30 de janeiro de 2015

Grécia, Estados Unidos e golpe neoliberal

Somos todos gregos agora

Rob Urie

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Desde os primeiros momentos da calamidade econômica que desabou sobre o ocidente em 2007, a resposta “oficial” sempre foi apresentada como sucessos modestos, com alguns poucos erros políticos. A realidade é outra: o que se tem é uma elite distante e seus agentes dedicados a aplicar políticas punitivas sob o disfarce de limitações econômicas materiais. Nesse contexto, a eleição de Alexis Tsipras e da coalizão “Syriza” na Grécia parece ser uma virada radical à esquerda, enquanto as propostas econômicas realmente apresentadas e que estão sendo discutidas não passam de ideias de economia de manual de meio-de-percurso que precederam o golpe neoliberal da década de 1970 nos EUA. E embora o Primeiro-Ministro Tsipras entenda muito mais dessa economia e de estratégias de decisão econômica que os líderes da União Europeia e dos EUA, as alavancas do poder permanecem presas firmemente em mãos desses líderes que lideram para o desencaminhamento.

Dito de outro modo, o sofrimento econômico de tantos é gratuita, violenta predação econômica executada sob o falso pretexto de inexistentes pressões materiais. Como no caso da Argentina, no início da década de 2000, a Grécia tinha uma “cleptocracia” nativa, ou “interna”, ligada em uma aliança “externa” a banqueiros internacionais, mediante mecanismos econômicos para promover o endividamento do país. O governo dos EUA poderia, se quisesse, ter expulsado os fundos “cheios de vento”, para gerar empregos para os americanos desempregados, mas escolheu não o fazer. No caso da Grécia, essa solução potencial é impossível, porque a Grécia é membro da União Europeia, sob condições que impedem esse procedimento. Foi em larga medida o que se viu no “alívio” das hipotecas, com os programas do Federal Reserve para comprar patrimônio nos EUA. Mas empréstimos subsequentes dos europeus aos gregos só ajudaram a reconstruir os cofres dos banqueiros europeus montados às costas do povo grego.

Gráfico (1) acima: em dezembro, 2014, estima-se que haja mais de 6 milhões de trabalhadores potenciais nos EUA, gente que quer trabalhar mas desistiu de procurar por causa do mercado de trabalho completamente adverso. O Economic Policy Institute (EPI) comparou estimativas de crescimento do mercado de trabalho e o crescimento real, e descobriu esses 6 milhões de trabalhadores. Porque esse método já levava em conta os aposentados previstos e outros que se previa que deixassem o mercado de trabalho, resta a economia, para explicar o altíssimo número de desempregados. Como FDR mostrou com os programas de trabalho do New Deal nos anos 1930s, o governo dos EUA pode criar empregos para os norte-americanos, se desejasse fazê-lo. Muito semelhante ao que se constata no modo como a elite alemã vê o povo grego, a elite norte-americana também pressupõe que os desempregados estejam desempregados por falta de motivação e empenho para encontrar trabalho. Fonte: EPI.

A ascensão da coligação Syriza na Grécia é desenvolvimento bem-vindo, se o Sr. Tsipras e seu governo compreenderem bem contra o que estão lutando, e agirem adequadamente. Seja sincero ou apenas tático-eleitoral o compromisso de não se retirar da União Europeia, fato é que as regras da UE proíbem inúmeras ações na economia grega, mesmo que sejam de simples organização interna da economia nacional. Reorganização da economia grega, pôr rédeas na cleptocracia e fazer os cleptocratas pagarem, usando esse dinheiro para melhoramentos sociais, é ideia que colide cabeça com cabeça contra as políticas de exploração máxima que a troika vive de infligir à Grécia. O que os liberais ocidentais chamam de “austeridade”, pode também ser interpretado pela experiência do último meio século de políticas de austeridade que o Fundo Monetário Internacional, FMI, impôs em vários pontos do mundo, para assegurar que os bancos sejam pagos, não importa a catástrofe social que resulte.

Essa longa história serve como contexto às políticas infligidas à Grécia. O “modelo” americano na América do Sul e na América Central era/é para instalar no poder, nos vários países, déspotas “pró-business”, cleptocratas nativos apoiados pela CIA, para que saqueiem “por dentro” os próprios países, ao mesmo tempo em que mantêm a boa ordem favorável aos interesses das empresas norte-americanas. Dito “esquerdista”, mas sempre eficaz ferramenta neoliberal, o presidente Carlos Menem levou a Argentina ao fundo do poço da crise argentina no início da década de 2000. A pedido do FMI, Menem implementou políticas de "austeridade" que levaram ao colapso da economia argentina e, na sequência, levaram ao colapso também de dois governos argentinos. Só quando o povo argentino rebelou-se e recusou a “austeridade” imposta pelo FMI é que foi que a resolução econômica foi possível.

Assim também, o FMI teve participação ativa em grande parte da ruína econômica do leste da Ásia e da Rússia na década de 1990, com políticas ditas de “desenvolvimento” baseadas em dogmas neoliberais apoiados em políticas de “austeridade” - quando as coisas inevitavelmente deram errado. Embora houvesse, sem dúvida, muitos verdadeiros crentes entre os banqueiros que promoveram então o programa neoliberal, assim como também os há no Banco Central Europeu hoje, as políticas que de fato estavam sendo implantadas eram projetos de banqueiros, que só interessavam a banqueiros, programas de repagamento que bancos aplicam a devedores delinquentes sem qualquer atenção às implicações nas políticas públicas. Equivale a dizer que as teorias econômicas apresentadas como de apoio às políticas do FMI quase sempre eram “teóricas”, e exigiam que os países deixassem de considerar vários séculos de história imperial; e nunca se basearam em exame fundamentado dos “fatos”.

Na Argentina no início da década de 2000 praticamente não havia qualquer dúvida sobre os interesses aos quais o FMI servia. A dívida “pública” que o FMI exigia que fosse saldada era na origem dívida privada, que foi socializada, riscos bancários e empresariais em geral convertidos em “deveres” e “dívidas” e “obrigações” que passaram a pesar sobre todo o povo argentino, não muito diferente dos trilhões em “valores” e depósitos bancários que os governos de George W. Bush e Obama desviaram de agências do governo federal dos EUA para salvar Wall Street em 2008. Essa “conversão” de dívidas privadas em dívidas públicas é um componente que nunca falta nos “planos” neoliberais. E a “privatização” de “bens” gregos que agora a coligação Syriza repudia, foi o mecanismo usado para saquear a Argentina pela mesma cleptocracia internacional, como política chave do FMI. Tudo isso para sugerir que os programas de austeridade que a troika quer aplicar à Grécia pouco têm a ver com economia teórica e tudo têm a ver com as ambições imperiais do ocidente. As políticas podem parecer “lógicas”, como teoria econômica, mas é uma “lógica” que emergiu de vários séculos de prática imperial.

Outro modo de ver as questões é perguntar onde o banco central dos EUA, o Federal Reserve, descobriu os US$ 4 trilhões para comprar ativos financeiros nos seus programas de Quantitative Easing (QE)? O dinheiro apareceu “do ar”, mediante algumas entradas digitais contra os bens comprados. O Banco Central Europeu também se serve desse “Fiat moeda”; fabrica dinheiro à vontade. Se falta dinheiro para fechar o balanço nos livros do Banco Central, qualquer valor nominal, tipo a moeda de um trilhão de dólares que está sendo proposta há algum tempo nos EUA cairá perfeita, como vinda do céu. A questão é que o Banco Central Europeu pode resolver tecnicamente - embora politicamente não possa fazê-lo - a dívida pública grega, com algumas simples teclas. Mas o caso é que a troika está usando a dívida como porrete político e econômico contra a Grécia, mais ou menos como aconteceu na Argentina na década de 2000 e está acontecendo atualmente no caso dos EUA. O “déficit” de orçamento que está sendo usado para vender “austeridade” é uma ficção. Não é que a contabilidade não seja “real”; é que aquela contabilidade representa mal o modo como os gastos do governo são realmente financiados, e é apresentada de modo deformado, para atender a interesses de grupos políticos no poder.

Gráfico (2) acima: assim como fatos imperiais são expostos por economistas e cientistas políticos como disputas entre teorias, como “escolhas políticas boas” versus “escolhas erradas”, também se expõe como se fosse “coincidência” que políticas fiscais que beneficiariam as classes pobres e médias seriam “impossíveis” por causa de limitações de orçamento... MAS o Fed “encontrar” US$ 4,5 trilhões de dólares para comprar papéis e beneficiar os mais ricos é possível. Em décadas recentes, os ganhos de capital pelo aumento do preço de venda de bens por cortesia do Fed encaminharam-se quase exclusivamente para os mais-mais ricos. A troika agora está pondo os contribuintes alemães em guerra contra os gregos “maus-pagadores”. Mas a verdadeira linha de combate está demarcada, isso sim, entre os banqueiros aos quais o Banco Central Europeu serve e o povo grego. Fonte: Emmanuel Saez.

O ponto de aproximar as vítimas de uma Grande Depressão forjada na Grécia com o suplício dos argentinos no início dos anos 2000 e com a subclasse sempre crescente dos muito pobres nos EUA é fazer ver que os problemas são sociais - luta de classes, não alguma função de limitações materiais. Cada uma dessas circunstâncias representa uma luta por recursos sociais; as diferenças são de distribuição econômica, não são limitações “naturais”. Os banqueiros do Banco Central Europeu podem até acreditar realmente que políticas de “austeridade expansionista” permitiriam aos gregos pagar dívidas impagáveis. Mas ao implantar políticas que tem história longa como políticas de saque, aqueles banqueiros tropeçam nessa história à qual devem satisfações. A capitulação serial da chamada “esquerda europeia” a essas políticas neoimperialistas só faz sentido se os líderes desses partidos ditos “de esquerda” veem-se, eles mesmos, como “insiders” do lado do império. A situação agora é clara: ou o Sr. Tsipras e a Coligação Syriza livram-se de vez dessas ilusões liberais, ou arrastarão o povo grego, junto com eles, para o fundo da cova.

A onda racista mal disfarçada que vem do norte da Europa e apregoa que o problema da Grécia é efeito de um “caráter nacional” encontra sua irmã gêmea nas elites norte-americanas, que veem o problema econômico como resultado do crescimento do número de pobres nos EUA. O modelo de Mitt Romney, dos “fazedores versus roubadores” é sabedoria consagrada nos guetos de banqueiros e altos executivos de empresas em todos os EUA. Começa agora um esforço para auditar a dívida grega e compreender como, para quê, com que objetivo o país endividou-se. Enquanto cortavam-se serviços sociais na Grécia, prosseguiam os negócios de compra e venda entre o governo grego e empresas alemãs e francesas fabricantes de armas, tudo pago com o suor do povo grego. Quando se auditou a dívida argentina, descobriu-se que 70% do “devido” era dívida inventada, resultado de fraudes, dívida privada tomada por interesses privados e no interesse de empresas privadas, convertida em dívida pública para roubar o povo argentino.

