31 de dezembro de 2015

Rumo a uma sociedade pós-trabalho

por David Frayne


Ilustração por Mirko Rastić.

Tradução / Quando estranhos nos encontram pela primeira vez, a primeira pergunta que eles quase sempre farão é: “o que você faz?” A convenção nos diz que o que eles realmente querem dizer é: “qual trabalho você realiza?”, o que é um terrível pergunta a uma pessoa que não trabalha, ou que não gosta do trabalho que faz. É também um sinal claro de que, quer queiramos ou não, nas sociedades industriais, vivemos num mundo profundamente centrado no trabalho.

A centralidade do trabalho é compreendida quando consideramos quanto tempo a sociedade gasta no trabalho, no qual também podemos incluir o tempo gasto o procurando e se preparando para ele, viajando de e para, e se recuperando do trabalho. Em seu ensaio de 1935, “Elogio ao Ócio”, Bertrand Russell lamentou a quantidade de tempo de lazer moderno gasto em “diversões passivas e enfadonhas”, mas a verdade é que o trabalho, depois de devorar o tempo e a energia das pessoas, muitas vezes os deixa com recursos inadequados para fazer qualquer coisa mais gratificante.

Para aqueles com empregos exigentes, torna-se impossível fazer qualquer coisa fora do trabalho que exigiria um investimento de tempo e atenção, ou laços de comunidade. O desemprego também não oferece qualquer alívio, pois até mesmo isso já foi transformado em uma espécie de trabalho. Na sociedade moderna, o desemprego assume a forma de “busca de emprego”, que, como o trabalho, tem suas próprias demandas performativas e sistema de prestação de contas.

Podemos também compreender a natureza centrada no trabalho da sociedade quando consideramos quantas funções sociais importantes foram delegadas ao trabalho. O trabalho é o mecanismo principal da sociedade para a distribuição de renda, significando que a maioria das pessoas depende de seu trabalho para a sobrevivência. A capacidade de ganhar o próprio pão é o que tradicionalmente marca a passagem para a maturidade, e trabalhar é também a maneira principal e certamente a mais culturalmente aprovada com que as pessoas vivem uma existência pública.

A crise do trabalho

Se o trabalho é vital para a renda, a inclusão social e um senso de identidade, então uma das contradições mais preocupantes do nosso tempo é que essa centralidade do trabalho persiste mesmo quando o trabalho está em um estado de crise. A constante erosão do emprego estável e satisfatório torna cada vez menos claro se os empregos modernos podem oferecer o senso de ação moral, reconhecimento e orgulho necessários para assegurar o trabalho como uma fonte de significado e identidade. A padronização, a precariedade e a duvidosa utilidade social que caracterizam muitos empregos modernos são uma das principais fontes da miséria moderna.

O desemprego em massa é também agora uma característica estrutural duradoura das sociedades capitalistas. A eliminação de grandes quantidades de mão-de-obra humana pelo desenvolvimento de tecnologias mecânicas é um processo que tem se estendido por séculos. No entanto, talvez devido a desenvolvimentos de alto perfil como o assistente computadorizado da Apple, o Siri, ou os drones de entrega da Amazon, a discussão em torno da automação está mais uma vez acesa. Um estudo frequentemente citado de Carl Frey e Michael Osborne antecipa uma escalada do desemprego tecnológico nos próximos anos. Ocupações sob alto risco incluem modelos, cozinheiros e trabalhadores de construção, graças a avanços como avatares digitais, máquinas de virar hambúrgueres e a capacidade de fabricar construções pré-fabricados em fábricas com robôs. Tem se antecipado também que avanços em Inteligência Artificial e Aprendizagem de Máquina permitirão uma quantidade crescente de tarefas de trabalho cognitivo se tornarem automatizadas.

O que tudo isto significa é que estamos nos tornando uma sociedade de trabalhadores sem trabalho: uma sociedade de pessoas que estão materialmente, culturalmente e psicologicamente ligadas ao emprego remunerado, mas para as quais não há empregos estáveis e significativos suficientes. Perversamente, o problema mais premente para muitas pessoas já não é a exploração, mas a ausência de oportunidades para serem exploradas de forma suficiente e confiável. O impacto desse problema na epidemia de ansiedade e exaustão de hoje não deve ser subestimado. [5]

O que torna a situação ainda mais cruel é a sensação generalizada de que as vítimas precárias da crise são de alguma forma pessoalmente responsáveis pelo seu destino. No Reino Unido, dificilmente passa uma semana passa sem uma reafirmação soberba da ética de trabalho [6] na mídia, ou alguma história que constrói o desemprego como uma forma de desvio. O programa de televisão britânico ‘Benefits Street’ [algo como ‘Rua do Benefício’] vem à mente, mas talvez o exemplo mais escandaloso dos últimos tempos não venha do mundo da TV-lixo, mas da tese do Dr. Adam Perkins, ‘The Welfare Trait’ [algo como ‘A Marca das Políticas de Bem-Estar’]. Publicado no ano passado, o livro de Perkins abordou o que ele definiu como a “personalidade resistente ao emprego”. O desemprego é explicado em termos de um transtorno psicológico transmitido intergeracionalmente. O estudo de Perkins é o produto mais polido da ideologia do trabalho que se pode imaginar. Está tão deslumbrado por suas próprias reivindicações à objetividade científica, tão impermeável ao seu próprio fundamento na ética do trabalho, que mendiga crença.

Parece que nos encontramos em um dilema. Por um lado, o trabalho tem sido posicionado como uma fonte central de renda, solidariedade e reconhecimento social, enquanto que, por outro lado, a promessa de um emprego estável, significativo e satisfatório desmorona em torno de nós. A questão crucial: como as sociedades deveriam se ajustar a esta crise do trabalho cada vez mais profunda?
Negócio de Sempre

Ao longo da história do capitalismo, as sociedades tenderam a compensar os efeitos deslocadores de trabalho dos ganhos de produtividade, ou aumentando a produção de determinadas indústrias, ou expandindo a economia para novas indústrias e setores. Anders Hayden se referiu a esta solução como uma esteira rolante: a necessidade de expansão econômica sem fim simplesmente para manter os níveis de emprego.

Entre as possibilidades mais distópicas desta trajetória está a visão de um mundo afundado em bens de consumo descartáveis [7], produzidos principalmente para manter as pessoas trabalhando e gastando, bem como a perspectiva sombria de uma sociedade onde praticamente todas as necessidades são terceirizadas para o mercado e todas as relações mediadas pela economia. Talvez a maior objeção à solução de “mais empregos”, porém, seja a natureza insustentável da expansão econômica perpétua. Mesmo que o crescimento econômico pudesse acompanhar a demanda por empregos, quais seriam os custos ambientais? Apontando para organismos bem estabelecidos de pesquisa sobre o esgotamento dos recursos naturais, a perda de biodiversidade, a poluição do solo, e a mãe de todos os limites, a mudanças climática [8], ecologistas políticos como Tim Jackson tem mostrado que a expansão da economia para fornecer trabalho tem se tornado uma estratégia cada vez mais intragável.

Se a solução não é “mais empregos”, quais outras respostas estão disponíveis para nós? Sob o neoliberalismo [9], os cidadãos têm sido encorajados a assumir as questões com suas próprias mãos. A estratégia mais socialmente aceitável hoje é evitar o redemoinho da precariedade, do desemprego e do trabalho sem sentido investindo pessoalmente em “empregabilidade”, fazendo um esforço de longo-prazo para adquirir as habilidades, qualificações e sensibilidades que serão mais atraentes para os empregadores.

O projeto de empregabilidade pode moldar qualquer coisa, desde o que os sujeitos escolhem estudar até que aspectos de suas personalidades consideram “problemáticos” e precisam de reforma. [10] Uma das maiores baixas desse foco na empregabilidade é a educação, cujo papel na sociedade centrada no trabalho foi reduzido a uma função econômica. A contribuição mais prontamente aceita da educação não é ensinar os princípios da democracia, do pensamento crítico ou da autoconfiança, mas preparar e certificar jovens para a adoção de um papel de emprego pré-definido. A ansiedade explode na fábrica de diplomas (tanto entre os professores como entre os estudantes), e a mobilidade social prometida pelo progresso educacional é, de qualquer forma, um pobre substituto da justiça econômica genuína. Claramente nem todos podem ter sucesso na corrida por empregos decentes.

A necessidade de se tornar o que Michel Foucault chamou de “empreendedor do eu” para mitigar a insegurança da vida sob o neoliberalismo também derruba o poder de barganha dos trabalhadores precários da sociedade. Um dos melhores ativos de um sujeito empregável é a amabilidade – um objetivo de agradar – o que coloca os trabalhadores em uma posição fraca para negociar melhores condições para si próprios. Esta é talvez uma explicação para o fenômeno recentemente documentado do “presenteismo“, onde se vê pessoas ficando obedientemente até tarde no escritório, mesmo que não tenham trabalho a fazer.

Em um artigo recente sobre a empregabilidade dos graduados, Costea e colegas sugeriram que a tragédia final da empregabilidade é a sua condição psicológica de “potencialidade sem fim”. O eu-empreendedor nunca está satisfeito, nunca sente ter feito o suficiente. Cada relacionamento é uma “conexão” potencial e cada atividade é um item potencial para o currículo. Juntamente do derramamento de trabalho em casa através de tecnologias em rede, a “potencialidade infinita” da empregabilidade torna compreensível um dos segredos coletivos da sociedade mais carregados de culpa: o desejo oculto por uma breve onda de doença pessoal – pelo menos por alguns dias – fazer tudo isso parar.

Uma alternativa radical

Parece que precisamos de uma alternativa mais radical – e, felizmente, não há escassez de recursos para o quais nos voltarmos em busca de inspiração. Existe um importante legado de pensadores críticos que defendem que a solução mais racional e libertadora para a crise do trabalho não é nem econômica nem pessoal. Este grupo provocador de pensadores – abrangendo desde críticos como André Gorz e Herbert Marcuse até membros do movimento pós-operaísta italiano e autores feministas contemporâneas como Kathi Weeks – tem argumentado que a única solução legítima para a crise do trabalho é uma solução política. Reconhecendo que a sociedade centrada no trabalho já não é sustentável, estes autores argumentam que devemos repensar radicalmente o papel do trabalho na sociedade moderna.

Um tema comum nestas críticas é observar como a tremenda capacidade do capitalismo para o desenvolvimento produtivo abriu a possibilidade teórica de mais tempo livre. As máquinas podem fazer mais do trabalho necessário, nos deixando livres para outras coisas. No entanto, crucialmente, a tecnologia por si só não tem a capacidade de nos libertar do trabalho. Como argumentou Gorz em sua “Crítica da Razão Econômica”, “o desenvolvimento das forças produtivas pode, por si só, reduzir a quantidade de trabalho que é necessária, mas não pode, por si só, criar as condições que farão dessa libertação de tempo uma libertação para todos.”

Para críticos como Gorz, o desafio que temos diante de nós é desenvolver uma luta política que nos permita finalmente transformar o tempo economizado por décadas de ganhos de produtividade para fins humanos. Esse desafio coletivo – que Gorz chamou de “política do tempo” – exige a definição de novas liberdades e garantias coletivas, que permitirão a todos se beneficiar de mais tempo livre. Uma das coisas que torna a crítica do trabalho um projeto tão emocionante é que as preocupações dos críticos são sempre acentuadas de forma diferente. No entanto, em termos de propostas políticas, há um número destas que são bastante consistentes por toda a linha.

A primeira proposta é uma política de redução da jornada de trabalho por toda a sociedade, amarrada a uma redistribuição social do trabalho necessário. Ao espalhar as horas de trabalho disponíveis de forma mais equilibrada entre as populações, o objetivo é inverter a divisão crescente da sociedade em elites ocupacionais estressadas, de um lado, e uma massa de desempregados, subempregados ou precariamente empregados, de outro. Cada um de nós trabalharia menos para que mais de nós pudéssemos trabalhar.

Isso vem de mãos dadas com uma segunda proposta para desvincular o direito a um salário da atividade do trabalho, e explorar métodos alternativos de distribuição de renda. A crescente discussão em torno da Renda Básica Universal é um sinal promissor. A Renda Básica tem muitas justificativas concorrentes, mas uma importante é que ela promete remediar o deprimente desperdício de tempo e talento testemunhado no presente capitalista, onde a inclusão social ainda depende da capacidade de manter um emprego. Independente se sua força de trabalho for exigida pela economia formal ou não, as pessoas que se beneficiem de uma Renda Básica terão recursos para empreender trabalho para si mesmas e para os outros, se assim o desejarem. A esperança é que, com os benefícios de tempo e renda, as pessoas seriam capazes de desenvolver uma gama de interesses e capacidades fora do emprego. [12]

Essas mudanças talvez não seriam muito se não fossem escoradas por uma mudança mais qualitativa em nossas culturas e sensibilidades. Uma solução radical para a crise do trabalho também requer que nos re-examinemos e exploremos a possibilidade de formas alternativas de experimentar o prazer e a solidariedade que as pessoas têm convencionalmente procurado (muitas vezes sem sucesso) no trabalho. Para articular isso em termos de uma demanda: precisamos exigir um fim à idéia conservadora de que o trabalho remunerado é inerentemente saudável e civilizador.

Alguns vão, sem dúvida, objetar dizendo que o emprego é crucial para o bem-estar das pessoas (e há uma profusão de pesquisas sobre as misérias do desemprego que elas podem citar como evidência). [13] A dinâmica deste debate é complicada porque o trabalho em alguns sentidos realmente é importante para a saúde em uma sociedade organizada para promover uma dependência em relação ao trabalho. No entanto, é apenas um apego moral ao trabalho que nos impede de permanecer abertos à idéia de que o futuro poderia ser diferente. No futuro, é perfeitamente possível que atividades alternativas nos permitam experimentar o sentido de solidariedade e propósito que o trabalho agora oferece (ou não fornece, conforme o caso). Também faríamos bem em lembrar aos que duvidam que a construção atual da identidade e da solidariedade social através do trabalho nos torna supremamente aptos para a exploração.

Outros podem protestar contra a crítica ao trabalho como uma defesa um pouco juvenil do “direito de ser preguiçoso”. Por exemplo, quando o ex-primeiro-ministro do Reino Unido, David Cameron, declarou que seu governo serviria principalmente os interesses de “pessoas que trabalham duro”, as linhas éticas foram firmemente traçadas: você é um trabalhador ou um vagabundo? Parece que não há espaço para se ocupar no meio, não há uma forma legítima de fazer uma contribuição social que não seja através do trabalho.

É importante que rejeitemos essa dicotomia sempre que possível, e também que reconheçamos que a crítica ao trabalho é muito mais do que a defesa do direito de ser preguiçoso. Embora a preguiça certamente tenha um lugar legítimo em um futuro pós-trabalho, o que em última análise é exigido pela crítica do trabalho é menos um direito à ociosidade do que um direito de desenvolver as capacidades humanas mais plenamente. Em ‘The Problem With Work’ [‘O Problema com o Trabalho’], Kathi Weeks articula bem essa questão quando argumenta que criticar o trabalho não o é, necessariamente:

“É, antes, insistir que há outras maneiras de organizar e distribuir essa atividade e nos lembrar que também é possível ser criativo fora dos limites do trabalho. É sugerir que pode haver uma variedade de maneiras de experimentar o prazer que podemos hoje encontrar no trabalho, bem como outros prazeres que podemos querer descobrir, cultivar e desfrutar.”

Num momento em que o trabalho está muito claramente em estado de crise, o projeto crítico que Weeks descreve aqui é importante. Dada a crescente crise do trabalho, o sonhador talvez não seja mais o utópico que procura alternativas, mas a pessoa que acredita que as coisas podem continuar como estão. A solução radical é a solução sã.

