30 de janeiro de 2015

Grécia, Estados Unidos e golpe neoliberal

Somos todos gregos agora

Rob Urie

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Desde os primeiros momentos da calamidade econômica que desabou sobre o ocidente em 2007, a resposta “oficial” sempre foi apresentada como sucessos modestos, com alguns poucos erros políticos. A realidade é outra: o que se tem é uma elite distante e seus agentes dedicados a aplicar políticas punitivas sob o disfarce de limitações econômicas materiais. Nesse contexto, a eleição de Alexis Tsipras e da coalizão “Syriza” na Grécia parece ser uma virada radical à esquerda, enquanto as propostas econômicas realmente apresentadas e que estão sendo discutidas não passam de ideias de economia de manual de meio-de-percurso que precederam o golpe neoliberal da década de 1970 nos EUA. E embora o Primeiro-Ministro Tsipras entenda muito mais dessa economia e de estratégias de decisão econômica que os líderes da União Europeia e dos EUA, as alavancas do poder permanecem presas firmemente em mãos desses líderes que lideram para o desencaminhamento.

Dito de outro modo, o sofrimento econômico de tantos é gratuita, violenta predação econômica executada sob o falso pretexto de inexistentes pressões materiais. Como no caso da Argentina, no início da década de 2000, a Grécia tinha uma “cleptocracia” nativa, ou “interna”, ligada em uma aliança “externa” a banqueiros internacionais, mediante mecanismos econômicos para promover o endividamento do país. O governo dos EUA poderia, se quisesse, ter expulsado os fundos “cheios de vento”, para gerar empregos para os americanos desempregados, mas escolheu não o fazer. No caso da Grécia, essa solução potencial é impossível, porque a Grécia é membro da União Europeia, sob condições que impedem esse procedimento. Foi em larga medida o que se viu no “alívio” das hipotecas, com os programas do Federal Reserve para comprar patrimônio nos EUA. Mas empréstimos subsequentes dos europeus aos gregos só ajudaram a reconstruir os cofres dos banqueiros europeus montados às costas do povo grego.

Gráfico (1) acima: em dezembro, 2014, estima-se que haja mais de 6 milhões de trabalhadores potenciais nos EUA, gente que quer trabalhar mas desistiu de procurar por causa do mercado de trabalho completamente adverso. O Economic Policy Institute (EPI) comparou estimativas de crescimento do mercado de trabalho e o crescimento real, e descobriu esses 6 milhões de trabalhadores. Porque esse método já levava em conta os aposentados previstos e outros que se previa que deixassem o mercado de trabalho, resta a economia, para explicar o altíssimo número de desempregados. Como FDR mostrou com os programas de trabalho do New Deal nos anos 1930s, o governo dos EUA pode criar empregos para os norte-americanos, se desejasse fazê-lo. Muito semelhante ao que se constata no modo como a elite alemã vê o povo grego, a elite norte-americana também pressupõe que os desempregados estejam desempregados por falta de motivação e empenho para encontrar trabalho. Fonte: EPI.

A ascensão da coligação Syriza na Grécia é desenvolvimento bem-vindo, se o Sr. Tsipras e seu governo compreenderem bem contra o que estão lutando, e agirem adequadamente. Seja sincero ou apenas tático-eleitoral o compromisso de não se retirar da União Europeia, fato é que as regras da UE proíbem inúmeras ações na economia grega, mesmo que sejam de simples organização interna da economia nacional. Reorganização da economia grega, pôr rédeas na cleptocracia e fazer os cleptocratas pagarem, usando esse dinheiro para melhoramentos sociais, é ideia que colide cabeça com cabeça contra as políticas de exploração máxima que a troika vive de infligir à Grécia. O que os liberais ocidentais chamam de “austeridade”, pode também ser interpretado pela experiência do último meio século de políticas de austeridade que o Fundo Monetário Internacional, FMI, impôs em vários pontos do mundo, para assegurar que os bancos sejam pagos, não importa a catástrofe social que resulte.

Essa longa história serve como contexto às políticas infligidas à Grécia. O “modelo” americano na América do Sul e na América Central era/é para instalar no poder, nos vários países, déspotas “pró-business”, cleptocratas nativos apoiados pela CIA, para que saqueiem “por dentro” os próprios países, ao mesmo tempo em que mantêm a boa ordem favorável aos interesses das empresas norte-americanas. Dito “esquerdista”, mas sempre eficaz ferramenta neoliberal, o presidente Carlos Menem levou a Argentina ao fundo do poço da crise argentina no início da década de 2000. A pedido do FMI, Menem implementou políticas de "austeridade" que levaram ao colapso da economia argentina e, na sequência, levaram ao colapso também de dois governos argentinos. Só quando o povo argentino rebelou-se e recusou a “austeridade” imposta pelo FMI é que foi que a resolução econômica foi possível.

Assim também, o FMI teve participação ativa em grande parte da ruína econômica do leste da Ásia e da Rússia na década de 1990, com políticas ditas de “desenvolvimento” baseadas em dogmas neoliberais apoiados em políticas de “austeridade” - quando as coisas inevitavelmente deram errado. Embora houvesse, sem dúvida, muitos verdadeiros crentes entre os banqueiros que promoveram então o programa neoliberal, assim como também os há no Banco Central Europeu hoje, as políticas que de fato estavam sendo implantadas eram projetos de banqueiros, que só interessavam a banqueiros, programas de repagamento que bancos aplicam a devedores delinquentes sem qualquer atenção às implicações nas políticas públicas. Equivale a dizer que as teorias econômicas apresentadas como de apoio às políticas do FMI quase sempre eram “teóricas”, e exigiam que os países deixassem de considerar vários séculos de história imperial; e nunca se basearam em exame fundamentado dos “fatos”.

Na Argentina no início da década de 2000 praticamente não havia qualquer dúvida sobre os interesses aos quais o FMI servia. A dívida “pública” que o FMI exigia que fosse saldada era na origem dívida privada, que foi socializada, riscos bancários e empresariais em geral convertidos em “deveres” e “dívidas” e “obrigações” que passaram a pesar sobre todo o povo argentino, não muito diferente dos trilhões em “valores” e depósitos bancários que os governos de George W. Bush e Obama desviaram de agências do governo federal dos EUA para salvar Wall Street em 2008. Essa “conversão” de dívidas privadas em dívidas públicas é um componente que nunca falta nos “planos” neoliberais. E a “privatização” de “bens” gregos que agora a coligação Syriza repudia, foi o mecanismo usado para saquear a Argentina pela mesma cleptocracia internacional, como política chave do FMI. Tudo isso para sugerir que os programas de austeridade que a troika quer aplicar à Grécia pouco têm a ver com economia teórica e tudo têm a ver com as ambições imperiais do ocidente. As políticas podem parecer “lógicas”, como teoria econômica, mas é uma “lógica” que emergiu de vários séculos de prática imperial.

Outro modo de ver as questões é perguntar onde o banco central dos EUA, o Federal Reserve, descobriu os US$ 4 trilhões para comprar ativos financeiros nos seus programas de Quantitative Easing (QE)? O dinheiro apareceu “do ar”, mediante algumas entradas digitais contra os bens comprados. O Banco Central Europeu também se serve desse “Fiat moeda”; fabrica dinheiro à vontade. Se falta dinheiro para fechar o balanço nos livros do Banco Central, qualquer valor nominal, tipo a moeda de um trilhão de dólares que está sendo proposta há algum tempo nos EUA cairá perfeita, como vinda do céu. A questão é que o Banco Central Europeu pode resolver tecnicamente - embora politicamente não possa fazê-lo - a dívida pública grega, com algumas simples teclas. Mas o caso é que a troika está usando a dívida como porrete político e econômico contra a Grécia, mais ou menos como aconteceu na Argentina na década de 2000 e está acontecendo atualmente no caso dos EUA. O “déficit” de orçamento que está sendo usado para vender “austeridade” é uma ficção. Não é que a contabilidade não seja “real”; é que aquela contabilidade representa mal o modo como os gastos do governo são realmente financiados, e é apresentada de modo deformado, para atender a interesses de grupos políticos no poder.

Gráfico (2) acima: assim como fatos imperiais são expostos por economistas e cientistas políticos como disputas entre teorias, como “escolhas políticas boas” versus “escolhas erradas”, também se expõe como se fosse “coincidência” que políticas fiscais que beneficiariam as classes pobres e médias seriam “impossíveis” por causa de limitações de orçamento... MAS o Fed “encontrar” US$ 4,5 trilhões de dólares para comprar papéis e beneficiar os mais ricos é possível. Em décadas recentes, os ganhos de capital pelo aumento do preço de venda de bens por cortesia do Fed encaminharam-se quase exclusivamente para os mais-mais ricos. A troika agora está pondo os contribuintes alemães em guerra contra os gregos “maus-pagadores”. Mas a verdadeira linha de combate está demarcada, isso sim, entre os banqueiros aos quais o Banco Central Europeu serve e o povo grego. Fonte: Emmanuel Saez.

O ponto de aproximar as vítimas de uma Grande Depressão forjada na Grécia com o suplício dos argentinos no início dos anos 2000 e com a subclasse sempre crescente dos muito pobres nos EUA é fazer ver que os problemas são sociais - luta de classes, não alguma função de limitações materiais. Cada uma dessas circunstâncias representa uma luta por recursos sociais; as diferenças são de distribuição econômica, não são limitações “naturais”. Os banqueiros do Banco Central Europeu podem até acreditar realmente que políticas de “austeridade expansionista” permitiriam aos gregos pagar dívidas impagáveis. Mas ao implantar políticas que tem história longa como políticas de saque, aqueles banqueiros tropeçam nessa história à qual devem satisfações. A capitulação serial da chamada “esquerda europeia” a essas políticas neoimperialistas só faz sentido se os líderes desses partidos ditos “de esquerda” veem-se, eles mesmos, como “insiders” do lado do império. A situação agora é clara: ou o Sr. Tsipras e a Coligação Syriza livram-se de vez dessas ilusões liberais, ou arrastarão o povo grego, junto com eles, para o fundo da cova.

A onda racista mal disfarçada que vem do norte da Europa e apregoa que o problema da Grécia é efeito de um “caráter nacional” encontra sua irmã gêmea nas elites norte-americanas, que veem o problema econômico como resultado do crescimento do número de pobres nos EUA. O modelo de Mitt Romney, dos “fazedores versus roubadores” é sabedoria consagrada nos guetos de banqueiros e altos executivos de empresas em todos os EUA. Começa agora um esforço para auditar a dívida grega e compreender como, para quê, com que objetivo o país endividou-se. Enquanto cortavam-se serviços sociais na Grécia, prosseguiam os negócios de compra e venda entre o governo grego e empresas alemãs e francesas fabricantes de armas, tudo pago com o suor do povo grego. Quando se auditou a dívida argentina, descobriu-se que 70% do “devido” era dívida inventada, resultado de fraudes, dívida privada tomada por interesses privados e no interesse de empresas privadas, convertida em dívida pública para roubar o povo argentino.