As políticas econômicas forçadas contra a Grécia estão sendo impostas em diferentes graus por todo o ocidente. Os sistemas de educação pública nas grandes cidades como Chicago, Filadélfia e Detroit estão sendo sistematicamente saqueados por ideólogos neoliberais e “gerentes” que trabalham a favor do próprio interesse. A ideia é promover a “eficiência” econômica como se fosse eficiência operacional: o mínimo serviço prestado, pelo máximo lucro auferido. Cortam-se aposentadorias sob o pretexto de que faltariam fundos, quando impostos e taxas concebidos para manter aquelas aposentadorias são desviados ou cortados para criar “mercados” de onde os mais ricos podem arrancar lucros. E o governo Obama deixou milhões de famílias roubadas nos empréstimos de hipotecas predatórias com dívidas maiores que o valor das próprias casas, enquanto os bancos que fizeram os empréstimos-assaltos são “resgatados” e voltam a operar normalmente. Na Grécia, o Sr. Tsipras continua até aqui a dizer as coisas certas. E o que está dizendo só é “radical” no contexto da virada em direção à direita mais reacionária pela qual passa o neoliberalismo nos últimos 40 anos. As políticas econômicas impostas contra a Grécia são mais draconianas que o que se vê no núcleo de EUA e Europa, mas só no grau, não no tipo. Wall Street, que inclui grandes bancos alemães e franceses sempre usaram crises inventadas para intervir em golpes “soft” pelo mundo, ao longo de décadas. A dívida é usada como arma. O povo grego tem batalha muito difícil a enfrentar. Mas o golpe neoliberal é internacional e internacionalista. Norte-americanos e europeus do norte que creiam que estejam do lado “vencedor” apenas ainda conservam o emprego e a poupança; até que também lhes sejam roubados. Em maior ou meor grau, somos todos gregos agora.

29 de janeiro de 2015

Por dentro do Boko Haram

Eric Draitser

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / A primeira parte dos artigos sobre o Boko Haram teve como foco o relacionamento do grupo radical com a política interna da Nigéria, assim como a disputa regional por recursos naturais que se desenvolveu ao redor do Lago Chade. O texto revelava as conexões de indivíduos e redes, tanto na Nigéria como no vizinho Chade, que são apoiadores e facilitadores ativos do Boko Haram - e, dessa maneira, participando de um perigoso jogo de desestabilização da região. Naturalmente, a pergunta se torna: por que? É o interesse de quem que essa desestabilização aconteça? Quais são as engrenagens econômicas e geopolíticas fazendo a máquina girar?

Pelos últimos 500 anos, os europeus olharam para a África como uma potencial fonte para riqueza e poder. Desde as primeiras expedições portuguesas até os dias atuais, o Ocidente ambiciona as vastas, e aparentemente infinitas, riquezas do continente: indo do ouro, diamante e outros metais preciosos até as fontes energéticas e, claro, impossível não mencionar, o trabalho humano.

Examinando a complexa rede de relações conectando os eventos na África Ocidental, uma perturbadora, mas nada surpreendente, tendência aparece: ao mesmo tempo em que os interesses econômicos e geopolíticos do Ocidente aumentam, a instabilidade na região também aumenta; enquanto os EUA e a Europa invocam ad nauseam o termo “estabilidade”, a realidade é que o caos e a instabilidade da África servem perfeitamente aos seus objetivos neocoloniais.

A França, por exemplo, que por séculos foi uma potência dominante na África, figura entre os principais personagens desse século XXI na competição para continuar enriquecendo às custas do continente africano. Em suas antigas colônias na África Ocidental, a França novamente se estabeleceu como uma potência militar e, principalmente, econômica. Usando os pretextos siameses de “terrorismo” e “humanitarismo”, a França foi bem sucedida em disfarçar suas reais intenções na região: a pilhagem de recursos minerais e energéticos. Porém, uma vez que o imperialismo nu e cru de outrora é politicamente inaceitável nos dias de hoje, a França tem se apresentado como um benevolente patrão, uma potência altruísta que simplesmente quer ajudar suas antigas crianças coloniais a ficarem de pé, mas não é necessário uma análise muito profunda para deixar claro que aquela França que escravizou o Haiti, colonizou boa parte do Norte da África e explorou impiedosamente a África Ocidental, continua muito viva.

Mas os franceses certamente não são os únicos de olho no potencial econômica do oeste africano. Recentemente, a Alemanha entrou na briga, deixando claro que ela buscar se tornar mais assertiva militar e economicamente na região. Sendo o principal motor econômico da Europa, a Alemanha desfruta da confortável posição de tirar vantagem da combinação de insegurança e enorme crescimento demográfico na África Ocidental. Em Gana, Nigéria e outros países, a Alemanha visualiza um enorme mercado potencial para suas exportações, assim como um melhor posicionamento militar. E, claro, existe o inescapável e intratável poderio militar dos Estados Unidos, que têm silenciosa e continuamente aumentado sua presença militar – ou sua “pegada”, para usar o linguajar dos planejadores estratégicos da Africom (ironicamente com sede na Alemanha) – por todo o continente. Essa ensurdecedora expansão militar silenciosa tem, em sua raiz, o objetivo de cortar a crescente influência econômica da China por toda a África, transformando o continente em uma espécie de “campo de batalhas terceirizado”, onde a desestabilização é uma potente arma. Todavia, será a população africana que pagará com sangue pelas ambições econômicas e geopolíticas do Ocidente.

Conheça o novo chefe, o mesmo antigo chefe

A crescente instabilidade por toda a África Ocidental francófona forneceu ao país europeu a desculpa perfeita para reafirmar sua hegemonia nas antigas colônias. O golpe de estado de 2012 no Mali, a subsequente guerra civil e o crescimento do terrorismo deram à França a abertura que precisavam para estacionar permanentemente suas forças militares por toda a região. Apesar da retórica de democracia, estabilidade e o Estado de direito, a França possui motivações interesseiras. No que diz respeito ao Boko Haram, a Nigéria e a bacia do Lago Chade, a França é o maior beneficiário da extração energética do local, uma vez que seu porto de Le Havre é o destino final do petróleo não-refinado.

Além da energia, os interesses econômicos da França se estendem à lucrativa exploração de minérios por toda a região. No anúncio de uma nova companhia mineradora estatal - cujo governo “socialista” do primeiro-ministro François Hollande investiu mais de meio bilhões de dólares - o ministro da indústrias francês Arnaud Montebourg afirmou que “os países da África francófona gostariam mais de trabalhar conosco [França] do que com empresas estrangeiras”. Naturalmente, deve-se perguntar o quanto de voz esses países, sem mencionar seus cidadãos, têm sobre o assunto.

Além do mais, o uso das palavras “empresas estrangeiras” é bem reveladora. De um lado, parece que na mentalidade da elite empresarial e política da França, eles não são “estrangeiros” quando operando em países francófonos - o neocolonialismo nessa mentalidade é impossível de ignorar; por outro lado, é claro também a quem o francês se referia quando falou de “empresas estrangeiras”: a China.

Somando-se a isso, estão os vastos depósitos de urânio na África francófona. Como a Think Africa Press, relatou em 2014, a “França tem cerca de 75% de sua eletricidade gerada por energia nuclear e é, em grande parte, dependente do Níger para suprir sua demanda de urânio. Essa dependência pode aumentar ainda mais após a recente descoberta do depósito Imouraren, que tem o potencial de produzir 5 mil toneladas de urânio por ano, transformando o Níger no segundo maior produtor de urânio no mundo. A Areva, que tem 87% de suas ações na mão do governo francês - que também é o acionista majoritário em três das quatros mineradores de urânio operando no Níger - está financiando a nova mina”.

O presidente nigeriano Mahamadou Issoufou, é um ex-funcionário da Areva, que apesar de ter maior parte de seu capital francês, possui quase um monopólio na exploração do urânio no Níger. Assim sendo, não deveria ser surpresa alguma que a rivalidade com a Areva vem da Somina, que tem 37% de suas ações na mãos dos chineses”.

Outra evidência da orientação da França de estabelecer a hegemonia em sua “esfera de influência” na África é o documento intitulado “Um parceria para o futuro: 15 propostas para uma nova dinâmica entre África e França“, que pode ser encarada como uma planta para a política francesa na região. Sem dúvida, essa nova ênfase se deve ao fato de que “na última década, a parcela da França no comércio africano caiu de 10% para 4,76%, enquanto a participação da China na África aumentou para 16%, em 2011”.

Os alemães estão chegando

Enquanto o envolvimento da Alemanha na África nunca foi profundo, ou sequer duradouro, como aconteceu com a França, Reino Unido e outros impérios europeus, não se pode diminuir o papel alemão no que tange ao imperialismo. Apesar de a “Partilha da África” no final do século 19 em Berlim ter ficado bem para trás no retrovisor da Alemanha, o país germânico demonstra cada vez mais querer ser um ator no cenário africano – militar e economicamente.

Em uma publicação recente que levou o título de “Diretrizes políticas do governo federal para a África“, o governo alemão aponta que “o potencial da África deriva de seu desenvolvimento demográfico e do fato de que é um enorme mercado para o futuro, com forte crescimento econômico, riqueza em recursos naturais e um grande potencial para a expansão da produção agrícola e segurança alimentar por seus próprios esforços”.

Talvez seja por isso que a chanceler alemã Angela Merkel reiterou o comprometimento do país emfornecer assistência militar (apoio financeiro, treinamento, logística etc.) para sua parceira de longa data, Gana; e é através dessa parceria, que a Alemanha usará Gana como intermediária para expandir sua presença militar na região. Após um encontro recente com os líderes de ambos os países, o site oficial do governo foi de que, em resposta à ameaça do Boko Haram, “Angela Merkel apoiou a proposta do presidente de Gana para fundar uma força de intervenção regional [...] No interesse de promover a paz e prevenir crises, a Alemanha está trabalhando para estabelecer estruturas de segurança, parcialmente através do Centro Internacional de Treinamento para Manutenção da Paz Kofi Annan, fundada há 10 anos com apoio da Alemanha”.

É claro que a Alemanha enxerga em Gana um parceiro viável para aumentar sua presença militar na região. Utilizando o Boko Haram como pretexto, parece que novamente a força militar alemã, aliada com o apoio financeiro, será usada para garantir o acesso ao mercado que a Alemanha tanto precisa.

Assim como a França, a Alemanha busca usar seu aparato militar e a Guerra ao Terror, para garantir sua posição econômica e não ficar para trás na, cada vez mais, posição hegemônica da China.

O elefante (imperialista) na sala

Enquanto Alemanha e França têm claras motivações econômicas para expandir sua presença na África Ocidental, a agenda dos EUA é menos óbvia. Apesar de os EUA investirem pesado na África, os norte-americanos não são tão dependentes dos recursos africanos como são seus aliados europeus. Ao invés disso, a preocupação de Washington é ser ultrapassado pela China, dentro do continente.

Em um relatório de 2013 sobre o investimento chinês na África, constatou-se que “as importações e exportações da China, subiu de 10 bilhões de dólares em 2000, para 166,3 bilhões em 2011″. Isso indica que a China tem rapidamente desafiado a hegemonia econômica dos EUA na África. Ao investir em uma variedade de setores – mineração, petróleo, telecomunicações, finanças e outros – a China se tornou uma alternativa viável aos investimentos e assistência dos EUA, Banco Mundial e FMI. Naturalmente, isso abala as estruturas do establishment político e econômico dos EUA que enxergam na China uma ameaça a seu poder. É precisamente desse desafio vindo da China é que a real motivação para sua expansão silenciosa para a presença militar dos EUA no continente, especialmente na África Ocidental e no Sahel.

Os Estados Unidos também estabeleceram uma vasta rede de bases e instalações de drones por toda a região. Apesar de os oficiais militares se recusarem em reconhecer essas instalações como nada mais que “áreas temporárias de treinamento” ou algum outro eufemismo. Porém, basta uma simples visualização do mapa, combinada com relatórios díspares de diversos meios de comunicação, para perceber uma imagem muito mais traiçoeira do que os EUA estão fazendo.

2012: de acordo com o Washington Post, “um ponto chave na rede de espionagem dos EUA pode ser encontrada em Ougadougou, capital de Burkina Faso [...] Onde um programa confidencial de vigilância chamado Creek Sand, foi conduzido para estabelecer uma pequena base aérea ao lado do aeroporto internacional da cidade. Diversos aviões de vigilância voam centenas de quilômetros até o Mali, a Mauritânia e o Saara, mais ao norte”.

