29 de abril de 2015

Em Baltimore e em todo o país, rostos negros em cargos altos não ajudaram proporcionalmente o povo negro

Eleger líderes políticos afro-americanos fez pouco para aliviar o sofrimento da América Negra.

Keeanga-Yamahtta Taylor 


Créditos: Shawn Gude/ Jacobin.

Tradução / Este ano marca o 50º aniversário de vários dos mais significativos eventos da Luta pela Liberdade Negra nos Estados Unidos, nos anos 1960. Dois anos atrás, celebramos a Marcha sobre Washington; ano passado rememoramos o Ato dos Direitos Civis de 1964, que acabou com o apartheid de Jim Crow no Sul. Este ano, já assistimos às comemorações do aniversário do Voting Rights Act (Leis dos Direitos de Voto), e o fim do verão americano verá o 50º aniversário do Watts Rebellion (Tumultos de Watts) em Los Angeles. Claro, o país já havia visto, em 1964, rebeliões em Rochester, Nova York; Filadélfia; e Trenton, Nova Jersey, para nomear só algumas cidades, mas até aquele momento Watts não tinha precedentes em escala, danos, mortes e fúria absoluta no verão de 1965. O levante no sul central de Los Angeles representou uma dura conclusão da fase não-violenta do movimento.

As plumas de fumaça acre que pairam sobre a cidade de Baltimore são uma dura lembrança do passado recente da década de 1960. Mas os levantes pela morte de Freddie Gray, de 25 anos, vistos naquela cidade semana passada não são simplesmente repetição de acontecimentos que tiveram lugar há cinquenta anos. As desigualdades que incendiaram centenas de cidades americanas nos anos 1960 ainda existem e têm, na verdade, se aprofundado durante o último meio século. Então como agora, violência generalizada e assédio policial definem a humilhação e impotência da vida de milhões de afro-americanos pobres e da classe trabalhadora.

Mas o que torna o levante de Baltimore diferente daqueles de uma era anterior é que os ataques perversos aos afro-americanos ocorreram num momento de poder político negro sem precedentes.

A menos de 60 quilômetros de Baltimore, na capital da nação, reside o primeiro presidente afro-americano do país. Há 43 membros do Congresso e dois senadores negros – o mais alto número de parlamentares negros da história americana. E exatamente quando a parte oeste de Baltimore explodia contra o assassinato de Freddie Gray pela polícia, Loretta Lynch tornava-se a primeira mulher negra indicada como procuradora geral.

Este não é apenas um fenômeno nacional; ele se reflete também na política local. Em Baltimore, os afro-americanos controlam virtualmente todo o aparato político. A prefeita Stephanie Rawlings-Blake e o comissário de polícia Anthony Batts têm sido os rostos mais notáveis do poder político em Baltimore nas últimas semanas. Mas a Câmara Municipal de Baltimore tem quinze membros, e a maioria – oito – são afro-americanos, inclusive seu presidente. O superintendente da rede pública de educação e todos os conselheiros do serviço habitacional do município são afro-americanos. Por todos os Estados Unidos, milhares de funcionários negros eleitos estão governando muitas das cidades e subúrbios do país.

Nesse sentido, os acontecimentos de Baltimore são dessemelhantes dos ocorridos em Ferguson, Missouri, no último verão. Lá, o pequeno subúrbio ao norte de Saint Louis tinha uma população majoritariamente negra governada principalmente por brancos suburbanos, e a carência de poder e representação política dos negros tornou-se o fio narrativo das explicações populares para o que deu errado. Eleger afro-americanos para cargos políticos em Ferguson tornou-se, assim, um ponto focal para muitos ativistas locais e nacionais.

Mas, se o assassinato de Mike Brown e a rebelião em Ferguson eram uma reminiscência do velho Jim Crow, então o assassinato de Freddie Gray e o levante de Baltimore são simbólicos do novo poder negro.

Na verdade, a busca de poder eleitoral negro tornou-se uma das principais estratégias que emergiram da era do “Black Power”, o Poder Negro. No fim dos anos 1960, tornaram-se mais intensos os apelos pelo “controle comunitário” sobre as cidades em que os negros viviam. Esses apelos faziam sentido: a “Grande Migração” trouxe milhões de afro-americanos para as cidades e ajudou a transformar as preocupações dos negros em discussões políticas (embora raras vezes em ação). Em muitas cidades, a demografia metropolitana mudou, à medida em que os negros se mudavam para elas e os brancos as abandonavam.

O controle político branco de cidades crescentemente negras exacerbou as tensões existentes sobre as condições daqueles municípios. Em cidades como Chicago, a máquina de clientelismo poderia puxar alguma participação negra, mas isso dificilmente se assemelhava a qualquer real controle político ou econômico negro sobre a infraestrutura da cidade. A destruição e a instabilidade causadas pelos levantes urbanos ao longo da década fizeram avançar a noção, entre as elites, de que talvez mais propriedades e controle negro nas cidades pudesse ajudar a acalmar a rebelde população negra.

Hoje, temos mais governantes negros eleitos nos Estados Unidos do que em qualquer outro momento da história americana. Ainda assim, para a ampla maioria da população negra, a vida mudou muito pouco. Os funcionários públicos negros eleitos governaram geralmente do mesmo modo que seus pares brancos, refletindo todo o racismo, a corrupção e as políticas de favorecimento dos ricos praticadas em toda a política dominante.

Baltimore é um exemplo revelador. A prefeita Blake Rawlings pode ser afro-americana, mas, sob sua liderança, grandes áreas da Baltimore negra permaneceram pobres, desempregadas e eternamente perseguidas e abusadas pela polícia. Apenas nos últimos quatro anos, mais de cem pessoas venceram processos civis contra a brutalidade da polícia. Durante o mandato de Rawlings-Blake, a cidade foi forçada a pagar 5,7 milhões de dólares para resolver ações cíveis relacionadas à má conduta e brutalidade policial – quantia que não inclui os 5,8 milhões de dólares que o município pagou para defender os policiais que abusaram da população negra.

A despeito da ilegalidade do Departamento de Polícia de Baltimore, a prefeita reservou seus comentários mais duros para aqueles que se envolveram no levante, tachando-os de “criminosos” e “bandidos”. Para qualquer pessoa remotamente informada da história da prefeita Rawlings-Blake, seu ataque às vítimas da corrupção e da brutalidade policial não seria surpreendente.

Ainda que injustificados ataques tenham sido amplamente documentados e julgados, um mês antes dos tumultos a prefeita culpou os homens negros pela violência em Baltimore. Invocando o ex-prefeito de Nova York Rudy Giuliani, Rawlings-Blake disse sobre a violência na cidade: “Muitos de nós, na comunidade negra, nos tornamos complacentes com os crimes de negros contra negros... Enquanto muitos de nós estão dispostos a marchar e protestar e tornar-se ativos diante da má conduta policial, muitos de nós fazem vista grossa quando nós mesmos nos matamos.”

Ignorando a longa história de racismo e a epidemia de terrorismo policial que atormentam a vida dos negros em Baltimore, a prefeita, como tornou-se típico da elite política negra, culpou os afro-americanos que vivem na cidade pelos problemas lá existentes.

A maior diferença entre a vida hoje e 50 anos atrás, em cidades como Baltimore, é não apenas a existência de um estrato político negro que governa e gerencia boa parte da América negra, mas também a maneira como essa poderosa classe política negra ajuda a desviar o sério questionamento sobre a desigualdade estrutural e o racismo institucional. Ao contrário, os líderes dessa classe política ressuscitam velhas e convenientes narrativas que colocam a cultura e as famílias negras no centro da explicação sobre a persistente desigualdade racial.

Para manter a legitimidade dentro do Partido Democrata, considerado como a própria casa pela maioria desses políticos negros, eles se posicionaram na linha do partido que enfatiza a responsabilidade pessoal e rejeita aumentar impostos de modo a conseguir fundos para programas sociais desesperadamente necessitados. E governantes negros eleitos tanto criam quanto ampliam o espaço para brancos questionarem os hábitos morais dos negros comuns. Quando o presidente Obama, a prefeita Rawlings-Blake e o procurador geral Lynch se referem aos manifestantes negros como “arruaceiros” e “criminosos”, os republicanos brancos não precisam dizer nada.

Os governantes negros eleitos frequentemente invocam um senso de solidariedade e familiaridade racial, e falam sobre a vida dos negros pobres e da classe trabalhadora – apenas para, então, castigar ou culpar os afro-americanos comuns pelas condições de deterioração de seus próprios bairros.

Isso não é apenas produto do desprezo pelos negros pobres, mas também resultado das pressões de governar grandes cidades numa era de austeridade. As cidades têm sido levadas a concorrer entre si para atrair capital, resultando numa corrida que acaba por cortar impostos e essencialmente excluir aqueles que necessitam dos serviços sociais. O foco no fracasso individual e falhas morais (ao invés de em desigualdades estruturais) justifica cortes de orçamento e redução da esfera pública que essas elites políticas negras são acusadas de realizar. O que os afro-americanos em cidades de todo o país necessitam, de acordo com essa narrativa, é de transformação pessoal, não de expansão dos serviços sociais.

As práticas dos políticos negros se dão no mesmo terreno que as de seus pares brancos. Eles competem para manter-se nas boas graças de doadores ricos, enquanto maximizam as conexões políticas para reforçar seus cofres de campanha. Também contam com policiamento agressivo para compensar os problemas sociais criados quando a pobreza, os serviços sociais destruídos e a falta de perspectivas de sucesso na sociedade norte-americana convergem e, eventualmente, entram em combustão.

O levante de Baltimore cristalizou o aprofundamento da divisão política e de classe na América negra. Esse é um novo desdobramento da luta pela liberdade dos negros, que historicamente têm se unido cruzando linhas de classe para lutar contra o racismo. Da Casa Branca às prefeituras de todo o país, o crescimento e maturação da classe política negra a tem colocado numa posição de gerenciar as crises que continuam a se desenrolar nos bairros negros. Os operadores políticos negros não oferecem aos afro-americanos comuns soluções melhores que qualquer outro governante eleito. Em Ferguson e agora em Baltimore, é o movimento nas ruas que está trazendo a atenção global para o racismo e a desigualdade que ainda prosperam na sociedade norte-americana – e não rostos negros em altos cargos.

28 de abril de 2015

A estratégia chefão

O assassinato como política em Washington e como fracassou (1990-2015)

Andrew Cockburn

Tom Dispatch

Tradução / Com a guerra ao terror aproximando-se do 14º aniversário – guerra que os Estados Unidos parecem estar perdendo, com os jihadistas avançando no Iraque, na Síria, no Iêmen – os EUA mantêm-se obcecadamente presos a sua estratégia de “alvejar alvos de alto valor” [“high-value targeting”], o eufemismo preferido no país para “assassinato”. O Secretário de Estado, John Kerry, citou com orgulho a eliminação de “cinquenta por cento” dos “comandantes” do Estado Islâmico como recente indicação de avanços. Houve notícias de que Abu Bakr al-Baghdadi, o "Califa" do Estado Islâmico, em pessoa, teria sido gravemente ferido num ataque aéreo em março e, portanto, estava afastado do comando diário da organização. Em janeiro, como a Casa Branca admitiu tardiamente, um ataque cujo alvo era a liderança da al-Qaeda no Paquistão conseguiu matar também um cidadão americano, Warren Weinstein e outro refém que estava com ele, o italiano Giovanni Lo Porto.

Mais recentemente no Iêmen, quando a al-Qaeda na Península Arábica tomou um aeroporto chave, um drone dos EUA assassinou Ibrahim Suleiman al-Rubaish, suposta figura importante na hierarquia do grupo. Ao mesmo tempo, o canal saudita de notícias, al-Arabiya mostrava um baralho cujas cartas exibiam fotos dos principais inimigos dos sauditas no Iêmen, lastimável cópia do infame baralho de cartas criado pelos militares dos EUA pouco antes da invasão do Iraque, como indicação dos iraquianos a serem mortos (Saddam Hussein era o ás de espadas).