As políticas econômicas forçadas contra a Grécia estão sendo impostas em diferentes graus por todo o ocidente. Os sistemas de educação pública nas grandes cidades como Chicago, Filadélfia e Detroit estão sendo sistematicamente saqueados por ideólogos neoliberais e “gerentes” que trabalham a favor do próprio interesse. A ideia é promover a “eficiência” econômica como se fosse eficiência operacional: o mínimo serviço prestado, pelo máximo lucro auferido. Cortam-se aposentadorias sob o pretexto de que faltariam fundos, quando impostos e taxas concebidos para manter aquelas aposentadorias são desviados ou cortados para criar “mercados” de onde os mais ricos podem arrancar lucros. E o governo Obama deixou milhões de famílias roubadas nos empréstimos de hipotecas predatórias com dívidas maiores que o valor das próprias casas, enquanto os bancos que fizeram os empréstimos-assaltos são “resgatados” e voltam a operar normalmente. Na Grécia, o Sr. Tsipras continua até aqui a dizer as coisas certas. E o que está dizendo só é “radical” no contexto da virada em direção à direita mais reacionária pela qual passa o neoliberalismo nos últimos 40 anos. As políticas econômicas impostas contra a Grécia são mais draconianas que o que se vê no núcleo de EUA e Europa, mas só no grau, não no tipo. Wall Street, que inclui grandes bancos alemães e franceses sempre usaram crises inventadas para intervir em golpes “soft” pelo mundo, ao longo de décadas. A dívida é usada como arma. O povo grego tem batalha muito difícil a enfrentar. Mas o golpe neoliberal é internacional e internacionalista. Norte-americanos e europeus do norte que creiam que estejam do lado “vencedor” apenas ainda conservam o emprego e a poupança; até que também lhes sejam roubados. Em maior ou meor grau, somos todos gregos agora.

29 de janeiro de 2015

Por dentro do Boko Haram

Eric Draitser

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / A primeira parte dos artigos sobre o Boko Haram teve como foco o relacionamento do grupo radical com a política interna da Nigéria, assim como a disputa regional por recursos naturais que se desenvolveu ao redor do Lago Chade. O texto revelava as conexões de indivíduos e redes, tanto na Nigéria como no vizinho Chade, que são apoiadores e facilitadores ativos do Boko Haram - e, dessa maneira, participando de um perigoso jogo de desestabilização da região. Naturalmente, a pergunta se torna: por que? É o interesse de quem que essa desestabilização aconteça? Quais são as engrenagens econômicas e geopolíticas fazendo a máquina girar?

Pelos últimos 500 anos, os europeus olharam para a África como uma potencial fonte para riqueza e poder. Desde as primeiras expedições portuguesas até os dias atuais, o Ocidente ambiciona as vastas, e aparentemente infinitas, riquezas do continente: indo do ouro, diamante e outros metais preciosos até as fontes energéticas e, claro, impossível não mencionar, o trabalho humano.

Examinando a complexa rede de relações conectando os eventos na África Ocidental, uma perturbadora, mas nada surpreendente, tendência aparece: ao mesmo tempo em que os interesses econômicos e geopolíticos do Ocidente aumentam, a instabilidade na região também aumenta; enquanto os EUA e a Europa invocam ad nauseam o termo “estabilidade”, a realidade é que o caos e a instabilidade da África servem perfeitamente aos seus objetivos neocoloniais.

A França, por exemplo, que por séculos foi uma potência dominante na África, figura entre os principais personagens desse século XXI na competição para continuar enriquecendo às custas do continente africano. Em suas antigas colônias na África Ocidental, a França novamente se estabeleceu como uma potência militar e, principalmente, econômica. Usando os pretextos siameses de “terrorismo” e “humanitarismo”, a França foi bem sucedida em disfarçar suas reais intenções na região: a pilhagem de recursos minerais e energéticos. Porém, uma vez que o imperialismo nu e cru de outrora é politicamente inaceitável nos dias de hoje, a França tem se apresentado como um benevolente patrão, uma potência altruísta que simplesmente quer ajudar suas antigas crianças coloniais a ficarem de pé, mas não é necessário uma análise muito profunda para deixar claro que aquela França que escravizou o Haiti, colonizou boa parte do Norte da África e explorou impiedosamente a África Ocidental, continua muito viva.

Mas os franceses certamente não são os únicos de olho no potencial econômica do oeste africano. Recentemente, a Alemanha entrou na briga, deixando claro que ela buscar se tornar mais assertiva militar e economicamente na região. Sendo o principal motor econômico da Europa, a Alemanha desfruta da confortável posição de tirar vantagem da combinação de insegurança e enorme crescimento demográfico na África Ocidental. Em Gana, Nigéria e outros países, a Alemanha visualiza um enorme mercado potencial para suas exportações, assim como um melhor posicionamento militar. E, claro, existe o inescapável e intratável poderio militar dos Estados Unidos, que têm silenciosa e continuamente aumentado sua presença militar – ou sua “pegada”, para usar o linguajar dos planejadores estratégicos da Africom (ironicamente com sede na Alemanha) – por todo o continente. Essa ensurdecedora expansão militar silenciosa tem, em sua raiz, o objetivo de cortar a crescente influência econômica da China por toda a África, transformando o continente em uma espécie de “campo de batalhas terceirizado”, onde a desestabilização é uma potente arma. Todavia, será a população africana que pagará com sangue pelas ambições econômicas e geopolíticas do Ocidente.

Conheça o novo chefe, o mesmo antigo chefe

A crescente instabilidade por toda a África Ocidental francófona forneceu ao país europeu a desculpa perfeita para reafirmar sua hegemonia nas antigas colônias. O golpe de estado de 2012 no Mali, a subsequente guerra civil e o crescimento do terrorismo deram à França a abertura que precisavam para estacionar permanentemente suas forças militares por toda a região. Apesar da retórica de democracia, estabilidade e o Estado de direito, a França possui motivações interesseiras. No que diz respeito ao Boko Haram, a Nigéria e a bacia do Lago Chade, a França é o maior beneficiário da extração energética do local, uma vez que seu porto de Le Havre é o destino final do petróleo não-refinado.

Além da energia, os interesses econômicos da França se estendem à lucrativa exploração de minérios por toda a região. No anúncio de uma nova companhia mineradora estatal - cujo governo “socialista” do primeiro-ministro François Hollande investiu mais de meio bilhões de dólares - o ministro da indústrias francês Arnaud Montebourg afirmou que “os países da África francófona gostariam mais de trabalhar conosco [França] do que com empresas estrangeiras”. Naturalmente, deve-se perguntar o quanto de voz esses países, sem mencionar seus cidadãos, têm sobre o assunto.

Além do mais, o uso das palavras “empresas estrangeiras” é bem reveladora. De um lado, parece que na mentalidade da elite empresarial e política da França, eles não são “estrangeiros” quando operando em países francófonos - o neocolonialismo nessa mentalidade é impossível de ignorar; por outro lado, é claro também a quem o francês se referia quando falou de “empresas estrangeiras”: a China.

Somando-se a isso, estão os vastos depósitos de urânio na África francófona. Como a Think Africa Press, relatou em 2014, a “França tem cerca de 75% de sua eletricidade gerada por energia nuclear e é, em grande parte, dependente do Níger para suprir sua demanda de urânio. Essa dependência pode aumentar ainda mais após a recente descoberta do depósito Imouraren, que tem o potencial de produzir 5 mil toneladas de urânio por ano, transformando o Níger no segundo maior produtor de urânio no mundo. A Areva, que tem 87% de suas ações na mão do governo francês - que também é o acionista majoritário em três das quatros mineradores de urânio operando no Níger - está financiando a nova mina”.

O presidente nigeriano Mahamadou Issoufou, é um ex-funcionário da Areva, que apesar de ter maior parte de seu capital francês, possui quase um monopólio na exploração do urânio no Níger. Assim sendo, não deveria ser surpresa alguma que a rivalidade com a Areva vem da Somina, que tem 37% de suas ações na mãos dos chineses”.

Outra evidência da orientação da França de estabelecer a hegemonia em sua “esfera de influência” na África é o documento intitulado “Um parceria para o futuro: 15 propostas para uma nova dinâmica entre África e França“, que pode ser encarada como uma planta para a política francesa na região. Sem dúvida, essa nova ênfase se deve ao fato de que “na última década, a parcela da França no comércio africano caiu de 10% para 4,76%, enquanto a participação da China na África aumentou para 16%, em 2011”.

Os alemães estão chegando

Enquanto o envolvimento da Alemanha na África nunca foi profundo, ou sequer duradouro, como aconteceu com a França, Reino Unido e outros impérios europeus, não se pode diminuir o papel alemão no que tange ao imperialismo. Apesar de a “Partilha da África” no final do século 19 em Berlim ter ficado bem para trás no retrovisor da Alemanha, o país germânico demonstra cada vez mais querer ser um ator no cenário africano – militar e economicamente.

Em uma publicação recente que levou o título de “Diretrizes políticas do governo federal para a África“, o governo alemão aponta que “o potencial da África deriva de seu desenvolvimento demográfico e do fato de que é um enorme mercado para o futuro, com forte crescimento econômico, riqueza em recursos naturais e um grande potencial para a expansão da produção agrícola e segurança alimentar por seus próprios esforços”.

Talvez seja por isso que a chanceler alemã Angela Merkel reiterou o comprometimento do país emfornecer assistência militar (apoio financeiro, treinamento, logística etc.) para sua parceira de longa data, Gana; e é através dessa parceria, que a Alemanha usará Gana como intermediária para expandir sua presença militar na região. Após um encontro recente com os líderes de ambos os países, o site oficial do governo foi de que, em resposta à ameaça do Boko Haram, “Angela Merkel apoiou a proposta do presidente de Gana para fundar uma força de intervenção regional [...] No interesse de promover a paz e prevenir crises, a Alemanha está trabalhando para estabelecer estruturas de segurança, parcialmente através do Centro Internacional de Treinamento para Manutenção da Paz Kofi Annan, fundada há 10 anos com apoio da Alemanha”.

É claro que a Alemanha enxerga em Gana um parceiro viável para aumentar sua presença militar na região. Utilizando o Boko Haram como pretexto, parece que novamente a força militar alemã, aliada com o apoio financeiro, será usada para garantir o acesso ao mercado que a Alemanha tanto precisa.

Assim como a França, a Alemanha busca usar seu aparato militar e a Guerra ao Terror, para garantir sua posição econômica e não ficar para trás na, cada vez mais, posição hegemônica da China.

O elefante (imperialista) na sala

Enquanto Alemanha e França têm claras motivações econômicas para expandir sua presença na África Ocidental, a agenda dos EUA é menos óbvia. Apesar de os EUA investirem pesado na África, os norte-americanos não são tão dependentes dos recursos africanos como são seus aliados europeus. Ao invés disso, a preocupação de Washington é ser ultrapassado pela China, dentro do continente.

Em um relatório de 2013 sobre o investimento chinês na África, constatou-se que “as importações e exportações da China, subiu de 10 bilhões de dólares em 2000, para 166,3 bilhões em 2011″. Isso indica que a China tem rapidamente desafiado a hegemonia econômica dos EUA na África. Ao investir em uma variedade de setores – mineração, petróleo, telecomunicações, finanças e outros – a China se tornou uma alternativa viável aos investimentos e assistência dos EUA, Banco Mundial e FMI. Naturalmente, isso abala as estruturas do establishment político e econômico dos EUA que enxergam na China uma ameaça a seu poder. É precisamente desse desafio vindo da China é que a real motivação para sua expansão silenciosa para a presença militar dos EUA no continente, especialmente na África Ocidental e no Sahel.