2013: os EUA anunciaram a construção de uma enorme base para drones no Níger, novamente, segundo o Washington Post, “devido a importância estratégica na África Ocidental [...] O Níger faz fronteira com a Líbia e Nigéria, que também têm lutado para combater os movimentos extremistas armados [...] O próprio presidente Mahamadou disse ‘Nós damos boas vindas aos drones [...] Nós dependemos de países como a França e os EUA. Nós precisamos de cooperação para garantir nossa segurança”.

E nisso fica claro a conexão do engajamento militar dos EUA com o Boko Haram e outros grupos terroristas: os norte-americanos utilizam cinicamente a instabilidade da região – causada diretamente pela guerra liderada por eles e pela Otan contra a Líbia – para aumentarem ainda mais sua força militar na África. Como pôde ser observado em setembro de 2014, quando o Marine Corps Times, o jornal do corpo de fuzileiros navais dos EUA, anunciou que “o Corpo estabeleceu três novos postos em Senegal, Gana e Gabão que ajudarão os Marines a responder mais rapidamente às crises na África”.

Sob os auspícios da Africom, os EUA estão presente em praticamente todos os países significantes da região. No Chade, que figura de maneira proeminente na narrativa do Boko Haram, os EUA possuem umcontingente militarestacionado indefinidamente com o objetivo de buscar pelas garotas raptadas de Chibok. Todavia, enquanto os EUA admitem apenas um pequeno destacamento de soldados, a verdade é que as forças dos EUA estão muito mais envolvidas no Chade, de uma maneira ou de outra. Talvez isso esteja melhor ilustrado no fato de que o Chade foi selecionado para sediar os exercícios militares da Flintlock 2015, da Africom, “que terão início em 16 de fevereiro, na capital N’Djamena, com a participação do Níger, Nigéria, Camarões e Tunísia, e terminarão apenas em 9 de março de 2015″. Ou seja, os EUA escolheram conduzir exercícios militares por toda a região, com atenção específica aos países da bacia do Lago Chade.

Os EUA vêm estabelecendo ostensivamente essa rede de bases para propósitos contra o terrorismo e grupos como Boko Haram, Al-Qaeda, entre outros. Mas quem consegue ler nas entrelinhas pode ver claramente que a infraestrutura militar, de vigilância e assistência aos países da região são parte de uma tentativa coordenada dos EUA para conter a crescente influência da China no continente. Os EUA sabem perfeitamente que não são capazes de competir com os chineses em termos de investimento e comércio na África. Assim sendo, os norte-americanos apelam com a única coisa em que têm vantagem, sua força militar; e o terrorismo passa a ser menos uma ameaça, e mais uma janela de oportunidades para cimentar a posição de Washington como dominante hegemônico na África.Talvez, a maior tragédia é que o destino das garotas de Chibok, assim como os inocentes em Baga e outras partes do nordeste da Nigéria, a da África Ocidental, tenha se tornado apenas uma reflexão dentro de um grande esquema imperialista na África. Suas vidas foram reduzidas a moeda de troca para a vantagem da França, Alemanha e, principalmente, EUA.

But of course, mum’s the word when it comes to these uncomfortable truths.  “Nothing to see here,” our fearless media tells us.  Sadly, for the vast majority of people in the West, this is undeniably true; there is simply nothing worth seeing.

28 de janeiro de 2015

Uma estratégia de rupturas: Dez teses sobre o futuro grego

Panagiotis Sotiris

Viewpoint Magazine

Aleksandr Vesnin, Proposta de Monumento à Terceira Internacional, 1921

I

Tradução / O dia 25 de janeiro de 2015 foi um marco de uma mudança histórica no período recente da história grega. Depois de cinco anos de uma austeridade devastadora, de uma crise social sem precedentes na Europa e de uma série de lutas que em certos momentos, especialmente entre 2010 e 2012, tiveram um caráter quase insurrecional, finalmente surgiu uma grande ruptura política. Os partidos que foram responsáveis por colocar a sociedade grega sob a supervisão disciplinar da chamada Troika (União Europeia-Banco Central Europeu-Fundo Monetário Internacional) sofreram uma humilhante derrota. O Paneˈlinio Sosjalistiˈko ˈCinima (Pasok – Movimento Socialista Pan-helênico), que em 2009 chegou a ganhar 44% dos votos, recebeu agora míseros 4,68%; o seu racha partidário, liderado por Giorgio Papandreou, o primeiro-ministro do Pasok que deu início aos programas de austeridade, recebeu 2,46% dos votos. A ˈNea Ðimokraˈtia (Nova Democracia) fez 27,81% dos votos, quase 9% menos que o Synaspismós Rizospastikís Aristerás (Syriza – Coalização da Esquerda Radical). A ascensão eleitoral dos fascistas da Chrysí Avgí (Aurora Dourada) foi interrompida, ainda que eles mantenham um preocupante índice de 6% dos votos. Outro partido pró-austeridade, o To Potami (O Rio), representando a agenda neoliberal (ainda que nominalmente se afirme como centro-esquerda) conseguiu apenas 6,05%, apesar de uma intensa campanha midiática.

De certa forma, essa foi a vingança eleitoral de uma sociedade que sofreu e lutou contra aqueles responsáveis pelo seu sofrimento. Nós não podemos esquecer que a Grécia viu o seu índice oficial de desemprego atingir 27% – e o desemprego dos jovens chegar a 50% – e também que sofreu uma contração cumulativa de 25%, além de ter visto uma redução massiva em salários e aposentadorias, tendo testemunhado a criação de uma violenta legislação orientada para privatizar, liberalizar o mercado de trabalho e reformar as universidades pelo paradigma neoliberal.

II

O Syriza teve uma importante vitória, com 36,34% dos votos e 149 deputados (precisava apenas de mais dois para ter uma maioria absoluta no parlamento). Simbolicamente, essa foi uma vitória histórica. Pela primeira vez na história moderna da Europa, um partido não-social-democrata de esquerda irá formar um governo. Em um país no qual a esquerda foi perseguida durante boa parte do século XX, a imagem de um primeiro ministro cujo primeiro ato após a sua posse foi visitar o lugar onde 200 comunistas foram executados no 1º de maio de 1944, parece até a revanche simbólica de uma história cheia de lutas. Essa mudança política à esquerda é o resultado de deslocamentos tectônicos nas relações políticas e econômicas de representação induzidos não apenas pela crise econômica e social, mas também por um longo ciclo de lutas contra austeridade que agiu como catalizador de novas identidades políticas radicais e novas formas de pertencimento. E sendo assim, ela manda uma importante mensagem de mudança e resistência para toda a Europa e já se tornou uma fonte de inspiração, algo evidente diante da entusiasmada reação do resto da esquerda europeia.

III

Durante a campanha eleitoral, a virada “realista” e à direita do Syriza ficou bastante evidente. A liderança do Syriza abandonou a exigência de uma imediata revogação do memorandum (as condições ligadas aos acordos de empréstimos), que foi o seu principal ponto na campanha de 2012. Ela se afastou da posição de “não se sacrificar pelo Euro”. A nacionalização do sistema bancário não é mais uma de suas exigências mais urgentes. A principal posição programática do Syriza é uma tentativa de pôr fim à austeridade enquanto se mantém a rede institucional, monetária e financeira da zona do euro e da União Europeia (UE). Eles afirmaram sua habilidade de negociar e reestruturar uma redução possível da dívida grega com os credores da UE e do Fundo Monetário Internacional (FMI). Ao mesmo tempo, eles passaram a apoiar a ideia de usar contra a austeridade a versão europeia da “flexibilização quantitativa” que o Banco Central Europeu (BCE) recentemente deu início. Mais do que isso, eles insistiram na possibilidade de uma mudança na direção da UE baseada na ascensão de movimentos de esquerda na Europa meridional ou na Irlanda e nas divergências entre o governo alemão e o BCE, ou entre Angela Merkel e Matteo Renzi. A principal posição política do Syriza ao chegar ao poder, de acordo com suas declarações pré-eleitorais, será de criar uma rede de segurança social ao aumentar o salário mínimo novamente para 751 euros, reestatizar direitos básicos trabalhistas, reverter as demissões de empregados do setor público, oferecer assistência imediata para 300 mil famílias abaixo da linha da pobreza, criar empregos e aumentar as aposentadorias. Não há dúvidas de que essas medidas são urgentemente necessárias.

Porém, na atual correlação de forças dentro da UE, mesmo uma sutil afrouxada nas cordas da austeridade pode não ser possível. Não é como se tal ruptura com a austeridade fosse impossível em termos financeiros; na verdade, a profundidade da crise da zona do euro, como resultado primordial do profundo e institucionalizado neoliberalismo da “integração europeia”, faz com que as elites europeias fiquem temerosas de qualquer coisa que possa parecer uma mudança de paradigmas. Isso é especialmente verdade se levar em consideração a crise da dívida na Itália e o aumento do déficit francês. Então é mais provável que durante as negociações, a UE tente empurrar para a continuidade de alguma forma de política de austeridade, ao menos para mandar uma mensagem de que ninguém pode escapar da norma. Não se pode esquecer que a Grécia ainda é dependente dos empréstimos da UE e da liquidez do BCE, assim como o fato de que o novo governo irá enfrentar uma situação de cofres públicos vazios e de necessidade de gastos urgentes. Lidar com esses problemas emergenciais, ao mesmo tempo em que tem de enfrentar as pressões da UE, é um dos desafios que o governo terá de conduzir. Além disso, não se pode esquecer que parte dos programas de austeridade, o novo limite de crédito oferecido aos gregos, não dependia somente de metas fiscais, como superávit primário (ele mesmo uma forma de austeridade), mas também na implementação de legislação e reformas neoliberais. Existirá um esforço para aplicar esse mesmo caminho diante de qualquer proposta de perdão da dívida. Nas palavras do Financial Times, “nenhuma das propostas do Sr. Tsipiras [primeiro ministro grego] para o perdão da dívida conseguirá ser ouvida ao menos que ele prometa continuar comprometido com as reformas da economia e da administração pública da Grécia.”

IV

À luz dos desafios citados acima, a necessidade de uma ruptura com a dívida, com o euro e com os tratados firmados com a UE é urgente. Parece claro que somente a interrupção ou a moratória do pagamento da dívida e sua consequente anulação podem garantir ao governo grego a capacidade de aumentar os gastos públicos para conseguir, assim, reverter as consequências da austeridade. É também óbvio que somente através da revogação do grosso das reformas neoliberais impostas à Grécia nos últimos anos será possível realizar uma política mais progressista. Tal processo levará, inevitavelmente, a um confronto contra todo o mecanismo supervisório da UE e as disposições ligadas aos engenheiros da zona do euro. Nesse ponto, a ruptura com o euro e um consequente retorno à soberania monetária permanece sendo uma necessidade premente – o ponto de partida para qualquer política progressista.

V

Além disso, é evidente que o povo lutou nos últimos tempos por muito mais do que uma “rede social de proteção”. Reverter o desastre social causado pela austeridade é o primeiro e necessário passo. Porém, a profunda crise social e política na Grécia, enquanto momento “catártico”, oferece também a possibilidade de um rumo social e político que se afaste do neoliberalismo e do consumismo impulsionado por dívidas. Isso significa que sair da austeridade não pode ser simplesmente visto como um retorno ao “crescimento”, mas como o início de um processo de experimentação com um paradigma alternativo de desenvolvimento baseado na autogestão, em novas formas de planejamento democrático e participativo e se beneficiando da experiência e da engenhosidade do povo que luta.

