29 de abril de 2015

Em Baltimore e em todo o país, rostos negros em cargos altos não ajudaram proporcionalmente o povo negro

Eleger líderes políticos afro-americanos fez pouco para aliviar o sofrimento da América Negra.

Keeanga-Yamahtta Taylor 


Créditos: Shawn Gude/ Jacobin.

Tradução / Este ano marca o 50º aniversário de vários dos mais significativos eventos da Luta pela Liberdade Negra nos Estados Unidos, nos anos 1960. Dois anos atrás, celebramos a Marcha sobre Washington; ano passado rememoramos o Ato dos Direitos Civis de 1964, que acabou com o apartheid de Jim Crow no Sul. Este ano, já assistimos às comemorações do aniversário do Voting Rights Act (Leis dos Direitos de Voto), e o fim do verão americano verá o 50º aniversário do Watts Rebellion (Tumultos de Watts) em Los Angeles. Claro, o país já havia visto, em 1964, rebeliões em Rochester, Nova York; Filadélfia; e Trenton, Nova Jersey, para nomear só algumas cidades, mas até aquele momento Watts não tinha precedentes em escala, danos, mortes e fúria absoluta no verão de 1965. O levante no sul central de Los Angeles representou uma dura conclusão da fase não-violenta do movimento.

As plumas de fumaça acre que pairam sobre a cidade de Baltimore são uma dura lembrança do passado recente da década de 1960. Mas os levantes pela morte de Freddie Gray, de 25 anos, vistos naquela cidade semana passada não são simplesmente repetição de acontecimentos que tiveram lugar há cinquenta anos. As desigualdades que incendiaram centenas de cidades americanas nos anos 1960 ainda existem e têm, na verdade, se aprofundado durante o último meio século. Então como agora, violência generalizada e assédio policial definem a humilhação e impotência da vida de milhões de afro-americanos pobres e da classe trabalhadora.

Mas o que torna o levante de Baltimore diferente daqueles de uma era anterior é que os ataques perversos aos afro-americanos ocorreram num momento de poder político negro sem precedentes.

A menos de 60 quilômetros de Baltimore, na capital da nação, reside o primeiro presidente afro-americano do país. Há 43 membros do Congresso e dois senadores negros – o mais alto número de parlamentares negros da história americana. E exatamente quando a parte oeste de Baltimore explodia contra o assassinato de Freddie Gray pela polícia, Loretta Lynch tornava-se a primeira mulher negra indicada como procuradora geral.

Este não é apenas um fenômeno nacional; ele se reflete também na política local. Em Baltimore, os afro-americanos controlam virtualmente todo o aparato político. A prefeita Stephanie Rawlings-Blake e o comissário de polícia Anthony Batts têm sido os rostos mais notáveis do poder político em Baltimore nas últimas semanas. Mas a Câmara Municipal de Baltimore tem quinze membros, e a maioria – oito – são afro-americanos, inclusive seu presidente. O superintendente da rede pública de educação e todos os conselheiros do serviço habitacional do município são afro-americanos. Por todos os Estados Unidos, milhares de funcionários negros eleitos estão governando muitas das cidades e subúrbios do país.

Nesse sentido, os acontecimentos de Baltimore são dessemelhantes dos ocorridos em Ferguson, Missouri, no último verão. Lá, o pequeno subúrbio ao norte de Saint Louis tinha uma população majoritariamente negra governada principalmente por brancos suburbanos, e a carência de poder e representação política dos negros tornou-se o fio narrativo das explicações populares para o que deu errado. Eleger afro-americanos para cargos políticos em Ferguson tornou-se, assim, um ponto focal para muitos ativistas locais e nacionais.

Mas, se o assassinato de Mike Brown e a rebelião em Ferguson eram uma reminiscência do velho Jim Crow, então o assassinato de Freddie Gray e o levante de Baltimore são simbólicos do novo poder negro.

Na verdade, a busca de poder eleitoral negro tornou-se uma das principais estratégias que emergiram da era do “Black Power”, o Poder Negro. No fim dos anos 1960, tornaram-se mais intensos os apelos pelo “controle comunitário” sobre as cidades em que os negros viviam. Esses apelos faziam sentido: a “Grande Migração” trouxe milhões de afro-americanos para as cidades e ajudou a transformar as preocupações dos negros em discussões políticas (embora raras vezes em ação). Em muitas cidades, a demografia metropolitana mudou, à medida em que os negros se mudavam para elas e os brancos as abandonavam.

O controle político branco de cidades crescentemente negras exacerbou as tensões existentes sobre as condições daqueles municípios. Em cidades como Chicago, a máquina de clientelismo poderia puxar alguma participação negra, mas isso dificilmente se assemelhava a qualquer real controle político ou econômico negro sobre a infraestrutura da cidade. A destruição e a instabilidade causadas pelos levantes urbanos ao longo da década fizeram avançar a noção, entre as elites, de que talvez mais propriedades e controle negro nas cidades pudesse ajudar a acalmar a rebelde população negra.

Hoje, temos mais governantes negros eleitos nos Estados Unidos do que em qualquer outro momento da história americana. Ainda assim, para a ampla maioria da população negra, a vida mudou muito pouco. Os funcionários públicos negros eleitos governaram geralmente do mesmo modo que seus pares brancos, refletindo todo o racismo, a corrupção e as políticas de favorecimento dos ricos praticadas em toda a política dominante.

Baltimore é um exemplo revelador. A prefeita Blake Rawlings pode ser afro-americana, mas, sob sua liderança, grandes áreas da Baltimore negra permaneceram pobres, desempregadas e eternamente perseguidas e abusadas pela polícia. Apenas nos últimos quatro anos, mais de cem pessoas venceram processos civis contra a brutalidade da polícia. Durante o mandato de Rawlings-Blake, a cidade foi forçada a pagar 5,7 milhões de dólares para resolver ações cíveis relacionadas à má conduta e brutalidade policial – quantia que não inclui os 5,8 milhões de dólares que o município pagou para defender os policiais que abusaram da população negra.

A despeito da ilegalidade do Departamento de Polícia de Baltimore, a prefeita reservou seus comentários mais duros para aqueles que se envolveram no levante, tachando-os de “criminosos” e “bandidos”. Para qualquer pessoa remotamente informada da história da prefeita Rawlings-Blake, seu ataque às vítimas da corrupção e da brutalidade policial não seria surpreendente.

Ainda que injustificados ataques tenham sido amplamente documentados e julgados, um mês antes dos tumultos a prefeita culpou os homens negros pela violência em Baltimore. Invocando o ex-prefeito de Nova York Rudy Giuliani, Rawlings-Blake disse sobre a violência na cidade: “Muitos de nós, na comunidade negra, nos tornamos complacentes com os crimes de negros contra negros... Enquanto muitos de nós estão dispostos a marchar e protestar e tornar-se ativos diante da má conduta policial, muitos de nós fazem vista grossa quando nós mesmos nos matamos.”

Ignorando a longa história de racismo e a epidemia de terrorismo policial que atormentam a vida dos negros em Baltimore, a prefeita, como tornou-se típico da elite política negra, culpou os afro-americanos que vivem na cidade pelos problemas lá existentes.

A maior diferença entre a vida hoje e 50 anos atrás, em cidades como Baltimore, é não apenas a existência de um estrato político negro que governa e gerencia boa parte da América negra, mas também a maneira como essa poderosa classe política negra ajuda a desviar o sério questionamento sobre a desigualdade estrutural e o racismo institucional. Ao contrário, os líderes dessa classe política ressuscitam velhas e convenientes narrativas que colocam a cultura e as famílias negras no centro da explicação sobre a persistente desigualdade racial.

Para manter a legitimidade dentro do Partido Democrata, considerado como a própria casa pela maioria desses políticos negros, eles se posicionaram na linha do partido que enfatiza a responsabilidade pessoal e rejeita aumentar impostos de modo a conseguir fundos para programas sociais desesperadamente necessitados. E governantes negros eleitos tanto criam quanto ampliam o espaço para brancos questionarem os hábitos morais dos negros comuns. Quando o presidente Obama, a prefeita Rawlings-Blake e o procurador geral Lynch se referem aos manifestantes negros como “arruaceiros” e “criminosos”, os republicanos brancos não precisam dizer nada.

Os governantes negros eleitos frequentemente invocam um senso de solidariedade e familiaridade racial, e falam sobre a vida dos negros pobres e da classe trabalhadora – apenas para, então, castigar ou culpar os afro-americanos comuns pelas condições de deterioração de seus próprios bairros.

Isso não é apenas produto do desprezo pelos negros pobres, mas também resultado das pressões de governar grandes cidades numa era de austeridade. As cidades têm sido levadas a concorrer entre si para atrair capital, resultando numa corrida que acaba por cortar impostos e essencialmente excluir aqueles que necessitam dos serviços sociais. O foco no fracasso individual e falhas morais (ao invés de em desigualdades estruturais) justifica cortes de orçamento e redução da esfera pública que essas elites políticas negras são acusadas de realizar. O que os afro-americanos em cidades de todo o país necessitam, de acordo com essa narrativa, é de transformação pessoal, não de expansão dos serviços sociais.

As práticas dos políticos negros se dão no mesmo terreno que as de seus pares brancos. Eles competem para manter-se nas boas graças de doadores ricos, enquanto maximizam as conexões políticas para reforçar seus cofres de campanha. Também contam com policiamento agressivo para compensar os problemas sociais criados quando a pobreza, os serviços sociais destruídos e a falta de perspectivas de sucesso na sociedade norte-americana convergem e, eventualmente, entram em combustão.

O levante de Baltimore cristalizou o aprofundamento da divisão política e de classe na América negra. Esse é um novo desdobramento da luta pela liberdade dos negros, que historicamente têm se unido cruzando linhas de classe para lutar contra o racismo. Da Casa Branca às prefeituras de todo o país, o crescimento e maturação da classe política negra a tem colocado numa posição de gerenciar as crises que continuam a se desenrolar nos bairros negros. Os operadores políticos negros não oferecem aos afro-americanos comuns soluções melhores que qualquer outro governante eleito. Em Ferguson e agora em Baltimore, é o movimento nas ruas que está trazendo a atenção global para o racismo e a desigualdade que ainda prosperam na sociedade norte-americana – e não rostos negros em altos cargos.

28 de abril de 2015

Grécia atravessa as linhas vermelhas

Michael Roberts


Tradução / A notícia de que o primeiro-ministro grego Tsipras retirou o seu ministro das Finanças Yanis Varoufakis das negociações diretas com o Eurogrupo sugere que o governo Syriza está a preparar-se para mais concessões à Troika a fim de chegar a acordo sobre os termos da liberação dos fundos existentes da UE e do BCE ao abrigo da quarta extensão do segundo pacote de salvamento (bailout). Varoufakis foi substituído por Euclid Tsakalatos, economista educado em Oxford e anteriormente, quando o Syriza estava na oposição, ministro sombra das Finanças (aqui). Tsakalatos possivelmente é mais "moderado" e certamente mais aceitável para os ministros das Finanças do Eurogrupo do que o "carismático" Varoufakis, que parece odiado.