Ao mesmo tempo, porém, seria um erro ver a crítica do trabalho meramente como uma “solução” para a crise. É também uma oportunidade para finalmente cumprir a promessa original do desenvolvimento produtivo do capitalismo: nos libertar do trabalho e nos permitir desfrutar coletivamente de mais tempo livre. A esperança é que uma política do tempo nos permitiria explorar essas aptidões e aspectos de nós mesmos que muitas vezes ficam marginalizados em um mundo centrado no trabalho. A esperança é que ter mais tempo fora do trabalho, com o benefício de novas instalações públicas, desencadearia a criação de redes informais de produção e intercâmbio fora dos limites da economia formal.

Talvez um aumento no tempo livre também permitiria que as pessoas se tornassem cidadãos mais ativos. Uma das razões pelas quais o debate democrático está atualmente em um estado tão moribundo é que nossas vidas ocupadas nos deixam com tão pouco tempo para se envolver com a política, se organizar coletivamente ou descobrir o que está acontecendo em nossas comunidades. Entretanto, o que uma política do tempo talvez prometa, acima de tudo, é permitir que usemos nosso tempo livre para outra coisa que não escapar do trabalho.

A estrada à frente

A construção social do trabalho como uma fonte básica de renda, direitos e sensação de pertencimento continua inabalável. No entanto, o que também está claro é que, para um vasto número de pessoas, o trabalho se tornou uma fonte não confiável dessas coisas. Trata-se de uma crise profunda, que exige uma reavaliação igualmente profunda do trabalho e do seu lugar na sociedade moderna. Esta tarefa – que André Gorz chamou de política do tempo – tem como objetivo oferecer uma resposta prática ao mundo de trabalho em desintegração de hoje. Mas mais do que isso, também nos convida a falar sobre as condições para a liberdade e a nos engajar em um novo diálogo sobre o tipo de sociedade em que gostaríamos de viver.

Em geral, estou inclinado a concordar com a sugestão de Gorz de que a mudança cultural para uma sociedade pós-trabalho já tem ocorrido até certo ponto. Se cortarmos através da glorificação da ética do trabalho na mídia conservadora, o que encontraremos é que um enorme número de pessoas já está se desligando mentalmente da sociedade centrada no trabalho e agora está ativamente tentando maximizar seu tempo de lazer, reconfigurando sua identidades através de atividades não-laborais. Sensibilidades anti-trabalho podem ser encontradas em todos os lugares, quer se trate de artistas e [artistas/atletas/etc] amadores encontrando tempo para fazer o que realmente amam, voluntários e cuidadores não remunerados dedicando seu tempo para os outros, pessoas se aposentando cedo para redescobrir prazeres perdidos, ou graduados lentamente desistindo do sonho de um emprego estável de que eles gostam.

Eu documentei essas sensibilidades anti-trabalho em algum grau em meu livro, ‘The Refusal of Work’ [‘A Rejeição do Trabalho’], que se baseou em entrevistas com pessoas que tentam (com diferentes graus de sucesso) resistir à realização de trabalho remunerado. Muitos estavam dispostos a suportar dificuldades significativas para fazê-lo. Uma das coisas notáveis deste estudo foi que seus participantes eram menos sujeitos políticos radicais, exigindo alternativas sociais, e mais pessoas comuns que estavam simplesmente tentando trabalhar menos e ter mais tempo de lazer. Eles encarnavam uma insatisfação latente com o trabalho que ainda não encontrou vasão política, e o dilema que talvez agora enfrentemos seja como legitimar e mobilizar essa insatisfação. Precisamos encontrar maneiras de articulá-lo na forma de uma alternativa política.

Com relação às perspectivas de desenvolver uma política pós-trabalho neste sentido, é justo dizer que concluí minha pesquisa com uma nota um tanto pessimista. No Reino Unido, a política dominante tanto na Esquerda como na Direita ainda parece obcecada com a dignidade do trabalho. No entanto, tem havido alguns barulhos notáveis desde que a minha pesquisa foi publicada. A política anti-trabalho do grupo ativista britânico ‘Plan C’ vale a pena ser mencionada aqui, juntamente com a ‘New Economics Foundation’ – um think tank que tem explorado a possibilidade de uma semana de trabalho de 21 horas. A discussão em torno da Renda Básica também parece estar aumentando, com uma série de campanhas e experiências notáveis sendo documentadas pela ‘Basic Income Earth Network’ nos últimos meses.

Também vale a pena mencionar o recente “No Jobs Bloc” – uma coalizão de grupos coordenada pela Assembléia Radical, que marchou como parte do protesto anti-austeridade de Londres no início de 2016. Os manifestantes carregavam faixas com slogans inspirados pela recente crítica do trabalho de Nick Srnicek e Alex Williams, ‘Inventing the Future’ [“Inventando o Futuro”], exigindo uma Renda Básica para todos, automação completa, redução da semana de trabalho e a atribuição de valor ao trabalho não remunerado e emocional . Esse abraço popular da crítica do trabalho é encorajador, e é difícil prever o destino da crítica no futuro. Uma coisa, porém, é certa: se alguém me dissesse há um ano que ativistas no Reino Unido estariam cantando slogans anti-trabalho nas ruas, eu não teria acreditado.

30 de dezembro de 2015

Paz na terra? Não até que os EUA parem de vender armas e fazer guerra

Daniel H. Simpson

Pittsburgh Post-Gazette

Revendo os lances dos Estados Unidos no final de 2015, concluo que somos uma nação assassina, em nosso país e no exterior.

O segmento da nossa sociedade que mais se beneficia desse papel, novamente, em nosso país e no exterior, é a indústria de armamentos. Em nosso país, eles vendem as armas que são usadas, praticamente sem controle, para matar grupos de pessoas inocentes, inclusive em escolas e igrejas. Nossos legisladores federais e estaduais corruptos e sem escrúpulos não têm a coragem e a inteligência para detê-los. E isto não se aplica apenas à National Rifle Association (NRA); aplica-se também aos fabricantes de armas e negociantes que financiam a NRA para que ela possa exercer influência em Washington e nas capitais dos Estados.

No exterior, somos considerados assassinos. Outros países podem apenas rezar ao seu deus ou deuses escolhido/s pedindo que os Estados Unidos não decidam impor sua vontade sobre eles, quer se trate de impor uma forma de governo que achamos que eles devem adotar, ou citar alguns supostos erros que tenham cometido como desculpa para atirar bombas sobre deles ou enviar drones para matar seus líderes.

Gostemos ou não, é a nossa reputação. A maioria dos estrangeiros que conheço acha que nós somos loucos. Praticamente todos pensam que nós somos um perigo para a sociedade mundial.

Alguns dos nossos aliados tomam o nosso lado na tentativa de exercer algum tipo de controle sobre nossas tendências homicidas. Eu colocaria os britânicos nessa categoria.

Alguns países só querem ficar longe de nós e, acima de tudo, não depender de nós para nada. Um exemplo é a Índia. O governo dos EUA e os vendedores particulares de armas trabalharam durante anos para tornar a Índia um grande cliente para armas americanas. A Índia ao invés escolheu sorrir para os americanos, mas continuar a comprar suas armas da Rússia — da Rússia liderada pelo notório Vladimir V. Putin, em oposição à América liderada pelo adorável Barack H. Obama. Será que a Índia está consciente de que armas americanas invariavelmente são acompanhadas por conselheiros militares americanos para treinar e apoiar seus clientes estrangeiros?

Então onde estamos quando 2015 chega ao fim?

Estamos no Afeganistão, onde começamos em 2001, logo após o 11 de setembro. Estamos no Iraque, onde o Presidente George W. Bush nos levou em 2003, em falsas premissas, para se reeleger Presidente em tempo de guerra.

Nós perdemos 2.332 soldados no Afeganistão nos últimos 14 anos — outro seis na semana passada — e 4.425 no Iraque. Ainda mantemos milhares de tropas nesses países, uma homenagem por termos colocado ali governos que não podem se sustentar. As forças especiais dos EUA acabam de ajudar os iraquianos a retomar Ramadi, pela qual lutamos antes, desta vez do grupo Estado Islâmico. Da última vez, foram os sunitas que se rebelaram, lá. No Afeganistão, nós estamos lutando novamente para segurar lugares que, caso contrário, cairiam nas mãos do Talibã e que pode, de fato, cair nas mãos do Talibã apesar de nossos esforços.

Por que fazemos isso? Eu achei que o argumento de Ronald Reagan em 1986, de que se não lutarmos contra os comunistas na Nicarágua, teremos que lutar contra eles em Harlingen, Texas, havia sido derrubado, assim como os charlatães que governaram naquele tempo. Será que alguém realmente acredita que se Ramadi, no Iraque, ou Sangin, no Afeganistão, estiverem em mãos "amigáveis" isso faz qualquer diferença para os americanos? Até mesmo perguntar isso é imaginar que o governo de Abadi no Iraque e o governo de guerra no Afeganistão são mãos "amigáveis", uma fantasia de Washington tão perto da credibilidade quanto um anúncio de campanha de Ted Cruz ou Hillary Clinton.

Eu suponho que os esforços de Obama para terminar seu mandato, sem ver o colapso do Afeganistão ou do Iraque no caos total, pode ser visto como um tipo de desordem obsessiva-compulsiva ou lealdade de campanha para com sua antiga adversária democrata, Hillary Clinton. Há tempos deveríamos ter tomado a posição de que fizemos tudo que pudemos no Afeganistão e no Iraque, trazendo nossas tropas de volta ao nosso país.

O que mais fizemos? Nós destruímos a Líbia. Muammar al-Gaddafi era uma praga egocêntrica, mesmo tendo ele eventualmente renunciado ao seu programa de armas nucleares. Mas, o que tomou o lugar dele, em grande parte devido a decisões tomadas pelo governo Obama, incluindo a Srª Clinton, foram dois governos "nacionais" aspirantes e muitas milícias locais fora da lei, agora incluindo o Estado Islâmico, bem como a migração descontrolada para a Europa.

Para apoiar a nossa aliada e compradora de armas, Arábia Saudita, ajudamos a destruir o Iêmen. Os sauditas bombardearam o país de volta à idade da pedra e ainda tenho de ouvir alguém na Casa Branca ou no Pentágono dizer que não há nenhum piloto dos EUA nas cabines dos aviões sauditas. O Iêmen já era o país mais pobre do Médio Oriente.

O envolvimento dos EUA no conflito do Iêmen também nos coloca bem no meio do conflito sunita-xiita dentro do Islã. Não há nenhuma razão no mundo para estarmos envolvidos em um conflito intra-islâmico. A razão pela qual estamos tem a ver com os compromissos dos fabricantes americanos de armas em dar suporte após a compra de armas que eles venderam para a Arábia Saudita. Eu não acho que nós lhes vendemos as espadas que eles usam para cortar as cabeças dos criminosos acusados.

Os Estados Unidos também tem usado a ausência de governo na Somália e o mercantilismo do governo do Djibuti para estabelecer um posto militar em Djibouti. Existem lá agora milhares de tropas dos EUA, bombardeiros e uma base de drone, sem nenhuma boa razão. Isso representa uma desnecessária intervenção para a expansão do Pentágono na África.

Deveríamos trazer nossos soldados de volta ao nosso país. Não haverá paz na terra enquanto não fizermos isso. Não sejamos assassinos.

Quem é o racista mor: Hillary ou Donald?

John V. Walsh

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Quem é o racista mor, Hillary Clinton ou Donald Trump? Para responder a questão, temos que fazer outra pergunta. O que é pior: denegrir alguns membros de determinada etnia, grupo ou religião – ou matá-los aos milhões, mutilar outros milhões deles e deslocar ainda mais milhões? O que é mais “racista”? Tendo isto em mente, quem é mais racista, Hillary ou Donald?

Por acaso os liberais que criticam Trump mas não Hillary esqueceram o slogan “Parem os bombardeios racistas” usado durante os movimentos contra a guerra do Vietnã?

E o que causa mais retaliações, mais ataques de vingança pelas vítimas – denegri-las com palavras ou matar seus filhos e amigos com bombardeios e sanções?

Consideremos em seguida as carreiras e declarações de Hillary Clinton e Donald Trump. Restará alguma dúvida sobre quem é o grande criminoso em termos de hostilidade aos muçulmanos? Mesmo assim, recaem sobre Trump todas as acusações de “racismo” nas páginas de editoriais do New York Times e nos sites “progressistas” da Internet e em geral, mas não há acusações de racismo contra Hillary Clinton. Torna-se então fácil de ver o quanto é profunda uma das doenças do imperialismo, a incapacidade de ver o que é muito claro. Dá também para ver como é abrangente a dominação das elites nos meios de comunicação tradicionais e mesmo naqueles consideradas alternativas.

O que Trump tem a dizer? Vamos analisar algumas de suas declarações, principalmente depois do último debate de 2015 entre os candidatos do Partido Republicano:

TRUMP: Em minha opinião, nós gastamos $4 trilhões de dólares tentando derrubar algumas pessoas que, francamente, se eles ficassem onde estavam e nós tivéssemos gasto esse dinheiro toda nos Estados Unidos, consertando nossas rodovias, nossas pontes, e todos os nossos vários problemas; nossos aeroportos e todos os outros problemas que temos, teríamos ganhado muito mais. Posso dizer isso a vocês tranquilamente. 
Nós estamos prestando um tremendo desserviço, não apenas para o Oriente Médio, mas para a humanidade inteira. Pessoas foram mortas, pessoas foram simplesmente apagadas, e para que? Isso não me parece uma vitória. 
Virou uma bagunça. O Oriente Médio está totalmente desestabilizado. Uma bagunça completa. Eu queria que a gente ainda tivesse aqueles $4 ou $5 trilhões. Eu queria que a gente os gastasse aqui mesmo nos Estados Unidos, em nossas escolas, hospitais, rodovias, aeroportos, e em tudo que está caindo aos pedaços.

O ativista católico antiguerra Doug Fuda descreveu esta declaração como sendo “quase um apelo desesperado para um arrependimento que os Estados Unidos necessitam desesperadamente”.

Você pode alegar que não passa de retórica de campanha – embora você dificilmente vá ouvir coisa semelhante do resto dos candidatos, especialmente sobre o valor que deveriam ter as vidas que os Estados Unidos mataram através de bombardeios estúpidos até a destruição completa. Pois considere então o que foi dito por Trump em uma entrevista para a Esquire em 2004:

Veja a confusão em que se encontra agora a Guerra no Iraque. Eu jamais lidaria com as coisas dessa maneira. Alguém realmente acredita que o Iraque vai se tornar uma maravilhosa democracia, onde o povo irá para as urnas colocar gentilmente seus votos nas cédulas, e o vencedor das eleições liderará alegremente o país entre a felicidade geral da nação? Vamos lá. Dois minutos depois que sairmos de lá, haverá uma revolução e o pior sujeito, o mais forte, mais resistente, mais cruel, assumirá o poder. 
Qual foi o propósito de tudo isso? Centenas e centenas de jovens assassinados. E o que dizer das pessoas que perderam seus braços e suas pernas? Para não falar do pior: todas aquelas crianças iraquianas que foram feitas em pedaços pelos bombardeios. E ainda por cima se descobre que as razões para fazer a guerra eram escandalosamente erradas. Tudo isso por nada!

Esta declaração foi feita há onze anos quando Trump era ainda apenas uma sensação na TV e não um candidato presidencial. A simples medida da passagem do tempo entre a declaração de um candidato e o dia das eleições é o maior atestado da sinceridade do que declara. Pois com as declarações em 2004 você também pode auferir o sentimento expressado por Hillary Clinton em seu apoio à guerra contra o Iraque, quando declarou, em conjunto com a sua colega Madeleine Albright, quando questionada sobre as duras sanções contra o Iraque e sobre uma guerra que matou centenas de milhares de pessoas, entre elas quinhentas mil crianças, e Hillary Clinton afirmou que “valeu a pena” apenas para derrubar Saddam Hussein! Depois Hillary passou tempos “vendendo” as guerras contra a Líbia e agora a Síria. E como é que podem ainda assim os liberais progressistas acusarem Trump e não Hillary de “racista”? Como é que podem ignorar as palavras de compaixão de Trump com todos os que estavam “do outro lado”? Tais palavras foram proferidas pelos candidatos a presidente na mesma época e deveriam dar a Trump um apelido diferente de “novo Hitler” ou “racista”. Os autodenominados progressistas estão por acaso perdendo contato com a realidade?