VI

Sem a necessária maioria parlamentar, o Syriza formou um governo com o Anexartitoi Ellines (Anel – Partido Independente Grego). Os independentes gregos são um peculiar híbrido de populismo e valores tradicionais da direita, com laços em segmentos tais como os empresários e o clero. Eles foram antiausteridade desde o momento em que se separaram da Nova Democracia. A liderança do Syriza pretendeu formar um governo com os independentes gregos logo no início. Isso faz parte de uma mudança na retórica política que vai da posição do “governo de esquerda” para uma posição de um “governo de resgate social ao redor do Syriza” marcada pela anti-austeridade. Mais do que isso, Panos Kammenos, líder dos independentes gregos e novo ministro da Defesa fez uma campanha com o seguinte slogan: “coloque-me no Parlamento para que eu possa controlar o esquerdismo do Syriza.”

Ao mesmo tempo, deve-se ressaltar que nunca fora discutida uma aliança com o Kommounistikó Kómma Elládas (KKE - Partido Comunista da Grécia), pois tal aliança poderia significar a possibilidade de uma coalizão radical anti-UE. Isso é algo que tanto o Syriza quanto o KKE não querem: o Syriza, porque tem uma posição pró-UE e pró-euro; o KKE porque tem uma posição derrotista e sectária e se recusa a ver qualquer possibilidade de mudança. Em termos econômicos, é possível encontrar um equilíbrio dentro do novo governo. De fato, pode-se dizer que em certos aspectos, os independentes gregos são mais “populistas” do que a própria liderança do Syriza. Os independentes não são anti-UE, ou anti-euro; consequentemente, não haverá divergências entre eles e o Syriza nessa frente. Acerca da questão de direitos (como por exemplo, os direitos LGBTs), a relação com a Igreja, a política imigratória, etc., deve haver tensões, mas no geral – e levando em conta a virada “realista” da liderança do Syriza – parece que, ao menos inicialmente, essa coalizão funcionou. O que também fortalece – nacionalmente quanto internacionalmente – a tentativa de apresentar um novo governo como uma coalizão anti-austeridade, não como um governo da esquerda.

VII

Sobre as demais tendências do campo da esquerda, deve-se destacar que o Partido Comunista teve um pequeno aumento nos votos (de 4,5% em junho de 2012 para 5,47% agora). Durante a campanha eleitoral este manteve um tom bastante sectário, desprezando o Syriza enquanto alternativa e apresentando a força do seu próprio partido como a única saída viável. Porém, o traço característico da linha política do KKE é a sua insistência de que ao menos que o “oportunismo” seja derrotado, não haverá processo de transformação social. Essa postura derrotista é a base da tática sectária do partido. A esquerda anti-UE, representada pela coligação Antikapitalistiki Aristeri Synergasia gia tin Anatropi-Mars (Antarsya-Mars – Frente da Esquerda Grega Anticapitalista) foi melhor em 2014 do que em 2012 (0,64% em relação aos 0,33% da eleição anterior), mas foi bastante pressionada numa eleição extremamente polarizada. Apesar de suas tentativas de fazer uma campanha de oposição de esquerda nãosectária à virada direitista do Syriza, este setor não conseguiu um resultado eleitoral condizente com seu apelo dentro dos movimentos sociais.

VIII

O período posterior às eleições trouxe importantes desafios, especialmente para a esquerda radical. O primeiro é reconstruir o movimento em seu sentido mais profundo. A mudança política e o novo sentimento de otimismo das classes subalternas precisa ser transformado em uma nova onda de lutas. Somente novas mobilizações podem exercer a pressão necessária sobre o governo do Syriza, especialmente sob suas promessas, para garantir que os servidores públicos sejam readmitidos em seus empregos, que a ERT (a rede pública de televisão) seja reaberta, para que a luta pelo rechaço às reformas neoliberais continue. Isso é importante pois restaura a confiança do povo em sua habilidade de mudar suas vidas e, com isso, exigir políticas mais radicais – um necessário contrapeso diante das pressões e chantagens de organismos internacionais.

Sem uma sociedade engajada na luta, ou seja, uma sociedade engajada nas práticas coletivas de resistência e transformação, nenhum processo de mudança social pode ser iniciado. O ciclo de lutas vivido na Grécia dos últimos anos foi um catalizador para as mudanças eleitorais que levaram à virada do eleitorado para a esquerda. De certa forma, os resultados eleitorais também foram traduções políticas das dinâmicas de protestos e contestações. É preciso uma ressurgência do movimento em termos de luta e também de aspirações, um excedente de força social necessário tanto como pressão sob o governo, como contrapeso diante da chantagem vinda da UE, mas também como catalizador de novas formas de radicalização.

IX

O debate sobre estratégia deve continuar. O desafio não é simplesmente ter um tipo de governança progressista dentro das imposições proibitivas feitas pela UE e pela zona do Euro. O desafio se coloca na articulação de uma nova dialética das demandas imediatas e das mudanças radicais, não apenas no sentido de acabar com o fardo da dívida e com o euro, mas também – e principalmente – no sentido da experiência de novas configurações sociais. Para a esquerda radical grega anti-UE o mais importante não é se colocar como uma “oposição de esquerda” ao Syriza, não importa o quão útil isso possa ser no cenário político onde toda a oposição ao Syriza virá da direita. O que importa é elaborar uma alternativa de esquerda, uma estratégia de rupturas e interrupções (incluídos aqui o neoliberalismo, o euro, as dívidas, etc.). Este é exatamente o tipo de alternativa urgentemente necessária na medida em que a estratégia do Syriza se choca com a parede da chantagem da União Europeia e com a contraofensiva das forças do capital.

X

A Grécia entrou em uma nova fase, em que se tornou possível escrever coletivamente uma nova página na história. Até aqui, este país mediterrâneo foi o campo de testes dos experimentos neoliberais mais agressivos desde o Chile de Augusto Pinochet. Agora, existe o potencial para transformá-la em um laboratório de esperanças. Isso exige confiança na força das lutas populares e a capacidade de pensar além dos marcos dominantes de pensamento. E não seria essa a real essência de uma política radical? O verdadeiro desafio agora é o povo manter as suas esperanças – a esperança de que o povo possa realmente mudar suas vidas.

"A esperança começa hoje": A história por trás da ascensão do Syriza ao poder

Ten years ago, Syriza scraped just 4% of the vote in Greek elections. This week, the leftwing party took control under the charismatic leadership of Alexis Tsipras. How did it do it? For 22 days, Paul Mason followed the party’s campaign trail and saw an anti-austerity message delivered with youthful plausibility win over a nation.

Paul Mason

The Guardian

Tradução / A vitória do Syriza sacudiu a esquerda na Europa - atingindo até mesmo os social-democratas moderados, que se debatiam em busca de idéias e inspiração desde a crise de 2008. Agora, há em todo canto conversas sobre “fazer um Syriza” - e na Espanha, onde o partido de esquerda Podemos está obtendo 25% nas pesquisas, mais do que conversa.

Mas o percurso do Syriza até tornar-se o primeiro governo europeu de extrema esquerda nos tempos modernos não foi nem fácil nem inevitável. Nos últimos 22 dias, participei de uma equipe de documentaristas gregos que acompanhou os ativistas e líderes em campanha, para ver como eles conseguiram vencer. Pude vê-los oferecendo novas esperanças a agricultores no limiar da pobreza, e angariar víveres para sua rede de bancos de alimentos. Vi como conquistaram comunistas da velha guarda, no sindicato dos estivadores, que sofriam por ver seu local de trabalho vendido aos chineses; e como apresentaram, em contraposição ao establishment político e à elite corrupta, uma alternativa jovem e contemporânea. Vi seu líder, Alexis Tsipras, em ação em seu escritório particular, em momentos críticos.

Tsipras é tão carismático que nem precisa de uma equipe de imprensa de classe mundial. Mas quando o entrevistei, na primeira semana de campanha, ficou claro que o Syriza não tem escassez de assessores de imagem. “Desculpe, mas tenho de vetar isso”, diz o secretário de imprensa Danai Badogianni, bem quando Tsipras parece convencido a falar em inglês para a câmera. “Caso contrário, vai abrir um precedente.”

A campanha de Tsipras começou a partir de uma atuação sólida na oposição parlamentar. Em 3 de janeiro, o dia em que ele lotou um estádio com cinco mil membros do partido, o núcleo interno viu-o levar a esquerda de seu partido a se resignar e retirar as objeções à sua escolha de candidatos ao parlamento. Tsipras transformou tanto o partido como seu funcionamento; o comitê central, em sua sede surrada, tornou-se menos importante do que a equipe política do candidato.

De perto, ele fala um inglês perfeito e tem uma risada contagiante. Há alguns parlamentares do Syriza craques em serem contidos e discretos, nas conversas em off, mas Tsipras não é um deles. Conversamos francamente sobre informações controversas que sua equipe econômica deu aos mercados financeiros, e sobre a tentativa de suborno escandalosa que, segundo ele, torpedeou a estratégia eleitoral da direita. Ele posa, sem vacilar, para selfies com as jovens gregas com quem estou filmando, sabendo que as fotos estarão no Facebook em minutos.

Apesar de convocar não menos que quarto professores de economia de esquerda para sua equipe ministerial, Tsipras parece ter, ele próprio, a mais clara compreensão da economia política, para seu próximo confronto com o Banco Central Europeu. Os anúncios decisivos, quando vierem, serão feitos por ele.

Mas, além do profissionalismo e disciplina, Tsipras definiu um ritmo de campanha avassalador. Sua margem de vitória, nas pesquisas em janeiro, era de 2 pontos percentuais. Com todos os canais da TV grega contra ele, e a maioria dos jornais, a direita esperava retomar a liderança. Mas, ao contrário, foi o Syriza que disparou.

O interior em revolta e a escuta política

No sol fraco de janeiro, as montanhas ao longo do Golfo de Corinto estão cobertas de neve. Espalhadas ao longo das encostas estão aldeias conhecidas como “castelos” políticos, normalmente tão apegadas a um ou outro dos principais partidos – Pasok [ex-social-democrata] e Nova Democracia [centro-direita] – que você pode orientar-se, em época de eleição, seguindo os cartazes. Mas esta é, hoje, uma terra conturbada; dois terços dos plantadores de vinhas e pomares de limão estão tecnicamente falidos. Foram forçados a hipotecar suas terras, os bancos querem reaver seus empréstimos e o índice de suicídios avança, nestas tranquilas cidades agrícolas.

Giannis Tsogkas, um plantador de uvas de 56 anos de Assos, nos diz: “[O governo] nos empurrou para o acordo com o FMI e tudo que eles fazem é obedecer os conservadores. Os pequenos vão morrer. Continuamos ouvindo sobre gente se suicidando. De modo que tentamos encontrar alguém na esquerda que nos proteja. E encontramos o Syriza.”

Ao cair da noite, a taverna próxima a Psari está cheia de idosos e crianças – a maioria dos jovens adultos se foi. Os rostos sofridos dos agricultores na miséria observam com cuidado um homem do Syriza que faz um discurso em estilo bolchevique: “Por que o FMI quer nos destruir? Será que é porque o sol brilha aqui? Será que é porque somos um povo hospitaleiro? Eles odeiam a vida do sul da Europa? ”

Mas, diz o candidato à eleição Theofanis Kourembes, não foi a retórica que tornou vermelhas cidades como esta. “A gente vai e ajuda as pessoas. Escutamos quando nos dizem alguma coisa. Quando pedem ajuda, estamos aqui. Você nunca vê o Pasok ou a Nova Democracia.”

São pequenos encontros como este, a quilômetros das principais cidades, que ajudaram a transformar o Syriza, de um partido com 4% dos votos há 10 anos, num outro, que liderava com 32% das preferências, na última semana de campanha eleitoral.