Este passo de Tsipras rumo a mais concessões e talvez a abandonar as suas "linhas vermelhas" não negociáveis que o Syriza não permitiria serem transpostas possivelmente obteria apoio do povo grego, se os atuais inquéritos de opinião forem corretos. Um deles dizia que 79% dos gregos querem permanecer no euro e 50% querem alcançar um compromisso ao invés de uma ruptura (36%). Cerca de 63% dos gregos querem evitar um incumprimento das dívidas do governo grego. E se houvesse um acordo que rompesse as ditas linhas vermelhas, então os gregos prefeririam um governo de unidade nacional (44%) ao invés de um referendo (32%) ou de novas eleições (19%) para confirmá-lo. O Syriza ainda lidera nos inquéritos com 36% dos votos potenciais, a comparar com 22% para a direita da Nova Democracia; 5% para o social-democrata Potami; 3% para o PASOK em bancarrota e agora apenas 5% para o fascista Aurora Dourada e para os comunistas.

O tempo está a esgotar-se para chegar a qualquer espécie de acordo que mereça a aprovação do povo grego e evite um incumprimento de dívidas e uma possível saída da Eurozona. O governo conseguiu "raspar" suficiente cash apropriando-se de reservas de autoridades locais e outras agências do governo de modo a que possa pagar as próximas obrigações de dívida ao FMI durante o mês de Maio. Mas é improvável que tenha o suficiente para reembolsar o FMI em junho e certamente não o suficiente para pagar a conta de €3,5 bilhões do BCE em julho – a menos que deixe de pagar salários aos seus trabalhadores e as pensões do estado.


Ironicamente, o governo Syriza ainda dispõe de um excedente orçamental de €1,7 bilhões do primeiro trimestre deste ano. Ele conseguiu isto simplesmente por não pagar as suas contas a fornecedores do governo ou aos serviços de saúde e escolas. Ao fazer isto, ele pode cumprir com os salários dos trabalhadores do setor público e com as pensões. O problema é que [o montante] de impostos não pagos está a subir constantemente, atingindo €3,5 bilhões no primeiro trimestre, embora o crescimento deste déficit tenha estado a atenuar-se. O povo, especialmente pessoas ricas e homens de negócios, fica pouco desejoso de cumprir seus deveres fiscais se pensar que em breve a Grécia será lançada para fora da Eurozona e o governo não cumprirá com suas dívidas e desvalorizará os euros gregos. Eles querem manter consigo todos os euros que obtiveram.

Até agora o BCE tem estado a financiar os bancos gregos à medida que os seus depósitos caem. Mas os bancos gregos começam a ter falta de "colateral" adequado para financiamento do BCE, nomeadamente de Euro bonds da Euro instituição, o EFSF (European Financial Stability Facility), que os bancos mantêm desde a recapitalização executada em 2013. E o BCE cessará o crédito se o governo grego incumprir suas dívidas.

Quando em fevereiro último começaram as negociações sobre uma extensão de quatro meses do pacote de salvamento, considerei que era provável um acordo mas que as negociações seriam longas e tortuosas, e assim aconteceu. Mesmo que haja um acordo para liberar os €7,2 bilhões ainda disponíveis sob o antigo pacote de salvamento, será difícil alcançar um novo pacote para financiar os bancos gregos e cumprir com os reembolsos ao FMI até abril de 2016.

Há uma possibilidade de que se o Syriza fizer bastantes concessões quanto a: redução de pensões; aumento do IVA; permissão de privatizações e introdução de "reformas" nos mercados de trabalho, poderia então obter os €7,2 bilhões e negociar também um terceiro pacote para o período pós junho que cumprisse futuros reembolsos ao BCE e ao FMI e ainda não impor um pacote de austeridade demasiado pesado. Aparentemente, Tsipras, Merkel e o Eurogrupo concordaram em que o alvo do superávit primário orçamental será reduzido de 3-4% do PIB por ano para cerca de 1,5%. E se a economia da Eurozona começasse a recuperar, isso também poderia impulsionar a economia grega através de exportações mais elevadas e entrada de mais investimento. Este é o cenário que Tsipras e os líderes do Syriza procuram.

Na verdade, Varoufakis explicou minuciosamente como tal cenário pode funcionar se os líderes Euro fossem apenas um pouco mais cordatos (aqui). Varoufakis dissera anteriormente que o objetivo seria convencer os líderes Euro e os mercados financeiros que dar à Grécia algum "espaço para respirar" permitiria que a economia recuperasse e isto ajudaria o capitalismo europeu. E o objetivo correto agora é "salvar o capitalismo de si próprio" e não lançar ridículas medidas socialistas pois "simplesmente não estamos prontos para colmatar o abismo que abrirá um capitalismo europeu em colapso com um sistema socialista a funcionar" (aqui).

Naturalmente, esta "saída" significa que o Syriza ainda estará a efetuar austeridade orçamental (ainda que "mais leve") com um excedente no orçamento do governo no momento em que o desemprego grego permanece acima dos 25% e a economia ainda está a contrair-se em termos reais e nominais. Na verdade, desde 2009 os gregos já sofreram um ajustamento de austeridade orçamental equivalente a 20% do PIB potencial.


E os trabalhadores gregos receberam uma enorme pancada a fim de restaurar a lucratividade corporativa grega: um corte de 25% nos custos do trabalho do setor privado, ou mais de 30% em relação à média euro.


Mas todos estes cortes fracassaram em reduzir mesmo uma mínima parte do rácio da dívida do governo. Ao contrário, o rácio da dívida do governo está agora nos 175% do PIB, mais alto do que em 2010. Sob qualquer acordo com a Troika, este fardo da dívida não seria reduzido pois não haveria cancelamento da dívida com a "instituições" da UE. Os gregos nunca poderão reembolsar esta dívida e é ridículo esperar que assim o façam. E, como sabemos, cerca de 90% destes empréstimos da Troika não "salvaram" gregos mas foram utilizados para reembolsar bancos franceses e alemães e hedge funds americanos que mantinham títulos gregos e estavam a pedir o seu dinheiro de volta. O dinheiro devido a estas finanças capitalistas foi meramente transferido para o setor oficial (as "instituições" da UE e o FMI) (aqui).

É verdade que os empréstimos da UE não começam a ser reembolsados até 2020, mas o Eurogrupo está a insistir em que os gregos comecem a efetuar redução de dívidas antecipadamente através de impostos mais altos e controles sobre os gastos, muito embora famílias gregas ainda estejam atoladas na pobreza e os serviços públicos de saúde, educação e habitação estejam no caos. Para os líderes Euro, é melhor preservar os outros e manter o pacto orçamental da UE. Além disso, pretendem restaurar o capitalismo grego através do aumento da lucratividade, não a restauração dos rendimentos de famílias gregas.

Ainda em fevereiro, apresentei esta questão como um triângulo impossível. O Syriza não podia reverter a austeridade, ficar no euro e permanecer unido como um partido único no governo. Um ou mais destes objectivos teriam de ser abandonados. Parece que Tsipras optará por ficar no euro, ainda que não possa reverter a austeridade ou cancelar (write off) dívida do governo grego. A questão então torna-se política: o que fará a esquerda dentro do Syriza? Será que também engolirá qualquer acordo, especialmente se Tsipras apresentá-lo num referendo popular e ganhar os votos? Ou será que dividirão o partido e forçarão Tsipras a uma aliança com a oposição (unidade nacional) para conseguir qualquer acordo aprovado pelo parlamento?

Ainda há a possibilidade de que os termos da austeridade exigidos pela Troika sejam excessivos para a liderança do Syriza aceitar e em Junho os gregos optem pelo incumprimento dos pagamentos. O FMI permite um "período de graça" de 30 dias no cumprimento de dívidas vencidas, assim o incumprimento não será tecnicamente imediato, embora provavelmente haja uma corrida aos bancos gregos. O governo teria de impor controles de capitais e travar a saída de dinheiro do país ou mesmo o simples entesouramento. Introduzir controles de capital não significa romper quaisquer regras da Eurozona, de modo que tecnicamente a Grécia ainda seria membro da mesma. Mas a corrida aos bancos significaria que ou BCE interviria a fundo ou os bancos faliriam. A condição grega como membro da Eurozona seria posta em causa.

O governo poderia continuar a afirmar que o euro era a divisa grega e não introduzir qualquer novo dracma. Mas os euros logo se tornariam escassos para pagar trabalhadores do governo e para as empresas pagarem importações e salários dos seus trabalhadores. A economia grega caminharia para um desmoronamento ainda mais profundo mais adiante. Então a desvalorização e uma nova divisa grega não estariam longe, a fim de tentar evitar um colapso. Mas desvalorização significaria que os negócios gregos encontrariam ainda mais dificuldade para pagar suas contas em euros e muitos iriam à falência. Seria uma outra forma de colapso. Estas são as consequências para o povo grego, com acordo ou sem acordo, sob o capitalismo.

A alternativa para enfrentar o problema: exigir o cancelamento dos empréstimos em euro e do FMI (o pedido original do Syriza) ou incumprimento; impor controles de capital, tomar o comando (take over) dos bancos gregos e apelar ao apoio do povo grego e do movimento trabalhista europeu. Deixar os líderes euro tomarem a iniciativa quanto à condição de membro da Eurozona, não o Syriza. O problema é que agora o povo grego tem sido levado a acreditar que há apenas uma saída: um acordo com o Eurogrupo em termos cada vez piores. A alternativa de um plano socialista de investimento e de um apelo a toda a Europa não está diante de si (aqui).

A abordagem Tsipras-Varoufakis de concessões agora e esperança de uma melhor economia capitalista mais à frente poderia funcionar por um breve período. Mas ela não reverterá as perdas terríveis em rendimentos, empregos, educação e saúde que sofreram aqueles gregos que não conseguiram ou não quiseram deixar o país. E o que acontecerá quando vier o próximo desmoronamento (slump) na economia mundial?

27 de abril de 2015

Nixon e o genocídio no Camboja

Brett S. Morris

Jacobin

Os crânios de algumas das pessoas que pereceram no genocídio cambojano.

Tradução / Em 17 de abril de 1975, as forças do Khmer Vermelho (KV) invadiram Phnom Penh e reestabeleceram o Camboja como o Kampuchea Democrático – uma sociedade supostamente autossuficiente, inteiramente agrária. Resetando o relógio para o “Ano Zero”, o KV forçou a população urbana a ir para a parte rural, e começou a “purificar” o Camboja através de uma remoção genocida de intelectuais e grupos de minorias do país. Quando o matadouro chegou ao fim em 1979 – depois que o Vietnã invadiu o Camboja e retirou o KV do poder – cerca de 1,7 milhão de pessoas (21% da população) estavam mortas.

Pol Pot, o líder do KV de 1993 a 1997 e primeiro ministro do Kampuchea Democrático, fugiu para a selva. Ele morreu em 1998 sem nunca ir a julgamento. Na verdade, desde a remoção do KV, apenas 3 indivíduos foram condenados de suas ações no genocídio (A primeira condenação foi proferida só em 2010; as outras duas aconteceram em 2014).