Agora, Hillary alega que Trump colocou lenha na fogueira do EI. A fogueira EI está queimando há muito mais tempo que a aparição de Trump na cena política nacional dos Estados Unidos. E queima porque as guerras causadas pela demente da Hillary Clinton e o resto da elite política de Washington providenciaram o combustível que alimentou a chama jihadista. Se as palavras de Trump alimentaram essa fogueira quando disse que os Estados Unidos deveriam suspender temporariamente a entrada de muçulmanos no país, funcionaram como meros cavacos perto da floresta de lenha seca que as guerras de Hillary providenciaram para a consolidação do que é hoje o EI. Mas não é nada estranho que Hillary minta mais uma vez como é de seu costume, incluindo a acusação de que o EI teria feito um vídeo com Trump.

Como aconteceu na última noite, na aparição de Hillary na TV onde, apesar do sangue de não-brancos que escorre de suas mãos teve a falta de vergonha de dizer que Trump é “perigoso”. Com certeza ele é perigoso, mas apenas para as pretensões de Hillary de se tornar a nova presidente dos Estados Unidos. Mas para ela, não passa de um joguinho nojento agir para parecer que se importa, por pouco que seja, com as vidas de pessoas de cor, especialmente árabes e muçulmanos.

Na trama da campanha presidencial, meus amigos autointitulados liberais progressistas podem ir em frente e acusar acremente Donald Trump por qualquer ato racista ou intolerante que ele cometa. Eles têm agido exatamente dessa maneira. Este escritor se congratula com eles por agirem assim. Mas não devem fazer isso sem mencionar os recordes de Hillary, que derramou o sangue de milhões de muçulmanos pelo mundo afora, como faz o New York Times. Na melhor das hipóteses estariam contando apenas meia verdade, o que é a mesma coisa que uma mentira total.

29 de dezembro de 2015

"Free Basics" vai tirar mais do que o nosso direito à internet

Vandana Shiva

Common Dreams

Enquanto a Agência Reguladora de Telecomunicações da Índia decide o futuro do programa “Free Basics”, Mark Zuckerberg está na Índia com um bilhão de rúpias, em moeda trocada, para fazer sua publicidade. O programa é um internet.org repaginado ou, em outras palavras, um sistema em que o Facebook decide qual parte da internet compõe o pacote básico para os usuários.

A Reliance, parceira indiana do Facebook na empreitada do Free Basics, é uma megacorporação indiana com interesses em telecomunicação, energia, alimentos, varejo, infraestrutura e, é claro, terras. A Reliance obteve territórios para suas torres rurais de celulares do governo da Índia e tomou terras de fazendeiros para Zonas Econômicas Especiais através de violência e golpes. Como resultado e quase sem custo, a Reliance obteve um grande público rural, semiurbano e suburbano, especialmente fazendeiros. Embora o Free Basics tenha sido banido (por enquanto), a Reliance continua oferecendo seu serviço através de suas redes.

Um ataque corporativo coletivo está em curso globalmente. Tendo já programado suas ações, veteranos de corporações americanas como Bill Gates estão se juntando à nova onda de imperialistas filantropos, que inclui Mark Zuckerberg. É incrível a semelhança nas relações públicas de Gates e Zuckerberg, perfeitamente ensaiadas, que envolvem um preparo retórico e doação de fortunas. Qualquer entidade com que os Zuckerbergs se unam para administrar os 45 bilhões de dólares investidos provavelmente vai terminar parecendo a Fundação Bill e Melinda Gates; isto é, poderosa o suficiente para influenciar negociações climáticas, apesar não serem efetivamente responsáveis por nada.

Mas o que Bill Gates e Mark Zuckerberg teriam a ganhar quando ditam os termos aos governos do mundo durante a conferência climática? "A Breakthrough Energy Coalition vai investir em ideias que podem transformar a maneira como todos nós produzimos e consumimos energia", escreveu Zuckerberg em sua página no Facebook. Era um anúncio da Breakthrough Energy Coalition de Bill Gates, um fundo privado com uma riqueza combinada de centenas de bilhões de dólares de 28 investidores que irão influenciar a forma como o mundo produz e consome energia.

Ao mesmo tempo, Gates pressiona para forçar uma agricultura dependente de insumos químicos, combustíveis fósseis e transgênicos patenteados (#FossilAg) através da Aliança pela Revolução Verde na África (AGRA). Trata-se de uma tentativa de tornar fazendeiros africanos dependentes de combustíveis fósseis que deveriam ter permanecido no subsolo, além de criar uma relação de dependência com as sementes e petroquímicos da Monsanto.

95% do algodão na Índia pertence à Monsanto Bt Cotton. Em 2015, nas regiões de Punjab até Karnataka, 80% de sua plantação transgênica não vingou - isso significa que 76% dos produtores afiliados à Bt Cotton estavam sem algodão na época da colheita. Se tivessem opção, eles teriam trocado de variedade. Mas o que parece ser uma simples escolha entre sementes de algodão é na verdade a imposição de uma mesma semente Bt, comercializada por diferentes companhias com diferentes nomes, compradas por fazendeiros desesperados que tentam combinações de sementes, pesticidas, herbicidas e fungicidas - todos com nomes complexos o bastante para fazê-los se sentir inadequados - até que você não tenha nenhuma “escolha” a não ser tirar sua própria vida.

O que a Monsanto faz ao empurrar as leis de Direitos de Propriedade Intelectual (IPR) referentes ao comércio de sementes, Zuckerberg está tentando fazer com a liberdade de internet da Índia. E, assim como a Monsanto, ele está prejudicando os indianos mais marginalizados.

O Free Basics irá limitar o conteúdo da internet para a grande maioria de usuários indianos. Já de início, o programa afirmou que não irá permitir conteúdos de vídeo que interfiram nos serviços (leia-se: lucros) das companhias de telecomunicações - apesar da recomendação da própria Agência Reguladora de Telecomunicações da Índia de que conteúdo em vídeo seja acessível a diferentes partes da população.

Uma vez distribuída como um serviço gratuito, o que impedirá que as companhias de telecomunicações redefinam o uso da internet para satisfazer seus próprios interesses e o de seus parceiros? Afinal, a proibição ao Free Basics não impediu que a Reliance continuasse oferecendo seus serviços para uma grande base de usuários, muitos deles fazendeiros.

Por que deveria ficar a cargo de Mark Zuckerberg decidir o que é a internet para um fazendeiro em Punjab, que acabou de perder 80% de sua colheita de algodão por conta das sementes transgênicas da Monsanto e cujos produtos químicos (que foi coagido a usar) falharam completamente? Deveria a internet permitir que ele se informasse sobre o fracasso das tecnologias de transgênicos ao redor do mundo, que apenas são mantidas através de políticas de comércio injustas, ou deveria ela apenas induzir o uso de outra molécula patenteada em sua plantação?

A ligação entre o Facebook e a Monsanto é profunda. Os 12 maiores investidores da Monsanto são os mesmos que os 12 maiores investidores no Facebook, incluindo o Grupo Vanguard. Esse grupo é um grande investidor da John Deere, a novA parceira da Monsanto em “tratores inteligentes”, o que faz com que toda a produção e consumo de alimentos, da semente à informação, permaneça sob o controle de um pequeno punhado de investidores.

Não é de surpreender que a página do Facebook “March Against Monsanto” [Marcha contra a Monsanto], um grande movimento americano a favor da regulação e rotulagem de transgênicos, foi deletada.

Recentemente a Índia tem visto uma explosão em varejo online. Desde grande corporações a pequenos empreendedores, pessoas de todo o país tem podido vender o que produzem em um mercado previamente inacessível. Artesãos tem conseguido ampliar seus negócios, fazendas tem encontrado consumidores mais próximos.

Assim como a Monsanto e suas sementes patenteadas, Zuckerberg quer não apenas uma fatia, mas toda a pizza da economia indiana, especialmente seus fazendeiros e camponeses. O que o monopólio da Monsanto sobre informações climáticas significaria para fazendeiros escravizados através de um canal do Facebook com acesso limitado a essas informações? O que isso significaria para a internet e para a democracia alimentícia?

O direito ao alimento é o direito de escolher o que desejamos comer; saber o que está na nossa comida (#LabelGMOsNOW) e escolher alimentos saborosos e nutritivos - não os poucos alimentos processados que as corporações esperam que consumamos.

O direito à internet é o direito de escolher quais espaços e mídias nós acessamos; de escolher aquilo que nos enriquece - e não aquilo que as companhias pensam que deveria ser o nosso pacote básico.

Nosso direito de conhecer o que comemos é tão essencial quanto o direito à informação, qualquer informação. Nosso direito a uma internet aberta é tão essencial à nossa democracia quanto nosso direito de estocar, trocar e vender sementes polinizadas.

No eufemismo de Orwell, o “livre” para Zuckerberg significaria “privatizado”, algo totalmente diferente de privacidade - uma palavra inclusive estranha a ele. E assim como em acordos de “livre” comércio definidos por corporações, o Free Basics significa qualquer coisa menos “livre” para os cidadãos. É um cerceamento de bens essenciais, que deveriam ser acessíveis ao povo, sejam eles sementes, água, informação ou internet. Os Direitos de Propriedade Intelectual da Monsanto estão para as sementes como o Free Basics está para informação.

Tratores inteligentes da John Deere, utilizados em fazendas que plantam sementes patenteadas pela Monsanto, tratadas com insumos químicos da Bayer, com informações sobre clima e solo fornecidas pela Monsanto, transmitidas ao celular do fazendeiro pela Reliance, conectadas no perfil do Facebook, em terras pertencentes ao Grupo Vanguard.

Todos os passos de todos os processos, até o ponto em que você escolhe algo da prateleira de um supermercado, serão determinados pelos interesses dos mesmos acionistas.

Que tal conversarmos sobre liberdade de escolha?

28 de dezembro de 2015

Ku Klux Klan: A longa história de tolerância da América com o terrorismo branco

Garikai Chengu

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Esta semana marca o 150º aniversário de fundação da organização terrorista mais letal da história dos EUA: a Ku Klux Klan.

Desde 11 de setembro, extremistas associados com várias ideologias de extrema-direita, incluindo a KKK e extremistas judeus, mataram muito mais pessoas nos Estados Unidos do que os extremistas motivados pelo islamismo radical.

Um velho exemplo dos dois pesos e duas medidas do governo dos EUA, quando se trata de terrorismo, é a infame Ku Klux Klan. A Klan aterrorizou e matou muito mais americanos do que os terroristas islâmicos jamais puderam conceber; e apesar de ser a mais antiga organização terrorista dos Estados Unidos, o governo dos EUA não considera oficialmente a KKK enquanto uma organização terrorista, classificando-a como um mero "grupo de ódio".

Ao classificar as ações do KKK como atos de ódio, em vez de terror, o governo dos EUA permite que a Klan, ao contrário do Estado Islâmico, realize livremente comícios na América, levante fundos e até mesmo apareça na TV para promover sua ideologia. Recentemente Franco Ancona, um líder da KKK, apareceu em rede nacional e ameaçou usar "forças letais" contra manifestantes negros.

A KKK foi fundada poucos dias depois de a escravidão ser abolida nos EUA; e, desde então, bombardeios, linchamentos, tortura e outras formas violentas de terrorismo sobre quem desafia a supremacia branca sempre foram a marca registrada da Klan. No seu auge, na década de 1920, a adesão a Klan excedeu o equivalente a 8 milhões de americanos em todo o país.

O simples fato de que, até hoje, o governo dos EUA se recusa a designar a KKK como uma organização terrorista doméstica fala muito sobre o compromisso da nação no combate ao terrorismo e na promoção da igualdade racial.

O mais mortífero ataque terrorista em solo americano, antes de 9/11, foi o atentado de Oklahoma City, que foi idealizado por Timothy McVeigh, um homem que tinha laços profundos com círculos militantes nazistas de extrema-direita. Em 2011, Kevin Harpham, veterano de guerra, colocou uma bomba na rota de um desfile em homenagem ao dia do Martin Luther King Jr.. Em 2012, Wade Michael Page atirou e matou seis inocentes em um um templo Sikh em Wisconsin. Page era membro de uma banda supremacista e era associado aos Hammerskins, um grupo neo-nazista violento. Há alguns meses atrás, um Imperial Grand Wizard [título] da KKK de Kansas, cometeu um atentado gritando "Heil Hitler", em que um menino de quatorze anos foi morto.

Apesar do número crescente de fuzilamentos em massa e de ataques terroristas pela extrema-direita, a mídia escolhe se concentrar quase exclusivamente na ameaça menor do islamismo radical. Especialistas de mídia rotineiramente exigem dos muçulmanos moderados que condenem os atos de violência perpetrados por outros muçulmanos. Quando foi a última vez que você viu padres brancos sendo pressionados a ir à televisão para denunciar a violência dos supremacistas brancos, a fim de mostrar que "nem todos os cristãos" são assim? Por quanto tempo um grupo muçulmano, com um registro de violência igual a da KKK, seria autorizado a operar livremente antes de ser derrubado pela segurança nacional? Claramente o racismo, tanto quanto o petróleo, são combustíveis da Guerra ao Terror.

A ameaça do terrorismo islâmico em solo doméstico tem sido largamente fabricada, de modo a ressaltar a chamada Guerra ao Terror e promover, no exterior, um militarismo rentável e, em casa, uma violação das liberdades civis.

Quatorze anos após o 11 de setembro, a Al Qaeda não realizou com sucesso nenhum outro ataque dentro dos Estados Unidos. De acordo com um relatório recente da Universidade de Harvard, chamado The Exaggerated Threat of Home Grown Terror, “(...) desde 2001, apesar das advertências de autoridades públicas e dos analistas de terrorismo, há pouca evidência de que o risco de ataques terroristas nos Estados Unidos por muçulmanos americanos seja especialmente sério ou esteja em crescimento".

Por que então os Estados Unidos gastaram mais de US$6 trilhões de dólares na Guerra ao Terror?

Dados do FBI dentre 1980 a 2005 demostram que terroristas judeus cometeram cerca de 7% dos atos de terrorismo dentro dos Estados Unidos, valor superior aos 6% cometidos por extremistas islâmicos. Esta estatística é ainda mais notável pelo fato de que o FBI subregistrou drasticamente os casos de terrorismo perpetrados por extremistas judeus, devido aos diferentes pesos e medidas raciais institucionalizados. Aparentemente os americanos podem fundar, sem rodeios, a Liga de Defesa Judaica ou a Resistência Armada Judaica, ambos grupos terroristas que cometeram mais atos de terror do que suas contrapartes muçulmanas.

A infame Liga de Defesa Judaica vem operando nos EUA por mais de meio século. Um relatório do Departamento de Energia sobre ameaças terroristas a instalações nucleares observa que "(...) por mais de uma década, a Liga de Defesa Judaica tem sido um dos grupos terroristas mais ativos nos Estados Unidos". Sem o conhecimento de muitos norte-americanos, esses extremistas judeus enviaram cartas-bomba para a polícia, atacaram embaixadores da ONU e bombardearam civis durante uma orquestra sinfônica.

Se o governo dos Estados Unidos fala realmente sério quando promete enfrentar o terrorismo doméstico e os tiroteios em massa, as estatísticas do FBI sugerem que ele deveria ostensivamente vigiar homens brancos. O simples fato de as autoridades americanas não terem se infiltrado para espionar grupos cristãos conservadores ou comunidades judaicas a fim de impedir organizações violentas de extrema-direita apenas confirma aquilo que os muçulmanos nos EUA já sabem: adorar seu Deus pode lhe tornar um suspeito.