“Vocês jornalistas vieram de longe até aqui para nos entrevistar”, diz um fazendeiro. “O Syriza é o único partido que fez a mesma coisa. Eles vieram e conversaram conosco. Se quiséssemos falar com os principais partidos, como os encontraríamos?”

O campo, uma paisagem árida de galhos e campos transformados, é solo fértil para a mensagem vencedora do Syriza. Os agricultores sofreram muito com a “austeridade”: ela significa impostos mais altos e menos subsídios. Mas a corrupção é também uma questão importante. Em Assos, Tsogkas nos conta como os comerciantes que compram as uvas regularmente desaparecem sem pagar. “Eles não nos dão recibos, e a lei os protege. Desaparecem, pedem falência e ficamos sem nada. Mas temos de pagar por medicamentos, salário de empregados, juros de empréstimos, eletricidade, tudo isso. Estamos esgotados”, ele suspira, “acabou.”

O sistema político grego era tão incompetente, corrupto e lubrificado pelo que eles chamam aqui de “dinheiro sujo” que, quando o dinheiro acabou, os alicerces que o sustentavam entraram em colapso.

Embora o programa econômico do Syriza seja limitado pelos 319 bilhões de euros que a Grécia deve ao resto da Europa, lutar contra a oligarquia não custa nada. Tsipras me diz: “Iniciaremos uma nova era política. Vamos fazer uma mudança maciça na governança do Estado. Não temos responsabilidade pelo estado de clientelismo criado pelos partidos que governaram o país até agora. Precisamos de um Estado que funcione e se coloque ao lado dos cidadãos. Precisamos acabar com essa farra de sonegação e evasão fiscal.”

Por toda a Grécia, o Syriza organizou bancos de alimentos, conhecidos como Clubes da Solidariedade. Acompanho os ativistas até um mercado de rua em Atenas. Usam lenços laranja e, educadamente mas com firmeza, argumentam com os agricultores que um saco de batatas ou laranjas para os pobres é seu dever social. Em meia hora, os carrinhos estão cheios de comida.

O organizador me diz: “Isso é o oposto de caridade. Estamos dando suporte a 120 famílias nesta área, e muito do trabalho que fazemos é lidar com isolamento, saúde mental e vergonha.” Você não pode agir mais profundamente na micropolítica do que quando se senta num quarto pequeno e convence as pessoas a não pensar em suicídio. Não tem volta, a confiança construída é difícil de destruir.

E na semana final, quando as pesquisas dão ao Syriza sólidos seis pontos de liderança, torna-se claro o que está levando à vitória. Ainda que o programa do partido aponte para algo como uma democracia econômica e social de esquerda, ele está agindo de modo oposto à prática dos social-democratas em tempo de eleição. Faz promessas claras e duras, sobre pegar pesado com os ricos. Um parlamentar sênior prometeu publicamente “destruir a oligarquia” – taxar os donos de navios e patrões das construtoras, e impor regulação básica e moderna nos canais de TV privada que a oligarquia possui — os quais, hoje, não têm sequer que registrar, ou pagar pelo espectro de rádio que usam.

“A esperança começa hoje”, é o mantra de Tsipras. Isso se traduz numa nova atmosfera nos cafés e nas mesas de jantar das famílias: não estamos mais com medo.

O centro político se autodestrói

No momento do último comício eleitoral do Syriza, a mídia global acordou para a possibilidade de uma derrota. Para quem olha de fora, as bandeiras vermelhas e a multidão cantando Bandiera Rossa, o hino comunista italiano, lembram a velha esquerda – mas todos na multidão sabem que o partido está se dirigindo à direção oposta. Ele não se limitará a confrontar a Europa, na redução da dívida – exige um novo acordo. Está determinado a anular as políticas de “austeridade”. Isso, dizem os sagazes economistas amontoados nos bastidores do comício, joga o problema para o chefe Banco Central Europeu, Mario Draghi. Ele pode puxar o gatilho de um colapso bancário e de uma crise que force a Grécia a sair do euro — mas o Syriza não fará isso.

Enquanto Tsipras entusiasma a multidão, Pablo Iglesias, o jornalista que levou o novo partido de esquerda espanhol Podemos a uma posição de 25% nas pesquisas, encolhe os ombros e balança como um boxeador prestes a entrar no ringue. Ele ensaia o que vai dizer e, em seguida, dá uma corrida para subir os degraus, acompanhado por uma música de Leonard Cohen, para juntar-se ao Tsipras. Ele grita, em inglês: “Primeiro vamos tomar Manhattan; em seguida, tomamos Berlim.” Em outras palavras, o FMI e o BCE terão de enfrentar um oponente determinado. Os quadros do Syriza que cercam os dois homens sabem como vai ser pesada a pressão a partir de agora.

Rena Dourou, que conheci como uma ativista esfarrapada no acampamento Occupy da Praça Syntagma de Atenas, quatro anos atrás, não pode conter seu sorriso conforme balança a mão nas ruas, abarrotadas de apoiadores: “Ninguém nos ouviu durante anos”, diz ela. “Agora todo mundo está ouvindo. E não se trata apenas da Grécia. Trata-se da Europa, e especialmente a jovem.”

Dourou está em suas primeiras semanas como prefeita eleita de Attica, a maior região da Grécia. Está descobrindo na real o que significa tentar limpar o Estado grego. Agora penteada e vestida com um terninho como uma política convencional, não consegue conter o nervosismo. Há quatro anos, conforme nos esquivávamos do gás lacrimogêneo, ela me disse: “A Europa precisa de um Chirac, ou um Schröder, ou mesmo alguém como Kirchner na Argentina. Algum tipo de líder convencional que pare com essa loucura de austeridade.” Eu brinquei: “Provavelmente serão vocês.” Hoje, ela sabe que não é brincadeira. Conforme todo o centro político europeu aquiesceu em um programa de “austeridade” que empurrou o continente para a deflação, apenas um partido de ex-trotsquistas, ecoguerreiros e ativistas Occupy tomou esse espaço.

Na noite da eleição, no ultimo andar da sede do Syriza, onde está sentada a equipe de Tsipras, o nervosismo dá lugar a um alívio estonteante, à medida em que os resultados vão saindo. As perspectivas de obter maioria no Parlamento sem coligações estão por um fio mas, minutos depois de encerrada a apuração, já ficara claro que eles venceram. Tsipras chega, radiante. Ele abraça uma mulher baixinha de meia idade de sua equipe, chamando-a de “meu pequeno porquinho”. Seus secretários estão em lágrimas. “Por que vocês estão chorando?”, brinca. “Quando perdemos em 2012, vocês estavam celebrando; e agora, que vencemos, vocês choram!”

O futuro ministro do interior do Syriza liga para os chefes do exército e da polícia. “Nós confiamos em vocês”, é a essência da mensagem. É um grande ato de fé, já que as forças militares e policiais da Grécia foram treinadas, desde a guerra fria, para suprimir a extrema esquerda agora — inclusive com aulas de “educação política”, aos oficiais, sobre os perigos do marxismo.

Nos anos que se seguiram à queda da junta militar, em 1974, a oligarquia bipartidária tolerou a esquerda, mas assegurou-se de que não houvesse chance de ela chegar ao poder. Isso, em retrospectiva, criou uma consciência de esquerda ampla, mas dormente. Tsipras está rodeado de quadros partidários que lutaram na rebelião estudantil que derrubou a junta, mas a geração de seus pais sofreu tortura e prisão durante e depois da guerra civil. Excluida do poder, a esquerda construir uma contracultura de canções rebeldes, música folclória, culto a Che Guevara e poderosas centrais sindicais de trabalhadores manuais, como os estivadores. Isso é chave para entender o que é replicável sobre o Syriza, e o que não é. O partido emergiu da cisão do eurocomunismo com Moscou nos anos 1970, mas enxertou uma cultura de esquerda soft, e conquistou a lealdade de muita gente jovem, cuja vida gira em torno de trabalho precário e sem qualificação, e que faz a mágica de sobreviver com salários de 400 euros por mês.

Tsipras transformou o Syriza de uma aliança frouxa em um partido que é a expressão, por excelência, dos valores deste vasto setor de esquerda do eleitorado grego. Bastou que o partido natural que a representava — o Pasok — destruisse a si mesmo.

Na última semana de campanha, os gregos de esquerda assistiram ao desabamento das paredes invisíveis à sua volta. As conversas com os vizinhos de direita e os colegas de trabalho não politizados eram dominados por uma palavra – Tsipras. E nos últimos dias, apenas “ele”. Assim como o boca-a-boca incessante, os bancos de alimentos, a identidade visual elegante, o que levou o Syriza ao poder foi, basicamente, a autodestruição do centro. E isso, por sua vez, deveu-se ao trabalho da União Europeia e do FMI.

Um partido da juventude e dos que rejeitam o medo

Na cidade de Assos, quando os votos foram contados, verificou-se que 1.529 dos 4.000 habitantes votaram Syriza (38%). Os conservadores, que controlaram a cidade por gerações, tiveram apenas 29%, com o partido neonazista Golden Dawn chegando a 7% – uma réplica quase exata do resultado nacional. O mapa eleitoral mostra que, fora a velha direita do interior da Macedônia e da Península do Peloponeso do Sul, a Grécia profunda tornou-se vermelha.

Kourembes, que é agora parlamentar do Syriza para Assos, diz: “Simplesmente, desta vez, o povo começou a pensar de outra maneira. Eles se deram conta de que não há saída com o grupo atual de políticos. Tomaram consciência de que, para manter-se à tona, tinham de fazer alguma coisa diferente.”

O Syriza não empregou nenhuma “tática matadora” na campanha eleitoral. Mas teve qualidades definitivas: jovialidade, plausibilidade e normalidade. Muitos de seus candidatos são jovens e elegantes; eles vivem e se comportam como gente de vinte, trinta e poucos anos. No comício de lançamento do ministro dos transportes conservador Miltiadis Varvitsiotis, os contrastes eram óbvios. Como convém a um sistema que permite aos proprietários de navios não pagar nenhum imposto sobre os lucros no exterior, a multidão aqui era idosa, de aparência requintada e desavergonhadamente rica.

Embora o próprio ministro seja parte de uma geração tecnocrática que acena ao conservadorismo moderno, é impossível ser contemporâneo quando rodeado por um aparato construído na guerra fria, e dependente do apoio de bilionários. Ao mostrar ser gente normal, evitar declarações tresloucadas de parlamentares individuais e projetar e calma, em oposição à campanha de medo da direita, o pessoal de Syriza ganhou.

Em Atenas, logo depois de fechadas as urnas, Spiros Rapanakiso, candidato do Syriza inclina-se, exausto, contra as persianas de uma loja. Ele passou o dia em sua zona eleitoral, a comunidade do porto de Keratsini, em um Hyundai maltratado, assobiando a International pra ganhar coragem. Fica claro, quando falamos com os eleitores, que até mesmo conservadores tradicionais votaram no Syriza. Quando se dá conta de que, em vez de um repórter júnior no jornal do partido, é agora um deputado, ele murmura: “O povo grego escreveu a história e estou contente de fazer parte dela. Eu de fato não posso descrever como me sinto. Temos um grande trabalho pela frente. Amanhã vamos criar a Grécia de novo.”

Como Wall Street destruiu os empreendedores

Yves Smith

Naked Capitalism

Tradução / Since it conflicts with Americans’ widely-held image of self-reliance, the fact that new business creation has fallen to the point that even Hungary has a higher rate of starting new ventures than the US hasn’t gotten the attention it warrants in the mainstream media.

Unfortunately, many of the explanations for why that happened are more than a bit off.

