30 de junho de 2015

OTAN, a "força de reação" alinhada

Manlio Dinucci


Tradução / "Violência repugnante": foi assim que o secretário geral da OTAN, Jens Stoltenberg, definiu o ataque terrorista na Tunísia. Apaga com uma esponja o fato de que a reação em cadeia, de que a tragédia da Tunísia é um dos efeitos, foi posta em movimento pela estratégia dos Estados Unidos e da OTAN. Um documento desarquivado pelo Pentágono, datado de 2012, confirma que o chamado Estado Islâmico do Iraque e do Levante (IIS, na sigla em inglês), cujos primeiros núcleos foram usados pela OTAN para demolir o Estado líbio, se formaram na Síria recrutando sobretudo militantes salafitas sunitas. Financiados pela Arábia Saudita e outras monarquias, esses núcleos foram abastecidos com armas através de uma rede da CIA. O objetivo: "estabelecer um principado salafita na Síria oriental", para atuar contra os xiitas, e a partir daí desencadear a ofensiva no Iraque, no momento em que o governo do xiita Al-Maliki se afastava de Washington, aproximando-se de Pequim e Moscou.

Confirmações posteriores vêm de documentos sauditas, revelados por Wikileaks: esses demonstram que, ao menos desde 2012, a Arábia Saudita alimenta a guerra secreta na Síria, em concertação com a Turquia.

Portanto, com a OTAN, que elogia sua parceria com a Arábia Saudita e as outras monarquias do Golfo porque “fornecem de maneira cada vez mais eficiente segurança, inclusive para além da sua região”. 

Isto ficou bem demonstrado pela guerra contra o Iêmen, onde a Arábia Saudita, apoiada militarmente pelos Estados Unidos, comete todo dia massacres de civis bem piores do que ocorreu na Tunísia, reivindicado pelo ISIS, documentados por uma mostra fotográfica aberta na capital iemenita. Ignorados, porém, pela grande mídia que, focalizando a atenção nos turistas inocentes assassinados numa praia tunisina, exploram este crime para demonstrar que o Ocidente está sob ataque e deve assim defender-se.

Com tempestividade tão perfeita quanto suspeita, os ministros da Defesa da OTAN, reunidos em Bruxelles dois dias antes da chacina na Tunísia, decidiram potencializar a "força de reação" da Aliança, elevando-a a 40 mil homens (dos 13 mil previstos inicialmente), e intensificar a sua preparação para que esteja pronta a ser lançada nas áreas de crises.

Com tal finalidade, os ministros da Defesa decidiram "acelerar os procedimentos decisórios políticos e militares, incluindo a autoridade do comandante supremo aliado na Europa de preparar as tropas para a ação".

A aceleração dos procedimentos decisórios confere ao comandante supremo aliado na Europa – sempre um general estadunidense nomeado pelo presidente – o poder de decidir e atuar numa intervenção militar com uma tempestividade tal a ponto de desautorizar de fato os parlamentos europeus (o italiano agradece a propósito à ministra Pinotti que participou na cúpula de Bruxelas).

A OTAN é assim relançada em grande estilo, com a profunda satisfação de Washington. Isto foi exteriorizado, no mesmo dia do massacre na Tunísia, pelo secretário estadunidense da Defesa, Ash Carter: "Há um ano, a OTAN se perguntava que coisa tinha feito depois do Afeganistão. Este ano descobrimos não somente uma, mas duas coisas a enfrentar: o ISIS e a Rússia de Putin".

No mesmo dia da chacina na Tunísia, o secretário geral da OTAN, Stoltenberg, participando no Conselho da Europa, sublinha que "nove em cada dez cidadãos da União Europeia vivem em países da OTAN" e que as duas organizações "compartilham os mesmos valores e o mesmo ambiente de segurança". Anuncia então que a OTAN deu "passos decisivos para reforçar a defesa coletiva". Em cujo nome a Europa é usada como terreno de grandes manobras militares, com a participação, somente em junho, de 11 mil soldados de 22 países, e como ponte de lançamento da "força de reação". Sempre, naturalmente, sob o comando dos Estados Unidos.

A restauração da dignidade

Agora mais do que nunca, o povo grego está na necessidade de apoio e solidariedade em todas as formas.

Giannakopoulos Georgios

Jacobin

Tradução / Em 11 de novembro de 2011, o Primeiro-Ministro da Grécia, George Papandreou, foi convocado para uma reunião de emergência em Cannes, França, para defender seu plano de fazer um referendo destinado a validar o segundo acordo de resgate e o plano de reestruturação da dívida.

Papandreou argumentou que um voto "sim" sobre os termos do programa acordado iria acalmar as tensões crescentes na sociedade grega e criar consenso tão necessário para as "reformas" que o governo grego tinha concordado em empreender.

Os principais atores da Eurozona insistiram que a única opção que havia sobre a mesa era um referendo do tipo “dentro-ou-fora”, sobre a permanência da Grécia na Eurozona e na União Europeia (UE). Diante de uma rebelião de seu próprio partido, Papandreou engavetou o plano para o referendo, declarou-se vencido e renunciou. O governo de coalizão que veio em seguida ratificou todos os acordos pró-catástrofe, que só fizeram aprofundar a crise econômica e reduzir ainda mais o poder de barganha dos gregos.

Domingo, foi a vez de um novo Primeiro Ministro, Alexis Tsipras, jogar outra vez com um referendo. Mas a decisão do governo Tsipras nada tem a ver com 2011. O referendo proposto por Papandreou era a última chantagem tentada por um governante encurralado, tentando ludibriar os eleitores e induzi-los a acreditar que votar a favor do “resgate” seria votar a favor da permanência da Grécia na Eurozona.

É muito irônico que Papandreou acuse Tsipras de explorar “aa grande arma da democracia como uma manobra tática, minando sua essência política.”

Diante da intransigência das “instituições” (FMI, BCE e CE), e com o modus operandi de “chutar o balde” dos demais estados europeus, Tsipras decidiu convocar o eleitorado para que avalie as demandas irracionais dos credores. O radicalismo popular do governo parece ser a única tática que resta para melhorar o cada vez mais fraco poder de barganha da Grécia – uma das últimas cartas que resta, numa série de derrotas táticas. Ele também é o único caminho para defender a soberania popular do país.

A rápida formação de uma estranha coalizão de governo com o partido ANEL, de direita, deu ao partido Syriza autoridade sobre a economia. Uma equipe constituída dos principais economistas do partido e respectivos assessores recebeu a missão de renegociar os programas de “resgate”. O Ministro das Finanças, Yanis Varoufakis, tornou-se o rosto da mudança política e levou essa mensagem por toda a Europa. A Grécia procuraria renegociar os acordos de empréstimo, visando a conseguir um “compromisso honroso” que garantiria o acerto final para a Questão Grega.

O argumento foi formulado na linguagem da democracia: as instituições tinham de respeitar “o mandato” do governo recém eleito para pôr fim às políticas de arrocho “austeridade. Além disso, o governo grego fez repetidos apelos a um “interesse europeu mais amplo”: uma mudança na Grécia faria subir a maré anti-austeridade na Europa e traria de volta o crescimento, em benefício do “europeu médio”. Por fim, as reformas que o governo busca promover teriam o selo de aprovação de instituições internacionais “benevolentes” como a Organisation for Economic Co-operation and Development (OECD) e a Organização Internacional do Trabalho. (OIT).

O acordo de fevereiro foi o primeiro marco na internacionalização da questão grega. Alguns viram aí um passo em direção a um “compromisso honroso”. Outros, como um passo atrás, tropeço, derrota estratégica. Naquele momento, argumentei que seria um recuo tático, o qual, pelo menos, parecia tem criado um horizonte político mais favorável à estratégia antiausteridade do Syriza.

No entanto, o tempo que o governo grego parecia ter ganho ficou aquém. Ao contrário do que cabia esperar, o Banco Central Europeu extrapolou seu papel tecnocrático e impôs novas sanções, dessa vez limitando a liquidez do sistema bancário grego. Intensificava-se o estrangulamento da economia grega. Até o Ministro Varoufakis usaria depois um termo tradicional da região dos Bálcãs “besa”, para denunciar aos gregos o quanto era vergonhosa a posição dos parceiros europeus. O horizonte político não mudou. A única mudança efetiva foi trocar o nome da Troika e iniciar novo processo de negociação.

"Flexibilidade" tornou-se a palavra-chave das semanas seguintes. As negociações resumiram-se a processo de duas frentes. De um lado, grupos reuniram-se em Paris, Bruxelas e Atenas para discutir metas fiscais e coleta de dados. O fato de que já não houvesse ministros gregos a fazerem fila para receber ordens dos representantes da troika foi visto como um pequeno passo na direção de restaurar a dignidade do povo grego. De outro lado, vários canais abriram-se entre Tsipras e os mais altos funcionários da UE. Mas não tardou para que todos vissem que a tal “flexibilidade” que ofereciam aos gregos tinha alcance muito limitado.

Um bloco de estados credores na Europa, liderados pela Alemanha, não quis correr o “risco” de ceder às “demandas” gregas. Qualquer mudança no status quo implicaria grave atentado contra o dogma da estabilidade fiscal que prevalecia na Europa. Ao mesmo tempo, governos no atormentado sul da Europa, especialmente na Espanha, temiam que qualquer concessões à Grécia pusesse em perigo o futuro político deles mesmos. Há um método cuidadosamente pensado e conduzido nessa loucura – o que explica as repetidas convocações para “restaurar a sanidade e a humanidade”.

Quando entramos em maio, foram empregados uma série de novos neologismos para refletir as novas realidades: Grimbo [“Grécia” + “limbo”], Graccident [“Grécia” + “acidente”], “Varoufexit” [“Varoufakis” + “Sair”], “Gredge” [“Grécia” + “beira do abismo”]. As táticas de negociação dos gregos trocaram de marcha. Naquele momento já se tornara muito claro que as esperanças dos gregos – de obter um acordo-ponte que conduzisse rumo a um acordo final para a questão grega – sempre fora miragem. As instituições europeias até gostaram de reiniciar as negociações em Bruxelas, servindo-se de uma equipe de especialistas para discutir detalhes das medidas fiscais.

Quatro linhas vermelhas gregas começaram a tomar forma: o sistema de aposentadorias, o mercado de trabalho, privatização e arrecadação de impostos. A progressão das negociações levou a violações de quase tudo que havia nas linhas vermelhas do governo, ao mesmo tempo em que cresciam as tensões entre as instituições. Reinava a desarmonia, e uma nova linha, dessa vez ainda mais vermelho rubra, raiava no horizonte: recusa total a aceitar nova rodada de cortes, já inimagináveis, em salários e aposentadorias.

Este mês, a coisa engrossou, com o atraso no pagamento da parcela devida ao FMI. Discussões, reuniões, teleconferências, minirreuniões proliferaram. Debate exaustivo, sem precedentes, sobre o Imposto sobre Valor Agregado (IVA) virou assunto de conversas diárias em toda a Grécia e em toda a Europa. Com o passar do tempo, foi-se tornando cada vez mais claro que as propostas não passavam de ultimatos, cujo único objetivo era quebrar o governo Tsipras. Embora recessionária, a última proposta grega fazia algum sentido com alívio da dívida e previa plano moderado para atender às necessidades mais imediatas de dinheiro no país.

A troika não mostrou qualquer flexibilidade. Já estavam sendo elaborados planos para “mudança de regime”. Os líderes da direita no Partido Nova Democracia e os partidos de centro-esquerda da coalizão Potami foram chamados a Bruxelas, para conversações. Era hora para o Presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Junker, fazer o que ele mais sabe fazer – jogar culpas e responsabilidade nas costas dos outros.

Enfrentado a demandas impossíveis, o governo Tsipras só tinha duas opções. Uma, submeter-se ao aprofundamento da depressão econômica na Grécia. Segunda, convocar o povo, fosse em novas eleições ou num referendo.

A política grega entra agora em fase nova, mais divisiva, que aprofunda as divisões políticas do período chamado “do memorandum”. Ao contrário do que demandam alguns líderes europeus e seus procuradores políticos na Grécia, o governo insistiu que a votação nada tem a ver com o lutar da Grécia na Eurozona e na União Europeia.

O referendum nada tem a ver com “dentro/fora” nem com “euro/dracma”. Pelo modo como foi redigido, o referendum tem a ver com aceitar ou rejeitar o mais recente acordo proposto pelas instituições. O governo tem sugerido que pode mudar de posição no caso de se viabilizar algum acordo de último momento, mas nada disso parece agora possível.

