31 de agosto de 2015

A resistência da China

Manlio Dinucci

Il Manifesto

Tradução / O 70º aniversário da vitória do povo chinês na Guerra de resistência contra a agressão japonesa, que se celebra em 3 de setembro em Pequim, está sendo boicotada não só por Tóquio, mas também por Washington e quase todos os governos da União Europeia (UE), que enviam a Pequim apenas expoentes secundários. Grotesca tentativa de cancelar a História, análoga à que fizeram relativamente ao 70º aniversário da vitória sobre o fascismo, comemorado em Moscou em 9 de maio (Ver Il Manifesto de 12 de agosto).

O pano de fundo histórico: a China dos anos 1930, reduzida a um estado colonial e semicolonial sobretudo pelo Japão, a Grã Bretanha e a França. Em 1931, o Japão transforma o Nordeste do país em um Estado fantoche seu (Manchukuo). Enquanto o exército nipônico ataca Xangai em 1932 e sucessivamente outras cidades, o Kuomintang de Chiang Kai-shek – que tinha tomado o poder em 1927 com um sangrento golpe de Estado, e é apoiado seja pelos anglo-americanos, seja por Hitler e Mussolini, aliados de Tóquio – continua a concentrar o seu ataque contra as bases rurais do Exército Vermelho, dirigido pelo Partido Comunista. Este é obrigado, em 1934, a uma desastrosa retirada que Mao Tsé-tung, retomando o comando, transforma em um dos maiores empreendimentos militares: A Longa Marcha.

O Japão desencadeia a guerra de agressão contra toda a China em 1937, ocupando Pequim e Tianjin em julho, Xangai em novembro e, em dezembro, Nanquim. Aqui as tropas nipônicas realizam o grande massacre, assassinando da maneira mais horrenda mais de 300 mil civis. Outras dezenas de cidades chinesas são atacadas pelos japoneses com armas biológicas (Bacillus anthracis e Salmonella paratyphi). Nesta altura, por iniciativa do Partido Comunista, nasce a Frente Única Antijaponesa com o Kuomintang. Nos oito anos seguintes de guerra, o exército do Kuomintang, armado pelos Estados Unidos, de um lado combate os invasores japoneses, embora de modo descontínuo; de outro lado, submete as zonas libertadas pelo Exército Vermelho ao bloqueio econômico e militar, atacando em diversas ocasiões as forças populares, fazendo com que se concentrasse contra este a ofensiva japonesa. Chiang Kai-shek faz seu jogo, ordenando que uma parte dos seus generais colaborasse com os japoneses.

De 1937 a 1945 o Partido Comunista, que cresceu de 40 mil a 1,2 milhão de membros, dirige as forças populares em uma guerra que exaure cada vez mais o exército nipônico, estendendo as zonas libertadas de 1,5 a quase 100 milhões de habitantes.

Com a sua resistência, que custou mais de 35 milhões de mortos, a China contribuiu de maneira determinante para a derrota do Japão que, batido no Pacífico pelos Estados Unidos e na Manchúria pela União Soviética, se rende em 1945 depois do bombardeio atômico de Hiroshima e Nagasaki. Logo depois, segundo um plano decidido em Washington, Chiang Kai-shek tenta repetir o que tinha feito em 1927. As suas forças armadas, apoiadas pelos Estados Unidos, porém, agora têm diante de si o Exército Popular de libertação com cerca de um milhão de homens e uma milícia de 2,5 milhões, com forte apoio popular.

Cerca de 8 milhões de soldados do Kuomintang são mortos ou capturados e Chiang Kai-shek foge para Taiwan sob a proteção dos Estados Unidos. Em 1° de outubro de 1949, Mao Tsé-tung proclama o nascimento da República Popular da China na porta de Tien An Men. Diante dessa praça, no próximo 3 de setembro, desfilam as forças armadas de uma China profundamente transformada, mas que, como a Rússia, os outros BRICS e dezenas de países presentes em Pequim com seus representantes máximos, marca a vontade de defender a própria soberania nacional contra os novos planos de domínio imperial.

Reabilitar o papel destrutivo do FMI na Grécia

Michael Hudson

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Nesse outono, é possível que coalizões anti-austeridade cheguem ao poder em Portugal, Espanha e Itália, enquanto a Frente Nacional de Marine le Pen na França pressiona a favor de o país sair imediatamente da Eurozona. Todos esses países enfrentam um problema comum: como resistir à devastação econômica que Banco Central Europeu (BCE), Conselho Europeu e FMI, a "troika", infligiram à Grécia e agora planejam infligir também a toda a Europa meridional.

Para resistir contra a depressão e a deflação de dívida que a troika planeja aprofundar, é preciso ter em mente a dinâmica que torna o FMI irreformável. O papel destrutivo que o FMI teve na Grécia é útil objeto de estudo para demonstrar, mais uma vez, que o sul da Europa deve expulsar a horda de ideólogos pró-FMI, como países do Terceiro Mundo aprenderam a fazer em maio de 2013, ano em que a Turquia concluiu o processo de separar-se definitivamente dos "conselhos" do FMI. Já em 2008, o primeiro ministro da Turquia Recep Tayyip Erdogan anunciava: "Não podemos obscurecer nosso futuro nos curvando aos desejos do FMI."[1] Agora, os eleitores gregos disseram a mesma coisa.

Para amaciar a resistência contra as demandas do FMI pró-austeridade, foi montada uma campanha de relações públicas – com o objetivo de reabilitar o mito segundo o qual o FMI pode operar como negociador honesto e mediar as conversas entre ministros de finanças anti-trabalho e os países PIIGS – Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha. Na sexta-feira, 28 de agosto, três jornalistas da agência Reuters publicaram longa coluna de fundo em que labutam para demonstrar que o FMI está lutando para mudar; e que a presidenta Christine Lagarde afinal viu a luz e busca promover autêntico alívio nas dívidas.[2]

O momento em que surge essa matéria parece significativo. O FMI estava "de volta aos negócios" em 2010, quando o então presidente Dominique Strauss-Kahn atropelou a equipe e vários membros da diretoria, para unir-se à troika e jogar as dívidas ruins de banqueiros franceses e alemães sobre as costas do povo grego. Esses são os fatos que exponho em Killing the Host, que CounterPunch publicou numa e-versão semana passada (as versões encadernada e Kindle já estão disponíveis para venda pela Amazon.)

O presidente Obama e o secretário do Tesouro Tim Geithner insistiram para que Angela Merkel e o presidente Sarkozy da França pressionassem o FMI para que se opusesse às respectivas equipes e se unisse às duras exigências do Banco Central Europeu para que a Grécia impusesse medidas de austeridade. Geithner e Obama alertaram que se credores gregos não fossem integralmente pagos, alguns bancos norte-americanos gigantes teriam perdas pesadas em contratos de seguros e derivativos que haviam assumido, e essas perdas se espalhariam "por contágio" para a Europa.

Foi na reunião do G8 em 2011, que Merkel disse ao primeiro-ministro grego George Papandreou que ele tinha de cancelar o referendo que propusera sobre se a Grécia devia ou não render-se às medidas de austeridade; que tinha de ajudar bancos estrangeiros abarrotados de papéis gregos. Como o falecido editor do [jornal] Frankfurt Allgemeine Zeitung Frank Schirrmacher observou naquele momento, foi o mesmo que dizer que "Democracia é Lixo".

Papandreou aquiesceu, o que levou à avassaladora derrota de seu partido PASOK, que perdera completamente qualquer credibilidade, exatamente a mesma credibilidade que o FMI também perdera. Papandreou foi substituído por um fantoche pró-banqueiros. O primeiro-ministro italiano teve o mesmo destino na mesma semana, numa crise continental que converteu a Eurozona em zona econômica morta.

Demorou até julho passado, quatro anos depois, para que os gregos afinal pudessem manifestar-se num referendo. E exatamente como Merkel, Sarkozy e Obama tanto temiam, os gregos rejeitaram a austeridade, por avassaladores 61% dos votos (margem de 3:2).

O artigo que a Reuters acaba de publicar cita as mesmas queixas de gente de dentro do FMI que recolhi nos registros que fiz para meu livro. Mas as publica como se fossem novidades que a Reuters estaria revelando, depois de os jornalistas terem examinado "minutas até hoje não noticiadas de reuniões da direção do FMI". Na verdade, a informação já circula há um ano. Assim sendo, a pergunta necessária é: "por que essa informação está sendo noticiada agora, como se fosse coisa nova?"

O objetivo parece ser distrair a atenção e afastar os olhos do público para bem longe da dinâmica política que estava realmente em andamento e dos conflitos de interesse que realmente estavam em operação – e assim continuam. Além do que já está informado em meu livro publicado semana passada, o ex-ministro das Finanças da Grécia, Yanis Varoufakis, também divulgou amplamente a triste experiência pela qual passou, com Lagarde e o Banco Central Europeu exigindo mais austeridade e privatizações em massa. "Se vocês fossem uma mosca na parede, assistindo àquelas negociações" – relata Varoufakis – "teriam visto tão bem como eu vi que Mme. Lagarde, Mr. Draghi, Mr. Juncker, com certeza o Dr. Schäuble, só tinham um interesse: nos ditar os "termos da rendição". Os termos para pôr fim à Primavera de Atenas."

Bem diferente desse relato, a peça de propaganda da Reuters distorce a história; reduz e de fato censura o papel dos EUA de Obama e Geithner; faz o possível para mostrar uma Christine Lagarde que estaria exigindo alívio na dívida dos gregos e na austeridade imposta a eles.

O mundo precisa saber da verdadeira história, porque só assim se poderá ver  o grau de submissão em que o FMI vive, sob o tacão de Wall Street e de banqueiros europeus, e os líderes políticos norte-americanos a serviço, também, dos interesses daqueles credores. Tudo isso mostra a impossibilidade de reformar o FMI (ou o Banco Mundial, cujos presidentes saem tradicionalmente do Departamento de Defesa dos EUA ou de seus grupos de apoiadores da Guerra Fria).

Killing the Host expõe as queixas feitas por furiosos funcionários do FMI que se converteram em vazadores de informação e divulgaram o que tinham a dizer pelo prestigiado Center for International Governance Innovation (CIGI) do Canadá. A matéria da Reuters cita ofegantemente alguns dos informes do CIGI. Mas o que a agência de notícias não noticia é o que disseram os ex-economistas do FMI.

Lagarde continua a insistir que as dívidas gregas podem ser pagas pelo sistema de "prorrogar e fingir", com juros reduzidos e prazos prorrogados. Isso é o que ela entende que seria "cancelar dívidas gregas". Não é, como a maioria entende, cancelar a dívida principal. Quem ler as citações cuidadosamente selecionadas pela Reuters terá a impressão de que aquele longo e detalhado estudo foi produzido especialmente para contraditar as questões políticas que Varoufakis, eu mesmo e outros estamos começando a expor.