Mas ao ascensão do poder de Pol Pot, o genocídio cambojano e a ausência de justiça para as vítimas do KV são inseparáveis das políticas mais amplas de intervenção dos EUA na Indochina de 1945 a 1991 – em particular, a campanha de bombardeio vicioso dos EUA contra o Camboja.

Bombear e desestabilizar


Os EUA começaram a bombardear o Camboja em 1965. Desde aquele ano até 1973, a Força Aérea dos Estados Unidos bombardeou de mais de 230 mil lançadores em mais de 113 mil pontos. A tonelagem exata de bombas que caíram está em disputa, mas uma estimativa conservadora de 500 mil toneladas (quase igual ao que os Estados Unidos deixaram cair em todo o teatro do Pacífico na Segunda Guerra Mundial) é inquestionável.

Os alvos ostensivos dos bombardeios foram as tropas norte-vietnamitas e da Frente de Libertação Nacional (“Viet Cong”) estacionadas no Camboja e, mais tarde, rebeldes do KV. No entanto, é indiscutível que também houve desrespeito total para a vida civil. Em 1970, o presidente Richard Nixon emitiu ordens ao seu Assessor de Segurança Nacional (e mais tarde Secretário de Estado) Henry Kissinger:

“Eles têm que ir lá e quero dizer, entrar. Eu não quero armas de fogo, eu quero os navios com helicópteros. Eu quero tudo o que pode voar para ir lá e acabar com eles. Não há limitação na quilometragem e não há limitação no orçamento. Está claro?”

Kissinger transmitiu essas ordens a seu assistente militar, general Alexander Haig: “Ele quer uma campanha de bombardeio em massa no Camboja. Ele não quer ouvir nada. É uma ordem, deve ser feito. Qualquer coisa que voe sobre qualquer coisa que se mova. ”

O numero exato de pessoas que os Estados Unidos mataram e feriram nunca serão conhecidos. Em seu livro Acabando com a Guerra do Vietnã, o próprio Kissinger cita um aparente memorando do Escritório Histórico do Secretário de Defesa, afirmando que havia cerca de 50 mil baixas cambojanas. O principal estudioso do Genocídio cambojano, Ben Kiernan, estima que o número provável esteja entre 50.000 e 150.000.

Uma testemunha ocular cambojana de um bombardeio descreveu o evento da seguinte maneira:

“Três F-111 bombardearam o centro direito da minha aldeia, matando onze dos membros da minha família. Meu pai ficou ferido, mas sobreviveu. Naquele momento, não havia um único soldado na aldeia, nem na área, nem ao redor. Outros 27 aldeões também foram mortos. Eles haviam encontrado uma vala para se esconder e então duas bombas caíram neles.”

A campanha de bombardeio dos EUA no Camboja desestabilizou um governo já frágil. Quando o Camboja ganhou sua independência da França em 1953, o Príncipe Norodom Sihanouk tornou-se seu governante efetivo. Um neutralista, o objetivo principal de Sihanouk era manter a integridade do Camboja – uma tarefa que se mostrou extremamente difícil, com os interesses americanos, chineses e vietnamitas, bem como várias facções de esquerda e direita no Camboja, estavam puxando Sihanouk em diferentes direções. Tentando um delicado equilíbrio, ele jogou grupos um contra os outros, trabalhando com um grupo um dia e se opondo no próximo.

Um grupo que desafiava Sihanouk era o Partido Comunista do Kampuchea, que se tornaria amplamente conhecido mais tarde como o Khmer Vermelho. A liderança do partido era dividida em duas facções: uma era pró-vietnamita e defendia a cooperação com Sihanouk, a outra – liderada por Pol Pot – era anti-vietnamita e se opunha ao governo de Sihanouk. Em 1963, a facção de Pol Pot havia removido a outra parte, mais experiente, da liderança. No mesmo ano, ele se mudou para o Camboja rural para formular uma campanha de insurgência.

Quatro anos depois, uma revolta camponesa conhecida como a Rebelião Samlaut estourou no campo depois de uma nova política que obrigou os camponeses a vender seu arroz ao governo abaixo das taxas do mercado negro. Para garantir a conformidade, os militares estavam estacionados nas comunidades locais para comprar (ou simplesmente pegar) o arroz dos agricultores.

Sofrendo com o seu pouco sustento, os camponeses começaram uma revolta, matando dois soldados. À medida que a rebelião se espalhava rapidamente para outras áreas do Camboja, Pol Pot e o KV capitalizavam a agitação, ganhando o apoio camponês para sua insurgência. Em 1968, os líderes do KV estavam dirigindo emboscadas e ataques em estações militares.

A insurgência de Pol Pot era formada com pessoas naturais de seu país, mas, como argumenta Kiernan, sua “revolução não ganharia o poder que teve sem a desestabilização econômica e militar dos EUA no Camboja”. Os camponeses anteriormente apolíticos foram motivados a se juntar à revolução para vingar a morte de seus familiares. Como um cabo de Informações e Inteligência da Direção de Operações da CIA, em 1973, explica:

“Os insurgentes Khmer (KI) [Khmer Vermelho] começaram uma intensa campanha de proselitismo entre residentes do Camboja. . . em um esforço para recrutar jovens homens e mulheres para organizações militares KI. Eles estão usando os danos causados pelas bombardeios de B-52 como o principal tema de sua propaganda.”

Em 1969, a guerra aérea dos EUA contra o Camboja aumentou drasticamente como parte da política de Vietnamização de Nixon. O objetivo era erradicar as forças comunistas vietnamitas localizadas no Camboja para proteger o governo apoiado pelos EUA do Vietnã do Sul e as forças dos EUA estacionadas lá. No início da escalada, os combatentes do KV eram menos de 10.000, mas, em 1973, a força havia aumentado para mais de 200 mil soldados e milícias.

O golpe respaldado pelos EUA que removeu Sihanouk do poder em 1970 foi outro fator que fortaleceu dramaticamente a insurgência KV. (A cumplicidade direta dos EUA no golpe permanece não comprovada, mas, como William Blum documenta amplamente em seu livro Killing Hope, há provas suficientes para justificar a possibilidade).

Sihanouk foi removido e colocado no seu lugar o direitista Lon Nol, o que deixou ainda mais nítido o contraste entre os campos opositores dentro do Camboja e envolveu completamente o país na Guerra do Vietnã.

Até este ponto, houve um contato limitado entre as forças comunistas do Vietnã e do Camboja, já que os vietnamitas aceitavam Sihanouk como o legítimo governo do Camboja. Mas depois do golpe, Sihanouk aliou-se com Pol Pot e o KV contra aqueles que derrubaram ele, e os comunistas vietnamitas ofereceram todo seu apoio ao KV em sua luta contra o governo apoiado pelos EUA.

O KV foi assim legitimado como um movimento anti-imperialista.

Como os já mencionado o cabo de Informação e Inteligência da CIA, informam:

“Os membros [do Khmer Vermelho] dizem às pessoas que o governo de Lon Nol pediu os ataques aéreos e é responsável pelo dano e pelo “sofrimento de aldeões inocentes” para se manter no poder. A única maneira de parar “a destruição maciça do país” é remover Lon Nol e devolver o Príncipe Sihanouk ao poder. Os membros dizem às pessoas que a maneira mais rápida de conseguir isso é fortalecer as forças da KI para que possam derrotar Lon Nol e parar o bombardeio.”

Em Janeiro de 1973, os Estados Unidos, Vietnã do Norte, Vietnã do Sul, e as forças comunistas do Vietnã do Sul assinaram os Acordos de Paz de Paris. As forças dos EUA se retiraram do Vietnã e os bombardeios do Vietnã e do Laos foram interrompidos.

No entanto, a administração Nixon continuou bombardeando o Camboja para defender o governo de Lon Nol contra as forças KV. Diante da intensa oposição doméstica e do Congresso, Nixon foi forçado a encerrar a campanha em agosto de 1973 depois de chegar a um acordo com o Congresso.

Durante o próximo ano e meio, a guerra civil continuou a raiva entre o governo e o KV. O KV conseguiu capturar inúmeras províncias e grandes áreas do campo, e finalmente assumiram o controle de Phnom Penh em abril de 1975.

Apoiando o Khmer Vermelho


O mapa geopolítico estava em fluxo após a Guerra do Vietnã – o Vietnã do Norte instalou um governo provisório no Vietnã do Sul até o país se reunificar em 1976 e Washington estava determinado a isolar o governo comunista. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos buscaram relações mais estreitas com a China como forma de redistribuir o poder global da União Soviética; Os EUA viram o Camboja como um contrapeso potencialmente útil.

Em novembro de 1975 – sete meses após as forças do KV assumiram o controle de Phnom Penh – Henry Kissinger disse ao ministro das Relações Exteriores da Tailândia que “deveria dizer [ao KV] que não temos hostilidade em relação a eles. Nós gostaríamos que eles fossem independentes como contrapeso para o Vietnã do Norte “. Kissinger acrescentou que “também deveria dizer aos cambojanos que nós seremos amigos deles. Eles são matadores assassinos, mas não vamos deixar isso em nosso caminho. Estamos preparados para melhorar as relações com eles “.

Um mês depois, nas discussões entre o presidente Gerald Ford, Kissinger e Suharto (o ditador da Indonésia apoiado pelos EUA), Ford observou: “Estamos dispostos a avançar lentamente em nossas relações com o Camboja, esperando talvez diminuir a influência norte-vietnamita. Embora consideremos o governo cambojano muito difícil de se lidar”. Kissinger ecoou esses sentimentos, dizendo: “Não gostamos do Camboja, pois o governo de muitas maneiras é pior do que o Vietnã, mas gostaríamos que ele fosse independente. Nós não desencorajamos a Tailândia ou a China de aproximar-se do Camboja “.

Mas o KV começou um grande curso isolacionista, concentrando-se, no seu projeto de construir uma sociedade agrária autossuficiente, o que no fim acabou num assassinato em massa.

No final de 1978, em uma escalada de disputas fronteiriças entre os países, o Vietnã invadiu o Camboja e derrubou o governo KV no início de 1979. As forças do KV fugiram para o oeste do Camboja na fronteira tailandesa para iniciar uma campanha de guerrilha contra o governo novo do Camboja instalado pelos vietnamitas. O genocídio que o KV havia orquestrado acabou, mas agora os partidos estrangeiros autônomos, incluindo os Estados Unidos e a China, optaram por apoiar os guerrilheiros KV em sua campanha contra a ocupação vietnamita, como parte de uma política geral de isolamento do Vietnã.

Um método fundamental para atingir esse objetivo foi o apoio dos EUA à ajuda chinesa às guerrilhas do KV. Como relatou o New York Times, “a administração Carter ajudou a organizar a constante ajuda chinesa às guerrilhas do KV”. Zbigniew Brzezinski, Assessor de Segurança Nacional de Jimmy Carter, explicou que ele “encorajava os chineses a apoiarem a Pol Pot”. Segundo um relatório da Associated Press, as agências de inteligência dos EUA estimaram que a China forneceu os guerrilheiros do KV com cerca de US $ 100 milhões de ajuda militar por ano durante a década de 1980.

