque passada, os iranianos patrocinaram e comandaram ataques de milícias xiitas contra as forças americanas de ocupação (e contra mim); agora, seus agentes de forças especiais e conselheiros militares estão lutando lado a lado com aqueles mesmos milicianos xiitas sob a cobertura da força aérea americana. Querem coturnos em solo? Já há forças iranianas em solo, lá mesmo. Aí está um exemplo de como e o quanto a política cria estranhos companheiros de cama (“Os homens do Aiatolá”), mas também exemplo de o que acontece quando você sai de casa sem ideia do que fará, montando alguma “estratégia” na correria, pelo caminho.

Obama não pode ser culpado de todos esses desmandos, com certamente fez sua parte para piorar tudo – e não há dúvida de que tudo piora muito, se o governo de Obama outra vez assume a “propriedade” da luta entre sunitas e xiitas. O “novo” plano de unidade que falhará segue o padrão do que já falhou em 2007: usar força militar americana para criar algum espaço político para “reconciliação” entre sunitas (primeiro, incinerados; segundo, sempre perseguidos) e um governo xiita comprado, que o dinheiro dos EUA tenta encurralar num “acordo” feito ao arrepio do que o Irã deseja. Talvez se possa chamar qualquer nova organização sunita que representantes americanos alinhavem, ainda que por pouco tempo, precariamente, de “os Netos do Iraque”.

Só para aumentar ainda mais o fator horror, o pessoal chave encarregado de pôr em andamento os “planos” de Washington são, todos, caras muito conhecidas. Brett McGurk, que ocupou posições chaves no Iraque, está la novamente como vice-secretário de Estado Assistente para o Iraque e Irã. McGurk já foi chamado de “conselheiro de Maliki”, por causa da proximidade que mantinha com o ex-primeiro-ministro. O atual embaixador dos EUA, Robert Stephen Beecroft, era o vice-chefe da missão diplomática, o segundo homem na embaixada em Bagdá, em 2011. O que se vê é que está sendo montada uma segunda falsa coalizão de pessoas espantosamente pouco dispostas a estabelecer qualquer paz. E os “especialistas” midiáticos sempre a clamar histericamente por mais guerra em Washington são também, todos eles, nomes muito conhecidos: praticamente todos são cadáveres ressuscitados dos dias de glória da invasão de 2003.

Lloyd Austin, o general que supervisiona o novo esforço militar dos EUA, já supervisionou a retirada em 2011. O general John Allen, foi arrancado da aposentadoria militar para coordenar a nova guerra na região – trabalhou há pouco tempo como conselheiro civil do Secretário de Estado John Kerry – e foi vice-comandante na província Anbar no Iraque, durante a “avançada” [surge]. E também do lado dos EUA, estão de volta, recontratados, todos os mercenários das empresas de segurança terceirizadas, sem qualquer novidade. De novidade, mesmo, só o presidente Obama, que  cita sem ironia e sem vergonha, a velha autorização congressional de 2002 para invadir o Iraque, contra a qual Obama candidato discursou e votou, como sua base legal para a nova guerra desse ano. Os iranianos também mantêm o mesmo comandante militar em solo no Iraque, Qassem Suleimani, comandante da Força Quds do Corpo de Guardas Revolucionários do Irã. Que mundo pequeno! Suleimani também ajuda na coordenação das operações diretas do Hezbollah dentro da Síria.

Até o porta-aviões no Golfo Persa do qual partem os ataques aéreos, o USS George H.W. Bush, foi batizado, muito a propósito, com o nome do primeiro-presidente que afundou os EUA bem fundo no Iraque – há quase um quarto de século. Considerem o seguinte: os EUA estão no Iraque há tanto tempo, que já têm até um porta-aviões com o nome do presidente que lançou a aventura.

Numa agenda de 36 meses para “destruir” o ISIS/ISIL, o presidente Obama já concede que essa guerra passará às mãos do próximo presidente, como George W. Bush fez com o Iraque “dele”, que entregou a Obama. O próximo governo talvez seja chefiado por Hillary Clinton, que era Secretária de Estado quando a Guerra do Iraque 2.0 “chegou ao fim”. E é impossível não lembrar que foi o governo do marido dela quem manteve viva a Guerra do Iraque original, de 1990-1991, mediante as zonas aéreas de exclusão e sanções, que inventou sem parar. Pode-se falar de uma tradição, de um pedigree, no que tenha a ver com criar e recriar guerras no Iraque, até que o inferno congelar.