A Reuters excluiu atentamente daquela matéria a verdadeira chave para compreender o evento politicamente mais embaraçoso para os envolvidos: a atuação de Obama e Geithner para proteger a jogatina do cassino de Wall Street, que apostara alto em que a Grécia podia ser chantageada e pagaria. Dominique Strauss-Kahn tinha dois interesses que conflitavam entre eles: queria concorrer à presidência da França, obtendo apoio por proteger os banqueiros franceses; e queria colocar o FMI de volta no negócio de impor austeridade pelo mundo, unindo-o à troika da Eurozona. Quando Christine Lagarde pôs-se a repetir que não apoiaria o relatório apresentado pela equipe do FMI em apoio ao cancelamento da dívida grega, a mesma equipe vazou o próprio relatório, nessa primavera, para grave constrangimento da presidente, quando o FMI rendeu-se ao programa da troika sem nenhum real alívio da dívida grega.[4]

O que o relatório da Reuters faz é lançar uma nuvem de desinformação: Lagarde não apoia nem jamais apoiou alívio algum, nem apoia qualquer redução na dívida grega, impagavelmente alta. É exatamente o oposto disso: Lagarde já disse incontáveis vezes que a concepção dela de alívio na dívida é o velho "prorrogar e fingir" – prorrogar o vencimento da dívida grega, para reduzir a taxa de juros.

A história verdadeira não é o informe que a Reuters publicou tão afobadamente com declarações de funcionários e diretores do FMI a repetirem, uns depois dos outros, que a Grécia não pode pagar o que deve e que quanto mais tentar pagar mais se afundará na depressão. A história verdadeira é por que Strauss-Kahn, em 2010, enganou esses mesmos funcionários do FMI? Os funcionários do FMI que se demitiram atribuem os atos de DSK às suas ambições na política francesa e ao oportunismo dele, querendo fazer o FMI "voltar ao negócio da austeridade", em vez de ser descartado pelo BCE por não ser suficientemente pró-credores. Para superar o fato de que o FMI estava violando suas próprias normas, o mesmo FMI introduziu uma cláusula de "fuga de contágio", que anulava a exigência de que o Fundo não fizesse empréstimos que não pudessem ser pagos. (Em Killing the Host explico os detalhes desse processo.)

Lagarde mantém-se repetindo a exigência de que a Grécia deve pagar o principal, incluindo a parte da dívida que funcionários do FMI aconselhavam fortemente, há quatro anos, que fosse cancelada. Exatamente como Strauss-Kahn, Lagarde também estava a um passo de atropelar sua própria equipe técnica quando aqueles funcionários vazaram seu próprio relatório que demonstrava que a Grécia absolutamente não tem como pagar. Indicação da posição de Lagarde apareceu em maio de 2012 na reunião do FMI em Riga, aonde foram para celebrar o modelo de 'austeridade punitiva' da Latvia, que poderia ser exportado para "servir como inspiração a líderes europeus que enfrentem crise econômica".

O fato de que a presidência do FMI tenha de ser sempre entregue a um francês pró-banqueiros, ideólogo pró-austeridade que recebe ordens de Washington e tem poder de veto a serviço de banqueiros e acionistas de Wall Street , torna o FMI absolutamente irreformável e comprometido. A cereja do bolo é o recente empréstimo feito à Ucrânia, dinheiro que Poroshenko já disse que será usado para fazer guerra contra os falantes de russo do leste da Ucrânia, onde estava localizada grande parte da indústria de exportação.

Nem em algum delírio da imaginação, alguém pode supor que a Ucrânia pagará essa dívida. Até já negociou redução de 20% do que deve a acionistas privados, e ambos, Poroshenko e "Yats Nuland" insistem que não pagarão os $3 bilhões devidos ao fundo soberano russo que vencem no próximo mês de dezembro. Só isso já bastaria para o FMI ser obrigado a afastar-se, por causa do que determinam os Artigos de Acordo que impedem qualquer empréstimo a país que não cumpra compromisso de quitar dívidas com instituições oficiais. (A ideia original tinha em mente os Estados Unidos, não a Rússia ou a China.)

Mas o FMI não ameaçou a Ucrânia de que ou paga ou será convertida em pária financeiro, como a Grécia. O Fundo já saltou para dentro do barco da Nova Guerra Fria, como mais uma arma da guerra da finança contra o trabalho e a capacidade de governos democráticos resistirem contra a austeridade.

Matérias anteriores distribuídas pela Reuters (e também pelo New York Times e outros veículos da mídia neoliberal) difundiram a ideia simplificadora segundo a qual o motivo pelo qual China, Rússia e outros países BRICS criaram seu próprio banco alternativo de desenvolvimento e suas instituições monetárias internacionais seria, meramente, por não terem peso ou prestígio dentro do FMI. (O Congresso já proibiu novas contribuições dos EUA ao FMI, impedindo a renegociação de quotas.)

Não é de modo algum o que os países BRICS dizem. O desacordo está em que a filosofia de desenvolvimento do FMI e do Banco Mundial é promover austeridade para pagar banqueiros e vender bens públicos para investidores financeiros norte-americanos ou outros. Não importa o tamanho da quota, o governo dos EUA sempre conserva poder de veto para reforçar essas regras orientadas pelo interesse dos EUA.  Os países BRICS querem outra filosofia de desenvolvimento, uma alternativa à economia do austeridade e aos "planos de estabilização" do FMI cujo efeito é desestabilizar países submetidos àquela austeridade.

A trágica experiência dos gregos deve ficar como alerta de que é necessário e urgente escapar das regras que converteram a Eurozona em zona econômica morta, e o FMI e a troika em brutais cobradores de dívidas a serviço de banqueiros e acionistas europeus, britânicos e norte-americanos. Não é história que a mídia neoliberal tenha interesse em informar e popularizar. E quanto aos economistas-torsos-falantes de TV, esses, continuam sem entender coisa alguma.

Notas:

[1] Delphine Strauss, “Turkish politicians argue over need for IMF help as crunch bites,” Financial Times, October 28, 2008.

[2] Lesley Wroughton, Howard Schneider and Dina Kyriakidou, “How the IMF’s misadventure in Greece is changing the fund,” Reuters, Aug. 28, 2015, http://www.reuters.com/investigates/special-report/imf-greece/


[4] Jack Ewing, “I.M.F. Report Shines Uncomfortable Light on Greece’s Financing Gap,” The New York Times, July 15, 2015, and Peter Spiegel and Shawn Donnan, “IMF raises doubts over its bailout role,” Financial Times, July 15, 2015.

30 de agosto de 2015

"Desligamento" e reação interna

Prabhat Patnaik


Tradução / Há uma visão forte em alguns círculos de esquerda, especialmente em certos círculos da esquerda europeia, de que qualquer desligamento do capitalismo global leva a um fortalecimento da reação interna. Naturalmente, mesmo na Europa isto não é necessariamente a visão dominante da esquerda. Exemplo: os comunistas e outros segmentos da esquerda grega – os quais defendem que a Grécia abandone a Eurozona ao invés de aceitar as medidas de "austeridade" impostas pela chamada "troika" dos credores – obviamente não aceitam seriamente esta conexão entre o desligamento de uma instituição supranacional do capital e a reação interna; mas ela representa um ponto de vista significativo. E em vários círculos de esquerda e de liberais progressistas em países do terceiro mundo como o nosso, especialmente naqueles círculos que são intelectualmente influenciados por estes segmentos da esquerda europeia, tal visão prevalece: ela argumenta que muito embora a globalização seja prejudicial para as condições de vida do povo trabalhador em países como o nosso, tem de ser combatida por meios diferentes dos do desligamento, uma vez que este só pode promover forças reacionárias internas.

O que são estes meios diferentes nunca é deixado claro e a questão da sua eficácia na defesa dos interesses do povo nunca é discutida. No entanto, esta visão, de que o desligamento da globalização, através entre outras coisas da imposição de controles transfronteiriços sobre fluxos de capital e de mercadorias, conduz à promoção de forças reacionárias internas, detém uma influência considerável. De fato, no festival de Kochi há alguns anos, Slavoj Žižek, o conhecido filósofo marxista esloveno, argumentou que qualquer desligamento da globalização, ao promover o "nacionalismo" e um recuo para dentro do país do terceiro mundo que o tente, vai contra uma perspectiva internacionalista, ou no mínimo cosmopolita, a qual é essencial para manter as forças reacionárias internas à distância.

Não pretendo entrar na discussão das possíveis alternativas para o desligamento. Uma vez que os próprios oponentes do desligamento não explicam tais alternativas, muito menos argumentam explicitamente a favor delas, não precisamos entrar nesse território. Além disso, é lógico que não havendo movimentos internacionais de camponeses e nem realmente movimentos internacionais eficazes de trabalhadores, para resistir aos efeitos da globalização, isto é, uma vez que a nação permanece como a arena primária da resistência de classe contra os efeitos da globalização, se tal resistência tiver êxito em chegar ao poder ela não tem alternativa senão desligar-se da globalização. No entanto, o que pretendo fazer não é repetir estes pontos óbvios mas ao invés disso chamar a atenção para um "paradoxo aparente" que implica toda esta questão. E este consiste no fato de que não é o desligamento da globalização mas sim a própria globalização que conduz aos fortalecimento de forças reacionárias em países como o nosso; de que não é o "nacionalismo" dirigido contra a globalização, o qual é uma expressão da hegemonia do capital financeiro internacional, que promove a reação por "olhar de dentro", mas ao invés disso é o próprio capital financeiro internacional que promove a reação como meio de reter sua hegemonia.

Paralelo perturbador

Aqui há de fato um paralelo perturbador entre a crítica do Banco Mundial à estratégia de substituição de importações do período dirigista, a qual levou ao desenvolvimento de auto-suficiência significativa em tecnologia e na capacidade de produzir bens, como sendo a de "olhar para dentro", portanto errada, e o argumento destes segmentos da esquerda de que o desligamento da globalização, sendo "olhar para dentro", é errado porque conduz à reação interna. Dizer isto não é difamar estes segmentos de esquerda, mas simplesmente sublinhar dois pontos: primeiro, "olhar para dentro" e "olhar para fora" não são expressões de classe; utilizá-las sem levar em conta o contexto de classe pode portanto camuflar aspectos cruciais da realidade social. Segundo, na medida em que estas expressões são utilizadas apesar da consciência da realidade social, uma vez que "olhar para fora" significa necessariamente forjar laços fortes com um mundo dominado pelo imperialismo, aqueles segmentos da esquerda que desaprovam uma trajetória de "olhar para dentro" estão a subestimar os efeitos deletérios da dominação imperialista.