Apesar de esse movimento não conflitar com o mandato do Syriza para negociar um acordo anti-austeridase, dentro do contexto hoje existente da Eurozona, seria hipocrisia não reconhecer que, no caso de resultado “Não” no referendo, será imperioso pôr outras alternativas sobre a mesa. É preciso dizer também que um “Não não é de modo algum rejeição ou renúncia à condição da Grécia, de membro da Eurozona e da União Europeia, como pregam o Partido Comunista da Grécia e outros partidos menores da esquerda radical. Um “Não” no referendo de 5 de agosto de 2015 reafirmará que o país continua interessado em encontrar terreno comum na Europa.

No caso de resultado “Sim”, o governo e o Partido Syriza ter-se-ão deixado apanhar numa “armadilha da democracia”. Os credores da Grécia e seus procuradores na política local argumentarão que, apesar da clara maioria parlamentar com que conta o governo, ele já não tem legitimidade política para firmar qualquer tipo de acordo com os credores da Grécia. Discussões sobre novas eleições ou outras coalizões para governar com certeza proliferarão. Essa é a razão pela qual cada um e todos os euroburocratas em Bruxelas estão fazendo campanha a favor do voto “sim”.

Comentaristas observaram corretamente que a decisão do governo a favor do referendum repõe em cena o direito à oposição democrática e repõe a democracia outra vez no mapa de uma Europa cada dia mais autoritária. O demos tomou o palco e tem de ser deixado deliberar livremente sobre o futuro de sua comunidade política. Mas a corrida aos bancos patrocinada pelo credor e o inevitável controle sobre capitais nos bancos gregos fez surgir uma política do medo.

A Grécia não está só nem pode ser deixada só nesses tempos críticos. Como disse Pablo Iglesias: "O problema não é a Grécia: o problema é a Europa." Agora, mais que nunca, o povo grego precisa de apoio e solidariedade, de todas as formas, por todos os meios acessíveis: que se tomem as ruas, no dia do referendum, que se criem e divulguem-se campanhas de solidariedade por toda a Europa e em todo o mundo.

Haverá, dentre os que pregam um voto “não” – como o líder do ANEL [“Gregos Independentes”] e Ministro da Defesa, Panos Kammenos — os que abraçam o mais furioso nacionalismo. Esse não é o argumento que inspira a esquerda. Entendemos que o interesse nacional que o governo grego defende corretamente está em primeiro lugar e sobretudo alinhado a interesses transnacionais europeus. Nosso amor à Grécia não nos faz fantasiar com grandezas nacionais “só nossas” nem nos empurra para ilusões de autossuficiência econômica.

Por décadas, o destino da Grécia esteve entregue aos seus estadistas “iluminados”. Agora é diferente. É chegada a hora de o povo exercer o seu direito democrático e decidir sobre o futuro das gerações vindouras.

Giannakopoulos Georgios é doutorando em História na Queen Mary University of London.

29 de junho de 2015

Rússia: Olho por Olho

Israel Shamir

The Unz Review

Tradução / Fogo e fumaça e enxofre, novas sanções ou os tanques dos EUA nas fronteiras, todas as pragas lançadas sobre a Rússia, uma por cima da outra. O presidente Putin poderia adotar o lema de Guilherme de Orange: saevis tranquillus in undis, calmo em meio à tempestade. A tempestade está por toda a parte. Já há tanques americanos nos estados bálticos. Navios americanos a caminho do Mar Negro. As sanções da União Europeia contra a Rússia foram prorrogadas por outros seis meses. Há patrimônio russo confiscado na França e na Bélgica. Na Síria, Damasco é ameaçada por rebeldes que os EUA armaram e continuam a armar. A Grécia quer alistar-se ao lado da Rússia, mas provavelmente não ousará. A Armênia, pequeno país escondido entre o Irã e a Turquia, acaba de integrar-se aos estados da União Eurasiana liderada pela Rússia, e já apareceram perturbações da ordem pública por lá, que obrigam a lembrar de Kiev 2013. A Ucrânia está em escombros, enviando ondas e ondas de refugiados para a Rússia. Qualquer nação mais fraca já estaria histérica. Putin e a Rússia permanecem inabaláveis.

E há aquela piada do Mississipi. Um criminoso negro e um criminoso branco estão sendo levados para a cadeia. O negro está calmo, o branco, em prantos. “Pare de se lamuriar”, diz o negro. “É fácil falar” – diz o branco. – “Vocês negros são acostumados a ser maltratados”. É feito a Rússia. Desde os dias dos sovietes, a Rússia está acostumada aos maus tratos, e desde antes, até, porque a rivalidade entre os herdeiros de Roma e os herdeiros de Constantinopla é, sim, muito antiga. Agora, acabou mais um curto período de calmaria. E estamos de volta à guerra fria. Surpresa, surpresa: a maioria dos russos preferiria a hostilidade do ocidente, como nos tempos de Brezhnev, ao cálido abraço ocidental nos dias de Gorbachev e Yeltsin. Verdade é que as coisas melhoraram muito, com a guerra fria e as sanções.

Os russos ricos e ociosos, afastados dos prazeres de Miami e Côte d’Azur, prestam mais atenção aos compatriotas menos afortunados. Eles não roubam menos, mas gastar o saque localmente.

Uma senhora muito conhecida, Valentina Matvienko, Presidente do Senado russo, foi proibida de viajar à Europa e aos EUA, e teve de passar uns feriados numa estação de veraneio na Rússia. Rapidamente percebeu o que faltava ali, apesar do charme considerável do lugar. E providenciou os necessários recursos para necessárias melhorias. Tomara que todos eles sejam impedidos de sair do país, era o clamor que se ouvia por todos os lados.

Os produtores russos de queijo jamais conseguiriam competir com queijos franceses e italianos que ano passado abundavam nos mercados abertos e transfronteiras. Vieram as sanções e, em seis meses, as vendas já quase dobraram. Os queijos russos, mais baratos, encontram-se livremente à venda quando, antes, os supermercados preferiam estocar só os caros queijos estrangeiros.

O Exército precisa de tudo para defender a Pátria Mãe, e a indústria russa de alta tecnologia recebe mais e mais encomendas do Ministério da Defesa. Fábricas fechadas e trabalhadores demitidos ou aposentados ganham nova vida, compradores estrangeiros fazem fila à entrada, o rublo foi estabilizado. Os jovens acham o que fazer, melhor que assistir à televisão e reclamar do governo. Um sentimento de orgulho russo – depois das terríveis humilhações na Iugoslávia, na Ucrânia e noutros lugares – está de volta.

A infraestrutura está flamante. Moscou ganha novas centenas de quilômetros de ciclovias, os parques estão bonitos e bem cuidados. A capital do país brilha, limpíssima, apesar das dificuldades trazidas por chuvas pesadas.

Agora você entende por que os russos são favoráveis às sanções. Estão com o governo e o presidente, cujos índices de aprovação, medidos por agências norte-americanas de avaliação de opinião pública, alcançam espetaculares 89%. Nunca houve coisa semelhante. Não que os russos queiram guerra, mas estão fartos de ver seu país empurrado de costas contra a parede, como veem as coisas. Os russos não querem qualquer império só deles, mas querem ser ouvidos e querem ter seus desejos considerados. E querem que seu governo faça os ex-parceiros, atuais adversários, pagarem por cada gesto ou ação anti-Rússia.

Dentre os passos retaliatórios mais populares tomados pelo governo russo, está a firme determinação de não mais colaborar para a retirada das tropas da OTAN que ainda ocupam o Afeganistão. O presidente Putin, no primeiro mandato, em 2001, foi apoiador entusiasta dos EUA. E, depois da invasão norte-americana ao Afeganistão, ele ofereceu ajuda russa para transferir equipamento para dentro e para fora daquele país. Hoje, quase 15 anos depois, essa via curta e fácil até Cabul foi fechada. Os norte-americanos que arrastem seu armamento pesado para cima e para baixo das montanhas, e pelos vales do Paquistão, onde são emboscados por guerrilheiros com longa experiência em combater invasores, de Alexandre o Grande, até Brezhnev.

Os russos também gostaram da decisão olho-por-olho de banir dúzias de políticos ocidentais, proibidos de entrar em solo russo, como resposta ao banimento de políticos russos, proibidos de entrar em solo europeu. A Rússia talvez não seja o mais buscado destino turístico, mas, acredite se quiser, a proibição de entrar dói. A simples ideia de resposta russa ativa, já colheu de surpresa os europeus: pensavam que os russos não tinham meios, ou não tinham coragem. O berreiro dos figurões ocidentais impedidos de entrar na Rússia é música aos ouvidos dos russos.

Sobre a crise da Ucrânia, há muitos que sonham com tanques russos varrendo Kiev e restaurando a paz civil na Ucrânia atormentada, mas esse sonho permanecerá não realizado, enquanto o presidente Putin acreditar que há outros meios, pacíficos, para resolver o problema. Mesmo assim, o estilo obsessivamente pró-paz, dos soviéticos, e o medo da guerra dão lugar a atitude mais vigorosa, dado que a guerra, quando nos é imposta, é necessidade inevitável da vida. O velho mantra entorpecedor de “qualquer coisa é melhor que guerra” caiu ante a realidade.

As celebrações, dia 9 de maio de 2015, dos 70 anos do Dia da Vitória, ficarão para sempre na memória do povo, e deram aos cidadãos boa chance de ver os mais novos brinquedos dos militares russos. Esse ano, os russos destacaram a própria vitória, mais que qualquer vitimização, sofrimentos e perdas. A vitória foi vista como vitória dos russos sobre a Europa, não só sobre a Alemanha; porque praticamente todas as nações europeias, de França, Espanha e Itália, a Hungria e Bulgária, combateram ao lado de Hitler e contra a Rússia. É a mais absoluta verdade, mas foi verdade raramente mencionada, até esse ano. Fanadas as esperanças russas de que a Europa apoiasse as políticas russas de independência em benefício também da Europa, veio afinal a consciência de que os líderes europeus são servis hoje a Washington, como seus predecessores foram servis a Berlim.

Lentamente, oh, tão lentamente, o gigante russo recordou seus dias de juventude, as batalhas do Rio Volga e a tomada de Berlim. Essas memórias o fizeram rir de Frau Merkel e do Sr. Obama. Imediatamente depois do desfile militar do dia 9 de maio, milhões de civis marcharam pelas ruas carregando fotos dos pais e avôs, soldados na Grande Guerra. Foi movimento absolutamente inesperado: nem eu nem outros observadores e jornalistas, estrangeiros ou locais, previram evento de tais dimensões. A cidade planejara marcha de dez mil participantes; 50 vezes mais que isso, mais de meio milhão de pessoas marcharam pelas ruas só em Moscou. Em toda a Rússia foram 12 milhões.

Esse ato sem precedentes de solidariedade à Rússia disparou tremores sísmicos por toda a sociedade. Muitos dos caminhantes levavam imagens do comandante vitorioso daqueles dias, Joseph Stálin. Não é nome amado por todos, longe disso. Mas nome que, apenas mencionado, já faz tremer de fúria os gatos mais gordos e seus aliados, não pode ser de todo mau. Há quem queira devolver o nome de Stalingrado ao local da grande batalha, que foi alterado por Khrushchev. Mas Putin não gosta da ideia. Por enquanto.

A presença do Presidente Xi Jiping da China às celebrações de maio significou um realinhamento histórico com a China: é mudança de proporções oceânicas nas políticas russas. A conexão com a China só se fortalece, dia a dia. Essa é atitude nova: antes, russos e chineses sempre desconfiaram uns dos outros, mesmo depois de superada a hostilidade dos últimos dias do período soviético. Liberais moscovitas pró-ocidente descartaram os chineses e planejaram uma guerra contra a China, liderada pelos EUA. Hoje, esse pesadelo já é passado. Não estamos de volta exatamente aos anos 1950, quando Mao e Stálin estabeleceram seus laços, mas estamos perto.

Há cerca de 800 anos, a Rússia esteve em situação semelhante, furiosamente pressionada pelo ocidente. O Papa abençoou uma Cruzada contra os russos, exigindo que aceitassem a hegemonia do ocidente, e desistissem de sua cristandade bizantina. Foi quando o príncipe Alexandre preferiu aceitar o patrocínio dos mongóis sucessores de Genghis Khan, a submeter-se ao diktat ocidental. A troca funcionou: a Rússia continuou a existir e o príncipe valente foi canonizado pela Igreja, como Santo Alexandre Nevsky. Os russos até hoje entendem que usar apoios orientais é menos perigoso para a alma russa do que se curvar a demandas ocidentais.

Será que Putin, nascido em São Petersburgo, que muito preza seus contatos europeus e fala quatro línguas fluentemente (mas não fala chinês), repetirá o feito de Santo Alexandre e realinhará a Rússia com o oriente? Seria perda gigante para a Europa, como Velho Continente convertido em colônia dos EUA. São Petersburgo, cidade onde está enterrado o corpo de Santo Alexandre é, definitivamente, cidade europeia, virada para o oeste, diferente de Moscou, que olha para o leste. É especialmente deliciosa em junho, o mês das Noites Brancas, quando a cidade é banhada em luz fria e clara durante o dia, e em luz leitosa, quase opaca, à noite, com os lilases em plena floração, debruçados sobre o espelho d’água dos canais e rios que cortam a capital russa do norte, onde nunca se está longe de um curso d’água. A velha glória imperial ainda descansa às margens do rio Neva.

