30 de outubro de 2014

A batalha por Kobane

Uma guerra civil sem fim

Patrick Cockburn

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Durante o verão, o Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL) derrotou o exército iraquiano, o exército sírio, os rebeldes sírios e os peshmerga curdos iraquianos; estabeleceu um Estado que se estende de Bagdá a Alepo, e da fronteira norte da Síria aos desertos do Iraque no sul. Grupos étnicos e religiosos que o mundo mal ouvira falar – incluindo os yazidis de Sinjar e os cristãos caldeus de Mossul – converteram-se em vítimas da crueldade e da intolerância sectária do EIIL. Em setembro, o EIIL virou a atenção para os dois milhões e meio de curdos sírios que tinham conquistado a autonomia de fato em três cantões ao sul da fronteira turca. Um desses cantões, centrado na cidade de Kobane, tornou-se o alvo de um ataque decidido. A 6 de outubro, os combatentes do EIIL tinham aberto o caminho até ao centro da cidade. Recep Tayyip Erdogan previu que a sua queda era iminente; John Kerry falou da “tragédia” de Kobane, mas afirmou – de modo implausível – que a sua captura não seria de grande significado. Uma conhecida combatente curda, Arin Mirkan, fez-se explodir diante do avanço dos combatentes do EIIL: pareceu um sinal de desespero e de iminente derrota.

Ao atacar Kobane, a direção do EIIL queria provar que ainda podia derrotar os seus inimigos apesar dos ataques aéreos dos EUA contra as suas forças, que começaram no Iraque em 8 de agosto de 2014 e se estenderam à Síria a 23 de setembro de 2014. Enquanto afluíam para Kobane, os combatentes do EIIL gritavam: “O Estado Islâmico mantém-se, o Estado Islâmico expande-se”. No passado, o EIIL preferiu – uma decisão tática – abandonar batalhas que achava impossível vencer. Mas a batalha de cinco semanas por Kobane durou demasiado e foi demasiado bem publicitada para que os seus combatentes pudessem se retirar sem perder prestígio. A atração que o Estado Islâmico exerce sobre os sunitas na Síria, no Iraque e em todo mundo provém de um sentimento de que as suas vitórias são uma dádiva de Deus e inevitáveis, de forma que qualquer derrota prejudica a sua afirmação de que recebem apoio divino.

Mas a inevitável vitória do EIIL em Kobane não ocorreu. Em 19 de outubro de 2014, revertendo a sua política anterior, aviões dos EUA lançaram armas, munição e remédios para os defensores da cidade. Sob pressão dos EUA, a Turquia anunciou no mesmo dia que iria garantir aos peshmerga curdos iraquianos um acesso seguro do norte do Iraque até Kobane; combatentes curdos voltaram a capturar parte da cidade. Washington compreendeu que, dada a retórica de Obama sobre o plano de “enfraquecer e destruir” o EIIL, e com eleições para o Congresso dentro de apenas um mês, não podia permitir que os jihadistas conseguissem outra vitória. Ainda para mais sendo muito provável que esta vitória em particular fosse seguida de um massacre dos curdos sobreviventes diante das câmaras de televisão reunidas no lado turco da fronteira. No início do cerco, o apoio aéreo dos EUA aos defensores de Kobane fora incoerente; por temor de ofender a Turquia, a força aérea dos EUA evitara coordenar-se com os combatentes curdos no terreno. Em meados de outubro, a política mudou, e os curdos começaram a fornecer informação detalhada sobre os alvos aos americanos, possibilitando que destruíssem tanques e artilharia do EIIL. Antes, os comandantes do EIIL tinham sido hábeis a esconder o seu equipamento e a dispersar os seus homens. Na campanha aérea até então, só 632 de 6.600 missões tinham resultado em verdadeiros ataques. Mas como queriam conquistar Kobane, os líderes do EIIL tiveram de concentrar as forças em posições identificáveis e tornaram-se vulneráveis. Num período de 48 horas houve cerca de quarenta ataques aéreos dos EUA, alguns a meros cinquenta metros da linha da frente curda.

Não foi apenas o apoio aéreo dos Estados Unidos que fez a diferença. Em Kobane, pela primeira vez, o EI estava a combater um inimigo – as Unidades de Defesa Popular (YPG) e a sua ala política, o Partido de União Democrática (PYD) – que em importantes aspetos tinham semelhança com ele. O PYD é o ramo sírio do Partido dos Trabalhadores do Kurdistão (PKK), que desde 1984 luta pelo autogoverno dos 15 milhões de curdos turcos. Tal como o EI, o PKK combina um compromisso ideológico fanático com perícia militar e experiência ganha em longos anos de guerra de guerrilha. Marxista-Leninista na sua ideologia original, o PKK é dirigido a partir de cima e procura monopolizar o poder no interior da comunidade curda, seja na Turquia ou na Síria. O líder do partido, Abdullah Ocalan, que está preso, é objeto de um poderoso culto à personalidade, emite instruções da prisão turca numa ilha no Mar de Mármara. A direção militar do PKK opera a partir de um bastião na Montanha Qandil, no norte de Iraque, uma das grandes fortalezas naturais do mundo. A maior parte dos seus combatentes, calculados em sete mil, retiraram-se de Turquia como resultado de um cessar-fogo em 2013, e ainda se movem de campo em campo nas profundas gargantas e vales de Qandil. São altamente disciplinados e intensamente dedicados à causa do nacionalismo curdo: isso permitiu que travassem uma guerra durante três décadas contra o enorme exército turco, sempre firmes, apesar das devastadoras perdas sofridas. O PKK, tal como o EI, enaltece o martírio: os combatentes mortos são enterrados em cemitérios cuidadosamente protegidos, cheios de roseiras no alto das montanhas, com elaboradas lápides sobre os túmulos. Há fotografias de Ocalan por toda a parte: há seis ou sete anos, visitei uma aldeia em Qandil ocupada pelo PKK; no alto havia um enorme retrato de Ocalan realizado com pedras de cores na encosta de uma montanha próxima. É uma das poucas bases de guerrilha que podem ser vistas do espaço.

Síria e Iraque estão repletos de exércitos e milícias que não combatem contra ninguém que possa devolver o fogo, mas o PKK e seus sócios sírios, o PYD e as YPH, são diferentes. Frequentemente criticados por outros curdos como estalinistas e antidemocráticos, pelo menos têm a capacidade de lutar pelas suas próprias comunidades. As vitórias do Estado Islâmico contra forças superiores deste ano ocorreram porque estava a enfrentar soldados, como os do exército iraquiano, que têm uma moral baixa e estão mal abastecidos de armas, munições e alimentos, graças a comandantes corruptos e incompetentes, muitos dos quais tendem a fugir. Quando alguns milhares de combatentes do EI invadiram Mossul em junho, enfrentavam em teoria 60 mil soldados e polícias iraquianos. Mas a cifra real ascendia provavelmente a um terço: o resto eram só nomes no papel, e os oficiais punham no bolso esses salários; ou existiam, mas entregavam mais da metade do seu pagamento aos comandantes, em troca de não ter de sequer se aproximar jamais dos quartéis do exército. Pouca coisa mudou nos quatro meses desde a queda de Mossul, a 9 de junho. Segundo um político iraquiano, uma recente inspeção oficial a uma divisão blindada iraquiana “que devia ter 120 tanques e 10.000 soldados, revelou que o que havia era 68 tanques e só 2.000 soldados”. Os peshmerga turcos iraquianos – literalmente “os que enfrentam a morte” – também não são muito eficientes. Frequentemente são considerados melhores soldados que os do exército iraquiano, mas a sua reputação foi conseguida há trinta anos quando combatiam contra Saddam; desde então não lutaram muito, exceto nas guerras civis curdas. Mesmo antes de serem derrotados pelo EI em Sinjar, em agosto, um observador próximo dos peshmerga referiu-se a eles depreciativamente como pêche melba (pêssegos em calda); serviam, disse, “só para emboscadas nas montanhas”.

O sucesso do Estado Islâmico explica-se não só à incompetência dos seus inimigos mas também às divisões evidentes entre eles. John Kerry vangloria-se de ter reunido uma coligação de sessenta países, todos comprometidos com o combate ao EI, mas desde o início ficou claro que muitos membros importantes não estavam demasiado preocupados com a ameaça do EI. Quando o bombardeio da Síria começou em setembro, Obama anunciou com orgulho que a Arábia Saudita, a Jordânia, os Emirados Árabes Unidos, o Qatar, o Bahrein e a Turquia se juntavam aos EUA como parceiros militares contra o EI. Mas, como sabiam os norte-americanos, estes eram todos Estados sunitas, que tinham desempenhado um papel central na promoção dos jihadistas na Síria e no Iraque. Isso constituía um problema político para os Estados Unidos, como Joe Biden revelou para embaraço da administração numa conferência em Harvard a 2 de outubro. Disse que a Turquia, a Arábia Saudita e os Emirados tinham promovido “uma guerra sunita-xiita por interposta pessoa” na Síria e “enviado centenas de milhões de dólares e dezenas de milhares de toneladas de armas a qualquer um que quisesse lutar contra Assad” só que os que estavam a ser abastecidos eram a al-Nusra e a al-Qaida e as alas extremistas dos jihadistas provenientes de outras partes do mundo”. Admitiu que os rebeldes moderados sírios, supostamente centrais para a política dos EUA na Síria, constituíam uma força militar insignificante. Biden desculpou-se mais tarde por estas palavras, mas o que dissera era demonstravelmente verdade e reflete o que pensa realmente a administração em Washington. Mesmo mostrando indignação pela franqueza de Biden, os aliados sunitas dos EUA confirmaram rapidamente os limites da sua cooperação. O príncipe al-Waleed bin Talal al-Saud, um magnata empresarial e membro da família real saudita, disse: “a Arábia Saudita não será envolvida diretamente em combates contra o EI no Iraque ou na Síria, porque estes não afetam explicitamente a nosso país”. Na Turquia, Erdogan disse que, do seu ponto de vista, o PKK era tão mau quanto o EI.

Quase todos os que lutavam realmente contra o EI, incluindo o Irão, o exército sírio, os curdos sírios e as milícias xiitas no Iraque estavam excluídos desta estranha coligação. Este caos foi muito vantajoso para o Estado Islâmico, como ilustra um incidente no norte do Iraque a princípios de agosto, quando Obama enviou forças especiais dos EUA ao Monte Sinjar para monitorizar o perigo que corriam os milhares de yazidis cercados. Etnicamente curdos, mas com a sua própria religião não islâmica, os yazidis tinham fugido dos seus povoados e cidades para escapar ao massacre e à escravização pelo EI. Os soldados norte-americanos chegaram de helicóptero e foram eficientemente protegidos e levados de visita por milicianos curdos uniformizados. Mas pouco depois os yazidis que tinham esperado ser resgatados ou pelo menos ajudados pelos norte-americanos ficaram horrorizados ao ver que os soldados voltavam apressadamente ao seu helicóptero e partiam. A razão para a sua rápida partida foi revelada posteriormente em Washington: o oficial responsável do destacamento norte-americano tinha falado com os seus guardas curdos e descoberto que não se tratava dos peshmerga, amigos dos Estados Unidos, do governo regional do Curdistão, mas sim de combatentes do PKK – ainda qualificados de “terroristas” pelos EUA, apesar do papel central que tinham tido na ajuda aos yazidis e a repelir o EI. Só quando Kobane estava à beira de cair, Washington aceitou que não tinha nenhuma alternativa à cooperação com o PYD: era, afinal de contas, praticamente a única força efetiva que continuava a combater o EI no terreno.