Eles assim o fazem por duas possíveis razões: ou porque não reconhecem de todo a presença do imperialismo como um fenômeno (embora possa reconhecer "o império" como uma entidade empírica, ou reconhecer e condenar "aventuras imperialistas" individuais tal como no Iraque onde os países avançados estavam de olho nos recursos petrolíferos), ou porque, baseando-se nos escritos de Marx sobre a Índia no princípio da década de 1850, vêem um "lado positivo" na exposição do "terceiro mundo" às principais potências capitalistas. Se bem que este "lado positivo" possa ter sido historicamente pertinente, ele não tem relevância uma vez que os povos do terceiro mundo levantaram-se em revoltas anti-imperialistas a fim de impor a descolonização. (De fato, pretender um "lado positivo" para o imperialismo depois de se ter verificado a descolonização equivale a negar o papel histórico positivo da própria descolonização).

Uma vez que aceitamos a natureza permanente do imperialismo e vemos a atual globalização como uma expressão do mesmo, embora naturalmente num contexto mudado, o desligamento da globalização num mundo onde resistência e lutas são organizadas nacionalmente torna-se um item necessário na agenda. E também constitui o meio para ultrapassar, ao invés de abrir caminho, a reação interna.

Isto é óbvio no nosso próprio contexto. A luta anti-colonial na Índia ativou o povo e mobilizou-o em torno de uma agenda que incluía entre outras coisas uma pessoa-um voto, certos direitos fundamentais para todo cidadão, igualdade diante da lei sem consideração de casta, religião e gênero e separação da religião do Estado, toda esta agenda representou uma ruptura drástica em relação à desigualdade social praticados durante milênios. Grande parte desta agenda está hoje ameaçada, em perigo de ser minada de fato pelas forças comunais que ocupam as principais posições no Estado, com a ajuda da oligarquia corporativo-financeira que está alinhada com o capital financeiro internacional. Estas forças comunais, vale a pena recordar, estiveram completamente arredadas da luta anti-colonial, nem um único dos seus ícones e líderes esteve alguma vez nela envolvido (e Savarkar, que esteve envolvido a princípio, dela dissociou-se depois de apresentar uma "desculpa" aos governantes coloniais).

Dito de modo diferente, a "modernidade" no sentido da superação da herança de milênios de desigualdade institucionalizada e o entendimento da noção de uma fraternidade de "cidadãos" iguais, embora representando por si mesma mais o ideal do que os projetos da ordem burguesa, não pode ser alcançada nem através de uma ligação ao imperialismo, nem sob a égide da burguesia interna que forja esta ligação com o imperialismo e com a sua agência principal na era da globalização, isto é, o capital financeiro internacional. O progresso rumo à própria "modernidade" é uma tarefa delegada à esquerda em sociedades como a nossa. Por isso ela tem de lutar contra a hegemonia do capital financeiro internacional e, portanto, pelo desligamento de uma ordem por ele dominada.

O "capital financeiro", enfatizou Lenin, quer sempre a "dominação". Por isto ele deve dividir o povo, promover o comunalismo, minar a ativação política do povo e subverter todas as tendências para a realização de uma "fraternidade de cidadãos iguais", a qual é o declarado ideal da democracia. A luta contra o capital financeiro é necessariamente inclusiva, ao passo que a hegemonia do mesmo é necessariamente acompanhada pela imposição do divisionismo, pelo farejar das linhas de fratura da sociedade pré existente a fim de exacerbá-las.

Mas então, pode-se perguntar, como explicar a abundância de movimentos fundamentalistas e reacionários que encontramos nestes dias por todo o terceiro mundo, os quais posicionam-se em absoluto contraste com o humanismo aparentemente professado e pregado pelos países capitalistas avançados (aos quais designamos como potências imperialistas) que posteriormente aparecem como oásis de "modernidade" e tolerância dentro de um oceano de fanatismo e intolerância? Subjacente a este fenômeno está um fato de considerável importância, a saber a destruição sistemática pelas próprias potências imperialistas do surto progressista que representou a luta anti-colonial no terceiro mundo, da "modernidade" que a luta anti-colonial representou.

Imperialismo, progenitor dos fanáticos

Todas as arenas principais do fundamentalismo islâmico de hoje são lugares que estiveram outrora na vanguarda de lutas progressistas do terceiro mundo e cada uma de tais lutas foi destruída pelo imperialismo. O regime democrático laico de Mossadegh no Irão, apoiado pelo Partido Tudeh, foi derrubado, com a ajuda do ayatola Kashani, porque ousou nacionalizar o petróleo. O partido Baath de Saddam Hussein foi ajudado pelo imperialismo a derrubar o regime progressista do general Kassem no Iraque, o qual fora apoiado pelos comunistas; e posteriormente o próprio regime de Saddam Hussein que pelo menos era laico foi derrubado, mais uma vez pelo imperialismo, o qual deliberadamente promoveu a divisão xiitas-sunitas a fim de fortalecer sua posição. O regime do presidente Sukarno, na Indonésia, o qual tinha o apoio dos comunistas, foi derrubado pelo imperialismo num sangrento golpe militar de Suharto, ao qual se seguiu um massacre que matou meio milhão de comunistas, e hoje o fundamentalismo faz sentir sua presença na Indonésia. O Sudão, outro lugar onde forças fundamentalistas estão a levantar a cabeça, tinha o maior Partido Comunista da África, mas um golpe de Nimieri apoiado pelo imperialismo tomou o poder e o líder comunista, camarada Mahjoub, foi executado. E é claro que no Afeganistão foi o imperialismo que promoveu a jihad contra o regime apoiado pela União Soviética e que desovou o Taliban e a Al Qaeda.

Em suma, o imperialismo, que por toda a parte aparece como o benigno defensor de "valores humanos" contra os fanáticos fundamentalistas, é ele próprio o pai dos fanáticos. Ele sistematicamente destruiu todos os regimes progressistas, laicos e nacionalistas no terceiro mundo, enquanto promovia directamente os fanáticos fundamentalistas ou deixava o cenário vazio preparado para eles.

Isto não quer dizer que os regimes laicos nacionalistas do terceiro mundo não tivessem as suas próprias falhas, fraqueza e contradições. Sabemos na Índia do compromisso com o latifundismo (landlordism) em que entrou o governo pós independência, compromisso esse que esvaziou a viabilidade do regime económico dirigista. Histórias semelhantes podem ser repetidas a partir de outros contextos. Mas o ponto básico é isto: nunca foi permitido aos países do terceiro mundo resolverem suas próprias contradições e antagonismo de classe. O imperialismo, inevitavelmente, entrou por toda a parte; interveio por toda a parte e o resultado da sua intervenção foi o fortalecimento por toda a parte das forças da reacção. Portanto, ver a reacção como o produto de uma estratégia de "olhar para dentro", e uma ultrapassagem da reacção como ficando facilitada pela ligação ao imperialismo, é ignorar um ponto crucial acerca da realidade contemporânea.

O Partido Trabalhista britânico, o marxista McDonnell e a negação do déficit

Michael Roberts

The Next Recession

Tradução / A eleição de um novo líder do Partido Trabalhista no Reino Unido, da oposição, provocou um grande interesse na mídia internacional e entre economistas. Isso porque o novo líder, Jeremy Corby e seu recém-nomeado porta-voz para as finanças, John McDonnell, foram considerados como "marxistas confessos".

É o caso de McDonnel. Ele é um "marxista confesso" porque diz que é. No dia do seu discurso na conferência anual dos Trabalhistas, esta semana, declarou: "Se você olhar para o nosso sistema capitalista, um dos analistas definitivos do seu funcionamento – não se está condenado, ou se está certo ou errado, apenas a mecânica de como ele funciona, quando foi formado e como se desenvolveria – foi realmente Marx". E prosseguiu: "Marx voltou à moda porque as pessoas retornaram à sua análise básica de como exatamente o sistema funciona. As pessoas podem discordar das suas conclusões acerca do que fazer com o sistema, mas realmente para entender como o sistema funciona ele propõe algumas análises interessantes que foram construídas dentro da teoria econômica tradicional e razoavelmente clássica".

Contudo, note-se que John McDonnell faz uma distinção entre a "análise interessante" de Marx do sistema capitalista, isto é, do que está errado nele, e "suas conclusões acerca do que fazer". Portanto, parece que da sua análise não decorrem necessariamente políticas para lidar com o capitalismo.

Que políticas adotar? Bem, aparentemente prescrições keynesianas. Assim, McDonnell anunciou um painel de conselheiros econômicos, incluindo luminárias internacionais como Joseph Stiglitz e Thomas Piketty, para ajudar a elaborar a política econômica. Este comitê é extraído da corrente principal keynesiana e das suas alas heterodoxas, mas não marxistas.

Estou certo de que isto parece um bom estratagema político para envolver economistas importantes nos planos econômicos do Labour. Não há dúvida que espera desarmar a crítica da mídia financeira e do big business o fato de um vencedor do Prêmio Nobel e os economistas do momento estarem no comitê. Mas isto recorda-me mais a abordagem do Syriza da Grécia, o qual começou com uma "análise" marxista do capitalismo grego mas que, de acordo com Yanis Varoufakis e Costas Lapavitsas, deveria ser posta de lado quando chegasse à política porque a teoria econômica keynesiana é mais relevante "na prática".

Para ele o problema está numa "falta de procura", não numa falta de lucratividade. Assim, num declínio, prescrições keynesianas apelam a mais gasto governamental ou uma reversão da "austeridade" (na linguagem corrente), de modo a que o gasto promova o emprego e rendimentos e restaure o consumo familiar (e o investimento?) como meio de recuperação. Isso significa incorrer em déficits orçamentais através de mais contração de empréstimos pelo governo (emissão de mais títulos).

Os keynesianos geralmente descartam aqueles (austeritários e neoliberais) que se preocupam em que, como resultado, o disparo da dívida governamental leve a uma nova crise quando governos descobrem que não podem aguentar seu serviço de dívida exceto a taxas de juro incomportáveis (Grécia e economias periféricas da Eurozona, Porto Rico, etc). Como se vê, para os keynesianos, a dívida de um homem é o ativo de outro. Assim, o único problema é se são estrangeiros que possuem a dívida. Se eles pedirem reembolso, podem então estropiar a divisa. Esta é a visão de Paul Krugman nos EUA e de Simon Wren-Lewis, o guru keynesiano britânico, agora parte da equipe de conselheiros de McDonnell.

Mas a dívida importa. Uma das características do crash financeiro global foi a ascensão maciça de dívida do setor privado (famílias e corporações) antes do esmagamento do crédito em 2007. Aquela dívida ascendeu quando economias capitalistas tentaram manter a lucratividade do capital e o crescimento econômico alto através de uma baixa taxa de juro, da bolha alimentada a crédito em setores improdutivos da finança e da propriedade. O crédito privado minguado (não a lucratividade minguada) é a visão de Minsky da crise como foi descrita em particular por Steve Keen e Anastasia Nesvetailova (uma das novas conselheiras de McDonnell).