Ao reconhecê-los como o governo legítimo do Camboja e assentá-los nas Nações Unidas, os Estados Unidos, a China e vários outros países europeus e asiáticos também deram apoio diplomático ao KV. Os Estados Unidos até se recusaram a chamar o que o KV fez do genocídio de 1975-1979 até 1989, de modo a não prejudicar os esforços para apoiar o movimento guerrilheiro.

O suporte veio de outras maneiras também. De acordo com Kiernan, os Estados Unidos gastaram dezenas de milhões de dólares para financiar guerrilheiros aliados com as forças do KV durante a década de 1980 e pressionaram as agências de ajuda da ONU a fornecerem ajuda “humanitária” adicional para alimentar e vestir o KV que se escondiam perto da fronteira tailandesa, permitindo assim o KV fazer sua campanha contra os vietnamitas.

Em 1989, o Vietnã retirou suas tropas do Camboja. Dois anos depois, dezenove governos (incluindo os Estados Unidos, China, Camboja e Vietnã) assinaram acordos de paz com guerrilheiros do KV e seus aliados para acabar com o conflito. Mas o apoio dos EUA para Pol Pot e o KV continuou após os acordos de paz. Não foi até 1997 “que os Estados Unidos deram a luz verde para perseguir o indescritível líder do Khmer Vermelho [Pol Pot]”. Os julgamentos para os líderes do KV teriam se mostrado desconfortáveis para várias partes, não menos para alguns em Washington.

Na verdade, quando o Tribunal do Khmer Vermelho (oficialmente as Câmaras Extraordinárias nos Tribunais do Camboja) foi finalmente estabelecido em 2003, depois de anos de negociações com as Nações Unidas, escolheu-se explicitamente apenas cobrir crimes cometidos pelos líderes de KV, que orquestraram o genocídio de 1975-1979, ignorando os crimes dos EUA que ajudaram a nutrir e sustentar o KV.

As vítimas do Khmer Vermelho receberam pouca justiça, e é improvável que nunca a vejam. As grandes potências (particularmente os Estados Unidos) não têm interesse em fornecer uma contabilidade honesta de por que o KV chegou ao poder, ou como os Estados Unidos os apoiaram e os protegeram da justiça por décadas, mesmo depois de serem expulsos de poder.

Todas as lições a serem extraídas sobre as consequências da intervenção dos EUA no Camboja não parecem ter sido aprendidas: como o jornalista John Pilger apontou, assim como a destruição maciça do Camboja pela campanha de bombardeio dos EUA ajudou a criar as condições para a ascensão do KV, a invasão dos EUA ao Iraque também destruiu uma sociedade e preparou o terreno para o surgimento do ISIS. E assim como os Estados Unidos apoiaram seus antigos inimigos no Camboja contra o Vietnã ao longo da década de 1980, Washington entrou em uma aliança tácita com grupos jihadistas na Síria contra o governo de Bashar al-Assad.

De fato, se podemos esperar algo da política externa dos EUA, são atrocidades e cumplicidade, escondidas na linguagem da democracia e dos direitos humanos.

Por que Obama quer levantar as sanções contra o Irã

Em busca de uma fonte alternativa de gás

Mike Whitney

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

É essencial reconhecer que o Irã não tem atualmente um programa de armas nucleares, nem possui armamento nuclear. Em 26 de fevereiro de 2015, James Clapper, Diretor da Agência Nacional de Inteligência disse à Comissão das Forças Armadas do Senado que o Aiatolá Khamenei, Líder Supremo do Irã, encerrou completamente o programa nuclear de seu país em 2003 e "tanto quanto sabemos não tomou qualquer decisão para construir alguma arma nuclear". Isso repete a avaliação "altamente confiável" da Comunidade de Inteligência (CI) dos Estados Unidos, que disse exatamente isso em novembro de 2007. 
- Micah Zenko, Putting Irã's Nuclear Program in Context, Council on Foreign Relations

Tradução / Sempre ajuda começar com a verdade, e no caso do Irã, a verdade é bastante simples. O Irã não tem armas nucleares, não tem programa para construir armas nucleares e nunca foi apanhado praticando desvio de combustível atômico, para usá-lo em objetivos diversos do original. O Irã pesquisa e produz tecnologias nucleares exclusivamente para fins pacíficos.

Estes são os fatos. Talvez não confirmem as mentiras propagadas pela imprensa comercial, mas nem por isso deixam de ser fatos. O Irã não é culpado de crime algum. O Irã é exclusiva e inteiramente a vítima de um atentado praticado pelo poder-alucinado de Washington, obcecado por controlar os recursos vitais que no Oriente Médio e promover a hegemonia regional de Israel. Isso é o que está realmente acontecendo. É tudo geopolítica. Não tem nada a ver com armas nucleares.

A imprensa comercial que cobre as chamadas “negociações nucleares” em Lausanne e agora em Viena mantém-se maniacamente focada no “número de centrífugas”, nos programas de monitoramento da AIEA, na capacidade para enriquecer urânio e em miríades de outros tópicos que existem em grande número para, precisamente, afastar a atenção do único fato importante: que o Irã não tem armas atômicas, nem interesse em algum dia vir a tê-las. Empurrado para uma simulação de afogamento nesse mar de notícias ocas, de questões sem importância, o leitor é induzido a sentir que o Irã “tem de” estar escondendo alguma coisa e, portanto, sim, com certeza é uma ameaça real à segurança nacional dos Estados Unidos. Claro que isso, precisamente, é o que os “especialistas” autores desses artigos visam a conseguir. Vivem de meter um saco sobre os olhos do público consumidor de “notícias” e de levá-lo a crer em algo que é demonstrada e comprovadamente falso... O fato é que o Irã não está fazendo nada de desonesto ou ilegal. O Irã, simplesmente, demanda o direito de enriquecer urânio para finalidades pacíficas, que o Tratado de Não Proliferação lhe assegura, tratado que o Irã quer, com toda a razão, ver respeitado. O Irã não se deixará destratar pelos Estados Unidos, nem deixará que o tratem como “país de segunda classe”. O Irã tem se comportado com honra desde o início, o que está muito distante do que se pode dizer dos Estados Unidos.

A imprensa comercial não quer discutir os “protocolos adicionais” que o Irã aceitou para construir confiança entre os membros da ONU, porque, se as pessoas forem informadas desse assunto, todos verão que o Irã concedeu muito mais do previsto no início das negociações. Mesmo assim, continua a ser alvo das acusações estúpidas e absurdas, com manchetes diárias sobre “a intransigência” dos iranianos, ou o “jogo duplo” dos iranianos. Mas onde está a evidência da intransigência ou da má fé dos iranianos? Não há nenhuma. É tudo especulação, e a continuada implantação do medo na população, quando não é apenas maledicência da imprensa. Não há uma palavra de verdade em nenhuma delas.

O mais recente golpe da imprensa gira em torno da questão do “breakout time” [tempo de fuga], que se refere ao tempo necessário para que o Irã consiga construir uma bomba nuclear se decidir fazê-lo, o que disse que não quer fazer.

“Breakout time” é a nova palavra-propaganda repetida milhares de vezes na imprensa, sempre para sugerir e reforçar que Teerã estaria a poucas horas de concluir a construção de uma arma atômica que usará imediatamente para aniquilar Israel. É conto de fadas que assume que - porque os Estados Unidos anda pelo mundo a aniquilar qualquer coisa que respire - todos os demais países teriam a máxima pressa para seguir o mesmo modelo, no instante em que tivessem chance. Isso é errado em muitos níveis. Por um lado, o Irã não quer armas nucleares e, por outro, nem todos os governantes do mundo são obcecados por matar-sem-parar, cujo único prazer na vida é reduzir a ruínas fumegantes grandes fatias do planeta. Esse é um comportamento específico dos governantes dos Estados Unidos. Outros não sofrem do mesmo distúrbio sociopata.

The nuclear issue has nothing to do Iran’s fictitious nuclear weapons program. Isso é apenas uma cortina de fumaça. Não tem nada a ver com o inexistente programa nuclear iraniano. O verdadeiro problema é que o Irã é um país soberano com uma política externa independente. Washington não gosta de países independentes. Washington gosta de países e calam o bico e fazem o que são mandados fazer. Países que não se deixam mandar são inimigos de Washington e são postos numa lista de matar. E é quando entram em cena as sanções. Sanções são o meio pelo qual Washington enfraquece o inimigo, antes de bombardeá-los até viraram fumaça. São o porrete que os EUA usam para pôr de joelhos os rivais.

Quem tenha acompanhado o noticiário nos últimos dias sabe que alguma coisa muito estranha está acontecendo. Os Estados Unidos deram meia-volta e mudaram sua política em relação ao Irã. É um desenvolvimento chocante. Os Estados Unidos mantiveram a mesma política de selvageria contra Cuba durante 60 anos, sem mudar qualquer coisa. Que as políticas selvagens de Washington funcionem ou não, nunca fez diferença; o que interessa é causar dano máximo, sofrimento máximo aos povos que os Estados Unidos odeiam. Assim sendo, por que a repentina mudança no caso do Irã? Por que Obama tenta agora um acordo com um país que as elites estadunidenses abertamente desprezam?

E não se pode esquecer, que a “abertura” de Obama, hoje, para o Irã, é extremamente impopular também em grupos muito poderosos, no Congresso, na imprensa, em Israel e entre funcionários do mais alto escalão também no Departamento de Estado dentro do próprio governo Obama. Teria acontecido que os agentes de poder, que mexem o cordame que movimenta Obama e lhe dizem o que fazer, de repente viram a luz e resolveram que é chegada a era da reconciliação e da paz com o Irã?

Claro que não. Ninguém acredita nisso. Obama só assinará acordo com o Irã, se daí puder extrair alguma vantagem. E a vantagem que os Estados Unidos querem extrair do Irã chama-se “gás”. Os Estados Unidos querem um substituto para o gás russo que chega à Europa, para que possam destruir completamente a Rússia e implementar o tal plano estratégico de estender o poder norte-americano por toda a Ásia, para que as megaempresas norte-americana possam conservar a posição dominante na economia global. Obama faz-se de negociador sensível com o Irã, para poder pivotear-se para a Ásia o mais facilmente possível.

Então é plausível que o Irã venha a substituir o gás russo no lucrativo mercado da União Europeia?