Ali foi o coração do Império Russo, até que Lênin levou o governo de volta para a antiga capital, Moscou. Por isso, durante os anos soviéticos, Petersburgo (então batizada Leningrado) não sofreu com os massivos programas de moradias populares que desfiguraram Moscou. O historiador britânico Arnold Toynbee (hoje caído em desgraça, por sua inclinação antissionista) disse que a mudança para Moscou “corporificou a reação da alma russa contra a civilização ocidental”. A presidência de Putin, ele talvez dissesse, corporificou uma guinada pró-Europa na alma russa. Algo como uma traição da Europa contra a Rússia (como alguns russos veem as coisas) teria levado Putin a afastar-se, agora, da Europa?

Vi o presidente Putin no recente Fórum Econômico Internacional em São Petersburgo. No Fórum, Putin saiu-se muito bem: calmo, impenetrável poker face, respondeu com sinceridade todas as perguntas. Em momento algum pareceu irritado ou incomodado. Lidou com calma com a crise da propriedade russa confiscada. Muita gente preferia vê-lo esmurrar a mesa, confiscar bens de franceses e belgas. Nada disso. Prometeu usar os meios legais facultados pelas cortes europeias de justiça.

Putin chegou a São Petersburgo depois de viagem muito bem-sucedida a Baku, capital do Azerbaijão rico em petróleo, onde os Jogos Europeus ofereceram oportunidade para longos encontros com os presidentes da Turquia e do Azerbaijão. Nenhum líder ocidental deu as caras, mas os governantes do nosso lado do mundo apreciaram devidamente a companhia uns dos outros.

Em resumo, o presidente Putin é homem de fala suave. Se tem algum grande porrete, não o exibe por aí. Não se mostra desconsolado, ante a grosseria e as más intenções ocidentais. Parece que está trabalhando muito em busca de arranjos alternativos, mas quer adiar pelo máximo tempo possível quaisquer decisões mais dolorosas. Eventualmente, talvez seja forçado a uma aliança estratégica com a China, que minará ainda mais o que resta da independência europeia.

No entanto, as coisas não são a preto e branco. A Rússia está conectada ao ocidente por várias inesperadas vias. O mais implacável inimigo da Rússia é o ex-Ministro de Relações Exteriores da Suécia, Carl Bildt. A esposa dele está proibida de entrar em território russo. Ao mesmo tempo, Bildt indicou um conselheiro para uma empresa russa de petróleo cujo proprietário e o segundo mais rico dos oligarcas russos, Michael Friedman. Friedman, um dos sete oligarcas originais dos tempos de Yeltsin, começou como cambista revendedor de ingressos para shows. Gasta prodigamente em escolas hebraicas de educação religiosa. O seu Alfa Bank tentou interromper a produção de novo tanque russo Armata, levando à falência a fábrica que produzia as proteções blindadas do tanque. Friedman e Putin são amigos. É o que deveria bastar contra a propaganda de que o cruel ditador russo seria inimigo jurado dos oligarcas judeus.

A verdade é que a Rússia continua liberal, e os liberais russos copiam os liberais norte-americanos, mutatis mutandis. Tratam Putin como seus contrapartes nos EUA tratavam George W. Bush, embora, a julgar pelo vocabulário, Putin mais pareça um Kim Jong Il. Os jornais são livres para atacar Putin, e usam furiosamente essa liberdade. Diretores de teatro insertam “cacos” anti-Putin nas falas de peças clássicas, sempre como se Putin vivesse de falar contra a Igreja. No cinema, o mundo de Putin é reino de misérias e abusos, feito filme de Jim Jarmusch. Mas o povo comum gosta de Putin, como Bush era popular nos estados Republicanos. E gostariam ainda mais, se ele arrancasse dois olhos de americanos, por olho russo. Por enquanto, Putin prefere prosseguir na retaliação simbólica.

Honduras sangra

O golpe e suas consequências

Eric Draitser [*] e Ramiro S. Funez [**]

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / 28 de junho último foi o sexto aniversário do golpe militar em Honduras – o dia em que um governo de esquerda democraticamente eleito foi derrubado por uma camarilha de generais, políticos de direita e latifundiários apoiados e treinados pelos Estados Unidos. Seria mais correto chamar aquilo de “Golpe Silencioso”, principalmente por ter acontecido sem repercussão da mídia, que o cobriu apenas para espalhar mais desinformação que verdades. Hoje, seis anos depois (e depois da perda de vidas inocentes e de bilhões de dólares), este vergonhoso momento da história recente permanente amplamente esquecido.

Talvez por conta da persistente euforia sentida pelos não conservadores e pelos chamados progressistas nos meses que se seguiram à eleição e à posse de Obama. Talvez por conta da ainda recente crise econômica e da tormenta do resgate financeiro. Talvez simplesmente por conta do velho desrespeito imperialista e neocolonial pela América Latina e pelos direitos dos povos suficientemente desgraçados para viver no “pátio traseiro dos Estados Unidos”. Seja qual for a razão, o fato é que o governo Obama e todos os que apoiaram o golpe naquele momento e agora são cúmplices da presente e contínua tragédia social, econômica e política de Honduras.

Mas por que trazer isso à tona agora ao invés de se limitar a celebrar o aniversário do golpe? Para começar, porque um dois principais participantes e beneficiários do golpe foi a provável candidata do Partido Democrata às presidenciais: Hillary Clinton. Também porque, longe de ser um episódio discreto do sórdido passado imperialista dos Estados Unidos, o golpe e seu legado continuam a ser as forças motoras da sociedade e da política em Honduras. Seus participantes e beneficiários estão no governo ou passaram ao setor privado e continuam a se enriquecer em detrimento dos pobres e dos trabalhadores do país. O governo golpista de Honduras continua engajado numa brutal campanha de limpeza étnica contra comunidades minoritárias para seu próprio benefício e para o benefício de seus patrocinadores dos Estados Unidos e de outras partes do mundo.

Talvez o mais importante nisso tudo seja o fato de que o golpe de 2009 revela até que ponto os Estados Unidos permanecem um poder imperial e neocolonial na América Latina e nos refresca a memória quanto ao que países como Venezuela, Bolívia e Equador estão enfrentando. Isso ilustra nos termos mais implacáveis o custo humano das políticas de Washington, não em livros sobre um período histórico, mas em imagens e vídeos de um país hoje sob sua bota. Isso nos recorda o quão real esta luta permanece.

O Golpe e o apoio dos Estados Unidos

Em 2006, a eleição de José Manuel Zelaya, conhecido como “Mel” por seus amigos e apoiadores, foi um divisor de águas na história de Honduras. Um país que, como seus vizinhos, vitimado por uma sucessão de governos de direita patrocinados pelos Estados Unidos, havia finalmente eleito um homem cujas políticas priorizavam o povo e não os interesses empresariais ou militares. Embora originário de uma rica família e apesar de ter sido eleito pelo Partido Liberal, Zelaya deu uma significativa guinada à esquerda depois de assumir suas funções.

Não apenas Zelaya cometeu o pecado mortal de forjar laços com o então presidente Hugo Chávez, sua Aliança Bolivariana para os Povos da América e PetroCaribe, mas ele também desafiou o status quo ao prometer representar os pobres e as classes trabalhadoras num país tradicionalmente dominado por militares e latifundiários. Como jornalista, autor e ex-conselheiro da Missão Permanente das Nações Unidas, Roberto Quesada disse a CounterPunch, numa entrevista exclusiva:

Zelaya chegou ao poder montado num partido tradicional, mas ele mudou as políticas do Partido Liberal dele fazendo um partido do povo. Ele transformou o palácio presidencial numa casa do povo... Pela primeira vez, os sem voz foram ouvidos... Ele queria introduzir a Cuarta Urna. Pela primeira vez, o povo hondurenho poderia decidir o que queriam e mudar a Constituição [porque]... a constituição de 1982 só favorecia a direita e não os interesses dos hondurenhos.

E assim teria acontecido em 2009, em Honduras, um país que, a exemplo da Venezuela, da Bolívia, do Equador, e da pioneira Nicarágua, se libertaria democraticamente da hegemonia corporativa e empresarial dos Estados Unidos. Mas isso era claramente algo que Washington, mesmo com um recém-eleito presidente da “Esperança” e da “Mudança” na Casa Branca, não podia tolerar. E é aí que entra a recém-nomeada Secretária de Estado Hillary Clinton.

Clinton admitiu desde então aberta e descaradamente seu papel central na legitimação, no apoio e no fornecimento de cobertura política para o ilegal e internacionalmente condenado golpe contra Zelaya. Como observou o colaborador de CounterPunch, Mark Weisbrot, Clinton declarou claramente em seu livro Hard Choices que: "Nos dias que se seguiram [ao golpe], falei com a Secretária [Patricia] Espinosa no México... Combinamos um plano para restaurar a ordem em Honduras e garantir que eleições justas e livres pudessem ser organizadas rápida e legitimamente, o que tornaria a questão de Zelaya discutível."

No que consistia exatamente o plano? Além de fornecer cobertura diplomática ao não chamar aquilo claramente de golpe de Estado, Clinton apelou para seu velho sócio Lanny Davis e para Bennett Ratcliff, que sussurraram doçuras aos ouvidos direitistas de Washington e de Wall Street, incluindo um risível editorial do Wall Street Journal, abrindo caminho para "eleições" em Honduras, com o objetivo de, como disse Clinton, "tornar a questão de Zelaya discutível." Lanny Davis, como foi observado por um número de jornalistas, é uma representante direto das elites empresariais poderosas em Honduras.

O próprio Davis explicou isso numa entrevista dada poucas semanas após o golpe, "Meus clientes representam o CEAL, o Conselho empresarial da América Latina, [seção Honduras]... Eu não represento o governo e não dialogo com o presidente [interino] [Roberto] Micheletti. Meus principais contatos são [os bilionários] Camilo Atala e Jorge Canahuati. Orgulho-me em representar empresários que estão comprometidos com o primado da Lei." De fato, Davis expôs candidamente seu papel de agente de uma poderosa oligarquia financeira e de latifundiários que, até a eleição de Zelaya, sempre havia controlado firmemente as rédeas do governo de Honduras.

Essencialmente, Clinton e seu capanga tiveram um papel chave para facilitar um golpe ilegal contra um governo democraticamente eleito em benefício de seus amigos bilionários de Honduras e da agenda geopolítica dos Estados Unidos na região. Apesar da retórica populista de sua presente campanha presidencial, Clinton tem diligentemente trabalhado em favor da direita, das forças antidemocráticas da América Latina e em favor do Império de maneira geral. É óbvio que nada disso é surpreendente para quem vem acompanhando o que fazem Clinton e o imperialismo estadunidense nesse campo.

Da mesma forma, em nada surpreende o papel dos Estados unidos no treinamento e no apoio aos generais hondurenhos que conduziram o golpe daquela manhã de junho de 2009. Como o School of the Americas Watch (SOAW) [Observatório da Escola das Américas] observou na época:

O golpe de 28 de junho em Honduras foi conduzido pelos graduados da Escola das Américas General Romeo Vásquez Velásquez, chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas de Honduras, pelo General Luis Prince Suazo, chefe da Força Aérea... O Coronel Herberth Inestroza, Procurador das Forças Armadas, veterano da Escola das Américas, justificou o golpe militar e declarou numa entrevista ao Miami Herald: "Seria muito difícil para nós, com o treinamento que tivemos, estar em relação com um governo esquerdista. Isso é impossível." Herberth Inestroza também confirmou que a decisão de dar o golpe partiu das Forças Armadas. De acordo com informações  que o Observatório da Escola das Américas obteve do governo dos Estados Unidos graças à Lei de Liberdade de Informação, Vásquez estudou na Escola das Américas pelo menos em dois períodos: : uma vez em 1976 e novamente em 1984... O chefe da Força Aérea, General Luis Javier Prince Suazo, estudou na Escola das Américas em 1996.

A Escola das Américas (desde então rebatizada Western Hemisphere Institute for Security Cooperation, WHINSEC) é um instituto das Forças Armadas dos Estados Unidos localizado em Fort Benning, Georgia, de infame celebridade por graduar um verdadeiro quem é quem entre ditadores militares da América Central e da América do Sul, líderes de esquadrões da morte e outros fascistas de carteirinha que deixaram suas marcas sangrentas em seus respectivos países. Ela já foi chamada de “Escola dos Ditadores” e de “fábrica de golpes de Estado” e tudo indica que Honduras foi a vítima mais recente de seus ilustres alunos. De fato, não foi a primeira vez que Honduras sofreu esse tipo de ação, pois tanto o General Juan Melgar Castro (ditador militar, 1975-1978) e Policarpo Paz Garcia (chefe de esquadrões da morte e depois ditador militar, 1978-1982) foram graduados na Escola das Américas. Nem carece dizer, o legado dos Estados Unidos em Honduras é vergonhosamente sangrento.