A primeira notícia apareceu em Gallup semana passada. Aqui a seção chave:

Os EUA estão agora, não em 1º, não em 2º, não em 3º lugar, mas no 12º lugar entre as nações desenvolvidas em termos de novos empreendimentos por ano. Hungria, Dinamarca, Finlândia, Nova Zelândia, Suécia e Itália, dentre outros, têm número maior de novas empresas, em um ano, que os EUA. 
Os EUA perdem em número de novas empresas per capita, e esse é hoje o problema econômico mais grave que os EUA enfrentam. Mas o “fenômeno” é tratado como segredo! Não se lê nenhuma referência na imprensa-empresa comercial, nem se ouvem políticos ou “especialistas” que digam que, pela primeira vez em 35 anos, morrem mais empresas nos EUA, do que nascem. 

Até 2008, o número de novas empresas superava o número de falências comerciais em cerca de 100 mil/ano. Nos últimos seis anos, esse número repentinamente reverteu, e há hoje 70 mil empresas que fecham por ano, a mais do que o número de novas empresas. 

Essa mudança é criticamente importante, porque pequenas e médias empresas são criadoras de novos empregos. Grandes corporações, tomadas em geral, estão em liquidação já há mais de uma década, economizando no número de empregados e “enxugando” sem parar por já bem mais de uma década. Pode-se ver esse comportamento na regularidade com que a imprensa de negócios publica sobre exercícios de redução de postos de trabalho como se fossem meros exercícios de redução de custos, não como o que são: sinal de o quanto profundamente as empresas e empresários não se interessam em investir nos seus trabalhadores e respectivos futuros.

Observaram que a variação nos números acompanha exatamente o andamento da crise? Não é por acaso. Embora a correlação não seja prova de causa e efeito, não é difícil perceber várias forças causais.

O artigo de Gallup insiste muito na mitologia do empreendedorismo dos norte-americanos, como se estivessem perdendo alguma espécie de valor ou de atributo louvável de caráter, como alguma velha virtude romana; insiste também na importância da “inovação”.

O problema é que essa ideia “cultural” baseia-se, ainda,. em empresas que nascem baseadas em capital abundante, muitas vezes venture-capital. Pior que isso: não só jornalistas, mas também especialistas acadêmicos fixaram-se em jovens empresas apoiadas por venture-capital – quando, na verdade, essas empresas não passaram de 1% do total de novas empresas em praticamente todos os anos, e só chegam a 25% das mais bem-sucedidas empresas de alto crescimento listadas por Inc. Magazine 500.

Assim sendo, dado que se sabe praticamente nada, o que, afinal, se sabe sob a tão mal estudada maioria das empresas iniciantes, que são o verdadeiro motor do emprego nos EUA? Como estão elas hoje?

Em seu The Origin and Evolution of New Businesses, um importante estudo sobre o tema, Amar Bhide descobriu que o caminho mais comum seguido por empresários bem-sucedidos, foi que trabalharam para grandes indústrias e perceberam um nicho do mercado que não era bem atendido. Na ampla maioria de casos, esses novos negócios eram criados com poupança familiar, dinheiro emprestado de amigos, parentes e cartões de crédito.

Assim, se se pensa um pouco sobre o que está acontecendo nos EUA e no mundo empresarial em geral, vê-se facilmente o quanto o impacto da crise e seus desdobramentos estão obrigando todos que tenham cérebro capaz de operar a ter muita cautela no momento de abrir sua porta própria.

Primeiro, recessão clássica significa recuperação lenta e fraca, como todos vimos muito bem nos EUA. O fato de que os EUA foram muito generosos e condescendentes com Wall Street cobrou altíssimo preço da Rua do Comércio, por todo o país – e de todos os pequenos negócios, principalmente. Só recentemente pequenos comerciantes exibiram algum ainda tímido sinal de otimismo quanto ao futuro e novas contratações. Mas ainda assim há áreas que ainda não dão nenhum sinal de melhoria, como a venda de varejo, um dos alvos mais populares para novas empresas.

Segundo, muita gente exauriu as próprias poupanças durante a crise, seja porque perdeu o emprego, seja porque sofreu redução nas horas de trabalho. E os idosos que ainda tenham alguma poupança têm pela frente ambiente de juros baixos e perspectiva de ganhos de capital pouco confiáveis. Embora haja quem reaja a isso com “ousadia”, muita gente responde dedicando-se a poupar ainda mais (no caso de não terem perdido o emprego), temerosos de qualquer risco. Em geral, quando as vacas andam gordas, muitos investidores são mais tolerantes em relação a assumir riscos do que em tempos incertos de vacas magras. O que implica dizer que a via de procurar amigos e família para obter financiamento para novo negócio já não é o que antigamente foi.

Terceiro, as empresas de cartões de crédito cortaram linhas de crédito durante a crise, atingindo muitos projetos de novos empreendimentos que dependiam de crédito sazonal. E duas importantes empresas de cartões de crédito que emprestavam para pequenos negócios saíram do mercado ou cortaram ofertas. Advanta faliu; e American Express, que costumava oferecer várias linhas de crédito para pequenos negócios, eliminou alguns de seus produtos e tornou-se mais seletiva com o crédito que oferece pelos cartões comerciais.

Há mais um desenvolvimento que é de mais longo prazo e foi exacerbado pela crise – os empregos temporários. É difícil ganhar insight sobre o comportamento dos consumidores, e o que teria boa chance como concorrente ou complementar de uma indústria, se você não fica tempo suficiente numa empresa, para compreender os processos e operações. Relacionado também a isso, muitas empresas obrigam os trabalhadores a assinar contratos muito restritos de não concorrência, como condição para ter o emprego, o que torna ainda mais difícil para o trabalhador não apenas encontrar empregos, mas também criar empreendimentos próprios.

Portanto, embora Wall Street não seja a única culpada pelo declínio do empreendedorismo nos EUA, é sem dúvida dos maiores culpados. E eis por que é importante não ceder no esforço para obrigar o hipertrofiado setor das finanças a diminuir de tamanho.

O governo da Ucrânia está perdendo a guerra: Aqui está o porquê

Eric Zuesse

4th media

Tradução / Em 27 de janeiro de 2015, o ministro de Defesa da Ucrânia divulgou que “militantes continuam a sofrer perdas” e noticiou que quatro helicópteros e outras armas dos “militantes” teriam sido destruídos em combate, mas não ofereceu qualquer prova de que dizia.

Apenas dois dias antes, o jornal Kiev Post (pró-governo) havia publicado uma notícia diferente: "A Ucrânia está escondendo pesadas perdas, enquanto avançam os combatentes apoiados pela Rússia" e "o segredo mais mal guardado da Ucrânia: o exército ucraniano está divulgando números artificialmente reduzidos de baixas."

Depois de detalhar o que parece ser acintosa desatenção pelo governo de Kiev, pelo bem-estar dos soldados que envia aos combates (inclusive ao instalar soldados feridos em hospitais civis comuns, não preparados para tratar vários tipos de seus ferimentos), a matéria fecha com um médico que diz: "Tudo está mal em todas as frentes. Sim os soldados ainda permanecem em suas posições dispostos a lutar. Mas não chega até eles nenhum tipo de apoio ou ajuda."

A agência ucraniana de notícias RIAN noticiou com destaque, em 26 de janeiro de 2015: "Mobilização em Dnipropetrovsk [governada pelo amigo da Casa Branca e bilionário ucraniano-suíço-israelense Ihor Kolomoysky, cujo exército pessoal de mercenário tinha, só ele, mais de 5 mil homens armados], fracassa, com milhares de homens fugindo do alistamento. Funcionários encarregados de alistar novos soldados reconhecem que será muito difícil levar adiante sua tarefa."

Mais de 2.000 pessoas que foram alistadas "não apareceram, elas evaporaram."

Consequentemente, o governo está “caçando”, “emboscando” (como diz o jornal), virtualmente todos que buscam qualquer ajuda do governo, “mobilizando desempregados” e outros “desesperados”. “Oficiais militares encarregados do alistamento reclamam” que alguns alistados estão tão doentes que não têm absolutamente nenhuma condição de combater.

Também em 26 de janeiro de 2015, o blog Fort Russ publicou que: "Comandante de Azov se descontrola e declara a guerra “perdida”. Culpa todo mundo e diz que políticos e generais ucranianos já perderam a guerra e que o ocidente não ajudou." Eis o cerne da declaração do comandante do Batalhão de Azov, e atualmente também Deputado ao Parlamento, Andrey Biletsky, em seu “Discurso à Nação”.

Segundo Biletsky, depois da ficção de “milhares de inimigos falsamente mortos e tanques falsamente queimados, o despertar pode ser muito doloroso”, por causa da decepção provocada pelas incontáveis mentiras do governo de Kiev.

A manchete da agência RIAN noticiou em em 27 de janeiro de 2015, “Situação no front e manifestações contra o alistamento obrigatório” [“The Situation at the Front and Riots Against the Mobilization”] e Andrew Vajra, do site de notícias “Alternative”, citou Biletsky: “Nós não estávamos preparados para o confronto atual”.

Ao mesmo tempo, os soldados ucranianos não dão sinal de disposição para arriscar a própria vida para fazer valer o atual governo ucraniano (posto lá pelo golpe de Estado orquestrado por Obama em fevereiro de 2014), e impô-lo contra a população da região do Donbass, 90% da qual votou pelo fim do governo do homem de Obama. Os moradores da região que ainda permanecem ali não têm nenhum interesse em permitir que o governo “de Obama” os mate até o último homem ou mulher. Implica dizer que a motivação entre os habitantes do Donbass que o governo de Kiev-Obama está tentando matar é muito mais forte do que a motivação de soldados regulares, do que resta do exército ucraniano, para matá-los.

Os únicos homens armados realmente ansiosos para matar ucranianos são ucranianos nazistas apoiadores de dois partidos nazistas (ou fascistas-racistas): o Partido “Liberdade” (que foi rebatizado pela CIA, que entendeu que o nome anterior “Partido Nacional-socialista”, não era adequado para os novos tempos) e o Partido “Setor Direita” (Pravy Sektor).

Esses partidos obtiveram parcela mínima de votos na Ucrânia – o que não impediu a gangue de Obama de implantá-los no poder. Uma vez instalados no poder, fizeram aprovar leis para mantê-los para sempre no governo.

Mas o problema do governo da Ucrânia é que não há por lá nazistas em número suficiente para defender o governo; e, também, que não há dinheiro suficiente para alugar número suficiente de matadores para matar ucranianos em quantidades suficientes que possibilite que o regime Obama-Ucraniano consiga (I) fazer a limpeza étnica das terras do Donbass e (II) manter-se naquelas terras como governo.

Os 90% dos eleitores que votaram a favor do homem que Obama derrubou do governo (Viktor Yanukovych) são muito mais numerosos e mais motivados – e estão presentes em maioria equivalente também entre os soldados ucranianos.

Os oligarcas dos EUA e da Ucrânia não estão conseguindo garantir dinheiro suficiente para terminar o serviço, mas o grande “financista” de Obama, George Soros, anda em vilegiatura pelo planeta tentando convencer contribuintes em todo o ocidente a garantir o dinheiro que falta – falando em coisa entre 20 e 50 bilhões de dólares. Seus pedidos, até o momento, parecem estar caindo em ouvidos moucos.

E essa é a verdadeira razão pela qual a guerra de Obama na Ucrânia está a falhar, não há sede de sangue suficiente para a tarefa, seja na Ucrânia, ou no "Ocidente".

Não há nazistas em número suficiente em lugar algum. Obama deu passo muito maior que suas capacidades e competências quando, em fevereiro de 2014, derrubou o presidente eleito Viktor Yanukovych.

Agora, das duas, uma; e Obama já está, cada dia mais, obrigado a escolher: ou desiste do governo anti-Rússia que impôs aos ucranianos, ou desiste, de vez, de controlar o território do Donbass.

