30 de setembro de 2014

OTAN por trás do plano Erdogan

Manlio Dinucci

Il Manifesto

Criou-se uma situação "subterrânea" nos últimos dois anos, aproveitando o "caos da guerra civil na Síria": eis a forma como o presidente Obama reconstruiu numa entrevista ao "60 Minutos" a gênese do Emirado Islâmico, dizendo tê-lo "subestimado" e ter "sobrestimado" a capacidade do exército iraquiano de o combater. Razão pela qual os Estados Unidos "reconhecem que a solução está em vias de se tornar militar". Obama matou, assim, dois coelhos de uma só cajadada: por um lado, assume a falha de ter subestimado o EI, mas não a real, a de ter facilitado o seu desenvolvimento ao armar e infiltrar grupos islâmicos na Síria e no Iraque, por outro lado ele apresenta a imagem de uma administração de mãos limpas obrigado, agora, a usar a força militar para proteger do E.I. os civis sírios, curdos e iraquianos.

Os ataques dos EUA concentram-se em sítios com petróleo na Síria, sob o pretexto de que eles estão a ser explorados pelo EI: o golpe do plano é, certamente, para demolir toda a rede de indústrias e infra-estruturas sírias, restantes, afim de derrubar o governo de Damasco. Estes locais estão a ser atacados não apenas a partir do ar, mas também a partir do mar: dois navios de guerra dos Estados Unidos, o USS Arleigh Burke e o USS Philippine Sea, estão lançando, a partir do Mar Vermelho e do Golfo Pérsico, centenas de mísseis Cruzeiro sobre locais na Síria. Enquanto, ao mesmo tempo, que são armados e treinados "grupos rebeldes sírios moderados", prepara-se a operação terrestre sob a cobertura do dito "plano Erdoğan".

O plano, oficialmente proposto pelo presidente turco, prevê a criação de uma «zona tampão» em território sírio ao longo da fronteira com a Turquia, reforçada por uma «zona de exclusão aérea», estabelecida sobre o nordeste da Síria, formalmente para proteger os civis dos ataques de aviões governamentais sírios (que de fato, hoje em dia, já não podem sobrevoar a área, dominada pela Força Aérea dos Estados Unidos). O plano é, na verdade, o produto da estratégia dos EUA / OTAN: como o confirmaram o secretário da Defesa, Chuck Hagel e o general Martin Dempsey, a maior autoridade militar americana, que se declararam «disponíveis para apreciar o pedido do Presidente Erdoğan». A criação de uma zona tampão tornou-se «uma possibilidade», declarou o general Dempsey, acrescentando que tal requereria «ataques aéreos para inutilizar o sistema de defesa aérea do governo sírio». (The New York Times, 27 de setembro de 2014)

A Turquia está na vanguarda da operação militar contra a Síria: a OTANtem lá mais de vinte bases aéreas, navais e de espionagem eletrônica, reforçadas em 2013 por 6 baterias de mísseis Patriot americanas, alemãs e holandesas, podendo abater até qualquer aeronauta vogando no espaço aéreo sírio. A estas bases acrescentou-se um dos mais importantes comandos da Aliança: o Landcom, responsável por todas as forças terrestres dos 28 países membros, ativada em Izmir (Esmirna). O deslocamento do comando das forças terrestres aliadas da Europa para a Turquia - endossadas ao Oriente Médio (em particular à Síria, Iraque e Irã) e ao Cáspio - indica que, nos planos de EUA / OTAN prevê-se também o emprego de forças terrestres aliadas nesta área de importância estratégica fundamental. O Landcom, às ordens do general americano Ben Hodges, faz parte da JFC Naples, a Força Aliada conjunta cujo quartel-general está em Lago Patria, sob o comando do Almirante americano Mark E. Ferguson III: este é ao mesmo tempo comandante da Força Conjunta Aliada, das Forças navais americanas na Europa e das Forças Navais do AFRICOM. Um jogo estratégico de três cartas, que permite ao Pentágono manter sempre o comando.

Como, acerca disto, também mostram as investigações do New York Times e do The Guardian, nas províncias turcas de Adana e Hatay, fronteiriças à Síria, a CIA abriu centros de treinamento militar de combatentes para se infiltrarem na Síria, nos quais foram treinados grupos islâmicos (inicialmente qualificados por Washington como terroristas) provindo do Afeganistão, da Bósnia, da Chechênia, da Líbia e de outros países. As armas chegam sobretudo via Arábia Saudita e Catar. O comando das operações está a bordo de navios da OTAN, no porto de Alexandretta. É isto, pois, que está em vias de realizar o "plano Erdoğan".

29 de setembro de 2014

O poder político da expansão capitalista

Capitalismo de compadrio

Norman Pollack

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Vale tudo, para demonizar Putin, mesmo se, como hoje, a acusação é que ele viveria cercado de oligarcas – o que é muito mais a própria face dos Estados Unidos, se se olhasse no espelho. Não preciso nem quero discutir ou explicar os negócios da plutocracia local que modelaram a economia russa pós-soviética. Sinceramente, a visão distópica de Jeffrey Sachs, que manda rasgar o socialismo em farrapos, é pior que só ideia infeliz; a aceitação operacional que essa visão recebe na Rússia é trair um Mundo Socialista que, depois da morte de Stalin, poderia ter feito avançar a democratização de largas porções da economia política internacional e mordido porção considerável do poder e do desempenho econômico dos Estados Unidos. Em vez disso, parece estar acontecendo o exato inverso. Agora a Rússia, depois, sem demora a China, entram na alça de mira para serem politicamente enfraquecidas e na sequência politicamente desmembradas e/ou empurradas para o retrocesso econômico, porque a militarização pelos Estados Unidos do capital monopolista não tolerará oposição em sua estrutura recém definida de rivalidades intracapitalistas.

Putin e Li romperam a conexão histórica com Marx. Por isso eu, por exemplo, quero que se veja em Rússia e China versão abastardada do capitalismo de Estado, não alguma espécie de clara opção pelo socialismo democrático. Os bilionários, os palácios de veraneio na Côte d’Azur, os condomínios que são cidades completamente privatizadas na Belgravia, arrastam aqueles países para o nível mais americano de consumismo e desigualdade estrutural.

Mesmo assim, enfatizo aqui a Rússia, porque há uma diferença: Putin não saiu por aí armado para conquistar o mundo; uma Rússia estável numa ordem internacional igualmente estável parece bastar, e mantém dentro de limites estreitos quaisquer aspirações à hegemonia, se houver. Com Putin, nada há da retórica grandiloquente de Obama sobre salvar o mundo para a liberdade e a democracia; nada de orçamento militar que estrangula a sobrevivência do país e que, parece que por projeto, já destruiu a rede de proteção social; e nada, tampouco, com Putin, da expansão drástica da modernização nuclear, para tornar letal todo o estoque de armas e aperfeiçoar os meios para transporte e detonação das armas. Putin é líder mundial muito mais circunspecto que Obama e seus predecessores. O rótulo da KGB tem alto valor propagandístico na campanha de demonização de Putin, mas não há registro de que Putin algum dia tenha pessoalmente “ticado nome-sim nome-não”, numa lista de gente a ser assassinada por drones e ataques aéreos, como no mundo cercado por bases militares em que reina Obama. E a KGB seria, por acaso, talvez, mais repressiva e mais assassina que a CIA ou Forças Especiais dos Estados Unidos, promovendo mudança de regime? Ou mais invasiva, contra a privacidade dos cidadãos, que os programas de vigilância em massa da Agência de Segurança Nacional (NSA)?

Mas, sim, oligarcas são detestáveis, não importa a nacionalidade. E o New York Times publicou artigo assinado por Steven Lee Myers, Jo Becker e Jim Yardley, intitulado “Private Bank Fuels Fortunes of Putin’s Inner Circle” (28 de setembro de 2014), que lança luz sobre a ascensão de Putin ao poder e – embora os EUA insistam em ignorar o assunto e não se veja nenhuma referência ao tema na imprensa de “informação” − mesmo que seja item que muito contribuiria para demonizar Putin – lança luz também sobre os custos sociais destrutivos da PRIVATIZAÇÃO de recursos do Estado. Quando a Rússia põe-se sistematicamente a seguir os Estados Unidos, causa dano grave ao próprio potencial e realidade humanista. Paradoxalmente, a Velha Guerra Fria refletia diferenças ideológicas; mas a Nova Guerra Fria está parcialmente apagando aquelas diferenças, embora, sim, esteja subindo as apostas, porque dentro do capitalismo esconde-se hoje besta muito mais feroz do que a que se conhecia antes de 1917 e da Revolução Bolchevique: a da competição sem trégua pela supremacia planetária. De diferente hoje, também, que a Rússia não dá sinais de estar disposta, no governo de Putin, a entrar no jogo; como se invertesse, para parafrasear, o mote de Stálin: “capitalismo num só país”. Quanto a Obama, por que parar às portas da Rússia?

*

This is all about Bank Rossiya. Myers et. al. write, “In late March, the United States had made Bank Rossiya a primary target of sanctions, effectively ostracizing it from the global financial system. Now the Kremlin was pushing back, steering lucrative accounts its way to reduce the pain.” (I flinch when I see “Kremlin” referred to in The Times, a way of conjuring Uncle Joe back in command.) Would Putin have continued to show favoritism to the bank – for he did earlier to some extent – if the US hadn’t made it central to the sanctions, and stigmatized it specifically by making it personal? No-one should doubt his nationalism, in this case transcending issues of cronyism because Bank Rossiya, under attack, had in his mind become a stand-in for Russia itself. In effect, by way of comparison Obama é mais capitalista, que nacionalista: quando favorece JP Morgan, Chase, Boeing, etc., não mistura, embora possa deliberadamente jogar um/uma contra o/a outro/a, o banco, o banqueiro ou a empresa, e a nação. Porque a nação, para Obama, é secundária ante os interesses dos grupos que o apoiam (razão pela qual as comunidades militar e de inteligência são consideradas ferramentas indispensáveis).

When the obscure Market Council shifted the business of the wholesale electricity market to Bank Rossiya, “a tidy coup set to yield an estimated $100 million or more in annual commissions,” there were other “state corporations, local governments and even the Black Sea Fleet... suddenly shifting their accounts to the bank, too,” creating “an enormous windfall.” Mas os jornalistas do New York Times não mencionam que várias das tais atividades pouco recomendáveis no Banco Rossiya aconteceram em abril, depois de as sanções já terem sido declaradas; o banco reagiu contra o regime de sanções, muito mais do que “recompensou empresários amigos”. Seja como for, o Bank Rossiya – se se desconta a retórica incendiária dos jornalistas – contribuiu para converter em bilionários “vários apoiadores de Putin, cuja influência sobre setores estratégicos da economia auxiliaram Putin a manter-se firmemente agarrado ao poder”. Parece ser verdade que, sim, a amizade com Putin alterou a distribuição da riqueza, mesmo que Putin, pessoalmente, não se tenha beneficiado.

Como paradigma do desenvolvimento capitalista, porém, lá está a transformação, de socialismo burocrático para capitalismo de Estado, com ou sem o papel de vanguarda entregue ao círculo presumido íntimo de Putin. (Bem provavelmente, o mesmo conjunto geral de dinâmicas históricas também se aplica à China, de Mao a Li; mas o capitalismo clientelista parece estar mais claramente identificado na China que na Rússia). Se a Rússia tivesse conseguido fazer uma transformação pacífica depois do fim da União Soviética, em mundo no qual o capitalismo não tivesse sido veículo para dominação internacional, talvez o resultado poderia ter sido uma economia mais genuinamente mista, depilada de bilionários e de favoritos do governo.