Os Estados Unidos também estabeleceram uma vasta rede de bases e instalações de drones por toda a região. Apesar de os oficiais militares se recusarem em reconhecer essas instalações como nada mais que “áreas temporárias de treinamento” ou algum outro eufemismo. Porém, basta uma simples visualização do mapa, combinada com relatórios díspares de diversos meios de comunicação, para perceber uma imagem muito mais traiçoeira do que os EUA estão fazendo.

2012: de acordo com o Washington Post, “um ponto chave na rede de espionagem dos EUA pode ser encontrada em Ougadougou, capital de Burkina Faso [...] Onde um programa confidencial de vigilância chamado Creek Sand, foi conduzido para estabelecer uma pequena base aérea ao lado do aeroporto internacional da cidade. Diversos aviões de vigilância voam centenas de quilômetros até o Mali, a Mauritânia e o Saara, mais ao norte”.

2013: os EUA anunciaram a construção de uma enorme base para drones no Níger, novamente, segundo o Washington Post, “devido a importância estratégica na África Ocidental [...] O Níger faz fronteira com a Líbia e Nigéria, que também têm lutado para combater os movimentos extremistas armados [...] O próprio presidente Mahamadou disse ‘Nós damos boas vindas aos drones [...] Nós dependemos de países como a França e os EUA. Nós precisamos de cooperação para garantir nossa segurança”.

E nisso fica claro a conexão do engajamento militar dos EUA com o Boko Haram e outros grupos terroristas: os norte-americanos utilizam cinicamente a instabilidade da região – causada diretamente pela guerra liderada por eles e pela Otan contra a Líbia – para aumentarem ainda mais sua força militar na África. Como pôde ser observado em setembro de 2014, quando o Marine Corps Times, o jornal do corpo de fuzileiros navais dos EUA, anunciou que “o Corpo estabeleceu três novos postos em Senegal, Gana e Gabão que ajudarão os Marines a responder mais rapidamente às crises na África”.

Sob os auspícios da Africom, os EUA estão presente em praticamente todos os países significantes da região. No Chade, que figura de maneira proeminente na narrativa do Boko Haram, os EUA possuem umcontingente militarestacionado indefinidamente com o objetivo de buscar pelas garotas raptadas de Chibok. Todavia, enquanto os EUA admitem apenas um pequeno destacamento de soldados, a verdade é que as forças dos EUA estão muito mais envolvidas no Chade, de uma maneira ou de outra. Talvez isso esteja melhor ilustrado no fato de que o Chade foi selecionado para sediar os exercícios militares da Flintlock 2015, da Africom, “que terão início em 16 de fevereiro, na capital N’Djamena, com a participação do Níger, Nigéria, Camarões e Tunísia, e terminarão apenas em 9 de março de 2015″. Ou seja, os EUA escolheram conduzir exercícios militares por toda a região, com atenção específica aos países da bacia do Lago Chade.

Os EUA vêm estabelecendo ostensivamente essa rede de bases para propósitos contra o terrorismo e grupos como Boko Haram, Al-Qaeda, entre outros. Mas quem consegue ler nas entrelinhas pode ver claramente que a infraestrutura militar, de vigilância e assistência aos países da região são parte de uma tentativa coordenada dos EUA para conter a crescente influência da China no continente. Os EUA sabem perfeitamente que não são capazes de competir com os chineses em termos de investimento e comércio na África. Assim sendo, os norte-americanos apelam com a única coisa em que têm vantagem, sua força militar; e o terrorismo passa a ser menos uma ameaça, e mais uma janela de oportunidades para cimentar a posição de Washington como dominante hegemônico na África.Talvez, a maior tragédia é que o destino das garotas de Chibok, assim como os inocentes em Baga e outras partes do nordeste da Nigéria, a da África Ocidental, tenha se tornado apenas uma reflexão dentro de um grande esquema imperialista na África. Suas vidas foram reduzidas a moeda de troca para a vantagem da França, Alemanha e, principalmente, EUA.

But of course, mum’s the word when it comes to these uncomfortable truths.  “Nothing to see here,” our fearless media tells us.  Sadly, for the vast majority of people in the West, this is undeniably true; there is simply nothing worth seeing.

28 de janeiro de 2015

Uma estratégia de rupturas: Dez teses sobre o futuro grego

Panagiotis Sotiris

Viewpoint Magazine

Aleksandr Vesnin, Proposta de Monumento à Terceira Internacional, 1921

I

Tradução / O dia 25 de janeiro de 2015 foi um marco de uma mudança histórica no período recente da história grega. Depois de cinco anos de uma austeridade devastadora, de uma crise social sem precedentes na Europa e de uma série de lutas que em certos momentos, especialmente entre 2010 e 2012, tiveram um caráter quase insurrecional, finalmente surgiu uma grande ruptura política. Os partidos que foram responsáveis por colocar a sociedade grega sob a supervisão disciplinar da chamada Troika (União Europeia-Banco Central Europeu-Fundo Monetário Internacional) sofreram uma humilhante derrota. O Paneˈlinio Sosjalistiˈko ˈCinima (Pasok – Movimento Socialista Pan-helênico), que em 2009 chegou a ganhar 44% dos votos, recebeu agora míseros 4,68%; o seu racha partidário, liderado por Giorgio Papandreou, o primeiro-ministro do Pasok que deu início aos programas de austeridade, recebeu 2,46% dos votos. A ˈNea Ðimokraˈtia (Nova Democracia) fez 27,81% dos votos, quase 9% menos que o Synaspismós Rizospastikís Aristerás (Syriza – Coalização da Esquerda Radical). A ascensão eleitoral dos fascistas da Chrysí Avgí (Aurora Dourada) foi interrompida, ainda que eles mantenham um preocupante índice de 6% dos votos. Outro partido pró-austeridade, o To Potami (O Rio), representando a agenda neoliberal (ainda que nominalmente se afirme como centro-esquerda) conseguiu apenas 6,05%, apesar de uma intensa campanha midiática.

De certa forma, essa foi a vingança eleitoral de uma sociedade que sofreu e lutou contra aqueles responsáveis pelo seu sofrimento. Nós não podemos esquecer que a Grécia viu o seu índice oficial de desemprego atingir 27% – e o desemprego dos jovens chegar a 50% – e também que sofreu uma contração cumulativa de 25%, além de ter visto uma redução massiva em salários e aposentadorias, tendo testemunhado a criação de uma violenta legislação orientada para privatizar, liberalizar o mercado de trabalho e reformar as universidades pelo paradigma neoliberal.

II

O Syriza teve uma importante vitória, com 36,34% dos votos e 149 deputados (precisava apenas de mais dois para ter uma maioria absoluta no parlamento). Simbolicamente, essa foi uma vitória histórica. Pela primeira vez na história moderna da Europa, um partido não-social-democrata de esquerda irá formar um governo. Em um país no qual a esquerda foi perseguida durante boa parte do século XX, a imagem de um primeiro ministro cujo primeiro ato após a sua posse foi visitar o lugar onde 200 comunistas foram executados no 1º de maio de 1944, parece até a revanche simbólica de uma história cheia de lutas. Essa mudança política à esquerda é o resultado de deslocamentos tectônicos nas relações políticas e econômicas de representação induzidos não apenas pela crise econômica e social, mas também por um longo ciclo de lutas contra austeridade que agiu como catalizador de novas identidades políticas radicais e novas formas de pertencimento. E sendo assim, ela manda uma importante mensagem de mudança e resistência para toda a Europa e já se tornou uma fonte de inspiração, algo evidente diante da entusiasmada reação do resto da esquerda europeia.

III

Durante a campanha eleitoral, a virada “realista” e à direita do Syriza ficou bastante evidente. A liderança do Syriza abandonou a exigência de uma imediata revogação do memorandum (as condições ligadas aos acordos de empréstimos), que foi o seu principal ponto na campanha de 2012. Ela se afastou da posição de “não se sacrificar pelo Euro”. A nacionalização do sistema bancário não é mais uma de suas exigências mais urgentes. A principal posição programática do Syriza é uma tentativa de pôr fim à austeridade enquanto se mantém a rede institucional, monetária e financeira da zona do euro e da União Europeia (UE). Eles afirmaram sua habilidade de negociar e reestruturar uma redução possível da dívida grega com os credores da UE e do Fundo Monetário Internacional (FMI). Ao mesmo tempo, eles passaram a apoiar a ideia de usar contra a austeridade a versão europeia da “flexibilização quantitativa” que o Banco Central Europeu (BCE) recentemente deu início. Mais do que isso, eles insistiram na possibilidade de uma mudança na direção da UE baseada na ascensão de movimentos de esquerda na Europa meridional ou na Irlanda e nas divergências entre o governo alemão e o BCE, ou entre Angela Merkel e Matteo Renzi. A principal posição política do Syriza ao chegar ao poder, de acordo com suas declarações pré-eleitorais, será de criar uma rede de segurança social ao aumentar o salário mínimo novamente para 751 euros, reestatizar direitos básicos trabalhistas, reverter as demissões de empregados do setor público, oferecer assistência imediata para 300 mil famílias abaixo da linha da pobreza, criar empregos e aumentar as aposentadorias. Não há dúvidas de que essas medidas são urgentemente necessárias.

Porém, na atual correlação de forças dentro da UE, mesmo uma sutil afrouxada nas cordas da austeridade pode não ser possível. Não é como se tal ruptura com a austeridade fosse impossível em termos financeiros; na verdade, a profundidade da crise da zona do euro, como resultado primordial do profundo e institucionalizado neoliberalismo da “integração europeia”, faz com que as elites europeias fiquem temerosas de qualquer coisa que possa parecer uma mudança de paradigmas. Isso é especialmente verdade se levar em consideração a crise da dívida na Itália e o aumento do déficit francês. Então é mais provável que durante as negociações, a UE tente empurrar para a continuidade de alguma forma de política de austeridade, ao menos para mandar uma mensagem de que ninguém pode escapar da norma. Não se pode esquecer que a Grécia ainda é dependente dos empréstimos da UE e da liquidez do BCE, assim como o fato de que o novo governo irá enfrentar uma situação de cofres públicos vazios e de necessidade de gastos urgentes. Lidar com esses problemas emergenciais, ao mesmo tempo em que tem de enfrentar as pressões da UE, é um dos desafios que o governo terá de conduzir. Além disso, não se pode esquecer que parte dos programas de austeridade, o novo limite de crédito oferecido aos gregos, não dependia somente de metas fiscais, como superávit primário (ele mesmo uma forma de austeridade), mas também na implementação de legislação e reformas neoliberais. Existirá um esforço para aplicar esse mesmo caminho diante de qualquer proposta de perdão da dívida. Nas palavras do Financial Times, “nenhuma das propostas do Sr. Tsipiras [primeiro ministro grego] para o perdão da dívida conseguirá ser ouvida ao menos que ele prometa continuar comprometido com as reformas da economia e da administração pública da Grécia.”

IV

À luz dos desafios citados acima, a necessidade de uma ruptura com a dívida, com o euro e com os tratados firmados com a UE é urgente. Parece claro que somente a interrupção ou a moratória do pagamento da dívida e sua consequente anulação podem garantir ao governo grego a capacidade de aumentar os gastos públicos para conseguir, assim, reverter as consequências da austeridade. É também óbvio que somente através da revogação do grosso das reformas neoliberais impostas à Grécia nos últimos anos será possível realizar uma política mais progressista. Tal processo levará, inevitavelmente, a um confronto contra todo o mecanismo supervisório da UE e as disposições ligadas aos engenheiros da zona do euro. Nesse ponto, a ruptura com o euro e um consequente retorno à soberania monetária permanece sendo uma necessidade premente – o ponto de partida para qualquer política progressista.