Muçulmanos americanos sentem cada vez mais como se vivessem em um estado policial totalitário, com uma crescente ampliação do assédio, do perfilamento e da vigilância por parte do Estado. O pesquisador Arun Kundnani mostrou como o FBI tem 1 espião de contraterrorismo para cada 94 muçulmanos nos EUA, o que apenas nos recorda da média infame da agência de espionagem totalitária da Alemanha Oriental, a Stasi, com 1 um espião para cada 66 cidadãos.

Cristãos brancos e judeus não precisam se preocupar que um agente secreto ou com um informante se infiltrando em suas igrejas, grupos de estudos ou clubes sociais.

Durante séculos, os terroristas brancos dos EUA foram autorizados, com ampla passabilidade, a espalhar a sua ideologia e planejar seus ataques, o que de certa forma explica a maior letalidade relativa dos supremacistas brancos. E também a taxa muito menor de indiciamento dos agressores brancos.

Nos EUA, pessoas pretas ou pardas são reflexivamente consideradas terroristas ou criminosos, merecedores de escárnio da sociedade, ao passo que as pessoas brancas que cometem ataques terroristas são simplesmente solitários "mentalmente perturbados" que precisavam de ajuda.

A decisão social de chamar um ato de violência em particular de "terrorismo" indica que tal ato pertence a um padrão mais generalizado e que necessita de uma atenção especial, para além do combate ao crime normal. Nesse sentido, chamar fuzilamentos em massa cometidos por supremacistas brancos apenas de "ódio" ou assassinato, em vez de terrorismo, minimiza o papel significativo das motivações racistas do agressor e evita perguntas difíceis sobre a prevalência do racismo na sociedade americana.

Recentemente, James Holmes atirou em mais de 80 pessoas dentro de um cinema, Ele foi capturado com vida pelas autoridades e, por incrível que pareça, a mídia se recusou a chamar suas ações de terrorismo, concentrando-se em retratar o Sr. Holmes como um "estranhão solitário". Da mesma forma, o supremacista branco Dylan Roof massacrou nove fiéis negros em Charlestown e não só foi capturado vivo, mas também a polícia o descreveu, no momento de sua detenção, como um sujeito "muito quieto, muito calmo (...) não problemático". A própria polícia foi comprar o almoço do Sr. Roof no Burger King, momentos depois de seu atentado terrorista contra fiéis negros inocentes. Em um contraste evidente com os inúmeros linchamentos policiais modernos de meninos e homens negros inocentes, muitas vezes sem nome, tudo isso explicita que a justiça norte-americana é tão tolerante com o terrorismo branco, quanto institucionalmente racista em seu núcleo.

Claramente, há uma obsessão custosa e pouco saudável por parte da sociedade e da justiça norte-americanas no que se refere à prevenção da violência cometida por muçulmanos. A mesma obsessão que ignora tanto a ameaça real do terrorismo branco, quanto o terrorismo policial em curso sobre cidadãos negros.

Bombas de fim de ano

Manlio Dinucci

Il Manifesto

Tradução / Para a segurança das pessoas e dos animais, são proibidos em diversos casos os fogos de artifício durante o fim de ano, sobretudo os petardos mais fortes. Os meios de comunicação têm divulgado bastante este tipo de notícia. Os mesmos que escondem outras notícias que, se fossem divulgadas, fariam explodir a bolha da realidade virtual em que estamos aprisionados.

Um exemplo: os National Archives and Records Administration (Nara) - os arquivos do governo estadunidense - publicaram em 22 de dezembro um dossiê de 800 páginas, até o presente bastante secreto, com uma lista de milhares de alvos na URSS, Europa Oriental e China, que os Estados Unidos se preparavam para destruir com armas nucleares durante a guerra fria. Em 1959, o ano a que se refere a "lista de alvos", redigida em 1956, os EUA possuíam mais de 12 mil ogivas nucleares com uma potência de 20 mil megatoneladas, o equivalente a um milhão e meio de bombas de Hiroshima, quando a URSS possuía cerca de mil ogivas e a China ainda não tinha armas nucleares.

Sendo superior inclusive em vetores (bombardeiros e mísseis), o Pentágono considerava realizável um ataque nuclear. O plano previa a "destruição sistemática" de 1.100 campos de aviação e 1.200 cidades. Moscou teria sido destruída por 180 bombas termonucleares; Leningrado, por 145; Pequim, por 23. Numerosas "zonas habitadas" teriam sido destruídas por "explosões nucleares ao nível do solo com aumento de radiação". Entre elas, Berlim Oriental, cujo bombardeio nuclear teria comportado "desastrosas implicações para Berlim Ocidental". O plano não foi executado porque a URSS, que tinha efetuado sua primeira prova nuclear em 1949 quando os EUA já tinham acumulado desde 1945 cerca de 230 bombas, adquiriu rapidamente a capacidade de atingir os Estados Unidos.

Por que os arquivos estadunidenses decidiram publicar hoje "a mais ampla e detalhada lista de alvos nucleares como nunca antes arquivos haviam sido abertos?" A escolha não foi casual, considerando que o arquivista-chefe dos Nara é nomeado pelo presidente dos Estados Unidos. A publicação da "lista de alvos" é uma clara advertência à Rússia e à China, sobre a potência nuclear dos Estados Unidos. Os quais lançaram um plano, ao custo de um trilhão de dólares, para potencializar as forças nucleares com 12 submarinos de ataque suplementares, cada um armado com 200 ogivas nucleares, e 100 novos bombardeiros estratégicos, cada um armado com mais de 20 ogivas nucleares. E enquanto eles estão ao ponto de estocar na Itália e em outros países da OTAN as novas bombas B61-12 para o first strike nuclear, os EUA desenvolvem o "escudo anti-mísseis" que deveria "defender" a Europa. Em 12 de dezembro foi ativada, na base de Deveselu na Romênia, a primeira bateria de mísseis terrestres estadunidenses da "defesa" da OTAN, que será seguida por uma outra, semelhante, na Polônia, composta de 24 mísseis Aegis, já instalados a bordo de quatro navios de guerra estadunidenses no Mediterrâneo e no Mar Negro. Moscou advertiu em 25 de dezembro que essas baterias, estando em condições de lançar também mísseis nucleares Tomahawk de médio porte, constituem uma evidente violação do Tratado INF, que proíbe o deslocamento para a Europa de mísseis nucleares de médio porte com bases em terra.

A Rússia anuncia contra-medidas, entre as quais novos mísseis intercontinentais móveis sobre veículos e trens em movimento constante para evitar um fisrt strike nuclear. E, para atingir os alvos do chamado Estado Islâmico na Síria, ela utiliza bombardeiros estratégicos que servem igualmente para ataques nucleares. Não se sabe qual é hoje a "lista de alvos" para ataques nucleares dos Estados Unidos. Entretanto, é certo que na "lista de alvos" se encontram também as bases dos Estados Unidos e OTAN na Itália. Os meios de comunicação silenciam, enquanto fazem alarde sobre os fogos de artifício.

27 de dezembro de 2015

A nova estratégia de negociação comercial do imperialismo

Prabhat Patnaik

Peoples Democracy

Tradução / A OMC tem sido uma arma importante utilizada pelos países avançados a fim de reverter as estruturas que os regimes dirigistas do terceiro mundo, postos em vigor após a descolonização, erigiram para alcançar um certo grau de auto-suficiência. O acordo TRIPS por exemplo, que fortalece o controle total das corporações multinacionais sobre a tecnologia, foi pressionado através da OMC. Mas o mundo capitalista avançado recentemente descobriu uma arma ainda mais forte, a qual consiste em acordos comerciais regionais (ACRs) ou bilaterais como a Parceria Transpacífico (TPP).

Para eles, a vantagem dos ACRs é que, ao invés de negociações globais multilaterais onde têm de enfrentar um vasto número de países, os quais além disso formam grupos para aumentar a resistência contra esta ou aquela proposta, a pressão pode ser aplicada mais eficazmente e de uma maneira mais concentrada contra o limitado número de países que tipicamente estão envolvidos nas ACRs. Ao invés de negociações envolvendo 162 ministros do Comércio, que foi o número em Nairobi, as ACRs implicam negociações com apenas uma dúzia ou ainda menos. O terceiro mundo, em suma, é fragmentado e as ACRs são negociadas separadamente com estes fragmentos, o que torna muito mais fácil exercer a hegemonia dos países avançados. Portanto, o imperialismo está a comutar dos acordos comerciais multilaterais para acordos comerciais regionais. E nos fóruns multilaterais que continuam a existir está a comutar da procura de acordos grandiosos para a negociação apenas de questões específicas.

Na reunião ministerial de Nairobi, que acaba de terminar, ele abandonou oficialmente o projeto de erigir qualquer grandioso dispositivo de comércio multilateral, acordado globalmente. Ao invés disso, o que aconteceria doravante são negociações para ACRs onde pode facilmente amedrontar o pequeno número de países do terceiro mundo envolvidos, assim como negociações no interior da OMC sobre questões particulares, em que podem ser arrancadas dos países do terceiro mundo sem qualquer espaço para um exigente quid pro quo posterior em alguma outra esfera.

O abandono da Agenda de Desenvolvimento de Doha (DDA), que prometia conciliar as aspirações de desenvolvimento do terceiro mundo num novo esquema de comércio global, está alinhado com esta mudança de estratégia. Não que tenha sido alcançado qualquer progresso real significativo na agenda Doha, mas pelo menos constituiu uma baliza em negociações OMC. Toda rodada de discussões sob a OMC reafirmava o compromisso para com a agenda Doha, mas Nairobi rompeu novo terreno. Sua declaração ministerial é bastante franca ao admitir que "... muitos membros reafirmam a Agenda de Desenvolvimento de Doha... Outros Membros não reafirmam os mandatos de Doha pois acreditam que são necessárias novas abordagens para alcançar resultados significativos em negociações multilaterais...".

O governo dos EUA mantém a posição legal de que se a DDA não for reafirmada, como tem sido em toda reunião ministerial até Nairobi, então está morta. Outros países podem contestar esta opinião, mas o fato é que a DDA não foi reafirmada em Nairobi. E a razão é que o mais poderoso país capitalista quer explicitamente que ela morra. 

Os países africanos tinham um interesse particular na reafirmação da DDA e é irônico que o encontro ministerial da OMC efetuado pela primeira vez sobre o solo africano tenha visto as preocupações da África serem tratadas com desprezo. E, também ironicamente, os Estados Unidos foram capazes de deitar a pique a DDA e amuralhar todas as questões levantadas por países do terceiro mundo, induzindo um punhado de países importantes destes últimos a concordarem com a minuta da Declaração a qual foi então imposta sobre os restantes. Dentre este punhado de países infelizmente estava a Índia, a qual anteriormente fizera declarações vigorosas.

Não é sequer que a Índia tenha obtido algumas concessões para si própria enquanto descartava os países pobres do terceiro mundo. Em matérias de preocupação vital para si própria, a Índia retornou de Nairobi de mãos vazias. Uma destas matérias era a aquisição pública (public procurement) de cereais para o atual sistema de distribuição pública (PDS). Sobre esta questão a OMC foi o palco de um drama bizarro. A aquisição pública de cereais a preços que excedessem uma reconhecida referência da OMC fixada vários anos atrás (desde o tempo em que havia muita inflação) é contada como um "subsídio distorcedor do mercado". E se a magnitude de tais subsídios distorcedores do mercado dados à agricultura excederem aproximadamente 10 por cento do valor da produção na agricultura (o qual neste preciso momento é o caso na Índia), então supõe-se que o país em causa está a violar as "normas" da OMC.

Por outro lado, os países capitalistas avançados dão enormes subsídios aos seus agricultores – mas estes não são considerados de todo como "distorcedores do mercado". Os Estados Unidos por exemplo dão sistematicamente subsídios na forma de apoio em dinheiro (cash support) aos agricultores que chegam em média a 40 a 50 por cento do seu valor de produção a cada ano. E em alguns anos o subsídio dado excedeu mesmo o valor da produção (desde então o rácio entre os dois flutua muito). Contudo, tal subsidiamento maciço não viola as "normas" da OMC.

Ainda por cima, entre os países avançados a magnitude dos subsídios em relação ao valor da produção agrícola dada pelos EUA está na zona inferior. A Europa e o Japão deram em média subsídios ainda mais altos do que os EUA. Mas nada disto franze as sobrancelhas da OMC, ao passo que os subsídios paupérrimos em relação ao valor da produção proporcionados por países como a Índia – e também a um grupo de agricultores que são muito mais pobres do que aqueles nos países do mundo capitalista avançado e em apoio a um sistema de distribuição pública sem o qual um vastíssimo número de pessoas enfrentaria a fome absoluta – atrai a ira daquela organização.

Espada de Dâmocles

A bizarrice desta lógica – e o absurdo absoluto de qualquer esquema que seja baseado na mesma – tem-na impedido de ser realmente imposta (se fosse, então países como a Índia tornar-se-iam passíveis de ação punitiva). Na reunião ministerial de Bali a matéria foi adiada e a países como a Índia foi permitido por ora continuarem a sua prática de adquirir cereais a determinados preços fixos sob uma "Cláusula de Paz" (uma cláusula que impede pressionar questões até um ponto de conflito). Supunha-se que Nairobi viesse a ser o fórum onde a OMC finalmente acederia à razão e, ao invés de medidas tapa-buracos como a "Cláusula de Paz", permitiria oficialmente a países como a Índia executarem operações de aquisição pelo governo nos mercados de cereais para alimentar o sistema de distribuição público. Mas nada disto aconteceu. A matéria ainda foi deixada pendurada como uma espada de Dâmocles sobre países como a Índia.

Na verdade, a analogia da espada de Dâmocles é bastante adequada. Na reunião ministerial de Singapura, os países avançados introduziram todo um novo conjunto de questões na agenda da OMC, incluindo facilitar a entrada de investimento estrangeiro, assim como anteriormente já haviam introduzido a questão dos direitos de propriedade intelectual. Dentro do terceiro mundo houve resistência à introdução destas novas questões. E a partir de agora, mesmo na declaração de Nairobi a OMC é constrangida a dizer: "Qualquer decisão de lançar negociações multilateralmente sobre tais questões (ex., as questões relativas a Singapura) precisariam ser acordadas por todos os Membros". Mas com assuntos de importância vital para os países do terceiro mundo (como a distribuição pública de cereais) deixadas pendentes, torna-se mais fácil para os países avançados persuadi-los a aceitar a introdução de novos pontos na agenda e até mesmo fazê-los com soçobrem sobre tais questões. Por outras palavras, os países avançados podem impor "condicionalidades" aos do terceiro mundo até mesmo quanto à continuação da própria "Cláusula da Paz". Ao não rematar a questão da aquisição pública, mantendo-a como uma espada de Dâmocles sobre os países do terceiro mundo de modo a que possam ser aterrorizados até à submissão sobre outros pontos, é portanto um estratagema útil para os países avançados.

Cenário "cara eu ganho, coroa você perde"

O que Nairobi alcançou para o terceiro mundo é desprezível: mesmo as restrições a subsídios à exportação de produtos agrícolas anunciadas em Nairobi, as quais são trombeteadas como impedimento do dumping de tais produtos pelos países avançados, pouco significam (uma vez que não tocam na questão do crédito para a exportação de tais produtos). Mas o que Nairobi extraiu para os países avançados como "concessões" do terceiro mundo (as quais não foram dadas voluntariamente) é substancial. Ao livrarem-se da DDA, ao manterem países até agora protegidos pela "Cláusula da Paz" sob tensão e ao adotarem uma nova abordagem pela qual a OMC doravante ficaria interessada com questões particulares ao invés de tratar de uma nova arquitetura global, os países avançados obtiveram para si próprios uma situação "cara eu ganho, coroa você perde". Onde lhes fosse adequado tentariam a rota da OMC e se fossem contrariados tentariam a rota dos ACRs. 