Seja qual for o eufemismo – os israelenses preferem falar de “prevenção focada” – o assassinato tem sido claramente a estratégia preferencial de Washington no século XXI. Os métodos de matar, incluindo drones, mísseis cruzadores e equipes de rastreadores-matadores nas Forças Especiais, podem variar, mas a noção central, de que o caminho do sucesso está em matar diretamente os líderes inimigos está firmemente incorporada. Como a então Secretária de Estado, Hillary Clinton, disse em 2010, "Acreditamos que o uso de operações orientadas pela inteligência e com alvo predefinido contra insurgentes de alto valor e suas redes é componente chave" da estratégia dos EUA.

Análises dessa política recordam, corretamente, o precedente sangrento do Programa Fênix da CIA na era Vietnã, quando foram “neutralizados” pelo menos 20 mil seres humanos. Mas há fonte de inspiração mais recente e mais direta, embora menos notada, para o programa de assassinatos por matadores americanos, no Oriente Médio Expandido e na África: a chamada “estratégia chefão” que foi usada nas guerras das drogas de Washington nos anos 1990. Como disse-me pessoalmente um ex-alto funcionário da Casa Branca para contraterrorismo, em entrevista em 2013, "A ideia nasceu da guerra às drogas. O precedente já estava no sistema, modelando nosso pensamento. Tínhamos alto grau de confiança na serventia do assassinato predefinido. Havia convicção generalizada de que essa era ferramenta que tínhamos de usar."

Tivesse o tal funcionário especialista melhor informação sobre o resultado desse capítulo da guerra às drogas, talvez tivesse menos confiança na utilidade da “ferramenta”. Na verdade, a parte mais estranha dessa história é que a estratégia de matar os chefões da droga, que deu resultado terrivelmente errado, praticamente o oposto do que se esperava, tenha voltado a ser aplicada em grande escala, depois, na guerra contra o terror - com exatamente os mesmos resultados.

Aparece a estratégia chefão

No início dos anos 1990, a Drug Enforcement Administration (DEA) era a prima pobre dentre as agências de polícia federal nos EUA. Criada duas décadas antes pelo Presidente Richard Nixon, dormitava à sombra das irmãs mais poderosas, sobretudo o FBI. Mas o futuro lhe trouxe esperanças. O presidente George H.W. Bush acabava de relançar a guerra às drogas que havia sido lançada por Nixon, e havia gordas dotações orçamentárias à vista. Além do mais, em contraste com os tempos de Nixon, quando os grupos de traficantes viviam nas sombras, naquele momento o inimigo tinha rosto ou rostos conhecidos. Os cartéis colombianos de tráfico de cocaína estavam na mídia, seu poder e a eficiência violenta e cruel divulgados na mídia.

Para Robert Bonner, um ex-promotor e juiz federal designado para chefiar a DEA em 1990, a oportunidade não poderia ter sido mais clara. Embora Nixon alimentasse fantasias de usar sua força antidrogas para assassinar traficantes, e até tivesse pedido a líderes da comunidade de emigrados cubanos anti-Castro que lhe fornecessem os indispensáveis assassinos, Bonner tinha algo mais sistemático em mente. Ele a chamou de uma “estratégia chefão”, cujo objetivo seria a eliminação, pela morte ou pela captura, dos "chefões" que dominavam esses cartéis.

Implícito no conceito estava o pressuposto de que os EUA enfrentavam uma ameaça estruturada hierarquicamente, que poderia ser derrotada pela remoção dos elementos chaves do comando. Nisso, Bonner fazia eco a uma doutrina tradicional da Força Aérea dos EUA: que todo e qualquer sistema inimigo contém necessariamente “nodos críticos”, cuja destruição levaria ao colapso do inimigo.

Num discurso revelador de 2012, numa reunião de veteranos da DEA organizada para comemorar os 20 anos de lançamento da estratégia de assassinar o bandido-em-chefe, Bonner falou do inimigo empresarial que enfrentara. Os grandes traficantes de droga, disse ele, "são, por qualquer ponto de vista que se os analisem, grandes organizações. Por definição operam transnacionalmente. São integrados verticalmente em termos de produção e distribuição. E, aliás, mantêm gente muito esperta, embora também muito cruel, no topo; e têm estrutura de controle e comando. E eles também têm seus especialistas, encarregados de determinadas funções essenciais da organização, como logística, vendas e distribuição, finanças e policiamento." Daí se inferiu que a remoção desses personagens muito espertos do topo da organização, para nem falar dos especialistas em logística, tornaria o cartel inoperante e, assim, se interromperia o fluxo de narcóticos para os EUA.

A caça aos bandidos-em-chefe prometia ricas recompensas institucionais. Além da superior presença do FBI, Bonner teve de discutir com outro predador carnívoro na selva da burocracia de Washington, que ansiava por tomar contra do território da agência de Bonner. “DEA e CIA eram como cão e gato” – relembra o ex-diretor da DEA, numa entrevista em 2013. “Havia tensão real entre elas”. Mas Bonner conseguiu negociar a paz com a poderosa agência, “com o quê passamos a ter uma aliada muito importante: a CIA podia usar a DEA e vice-versa”.

Queria dizer que a agência superior podia usar os poderes legais da agência antidrogas para agir domesticamente, com grande vantagem. Essa próspera relação atraiu outros potentes aliados. Agora, não apenas a sua agência estava mais próxima da CIA, como me disse Bonner, mas “através da CIA, nos aproximamos também da Agência de Segurança Nacional, NSA”. Uma nova Divisão de Operações Especiais criada para trabalhar com as agências superiores ficou encarregada de supervisionar os ataques aos chefões, operando a partir de massiva inteligência eletrônica.

Essa nova orientação rapidamente ganharia credibilidade depois da eliminação do líder do cartel mais afamado de todos. Pablo Escobar, figura dominante do cartel de Medellín, era objeto de atenção obsessiva dos federais norte-americanos. Há muito tempo escapava das caçadas organizadas e comandadas pelos EUA, antes de negociar um acordo com o governo da Colômbia em 1991, pelo qual passou a residir numa “prisão” que o próprio Escobar construíra nas colinas acima de sua cidade natal. Um ano depois, temendo que o governo planejasse trair o acordo e entregá-lo aos norte-americanos, Escobar deixou aquela prisão e mergulhou na clandestinidade.

A caçada que se seguiu, para prender o barão das drogas fugitivo marcou um ponto de virada. A Guerra Fria acabara; Saddam Hussein fora derrotado na 1ª Guerra do Golfo em 1991; escasseavam as ameaças críveis contra os EUA; e pairava no ar o perigo dos cortes no orçamento da “defesa”. Foi quando os EUA empregaram toda a parafernália da vigilância tecnológica originalmente desenvolvida para confrontar o inimigo soviético, contra um único alvo humano. A Força Aérea enviou vasto sortimento de aviões de reconhecimento, inclusive os SR-71s, capazes de voar a velocidade equivalente a três vezes a velocidade do som. A Marinha enviou seus próprios aviões espiões; a CIA contribuiu com um drone helicóptero.

Houve um momento em que havia 17 dessas aeronaves espiãs voando simultaneamente sobre Medellín, embora, como adiante se verificou, nenhuma delas tenha oferecido qualquer informação que ajudasse a localizar Escobar. A DEA tampouco fez qualquer contribuição relevante. Quem realmente teve papel decisivo foram traficantes rivais de Escobar, de Cali – o segundo maior cartel colombiano de tráfico de drogas – que trabalharam na destruição dos sistemas de poder e de organização do grupo de Escobar. Combinaram inteligência racionalmente construída e operada, e a mais sangrenta e violenta crueldade.

Com a sua antes poderosa rede de informantes e guarda-costas já destruída, Escobar acabou localizado, por causa de um rádio rastreado; e foi morto a tiros quanto tentava fugir por um telhado, no dia 2 de dezembro de 1993. Embora seja assunto controverso e jamais confirmado, um ex-alto funcionário da DEA garantiu-me que, sem dúvida possível, o tiro que o matou partiu da arma de um atirador de elite da Força Delta das Operações Especiais do Exército dos EUA.

Depois desse sucesso, a DEA voltou suas atenções para o cartel de Cali, jogando contra ele todos os recursos disponíveis: “Desenvolvemos realmente o uso de gravações telefônicas clandestinas” – disse-me Bonner. Paciência e uma quantidade enorme de dinheiro acabaram por produzir resultados. Em junho e julho de 1995, seis dos sete cabeças do cartel de Cali foram presos, inclusive os irmãos Gilberto e Miguel Rodríguez-Orijuela e o cofundador do cartel, José “Chepe” Santacruz Londoño. Embora Londoño tenha depois escapado da prisão, acabou também caçado, encontrado e assassinado. Pressão continuada dos EUA ao longo dos anos finais da década e depois disso, resultaram numa longa cadeia de chefões do tráfico para as prisões, com sentenças de prisão perpétua, ou para os cemitérios.

Os cabeças do cartel diminuem e as drogas aumentam

A estratégia parecia ter sido um sucesso retumbante. "Quando Pablo Escobar teve de fugir e esconder-se, sua organização começou a desmoronar... e acabou destruída. E essa foi a estratégia que chamamos de estratégia chefão”, jactava-se Lee Brown, o “czar da droga” de Bill Clinton, em 1994.

Pelo menos em público, nenhum funcionário do governo deu-se ao trabalho de explicar que, se o objetivo da tal estratégia era conter o uso de drogas pelos norte-americanos, o resultado final foi o exato oposto do que deveria ter sido. O ponto pelo qual a vitória da estratégia converteu-se em fracasso estava no preço da cocaína negociada nas ruas dos EUA. Naqueles anos, a DEA dedicava esforço enorme no monitoramento do preço da droga nas ruas, usando agentes infiltrados para comprar e compilando depois, laboriosamente, em cuidadosos “balanços”, tudo o que fora pago.

Mas a droga obtida por esses meios sub-reptícios era de pureza terrivelmente variável, com a cocaína muita vezes trocada por substituto sem valor comercial. Assim, o preço do grama de cocaína pura variava enormemente, porque alguns maus negócios, de material de baixa pureza, faziam o preço médio oscilar muito. Os varejistas de rua começaram a compensar os preços mais altos reduzindo a pureza da droga que vendiam, em vez de cobrar mais caro por grama. Com isso, os quadros de preço que a Agência mantinha passaram a indicar menor movimento; e nada informaram sobre os eventos que estavam afetando os preços e, portanto, a oferta da droga.

Mas em 1994, o Instituto de Análises para a Defesa, o think-tank que o Pentágono mantém intramuros, começou a examinar mais detidamente os dados sobre drogas nos EUA. O analista, um ex-piloto de combate da Força Aérea, de nome Rex Rivolo, foi encarregado de fazer exame independente da situação da guerra às drogas, a pedido de Brian Sheridan, o prático e realista Diretor da Comissão para Política de Controle de Drogas do Departamento de Defesa – que desenvolvera saudável desrespeito pela DEA e suas operações.

Depois de informar aos funcionários da DEA que suas estatísticas não valiam nada, mero “ruído aleatório”, Rivolo pôs-se a trabalhar para desenvolver uma ferramenta estatística que eliminaria o efeito, no tráfico, das oscilações da pureza das amostras recolhidas pelos agentes infiltrados. Tão logo Rivolo pôs em funcionamento a nova ferramenta, começaram a surgir conclusões interessantes: a caçada aos bandidos-em-chefe das organizações quase com certeza estava influenciando os preços e, por extensão, a oferta. Mas não na direção que o DEA propagandeava. Longe de impedir que o fluxo de cocaína alcançasse as narinas dos norte-americanos, a caçada aos barões estava acelerando o processo. Eliminar os chefões havia, de fato, aumentado a oferta de cocaína nos EUA.