V

Além disso, é evidente que o povo lutou nos últimos tempos por muito mais do que uma “rede social de proteção”. Reverter o desastre social causado pela austeridade é o primeiro e necessário passo. Porém, a profunda crise social e política na Grécia, enquanto momento “catártico”, oferece também a possibilidade de um rumo social e político que se afaste do neoliberalismo e do consumismo impulsionado por dívidas. Isso significa que sair da austeridade não pode ser simplesmente visto como um retorno ao “crescimento”, mas como o início de um processo de experimentação com um paradigma alternativo de desenvolvimento baseado na autogestão, em novas formas de planejamento democrático e participativo e se beneficiando da experiência e da engenhosidade do povo que luta.

VI

Sem a necessária maioria parlamentar, o Syriza formou um governo com o Anexartitoi Ellines (Anel – Partido Independente Grego). Os independentes gregos são um peculiar híbrido de populismo e valores tradicionais da direita, com laços em segmentos tais como os empresários e o clero. Eles foram antiausteridade desde o momento em que se separaram da Nova Democracia. A liderança do Syriza pretendeu formar um governo com os independentes gregos logo no início. Isso faz parte de uma mudança na retórica política que vai da posição do “governo de esquerda” para uma posição de um “governo de resgate social ao redor do Syriza” marcada pela anti-austeridade. Mais do que isso, Panos Kammenos, líder dos independentes gregos e novo ministro da Defesa fez uma campanha com o seguinte slogan: “coloque-me no Parlamento para que eu possa controlar o esquerdismo do Syriza.”

Ao mesmo tempo, deve-se ressaltar que nunca fora discutida uma aliança com o Kommounistikó Kómma Elládas (KKE - Partido Comunista da Grécia), pois tal aliança poderia significar a possibilidade de uma coalizão radical anti-UE. Isso é algo que tanto o Syriza quanto o KKE não querem: o Syriza, porque tem uma posição pró-UE e pró-euro; o KKE porque tem uma posição derrotista e sectária e se recusa a ver qualquer possibilidade de mudança. Em termos econômicos, é possível encontrar um equilíbrio dentro do novo governo. De fato, pode-se dizer que em certos aspectos, os independentes gregos são mais “populistas” do que a própria liderança do Syriza. Os independentes não são anti-UE, ou anti-euro; consequentemente, não haverá divergências entre eles e o Syriza nessa frente. Acerca da questão de direitos (como por exemplo, os direitos LGBTs), a relação com a Igreja, a política imigratória, etc., deve haver tensões, mas no geral – e levando em conta a virada “realista” da liderança do Syriza – parece que, ao menos inicialmente, essa coalizão funcionou. O que também fortalece – nacionalmente quanto internacionalmente – a tentativa de apresentar um novo governo como uma coalizão anti-austeridade, não como um governo da esquerda.

VII

Sobre as demais tendências do campo da esquerda, deve-se destacar que o Partido Comunista teve um pequeno aumento nos votos (de 4,5% em junho de 2012 para 5,47% agora). Durante a campanha eleitoral este manteve um tom bastante sectário, desprezando o Syriza enquanto alternativa e apresentando a força do seu próprio partido como a única saída viável. Porém, o traço característico da linha política do KKE é a sua insistência de que ao menos que o “oportunismo” seja derrotado, não haverá processo de transformação social. Essa postura derrotista é a base da tática sectária do partido. A esquerda anti-UE, representada pela coligação Antikapitalistiki Aristeri Synergasia gia tin Anatropi-Mars (Antarsya-Mars – Frente da Esquerda Grega Anticapitalista) foi melhor em 2014 do que em 2012 (0,64% em relação aos 0,33% da eleição anterior), mas foi bastante pressionada numa eleição extremamente polarizada. Apesar de suas tentativas de fazer uma campanha de oposição de esquerda nãosectária à virada direitista do Syriza, este setor não conseguiu um resultado eleitoral condizente com seu apelo dentro dos movimentos sociais.

VIII

O período posterior às eleições trouxe importantes desafios, especialmente para a esquerda radical. O primeiro é reconstruir o movimento em seu sentido mais profundo. A mudança política e o novo sentimento de otimismo das classes subalternas precisa ser transformado em uma nova onda de lutas. Somente novas mobilizações podem exercer a pressão necessária sobre o governo do Syriza, especialmente sob suas promessas, para garantir que os servidores públicos sejam readmitidos em seus empregos, que a ERT (a rede pública de televisão) seja reaberta, para que a luta pelo rechaço às reformas neoliberais continue. Isso é importante pois restaura a confiança do povo em sua habilidade de mudar suas vidas e, com isso, exigir políticas mais radicais – um necessário contrapeso diante das pressões e chantagens de organismos internacionais.

Sem uma sociedade engajada na luta, ou seja, uma sociedade engajada nas práticas coletivas de resistência e transformação, nenhum processo de mudança social pode ser iniciado. O ciclo de lutas vivido na Grécia dos últimos anos foi um catalizador para as mudanças eleitorais que levaram à virada do eleitorado para a esquerda. De certa forma, os resultados eleitorais também foram traduções políticas das dinâmicas de protestos e contestações. É preciso uma ressurgência do movimento em termos de luta e também de aspirações, um excedente de força social necessário tanto como pressão sob o governo, como contrapeso diante da chantagem vinda da UE, mas também como catalizador de novas formas de radicalização.

IX

O debate sobre estratégia deve continuar. O desafio não é simplesmente ter um tipo de governança progressista dentro das imposições proibitivas feitas pela UE e pela zona do Euro. O desafio se coloca na articulação de uma nova dialética das demandas imediatas e das mudanças radicais, não apenas no sentido de acabar com o fardo da dívida e com o euro, mas também – e principalmente – no sentido da experiência de novas configurações sociais. Para a esquerda radical grega anti-UE o mais importante não é se colocar como uma “oposição de esquerda” ao Syriza, não importa o quão útil isso possa ser no cenário político onde toda a oposição ao Syriza virá da direita. O que importa é elaborar uma alternativa de esquerda, uma estratégia de rupturas e interrupções (incluídos aqui o neoliberalismo, o euro, as dívidas, etc.). Este é exatamente o tipo de alternativa urgentemente necessária na medida em que a estratégia do Syriza se choca com a parede da chantagem da União Europeia e com a contraofensiva das forças do capital.

X

A Grécia entrou em uma nova fase, em que se tornou possível escrever coletivamente uma nova página na história. Até aqui, este país mediterrâneo foi o campo de testes dos experimentos neoliberais mais agressivos desde o Chile de Augusto Pinochet. Agora, existe o potencial para transformá-la em um laboratório de esperanças. Isso exige confiança na força das lutas populares e a capacidade de pensar além dos marcos dominantes de pensamento. E não seria essa a real essência de uma política radical? O verdadeiro desafio agora é o povo manter as suas esperanças – a esperança de que o povo possa realmente mudar suas vidas.

O governo da Ucrânia está perdendo a guerra: Aqui está o porquê

Eric Zuesse

4th media

Tradução / Em 27 de janeiro de 2015, o ministro de Defesa da Ucrânia divulgou que “militantes continuam a sofrer perdas” e noticiou que quatro helicópteros e outras armas dos “militantes” teriam sido destruídos em combate, mas não ofereceu qualquer prova de que dizia.

Apenas dois dias antes, o jornal Kiev Post (pró-governo) havia publicado uma notícia diferente: "A Ucrânia está escondendo pesadas perdas, enquanto avançam os combatentes apoiados pela Rússia" e "o segredo mais mal guardado da Ucrânia: o exército ucraniano está divulgando números artificialmente reduzidos de baixas."

Depois de detalhar o que parece ser acintosa desatenção pelo governo de Kiev, pelo bem-estar dos soldados que envia aos combates (inclusive ao instalar soldados feridos em hospitais civis comuns, não preparados para tratar vários tipos de seus ferimentos), a matéria fecha com um médico que diz: "Tudo está mal em todas as frentes. Sim os soldados ainda permanecem em suas posições dispostos a lutar. Mas não chega até eles nenhum tipo de apoio ou ajuda."

A agência ucraniana de notícias RIAN noticiou com destaque, em 26 de janeiro de 2015: "Mobilização em Dnipropetrovsk [governada pelo amigo da Casa Branca e bilionário ucraniano-suíço-israelense Ihor Kolomoysky, cujo exército pessoal de mercenário tinha, só ele, mais de 5 mil homens armados], fracassa, com milhares de homens fugindo do alistamento. Funcionários encarregados de alistar novos soldados reconhecem que será muito difícil levar adiante sua tarefa."

Mais de 2.000 pessoas que foram alistadas "não apareceram, elas evaporaram."

Consequentemente, o governo está “caçando”, “emboscando” (como diz o jornal), virtualmente todos que buscam qualquer ajuda do governo, “mobilizando desempregados” e outros “desesperados”. “Oficiais militares encarregados do alistamento reclamam” que alguns alistados estão tão doentes que não têm absolutamente nenhuma condição de combater.

Também em 26 de janeiro de 2015, o blog Fort Russ publicou que: "Comandante de Azov se descontrola e declara a guerra “perdida”. Culpa todo mundo e diz que políticos e generais ucranianos já perderam a guerra e que o ocidente não ajudou." Eis o cerne da declaração do comandante do Batalhão de Azov, e atualmente também Deputado ao Parlamento, Andrey Biletsky, em seu “Discurso à Nação”.

Segundo Biletsky, depois da ficção de “milhares de inimigos falsamente mortos e tanques falsamente queimados, o despertar pode ser muito doloroso”, por causa da decepção provocada pelas incontáveis mentiras do governo de Kiev.

A manchete da agência RIAN noticiou em em 27 de janeiro de 2015, “Situação no front e manifestações contra o alistamento obrigatório” [“The Situation at the Front and Riots Against the Mobilization”] e Andrew Vajra, do site de notícias “Alternative”, citou Biletsky: “Nós não estávamos preparados para o confronto atual”.

Ao mesmo tempo, os soldados ucranianos não dão sinal de disposição para arriscar a própria vida para fazer valer o atual governo ucraniano (posto lá pelo golpe de Estado orquestrado por Obama em fevereiro de 2014), e impô-lo contra a população da região do Donbass, 90% da qual votou pelo fim do governo do homem de Obama. Os moradores da região que ainda permanecem ali não têm nenhum interesse em permitir que o governo “de Obama” os mate até o último homem ou mulher. Implica dizer que a motivação entre os habitantes do Donbass que o governo de Kiev-Obama está tentando matar é muito mais forte do que a motivação de soldados regulares, do que resta do exército ucraniano, para matá-los.

Os únicos homens armados realmente ansiosos para matar ucranianos são ucranianos nazistas apoiadores de dois partidos nazistas (ou fascistas-racistas): o Partido “Liberdade” (que foi rebatizado pela CIA, que entendeu que o nome anterior “Partido Nacional-socialista”, não era adequado para os novos tempos) e o Partido “Setor Direita” (Pravy Sektor).

Esses partidos obtiveram parcela mínima de votos na Ucrânia – o que não impediu a gangue de Obama de implantá-los no poder. Uma vez instalados no poder, fizeram aprovar leis para mantê-los para sempre no governo.