Honduras: Um ponto de apoio militar dos Estados Unidos na América Central

Que ninguém se deixe levar pela crença de que os Estados Unidos deixaram de se envolver militarmente em Honduras depois do golpe de 2009. Com efeito, há apenas duas semanas, as Forças Armadas dos Estados Unidos anunciaram o envio de um contingente de Marines para Honduras supostamente para “fornecer assistência durante a temporada de furacões”. No entanto, a verdade é que os Estados Unidos estão simplesmente dando continuidade e até expandindo sua parceria militar e fazendo uma ocupação, de facto, de Honduras e de outros países chave na América Central.

Numa entrevista exclusiva para Counterpunch, a coordenadora da Frente Nacional de Resistência Popular (FNRP) nos Estados Unidos e membro do Partido Liberdade e Refundação (LIBRE), Lucy Pagoada, explicou sucintamente, "O golpe nos forçou a despertar para a realidade de Honduras. Vivi em Honduras até os 15 anos de idade. Nunca tinha visto meu país tão militarizado quanto se tornou após 2009. Ele foi transformado numa grande base militar financiada pelos Estados Unidos. Eles têm até forças da Escola das Américas por lá. Houve vários níveis de violência e tortura contra a resistência e a oposição desde o golpe. "De acordo com Pagoada e outros militantes tanto em Honduras quanto nos Estados Unidos, o país se tornou essencialmente um anexo das Forças Armadas dos Estados Unidos, atuando como um palco para toda uma variedade de operações militares de Washington na região."

Esta conclusão foi confirmada por um informe do North American Congress on Latin America (NACLA), que afirma:

O permanente crescimento da assistência estadunidense às forças armadas [de Honduras], [é] um indicador do apoio tácito dos Estados Unidos. Mas o papel dos Estados Unidos na militarização das forças nacionais de política tem sido igualmente direto. Em 2011 e 2012, o Drug Enforcement Administration’s Foreign-deployed Advisory Support Team (FAST)…instalou-se em Honduras para treinar unidades locais de política antidrogas e para ajudar na planificação e execução de operações de interdição de drogas. Apoiados pelos Estados Unidos, helicópteros equipados com armas de alto calibre desenvolvem operações dificilmente distinguíveis de operações militares típicas. Aliás, a população local se refere aos agentes do DEA e da polícia hondurenha como “soldados”. De acordo com o New York Times, cinco “comandos no estilo esquadrão” FAST foram enviados em várias regiões da América Central para treinar unidades locais de luta contra as drogas... Em julho de 2013, o governo hondurenho criou uma nova unidade de polícia de “elite” chamada TIGRES (Tropas de Inteligência e Grupos de Resposta Especial de Segurança). A unidade, que segundo os grupos defensores de direitos humanos é de natureza militar, bem como novas forças de polícia militar, tem recebido treinamento em técnicas de combate tanto pelas unidades de Forças especiais da Colômbia quanto por unidades militares dos Estados Unidos.

Para aqueles que têm um agudo entendimento de como os Estados Unidos apoiaram os esquadrões da morte na América Central nos anos 70 e 80, a descrição acima é de causar arrepios. Essencialmente, as forças militares dos Estados Unidos e seus agentes encobertos fornecem armas, treinamento e coordenam uma grande diversidade de unidades bem treinadas cuja função é aterrorizar comunidades cujo único crime, longe de qualquer envolvimento com drogas, consiste em ser de oposição ao governo ou em ter o azar de estar em terras cobiçadas pelos interesses empresariais apoiados pelos Clinton e seus comparsas.

Obviamente, a presença militar dos Estados Unidos tem uma dimensão regional, na medida em que Washington tenta usar seus recursos para reafirmar ou manter seu controle sobre toda a região, controle este que vinha perdendo desde a eleição de Hugo Chávez há 15 anos e da subsequente ascensão de Evo Morales na Bolívia, de Rafael Correa no Equador e de Daniel Ortega na Nicarágua. Mas, desde uma perspectiva estritamente hondurenha, essa cooperação militar existe para dar aos militares hondurenhos, tanto às forças de segurança quanto à Polícia, o necessário apoio para operações de limpeza étnica e assassinato de opositores políticos para que o país seja seguro para os “negócios”.

A limpeza étnica de Honduras em nome do lucro

As operações militares em Honduras têm como primeiro objetivo enriquecer os oligarcas que governam o país desde a derrubada de Zelaya, em 2009. O objetivo é uma limpeza étnica de primeira ordem, inclusive pela força bruta e pela expulsão, de maneira a liberar as propriedades para sua privatização. Um dos meios através dos quais isso tem lugar é criação das chamadas cidades-modelo, um programa que promove paraísos fiscais para terras roubadas das nações indígenas e privatizadas.

Uma das comunidades mais profundamente afetadas são os Garifuna, uma nação de afro-indígenas, em cujas excelentes terras que se estendem por centenas de milhas ao longo da costa caribenha; o governo corrupto do presidente Hernandez e seus patrocinadores financeiros de Tegucigalpa e dos Estados Unidos pretendem criar uma zona turística milionária. Uma reportagem de TeleSur de 2014 informa que a comunidade Barra Vieja Garifuna está ameaçada de expulsão pelo governo hondurenho, que pretende privatizar suas terras em favor do "futuro projeto turístico Bahia de Tela, que prevê a construção de cinco Indura Beach e Golf Resort. Numa aliança com o capital privado, o governo de Honduras detém 49 por cento das ações, enquanto 51% ficam em mãos do setor privado." A cidade de Nova Iorque acolhe hoje cerca de 250 000 Garifuna de Honduras, Nicarágua, Guatemala e Belize; eles veem com amargor como suas famílias e amigos que estão em Honduras continuam a enfrentar a perseguição conduzida por governos de direita ao serviço dos interesses financeiros dos Estados Unidos ou de qualquer outro lugar.

Obviamente, os Garifuna não estão sós em sua desgraça, já que muitas outras comunidades indígenas estão enfrentando uma indizível repressão nas mãos do governo militarizado de Honduras e da versão século XXI dos esquadrões da morte. Como relatou Lucy Pagoada em sua entrevista a CounterPunch: "Margarita Murillo, uma indígena, dedicou sua vida à defesa da terra e de seus trabalhadores. Ela foi assassinada: dispararam-lhe sete balaços em sua casa, no departamento de Yoro... Ela era uma líder da resistência."

Com efeito, o brutal assassinato de Murillo em agosto de 2014 foi outro pavoroso lembrete da guerra empreendida pelo governo hondurenho contra camponeses e povos indígenas que reagem à sua expulsão pelas elites empresariais. Murillo, que havia sido recentemente eleita presidente da Asociativa Campesinos de Producción Las Ventanas, era advogada de seus camaradas indígenas e dos pobres; ela havia mediado uma disputa de terras entre famílias locais e um grupo de ricos latifundiários da região. Foi uma execução típica praticada por três mascarados.

O assassinato de Murilo foi muito mais que um simples crime motivado por uma luta fundiária localizada; foi antes uma clara advertência lançada contra o movimento de resistência em Honduras para significar que qualquer esforço organizado para reagir ao governo e aos ricos latifundiários que o apoiam terá de enfrentar a força bruta. Esse é o tipo de mensagem que o povo de Honduras, particularmente quem viveu nos anos 70 e 80, entende muito bem. De fato, tal violência e o desespero que ela produz levaram muitos hondurenhos, particularmente membros da etnia Garifuna, a buscar uma vida melhor nos Estados Unidos.

Maria Vives é uma assistente administrativa de ministros da Give Them to Eat ministries of the Bronx Spanish Evangelical Church. Ela disse a Counterpunch:

Temos uma cozinha de sopa e despensa de alimentos. Ajudamos pessoas em situação de emergência... Três mulheres Garifuna apareceram no verão passado e expressaram suas necessidades; elas estavam frustradas. Elas haviam sido pegas cruzando a fronteira puseram tornozeleiras nelas. Elas foram algemadas... As pessoas ficaram sabendo que ajudávamos os necessitados e rapidamente apareceram quase 50 ou 60 mulheres com suas crianças... Elas tinham várias razões para deixar Honduras. Por conta da violência, por exemplo: estavam matando muitas pessoas na vizinhança para se apropriar de suas terras. Algumas pessoas estavam apavoradas com medo de que seus filhos se juntassem a gangues. A partir de certa idade, as crianças são recrutadas por essas gangues. Sei de uma mãe que tem um de seus três filhos recrutado por um esses grupos.

A mídia, quando faz alguma cobertura dessa realidade, sempre fala na “crise da imigração infantil” de 2014, mas na realidade se trata de uma crise de refugiados. Aquelas crianças, acompanhadas ou não, estavam fugindo precisamente dessa violência que ora descrevo. Garifuna, membros de outras etnias indígenas ou camponeses, aquelas crianças buscaram refúgio nos Estados Unidos para fugir dos horrores perpetrados contra eles em Honduras. Mas estes horrores, é claro, foram tacitamente aprovados e encobertos pelo governo dos Estados Unidos.

Ao celebrar o sexto aniversário do golpe de 2009 contra o governo legal de Honduras, devemos não apenas reconhecer neste evento outro vil exemplo do imperialismo estadunidense e de seu apoio a governos repressivos na América Latina. Devemos também reconhecer que aquele evento singular desencadeou uma série de eventos que levaram à crise social e política atual de Honduras. Como nos disse Roberto Quesada: "Não podemos falar do golpe como se fosse algo do passado. O golpe continua e deixa o país num estado caótico."

Em um próximo artigo para CounterPunch vamos examinar alguns aspectos da oposição política emergente em Honduras, incluindo os importantes protestos contra o governo em curso. Nós também iremos fornecer uma análise da tendência revolucionária presente tanto em Honduras e sua comunidade de expatriados nos EUA e em toda a América Latina. A história do golpe, e aqueles que lutam para corrigir os erros que causaram, está longe de terminar.

[*] Eric Draitser é o fundador da StopImperialism.org e apresentador do CounterPunch Radio. Ele é um analista geopolítico independente residente em Nova York. Você pode contactá-lo-lo em ericdraitser@gmail.com.

[**] Ramiro S. Fúnez é um ativista político hondurenho-americano e jornalista independente residente em Nova York. Você pode contactá-lo-lo em ramirofunez@gmail.com.

23 de junho de 2015

Síndrome da China

Por que o PCC não vai ser sugado para uma guerra inútil com os Estados Unidos

Mike Whitney

Counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

A China cuida de chegar cada vez mais fundo no interior da Ilha-Mundo, em esforço para remodelar completamente os fundamentos geopolíticos do poder global... Ao construir a infraestrutura para bases militares nos mares do Sul da China e da Arábia, Pequim vai gerando e acumulando capacidade para abalar, estratégica e cirurgicamente, a campanha dos EUA, de contenção... Se a China conseguir conectar suas indústrias em crescimento, aos vastos recursos naturais da Terra Central Eurasiana, nesse caso muito possivelmente..., o império do mundo ali estará para ela, à vista. 
Alfred McCoy, The Geopolitics of American Global Decline, The Unz Review

O futuro da política será decidido na Ásia, não no Afeganistão ou Iraque, e os EUA estarão bem no centro da ação. 
Hillary Clinton, America’s Pacific Century, Foreign Policy

Tradução /  A ascensão metórica da China preocupa Washington, não porque a China seja ameaça aos seus vizinhos ou à segurança nacional dos EUA, mas porque a influência da China está em expansão na região. A China está criando as instituições de que precisa para financiar o próprio desenvolvimento (BAII e Novo Banco dos BRICS), está construindo a infraestrutura de que precisa para conectar os continentes mediante modernas ferrovias de alta velocidade (Nova Rota da Seda) e está atraindo aliados e parceiros de comércio que querem participar no plano chinês para crescimento e prosperidade. Por isso Washington está preocupada: porque a China converteu-se numa usina de energia econômica que não corresponde ao modelo neoliberal de arrocho punitivo, privatização perniciosa e inflação ensandecida. A China escapou da órbita do império e mapeou o próprio curso, motivo pelo qual Washington só faz provocar Pequim em torno ações insignificantes de reivindicação de umas poucas terras no Mar do Sul da China. Washington crê que possa ter sucesso militar onde fracassou economicamente e politicamente. Caso em questão; verificar isso da Bloomberg News:

EUA e Japão estão fazendo exercícios militares separados com os filipinos, próximos ao disputado Mar do Sul da China... Essas manobras anuais CARAT Philippines de exercícios conjuntos começaram na segunda-feira (22/6/2015), ao largo da costa leste da ilha Palawan e se estenderão até dia 26 de junho de 2015, segundo o porta-voz da Marinha dos EUA Arlo Abrahamson. Navios filipinos e japoneses também estão em manobras na região, até 27 de junho de 2015, disse o ministro da Força Marinha de Autodefesa do Japão, na semana passada. 
Os EUA têm apoiado as nações do sudeste asiático, inclusive as Filipinas, enquanto aumentam as tensões com a China, por demandas territoriais no Mar do Sul da China; e o Japão fornece navios de patrulha para a guarda costeira filipina... O exercício inclui uma fase no mar, com o submarino USS Fort Worth de combate em águas litorâneas, o USNS Safeguard de mergulho e socorro e um avião P-3 Orion de vigilância, além de, pelo menos, uma fragata filipina, segundo a Marinha dos EUA... 
Os exercícios japoneses com os filipinos realizam-se em áreas próximas das vizinhas ilhas Spratly, onde a China criou mais de 2.000 hectares de terra em águas também reivindicadas pelas Filipinas, Vietnã, Brunei, Taiwan e Malásia. O Japão enviará uma aeronave P-3C anti-submarinos e de vigilância marítima, e 20 soldados. (“U.S., Japan Join Philippines in Navy Drills Near South China Sea”, 21 de junho de 2015, Bloomberg).