Se há alguma lição resumida a extrair disso tudo, talvez seja que não há poço que não possa ser escavado ainda mais fundo. Como é possível que ainda haja quem não veja que, depois de mais de vinte anos de declarações de vitória-sem-vitória no Iraque, o tal “sucesso” genuíno de que falam é impossível, e não importa como o “definam”? A única via para vencer, e não guerrear. Se insistir em guerrear, você não passa de um equivalente geopolítico do bobo-de-feira que, com um saco cheio de dinheiro falso, tenta comprar um jumento de pelúcia.

Apocalypse então - e agora

As guerras dos EUA no Oriente Médio acontecem num espaço de alucinação, onde a realidade pouco importa. Portanto, se você está com a impressão de já leu tudo isso antes, entre 2003 e 2010, é porque realmente leu. Mas para os que tenham um pouco mais de idade, os ecos vão muito mais longe. Participei recentemente de um programa de entrevista na televisão holandesa, durante o qual o ex-deputado Republicano Pete Hoekstra cometeu um lapso de linguagem, muito esclarecedor. Estávamos falando sobre o ISIS/ISIL, e Hoekstra, às tantas, disse que os EUA de modo algum poderiam oferecer ao ISIS/ISIL “santuário no Camboja”. Corrigiu-se rapidamente e emendou “na Síria”. Mas já dissera tudo.

Já passamos por coisa semelhante, com os fracassos da política e da estratégia dos EUA no Vietnam convertidos, por metástase, em guerra no Camboja e Laos – e para negar santuário às forças do Vietnã do Norte. Como hoje, sobre o ISIS/ISIL, só nos diziam que eram bárbaros, que queriam impor uma filosofia maléfica sobre toda a região. Eles também, inesquecivelmente, tinham de ser combatidos “lá mesmo”, para impedir que nos atacassem “cá em casa”. Naquele tempo não se dizia “the Homeland”, mas o resto foi idêntico, sem tirar nem pôr.

Assim como a similitude, também a diferença em relação ao Vietnã é muito eloquente. Quando a realidade do fracasso dos EUA no Vietnã afinal tornou-se tão evidente, que já não havia mais ninguém para quem mentir, a guerra do Vietnã acabou e os soldados voltaram para casa. E nunca mais foram mandados para aquela mesma guerra perdida. Mas hoje os EUA estão entrando na “guerra do Iraque” pela terceira vez – e alguma loucura de repetição os faz crer que, dessa vez, a vitória virá. A verdade é outra: dali os EUA só extrairão fracasso e mais fracasso. Parafraseando um jovem John Kerry, ele mesmo retornado do Vietnam: quem será o último a morrer, por esse erro sem fim? Desgraçadamente, ainda se passarão muitos anos antes que os EUA aprendam.

22 de setembro de 2014

O triunfo da propaganda

Do cansaço de guerra à necessidade de guerra

Ben Schreiner

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Para aqueles que duvidam da efetividade da máquina de propaganda em massa dos Estados Unidos – o porto-seguro da “imprensa livre” – seria interessante examinar a incrível guinada da opinião pública sobre a reintrodução de forças americanas no Iraque.

No início do verão do hemisfério norte, alguns meses atrás, quando a máquina de propaganda estava completamente focada na demonização do Camarada Putin da Rússia Vermelha, apenas uma pequena parte de americanos expressava apoio a um dos maiores passatempos dos EUA: jogar bombas no Iraque. Todavia, quando chega setembro, tal apoio subitamente cresce para incríveis 71%. Ainda mais incrível, uma pesquisa encomendada pela NBC/Wall Street Journal constatou que 34% da população são favoráveis à invasão terrestre de soldados para lutar contra o Estado Islâmico – leia-se, uma ameaça “além de qualquer coisa já vista antes”.

O que aconteceu? Afinal de contas, não precisa voltar muito no tempo para relembrar como a elite do poder reclamava publicamente um suposto “cansaço de guerra”. E agora, em meio a uma contínua crise socioeconômica interna, foi aberto o espaço político necessário para que o Congresso americano aprovasse milhões de dólares em gastos militares na luta conta os rebeldes islâmicos, sem levantar um mínimo que fosse de indignação popular.