Mas o problema do governo da Ucrânia é que não há por lá nazistas em número suficiente para defender o governo; e, também, que não há dinheiro suficiente para alugar número suficiente de matadores para matar ucranianos em quantidades suficientes que possibilite que o regime Obama-Ucraniano consiga (I) fazer a limpeza étnica das terras do Donbass e (II) manter-se naquelas terras como governo.

Os 90% dos eleitores que votaram a favor do homem que Obama derrubou do governo (Viktor Yanukovych) são muito mais numerosos e mais motivados – e estão presentes em maioria equivalente também entre os soldados ucranianos.

Os oligarcas dos EUA e da Ucrânia não estão conseguindo garantir dinheiro suficiente para terminar o serviço, mas o grande “financista” de Obama, George Soros, anda em vilegiatura pelo planeta tentando convencer contribuintes em todo o ocidente a garantir o dinheiro que falta – falando em coisa entre 20 e 50 bilhões de dólares. Seus pedidos, até o momento, parecem estar caindo em ouvidos moucos.

E essa é a verdadeira razão pela qual a guerra de Obama na Ucrânia está a falhar, não há sede de sangue suficiente para a tarefa, seja na Ucrânia, ou no "Ocidente".

Não há nazistas em número suficiente em lugar algum. Obama deu passo muito maior que suas capacidades e competências quando, em fevereiro de 2014, derrubou o presidente eleito Viktor Yanukovych.

Agora, das duas, uma; e Obama já está, cada dia mais, obrigado a escolher: ou desiste do governo anti-Rússia que impôs aos ucranianos, ou desiste, de vez, de controlar o território do Donbass.

Nos dois casos, o resultado cobrirá de embaraços a “potência indispensável” e o próprio presidente Obama. Será talvez menos embaraçoso para Obama do que foi o fim da Guerra do Iraque, para Bush. (Claro, os republicanos poderiam viver momentos de glória proclamando que “Obama perdeu a Ucrânia”, embora tudo tenha começado quando Obama tomou ilegalmente a Ucrânia — mas Republicanos jamais criticam presidente por invadir ilegalmente outros países: é precisamente os que Republicanos esperam de Republicanos).

Por outro lado, pode acabar sendo ainda mais embaraços que isso, para Obama, caso ele insista em ficar onde está e acabe envolvendo os EUA numa guerra nuclear contra a Rússia.

Quanto ao próprio governo ucraniano, foram postos no poder por Obama, em golpe de estado; em seguida esse mesmo governo ucraniano pôs-se a promover ações de limpeza “eleitoral”, separando os residentes no Donbass, de seus representantes eleitos; por isso, os atuais membros do Parlamento e da administração ucraniana não podem culpar nem Obama nem o próprio governo ucraniano. À falta de alguém para culpar, estão culpando Vladimir Putin e a Rússia - o país que Obama (como George Soros e tantos outros aristocratas americanos) odeia, e que é odiado também pelo pessoal que Obama presenteou com o governo na Ucrânia.

Por tudo isso, na quarta-feira, 28 de janeiro de 2015, a agência noticiosa RIAN distribuía o“Texto Integral da Petição para que a Rússia seja Reconhecida como País Agressor”, e noticiava: "O Parlamento Ucraniano tornou público o texto integral da Resolução n. 1.854, pela qual o país apela à ONU, ao Parlamento Europeu, à Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa, à Assembleia Parlamentar da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), à Assembleia Parlamentar da Organização de Segurança de Cooperação da Europa (OSCE), à Assembleia Parlamentar de Geórgia, Ucrânia, Azerbaijão, Moldávia (GUAM), e aos parlamentos nacionais dos países do mundo, para que reconheçam a Federação Russa como estado agressor."

Além do mais, o jornal German Economic News noticiou que a iniciativa do Parlamento fora aprovada pro “271 dos 289 deputados presentes”, e que pode gerar “consequências legais internacionais”. A matéria do GEN também dizia que líderes ucranianos dizem que “precisam obter urgentemente” novos empréstimos da União Europeia porque, se não houver dinheiro “novo”, os empréstimos existentes deixarão de ser pagos.

Os comentários na página de comentários de leitores no website de GEN parecem tender muito mais a ver o governo da Ucrânia como governo nazista, do que como “vítima” da Rússia ou de qualquer outro país, muito menos como vítima dos contribuintes europeus, os quais já deram muito ao governo ucraniano e serão precisamente os menos a sofrer o “calote” da dívidas da Ucrânia, caso a Ucrânia vá à bancarrota, como muitos esperam que aconteça em breve. Em outras palavras: parece haver bem pouco apoio na Alemanha, à ideia de pôr ainda mais dinheiro na Ucrânia.

Se os líderes da União Europeia decidirem atender aos pedidos desesperados do governo da Ucrânia, a União Europeia passará a contar com ainda menos apoio na Alemanha, do que conta hoje. Portanto, o mais provável é que a União Europeia rejeite o pedido de Kiev/Soros/Obama/nazistas, o que faz aumentar cada dia mais a ameaça que já pesa sobre a própria existência da União Europeia.

Além do quê, obviamente, a menos que a Kiev consiga os tais novos “empréstimos ocidentais” para manter sua guerra contra os habitantes do Donbass, jamais conseguirá vencer a tal guerra. É a maldição que pesa sobre o governo de Kiev.

Truque ideológico du jour

Economia da classe média e domínio da classe alta

Norman Pollack

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Por que tentar agora uma discussão teórica do capitalismo, embora esquemática e fragmentada, quando tanta coisa acontece pelo mundo, a militarização da cultura dos EUA com reforço social para sua postura hegemonista - mais ameaçada do que nunca antes desde a II Guerra Mundial pelo crescimento de outras nações e respectivas economias políticas, no que se vai rapidamente tornando um sistema internacional multipolar? A questão quase responde a si mesma. Os EUA correm cada vez mais apertados, talvez já com medo, nada habituados a que alguém desafie seu domínio exclusivo unilateral sobre o tal sistema, apoiado em “amigos e aliados” servis e na FORÇA, real e de reserva, para implementar a suserania norte-americana. Essa semana, foram Índia e Arábia Saudita: fazer a sintonia fina do Império, negociar e/ou renovar alianças militares, oferecer garantias de segurança-proteção, processo sem fim de pôr um dedo no buraco para fechar a represa, sendo o buraco, nesse caso, a aspiração das pessoas a uma vida livre de exploração, acordos comerciais enviesados e tortos, o cogumelo nuclear engordando sempre no céu e escurecendo o futuro.

Por que, mais uma vez, agora? Talvez pela mais transparente das razões, o discurso Estado da União de Obama, com seu mais recente clichê de enganação: a chamada economia da classe média, para encobrir a diferença escandalosa entre ricos e pobres, para, assim, enrijecer a estrutura de classes nos EUA, com consequências mais antidemocráticas a cada dia. Novos dados da distribuição de renda explicam o golpe, pelo menos em parte. Mas não explicam tudo, porque o poder cresce geometricamente quanto mais amplas sejam as fundações, e quanto mais seja dado por indiscutível e confirmado pela população (doutrinada, habituada, submissa). Em nenhum lugar mais que nos EUA, com seus mentirosos clamores de democracia, de superação das classes, de guardião da paz do mundo e do estado de direito, o poder traz com ele mais falsa consciência, com a IDEOLOGIA que vem à tona na estabilização e aprofundamento do capitalismo.

Assim, a economia da classe média, que não passa de capitalismo de monopólio embrulhado em papel-de-seda para parecer política inclusiva de oportunidades feita conforme a receita: Todos somos capitalistas! Todos somos altruístas! Somos todos iguais – posto que todos somos americanos. O subterfúgio é velho como as montanhas – Tocqueville aceitou o mito, as modernas empresas de relações públicas/propaganda/publicidade vivem da coisa, desde então, e o Evangelho dos Ricos opera sem parar, executivos de empresas & bancos, glutões in extremis, varrendo a entrada. Obama é talhado para nossos tempos, sujeito sem nenhum escrúpulo, agente avançado da plutocracia. Com seus predecessores a chicanería era óbvia; Clinton, o Democrata, mãos-nas-mãos com Bush, o Republicano, passo a passo na arena da desregulação, penetração no mercado do outro lado do mundo, e estímulo econômico de preparação para a guerra, solenemente pronunciado “segurança” e “defesa”. Mas quem leva a taça é Obama, enterrando o processo de acumulação de riqueza nas platitudes do norte-americanismo, a mais modernosa economia da classe média.

*

Herbert Marcuse em Razão e Revolução, um dos trabalhos mais significativos da filosofia política do século XX, diz no Epílogo que a sobrevivência do capitalismo dependeria de ele absorver a própria negatividade, tarefa crítica para que fosse bem-sucedido, mas superior aos seus meios. Dito de modo mais simples, o capitalismo é suas contradições, não como alguma fórmula abstrata (para mim) de materialismo dialético, mas nos modos políticos e estruturais mais pão-com-manteiga, de comportamento sistêmico que leve à formação e à manutenção de um estado-classe no qual os trabalhadores em termos relativos, aproximam-se muito do exército industrial de reserva de Marx, via uma condição de subconsumo que o mantenha onde está, e o princípio da HIERARQUIA firmemente intacto no dia a dia. Contradições que são como código, então, para normalizar a repressão. Mas... não! Pode-se chamar a coisa toda, mais simples, de “economia da classe média”. Discuti recentemente nessas páginas aquele discurso, o golpe de Ben e Rebekah para personificar e miniaturizar o capitalismo avançado, Todos & Todas sentados à mesa do café da manhã preparando a lista de compras do dia, enquanto Johnny sai para a escola – um conto de Megacapitalismo digno, como escrevi, de Goebbels.

Mas voltemos à distribuição de renda, não com Kuznets, ou melhor, Gabriel Kolko de “Riqueza e Poder”, para contrabalançar o piegas social-democrata de Michael Harrington “A Outra América”. Em vez disso, tomemos o artigo de Dionne Searcey e Robert Gebeloff no New York Times, “Nos EUA, a classe média diminui, com mais pessoas descendendo, do que ascendendo para ela” (26 de janeiro de 2015), como resposta informal à economia da classe média. Começam assim: "A classe média que o presidente Obama identificou em seu discurso do Estado da União semana passada, como o fundamento da economia americana vem encolhendo já há quase meio século." Nada mau para o The New York Times, até aí. Mas eles também desapontam, usando uma faixa elástica de renda, de US$ 35 mil a US$ 100 mil, para definir a classe média, onde se encaixavam, no final da década de 1960, metade dos lares norte-americanos. Ninguém (exceto, claro, os que foram expulsos da “classe”) percebeu a mudança em curso, porque muitos mais estavam “ascendendo a ladeira econômica para as faixas mais altas”.