Mesmo o Financial Times, que não pode ser acusado de "viés progressista", teve de escrever sobre Nairobi: "Numa vitória para os EUA e a UE, que pressionavam por um novo caminho para a OMC, ministros do Comércio dos 162 países membros reunidos sábado em Nairobi deixaram de "reafirmar" o Doha Round, pela primeira vez desde que foi lançado em meio as grandes fanfarras em 2001. Eles também abriram a porta à discussão de novas questões na OMC, tais como economia digital e investimento".

O cenário "cara eu ganho, coroa você perde" estender-se-á mesmo a instituições supra-nacionais de domínio corporativo global, as quais o imperialismo amolda com entusiasmo a fim de transcender os Estados-nação e anular a intervenção democrática dos povos. Se tais instituições puderem ser erguidas sob a OMC, tais como o Trade Policy Review Mechanism (TRPM), então isso será ótimo para o imperialismo. Mas se não o puderem fazer, então pode ser tentada a rota da ACRs a fim de dar nascimento a tais instituições, como está a acontecer sob o TPP.

Você não vai ouvir, mas as notícias do Afeganistão são ruins

Os homens do EI estão agora lutando aos milhares no país no qual pousamos para “liberar” há 14 anos atrás, além de dezenas de milhares de Talibãs “pressionando” sem parar no “coração” do país, ao redor de Sangin.

Robert Fisk

The Independent

Tradução / As notícias oriundas do Afeganistão são realmente ruins. Ninguém fala disso, claro. O Presidente Ghani tem um “governo nacional unificado” que “é apoiado por uma forte parceria com os Estados Unidos”, de acordo com Barack Obama dois meses atrás. Claro, não dá para negar que Kunduz foi capturado pelo Talibã – mas agora os afegãos conseguiram retomá-la (com exceção, é claro, de um hospital bombardeado pelos Estados Unidos juntamente com a maioria de seus médicos e pacientes). Bem, temos que admitir que Sangin foi capturada pelo Talibã mas os afegãos estão lutando para retomá-la também. Ora, mas não morreram mais de uma centena de soldados britânicos para manter Sangin? Sim, sim, mas tropas americanas no Iraque também morreram para conquistar e manter Mosul – e Mosul atualmente é a casa do líder do Daesh, Abu Bakr al-Baghdadi. E tropas dos Estados Unidos morreram para capturar Faluja, depois a perderam, depois morreram novamente para recapturá-la – e Faluja agora também está nas mãos do Daesh.

Nós não inventamos as “notícias ruins” do Afeganistão ou do Iraque. Parece mais um filme que se repete a cada Natal. Apenas duas semanas atrás, o General John F. Campbell, o comandante dos Estados Unidos para as forças da OTAN no país, admitiu que o EI apareceu no Afeganistão. Pode haver 3.000, ou 4.000 ou ainda 5.000 homens do EI que estão agora a tentar consolidar ligações com seu “navio mãe” no Iraque e na Síria; perceba a linguagem Hollywoodiana aqui. O EI quer estabelecer sua pré-afegã “Província Khorasan” na Província de Nangarhar no Afeganistão.

Mas podemos ficar tranquilos. Obama nos assegura que o “compromisso americano com o Afeganistão e seu povo permanece intacto” e que “os afegãos estão lutando por seu país tenaz e bravamente” e que “continuam a manter a maioria (sic) das áreas urbanas”. As vitórias alcançadas pela Talibã eram “previsíveis”, diz o Presidente americano, mas quase 10.000 tropas ainda permanecem no Afeganistão – mesmo que a guerra já tenha acabado – e 14 meses atrás, David Cameron disse aos seus próprios rapazes que as conquistas alcançadas no Afeganistão “viverão para sempre”. O para sempre já acabou.

Como o próprio antigo chefe do Estado Maior, General Dannatt, disse na última semana, ele não está “surpreso” com a queda de Sangin. De forma alguma. Afinal, “nós sempre soubemos que a situação, uma vez que deixássemos Sangin, seria difícil. Nós deixamos o Afeganistão em situação de ter tudo sob controle no futuro. Mas não é grande surpresa que o Talibã continue a pressionar no Sul do Afeganistão. De qualquer forma, é a terra deles”.

Resumindo, os homens do Daesh estão lutando aos milhares no país ao qual chegamos orgulhosamente há 14 anos para “libertar”, para não falar das dezenas de milhares de Talibãs “pressionando” em sua “terra natal” em volta de Sangin (e lá se foram as conquistas eternas de Cameron). E, no entanto, Obama diz aos americanos que o ultra corrupto governo afegão é “um parceiro confiável”, um “aliado estável e comprometido”, capaz de ajudar a prevenir “futuras ameaças”.

Como em 1940, quando os soldados alemães estavam entrando aos montes na França – uma invasão muito mais perigosa que esta que faz hoje a obsessão de Cameron, mas exatamente no mesmo âmbito de agora – que Churchill decidiu dizer a verdade para os britânicos. “As notícias da França são muito ruins...” disse. Os soldados britânicos, aos milhares, estava morrendo para conter a invasão. Sua “conquista” não foi uma vitória, mas Dunquerque.

Porém nós ainda não nos permitimos o uso da expressão – “muito ruim” – sobre o Afeganistão. Não... Cameron tinha que falar sobre “conquistas”, mas a mãe de um soldado horrivelmente ferido fala abertamente sobre sua “desesperada sensação de desperdício”. Para o General Dannatt, o futuro bateu à porta para aqueles rapazes do exército afegão. Grandes coisas; nós sempre soubemos que o Talibã lutaria.

Basta ler os relatos de jornalistas afegãos para saber que a expressão Churchilliana “muito ruim” para o caso do Afeganistão tem ares de otimismo. Vejamos, por exemplo, o caso dos muçulmanos xiitas afegãos Hazara que foram capturados pelos ativistas do EI quando estavam no interior de um ônibus indo para Cabul este ano. Os “rapazes” do EI pararam o ônibus, sequestraram 30 xiitas e queriam trocá-los por familiares que estavam aprisionados – parece que eram Usbeques – nas mãos do governo afegão. Como de praxe, os cativos foram submetidos ao tratamento padrão do EI: pelo menos uma decapitação, dias de tortura ininterrupta, com o acréscimo de vídeos dos xiitas portando coletes suicidas. Só foram libertados depois de nove meses, após um assalto bem sucedido executado pelo Talibã contra os seus captores do EI. Sim, os bandidos de repente se tornaram os mocinhos, aqueles mesmos bandidos que haviam capturado Sangin, porque agora estavam lutando contra outros bandidos muito piores que eles. Seria cômico, se não fosse trágico.

Só para reforçar o tema, tomemos a recente história de um infortunado afegão chamado Qais Rahmani, que, juntamente com sua família e um bebê de quatro meses de idade, partiram misturados ao exército de refugiados para a Europa. Na Turquia tomaram uma embarcação que afundou quase imediatamente. O bebê de Qais morreu em seus braços. Ora, diria você, não passa de mais um Alan Kurdi da vida, mas você sabe, o que realmente chamou a atenção dos afegãos foi que Qais era apresentador de televisão famoso e assim como sua mulher, tinha nível universitário. Os Rahmanis não eram pobres ignorantes no meio da multidão de refugiados, mas aquelas pessoas que deveriam permanecer no país e supostamente participar da construção de um Novo Afeganistão, trabalhando lado a lado com o governo, que está – e cito Obama novamente – “trabalhando para combater a corrupção, fortalecer as instituições e defender o Estado de Direito”.

Bem. Tome alguma distância e dê uma olhada no roteiro. O Talibã, em 1996, acabou com a bagunça das milícias desorganizadas e fora da lei e dominou quase todo o país. Acontece que também deu abrigo à al-Qaeda depois dos acontecimentos de 9/11. Indignados, invadimos o Afeganistão para destruir logo os dois de uma vez: a al-Qaeda e o regime vil, misógino, assassino e antidemocrático do Talibã. O Talibã não foi conquistado, nem derrotado, nem nada. Pior: agora, o Talibã está vencendo. Agora nós queremos que ele lute contra o vil, misógino, assassino e antidemocrático EI. É por isso que, no final de sua peroração para o povo americano, Obama disse que todos devemos “premir o Talibã... para que eles façam a sua parte no esforço de perseguir a paz que o Afeganistão merece”. Pois então. O horrível Talibã voltou a ser o bom, o bravo Talibã. Realmente, as notícias do Afeganistão são bem ruins.

25 de dezembro de 2015

Espanha diz "Não"

Conn Hallinan

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Pela terceira vez em um ano, as duras políticas de austeridade da União Europeia (UE) tomaram uma surra quando os eleitores espanhóis esmagaram seu governo de direita e derrubaram quatro décadas do reinado bipartidário. Seguindo os passos dos eleitores gregos e portugueses no início deste ano, os espanhóis rejeitaram a fórmula econômica da Troika - Banco Central Europeu, Comissão Europeia e Fundo Monetário Internacional - fórmula que empobreceu milhões de pessoas e elevou a taxa de desemprego à quase um quarto da população.

O primeiro-ministro de esquerda da Grécia, Alex Tsipras, disse que "A austeridade foi politicamente derrotada na Espanha" e que a eleição foi um sinal "de que a Europa estava no caminho da mudança". O primeiro-ministro da Itália, Matteo Renzi, disse: "Como já aconteceu na Grécia e em Portugal, os governos que aplicam medidas de austeridade rígidas (...) estão destinados a perder suas maiorias".

O grande perdedor nas eleições espanholas foi o direitista Partido Popular (PP), que perdeu 63 assentos e sua maioria no parlamento de 350 membros. O PP recebeu mais votos do que qualquer outro partido único, mas seu apoio caiu de 44% nas eleições de 2011 para 28,7%. Embora o primeiro-ministro (do PP) Mariano Rajoy tenha baseado sua campanha na tese de que a economia espanhola havia se recuperado depois do desastre com a crise financeira de 2007-08, os eleitores não compraram esse discurso tão facilmente.

A economia está de fato crescendo - 3,1% neste ano e projeções para 2,7% em 2016 - mas depois de quatro anos ela ainda não recuperou os níveis pré-crise. O desemprego manteve-se em 21% na média nacional, e mais do que o dobro entre os jovens e na maltratada região sul da Espanha.

Além de declarar um decisivo "não" a austeridade, os espanhóis também derrubaram o sistema bipartidário que havia dominado a Espanha desde a morte do ditador Francisco Franco, em 1975. Durante 40 anos, o Partido dos Trabalhadores Socialistas (PSOE) e o PP se revezaram no governo do país, acumulando um histórico de corrupção e de prevaricação. Os Socialistas também tomaram uma surra, embora menos do que o PP. O PSOE perdeu 20 assentos e caiu de 28,8% de apoio em 2011 para 22% em 2015.

Os vencedores foram dois novos partidos: o Podemos de esquerda ("Nós Podemos") e o Ciudadanos (Cidadãos) de centro-direita, embora tenha sido o primeiro que realmente ganhou o dia.

Em pesquisas pré-eleitorais do Ciudadanos, havia previsão para tornar-se o segundo maior partido do país, mas os eleitores decidiram claramente que as suas estratégias econômicas de livre mercado e suas posições retrógradas sobre o aborto e a imigração o assemelhavam demais ao PP. Esperava-se que o Ciudadanos alcançasse 25%. Em vez disso, levou menos do que 14% dos votos, que significam 40 assentos no total.

Durante meses, os meios de comunicação espanhóis e europeus inventaram histórias sobre o Podemos, dizendo o partido perdia seu apoio. Um jornal inclusive fez uma matéria chamada "Não Podemos" - enquanto o New York Times ungia o Ciudadanos com ares vitoriosos de novidade. Os eleitores, no entanto, tinham uma ideia diferente e deram ao partido de esquerda 20,6% dos votos e 69 assentos no parlamento.

O sistema político da Espanha é fortemente ponderado pelas zonas rurais, onde tanto o PP como os Socialistas são fortes. Em Madrid, um candidato precisa de mais de 128 mil votos para ser eleito. Em uma área rural, esse número pode ser apenas um pouco maior do que 38 mil. A diferença de votos entre os Socialistas e o Podemos - sendo que ambos receberam mais do que cinco milhões de votos - foi apenas de 341 mil. Mas os Socialistas têm 90 assentos e o Podemos tem 69.

O Podemos surgiu em 2011, nas manifestações dos “Indignados" contra as execuções hipotecárias, a desigualdade social, os despejos e os cortes maciços na educação e na saúde. Sua composição é principalmente urbana, embora tenha tido ganhos em áreas rurais. Sua experiência de organização de base foi importante na conquista dos votos.

O Cuidadanos começou como um partido regional de oposição à independência catalã, mas apenas ganhou amplitude nacional no ano passado.

Rajoy afirma que pretende formar um governo, mas como isso se dará ainda não ficou claro. Ambos Podemos e os Socialistas - que juntos controlam 159 assentos - explicitaram que pretendem lutar contra qualquer tentativa por parte do PP para permanecer no poder. Rajoy poderia tentar uma coalizão com o Ciudadanos, mas isso só equivaleria a 163 assentos, sendo que o governo precisa de 176 cadeiras para controlar o parlamento. Em qualquer caso, o líder do Ciudadanos, Albert Rivera, diz que não vai entrar em uma aliança com Rajoy devido a história corrupta do PP.

Existem outros membros do parlamento que representam as regiões do País Basco e da Catalunha, mas o Podemos emergiu como o partido mais forte em ambas as regiões. No entanto, não será fácil para uma aliança Socialistas/Podemos remendar juntos uma maioria, tampouco é simples navegar as políticas complicadas da Catalunha.

Catalunha, a província mais rica da Espanha, tem 17 assentos no parlamento, os quais apoiam, sem rodeios, uma maior independência ou a separação. A Catalunha se tornou parte da Espanha depois de ter sido conquistada por uma junta armada entre Espanha e França, durante a Guerra da Sucessão Espanhola (1701-1714). Tem a sua própria língua e cultura, que até recentemente eram suprimidas por Madrid. Em setembro, 47,7% dos catalães votaram em candidatos favoráveis a independência, que agora controlam o parlamento regional.

O Partido Socialista e o Podemos são ambos contrários a independência da Catalunha, embora o Podemos acredite que a questão deva ser decidida pelos catalães e apoie um referendo. O Ciudadanos é inflexível em sua oposição à independência catalã.

É possível que o governo tente forjar uma base a partir dos 159 assentos controlados pelo Podemos e pelos Socialistas junto a outras 28 cadeiras que representam os bascos, os catalães e os canários, além de outros grupos esquerdistas. Embora tal governo pareça frágil, poderia ser melhor do que tentar forjar uma aliança de três vias entre os Socialistas, o Podemos e o Ciudadanos.

O último entre os partidos supracitados se opõe à regulamentações governamentais, apoia privatizações de ativos publicos e, em sua essência, é socialmente conservador. A esquerda, por outro lado, defende um forte papel para o governo e opõe-se firmemente à privatização. E a eleição, diz o líder do Partido Socialista Pedro Sanchez, mostra que a Espanha quer "uma guinada à esquerda".

Em 13 de janeiro, o rei Felipe VI provavelmente irá oferecer a Rajoy a primeira oportunidade para formar uma base de governo. Se ele aceitar, será uma minoria de curta duração. No mês passado, o presidente português de direita nomeou um governo de direita minoritário, que durou apenas uma semana. A esquerda portuguesa está pressionando conjuntamente por uma aliança de três vias que irá governar o país.

Se Rajoy falhar e os Socialistas não puderem articular algo juntos, então terá de ocorrer novas eleições. Ainda assim, a esquerda tem a melhor oportunidade de organizar uma coalizão unida.

Aconteça o que acontecer, o antigo sistema bipartidário foi desmantelado. Antes desta eleição, os dois principais partidos controlavam entre 75% e 85% dos votos. Nesta última eleição, decairam para pouco mais de 50%. E, como diz o líder do Podemos, Pablo Iglesias, "a Espanha não será mais a mesma e estamos felizes".

A próxima dificuldade é a UE. No entanto, embora a Troika tenha martelado a Grécia, a Espanha, com a quinta maior economia da UE, é totalmente uma outra questão. O jogo está mudando e a Espanha é uma nova peça no tabuleiro, que a Troika não será capaz de intimidar tão facilmente como a Grécia ou Portugal.