Vejam esse trecho de um artigo de 2014 que previa exatamente o cenário atual, vale dizer, os Estados Unidos tentando impedir que se crie uma zona UE-Rússia de livre comércio que fará encolher o PIB dos Estados Unidos e deixará a única potência indispensável em declínio. O título do artigo é “UE busca o Irã como alternativa ao gás russo”:

A União Europeia está silenciosamente promovendo a necessidade, cada vez mais urgente de um plano para importar gás natural do Irã, ao mesmo tempo em que as relações com Teerã vão sendo descongeladas, e as relações com seu maior fornecedor de gás, a Rússia, entram em processo de rápido resfriamento... 
“O Irã caminha rapidamente para o topo de nossas prioridades, para adotar medidas de médio prazo que ajudem a diminuir nossa dependência da Rússia, como fornecedora de gás natural”, diz a fonte. “O gás do Irã pode chegar à Europa muito facilmente , e politicamente já se vê clara reaproximação entre Teerã e o Ocidente.”... 
O Irã, que está vivendo sob sanções, tem a segunda maior reserva de gás, só inferior à da Rússia, e é possível alternativa, uma vez que as conversações entre Teerã e o Ocidente cheguem a algum acordo sobre o discutido programa nuclear da República Islâmica. 
“Alto potencial para produção de gás, reformas no setor doméstico de gás que estão em andamento e a normalização das relações com o ocidente fazem do Irã uma alternativa viável à Rússia”, diz um documento preparado para o Parlamento Europeu... 
“Given Russia’s current strategy politically, which is one of confrontation with Europe, I see the EU having little choice but to find alternative gas supplies,” acrescenta... 
“O interesse do Irã em entregar gás à Europa é grande. Partes da elite econômica e política iraniana, assim como empresas ocidentais já se preparam para o fim das sanções”, disse Frank Umbach, diretor de pesquisas sobre energia do King’s College em Londres... 
Há muito tempo o Irã trabalha para conseguir construir um gasoduto que conectaria seu imenso campo Pars Sul, de gás, e os consumidores europeus - o chamado Gasoduto Persa. 
“É um projeto extremamente ambicioso”, disse Handjani. “Mesmo se só se construir metade do projeto será uma imensa realização para a Europa e para o Irã.”... 
Estudos independentes de viabilidade mostram que se as sanções forem levantadas e começarem logo os investimentos, o Irã poderá fornecer 10-20 bilhões de metros cúbicos de gás/ano à Turquia e à Europa, já no início da década dos 2020s” (EU Turns to Irã as Alternative to Russian Gas, EurActiv, 25 de setembro de 2014).

É por isso que Obama quer aliviar as sanções; porque ele precisa encontrar uma fonte alternativa de gás para a Europa, enquanto ele continua sua guerra contra a Rússia. Derrotar a Rússia tornou-se prioridade estratégica de Washington. Os Estados Unidos estão dispostos a arriscar tudo - até a guerra nuclear - para manter o monopólio do poder global e para prolongar sua hegemonia até o próximo século.

A revolução Cybersyn

Cinco lições de um projeto de computação socialista no Chile de Salvador Allende.

Eden Medina

Jacobin


Tradução / Embora frequentemente nos digam que o passado guarda lições sobre como abordar o presente, raramente olhamos para tecnologias mais antigas buscando inspiração. Ainda mais raro é sugerir que experiências históricas de nações menos industrializadas possam ter algo a nos ensinar sobre os problemas tecnológicos de hoje – e menos ainda que um projeto socialista de décadas atrás poderia oferecer maneiras de pensar sobre tecnologias promovidas por capitalistas do Vale do Silício.

No entanto, um sistema de computação construído no Chile socialista na década de 1970 – o Projeto Cybersyn – oferece inspiração sobre como devemos pensar sobre tecnologia e dados hoje.

O Projeto Cybersyn foi um projeto tecnológico corajoso vinculado a um projeto político corajoso. Surgiu no contexto do caminho pacífico do Chile para o socialismo: Salvador Allende venceu a presidência chilena em 1970 com a promessa de construir uma sociedade fundamentalmente diferente. Seu programa político faria do Chile um Estado socialista democrático, respeitando a constituição do país e as liberdades individuais.

Estabelecer o controle estatal das indústrias mais importantes do Chile constituía uma tábua central da plataforma de Allende, mas criou dificuldades de gestão. O governo tinha uma experiência limitada nesta área. No entanto, no final de 1971, tinha assumido o controle de mais de cento e cinqüenta empresas, entre as quais doze das vinte maiores empresas do Chile.

O problema de como administrar essas empresas recém socializadas levou um jovem engenheiro chileno chamado Fernando Flores a entrar em contato com um especialista britânico em cibernética chamado Stafford Beer e pedir conselhos. Flores trabalhava para a agência governamental encarregada do esforço de nacionalização; Beer era um consultor internacional de negócios conhecido por seu trabalho na área da cibernética administrativa, que ele definia como a “cibernética da organização eficaz.”

Juntos, formaram uma equipe de engenheiros chilenos e britânicos e desenvolveram um plano para um novo sistema tecnológico que melhoraria a capacidade do governo de coordenar a economia estatal.

O sistema proporcionaria acesso diário aos dados de produção de fábrica e um conjunto de ferramentas computadorizadas que o governo poderia usar para prever o comportamento econômico futuro. Também incluía uma sala de operações futurista que facilitaria a tomada de decisão do governo através de conversação e melhor compreensão dos dados. Beer imaginou maneiras de aumentar a participação dos trabalhadores na economia e preservar a autonomia dos gerentes de fábrica, mesmo com a expansão da influência do Estado.

Membros do governo chileno acreditavam que o sistema reforçaria o sucesso do programa econômico de Allende e, por extensão, a revolução socialista do Chile. Beer nomeou o sistema Cybersyn em reconhecimento da cibernética, os princípios científicos orientando seu desenvolvimento e sinergia, a ideia de que todo o sistema era mais do que a soma de suas partes tecnológicas.

Mesmo décadas depois de sua criação, o Projeto Cybersyn ainda tem valiosas lições para hoje. Em primeiro lugar, nos lembra que o Estado desempenha um papel importante no design técnico e pode ajudar a dar forma a inovações que visam beneficiar a sociedade e dar apoio aos grupos marginalizados, em vez da estreiteza de atingir metas de eficiência ou do foco único em aumentar os lucros. Em segundo lugar, precisamos ser vigilantes sobre as formas em que o viés do design pode limitar a eficácia das tecnologias para o aumento da participação e inclusão democrática.

Em terceiro lugar, enquanto o fluxo atual de novos produtos sugere que as tecnologias se tornam obsoletas rapidamente, usar tecnologias mais antigas na verdade pode resolver problemas, mantendo baixos os custos e gerando menos desperdício. Em quarto lugar, proteger a privacidade é necessário para evitar potenciais abusos de controle centralizado de dados. E, finalmente, precisamos pensar criativamente sobre mudar sistemas sociais e organizacionais se quisermos aproveitar ao máximo a tecnologia; a inovação tecnológica por si só não fará do mundo um lugar melhor.

1. O estado e suas prioridades moldam como a tecnologia é projetada e usada.

O Estado desempenha um papel importante na formação da relação entre trabalho e tecnologia, e pode pressionar pela concepção de sistemas que beneficiem as pessoas comuns. Também pode ter o efeito oposto. Na verdade, a história da computação no contexto dos EUA tem sido fortemente ligada ao comando, controle e esforços de automação por parte do governo.

Mas não precisa ser desse jeito. Considere como o governo de Allende abordou a questão de tecnologia-e-trabalho na concepção do Projeto Cybersyn. Allende fez com que o aumento do emprego fosse central tanto para seu plano econômico como para sua estratégia geral para ajudar os chilenos. Seu governo pressionou por novas formas de participação dos trabalhadores no chão de fábrica e pela integração do conhecimento do trabalhador na tomada de decisões econômicas.

Esse ambiente político permitiu que Beer, o cibernético britânico prestando assistência ao Chile, visse a tecnologia computacional como uma forma de empoderar os trabalhadores. Em 1972, ele publicou um relatório para o governo chileno que propunha dar aos trabalhadores chilenos, e não aos gerentes ou tecnocratas do governo, o controle do Projeto Cybersyn. Mais radicalmente, Beer imaginou uma maneira para que os trabalhadores do Chile participassem no projeto do Cybersyn.

Ele recomendou que o governo permitisse que os trabalhadores – e não os engenheiros – construissem os modelos das fábricas controladas pelo Estado porque eles estavam mais qualificados para entender as operações no chão de fábrica. Os trabalhadores, assim, ajudariam a projetar o sistema que eles iriam, em seguida, executar e usar. Permitir que os trabalhadores usassem tanto suas cabeças como suas mãos limitaria o quão alienados se sentiriam de seu trabalho.

A ideia de Beer para participação democrática tinha suas falhas: por exemplo, ele não considerou como a codificação do conhecimento de trabalhadores no software de um sistema computadorizado poderia resultar no eventual desempoderamento dos trabalhadores, especialmente se o contexto político mudasse.

Mas Beer mostrou uma capacidade de imaginar como a informatização em um cenário de fábrica poderia trabalhar em direção a um fim diferente de acelerações e desqualificações – os resultados do desenvolvimento capitalista que estudiosos do trabalho como Harry Braverman testemunharam nos Estados Unidos, onde o governo não tinha o mesmo compromisso de limitar ativamente o desemprego ou de incentivar a participação dos trabalhadores.

Braverman publicou seu clássico ‘Labor and Monopoly Capital’ [‘Trabalho e Capital Monopolista’] [7] em 1974, pouco tempo depois da época em que Beer estava trabalhando para o governo de Allende. Nele, observava como tecnologias como máquinas controladas por computador contribuem para a automação do trabalho e levam à desqualificação dos trabalhadores, mesmo em campos altamente especializados como engenharia.

Ele encontrou o mesmo processo funcionando no contexto do uso do computador no escritório. Os computadores tornam o trabalho de escritório cada vez mais rotineiro e dão à gerência uma maneira fácil de monitorar a quantidade de trabalho que cada operador executa. A velocidade de trabalho aumentada tem o potencial de resultar em mais demissões.

Beer via a informatização de maneira diferente, principalmente porque o Estado chileno insistia em que seu sistema computadorizado socialista fosse projetado para fins diferentes do que aqueles descritos por Braverman. Isso deu a Beer a liberdade de reconceitualizar como tecnologias podem moldar o trabalho no chão de fábrica e ver computadores como um meio de empoderar os trabalhadores.

O Projeto Cybersyn mostra que o estado pode criar as condições para novas direções no pensamento de projetos. O estado pode exigir (e inspirar) tecnólogos a considerar como os sistemas beneficiam os interesses da cidadania mais ampla, o que pode ou não se alinhar com lucro, sucesso no mercado, eficiência, elegância técnica ou no design do sistema. A inovação em computação não nasceu com as startups do Vale do Silício, e pode prosperar adotando considerações de projeto que estão fora do escopo do mercado.
2. Os sistemas do futuro devem ser livres dos preconceitos de hoje.

Preconceitos herdados não serão perdidos da noite pro dia, razão pela qual precisamos permanecer vigilantes sobre as formas de preconceito que podem penetrar e dar forma ao projeto do sistema. Deixadas sem verificação, tecnologias para aumentar a participação democrática e melhorar a interação homem-máquina também podem excluir e marginalizar setores da população. Aqui, também, o Projeto Cybersyn oferece insights importantes.

O Projeto Cybersyn é mais conhecido por sua sala de operações, um espaço futurista [8] que foi projetada para facilitar a tomada de decisão democrática. Consistia de sete cadeiras dispostas em círculo dentro de uma sala hexagonal. A equipe do projeto insistiu em um número ímpar de cadeiras para evitar um empate ao votar. Também rejeitaram a presença de uma mesa, que eles sentiam encorajar o baralhar de papéis em vez de uma discussão animada.