Nesse ponto, Searcey-Gebeloff ficam mais sérios (digo isso, porque estatísticas pré-2000 mostram quadro diferente, quando os níveis de renda são mais precisos, incluindo a proporção nos 2/10 inferiores de renda): "Mas desde 2000, a faixa de classe média continuou a diminuir nos EUA. A razão principal da diminuição é que mais gente passou a escorregar para faixas inferiores. Ao mesmo tempo, poucos e cada vez mais poucos dos que estavam nesse grupo enquadram-se na imagem tradicional de casal casado com filhos em casa, espaço preenchido cada vez mais por idosos." E os autores admitem: "Mesmo assim, independente da renda, muitos norte-americanos identificam-se como 'classe média'." O termo é de tal modo amorfo, que políticos muitas vezes citam esse grupo ao introduzir propostas para as quais buscam apoio amplo. (E, ideia minha: nem pensar que Obama estaria usando o discurso do Estado da União para fazer a mais reles propaganda!) Mesmo nessa faixa de renda, “muitos norte-americanos que fazem mais que US$ 100 mil se consideram de classe média”, especialmente “quem viva em regiões caras”, como a Costa do Nordeste e a Costa do Pacífico. Quase dá pena dos que estão na ou acima da faixa dos US$ 100 mil – mais uma vez: a minha; os jornalistas observam: “Contudo, as linhas estão traçadas, é claro que milhões estão lutando para não perder itens que a maioria dos especialistas consideram essenciais para uma vida de classe média”.

A evolução demográfica na composição da "classe média" é instrutiva. “A classe média passou por uma transformação, ao mesmo tempo em que encolhia” – escrevem eles. – Idosos trabalhando depois de se aposentarem caem aí; casais com filhos pequenos caem abaixo dessa faixa como a vemos hoje. Significa que “em anos recentes, o componente de mais rápido crescimento da nova classe média têm sido lares chefiados por pessoas com mais de 65 anos”, com as aposentadorias garantindo alguma proteção, “agora que norte-americanos idosos cada vez mais trabalham até bem depois da idade tradicional de aposentadoria”. Por outro lado “casais com crianças – a categoria que mais encolheu – são a categoria que também diminui mais rapidamente de toda a classe média”. Mulheres casadas na força de trabalho vêm impedindo que esse grupo caia ainda mais. “A mais recente recessão pôs fim a qualquer avanço mesmo nessa categoria em geral bem-sucedida. Sua porcentagem na classe média caiu três pontos percentuais, e o grupo que vive com menos de US$ 35 mil dólares/ano aumentou”.

Não está tudo bem em Obama Candyland. Meu comentário sobre artigo Searcey-Gebeloff publicado no New York Times, mesma data, a seguir:

Enquanto alguém falar de “classe média”, seja estatisticamente (a faixa de US$ 35 mil-US$ 100 mil é absurda) ou como tópico de narrativa, continuaremos a ser enganados, induzidos a pensar que a distribuição de renda é mais democrática do que é, e que o poder está distribuído mais equitativamente do que na verdade está. A tal “classe média” de Obama não passa de bordão de Relações Públicas, truque deliberado para não deixar ver a realidade. O presidente apela às almas boas para que vejam os EUA em termos não estruturais de não classe, ocultando assim a concentração de riqueza e varrendo para baixo do tapete tudo que só faz aumentar a desigualdade.
Ao usar esse quadro de referências que, claro, foi predominante por décadas, The New York Times contribui para a visão de que pobreza e riqueza possam ser analisadas e discutidas em termos não sistêmicos. Mas... E se a desigualdade estiver inscrita nas fundações da sociedade norte-americana? E o quanto, para o bem ou para o mal, têm a ver com o fracasso econômico demográfico, o gasto militar massivo, a guerra, a intervenção e o militarismo em geral? 
Nós, como nação, dependemos do militarismo. Os números seriam ainda piores se não estivessem aí esses gastos e essas políticas militaristas. E nem se fala do empurrão artificial que a economia recebeu. O discurso “Estado da União” de Obama foi solene farsa, em plena discussão séria sobre “em que pé estamos?”. O imposto para empresas que ele propõe é inferior ao que temos vigente hoje. A “desregulação” de Obama só faz promover a consolidação financeira de vários modos da acumulação de capital. Ponha na mesma conta a inflação, e o que se tem, seja por decisão política ou por consenso bipartidário, é muita gente lutando para não morrer.

27 de janeiro de 2015

O Vermelho e o Tricolor

Alain Badiou

Le Monde

Tradução / Hoje o mundo está totalmente tomado pela figura do capitalismo global, submisso ao governo da oligarquia internacional e subjugado à abstração financeira como única figura reconhecidamente universal.

Neste contexto desesperador montou-se uma espécie de peça histórica farsesca. Sobre a trama geral do “Ocidente”, pátria civilizada do capitalismo dominante, contra o “Islamismo”, símbolo do terrorismo sanguinário. Aparentemente teríamos, de um lado, os grupos de assassinos e indivíduos fortemente armados, acenando para garantir o perdão de Deus; e do outro, em nome dos direitos humanos e da democracia, selvagens expedições militares internacionais que destroem Estados inteiros (Iugoslávia, Iraque, Líbia, Afeganistão, Sudão, Congo, Mali...), que fazem milhares de vítimas, que chegam para negociar com os bandidos mais corruptos em busca de poços, minas, recursos alimentares e enclaves onde as grandes empresas possam prosperar.

Esta é uma farsa que transforma as guerras e as atividades criminosas na principal contradição do mundo contemporâneo, a que alcança a essência da questão. Mas hoje, soldados e policiais da “guerra ao terror”, bandos armados que reivindicam um islã mortal e todos os Estados, sem exceção, pertencem ao mesmo mundo, o mundo do capitalismo predatório.

Várias identidades falsas, cada uma se considerando superior a outra, fixam ferozmente sua dominação local em pedaços deste mundo unificado. Elas dividem o mesmo mundo real, onde os interesses dos agentes são os mesmos em toda parte: a versão liberal do Ocidente, a versão autoritária e nacionalista da China ou da Rússia de Putin, a versão teocrática dos Emirados, a versão fascista dos grupos armados... As populações de todas as partes defendem, por unanimidade, a versão que sustenta o poder local.

Isto é tão certo que o verdadeiro universalismo - aquele que reconhece o destino da humanidade na própria humanidade e, portanto, a nova e decisiva encarnação histórico-político da ideia comunista - não será um poder em escala mundial sem anular a dominação dos Estados pelas oligarquias proprietárias e seus agentes, a abstração financeira e, finalmente, as identidades e contra-identidades que assolam as mentes e necessitam morrer.

A identidade francesa: a “República”

Nesta guerra de identidades, a França tenta se distinguir com a invenção de seu totem: a “república democrática e laica” ou o “pacto republicano”. Este totem valoriza a ordem estabelecida pelo parlamento francês - pelo menos, desde a sua fundação, a saber, o massacre em 1871 de 20.000 trabalhadores nas ruas de Paris, por Adolphe Thiers, Jules Ferry, Jules Favre e outras vedetes da esquerda “republicana”.

Este “pacto republicano” ao qual aderiram muitos ex-esquerdistas, até o Charlie Hebdo, sempre suspeitou da trama de coisas assustadoras nos subúrbios, nas fábricas da periferia e nos bares escuros do subúrbio. Com inúmeros pretextos, uma República sempre povoada de prisões, de perigosos jovens mal educados que lá vivem. Na República, ocorreu também a multiplicação de massacres e de novas formas de escravidão exigidos para a manutenção da ordem no império colonial. É este império sangrento que encontrou seu estatuto de fundação nas declarações do mesmo Jules Ferry - indubitavelmente, um ativista do pacto republicano - que exaltava a “missão civilizadora” da França.

Agora, veja você, os inúmeros jovens que povoam nossos subúrbios, além de atividades suspeitas e flagrante falta de educação (estranhamente, ao que parece, a famosa “escola republicana” não tem sido capaz de fazer nada e assumir que a culpa é sua e não dos alunos), são filhos de proletários de origem africana ou vieram por conta própria da África para sobreviver e, consequentemente, na maioria das vezes, são muçulmanos. Em suma, de uma só vez, proletários e colonizados. Duas razões para desconfiar e tomar sérias medidas repressivas.

Suponhamos que você é um jovem negro ou um jovem com aspectos árabes, ou ainda, uma jovem mulher que decidiu, no sentido da livre revolta, já que é proibido, cobrir a cabeça. Bem, assim você terá sete ou oito vezes mais chances de ser parado na rua por nossa polícia democrática e, muitas vezes ser retido em uma delegacia, o que indica que se você tiver a cara de um “francês”, simplesmente, não deve ter a cara de um proletário nem de um ex-colonizado. Nem de um muçulmano.

Charlie Hebdo, em certo sentido, protestava com esses meios e costumes policiais no estilo “divertido” de piadas com conotação sexual. Nada muito novo. Lembrem-se das obscenidades de Voltaire sobre Joana d’Arc: a donzela de Orleans é um poema digno de Charlie Hebdo. Por si só, este poema sujo dirigido contra uma heroína sublimemente cristã, autoriza a dizer que as verdades e as luzes do pensamento crítico não são ilustradas por esse Voltaire medíocre.

Ele ilumina a sabedoria de Robespierre quando ele condena todos os que fazem da violência antirreligiosa o coração da Revolução e obtendo somente a deserção popular e a guerra civil. Ele nos convida a considerar que o que divide a opinião democrática francesa é, conscientemente ou não, o lado constantemente progressista e realmente democrático de Rousseau, ou então, o lado das negociatas, dos ricos e especuladores céticos e sensuais, que como o gênio do mal alojado neste Voltaire também é capaz, por sua vez, de autênticos combates.

O crime de tipo fascista

E os três jovens franceses que a polícia rapidamente matou? Eu diria que eles cometeram o que deve ser chamado de crime de tipo fascista. Eu chamo de crime de tipo fascista um crime que tem três características.

Em primeiro lugar, ele é orientado, não de maneira cega, por suas motivações ideológicas, de caráter fascista, que são estritamente identitárias: nacional, racial, comunitária, consuetudinária, religiosa... Nestas circunstancias, os assassinatos são antissemitas. Muitas vezes, o crime fascista visa publicitários, jornalistas, intelectuais e escritores tais como os assassinos representantes do lado oposto. Nas circunstancias, o Charlie Hebdo.

Em seguida, ele é de uma violência extrema, assumido, espetacularmente, dado que ele procura impor a ideia de uma determinação fria e absoluta que, no entanto, inclui de forma suicida a probabilidade de matar o assassino. Este aspecto de “viva la muerte!” de aparente niilismo, está em ação.

Em terceiro lugar, o crime visa, por sua grandiosidade, pelo seu efeito de surpresa, pelo seu lado fora da norma, criar um efeito de terror e estimular, por conseguinte, do lado do Estado e da opinião, reações descontroladas, completamente fechada em uma vingativa contra-identidade, as quais, aos olhos dos criminosos e dos seus patrões, justificarão após o fato, por simetria, o atentado sangrento. E foi isso o que aconteceu. Neste sentido, o crime fascista obteve uma espécie de vitória.

O Estado e a opinião

De fato, desde o inicio, o Estado estava envolvido na utilização desproporcional e extremamente perigosa de crime fascista, porque ele está inscrito no registro das identidades da Guerra Mundial. O “fanático muçulmano” se opõe descaradamente ao bom democrata francês.

A confusão estava no auge quando vimos o chamado do Estado, claramente autoritário, para a manifestação. Caso Manuel Valls não tivesse a intenção de capturar os fugitivos e não tivesse convocado as pessoas, uma vez que elas têm demonstrado uma obediência identitária sob a bandeira francesa, elas se esconderiam em suas casas ou vestiriam o uniforme de reservista sob o som da corneta na Síria.