Os exercícios “show de força” são concebidos para provocar e intimidar a China. Não têm nenhum outro objetivo. Os EUA quer forçar a China a render-se aos diktats da única potência indispensável, a abandonar todos os seus compromissos com novas instituições que estão sendo criadas, a escancarar seus mercados a empresas americanas & Wall Street, e a deixar que os EUA façam como bem entenderem na redação das regras do comércio mundial. Eis o que Washington realmente quer e motivo pelo qual o moderado Chuck Hagel foi trocado pelo truculento Ashton Carter, como secretário da Defesa. Os donos do poder nos EUA preferiram um leão-de-chácara, que esmurraria o nariz da China e lhe ensinaria quem manda. Carter é perfeito para a tarefa, burocrata quebra-pernas, que se acha “o mais esperto da rua”. Peter Lee fornece uma visão interessante sobre Carter, em um post recente no seu blog China Matters. Ele diz:

... o assertivo Ash Carter não faz o policial durão, na parceria com o policial bonzinho Obama/Kerry: Ash é, só ele, todo o show, o que deliciará os fãs do controle militar sobre a política exterior por todos os cantos.

Estamos felizes que os outros estão começando a ver que o Pentágono retomou a política externa americana. Carter está claramente dando as cartas na Ásia e na Europa.

Lee parece convencido de que Carter permanecerá no posto mesmo depois de Obama já ter sido substituído, se Madame Clinton for eleita. O que não é surpresa, pois foi Clinton quem introduziu o termo “pivô” no léxico estratégico, em discurso que fez em 2010 intitulado “O Século do Pacífico Americano” [“America’s Pacific Century”]. A apresentação de Clinton expôs os temas básicos que mais tarde se tornariam "prioridade máxima" da América, o reequilíbrio do poder dos EUA para a Ásia-Pacífico. Aqui está um trecho do discurso que apareceu na revista Foreign Policy:

As the war in Iraq winds down and America begins to withdraw its forces from Afghanistan, the United States stands at a pivot point. Over the last 10 years, we have allocated immense resources to those two theaters. In the next 10 years, we need to be smart and systematic about where we invest time and energy, so that we put ourselves in the best position to sustain our leadership, secure our interests, and advance our values. One of the most important tasks of American statecraft over the next decade will therefore be to lock in a substantially increased investment - diplomatic, economic, strategic, and otherwise - in the Asia-Pacific region... 
Aproveitar o crescimento e o dinamismo da Ásia é central para os interesses econômicos e estratégicos americanos e uma prioridade fundamental para o presidente Obama. A abertura dos mercados na Ásia garante aos EUA oportunidades sem precedentes para investimento, comércio e acesso a tecnologia de ponta... As empresas americanas (precisam) explorar a vasta e crescente base de consumidores da Ásia... 
The region already generates more than half of global output and nearly half of global trade. As we strive to meet President Obama’s goal of doubling exports by 2015, we are looking for opportunities to do even more business in Asia…and our investment opportunities in Asia’s dynamic markets.” (“America’s Pacific Century”, Secretary of State Hillary Clinton”, Foreign Policy Magazine, 2011)

Repeat: “Harnessing Asia’s growth and dynamism is central to American economic and strategic interests... Open markets in Asia provide the United States with unprecedented opportunities for investment, trade, and access to cutting-edge technology... American firms (need) to tap into the vast and growing consumer base of Asia.”

Não poderia haver melhor resumo. Tendo reduzido a antiga grande classe média americana a enorme cadáver putrefato, incapaz de sustentar sequer uma demanda magra ou algum crescimento, a elite americana está carregando os barcos e partindo para a China, o Valhalla que brilha prateado sobre a colina. Clinton dá a impressão de supor que deva ser fácil entrar naqueles potentes mercados asiáticos, desde que os EUA empurrem as ambições mais alucinadas com dose forte de diplomacia de canhão – que é onde o capataz Carter entra em cena.

Mas Clinton não inventou, ela mesma, o tal pivô: a coisa foi-lhe ensinada em rápidas lições pelo mentor do pivô, Kurt M. Campbell. Campbell é co-fundador e ex-presidente do Center for a New American Security. Segundo o website do Center for a New American Security: “De 2009 a 2013 [Campbell] serviu como Secretário de Estado Assistente para Assuntos do Leste da Ásia e Pacífico, onde lhe são atribuídos os créditos por ter arquitetado o “pivô para a Ásia”. Naquela função, o Dr. Campbell elaborou ampla estratégia americana que o levou aos mais distantes pontos da região do Pacífico Asiático, onde advogou incansavelmente a favor de interesses americanos, particularmente na promoção do comércio e investimentos.”

Em uma recente entrevista com o neocon Robert Kagan, Campbell regurgita a mesma retórica que já se ouviu no discurso da Clinton. Para ele, “A maior parte da história do século 21 estará na região do Pacífico Asiático... É do mais alto interesse nacional dos EUA mostrar que desempenharemos papel central naquele drama, assim como já o fizemos no século 20... [Os dois partidos] reconhecem que nossa presença militar é o nosso bilhete de entrada para o grande jogo no Pacífico Asiático.” (Veja entrevista inteira aqui.)

Parece haver um consenso crescente de que os militares americanos seriam a ferramenta certa para persuadir a China a ceder, mas será que é?

A última coisa que o governo Obama deseja é guerra a tiros com a China, principalmente porque a China tem meios para retaliar, e não só militarmente. Explico-me: “Segundo o cientista político Pang Zhongying, a relação atual entre China e os EUA é relação como nunca antes houve na história das relações internacionais... O nível de interdependência entre China e EUA é sem precedentes. Antes dos anos 1970, ninguém poderia sequer imaginar que esses dois países seriam interdependentes na escala em que hoje são. Naquele momento, só existia interdependência entre EUA e Europa, ou dentro do G7, no máximo. O atual nível de interdependência nunca antes existiu entre EUA e China.”

Em outras palavras, os dois países precisam um do outro e estão interligados por uma rede complexa de laços financeiros e econômicos, inclusive o 1,3 trilhão de papéis da dívida americana, guardado em cofres chineses. Essa interdependência implica que os EUA não podem abusar no caso da China, como abusaram no caso da Rússia, sem que os próprios EUA se ponham em risco. Assim sendo, apesar de os EUA ainda manterem posição economicamente e militarmente dominante, não podem simplesmente jogar o bom-senso e a cautela pela janela, e impor sanções, ou escalar nas hostilidades e provocações, além de um certo ponto, sem que os EUA ponham em risco a própria segurança. A China sabe disso, razão pela qual continuará a fazer avançar agressivamente a própria agenda, ao mesmo tempo em que vai evitando do melhor modo possível a beligerância e a hostilidade dos EUA.

A República Popular da China (RPC) continua comprometida com o “desenvolvimento pacífico”. O antagonismo dos EUA é apenas mais um dos muitos obstáculos que a China terá de superar para dar realidade aos seus planos para integrar toda a massa de terra eurasiana num grande (o maior) e próspero bloco comercial. Basta conferir mais um trecho do artigo seminal de Alfred McCoy "Geopolítica do Declínio Global dos EUA":

Simultaneamente, a liderança chinesa começou a colaborar com estados vizinhos, num programa massivo para integrar a rede nacional de ferrovias numa grade transcontinental. A partir de 2008, alemães e russos uniram-se aos chineses para lançar a “Ponte Terrestre Eurasiana” (também chamada “Nova Rota da Seda”). Duas vias leste-oeste, a antiga Trans-Siberiana no norte e uma nova rota que acompanha o traçado da antiga Rota da Seda, pelo Cazaquistão, devem conectar toda a... Eurásia. 
Em abril, o presidente Xi Jinping assinou acordo com o Paquistão para gastar US$ 46 bilhões num Corredor Econômico China-Paquistão. Rodovias, conexão com ferrovias e oleogasodutos estender-se-ão por 3.218 km, de Kashgar em Xinjiang, no extremo oeste da China, até o porto de Gwadar, no Paquistão, inaugurado em 2007. A China investiu mais de US$ 200 bilhões na construção desse porto estratégico em Gwadar, no Mar da Arábia, a apenas 600 km do Golfo Pérsico... Ao construir a infraestrutura para bases militares nos mares do Sul da China e da Arábia, Pequim vai gerando e acumulando capacidade para abalar, estratégica e cirurgicamente, a campanha dos EUA, de contenção...
Em uma década ou duas... China will be ready to surgically slice through Washington’s continental encirclement at a few strategic points without having to confront the full global might of the U.S. military, potentially rendering the vast American armada of carriers, cruisers, drones, fighters, and submarines redundant... If China succeeds in linking its rising industries to the vast natural resources of the Eurasian heartland, then quite possibly... “the empire of the world would be in sight.” (“The Geopolitics of American Global Decline”, Alfred McCoy, The Unz Review)

Aí está, hein? O fim de um império e o início de outro.

Os líderes chineses não vão explodir sua grande chance de começar sugado em uma guerra custosa e inútil com os Estados Unidos. Isso é ridículo. Eles vão continuar a trabalhar até que a Rota da Seda se torne uma realidade.

22 de junho de 2015

A escola dos Predadores na Itália

Manlio Dinucci

Il Manifesto

Tradução / Há uma semana, no Salão Aeroespacial de Le Bourget, em Paris, a direção de armamentos aeronáuticos do Ministério da Defesa da Itália firmou um contrato com a canadense CAE para a realização da primeira escola europeia de drones militares Predator (predador) da estadunidense General Atomics. Um contrato anterior previa o fornecimento de um simulador de voo somente para o modelo MQ-1 Predator, enquanto que o novo permite treinar os telepilotos também para o Predador B/MQ-9 Reaper, ambos em dotação à aeronáutica italiana. 

Realizar-se-á assim o sonho de Roberta Pinotti que tinha anunciado o projeto na “Convenção sobre o futuro do domínio aeroespacial nacional e europeu” (Florença, 24 de outubro de 2014). O projeto é sustentado pelo Pentágono, em cujas escolas são treinados até agora os telepilotos europeus dos Predadores: como deve hoje formar mais telepilotos de drones do que os pilotos de caças-bombardeiros, o Pentágono necessita de outros centros de treinamento no âmbito da OTAN.

A aeronáutica italiana e as de outros países da União Europeia pertencentes à OTAN disporão, portanto, a partir de 2016, da escola de Amendola.

Aqui os telepilotos europeus serão treinados em missões, seja de reconhecimento e identificação de objetivos, que eram Efetuados até agora pelos Predadores usados pela aeronáutica italiana, seja de ataque com os MQ-9 Reaper, que são efetuados pelo Pentágono e a CIA no Afeganistão, Paquistão, Iraque, Iêmen, Somália e outros países.

O Reaper (Triturador, obviamente de vidas humanas), com 10 metros de comprimento e 20 metros de envergadura de asas, pode ser armado com 14 mísseis AGM-114 Hellfire (Fogo do inferno), além de com duas bombas guiadas a laser GBU-12 Paveway II ou GBU-38 JDAM, guiado por satélite. Os telepilotos, sentados diante de telas nas suas cabines a milhares de quilômetros de distância, uma vez identificado o “alvo” através de sensores eletro-óticos e outros do drone, comandam com o controle remoto o lançamento dos mísseis e das bombas. É o novo modo de fazer a guerra, apresentado como “cirúrgico”. 