Isso não aconteceu. Na matéria do New York Times, os jornalistas acertam, no essencial geral, quando escrevem que: “Putin chegou ao poder prometendo eliminar, “como classe”, os oligarcas que haviam acumulado fortunas descomunais – e, para o modo de pensar do novo presidente, excessiva parcela de poder político – durante o governo do predecessor de Putin, Boris N. Yeltsin, no caos pós-comunista dos anos 1990. Em vez disso, o que se viu foi o surgimento de uma nova classe de magnatas, homens de sombrias origens soviéticas que devem a Putin a vasta riqueza que acumularam e que, em troca, lhe garantem total fidelidade política.”

Lamentavelmente, os bancos serão os bancos. O Bank Rossiya (como disse Willie Sutton: “roubo bancos porque é lá que está o dinheiro”), é resultado do talento para o empreendedorismo, de gente como Yuri Kovalchuk, presidente e maior acionista, “físico por formação acadêmica, às vezes chamado “o Rupert Murdoch da Rússia”, pelo papel que teve na coordenação e arquitetura dos interesses do seu banco, na “mídia”. Recorre também a “sombrias estruturas corporativas”, como empresas em paraísos fiscais, como as Ilhas Virgem britânicas. Quanto aos acionistas, foi gratificante ver na lista o nome de Sergei Roldugin, violoncelista que usou seu investimento no banco para converter um palácio do século XIX em São Petersburgo, em “casa da música e academia para formação de músicos clássicos” (o exemplo-propaganda vai aqui, grátis). Não se discute o clientelismo – o New York Times cita vários exemplos, além de enorme quantidade de oligarcas conhecidos associados ao banco. “Conexões de negócios”, escrevem os jornalistas do New York Times, “tornaram-se conexões profundamente pessoais” [também com] “Putin, que, com sete empresários, muitos dos quais acionistas do Bank Rossiya, formaram [em 1996, o que os jornalistas não esclarecem], uma cooperativa de casas de verão, dachas, chamada Ozero [“lago”], no nordeste de São Petersburgo”. 

Mas, e tudo isso será, como esbravejam os críticos, “cleptocracia legalizada”? A discussão seria longa, desinteressante e inconclusiva. Para reduzir ao que importa, basta dizer que o fator pessoal aparece bem separado das considerações de Estado, na cabeça de Putin. Um daqueles oligarcas, Gennady Timchenko, que negocia petróleo e investe no Bank Rossiya (e que está hoje sob sanções impostas pelos EUA), explicou que: “... nunca lhe ocorreria questionar o presidente da Rússia sobre suas políticas na Ucrânia, fosse qual fosse o custo delas para empresas como as suas. 'Seria impossível', disse ele ao New York Times, referindo-se ao presidente da Rússia formalmente pelo primeiro nome e nome do pai. Vladimir Vladimirovich age com vistas a defender os interesses da Rússia, sempre, em qualquer situação. Não faz concessões. Nem jamais passaria por nossa 'cabeça discutir essas coisas'”. Essa fala é extremamente importante. O capitalismo de estado não é necessariamente a interpenetração de empreendimentos, empresas, empresários e governo, que tantas vezes apresentei em artigos para CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names em que examinava as dinâmicas estruturais que estão levando os Estados Unidos para a fase fascista do capitalismo avançado.

Ainda que Vladimir Vladimirovich não seja exatamente Tolstoi reencarnado, mesmo assim vê-se, em Putin, que o capitalismo na Rússia é mais russo, que nua-e-cruamente capitalista. Os Estados Unidos sempre foram e permanecem puros capitalistas, impondo as mais repressivas políticas domésticas (vigilância massiva, clima de hostilidade contra os trabalhadores, o trabalhismo e o trabalho, vasta disparidade na distribuição da riqueza) e também as mais violentas políticas externas (guerra, intervenção, luta pela hegemonia) para tentar dar sustentabilidade ao capitalismo puro dos Estados Unidos. Essa é diferença muito grande entre Rússia e Estados Unidos, com os Estados Unidos declarando intolerável que a Rússia, talvez hoje ainda mais que sob a forma soviética, coloque outros fatores acima e por cima do capitalismo como os Estados Unidos o praticam: como sistema integralmente agressivo-expansivo, sem parar ante nenhum obstáculo em seu avanço global. Foi fácil opor-se e condenar o socialismo. É menos fácil opor-se e condenar essa formação política nacionalista-capitalista que se vê hoje na Rússia de Putin, porque a simples existência dessa formação dentro do capitalismo já obriga a ver outras potencialidades, dentre as quais, que, mesmo no capitalismo, há meios para garantir melhor atenção e melhores condições de vida para os próprios cidadãos, do que o que se vê hoje nos Estados Unidos.

Meu comentário ao artigo de Myers-Becker-Yardley no The New York Times, mesma data, a seguir:

“Excelente documentação. Mas análise efetivamente e realmente comparativa mostra o quê? Que o capitalismo de empresários-cupinchas (oficialmente chamado “capitalismo clientelista”) está vivo e em ótimas condições tanto na Rússia como no Ocidente. Criticar o ocidente pelos mesmos mal-feitos soa estranho, porque os mesmos pressupostos valem igualmente para EUA e Rússia. Os EUA vivem hoje a fingir as mesmas puras convicções de algum anticomunismo, como na Primeira Guerra Fria (não há como negar que já estamos na Segunda), quando, na verdade os EUA invejam muito o sucesso capitalista da Rússia. Os EUA atacam Putin como a raposa ataca uvas que não pode alcançar. O que foi o ‘resgate’ dos bancos norte-americanos “grandes demais para quebrar”, se não o capitalismo mais clientelista? O que é o íntimo relacionamento entre o Pentágono e as grandes empresas do complexo industrial da Defesa, se não o capitalismo mais clientelista? Não é preciso que algum líder, no caso Putin, ou exiba ou não exiba ele, pessoalmente, a doença. O capitalismo clientelista pode ser e é SISTÊMICO, nos Estados Unidos. E Obama mantém-se passivo e deixa aumentar a enorme clivagem, que só cresce em relação a distribuição da riqueza. 
Putin pode dizer e comprovar que não enriqueceu no capitalismo clientelista e, na verdade, aceito sem dificuldade seu argumento de que suas políticas são motivadas por considerações geopolíticas e geoestratégicas, não por o que deseje um ou outro banqueiro ou oligarca. Os EUA e Obama podem dizer o mesmo? Como poderiam, se não fazem outra coisa além de obrar servilmente a favor dos interesses de empresários e empresas norte-americanas por todo o planeta, armados até os dentes e matando sem parar, especialmente, hoje, no Oriente Médio? O negócio das sanções chega a ser engraçado: folha de parreira que nem esconde o plano ambicioso dos EUA para conter, isolar e enfraquecer a Rússia – na sequência, como já disse, atacarão a China – com os EUA cada vez mais desesperados para recuperarem o trono na estrutura global. Com a ascensão de Rússia e China, os EUA que tratem de aprender a partilhar o poder. Será isso, ou o colapso.”

Batalha do trabalho contra a exploração pelo capital, 150 anos atrás e hoje

Marcello Musto*


Em 28 de setembro de 1864, a Associação Internacional dos Trabalhadores foi fundada em Londres. Tornou-se o protótipo de todas as organizações do movimento operário, que tanto reformistas como revolucionários tomaram subsequentemente como seu ponto de referência.

Muito rapidamente, a Internacional despertou paixões em toda a Europa. Graças à sua atividade, os trabalhadores conseguiram compreender melhor os mecanismos do modo de produção capitalista, tornar-se mais conscientes das suas próprias forças e desenvolver novas e mais avançadas formas de luta pelos seus direitos e interesses.

O 150º aniversário da Internacional, ao contrário, ocorre em um contexto muito diferente. O mundo do trabalho sofreu uma derrota de época e está no meio de uma profunda crise.

Depois de um longo período de políticas neoliberais em quase todo o mundo, o sistema contra o qual os trabalhadores lutaram e conquistaram vitórias importantes voltou a ser mais explorador.

Décadas de assalto aos direitos dos trabalhadores obrigaram as organizações trabalhistas a buscar novos caminhos - descobrir caminhos de colaboração e solidariedade que possam novamente fazer ganho contra o enorme poder do capital globalizado.

Como antes, os trabalhadores devem descobrir como transformar o poder de seu número e compromisso em uma força que irá realizar para eles substanciais benefícios sociais e econômicos. As lições da Internacional podem ajudar a reverter a tendência.

As organizações de trabalhadores que fundaram a Internacional eram um grupo heterogêneo. A força motriz central foi o sindicalismo britânico, cujos líderes conceberam em grande parte a Internacional como um instrumento para bloquear a importação de mão-de-obra estrangeira em caso de greves.

Outra força significativa na organização foram os "mutualistas", uma tendência moderada - longamente dominante na França - inspirada nas teorias de Pierre-Joseph Proudhon.

O terceiro grupo em importância foram os comunistas em torno da figura de Karl Marx.

As fileiras da Internacional incluíam muitos trabalhadores inspirados em teorias utópicas e exilados que tinham idéias vagamente democráticas.

Garantir a coabitação de todas essas correntes na mesma organização foi a grande realização política de Marx. Seus talentos lhe permitiram conciliar o aparentemente irreconciliável, garantindo que a Internacional não seguisse rapidamente as muitas associações de trabalhadores anteriores no caminho para o esquecimento.

Foi Marx quem deu um propósito claro para a Internacional e que conseguiu um programa político não-exclusivista, mas firmemente trabalhista, que ganhou apoio de massas além do sectarismo. A alma política de seu Conselho Geral era sempre Marx: redigiu todas as suas principais resoluções.

O final da década de 1860 e início da década de 1870 foi um período repleto de conflitos sociais. Muitos trabalhadores que tomaram parte em ações de protesto decidiram fazer contato com a Internacional, cuja reputação rapidamente se espalhou amplamente.

Em toda a Europa, a Associação aumentou o número de seus membros e desenvolveu uma estrutura organizacional eficiente. Alcançou, além disso, o outro lado do Atlântico através dos esforços dos imigrantes nos Estados Unidos.

Assim, para todas as dificuldades ligadas a uma diversidade de nacionalidades, línguas e culturas políticas, a Internacional conseguiu alcançar a unidade e a coordenação em uma ampla gama de organizações e lutas espontâneas. Seu maior mérito era demonstrar a importância crucial da solidariedade de classe e da cooperação internacional.
Quando a Internacional se dissolveu em 1872, era uma organização muito diferente da que tinha sido no momento de sua fundação: os reformistas já não constituíam a maior parte da organização e o anticapitalismo se tornara a linha política de toda a Associação (incluindo tendências recentemente formadas, como o anarquismo liderado por Mikhail Bakunin).

O quadro mais amplo também era radicalmente diferente. A unificação da Alemanha em 1871 confirmou o início de uma nova era - evidente também na unificação italiana e na Restauração Meiji no Japão - onde o Estado-nação se tornaria a forma central de identidade política, jurídica e territorial.

Isso colocou um ponto de interrogação sobre qualquer órgão supranacional que exigisse que os membros renunciassem a uma parte considerável da liderança política.

Em décadas posteriores, o movimento operário adotou um programa socialista consistente, que se expandiu por toda a Europa e depois pelo resto do mundo, e construiu novas estruturas de coordenação supranacional.

Além da continuidade dos nomes (a Segunda Internacional de Kautsky, de 1889-1916, a Terceira Internacional de Lenin, de 1919 a 1943, ou a Internacional Socialista do Chanceler Alemão Willy Brandt, de 1951 a hoje), as várias "Internacionais" de política socialista se referiram - embora de formas muito diferentes - ao legado da Primeira Internacional.

Assim, sua mensagem revolucionária provou ser extraordinariamente fértil, produzindo resultados ao longo do tempo muito maiores do que aqueles alcançados durante a sua existência.

A Internacional ajudou os trabalhadores a entenderem que a emancipação do trabalho não poderia ser conquistada em um único país, mas era um objetivo global.