Mas, como tenho explicado muitas vezes neste blog, o boom do crédito dos anos 2000 foi uma resposta à lucratividade declinante do capital nos sectores produtivos dos EUA, Reino Unido e outras economias importantes a partir do fim da década de 1990. Ele protelou um grande declínio, só para criar um ainda maior em 2008-9.

Trata-se de dívida do setor privado. Mas o mesmo se aplica à dívida do setor público. Se os possuidores desta dívida (bancos, hedge funds, fundos de pensão, companhias de seguros) decidirem que querem o seu dinheiro de volta ou pedirem muito mais em juros para renovarem seus empréstimos ou comprarem títulos governamentais, eles podem estropiar a capacidade de um governo para pagar benefícios da previdência e serviços públicos, sem falar em investimentos em estradas, hospitais e escolas.

A dívida importa numa economia capitalista: capitalistas devem a outros capitalistas; famílias devem a capitalistas financeiros; e governos devem a capitalistas financeiros. Os detentores desta dívida esperam um retorno e reembolsos rápidos. Sob uma economia predominantemente detida pelo Estado e planejada, companhias estatais, famílias e governos deveriam a outras companhias estatais. Assim as decisões sobre o custo da tomada de empréstimos e os termos do reembolso poderiam ser decididas como parte de um plano nacional e não pelo "mercado" e com base na lucratividade do capital (financeiro).

Ironicamente, tendo selecionado keynesianos e minskyistas para a sua equipe, John McDonnell deixou claro desde o começo que não é um "negador do déficit". Com isto, ele quer dizer que não se pode ignorar [a possibilidade de] incorrer em déficits no orçamento do governo, como consideram os keynesianos. Como disse McDonnel: "Aceitamos que vamos ter de viver dentro dos nossos meios e sempre o faremos – ponto final". E ele advoga a assinatura da carta fiscal do governo Conservador que tornará lei o dever do governo de "equilibrar as contas" ao longo do "ciclo de negócios". "Nós apoiaremos a carta. Apoiaremos a carta na base de que queremos equilibrar as contas, queremos viver dentro dos nossos meios e consideraremos o déficit".

Isto é claramente um estratagema político de McDonnell para evitar a acusação feita pelos Conservadores de que os Trabalhistas, quando no governo, permitiram que os déficit saíssem do controle e assim provocassem a crise e a Grande Recessão e de que os Trabalhistas não se preocupam em "equilibrar as contas". Esta acusação, naturalmente, é sem sentido e uma rematada mentira. Na verdade, quando no governo, os Trabalhistas geralmente incorrem em déficits mais baixos do que os Conservadores e sob o "prudente" ministro das Finanças e primeiro-ministro Gordon Brown, os gastos do governo foram bem mantidos sob controle, como destacou Ann Pettifor, uma das novas conselheiras económicas de McDonnell.

O déficit orçamental do Reino Unido disparou só quando começou o crash financeiro global e bancos britânicos tiveram de ser salvos (bailed out) com o dinheiro dos contribuintes (empréstimos). Isto impulsionou Gordon Brown a dizer ao parlamento britânico que havia "salvado o mundo" (um deslize de arrogância, significando que ele havia salvo os bancos). O déficit atual do governo, ainda mais alto do que em outras economias G7, sob os Conservadores e com a dívida do governo ainda ascendendo rumo a 100% do PIB, foi o produto da crise capitalista (o colapso financeiro e a consequente Grande Recessão).

McDonnell diz que este déficit e a dívida do governo podem ser reduzidos não por cortes na previdência e serviços públicos como os Conservadores têm feito e continuam a fazer. Trata-se de uma escolha política. Ao invés disso podem ser efetuados pela elevação de impostos sobre os ricos (revertendo cortes em impostos corporativos e imposto sobre a herança), reduzindo o "bem-estar corporativo" (cerca de £90 bilhões por ano), tratando agressivamente da evasão fiscal e evitando [isenções] como as da Vodafone, Amazon, Google e Starbucks (no valor de £120 bilhões por ano). E os Trabalhistas sob McDonnel também estimulariam o crescimento econômico através da contração de empréstimos para investir em projetos de infraestrutura. McDonnell também estima que £80-100 bilhões podiam ser poupados (ao longo de 30 anos, ter em mente) sucateando o programa do submarino nuclear Trident que deve ser renovado no próximo ano.

Por louváveis que sejam estes objetivos, como destaquei num post anterior, grande parte destas medidas podem não proporcionar suficiente receita extra para colmatar o déficit – se este é o objetivo, além de tornar a desigualdade de rendimento e riqueza, absurdamente alta, apenas um pouco menos extrema. Tem sido destacado que será muito difícil levantar os necessários £30 bilhões extras por ano em impostos sem atingir aqueles que ganham rendimentos médios – a menos que o crescimento econômico do Reino Unido descole dos atuais 2,0-2,5% ao ano de taxa de expansão.

O problema podia ser facilmente resolvido se rendimentos do setor privado (salários e lucros) subissem significativamente mais depressa a fim de proporcionar receitas fiscais muito mais altas. Mas isso não está em vias de acontecer sob uma economia predominantemente capitalista onde a lucratividade é chave para o crescimento do investimento, do emprego e do rendimento. O capitalismo britânico já deixou de investir, preferindo embolsar seus lucros e/ou especular em ativos financeiros ou investir no exterior. E isso com a mais baixa taxa fiscal corporativa entre as economias principais, como o ministro Conservador das Finanças, George Osborne, gosta de jactar. Impostos mais altos sobre o setor capitalista, ou seja, as grandes companhias que investem e empregam a maior parte da economia, significará apenas um novo fracasso em investir.

A "nova" liderança dos Trabalhistas substituindo a "velha" liderança (o "New Labour", neoliberal) compromete-se a expandir o investimento público em infraestrutura, setores "verdes" e em habitação e transporte. Isto sem dúvida ajudará a apoiar a atividade econômica além de ajudar a maioria ao invés dos 1%. Mas Corbyn e o National Investment Bank de McDonnell não conseguirão proporcionar crescimento suficientemente mais rápido enquanto a economia do Reino Unido nos seus setores estratégicos ainda estiver dominada por companhias capitalistas em busca de lucro na City de Londres (banca privatizada, seguros e fundos de pensão), por companhias construtoras de casas e de transportes (ferrovia, automóveis e aviação) etc.

Juntamente com um Banco de Investimento Nacional (e banca de propriedade totalmente estatal), o que é necessário é um Plano Nacional para investimento, emprego e serviços baseado numa economia predominantemente de propriedade do Estado, controlada e operada democraticamente. Mas isto é a prescrição marxista a partir da "interessante" análise marxista da economia capitalista. Ao invés disso, a nova liderança Trabalhista gosta da "análise" marxista mas encara "soluções" keynesianas.

O capitalismo tem crises regulares e recorrentes – esta é uma conclusão única da análise econômica marxista, algo não aceite ou reconhecido pela corrente prevalecente, a teoria econômica keynesiana ou minskyistas. Como argumentei num post anterior, o capitalismo britânico, juntamente com o capital global, é provável que entre em outro desmoronamento (slump) antes da próxima eleição geral britânica em 2020. Na verdade, McDonnell também notou que reemergiram muitas das características que levaram à última Grande Recessão: um boom de crédito, uma bolha habitacional, especulação bancária, etc.

Os keynesianos não viram a aproximação do último desmoronamento (a Grande Recessão) e não têm políticas para tratar disto, pelo menos no interesse da maioria. Assim, confiar em políticas keynesianas para manusear ou evitar o próximo desmoronamento, mesmo como estratagema político, pode aprisionar o destino da nova liderança trabalhista.

28 de agosto de 2015

Julian Assange: O que o Wikileaks nos ensina sobre como os EUA operam

Julian Assange

Newsweek

Tradução / No momento em que escrevo, WikiLeaks publicou 2.325.961 telegramas diplomáticos e outros registros do Departamento de Estado dos EUA, cerca de dois bilhões de palavras. Esse corpus aparentemente insuperável de literatura interna de um Estado, que, se impresso, resultaria em cerca de 30 mil volumes, é coisa absolutamente nova.

Como o Departamento de Estado, esse corpus também não pode ser conhecido se não for aberto e examinado por partes. Mas recortar ao acaso registros diplomáticos isolados que se entrecruzam com entidades e disputas conhecidas – como fizeram alguns jornais e jornalistas – é tomar os telegramas e deixar escapar "o império".

Cada corpus tem seu tamanho.

Para obter o nível correto de abstração – que considere as relações entre a maioria dos telegramas de uma região ou país, em vez de considerar os telegramas isoladamente, é necessária uma abordagem mais acadêmica. Esta abordagem é tão natural que o estranho é que não tenha sido tentada antes.

Há muito tempo, o estudo dos impérios tem sido o estudo das comunicações imperiais. Gravados em pedra ou traçados em pergaminhos, impérios, da Babilônia à dinastia Ming deixaram registros comunicativo do centro organizacional em contato com as periferias.

Mas, lá pelos anos 1950, estudiosos dos impérios históricos deram-se conta de que, de algum modo, a comunicação era o império. Seus métodos para organizar a inscrição, o transporte, a indexação e o arquivamento das comunicações e para designar quem tinha autorização para ler e escrever as peças de comunicação, em um sentido real, constituíam o império. Quando mudavam os métodos que um império usava para comunicar, o império também mudava.

A fala tem vida breve, mas a pedra dura muito mais. Alguns métodos de escrita, como gravação em pedra, serviram bem à transmissão de regras institucionais condensadas que tinham de continuar a ser comunicadas por meses e anos seguintes. Mas esses métodos não conseguiam acompanhar o desenrolar rápido dos eventos, nem garantiam que se preservasse a nuança ou o sigilo oficial, porque eram gravados em pedra.

Para cuidar dessas brechas, os impérios e seus sistemas de escrita lenta ainda tinham de depender pesadamente do mais velho e mais efêmero dos meios de comunicação da história da humanidade: a fala, as convenções da oralidade.

Outros suportes, como o papiro, eram leves e de produção rápida, mas frágeis. Esses suportes de comunicação tinham a vantagens de serem fáceis de construir e transportar, unificando regiões ocupadas mediante fluxo rápido de informação que podia também alimentam uma gestão central reativa. Tal centro bem conectado podia integrar as correntes de inteligência que iam e vinham e rapidamente projetar adiante as decisões, embora daí pudessem resultar e frequentemente resultassem tendências a perder de vista o longo prazo, sob pressão do curto prazo; e tendências à gestão micro, praticamente sem macro.