Tentando destruir a Rússia desde 1949

Gary Leupp

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Em 1990, depois da queda do Muro de Berlim, o presidente dos EUA, George W. Bush, através do seu secretário de estado James Baker, prometeu ao primeiro ministro soviético Mikhail Gorbachev que, em troca da cooperação soviética para a reunificação alemã, a aliança OTAN da era da Guerra Fria não iria expandir-se “um centímetro” para o oriente em direção à Rússia. Baker disse a Gorbachev: “Se removerem as vossas [300.000] tropas [da Alemanha do Leste] e permitirem a unificação da Alemanha na OTAN, a OTAN não se expandirá um centímetro para o oriente”.

No ano seguinte, a URSS dissolveu-se oficialmente. A sua própria aliança militar defensiva (comummente conhecida como Pacto de Varsóvia) já havia sido encerrada. A Guerra Fria havia terminado.

Então, porque não foi a OTAN igualmente dissolvida mas, ao invés, implacavelmente expandida, cercando a Rússia europeia? Porque é que esta não é uma questão central em debate e discussão neste país?

OTAN: Uma aliança antirrussa da Guerra Fria

Alguns contestam a afirmação de que a promessa de Bush alguma vez tivesse sido feita, apesar de Baker a ter repetido publicamente na Rússia. Ou argumentam que nunca foi feita por escrito, daí que seja legalmente inconsequente. Ou argumentam que qualquer promessa feita à liderança da União Soviética, que deixou de existir em 1991, se tornou inaplicável às relações subsequentes entre os EUA-Rússia. Mas é claro que os EUA, no que diz respeito à liderança russa, têm tido uma postura de confronto com o seu inimigo da Guerra Fria, principalmente através da forma de expansão da NATO. Esta expansão quase não tem comentários por parte da comunicação social dos EUA, que tratam a entrada de uma nova nação na NATO basicamente como a entrada de um novo estado na ONU – como se tudo fosse natural e não problemático.

Mas relembre-se a história básica. A Organização do Tratado Atlântico Norte foi formada em 4 de abril de 1949, sendo constituída inicialmente pelos EUA, Canadá, Reino Unido, França, Itália, Holanda, Bélgica, Luxemburgo, Dinamarca, Islândia, Noruega e Portugal, como uma aliança militar contra a União Soviética e principalmente contra a República Socialista Federativa da Rússia Soviética.

Foi formada apenas quatro anos após a tomada de Berlim pelos Soviéticos, derrotando os Nazis (como sabem, a Alemanha invadiu a Rússia seis meses antes do ataque do Japão a Pearl Harbor; os EUA e a URSS eram aliados contra os fascistas; as vitórias chave na guerra europeia – Moscovo, Estalinegrado, Kursk – foram vitórias soviéticas sobre os Nazis; os soldados dos EUA apenas atravessaram o Reno a 22 de março, quando o Exército Vermelho se aproximava de Berlim, tomando a cidade entre 16 de abril e 2 de maio com um custo de cerca de 80 000 soviéticos mortos. Se não sabem estas coisas, foi-vos negada uma educação em condições).

Nos quatro anos que decorreram entre o suicídio de Hitler e a formação da NATO, os dois grandes vencedores da guerra haviam dividido a Europa em esferas de influência. A vizinhança da União Soviética contribuiu desproporcionadamente para a derrota fascista: mais de oito milhões de militares e mais de 12 milhões de civis mortos, comparados com os longínquos EUA, com perdas de cerca de 186.000 mortos no teatro Europeu e 106.000 no Pacífico.

Pode parecer estranho que o menor herói nesta instância (neste conflito histórico contra o fascismo) obtenha todos os recursos do pós-guerra: os EUA criaram um bloco que incluía a Inglaterra, França, Itália, grande parte da Alemanha, os países Baixos, Portugal, a maior parte da Escandinávia, enquanto os Soviéticos declararam hegemonia – ou tentaram – sobre os seus geralmente menos afluentes estados clientes. Mas os Soviéticos não estavam, em nenhum caso, interessados em trazer, em primeiro lugar, as nações mais ricas para o seu seio; se fosse esse o caso, não teriam retirado as suas tropas da Áustria em 1955.

Ao invés da Rússia, que tinha sido historicamente invadida muitas vezes pelo Ocidente – desde a Suécia, Lituânia, Polónia, França e Alemanha, múltiplas vezes – queria principalmente manter a segurança das suas fronteiras ocidentais. Para assegurar o estabelecimento de regimes amigáveis, organizaram eleições na Polónia, Checoslováquia, Hungria e em mais locais. (Estas tiveram aproximadamente tanta legitimidade como as eleições organizadas sob a ocupação dos EUA no Iraque ou Afeganistão, posteriormente, ou em qualquer momento na América Latina). Trouxeram à existência as “repúblicas populares” da Europa de Leste,

Os EUA e a Inglaterra queixaram-se dos avanços geopolíticos do seu aliado de guerra. Em março de 1946, o ex-primeiro ministro Churchill, enquanto visitava os EUA, referiu-se a uma “cortina de ferro” que caía sobre a Europa. (Talvez estivesse inadvertidamente a usar a expressão que Josef Goebbels tinha usado apenas treze meses antes. O ministro alemão da propaganda tinha afirmado à imprensa que “se o povo alemão baixar as armas, os Soviéticos… irão ocupar toda a Europa… uma cortina de ferro cairá sobre este enorme território...”). Muito assustador.

Mas os EUA estavam a trabalhar arduamente para consolidar o seu próprio bloco na Europa. Em maio de 1947, a CIA dos EUA forçou os governos italiano e francês a purgar os membros comunistas dos gabinetes formados após sucessos eleitorais no ano transato. (Os EUA tiveram enorme influência, comprada através dos 13 biliões de dólares do Plano Marshall, começado em abril de 1947, desenhado para revitalizar o capitalismo Europeu e diminuir o apelo marxista).

O chefe de estação da CIA em Roma gabou-se, posteriormente, de que “sem a CIA”, que fundou uma campanha de Terror Vermelho e fomentou a violência, mesmo confrontos e acontecimentos fatais, “o Partido Comunista teria seguramente ganho as eleições [italianas] em 1948”. (Alguém que pense que os Soviéticos manipulavam eleições enquanto os EUA proporcionavam eleições justas como princípio é um caso perdido de inocência).

Entretanto – antes da constituição da NATO, em abril de 1949 – os EUA e a Inglaterra tinham estado a combater numa guerra na Grécia, desde 1946, em nome dos monárquicos contra as forças lideradas pelos comunistas, que foram o pilar do movimento antifascista durante a 2ª Guerra Mundial. Os comunistas tinham um amplo apoio e poderiam perfeitamente ter ganho a guerra civil, se os soviéticos os tivessem apoiado. Mas, ao observar e ao compreender as esferas de influência acordadas em Yalta e Potsdam, Stáline recusou apelos dos comunistas gregos (e jugoslavos) à ajuda soviética. Os partidários gregos renderam-se em outubro de 1949, seis meses após a formação da NATO. (Mas a NATO de facto não esteve desligada desta intervenção militar na Grécia, vista como a primeira operação militar dos EUA da Guerra Fria sob a amplamente anticomunista “Doutrina Truman”).

Apenas um mês após a formação da NATO, os líderes pró-EUA na Alemanha ocidental anunciaram unilateralmente o estabelecimento da República Federal da Alemanha. (A República Democrática Alemã, pró-soviética, foi declarada apenas seis meses depois. Tal como na Coreia, os soviéticos promoveram a reunificação dos setores ocupados. Mas os EUA estavam decididos a estabelecer estados clientes e a dividir nações, se necessário para obstruir as estradas internas soviéticas. Este foi também o caso no Vietname).

Quatro meses após a criação da NATO, os soviéticos conduziram o seu primeiro teste nuclear com sucesso. A Guerra Fria estava lançada com determinação.

A NATO foi assim formada para confrontar agressivamente a URSS e explorar o medo de uma suposta ameaça de um ataque soviético ao ocidente (para impor o sistema social soviético contra a vontade dos povos). Esta ameaça nunca foi materializada, claro. Os soviéticos separaram Berlim Leste do ocidente através do Muro de Berlim, em 1961, para prevenir uma embaraçosa saída massiva. Mas nunca invadiram a Alemanha Ocidental ou provocaram qualquer confronto com qualquer nação da NATO, em toda a Guerra Fria. (De facto, à luz da carnificina vivida na Europa desde 1989, desde as guerras civis nos Balcãs e no Cáucaso, a ataques terroristas em Londres, Madrid e Paris e ao golpe de estado neofascista na Ucrânia no ano passado, a Guerra Fria aparenta ser, em retrospetiva, um longo período de relativa paz e prosperidade no continente).

Comparando as agressões dos EUA e da Rússia soviética, durante a Guerra Fria

A NATO expandiu-se em 1952, incorporando a agora pacificada Grécia e a sua rival histórica, a Turquia. Em 1955 trouxe para o seu seio a República Federal Alemã. Só então – em maio de 1956, sete anos após a formação da NATO – os soviéticos estabeleceram, em resposta, a sua própria aliança militar defensiva. O Tratado da Amizade, Cooperação e Assistência Mútua (Pacto de Varsóvia) incluía apenas oito nações (contra as 15 da NATO): URSS, Bulgária, Checoslováquia, Alemanha de Leste, Hungria, Polónia, Roménia e Albânia.

As forças do Pacto de Varsóvia foram apenas mobilizadas uma vez durante a Guerra Fria para esmagar o movimento reformista na Checoslováquia, em 1968. (Não foram usadas durante a supressão da “Revolução Húngara” de 1956, que ocorreu cinco meses após a fundação da aliança. Esta operação foi levada a cabo por tropas soviéticas e forças húngaras leais.) A intervenção checoslovaca resultou na saída da Albânia do pacto, enquanto a Roménia protestou contra esta e recusou contribuir com tropas. Assim, na prática, o Pacto de Varsóvia ficou com apenas seis membros contra os 15 da NATO. A aliança ocidental expandiu-se para 16, quando a Espanha se lhe juntou, em 1982.

Entre 1945 e 1991 (quando o Pacto de Varsóvia e a URSS foram dissolvidos), os EUA envolveram-se em três grandes guerras (Coreia, Vietname e Golfo Pérsico); invadiram Granada e o Panamá; intervieram militarmente na Guatemala, na República Dominicana, no Líbano, em Cuba, no Camboja, no Laos, na Nicarágua, no Haiti e noutros países.

Durante o mesmo período, os soviéticos invadiram as nações da Europa de Leste duas vezes (a Hungria em 1956 e a Checoslováquia em 1968), basicamente para manter o statu quo. Noutros locais, existiu um breve conflito fronteiriço com a China, em 1969, que matou cerca de 150 soldados de ambos os lados. E os soviéticos, claro, invadiram o Afeganistão em 1979 para acabar com o regime secular, enfrentando a oposição islâmica. E é basicamente isto. De facto, se for comparado com o recorde dos EUA, é um recorde de agressões muito irrisório para uma superpotência.

Aquela oposição islâmica no Afeganistão, como sabemos, metamorfoseou-se nos Talibãs, na al-Qaeda e no grupo fundado no Iraque pelo anteriormente rival de bin Laden, Abu Musab al-Zarqawi, agora chamado EI ou Estado Islâmico. Referido – quase com afeto – pela imprensa norte-americana dos anos 80 como os “Mujahadeen” (“aqueles que estão envolvidos na jihad”), os militantes religiosos eram à data idolatrados como guerreiros sagrados anticomunistas pelo Conselheiro para a Segurança Nacional de Jimmy Carter, Zbigniew Brzezinski. Brzezinski disse ao presidente, seis meses antes de os soviéticos enviarem tropas, que ao apoiar os jihadistas, os EUA poderiam “induzir uma intervenção militar soviética”. Os EUA, declarou, tinham “a oportunidade de darem à URSS a sua Guerra do Vietname” e poderiam agora “fazer sangrar” os soviéticos como estes tinham feito “sangrar” os EUA no Vietnã.

(Pensem um momento na moralidade, aqui. Os soviéticos ajudaram os vietnamitas a lutar contra um regime impopular, apoiado pelos EUA, e a enfrentar os horrores do assalto dos EUA ao seu próprio país. Agora – para se vingar, como Brzezinski referiu – os EUA poderiam ajudar extremistas islâmicos, cujas mentes estão na Idade Média, a “induzir” uma intervenção soviética, a fim de matar os jovens rapazes soviéticos alistados e prevenir o advento da modernidade).

Os jihadistas antissoviéticos foram recebidos na Casa Branca pelo Presidente Ronald Reagan durante uma visita, em 1985. Reagan, talvez já mostrando os sinais da doença de Alzheimer, anunciou-os como “o equivalente moral dos pais fundadores da América”. Isto acontece quando o grosso da ajuda dos EUA (CIA) aos Mujahadeen estava a ir para os cofres de Gulbuddin Hekmatyar, um senhor da guerra terrífico, agora alinhado com os Talibãs. Um dos muitos ex-ativos dos EUA (incluindo Saddam Hussein) que teve a sua queda perante o chefe, foi o alvo de pelo menos um ataque de drone falhado levado a cabo pela CIA, em 2002.

Assim, o único conflito militar soviético prolongado durante a Guerra Fria, que durou desde dezembro de 1979 até fevereiro de 1989 e custou cerca de 14.000 vidas soviéticas, foi um conflito com o que os eruditos dos EUA passaram a chamar “terrorismo islâmico”.

Os soviéticos não estavam certamente confrontados com anticomunistas ansiosos por “liberdade” como pode ser concetualizado por alguma ideologia moderna. O inimigo incluía líderes tribais clericais que se opunham a quaisquer alterações ao estatuto das raparigas e mulheres, em particular aos seus trajes, e à submissão à autoridade patriarcal em matérias como o casamento.

Os pressupostos revolucionários apoiados pelos soviéticos confrontavam-se com fanáticos religiosos ignorantes, em matérias como as necessidades médicas das mulheres, hostis à mera ideia de clínicas públicas e opositores à educação das mulheres (de facto, os soviéticos conseguiram aumentar a taxa de literacia das mulheres durante os anos 80 – um feito nunca igualado pelos novos ocupantes desde 2001 – mas isto foi principalmente devido ao facto de manterem controlo sobre Cabul, onde as mulheres podiam não apenas frequentar a escola como andar sem o lenço na cabeça).

Tais dias acabaram quando o regime soviético de Mohammad Najibullah foi derrubado pelas forças da Aliança do Norte, em abril de 1992. As coisas apenas pioraram. Rebentou imediatamente a guerra civil entre o Pastun Hekmatyar e os seus rivais Tajik, e as forças de Hekmatyar bombardearam brutalmente a capital— algo que não havia sequer acontecido durante os piores dias do período soviético.

Enquanto a guerra civil se aprofundava, emergiam os Taliban, apresentando-se como moralmente verticais, com liderança baseada na Sharia. Adquirindo uma grande base social, tomaram Cabul, em setembro de 1996. Entre os seus primeiros atos estiveram o rapto de Najibullah, que se havia refugiado no complexo da ONU na cidade, três anos antes, a sua castração e enforcamento público, negando-lhe um enterro muçulmano apropriado.

À medida que os neocolonialistas se vangloriavam do triunfo do capitalismo sobre o comunismo e do suposto “fim da história”, o monstro Frankenstein do islamismo fez reaparecer a sua horrível cabeça. Não houve quaisquer lágrimas derramadas nas capitais ocidentais por Najibullah. Mas os Taliban eram olhados com preocupação e desagrado e o assento da ONU permanecia com o ex-regime da Aliança do Norte, que controlava apenas 10% do país.