Ela também espalhou uma consciência em suas fileiras que eles tinham que atingir a meta através de sua própria capacidade de organização, em vez de delegá-la a alguma outra força, e que - aqui a contribuição teórica de Marx era fundamental: era essencial superar os limites do próprio sistema capitalista, uma vez que as melhorias dentro dele, embora necessárias para prosseguir, não eliminariam a exploração e a injustiça social para com os trabalhadores.

Grandes mudanças políticas e econômicas sucederam-se nos últimos 25 anos: o colapso do bloco soviético, a ascensão à importância das questões ecológicas, as mudanças sociais geradas pela globalização e uma das maiores crises econômicas do capitalismo na história que, de acordo com números da Organização Internacional do Trabalho, adicionou outros 27 milhões de desempregados desde 2008 para levar o total para mais de 200 milhões.

Além disso, as "reformas" do mercado de trabalho (um termo que, com o tempo, mudou o seu significado progressista original) que introduziram, ano após ano, mais flexibilidade e mais fácil rescisão dos trabalhadores criaram desigualdades mais profundas do que supostos melhoramentos no emprego. A situação atual em muitos países europeus, com taxas alarmantes de desemprego, é paradigmática deste fracasso.

No entanto, os movimentos de protesto global que têm sido recentemente ativos na maioria das partes do mundo se distinguiram até agora pelo caráter muito geral de sua demanda por igualdade social, sem dar suficiente atenção aos novos problemas e mudanças radicais no mundo do trabalho.

De fato, em um período ligeiramente anterior, vários autores apresentaram a tese de que o "fim do trabalho" estava à vista. Desta forma, o trabalho, tendo sido um protagonista chave ao longo do século XX, tornou-se cada vez mais um jogador fraco e secundário, com os sindicatos com cada vez mais dificuldades de representar e organizar os trabalhadores mais jovens ou migrantes, num mercado de trabalho cada vez mais flexível, onde os postos de trabalho são inseguros e cada vez mais desprovidas de direitos.

No entanto, se a globalização capitalista enfraqueceu o movimento operário, também abriu, em muitos aspectos, novas vias, através de uma maior capacidade de comunicação, que podem facilitar a cooperação e solidariedade internacional dos trabalhadores.

Com a recente crise do capitalismo - que agudizou mais do que nunca a divisão entre capital e trabalho - o legado político da organização fundada em Londres em 1864 recuperou profunda relevância. Suas lições hoje são mais oportunas do que nunca.

* Marcello Musto leciona teoria sociológica da Universidade de York, Toronto. Ele é um especialista no pensamento de Karl Marx e na história do movimento operário. Seu último livro intitula-se "Trabalhadores, uni-vos! Antologia política da I Internacional" (Boitempo Editorial: São Paulo, 2015).

28 de setembro de 2014

É perfeitamente razoável negociar com vilões como EIIL, então por que não fazê-lo e salvar algumas vidas?

Ninguém critica o governo de Israel quando ele troca prisioneiros com o Hezbollah



Robert Fisk


Ele se ofereceu para fazer um acordo com o Estado Islâmico. Não, não se trata de David Cameron e nem de Obama, é claro. Estou falando de Walid Jumblatt, líder libanês. Ele está exigindo que o governo do Líbano troque prisioneiros islâmicos por 21 soldados e policiais detidos pelo EI e pela Jabhat al-Nusra.

No caso de você ter esquecido – ou simplesmente não saber da história porque estes homens eram libaneses, não ocidentais – gostaria de acrescentar que um dos soldados foi morto com um tiro na cabeça. Dois deles foram decapitados. Com vídeo, é claro. Assim, suas famílias puderam ver a sua decapitação no conforto da sua casa.

Por isso, vamos ser claros a esse respeito. O exército libanês, a única instituição séria no país, foi emboscado em agosto passado na cidade sunita de Arsal, na fronteira sírio-libanesa. Arsal é ao mesmo tempo uma cidade e um campo de refugiados, além de quartel general do EI – inimigos mortais, como nós jornalistas gostamos de dizer, do presidente sírio Bashar al-Assad -, e é por isso que Jumblatt não será condenado pelo Sr. Cameron ou por Obama. Afinal, Cameron e Obama estão bombardeando o EI, certo? Mas eles também querem derrubar Assad, não é mesmo? Problema.

Agora, Jumblatt é um cara generoso – e por que não seria quando as famílias dos 21 soldados que ainda estão desaparecidas e policiais implorou-lhe para dizer ao governo libanês para trocar seus filhos e maridos e irmãos para os islâmicos presos? O porta-voz do Jumblatt anunciou que o governo “não pode negociar sob a ponta de uma faca”. Mas todos nós sabemos o que isso significa. Você pode.

E eu estou impressionado com o quão diferentes os libaneses são dos britânicos. Esta manhã, as famílias dos 21 soldados e policiais planejam armar barracas em frente às casas dos ministros do governo. Ontem, eles bloquearam estradas em todo o Líbano. Pelo menos um jornal afirmou que o governo estava matando seus próprios soldados, recusando-se a negociar.

Presos mantidos em Roumieh, prisão ao norte de Beirute, por sua luta contra o exército em 2007 no campo palestino de Nahr el-Bared, ainda não foram julgados. Isis wants them freed. Interesting. Because they belonged to a group called Fatah al-Islam and were – at the time – allegedly sent into Lebanon with the permission of the Syrian authorities. Is Fatah al-Islam really Isis? Did Isis exist in 2007 – seven years ago?

Para lembrar que os libaneses são humanos como nós, eis o texto de uma mensagem que o cabo Sulieman Dirani, do exército libanês, enviou à sua família conclamando seus parentes a protestar nas ruas do Líbano: “Peço ao exército libanês e ao estado libanês que tenha consciência e simpatia com os nossos pais e mães e considerem-nos seus filhos. Peço a eles para ver como nossos pais e mães estão dormindo nas ruas sem ninguém mostrar qualquer interesse no assunto.”

E talvez esses soldados possam viver. O governo libanês tem um homem duro que lida com os civis seqüestrados. Ele se chama Abbas Ibrahim, um homem corajoso que costumava andar desarmado no campo palestino de Ein el-Helweh em Sidon para falar com os homens de Osama bin Laden. Ele agora é chefe da “Segurança geral” libanesa. E sim, ele é um general. Organizou a libertação de freiras cristãs detidas pela Jabhat al-Nusra na cidade síria de Yabroud. Muitos outros devem a sua vida a este homem. Não é da sua coragem que eu estou falando. É do fato de que o governo libanês está disposto a conversar com os bandidos. Nós não fazemos isso, é claro. Mas por que não?

Perfeitamente razoável, governos respeitáveis trocam prisioneiros. Veja Israel. O país devolve combatentes do Hezbollah por apenas alguns soldados israelenses capturados. Já fez isso muitas vezes. Ninguém critica o governo israelense. Em todo o Oriente Médio, prisioneiros são libertados para outros cativos. A liberação dos de soldados em troca de outros cativos remonta ao tempo das Cruzadas.

Mas há outros problemas no Líbano. Um terço da população é agora síria. E os militares estão profundamente preocupados com o fato de que o EI está no interior do país. Não apenas em Arsal. Mas no sul do Líbano, também. Refugiados sírios estão partindo de Shebaa, perto da fronteira com Israel. Na verdade, parte de Shebaa é reivindicada por Israel – embora mapas do antigo mandato francês sugerem que a terra é ocupada pela Síria. Mas os israelenses devem estar preocupados ao ouvirem falar de um novo slogan que estava pintando nas paredes de Hasbaya, uma pequena e bela cidade ao norte de Shebaa. Ele pregava um futuro Estado Islâmico no Líbano.

26 de setembro de 2014

O Paradoxo de Chomsky

Jeffrey St. Clair

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Uma noite, sobre uma garrafa de whiskey irlandês, Alexander Cockburn contou-me uma história sobre os dentes de Noam Chomsky. Um dia, esse grande cérebro foi ao dentista ver se estava tudo bem com os seus dentes, depois de vários anos de negligência. Durante o exame, o dentista verificou um grande desgaste do esmalte dos molares de Chomsky.

“Noam, você range os dentes?”

“Que eu saiba, não.”

“Bem, o esmalte está bastante desgastado. Talvez ranja os dente de noite. Pode perguntar à sua mulher se ela tem reparado nisso?”

Chomsky regressa à sua casa de Lexington, perto do campus universitário do MIT e conta à sua mulher Carol a conversa com o dentista. Nessa noite e na seguinte, Carol ficou acordada depois de Noam ter adormecido, tentando verificar algum ranger noturno, mas não se apercebe de nada de anormal.

No entanto, Carol reparou num furioso cerrar de dentes durante a manhã, à mesa do pequeno almoço, enquanto Noam lê o jornal New York Times.

Chomsky ensinou duas gerações a lerem os jornais oficiais, a detetarem as farpas metidas nas histórias, os subtis desvios e falsas construções, as decisivas omissões do contexto, e o servilismo perante o poder. O que Chomsky não conseguiu fazer foi ensinar-nos como deixar de ler o New York Times. Como consequência, milhares de ativistas em todo o mundo pegam no Times (ou no Guardian ou no Washington Post) todas as manhãs, com marcadores vermelhos na mão, e começam a sublinhar e a desgastar o esmalte dos seus dentes.

Sendo luditas, Cockburn e eu chegamos tarde à internet. O nosso jornal CounterPunch só entrou em linha no final da década de 1990, quando o sol se punha sobre o governo de Clinton. Mas não demorou muito até nos apercebermos que a internet disponibilizava uma solução para aquilo a que chamávamos o Paradoxo de Chomsky, um dilema existencial que frequentemente deixa a Esquerda num ambiente hostil a lutar contra fantasmas — ou seja, uma realidade política construída pelos editores dos meios de comunicação de elite.

Depois de alguns anos a publicar na internet para uma audiência de mais de um milhão de leitores por mês, tornou-se claro que a velha luta "David conta Golias" dos panfletários de esquerda batalhando contra os barões unidos da imprensa, começava a equilibrar-se. Numa tela de 12 polegadas o CounterPunch é tão grande como o New York Times ou Rupert Murdoch, que despejou 580 milhões de dólares no Myspace.com em 2006 quando tardiamente se apercebeu que o mundo tinha mudado.

Jeff Bezos, o titã da Amazon, rebentou com 250 milhões de dólares no decrépito Washington Post. Porquê? Vaidade? O que é um oligarca sem o seu próprio jornal? O velhos impérios dos jornais estão mortos ou moribundos.

Há vinte anos atrás o Los Angeles Times era um super poder. Hoje cambaleia entre um corte selvagem de custos e uma demissão forçada. Será que as grandes primeiras páginas e os tabloides irão desaparecer? Não, num futuro previsível, tal como os trens não desapareceram com o advento das grandes rodovias. Uma indústria madura trará retorno econômico e atrairá investidores interessados em dinheiro ou poder, muito antes dos seus dias de glória terminarem. Mas é um mundo em decadência e o sistema de propaganda está a deteriorar-se.

A esquerda está tão habituada a ser tratada pior do que cão que nem é capaz de agradecer a sorte quando ela lhe bate à porta. Há trina anos atrás, muitos dos artigos que publicamos diariamente no CounterPunch desafiando a insanidade oficial divulgada pela imprensa de massas, seriam condenados a aparecer em revistas de pequena circulação ou a resumos de 30 segundos na rádio Pacífica. Há trinta anos atrás, para saber o que realmente se passava em Gaza, seria preciso ter um rádio de onda curta decente ou um aparelho de fax. Agora não. Agora podemos ter relatos a partir de Gaza ou Ramallah ou Oaxaca ou Vidharba e disponibilizá-los a uma audiência mundial numa questão de minutos.