Mar, deserto ou montanha podem ser cruzados ou contornados com mais ou menos trabalho e gastos; e recursos de energia podem ser descobertos ou roubados. Mas a capacidade de um império para projetar seus desejos, estrutura e conhecimento, para que cruzem tempo e espaço, determina um limite absoluto à própria existência do império.

Culturas e economias comunicam-se mediante todas as técnicas pelas regiões e ao longo dos anos, da evolução de piadas partilhadas viralmente entre amigos, até a difusão dos preços pelas rotas comerciais.

Mas esta capacidade por si só não faz um império. A marca registrada de todos os impérios é o esforço estruturado para administrar, pela comunicação, um amplo sistema cultural e econômico. E são os registros desse tipo de comunicação, que não são feitos para serem dissecados – e, portanto, são especialmente vulneráveis à dissecção – que constituem a base para que se compreenda a natureza do único "império" que ainda resta no mundo.

Anatomia do império dos EUA

E onde está esse império?

Todos os dias de semana, 71 mil pessoas, em 191 países, representando 27 diferentes agências do governo dos EUA, saem de casa e atravessam jardins onde drapeja a bandeira, cercas de arame, portas de aço e guardas armados para entrarem num dos 276 prédios fortificados que constituem as 169 embaixadas e outras missões do Departamento de Estado dos EUA.

Nessa marcha são acompanhados por representantes e agentes de 27 outros departamentos e agências, inclusive a Central Intelligence Agency, a National Security Agency, o Federal Bureau of Investigation e os vários ramos dos serviços militares dos EUA.

Dentro de cada embaixada há um embaixador quase sempre bem próximo do poder político, empresarial ou de inteligência dos EUA; diplomatas de carreira especializados em política, economia e diplomacia pública do estado hospedeiro; administradores, pesquisadores, adidos militares, espiões protegidos pelo serviço diplomático, gente de outras agências do governo dos EUA (em algumas embaixadas há até militares armados ou forças clandestinas das operações especiais); fornecedores, pessoal da segurança, técnicos, tradutores contratados no locar, pessoal de limpeza e de outros serviços.

No telhado desses prédios há antenas de rádio e de satélite, algumas conectadas diretamente com os EUA, para receber ou despachar telegramas diplomáticos e da CIA, algumas para distribuir informações sobre aviões e navios militares dos EUA, outras implantadas pela Agência de Segurança Nacional para interceptação massiva do tráfego de telefones celulares e outros dispositivos sem fio da população hospedeira.

O serviço diplomático dos Estados Unidos remonta à Revolução, mas o moderno Departamento de Estado foi criado no ambiente do pós-Segunda Guerra Mundial.

Suas origens coincidem com a indicação de Henry Kissinger ao posto de secretário de Estado, em 1973. A indicação de Kissinger foi inusual em vários aspectos. Kissinger não chefiou só o Departamento de Estado; ele foi nomeado também conselheiro de segurança nacional, o que facilitou a integração muito mais íntima entre os braços de relações exteriores, militar e de inteligência do governo dos EUA.

Embora o Departamento de Estado há muito tempo tivesse um sistema de telegramas, a nomeação de Kissinger levou a mudanças logísticas no modo como os telegramas eram redigidos, indexados e arquivados. Pela primeira vez, a massa central dos telegramas foram transmitidos por meio eletrônico. Esse período de grande inovação ainda está presente no modo como o departamento opera hoje.

O Departamento de Estado dos EUA é único entre as burocracias formais dos EUA. Outras agências aspiram a administrar uma função ou outra, mas o Departamento de Estado representa, e inclusive hospeda, todos os grandes elementos do poder nacional dos EUA. É quem assegura clandestinidade à CIA, provê o equipamento para interceptação em massa na NSA, espaço para escritório e operação e instalações de comunicação para o FBI, para as agências militares e outras agências do governo e pessoal, para que possam atuar como agentes de venda e conselheiros políticos para as grandes corporações dos Estados Unidos.

Ninguém pode, do lado de fora, compreender adequadamente uma instituição como o Departamento de Estado, assim como os artistas do Renascimento não poderiam saber como funcionavam os animais sem dissecá-los e espiar diretamente o lado de dentro. Como aparelho diplomático dos EUA, o Departamento de Estado está diretamente envolvido em dar rosto externo amigável ao império, ocultando cuidadosamente suas engrenagens internas.

Todos os anos, mais de $1 bilhão é reservado, em orçamento, para "diplomacia pública", expressão higienizada para o que jamais passa de propaganda descarada. O objetivo explícito da diplomacia pública é influenciar jornalistas e a sociedade civil, de modo que passem a servir como conduítes para as mensagens do Departamento de Estado.

Enquanto arquivos nacionais produziram coleções significativas de comunicações internas do Estado, o seu material é retido ou tornado de difícil acesso durante décadas, até que já não tenha qualquer potência política. É inevitável, porque os arquivos nacionais não são estruturados para resistir ao revide (que vem sob a forma de demissão de funcionários ou suspensão de financiamentos) que arquivos atualizados e acessíveis, de significação internacional, fatalmente produziriam.

O que dá potência à revelação de comunicações secretas é que são textos que ninguém supunha que nós algum dia lêssemos. As comunicações internas do Departamento de Estado dos EUA são o subproduto logístico de suas atividades: a publicação é como a vivissecção de um império ainda vivo, que mostra que substância fluída de um órgão estatal para outro.

Telegramas diplomáticos não são redigidos com o objetivo de manipular o público; eles visam a elementos dentro de outros espaços do aparelho de Estado dos EUA e, portanto, estão relativamente livres da influência enviesante das relações públicas. Ler esses telegramas é um modo muito mais efetivo para compreender uma instituição como o Departamento de Estado, do que ler informes jornalísticos sobre pronunciamentos públicos de Hillary Clinton ou de Jen Psaki [diretora de comunicações da Casa Branca].

Nas comunicações internas os funcionários do Departamento de Estado também têm de se manter alinhados às mais atualizadas ortodoxias do Departamento de Estado pelas razões "certas", não "erradas", se quiserem se manter empregados de Washington; e esses elementos de correção política são eles próprios também eloquentes e visíveis para quem não tenha sido suficientemente doutrinado.

Muitos telegramas são deliberativos ou logísticos, e as relações causais entre eles, ao longo do tempo e do espaço, com outros telegramas e com eventos documentados externamente criam uma rede de limitações à interpretação que mostram, com confiabilidade, como o Departamento de Estado dos EUA e as agências que interoperam com esse sistema de telegramas compreendem o lugar que têm no mundo.

Só se alguém se aproxima holisticamente desse corpus – além e acima da documentação de cada abuso individual, de cada atrocidade localizada –, é possível ter uma visada do custo humano das convulsões do império.

Segurança Nacional como religião e a Associação de Estudos Internacionais

Embora exista ampla literatura sobre a análise estrutural ou da realpolitik das instituições chaves do poder dos EUA, vários fenômenos ritualísticos e quase religiosos que cercam o setor de segurança nacional dos EUA sugerem que essas abordagens sozinhas não têm suficiente poder explicativo.

Esses fenômenos são familiares, no ritual de dobrar a bandeira, na veneração às ordens e elaborada genuflexão aos superiores, mas também podem ser vistos na reação extraordinária que as revelações de WikiLeaks desencadearam – reação que permite que se vejam alguns dos seus traços mais interessantes.

Quando WikiLeaks publica documentos do governo dos EUA com as marcas da classificação – uma espécie de "selo de santificação" da segurança nacional, se quiserem –, começam duas campanhas paralelas: primeiro, a campanha pública de encobrir e desviar a atenção para qualquer outro ponto que contribua para remodular quaisquer revelações que ameacem o prestígio da segurança nacional; e, segundo, uma campanha interna ao estado de segurança nacional, para digerir o que aconteceu.

Quando documentos que levem o tal "selo de santificação" são tornados públicos, são transubstanciados em objetos proibidos que se tornam tóxicos para o "estado-dentro-do-estado" – os mais de 5,1 milhões de americanos (em 2004) com licenças válidas de segurança, e uma periferia estendida, que aspira ao patrocínio econômico ou social do mesmo "estado-dentro-do-estado".

Há um nível de histeria e de não corporalidade nessa reação às revelações de WikiLeaks que não é facilmente capturado pelas teorias tradicionais do poder. Muitas religiões e cultos garantem à respectiva categoria sacerdotal um valor a mais, ao tornar secretos para o grande público ou a ordens inferiores de devotos os textos sacros. Essa técnica também permite que a categoria dos sacerdotes adotem diferentes estratégicas psicológicas para diferentes níveis de doutrinamento.

O que é risível, hipócrita ou maquiavélico para o público ou para níveis inferiores de autorização de segurança é abraçado pelos que já se tornaram suficientemente doutrinados ou foram cooptados para agir como se as vantagens econômicas e sociais de que gozam dependessem de eles aceitarem o que rejeitariam em condições normais.

Publicamente, o governo dos EUA declarou – falsamente – que qualquer pessoa com autorização da segurança que distribuísse documentos "classificados" viola o "Espionage Act" de 1917. Mas as alegações da campanha interna do "estado-dentro-do-estado" operam na direção oposta. Ali, a campanha ordena que só quem a lei oficialmente autoriza pode legalmente ler documentos declarados "classificados" – e isso, para impedir que muitos leiam documentos de WikiLeaks, e que a mídia associada ao governo publique documentos assinalados como "sigiloso"; não vá acontecer de toda essa gente ser "contaminada" pelos tais documentos!

Por mais que dado documento possa ser lido pelo pessoal autorizado quando distribuído por um dos repositórios oficiais de documentos sigilosos, o mesmo pessoal é proibido de pôr os olhos no exatamente mesmo documento se aparecer de fonte pública. No caso de empregados com autorização da segurança nacional lerem tais documentos no âmbito do domínio público, é dever deles denunciar o contato que tenham tido com o texto recentemente profanado, e destruir todos os traços e rastros que o documento tenha produzido.

Essa resposta, é claro, é irracional. Os telegramas sigilosos e outros documentos publicados por WikiLeaks e pela mídia associada são absoluta e completamente idênticos às versões oficialmente acessíveis aos portadores das autorizações para os mais altos níveis da segurança, posto que se originaram lá: são cópias eletrônicas.

Não só que seja impossível distinguir originais e cópias – absoluta e literalmente não há qualquer diferença. Nem uma palavra. Nem uma letra. Nem um único bit.

A implicação é que há alguma propriedade não física que se incorpora aos documentos tão logo recebam as marcas de sigilo; e que esses traços mágicos se extinguem, não por alguém copiar o documento, mas por alguém tornar a cópia pública. Para os devotados do estado de segurança nacional, o documento depois de tornado público não apenas perde aquela propriedade mágica e volta a ser objeto vulgar, mundano; ele incorpora outra diferente propriedade não física: é possuído pelo mal, passa a ser objeto maléfico.