Assim, no momento mais baixo de popularidade, nossos líderes têm tido a capacidade, através de três fascistas pervertidos que não poderiam imaginar tal triunfo, de aparecer diante de milhares de pessoas, também aterrorizadas pelos “muçulmanos” e alimentadas por vitaminas de democracia, o pacto republicano e a grandiosa soberba da França.

A liberdade de expressão, vamos falar sobre ela! Era praticamente impossível durante todos os primeiros dias deste caso, expressar o que estava acontecendo por outro ponto de vista que não aquele que consiste em se encantar por nossa liberdade, nossa República, em amaldiçoar a corrupção de nossa identidade por jovens muçulmanos proletários e suas filhas horrivelmente cobertas com véu, e em se preparar corajosamente para a guerra contra o terror. Ouvimos o seguinte grito dessa admirável liberdade de expressão: “Somos todos policiais”.

Na realidade é natural que o pensamento único e a submissão ao medo sejam regras em nosso país. A liberdade em geral, incluindo a de pensamento, de expressão, de ação, da própria vida, consiste, hoje em dia, em tornar-se unanimemente auxiliar da polícia para o rastreamento de dezenas de agrupamentos fascistas, para delação universal de suspeitos barbudos ou cobertos com véu, e criar uma exceção permanente nos escuros conjuntos habitacionais, herdeiros dos subúrbios onde já mataram os communards? Por outro lado, a tarefa central da emancipação, da liberdade pública, consiste em agir conjuntamente com a maioria desses jovens proletários dos subúrbios, a maioria das jovens, cobertas com véu ou não, pois isto não importa. Nos quadros de uma nova política, que não se refere a nenhuma identidade (“os proletários não tem pátria”) prepara-se uma figura igualitária de uma humanidade que finalmente se apropria do seu próprio destino? Uma política que considera de forma racional que nossos verdadeiros mestres impiedosos, os ricos governantes do nosso destino, devem ser finalmente demitidos?

Houve na França, há muito tempo, dois tipos de manifestações: as sob a bandeira vermelha e as sob a bandeira tricolor. Acredite em mim: no que concerne a reduzir a nada os pequenos grupos fascistas identitários e assassinos - aqueles que apelam para formas sectárias do Islã, a identidade nacional francesa ou a superioridade Ocidental -, não são as tricolores, controladas e utilizadas pelos poderosos, que são eficientes. Estas bandeiras são outras, as vermelhas, e que precisam voltar.

Desvendando o mistério do Boko Haram

Eric Draitser

CounterPunch: Tell the Facts and Name the Names

Tradução / As histórias de mistério mais divertidas são aquelas com protagonistas interessantes, antagonistas obscuros e enigmáticos, com conclusões surpreendentes e/ou chocantes. De fato, sem esses elementos essenciais, é provável que uma pessoa nem chegue ao final da história. Todavia, quando se trata de política e geopolítica, de alguma maneira nossos contadores de história na grande mídia - o exército de jornalistas e especialistas militares em contraterrorismo - não apenas falham em nos apontar a direção correta na história, como também não consegue enxergar as coisas óbvias nela presentes, preferindo fingir que elas simplesmente não existem. É assim que funciona com o grande “mistério” sobre o Boko Haram.

Um grupo que em apenas poucos anos se tornou uma das mais conhecidas entidades terroristas no mundo, tendo realizado hediondos massacres de homens, mulheres e crianças; sequestrado milhares de inocentes e destruído cidades inteiras, o Boko Haram simboliza agora perfeitamente a mistura de barbaridade, fundamentalismo ideológico e religioso – e sem ninguém com a pele branca, que veio a existir para serem vistos, especialmente perante olhos ocidentais, como a manifestação do mal –, o diabo encarnado que só pode ser destruído pelas forças da honradez, dos “bonzinhos”.

Mas o que acontece quando não há “bonzinhos” na história? O que acontece quando você segue a história apenas para descobrir as intenções mais cínicas de cada uma dos personagens envolvidos? Tal qual é essa história com o Boko Haram e, na realidade, também são as histórias da política regional e da geopolítica na África Ocidental.

Ao tentar destrinchar a rede labiríntica de ligações políticas, econômicas e estratégicas que conectam um número significativo de personagens, se torna claro que nenhuma análise sobre o Boko Haram vale ser lida, exceto quando aborda três ângulos distintos, mas ainda intimamente conectados.

Primeiro, temos a política interna da Nigéria e o problema do Boko Haram, com a percepção de uma responsabilidade, tanto do governo quanto da oposição, pelo caos que eles têm causado. Com as eleições marcadas para fevereiro, o Boko Haram e a segurança nacional se tornaram, compreensivelmente, os assuntos dominantes na opinião pública. As acusações mútuas de ambos os lados forneceram um importante pano de fundo para entender como o Boko Haram se insere tanto no discurso público quanto nas redes de estratégias nos bastidores da estratégia política da Nigéria e, de maneira mais ampla, da região como um todo.

O segundo ponto é o tabuleiro de xadrez político-econômico da região. Na África Ocidental, uma área rica em recursos estratégicos, existem alguns personagens que de fato têm algo a ganhar com os contínuos ataques do Boko Haram, que podem resultar em uma completa desestabilização do Estado nigeriano. O Chade, país de fronteira com a Nigéria, passou por um escrutínio do aparato militar nigeriano por seu suposto papel no financiamento e na expansão do Boko Haram. O governo chadiano está de olho nos lucros da Nigéria com o petróleo, enquanto ele mesmo tenta expandir suas capacidades de extração por toda a bacia do Chade - uma região geográfica que inclui significativas porções territoriais do Chade, Nigéria, Camarões e Níger. Além, claro, das principais empresas petrolíferas e das poderosas nações do Ocidente, que têm interesse em manter seus lucros vindos do petróleo no oeste africano.

Finalmente, e talvez mais importante, é a perspectiva global e continental: a Nigéria, como a economia mais dinâmica da África, apresenta grandes oportunidades e desafios para as maiores potências globais. Para a China, o país representa um de seus principais postos de investimento na África. Parceiro comercial chave para Pequim, a Nigéria recentemente se moveu em direção à órbita do Ocidente, transformando-se em um confiável, quiçá subserviente, aliado ocidental. Coincidentemente com esses fatos está a expansão da presença militar norte-americana por toda a África, principalmente na Oeste do continente, apesar desta não contar com toda a fanfarra midiática que a história do Ebola recebeu.

A mídia internacional se apropriou do trágico evento envolvendo as garotas de Chibok - com a onipresente hashtag #BringBackOurGirls - e, para a maioria das pessoas, isso é tudo o que elas sabem sobre o Boko Haram. Porém, tal compreensão superficial de uma das mais complexas histórias nos últimos anos, pouco faz para avançar no debate ou alcançar uma resolução. Em uma abordagem mais flexível no entendimento do caso, consegue-se colocar o Boko Haram em um contexto internacional mais amplo. Enquanto muitos dos detalhes permanecem obscuros - com poderosos personagens agindo nos bastidores -, os contornos de uma desestabilização regional e uma guerra por procuração já se tornam discerníveis.

As políticas do Boko Haram

Com as eleições nacionais a menos de um mês de distância, as facções em competição da estrutura política da Nigéria estão ocupadas tentando tornar seus adversários bodes expiatórios; com cada lado tentando implicar o outro em que estes estão, ou aliados ao Boko Haram, ou deliberadamente tentando capitalizar com a situação. Os dois maiores partidos do país, o governante Partido Democrático do Povo (PDP), liderado pelo presidente Goodluck Jonathan, e o Congresso Progressista (APC, sigla em inglês), tornaram o Boko Haram uma batata quente política, jogando o problema para o outro na esperança de que os eleitores associem o grupo ao partido adversário.

Em setembro de 2014, antes de o Boko Haram ganhar novamente as manchetes internacionais com seus ataques, o jogo sujo político já estava feroz. O presidente do Fórum de Conselheiros do PDP, Collins Onogu disse: “A maioiria daqueles que estão desabrigados no nordeste do país por conta do Boko Haram são membros do PDP. Quais foram seus crimes? O porta-voz do APC foi negligente para com seu dever e agora ele está dando declarações em nome do Boko Haram [...] o APC está usando a mídia para chantagear o presidente Goodluck Jonathan – seus planos são de tornar esse país ingovernável para ele”.

Enquanto a caracterização de Onogu sobre o assunto é certamente questionável, está muito claro que o PDP enxerga o caso do Boko Haram como um grande risco político para o partido e para o presidente Jonathan. É por essa razão que Onogu e outros líderes do PDP têm repetido as ameaças de “revelar os nomes dos membros do APC que patrocinam o Boko Haram”. É inteiramente possível que o PDP faça isso apenas para sabotar a campanha de seus oponentes, porém, é igualmente verdadeiro que o PDP está tentando desesperadamente se desassociar da culpa pela crise que se desenvolveu durante seu governo. De qualquer maneira, o PDP está tentando tornar o APC cúmplice pelo caos.

Por seu lado, o APC não apenas negou todas as acusações, como também rebateu as ameaças alegando que antigos oficiais do alto escalão do PDP estão intimamente envolvidos no financiamento do Boko Haram. O presidente nacional da sigla, John Oyegun disse, também em setembro passado. “O doutor Stephen Davis, que foi o homem contratado pelo governo de Goodluck Jonathan para negociar com o Boko Haram a libertação das garotas de Chibok, decidiu falar a verdade, pois acredita que a melhor maneira de vencer os insurgentes é revelar seus patrocinadores. E quem são eles? [Davis] nomeou o ex-governador de Borno, Ali Modu Sheriff, e o ex-chefe do exército, general Azubuike Ihejirika, como os financiadores do Boko Haram [...] Esses financiadores estão dentro do PDP e da presidência, eles são conhecidos do presidente Jonathan.”

Essas revelações, veemente negadas pelo PDP e pela administração Jonathan, certamente levantam importantes questões quanto às redes que estão apoiando e financiando o Boko Haram, assim como o porquê, quando e onde eles se organizaram originalmente. De acordo com informações confidenciais vazadas e obtidas pelo periódico nigeriano Premium Times, o ex-governador do Estado de Borno e aliado do presidente, de fato foi um dos principais organizadores do Boko Haram, baseando suas operações na fronteira com o Chade (e depois, dentro do país vizinho). As informações obtidas pelo jornal “pintam uma figura do que parece ser uma poderosa estrutura regional de apoio [ao Boko Haram], envolvendo o presidente do Chade, oficiais da Nigéria e do Níger, tendo como ponta de lança Ali Modu Sheriff, que aparenta ser uma poderosa figura dentro desse círculo”.

Somando-se a essa informação, estão as descobertas de um painel presidencial comissionado pelo presidente Jonatah: “O relatório traçou a origem das milícias privadas no Estado de Borno, em particular das que o Boko Haram faz parte, até políticos que as organizaram nas vésperas das eleições gerais em 2003. Tais milícias foram, supostamente, armadas e usadas como intimidadores políticos. Após as eleições, e tendo cumprido seu objetivo primário, os políticos largaram mão dessas milícias, uma vez que eles não podiam continuar financiando-os, nem contratá-los como funcionários. Sem qualquer meio de sustento, algumas dessas milícias gravitaram para o extremismo religioso”.