Foi revelação que causou impacto, porque andava contra atitudes muito tradicionais da cultura policial nos EUA, que chegavam aos dias da guerra de Eliot Ness contra os contrabandistas de bebida nos anos 1920s e que se tornariam a base das guerras contrainsurgência de Washington no século XXI. Era diagnóstico que poderia ter sido feito intuitivamente, sobretudo depois que a estratégia de assassinar o bandido-em-chefe passou a ser aplicada contra terroristas e insurgentes. Mas, pelo menos daquela vez, havia dados observáveis, computáveis, inegáveis.

No último mês de 1993, por exemplo, a antes gigantesca organização de contrabando de cocaína de Pablo Escobar já estava em cacos, e ele estava sendo caçado pelas ruas de Medellín. Se a premissa da estratégia da DEA – que eliminar os barões da droga faria diminuir a oferta de drogas – estivesse correta, a oferta de cocaína dos EUA deveria ter sido interrompida.

Na verdade, aconteceu o oposto: naquele período, o preço da cocaína nas ruas dos EUA caiu de cerca de US$ 80 para cerca de US$ 60 o grama, porque aumentou a oferta de outros grupos para o mercado norte-americano. E o preço continuaria a cair ainda mais depois da morte de Escobar. Igualmente, quando o principal grupo que comandava o cartel de Cali foi preso em meados de 1995, os preços da cocaína, que haviam subido muito no início daquele ano, entraram em declínio vertiginoso, que continuou ao longo de 1996.

Certo de que a queda dos preços e a eliminação dos chefões estavam conectadas, Rivolo pôs-se a procurar uma explicação, que encontrou numa velha teoria econômica que chamou de “competição monopolística”. É coisa de que não se fala há anos – ele explicou. No essencial, diz que se você tem dois produtores de algo, há determinado preço. Se você dobra o número de produtores, o preço é cortado ao meio, porque os dois produtores partilham o mercado.

"A questão portanto era" ele continuou "quantos monopólios havia por aí? Tínhamos três ou quatro grandes monopólios. Mas vocês os pulverizaram, dividiram-nos por vinte. Quem conheça as leis da competição monopolística, já saberia que o preço despencaria. Claro que nos anos 1990s o preço da cocaína estava despencando, porque a concorrência estava chegando e forçando a disputa. A melhor coisa que poderiam ter feito seria deixar aí um cartel sobre o qual tínhamos algum controle. Se o objetivo de vocês é reduzir o consumo de drogas nas ruas, o mecanismo tem de ser esse. Mas se você é policial, sua meta é prender o bandido. Daí que nós passávamos o ano inteiro tendo de lutar contra a mentalidade policial dessas organizações provincianas como a DEA."

A estratégia chefão se une à Guerra ao Terror

No fundo das selvas do sul da Colômbia, fazendeiros plantadores de coca não precisam de obscuras teorias econômicas para compreender as consequências da estratégia de matar o bandido-em-chefe. Quando chegaram as primeiras notícias de que Gilberto Rodríguez-Orejuela havia sido preso, pequenos varejistas no vilarejo remoto de Calamar deram vivas. Graças à virgem abençoada! exclamou uma senhora idosa, a um repórter americano que estava lá.

"Espere só até que os EUA entendam o que isso realmente significa", disse outro residente local. – "Vai ver talvez até aprovem, porque é realmente uma vitória da livre empresa! Nada de monopólios controlando o mercado e decidindo o quanto nós, os que plantamos, devemos receber. Aconteceu a mesma coisa quando eles mataram Pablo Escobar: agora, vai haver dinheiro para todos"

Essa avaliação mostrou inteiramente correta. Quando os grandes cartéis foram desmontados, o negócio reverteu para grupos menores, e até mais violentos, que trataram de manter satisfatórias a produção e a distribuição, sobretudo porque mantinham laços com os grupos para–militares fascistas antiguerrilhas aliados do governo da Colômbia e tacitamente apoiados pelos EUA.

Grande parte do trabalho de Rivolo sobre esse assunto ainda é material sigiloso. Não surpreende que seja, não apenas porque desmonta toda a argumentação a favor da “estratégia de assassinar o bandido-em-chefe” na guerra das drogas dos anos 1990s, mastambém porque acerta o plexo da doutrina dos “alvos de alto valor” a serem assassinados, e que é obsessão do governo Obama, com suas campanhas de assassinatos com drones por todo o Oriente Médio Expandido e partes da África.

Rivolo pôde, na verdade, monitorar a aplicação da mesma estratégia de matar o bandido-em-chefe também na década seguinte. Em 2007, foi nomeado para uma pequena, mas muito capacitada, célula de inteligência ligada ao quartel-general em Bagdá do general Ray Odierno, o qual, naquele momento, era o comandante de operações dos EUA no Iraque. Enquanto lá esteve, Rivolo ocupou-se com examinar o que estava acontecendo no contexto da eliminação dos “indivíduos de alto valor” [“high-value individuals,” (HVIs)]. Construiu uma lista de 200 desses indivíduos-alvos de alto valor – líderes de insurgências locais –que haviam sido assassinados ou capturados entre junho e outubro de 2007. Em seguida, examinou o que acontecera depois da eliminação deles, nas localidades onde operavam.

Os resultados, ele descobriu quando pôs os números em gráficos, eram mensagem inequívoca, muito clara: a estratégia estava forçando novidades nas localidades, mas não as novidades desejadas. Era praticamente a mesma mensagem que já se inferira do uso da estratégia de matar o bandido-em-chefe na guerra às drogas dos anos 1990. Matar os “indivíduos de alto valor” não fazia diminuir o número de ataques nem ajudava a salvar vidas norte-americanas: aumentava o número de ataques e de norte-americanos mortos. Cada assassinato de líder local, causava pandemônio. Num raio de três km da base de operações do alvo assassinado, os ataques, ao longo de 30 dias depois do assassinato aumentavam 40%. Num raio de cinco km, típica área de operações de célula insurgente, o aumento ainda era de 20%. Resumindo suas conclusões para o general Odierno, Rivolo acrescentou uma enfática linha final: "Conclusão: a Estratégia de matar indivíduos de alto valor, nossa principal estratégia no Iraque, é contraproducente e tem de ser reavaliada."

Como no caso da “estratégia chefão”, as causas desse resultado aparentemente contra-intuitivo não são difíceis de compreender. Os comandantes mortos eram imediatamente substituídos, e os novos comandantes quase sempre eram mais jovens e mais agressivos que os antigos chefes, ansiosos para “fazer um nome” e demonstrar seu valor.

A pesquisa e as conclusões de Rivolo, que foram apresentadas em resumo para os mais altos níveis, não provocaram qualquer diferença. A estratégia de matar o bandido-em-chefe pode ter fracassado nas ruas das cidades dos EUA, mas com certeza foi retumbante sucesso no que tenha a ver com a prosperidade da DEA. O orçamento da agência, indicador seguro do status da agência, aumentou 240% durante os anos 1990s, de US$ 654 milhões em 1990, para mais de US$ 1,5 bilhões uma década adiante. Assim também, embora em escala muitíssimo maior, o assassinato de alvos de alto valor também fracassou e não gerou os resultados esperados no Oriente Médio Expandido, onde cresceu o recrutamento para o terror, multiplicado, agora, à sombra dos drones matadores. (A remoção de al-Baghdadi do controle diário do Estado Islâmico, por exemplo, em nada retardou ou reduziu as operações do grupo). Mas a estratégia tem gerado, isso sim, inestimáveis proveitos para muita, muita gente, desde os fabricantes dos drones até os funcionários do contraterrorismo na CIA, que fracassaram tão espetacularmente na prevenção do 11/9 e agora fazem do assassinato a sua própria raison d'être.

Não admira que os sauditas queiram seguir os nossos passos no Iêmen. É um mundo grande. Quem será o próximo?

Grécia atravessa as linhas vermelhas

Michael Roberts


Tradução / A notícia de que o primeiro-ministro grego Tsipras retirou o seu ministro das Finanças Yanis Varoufakis das negociações diretas com o Eurogrupo sugere que o governo Syriza está a preparar-se para mais concessões à Troika a fim de chegar a acordo sobre os termos da liberação dos fundos existentes da UE e do BCE ao abrigo da quarta extensão do segundo pacote de salvamento (bailout). Varoufakis foi substituído por Euclid Tsakalatos, economista educado em Oxford e anteriormente, quando o Syriza estava na oposição, ministro sombra das Finanças (aqui). Tsakalatos possivelmente é mais "moderado" e certamente mais aceitável para os ministros das Finanças do Eurogrupo do que o "carismático" Varoufakis, que parece odiado.

Este passo de Tsipras rumo a mais concessões e talvez a abandonar as suas "linhas vermelhas" não negociáveis que o Syriza não permitiria serem transpostas possivelmente obteria apoio do povo grego, se os atuais inquéritos de opinião forem corretos. Um deles dizia que 79% dos gregos querem permanecer no euro e 50% querem alcançar um compromisso ao invés de uma ruptura (36%). Cerca de 63% dos gregos querem evitar um incumprimento das dívidas do governo grego. E se houvesse um acordo que rompesse as ditas linhas vermelhas, então os gregos prefeririam um governo de unidade nacional (44%) ao invés de um referendo (32%) ou de novas eleições (19%) para confirmá-lo. O Syriza ainda lidera nos inquéritos com 36% dos votos potenciais, a comparar com 22% para a direita da Nova Democracia; 5% para o social-democrata Potami; 3% para o PASOK em bancarrota e agora apenas 5% para o fascista Aurora Dourada e para os comunistas.

O tempo está a esgotar-se para chegar a qualquer espécie de acordo que mereça a aprovação do povo grego e evite um incumprimento de dívidas e uma possível saída da Eurozona. O governo conseguiu "raspar" suficiente cash apropriando-se de reservas de autoridades locais e outras agências do governo de modo a que possa pagar as próximas obrigações de dívida ao FMI durante o mês de Maio. Mas é improvável que tenha o suficiente para reembolsar o FMI em junho e certamente não o suficiente para pagar a conta de €3,5 bilhões do BCE em julho – a menos que deixe de pagar salários aos seus trabalhadores e as pensões do estado.


Ironicamente, o governo Syriza ainda dispõe de um excedente orçamental de €1,7 bilhões do primeiro trimestre deste ano. Ele conseguiu isto simplesmente por não pagar as suas contas a fornecedores do governo ou aos serviços de saúde e escolas. Ao fazer isto, ele pode cumprir com os salários dos trabalhadores do setor público e com as pensões. O problema é que [o montante] de impostos não pagos está a subir constantemente, atingindo €3,5 bilhões no primeiro trimestre, embora o crescimento deste déficit tenha estado a atenuar-se. O povo, especialmente pessoas ricas e homens de negócios, fica pouco desejoso de cumprir seus deveres fiscais se pensar que em breve a Grécia será lançada para fora da Eurozona e o governo não cumprirá com suas dívidas e desvalorizará os euros gregos. Eles querem manter consigo todos os euros que obtiveram.

Até agora o BCE tem estado a financiar os bancos gregos à medida que os seus depósitos caem. Mas os bancos gregos começam a ter falta de "colateral" adequado para financiamento do BCE, nomeadamente de Euro bonds da Euro instituição, o EFSF (European Financial Stability Facility), que os bancos mantêm desde a recapitalização executada em 2013. E o BCE cessará o crédito se o governo grego incumprir suas dívidas.

Quando em fevereiro último começaram as negociações sobre uma extensão de quatro meses do pacote de salvamento, considerei que era provável um acordo mas que as negociações seriam longas e tortuosas, e assim aconteceu. Mesmo que haja um acordo para liberar os €7,2 bilhões ainda disponíveis sob o antigo pacote de salvamento, será difícil alcançar um novo pacote para financiar os bancos gregos e cumprir com os reembolsos ao FMI até abril de 2016.