Como a Guerra Fria encorajou o “Islã Radical”

Seguramente os EUA – que fizeram as malas e saíram após a retirada soviética, deixando os paquistaneses com o problema de refugiados massivos e o Afeganistão num estado de caos – teriam feito sangrar os soviéticos e qualquer um que se atrevesse a aliar-se com eles. E seguramente esta experiência contribuiu para a realização do mais profundo desejo de Brzezinski: o colapso da União Soviética.

Mas também produziu, em grande, o terrorismo islâmico, enquanto os EUA – tendo organizado o recrutamento e treino de legiões de jihadistas de todo o mundo muçulmano para fazer sangrar os Soviéticos – foram e são agora obrigados a lidar com o revés e as suas respostas invariavelmente criam mais terror.

Não é óbvio que as ações militares dos EUA contra os seus vários alvos “terroristas” no “Grande” Médio Oriente, incluindo o Afeganistão, o Iraque, a Síria, o Iémen e a Líbia alargaram grandemente as fileiras da al-Qaeda e do EI?

E o rumo dos acontecimentos no Afeganistão – onde o governo de Cabul permanece paralisado e inepto, os senhores da guerra governam as cidades provinciais, o Supremo Tribunal condena pessoas à morte por delitos religiosos, grande parte do campo foi concedido aos Taliban e os seus militantes estão a fazer incursões no norte – não nos convence de que os EUA não deveriam ter interferido com os seus e os jihadistas contra as forças seculares soviéticas, há trinta e cinco anos?

Numa entrevista, em 1998, feita por Jeffrey St. Clair e Alexander Cockburn, foi perguntado a Brzezinski se ele se arrependia de “ter dado armas e conselhos a futuros terroristas [islâmicos].”

Brzezinski: O que é mais importante para a história do mundo? Os Taliban ou o colapso do império soviético? Alguns muçulmanos irritados ou a libertação da Europa Central e o fim da guerra fria?

P: Alguns Muçulmanos irritados? Mas foi dito e repetido: o fundamentalismo Islâmico representa hoje uma ameaça mundial.

Brzezinski: Disparate! É dito que o ocidente teve uma política global no que diz respeito ao Islão. Isso é estúpido. Não existe um Islão global. Olhem para o Islão de uma forma racional e sem demagogia ou emoção. É a religião líder no mundo com 1.5 biliões de seguidores. Mas o que existe em comum entre o fundamentalismo da Arábia Saudita, a moderação de Marrocos, o militarismo do Paquistão, o pro-ocidentalismo do Egipto ou a laicidade da Ásia Central? Nada mais do que o que une os países cristãos.

Noutras palavras, ganhando a competição com a Rússia – sangrando-a até ao colapso – foi mais importante do que qualquer risco de promoção do fundamentalismo islâmico militante. É aparente que aquela mentalidade persista quando, mesmo no mundo pós 9/11, alguns oficiais do Departamento de Estado prefeririam ver a queda de Damasco às mãos do EI do que a ser defendida pelos russos em apoio a um regime laico.

A NATO no resgate do Mundo Pós-Guerra Fria

Desde a queda da URSS e o desaparecimento do Pacto de Varsóvia, o que tem feito a NATO? Em primeiro lugar, moveu-se para preencher um vazio de poder nos Balcãs. A Jugoslávia estava a desmoronar-se. Havia sido neutra durante toda a Guerra Fria, nem membro da NATO nem membro do Pacto de Varsóvia. Enquanto caíam governos por toda a Europa de Leste, membros secessionistas nas repúblicas multiétnicas produziram conflitos generalizados. O Secretário de Estado dos EUA, Baker, preocupou-se que a queda da Jugoslávia pudesse produzir instabilidade regional e opôs-se à independência da Eslovénia.

Mas o Ministro dos Negócios Estrangeiros Alemão, Hans-Dietrich Genscher e o Chanceler Helmut Kohl – rejubilando de orgulho com a reunificação da Alemanha e pretendendo ter um papel mais poderoso no mundo – pressionaram o desmantelamento da Jugoslávia. (Existia um profundo interesse histórico alemão neste país. A Alemanha Nazi havia ocupado a Eslovénia de 1941 a 1945, estabelecendo uma forte Guarda Doméstica Eslovena de 21000 membros e fazendo negócios. A Alemanha é agora, de longe, o primeiro parceiro comercial da Eslovénia.) A linha de Kohl ganhou.

A Jugoslávia, que tinha sido um modelo de harmonia interétnica, ficou retalhada por conflitos étnicos, nos anos 90. Na Croácia, os croatas lutaram contra os sérvios, apoiados pelo Exército Popular Jugoslavo; na Bósnia-Herzegovina, os bósnios, croatas e sérvios lutaram por causa da divisão da terra. Na própria Sérvia, a retirada da autonomia das províncias do Kosovo e Vojvodina desencadeou raiva entre os albaneses. Em 1995, imagens de homens e rapazes bósnios macilentos em campos de detenção sérvios foram amplamente publicitados na imprensa mundial, enquanto Bill Clinton resolveu não deixar Ruanda (leia-se: genocídio) acontecer de novo. Não sob a sua vista. A América iria resolver o problema.

Ou melhor: a NATO iria resolver o problema! Longe de ser menos relevante após a Guerra Fria, a NATO, afirmou Clinton, era a única força internacional capaz de lidar com este tipo de desafio. E assim, a NATO bombardeou e bombardeou – mesmo pela primeira vez, numa guerra real – até os sérvios bósnios pedirem misericórdia. A presente configuração da Bósnia-Herzegovina, uma federação disfuncional que inclui uma minirrepública sérvia, foi imposta pelo Secretário de Estado dos EUA, Warren Christopher, e o seu vice Richard Holbrooke na reunião em Dayton, Ohio, em novembro de 1995.

A Rússia, a tradicional aliada dos sérvios, foi obrigada a assistir passivamente, enquanto os EUA e a NATO remapeavam a ex-Jugoslávia. A própria Rússia estava sob o governo do palhaço bêbado Boris Yeltsin, uma confusão total. A economia estava a afundar-se; o desespero prevalecia; a longevidade masculina caía a pique. A nova política era tudo menos estável. Durante a “Crise Constitucional” de setembro-outubro de 1993, o presidente ordenou mesmo que o exército bombardeasse o edifício do parlamento para forçar os legisladores a acatar o seu decreto para a dissolução. Na mão de oligarcas corruptos e do capitalismo selvagem do Ocidente, os russos estavam desiludidos e desmoralizados.

Depois vieram mais insultos do ocidente. Durante o último ano de Yeltsin, em março de 1999, os EUA deram as boas vindas a mais três nações: Checoslováquia (mais tarde República Checa e Eslováquia), Hungria e Polónia. Estes eram os países mais fortes do Pacto de Varsóvia, além da URSS e da Alemanha de Leste. Esta foi a primeira expansão da NATO desde 1982 (quando a Espanha se lhe juntou) e preocupou, compreensivelmente, o Kremlin. Qual a possível razão para expandir agora a NATO? perguntaram os Russos, apenas para assegurar que a NATO não estava contra ninguém.

O Senado tinha votado para alargar a adesão à Polónia, Hungria e Checoslováquia, em 1998. Nessa altura, foi pedido a George Kennan – o famoso diplomata dos EUA que desenvolveu a estratégia da guerra fria de contenção da União Soviética – que comentasse.

“Penso que é o início de uma nova guerra fria” declarou Kennan, de 94 anos. “Penso que os Russos irão gradualmente reagir de forma bastante adversa e tal irá afetar as suas políticas. Penso que é um erro trágico. Não existe qualquer razão para isto… Isto demonstra muito pouca compreensão da história russa e da história soviética. Claro que irá existir uma má reação da Rússia e depois [a expansão da NATO advoga-o] dirão que sempre disseram que é assim que são os russos – mas isto é simplesmente errado”.

NATO versus Sérvia

Nesse mesmo mês de março de 1999, a NATO (incluindo os seus três novos membros) começou a bombardear a capital Sérvia de Belgrado – a primeira vez, desde a II Guerra Mundial, que uma capital europeia foi sujeita a um bombardeamento. A razão oficial foi a de que as forças estatais sérvias tinham vindo a abusar dos albaneses na província do Kosovo; a diplomacia havia falhado e a intervenção da NATO era necessária para corrigir as coisas. Este arrazoado foi acompanhado por relatórios largamente exagerados sobre as mortes pelas forças de segurança sérvias de kosovares, supostamente atingindo o “genocídio”.

Isto era principalmente um absurdo. Os EUA exigiram, na conferência em Rambouillet, França, que a Sérvia retirasse as suas forças do Kosovo e restaurasse a autonomia da província. O presidente sérvio, Slobodan Milosevic, concordou. Mas os EUA exigiram ainda que Belgrado aceitasse as forças da NATO em todo o território da Jugoslávia – algo que nenhum líder de um estado soberano poderia aceitar. Belgrado recusou, apoiado pela Rússia.

Um “oficial sénior do Departamento de Estado” (provavelmente a Secretária de Estado dos EUA, Madeleine Allbright) vangloriou-se junto dos jornalistas que, em Rambouillet, “nós, intencionalmente, colocámos a fasquia demasiado alta para que os sérvios a pudessem aceitar… Os sérvios precisavam de um pequeno bombardeamento para verem a razão”. Henry Kissinger (que não é um amante da paz) disse à imprensa, em junho: “O texto de Rambouillet, que apelou à Sérvia para admitir as tropas da NATO em toda a Jugoslávia, foi uma provocação, uma desculpa para começar a bombardear. Rambouillet não é um documento que um sérvio angélico pudesse aceitar. Foi um documento diplomático terrível que nunca deveria ter sido apresentado daquela forma”.

Os EUA obtiveram a aprovação da ONU para os ataques da NATO na Bósnia-Herzegovina, quatro anos antes. Mas desta vez não a procuraram nem tentaram organizar uma força da ONU para lidar com o problema do Kosovo. Com efeito, insistiram que a NATO fosse reconhecida como a representante da “comunidade internacional”.

Foi revoltante. Ainda assim, a opinião pública dos EUA foi amplamente persuadida a pensar que os sérvios falharam em negociar a paz de boa-fé e, como tal, mereceram o bombardeamento, apoiado pela imprensa, particularmente pela “correspondente internacional sénior” da CNN, Christiane Amanpour, uma fonte interna do Departamento de Estado, que continuamente transmitiu aos seus espetadores que “Milosevic continua a estar-se nas tintas para a comunidade internacional” – porque este recusou um ultimato intimidatório da NATO que, mesmo Kissinger, identificou como uma provocação!

Depois do massacre massivo dos kosovares se ter tornado uma realidade (uma vez que as bombas da NATO começaram a cair no Kosovo), e depois de dois meses e meio de bombardeamentos focados em Belgrado, um acordo mediado pela Rússia pôs um fim ao conflito. Belgrado evitou a ocupação da NATO que anteriormente recusou. (por outras palavras, a NATO não conseguiu nada que os sérvios não tivessem já concedido em Rambouillet!).

Assim que o cessar-fogo entrou em vigor, a 21 de junho, uma coluna de cerca de 30 veículos blindados, transportando 250 tropas Russas deslocaram-se dos deveres de manutenção de paz na Bósnia para estabelecer o controlo sobre o aeroporto de Pristina, no Kosovo. (Apenas uma pequena recordação de que também a Rússia tinha um papel a desempenhar na região.)

Isto apanhou de surpresa o comandante americano da NATO, Wesley Clark. Ordenou que os paraquedistas britânicos e franceses fossem transportados para cercar o aeroporto, mas o general britânico Sir Mike Jackson, prudentemente, recusou. “Não farei com que os meus soldados iniciem a III Guerra Mundial”, afirmou.

Penso que provavelmente este gesto dramático de último minuto no aeroporto foi pressionado pelo emergente Vladimir Putin, conselheiro de Yeltsin, que foi brevemente nomeado vice-presidente e, posteriormente, o sucessor de Yeltsin, desde dezembro de 1999. Putin veio a demonstrar-se um oponente muito mais veemente da expansão da NATO do que o seu embaraçoso predecessor.

Cooperação junta-se a provocação

Ainda assim, relembre-se como, dois anos depois – depois de 9/11, quando os EUA, invocando a carta da NATO, apelaram aos seus aliados da NATO para que se envolvessem na guerra no Afeganistão – Putin se ofereceu para permitir que a aliança transportasse material de guerra para o Afeganistão através de território russo. (Em 2012, o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Lavrov, ofereceu à NATO o uso da base em Ulyanovsk para transportar equipamento para fora do Afeganistão.) Esta invasão do Afeganistão foi apenas o terceiro destacamento de forças da NATO para a guerra, após a Bósnia e a Sérvia, e Moscovo aceitou-o como facto consumado. Até silenciou as suas preocupações quando os EUA estabeleceram bases militares nas ex-Repúblicas Soviéticas Centrais do Uzbequistão e da Quirguízia.

Mas em 2004, a NATO expandiu-se novamente – para incluir a Estónia, a Letónia e a Lituânia, que fizeram parte da URSS e faziam fronteira com a Rússia. Ao mesmo tempo, a Bulgária, a Roménia e a Eslovénia foram admitidas, juntamente com a Eslováquia, que havia sido separada da República Checa. Os russos perguntaram novamente, “Porquê?”.

Em 2007, os EUA começaram a negociar com os polacos para instalar um complexo de defesa de mísseis na Polónia, com um sistema de radar na República Checa. Supostamente, seria para abater quaisquer mísseis iranianos dirigidos à Europa, no futuro! Mas Moscovo estava furioso, acusando os EUA de quererem lançar uma outra corrida às armas. Essencialmente graças ao sentimento antimilitarista entre os polacos e os checos, estes planos foram arquivados em 2009. Mas podem ser reavivados a qualquer momento.

Então, em 2008, os EUA reconheceram a sua dependência Kosovo, que agora acolhe a maior base militar dos EUA (Campo Bondsteel) fora do seu território, como um país independente. Apesar de os EUA terem insistido até este momento que reconheciam o Kosovo como uma província da Sérvia (e talvez compreendendo o seu profundo significado como o coração da Ortodoxia Sérvia), agora proclamavam (através de Condoleezza Rice) o Kosovo como um fenómeno “sui generis” (especial). Esqueçam então o direito internacional; simplesmente não se aplica.

Neste mesmo ano de 2008, a NATO anunciou corajosamente que a Geórgia e a Ucrânia “iriam ser membros da NATO”. Isto após o cómico presidente da Geórgia, Mikheil Saakasvili ter bombardeado Tskhinvali, capital da autoproclamada República da Ossétia do Sul, que resistiu à integração na atual República da Geórgia desde o desmembramento da União Soviética, em 1991. Nesta situação, a Rússia defendeu a Ossétia do Sul, invadindo a Geórgia. Reconheceu então a independência da Ossétia do Sul e da República de Abkhazia, na Geórgia. (Isto pode ser visto como uma retaliação face à decisão dos EUA de reconhecimento da independência do Kosovo em relação à Sérvia, seis meses antes).

Foi uma guerra de seis dias, que resultou em cerca de 280 militares mortos (incluindo 100 do lado da Ossétia do Sul-Rússia) e cerca de 400 mortes civis. E nunca mais houve qualquer guerra russa. A Crimeia não foi “invadida” no ano passado, mas apenas cercada pelas forças russas no local, com apoio popular generalizado. E não existem provas de que o exército russo esteja a confrontar as forças estatais ucranianas; etnias russas estão a fazê-lo, recebendo sem dúvida apoio dos primos ao largo da fronteira historicamente instável. Mas a história de uma “invasão russa da Ucrânia” é uma invenção do Departamento de Estado – propaganda automaticamente papagueada pelas marionetas eruditas da imprensa oficial, não uma realidade contemporânea.

Saakasvili, líder da Geórgia, talvez esperasse que os EUA o apoiassem quando provocou Moscovo, em 2008. Mas enquanto recebeu apoio firme do Senador John McCain, que declarou “Agora somos todos Georgianos”, recebeu pouca ajuda do Departamento de Estado de George W. Bush, receoso de provocar a III Guerra Mundial. A Geórgia ainda não era um membro da NATO apto para citar a cláusula de defesa mútua da Carta da NATO.