Os “danos colaterais” são, porém, frequentes: para golpear um suposto terrorista, os drones assassinos destroem frequentemente uma casa inteira, matando mulheres e crianças, ou o telepiloto confunde um grupo de pessoas numa festa de casamento com um perigoso grupo de pessoas armadas e lança o “Fogo do inferno” com ogivas termobáricas ou de fragmentação, ou lança os artefatos devido à fatigante jornada de trabalho na cabine dos telepilotos.

Contribuirá com tudo isto a escola europeia de drones militares, cuja localização na Itália não é casual. A Itália foi o primeiro país na União Europeia a adquirir os Predadores estadunidenses e a usá-los em “missões internacionais” (Afeganistão, Iraque, Líbia, Chifre da África), a primeira que permitiu que os drones militares operassem no espaço aéreo nacional pondo em risco os voos civis. 

Em Sigonella operam há anos os drones Global Hawk (Falcões Globais), e também os Predadores armados, pela Marinha dos Estados Unidos. 

Na mesma base entrará em funcionamento em 2016 o sistema AGS da OTAN que, com o Global Hawk, monitorará uma vasta área, da África ao Oriente Médio, em apoio às operações da OTAN.

O uso dos drones militares se intensificará com a missão da União Europeia “contra os traficantes de seres humanos no Mediterrâneo”, passaporte de uma operação sob a direção da OTAN para uma intervenção militar na Líbia. E a ministra Pinotti, visitando Amendola, poderá congratular-se com os telepilotos dos Predadores, como fez na mesma base o premiê D’Alema quando, em 10 de junho 1999, se congratulou com os pilotos italianos que tinham bombardeado a Iugoslávia, sublinhando que tinham feito “uma grande experiência humana e profissional”.

Em busca do tempo perdido

Depois de cinco meses de negociações, as escolhas da SYRIZA permanecem as mesmas: capitular para os credores da Grécia ou romper com o euro.

Stathis Kouvelakis


Créditos: Yannis Behrakis/ Reuters.

Tradução / Parece que eram necessários cinco meses para o governo grego afinal se retirar de um processo que exauriu o próprio governo como tal e a sociedade como um todo. Era o tempo necessário para pôr um fim (talvez temporário) ao repagamento de prestações aos bancos e para o SYRIZA lançar convocação para reativar a mobilização popular que foi interrompida pelo acordo catastrófico de 20 de fevereiro de 2015.

Com os cofres públicos vazios, com a economia patinando nos efeitos do estrangulamento da liquidez implementado pelo Banco Central Europeu, com a população num estado de inércia e confusão, a questão que surge é se todas essas iniciativas de último minuto, além de insuficientes e mal preparadas, só apareceram tarde demais para fazer qualquer diferença.

Se, em outras palavras, é possível recuperar o tempo que já começou a trabalhar contra o governo grego a partir do momento em que tentou apresentar como “sucesso nas negociações” o que não passou de inabilidade para modificar, um mínimo que fosse, a posição dos credores.

Uma paródia de negociações

Assim, apesar da verborragia sobre “progresso” e “acordo iminente”, o que os mais recentes desenvolvimentos vieram confirmar é que os últimos cinco meses nada foram além de paródia de “negociações”. E como se poderia descrever de outro modo um procedimento pelo qual, depois de quatro meses de alardeado progresso, a proposta – ou melhor dizendo, o ultimato – que um dos lados apresentou é, como confessou o Ministro do Interior da Grécia, Nikos Voutsis, variante particularmente carregada da proposta que estava na mesa desde o início, ou. em outras palavras, do acordo que o antigo governo grego, de direita, já aceitara?

O mínimo que se pode esperar, depois dessa provocação, é que os gregos deixem a sala. Mas o mais crucial, se não queremos ver repetir-se o mesmo cenário de pesadelo, é o reconhecimento público de que toda essa “negociação” foi uma armadilha na qual o lado grego foi apanhado, com consequências muito dolorosas – situação que só pode ser corrigida com radical mudança de rumo.

Mas o tempo perdido nessas intermináveis “negociações” não foi puro prejuízo para todos. Evidentemente os que cobram a Grécia nada perderam, e continuam a manter com absoluta consistência a estratégia do “estrangulamento por iliquidez” que foi iniciada pelo presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, apenas dez dias depois das eleições.

E obtiveram algo que – pelo menos aos olhos dos que apoiaram o projeto de um governo de esquerda, e contribuíram para que chegasse ao poder de Estado – era inconcebível há poucos meses: fazer um governo, que foi eleito para romper com a “terapia de choque” neoliberal imposta ao país pelos memorandos, aceitar um quadro apenas marginalmente modificado de políticas de austeridade.

De que outro modo se poderia caracterizar o inacreditável “texto de 47 páginas”, como foi apresentada a mais recente versão completa da proposta grega? É documento que se move sob a velha e indiscutivelmente orientada pelo Memorando, lógica dos superávits fiscais, das privatizações, dos aumentos repetidos na idade mínima para aposentadorias, da consolidação da super-taxação extorsionária dos anos recentes (com aumento paralelo na taxação indireta), da proteção reduzida para a propriedade da residência familiar, de relegar a futuro indeterminado quase a totalidade dos compromissos programáticos do SYRIZA (os que já não foram virtualmente cancelados).

Vamos ser claros sobre isso: embora tenha havido derrapagens nas posições dos gregos desde o início das chamadas negociações, o novo texto marca um ponto de virada. Ainda que as propostas do lado grego lá estivessem para ser aceitas como “base para discussão” – e sabemos que uma vez que elas foram feitas houve novas medidas no sentido de alinhamento com as demandas dos credores (o mais característico sendo a plena aceitação do metas de superávits fiscais) - o resultado ainda seria continuação da austeridade e fortalecimento do regime memorando. Nesse sentido, podemos dizer que a violação do mandato popular já ocorreu.

Apostando na passividade social

Mas o “tempo perdido” não se aplica só ao recuo continuado dos negociadores gregos. Igualmente crucial é a desmobilização da sociedade, a baixa continuada das expectativas, o senso de impotência que se vai generalizando. A perda começou no acordo de 20 de fevereiro de 2015, que pôs fim ao clima de esperança e ao entusiasmo combativo que foram disparados pela vitória eleitoral do SYRIZA em janeiro.

O discurso oficial do governo foi fator decisivo nesse processo, tanto quanto a inabilidade do SYRIZA como partido para falar em outra escala tonal. O que prevaleceu no final, e se mantém em algum sentido nesse curso póstumo, foi a interminável “negociaçãologia”, o canto & dança intermináveis sobre o “acordo” sempre iminente e um tal suposto “compromisso honroso” misturado de tempos em tempos com explosões de truculência que sugeririam “uma ruptura” – mas sem jamais a terem preparado ou explicado como opção viável e positiva.

Mas nada disso surpreende, e as convocações adiadas, improvisadas e sem alvo preciso, para mobilizações populares, como a lançada dia 17 de junho de 2015, devem ser recebidas com ceticismo.

Tornou-se abundantemente claro que o governo, mas também toda a coalizão SYRIZA em geral, enfrenta hoje um problema de credibilidade. Que credibilidade teria declarar, como Alexis Tsipras declarou dia 16 de junho de 2015, em discurso ao seu grupo parlamentar, que agora “começam as negociações reais”, depois de decorridos cinco meses exaustivos?

Que sentido haveria em reiterar, como fez o Primeiro-Ministro no mesmo discurso, que teria havido algum “acordo positivo de 20 de fevereiro de 2015”, quando já mais ou menos todos percebem que os banqueiros ataram as mãos do governo, sem ceder nem alguma mínima concessão no estrangulamento da liquidez?

Quantos ainda acreditam que o “grupo de Bruxelas” e as “equipes técnicas” seriam de algum modo diferentes da Troika, que a dita “quinta revisão do atual programa” teria sido retirada da mesa, quando lá está, no documento de 47 páginas das propostas gregas, e, até, que já não haveria memorando?

E esses continuados truques verbais não seriam, de qualquer modo, confissão implícita de fracasso (quando não se consegue mudar alguma coisa, muda-se o nome) e, ao mesmo tempo, sintoma de continuada demolição da própria linguagem política da esquerda?

Tempo de romper

Em seu monumental romance “À procura do tempo perdido”, Marcel Proust demonstrou o que Heráclito codificou na frase famosa, “Não se entra duas vezes no mesmo rio”. O tempo passado é irrevogavelmente perdido, e só é possível voltar a ele guiado pela memória, como narrativa, uma reconstrução que acontece noutro nível, da linguagem e da reinvenção imaginada. Para fazer o que fez, Proust parou de viver. Deteve o fluxo do tempo, como transcorria para ele, para deixar que sua escrita fosse como a encenação do confronto, no homem, com a experiência da perda.

Mas, mesmo assim, este escritor francês tem algo pertinente a dizer para aqueles que optam por fazer o oposto do que ele mesmo fez, para aqueles que continuam vivendo e agindo no mundo, com uma consciência, porém, que tudo conserva algum traço do passado, o gosto da incompletude. Só quem cria tempo novo pode vingar o que tenha sido ferido pelo tempo passado. Nesse sentido, nada tem maior relevância hoje que o programa do SYRIZA, que os compromissos que assumiram e que tornaram possível sua histórica vitória eleitoral. Não apesar de, mas precisamente porque sabemos que essa implementação não pode acontecer como a imaginamos inicialmente. Recomeçar não implica voltar à marca inicial. Mas tampouco é possível recomeçar sem romper com o que existiu mas já não existe, já se foi.

O governo SYRIZA, o povo grego, encontram-se hoje ante um dilema que pode ser formulado de modo duramente simples: capitulação ou rompimento; rendição ou abertura ampla para o futuro. A segunda opção implica riscos, é claro, mas a primeira nada tem a oferecer além da segurança de demorada, mortal agonia.

O futuro ainda está em aberto, e permanecerá assim por um breve espaço de tempo. Em qualquer caso, ninguém pode dizer o que Proust teria feito se não tivesse experimentado aquele pequeno pedaço de bolo que os franceses chamam de "madeleine".

Porque a política de Merkel para a Grécia é um erro

Jürgen Habermas

Süddeutsche Zeitung

Tradução / A última sentença do Tribunal de Justiça Europeu lança uma luz prejudicial sobre a falida construção de uma união monetária sem união política. No verão de 2012, todos os cidadãos tiveram que agradecer a Mario Draghi, presidente do BCE, que com uma só frase salvou a moeda das desastrosas consequências de um colapso que parecia iminente.

Ele tirou do sufoco o Eurogrupo ao anunciar que, caso fosse preciso, compraria dívida pública em quantidade ilimitada. Draghi teve que dar um passo à frente porque os chefes de Governo eram incapazes de agir pelo interesse comum da Europa; todos estavam hipnotizados, prisioneiros de seus respectivos interesses nacionais.

Naquele momento, os mercados financeiros reagiram – diminuindo a tensão – diante de uma única frase, a frase com a qual o presidente do BCE simulou uma soberania fiscal que absolutamente não possuía. Porque agora, assim como antes, são os bancos centrais dos países-membros os que aprovam os créditos, em última instância.

O Tribunal Europeu não pode referendar essa competição contrária ao texto literal dos tratados europeus; mas as consequências de sua sentença deixam implícito que o BCE, com escassas limitações, pode cumprir o papel de credor de última instância.

O resultado da eleição grega é um voto contra a miséria humilhante

O tribunal abençoou um ato salvador que não obedece em nada à Constituição, e o Tribunal Constitucional alemão apoiará essa sentença acrescentando as sutilezas às quais estamos acostumados.

Alguém poderia estar tentado a afirmar que os guardiões do direito dos tratados europeus se veem obrigados a aplicá-lo, ainda que indiretamente, para mitigar, caso a caso, as consequências indesejadas das falhas de construção da união monetária. Defeitos que só podem ser corrigidos mediante uma reforma das instituições, conforme juristas, cientistas políticos e economistas vêm demonstrando há anos.

A união monetária continuará sendo instável enquanto não for complementada pela união bancária, fiscal e econômica. Mas isso significa – se não quisermos declarar abertamente que a democracia é um mero objeto decorativo – que a união monetária deve se desenvolver para se transformar em uma união política. Aqueles acontecimentos dramáticos de 2012 explicam por que Draghi nada contra a corrente de uma política míope – até mesmo insensata, eu diria.

Em 2010, Merkel se importava mais com os interesses dos investidores

Estamos outra vez em crise com Atenas porque, já em maio de 2010, a chanceler alemã se importava mais com os interesses dos investidores do que com quitar a dívida para sanar a economia grega. Neste momento, evidencia-se outro déficit institucional.