Uma série de telas se alinhavam nas paredes da sala, que exibiam dados sobre o estado da economia, bem como sinais de alerta indicando áreas necessitando de atenção governamental urgente. As telas nas parede usavam cores, luzes e design de gráficos de formas que ajudassem os ocupantes a entender rapidamente as complexidades do setor industrial chileno. Os primeiros planos para a sala ainda incluíam espaço para um mini-bar.

As cadeiras da sala exibiam marcas similares de pensamento de projeto cuidadoso. Por exemplo, os ocupantes iriam navegar nas informações das telas usando os botões de “mãos grandes”, localizados nos apoios dos braços das cadeiras. Esses grandes botões geométricos substituíram o teclado tradicional e refletiam a consciência de classe da equipe de design. Seu fundamento era que os trabalhadores chilenos não teriam experiência usando um teclado, e que os botões geométricos ofereciam uma alternativa amigável que permitiria a participação de trabalhadores.

A equipe considerava altos funcionários do governo como os outros usuários prováveis da sala. Esses funcionários também tinham uma experiência limitada com teclados, mas por uma razão diferente: eles tinham secretárias femininas. Como notou Beer, a adoção de um teclado “insinuaria uma garota entre eles e o maquinário. . . [Sendo que seria] vital que os ocupantes interagissem diretamente com a máquina, e uns com os outros. “

Os botões, portanto, forneciam uma maneira de eliminar mulheres deste espaço de tomada de decisão. Eles também incentivavam formas de expressão masculina. Como Beer escreveu, os botões poderiam ser “socados” quando um ocupante quisesse fazer um ponto.

Tais decisões de projeto não eram neutras. Elas refletiam quem a equipe de design acreditava que iria manter o poder no contexto revolucionário do Chile e reforçavam essa visão. Trabalhadores de fábricas e burocratas do governo, todos homens, teriam poder de tomada de decisão. Outros tipos de trabalhadores, tais como trabalhadores de escritório e mulheres, não.

Essas decisões de projeto ilustram uma lacuna na imaginação revolucionária do Chile. Elas também ilustram como nossas suposições sobre gênero e classe podem viajar conosco, mesmo quando imaginamos um futuro mais igualitário e justo.
3. Podemos fazer mais com menos e ajudar o meio-ambiente no processo.

Novas tecnologias vêm com custos ambientais significativos em termos de consumo e eliminação de dispositivos electrônicos. As vendas globais de dispositivos eletrônicos dobraram entre 1997 e 2009. De acordo com a Agência de Proteção Ambiental, em 2009, as pessoas nos Estados Unidos descartaram 29,4 milhões de computadores e 129 milhões de dispositivos móveis. Os EUA tiveram a maior quantidade de e-desperdício no mundo em 2012, com 9.4 milhões de toneladas métricas geradas. Grande parte desse desperdício é manuseado em lugares como China, Índia e Paquistão, onde a recuperação de materiais valiosos como o ouro pode expor os trabalhadores ao chumbo e outros metais tóxicos.

O mercado atual de produtos eletrônicos depende da obsolescência planejada [9]: produtos antigos rapidamente se tornam desatualizados e fora de moda. Mas estender a vida útil de nossos dispositivos eletrônicos ajuda a resolver o problema do e-desperdício. O Projeto Cybersyn mostrou que é possível criar um sistema de ponta usando tecnologias que não são de estado-da-arte. Demonstra que o futuro pode ser ligado ao passado tecnológico.

Quando o Projeto Cybersyn foi construído durante a década de 1970, haviam aproximadamente 50 computadores em todo o Chile, e a maioria desatualizada. Nem o Chile poderia pedir ajuda à IBM. A IBM diminuiu suas operações no Chile após a eleição de Allende porque temia que o governo chileno os nacionalizasse. O governo Nixon também instituiu um “bloqueio invisível” para desestabilizar a economia chilena e impedir que a América Latina se tornasse um “sanduíche vermelho” com Cuba de um lado e Chile do outro. Isso limitou ainda mais a capacidade do Chile de importar tecnologia dos EUA.

Como resultado, Beer e a equipe chilena bolaram uma maneira engenhosa de criar a rede de processamento de dados necessária para conectar as fábricas do país ao centro de comando: ligariam o computador desatualizado que tinham para o projeto a outra tecnologia que não era o estado-da-arte: a máquina de telex – ou melhor, várias centenas deles. E funcionou.

Em 1972, uma greve nacional que chegou a incluir quarenta mil motoristas de caminhão jogou o país em um estado de emergência e interrompeu a distribuição de alimentos, combustível e matérias-primas para a produção nas fábrica. O governo usou a rede telex criada para o Projeto Cybersyn para determinar quais estradas estavam abertas, coordenar a distribuição de recursos-chave e manter a produção fabril.

A rede Cybersyn melhorou a comunicação governamental e aumentou substancialmente a velocidade e a freqüência com que o governo poderia enviar e receber mensagens ao longo do país. Lhe faltava a sofisticação tecnológica da ARPANET, o sistema de comunicações militares dos EUA que foi o precursor da Internet e um contemporâneo do sistema telex do Chile. Mas a rede chilena utilizava menos recursos técnicos a um custo menor e mostrou-se altamente funcional, não obstante. Tecnologias mais antigas foram criativamente reavaliadas e combinadas com outras formas de inovação organizacional e social.

Novas tecnologias não são realmente tão imateriais como muitos pensariam. Muitas vezes falamos de nossos dados sendo armazenados “na nuvem” – uma noção que implica uma falta de fisicalidade. Mas fazendas de dados [‘data farms’] dependem de quantidades substanciais de recursos naturais. Um centro de dados de 15 megawatts pode usar até 360.000 litros de água por dia, e o recém-concluído NSA Utah Data Center exige um milhão de galões de água por dia e 65 megawatts de energia. Uma transformação progressista de novas tecnologias encorajaria maior seletividade na coleta de dados e desafiaria a prática de armazenar grandes quantidades de dados simplesmente porque nós podemos.

O Projeto Cybersyn também demonstra que mais pode ser feito com menos. O projeto chileno não tentou copiar a forma soviética de cibernética econômica, que recolhia uma fartura de dados de fábrica e os enviava para uma hierarquia centralizada de centros de computação para posterior processamento. Realizava a mesma tarefa ao transmitindo apenas dez a doze índices de produção diários de cada fábrica e fazendo com que os modeladores de fábrica passassem mais tempo identificando cuidadosamente quais índices eram os mais importantes.
4. Proteção da privacidade pode significar a diferença entre um sistema abusivo e um sistema que protege e promove a liberdade humana.

Proteger a privacidade é fundamental para evitar abusos de controle centralizado. Novas inovações tecnológicas, como smartphones, o uso crescente de análises baseadas em dados e o impulso para criar cidades inteligentes e uma “Internet das coisas” facilitam a coleta de dados e permitem a gravação de grandes quantidades de atividades humanas e não-humanas

Na década de 1970, críticos caracterizavam o Projeto Cybersyn como uma forma de controle autoritário e centralizado, pois ele coletava dados sobre as atividades das fábricas e os canalizavam para o governo chileno. A revista New Scientist, por exemplo, publicou um editorial que declarava [10]: “Se este [Projeto Cybersyn] for bem sucedido, Beer terá criado uma das armas mais poderosas da história”.

Mas tais interpretações confundiam como o sistema realmente operava. A má interpretação era muitas vezes ideológica – no Chile elas estavam ligadas a críticas mais gerais ao governo de Allende pela oposição política de direita, que afirmava que o governo estava destruindo as liberdades civis chilenas. [11]

Na verdade, o Projeto Cybersyn não funcionava como uma forma de controle centralizado abusivo porque incluía mecanismos para proteger e preservar a autonomia de fábrica. Essas proteções foram projetadas no próprio design do sistema. O governo, por exemplo, poderia intervir em atividades de chão de fábrica somente depois que o software detectasse uma anomalia de produção e a fábrica não conseguisse resolver a anomalia dentro de um período de tempo definido.

Limitações humanas e tecnológicas colocavam uma restrição adicional sobre a intervenção governamental. Operadores da fábrica, por exemplo, não conseguiam monitorar milhares de índices de produção por dia, mas poderiam rastrear dez a doze dos mais importantes. Limitar o número de indicadores também tornou mais fácil para o software detectar as emergências mais urgentes que precisassem de ação governamental. No entanto, exigia que os engenheiros chilenos tomassem decisões sobre quais dados o governo realmente exigia.

Tais limitações tornavam a maior parte da atividade da fábrica invisível ao governo chileno, preservava a liberdade e protegia os trabalhadores chilenos de abusos orwellianos. Elas criavam uma camada de privacidade que poderia ter permitido que os trabalhadores participassem da gestão econômica sem o controle excessivo de burocratas estatais.

A arquitetura de Beer do Projeto Cybersyn também dava aos trabalhadores uma maneira de entender como esta forma de regulação baseada em dados funcionava, lhes permitindo criar os modelos de fábrica que formavam a base do software Cybersyn. Teoricamente, lhes permitiu abrir a caixa preta do computador e compreender o funcionamento do processamento analítico ocorrendo dentro dele.

Apenas teoricamente, porém, porque o governo Allende foi interrompido por um golpe militar que resultou na morte do Presidente Allende e pôs fim à democracia chilena durante os próximos dezessete anos. A ditadura militar e as políticas econômicas, muitas vezes descritas como “tratamento de choque neoliberal”, puseram um fim no trabalho do Projeto Cybersyn antes de sua conclusão. Para os defensores do liberalismo econômico, não fazia sentido ter um sistema de computador que ajudasse o Estado a regular a produção industrial.

No entanto, a estrutura de Beer é útil porque nos lembra a importância não apenas da transparência computacional, mas de controle democrático. Se o código for lei, como Lawrence Lessig propôs [12], o código usado nas novas tecnologias que moldam nossas vidas não devem ser domínio exclusivo de engenheiros e programadores.
5. Precisamos pensar grande, porque a tecnologia por si só não criará um mundo melhor.

Precisamos pensar em termos de sistemas em vez de soluções tecnológicas rápidas. As discussões sobre cidades inteligentes, por exemplo, se concentram normalmente em melhores infra-estruturas de rede e no uso de tecnologias de informação e comunicação, como sensores integrados, aplicativos de telefones celulares e serviços on-line. Muitas vezes, o pressuposto subjacente é que tais intervenções melhorarão automaticamente a qualidade da vida urbana, facilitando o acesso dos residentes aos serviços governamentais e fornecendo ao município dados para melhorar a manutenção da cidade.

Mas esse determinismo tecnológico não oferece uma compreensão holística de como tais tecnologias podem afetar negativamente aspectos críticos da vida urbana. Por exemplo, o sociólogo Robert Hollands [13] defende que iniciativas de cidades inteligentes centradas na tecnologia podem criar um influxo de trabalhadores tecnologicamente alfabetizados e exacerbar o deslocamento de outros trabalhadores. Elas também podem desviar recursos da cidade para a construção de infra-estruturas de computadores e para longe de outras áreas importantes da vida da cidade.