Esse tipo de pensamento religioso tem consequências. Não é só a desculpa usada pelo governo dos EUA para impedir que milhões de pessoas que trabalham para o "estado-dentro-dopestado" leiam mais de 30 diferentes domínios de WikiLeaks: a mesma desculpa foi usada também para impedir que The New York Times, Guardian, Der Spiegel, Le Monde, El País e outros veículos publicassem os materiais de WikiLeaks.

De fato, em 2011 o governo dos EUA lançou o que bem se pode chamar de "uma fatwa WikiLeaks" sobre todas as agências do governo federal e todos os funcionários do Estado e todas as empresas contratadas para prestar serviços de segurança ao governo federal:

"A recente divulgação de documentos do governo dos EUA pelo WikiLeaks causou dano à nossa segurança nacional (...) Informação classificada, esteja ou não já postada em websites públicos, exposta na mídia ou por qualquer outra via tenha chegado ao domínio público, permanece sendo informação sigilosa e deve receber tratamento correspondente, até que seja declarada não sigilosa pela autoridade adequada do governo dos EUA. (...) 
Fornecedores e contratados, prestadores de serviços de qualquer tipo, que inadvertidamente tenham exposto informação sigilosa no domínio público, devem reportar imediatamente que o fizeram, aos Facility Security Officers de sua unidade ou empresa. As empresas são instruídas a deletar o material ofensivo pressionando as teclas SHIFT+DELETE para sistemas baseados em Windows; e devem esvaziar o cache do internet browser."

Depois de contatada por funcionário do Departamento de Estado dos EUA, a Escola de Assuntos Internacionais e Públicos da Columbia University alertou os alunos para que "não postem links para esses documentos nem façam comentários em sites de mídias sociais como Facebook ou Twitter. Engajar-se nessas atividades levantará dúvidas sobre a capacidade para operar com informação confidencial, requisito para a maioria das funções dentro do governo federal."

Inúmeros departamentos do governo e outras entidades, inclusive a Biblioteca do Congresso, bloquearam, para WikiLeaks, o acesso à internet. Os Arquivos Nacionais dos EUA bloquearam pesquisas em seus próprios bancos de dados para qualquer expressão que inclua "WikiLeaks."

O tabu tornou-se completamente absurdo, como cão farejando sem parar não importa para que lado nem à procura do quê, que acaba por farejar a sua própria cauda. Em março de 2012, o Pentágono tinha ido tão longe, que criou um filtro automático para bloquear quaisquer e-mails, inclusive os próprios e-mails internos do Pentágono, que contivessem a palavra "WikiLeaks."

Como resultado, os promotores do Pentágono que construíam a acusação contra o analista de inteligência dos EUA, cabo Manning, suposta fonte dos telegramas de Cablegate, tiveram de protestar, porque não estavam recebendo e-mails importantes nem do juiz nem da defesa.

Mas o Pentágono não removeu o filtro – em vez disso, o procurador-chefe major Ashden Fein disse à corte que um novo procedimento havia sido implantado para bloquear e-mails relacionados com WikiLeaks. A juíza militar coronela Denise Lind disse que seriam criados e-mails especiais, novos, para a procuradoria.

Por mais que essa histeria religiosa pareça cômica fora do setor de segurança nacional dos EUA, resultou em grave miséria de análises do material publicado por WikiLeaks nos periódicos de relações internacionais nos EUA. Mas especialistas em outras disciplinas (direito, linguística, estatística aplicada, saúde e economia) não se deixaram intimidar tão completamente.

Por exemplo, em seu artigo de 2013 para o periódico de estatística Entropy, DeDeo et al. - todos cidadãos norte-americanos ou britânicos – escrevem que Diário da Guerra do Afeganistão de WikiLeaks "provavelmente se tornará conjunto padrão para dois estudos, do conflito humano e dos métodos empíricos para análise de dados complexos, multimodais."

Tem havido uso extensivo do material de WikiLeaks, especialmente em tribunais domésticos, do Reino Unido ao Paquistão, e em tribunais internacionais, da Corte Europeia de Direitos Humanos ao Tribunal Criminal Internacional para a ex-Iugoslávia.

Comparada as milhares de citações em cortes e em várias áreas acadêmicas, a miséria da cobertura por periódicos americanos de Relações Internacionais parece, não simplesmente esquisita, mas suspeita. Esses periódicos, que dominam globalmente o estudo de Relações Internacionais, deveriam ser espaço óbvio para análises respeitáveis do corpus de dois bilhões de palavras diplomáticas de WikiLeaks.

O periódico americano International Studies Quarterly (ISQ), um dos mais importantes periódicos de Relações Internacionais do mundo, adotou a política de rejeitar originais baseados em material do WikiLeaks – mesmo que se reduzissem a citações de análises derivadas. Nos termos de livo ainda não publicado "Who's Afraid of WikiLeaks? Missed Opportunities in Political Science Research", o editor de ISQ disse que a revista está atualmente "numa posição insustentável", e que isso continuará a ser o caso até que haja uma mudança na política da influente Associação de Estudos Internacionais (ISA).

A ISA tem mais de 6.500 membros em todo mundo e é a associação de especialistas hegemônica no campo. A ISA também publica Foreign Policy Analysis, International Political Sociology, International Interactions, International Studies Review, e International Studies Perspectives.

O presidente da ISA, de 2014 a 2015, é Amitav Acharya, professor da Escola de Serviço Internacional na American University em Washington, DC. Quase a metade dos 56 membros do conselho diretor dessa escola são professores de departamentos similares em todos os EUA, muitos dos quais operam como escolas alimentadoras para o Departamento de Estado dos EUA e outras áreas do governo orientadas internacionalmente.

Que a ISA tenha censurado o arquivo mais significativo sobre política externa dos EUA e impedido que seja considerado nos textos de especialistas que publica – ato que, além do mais, trabalha contra sus ambições institucionais e acadêmicas – põe em questão toda a produção científica daquele corpo especializado, produção que influenciou muito significativamente o modo como o mundo passou a compreender o papel dos EUA na ordem internacional.

Este próprio movimento da academia cerrar fileiras para proteger os interesses do Pentágono e do Departamento de Estado é, em si, digno de análise. A exclusão de qualquer referência aos telegramas, das páginas de periódicos especializados em Relações Internacionais, é um tipo de fraude acadêmica. Proibir qualquer referência a fontes primárias por razões não acadêmicas é mentir por omissão.

Mas ela aponta para uma visão mais ampla: a distorção da informação, no campo das relações internacionais e disciplinas correlatas, pela proximidade entre as estruturas acadêmicas e o governo dos EUA. Essas estruturas são menos independentes, até, que o tantas vezes reverente New York Times, o qual, por mais que se comprometa com variadas formas de censura aos telegramas, publicou, pelo menos, mais de uma centena deles.

A distorção operada por revistas no estudo de Relações Internacionais e a censura de WikiLeaks são exemplos claros de um problema. Mas identificá-lo é oportunidade também para analisar as relações internacionais que não foram aleijadas pela censura de materiais sigilosos.

O mundo segundo o Império dos EUA

The WikiLeaks Files: The World According to U.S. Empire (Verso, 2015) começa falando da necessidade de os especialistas analisarem o que os milhões de documentos publicados pelo WikiLeaks dizem sobre geopolítica internacional. Os capítulos fazem uma abordagem em constelação desses documentos, para mostrar como os EUA lidam com várias dinâmicas de poder regionais e internacionais.

É impossível cobrir a riqueza de material ou de relações nesse primeiro volume, mas espero que esse trabalho estimule jornalistas e acadêmicos a trabalharem para superá-lo.

O Capítulo 1 reflete o status dos EUA como um "império" e considera o que isso significa, buscando caracterizar o poder econômico, militar, administrativo e diplomático dos EUA com referência ao grande arco da história global ao longo do último século.

O capítulo estabelece o quadro geral do "imperialismo do livre comércio" que o restante da Parte II desenvolve – um quadro no qual o poder militar dos EUA é usado não para obter expansão territorial, mas para perpetuar a preeminência econômica dos EUA. Esses dois temas são considerados em mais detalhes nos Capítulos 2 e 3. O Capítulo 1 também situa WikiLeaks no contexto de um crescimento sem precedentes do secretismo oficial, e a evolução do poder dos EUA depois do início da "guerra ao terror".

O Capítulo 2 examina os materiais de WikiLeaks sobre a chamada "guerra ao terror". Além de prover um sumário detalhado dos crimes de guerra e abusos dos direitos humanos documentados nas publicações de WikiLeaks, além de revisão histórica detalhada da invasão e da ocupação do Iraque pelos EUA e consequente desastre que ali se arrasta até hoje, o capítulo também extrai conclusões sobre a subestrutura ideológica e conceitual as "guerra ao terror" norte-americana, e investiga como um aspecto da prerrogativa imperial dos EUA é exercer poder decisivo para garantir que expressões como "guerra justa", "tortura", "terrorismo" e "população civil" sejam definidas a favor dos EUA.

A discussão recolhe provas de todo o conjunto das publicações de WikiLeaks e também de outras fontes, como o recente relatório da tortura da CIA. No processo, o capítulo também examina os duplos padrões e os problemas que brotam do uso pervertido desses conceitos (inclusive a tentativa para deslegitimar e marginalizar o próprio WikiLeaks).

O Capítulo 3 embarca em discussão aprofundada do "império do livre comércio" – o relacionamento da forma de império norte-americano com a promoção universal da reforma econômica neoliberal, garantindo às empresas norte-americanas acesso aos "mercados globais".

O capítulo examina os telegramas do Departamento de Estado publicados por WikiLeaks, e publicações de 2007, também de WikiLeaks, sobre o "setor privado" incluindo material sobre bancos e negociações para o tratado global multilateral. O capítulo oferece exemplos iluminadores de como o impulso rumo à integração econômica serve como andaime de apoio à posição dos EUA, como um império ao alcance da mão, e provê pseudo legitimação para os padrões de intervenção, militar ou de outro tipo, como os praticados na América Latina e em outros pontos.

O Capítulo 4 é um guia faça-você-mesmo de como usar uma Biblioteca Pública WikiLeaks da Diplomacia dos EUA (PlusD), redigido pela editora de pesquisas Sarah Harrison. Quando essa introdução foi escrita, a Biblioteca PlusD continha 2.325.961 telegramas e outros registros diplomáticos. O Departamento de Estado usa sua própria lógica para criar, transmitir e indexar esses registros, a totalidade dos quais forma sua memória institucional primária.

Harrison explica como começar a procurar, ler e interpretar metadados e conteúdo dos telegramas, desde a infame proibição CHEROKEE de usar eufemismos do Departamento de Estado do tipo "opor-se ao nacionalismo de recursos".