Saakasvili abandonou o gabinete em 2010 e está agora sob acusação dos tribunais georgianos, por abuso de poder. Após uma breve estadia na Escola Fletcher de Direito Internacional e Diplomacia, em 2014, adquiriu nacionalidade ucraniana – perdendo consequentemente a sua nacionalidade georgiana – e (como um dos muitos exemplos de insanidade da atual liderança de Kiev, incluindo Yatsenyev e Poroshenko) foi nomeado governador de Odessa, em maio passado!

Atendendo ao desastre de 2008, países como a Alemanha muito dificilmente aceitarão a admissão da Geórgia, a curto prazo. Não veem grandes benefícios na provocação da Rússia, através da infinita expansão da aliança “defensiva” da Guerra Fria. Ainda assim, a Croácia e a Albânia aderiram à NATO em 2009, no primeiro ano da administração Obama – mesmo a tempo de participar na quarta guerra da NATO, contra a Líbia.

Mais uma vez, não existia qualquer motivo para a guerra. O Coronel Gadhafy tinha sido consistentemente cordial com os regimes ocidentais desde 2003 e cooperou proximamente com a CIA, contra o terrorismo islâmico. Mas quando a “Primavera Árabe” varreu a região, em 2011, alguns líderes ocidentais (encabeçados pelo presidente francês Nicolas Sarkozy, mas incluindo a sempre beligerante Hillary Clinton) convenceram-se de que a queda de Gadhafy era iminente e seria melhor apoiar a oposição na sua deposição e assim cair nas boas granças de quaisquer sucessores.

O Conselho de Segurança da ONU aprovou uma resolução para estabelecer uma zona interdita a voos, para proteção dos civis das supostas tropas genocidas de Gadhafy. Mas o que a NATO lançou foi bastante diferente: uma guerra a Gadhafy, que levou ao seu assassínio brutal e a um caos horrível, que tem reinado desde então na Líbia, agora uma base confiável para a al-Qaeda e o EI. A Rússia e a China protestaram, com a guerra ainda em curso, afirmando que os EUA haviam distorcido o significado da resolução da ONU. É improvável que os dois membros permanentes do Conselho de Segurança sejam enganados novamente numa tal cooperação.

Podemos, assim, somar o estado falhado da Líbia aos estados disfuncionais da Bósnia-Herzegovina, Kosovo e Afeganistão à nossa lista das conquistas da NATO, desde 1991. Para resumir: desde o colapso da URSS, os EUA e alguns aliados (normalmente na sua qualidade de aliados na NATO) iniciaram guerras contra os sérvios bósnios, a Sérvia, o Afeganistão, o Iraque e a Líbia, enquanto atacavam alvos no Paquistão, Iémen, Somália e noutros locais, com impunidade. A Rússia entrou em guerra precisamente uma vez: durante oito dias, em agosto de 2008, contra a Geórgia.

E, mesmo assim, cada comentador de notícias nos canais de TV dominantes diz nas nossas caras que Putin é quem “invade países”.

Qual é o objetivo da expansão da NATO?

Assim, enquanto a NATO expandiu os seus membros, mostrou uma grande propensão para ir para a guerra, desde a Ásia Central à África do Norte. Pode-se questionar: qual é o objetivo?

O ponto putativo, em 1949, era a defesa da “Europa Ocidental” contra uma suposta invasão soviética. Esta lógica ainda é utilizada; quando os apoiantes da NATO falam a favor da inclusão da Lituânia, por exemplo, podem afirmar isto, se a Lituânia tivesse ficado fora da aliança – os russos seguramente já a teriam invadido sob o pretexto de defender os direitos das etnias russas, etc.

Existem, efetivamente, poucas provas das ambições russas, ou mesmo das ambições de Putin, de recriar um império czarista ou uma União Soviética. (Putin queixou-se há alguns dias, “Não queremos a URSS de volta, mas ninguém acredita em nós”. Também opinou que as pessoas que não têm quaisquer saudades da União Soviética – como dizem que é expresso por muitos dos cidadãos da ex-URSS, suficientemente novos para se lembrarem – não têm coração, enquanto que aqueles que a querem restaurar não têm cérebro).

Enquanto a NATO se expandia inexoravelmente entre 1999 e 2009, a Rússia respondeu não com ameaças mas com calma indignação.

As observações de Putin sobre a dissolução da União Soviética como sendo uma “tragédia geopolítica” e as suas palavras ocasionais dirigidas à língua e outros direitos dos Russos nas ex-repúblicas soviéticas não constituem ameaças militares. Como sempre, os neocolonialistas escolhem uma frase aqui e ali enquanto tentam caricaturar Putin como (um) “outro Hitler”. De facto, os russos têm sido as vozes da razão em anos recentes; alarmados com as consequências das ações dos EUA no Médio Oriente, conseguiram travar o imperialismo dos EUA, enquanto desafiam o terrorismo islâmico.

Em agosto de 2013, Obama ameaçou atacar a Síria para punir ostensivamente o regime pela utilização de armas químicas contra o seu povo. (A acusação original foi desacreditada por Seymour Hersh, entre outros). Uma intervenção hábil do Ministro dos Negócios Estrangeiros Russo, Sergey Lavrov, e a recusa da Casa dos Comuns Britânica no apoio ao ataque (assegurando que não iria, como na Guerra do Iraque, ter o apoio geral da NATO) e a oposição doméstica, tudo ajudou a evitar outra guerra dos EUA no Médio Oriente.

Mas é como se falcões no Departamento de Estado – ressentidos com o êxito da Rússia na proteção do seu aliado sírio do destino de Gadhafy e chateados com a sua capacidade contínua para manter unidades aéreas e navais na costa Síria – redobrassem os seus esforços para provocar a Rússia. Que forma melhor para o fazer do que interferir na Ucrânia, que não só foi parte da União Soviética, mas também do estado russo desde 1654 e, de facto, o centro nevrálgico do Kievan Rus1, no século X?

A NATO tem namorado a Ucrânia desde 1994 – cinco anos antes da aliança se expandir para incluir a Polónia, Hungria e Checoslováquia. Kiev assinou a filiação no Plano de Ação da NATO, em 2008, quando Viktor Yushchenko era presidente, mas tal foi parado quando Viktor Yanukovych foi eleito, em 2010. Com o sólido apoio do leste russo, Yanukovich ganhou aquilo que os observadores internacionais chamam de eleição justa e livre.

Yanukovich não queria que a Ucrânia aderisse à NATO: queria uma Ucrânia neutra, que mantivesse a tradicional relação próxima entre a Ucrânia e a Rússia. Isto enfureceu Victoria Nuland, chefe do gabinete da Eurásia no Departamento de Estado, que tomou como sua missão de vida a filiação da Ucrânia na NATO. Este seria o prémio último na Europa de leste: um país de 44 milhões de pessoas educadas, o tamanho da França, estrategicamente localizado no Mar Negro, historicamente dominado pela Frota Russa do Mar Negro. Um país etnicamente dividido, com um este pró-russo e de língua russa e um oeste mais ocidentalizado e de língua ucraniana, com um pouco usual movimento neofascista vigoroso e fortemente antirrusso – apenas à espera de ser usado.

Nuland, uma ex-assessora de Cheney, cuja visão neocolonialista despertou a atenção favorável de Hillary Clinton, resultando na sua promoção, é a mulher do comentador neocolonialista e apoiante da guerra no Iraque, Robert Kagan. (Kagan foi um membro fundador do famoso grupo de reflexão Projeto para um Novo Século Americano). O casal representa duas alas de uma conspiração neocolonialista incessante: aqueles que trabalham para destruir a Rússia e aqueles que trabalham para destruir o Médio Oriente, usando conscientemente mentiras para confundir as massas sobre os seus verdadeiros objetivos.

No Clube Nacional de Imprensa, em 2013, Nuland gabou-se de que os EUA (através de algumas “ONG”, tais como a National Endowment for Democracy) gastaram 5 biliões de dólares na Ucrânia, para apoiar as suas “aspirações europeias”. Esta formulação deliberadamente vaga refere-se supostamente à admissão de Kiev na União Europeia. O caso que os EUA construíram contra Yanukovich não foi o de que este recusou a adesão à NATO; tal nunca foi mencionado. O caso foi construído com base na suposta traição de Yanukovich às aspirações pró-UE do seu povo, tendo inicialmente aceitado e depois rejeitado um acordo de associação com o bloco de comércio, receando que significasse um regime de austeridade de estilo Grego, imposto ao país pelo exterior.

Desde novembro de 2013 que multidões se juntaram na Maidan, em Kiev, para protestar (entre outras coisas) contra a mudança de opinião de Yanukovich sobre a adesão à UE. O Departamento de Estado abraçou a sua causa. Pode questionar-se porquê, uma vez que a UE é um bloco de comércio concorrente; os EUA não deveriam estar tão interessados na promoção da adesão de qualquer país. Que diferença faz a qualquer um de nós que a Ucrânia tenha laços económicos mais próximos com a Rússia do que com a UE?

O segredo obscuro aqui é que o objetivo dos EUA apenas foi o da utilização da causa da “adesão à Europa” para aproximar a Ucrânia da NATO, o que poderia ser visto como o próximo passo natural no realinhamento geopolítico da Ucrânia.

Nuland e a sua equipa – incluído o ubíquo John McCain, que apareceu na Maidan a distribuir bolachas e a encorajar a multidão a depor o presidente –, basearam-se no desprezo popular por Yanukovich, pela sua corrupção, mas também no trabalho com políticos conhecidos por favorecer a admissão na NATO e a expulsão das forças navais russas da base Crimeia, que detinham desde 1780, incluindo as forças neofascistas que odeiam a Rússia, mas também desprezam a UE.

Isto resultou, claro. A 22 de fevereiro, a um dia de assinar um acordo mediado pela Europa para reformas governamentais e uma nova eleição, a situação descontrolou-se e Yanukovich foi forçado a fugir para sobreviver. As forças neofascistas do Svoboda e o Setor de Direita serviam como tropas de derrube do regime. As manobras maquiavélicas de Nuland triunfaram; um neoconservador judeu instou antissemitas confessos a derrubar um regime e a implementar um regime pró-NATO no seu lugar.

Quase pareceu que, após 14 anos de expansão, a NATO iria brevemente dar as boas vindas a um novo grande membro nas suas fileiras, completar o cerco à Rússia e expulsar a frota russa, transformando o Mar Negro num lago da NATO.

Enfim, os neoconservadores e “intervencionistas liberais” – o novo regime dos escolhidos de Nuland, Arseniy Yatsenyuk e os seus aliados do partido Svoboda – imediatamente alienaram a população de leste que fala russo, que continua armada tornando o país ingovernável, mesmo enquanto a economia colapsa; e a noção de expulsar os russos de Sevastopol tornou-se inimaginável.

Mas o que querem os planeadores da NATO? Para onde está a levar toda a imprudente expansão e provocação?

Rússia: uma “Ameaça Existencial”?

Em primeiro lugar, a NATO advoga – por mais que repitam que “Não estamos contra a Rússia, isto não é sobre a Rússia” –, de facto postula efetivamente uma ameaça duradoura à Rússia. Assim, o General Sir Adrian Bradshaw, o mais antigo oficial britânico na NATO, afirmou em fevereiro último que a Rússia representa “uma óbvia ameaça existencial ao nosso ser”. O General Joseph Votel, chefe do Comando das Operações Especiais disse no Fórum de Segurança em Aspen, em julho, que a “Rússia pode representar uma ameaça existencial aos Estados Unidos”.

O Presidente da Comissão de Serviços Armados da Câmara dos EUA, Mac Thornberry (R-Texas) avisou Obama para assinar uma lei de apropriações militares porque a Rússia representa “uma ameaça existencial” ao filantropo americano George Soros (que gosta de financiar “revoluções coloridas”) escreveu na New York review of Books, em outubro, que “a Europa está perante um desafio da Rússia à sua própria existência”.

Estas são palavras selvagens e estúpidas vindas de figures colocadas em locais cimeiros. Não é óbvio que é a Rússia que está a ser cercada, pressionada e ameaçada? Que o seu orçamento militar é uma fração do orçamento militar dos EUA, que a sua presença militar global é minúscula, quando comparada com a pegada dos EUA?

Mas quem quer que veja os debates dos candidatos presidenciais dos EUA – e que se aperceba da prevalência da paranoia sobre a Rússia, a aceitação irrefletida do tema de “Putin como Hitler” e a expressão obrigatória de tornar a América mais “forte” – pode entender porque é que a expansão da NATO é tão horrivelmente perigosa.

As pessoas que não pensem racionalmente, ou cujas mentes estejam distorcidas pela arrogância, podem olhar para os mapas da expansão da NATO e pensar com orgulho “Isto é como deve ser! Porque é que alguém questionará a necessidade das nações se protegerem através da aliança com os Estados Unidos? São alianças como a NATO que preservam a paz e a estabilidade no mundo”.

(Alguns podem acreditar nisso, talvez, mas o facto é que o mundo está menos pacificado e muito menos estável do que durante a Guerra Fria, quando os dois superpoderes controlavam os movimentos um do outro. A partir de então, os EUA emergiram como aquilo que um diplomata francês chamou de “hyper-puissance” ou híper-poder, intervindo impunemente em múltiplos países e produzindo novas e frequentemente feias formas de resistência).

As pessoas que olhem para o mapa da NATO da Europa podem também colorir mentalmente Montenegro. Uma pequena república no Adriático, com menos de 650.000 pessoas, foi formalmente convidada pela NATO para submeter o seu pedido de filiação, em 2 de dezembro. Que outros países terão ainda de assinar?

Como afirmado, em 2008, a NATO anunciou que a Geórgia e a Ucrânia iriam juntar-se. Mas os seus casos, aparentemente, estão em espera. A Bielorrússia, localizada entre a Polónia e a Rússia, está sob o autodenominado “autoritário” Presidente Alexander Lukashenko, desde 1994. O regime, considerado próximo de Moscovo, foi alvo de uma “revolução colorida” abortada, financiada pelos EUA, em março de 2006. Os EUA favoreceram Mikhail Marynich, um ex-embaixador na Letónia e proponente da filiação na NATO. (Participou numa conferência privada da NATO em Riga, em novembro de 2006, chamada “Guerra e Paz”).

Existe ainda a Moldávia, a ex-república Socialista Soviética Moldava, localizada entre a Roménia e a Ucrânia. A leste está a república separatista da Transnístria, onde os a etnia moldava é uma minoria e os russos e ucranianos representam cerca de 60% da população. É uma zona de “conflito congelado”. O sonho neoconservador é o de alterar todos os seus regimes e levá-los ao quente abraço da NATO.

Um anel para todos governar, um anel para os encontrar
Um anel para todos trazer e na escuridão os amarrar
Na Terra de Mordor, onde jazem as sombras

O que fazer após completar o cerco ocidental da Rússia? Ora, destabiliza-se o próprio país, esperando desmembrá-lo! A Rússia permanece uma nação multiétnica e multicultural. Existem tensões e movimentos secessionistas para explorar, particularmente no Cáucaso, mas também na Península Careliana e na Sibéria.

Se a Rússia é uma ameaça existencial, a sua própria existência é uma ameaça, certo? Então, porque não cortá-la?

Não exige a lógica expansionista da NATO um inimigo e não é a América que lidera o mundo na derrota dos inimigos?

Ou se não, não é a própria NATO a ameaça real? (Afinal, não foi esta, no seu último grande projeto, que destruiu completamente o estado moderno da Líbia e, em consequência, desestabilizou o Mali?).

Não deveríamos nós dar as boas vindas às tensões dentro da NATO e às falhas dos estados membros em entregarem os 2% do PIB exigidos para despesas militares? Não deveríamos nós dar as boas vindas à resistência a mais expansão, às queixas sobre as pressões dos EUA e aos pedidos de cooperação com a Rússia, ao invés do confronto e da destruição?