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E depois havia o problema turco. Aviões dos EUA que atacaram as forças do EI em Kobane tiveram de voar 2.000 quilómetros desde as suas bases no Golfo, porque a Turquia não permitiu a utilização da sua base aérea em Incirlik, apenas a 160 km de Kobane. Ao não impedir o envio de reforços, armas e munições ao EI em Kobane, Ancara demonstrava que preferiria que o EI controlasse a cidade: qualquer coisa era preferível ao PYD. A posição da Turquia fora clara desde julho de 2012, quando o exército sírio, sob pressão dos rebeldes noutros lugares, se retirou das principais áreas curdas. Os curdos sírios, há muito perseguidos por Damasco e marginais politicamente, obtiveram repentinamente uma autonomia de facto sob crescente autoridade do PKK. Vivendo na sua maioria ao longo da fronteira com a Turquia, uma área de importância estratégica para o EI, os curdos converteram-se inesperadamente em protagonistas na luta pelo poder na Síria, que se desintegrava. Foi um acontecimento importuno para os turcos. As organizações políticas e militares dominantes dos curdos sírios eram ramos do PKK e obedeciam a instruções de Ocalan e da direção militar em Qandil. Os insurgentes do PKK, que tinham lutado durante tanto tempo por alguma forma de autogoverno em Turquia, governavam agora um quase Estado na Síria, centrado nas cidades de Qamishli, Kobane e Afrin. Era provável que grande parte da região fronteiriça síria permanecesse em mãos curdas, já que o governo sírio e os seus opositores eram demasiado fracos para fazer alguma coisa. É possível que Ancara não seja o mestre de xadrez que colabora com o EI para romper o poder curdo, como creem os partidários da teoria da conspiração, mas viu a vantagem de permitir que o EI debilitasse os curdos sírios. Nunca foi uma política com muita visão de futuro: se o EI conseguisse tomar Kobane, e portanto humilhar os EUA, o suposto aliado deste último, a Turquia, seria visto como parcialmente responsável, por ter isolado a cidade. No fim, a mudança de direção turca foi embaraçosamente rápida. Horas depois de Erdogan dizer que a Turquia não ajudaria os terroristas das YPG, deu permissão para que os curdos iraquianos reforçassem as forças das YPG em Kobane.

A repentina mudança de posição de Turquia foi o último de uma série de erros de cálculo sobre os eventos na Síria desde o primeiro levante contra Assad em 2011. O governo de Erdogan poderia ter controlado o equilíbrio do poder entre Assad e os seus oponentes, mas em lugar de fazê-lo convenceu-se de que Assad – como Kadhafi na Líbia – seria inevitavelmente derrubado. Quando isso não sucedeu, Ancara deu apoio a grupos jihadistas financiados pelas monarquias do Golfo, que incluíam a al-Nusra, a filial síria da al-Qaida, e o EI. A Turquia desempenhou em grande parte o mesmo papel no apoio aos jihadistas na Síria que o Paquistão tinha tido ao apoiar os talibans no Afeganistão. O número estimado de 12.000 jihadistas estrangeiros que combatem na Síria, que despertam tanta apreensão na Europa e nos EUA, entraram quase todos através do que chegou a ser conhecido como a “autoestrada dos jihadistas”, utilizando postos da fronteira turca enquanto os guardas olhavam para outro lado. Na segunda metade de 2013, quando os EUA pressionaram a Turquia, foi mais difícil aceder a essas rotas, mas os militantes do EI continuam a atravessar a fronteira sem grande dificuldade. A natureza exata da relação entre os serviços de espionagem turcos e o EI e a al-Nusra continua a ser confusa, mas existe forte evidência de um verdadeiro grau de colaboração. Quando rebeldes sírios dirigidos pela al-Nusra capturaram a cidade arménia de Kassab, em território controlado pelo governo sírio no início deste ano, parece que os turcos tinham permitido que operassem no interior do território turco. Também foi misterioso o caso dos 49 membros do consulado turco em Mossul que permaneceram na cidade quando esta foi tomada pelo EI; foram tomados como reféns em Raqqa, a capital síria do Estado Islâmico, e depois inesperadamente libertados após quatro meses em troca de prisioneiros do EI presos na Turquia.

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Se Erdogan tivesse preferido ajudar os curdos cercados em Kobane em vez de isolá-los, teria fortalecido o processo de paz entre o seu governo e os curdos turcos. Em lugar de fazê-lo, as suas ações provocaram protestos e distúrbios dos curdos em toda a Turquia; em cidades e aldeias onde não tinham ocorrido manifestações curdas na história recente, foram queimados pneus e houve 44 mortos. Pela primeira vez em dois anos, aviões militares turcos atacaram posições do PKK no sudeste do país. Pareceria que Erdogan tinha desperdiçado um dos principais ganhos dos seus anos no poder: o começo de um fim negociado da insurgência armada curda. A hostilidade étnica e os maus tratos entre turcos e curdos aumentaram. A polícia reprimiu manifestações contra o EI mas não tocou nas manifestações a favor do EI. Uns 72 refugiados que tinham fugido para Turquia de Kobane foram devolvidos à cidade. Quando cinco membros das YPG foram presos pelo exército turco, os militares disseram que se tratava de “terroristas separatistas”. Houve explosões histéricas por parte de partidários de Erdogan: o presidente da câmara de Ancara, Melih Gökçek, twitou que “há pessoas no leste que se fazem passar por curdos mas que na realidade são arménios ateus pela sua origem”. Os meios turcos, crescentemente servis ou intimidados pelo governo, subestimaram a seriedade das manifestações. A CNN Turk, famosa por mostrar um documentário sobre pinguins durante o apogeu das manifestações no Parque Gezi do ano passado, preferiu transmitir um documentário sobre as abelhas durante os protestos curdos.

Seria um grande revés para o EI se não conseguisse capturar Kobane? A sua reputação de derrotar sempre os seus inimigos seria abalada, mas mostrou que consegue resistir aos ataques aéreos dos EUA, mesmo quando as suas forças estão concentradas num só lugar. O califado declarado por Abu Bakr al-Baghdadi a 29 de junho continua expandindo-se: as suas maiores vitórias, na Província de Anbar, entregaram-lhe outro quarto do Iraque. Uma série de ataques bem planeados em setembro permitiu ao EI a captura de território ao redor de Faluja, a 64 km a oeste de Bagdade. Um acampamento militar iraquiano foi sitiado durante uma semana e capturado: trezentos soldados iraquianos foram mortos. Como no passado, o exército foi incapaz de montar uma contraofensiva efetiva, apesar do apoio de ataques aéreos dos Estados Unidos. A 2 de outubro, o EI lançou uma série de ataques que capturaram Hit, uma cidade ao norte de Ramadi, o que levou a que o governo mantivesse só uma base do exército na área. As forças do EI encontram-se atualmente bem perto de enclaves sunitas no oeste de Bagdade: até agora mantêm-se tranquilos, ainda que todas as demais áreas sunitas no país estão mergulhadas no caos. Segundo prisioneiros pertencentes ao EI, as células da organização na cidade esperam ordens para sublevar-se em coordenação com um ataque vindo dos arredores da capital. É possível que o EI não possa capturar Bagdade inteira, uma cidade de sete milhões de habitantes (na sua maioria xiitas), mas poderia ocupar as áreas sunitas e causar pânico em toda a capital. Em ricos distritos mistos como al-Mansour no oeste de Bagdade, metade dos habitantes partiram para a Jordânia ou para o Golfo porque esperam um ataque do EI. “Penso que o EI vai atacar Bagdade, mesmo que seja sozinho, para ocupar os enclaves sunitas”, disse um residente. “Se conseguirem apoderar-se nem que seja de parte da capital, aumentarão a credibilidade da sua afirmação de ter estabelecido um Estado”. Enquanto isso, o governo e os média locais fazem questão de subestimar obstinadamente a seriedade da ameaça de uma invasão do EI, para evitar a fuga em massa de áreas xiitas mais seguras no sul.

A substituição do governo corrupto e desfuncional de Nouri al-Maliki por Haider al-Abadi não significou uma diferença tão grande quanto gostariam os seus patrocinadores estrangeiros. Como o exército não mostra um desempenho melhor que antes, as principais forças que enfrentam o EI são as milícias xiitas. Altamente sectárias e frequentemente criminalizadas, lutam esforçadamente em torno de Bagdade para repelir o EI e limpar áreas mistas da sua população sunita. Sunitas são frequentemente detidos nos pontos de controlo, sequestrados para obter resgates de dezenas de milhares de dólares e habitualmente assassinados mesmo quando o resgate é pago. A Amnistia Internacional diz que as milícias, incluindo a Brigada Badr e Asaib Ahl al Haq, operam com total imunidade; acusa o governo dominado por xiitas de “avalizar crimes de guerra”. Como o governo iraquiano e os EUA pagam grandes somas de dinheiro a homens de negócios, líderes tribais e a qualquer um que diga que combaterá o EI, os senhores da guerra locais voltam a aparecer: entre vinte e trinta novas milícias foram criadas desde junho. Isto significa que os iraquianos sunitas não têm nenhuma alternativa a não ser apoiar o EI. A única alternativa é o regresso de ferozes milicianos xiitas que suspeitam que todos os sunitas apoiam o Estado Islâmico. Mal recuperado da última guerra, o Iraque está a ser destruído por um novo conflito. Independentemente do que ocorra em Kobane, o EI não vai a implodir. A intervenção estrangeira só aumentará o nível de violência e a guerra civil sunita-xiita ganhará força, sem que se vislumbre um final.

29 de outubro de 2014

Um verdadeiro contrapeso ao poder dos Estados Unidos é uma necessidade mundial

Conflitos no Oriente Médio e na Ucrânia vão se espalhar sem a restrição efetiva do unilateralismo Ocidental

Seumas Milne

Foto: Mikhail Klimentyev / AP.

Tradução / O que foi feito do “fim da História”? Conflitos multiplicam-se em três continentes. Do Afeganistão até o norte da África, há um “arco de guerra”, intervenção estrangeira e colapso dos Estados. Agora, o chamado Estado Islâmico – filho mutante da “guerra ao terror” – é o alvo de nova intervenção, conduzida pelos EUA no Iraque e na Síria. Na Ucrânia, milhares já morreram na guerra por procuração entre rebeldes apoiados pela Rússia e o governo de Kiev, patrocinado pelo Ocidente. E no Extremo Oriente, crescem as tensões entre China, Japão e outros aliados americanos.

As tropas britânicas finalmente encerraram as operações de combate no Afeganistão após treze anos de uma ocupação desastrosa. A justificativa bizarra, apesar do aumento da presença global da al-Qaeda, é de que a missão foi “muito bem-sucedida”. Isso em um país no qual dezenas de milhares de pessoas foram mortas, o Talibã controla áreas imensas, a violência contra as mulheres aumentou demais e as eleições são uma cortina de fumaça para fraudes e intimidações.

A invasão afegã deu início ao que se tornaria a guerra sem fim do Ocidente, abrangendo a catástrofe do Iraque, guerras com drones do Paquistão à Somália, apoio às escuras para rebeldes jihadistas na Síria e intervenção “humanitária” na Líbia que deixou para trás um estado falido à beira da guerra civil.