A história da política dos EUA para a Corte Internacional de Justiça [International Criminal Court (ICC)] é um rico estudo de caso sobre o uso da diplomacia num esforço organizado para minar uma instituição internacional.

No Capítulo 5, Linda Pearson documenta o que os telegramas revelam sobre os esforços de sucessivos governos dos EUA para limitar a jurisdição da ICC. Nos telegramas há desde propinas e ameaças usadas pelo governo de George W. Bush para encurralar Estados e obrigá-los a assinar pedidos para que a Corte Internacional de Justiça garanta imunidade para que cidadãos norte-americanos não sejam acusados por crimes de guerra; e, já no governo Obama, esforços um pouco mais sutis para modelar a ICC convertendo-a em força adjunta da política exterior dos EUA.

Japão e Coreia do Sul foram epicentros da influência dos EUA no Leste da Ásia durante décadas. Os telegramas documentam quase dez anos de esforços dos EUA para influir em resultados da política doméstica nesses dois países alinhados com seus próprios interesses de longo prazo.

No Capítulo 14, o jornalista de investigação Tim Shorrock examina o triângulo geopolítico criado pelas relações dos EUA com aqueles dois países, incluindo as tentativas de jogar um contra o outro, como parte dos esforços de longo prazo para minar governos de esquerda e políticas dentro da região.

Do crescimento do PIB global ao longo da última década, mais de 50% estava no Sudeste Asiático. Esse entendimento levou a um explícito deslocamento das forças militares, diplomáticas e de vigilância, para aquela parte do mundo, que teve seu auge na estratégia de "diplomacia enviada à frente" [orig. forward deployed diplomacy] como a apresentou a secretária de Estado Hillary Clinton.

No Capítulo 15, Richard Heydarian examina os telegramas sobre o Sudeste Asiático e situa suas percepções e achados numa crítica histórica mais ampla da influência dos EUA naquela região.

A crítica do imperialismo ocidental é mais contencioso em regiões do mundo que, historicamente, foram protetorados dos EUA, como a Europa ocidental.

De tal modo os liberais europeus estão doutrinados na moderna ideologia imperialista, que até a ideia de que os EUA possam estar administrando um império global é descartada, rotineiramente, com referências a conceitos como "direito de proteger" – demonstrando surdez voluntária, não só para a estrutura do poder dos EUA ao redor do mundo, mas também para o quanto os EUA falam cada vez mais frequentemente deles mesmos como "império"

No Capítulo 6, Michael Busch examina os amplos padrões de influência e subversão adotados pela superpotência global sobre os sistemas políticos da Europa e dos estados-membros. Os temas incluem colusão do governo europeu com os programas de entregas especiais e tortura de prisioneiros, a subversão da justiça criminal europeia e sistemas judiciais para resgatar empregados do estado nos EUA acusados de prática de tortura e salvá-los de processos; e o uso da diplomacia norte-americana para abrir mercados europeus para as empresas aeroespaciais dos EUA, ou para tecnologias e patentes invasivas, monopolistas, com os organismos geneticamente modificados da Monsanto.

No Capítulo 13, Phyllis Bennis opta por uma visada ampla sobre as publicações de WikiLeaks sobre o Afeganistão – incluindo não só os telegramas do Departamento de Estado, mas também os Significant Action Reports (SIGACTs), publicados por WikiLeaks como Afghan War Diary, Congressional Research Reports e outros documentos sobre o Afeganistão publicados por WikiLeaks antes de 2010.

O que emerge é uma avaliação incisiva do enlouquecido envolvimento dos militares norte-americanos no Afeganistão desde 2001 e o custo daquilo, em termos de vidas humanas e bem-estar social.

Geopolítica é complicado, e tanto mais em relação a um país como Israel. A dominação militar de Israel no Oriente Médio; suas relações diplomáticas com outros atores regionais como Egito, Síria, Irã, Líbano e Turquia; o papel de Israel como avatar da política imperial dos EUA naquela área; a exploração desmesurada desse status protegido, por Israel, para fazer avançar as próprias políticas genocidas israelenses contra o povo palestino – todos esses são temas trazidos à tona no Capítulo 9, por Peter Certo e Stephen Zunes, que interrogam cuidadosamente os telegramas do Departamento do Estado relevantes para essa pesquisa.

No Capítulo 11, sobre o Irã, Gareth Porter oferece um excelente acompanhamento para interpretar o capítulo sobre Israel, escolhendo focar no que os telegramas revelam sobre o impasse geopolítico tripartido – EUA, Israel e Irã – e a sombra que essa estrutura lança sobre o resto do Oriente Médio.

De modo particular, Porter foca as conversações do P5+1 sobre o programa iraniano de enriquecimento nuclear, os esforços dos EUA para manipular informes de inteligência, para fazer pender contra o Irã o consenso internacional, e o papel de Israel, tanto como catalisador como agente da política dos EUA no Oriente Médio.

O conflito no Iraque é o foco do Capítulo 12, de autoria do jornalista Dahr Jamail, que trabalha sobre ampla faixa de materiais de WikiLeaks, para concluir que os EUA tinham uma política deliberada para exacerbar as divisões sectárias no Iraque depois de invadirem e ocuparem o país, na certeza de que nessas circunstâncias seria mais fácil dominar o país.

A consequente devastação é documentada em dolorosos detalhes colhidos dos materiais de WikiLeaks, incluindo telegramas diplomáticos, Congressional Research Reports datados do período 2005-2008 e os arquivos da guerra do Iraque a partir de 2010.

Jamail dedica especial atenção ao movimento "Sahwa" – o programa de contrainsurgência patrocinado pelos EUA, que foi implementado para responder à crescente influência de afiliados da al-Qaeda entre iraquianos sunitas agredidos pelo governo de Nouri al-Maliki, xiita e vassalo dos EUA.

Os EUA pagaram um grande número de iraquianos para que desertassem da insurgência sunita e passassem a lutar contra a al-Qaeda, sob a promessa de que receberiam emprego regular, mediante a integração ao exército regular iraquiano. Como Jamail explica, o fracasso do governo Maliki, que não honrou essa promessa, fez com que altos números de militantes sunitas – treinados pelos EUA, armados pelos EUA e pagos pelos EUA, mas não empregados – voltasse à insurgência, o que ajudou a inchar as fileiras do grupo antigo afiliado no Iraque, da al-Qaeda, o qual, em 2014, passou a ser conhecido como ISIS, ou "Estado Islâmico".

Os telegramas também informam como, através da fronteira nordeste do Iraque, na Síria, a cena foi construída para a emergência do ISIS. Desde o início dos tumultos na Síria, em 2011, propagandistas pró-guerra na mídia exigiram que os militares ocidentais atacassem a Síria para depor o presidente Bashar Al-Assad – apresentado, no linguajar típico do intervencionismo liberal, como "um novo Hitler".

A emergência do Estado Islâmico, ante o qual o único contrapeso viável dentro da Síria é o governo Assad, desmontou esse consenso propagandístico.

Mas o desígnio do governo dos EUA sobre mudança de regime na Síria, e a devoção dos norte-americanos à instabilidade regional, vêm de muito antes da guerra na Síria – o que os telegramas demonstram e comprovam.

No Capítulo 10, Robert Naiman oferece leitura cuidadosa dos telegramas de Damasco, destacando importantes pressentimentos históricos da atual situação na Síria, e desmontando as construções pró direitos humanos, só aparentemente benignas, de diplomatas norte-americanos, para trazer à luz a inflexão imperialista da política externa dos EUA e de sua retórica para a Síria – incluindo esforços muito concretos, dentro do país, para minar o governo e instaurar o caos, e que começaram uma década antes de 2011.

Há muitos clichês sobre a Turquia ser "uma ponte entre Oriente e Ocidente", mas não há como negar que esse país, de cerca de 75 milhões de habitantes, ocupa posição importante – seja como ator regional na geopolítica do Oriente Médio, seja como grande e economicamente poderosa democracia nominal, na franja da Europa.

Como Conn Hallinan escreve no Capítulo 8, os telegramas do Departamento de Estado ilustram os esforços, pelos EUA, para explorar a rica significação geopolítica da Turquia. Hallinan usa os telegramas como pretexto para examinar as alianças regionais, as preocupações estratégicas e os assuntos internos da Turquia. Entre os tópicos que ele cobre, estão os complexos cálculos estratégicos para a energia, que exige relações delicadas que a Turquia cultiva com o Irã e a Rússia, assim como também cultiva com EUA, Europa e Israel, no esforço para ganhar acesso aos mercados ocidentais.

Esse capítulo também examina o poder de barganha da Turquia, visível no modo como usou o veto contra a eleição do ex-primeiro ministro dinamarquês Anders Rasmussen ao posto de comandante da OTAN, para assim obrigar os EUA a pressionarem o governo dinamarquês a fechar um canal de televisão curdo que transmitia da Dinamarca.

O ensaio também examina questões internas da Turquia, como a política de governo contra grupos separatistas curdos, e o extraordinário conflito político subterrâneo e muita intriga entre Recep Tayyip Erdoğan e o expatriado e figura política muito influente Fethullah Gülen.

Desde o fim da Guerra Fria, e especialmente durante a chamada "guerra ao terror", a diplomacia dos EUA tendeu para o sul, o centro e o leste da Ásia. Exceto no caso de um ou dois casos pontuais de atrito, as relações EUA-Rússia deixaram de aparecer como principal dinâmica geopolítica na consciência popular.

Isso, claro, mudou, como um dos efeitos do conflito na Ucrânia. Mas a consciência popular não é a realidade. Como Russ Wellen mostra no Capítulo 7, na década depois da virada do século, os EUA praticaram política de expansão agressiva da OTAN, desafiando a hegemonia regional da Rússia dentro da Europa Ocidental e a área da URSS, e procurando subverter tratados nucleares, no esforço para preservar sua vantagem estratégica.

Como os telegramas mostram, esses esforços não passaram despercebidos dos russos, e há pontos de conflito que sempre reaparecem nas relações diplomáticas EUA-Rússia, mesmo durante o mais cordial dos períodos. O capítulo oferece o necessário contexto para as tensões que se veem infladas hoje entre leste e oeste, em torno de Síria e Ucrânia – além da questão do asilo que a Rússia deu a Edward Snowden – e oferece insight crítico sobre uma relação geopolítica que, se mal conduzida, ameaça a sobrevivência de nossa civilização e de nossa espécie.

Talvez nenhuma região do planeta demonstre tão vivamente o pleno espectro da interferência imperial dos EUA, como a América Latina. Desde os anos 1950s, a política dos EUA na América Central e na América do Sul popularizou o conceito do "golpe de estado da CIA", depondo presidentes de esquerda democraticamente eleitos e instalando no poder ditaduras de direita pró-EUA; inaugurando o legado macabro de brutais guerras civis, esquadrões da morte, tortura e desaparecidos políticos; e condenando milhões à miséria, em benefício da classe governante nos EUA.