Naturalmente, o Estado não gosta de perder o controle. Claro, poderá começar a policiar mais a internet e a encerrar sítios mais frequentemente. O custo de acesso pode disparar. Tudo isso pode acontecer e, na ausência de resistência, provavelmente acontecerá. Mas neste momento há novas oportunidades para serem exploradas e usadas, finalmente, em benefício dos radicais.

25 de setembro de 2014

EI, EUA e Turquia: Todos estão loucos?

O plano do mestre

Kemal Okuyan

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Vem-nos sendo dito que o processo de confrontação aberta que ocorre no Oriente Médio está fora de controle, que as ações dos principais atores envolvidos perderam qualquer racionalidade e que poderão ocorrer alianças ou confrontos inesperados nos próximos tempos. E em todos os casos é o Estado Islâmico (EI) que está à frente no debate. Vem-nos sendo dito que a existência dessa organização sanguinária é o resultado da falta de perspectiva e de planejamento, que é também o resultado de uma estratégia imediatista do imperialismo e de fanatismo religioso. Vem sendo mencionado que o ator que foi posto no palco para desempenhar outro papel começou a improvisar por conta própria de maneira tão acentuada que o diretor, o roteirista e os figurinistas ficaram pasmos com sua perda de controle.

Quando o assunto em questão são as políticas dos EUA para a região, encontramos muito frequentemente o conceito de “caos organizado”. Obviamente que não devemos entender isso como o planejamento e a criação do caos em cada um dos mínimos detalhes. Numa região onde a energia destrutiva pode continuar recriando a si mesma, providenciando insumos que acionam a liberação dessa energia, os EUA estão tentando fazer com que as coisas cheguem num estágio diferenciado de controle, num amplo domínio político no qual diferentes elementos começam a mover-se em diferentes direções e onde estes confrontam uns aos outros abertamente. Das relações políticas francas e declaradas às relações dissimuladas, o estabelecimento dessas entre todos os elementos vem se expandindo, abrindo continuamente novos canais de intervenção...

Em resumo, no atual estágio não há nenhuma razão para declarar que certos atores estão fora de controle ou que não são administráveis. Afinal, será que esses atores já foram administrados segundo seu sentido implícito? Estamos constantemente falando sobre grupos islâmicos e tentando imaginar quando que a Al-Qaeda, Talibã, Al-Nusrah e agora o Estado Islâmico foram aliados dos EUA e quando passaram a ser inimigos. Vamos olhar por outra perspectiva. Saddam Hussein. que foi deposto pela ocupação militar estadunidense sobre o Iraque, não havia ele mesmo sido conduzido pelos EUA a entrar em guerra contra o Irã? Mais tarde, ele não recebeu o aval de Washington para ocupar o Kuwait? E ainda assim não acabou tendo seu nome adicionado a lista de inimigos dos EUA logo depois?

Estivera Saddam fora de controle ou estava o imperialismo estadunidense seguindo uma “estratégia” dinâmica que amadureceu em menos tempo que qualquer um poderia ter conseguido para a situação política dessa região? Essa estratégia que constantemente se choca contra um muro pode ser vista como um carrinho de bate-bate que muda de direção a cada vez que acerta um obstáculo. Dessa maneira, os EUA conseguem controlar a situação até que alguém lhe tome o carrinho de assalto ou lance um carrinho mais potente para brincar na região; região esta que mais parece um campo minado...

O Estado islâmico está fora de controle, a Turquia vem sendo governada por maníacos e os EUA estão em choque... Será realmente possível explicar tudo isso que está acontecendo nesses termos?

Se prestarmos atenção torna-se claro que o ISIS está se comportando de maneira previsível e lógica. Querem mesmo que acreditemos que seus líderes são psicopatas? Ok, talvez sejam em parte, mas não são tão mais do que os que estão em Washington ou Ankara! Dessa forma, o que determina o comportamento do Estado Islâmico?

Fanatismo religioso... Mais presente em suas bases que em suas lideranças.

Dinheiro... Em grandes quantidades.

O desejo de governar e dominar... Numa versão que cresce a cada dia que passa.

Influência externa... Quanto a isso, absolutamente nenhuma dúvida!

A pergunta que deveríamos estar nos fazendo é se os EUA foram pegos despreparados pelas últimas ações do ISIS. Deixe-me apresentar a resposta... A reação do governo dos EUA à tomada da cidade de Mosul pelo Estado Islâmico é parecida com a reação de Davutoglu ao ataque a Reyhanli. O governo dos EUA está extremamente satisfeito com a agenda do Estado Islâmico. Com o passar do tempo podem ocorrer consequências indesejadas, mas isso é algo que eles irão relevar sobre a atuação política do ISIS. Essa não foi sempre a questão?

Outra pergunta emerge exatamente sobre esse tema. O que a Turquia está planejando fazer? Estará o seu governo desempenhando o novo papel que lhe foi atribuído como parte da redistribuição de funções entre os demais atores promovida pelos EUA ou estará a equipe de Erdogan-Davutoglu seguindo um caminho de insanidade que os levará a um lado contrastante com os EUA? Nenhuma das duas. Para ser mais preciso a pergunta que devemos fazer não é essa.

A Turquia não atua na região isoladamente a partir da incorporação mecânica de uma estratégia dos EUA. Como uma condição importante em seus processos decisórios, ela também deixa algum espaço para suas próprias prioridades políticas e ideológicas. Essa decisão nem sempre precisa estar alinhada com as estratégias dinâmicas dos EUA. Isso é impossível em todo o caso.

Vamos nos aprofundar na questão do Estado Islâmico um pouco mais. Entre os países que se juntaram à coalizão liderada pelos EUA contra o Estado Islâmico não estão ainda alguns que seguem financiando a mesma organização? Sim, há. No caso, a Arábia Saudita, o Qatar e a Jordânia iriam interromper os repasses de dinheiro e armas para o ISIS e não demoraria ao todo mais de uma semana para que toda a negociata estivesse interrompida. Entretanto, além de algumas questões simbólicas, nada de mais substancial foi feito nesse quesito. Em outras palavras, a coalizão reacionária continua financiando a organização a qual eles haviam declarado como “inimiga”. Quem acreditará em vocês depois disso? Mas eles querem que acreditemos que o ISIS está fora de controle. Vamos definir isso então: foi desejável que o ISIS estivesse fora de controle!

O governo do AKP anuncia publicamente, justamente sobre esse assunto, seu compromisso com o Estado Islâmico. Ele finge estar relutante a juntar-se à coalizão, ele não pode declarar o ISIS como “terrorista” e de tempos em tempos ele acaba confrontando o governo dos EUA. A existência de laços militares, econômicos, políticos e ideológicos entre a Turquia e o Estado Islâmico é de conhecimento público. Não é relevante debater se esses laços existem, mas sim em qual escala estão e quão profundo eles são. Isso é o que importa para o debate.

Como que Erdogan conseguiu tanta liberdade de movimentação? Por que, se os EUA estão forjando um “sistema” alheio a este caos eles precisarão de um supervisor que possa falar a mesma língua dos estados tribais islâmicos. O AKP também sabe que esse ator diferenciado não pode ser ninguém mais que eles mesmos. Não há nenhuma outra força mais apropriada para cumprir este papel. Um governo secularista na Turquia desejando colaborar com os EUA pode desempenhar também papéis bastante variados, mas ele não pode falar a linguagem ideológica reacionária que só o AKP pode fazer. Para que o AKP permaneça no poder, ele deve responsabilizar-se pelo Estado Islâmico e outros grupos. Os EUA compreendem isto. E para a perpetuação das justificativas para a intervenção estadunidense na região o ISIS precisa estar apoiado por alguém, precisa estar fortalecido, ao menos por algum tempo. Os EUA compreendem e fecham os olhos para a situação.

E enquanto tudo isso acontece, o AKP está cavando a própria cova. Com o anseio de ser a força política hegemônica de uma União do Oriente Médio (ou seja, uma união de estados tribais), como o novo Império Otomano, ele está se metendo em aventuras aquém de suas capacidades. Sem levar em conta a possibilidade de que um dia seus mestres da “estratégia dinâmica” poderão virar-lhe as costas e dizer “você é meu inimigo agora”...

23 de setembro de 2014

Ataques aéreos na Síria: ataques dos Estados Unidos sobre EIIL podem ajudar Bashar al-Assad manter seu regime vivo

Mas o líder sírio vai estar assistindo com preocupação como o uso do poder aéreo dos EUA se amplia para incluir mais alvos fora do seu objetivo inicial declarado

The Independent

Robert Fisk

No momento em que os Estados Unidos ampliaram a sua guerra contra o Estado Islâmico (EI) na Síria, o presidente Bashar al Assad ganhou um apoio militar e político maior do que qualquer outro líder árabe poderia se vangloriar. Com as bombas e mísseis que explodem no leste e norte da Síria, Assad agora pode contar com os Estados Unidos; Rússia; China; Irã; a milícia do Hezbollah; a Jordânia e uma séria de países ricos do Golfo; para manter vivo seu regime. Se alguma vez o velho provérbio árabe – “o inimigo de meu inimigo é meu amigo” – conteve alguma sabedoria, Assad comprovou que estava correto.

Em sua casa em Damasco, o líder sírio pôde refletir sobre o fato de que a nação mais poderosa da Terra – que no ano passado quis bombardear seu país até o esquecimento – está agora atacando aos seus inimigos mais ferozes. Sunitas sauditas, cujas doações de “caridade” financiaram o “Estado islâmico” também sunita, agora veem que seu governo supostamente ajuda os Estados Unidos a destruí-lo. Assim como o Irã xiita e seus protegidos do Hezbollah combatem os algozes sunitas e cortadores de pescoços em sua região, bombas e mísseis americanos caem para destruir os inimigos frente a eles.

Desde que Churchill se aliou com Stalin em 1941, um antigo amigo da Alemanha nazista (sic), nenhum presidente pôde ter encontrado um antagonista tão terrível transformado rapidamente em um irmão de armas. Porém – e esse é um grande “porém” – o regime sírio baasista não é tão estúpido a ponto de levar a palavra “amigo” a sério. Obama é a última pessoa com a qual Assad queria se associar – como não quer se lembrar de Vladimir Putin – e o regime sírio irá observar com a mais profunda preocupação o quanto o uso promíscuo da força aérea dos Estados Unidos se estende inexoravelmente e inclui mais e mais objetivos fora de seu objeto declarado.

A margem das baixas civis na província de Idlib, os alvos dos Estados Unidos sobre a Al Qaida vinculada a Jabhat al Nusra, sugerem que o Pentágono tenha, ainda mais, o  EI na mira. Por exemplo, quão pronto se está antes de que um míssil exploda em um depósito de armadas do regime sírio – por “erro”, obviamente - ou em outras instalações do governo? Como os Estados Unidos decidiram financiar e treinar a “oposição moderada” para lutar contra o EI e o regime sírio, por que não bombardearia ambos os inimigos? E como os sírios, que apoiam o que resta desses “moderados”, reagiriam às bombas americanas em Idlib, que mataram aos seus companheiros civis no lugar de forças de Assad – bombas que, de fato, parecem ter sido tão letais como as munições lançadas sobre eles por aviões de Assad?

Em relação aos árabes do Golfo, não há, até agora, evidências de que fisicamente tenham bombardeado qualquer alvo na Síria. Apenas a Jordânia afirmou ter atacado o EI; o restante dos aliados do rei Abdullah na árabe “coalizão dos dispostos” – que logo esqueceu-se de que esta era a expressão de George W. Bush para aquelas nações que apoiaram a invasão do Iraque em 2003 – parece ter limitado sua cooperação a proporcionar pistas de aterrissagem, a dar combustíveis aos aviões e a talvez patrulhar as tranquilas águas do Golfo. Em suas audiências no Capitólio na semana passada, os congressistas o assediaram com perguntas ao secretário de Estado John Kerry sobre quantos aviões árabes estariam bombardeando o EI. Kerry controlou suas respostas.