Há uma possibilidade de que se o Syriza fizer bastantes concessões quanto a: redução de pensões; aumento do IVA; permissão de privatizações e introdução de "reformas" nos mercados de trabalho, poderia então obter os €7,2 bilhões e negociar também um terceiro pacote para o período pós junho que cumprisse futuros reembolsos ao BCE e ao FMI e ainda não impor um pacote de austeridade demasiado pesado. Aparentemente, Tsipras, Merkel e o Eurogrupo concordaram em que o alvo do superávit primário orçamental será reduzido de 3-4% do PIB por ano para cerca de 1,5%. E se a economia da Eurozona começasse a recuperar, isso também poderia impulsionar a economia grega através de exportações mais elevadas e entrada de mais investimento. Este é o cenário que Tsipras e os líderes do Syriza procuram.

Na verdade, Varoufakis explicou minuciosamente como tal cenário pode funcionar se os líderes Euro fossem apenas um pouco mais cordatos (aqui). Varoufakis dissera anteriormente que o objetivo seria convencer os líderes Euro e os mercados financeiros que dar à Grécia algum "espaço para respirar" permitiria que a economia recuperasse e isto ajudaria o capitalismo europeu. E o objetivo correto agora é "salvar o capitalismo de si próprio" e não lançar ridículas medidas socialistas pois "simplesmente não estamos prontos para colmatar o abismo que abrirá um capitalismo europeu em colapso com um sistema socialista a funcionar" (aqui).

Naturalmente, esta "saída" significa que o Syriza ainda estará a efetuar austeridade orçamental (ainda que "mais leve") com um excedente no orçamento do governo no momento em que o desemprego grego permanece acima dos 25% e a economia ainda está a contrair-se em termos reais e nominais. Na verdade, desde 2009 os gregos já sofreram um ajustamento de austeridade orçamental equivalente a 20% do PIB potencial.


E os trabalhadores gregos receberam uma enorme pancada a fim de restaurar a lucratividade corporativa grega: um corte de 25% nos custos do trabalho do setor privado, ou mais de 30% em relação à média euro.


Mas todos estes cortes fracassaram em reduzir mesmo uma mínima parte do rácio da dívida do governo. Ao contrário, o rácio da dívida do governo está agora nos 175% do PIB, mais alto do que em 2010. Sob qualquer acordo com a Troika, este fardo da dívida não seria reduzido pois não haveria cancelamento da dívida com a "instituições" da UE. Os gregos nunca poderão reembolsar esta dívida e é ridículo esperar que assim o façam. E, como sabemos, cerca de 90% destes empréstimos da Troika não "salvaram" gregos mas foram utilizados para reembolsar bancos franceses e alemães e hedge funds americanos que mantinham títulos gregos e estavam a pedir o seu dinheiro de volta. O dinheiro devido a estas finanças capitalistas foi meramente transferido para o setor oficial (as "instituições" da UE e o FMI) (aqui).

É verdade que os empréstimos da UE não começam a ser reembolsados até 2020, mas o Eurogrupo está a insistir em que os gregos comecem a efetuar redução de dívidas antecipadamente através de impostos mais altos e controles sobre os gastos, muito embora famílias gregas ainda estejam atoladas na pobreza e os serviços públicos de saúde, educação e habitação estejam no caos. Para os líderes Euro, é melhor preservar os outros e manter o pacto orçamental da UE. Além disso, pretendem restaurar o capitalismo grego através do aumento da lucratividade, não a restauração dos rendimentos de famílias gregas.

Ainda em fevereiro, apresentei esta questão como um triângulo impossível. O Syriza não podia reverter a austeridade, ficar no euro e permanecer unido como um partido único no governo. Um ou mais destes objectivos teriam de ser abandonados. Parece que Tsipras optará por ficar no euro, ainda que não possa reverter a austeridade ou cancelar (write off) dívida do governo grego. A questão então torna-se política: o que fará a esquerda dentro do Syriza? Será que também engolirá qualquer acordo, especialmente se Tsipras apresentá-lo num referendo popular e ganhar os votos? Ou será que dividirão o partido e forçarão Tsipras a uma aliança com a oposição (unidade nacional) para conseguir qualquer acordo aprovado pelo parlamento?

Ainda há a possibilidade de que os termos da austeridade exigidos pela Troika sejam excessivos para a liderança do Syriza aceitar e em Junho os gregos optem pelo incumprimento dos pagamentos. O FMI permite um "período de graça" de 30 dias no cumprimento de dívidas vencidas, assim o incumprimento não será tecnicamente imediato, embora provavelmente haja uma corrida aos bancos gregos. O governo teria de impor controles de capitais e travar a saída de dinheiro do país ou mesmo o simples entesouramento. Introduzir controles de capital não significa romper quaisquer regras da Eurozona, de modo que tecnicamente a Grécia ainda seria membro da mesma. Mas a corrida aos bancos significaria que ou BCE interviria a fundo ou os bancos faliriam. A condição grega como membro da Eurozona seria posta em causa.

O governo poderia continuar a afirmar que o euro era a divisa grega e não introduzir qualquer novo dracma. Mas os euros logo se tornariam escassos para pagar trabalhadores do governo e para as empresas pagarem importações e salários dos seus trabalhadores. A economia grega caminharia para um desmoronamento ainda mais profundo mais adiante. Então a desvalorização e uma nova divisa grega não estariam longe, a fim de tentar evitar um colapso. Mas desvalorização significaria que os negócios gregos encontrariam ainda mais dificuldade para pagar suas contas em euros e muitos iriam à falência. Seria uma outra forma de colapso. Estas são as consequências para o povo grego, com acordo ou sem acordo, sob o capitalismo.

A alternativa para enfrentar o problema: exigir o cancelamento dos empréstimos em euro e do FMI (o pedido original do Syriza) ou incumprimento; impor controles de capital, tomar o comando (take over) dos bancos gregos e apelar ao apoio do povo grego e do movimento trabalhista europeu. Deixar os líderes euro tomarem a iniciativa quanto à condição de membro da Eurozona, não o Syriza. O problema é que agora o povo grego tem sido levado a acreditar que há apenas uma saída: um acordo com o Eurogrupo em termos cada vez piores. A alternativa de um plano socialista de investimento e de um apelo a toda a Europa não está diante de si (aqui).

A abordagem Tsipras-Varoufakis de concessões agora e esperança de uma melhor economia capitalista mais à frente poderia funcionar por um breve período. Mas ela não reverterá as perdas terríveis em rendimentos, empregos, educação e saúde que sofreram aqueles gregos que não conseguiram ou não quiseram deixar o país. E o que acontecerá quando vier o próximo desmoronamento (slump) na economia mundial?

27 de abril de 2015

Eurogrupo exige a demissão de Varoufakis

A trajetória para a inadimplência continua

Yves Smith

Naked Capitalism

Tradução / Caso alguém ainda não tenha percebido que o Eurogrupo espera que a Grécia aja como boa vassala da própria dívida, mais chiliques choveram sobre Yanis Varoufakis na reunião da sexta-feira passada (24 de abril de 2015), que gerou uma rajada de artigos nada elogiosos, e culminam agora com o Eurogrupo exigindo que o governo grego demita seu ministro. Não que haja, aí, qualquer novidade; houve agitação semelhante em fevereiro, quando a hostilidade entre Varoufakis e o Ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schauble chegou a tais níveis, que Schauble recusou-se a permanecer na mesma sala com seu contraparte grego. A solução durante as negociações foi isolar Varoufakis, enquanto Christine Lagarde, o Presidente do Eurogrupo, Jeoren Djisselbloem e outros eurocratas top faziam diplomacia de porão, para reformatar a linguagem a ser apresentada diretamente ao Primeiro-Ministro grego Alex Tsipras, excluindo Varoufakis completamente (matérias jornalísticas apresentaram o memorando como fato consumado, com uma delas afirmando que Tsipras ouvira que era pegar ou largar; e outro, que Tsipras não teria tido autorização para alterar sequer uma palavra).

E Varoufakis? Sai ou não sai? A resposta, aqui, seja qual for, deve ser tomada com um punhado de sal, porque os eurocratas parecem crer que Tsipras seria mais dobrável às suas opiniões que Varoufakis. Na verdade, segundo todos os informes, Tsipras permanece no absoluto controle de tudo (apesar das falas descoordenadas de vários ministros; falar e decidir são coisas bem diferentes). Assim sendo, não há qualquer fundamento para que o Eurogrupo escolha uma ou outra cara, porque nem um nem outro dos gregos mudará qualquer coisa do que realmente interessa à Grécia. Seja como for, eis a versão do Financial Times:

Indício de que a abordagem combativa do Sr. Varoufakis está gerando preocupações também na Grécia, alto funcionário do governo em Atenas disse que a reunião em Riga provavelmente porá de lado o ministro, enquanto Tsipras e seu vice Yannis Dragasakis iniciam participação mais direta. (...)

Funcionários da Eurozona e do governo grego acreditam que as diferenças entre Varoufakis e Tsipras estão-se aprofundando e que apelo organizado ao primeiro-ministro pode ainda produzir algum acordo até o final de maio, quando talvez se chegue à conclusão de que é preciso chegar a algum acordo, se qualquer desembolso foi feito antes de que expirem o atual plano de resgate, no final de junho.

Embora haja amplas diferenças entre Atenas e os credores na Eurozona em assuntos de fundo, o atual impasse com Varoufakis tem a ver, principalmente, com questões processuais – disseram aqueles funcionários.

Porque o novo governo prometeu que não recomeçariam as inspeções intrusivas pelos monitores do resgate, antes conhecidos como “a troika”, Varoufakis recusou-se a negociar com negociadores de nível médio em Atenas, e insistiu num acordo político a ser firmado em níveis superiores. Os líderes da Eurozona apertaram a estratégia, insistindo num novo plano de reforma econômica com monitores em Atenas, antes de qualquer discussão sobre dinheiro novo dentro do eurogrupo.”

O Financial Times, depois de criar a impressão de que Varoufakis estaria nas cordas, cita uma fonte grega não identificada, que diz que Varoufakis não será removido (pressupondo que seja removido) antes de que haja acordo sobre o chamado “resgate”.

Varoufakis permanece impassível:




E artigo em Bloomberg sobre as explosões nas reuniões do Eurogrupo, sugere que Varoufakis continua popular em casa:

Varoufakis tem o apoio da maioria dos gregos, segundo pesquisa de Alco publicada no jornal “Proto Thema”. Cerca de 55% dos respondentes disseram que têm impressão positiva do ministro, contra 36% que disseram ter impressão negativa.

Estaremos realmente diante de algum problema “de processo”? Um dos ditos de Lambert é que quando pessoas em organizações dizem que estão com “um problema de comunicação”, o problema sempre é, de fato, problema de administração & gerência. Há boas razões para desconfiar que o chamado problema “de processo” é sintoma de descaminho em questões de fundamento. Como vimos desde o início, não há superposição entre as posições de barganha dos dois lados. Se, como já dissemos, o governo grego está em crise de negação sobre a disposição dos credores para conceder sobre reformas estruturais, o reverso disso é que os credores, ou pelo menos o Eurogrupo, parece estar operando a partir de sua própria paranoia de negação obsessiva: se eles conseguirem pôr à mesa as personalidades individuais ‘certas’ e os corretos procedimentos de negociação... então haverá possibilidade de acordo.

O problema, como já dissemos, é que o governo grego está encaixotado pelos membros de sua coalizão. Ainda que os moderados do partido SYRIZA quisessem fazer concessões (e Tsipras e Varoufakis são, ambos, moderados), eles estão obrigados a apoiar os membros da esquerda mais rígida do mesmo partido SYRIZA, 1/3 do bloco. E esses não cederão. Antes de ceder, derrubam o governo de Tsipras.