O resultado das eleições gregas representa o voto de uma nação que se defende com uma maioria clara contra a tão humilhante e deprimente miséria social da política de austeridade imposta ao país. O próprio sentido do voto não se presta a especulações: a população rejeita a continuação de uma política cujo fracasso as pessoas já sentiram de forma drástica em suas próprias peles. De posse dessa legitimação democrática, o Governo grego tentou induzir uma mudança de políticas na zona do euro.

E tropeçou em Bruxelas com os representantes de outros 18 Governos, que justificam sua recusa remetendo friamente a seu próprio mandato democrático. Recordemos os primeiros encontros, quando os novatos – que se apresentavam de maneira prepotente motivados por sua vitória arrebatadora – ofereciam um grotesco espetáculo de troca de golpes com os residentes, que reagiam em parte de forma paternalista, em parte de forma desdenhosa e rotineira. Ambas as partes insistiam como papagaios que tinham sido autorizadas cada uma por seu respectivo “povo”.

A comicidade involuntária desse estreito pensamento nacional-estatal expôs com grande eloquência, diante da opinião pública europeia, aquilo que realmente é necessário: formar uma vontade política comum entre os cidadãos em relação com as transcendentais fraquezas políticas no núcleo europeu.

As negociações para se chegar a um acordo em Bruxelas travam porque ambas as partes culpam a esterilidade de suas conversas não às falhas de construção de procedimentos e instituições, mas sim à má conduta de seus membros.

O acordo não está fracassando por causa de alguns bilhões a mais ou a menos, nem por causa de um ou outro imposto, mas unicamente porque os gregos exigem que a economia e a população explorada pelas elites corruptas tenham a possibilidade de voltar a funcionar através da quitação da dívida ou uma medida equivalente, como, por exemplo, uma moratória dos pagamentos vinculada ao crescimento.

Os credores, por outro lado, não cedem no empenho para que se reconheça uma montanha de dívidas que a economia grega jamais poderá saldar. É indiscutível que a quitação da dívida será irremediável, a curto ou a longo prazo. No entanto, os credores insistem no reconhecimento formal de uma carga que, de fato, é impossível de ser paga.

Até pouco tempo atrás, eles mantinham inclusive a exigência, literalmente fantástica, de um superávit primário superior a 4%. É verdade que essa demanda foi baixada para 1%, que tampouco é realista. Mas, até o momento, a tentativa de se chegar a um acordo, do qual depende o destino da União Europeia, fracassou por causa da exigência dos credores de sustentar uma ficção.

Não se vê em Atenas nenhuma tentativa razoável para formar coalizões

Naturalmente, os países doadores têm razões políticas para sustentá-la, já que no curto prazo isso permite adiar uma decisão desagradável. Temem, por exemplo, um efeito dominó em outros países devedores. E Angela Merkel também não está segura de sua própria maioria no Bundestag. Mas não há nenhuma dúvida quanto à necessidade de rever uma política equivocada à luz de suas consequências contraproducentes. Por outro lado, também não se pode culpar apenas uma das partes pelo desastre.

Não posso julgar se há uma estratégia meditada por trás das manobras táticas do Governo grego, nem o que deve ser atribuído a imposições políticas, à inexperiência ou à incompetência dos negociadores.

Essas circunstâncias difíceis não permitem explicar por que o Governo grego faz com que seja difícil até mesmo para seus simpatizantes discernir um rumo em seu comportamento errático. Não se vê nenhuma tentativa razoável de construir coalizões; não se sabe se os nacionalistas de esquerda têm uma ideia um tanto etnocêntrica da solidariedade e impulsionam a permanência na zona do euro apenas por razões de astúcia, ou se sua perspectiva vai além do Estado-nação.

A exigência de quitação da dívida não basta para despertar na parte contrária a confiança de que o novo Governo vá ser diferente, de que atuará com mais energia e responsabilidade do que os Executivos clientelistas aos quais substituiu.

O fraco desempenho do governo grego não muda o escândalo

Tsipras e o Syriza poderiam ter desenvolvido o programa reformista de um Governo de esquerda e apresentá-lo a seus parceiros de negociação em Bruxelas e Berlim.

A discutível atuação do Governo grego não ameniza nem um pouco o escândalo de que os políticos de Bruxelas se negam a tratar seus colegas de Atenas como políticos. Embora tenham a aparência de políticos, eles só falam em sua condição econômica de credores. Essa transformação em zumbis visa a apresentar a prolongada situação de insolvência de um Estado como um caso apolítico próprio do direito civil, algo que poderia levar à apresentação de ações ante um tribunal. Dessa forma, é muito mais fácil negar uma corresponsabilidade política.

Merkel fez o Fundo Monetário Internacional (FMI) embarcar desde o início em suas duvidosas manobras de resgate. O FMI não tem competência sobre as disfunções do sistema financeiro internacional; como terapeuta, vela por sua estabilidade e, portanto, atua no interesse conjunto dos investidores, principalmente dos investidores institucionais. Como integrantes da Troika, as instituições europeias também se fundem com esse ator, de tal forma que os políticos, na medida em que atuem nessa função, podem se restringir ao papel de agentes que se regem estritamente por normas e dos quais não se podem exigir responsabilidades.

O escândalo no escândalo é a constipação

Essa dissolução da política na conformidade com os mercados pode explicar a falta de vergonha com a qual os representantes do Governo federal alemão, todos eles pessoas sem mácula moral, negam sua corresponsabilidade política nas devastadoras consequências sociais que aceitaram, como líderes de opinião no Conselho Europeu, por causa da imposição de um programa neoliberal de austeridade.

O escândalo dentro do escândalo é a constipação com que o Governo alemão percebe seu papel de liderança. A Alemanha deve o impulso inicial para sua decolagem econômica, do qual ainda se alimenta hoje, à generosidade dos países credores que no Tratado de Londres, de 1953, perdoaram cerca de metade de sua dívida.

Mas não se trata de um escrúpulo moral, e sim do núcleo político: as elites políticas da Europa não podem continuar se escondendo de seus eleitores, ocultando até mesmo as alternativas ante as quais nos coloca uma união monetária politicamente incompleta. São os cidadãos, não os banqueiros, que têm de dizer a última palavra sobre as questões que afetam o destino europeu.

A sonolência pós-democrática da opinião pública deve-se também ao facto de a imprensa se ter inclinado para um jornalismo de "enquadramento", que avança de mão dada com a classe política e se preocupa com o bem-estar dos seus clientes.

Jürgen Habermas é filósofo. Sua publicação mais recente é "Na esteira da tecnocracia" (Edição Suhrkamp, Berlim).

20 de junho de 2015

Posfácio

por Yanis Varoufakis

Yanis Varoufakis, The Global Minotaur: America, Europe and the Future of the Global Economy, London, Zed Books, 2015.

Agora somos um império e, quando agimos, criamos nossa própria realidade. E enquanto vocês estão estudando essa realidade – judiciosamente, como o farão – nós iremos agir novamente, criando outras novas realidades, as quais vocês podem estudar, e isso é como as coisas irão se desenrolar. Somos atores da história (...) e vocês, todos vocês, vão limitar-se a estudar o que fazemos.¹

Com estas palavras, um oficial norte-americano de alto escalão captura bem a essência da magnífica audácia da Casa Branca no pós-guerra. Não uma vez, mas duas vezes, os Estados Unidos despedaçaram realidades pré-existentes para criar outras novas. Na primeira vez, eles não tinham escolha. A Segunda Guerra Mundial empurrara os Estados Unidos a assumir o papel de um relutante modelador de realidade. Eles responderam de forma brilhante, com um Plano Global que produziu o melhor momento do capitalismo global. E quando seu Plano Global atingiu o prazo de validade, os Estados Unidos não gastaram nenhum minuto hesitando ou “estudando” a realidade existente.

Em vez disso, eles buscaram ativamente desintegrar a realidade que se degenerava, de modo a causar uma grande crise a nível mundial que geraria uma nova hiper-vibrante realidade: o Minotauro Global. Era a segunda vez em sua história que os Estados Unidos reformulavam o mundo não tanto à sua imagem, mas de uma forma que convertia uma rastejante fraqueza em uma majestosa hegemonia.

A chave para o sucesso de Washington foi reconhecer que era indispensável um mecanismo global de reciclagem de excedentes (MGRE). Hegemonia difere de dominação, ou de exploração vulgar, no sentido de que o verdadeiro hegemon entende que o seu poder deve ser retroalimentado não através de uma maior extração de seus súditos, mas a partir do investimento em suas capacidades para gerar excedentes. Para manter o poder, ele deve dominar a arte de dar em troca. Para manter o poder, precisa multiplicar seus excedentes; mas, para fazer isso, deve redirecionar grande parte destes aos seus subordinados.

Durante todas as duas distintas realidades globais do pós-guerra que criaram sozinhos, os Estados Unidos foram particularmente cuidadosos em oferecer mecanismos de reciclagem, sobre os quais esperavam ter controle total. Durante a era do Plano Global, assumiram que seriam o negociador de superávits. Sua hegemonia, assim, girava em torno da reciclagem de grandes partes de seu capital excedente (auferido por meio de seus superávits comerciais) para o Japão e Europa. Conforme planejado, beneficiavam-se do processo, já que os japoneses e europeus usavam essas transferências para comprar bens e serviços produzidos ou controlados pelos norte-americanos.

Quando os Estados Unidos viram-se, involuntariamente, em um grande déficit comercial e orçamentário, seguiram em frente. Isso causou um terremoto mundial como um prelúdio para a Era do Minotauro Global; minha alegoria para um mecanismo de reciclagem gigantesco, que reverteu o fluxo de comércio e capital global. Os Estados Unidos, daí em diante, viriam a fornecer aos centros industriais estrangeiros demanda suficiente para sua produção, em troca de cerca de 80% de seus fluxos de capital. O fato de a transição violenta ter causado pelo menos uma década de terrível desintegração, crises de dívidas, instabilidade geral e estagflação global foi, para as elites norte-americanas, um preço razoável a pagar; nada além de um custo de transição cobrado à economia social do mundo e às famílias trabalhadoras da América pelos atores da nossa história – os astutos burocratas de sucessivos governos norte-americanos.

Autocontenção e os perigos do sucesso

A autocontenção, como sabem os filósofos, é uma virtude rara e desconcertante. É também uma virtude que tende a se desfazer quanto mais poderosos nos tornamos. Neste ponto, assemelha-se à relação entre confiança e sucesso: quanto mais fortes os laços de confiança entre nós, maior nosso sucesso coletivo e individual. Mas o sucesso gera cobiça, e a ganância é um solvente da confiança. Ocorre algo similar com a autocontenção: tê-la pode ajudar a alcançar o sucesso. Contudo, o sucesso representa uma ameaça para a sua própria autocontenção.

Este paradoxo do sucesso, no que se refere à autocontenção, comprovou a ruína de ambas as “realidades” globais que os Estados Unidos criaram após a Segunda Guerra Mundial. Na primeira vez, o governo dos Estados Unidos foi a vítima de sua engenharia negativa. Na segunda vez, foi o setor privado dos Estados Unidos, particularmente seu setor financeiro. Para ver como estes dois fracassos surgiram a partir de situações de sucesso, vamos considerar duas perguntas, uma relativa a 1971, outra, a 2008.

O que causou o fracasso do Plano Global, fazendo-o perder o seu equilíbrio e entrar em colapso em 1971? A resposta: a incapacidade do governo dos Estados Unidos de exercer a autocontenção em relação à sua própria capacidade de explorar seu exorbitante privilégio original: sua capacidade, enquanto guardião da moeda de reserva mundial, para imprimir dinheiro público à vontade.

E o que foi que feriu o Minotauro Global mortalmente em 2008? Novamente, foi uma falha de autocontenção norte-americana. Só que desta vez não foi falha do governo (mesmo que se possa argumentar que aconteceu sob sua supervisão), mas do setor privado em geral e dos bancos em particular: o setor financeiro norte-americano falhou espetacularmente no exercício da autocontenção de sua capacidade de explorar seu novo e exorbitante privilégio: sua capacidade, enquanto guardião da financeirização global, para imprimir dinheiro privado à vontade.

Conseguirá o Minotauro sobreviver?

Na primeira edição do livro, expressei sérias dúvidas sobre se o Minotauro conseguirá sobreviver. Dois anos mais tarde, qualquer esperança de uma ressurreição evaporou. A Crise de 2008 bateu tanto no estofo financeiro da economia norte-americana, bem como exauriu de tal forma a energia da financeirização baseada em Nova York, que o poder magnético do Minotauro sobre o capital estrangeiro não tem como se recuperar. Wall Street pode ter sido totalmente ressuscitada, relatando lucros que não fariam feio naqueles dias contagiantes de 2006; o governo dos Estados Unidos está atraindo mais capital estrangeiro do que nunca; os bancos que eram too big to fail têm crescido ainda mais (pelo menos em termos relativos). No entanto, a capitalização de Wall Street ainda é escassa demais para atrair o tsunami de capital estrangeiro que manteve o Minotauro forte e saudável. De fato, em 2012 os banqueiros reclamavam bastante que, apesar de uma volta a níveis de lucro obscenos, não estavam conseguindo proporcionar a seus investidores retornos “suficientemente” elevados, devido à novas regulamentações introduzidas pelo governo.