Ele afirma que cidades inteligentes progressistas devem primeiro tentar entender as interações humanas nos ambientes urbanos e como elas produzem sistematicamente desigualdades de poder. As tecnologias devem então ser integradas nos ambientes das cidades de forma a melhorar estas disparidades.

Beer compartilhava a perspectiva de Hollands. Em todo o Projeto Cybersyn, Beer repetidamente expressou frustração de que a Cybersyn fosse vista como um conjunto de soluções tecnológicas – uma sala de operações, uma rede de máquinas de telex, um simulador econômico, um software para acompanhar dados de produção – ao invés de uma forma de reestruturar a gestão econômica chilena.

Beer estava interessado em entender o sistema de gestão econômica chilena e como as instituições governamentais poderiam ser alteradas para melhorar os processos de coordenação. Ele via a tecnologia como uma forma de mudar a organização interna do governo do Chile.

Se estivesse vivo hoje, Beer certamente lamentaria que iniciativas de governo eletrônico para colocar os formulários existentes on-line ou informatizar os processos existentes perdem oportunidades para tornar as próprias organizações mais eficazes.

Devemos resistir ao tipo de “determinismo de inovação” apolítico que vê a criação do próximo aplicativo, serviço on-line ou dispositivo em rede como a melhor maneira de levar a sociedade à frente. Em vez disso, devemos nos forçar a pensar criativamente em maneiras de mudar a estrutura de nossas organizações, processos políticos e sociedades para melhor e sobre como novas tecnologias podem contribuir para esses esforços.

Os desafios enfrentados pelos protagonistas da Cybersyn não eram exclusivos de sua época – teremos problemas semelhantes. Embora o projeto estivesse longe de ser perfeito, suas lições não devem ser ignoradas por aqueles buscando um futuro onde a tecnologia seja democraticamente aproveitada para o bem social.

26 de abril de 2015

O que Obama quer com o TPP e TTIP?

Eric Zuesse

Tradução / A motivação por trás do tratado comercial Trans-Pacífico (TPP) e do tratado comercial Trans-Atlântico (TTIP) de Obama – a motivação por trás desses dois enormes tratados internacionais – é a mesma, e os senadores Democratas dos EUA, Elizabeth Warren e Sherrod Brown, estão certos: são tratados que não nada têm de progressistas. Têm a ver com transferir poder político que é dos eleitores, para bem longe deles; e para entregar o poder aos pés da aristocracia internacional (quer dizer, mandar o poder político para o mais longe possível do alcance de qualquer democracia nacional). Para consumar essa operação trata-se de modificar a coisa mais fundamental: a própria base de poder global. Em vez dessa base de poder estar nos votos democráticos dos corpos nacionais de eleitores, que elegem seus representantes, os quais determinam as leis e regulações, o sistema democrático nacional é convertido no exato oposto do que deve ser: serão os votos de acionistas da aristocracia internacional que vão eleger os diretores das empresas internacionais, os quais, por sua vez, selecionarão os membros dos painéis de comércio internacional que, pelos tratados TPP e TTIP, determinarão as leis e regulações que tenham a ver, especialmente, com direitos do trabalho, segurança para os consumidores dos produtos que eles mesmos vendem e meio ambiente.

O enfraquecimento de todas essas leis nacionais pela aristocracia internacional tornará possível baixar sempre mais os salários para a população em geral, que não controla megaempresas internacionais mas só controla o seu próprio trabalho pessoal, que perde valor até o valor mínimo por hora de toda a área comercial internacional. Esse novo sistema também permitirá minimizar as leis sobre segurança alimentar e segurança de outros itens e assim maximizar o poder das corporações internacionais para evitar despesas que, sem essas novas leis, seriam obrigatórias para aumentar a segurança dos produtos produzidos. Todas as despesas relacionadas ao maior risco no consumo de produtos perigosos passam assim a ser cada vez mais descarregadas exclusivamente sobre os ombros dos consumidores dos produtos. Os riscos para o capital dos investidores (que é a coisa que os aristocratas mais querem evitar) são consequentemente reduzidos – e passam a só haver risco para os consumidores e os cidadãos em geral. Os danos que sejam causados ao meio ambiente passam a ser virtualmente permitidos às corporações internacionais que os provoquem. Todos os custos passam a ser cobrados só do público em geral, em ar tóxico, em água contaminada, etc.. E assim se elimina mais uma categoria de riscos que pesavam contra os investidores. Aumentarão as margens de lucro, o que só beneficia os acionistas, não o público em geral. Os lucros ficarão cada vez mais concentrados nas corporações internacionais e nas famílias que as controlam, e só as perdas serão cada vez mais fartamente distribuídas entre consumidores e trabalhadores – e assim também entre os que mais precisam respirar para trabalhar: o público em geral. “Governo” significará cada vez mais o agente que impõe e aplica riscos e penalidades ao público em geral; e isso, por sua vez, estimulará o ideal do “livre-mercado” para que haja cada vez menos e menos governo, ou governos cada vez “menores”; é o mesmo que dizer que tudo conspirará ainda mais diretamente para que haja cada vez menos governos “democráticos”. O tal “governo pequeno” de que falam os aristocratas sempre significou sobretudo isso: transferência de todos os custos a pagar, dos aristocratas para os mais pobres, o chamado “público em geral”. Assim, a percentagem máxima dos custos – para segurança dos produtos , direitos do trabalho, meio ambiente e segurança para os consumidores dos produtos que eles mesmos venderão – recairá sobre os mais pobres; os acionistas das corporações internacionais ficarão com a menor parte desses custos. Por sua vez, os aristocratas poderão passar adiante, aos herdeiros que eles mesmos designarão, esse poder assim sempre crescente e o controle sobre a maioria da população. A concentração de riqueza só aumentará, limitada a número cada vez menor de famílias, uma aristocracia cada vez mais concentrada. Já acontece quase tudo isso, mas muito mais acontecerá se forem aprovados esses tratados TPP e TTIP. (Segundo o mais detalhado estudo sobre o assunto, de 2012, “Os 0,7% mais ricos do mundo possuem 13,67% a mais que os 68,7% mais pobres”. Em outras palavras: o mundo já é extremamente desigual na distribuição da riqueza. Os tratados TPP eTTIP foram concebidos para aumentar essa desigualdade).

Além disso, o Presidente Obama e o Partido Republicano no Congresso (que o apoia nesse assunto e em todos os demais temas que interessam muitíssimo à aristocracia norte-americana, como submeter Rússia, China, Índia e Brasil, os países BRICS — por exemplo, o movimento do governo Obama, de roubar a Ucrânia da aristocracia russa, para entregá-la à aristocracia dos EUA – cuidam de garantir que a aristocracia norte-americana estará cada vez mais no topo, no cenário internacional. Esses tratados comerciais também tiram vantagem do fato de os EUA terem posição geográfica privilegiada para controlar militarmente os dois maiores oceanos do planeta, o Atlântico e o Pacífico.

Em outras palavras: os EUA, com esses tratados TPP & TTIP, estarão em posição extraordinariamente favorável para basicamente garantir o privilégio de exclusividade para a aristocracia norte-americana nesses dois grandes blocos compactos de comércio internacional. Esse privilégio dará à aristocracia dos EUA controle sobre as aristocracias nacionais de praticamente todas as grandes nações industrializadas – que cobrem virtualmente todo o hemisfério norte, que é onde está a maior massa de terras do planeta.

Consequentemente: não apenas a aristocracia global controlará as maiorias globais, mas a aristocracia dos EUA controlará também todas as outras aristocracias, de tal modo que aumentará o poder coletivo delas contra qualquer aristocracia nacional não membro do “bloco”. Assim o Império Norte-Americano será cada vez mais o maior Império global que o mundo jamais viu, explorando os pobres onde haja pobres no mundo, e não apenas os pobres de um ou outro país.

Em 28 de maio de 2014, Obama disse aos cadetes formandos da Academia Militar de West Point: "O crescimento econômico da China e o alcance militar de seus vizinhos. Do Brasil à Índia, classes médias em ascensão competem conosco e governos buscam voz mais potente em fóruns globais." Em outras palavras, disse que parte do serviço daqueles jovens oficiais será ajudar a garantir que os países BRICS e outros países, que têm renda per-capita inferior à norte-americana, permaneçam como até hoje, pobres, para que os aristocratas dos EUA possam continuar a exportar empregos para lá, em vez de pagar salários superiores aos trabalhadores nos EUA. O que Obama disse foi "que os trabalhadores pobres dos EUA combatam contra trabalhadores pobres em outros países; muito melhor que os investidores americanos terem de competir uns contra os outros nos países pobres." Obama disse aos militares norte-americanos que são soldados nessa guerra de classes internacional, paga pelos contribuintes norte-americanos mais pobres, mas que, de fato, só interessa à aristocracia norte-americana e é guerra contra os norte-americanos mais pobres – porque só faz achatar salários e cortar garantias trabalhistas, de segurança para os consumidores, etc.

Essa é a trilha que leva a certo tipo de governo pelos super-ricos e para os super-ricos, mantendo-os e os herdeiros deles no controle de todos os valores em todo o planeta – em recursos naturais e humanos – e usando, como agentes locais pelo mundo os aristocratas locais, que será o pessoal que manterá subjugada a opinião e os votos locais, todos trabalhando para aumentar a riqueza do planeta, desde que ela permaneça em mãos, primeiro, da aristocracia global; segundo, da aristocracia dos EUA na função de aristocracia global dominante.

O que restará dos governos nacionais locais, então, tornarão-se meros escudos.

Benito Mussolini, que aprendeu todo aquele fascismo do fundador do fascismo, seu professor, Vilfredo Pareto (que Mussolini chamou de “o Karl Marx do fascismo”), e que foi também fundador da moderna teoria econômica e, especialmente, de seu Critério de Bem-estar, que tão fortemente modelou toda a economia e, sobretudo, as análises de custo-benefício (como a análise de meios que foram propostos para controlar o aquecimento global), explicou como segue o “corporacionismo” que, para ele, constitui o fascismo: "A corporação joga no terreno econômico exatamente como o Conselho Superior e o exército jogam no terreno político. O corporacionismo é economia disciplinada, e daí advém o controle, porque não se pode conceber disciplina sem diretor. O corporacionismo está acima do socialismo e acima do liberalismo. Criou-se uma nova síntese."

Adiante, nesse postado, depois desse artigo, ofereço um ensaio de Mussolini sobre esse tema, no qual expõe o que chama de ideologia pós-capitalista pós-socialista, e que o autodescrito pós-capitalista e pós-socialista Barack Obama (como agente da aristocracia global) está cada vez mais pondo, realmente, em prática – especialmente mediante os tratados TPP & TTIP.