O Oriente Médio está mergulhado em uma crise ímpar e sem precedentes. Mais do que qualquer outra coisa, esse é o resultado de uma intervenção contínua dos EUA e do Ocidente e do apoio a ditadores, tanto antes quanto depois da “primavera árabe”, sem qualquer restrição por um sistema internacional de poder ou de direito.

Mas se o redemoinho do Oriente Médio é o fruto de uma nova ordem mundial dominada pelos EUA, a Ucrânia é o resultado do desafio ao mundo unipolar que se seguiu ao fracasso das guerras do Afeganistão e do Iraque. Foi a tentativa dos falcões americanos e da União Europeia (UE), de levar a dividida Ucrânia para o lado ocidental após anos de expansão da OTAN no Oriente, que deflagrou crise, a absorção da Crimeia pela Rússia e as revoltas na região de Donbass ao leste, na qual o idioma falado é o russo.

Oito meses depois, com eleições nos dois lados, parece que a divisão no país aumentou. A realidade, descartada continuamente como propaganda do Kremlin, é que os EUA e a UE apoiaram a derrocada violenta de um governo eleito, apesar de corrupto, e agora estão apoiando uma campanha militar que inclui milícias de extrema direita acusadas de crimes de guerra — enquanto a Rússia fica sujeita a sanções avassaladoras dos blocos ocidentais.

Há algum tempo, no centro de debates denominado Clube Valdai, e localizado próximo a Sochi, o presidente russo, Vladimir Putin, fez sua denúncia mais feroz sobre este papel dos EUA no mundo, logo após Barack Obama colocar a Rússia no mesmo grupo que o vírus do ebola e o Estado Islâmico (ISIS), como as três principais ameaças globais à América. Após a guerra fria, declarou Putin, os EUA tentaram dominar o mundo por meio de “imposições unilaterais” e “intervenção ilegal”, desconsiderando a lei internacional e as instituições, caso elas atrapalhem. O resultado foi conflito, insegurança e o surgimento de grupos como o ISIS, enquanto os EUA e seus aliados “lutavam constantemente contra as consequências de suas próprias políticas”.

Nada disso é controverso, na maior parte do mundo. Durante uma sessão presidida por mim no clube Valdai, Putin disse aos jornalistas e acadêmicos estrangeiros que o mundo unipolar foi um “meio de justificar ditaduras sobre pessoas e países” – mas o mundo multipolar emergente provavelmente será mais instável. A única resposta – com a clara intenção de uma abertura ao Ocidente – era reconstruir as instituições internacionais, com base no respeito mútuo e na cooperação. A opção era: novas regras, ou nenhuma regra! O que poderia gerar uma “anarquia global”.

Quando perguntei a Putin se as ações da Rússia na Ucrânia foram uma resposta à “ordem mundial sem regras” — e, ao mesmo tempo, um sinal deste fenômeno, ele negou, insistindo que o precedente de Kosovo indica que a Crimeia tinha todo o direito à autodeterminação. Porém, ao reconhecer, de forma relutante, que as tropas russas intervieram na Crimeia “para bloquear as unidades ucranianas”, ele realmente admitiu ultrapassar a linha da legalidade – mesmo que nem chegue perto das invasões, campanhas de bombardeio e intervenções veladas ilegais dos EUA e seus aliados, nos últimos 15 anos.

Mas há poucas chances de o lado ocidental responder ao apelo de Putin por um novo sistema de regras globais. Na verdade, os EUA mostraram pouco respeito às regras durante a guerra fria, realizando implacavelmente intervenções sempre que tinham a oportunidade. Porém, havia o respeito pelo poder. Com o colapso da União Soviética, essa restrição desapareceu. Foi apenas com o fracasso das guerras no Afeganistão e no Iraque, e com o desafio russo à expansão ocidental e à intervenção na Geórgia, Síria e Ucrânia, que o poder desenfreado americano foi colocado em cheque.

Aliado à ascensão da China, este fenômeno também criou algum espaço para que outros países procurassem construir sua independência política — principalmente na América Latina. Talvez o nacionalismo oligárquico de Putin não tenha muito apelo global, mas o papel da Rússia, como contrapeso à supremacia ocidental, com certeza tem. E é por esse motivo que grande parte do mundo tem uma visão diferente dos eventos na Ucrânia, se comparada à dos ortodoxos ocidentais; e por isso China, Índia, Brasil e África do Sul abstiveram-se da condenar a Rússia, com relação à Crimeia, nas Nações Unidas.

No entanto, a capacidade de Moscou frente à força militar dos EUA é limitada. Sua economia é muito dependente de petróleo e gás, sofre com falta de investimentos e agora está sujeita a sanções prejudiciais. Apenas a China oferece uma possível contenção global ao poder unilateral ocidental, e isso ainda está longe de acontecer. Segundo o que Putin teria dito ao vice-presidente dos EUA, Joe Biden, talvez a Rússia não seja forte o suficiente para competir pela liderança global — mas ainda pode decidir quem será esse líder.

Até mesmo Obama insiste que os EUA são a “nação indispensável”. E parece quase certo que o sucessor de Obama, quem quer que seja, será consideravelmente mais linha-dura e intervencionista. A elite americana continua comprometida com a dominação global e com a preservação da nova ordem mundial pós-1991.

Apesar dos benefícios do mundo multipolar emergente, o perigo de conflitos, incluindo guerras de grandes proporções, parece crescer. A pressão da opinião pública, que fez as tropas ocidentais retirarem-se do Iraque e do Afeganistão, terá que se fortalecer muito nos próximos anos, para que essa ameaça não nos destrua.

26 de outubro de 2014

O mito da imprensa livre

Chris Hedges


Há muito mais verdades sobre o jornalismo estadunidense no filme “Kill the Messenger”, que descortina o que se passa na grande mídia, a partir da campanha nacional de difamação contra o trabalho do jornalista investigativo Gary Webb do que no filme “All the President’s Men”, uma celebração ao trabalho dos repórteres que cobriram o escândalo Watergate.

Os meios de comunicação apoiam cegamente a ideologia do capitalismo corporativo. Louvam e promovem o mito da democracia estadunidense. Deste modo são suprimidas liberdades civis da maioria e o dinheiro substitui o voto. Os meios de comunicação prestam deferência aos líderes de Wall Street e de Washington não importa o quanto os seus crimes possam ser perversos. De modo servil, os meios de comunicação veneram os militares e a aplicação de leis em nome do patriotismo. Os meios de comunicação selecionam especialistas e peritos, quase sempre indicados e sugeridos a partir dos centros de poder, para interpretar a realidade e explicar a política. Em geral divulgam press releases oficiais redigidos pelas corporações para preencher o seu noticiário. E para distrair os leitores, recheiam os furos de notícias com fofocas da vida de celebridades, com notícias triviais ou esportivas e com futilidades. O papel da grande mídia é promover o entretenimento ou se fazer de papagaios repetindo a propaganda oficial para as massas. As corporações, que contratam jornalistas dispostos a serem cortesãos e são proprietárias da imprensa, alugam profissionais para serem benevolentes com as elites e, em contrapartida, os promovem a celebridades. Estes jornalistas cortesãos, que ganham milhares de dólares, são convidados a frequentarem a intimidade dos círculos do poder. Como diz John Ralston Saul, romancista canadense, são hedonistas do poder.

Quando Webb publicou, em 1996, uma série de reportagens no jornal San José Mercury News denunciando a Agência Central de Inteligência (CIA) como cúmplice no contrabando de toneladas de cocaína a ser vendida nos Estados Unidos para financiar a sua operação na luta dos contra da Nicarágua, a mídia se voltou contra ele que passou a ser visto como se fosse um leproso. Ao longo do tempo e das várias gerações de jornalistas, é longa a lista de profissionais leprosos que vai de Ida B. Wells a I.F. Stone e a Julian Assange.

Os ataques contra Webb foram renovados agora, em jornais como o The Washington Post, assim que o filme estreou, há uma semana, em Nova Iorque. Estes ataques são como uma autojustificativa. Uma tentativa da grande mídia de mascarar a sua colaboração com as elites do poder. A grande mídia, assim como todo o establishment liberal, pretende apresentar o verniz de quem, destemidamente, busca a verdade e a justiça. Mas para sustentar este mito precisa destruir a credibilidade de jornalistas como Webb e Assange que procuram jogar uma luz no trabalho sinistro e criminoso do império que é mais preocupado com (esconder) a verdade do que com a notícia.

Os maiores jornais do país, inclusive o The New York Times, escreveu que a história levantada por Webb apresentava “provas escassas”. Funcionaram como cães de guarda para a CIA. Em 1996, assim que a denúncia surgiu, The Washington Post dedicou imediatamente duas páginas inteiras para atacar a argumentação e as provas de Webb. O Los Angeles Times publicou três artigos enlameando a reputação de Webb e procurando destruir a credibilidade da sua história. Foi um repugnante, deplorável, vergonhoso capítulo do jornalismo estadunidense. Não foi o único. Alexander Cockburn e Jeffrey St. Clair, em um artigo publicado em 2004, “How the press and the CIA killed Gary Webb’s caree” detalharam a dinâmica da campanha nacional de difamação.

O jornal de Webb, depois de publicar um mea culpa para toda a série de artigos, demitiu-o. Webb não voltaria a conseguir trabalhar novamente como jornalista investigativo e, às vésperas de perder a casa onde morava, suicidou-se em 2004. Sabemos, em boa parte por causa de uma investigação no Senado, conduzida pelo então senador John Kerry, que Webb sempre esteve certo. Mas Webb não foi perseguido por ter ou não ter razão, porque, é claro, os bandidos que perseguiram Webb sempre souberam que ele tinha razão. Webb foi perseguido porque expôs a CIA como bando de bandidos traficantes de armas e de drogas. Ele expôs os meios de comunicação, que dependem de fontes oficiais para a maioria de suas notícias e, portanto, são reféns de tais fontes, como servas covardes do poder. Ele tinha cruzado a linha. E ele pagou por isso.

Se a CIA introduziu centenas de milhões de dólares em drogas nas periferias de grandes cidades do país, para fazer dinheiro para pagar por uma guerra ilegal na Nicarágua, o que dizer da legitimidade de toda essa gigantesca organização clandestina? O que dizer da chamada “guerra às drogas”? O que dizer da dureza e da indiferença do governo do país em relação aos mais pobres, sobretudo os mais pobres, que estão no olho do furacão do crack epidêmico? O que dizer de operações militares clandestinas, realizadas sem que a opinião pública saiba?

Todas essas eram, precisamente, as perguntas que as elites do dinheiro, as elites do poder, e seus serviçais na imprensa, tinham de silenciar a qualquer custo.
Os meios de comunicação são atormentados pela mesma mediocridade, que a academia, os sindicatos, as artes, o Partido Democrata e as instituições religiosas. Penduram-se todos no mesmo mantra de autopromoção, que os apresenta como se fossem imparciais e objetivos, e assim justificam a subserviência ao poder. A imprensa escreve e fala – diferente dos acadêmicos que discursam para eles mesmos, naquele velho jargão de teólogos medievais – para ser ouvida e compreendida pela opinião pública. E por essa razão a imprensa é mais poderosa e mais diretamente controlada pelo Estado. Ela desempenha um papel essencial na difusão de propaganda oficial. Mas, para que essa propaganda tenha eficácia, a imprensa tem de manter para ela mesma a ficção de independência e de integridade. Ele deve esconder as suas verdadeiras intenções.