A resposta para o que ocorreu reside no sistema de propaganda.

No início de agosto, o presidente Barack Obama anunciou, primeiramente, o uso de ataques aéreos contra o Estado Islâmico, no norte do Iraque, “para evitar um potencial genocídio” contra os yazidis, uma minoria local da região. Por conta disso, como a doutrina de “responsabilidade em proteger” dita, o poder militar americano é a última fortaleza contra o genocídio. Isto é, “genocídio” cometido por “caras maus”, que por acaso controlam importantes regiões geopolíticas, como: Iraque, Sérvia, Iraque, Líbia, Iraque, etc. Quanto aos genocídios cometidos pelos “bonzinhos”, bem, a “única democracia no Oriente Médio” tem o direito de se defender contra “terroristas”.

Mas todas as histórias contadas sobre os yazidis sitiados sendo resgatados pelas armas, metralhando a ajuda humanitária dos militares americanos, não eram o suficiente para comover o público dos EUA para uma guerra de verdade. A ressaca da Guerra do Iraque – Parte 2 ainda persistia. Compreensivamente, uma vez que a guerra lançada para evitar uma guerra (defesa preventiva) deixou um buraco de mais de 3 trilhões de dólares nos cofres americanos, isso sem mencionar os milhares de soldados americanos mortos e mutilados, além dos milhões de vítimas iraquianas. Então, por mais que tentasse, a “respeitável mídia” não poderia vender a prevenção de um “genocídio” como casus belli para um público ainda cansado de guerras. O mantra da responsabilidade em proteger dos liberais intervencionistas tinha, claramente, seus limites.

Então, chegou a hora para a carta super-trunfo da máquina de propaganda. Entra o medo.

Em 19 de agosto de 2014, o Estado Islâmico publicou na internet um vídeo que tencionava mostrar a decapitação do jornalista americano James Foley. Logo depois, dois outros vídeos que, supostamente, mostravam a decapitação do também jornalista Steven Sotloff e do funcionário humanitário britânico David Haines. Tais crimes eram exatamente o que os falcões de guerra em Washington precisavam para trazer mais para perto o povo americano. De fato, para uma cultura obcecada com o culto do pensamento positivo, sempre existe um lado bom das cosias, até mesmo em decapitações.

Ainda assim, os macabros vídeos do Estado Islâmico só poderiam levar o público dos EUA a abandonar sua perigosa tendência isolacionista por meio de suados esforços da “imprensa livre”. Então, os habilidosos propagandistas rapidamente foram ao trabalho, com o Estado Islâmico cortador-de-cabeças sendo apresentado como a maior ameaça dos EUA – e as agências de inteligência dizendo o contrário que se danem. E, em reconhecimento ao trabalho deles, o povo americano tem agora nove entre dez pessoas considerando o Estado Islâmico uma “séria ameaça aos interesses vitais dos EUA”.

Os “interesses vitais dos EUA”, obviamente, são aqueles que significam interesses das corporações dos EUA, os quais, na realidade, vão na direção contrária aos interesses da maioria, até mesmo da maioria que trabalha duro nessas corporações. Dentro da câmara de eco reverberando com os gritos agudos daqueles que alertam que o Estado Islâmico está trabalhando para “matar todos os americanos”, uma ameaça à classe elitista é transformada em uma ameaça ao sublime American Way of Life. Ou seja, uma ameaça aos direitos divinos dos cidadãos comuns de correrem para a peregrinação anual à uma loja da Apple a fim de prestar suas homenagens a uma nova repetição do iPhone. Então, se um bando de monstros estilo Frankenstein – criado pelos EUA – andando pelo Iraque e pela Síria estão ameaçando essa vida, uma vida de delicioso consumismo construída com fundações de petróleo barato sendo controlado pelos EUA e seus clientes, “alguma coisa”, claramente, deve ser feita. Obviamente, os choros para “alguma coisa” ser feita são superadas apenas pelos nefastos eufemismos de deixar “todas as opções em aberto”; pois o “alguma coisa” a ser feita nos EUA consumidos pelo medo, inevitavelmente envolve o bombardeio de algum país e um povo estrangeiro. Afinal de contas, fazer alguma coisa é sempre melhor do que não fazer nada.