Sobre especificamente trocas comerciais internacionais, o mestre de Mussolini, Pareto, disse que o livre-mercado deve reinar supremo e em todos os sentidos sem peias que lhe imponha o Estado, não só dentro das nações, mas também e, mesmo, especialmente, entre as nações. Como observei, em meu novo livro sobre o desenvolvimento histórico do fascismo até e incluindo também o nosso tempo: "Pareto foi consistentemente livre-mercadista puro, desde pelo menos 1896. Por exemplo, em um artigo de 1º de setembro de 1897, “As Novas Teorias da Economia”, publicado no Journal of Political Economy, Pareto diz: "“Fosse eu de opinião que algum livro contribuiria mais que outro para estabelecer o livre-mercado no mundo em geral, não hesitaria um instante em me entregar de alma e coração ao estudo desse específico trabalho, deixando de lado, durante esse estudo, todo o estudo da ciência pura”. Diz também, no mesmo artigo: “Temos conseguido provar com vigor que os coeficientes de produção são determinados pelos empresários em regime de livre concorrência, precisamente do mesmo modo como um governo socialista teria de corrigi-los se quisesse realizar o máximo de ofelimidade [termo inventado por Pareto para welfare, “bem-estar social”, para obscurecer o real valor-base e permitir que os economistas fingissem ser livres de valores, mesmo quando classificavam as coisas em análises de custo/benefício em que aplicam, de fato, a teoria pró-aristocracia ou ‘fascista’ do próprio Pareto] para seus objetos”. [Interessante também o ato falho de Pareto, para quem governos não teriam “cidadãos”, mas “objetos” – sempre subjacente o pressuposto aristocrático de que a maioria são “objetos”, nunca cidadãos reais]. Pareto sempre afirmou que nenhum governo socialista jamais conseguiria tal resultado, mas aqui diz que o livre mercado o faria naturalmente, exatamente como os fisiocratas disseram que a “lei natural” deve reinar, em vez de suavizações dela.

Pareto foi a base da economia de Adam Smith e da economia dos fisiocratas franceses que lançaram os fundamentos da teoria econômica de Smith, sobre uma base que economistas posteriores puderam desenvolver matematicamente, de tal modo que ocultariam o fascismo essencial da teoria – a forma modernizada (i.e., pós-agrária) de feudalismo.

Barack Obama e os Republicanos do Congresso estão, simplesmente, levando essa operação fascista ao nível seguinte. Quanto aos Democratas do Congresso, estão divididos sobre o assunto, porque (pelo menos até a nova teoria econômica que exponho em meu novo livro) ninguém ainda formulara uma teoria econômica para estado democrático. A teoria econômica hoje dominante foi concebida especificamente para um fascismo - um estado controlado aristocraticamente. Consequentemente, os poucos Democratas que ainda há no Congresso dos EUA estão tendo muita dificuldade para explicar rapidamente à opinião pública o que está realmente em jogo, em termos políticos e econômicos, nos tratados TPP e TTIP propostos por Obama: a transferência da soberania nacional democrática para uma aristocracia internacional fascista, que será dominada pelos aristocratas americanos. Sem essa transferência, da soberania democrática nacional a corpos fascistas internacionais que representam a gestão corporativa global, os tratados TPP e TTIP de Obama seriam nada.

Essa transferência aparece, nos tratados, sob a rubrica de “Arbitragem para Resolução de Disputas Investidor-Estado” (ARDIE), em inglês Investor-State Dispute Settlement, ISDS. E é realmente a emergência de um governo mundial caracteristicamente fascista. Não é mecanismo de modo algum democrático, e é assustadora forma de governo internacional o qual, na medida em que se torna imposto, reduz a soberania nacional. A proposta anterior, progressista, de governo mundial, que virou moda depois da IIª Guerra Mundial, para dificultar uma III Guerra, era baseada na ideia de uma federação internacional de democracias independentes. A ARDIE (ISDS), de Obama, nada tem a ver com aquela visão original de governo mundial. Agora se trata de puro fascismo, numa escala internacional. Nas primeiras décadas depois da II Guerra Mundial, predominou a visão de Franklin Delano Roosevelt do que seria um emergente governo mundial democrático, que se orientava para uma emergente ONU democrática, que evoluiria para acolher de modo cada vez mais democrático, mais e mais pedaços do mundo. Mas depois que começou a ser recomposto o controle pelos Republicanos nos EUA, com Dwight Eisenhower e os irmãos Dulles que “Ike” promoveu, com a tarefa de controlar e modelar as políticas externas futuras dos EUA, as coisas andaram rapidamente na direção de um controle mundial centrado cada vez mais na aristocracia norte-americana (especialmente a partir do golpe de 1953 , conduzido pela CIA de Allen Dulles, no Irã). Hoje, Barack Obama segue atentamente essa tradição fascista, que sempre foi típica dos Republicanos, por mais que se apresente nominalmente como “um Democrata”.

analistas que há muito tempo insistem em que Obama seria criação da CIA e desde muito jovem. (Quando Eisenhower assumiu a presidência, pôs no comando os pró-nazistas da CIA; na sequência, esse comando só fez entrincheirar-se cada vez mais fundamente naquela organização.) O falecido jornalista britânico Robert Fitch parece ter visto logo quem era Obama, já desde 14/11/2008, pouco depois da eleição para a presidência. Basicamente, Fitch descreveu Obama como um fascista determinado a chegar ao poder induzindo os progressistas a crer que ele seria um deles. Retratou Obama como um Cavalo-de-Troia, Republicano travestido com retórica Democrata, agente conservador. Acertou, desde o primeiro momento.

Faz pleno sentido com o que, não pela teoria econômica, mas segundo indicam estudos empíricos de economia, será o efeito provável dos tratados TPP e TTIP. Foram feitas duas análises econômicas independentes, uma dedicada a cada um desses tratados internacionais de comércio – e as duas análises chegaram à mesma conclusão: os povos em todos os cantos do mundo perderão riquezas em razão dos tais tratados; mas os aristocratas, principalmente nos EUA, ganharão riquezas também em razão dos mesmos tratados. Os tratados provavelmente levarão aos efeitos para os quais foram concebidos.

Quanto ao que alguns dos defensores de Obama dizem sobre seus tratados comerciais, a saber que o mecanismo de “Arbitragem para Resolução de Disputas Investidor-Estado” (ARDIE), em inglês Investor-State Dispute Settlement, ISDS, seria apenas um detalhe, é piada macabra: é como dizer que a saúde de alguém está ótima, mas o cérebro ou o coração estão tão mal que talvez precisem ser trocados. Toda essa gente sabe que os tratados são mau negócio para muitos; por isso precisamente o apoiam tão empenhadamente. São pagos pela aristocracia, para “argumentar” por ela.

Hillary Clinton iria ser melhor?

E quanto à aspirante ao posto de Obama? Fará diferente? Eis o currículo da candidata sobre o mesmo tema: Em 23 de fevereiro de 2008, Hillary Clinton pôs-se à frente de câmeras e microfones para fazer sermão, com voz zangada: “Que vergonha, Barack Obama!” e denunciou que dois flyers de campanha de Obama estariam divulgando mentiras sobre ela.

Um dos flyers dizia que o projeto dela para a saúde pública castigaria os americanos que não tivessem seguro-saúde individual. Era verdade, mas ela insistira em negar tudo. (Depois de eleito, Obama copiou o plano dela, praticamente em todos os detalhes). O outro flyer contra o qual Hillary protestava, citava o que seriam palavras de Hillary sobre o Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (ing. North American Free Trade Agreement, NAFTA) em 2006: “Clinton acha que o NAFTA foi uma bênção para a economia”. Em 2008, Hillary insistia que era mentira. Muitos jornalistas logo apoiaram as acusações dela contra Obama nesse ponto, porque “uma bênção” [“a boon”] era expressão inventada porNewsday, não era expressão dela. Mas outra vez quem estava mentindo no plano da substância era Hillary, não Obama. Em seu livro de 2003 Living History (p. 182), ela realmente se vangloria de o marido ter conseguido aprovar o NAFTA, e dizia: "Criar uma zona de livre comércio na América do Norte – a maior zona de livre comércio do mundo – expandiria as exportações dos EUA, criaria empregos e garantiria que nosso país colhesse os benefícios, não só os prejuízos, da globalização." Seria uma das realizações dela, de que ela mais se orgulhava (p. 231) “os sucessos de Bill no orçamento, a lei Brady e o NAFTA”. Em 2008, Hillary exigia desculpas pelo flyer que Obama distribuíra, no qual se lia “Só Barack Obama opôs-se ao NAFTA e a outros maus tratados comerciais”. De fato, o flyer de Obama não mentia, independente do que diziam Hillary e muitos dos principais veículos da mídia-empresa de “noticiário”, em 2008. (Obama estava guardando o pior dele para depois que fosse eleito - e, principalmente, para depois que fosse reeleito, quando estaria livre para avançar para a extrema direita, que sempre foi sua inclinação genuína desde o início; mas nunca poderia alcançar seus objetivos, se, de início, não os ocultasse, para conseguir chegar à posição da qual poderia afinal promovê-los).

Em 28 de março de 2008, um dia depois de Hillary finalmente distribuir os documentos relativos aos seus anos na Casa Branca, John Nichols blogou em Nation: “Mentira de Clinton Mata a Credibilidade Dela na Política Comercial”. No texto, dizia: "Agora que já lemos, nas 11 mil páginas de documentos da Casa Branca dos Clintons liberados essa semana, que a [ex-] Primeira Dama foi apaixonada defensora do NAFTA;... agora que sabemos que ela esteve no centro das manobras para bloquear todos os esforços dos trabalhistas, dos agricultores, dos grupos de defesa de direitos humanos e do meio ambiente para conseguir acordo menos catastrófico;... agora que sabemos, dos registros oficiais do tempo em que a própria Primeira Dama discursou, em reunião a portas fechadas com 120 mulheres formadoras de opinião, que receberam instruções precisas para pressionar seus deputados e senadores para que votassem a favor do NAFTA; agora que já sabemos da reportagem da ABC News sobre a sessão, em que se lia que “tudo o que a Primeira Dama disse foi totalmente pró-NAFTA” e que “não havia nenhuma dúvida, naquele momento, de que ela apoiava o NAFTA”;... o que se faz agora, então, do mote de campanha eleitoral de Hillary, de que ela jamais se sentiu confortável com um Tratado que custou aos EUA centenas de milhares de empregos?"

No dia seguinte, Jane Tapper, da ABC, em seu Blog “Political Punch”, publicou em manchete: “Campanha de Clinton mente sobre a Reunião que ela coordenou sobre o NAFTA”, e escreveu: "Agora já falei com três ex-funcionários do governo Clinton nos quais confio, e eles me disseram que Hillary só se opunha à ideia de que a lei do NAFTA fosse votada antes da reforma da saúde que ela estava promovendo; e que jamais, nem em público nem privadamente, manifestou qualquer oposição ao conteúdo do Tratado NAFTA." Apesar disso, a campanha da ex-Primeira Dama continua a divulgar a mentira de que ela teria combatido o NAFTA. E Hillary continuou a mentir, mesmo depois que todos já sabiam que o que ela dizia era comprovadamente falso.

Conclusão: a única diferença real entre Hillary Clinton e Barack Obama é que Obama é mentiroso muitas vezes mais competente. Por isso chegou até onde chegou. Ela provavelmente não chegará: Hillary é hoje a mesma incompetente que era há mais de dez anos.