Que ossos estão sendo disputados? Já dissemos que o novo governo repetidas vezes tentou contornar os impedimentos do processo apresentado no memorando do Eurogrupo, e que mandava o governo apresentar lista detalhada de reformas estruturais que, então, seriam examinadas pela Troika, e finalmente pelo Eurogrupo, e, se aprovadas, os fundos de resgate seriam liberados. O lado grego, em vez disso, tentou ir diretamente ao Eurogrupo e obter aprovação para projetos de memorandos; foram à Comissão Europeia e, agora já por duas vezes, à chanceler Merkel. Isso alimentou a queixa dos eurocratas, de que os gregos perderam tempo. As várias listas de reformas que o governo grego apresentou até agora foram descartadas, como insuficientemente detalhadas. A julgar apenas pelo que disse a mídia-empresa sobre a extensão dos documentos, essa parte parece ser verdade.

Mas isso significará que a solução será deixar que os monitores do resgate continuem a se intrometer cada vez mais? Se os detratores de Varoufakis talvez acertem ao dizer que ele quer negociar coisas demais no nível dos atores políticos chaves, fato é que os dois lados não chegaram a nenhum tipo de acordo nesse mais alto nível. Assim sendo, que sentido faz trabalhar sobre detalhes?

A disputa é sobre reformas estruturais. Ainda que os gregos tenham visto o memorando de fevereiro como tão vago a ponto de deixar muito espaço para negociações, como nos parecia que fosse o caso, e os eventos confirmaram, e isso posto, o velho, odiado pacote de reformas estruturais estava, pelo menos, sobre a mesa. Na visão dos credores, a Grécia tem de discuti-lo, seja como for. O novo governo pode trocar umas reformas por outras, se conseguir convencer os credores de que as novas reformas não terão impacto negativo no orçamento.

Assim sendo, se se acolhe o ponto de vista da Troika/Eurogrupo, nada há, ou só há pouca coisa, a negociar. A Grécia tem de tratar de mostrar como pode fazer melhor serviço de cobrar impostos e reformar seus mercados de trabalho. É coisa que só se faz no plano técnico, e Varoufakis não se encaixa.

Como Stathis Kouvelakis, membro da coalizão do Partido Syriza, explica na revista Jacobin, o que se dizia era que o governo, ou pelo menos sua ala esquerda mais crítica, não moveria um pé da posição sobre reformas estruturais: cortar (“reformar”) aposentadorias, “reformar” mercados de trabalho, aumentar o IVA [imposto sobre valor agregado], e as privatizações. Pois fato é que o governo grego já cedeu nas duas primeiras, já está fazendo avançar a privatização do porto de Pireus e disse que fevereiro que aumentará o IVA.

Como já comentamos, a reforma das aposentadorias é a ponte que nenhum dos lados consegue atravessar. A Grécia tem as aposentadorias mais altas da Eurozona, como porcentagem do PIB. Porém, se se ajusta o cálculo pela idade da população, as pensões que a Grécia paga estão abaixo da média da Eurozona. Mas os ministros do Eurogrupo (e, mais importante, os cidadãos que eles representam) creem no mito muito divulgado pela mídia de que a Grécia pagaria pensões generosíssimas. Portanto, nem querem nem jamais conseguiriam vender aos seus eleitores qualquer tipo de “ajuda” ao governo grego, se o povo continuar a crer que seus ministros estariam defendendo para os aposentados gregos pensões mais altas do que o governo paga em casa.

O fato de Varoufakis ter buscado diretamente o impasse básico parece ser a causa mais provável de a reunião de sexta-feira (24/4/2015) ter azedado tanto. De Bloomberg:

Varoufakis descreveu as conversas como “intensas” e disse que seu país está pronto a fazer “grandes concessões” para chegar a um acordo.

“O custo de não haver solução pode ser imenso, não só para nós mas para todos”, disse ele (...).

Em resposta aos ministros reunidos, defendeu proteção às pensões públicas, ponto que continua a emperrar as negociações. Ameaçou deixar a sala, se os creditores forçassem demais a discussão.

Quando Dijsselbloem convidou o grupo a responder, houve silêncio total. Pediu novamente, e Kazimir falou.

A recusa de Varoufakis a aceitar as condições dos credores, irritou especialmente o ministro eslovaco, porque seu governo cortou o déficit no orçamento e atacou a evasão fiscal. A posição do grego pode ter caído em ouvidos surdos também entre os demais convidados em Riga.

A economia da Letônia encolheu mais de 1/5 em 2008 e 2009 quando o país foi governado por Valdis Dombrovskis, agora vice-presidente da Comissão Europeia e participante da reunião da 6ª-feira (24/4/2015). Dombrovskis implantou algumas das medidas mais duras de arrocho [orig. austerity] que o mundo conheceu – com cortes equivalentes a 16% do PIB. A economia grega encolheu cerca de ¼ desde 2008.

Entendamos, pois, o que significa isso:

1. A Grécia, como outros devedores, “deve” “aceitar as condições dos credores”; e

2. Por mais que outros membros do Eurogrupo estejam furiosos por a Grécia não aceitar o programa, muito mais furiosos estão os países que forçaram seus cidadãos a enfiar-se sob o chapéu da austeridade.

Por que os ministros do Eurogrupo levam as coisas tão “pessoalmente”? Se a Grécia não pagar nas próximas semanas o que deve ao FMI, como parece provável que aconteça (p. ex., o Financial Times noticia que funcionários da Eurozona estão desafiando a lei nacional no encaminhamento de depósitos orientados para que o governo possa fazer caixa para pagar salários, aposentadorias e dívidas vincendas), deve-se esperar que possuidores de papéis da dívida grega tendam a se desafazer deles. Adiante, uma tabela da situação recente, que não inclui a maior exposição do BCE em 2015, sob a Emergency Liquidity Assistance (ELA):


Essa é a razão pela qual Varoufakis agiu como se os credores fossem piscar primeiro: os funcionários europeus teriam de dizer aos respectivos eleitores que todos perderam dinheiro porque apostaram na dívida grega, o que seria questão política supercarregada e “intocável”. Mas continuar a financiar as aposentadorias gregas com empréstimos, como feito até aqui, também é questão política supercarregada e “intocável”. Ainda que deixar a Grécia quebrar gere custos muito maiores em todos os fronts, a opinião pública pode vir a culpar a Grécia pela própria quebra, mas não haverá Grécia alguma a culpar, se os credores cederem a favor das aposentadorias gregas.

Algum tipo de cabeças mais frias podem ainda prevalecer. Mas a verdade é que o Banco Central Europeu é ainda mais ‘sangue-no-olho’ que qualquer outra das partes em litígio. Do artigo da revista Jacobin:

Mas amostra mais representativa da visão das duas principais instituições europeias que, juntas, são credoras de cerca de 2/3 da dívida grega, o Banco Central Europeu e o Mecanismo Europeu de Estabilidade [European Stability Mechanism (ESM)], encontra-se nas entrevistas dadas em 22 de abril de 2015, por Klaus Regling, diretor-gerente do ESM, e por Benoît Coeuré, membro do Conselho Executivo do Banco Central Europeu.

Os dois manifestam linha especialmente dura sobre a Grécia, rejeitando duas demandas chaves do governo grego na atual fase das negociações: nada de desembolso do €1,9 bilhão a que a Grécia faz jus depois de “completada a revisão”, que significa que se alinham a favor do tipo das “reformas” contra as quais está o lado grego (essa soma corresponde aos juros gerados pelos papéis gregos e devem ser devolvidos à Grécia, nos termos do Securities Markets Programme (SMP) do Banco Central Europeu, desde fevereiro/2015). E nada de “abordagem gradual” às reformas, como propôs o ministro grego das Finanças Yanis Varoufakis, para permitir que a Grécia alcançasse liquidez antes de junho e para facilitar um acordo.

Em vez disso, requereram “lista compreensiva de reformas”, que deve incluir mais desregulação do mercado de trabalho e cortes nas pensões, duas “linhas vermelhas” que os gregos não cogitam ultrapassar.

Regling foi ainda mais longe que Coeuré: comentando sobre a possibilidade de a Grécia sair da Eurozona (“Grexit”), ele disse calmamente que “não é o cenário básico. Mas se tiver de acontecer e trabalhamos muito, muito duro para não chegarmos a isso, nesse caso acho que haverá muita incerteza, porque não temos nenhum tipo de experiência semelhante”. Acrescentou que “claro que seria mais administrável que há cinco ou seis anos, porque temos novas instituições, o European Financial Stability Facility (EFSF), o ESM, outros países na área do euro fizeram tremendos progressos nos ajustes, como Irlanda, Portugal, Espanha.”

Regling também se opôs declaradamente aos atuais planos do governo grego para reduzir alguns impostos e aumentar o salário mínimo e as aposentadorias e pensões; disse que isso seria “andar para trás” e está pondo em risco as negociações. Sobretudo, deixou bem claro que o desacordo é muito profundo, uma vez que o governo grego pensa que a abordagem do governo anterior seria errada, quando, segundo ele, “a estratégia está dando certo”. “Essa diferença ainda não foi resolvida”, diz Regling.

E conclui ridicularizando a ideia de que os credores poderiam “recuar porque não querem um evento ou um acidente de crédito”. Disse que “nossos procedimentos para conceder empréstimos são muito claros e muito bem estabelecidos. Estão associados à condicionalidade, estão claramente escritos no tratado do ESM. Precisamos de decisão unânime dos acionistas e da aprovação de seis parlamentos da União Europeia, e os parlamentos com certeza verificarão cuidadosamente se a condicionalidade — uma exigência chave – foi satisfeita.

Matéria da Reuters insiste que o Banco Central Europeu não será quem puxará o gatilho contra a Grécia, se a Grécia tornar-se inadimplente, mas é possível que estejam supondo que podem oferecer suficiente cobertura para cortar ou recusar-se a renovar ou aumentar a ELA, forçando uma Grexit.

Parece sadismo, e é sadismo, mas é preciso não esquecer uma coisa: esse jogo é da Troika e do Eurogrupo e, portanto, eles podem definir as regras. A Grécia pode estar sendo ingênua, supondo-se em posição de negociar de igual para igual. Do ponto de vista dos credores, a Grécia é mendiga suplicante, e tem de agir mais como tal, para ter qualquer esperança de ganhar algum dinheiro.

Não há motivo para supor que os credores seriam mais “fáceis”, se Varoufakis fosse substituído. As diferenças entre a Grécia e seus emprestadores é fundamental, e ter interlocutor mais cordato não mudará isso. Além do mais, uma cara nova será provavelmente pior. Embora o vice-ministro de Varoufakis pareça mais palatável no curto prazo, qualquer novo ministro das Finanças será necessariamente membro do Parlamento. Todas as substituições possíveis estão ainda mais à esquerda, sabem menos de economia e não falam tão bom inglês quanto Varoufakis. Se acham que Varoufakis não é suficientemente conciliador, menos ainda será qualquer cara nova.

Maio é mês especialmente ruim para entrar em inadimplência. O público grego opõe-se atualmente em grande maioria à saída da Grécia da zona do euro (“Grexit”) e como já indicamos, é o Banco Central Europeu, não o governo grego, quem determina se a inadimplência significará saída da zona do euro.




Observe-se que to-vima é hostil à atual coalizão governante; a pesquisa, portanto, foi provavelmente construída para dar resultados que interessam aos conservadores. Mesmo assim, como Kouvelakis explica:

A complicação aqui é que tornar-se inadimplente em maio significa não pagar o FMI, o que implica complicações enormes para o comércio (o FMI pode impor sanções que tornarão quase impossível o acesso do comércio ao crédito privado). Melhor seria a Grécia não pagar o que deve ao EFSF do Banco Central Europeu, mas são dívidas que só vencem no verão e parece quase impossível que a Grécia se aguente até lá.