Na verdade, o que está por trás dos gritos dos banqueiros contra a nova realidade é que seus bancos não podem mais reciclar sozinhos os excedentes mundiais. Além disso, o novo regime que foi estabelecido após 2008-2009, nos Estados Unidos e na Europa – o “sistema” que eu batizei de bancarrotocracia –, é introvertido demais e insuficientemente atraente para agir como um atrativo para os fluxos de capital necessários. Não, o Minotauro Global está hoje na fase em que o Plano Global se encontrava depois de 1971: um estado irreversível de degeneração.

Uma economia mundial atordoada

Apesar do bem-vindo crescimento das “economias emergentes”, ainda vivemos em um mundo dominado pelo Ocidente. Numa fase pós-Minotauro, isto significa que nossas vidas são governadas pelos serviçais sobreviventes do Minotauro Global: Wall Street, Walmart, o mercantilismo provincial da Alemanha, a pretensão absurda da União Europeia de que uma união monetária possa prosperar sem um mecanismo de reciclagem de excedentes, as desigualdades crescentes nos Estados Unidos, na Europa, na China, e assim por diante. Um mundo sem o Minotauro, mas governado por seus vassalos, é um lugar absurdo e ilógico.

O melhor exemplo desse absurdo é a maneira com a qual o debate público lida com os chamados desequilíbrios globais: os superávits comerciais que crescem sistematicamente em alguns países (Alemanha e China são bons exemplos), enquanto são espelhados de forma oposta no aumento do déficit comercial em outros². Todos os comentaristas agora concordam que a causa da ruptura final em 2008 foram os crescentes desequilíbrios globais. Seria natural que alguém imaginasse, consequentemente, que uma redução dos desequilíbrios mundiais teria sido bem-vinda. Infelizmente, a verdade é o contrário.

Depois de 2008, por causa da profunda recessão dos Estados Unidos, seu déficit comercial encolheu e os desequilíbrios globais diminuíram. Da mesma forma, na zona do euro, uma periferia devastada se afastou abruptamente das importações e, portanto, os desequilíbrios comerciais internos estão encolhendo lá também. No entanto, tal reequilíbrio está desestabilizando ainda mais a economia mundial, à medida que a queda nos déficits comerciais (dentro e entre regiões) anda de mãos dadas com desequilíbrios maiores no âmbito da movimentação de capital. Pior ainda: o reequilíbrio das contas é acompanhado por um aumento mundial em ambas as montanhas de dívidas impagáveis e de poupanças ociosas (que estão com muito medo de se transformar, no longo prazo, em investimentos produtivos).

É, de fato, um mundo estranho que em um momento exorciza os desequilíbrios globais, mas começa a sofrer no momento seguinte, quando eles diminuem. É claro que o quebra-cabeças se dissolve no instante em que começamos a analisar estas questões nos termos da parábola do Minotauro Global; de uma terrível besta que, no entanto, estabilizou um mundo instável preenchendo a lacuna de um mecanismo global de reciclagem de excedentes oficial que desapareceu em 1971. E agora que a besta se foi, nosso mundo está em um estado permanente de instabilidade, incerteza crônica de uma queda sem-fim.

O mecanismo que falta

O capitalismo global não pode ser estabilizado com base em mais investimento, melhores dispositivos, ferrovias mais rápidas, inovações mais inteligentes. Este é o erro vulgar de keynesianos que pensam que se o Estado gastasse e investisse com sabedoria, tudo estaria bem. Da mesma forma, o capitalismo global não irá recuperar a sua confiança perdida se bancos centrais se concentrarem na estabilidade dos preços, e se a tarefa de reequilibrar a economia mundial for deixada para as mágicas manobras da oferta e da demanda. Este é o erro ainda mais ameaçador dos liberais. A estabilidade do capitalismo global, mas também do regional, requer um mecanismo mundial de reciclagem de excedentes – um mecanismo que os mercados, não importa quão globalizados, livres e eficientes sejam, não podem fornecer.

Assim, a pergunta é: se os Estados Unidos não podem suprir o mecanismo global de reciclagem de excedentes que falta, e a Europa está ocupada demais se desintegrando, quem pode? A China? Infelizmente, não. A China está, evidentemente, trabalhando arduamente, e com um sucesso considerável, na criação da versão chinesa de uma globalização parcial; uma que coloca Pequim no centro de uma vasta rede de acordos de comércio e de investimentos com a Índia, África, América Latina, mas também envolvendo europeus, americanos e multinacionais japonesas. A China tentará conter as autoridades norte-americanas, europeias e japonesas e, em pouco tempo, promoverá a sua moeda própria, o renminbi, como o principal meio de troca dentro dessas redes. No entanto, essas redes estão condenadas a ser incorporadas numa economia mundial mais ampla, que a China não pode reequilibrar devido a uma incapacidade radical de gerar demanda suficiente para ela própria.

E agora? Em busca de próximos atores da história

Se um mecanismo de reciclagem de excedentes não se materializar em breve, é melhor não pensarmos no futuro. Pois, por um lado, teremos um Ocidente preso às teias venenosas dos serviçais do Minotauro defunto, incapaz de enfrentar os desafios do nosso mundo pós-2008, estagnado, perdendo o senso de realidade, deixando de combinar seus resultados com suas capacidades de criar novas “realidades”. Por outro lado, haverá as economias emergentes, cheias de pessoas dispostas a transcender restrições, construir novas “realidades”, expandir os horizontes existentes. Tal mundo em crescimento desigual é altamente inflamável, baseado no choque entre aqueles que estão acelerando economicamente e os outros que estão estagnados, mas mantêm um monopólio virtual sobre o poder militar, sobre as reservas monetárias mundiais e sobre as instituições transnacionais do planeta (o Conselho de Segurança da ONU, a OTAN, a OCDE, o FMI e o Banco Mundial).

Assim, se um mecanismo global de reciclagem de excedentes é condição sine qua non para uma economia social estável e globalizada, e, sem ele, corremos o risco de voltar a uma forma pré-Segunda Guerra Mundial de radical precariedade (aliada aos riscos que emanam de meios modernos de destruição em massa), haverá algum futuro alternativo mais inteligente?

Um cenário brilhante seria a formação de uma grande coalizão de países emergentes que forjasse um efetivo mecanismo global de reciclagem de excedentes com base em investimento planejado e transferências comerciais entre eles. Por exemplo, em vez da China simplesmente pisar nos antigos calos do Brasil e comprar apenas ativos produtivos brasileiros sem o consentimento das autoridades, imagine um sistema em que os investimentos da China são canalizados com base em algum acordo com o governo do Brasil que envolva fluxos de capital para o Brasil analogamente à venda de bens primários do Brasil para China, bem como a transferência de tecnologia chinesa para o Brasil. Tais acordos entre Brasil, China, Argentina, Índia, Turquia e determinados países africanos poderia agir como um mecanismo global de reciclagem de excedentes que promoveria um crescimento estável. O fato de que isto neutralizaria as nossas bancarrotocracias ocidentais seria a cereja do bolo.

O segundo cenário, e ainda mais inteligente, seria se o Ocidente tivesse uma epifania e, finalmente, adotasse a sugestão de John Maynard Keynes sobre uma União Internacional das Moedas; a mesma sugestão que os Estados Unidos rejeitaram em Bretton Woods na conferência de 1944. Um exagero? Com certeza. Mas, novamente, a Crise de 2008 reuniu, sem dúvida, algumas mentes inteligentes. Antes de cair em desgraça, Dominique Strauss-Kahn, o ex-diretor administrativo do FMI, foi perguntado por um jornalista da BBC sobre suas ideias de como a economia global deveria ser reconfigurada após os acontecimentos de 2008. Sua surpreendente resposta foi:

Nunca no passado uma instituição como o FMI foi tão necessária como hoje (...) Keynes, sessenta anos atrás, já previa o que era necessário; mas era muito cedo. Agora é o momento de fazê-lo. E eu acho que nós estamos prontos para fazê-lo!³

Claramente, aquilo a que Strauss-Kahn estava se referindo era nada menos do que a criação de um mecanismo global de reciclagem de excedentes multilateral, assim como John Maynard Keynes propôs em 1944, na Conferência de Bretton Woods. Isto é, um sistema de reciclagem de excedentes que não dependeria de algumas autoridades inteligentes e do irresponsável setor financeiro de um único país, como dependia o Minotauro Global, mas de uma bem administrada organização global que definisse, com consciência e transparência, os parâmetros para a reciclagem dos bens, lucros, poupança e demanda.

Dois anos mais tarde, a ousada opinião de Strauss-Kahn aparece mais como “suas últimas palavras” do que um programa genuíno para a mudança de política em escala planetária. Na verdade, a própria imagem de Strauss-Kahn algemado, sendo forçado a entrar em um carro da polícia de Nova York, algumas semanas depois de ter feito essa afirmação para a BBC, é um símbolo delicioso da natureza do pensamento flamejante das elites no pós-2008. Desde então, os políticos dominantes, as cabeças do FMI e do Banco Mundial, banqueiros centrais e privados, em geral, os guardiões do capitalismo mundial, parecem ter optado por desaprender muito rapidamente as lições de 2008. Eles se assemelham a motoristas que, ao serem multados pela polícia pelo excesso de velocidade, dirigem dentro do limite por algumas dezenas de quilômetros antes de retornar gradualmente à velocidade original, na esperança de que desta vez “vai ser diferente”.

Os presságios não são, portanto, bons. Nunca tantas pessoas poderosas compreenderam tão pouco sobre o que a economia mundial necessita para se recuperar. Nunca no passado os atores da história estiveram tão dolorosamente ausentes. Nossa única esperança é que a história forje novas possibilidades num momento em que ninguém parece estar presente. Então, vamos permitir que o otimismo brilhe através da escuridão e colocar a questão: e se o Minotauro Global fosse substituído por um mecanismo global de reciclagem de excedentes bem planejado, fruto de um acordo coletivo, quem poderia atuar como o agente deste nascimento? Quem irá emergir como ator da história desta vez?

Anteriormente, argumentei que este papel histórico poderia surgir das economias emergentes. No entanto, devo fazer uma confissão, algumas frases antes do fim do livro: eu não acho que assim será. Com a Europa livre de desentendimentos e as nações emergentes maltratadas tanto pela crise como pela falta de tradição inovadora em uma escala global, mais uma vez são os Estados Unidos que devem fornecer, talvez pela última vez, a atuação que falta. Simplificando, eu realmente não consigo ver como um verdadeiro progresso em direção à construção de um saudável mecanismo global de reciclagem de excedentes pode ser feito de outro modo.

Naturalmente, o pré-requisito para isto é que os políticos norte-americanos compreendam o significado e a irreversibilidade do desaparecimento do “seu” Minotauro Global e sejam energizados pela distópica perspectiva de uma economia mundial permanentemente propensa à estagnação. Então – e só então – haverá chance de um futuro coletivo racional e estável, e que carregue a gota de esperança para que nossa última Crise tenha permissão de libertar seu potencial criativo.

Embora países emergentes como China, Brasil, Índia, África do Sul e assim por diante tenham que contribuir como importantes tijolos na construção desse futuro mais brilhante, os Estados Unidos devem liderar. Caso isso aconteça, talvez séculos mais tarde a própria morte de seu Minotauro inspirará os poetas e os criadores de mitos a marcarem sua queda como o início de um novo e autêntico humanismo. Caso isso não aconteça, então a nossa geração pós-moderna da década de 1930 vai durar muito mais do que uma década.

Notas

¹ Estas palavras foram transmitidas a nós por Ron Suskind em seu artigo na New York Times Magazine, em outubro de 2004. Embora não seja atribuída, muitos acreditam que elas foram ditas no verão de 2002 por Karl Rove, um importante assessor do presidente George W. Bush.

² Quando meu colega Joseph Halevi e eu publicamos um artigo (o primeiro a usar a metáfora do Minotauro Global) em 2003, concentrando-se nos crescentes “desequilíbrios globais” dos Estados Unidos – isto é, seus déficits gêmeos – nosso argumento foi ignorado. Já que o Minotauro foi derrubado pela Crise de 2008, todos estão agora reconhecendo que os desequilíbrios globais são um problema, tanto em nível internacional (ou seja, o superávit da China com os Estados Unidos e Europa) quanto na Europa (ou seja, o superávit da Alemanha com o resto da zona do euro).

³ “Inside the IMF – Part Two”, BBC Radio 4, transmitido em 17 de janeiro de 2011.