Pode-se imaginar o que futuros historiadores do império americano irão escrever sobre a facilidade com que suas elites foram capazes de repetidamente tranquilizar a agitada psique americana através de pacotes cuidadosamente planejados de bombas americanas explodindo pessoas em pedaços. Todavia, para a maioria da população dos EUA, tal distanciamento de realidade representa sua própria experiência da exportação favorita de seu país.

“O maior triunfo da realidade virtual é a guerra”, escreveu Sheldon Wolin, em Democracy Inc. “A guerra é uma jogo de ação, jogado na sala de estar ou um espetáculo em uma tela, mas, nos dois casos, não são experimentadas de verdade”, continua Wolin. “O dia a dia continua normalmente de maneira ininterrupta: trabalho, recreação, esportes, família, viagens. Após o 11 de setembro de 2001, o terrorismo se tornou outra realidade virtual, experimentada apenas através de imagens recriadas”. E quando a guerra é entregue como um pouco mais do que um espetáculo digital, as pessoas devem se forçar a manter a cabeça no lugar (literalmente, como alguns diriam), pois o cansaço de guerra pode ser vencido com assombrosa velocidade. O medo sempre reproduz hostilidade.

O atual apoio público para começar mais uma barbárie imperialista, vinda da maior ameaça à paz mundial, representa apenas a última evidência do eterno triunfo da propaganda.

21 de setembro de 2014

A retórica de John Kerry sobre o EIIL insulta a nossa inteligência e esconde a realidade da situação na Síria

Qualquer um que tenha estudado a Síria sabe que oposição moderada não existe

Robert Fisk

The Independent

John Kerry vai ficando cada dia mais parecido com William McGonagall, o “pior poeta do mundo”, cujo horror, ante o desastre da Ponte Tay, em 1879, gerou o imortal comentário de que [a tal desgraça] “será lembrada por muito tempo”.

Como no verso de McGonagall, as tentativas de Kerry para explicar a cruzada da América contra o mais recente inimigo malvado são tão ridículas, que se vai ficando viciado nelas. E quando você pensa que a explicação capenga, de Kerry, para os políticos americanos da cruzada iraquiana de Obama – o EIIL tem de ser derrotado, puro e simples, e fim da história – não pode(ria) ficar mais infantil, ela fica.

Por puro infantilisme – a palavra francesa captura isso melhor – desafio os leitores a ler a frase seguinte até o fim, sem nenhuma incredulidade: “Quero deixar bem claro que, quando acabarmos aqui hoje, vocês me dirão o que pensam e eu saberei o que estão pensando” – disse Kerry à Comissão de Relações Exteriores do Senado semana passada – “e vocês terão ouvido de mim e saberão o que nós estamos pensando, o que o governo Obama está pensando, e que vocês têm uma clara compreensão do que estamos fazendo hoje e faremos na sequência”. “Tudo muito complexo”, disse Kerry – e que, claro, sem dúvida, “será lembrado por muito tempo”.

Mais imediatamente chocante era o mundo de fantasia de Obama o qual Kerry, com seu jeito de moleque pesadão, representou. Quem tenha estudado a Síria, mesmo de longe, e nem se fala dos que a conheçam de perto, sabe que a tal “oposição moderada”, ficcional – supostos desertores do Exército do governo sírio – absolutamente não existe. Corrupto, desiludido, assassinado ou simplesmente desertado de volta ao EIIL ou para outro grupo associado da al-Qaeda, o velho “Exército Sírio Livre” é, hoje, mito ridículo – e tão potente, para os kerrys desse mundo – quanto os arroubos de Mussolini de que o exército italiano poderia derrotar os britânicos no Norte da África. Qualquer soldado sírio pode contar, de viva voz, que está feliz por poder combater contra o tal “Exército Sírio Livre”, porque aquela “oposição moderada” só é especialista em fugir feito coelhos. Quem luta até a morte são os “terroristas” de al-Qaeda-Nusra-EIIL.

 Mas Kerry, como os generais da I Guerra Mundial, vive num castelo ornamentado de sua própria imaginação. “Na Síria, o combate em campo será feito pela oposição moderada, a qual é o melhor contrapeso da Síria [sic] para extremistas do tipo EIIL” – eis o que ele disse à Comissão de Relações Exteriores da Câmara de Deputados. – “E podemos falar mais sobre aquela oposição moderada – que jeito tem, quem é, do que são capazes hoje e do que poderão fazer – conforme nós avançarmos”. Como os generais [Douglas] Haig e [John] French, Kerry entrou em delírio.