Os árabes do Golfo, afinal, estiveram aqui antes. Recordam claramente as afirmações exageradas do êxito militar aéreo – de bombas inteligentes que não assassinam civis, dos mísseis de cruzeiro que destruíram refúgios e dos campos de treinamento e dos “centros de comando e controle” em 1991 e 2003. Tudo resultou em um arriscado menu de guerra. Todavia, agora os americanos estão requentando esses antigos lanches para o conflito do EI.

Estavam estes islâmicos “guerreiros” realmente sentados – bebendo chá, talvez – em “campos de treinamento” para que os americanos pudessem mata-los? O EI vangloria-se por ter um “centro de comando e controle” – um bunker de computadores e cintilantes indicadores de objetivos – em lugar de um punhado de telefones móveis? Contudo, disseram que havia sido destruído, nada menos que um “centro de controle e comando”.

E, como tantas vezes em meio à emoção de uma nova escalada do conflito, os “especialistas” e os decrépitos ex-embaixadores em nossas telas devem folhear um dos livros de história antes de explicar “nossas” ações. O “Estado islâmico” foi criado a partir da al-Qaida no Iraque, que absorveu a resistência anti-americana para a ocupação. Se os senhores Bush e Blair não tivessem embarcado na aventura iraquiana, alguém pensaria que os Estados Unidos estariam ajudando a Assad a destruir seus inimigos hoje?

“Ironia” não está à altura das palavras do “enviado de paz” no Oriente Médio, que se transformou esta semana em um enviado de guerra oferecendo a perspectiva de mais tropas ocidentais no mundo muçulmano. Supõe-se assim que o regime sírio deve rir ou chorar?

22 de setembro de 2014

O triunfo da propaganda

Do cansaço de guerra à necessidade de guerra

Ben Schreiner

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Para aqueles que duvidam da efetividade da máquina de propaganda em massa dos Estados Unidos – o porto-seguro da “imprensa livre” – seria interessante examinar a incrível guinada da opinião pública sobre a reintrodução de forças americanas no Iraque.

No início do verão do hemisfério norte, alguns meses atrás, quando a máquina de propaganda estava completamente focada na demonização do Camarada Putin da Rússia Vermelha, apenas uma pequena parte de americanos expressava apoio a um dos maiores passatempos dos EUA: jogar bombas no Iraque. Todavia, quando chega setembro, tal apoio subitamente cresce para incríveis 71%. Ainda mais incrível, uma pesquisa encomendada pela NBC/Wall Street Journal constatou que 34% da população são favoráveis à invasão terrestre de soldados para lutar contra o Estado Islâmico – leia-se, uma ameaça “além de qualquer coisa já vista antes”.

O que aconteceu? Afinal de contas, não precisa voltar muito no tempo para relembrar como a elite do poder reclamava publicamente um suposto “cansaço de guerra”. E agora, em meio a uma contínua crise socioeconômica interna, foi aberto o espaço político necessário para que o Congresso americano aprovasse milhões de dólares em gastos militares na luta conta os rebeldes islâmicos, sem levantar um mínimo que fosse de indignação popular.

A resposta para o que ocorreu reside no sistema de propaganda.

No início de agosto, o presidente Barack Obama anunciou, primeiramente, o uso de ataques aéreos contra o Estado Islâmico, no norte do Iraque, “para evitar um potencial genocídio” contra os yazidis, uma minoria local da região. Por conta disso, como a doutrina de “responsabilidade em proteger” dita, o poder militar americano é a última fortaleza contra o genocídio. Isto é, “genocídio” cometido por “caras maus”, que por acaso controlam importantes regiões geopolíticas, como: Iraque, Sérvia, Iraque, Líbia, Iraque, etc. Quanto aos genocídios cometidos pelos “bonzinhos”, bem, a “única democracia no Oriente Médio” tem o direito de se defender contra “terroristas”.

Mas todas as histórias contadas sobre os yazidis sitiados sendo resgatados pelas armas, metralhando a ajuda humanitária dos militares americanos, não eram o suficiente para comover o público dos EUA para uma guerra de verdade. A ressaca da Guerra do Iraque – Parte 2 ainda persistia. Compreensivamente, uma vez que a guerra lançada para evitar uma guerra (defesa preventiva) deixou um buraco de mais de 3 trilhões de dólares nos cofres americanos, isso sem mencionar os milhares de soldados americanos mortos e mutilados, além dos milhões de vítimas iraquianas. Então, por mais que tentasse, a “respeitável mídia” não poderia vender a prevenção de um “genocídio” como casus belli para um público ainda cansado de guerras. O mantra da responsabilidade em proteger dos liberais intervencionistas tinha, claramente, seus limites.

Então, chegou a hora para a carta super-trunfo da máquina de propaganda. Entra o medo.

Em 19 de agosto de 2014, o Estado Islâmico publicou na internet um vídeo que tencionava mostrar a decapitação do jornalista americano James Foley. Logo depois, dois outros vídeos que, supostamente, mostravam a decapitação do também jornalista Steven Sotloff e do funcionário humanitário britânico David Haines. Tais crimes eram exatamente o que os falcões de guerra em Washington precisavam para trazer mais para perto o povo americano. De fato, para uma cultura obcecada com o culto do pensamento positivo, sempre existe um lado bom das cosias, até mesmo em decapitações.

Ainda assim, os macabros vídeos do Estado Islâmico só poderiam levar o público dos EUA a abandonar sua perigosa tendência isolacionista por meio de suados esforços da “imprensa livre”. Então, os habilidosos propagandistas rapidamente foram ao trabalho, com o Estado Islâmico cortador-de-cabeças sendo apresentado como a maior ameaça dos EUA – e as agências de inteligência dizendo o contrário que se danem. E, em reconhecimento ao trabalho deles, o povo americano tem agora nove entre dez pessoas considerando o Estado Islâmico uma “séria ameaça aos interesses vitais dos EUA”.

Os “interesses vitais dos EUA”, obviamente, são aqueles que significam interesses das corporações dos EUA, os quais, na realidade, vão na direção contrária aos interesses da maioria, até mesmo da maioria que trabalha duro nessas corporações. Dentro da câmara de eco reverberando com os gritos agudos daqueles que alertam que o Estado Islâmico está trabalhando para “matar todos os americanos”, uma ameaça à classe elitista é transformada em uma ameaça ao sublime American Way of Life. Ou seja, uma ameaça aos direitos divinos dos cidadãos comuns de correrem para a peregrinação anual à uma loja da Apple a fim de prestar suas homenagens a uma nova repetição do iPhone. Então, se um bando de monstros estilo Frankenstein – criado pelos EUA – andando pelo Iraque e pela Síria estão ameaçando essa vida, uma vida de delicioso consumismo construída com fundações de petróleo barato sendo controlado pelos EUA e seus clientes, “alguma coisa”, claramente, deve ser feita. Obviamente, os choros para “alguma coisa” ser feita são superadas apenas pelos nefastos eufemismos de deixar “todas as opções em aberto”; pois o “alguma coisa” a ser feita nos EUA consumidos pelo medo, inevitavelmente envolve o bombardeio de algum país e um povo estrangeiro. Afinal de contas, fazer alguma coisa é sempre melhor do que não fazer nada.

Pode-se imaginar o que futuros historiadores do império americano irão escrever sobre a facilidade com que suas elites foram capazes de repetidamente tranquilizar a agitada psique americana através de pacotes cuidadosamente planejados de bombas americanas explodindo pessoas em pedaços. Todavia, para a maioria da população dos EUA, tal distanciamento de realidade representa sua própria experiência da exportação favorita de seu país.

“O maior triunfo da realidade virtual é a guerra”, escreveu Sheldon Wolin, em Democracy Inc. “A guerra é uma jogo de ação, jogado na sala de estar ou um espetáculo em uma tela, mas, nos dois casos, não são experimentadas de verdade”, continua Wolin. “O dia a dia continua normalmente de maneira ininterrupta: trabalho, recreação, esportes, família, viagens. Após o 11 de setembro de 2001, o terrorismo se tornou outra realidade virtual, experimentada apenas através de imagens recriadas”. E quando a guerra é entregue como um pouco mais do que um espetáculo digital, as pessoas devem se forçar a manter a cabeça no lugar (literalmente, como alguns diriam), pois o cansaço de guerra pode ser vencido com assombrosa velocidade. O medo sempre reproduz hostilidade.

O atual apoio público para começar mais uma barbárie imperialista, vinda da maior ameaça à paz mundial, representa apenas a última evidência do eterno triunfo da propaganda.

21 de setembro de 2014

A retórica de John Kerry sobre o EIIL insulta a nossa inteligência e esconde a realidade da situação na Síria

Qualquer um que tenha estudado a Síria sabe que oposição moderada não existe

Robert Fisk

The Independent

John Kerry vai ficando cada dia mais parecido com William McGonagall, o “pior poeta do mundo”, cujo horror, ante o desastre da Ponte Tay, em 1879, gerou o imortal comentário de que [a tal desgraça] “será lembrada por muito tempo”.

Como no verso de McGonagall, as tentativas de Kerry para explicar a cruzada da América contra o mais recente inimigo malvado são tão ridículas, que se vai ficando viciado nelas. E quando você pensa que a explicação capenga, de Kerry, para os políticos americanos da cruzada iraquiana de Obama – o EIIL tem de ser derrotado, puro e simples, e fim da história – não pode(ria) ficar mais infantil, ela fica.

Por puro infantilisme – a palavra francesa captura isso melhor – desafio os leitores a ler a frase seguinte até o fim, sem nenhuma incredulidade: “Quero deixar bem claro que, quando acabarmos aqui hoje, vocês me dirão o que pensam e eu saberei o que estão pensando” – disse Kerry à Comissão de Relações Exteriores do Senado semana passada – “e vocês terão ouvido de mim e saberão o que nós estamos pensando, o que o governo Obama está pensando, e que vocês têm uma clara compreensão do que estamos fazendo hoje e faremos na sequência”. “Tudo muito complexo”, disse Kerry – e que, claro, sem dúvida, “será lembrado por muito tempo”.

Mais imediatamente chocante era o mundo de fantasia de Obama o qual Kerry, com seu jeito de moleque pesadão, representou. Quem tenha estudado a Síria, mesmo de longe, e nem se fala dos que a conheçam de perto, sabe que a tal “oposição moderada”, ficcional – supostos desertores do Exército do governo sírio – absolutamente não existe. Corrupto, desiludido, assassinado ou simplesmente desertado de volta ao EIIL ou para outro grupo associado da al-Qaeda, o velho “Exército Sírio Livre” é, hoje, mito ridículo – e tão potente, para os kerrys desse mundo – quanto os arroubos de Mussolini de que o exército italiano poderia derrotar os britânicos no Norte da África. Qualquer soldado sírio pode contar, de viva voz, que está feliz por poder combater contra o tal “Exército Sírio Livre”, porque aquela “oposição moderada” só é especialista em fugir feito coelhos. Quem luta até a morte são os “terroristas” de al-Qaeda-Nusra-EIIL.

 Mas Kerry, como os generais da I Guerra Mundial, vive num castelo ornamentado de sua própria imaginação. “Na Síria, o combate em campo será feito pela oposição moderada, a qual é o melhor contrapeso da Síria [sic] para extremistas do tipo EIIL” – eis o que ele disse à Comissão de Relações Exteriores da Câmara de Deputados. – “E podemos falar mais sobre aquela oposição moderada – que jeito tem, quem é, do que são capazes hoje e do que poderão fazer – conforme nós avançarmos”. Como os generais [Douglas] Haig e [John] French, Kerry entrou em delírio.