Os meios de comunicação de massa, como C. Wright Mills apontou, são ferramentas essenciais para manter o conformismo. São eles quem dizem a leitores e telespectadores o que leitores e telespectadores são. São eles quem dizem o que leitores e telespectadores devem aspirar a ser ou a ter. Prometem que ajudarão leitores e telespectadores a “chegar lá”. Oferecem grande variedade de técnicas, conselhos e esquemas que prometem sucesso pessoal e profissional. Os veículos de comunicação de massa, como Wright escreveu, existem, primeiramente, para ajudar os cidadãos a sentirem que são bem-sucedidos e que “chegaram lá”, mesmo que não tenham chegado a lugar algum e continuem muito longe de alcançar as próprias aspirações. Eles usam a linguagem e as imagens para manipular e formar opiniões, não para promover o verdadeiro debate democrático e o diálogo ou para abrir espaço público para a ação política livre e deliberação pública. Somos transformados em espectadores passivos do poder pelos meios de comunicação, que decidem por nós o que é verdadeiro e o que é falso, o que é legítimo e o que não é. A verdade não é algo que descobrimos. Fica decretado pelos meios de comunicação de massa.

O divórcio entre a verdade, para um lado, e o discurso e ação, para o outro lado – a instrumentalização da comunicação – não apenas aumentou a incidência da propaganda; ele também corrompeu a própria ideia de verdade, e, portanto, o sentido pelo qual assumimos nossas posições no mundo está destruído – escreveu James W. Carey em Communication as Culture.

A primeira e principal função dos meios de comunicação massa é superar a enorme diferença que separa as identidades idealizadas – essas que, numa cultura de mercadoria movem-se sempre em torno da aquisição de status, dinheiro, fama e poder, ou, pelo menos, das correspondentes fantasias e ilusões – e as identidades reais. E pode ser muito lucrativo inflar essas identidades idealizadas, amplamente implantadas por anunciantes e pela cultura corporativa. Dão-nos não o que nos faz falta real, mas o que desejamos. Os meios de comunicação de massa nos permite escapar para o viciante mundo do entretenimento e do espetáculo. Acrescenta-se alguma noticia a essa mistura, mas não é a principal preocupação dos meios de comunicação de massa. Não mais do que 15% do espaço de qualquer jornal é devotado a notícias; todo o resto é devotado à mais fútil procura por algo que se chama autoatualização. No rádio e na TV a proporção é ainda mais desequilibrada.

“Essa”, escreveu Mills, “é provavelmente a fórmula psicológica básica dos mass media hoje. Mas, como fórmula, nada tem a ver com o desenvolvimento do ser humano. É só uma fórmula de um pseudo-mundo que a imprensa inventa e mantém”.

At the core of this pseudo-world is the myth that our national institutions, including those of government, the military and finance, are efficient and virtuous, that we can trust them and that their intentions are good. These institutions can be criticized for excesses and abuses, but they cannot be assailed as being hostile to democracy and the common good. They cannot be exposed as criminal enterprises, at least if one hopes to retain a voice in the mass media.

Those who work in the mass media, as I did for two decades, are acutely aware of the collaboration with power and the cynical manipulation of the public by the power elites. It does not mean there is never good journalism and that the subservience to corporate power within the academy always precludes good scholarship, but the internal pressures, hidden from public view, make great journalism and great scholarship very, very difficult. Such work, especially if it is sustained, is usually a career killer. Scholars like Norman Finkelstein and journalists like Webb and Assange who step outside the acceptable parameters of debate and challenge the mythic narrative of power, who question the motives and virtues of established institutions and who name the crimes of empire are always cast out.

A imprensa só ataca grupos dentro da elite do poder, quando acontece de o poder dividir-se e de haver disputas dentro do círculo do poder. Quando Richard Nixon, eleito pelos Republicanos, e que usou métodos ilegais e clandestinos para calar a imprensa alternativa e para perseguir ativistas antiguerra e líderes negros dissidentes radicais, tentou atacar o Partido Democrata, foi quando virou alvo da imprensa. O pecado de Nixon não foi abusar do poder. Nixon viveu anos e anos abusando do poder contra vários grupos de dissidentes, sem que o establishment se incomodasse com isso. O pecado de Nixon foi que abusou do poder contra uma facção dentro da própria elite do poder.

O escândalo Watergate, mitificado como prova de uma imprensa destemida e independente, é ilustrativo do quanto a mídia de massa é limitada quando se trata de investigar centros de poder.

"A história foi generosa conosco e nos ofereceu um 'experimento controlado' para determinar exatamente o que realmente estava em disputa no período Watergate, quando a posição de desafio assumida pela imprensa, nos país, atingiu o pico. A resposta veio clara e precisa: grupos poderosos têm meios para defender-se, eles mesmos, o que não é surpresa para ninguém. Pelos parâmetros da imprensa, só há escândalo quando os direitos da própria imprensa e sua posição de poder são ameaçados", como escreveram Edward S. Herman e Noam Chomsky em Manufacturing Consent: The Political Economy of the Mass Media. "Na direção contrária, enquanto as ilegalidades e violações da ordem democrática ficam confinadas a grupos marginais ou só atinjam dissidentes de ataques militares do país, ou resultam num custo difuso, imposto a toda a população, em todos esses casos, ninguém ouve nem sinal de oposição feita pela imprensa; a imprensa, toda, se mantém então absolutamente muda e distante. Por isso Nixon pôde ir tão longe, amparado num falso senso de segurança precisamente porque o cães de guarda só latiram quando Nixon começou a representar ameaça contra os privilegiados.

Os abolicionistas e os que pregavam respeito aos direitos civis; jornalistas investigativos que enfureceram a Standard Oil e os proprietários dos cercados para gado em Chicago; produções de teatro radical como The Cradle Will Rock, que implodiram os mitos tão caros à classe governante e deram voz a pessoas comuns; os sindicatos de trabalhadores que permitiram que imigrantes, afro-americanos e homens e mulheres trabalhadores encontrassem dignidade e esperança; as grandes universidades públicas que deram a filhos de imigrantes a chance de ter educação de alta qualidade; os Democratas do New Deal que compreendiam que uma democracia jamais estará segura se não garantir aos cidadãos padrões de vida aceitáveis e se não souber impedir que o estado seja sequestrado pelo dinheiro privado, nada disso existe mais no panorama do país contemporâneo. A desgraça de Webb foi trabalhar em tempos em que a imprensa livre já não passa de clichê, como, também, a própria democracia.

The Cradle Will Rock”, como quase todo o trabalho popular que foi gerado no Projeto Federal de Teatro criado por Roosevelt no auge da Grande Depressão, deu voz aos anseios da classe trabalhadora, em vez de só repetir anseios e angústias da elite. E ali, afinal, se expôs a loucura da guerra, a ganância desenfreada e a desenfreada corrupção, a cumplicidade das instituições liberais – especialmente da imprensa – que assegurou proteção à elite no poder e sempre ignorou todos os abusos do capitalismo. Na peça, o personagem Senhor Senhor governa a cidade como uma empresa privada:

"Acredito que jornais são ótimos para modelar as mentes" diz Senhorr Senhor. "Minha indústria de aço é realmente dependente deles."

"Basta o senhor telefonar para a Redação" responde o Editor de Notícias. "Imprimiremos todas as notícias que o senhor nos der. De costa a costa, de fronteira a fronteira."

O Editor de Notícias e o Senhor Senhorr cantam em dueto:

"Ah, a imprensa, a imprensa, a liberdade de imprensa.
Nunca nos tirarão nossa liberdade de imprensa!
Temos de ser livres para dizer o que nos vai n’alma...
com um da-da-di-da-da-dá e sim-sim-sim,
a favor de quem pagar mais." 

"Bem me interessaria uma série de matérias sobre esse jovem, Larry Foreman", diz o Senhor Senhor ao Editor de Notícias.
 
"Sei. O tal que anda por aí fazendo agitação e organizando sindicatos", responde o Editor de Notícias. Já ouvimos falar dele. De fato, só ouvimos falar bem. Parece ser muito popular entre os trabalhadores."

"Descubra com quem ele bebe e com quem ele dorme. Vasculhem o passado dele, até achar alguma coisa que o faça parar."

"Mas o sujeito é de briga, é pura dinamite. Precisaremos de um exército para segurá-lo" responde o Editor de Notícias.

"Ótimo! Sendo assim, vai ser fácil segurá-lo", conclui o Senhor Senhor. E o dueto recomeça:

"Ah, a imprensa, a imprensa, a liberdade de imprensa.
Nunca nos tirarão nossa liberdade de imprensa!
Temos de ser livres para dizer o que nos vai n’alma...
com um da-da-di-da-da-dá e sim-sim-sim,
a favor de quem pagar mais."

Na Guerra Fria, agências de espionagem dos EUA usaram 1.000 nazistas

Eric Lichtblau

The New York Times

Tradução / Nas décadas que seguiram a Segunda Guerra Mundial, a CIA e outras agências dos Estados Unidos empregaram pelo menos mil nazistas como espiões e informantes durante a Guerra Fria e, tão recentemente quanto na década de 1990, esconderam os laços que o governo tinha com alguns que ainda moravam nos EUA, como mostram registros e entrevistas recém divulgados.

No auge da Guerra Fria, na década de 1950, diretores das forças de policiamento e de inteligência, como J. Edgar Hoover, do FBI, e Allen Dulles, da CIA, recrutaram agressivamente antigos nazistas de todos os escalões como "recursos" secretos contra os soviéticos, segundo registros que deixaram de ser secretos. Eles acreditavam que o valor de inteligência dos antigos nazistas contra os russos superava o que uma autoridade chamou de "lapsos morais" em seus serviços para o Terceiro Reich.

A agência contratou um ex-oficial da SS como espião na década de 1950, por exemplo, mesmo depois de concluir que ele provavelmente era culpado de "crimes de guerra menores".

E em 1994, um advogado da CIA pressionou os promotores a abandonarem uma investigação de um antigo espião que morava próximo a Boston, implicado no massacre nazista de dezenas de milhares de judeus na Lituânia, de acordo com uma autoridade. 

As evidências de ligações do governo com espiões nazistas começaram a surgir publicamente nos anos 1970. Mas milhares de registros de antigos arquivos secretos, solicitados sob a Lei de Liberdade de Informação, e outras fontes, juntamente com entrevistas de dezenas de funcionários antigos e atuais, mostra que o recrutamento de nazistas era muito mais profundo do que se sabia e que as autoridades tentaram esconder esses laços por pelo menos meio século depois da guerra.

Em 1980, membros do FBI se recusaram a revelar até mesmo para os caçadores de nazistas do próprio Departamento da Justiça que conheciam cerca de 16 supostos nazistas que moravam nos Estados Unidos.

A agência recusou um pedido feito pelo Ministério Público dos registros internos sobre os suspeitos nazistas, segundo os memorandos, porque todos os 16 homens tinham trabalhado como informantes do FBI, fornecendo pistas sobre "simpatizantes" comunistas. Cinco dos homens ainda eram informantes ativos.

Recusando-se a entregar os registros, um membro do gabinete ressaltou em um memorando a necessidade de "proteger a confidencialidade de tais fontes de informação da forma mais ampla possível".

Alguns desses espiões recrutados pelos Estados Unidos haviam trabalhado em altos escalões nazistas.