Nos dois casos, o resultado cobrirá de embaraços a “potência indispensável” e o próprio presidente Obama. Será talvez menos embaraçoso para Obama do que foi o fim da Guerra do Iraque, para Bush. (Claro, os republicanos poderiam viver momentos de glória proclamando que “Obama perdeu a Ucrânia”, embora tudo tenha começado quando Obama tomou ilegalmente a Ucrânia — mas Republicanos jamais criticam presidente por invadir ilegalmente outros países: é precisamente os que Republicanos esperam de Republicanos).

Por outro lado, pode acabar sendo ainda mais embaraços que isso, para Obama, caso ele insista em ficar onde está e acabe envolvendo os EUA numa guerra nuclear contra a Rússia.

Quanto ao próprio governo ucraniano, foram postos no poder por Obama, em golpe de estado; em seguida esse mesmo governo ucraniano pôs-se a promover ações de limpeza “eleitoral”, separando os residentes no Donbass, de seus representantes eleitos; por isso, os atuais membros do Parlamento e da administração ucraniana não podem culpar nem Obama nem o próprio governo ucraniano. À falta de alguém para culpar, estão culpando Vladimir Putin e a Rússia - o país que Obama (como George Soros e tantos outros aristocratas americanos) odeia, e que é odiado também pelo pessoal que Obama presenteou com o governo na Ucrânia.

Por tudo isso, na quarta-feira, 28 de janeiro de 2015, a agência noticiosa RIAN distribuía o“Texto Integral da Petição para que a Rússia seja Reconhecida como País Agressor”, e noticiava: "O Parlamento Ucraniano tornou público o texto integral da Resolução n. 1.854, pela qual o país apela à ONU, ao Parlamento Europeu, à Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa, à Assembleia Parlamentar da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), à Assembleia Parlamentar da Organização de Segurança de Cooperação da Europa (OSCE), à Assembleia Parlamentar de Geórgia, Ucrânia, Azerbaijão, Moldávia (GUAM), e aos parlamentos nacionais dos países do mundo, para que reconheçam a Federação Russa como estado agressor."

Além do mais, o jornal German Economic News noticiou que a iniciativa do Parlamento fora aprovada pro “271 dos 289 deputados presentes”, e que pode gerar “consequências legais internacionais”. A matéria do GEN também dizia que líderes ucranianos dizem que “precisam obter urgentemente” novos empréstimos da União Europeia porque, se não houver dinheiro “novo”, os empréstimos existentes deixarão de ser pagos.

Os comentários na página de comentários de leitores no website de GEN parecem tender muito mais a ver o governo da Ucrânia como governo nazista, do que como “vítima” da Rússia ou de qualquer outro país, muito menos como vítima dos contribuintes europeus, os quais já deram muito ao governo ucraniano e serão precisamente os menos a sofrer o “calote” da dívidas da Ucrânia, caso a Ucrânia vá à bancarrota, como muitos esperam que aconteça em breve. Em outras palavras: parece haver bem pouco apoio na Alemanha, à ideia de pôr ainda mais dinheiro na Ucrânia.

Se os líderes da União Europeia decidirem atender aos pedidos desesperados do governo da Ucrânia, a União Europeia passará a contar com ainda menos apoio na Alemanha, do que conta hoje. Portanto, o mais provável é que a União Europeia rejeite o pedido de Kiev/Soros/Obama/nazistas, o que faz aumentar cada dia mais a ameaça que já pesa sobre a própria existência da União Europeia.

Além do quê, obviamente, a menos que a Kiev consiga os tais novos “empréstimos ocidentais” para manter sua guerra contra os habitantes do Donbass, jamais conseguirá vencer a tal guerra. É a maldição que pesa sobre o governo de Kiev.

Truque ideológico du jour

Economia da classe média e domínio da classe alta

Norman Pollack

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Por que tentar agora uma discussão teórica do capitalismo, embora esquemática e fragmentada, quando tanta coisa acontece pelo mundo, a militarização da cultura dos EUA com reforço social para sua postura hegemonista - mais ameaçada do que nunca antes desde a II Guerra Mundial pelo crescimento de outras nações e respectivas economias políticas, no que se vai rapidamente tornando um sistema internacional multipolar? A questão quase responde a si mesma. Os EUA correm cada vez mais apertados, talvez já com medo, nada habituados a que alguém desafie seu domínio exclusivo unilateral sobre o tal sistema, apoiado em “amigos e aliados” servis e na FORÇA, real e de reserva, para implementar a suserania norte-americana. Essa semana, foram Índia e Arábia Saudita: fazer a sintonia fina do Império, negociar e/ou renovar alianças militares, oferecer garantias de segurança-proteção, processo sem fim de pôr um dedo no buraco para fechar a represa, sendo o buraco, nesse caso, a aspiração das pessoas a uma vida livre de exploração, acordos comerciais enviesados e tortos, o cogumelo nuclear engordando sempre no céu e escurecendo o futuro.

Por que, mais uma vez, agora? Talvez pela mais transparente das razões, o discurso Estado da União de Obama, com seu mais recente clichê de enganação: a chamada economia da classe média, para encobrir a diferença escandalosa entre ricos e pobres, para, assim, enrijecer a estrutura de classes nos EUA, com consequências mais antidemocráticas a cada dia. Novos dados da distribuição de renda explicam o golpe, pelo menos em parte. Mas não explicam tudo, porque o poder cresce geometricamente quanto mais amplas sejam as fundações, e quanto mais seja dado por indiscutível e confirmado pela população (doutrinada, habituada, submissa). Em nenhum lugar mais que nos EUA, com seus mentirosos clamores de democracia, de superação das classes, de guardião da paz do mundo e do estado de direito, o poder traz com ele mais falsa consciência, com a IDEOLOGIA que vem à tona na estabilização e aprofundamento do capitalismo.

Assim, a economia da classe média, que não passa de capitalismo de monopólio embrulhado em papel-de-seda para parecer política inclusiva de oportunidades feita conforme a receita: Todos somos capitalistas! Todos somos altruístas! Somos todos iguais – posto que todos somos americanos. O subterfúgio é velho como as montanhas – Tocqueville aceitou o mito, as modernas empresas de relações públicas/propaganda/publicidade vivem da coisa, desde então, e o Evangelho dos Ricos opera sem parar, executivos de empresas & bancos, glutões in extremis, varrendo a entrada. Obama é talhado para nossos tempos, sujeito sem nenhum escrúpulo, agente avançado da plutocracia. Com seus predecessores a chicanería era óbvia; Clinton, o Democrata, mãos-nas-mãos com Bush, o Republicano, passo a passo na arena da desregulação, penetração no mercado do outro lado do mundo, e estímulo econômico de preparação para a guerra, solenemente pronunciado “segurança” e “defesa”. Mas quem leva a taça é Obama, enterrando o processo de acumulação de riqueza nas platitudes do norte-americanismo, a mais modernosa economia da classe média.

*

Herbert Marcuse em Razão e Revolução, um dos trabalhos mais significativos da filosofia política do século XX, diz no Epílogo que a sobrevivência do capitalismo dependeria de ele absorver a própria negatividade, tarefa crítica para que fosse bem-sucedido, mas superior aos seus meios. Dito de modo mais simples, o capitalismo é suas contradições, não como alguma fórmula abstrata (para mim) de materialismo dialético, mas nos modos políticos e estruturais mais pão-com-manteiga, de comportamento sistêmico que leve à formação e à manutenção de um estado-classe no qual os trabalhadores em termos relativos, aproximam-se muito do exército industrial de reserva de Marx, via uma condição de subconsumo que o mantenha onde está, e o princípio da HIERARQUIA firmemente intacto no dia a dia. Contradições que são como código, então, para normalizar a repressão. Mas... não! Pode-se chamar a coisa toda, mais simples, de “economia da classe média”. Discuti recentemente nessas páginas aquele discurso, o golpe de Ben e Rebekah para personificar e miniaturizar o capitalismo avançado, Todos & Todas sentados à mesa do café da manhã preparando a lista de compras do dia, enquanto Johnny sai para a escola – um conto de Megacapitalismo digno, como escrevi, de Goebbels.

Mas voltemos à distribuição de renda, não com Kuznets, ou melhor, Gabriel Kolko de “Riqueza e Poder”, para contrabalançar o piegas social-democrata de Michael Harrington “A Outra América”. Em vez disso, tomemos o artigo de Dionne Searcey e Robert Gebeloff no New York Times, “Nos EUA, a classe média diminui, com mais pessoas descendendo, do que ascendendo para ela” (26 de janeiro de 2015), como resposta informal à economia da classe média. Começam assim: "A classe média que o presidente Obama identificou em seu discurso do Estado da União semana passada, como o fundamento da economia americana vem encolhendo já há quase meio século." Nada mau para o The New York Times, até aí. Mas eles também desapontam, usando uma faixa elástica de renda, de US$ 35 mil a US$ 100 mil, para definir a classe média, onde se encaixavam, no final da década de 1960, metade dos lares norte-americanos. Ninguém (exceto, claro, os que foram expulsos da “classe”) percebeu a mudança em curso, porque muitos mais estavam “ascendendo a ladeira econômica para as faixas mais altas”.

Nesse ponto, Searcey-Gebeloff ficam mais sérios (digo isso, porque estatísticas pré-2000 mostram quadro diferente, quando os níveis de renda são mais precisos, incluindo a proporção nos 2/10 inferiores de renda): "Mas desde 2000, a faixa de classe média continuou a diminuir nos EUA. A razão principal da diminuição é que mais gente passou a escorregar para faixas inferiores. Ao mesmo tempo, poucos e cada vez mais poucos dos que estavam nesse grupo enquadram-se na imagem tradicional de casal casado com filhos em casa, espaço preenchido cada vez mais por idosos." E os autores admitem: "Mesmo assim, independente da renda, muitos norte-americanos identificam-se como 'classe média'." O termo é de tal modo amorfo, que políticos muitas vezes citam esse grupo ao introduzir propostas para as quais buscam apoio amplo. (E, ideia minha: nem pensar que Obama estaria usando o discurso do Estado da União para fazer a mais reles propaganda!) Mesmo nessa faixa de renda, “muitos norte-americanos que fazem mais que US$ 100 mil se consideram de classe média”, especialmente “quem viva em regiões caras”, como a Costa do Nordeste e a Costa do Pacífico. Quase dá pena dos que estão na ou acima da faixa dos US$ 100 mil – mais uma vez: a minha; os jornalistas observam: “Contudo, as linhas estão traçadas, é claro que milhões estão lutando para não perder itens que a maioria dos especialistas consideram essenciais para uma vida de classe média”.

A evolução demográfica na composição da "classe média" é instrutiva. “A classe média passou por uma transformação, ao mesmo tempo em que encolhia” – escrevem eles. – Idosos trabalhando depois de se aposentarem caem aí; casais com filhos pequenos caem abaixo dessa faixa como a vemos hoje. Significa que “em anos recentes, o componente de mais rápido crescimento da nova classe média têm sido lares chefiados por pessoas com mais de 65 anos”, com as aposentadorias garantindo alguma proteção, “agora que norte-americanos idosos cada vez mais trabalham até bem depois da idade tradicional de aposentadoria”. Por outro lado “casais com crianças – a categoria que mais encolheu – são a categoria que também diminui mais rapidamente de toda a classe média”. Mulheres casadas na força de trabalho vêm impedindo que esse grupo caia ainda mais. “A mais recente recessão pôs fim a qualquer avanço mesmo nessa categoria em geral bem-sucedida. Sua porcentagem na classe média caiu três pontos percentuais, e o grupo que vive com menos de US$ 35 mil dólares/ano aumentou”.