O “Exército Sírio Livre”, disse Kerry, vem combatendo contra o eIIL há dois anos – em Idlib, Aleppo, em torno de Damasco e em Deir Ezzor e o governo sírio − Kerry insistiu − não dá combate, nem dará, ao EIIL. Isso é um absurdo. A maioria dos 35 mil soldados mortos do exército sírio foram mortos em combates contra al-Qaeda e o EIIL. E as únicas forças que realmente mantêm coturnos em solo contra o EIIL são o Hezbollah e os Guardas Revolucionários do Irã, ao lado dos curdos.

Exaltar a “oposição moderada” dois dias antes de as mais recentes vitórias do EIIL já os terem trazido até a fronteira da Turquia é absurdo. E que estadista ilustra(ria) a própria ideia de que sunitas e xiitas estariam em aliança com a América, brandindo no ar a primeira página do The Wall Street Journal em que se vê um líder curdo, um ministro iraquiano xiita e o ministro sunita de Relações Exteriores da Arábia Saudita fotografados lado a lado? Kerry elogiou os clérigos sauditas por condenarem o EIIL sunita, sem mencionar que muitos destacados imãs sauditas consomem muito mais tempo desqualificando América. Nem poderia, mesmo, falar, dos clérigos paquistaneses que também declararam herético o EIIL – porque, claro, passam praticamente todo o tempo acusando os sauditas de financiarem o EIIL.

Como Cameron, Kerry serve-se do vocabulário da autoconfiança. A América “de pleno direito” e “sem dúvida alguma” tinham de apoiar os esforços do governo iraquiano; e há “absoluta clareza” de que o América deteve o EIIL. Quanto ao “Estado Islâmico” propriamente dito, não passa(ria) de “distorção insultante do Islã”, “inimigo do Islã”, “culto militante fantasiado de movimento religioso” de “assassinos a sangue frio” cuja filosofia “saiu da Idade da Pedra”. O que é isso? Começamos por declarar que o EIIL “saiu” da Idade Média; depois, que “saiu” do século XVIII. Agora, “saiu” do ano 2.000 a.C.

 Graças aos céus temos o general John Allen – o qual, nem faz muito tempo, andava propondo garantias de “segurança” para o Vale do rio Jordão que ambos, palestinos e israelenses, puseram abaixo – para resolver o caso no Iraque. É o ex-vice comandante da província Anbar do Iraque, homem – segundo Kerry – com “grande respeito” na região, com “conhecimento das tribos sunitas” e – ah, mas que perfeito momento McGonagall, esse – “de todo o pessoal por lá e que são parte da mistura a ser capaz de mobilizar a ação”. Não surpreende que Kerry também tenha dito ao mundo que, dos 50 aliados internacionais anti-EIIL da América, alguns, sim, se engajarão em “atividade cinética”. Aposto que eles vão. Embora eu também aposte que ninguém vai ver qualquer força aérea árabe unir-se ao bombardeio aéreo franco-americano.

O que Kerry absolutamente não nos pode dizer é tão simples quanto o que ele diz que será simples a luta contra o EIIL: que terá de haver algum tipo de aliança – algum tipo – entre o “ocidente” e o Irã, para derrotar o EIIL; que essa aliança inevitavelmente terá de incluir algum entendimento não revelado com a Síria de Bashar al-Assad; e quem sabe até com os horríveis “super-terroristas” do  Hezbollah, os quais – diferentes do que Kerry diz do EIIL – não andam por aí “matando e estuprando e mutilando mulheres” ou vendendo meninas “para serem escravas sexuais de jihadistas”.

Mas para um homem que pensou que poderia costurar uma paz palestino-israelense em 12 meses, o que mais você pode esperar? Sim, o EIIL é o mais recente espectro a nos assombrar. Mas há outro, não mais distante, que ameaça todos e que, esse sim, tem de ser derrotado, “puro e simples, e fim da história”. Ameaça matar infinitamente mais gente que o EIIL. Recebeu o nome de um obscuro rio africano. Então, onde está a convocação de uma aliança de 50 nações para destruir o Ebola?

17 de setembro de 2014

Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (APT)

Está a Comissão Europeia cavando sua própria sepultura?

Mark Bergfeld


Tradução / A reputação da Comissão Europeia é terrível. Tecnocratas e burocratas sem rosto dominam a percepção pública. Estão ausentes a responsabilização e a legitimidade. Então porque é que a Comissão rejeitou a última Iniciativa de Cidadania Europeia e cava agora a sua sepultura?

Segundo a Comissão, a Iniciativa de Cidadania Europeia sobre o Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (APT) e sobre o Acordo Econômico e Comercial Global (AECG) – apoiada por mais de 250 organizações da sociedade civil em 21 estados membros – não está qualificada para ser ouvida. Numa carta aos organizadores, a Comissão escreve: "A proposta de iniciativa de cidadania está manifestamente fora da competência da Comissão para apresentar uma proposta de ato jurídico da União, para efeitos de aplicação dos Tratados". Por outras palavras, uma Iniciativa de Cidadania Europeia pode tratar de questões sobre leis da UE mas não da Comissão.

Assim, a Iniciativa de Cidadania Europeia passou a ser totalmente ineficaz. Em funcionamento desde o Tratado de Lisboa, visava uma crescente democracia direta. Ao reunir um milhão de assinaturas de pelo menos sete estados membros, os cidadãos podiam propor um ato legal a nível europeu. Mas, ao que parece, não é possível fazer isso se a iniciativa for questionar uma das prioridades da Comissão para o próximo ano.

Isto confirma os piores receios dos ativistas. Os burocratas em Bruxelas vão continuar a discutir o APT e o AECG à porta fechada. Os críticos alertam para que os acordos comerciais que procuram desregulamentar a segurança alimentar e a proteção dos consumidores, apresentam uma provisão ISDS que permitirá que empresas processem estados por possíveis perdas de lucros que acabarão por corroer a soberania nacional de uma forma sem precedentes. Fica fora de questão uma discussão pública sobre as consequências de grande alcance destes acordos comerciais. Os cidadãos não terão voz sobre se pretendem que a segurança alimentar e a proteção ao consumidor sejam desregulamentadas ou que as empresas multinacionais sejam dotadas de poderes como os dos estados.

A Comissão deve acreditar que qualquer oposição apenas irá atrasar o processo e tornar o fracasso ainda mais provável. A consulta sobre a provisão ISDS (Investor-State Dispute Settlement) demorou três meses e gerou 150 mil comentários – um cenário de pesadelo para a Comissão.

A Comissão quer evitar a todo o custo uma repetição da campanha right2water. A campanha exigia o acesso a baixo custo e não privatizado à água potável em 2013. Foi a primeira iniciativa a reunir mais de um milhão das assinaturas necessárias e forçar assim um debate na Comissão da UE. Embora as Iniciativas de Cidadania Europeia não sejam vinculativas, foi um êxito. A Comissão da UE e a sua agenda de privatização da água ficaram na defensiva. Uma Iniciativa de Cidadania Europeia sobre o APT, muito provavelmente, faria descarrilar as negociações do APT dada a ampla oposição que já existe.

Rejeitando a iniciativa, a Comissão cometeu um enorme erro. Parece que a Comissão está a fazer tudo o que pode para desmobilizar ativamente precisamente as pessoas que ainda demonstram alguma fé nas instituições europeias. Está a lançar as sementes do descontentamento em vez de integrar as ONG no processo de participação política. É um erro pelo qual não será apenas a Comissão a pagar um alto preço. Também vai afetar negativamente outras instituições europeias e acelerar a crise de representação na Europa.

Isto tem consequências de grande alcance e exige as perguntas: Como é que os cidadãos dos seus estados membros reafirmam a sua vontade e soberania popular? Ainda é possível pôr em equação o projeto europeu com a União Europeia, a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu, quando estes corroem fundamentalmente a ideia europeia e a democracia? Chegou a altura de um ceticismo progressivo na UE?

Os ativistas, as organizações da sociedade civil e os partidos políticos progressistas que defenderam anteriormente a UE e as suas instituições contra uma direita política em crescimento, terão agora de repensar a sua posição em relação à UE. Deixarão de poder argumentar que é possível recuperar a União Europeia e as suas instituições. Em consequência, terão de passar para táticas mais radicais.

Nick Dearden, diretor do Movimento Mundial de Desenvolvimento afirmou: "Nada podia mostrar mais claramente que estes acordos comerciais são um desastre para a democracia no nosso continente. A União Europeia quer cozinhar este acordo à porta fechada porque, se deixar que os cidadãos se aproximem, não poderá controlar a oposição. Mas os povos da Europa não aceitarão que lhes seja imposta esta tomada de poder – lutaremos contra esta decisão, e derrotaremos estes acordos comerciais".

Embora venha a ser mais difícil conquistar apoio sem a Iniciativa de Cidadania Europeia, é provável que se aprofunde a oposição aos acordos comerciais. Os ativistas que pensavam começar a petição a 25 de setembro vão agora seguir o caminho legal, na esperança de conseguir inverter a decisão no Tribunal Europeu de Justiça.

A lei deverá ser a seu favor, já que os serviços científicos do Bundestag alemão já declararam legítima esta iniciativa. Mas, mesmo que a estratégia legal seja bem-sucedida, as ONG e as organizações da sociedade civil sairão à rua a 11 de outubro. Mas os protestos não ficam por aqui. Afinal, as ONG e as organizações da sociedade civil aprenderam que foram as manifestações de massas e a desobediência civil em Seattle em 1999 ou em Cancum em 2003 que fizeram descarrilar a Organização Mundial do Comércio (OMC). Os cidadãos europeus só podem ter esperança de que as ONG não esqueçam as lições.

16 de setembro de 2014

O tempo da "Terceira Força" na Síria

Peter Lee


[Subsequent to e-mailing this piece to China Matters subscribers, I went back and added a paragraph about the "28 pages" and the legal jeopardy they might pose to Saudi Arabia in US courts, and some thoughts about the "anti-IS campaign" as a harbinger of a new US approach to pursuing limited goals in the region.]

Desde que o presidente Obama proferiu o discurso “crISis®” tenho lutado para afastar o que entendo que sejam predições simplistas do fracasso da “guerra” de Obama, que se sirvam de argumentos como “força aérea não ocupa” e “armar rebeldes sírios anti-Assad ostensivamente moderados é sempre exercício no campo da futilidade”.

Em 12 de setembro de 2014, escrevi:

A parte mais deprimente da estratégia dos EUA é que, tanto quanto posso ver, considera-se a campanha anti-Estado-Islâmico como Cavalo de Troia, uma chance para ajudar, fortalecer e promover forças anti-Assad. Quer dizer: em vez de cooperar com, literalmente, o único estado do Oriente Médio disposto a pôr no solo um exército inteiro contra o Estado Islâmico (a Síria), os EUA recusam-se a trabalhar com a Síria e, em vez disso, vão treinar e equipar uma força anti-Assad e anti-EI, ao que se sabe, na Arábia Saudita, que é menos uma milícia de “insurgentes” venais comprados pelos EUA e mais uma força militar de ataque controlada e disciplinada e usada pela CIA-USA e, diferente do nosso mais conhecido experimento anterior desse tipo – a invasão da Baía dos Porcos – essa força terá muito poder aéreo. 
A ideia, presumivelmente, é que o EI é acossado por drones e ataques aéreos (e sua frota de caminhões-tanque transportando petróleo bruto para a Turquia é destruído) e retrocede; a força apoiada pelos EUA então avança e ocupa o território deixado vazio, antes de que Assad consiga chegar. Com sorte, a força atrairá os espirituais aliados do EI que preferem um cheque em dólares norte-americanos e imunidade contra ataques aéreos, a ser convertido ao estado de átomos dispersos. Assim, os EUA podem orquestrar as demandas de uma oposição síria viável para que Assad “saia”... em nome de preservar a unidade nacional, receber total apoio dos EUA, e guerra total contra o Estado Islâmico. Vitória! 
Meu conhecimento reconhecidamente limitado sobre o processo de tomada de decisões do governo dos EUA dizem-me que alguém tem de ter apresentado ao presidente Obama uma proposta de vitória dos EUA na Síria, ou, pelo menos, alguém tem de ter aparecido com algum argumento plausível de chance de vitória dos EUA na Síria. Tem de ter sido isso, antes de Obama tomar a decisão politicamente intragável de voltar a entrar no atoleiro do Oriente Médio.