Um oficial da SS, Otto von Bolschwing, foi mentor e principal assessor de Adolf Eichmann, o arquiteto da "Solução Final", e escreveu documentos políticos sobre como aterrorizar os judeus.

No entanto, após a guerra, a CIA não apenas contratou-o como espião na Europa, mas transferiu-o junto com sua família para Nova York, em 1954, segundo os registros. O movimento foi visto como uma "recompensa por seu serviço leal do pós-guerra e tendo em vista a inocuidade de suas atividades no partido [nazista]", escreveu a agência.

Seu filho, Gus von Bolschwing, que soube muitos anos mais tarde dos laços de seu pai com os nazistas, vê a relação entre a agência de espionagem e seu pai como de conveniência mútua forjada pela Guerra Fria.

"Eles o usaram, e ele usou-os", disse em uma entrevista Gus von Bolschwing, hoje com 75 anos. "Isso não deveria ter acontecido. Ele nunca deveria ter sido admitido nos Estados Unidos. Não era coerente com os valores do nosso país."

Quando os agentes israelenses capturaram Eichmann na Argentina em 1960, Otto von Bolschwing procurou a ajuda da CIA pois temia que viessem atrás dele, segundo os memorandos.

Membros da agência também tinham medo que von Bolschwing pudesse ser listado como "colaborador e companheiro de conspiração de Eichmann e que a publicidade resultante criasse embaraços para os EUA", escreveu um agente da CIA.

Depois que dois agentes se reuniram com von Bolschwing em 1961, a agência assegurou-lhe de que não iria divulgar seus laços com Eichmann, segundo os registros. Ele viveu livremente por mais 20 anos antes dos promotores descobrirem seu papel durante a guerra e o processarem. Ele concordou em desistir de sua cidadania em 1981, morrendo meses depois.

Ao todo, os militares americanos, a CIA, o FBI e outras agências usaram pelo menos 1.000 nazistas e colaboradores como espiões e informantes depois da guerra, de acordo com Richard Breitman, um estudioso do Holocausto da Universidade Americana que participou da equipe nomeada pelo governo que divulgou os registros secretos de crimes de guerra.

The full tally of Nazis-turned-spies is probably much higher, said Norman Goda, a University of Florida historian on the declassification team, but many records remain classified even today, making a complete count impossible.

“U.S. agencies directly or indirectly hired numerous ex-Nazi police officials and East European collaborators who were manifestly guilty of war crimes,” he said. “Information was readily available that these were compromised men.”

Pelo que se sabe, nenhum dos espiões está vivo hoje.

A ampla utilização de espiões nazistas surgiu de uma mentalidade da Guerra Fria compartilhada por dois titãs da inteligência na década de 1950: O Sr. Hoover, diretor do FBI de longa data, e o Sr. Dulles, diretor da CIA. Dulles acreditava que os nazistas "moderados" podiam "ser úteis" para os Estados Unidos, mostram os registros. Hoover, por sua vez, aprovou pessoalmente alguns nazistas como informantes e rejeitou as acusações de suas atrocidades durante a guerra como propaganda soviética.

In 1968, Mr. Hoover authorized the F.B.I. to wiretap a left-wing journalist who wrote critical stories about Nazis in America, internal records show. Mr. Hoover declared the journalist, Charles Allen, a potential threat to national security.

John Fox, the bureau’s chief historian, said: “In hindsight, it is clear that Hoover, and by extension the F.B.I., was shortsighted in dismissing evidence of ties between recent German and East European immigrants and Nazi war crimes. It should be remembered, though, that this was at the peak of Cold War tensions.”

The C.I.A. declined to comment for this article.

Os espiões nazistas realizaram uma série de tarefas para as agências americanas nas décadas de 1950 e 1960, de perigosas a triviais, mostram os documentos. 

Em Maryland, o Exército treinou vários comandantes nazistas em táticas de guerrilha paramilitar para uma possível invasão da Rússia. Em Connecticut, a CIA usou um ex-guarda nazista para estudar os selos postais do bloco soviético em busca de significados ocultos.

Na Virgínia, um dos principais assessores de Hitler deu palestras secretas sobre assuntos soviéticos. E na Alemanha, oficiais da SS infiltraram-se em zonas controladas pelos russos, colocando cabos de vigilância e monitorando trens.

Mas muitos espiões nazistas mostraram-se ineptos ou pior, segundo as análises de segurança que agora foram divulgadas. Alguns foram considerados mentirosos habituais, estelionatários e até mesmo agentes duplos soviéticos, segundo os registros.

Breitman disse que raramente a questão da moralidade de se recrutar antigos nazistas era considerada. "Isso tudo resultou de uma espécie de pânico, um medo de que os comunistas eram terrivelmente poderosos e que nós tínhamos tão poucos recursos", disse ele.

Efforts to conceal those ties spanned decades.

When the Justice Department was preparing in 1994 to prosecute a senior Nazi collaborator in Boston named Aleksandras Lileikis, the C.I.A. tried to intervene.

The agency’s own files linked Mr. Lileikis to the machine-gun massacres of 60,000 Jews in Lithuania. He worked “under the control of the Gestapo during the war,” his C.I.A. file noted, and “was possibly connected with the shooting of Jews in Vilna.”

Even so, the agency hired him in 1952 as a spy in East Germany — paying him $1,700 a year, plus two cartons of cigarettes a month — and cleared the way for him to immigrate to America four years later, records show.

Mr. Lileikis lived quietly for nearly 40 years, until prosecutors discovered his Nazi past and prepared to seek his deportation in 1994.

When C.I.A. officials learned of the plans, a lawyer there called Eli Rosenbaum at the Justice Department’s Nazi-hunting unit and told him “you can’t file this case,” Mr. Rosenbaum said in an interview. The agency did not want to risk divulging classified records about its ex-spy, he said.

Mr. Rosenbaum said he and the C.I.A. reached an understanding: If the agency was forced to turn over objectionable records, prosecutors would drop the case first. (That did not happen, and Mr. Lileikis was ultimately deported.)

The C.I.A. also hid what it knew of Mr. Lileikis’s past from lawmakers.

In a classified memo to the House Intelligence Committee in 1995, the agency acknowledged using him as a spy but made no mention of the records linking him to mass murders. “There is no evidence,” the C.I.A. wrote, “that this Agency was aware of his wartime activities.”

24 de outubro de 2014

De que lado está a Turquia?

Patrick Cockburn

London Review Books

Durante o verão, o Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL) – derrotou o exército iraquiano, o exército sírio, os rebeldes sírios e a guerrilha peshmerga dos curdos iraquianos; estabeleceu um estado que vai de Bagdá a Aleppo e da fronteira do norte da Síria aos desertos do Iraque, ao sul. Grupos étnicos e religiosos dos quais o mundo praticamente nunca tinam ouvido falar – incluídos os iazidis de Sinjar e os cristãos caldeanos de Mosul – tornaram-se vítimas da crueldade do ISIL e de suas perversões sectárias. Em setembro, o EIIL moveu sua atenção na direção dos 2.5 milhões de sírios curdos que ganharam autonomia de facto em três cantões bem ao sul da fronteira turca. Um desses cantões, centrado na cidade de Kobani, virou alvo de assalto determinado. Em 6 outubro de 2014, milicianos do EIIL haviam aberto caminho até o centro da cidade. Recep Tayyip Erdoğan previu que a cidade cairia em questão de horas; John Kerry discursou sobre a “tragédia” de Kobani, mas disse – o que jamais fez sentido algum – que a captura da cidade não teria grande significado. Uma conhecida combatente curda, Arin Mirkan, se autoimolou, lançando-se contra forças do ISIL que avançavam: o gesto foi interpretado como sinal de desespero e de derrota iminente.

Com o ataque a Kobani, a liderança do EIIL quis provar que ainda pode derrotar seus inimigos, apesar dos ataques aéreos dos EUA contra eles, que começaram em 8 de agosto de 2014 no Iraque e em 23 de outubro de 2014 foram ampliados para invadir também a Síria. No ataque contra Kobani, os milicianos do EIIL cantavam: "O Estado Islâmico permanece, o Estado Islâmico cresce." No passado, o EIIL optou – foi uma decisão tática – por abandonar batalhas que achasse que não poderia vencer. Mas a batalha de cinco semanas por Kobani tinha durado muito e tinha sido muito informada para o mundo, para que os milicianos pudessem recuar sem perder prestígio. O apelo que tem o Estado Islâmico entre sunitas sírios, iraquianos e por todo o mundo deriva da crença de que suas vitórias são presentes divinos e inevitáveis; qualquer fracasso abala diretamente a crença de que Deus estaria lutando ao lado do EIIL.

Mas aquela inevitável vitória do EIIL em Kobani não aconteceu. Em 19 de outubro de 2014, revertendo a política na qual os EUA vinham investindo, os aviões americanos passaram a entregar armas, munição e remédio aos que defendiam a cidade. Sob pressão dos EUA, a Turquia anunciou no mesmo dia que garantiria salvo conduto aos guerrilheiros curdos iraquianos da guerrilha peshmerga para saírem do norte do Iraque e se deslocarem para Kobani; hoje, esses guerrilheiros curdos já recapturaram parte da cidade. Washington percebeu que, dada a retórica de Obama sobre um seu plano para “degradar e destruir” o EIIL, e com eleições para o Congresso que acontecerão dentro de apenas um mês, os EUA não podiam admitir que os terroristas colhessem mais uma vitória. E nesse caso especial, a vitória muito provavelmente seria comemorada com o massacre, diante de câmeras de televisão, montadas do lado turco da fronteira, de todos os curdos sobreviventes. Quando o sítio começou, o apoio aéreo que os EUA deram aos que defendiam Kobani foi pouco mais que mínimo; com medo de ofender a Turquia, a força aérea dos EUA evitara qualquer associação com combatentes curdos em solo. Em meados de outubro, a política mudou, e os curdos passaram a fornecer aos norte-americanos informações detalhadas sobre alvos em terra, o que possibilitou que os ataques aéreos norte-americanos destruíssem tanques e artilharia do EIIL. Antes, os comandantes do EIIL haviam conseguido esconder com eficácia seu armamento e dispersar as próprias forças terrestres. Até ali, das 6.600 missões de ataques aéreos, só 632 haviam atingido algum alvo em terra. Mas, na campanha para tomar Kobani, os comandantes do EIIL tiveram de concentrar as forças em posições identificáveis, e tornaram-nas vulneráveis. Num período de 48 horas, houve cerca de 40 ataques aéreos americanos, alguns a menos de 50 metros da linha de frente curda.