O “Exército Sírio Livre”, disse Kerry, vem combatendo contra o eIIL há dois anos – em Idlib, Aleppo, em torno de Damasco e em Deir Ezzor e o governo sírio − Kerry insistiu − não dá combate, nem dará, ao EIIL. Isso é um absurdo. A maioria dos 35 mil soldados mortos do exército sírio foram mortos em combates contra al-Qaeda e o EIIL. E as únicas forças que realmente mantêm coturnos em solo contra o EIIL são o Hezbollah e os Guardas Revolucionários do Irã, ao lado dos curdos.

Exaltar a “oposição moderada” dois dias antes de as mais recentes vitórias do EIIL já os terem trazido até a fronteira da Turquia é absurdo. E que estadista ilustra(ria) a própria ideia de que sunitas e xiitas estariam em aliança com a América, brandindo no ar a primeira página do The Wall Street Journal em que se vê um líder curdo, um ministro iraquiano xiita e o ministro sunita de Relações Exteriores da Arábia Saudita fotografados lado a lado? Kerry elogiou os clérigos sauditas por condenarem o EIIL sunita, sem mencionar que muitos destacados imãs sauditas consomem muito mais tempo desqualificando América. Nem poderia, mesmo, falar, dos clérigos paquistaneses que também declararam herético o EIIL – porque, claro, passam praticamente todo o tempo acusando os sauditas de financiarem o EIIL.

Como Cameron, Kerry serve-se do vocabulário da autoconfiança. A América “de pleno direito” e “sem dúvida alguma” tinham de apoiar os esforços do governo iraquiano; e há “absoluta clareza” de que o América deteve o EIIL. Quanto ao “Estado Islâmico” propriamente dito, não passa(ria) de “distorção insultante do Islã”, “inimigo do Islã”, “culto militante fantasiado de movimento religioso” de “assassinos a sangue frio” cuja filosofia “saiu da Idade da Pedra”. O que é isso? Começamos por declarar que o EIIL “saiu” da Idade Média; depois, que “saiu” do século XVIII. Agora, “saiu” do ano 2.000 a.C.

 Graças aos céus temos o general John Allen – o qual, nem faz muito tempo, andava propondo garantias de “segurança” para o Vale do rio Jordão que ambos, palestinos e israelenses, puseram abaixo – para resolver o caso no Iraque. É o ex-vice comandante da província Anbar do Iraque, homem – segundo Kerry – com “grande respeito” na região, com “conhecimento das tribos sunitas” e – ah, mas que perfeito momento McGonagall, esse – “de todo o pessoal por lá e que são parte da mistura a ser capaz de mobilizar a ação”. Não surpreende que Kerry também tenha dito ao mundo que, dos 50 aliados internacionais anti-EIIL da América, alguns, sim, se engajarão em “atividade cinética”. Aposto que eles vão. Embora eu também aposte que ninguém vai ver qualquer força aérea árabe unir-se ao bombardeio aéreo franco-americano.

O que Kerry absolutamente não nos pode dizer é tão simples quanto o que ele diz que será simples a luta contra o EIIL: que terá de haver algum tipo de aliança – algum tipo – entre o “ocidente” e o Irã, para derrotar o EIIL; que essa aliança inevitavelmente terá de incluir algum entendimento não revelado com a Síria de Bashar al-Assad; e quem sabe até com os horríveis “super-terroristas” do  Hezbollah, os quais – diferentes do que Kerry diz do EIIL – não andam por aí “matando e estuprando e mutilando mulheres” ou vendendo meninas “para serem escravas sexuais de jihadistas”.

Mas para um homem que pensou que poderia costurar uma paz palestino-israelense em 12 meses, o que mais você pode esperar? Sim, o EIIL é o mais recente espectro a nos assombrar. Mas há outro, não mais distante, que ameaça todos e que, esse sim, tem de ser derrotado, “puro e simples, e fim da história”. Ameaça matar infinitamente mais gente que o EIIL. Recebeu o nome de um obscuro rio africano. Então, onde está a convocação de uma aliança de 50 nações para destruir o Ebola?