O governo grego parece estar em estado de negação, ou de paralisia. Os funcionários fazem declarações disparatadas sobre se a coalizão quer manter suas posições, mesmo que ao custo de ter de deixar a União Europeia, ou se o governo organizará um referendo para resolver o caso, se as conversações gorarem. Quanto ao referendo, o tempo das finanças anda mais depressa que o tempo da política. Na maioria dos países, o processo de organizar um referendo implica tempo (votação pelo Parlamento e um período de tempo, não raras vezes fixado pela Constituição, antes da votação). Com a inadimplência já consumada provavelmente no início de maio, e acordo tendo de ser fechado à velocidade desatinada, para evitar que aconteça, a Grécia praticamente com certeza já passou do ponto em que poderia organizar um referendo para informar decisões.

Diane Shugart informa em tuíto posterior, que a pesquisa de Kapa mostra apoio de 36,9% para o Syriza – virtualmente o mesmo que o partido alcançou nas eleições. Mas é redução significativa em relação aos altos índices que o governo alcançou depois das eleições.

Embora o custo da saída da Grécia, da zona do euro, possa ser extremamente alto em termos econômicos (já vi previsão de redução de 20% no PIB, pior do que qualquer previsão existente para o futuro com austeridade), Kouvelakis argumenta que os cidadãos só estão sendo informados de um lado da história:

O elemento que serve mais claramente como combustível para essa atmosfera confusa é, porém, o fato de que continua a campanha "midiática" de aterrorizamento da população contra o “Grexit”, sem qualquer ação do governo Tsipras. A oposição de direita e a grande mídia-empresa, cada dia mais hostil contra o governo e usando discurso cada dia mais agressivo, e todos os argumentos possíveis a favor da rendição incondicional, continua a mostrar a ruptura com a Eurozona como um apocalipse – o que fizeram sem parar, todos os dias, desde o início da crise.

Mas a resposta do governo tende a ser que essa ruptura será evitada, graças ao “compromisso honesto” com o qual os europeus acabarão por concordar. Absolutamente não é, para dizer o mínimo, discurso capaz de mobilizar a base popular do Syriza e preparar a sociedade para uma eventual ruptura com a Europa.

Ambos, a Grécia e seus credores caminham como sonâmbulos rumo a uma ruptura que os dois lados dizem querer evitar. Mas a falta de confiança mútua e a troca de farpas são dinâmicas clássicas do divórcio, e nesse caso não há conselheiro matrimonial. Tsipras acerta ao ver Merkel como sua melhor ou, melhor dizendo, como sua única, esperança, mas a rachadura pode já ser profunda demais, para que Merkel consiga remendá-la (assumindo-se que ela queira fazer isso).

Por que Obama quer levantar as sanções contra o Irã

Em busca de uma fonte alternativa de gás

Mike Whitney

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

É essencial reconhecer que o Irã não tem atualmente um programa de armas nucleares, nem possui armamento nuclear. Em 26 de fevereiro de 2015, James Clapper, Diretor da Agência Nacional de Inteligência disse à Comissão das Forças Armadas do Senado que o Aiatolá Khamenei, Líder Supremo do Irã, encerrou completamente o programa nuclear de seu país em 2003 e "tanto quanto sabemos não tomou qualquer decisão para construir alguma arma nuclear". Isso repete a avaliação "altamente confiável" da Comunidade de Inteligência (CI) dos Estados Unidos, que disse exatamente isso em novembro de 2007. 
- Micah Zenko, Putting Irã's Nuclear Program in Context, Council on Foreign Relations

Tradução / Sempre ajuda começar com a verdade, e no caso do Irã, a verdade é bastante simples. O Irã não tem armas nucleares, não tem programa para construir armas nucleares e nunca foi apanhado praticando desvio de combustível atômico, para usá-lo em objetivos diversos do original. O Irã pesquisa e produz tecnologias nucleares exclusivamente para fins pacíficos.

Estes são os fatos. Talvez não confirmem as mentiras propagadas pela imprensa comercial, mas nem por isso deixam de ser fatos. O Irã não é culpado de crime algum. O Irã é exclusiva e inteiramente a vítima de um atentado praticado pelo poder-alucinado de Washington, obcecado por controlar os recursos vitais que no Oriente Médio e promover a hegemonia regional de Israel. Isso é o que está realmente acontecendo. É tudo geopolítica. Não tem nada a ver com armas nucleares.

A imprensa comercial que cobre as chamadas “negociações nucleares” em Lausanne e agora em Viena mantém-se maniacamente focada no “número de centrífugas”, nos programas de monitoramento da AIEA, na capacidade para enriquecer urânio e em miríades de outros tópicos que existem em grande número para, precisamente, afastar a atenção do único fato importante: que o Irã não tem armas atômicas, nem interesse em algum dia vir a tê-las. Empurrado para uma simulação de afogamento nesse mar de notícias ocas, de questões sem importância, o leitor é induzido a sentir que o Irã “tem de” estar escondendo alguma coisa e, portanto, sim, com certeza é uma ameaça real à segurança nacional dos Estados Unidos. Claro que isso, precisamente, é o que os “especialistas” autores desses artigos visam a conseguir. Vivem de meter um saco sobre os olhos do público consumidor de “notícias” e de levá-lo a crer em algo que é demonstrada e comprovadamente falso... O fato é que o Irã não está fazendo nada de desonesto ou ilegal. O Irã, simplesmente, demanda o direito de enriquecer urânio para finalidades pacíficas, que o Tratado de Não Proliferação lhe assegura, tratado que o Irã quer, com toda a razão, ver respeitado. O Irã não se deixará destratar pelos Estados Unidos, nem deixará que o tratem como “país de segunda classe”. O Irã tem se comportado com honra desde o início, o que está muito distante do que se pode dizer dos Estados Unidos.

A imprensa comercial não quer discutir os “protocolos adicionais” que o Irã aceitou para construir confiança entre os membros da ONU, porque, se as pessoas forem informadas desse assunto, todos verão que o Irã concedeu muito mais do previsto no início das negociações. Mesmo assim, continua a ser alvo das acusações estúpidas e absurdas, com manchetes diárias sobre “a intransigência” dos iranianos, ou o “jogo duplo” dos iranianos. Mas onde está a evidência da intransigência ou da má fé dos iranianos? Não há nenhuma. É tudo especulação, e a continuada implantação do medo na população, quando não é apenas maledicência da imprensa. Não há uma palavra de verdade em nenhuma delas.

O mais recente golpe da imprensa gira em torno da questão do “breakout time” [tempo de fuga], que se refere ao tempo necessário para que o Irã consiga construir uma bomba nuclear se decidir fazê-lo, o que disse que não quer fazer.

“Breakout time” é a nova palavra-propaganda repetida milhares de vezes na imprensa, sempre para sugerir e reforçar que Teerã estaria a poucas horas de concluir a construção de uma arma atômica que usará imediatamente para aniquilar Israel. É conto de fadas que assume que - porque os Estados Unidos anda pelo mundo a aniquilar qualquer coisa que respire - todos os demais países teriam a máxima pressa para seguir o mesmo modelo, no instante em que tivessem chance. Isso é errado em muitos níveis. Por um lado, o Irã não quer armas nucleares e, por outro, nem todos os governantes do mundo são obcecados por matar-sem-parar, cujo único prazer na vida é reduzir a ruínas fumegantes grandes fatias do planeta. Esse é um comportamento específico dos governantes dos Estados Unidos. Outros não sofrem do mesmo distúrbio sociopata.

The nuclear issue has nothing to do Iran’s fictitious nuclear weapons program. Isso é apenas uma cortina de fumaça. Não tem nada a ver com o inexistente programa nuclear iraniano. O verdadeiro problema é que o Irã é um país soberano com uma política externa independente. Washington não gosta de países independentes. Washington gosta de países e calam o bico e fazem o que são mandados fazer. Países que não se deixam mandar são inimigos de Washington e são postos numa lista de matar. E é quando entram em cena as sanções. Sanções são o meio pelo qual Washington enfraquece o inimigo, antes de bombardeá-los até viraram fumaça. São o porrete que os EUA usam para pôr de joelhos os rivais.

Quem tenha acompanhado o noticiário nos últimos dias sabe que alguma coisa muito estranha está acontecendo. Os Estados Unidos deram meia-volta e mudaram sua política em relação ao Irã. É um desenvolvimento chocante. Os Estados Unidos mantiveram a mesma política de selvageria contra Cuba durante 60 anos, sem mudar qualquer coisa. Que as políticas selvagens de Washington funcionem ou não, nunca fez diferença; o que interessa é causar dano máximo, sofrimento máximo aos povos que os Estados Unidos odeiam. Assim sendo, por que a repentina mudança no caso do Irã? Por que Obama tenta agora um acordo com um país que as elites estadunidenses abertamente desprezam?

E não se pode esquecer, que a “abertura” de Obama, hoje, para o Irã, é extremamente impopular também em grupos muito poderosos, no Congresso, na imprensa, em Israel e entre funcionários do mais alto escalão também no Departamento de Estado dentro do próprio governo Obama. Teria acontecido que os agentes de poder, que mexem o cordame que movimenta Obama e lhe dizem o que fazer, de repente viram a luz e resolveram que é chegada a era da reconciliação e da paz com o Irã?

Claro que não. Ninguém acredita nisso. Obama só assinará acordo com o Irã, se daí puder extrair alguma vantagem. E a vantagem que os Estados Unidos querem extrair do Irã chama-se “gás”. Os Estados Unidos querem um substituto para o gás russo que chega à Europa, para que possam destruir completamente a Rússia e implementar o tal plano estratégico de estender o poder norte-americano por toda a Ásia, para que as megaempresas norte-americana possam conservar a posição dominante na economia global. Obama faz-se de negociador sensível com o Irã, para poder pivotear-se para a Ásia o mais facilmente possível.

Então é plausível que o Irã venha a substituir o gás russo no lucrativo mercado da União Europeia?

Vejam esse trecho de um artigo de 2014 que previa exatamente o cenário atual, vale dizer, os Estados Unidos tentando impedir que se crie uma zona UE-Rússia de livre comércio que fará encolher o PIB dos Estados Unidos e deixará a única potência indispensável em declínio. O título do artigo é “UE busca o Irã como alternativa ao gás russo”:

A União Europeia está silenciosamente promovendo a necessidade, cada vez mais urgente de um plano para importar gás natural do Irã, ao mesmo tempo em que as relações com Teerã vão sendo descongeladas, e as relações com seu maior fornecedor de gás, a Rússia, entram em processo de rápido resfriamento... 
“O Irã caminha rapidamente para o topo de nossas prioridades, para adotar medidas de médio prazo que ajudem a diminuir nossa dependência da Rússia, como fornecedora de gás natural”, diz a fonte. “O gás do Irã pode chegar à Europa muito facilmente , e politicamente já se vê clara reaproximação entre Teerã e o Ocidente.”... 
O Irã, que está vivendo sob sanções, tem a segunda maior reserva de gás, só inferior à da Rússia, e é possível alternativa, uma vez que as conversações entre Teerã e o Ocidente cheguem a algum acordo sobre o discutido programa nuclear da República Islâmica. 
“Alto potencial para produção de gás, reformas no setor doméstico de gás que estão em andamento e a normalização das relações com o ocidente fazem do Irã uma alternativa viável à Rússia”, diz um documento preparado para o Parlamento Europeu... 
“Given Russia’s current strategy politically, which is one of confrontation with Europe, I see the EU having little choice but to find alternative gas supplies,” acrescenta... 
“O interesse do Irã em entregar gás à Europa é grande. Partes da elite econômica e política iraniana, assim como empresas ocidentais já se preparam para o fim das sanções”, disse Frank Umbach, diretor de pesquisas sobre energia do King’s College em Londres... 
Há muito tempo o Irã trabalha para conseguir construir um gasoduto que conectaria seu imenso campo Pars Sul, de gás, e os consumidores europeus - o chamado Gasoduto Persa. 
“É um projeto extremamente ambicioso”, disse Handjani. “Mesmo se só se construir metade do projeto será uma imensa realização para a Europa e para o Irã.”... 
Estudos independentes de viabilidade mostram que se as sanções forem levantadas e começarem logo os investimentos, o Irã poderá fornecer 10-20 bilhões de metros cúbicos de gás/ano à Turquia e à Europa, já no início da década dos 2020s” (EU Turns to Irã as Alternative to Russian Gas, EurActiv, 25 de setembro de 2014).