Não foi só o apoio aéreo que fez a diferença. Em Kobani, pela primeira vez o EIIL enfrentou inimigo declarado – as Unidades de Defesa Popular (YPG) e seu braço político, o Partido da União Democrática (PYD) – os quais, sob aspectos importantes, assemelham-se. O PYD é o ramo sírio do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), que desde 1984 luta por autodeterminação para os 15 milhões de curdos turcos. Como o EIIL, o PKK combina comprometimento ideológico fanatizado com expertise e talento militares, acumulados ao longo de muitos anos de guerra de guerrilhas. Originalmente de ideologia marxista-leninista, o PKK tem comando vertical e busca monopolizar o poder dentro da comunidade curda, tanto na Turquia como na Síria. O líder do partido, que está preso, Abdullah Ocalan, é objeto de um poderoso culto à personalidade, e distribui instruções de comando da prisão onde é mantido, numa ilha turca no Mar de Marmara. A liderança militar do PKK opera de uma fortaleza nas Montanhas Qandil, no norte do Iraque, uma das maiores fortalezas naturais que há no planeta. A maioria dos combatentes, estimados em 7 mil, retiraram-se da Turquia, nos termos de um acordo de cessar-fogo em 2013, e hoje se movimentam de acampamento em acampamento nos vales e gargantas profundas das Qandil. São fortemente disciplinados e apaixonadamente dedicados à causa do nacionalismo curdo. Graças a isso conseguiram manter-se vivos ao longo de 30 anos de guerra contra o gigantesco exército turco, sempre capazes de se recompor apesar das perdas devastadoras que têm sofrido. Como o EIIL, o PKK, também enfatiza o martírio: combatentes mortos são enterrados em cemitérios protegidos e bem cuidados, sempre no alto das montanhas, as sepulturas marcadas por pedras tumulares elaboradas. Lá há imagens de Ocalan por todas as paredes: há seis, sete anos, visitei um abrigo do PKK nas Qandil e vi, na encosta da montanha, uma enorme imagem de Ocalan construída com pedras coloridas. É uma das poucas bases de guerrilheiros, em todo o planeta, que pode ser vista do espaço.

Síria e Iraque estão cheios de exércitos e milícias que não combatem contra ninguém que possa responder ao fogo, mas o PKK e seus afiliados, o PYD e as YPG, são diferentes. Frequentemente criticados por outros curdos como grupo stalinista e antidemocrático, eles pelo menos construíram e mantêm capacidades para defender as próprias comunidades. A sequência de vitórias do Estado Islâmico contra forças superiores, no início desse ano, só aconteceu porque combatiam contra soldados, como os do exército iraquiano, absolutamente desmoralizados, mal armados, sem munição e, até, sem comida, resultado da ação de comandantes corruptos e incompetentes; aqueles soldados, ou muitos deles, estão sempre prontos a desertar. Quando alguns milhares de milicianos do EIIL invadiram Mosul em junho, estariam, em teoria, desafiando 60 mil soldados e policiais iraquianos. O verdadeiro número provavelmente mal alcança 1/3 disso: os demais não passavam de nomes em listas, com os oficiais embolsando os soldos; ou existiam mesmo, mas só porque pagam metade de seus soldos aos comandantes, em troca de jamais terem de aparecer nem por perto de acampamentos militares. A situação pouco melhorou nos quatro meses seguintes, depois da queda de Mosul em 9 de junho de 2014. De acordo com um político iraquiano, recente inspeção de uma divisão blindada do exército iraquiano mostrou “que onde devia haver 120 tanques e 10 mil soldados, só havia 68 tanques e apenas 2 mil soldados”. A guerrilha peshmerga – literalmente “aqueles que desafiam a morte” – dos curdos iraquianos, tampouco é muito efetiva. São vistos frequentemente como soldados melhores que os do exército iraquiano, mas essa é reputação que conquistaram há 30 anos, quando combatiam contra Saddam; depois daquilo pouco combateram, exceto nas guerras civis curdas. Mesmo antes de serem expulsos pelo EIIL em Sinjar em agosto, observador atento da guerrilha peshmerga referiu-se a eles, depreciativamente, como “pêche melba”, que “só prestam para emboscadas nas montanhas”.

Os sucessos do Estado Islâmico foram muito facilitados não só pela incompetência dos inimigos, mas também pelas muitas divisões que se veem entre eles. John Kerry vangloria-se de ter montado uma coalizão de 60 países, todos comprometidos com lutar contra o EIIL, mas desde o início já estava muito visível que muitos importantes membros da tal "coalizão" não estavam lá muito preocupados com a ameaça-EIIL. Quando começou o bombardeio contra a Síria, em setembro, Obama anunciou, com orgulho, que Arábia Saudita, Jordânia, Emirados Árabes Unidos, Qatar, Bahrain e Turquia tinham se unido como parceiros militares dos EUA contra o EIIL. Mas, como os americanos sabiam, todos esses são estados sunitas, que tiveram papel crucial no processo de arregimentar jihadistas para lutar contra governos eleitos na Síria e no Iraque. Foi um problema político para os EUA, como Joe Biden (vice-presidente dos EUA) confessou, para grande embaraço de todo o governo, em uma conversa em Harvard em 2 de outubro de 2014. Biden disse que Turquia, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos haviam promovido uma "guerra por procuração entre sunitas e xiitas" na Síria e "colocaram lá milhões de dólares e dezenas de milhares de toneladas de armas", para qualquer um que se interessasse em lutar contra Assad. O problema aí é que armas e dinheiro estão chegando diretamente às mãos da Frente al-Nusra e da al-Qaeda, e a situação está atraindo para lá jihadistas extremistas vindos de todos os cantos do mundo. Admitiu que: "... os rebeldes sírios moderados, que se supunha que fossem elemento central e efetivo para a política dos EUA na Síria, não passam de força militar mínima, de fato, desprezível." Adiante, Biden desculpou-se pelo que havia dito, mas o que disse é verdade e manifesta aquilo em que Washington realmente acredita. Depois de se mostrarem ofendidos pela franqueza de Biden, os aliados sunitas dos EUA rapidamente confirmaram os parâmetros da cooperação. O príncipe al-Waleed bin Talal al-Saud, magnata e membro da família real saudita, disse que "... a Arábia Saudita não se envolverá diretamente na luta contra o EIIL no Iraque ou na Síria, porque o grupo não afeta explicitamente nosso país." Na Turquia, Erdoğan declarou que "... no que lhe diz respeito, o PKK é tão ruim quanto o EIIL."

Ficaram excluídas dessa bizarra coalizão quase todas as forças que realmente dão combate ao EIIL, incluindo o Irã, o exército sírio, os curdos sírios e as milícias xiitas no Iraque. A grande confusão gerada pelas “políticas” de Obama-Kerry-Biden muito beneficiou o Estado Islâmico, como se viu num incidente no norte do Iraque, no início de agosto, quando Obama enviou forças especiais para o Monte Sinjar para monitorar o perigo que ameaçava milhares de iazidis emboscados naquele local. Etnicamente curdos, mas com religião não islamista própria, os iazidis haviam fugido de suas cidades e vilas para escapar de serem massacrados ou escravizados pelo EIIL. Os soldados dos EUA chegaram por helicóptero e permaneceram sempre escoltados e eficazmente protegidos por milicianos curdos uniformizados. Mas, de repente, voltaram a embarcar rapidamente nos helicópteros e partiram em disparada. O motivo para a partida precipitada, como depois se revelou em Washington, foi que o oficial encarregado do destacamento norte-americano havia conversado com sua escolta curda, e descobrira que não eram os peshmerga amigos dos EUA do Governo Regional do Curdistão, mas combatentes do PKK – ainda listados como “terroristas” pelos EUA, inobstante o papel crucialmente importante que tiveram no socorro aos iazidis e em obrigar o EIIL a retroceder. Só quando Kobani já estava à beira de ser tomada é que Washington afinal aceitou que não lhe restava alternativa, senão cooperar com o PYD: afinal de contas, o PYD era praticamente a única força efetiva que continuava a combater em solo, contra o EIIL.

E há também o problema turco. Os aviões dos EUA que atacam forças do EIIL em Kobani tinham de voar quase 2 mil km a partir da base no Golfo, porque a Turquia não autorizava que usassem a base turca em Incirlik, a apenas poucos quilômetros de Kobani. Ao não impedir que reforços, armas e munições chegassem ao EIIL em Kobani, Ankara mostrava que preferia ter o ISIL no comando da cidade: qualquer coisa lhe pareceria melhor que o PYD. A posição da Turquia já estava clara desde julho de 2012, quando o exército sírio, pressionado por rebeldes por todos os lados, abandonou as principais áreas curdas. Os curdos sírios perceberam que, de repente, haviam obtido uma autonomia de facto e que aumentava a autoridade do PKK. Localizados quase que ao longo da fronteira com a Turquia, área estrategicamente importante para o EIIL, os curdos inesperadamente foram convertidos e atores na luta pelo poder na Síria. Não foi desenvolvimento que pudesse agradar aos turcos. As principais organizações políticas e militares dos curdos sírios eram ramos do PKK, seguindo ordens de Ocalan e da liderança militar em Qandil. Os insurgentes do PKK, que haviam por tanto tempo combatido por alguma forma de autonomia na Turquia, agora governavam um quase-estado na Síria, centrado nas cidades de Qamishli, Kobani e Afrin. Grande parte da região síria de fronteira permaneceria provavelmente em mãos dos curdos, dado que o governo sírio e seus oponentes eram ambos fracos demais para mudar esse quadro. Ancara pode não jogar como grande-mestre de xadrez na colaboração com o EIIL para quebrar o poder dos curdos, como entendem os teóricos da conspiração, mas viu a vantagem que poderia obter se deixasse o EIIL enfraquecer os curdos sírios. Essa política jamais foi exatamente muito prudente: se o EIIL conseguisse tomar Kobani, o que humilharia também os EUA, a Turquia, pressuposta aliada dos EUA seria vista como parcialmente responsável pelo desastre, depois de ter bloqueado a cidade. De qualquer modo, a mudança de curso dos turcos aconteceu em velocidade escandalosa. Poucas horas depois de Erdoğan dizer que a Turquia não ajudaria os terroristas do PYD, já estava autorizando os curdos iraquianos a reforçar as trincheiras do PYD em Kobani.

A virada total da Turquia foi o último de uma série de erros de cálculo cometidos sobre os desenvolvimentos na Síria desde o início dos tumultos de rua, em 2011. O governo de Erdoğan deveria ter se posicionado a favor do equilíbrio de poder entre Assad e a oposição. Em vez disso, convenceu-se de que Assad − como se fosse Gaddafi na Líbia – seria inevitavelmente derrubado do poder. Não aconteceu. E Ancara passou a apoiar grupos jihadistas pagos pelas monarquias do Golfo, entre os quais a Frente al-Nusra, afiliado sírio da al-Qaeda, e o EIIL. A Turquia teve praticamente o mesmo papel, como força de apoio aos jihadistas na Síria, que coube ao Paquistão, que apoiou os Talibã no Afeganistão. Os estimados 12 mil jihadistas estrangeiros que hoje combatem na Síria, e que são motivo de graves preocupações na Europa e nos EUA, entraram, praticamente todos, por uma trilha que se tornou conhecida como “a rodovia dos jihadis”, que se serve dos pontos de passagem da fronteira turca, nos quais os guardas se fazem de cegos. Na segunda metade de 2013, por pressão dos EUA sobre a Turquia, essas vias tornaram-se mais difíceis para militantes do EIIL, os quais contudo ainda atravessam a fronteira sem grande dificuldade. Ainda não se conhece muito bem a exata natureza das relações entre os serviços de inteligência turcos e o EIIL e al-Nusra, mas há fortes evidências de que, sim, há grau considerável de cooperação entre eles. Quando rebeldes sírios liderados pela frente al-Nusra capturaram a cidade armênia de Kassab em território controlado pelo exército sírio, no início desse ano, parecia que os turcos os tivessem autorizado a operar a partir do território turco. Também foi muito misterioso o caso dos 49 membros do Corpo Consular da Turquia em Mosul que permaneceram na cidade enquanto era tomada pelo EIIL; foram mantidos como reféns em Raqqa, capital síria do Estado Islâmico, depois inexplicavelmente libertados, depois de quatro meses, em troca de membros do EIIL mantidos presos na Turquia.