Certamente existem muitas questões a serem respondidas aqui. Seria Sheriff simplesmente um antigo aliado que decidiu “agir por conta própria” e estabeleceu seu próprio exército privado para enriquecer a si e a seus patrões estrangeiros? Ou será que Sheriff continua ligado, ao menos indiretamente, ao governo federal em Abuja e os militares nigerianos? De qualquer maneira, claramente existe uma complexa rede de relações conectando o Boko Haram com diversas partes na Nigéria, assim como em seus países vizinhos.

Segundo um memorando de 2011, vindo de oficiais da inteligência no Chade, “membros da seita Boko Haram são mantidos e treinados, algumas vezes, na região de Abeche (no Chade), antes de serem dispensados. Isso geralmente acontece quando o senhor Sheriff visita Abeche”. Assim sendo, até mesmo a mais conservadora das análises teria de admitir que é inegável a conexão entre a política doméstica da Nigéria, especialmente dentro do partido governante, com atores internacionais que têm seu próprios interesses – e são esses personagens, assim com suas motivações, que merecem uma análise cuidadosa.

Conflito regional, guerra por recursos naturais

As vastas riquezas da África Ocidental sempre foram almejadas, desde os tempos coloniais. Apenas a Nigéria se tornou um player global em termos de produção de petróleo, respondendo por pelo menos 8% as importações norte-americanas, apesar de isso ainda ser um debate se foi uma bênção ou uma maldição ao povo nigeriano. Por toda a região, interesses econômicos foram centrais nas políticas e na agenda de diversos líderes que têm tanto o cifrão brilhando em seus olhos, quanto o poder rondando suas mentes. Isso foi acelerado apenas nos últimos anos, especialmente depois da guerra imperialista que derrubou o antigo líder da Líbia Muammar Qaddafi, cuja presença, apesar de tudo, ainda servia para manter uma certa estabilidade regional, ao manter “na linha” personagens periféricos como Chade, Niger e outros. Naturalmente, o impacto de Qaddafi era sentido de maneira distintas por esses governantes que tinham suas ambições “contidas” pelo líbio.

Talvez não exista nenhum outro líder, nos últimos anos, mais ambicioso do que o presidente chadiano Idriss Déby, que tem um papel central em toda a história envolvendo o Boko Haram – desde acusações de que seu governo ofereceu a eles um “porto seguro”, até suas tentativas em acordar um cessar-fogo entre o grupo e o governo nigeriano. Mas o que o Chade teria a ganhar com isso?

Antes de responder a essa perguntar, se faz necessário relembrar a história de como Déby chegou ao poder. Curiosamente, sua ascensão à presidência se deve a Qaddafi que, após anos de guerra com o Chade – uma guerra que o próprio Déby liderou tropas contra as forças líbias –, apoiou Déby contra o antigo governo de Hissène Habré, que mantinha no país diversos líbios anti-Qaddafi com fortes laços com comunidade de inteligência dos EUA, como por exemplo o general Hifter. Assim sendo, a guerra liderada pela Otan que derrubou Qaddafi em 2011 mudou radicalmente o horizonte político da região. Subitamente, uma pessoa como Déby podia agora ir atrás de suas ambições sem o olhar vigilante do líder líbio. Com uma antiga rede estabelecida de tráfico de armas e combatentes, o Chade se tornou um importante ponto de trânsito no deserto do Saara

Nos anos recentes, a descoberta de petróleo ao longo da bacia do Chade transformou a maneira como os países da África Ocidental enxergavam seu futuro econômico. No coração dessa bacia está o Lago Chade, que divisa países como Camarões, o Níger, Nigéria e, claro, o Chade. De acordo com uma pesquisa de 2010 do escritório nacional de estudos geológicos dos EUA, a bacia Chade tem “estimativas de fornecer 2,32 bilhões de barris de petróleo, 14,65 trilhões de metros cúbicos de gás natural e 391 milhões de barris de gás natural líquido”. Tamanho potencial desses recursos certamente aguçou o paladar de personagens regionais e internacionais.

Todos os países que “estão” na bacia, expressaram seu desejo em explorar as reservas energéticas ali. Todavia, até agora, o único país que não conseguiu fazê-lo foi a Nigéria, por conta da presença do Boko Haram. Como lê-se em uma publicação, de março de 2014, da consultora energética Hart Energy, “entre 2011 e 2013, o governo nigeriano destinou 240 milhões de dólares para facilitar as atividades de exploração de gás e petróleo na bacia do Lago Chade [...] mas as atividades mortais do Boko Haram na região, interromperam os planos”. Então, enquanto a Nigéria é forçada a frear sua exploração no Lago, seus vizinhos Níger, Camarões e Chade, continuam a deles.

Permanecendo acima e por trás dessas atividades está a antiga potência colonial desses três países: a França. Hoje, o papel dominante do país europeu continua tendo seu porto de Le Havre como o destino final do petróleo não-refinado extraído debaixo dos pés dos africanos no oeste do continente. Desnecessário dizer que existem interesses muito poderosos tanto na África quanto na Europa que querem garantir que o fluxo desse precioso bem continue sem problemas. Além do mais, eles farão qualquer coisa para evitar que o maior exportador de petróleo da região, a Nigéria, participe do negócio.

É por esse motivo que o Boko Haram possui, de fato, o potencial de ser a fagulha de um conflito internacional. Mas quem teria interesse em ver toda a região da África Ocidental desestabilizada? Qual é o contexto geopolítico global para compreender essas questões complexas e interconectadas?

A segunda parte desse artigo examinará tais contextos, detalhando como os EUA e algumas potências da Europa estão explorando a situação para seu próprio ganho.

26 de janeiro de 2015

O desafio da Syriza

Binoy Kampmark

Combate à austeridade e pós-democracia na Grécia

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

“A tese escandalosa de Marx de que os governos são agentes de negócios para o capital internacional é hoje um fato óbvio com o qual ‘liberais’ e ‘socialistas’ concordam.”  
Jacques Rancière

Tradução / Ao redor da Europa, e mais especificamente, na zona do euro, um espectro não somente assombrou mas se materializou na forma de Alex Tsipras e do Partido Syriza. A Grécia acordou com um novo partido que nunca nem tinha visto um cargo. Qualquer partido europeu teria salivado com tal resultado - coalizões tendem a ser uma questão, é claro, e maiorias normalmente associadas com tipos autoritários. No caso grego, a ordem estabelecida durante o período pós-junta tinha sido anulada - ao menos em papel eleitoral.

Tsipras, aquém do número de 151 requerido para formar o governo, procurou apoio de seus parceiros em potencial. Até hoje, parece que o partido da ala de direita ANEL Gregos Independentes concordou em se unir. Ambos têm uma posição comum contra a política de “resgate”, e ainda assim deve ser revisto o que mais ambos têm em comum.

Isso imediatamente deixou os incumbentes remanescentes especulando que a união não duraria, uma tentativa desesperada de uma Schadenfreude prematura. Metros Doukas, ex- ministro representante de finanças, ponderou que, “Será muito mais difícil descobrir exatamente sobre quais políticas irão concordar.”

Uma mistura de euforia e terror se sucedeu ao resultado. A ultima reação é típica dos agentes de mercado que vêem ganhos sendo reduzidos em especulação e a petrificação do setor financeiro. O mercado, em tal linguajar, é uma divindade santificada que deveria ser protegida. Não é algo que se controle, muito menos dirigida pela mão humana. Tem seu próprio moralismo impenetrável.

Considerando o trabalho de Nick Squires (The Telegraph, 26 de janeiro), enquanto monitorava os números: “A aliança surpresa entre dois partidos firmemente ’anti-resgate’, amedrontou os mercados e despontou uma perda de quase 4% na Bolsa de Valores de Atenas assim como em outros lugares na Europa.”

Mas a vitória do Syriza é mais significativa em outro sentido: o desafio que impõe à democracia na zona do euro. As questões de austeridade e dívida não podem ser divorciadas do gerenciamento político. Onde, dada a vitória do Syriza, isso se encaixa na rubrica européia, desgastada como está? De um lado, o partido encara o que foi designado pelo filósofo Francês Jacques Rancière como o momento “pós-democrático”.

Instituições democráticas, nessa era, se identificam com o mercado abertamente e inquestionavelmente, fato que tira o brilho de sua responsabilidade pelos cidadãos estrangeiros. “De um Marxismo alegadamente defunto,” argumenta Rancière em “Dis-agreement” (1999), “o suposto liberalismo em vigor pega emprestado o tema da necessidade objetivada, identificada com as restrições e os caprichos do mercado mundial.” A diretoria da empresa e sala de reuniões do gabinete, tornaram-se um.

Ligada a isso está a criação da dívida, ou sociedade endividada, um sistema de controle que funciona impondo punições, fornecendo derrogação e punindo de acordo com a lógica do gestor. Ele trabalha de acordo com ditados bíblicos, moralizando o mundo da dívida, torcendo o nariz para os endividados, e torcendo ainda mais quando as dívidas são pagas.

Colin Crouch, que já havia escrito sobre pós-democracia em 2004, vê a política de austeridade grega adotada, e imposta pela troika, como sua forma última em ação, fanatismo com a dívida gerado de cima. É uma situação na qual banqueiros e financistas, responsáveis por uma crise (a Crise Global Financeira sendo seu trabalho supremo), manejam-na por governos submissos que, em troca, forjaram uma resposta simpática aos banqueiros e financistas “às custas do resto da população”.

Para Crouch, “a expressão mais explícita dos aspectos pós-democráticos da gestão da crise foi o enquadramento do pacote de austeridade da Grécia, desenvolvido por autoridades internacionais em colaboração com uma associação de banqueiros chefes” (LSE Blogs, 2013).

Alguns escritores sentem que estamos em outra etapa, mais ameaçadora, nos ritos fúnebres da democracia, algo muito mais sinistro: algo que totalmente a inverte, criando uma forma de totalitarismo contraproducente.

Uma pequena surpresa, então, que os líderes europeus alertem para um comportamento democrático irresponsável, um que irá liderar para corridas bancárias e instruções negativas do Banco Central Europeu. (8 bilhões de euros foram retirados da Grécia somente na semana passada). Ultimatos estão sendo sugeridos: se você é contra a austeridade, então você deve ser contra a zona do euro. David Cameron, Primeiro Ministro britânico, tendo recentemente parabenizado as conquistas do monarca Saudita autoritário falecido, Rei Abdullah, achou o julgamento democrático grego demais para suportar. “A eleição grega irá aumentar a incerteza econômica ao redor da Europa.” (Twitter, 25 de janeiro)

Por todas essas razões, a brigada da austeridade, com sua filosofia, foi espancada. Cortes selvagens e as chamadas reformas estruturais para a economia grega na realidade, serviam para aumentar o desemprego e diminuir o estado. Isso pode ser colocado diretamente aos pés daqueles que se tornaram os gestores econômicos da Grécia, esses gestores pós-democráticos em forma de Comissão Européia, Banco Central Europeu e FMI.

A montanha a ser escalada pelo Syriza é monumental. Vem março e 7 milhões de euros em dívida irão amadurecer com ameaça. Liquidez será necessária, mas Tsipras estará em seus direitos ao pedir pelo cancelamento e reajuste dos termos de resgate. Mas mesmo o cancelamento não irá tirar a Grécia do anzol, dará apenas uma falsa esperança e liberação de um sistema financeiro desigual dentro de uma zona que é artificialmente democrática. Nas palavras da banda grega de música eletrônica de 1992, Stereo Nova: “Meu país é uma colônia de uma colônia ainda maior.