Não está tudo bem em Obama Candyland. Meu comentário sobre artigo Searcey-Gebeloff publicado no New York Times, mesma data, a seguir:

Enquanto alguém falar de “classe média”, seja estatisticamente (a faixa de US$ 35 mil-US$ 100 mil é absurda) ou como tópico de narrativa, continuaremos a ser enganados, induzidos a pensar que a distribuição de renda é mais democrática do que é, e que o poder está distribuído mais equitativamente do que na verdade está. A tal “classe média” de Obama não passa de bordão de Relações Públicas, truque deliberado para não deixar ver a realidade. O presidente apela às almas boas para que vejam os EUA em termos não estruturais de não classe, ocultando assim a concentração de riqueza e varrendo para baixo do tapete tudo que só faz aumentar a desigualdade.
Ao usar esse quadro de referências que, claro, foi predominante por décadas, The New York Times contribui para a visão de que pobreza e riqueza possam ser analisadas e discutidas em termos não sistêmicos. Mas... E se a desigualdade estiver inscrita nas fundações da sociedade norte-americana? E o quanto, para o bem ou para o mal, têm a ver com o fracasso econômico demográfico, o gasto militar massivo, a guerra, a intervenção e o militarismo em geral? 
Nós, como nação, dependemos do militarismo. Os números seriam ainda piores se não estivessem aí esses gastos e essas políticas militaristas. E nem se fala do empurrão artificial que a economia recebeu. O discurso “Estado da União” de Obama foi solene farsa, em plena discussão séria sobre “em que pé estamos?”. O imposto para empresas que ele propõe é inferior ao que temos vigente hoje. A “desregulação” de Obama só faz promover a consolidação financeira de vários modos da acumulação de capital. Ponha na mesma conta a inflação, e o que se tem, seja por decisão política ou por consenso bipartidário, é muita gente lutando para não morrer.

27 de janeiro de 2015

O Vermelho e o Tricolor

Alain Badiou

Le Monde

Tradução / Hoje o mundo está totalmente tomado pela figura do capitalismo global, submisso ao governo da oligarquia internacional e subjugado à abstração financeira como única figura reconhecidamente universal.

Neste contexto desesperador montou-se uma espécie de peça histórica farsesca. Sobre a trama geral do “Ocidente”, pátria civilizada do capitalismo dominante, contra o “Islamismo”, símbolo do terrorismo sanguinário. Aparentemente teríamos, de um lado, os grupos de assassinos e indivíduos fortemente armados, acenando para garantir o perdão de Deus; e do outro, em nome dos direitos humanos e da democracia, selvagens expedições militares internacionais que destroem Estados inteiros (Iugoslávia, Iraque, Líbia, Afeganistão, Sudão, Congo, Mali...), que fazem milhares de vítimas, que chegam para negociar com os bandidos mais corruptos em busca de poços, minas, recursos alimentares e enclaves onde as grandes empresas possam prosperar.

Esta é uma farsa que transforma as guerras e as atividades criminosas na principal contradição do mundo contemporâneo, a que alcança a essência da questão. Mas hoje, soldados e policiais da “guerra ao terror”, bandos armados que reivindicam um islã mortal e todos os Estados, sem exceção, pertencem ao mesmo mundo, o mundo do capitalismo predatório.

Várias identidades falsas, cada uma se considerando superior a outra, fixam ferozmente sua dominação local em pedaços deste mundo unificado. Elas dividem o mesmo mundo real, onde os interesses dos agentes são os mesmos em toda parte: a versão liberal do Ocidente, a versão autoritária e nacionalista da China ou da Rússia de Putin, a versão teocrática dos Emirados, a versão fascista dos grupos armados... As populações de todas as partes defendem, por unanimidade, a versão que sustenta o poder local.

Isto é tão certo que o verdadeiro universalismo - aquele que reconhece o destino da humanidade na própria humanidade e, portanto, a nova e decisiva encarnação histórico-político da ideia comunista - não será um poder em escala mundial sem anular a dominação dos Estados pelas oligarquias proprietárias e seus agentes, a abstração financeira e, finalmente, as identidades e contra-identidades que assolam as mentes e necessitam morrer.

A identidade francesa: a “República”

Nesta guerra de identidades, a França tenta se distinguir com a invenção de seu totem: a “república democrática e laica” ou o “pacto republicano”. Este totem valoriza a ordem estabelecida pelo parlamento francês - pelo menos, desde a sua fundação, a saber, o massacre em 1871 de 20.000 trabalhadores nas ruas de Paris, por Adolphe Thiers, Jules Ferry, Jules Favre e outras vedetes da esquerda “republicana”.

Este “pacto republicano” ao qual aderiram muitos ex-esquerdistas, até o Charlie Hebdo, sempre suspeitou da trama de coisas assustadoras nos subúrbios, nas fábricas da periferia e nos bares escuros do subúrbio. Com inúmeros pretextos, uma República sempre povoada de prisões, de perigosos jovens mal educados que lá vivem. Na República, ocorreu também a multiplicação de massacres e de novas formas de escravidão exigidos para a manutenção da ordem no império colonial. É este império sangrento que encontrou seu estatuto de fundação nas declarações do mesmo Jules Ferry - indubitavelmente, um ativista do pacto republicano - que exaltava a “missão civilizadora” da França.

Agora, veja você, os inúmeros jovens que povoam nossos subúrbios, além de atividades suspeitas e flagrante falta de educação (estranhamente, ao que parece, a famosa “escola republicana” não tem sido capaz de fazer nada e assumir que a culpa é sua e não dos alunos), são filhos de proletários de origem africana ou vieram por conta própria da África para sobreviver e, consequentemente, na maioria das vezes, são muçulmanos. Em suma, de uma só vez, proletários e colonizados. Duas razões para desconfiar e tomar sérias medidas repressivas.

Suponhamos que você é um jovem negro ou um jovem com aspectos árabes, ou ainda, uma jovem mulher que decidiu, no sentido da livre revolta, já que é proibido, cobrir a cabeça. Bem, assim você terá sete ou oito vezes mais chances de ser parado na rua por nossa polícia democrática e, muitas vezes ser retido em uma delegacia, o que indica que se você tiver a cara de um “francês”, simplesmente, não deve ter a cara de um proletário nem de um ex-colonizado. Nem de um muçulmano.

Charlie Hebdo, em certo sentido, protestava com esses meios e costumes policiais no estilo “divertido” de piadas com conotação sexual. Nada muito novo. Lembrem-se das obscenidades de Voltaire sobre Joana d’Arc: a donzela de Orleans é um poema digno de Charlie Hebdo. Por si só, este poema sujo dirigido contra uma heroína sublimemente cristã, autoriza a dizer que as verdades e as luzes do pensamento crítico não são ilustradas por esse Voltaire medíocre.

Ele ilumina a sabedoria de Robespierre quando ele condena todos os que fazem da violência antirreligiosa o coração da Revolução e obtendo somente a deserção popular e a guerra civil. Ele nos convida a considerar que o que divide a opinião democrática francesa é, conscientemente ou não, o lado constantemente progressista e realmente democrático de Rousseau, ou então, o lado das negociatas, dos ricos e especuladores céticos e sensuais, que como o gênio do mal alojado neste Voltaire também é capaz, por sua vez, de autênticos combates.

O crime de tipo fascista

E os três jovens franceses que a polícia rapidamente matou? Eu diria que eles cometeram o que deve ser chamado de crime de tipo fascista. Eu chamo de crime de tipo fascista um crime que tem três características.

Em primeiro lugar, ele é orientado, não de maneira cega, por suas motivações ideológicas, de caráter fascista, que são estritamente identitárias: nacional, racial, comunitária, consuetudinária, religiosa... Nestas circunstancias, os assassinatos são antissemitas. Muitas vezes, o crime fascista visa publicitários, jornalistas, intelectuais e escritores tais como os assassinos representantes do lado oposto. Nas circunstancias, o Charlie Hebdo.

Em seguida, ele é de uma violência extrema, assumido, espetacularmente, dado que ele procura impor a ideia de uma determinação fria e absoluta que, no entanto, inclui de forma suicida a probabilidade de matar o assassino. Este aspecto de “viva la muerte!” de aparente niilismo, está em ação.

Em terceiro lugar, o crime visa, por sua grandiosidade, pelo seu efeito de surpresa, pelo seu lado fora da norma, criar um efeito de terror e estimular, por conseguinte, do lado do Estado e da opinião, reações descontroladas, completamente fechada em uma vingativa contra-identidade, as quais, aos olhos dos criminosos e dos seus patrões, justificarão após o fato, por simetria, o atentado sangrento. E foi isso o que aconteceu. Neste sentido, o crime fascista obteve uma espécie de vitória.

O Estado e a opinião

De fato, desde o inicio, o Estado estava envolvido na utilização desproporcional e extremamente perigosa de crime fascista, porque ele está inscrito no registro das identidades da Guerra Mundial. O “fanático muçulmano” se opõe descaradamente ao bom democrata francês.

A confusão estava no auge quando vimos o chamado do Estado, claramente autoritário, para a manifestação. Caso Manuel Valls não tivesse a intenção de capturar os fugitivos e não tivesse convocado as pessoas, uma vez que elas têm demonstrado uma obediência identitária sob a bandeira francesa, elas se esconderiam em suas casas ou vestiriam o uniforme de reservista sob o som da corneta na Síria.

Assim, no momento mais baixo de popularidade, nossos líderes têm tido a capacidade, através de três fascistas pervertidos que não poderiam imaginar tal triunfo, de aparecer diante de milhares de pessoas, também aterrorizadas pelos “muçulmanos” e alimentadas por vitaminas de democracia, o pacto republicano e a grandiosa soberba da França.

A liberdade de expressão, vamos falar sobre ela! Era praticamente impossível durante todos os primeiros dias deste caso, expressar o que estava acontecendo por outro ponto de vista que não aquele que consiste em se encantar por nossa liberdade, nossa República, em amaldiçoar a corrupção de nossa identidade por jovens muçulmanos proletários e suas filhas horrivelmente cobertas com véu, e em se preparar corajosamente para a guerra contra o terror. Ouvimos o seguinte grito dessa admirável liberdade de expressão: “Somos todos policiais”.

Na realidade é natural que o pensamento único e a submissão ao medo sejam regras em nosso país. A liberdade em geral, incluindo a de pensamento, de expressão, de ação, da própria vida, consiste, hoje em dia, em tornar-se unanimemente auxiliar da polícia para o rastreamento de dezenas de agrupamentos fascistas, para delação universal de suspeitos barbudos ou cobertos com véu, e criar uma exceção permanente nos escuros conjuntos habitacionais, herdeiros dos subúrbios onde já mataram os communards? Por outro lado, a tarefa central da emancipação, da liberdade pública, consiste em agir conjuntamente com a maioria desses jovens proletários dos subúrbios, a maioria das jovens, cobertas com véu ou não, pois isto não importa. Nos quadros de uma nova política, que não se refere a nenhuma identidade (“os proletários não tem pátria”) prepara-se uma figura igualitária de uma humanidade que finalmente se apropria do seu próprio destino? Uma política que considera de forma racional que nossos verdadeiros mestres impiedosos, os ricos governantes do nosso destino, devem ser finalmente demitidos?

Houve na França, há muito tempo, dois tipos de manifestações: as sob a bandeira vermelha e as sob a bandeira tricolor. Acredite em mim: no que concerne a reduzir a nada os pequenos grupos fascistas identitários e assassinos - aqueles que apelam para formas sectárias do Islã, a identidade nacional francesa ou a superioridade Ocidental -, não são as tricolores, controladas e utilizadas pelos poderosos, que são eficientes. Estas bandeiras são outras, as vermelhas, e que precisam voltar.