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Se Erdoğan tivesse optado por ajudar os curdos encurralados em Kobani, em vez de traí-los, poderia ter fortalecido o processo de paz entre seu próprio governo e os curdos turcos. Em vez disso, suas ações só geraram protestos e tumultos de rua, entre os curdos, por toda a Turquia; cidades e vilas do interior do país nas quais nunca tinha havido manifestações de curdos ao longo de toda a história moderna foram queimadas e morreram 44 pessoas. Pela primeira vez em dois anos a aviação militar turca atacou posições do PKK no sudeste do país. Parece que Erdoğan jogou no lixo uma das principais realizações de seus anos de governo: ter dado início a uma solução negociada com a guerrilha armada curda. Hostilidade étnica e violência entre turcos e curdos aumentaram imediatamente. A polícia reprimiu manifestações populares anti-EIIL, mas não interferiu em manifestações pró-EIIL. 72 refugiados que fugiram de Kobani para a Turquia, foram mandados de volta para a cidade. Cinco membros do PYD que foram capturados pelo exército turco, foram descritos como “terroristas separatistas”. Houve surto de manifestações histéricas de apoiadores de Erdoğan: o prefeito de Ancara, Melih Gökçek, tuitou que “há gente no leste que se faz passar por curdo, mas são, na verdade, armênios ateus”. A imprensa-empresa turca, cada vez mais subserviente ou intimidada pelo governo reduziu muito a gravidade das manifestações de rua. A CNN turca, famosa por exibir um documentário sobre a vida dos pinguins, no auge das manifestações no Gezi Park, ano passado, optou por exibir, dessa vez, durante os protestos curdos, um documentário sobre a vida das abelhas.

Que efeito negativo haverá contra o EIIL, se não conseguir tomar Kobani? A reputação de sempre derrotar os inimigos sofrerá um pouco, mas já demonstraram que podem sobreviver a ataques aéreos dos EUA, mesmo no caso de estarem com suas forças concentradas num só ponto. O califado declarado por Abu Bakr al-Baghdadi dia 29 de junho de 2014 continua a expandir-se: as maiores vitórias na Província Anbar asseguraram ao califado mais um quarto do Iraque. Uma série de ataques bem planejados em setembro garantiram ao EIIL o controle de terras em torno de Fallujah, cerca de 60 km a oeste de Bagdá. Um acampamento do exército iraquiano em Saqlawiyah foi cercado durante uma semana e invadido: 300 soldados do exército iraquiano foram mortos. Como no passado, o exército mostrou-se incapaz para qualquer contraofensiva efetiva, mesmo com todo o apoio dos ataques aéreos norte-americanos. Em 2 de outubro de 2014, o EIIL lançou uma série de ataque bem-sucedidos para capturar Hit, cidade ao norte de Ramadi, deixando o governo com apenas uma única base do exército na área. Há hoje forças do EIIL muito próximas dos enclaves sunitas no oeste de Bagdá: até agora, permanecem paradas, embora todas as demais áreas sunitas do país tenham estado em torvelinho. Segundo prisioneiros do EIIL, as células do EIIL na cidade estão à espera de ordem, para entrar em ação coordenada com ataque que virá de fora da capital. É possível que o EIIL não consiga tomar toda a cidade de Bagdá, onde vivem sete milhões de pessoas (a maioria, xiitas), mas poderia tomar as áreas sunitas e gerar pânico na capital. Nos bairros ricos, onde convivem várias religiões, como em al-Mansour, no setor oeste de Bagdá, metade dos habitantes já partiram rumo à Jordânia ou Golfo, porque não têm dúvidas de que o EIIL atacará a cidade. "Acho que o ISIL atacará Bagdá, no mínimo para ocupar os enclaves sunitas,disse um morador. Se conseguirem manter pelo menos parte da capital do Iraque, aumentará a credibilidade do que dizem, que criaram um novo estado." Enquanto isso, o governo e as empresas locais de imprensa dedicam-se empenhadamente em reduzir a gravidade da situação e da possibilidade real de o ISIL invadir a capital, tentando conter a corrida rumo a áreas sunitas mais seguras no sul.

A substituição do governo corrupto e disfuncional de Nouri al-Maliki por Haider al-Abadi não fez tanta diferença quanto seus apoiadores estrangeiros gostariam de ver. Porque o desempenho do exército absolutamente não melhorou, as principais forças que estão enfrentando o EIIL são milícias xiitas. Fortemente sectárias e frequentemente criminalizadas, são elas que lutam furiosamente em torno de Bagdá para forçar o EIIL a retroceder e para expulsar a população sunita das áreas mistas. Sunitas são frequentemente aprisionados nos pontos de passagem, trocados por resgates de dezenas de milhares de dólares, mas mais frequentemente assassinados depois que o resgate é pago. A Anistia Internacional diz que os milicianos, inclusive a Brigada Badr e o grupo Asaib Ahl al Haq, operam sob total imunidade; ela acusou o governo dominado pelos xiitas de estar “acobertando crimes de guerra”. Com o governo do Iraque e os EUA pagando grandes somas de dinheiro a empresários, comerciantes, líderes tribais e a qualquer um que diga que combaterá contra o EIIL, os senhores-da-guerra locais estão novamente em alta: desde o mês de junho, foram criadas de 20 a 30 novas milícias. Tudo isso significa que os sunitas iraquianos não têm escolha, a não ser manter-se ao lado do EIIL. A alternativa seria a volta dos ferozes milicianos xiitas, que desconfiam de que todos os sunitas sempre apoiam o Estado Islâmico. Precariamente recuperado da mais recente guerra, o Iraque já está sendo devastado por nova guerra. Aconteça o que acontecer em Kobani, o EIIL não implodirá. Qualquer intervenção estrangeira só fará aumentar o nível de violência, e oposição entre sunitas e xiitas ganhará novo impulso, sem fim à vista.

23 de outubro de 2014

Feliz quinta-feira negra

Do tumbling buybacks signal another market crash?

Mike Whitney

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Desde o fim da recessão em 2009, os investidores americanos tomaram uma quantidade recorde de dinheiro emprestado para financiar suas compras de ações. Segundo o Financial Times, a margem de endividamento das empresas com ações na Bolsa de Valores de Nova York [New York Stock Exchange (NYSE)] alcançou o pico em fevereiro de 2014, de US$ 466 bilhões e só recentemente diminuiu levemente. São US$ 85 bilhões a mais que em 2007, no auge da bolha. (Abaixo: a margem de endividamento tende a acompanhar de perto a trajetória dos mercados, embora não seja bom indicador de “pico” de mercado.)

ETF Daily News

Quando as ações começam a oscilar feito gangorra, como aconteceu semana passada, quase sempre é sinal de que investidores super endividados estão queimando estoques de ações para conseguir manter-se dentro da margem de endividamento. Aconteceu exatamente a mesma coisa, no período que antecedeu o Crash de 1929. Naquele ano, as ações caíram fortemente no fim de outubro, o que forçou investidores profundamente endividados a descarregar o que tinham, a preços de liquidação. Os preços despencantes desencadearam um pânico, que fez as ações entrarem em queda livre, o que fez desaparecerem bilhões de dólares, derrubou os mercados e preparou o caminho para a Grande Depressão. Aqui está um breve resumo do que aconteceu:

"Em 3 de setembro de 1929, o mercado caiu muito, subiu e tornou a cair. Foi como tremores de terra que anunciassem um grande terremoto, mas ninguém prestou atenção. O mercado já despencara antes, mas sempre retomava, e mais forte. O mercado despencou profundamente novamente em 4 de outubro de 1929; em 21 de outubro de 1929, aconteceu uma avalanche de venda, com muitos tentando salvar qualquer coisa, ante a grande perda. Em 24 de outubro de 1929 – a 'quinta-feira Negra' – o pânico ganhou vida própria, com uma avalanche de ordens de venda, tão grande que ultrapassou a capacidade da Bolsa para acompanhar todas as vendas...

Os grandes financistas de Wall Street tentaram restaurar a confiança, comprando o máximo de ações que podiam. Funcionou – só por algum tempo. Na segunda-feira seguinte (28 de outubro de 1929) o pânico recomeçou, e veio então a 'terça-feira Negra', em 29 de outubro de 1929. O pânico no salão da Bolsa converteu-se em tumulto generalizado. Nas palavras de uma testemunha, 'Eles uivavam e gritavam, saltavam uns aos colarinhos dos outros. Foi como uma horda de homens enlouquecidos. A todo instante e por todos os lados... viam-se infelizes que desmaiavam e caíam ao chão." Era o Crash, embora poucos tenham visto naquele momento... 30 bilhões de dólares foram perdidos – mais que o dobro da dívida nacional. A nação desabou e deslizou para as profundezas da Grande Depressão." (The Wall Street Crash, 1929, Testemunha da História).

Sem surpresa, os bancos estavam no centro desse fiasco também, como o principal agente dos bancos, o Fed. Na verdade, o FMI acaba de lançar uma avaliação severamente crítica contra as políticas do Fed, dizendo que juros zero, como têm sido praticados já há cinco anos, puseram novamente sob risco o sistema financeiro. Eis o que publicou o Guardian:

"Políticas acomodatícias com o objetivo de apoiar uma suposta recuperação e promover ‘risco econômico’ facilitaram que muitos embarcassem em riscos financeiros sempre crescentes”, disse o FMI. "Como prova, o FMI indica o preço inflado dos ativos, menores prêmios para investimentos de mais alto risco e a baixa mobilidade nos mercados financeiros..." 
O FMI disse que houve uma inversão entre os benefícios econômicos dos juros baixos e o processo de emissão de dinheiro chamado “facilitação quantitativa” [quantitative easing], com diminuição da estabilidade financeira... "os riscos de mercado e da liquidez aumentaram a níveis tais que, se não forem atacados, podem comprometer a estabilidade financeira." (IMF Warns Period of Ultra-low Interest Rates Poses Fresh Financial Crisis Threat, The Guardian).

Em outras palavras, o juro zero, que fixa em zero o preço do dinheiro, por anos a fio, aumenta a instabilidade financeira – e faz absolutamente nada a favor da economia real. Em resumo: o FMI, basicamente, está admitindo que o Fed construiu condições para uma nova crise.

E a assunção de risco excessivo não está limitada só à margem de endividamento. Considerem-se por exemplo a recompra de ações [buybacks. Recomprar ações que nada acrescentam à produtividade ou ao real valor de uma empresa, só fazem aumentar o preço das ações, de modo que executivos e acionistas possam contabilizar mais lucros a favor deles mesmos. O que a maioria das pessoas não sabe sobre recompra de ações é que os empresários gatos-gordos patrões não estão reciclando lucros para poder comprar ações: eles estão se aproveitando dos juros baixos para aumentar o endividamento das empresas. Observem esse gráfico muito claro, publicado em Zero Hedge, que mostra a simetria letal entre empréstimos tomados pelas empresas e recompra das próprias ações:

Zero Hedge

Por que isto está acontecendo?