Um claro presságio dessa abordagem já aparecia na declaração do Exército Sírio Livre de que não participará da coalizão anti-Estado-Islâmico. É, você leu certo. Não participará. Ainda que o Exército Sírio Livre já esteja na gaveta do EI, mesmo assim poderia aproveitar-se de alguma ajuda dos EUA.

O fundador do grupo, o coronel Riad al-Asaad, destacou que derrubar o presidente sírio, Bashar al-Assad é a sua prioridade, e que eles não vão unir forças com os esforços liderados pelos EUA sem uma garantia de que os EUA estejam comprometidos com a sua derrubada.

O mais provável é que o coronel al-Asaad tenha justificada desconfiança da nova iniciativa dos EUA, porque era claro que a CIA já vinha negociando diretamente com os comandantes mais viáveis e mais capazes, para tirá-los do Exército Sírio Livre.

Patrick Cockburn expôs essa história em 9 de setembro de 2014, com alguma ajuda de McClatchy:

O Exército Sírio Livre, elogiado nas capitais ocidentais como provável vitorioso no combate militar contra o presidente Assad, já estava em pleno colapso no final de 2013. O comandante militar do ESL, general Abdul-Ilah al Bashir, que desertou do governo sírio em 2012, disse em entrevista com a agência de notícias McClatchy semana passada que a CIA já tinha assumido o comando dessa nova força moderada. Disse que “o comando do Exército Sírio Livre é americano”; acrescentou que desde dezembro passado o suprimento de equipamentos americanos já tinha atropelado a liderança do ESL na Turquia e estava sendo feito diretamente a mais de 14 comandantes no norte da Síria e a 60 grupos menores no sul do país. O general Bashir disse que todos esses grupos do Exército Sírio Livre reportam-se diretamente à CIA.

Bem, perdoem-me uns passos de dança da vitória. Garantido que a senhora gorda colocou os pulmões para fora de tanto que berrou esse canto.

Do depoimento de Dempsey, comandante dos chefes do Estado-Maior dos EUA, ao Congresso, segundo The Guardian:

Na Síria, os EUA buscam treinar rebeldes sírios “selecionados” para capturar território sírio tomado pelo ISIS. Hagel e Dempsey reconheceram que uma coorte inicial de 5 mil homens das forças de oposição síria não estará preparada antes de, no mínimo, oito meses. 
... 
“5 mil não bastarão para virar a maré, reconhecemos isso” – disse Hagel. Nem ele nem Dempsey descartaram pedir mais poderes e mais dinheiro para construir uma “versão” de exército sírio no futuro.

Quanto ao presidente Assad, acho que ele está cansado de saber que a estratégia é “primeiro-ISIL”, “segundo-Assad”:

[Dempsey] e Hagel negou [negaram], quando perguntado[s] pelo Senador John McCain (...) se os novos aliados dos EUA receberiam cobertura aérea se atacados pelo “ditador sírio Bashar al-Assad”. 
“Ainda não chegamos lá, mas nosso foco é o ISIL”, outro nome do mesmo ISIS, disse Hagel. 
Dempsey – cuja renúncia McCain havia exigido, dada a relutância do general em usar soldados dos EUA contra Assad – concedeu que “se tivéssemos de descartar [lutar contra] Assad, teríamos “ainda maiores dificuldades” para persuadir os sírios a unir-se à coalizão; mas disse que o governo, sim, tem uma estratégia de “primeiro o ISIL”.

The Guardian, como eu, também enfrentou alguma dificuldade para encontrar o nome certo para essa força. Não acho que “exército por procuração” [“proxy army”] resolva o caso, porque o tal “exército”, embora constituído de soldados sírios, não de unidades militares americanas, estará sob o comando diário da CIA e não lhe será permitido afastar-se um passo que seja nem trabalhar por agendas políticas, estratégicas e táticas próprias deles, como acontecia com o desmoralizado Exército Sírio Livre.

“Terceira Força” me parece um nome adequado nesse caso.

Não penso necessariamente que a tal estratégia dará resultados, e com certeza tem menos chances de funcionar que alguma aliança que una os três atores que hoje já estão com os afamados “coturnos em solo” e já estão dando combate determinado ao Estado Islâmico: os governos sírio e iraniano e os curdos sírios. Basicamente, os EUA acalentam esperanças de que dinheiro, ataques aéreos, o comando da CIA e pó mágico conseguirão fazer sumir o Estado Islâmico, o suficiente para que os EUA possam dedicar-se integralmente a derrubar o regime de Assad – escondidos por trás de algum discurso sobre “governo de unidade nacional” como no Iraque – como um espécie de preço pelo esforço adicional dos EUA contra o Estado Islâmico.

Os EUA já tentaram antes a própria sorte com essas estratégias de “Terceira Força”, mas o apoio dos EUA, embora tenha obtido sucesso de curto-prazo, praticamente sempre se converteu em beijo-da-morte para a legitimidade da força local e, afinal, de sua própria viabilidade. Assad, ISIS, Irã e Rússia estão afanosamente preparando contramedidas para assegurar que a estratégia de evolução lenta dos EUA não acabe por queimá-los.

Mas eu acho que aí está importante lembrete de como o presidente Obama e burocracias governamentais, de fato, todas as burocracias, funcionam.

Políticas falhadas como o golpe de “terceirizar” o golpe para derrubar Assad transferindo-o para rebeldes dominados por jihadistas não são só políticas velhas re-embaladas. Não só porque o presidente Obama é sujeito cerebral, avesso a fracassos. As coisas são como são, também porque há toda uma rede de apoio de governo, militares e especialistas e planejadores de think tanks, cujo trabalho é aparecer com algum plano plausível, com alguma chance de sucesso – mesmo que sua única chance para existir seja que a inexequibilidade do tal plano ainda não esteja claramente demonstrada por fracasso prévio.

It might also mean that the United States has decided to wean itself of its reliance on proxies and release of uncontrollable regional forces to remake the Middle East when the Powell Doctrine of massive, decisive US power could not be brought to bear, and use a limited force largely under its control to pursue, and maybe even achieve, limited goals. That will have certain implications for countries like Israel and Saudi Arabia, which have relied on their willingness to do--or fund--America's ambitious dirty work in order to inflate their own regional stature.

Assim sendo, critiquem o quanto queiram o plano do presidente Obama. Mas ninguém jamais ouvirá a crítica de que “tudo isso já falhou antes”. Porque o que realmente interessa na repetição é que, se os EUA falharem, falharão de modos novos, jamais vistos. Não há de ter escapado à análise que o presidente Obama certamente fez, o fato de que o processo está agendado para arrastar-se por pelo menos três anos – caso em que o fracasso, se ocorrer, será entregue em pacote sanguinolento deixado à porta da presumível próxima presidente, Hillary Clinton—has perhaps not escaped President Obama.

Como um Post-Scriptum, e uma vez que a bola de cristal desse nosso blog China Matters parece estar em magníficas condições de funcionamento, começo a achar que já se esgotou o prazo de validade da aliança entre os EUA e o Reino da Arábia Saudita. Indicador chave será se o presidente Obama cumprir aquela promessa de campanha do candidato Obama e mandar revelar o conteúdo das 28 páginas excluídas do Relatório da Comissão do 11/9.

As linhas gerais do que lá está escrito são bastante bem conhecidas e comprovam a culpa de indivíduos e do que parecem ser funcionários do governo do Reino Saudita nos ataques do 11/9/2001. Mas esse material é considerado altamente embaraçoso para o governo Bush, por causa de seus contatos íntimos com a Arábia Saudita e disposição para permitir que figuras sauditas chaves fugissem dos EUA em avião que decolou secretamente para evitar questionamentos do FBI; tudo isso considerado, a pouca disposição do atual governo para ordenar a divulgação desses documentos; e o motivo pelo qual Obama enfrentou sem revidar as críticas cínicas e irresponsáveis de Dick Cheney contra as políticas antiterror do atual governo já são, há algum tempo, uma espécie de mistério.

Minha opinião, porém, é que a chave de todos esses mistérios é que a Arábia Saudita assinou aliança de autoproteção com Israel, cuja capacidade para fazer-acontecer o que deseje em Washington supera em muito a capacidade d’ “O Reino”. Pelo modo como vejo as coisas, a cooperação entre Israel e a Arábia Saudita é fundada num desejo conjunto de manter o Irã sempre sob o status de pária, e bem afastado de qualquer relação normal com os EUA, evento que empurraria Israel e Arábia Saudita na direção da periferia das políticas dos EUA para o Oriente Médio.

A Arábia Saudita, por sua vez, atiça determinadamente o fogo da crise na Síria, porque a necessidade do Irã, de apoiar Assad, põe o Irã em oposição aos EUA. Israel bate o tambor de alarme contra “a ameaça” nuclear do Irã e, suspeito eu, diz ao governo Obama que tanta atenção aos wahhabistas e excessos anti-EUA do governo saudita – como as páginas arrancadas do relatório da Comissão do 11/9 – desestabilizariam a Arábia Saudita e dariam ajuda e conforto ao Irã.

When one considers that throwing the 28 pages into the US anti-terrorist, criminal, and civil law mix might expose the Saudi government--and extremely wealthy and powerful members of the nation's elite--to imprisonment and literally hundreds of billions of dollars in civil penalties, it seems plausible that the Saudi government would want to keep a lid on the redactions despite Prince Bandar's public protestations to the contrary--and perceive further incentive for shaping its regional diplomatic and military strategy around an otherwise reckless anti-Iran/pro-Israel play.

Mas, agora, o Exército Islâmico é escorregão em mais um sangrento incômodo contra a campanha brutal, mal feita, de subversão regional, comandada pela Arábia Saudita; o boomdo gás de xisto convenceu os EUA de que a segurança energética do país já não é refém de “O Reino”; que os EUA já não dependem de rapapés ostensivos a favor de um regime de degola gente por “feitiçaria”; o presidente Obama gostaria de ver a aproximação com o Irã, como seu legado; e é possível que Obama também se sinta enojado pelo oportunismo basal que foi forçado a exibir na questão dos mais recentes massacres contra Gaza, por israelenses. E, claro, Barry e Bibi detestam-se mutuamente.

Maybe President Obama decides it's in America's interest to keep that Sword of Damocles hanging over Saudi Arabia, continuing to use the threat of releasing those pages to wring value from the Saudis.

Mas talvez, se o presidente Obama acha que pode passar a linha pela agulha, concluir as negociações nucleares com o Irã, e talvez até mesmo convencer o Irã a jogar Assad debaixo do ônibus tudo num mesmo negócio... é de supor que venha a arrancar da tomada o fio que mantém ativo um relacionamento colossalmente tóxico com a Arábia Saudita – doença-perversão mortal, marcada pelos ataques do 11/9 e que já consumiu 15 anos, mais de dois trilhões de dólares e milhões de vidas ceifadas, e ainda sem falar de dar a conhecer ao mundo o conteúdo amaldiçoado daquelas 28 páginas.

Estado Islâmico: Assad atrai presidente Obama para sua rede

The Syrian regime, which the US has sworn to overthrow, has asked America to co-operate in the fight against Isis militants. It is likely to exact a high price for any collaboration.