É por isso que Obama quer aliviar as sanções; porque ele precisa encontrar uma fonte alternativa de gás para a Europa, enquanto ele continua sua guerra contra a Rússia. Derrotar a Rússia tornou-se prioridade estratégica de Washington. Os Estados Unidos estão dispostos a arriscar tudo - até a guerra nuclear - para manter o monopólio do poder global e para prolongar sua hegemonia até o próximo século.

A revolução Cybersyn

Cinco lições de um projeto de computação socialista no Chile de Salvador Allende.

por Eden Medina

Jacobin


Tradução / Embora frequentemente nos digam que o passado guarda lições sobre como abordar o presente, raramente olhamos para tecnologias mais antigas buscando inspiração. Ainda mais raro é sugerir que experiências históricas de nações menos industrializadas possam ter algo a nos ensinar sobre os problemas tecnológicos de hoje – e menos ainda que um projeto socialista de décadas atrás poderia oferecer maneiras de pensar sobre tecnologias promovidas por capitalistas do Vale do Silício.

No entanto, um sistema de computação construído no Chile socialista na década de 1970 – o Projeto Cybersyn – oferece inspiração sobre como devemos pensar sobre tecnologia e dados hoje.

O Projeto Cybersyn foi um projeto tecnológico corajoso vinculado a um projeto político corajoso. Surgiu no contexto do caminho pacífico do Chile para o socialismo: Salvador Allende venceu a presidência chilena em 1970 com a promessa de construir uma sociedade fundamentalmente diferente. Seu programa político faria do Chile um Estado socialista democrático, respeitando a constituição do país e as liberdades individuais.

Estabelecer o controle estatal das indústrias mais importantes do Chile constituía uma tábua central da plataforma de Allende, mas criou dificuldades de gestão. O governo tinha uma experiência limitada nesta área. No entanto, no final de 1971, tinha assumido o controle de mais de cento e cinqüenta empresas, entre as quais doze das vinte maiores empresas do Chile.

O problema de como administrar essas empresas recém socializadas levou um jovem engenheiro chileno chamado Fernando Flores a entrar em contato com um especialista britânico em cibernética chamado Stafford Beer e pedir conselhos. Flores trabalhava para a agência governamental encarregada do esforço de nacionalização; Beer era um consultor internacional de negócios conhecido por seu trabalho na área da cibernética administrativa, que ele definia como a “cibernética da organização eficaz.”

Juntos, formaram uma equipe de engenheiros chilenos e britânicos e desenvolveram um plano para um novo sistema tecnológico que melhoraria a capacidade do governo de coordenar a economia estatal.

O sistema proporcionaria acesso diário aos dados de produção de fábrica e um conjunto de ferramentas computadorizadas que o governo poderia usar para prever o comportamento econômico futuro. Também incluía uma sala de operações futurista que facilitaria a tomada de decisão do governo através de conversação e melhor compreensão dos dados. Beer imaginou maneiras de aumentar a participação dos trabalhadores na economia e preservar a autonomia dos gerentes de fábrica, mesmo com a expansão da influência do Estado.

Membros do governo chileno acreditavam que o sistema reforçaria o sucesso do programa econômico de Allende e, por extensão, a revolução socialista do Chile. Beer nomeou o sistema Cybersyn em reconhecimento da cibernética, os princípios científicos orientando seu desenvolvimento e sinergia, a ideia de que todo o sistema era mais do que a soma de suas partes tecnológicas.

Mesmo décadas depois de sua criação, o Projeto Cybersyn ainda tem valiosas lições para hoje. Em primeiro lugar, nos lembra que o Estado desempenha um papel importante no design técnico e pode ajudar a dar forma a inovações que visam beneficiar a sociedade e dar apoio aos grupos marginalizados, em vez da estreiteza de atingir metas de eficiência ou do foco único em aumentar os lucros. Em segundo lugar, precisamos ser vigilantes sobre as formas em que o viés do design pode limitar a eficácia das tecnologias para o aumento da participação e inclusão democrática.

Em terceiro lugar, enquanto o fluxo atual de novos produtos sugere que as tecnologias se tornam obsoletas rapidamente, usar tecnologias mais antigas na verdade pode resolver problemas, mantendo baixos os custos e gerando menos desperdício. Em quarto lugar, proteger a privacidade é necessário para evitar potenciais abusos de controle centralizado de dados. E, finalmente, precisamos pensar criativamente sobre mudar sistemas sociais e organizacionais se quisermos aproveitar ao máximo a tecnologia; a inovação tecnológica por si só não fará do mundo um lugar melhor.

1. O estado e suas prioridades moldam como a tecnologia é projetada e usada.

O Estado desempenha um papel importante na formação da relação entre trabalho e tecnologia, e pode pressionar pela concepção de sistemas que beneficiem as pessoas comuns. Também pode ter o efeito oposto. Na verdade, a história da computação no contexto dos EUA tem sido fortemente ligada ao comando, controle e esforços de automação por parte do governo.

Mas não precisa ser desse jeito. Considere como o governo de Allende abordou a questão de tecnologia-e-trabalho na concepção do Projeto Cybersyn. Allende fez com que o aumento do emprego fosse central tanto para seu plano econômico como para sua estratégia geral para ajudar os chilenos. Seu governo pressionou por novas formas de participação dos trabalhadores no chão de fábrica e pela integração do conhecimento do trabalhador na tomada de decisões econômicas.

Esse ambiente político permitiu que Beer, o cibernético britânico prestando assistência ao Chile, visse a tecnologia computacional como uma forma de empoderar os trabalhadores. Em 1972, ele publicou um relatório para o governo chileno que propunha dar aos trabalhadores chilenos, e não aos gerentes ou tecnocratas do governo, o controle do Projeto Cybersyn. Mais radicalmente, Beer imaginou uma maneira para que os trabalhadores do Chile participassem no projeto do Cybersyn.

Ele recomendou que o governo permitisse que os trabalhadores – e não os engenheiros – construissem os modelos das fábricas controladas pelo Estado porque eles estavam mais qualificados para entender as operações no chão de fábrica. Os trabalhadores, assim, ajudariam a projetar o sistema que eles iriam, em seguida, executar e usar. Permitir que os trabalhadores usassem tanto suas cabeças como suas mãos limitaria o quão alienados se sentiriam de seu trabalho.

A ideia de Beer para participação democrática tinha suas falhas: por exemplo, ele não considerou como a codificação do conhecimento de trabalhadores no software de um sistema computadorizado poderia resultar no eventual desempoderamento dos trabalhadores, especialmente se o contexto político mudasse.

Mas Beer mostrou uma capacidade de imaginar como a informatização em um cenário de fábrica poderia trabalhar em direção a um fim diferente de acelerações e desqualificações – os resultados do desenvolvimento capitalista que estudiosos do trabalho como Harry Braverman testemunharam nos Estados Unidos, onde o governo não tinha o mesmo compromisso de limitar ativamente o desemprego ou de incentivar a participação dos trabalhadores.

Braverman publicou seu clássico ‘Labor and Monopoly Capital’ [‘Trabalho e Capital Monopolista’] [7] em 1974, pouco tempo depois da época em que Beer estava trabalhando para o governo de Allende. Nele, observava como tecnologias como máquinas controladas por computador contribuem para a automação do trabalho e levam à desqualificação dos trabalhadores, mesmo em campos altamente especializados como engenharia.

Ele encontrou o mesmo processo funcionando no contexto do uso do computador no escritório. Os computadores tornam o trabalho de escritório cada vez mais rotineiro e dão à gerência uma maneira fácil de monitorar a quantidade de trabalho que cada operador executa. A velocidade de trabalho aumentada tem o potencial de resultar em mais demissões.

Beer via a informatização de maneira diferente, principalmente porque o Estado chileno insistia em que seu sistema computadorizado socialista fosse projetado para fins diferentes do que aqueles descritos por Braverman. Isso deu a Beer a liberdade de reconceitualizar como tecnologias podem moldar o trabalho no chão de fábrica e ver computadores como um meio de empoderar os trabalhadores.

O Projeto Cybersyn mostra que o estado pode criar as condições para novas direções no pensamento de projetos. O estado pode exigir (e inspirar) tecnólogos a considerar como os sistemas beneficiam os interesses da cidadania mais ampla, o que pode ou não se alinhar com lucro, sucesso no mercado, eficiência, elegância técnica ou no design do sistema. A inovação em computação não nasceu com as startups do Vale do Silício, e pode prosperar adotando considerações de projeto que estão fora do escopo do mercado.
2. Os sistemas do futuro devem ser livres dos preconceitos de hoje.

Preconceitos herdados não serão perdidos da noite pro dia, razão pela qual precisamos permanecer vigilantes sobre as formas de preconceito que podem penetrar e dar forma ao projeto do sistema. Deixadas sem verificação, tecnologias para aumentar a participação democrática e melhorar a interação homem-máquina também podem excluir e marginalizar setores da população. Aqui, também, o Projeto Cybersyn oferece insights importantes.

O Projeto Cybersyn é mais conhecido por sua sala de operações, um espaço futurista [8] que foi projetada para facilitar a tomada de decisão democrática. Consistia de sete cadeiras dispostas em círculo dentro de uma sala hexagonal. A equipe do projeto insistiu em um número ímpar de cadeiras para evitar um empate ao votar. Também rejeitaram a presença de uma mesa, que eles sentiam encorajar o baralhar de papéis em vez de uma discussão animada.

Uma série de telas se alinhavam nas paredes da sala, que exibiam dados sobre o estado da economia, bem como sinais de alerta indicando áreas necessitando de atenção governamental urgente. As telas nas parede usavam cores, luzes e design de gráficos de formas que ajudassem os ocupantes a entender rapidamente as complexidades do setor industrial chileno. Os primeiros planos para a sala ainda incluíam espaço para um mini-bar.

As cadeiras da sala exibiam marcas similares de pensamento de projeto cuidadoso. Por exemplo, os ocupantes iriam navegar nas informações das telas usando os botões de “mãos grandes”, localizados nos apoios dos braços das cadeiras. Esses grandes botões geométricos substituíram o teclado tradicional e refletiam a consciência de classe da equipe de design. Seu fundamento era que os trabalhadores chilenos não teriam experiência usando um teclado, e que os botões geométricos ofereciam uma alternativa amigável que permitiria a participação de trabalhadores.

A equipe considerava altos funcionários do governo como os outros usuários prováveis da sala. Esses funcionários também tinham uma experiência limitada com teclados, mas por uma razão diferente: eles tinham secretárias femininas. Como notou Beer, a adoção de um teclado “insinuaria uma garota entre eles e o maquinário. . . [Sendo que seria] vital que os ocupantes interagissem diretamente com a máquina, e uns com os outros. “

Os botões, portanto, forneciam uma maneira de eliminar mulheres deste espaço de tomada de decisão. Eles também incentivavam formas de expressão masculina. Como Beer escreveu, os botões poderiam ser “socados” quando um ocupante quisesse fazer um ponto.

Tais decisões de projeto não eram neutras. Elas refletiam quem a equipe de design acreditava que iria manter o poder no contexto revolucionário do Chile e reforçavam essa visão. Trabalhadores de fábricas e burocratas do governo, todos homens, teriam poder de tomada de decisão. Outros tipos de trabalhadores, tais como trabalhadores de escritório e mulheres, não.

Essas decisões de projeto ilustram uma lacuna na imaginação revolucionária do Chile. Elas também ilustram como nossas suposições sobre gênero e classe podem viajar conosco, mesmo quando imaginamos um futuro mais igualitário e justo.
3. Podemos fazer mais com menos e ajudar o meio-ambiente no processo.