Está acontecendo porque o governo Obama reduziu os déficits de orçamento, acabando assim com o estímulo fiscal de que a economia precisa para crescer. Esse mínimo de apertar o cinto enfraqueceu a demanda geral, forçando as empresas a procurar outros modos para turbinarem os próprios lucros. Muitos empresários logo perceberam que podiam aumentar os próprios ganhos cortando custos e demitindo trabalhadores, ao mesmo tempo em que inflavam o preço das próprias ações tirando vantagem dos juros baixos e aumentando o endividamento das próprias empresas. Essa foi a estratégia que encheu de energia a febre de recomprar ações, o encolhimento das entradas, o desemprego crescente, o plano repugnante dos industriais para enriquecer uns poucos executivos à custa da própria empresa, dos seus empregados e do futuro. Eis o que diz o Wall Street Journal:

"Dados preliminares mostraram que a recompra de ações alcançou US$ 116,2 bilhões no segundo trimestre... 27% menos que os US$ 159,3 bilhões registrados para o primeiro trimestre desse ano, o segundo maior da história. 
Para os 12 meses anteriores a junho, as empresas aumentaram a recompra das próprias ações para US$ 533 bilhões, aumento de quase 27% na comparação com há um ano. E a recompra de ações combinada a gastos com dividendos no período alcançou o recorde de US$ 865,9 bilhões, com as recompras correspondendo a 61,6% do total." (Companies Reduced Stock Buybacks in 2nd Quarter, Wall Street Journal).

Então? Você quer saber por que as ações continuam a subir cada vez mais alto, com a economia sempre patinando?

Por causa da recompra. Eis a causa. Leiam esse excerto de um artigo anterior publicado no Wall Street Journal e que destaca a magnitude da falcatrua:

"No ano passado, as empresas incluídas no [indicador] Russell 3000, amplo indicador de ações nos EUA, recompraram US$ 567,6 bilhões de suas próprias ações – aumento de 21% em ralação a 2012, pelos cálculos de Rob Leiphart, analista de Birinyi Associates, empresa de pesquisa com sede em Westport, Conn. Isso mostra o total de recompras desde o início de 2005 em US$ 4,21 trilhões – perto de 1/5 do total de todas as ações americanas hoje." (Will Stock Buybacks Bite Back?, Wall Street Journal)

Se as recompras representam 20% do valor total das ações hoje... O que acontecerá quando as condições mudarem, vale dizer, quando a “facilitação quantitativa” do Fed chegar ao fim e os juros subirem?

As ações despencarão, certo?

Certo. E se você quer ver o quão destrutiva é a falcatrua da recompra, examine os detalhes sobre o débâcle recente dos ganhos da IBM. Aqui está a história do New York Times:

"Nos primeiros seis meses desse ano, a empresa gastou mais de US$ 12 bilhões... em suas próprias ações... Mas essas manobras “amigas do acionista” mascaravam uma feia verdade: os sucessos da IBM em anos recentes estava mais associado à engenharia financeira que a desempenho real. 
Isso tornou-se facilmente perceptível na segunda de manhã, quando a empresa anunciou seus resultados, muito abaixo do que esperavam os analistas. A ação caiu mais de 7% para US$ 169,10 ao final do dia, abaixo do preço médio que Mr. Buffett paga desde que começou a comprar essas ações em 2011. 
Os ganhos da empresa não aumentaram ao longo dos anos. De fato, permanecem quase exatamente iguais ao que eram em 2008. 
Mas a IBM continuou a comprar as próprias ações como se fossem “quentes”. Desde 2000, a IBM gastou cerca de US$ 108 bilhões na recompra de suas próprias ações, segundo o mais recente balanço anual. E também pagou US$ 30 bilhões em dividendos. Para conseguir financiar esse frenesi de compra de ações, a IBM endividou-se cada vez mais. 
Ao tempo em que a empresa gastou US$ 138 bilhões em suas ações e pagando dividendos, gastou apenas US$ 59 bilhões no próprio negócio, com gastos de capital e US$ 32 bilhões em aquisições... Tudo isso, para dizer que a IBM parece ter gasto o próprio dinheiro nas coisas erradas: nos acionistas, não em construir o próprio negócio. 
"O que a IBM fez mostra muito evidentemente, que sua estratégia de inflar o preço das ações não é o que se chama criar valor mediante 'investimento'", disse David A. Stockman, diretor do Gabinete de Administração e Orçamento do governo Reagan... "A IBM é máquina de recomprar ações envenenada com esteroides, que só apareceu como grande vitoriosa no mercado de ações porque inflou com massagens, muita droga e manipulação os próprios ganhos por ação"." (The Truth Hidden by IBM’s Buybacks, Andrew Ross Sorkin, New York Times)

Mas a IBM não é diferente de qualquer outra empresa. Todas estão fazendo a mesma coisa: “dissipando os ativos da empresa” e “fazendo encolher o próprio negócio” (Yves Smith), para enriquecer executivos gananciosos e acionistas vorazes. E quem os pode culpar, afinal? Todas essas empresas estão só respondendo aos incentivos criados pelas políticas monetárias do Fed. Recompras de ações fazem todo o sentido quando o crédito é fácil e o preço do dinheiro é zero.

Então, por que os preços das ações despencaram na semana passada?

Como sempre, a questão é a expectativa. Os investidores sabem que as condições favoráveis para a falcatrua da recompra de ações está à beira de mudar (o Fed planeja pôr fim à “facilitação quantitativa” em outubro). Então, estão todos fazendo seus ajustes, enquanto os preços ainda estão altos. Essa é a razão pela qual os mercados tanto subiram e caíram ultimamente. É a razão, também, pela qual as recompras caíram 27% no último trimestre. Vejam o gráfico publicado em Zero Hedge:

Zero Hedge

As corporações estão dispostas a comprar suas próprias ações porque (a) o dinheiro é barato e (b) porque sabem que o Fed estava fazendo encolher o fornecimento de dinheiro, e começou a comprar papéis do Tesouro. Agora que o Fed está ameaçando fechar a torneira do dinheiro (que teria o mesmo efeito que aumentar os juros), as recompras diminuirão e as ações cairão de preço. Evidentemente, não é o que dizem os analistas em Goldman Sachs. Eles supõem que conter as recompras é só uma dificuldade momentânea, que coincide com os relatórios de ganhos. De acordo com o Business Insider:

"Para David Kostin, do Goldman Sachs, uma dificuldade temporária pode explicar por que o S&P 500 caiu do ponto mais alto da história, de 2.009 em 19 de setembro. 
'Muitas empresas são proibidas de recomprar no mercado aberto durante os cinco meses antes da divulgação de ganhos', disse Kostin. "Para muitas delas, o começo do blecaute coincidiu com o pico do S&P 500 em 18 de setembro de 2014. A venda, portanto, aconteceu durante um momento em que a principal fonte individual de demanda de equidade estava ausente..." 
'Esperamos que as empresas voltem ativamente a recomprar ações em novembro e dezembro de 2014', escreveu ele. Desde 2007, uma média de 25% das recompras anuais aconteceram durante esses dois últimos meses do ano”.
(Goldman: We’re Blaming The Stock Market Sell-Off On A Pullback In Buybacks, Business Insider).

Goldman poderia ter razão, mas acho que não tem, principalmente porque a crescente volatilidade e os refluxos no mercado de ações sugerem que a dinâmica do mercado mudou. É um jogo totalmente diferente agora. “O Índice VIX de Volatilidade subiu 30 pontos rapidamente semana passada – movimento que frequentemente é visto como aviso não oficial, enquanto o próprio Índice Fear & Greed [“Medo e Ganância”], de CNNMoney, se mantém em modo de “Medo Extremo”, no nível 5.” E os problemas no mercado de ações são ainda mais assustadores. Vejam o que diz Bloomberg:

"Os valores dos bônus corporativos estão flutuando ao ponto máximo em mais de um ano, com os maiores bancos de Wall Street optando outra vez contra usar o próprio dinheiro para absorver a dívida vendida pelos clientes. 
Os 22 corretores que fazem negócios com o Fed reduziram o total líquido do que têm em ações de até US$ 1,7 bilhão, nas duas semanas encerradas em 8 de outubro de 2014, para um líquido de US$ 6,3 bilhões, mostram os dados do Fed. Agora acompanham a multidão que só vende, com os fundos enfrentando retiradas de US$ 7,4 bilhões, desde meados de setembro..." (Leveraged Money Spurs Selloff as Record Treasuries Trade, Bloomberg)

Aqui está mais de Bloomberg:

"Grandes investidores têm mais medo de que ninguém se interesse por suas ações, do que pelo risco de as empresas entrarem em “calote” [orig. defaulting]. Num momento em que a taxa de calote para empresas de baixo grau para investimentos está em cerca da metade de sua média histórica, investidores que vivem de ações-lixo estão cada dia mais preocupados com não conseguirem vendê-las quando quiserem vender...

Os clientes agora querem vender qualquer ação que não queiram manter por longo prazo, de medo de, adiante, não conseguirem vender”, escreveram em nota hoje analistas do Bank of America Corp. coordenados por Michael Contopoulos. A volatilidade recente “foi um sinal de alarme para muitos que, por causa das restrições da preparação do balanço, veem mais rapidamente os preços reais e são mais sensíveis a mudanças nos preços." ... (Lonely Bond Buyers Feel Deserted When Junk-Market Rout Heats Up, Bloomberg)

Os investidores estão com medo de não conseguirem sair quando quiserem sair?

Exatamente. E esse medo faz aumentar a volatilidade do mercado.

Então, o que acontece agora?

Bem, parece que as coisas vão ficar ainda muito mais loucas por algum tempo, particularmente se os dados econômicos são fracos, e o Fed puser fim à “facilitação quantitativa” na data marcada. Nesse caso veremos aumento notável no violento vai-e-vem dos negócios diários. Uma coisa à qual prestar atenção são empresas muito endividadas que já sinalizam cada dia mais que os investidores estão menos dispostos a prover crédito barato a empresas tomadoras marginais de empréstimos. Assim se tornará mais caro financiar recompras de ações, o que significa que a principal força que vinha movendo o mercado de ações começará a parar. Quando as recompras caírem, os mercados começarão a andar de lado, o que levará à venda geral no mercado de ações, que pode gerar corrida alucinada em busca da porta de saída. Eis o que disse Jeff Cox, na CNBC:

"O quadro é o seguinte: O mercado de ações entra em pânico por causa de súbito aumento nos juros, o que mandará legiões de compradores, gritando, à procura da saída, só para encontrarem outras legiões de compradores do outro lado. Resultado disso, a liquidez evapora, a gritaria se generaliza, e os EUA descobrem-se presos no centro de mais uma crise de endividamento que ninguém viu chegar... 
We saw the imbalance this summer, when global unrest caused sudden outflows from high-yield corporates, and last spring, when a swift, but not unprecedented, move in rates caused a negative knee-jerk reaction in credit spreads. As one trader put it: “The Taper Tantrum was the 30-second preview to a full feature film that might yet play out. (This is the “Doomsday” Bond Market Scenario, Jeff Cox, CNBC) 
Nós já tivemos três ensaios gerais desse “cenário apocalíptico” de que fala Cox, desde o verão passado (o mais recente dos quais aconteceu na quarta-feira passada (6 de outubro de 2014), quando o índice Dow caiu 460 pontos antes de voltar a subir). Significa que ninguém deve duvidar de que há sobressaltos à frente. Tão logo as ações comecem a cair, a bolha das ações explodirá, incendiando uma venda muito mais ampla e fazendo os preços desabarem. Isso vai deixar os balanços de muitas corporações e instituições financeiras profundamente no vermelho precipitando uma segunda grande crise financeira em menos de 7 anos.

Soa plausível?

Acho que sim. E os problemas podem ser rastreados até as políticas de dinheiro fácil do Banco Central; nosso amigo, o Fed.