Robert Fisk

The Independent

Tradução / A Síria pediu para Washington participar em colaboração militar e de inteligência para derrotar o inimigo de ambos, o ISIL. Também convidou congressistas e senadores dos EUA a visitarem Damasco para discutir ação conjunta contra os jihadistas que ameaçam os dois, os EUA e o regime do presidente Bashar al-Assad.

É convite que o presidente Barack Obama será obrigado a recusar – mas não sem algum embaraço. Depois de decidir bombardear as forças do ISIL, autodenominadas Estado Islâmico, na Síria e no Iraque, o Sr. Obama teve de ouvir o aviso de Vladimir Putin, de que qualquer ação unilateral desse tipo na Síria seria “ato de agressão”.

Agora, o presidente dos EUA terá de explicar outra vez por que não pode cooperar, contra os inimigos “apocalípticos” dos EUA, com um regime sírio que ele também jurou derrubar – apesar de esse regime estar combatendo exatamente contra os mesmos inimigos.

A carta enviada aos Deputados da Câmara convida explicitamente os membros do Congresso e Senado dos EUA – que no ano passado condenaram o governo sírio por ataques químicos nos subúrbios de Damasco – a colaborar para “salvar vidas sírias e americanas de um provável ataque de bombas terroristas” pelo ISIL, a Frente al-Nusra e outros grupos.

A oferta síria, apresentada ontem em uma carta assinada por Mohamed Jihad al-Laham, presidente do parlamento sírio – dirigida, dentre outros, a John Boehner, presidente da Câmara de Representantes, e a Nancy Pelosi, Líder da Minoria na Câmara – diz também que a oposição síria “moderada”, que os EUA prometem ajudar e treinar, é idêntica aos grupos jihadistas que apoiam o ISIL (fórmula que os sírios preferem, das várias siglas que designam o mesmo grupo).

A oposição dita “moderada”, escreve o presidente da Câmara de Deputados sírios, “vendeu ao ISIL o inocente jornalista americano que o ISIL degolou. Nada impede que esses grupos vendam armas americanas ao ISIL (...) como se sabe que já fazem como prática habitual”. Armar “indivíduos islâmicos jihadistas não estatais” prossegue a carta, “é uma clara violação da Resolução nº. 2.170 do Conselho de Segurança da ONU (...), que ordena que qualquer cooperação para combater contra terroristas tem de ser construída entre estados membros”.

A Resolução n. 2.170, aprovada no mês passado, diz que os estados membros “devem suspender o fluxo de combatentes estrangeiros, o financiamento e outros tipos de apoio a grupos extremistas islâmicos no Iraque e Síria” – identificados no documento da ONU como o ISIL e a Frente al-Nusra ligada à al-Qaeda – e “impedir que milicianos viajem de seus países natais para se unirem àqueles grupos”.

A Síria, claro, insiste que não há qualquer oposição “moderada” hoje no país, declaração que leva a marca da verdade; e que todos os opositores do governo do presidente Assad sempre foram, desde o início, jihadistas sunitas de orientação wahhabista. A carta do Sr. Laham – que não poderia ter sido enviada sem aprovação do governo – acusa a Arábia Saudita, que financia os inimigos do presidente Assad, de manter escolas que “ensinam a ideologia do ódio, takfiri [quando um muçulmano acusa outro muçulmano de apostasia] e a jihad como deveres religiosos”.

Enfatizando as próprias críticas contra o regime saudita, a carta dos sírios diz que todos os “terroristas” são produtos “dessa ideologia salafista, wahhabista e jihadista – do 11/9 às bombas de Boston e à degola de dois jornalistas americanos, degola que é prática governamental legal comum na Arábia Saudita”. Obama não deve constituir qualquer coalizão ao arrepio da Resolução nº. 2.170 da ONU, “especialmente com estados que com os quais há conflito de interesse, devido à ideologia que praticam”.

A carta pode ter sido influenciada por Khaled Mahjoub, cidadão americano e empresário sírio que também é amigo pessoal e confidente do presidente Bashar al-Assad, e repete a observação frequentemente citada do Sr. Mahjoub, de que só a reeducação de famílias e comunidades “terroristas” mediante o “sufismo do amor” pode reabilitar seres humanos habituados ao uso da violência. O sufismo, com sua poesia mística e o desejo de encontrar o amor divino, é visto por muitos sírios como perfeito antídoto para o “jihadismo”; missionários sufistas disseminam o Islã pela África e Ásia Central e também pela Índia.

Obama lays out IS strategy

Barack Obama has said US will lead a coalition to "destroy Islamic State" as he authorised air strikes against the militant group in Syria.

Entra na minha teia, diz a aranha à mosca. Porque a teia do governo sírio se comprovou muito mais resistente do que EUA e Europa imaginaram – e a principal mosca demonstou todas as características de fraqueza, medo e indecisão, como a aranha síria entende. Há apenas pouco mais de um ano, os EUA tinham planos para esmagar o governo sírio com bombas e mísseis. Agora, só falam de esmagar o ISIL com bombas e mísseis. A Síria vai exigir um preço por qualquer ajuda de que Washington precisar.

11 de setembro de 2001: A conexão saudita

O encobrimento de Bush começa a ser desvendado

James Ridgeway

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Em seu artigo do New Yorker, publicado no site da revista na semana passada, Lawrence Wright conta sobre como a administração Bush deletou 28 páginas do relatório da Comissão Parlamentar de Inquérito sobre os ataques de 11 de setembro de 2001, provavelmente pelo fato de que descreviam em detalhe as conexões dos sauditas com o ataque da Al Qaeda e com o financiamento de suas operações nos EUA a partir de pessoas que conheciam os sequestradores dos aviões e podem ter servido como ligação para o dinheiro saudita. Uma parte do dinheiro pode ter sido transferido pela família real através de caridade.

Ao remover as 28 páginas, Bush declarou que a publicação de tal conteúdo prejudicaria operações de inteligência americanas. Os sauditas negam tudo.

Na verdade, ninguém estaria falando sobre isso hoje se as famílias das vítimas e as seguradoras não estivessem processando os sauditas.

Wright relata:

“Não há nada a ver com segurança nacional,” é o que diz Walter Jones, deputado da Carolina do Norte que leu as 28 páginas. “Elas são sobre o governo Bush e sua relação com os sauditas.” Stephen Lynch, um democrata de Massachusetts, me contou que os documentos são “chocantes por sua clareza,” e que oferecem evidência direta da cumplicidade por parte de alguns indivíduos e entidade sauditas quanto ao ataque da Al Qaeda nos EUA. “Estas 28 páginas contam a história que foi completamente removida dos relatórios sobre o 11 de setembro,” sustenta Lynch. Outro deputado que leu o documento declarou que as evidências do apoio do governo saudita ao ataque são “assustadoras,” e que “a verdadeira questão é se tudo isso foi sancionado pela família real ou em um nível mais baixo, e se as orientações foram ou não seguidas.” Agora, em um raro exemplo de aliança bipartidária, Jones e Lynch copatrocinam uma resolução requisitando que a administração Obama desclassifique estas páginas.

Mas há outras questões aqui, e elas envolvem a história de como a administração Bush suprimiu as provas que revelariam o quanto ela sabia dos planos de ataque — e não fez coisa alguma para impedi-los.

Um breve resumo da história:

Dois dos sequestradores do vôo 77 — Khalid al-Midhhar, um saudita que lutou com a Al Qaeda na Bósnia e na Chechênia, e Nawaf al Hazmi, outro saudita com experiências militares na Bósnia, Chechênia e Afeganistão, se encontraram em uma reunião estratégica da Al-Qaeda em Kuala Lumpur em janeiro de 2000. A CIA pediu ao serviço de inteligência malaio que monitorasse a reunião, sem sucesso. Os dois deixaram a reunião em direção ao aeroporto e tomaram um vôo para Bankok dia 8 de janeiro, e depois tomaram um vôo da United Airlines de Bankok para Los Angeles, aterrisando sem problemas e passando pelo serviço de imigração americano.

Nesta época, de acordo com a Comissão de Inquérito, “a CIA e a NSA tinham informações suficientes disponíveis sobre os futuros sequestradores al-Midhar e al-Hamzi para conectá-los a Osama Bin Laden, ao ataque à embaixada na África e ao ataque do USS Cole... e eles deveriam ter sido colocados dentro da lista de suspeitos do Departamento de Estado e da INS.”

Em julho de 2001, analistas que trabalhavam por conta própria confirmaram que os dois haviam aterrissado nos EUA e avisaram o FBI. O FBI alertou seus oficiais em Nova York, mas não em Los Angeles e em San Diego. E não pensaram em avisar a FAA, a INS ou outros serviços de inteligência para proibirem estes homens de entrar em aviões.

Uma vez nos EUA, os dois sequestradores passaram desapercebidos sob os narizes da CIA e do FBI, Eles foram de Los Angeles a San Diego, onde alugaram um apartamento, arrumaram um cartão de seguridade social, carteiras de motorista, cartões de crédito e um carro. E logo começaram treinamentos de voo.

Os dois possuíam contatos com um iemenita radical, que o FBI estava vigiando e com o líder de uma comunidade saudita local, que era suspeito de ser um dos financiadores dos sequestradores.

Eles tiveram contato com um informante do FBI que vivia na casa do iemenita. Este homem fora incumbido pelo FBI de vigiar a comunidade saudita local. “Ele estava na casa de uma de nossas fontes”, foi o que um oficial do FBI contou a James Bamford, autor do livro “Um Pretexto para a Guerra”. “Se tivéssemos tomado conhecimento disso teríamos seguido os dois e dito, ‘estes caras estão frequentando aulas de aviação'.”

A comissão de inquérito concluiu que os contatos dos informantes com os sequestradores, se tivessem sido investigados, teriam dado oportunidade ao FBI de San Diego para desvendar o plano. As tentativas da Comissão de Inquérito de entrevistar os informantes foram frustradas pelo FBI e pelo Departamento de Justiça. De acordo com o ex-senador Bob Graham, em seu livro “A inteligência Importa”, quando a Comissão pediu ao FBI todos seus arquivos sobre os informantes, o acesso foi negado e quando foram intimados a fazê-lo, o FBI não se mexeu. Graham organizou uma reunião com o diretor da CIA, George Tenet, o diretor do FBI, Robert Mueller e o procurador geral John Ashcroft. Eles sugeriram que Graham interrogasse o informante por escrito e o informante havia conseguido um advogado de ponta, antigo funcionário do Departamento de Justiça. O advogado demandou imunidade para o informante antes que este testemunhasse. Graham escreveu em seu livro, “era estranho que um indivíduo que declarava não ter feito nada errado e que o FBI insistia que era uma fonte valiosa requisitasse imunidade.”

O comitê recusou o pedido.

Graham escreveu que o FBI “insistia que não se poderia de maneira alguma contar ao povo americano que um informante do FBI tivera se relacionado com dois dos sequestradores.” O FBI se opôs a qualquer audiência pública, deletou do relatório da Comissão de Inquérito todas as referências à situação . Apenas um ano depois o FBI permitiu que uma versão da história se tornasse pública.

Em seu livro, Graham descreveu uma carta de um membro do FBI explicando que a entidade não tinha cooperado por causa de ordens vindas do governo. “Nós pretendíamos escrever sobre o que suspeitamos. A Casa Branca dirigiu o encobrimento da situação.”

“Mais tarde, quando a comissão sobre 11 de setembro conduziu sua própria investigação, tanto Bush quanto Cheney fizeram uma reunião com ela, privada, sem registros.”

Esta história e o novo artigo de Wright sugerem que o presidente, o vice-presidente e o comandante do FBI se envolveram com obstrução da justiça. Se isto aconteceu de fato, seria necessário um júri federal para julgar o caso. O Departamento de justiça, que gere o FBI, faria isso? Provavelmente não.

Restou que as famílias que estão processando os sauditas descubram e publiquem a verdade.