Novas tecnologias vêm com custos ambientais significativos em termos de consumo e eliminação de dispositivos electrônicos. As vendas globais de dispositivos eletrônicos dobraram entre 1997 e 2009. De acordo com a Agência de Proteção Ambiental, em 2009, as pessoas nos Estados Unidos descartaram 29,4 milhões de computadores e 129 milhões de dispositivos móveis. Os EUA tiveram a maior quantidade de e-desperdício no mundo em 2012, com 9.4 milhões de toneladas métricas geradas. Grande parte desse desperdício é manuseado em lugares como China, Índia e Paquistão, onde a recuperação de materiais valiosos como o ouro pode expor os trabalhadores ao chumbo e outros metais tóxicos.

O mercado atual de produtos eletrônicos depende da obsolescência planejada [9]: produtos antigos rapidamente se tornam desatualizados e fora de moda. Mas estender a vida útil de nossos dispositivos eletrônicos ajuda a resolver o problema do e-desperdício. O Projeto Cybersyn mostrou que é possível criar um sistema de ponta usando tecnologias que não são de estado-da-arte. Demonstra que o futuro pode ser ligado ao passado tecnológico.

Quando o Projeto Cybersyn foi construído durante a década de 1970, haviam aproximadamente 50 computadores em todo o Chile, e a maioria desatualizada. Nem o Chile poderia pedir ajuda à IBM. A IBM diminuiu suas operações no Chile após a eleição de Allende porque temia que o governo chileno os nacionalizasse. O governo Nixon também instituiu um “bloqueio invisível” para desestabilizar a economia chilena e impedir que a América Latina se tornasse um “sanduíche vermelho” com Cuba de um lado e Chile do outro. Isso limitou ainda mais a capacidade do Chile de importar tecnologia dos EUA.

Como resultado, Beer e a equipe chilena bolaram uma maneira engenhosa de criar a rede de processamento de dados necessária para conectar as fábricas do país ao centro de comando: ligariam o computador desatualizado que tinham para o projeto a outra tecnologia que não era o estado-da-arte: a máquina de telex – ou melhor, várias centenas deles. E funcionou.

Em 1972, uma greve nacional que chegou a incluir quarenta mil motoristas de caminhão jogou o país em um estado de emergência e interrompeu a distribuição de alimentos, combustível e matérias-primas para a produção nas fábrica. O governo usou a rede telex criada para o Projeto Cybersyn para determinar quais estradas estavam abertas, coordenar a distribuição de recursos-chave e manter a produção fabril.

A rede Cybersyn melhorou a comunicação governamental e aumentou substancialmente a velocidade e a freqüência com que o governo poderia enviar e receber mensagens ao longo do país. Lhe faltava a sofisticação tecnológica da ARPANET, o sistema de comunicações militares dos EUA que foi o precursor da Internet e um contemporâneo do sistema telex do Chile. Mas a rede chilena utilizava menos recursos técnicos a um custo menor e mostrou-se altamente funcional, não obstante. Tecnologias mais antigas foram criativamente reavaliadas e combinadas com outras formas de inovação organizacional e social.

Novas tecnologias não são realmente tão imateriais como muitos pensariam. Muitas vezes falamos de nossos dados sendo armazenados “na nuvem” – uma noção que implica uma falta de fisicalidade. Mas fazendas de dados [‘data farms’] dependem de quantidades substanciais de recursos naturais. Um centro de dados de 15 megawatts pode usar até 360.000 litros de água por dia, e o recém-concluído NSA Utah Data Center exige um milhão de galões de água por dia e 65 megawatts de energia. Uma transformação progressista de novas tecnologias encorajaria maior seletividade na coleta de dados e desafiaria a prática de armazenar grandes quantidades de dados simplesmente porque nós podemos.

O Projeto Cybersyn também demonstra que mais pode ser feito com menos. O projeto chileno não tentou copiar a forma soviética de cibernética econômica, que recolhia uma fartura de dados de fábrica e os enviava para uma hierarquia centralizada de centros de computação para posterior processamento. Realizava a mesma tarefa ao transmitindo apenas dez a doze índices de produção diários de cada fábrica e fazendo com que os modeladores de fábrica passassem mais tempo identificando cuidadosamente quais índices eram os mais importantes.
4. Proteção da privacidade pode significar a diferença entre um sistema abusivo e um sistema que protege e promove a liberdade humana.

Proteger a privacidade é fundamental para evitar abusos de controle centralizado. Novas inovações tecnológicas, como smartphones, o uso crescente de análises baseadas em dados e o impulso para criar cidades inteligentes e uma “Internet das coisas” facilitam a coleta de dados e permitem a gravação de grandes quantidades de atividades humanas e não-humanas

Na década de 1970, críticos caracterizavam o Projeto Cybersyn como uma forma de controle autoritário e centralizado, pois ele coletava dados sobre as atividades das fábricas e os canalizavam para o governo chileno. A revista New Scientist, por exemplo, publicou um editorial que declarava [10]: “Se este [Projeto Cybersyn] for bem sucedido, Beer terá criado uma das armas mais poderosas da história”.

Mas tais interpretações confundiam como o sistema realmente operava. A má interpretação era muitas vezes ideológica – no Chile elas estavam ligadas a críticas mais gerais ao governo de Allende pela oposição política de direita, que afirmava que o governo estava destruindo as liberdades civis chilenas. [11]

Na verdade, o Projeto Cybersyn não funcionava como uma forma de controle centralizado abusivo porque incluía mecanismos para proteger e preservar a autonomia de fábrica. Essas proteções foram projetadas no próprio design do sistema. O governo, por exemplo, poderia intervir em atividades de chão de fábrica somente depois que o software detectasse uma anomalia de produção e a fábrica não conseguisse resolver a anomalia dentro de um período de tempo definido.

Limitações humanas e tecnológicas colocavam uma restrição adicional sobre a intervenção governamental. Operadores da fábrica, por exemplo, não conseguiam monitorar milhares de índices de produção por dia, mas poderiam rastrear dez a doze dos mais importantes. Limitar o número de indicadores também tornou mais fácil para o software detectar as emergências mais urgentes que precisassem de ação governamental. No entanto, exigia que os engenheiros chilenos tomassem decisões sobre quais dados o governo realmente exigia.

Tais limitações tornavam a maior parte da atividade da fábrica invisível ao governo chileno, preservava a liberdade e protegia os trabalhadores chilenos de abusos orwellianos. Elas criavam uma camada de privacidade que poderia ter permitido que os trabalhadores participassem da gestão econômica sem o controle excessivo de burocratas estatais.

A arquitetura de Beer do Projeto Cybersyn também dava aos trabalhadores uma maneira de entender como esta forma de regulação baseada em dados funcionava, lhes permitindo criar os modelos de fábrica que formavam a base do software Cybersyn. Teoricamente, lhes permitiu abrir a caixa preta do computador e compreender o funcionamento do processamento analítico ocorrendo dentro dele.

Apenas teoricamente, porém, porque o governo Allende foi interrompido por um golpe militar que resultou na morte do Presidente Allende e pôs fim à democracia chilena durante os próximos dezessete anos. A ditadura militar e as políticas econômicas, muitas vezes descritas como “tratamento de choque neoliberal”, puseram um fim no trabalho do Projeto Cybersyn antes de sua conclusão. Para os defensores do liberalismo econômico, não fazia sentido ter um sistema de computador que ajudasse o Estado a regular a produção industrial.

No entanto, a estrutura de Beer é útil porque nos lembra a importância não apenas da transparência computacional, mas de controle democrático. Se o código for lei, como Lawrence Lessig propôs [12], o código usado nas novas tecnologias que moldam nossas vidas não devem ser domínio exclusivo de engenheiros e programadores.
5. Precisamos pensar grande, porque a tecnologia por si só não criará um mundo melhor.

Precisamos pensar em termos de sistemas em vez de soluções tecnológicas rápidas. As discussões sobre cidades inteligentes, por exemplo, se concentram normalmente em melhores infra-estruturas de rede e no uso de tecnologias de informação e comunicação, como sensores integrados, aplicativos de telefones celulares e serviços on-line. Muitas vezes, o pressuposto subjacente é que tais intervenções melhorarão automaticamente a qualidade da vida urbana, facilitando o acesso dos residentes aos serviços governamentais e fornecendo ao município dados para melhorar a manutenção da cidade.

Mas esse determinismo tecnológico não oferece uma compreensão holística de como tais tecnologias podem afetar negativamente aspectos críticos da vida urbana. Por exemplo, o sociólogo Robert Hollands [13] defende que iniciativas de cidades inteligentes centradas na tecnologia podem criar um influxo de trabalhadores tecnologicamente alfabetizados e exacerbar o deslocamento de outros trabalhadores. Elas também podem desviar recursos da cidade para a construção de infra-estruturas de computadores e para longe de outras áreas importantes da vida da cidade.

Ele afirma que cidades inteligentes progressistas devem primeiro tentar entender as interações humanas nos ambientes urbanos e como elas produzem sistematicamente desigualdades de poder. As tecnologias devem então ser integradas nos ambientes das cidades de forma a melhorar estas disparidades.

Beer compartilhava a perspectiva de Hollands. Em todo o Projeto Cybersyn, Beer repetidamente expressou frustração de que a Cybersyn fosse vista como um conjunto de soluções tecnológicas – uma sala de operações, uma rede de máquinas de telex, um simulador econômico, um software para acompanhar dados de produção – ao invés de uma forma de reestruturar a gestão econômica chilena.

Beer estava interessado em entender o sistema de gestão econômica chilena e como as instituições governamentais poderiam ser alteradas para melhorar os processos de coordenação. Ele via a tecnologia como uma forma de mudar a organização interna do governo do Chile.

Se estivesse vivo hoje, Beer certamente lamentaria que iniciativas de governo eletrônico para colocar os formulários existentes on-line ou informatizar os processos existentes perdem oportunidades para tornar as próprias organizações mais eficazes.

Devemos resistir ao tipo de “determinismo de inovação” apolítico que vê a criação do próximo aplicativo, serviço on-line ou dispositivo em rede como a melhor maneira de levar a sociedade à frente. Em vez disso, devemos nos forçar a pensar criativamente em maneiras de mudar a estrutura de nossas organizações, processos políticos e sociedades para melhor e sobre como novas tecnologias podem contribuir para esses esforços.

Os desafios enfrentados pelos protagonistas da Cybersyn não eram exclusivos de sua época – teremos problemas semelhantes. Embora o projeto estivesse longe de ser perfeito, suas lições não devem ser ignoradas por aqueles buscando um futuro onde a tecnologia seja democraticamente aproveitada para o bem social.

Notas

[1] https://global.britannica.com/biography/Salvador-Allende

[2] https://www.marxists.org/archive/allende/1970/september/20.htm

[3] https://www.marxists.org/archive/miliband/1973/10/chile.htm

[5] https://www.jacobinmag.com/2015/04/free-market-conscious-capitalism-government/

[7] https://monthlyreview.org/product/labor_and_monopoly_capital/

[8] https://upload.wikimedia.org/wikipedia/en/7/70/Cybersyn_control_room.jpg

[10] https://books.google.com.br/books?id=PFslCL-oDqoC&pg=PA347&lpg=PA347&dq=If+this+scientist+is+successful,+Beer+will+have+created+one+of+the+most+powerful+weapons+in+history&source=bl&ots=4770IB2Zhp&sig=Up7HkIvx6mSzx-glU0cC9znwgIo&hl=en&sa=X&ei=BjY-VbiZKIGggwS4iIDgDQ&redir_esc=y#v=onepage&q=If%20this%20scientist%20is%20successful%2C%20Beer%20will%20have%20created%20one%20of%20the%20most%20powerful%20weapons%20in%20history&f=false

[12] http://harvardmagazine.com/2000/01/code-is-law-html

[13] http://www.ncl.ac.uk/gps/staff/profile/roberthollands.html