Como Alexander Main, Jake Johnston e Dan Beeton observam no Capítulo 17, o primeiro de seus capítulos sobre a América Latina, a imprensa em língua inglesa na região não viu mal alguns nos telegramas do Departamento de Estado, e não se cansou de repetir que não se encaixam no "estereótipo dos EUA conspirando para dar golpes, só preocupados com interesses comerciais e só se aliando à direita".

A verdade é o exato oposto disso: os telegramas demonstram uma continuidade perfeita entre a brutal política dos EUA para a América Latina durante a Guerra Fria e os movimentos mais sofisticados de derrubar governos que tiveram lugar em anos mais recentes.

O Capítulo 17 oferece ampla visão do uso da USAID e de ações políticas ou publicitárias da "sociedade civil" concebidas para dar a impressão de que são movimentos espontâneos e populares, dentre outros métodos mais diretos para obter "mudança de regime" em El Salvador, Nicarágua, Bolívia, Equador e Haiti.

O Capítulo 18, dos mesmos autores, foca a Venezuela, o inimigo socialista da hora, e, especificamente os esforços dos EUA para minar o país como força avançada regional de esquerda, desde o falhado golpe apoiado pelos EUA contra o governo do presidente Chávez em 2002.

A resposta dos EUA à divulgação do material de WikiLeaks trai a crença de que o poder deles residiria numa disparidade de informação: cada vez mais conhecimento para o império, cada vez menos para os súditos.

Em 1969, Daniel Ellsberg – mais tarde famoso por vazar os Pentagon Papers – tinha autorização de segurança que lhe garantia acesso à informação top-secret. Henry Kissinger solicitara o mesmo tipo de autorização. Ellsberg alertou-o para os perigos daquela autorização:

"Vai ficar muito difícil para você aceitar qualquer coisa de qualquer um que não tenha essas mesmas autorizações. Porque você sempre pensará, ao ouvir o que lhe dizem: 'O que esse homem me diria, se soubesse o que eu sei? Será que me daria a mesma opinião, o mesmo aconselhamento? Ou mudaria completamente as suas previsões e recomendações?' E ao lidar com alguém que não tenha essas autorizações, você estará condenado ao ponto de vista do que você deseja fazê-lo acreditar e da impressão que quer que ele leve de você, porque você terá de mentir cuidadosamente a ele, sobre o que você sabe. De fato, você estará obrigado a manipulá-lo. Você acabará por desistir de avaliar o que essas pessoas lhe digam. O risco é você converter-se numa espécie de idiota. Você deixará de acreditar em praticamente todo o resto do mundo, não importa o quanto alguém saiba ou tenha experiência nas respectivas áreas específicas, e que podem ser saberes e experiência muito maiores que as suas."

Libertados dos selos de sigilo e secretismo, os materiais de WikiLeaks saltam sobre o fosso entre os idiotas com autorização de segurança máxima, mas incapazes de ouvir, entender, aprender ou descobrir, e nós, seus leitores.

27 de agosto de 2015

Fantasmas da esquerda

Poucos se lembram que o Iêmen já teve movimentos vibrantes e uma esquerda poderosa.

Bilal Zenab Ahmed

Jacobin

Membros armados da Frente de Libertação Nacional do Iêmen, que forçaram os britânicos a se retirarem, em 1967.

Tradução / Em maio de 2004, Mark Seddon, colunista do The Guardian, noticiou que enquanto visitava um mercado negro do norte de Sana'a, ele encontrou rifles automáticos L1A1 entre uma seleção de diversas outras armas de fogo.

As armas eram feitas no Reino Unido, mais uma das muitas outras lembranças de “um século e meio de comando da capital Áden, que foi um dia o mais estratégico dos portos do mundo.” Outras incluíam cemitérios militares, uma réplica em escala real do Big Ben chamado “Litlle Ben”, caixas de correio e ocasionalmente algumas notas de libras.

Os ingleses deixaram o sul do Iêmen derrotados. Eles não foram capazes de controlar uma grande insurgência anti-imperialista durante a Emergência de Áden, e na queda de sua retirada, os grupos marxista-leninistas se uniram a seus antigos aliados para criar a República Democrática do Iêmen.

No entanto, diferentemente do reino britânico, a lembrança do governo de esquerda foi amplamente esquecida. Como foi então que a militância religiosa, através da Al-Qaeda na península arábica e agora o Estado Islâmico, vieram a definir nossas percepções do sul do Iêmen menos de cinco décadas depois da vitória da Frente de Liberação Nacional?

Da emergência para a unificação

A Emergência de Áden foi a cristalização da onda regionalista durante 1950 e 1960, quando os movimentos de liberação nacional de esquerda cresceram em popularidade. Essas tendências foram especialmente dominantes no norte e no sul do Iêmen.

Os iemenitas viviam em um país subdesenvolvido, mesmo comparado a seus vizinhos, e estavam profundamente assustados de séculos de conflito tribal, colonização, e da política dinástica e religiosa. Uma mistura de pan-arabismo, marxismo-leninismo, e revolta de clãs tornou-se a manifestação ideológica de sua exaustação, levando ao termino de uma década de turbulência.

O norte do Iêmen mergulhou em uma guerra civil após um golpe de estado republicano apoiado pelo Egito por Abdullah as-Sallal em 1962. Prenunciando a violência atual, notavelmente por sua aparente falta de sectarismo religioso, a guerra civil no norte do Iêmen viu a Arábia Saudita apoiar a criação de um Califado xiita de Zaydi contra o governo pan-arábico. Riyadh queria deixar passar a aliança dos xiitas com a monarquia para combater o republicanismo secular na península arábica, que ameaçava atingir a família real saudita também.

Enquanto isso, as tensões estavam extremamente exacerbadas no sul do Iêmen devido a um fluxo constante de propaganda anti-imperialista do Egito de Nasser, assim como da Império Britânico e de seus plano de patrocinar um estado monárquico federalista para substituir seu governo depois da independência. Se a transição tivesse dado certo, a Federação da Arábia do Sul teria parecido estruturalmente com os Emirados Árabes Unidos.

Diversas organizações políticas anti-britânicas e guerrilheiros aderiram firmemente a dois campos rivais: a Frente de Libertação Nacional, que estabeleceu relações com o Egito, e a Frente pela Libertação do Iêmen do Sul Ocupado. Esta era composta massivamente por habitantes de Áden, e muitos deles queriam criar uma república socialista após a independência. A Frente de Libertação Nacional partilhava também de muitas dessas aspirações, mas seus membros eram principalmente pessoas vindas do mundo rural, e expunham uma afinidade ideológica muito grande com os partidos marxista-leninistas da China e da União Soviética.

Ambas Frentes atacaram-se uma a outra, assim como tropas inglesas (porém nos anais da guerra, oficiais britânicos admitiram culpar ambos os grupos por muitos dos ataques).

A guerra começou quando foi declarado estado de emergência após um ataque de granada contra o Alto Comissário Kennedy Travaskis. Enquanto os rebeldes impuseram vitorias significantes através de ataques surpresas, particularmente no distrito da cratera de Áden, a maioria das mortes foram de lutas internas.

Os britânicos finalmente fugiram em 1967. Até a guerra do Iraque, essa tinha sido a maior guerra da Inglaterra na região. Depois de um breve governo de conciliação, a Frente de Libertação Nacional deu um golpe contra a outra frente e revolucionários do sul do Iêmen, criando a República Popular Democrática do Iêmen. Esta se alinhou com a União Soviética, passando a expor diversos dogmas do marxismo-leninismo, incluindo o controle estatal de diversos ramos da economia.

Não muito mais tarde, os eventos regionais levariam o bureau político de Áden a reconsiderar seu posicionamento linha-dura. Os eventos chave foram a derrota do levante de Dhofar em Omã, a repulsa pelos quadros da República Popular Democrática após embates na fronteira com a Arábia Saudita, e a inabilidade da revolução da Frente Nacional Democrática em destronar Ali Abdullah Saleh no norte do Iêmen (agora conhecido como República Árabe do Iêmen, depois da vitória republicana na guerra civil, que acabou em 1970)

O levante de Dhofar foi inicialmente uma revolta tribal que começou em 1962 com a insurreição de Musallim bin Nafl, um líder tribal que obteve armas e veículos da Arábia Saudita, assim como suporte do exilado Imam Ghalib bin Ali. Dhofar era uma província totalmente marginalizada ao sul de Omã que sofria de profunda dominação social, econômica e linguística (enquanto a corte do Sultão Taimur em Muscat falava árabe, os habitantes de Dhofar se comunicavam em várias línguas árabes do sul como Shehri e Mehri).

Por volta de 1965 os esforços do Sultão Taimur em pacificar a revolta tinham radicalizando-a, levando os comitês de organização a se envolver com a Frente Popular para a Libertação de Omã. Esta era uma aliança de grupos com várias demandas, incluindo autonomia e desenvolvimento. Os blocos marxista e pan-arabista também pressionavam pela destituição da monarquia, ganhando grande influência com a recém criada República Popular Democrática do Iêmen, que tinha fronteira com Dhofar.

Depois de um sério debate sobre como continuar a revolta, que demandou ajuda estrangeira, os marxista-leninistas tomaram o controle do movimento em um congresso em 1968. Eles renomearam o movimento como a Frente Popular pela Libertação do Golfo Arábico Ocupado, e começaram a receber armas, treinamento, e apoio logístico da República Popular Democrática do Iêmen, China e da União Soviética.

Desejando exportar sua revolução, Áden também apoiou incursões dentro da Arábia Saudita em 1968 e em 1973, e na República Árabe do Iêmen, apoiou uma rebelião da Frente Nacional em 1978.

Sua penetração na Arábia Saudita foi a primeira a ser repelida, com o bombardeio dos guerrilheiros pela Força Aérea Paquistanesa em defesa de Riyadh. O levante de Dhofar tinha, através da “astucia da história”, inadvertidamente forçado o estado de Omã a reinventar a si mesmo através da contra insurgência.

Westminster não tinha nenhuma intenção de sustentar o governo do Sultão Taimur dada a retirada planejada do Reino Unido do golfo pérsico em 1971, e apoiou seu filho o Sultão Qabos na tomada do poder e na transformação ambiciosa do até então subdesenvolvido país. Grandes reformas foram implementadas, tecnologias modernas como os telefones foram introduzidas, e Dhofar foi formalmente incorporada como uma província.

As hostilidades se encerraram em 1975, com a República Popular Democrática do Iêmen falhando em levar a revolução pretendida em Omã. Como resultado, o Iêmen enfrentou uma incerteza ideológica, assim como escassez material vinda do isolamento diplomático. Isso era particularmente grave dado que os confrontos com a Arábia Saudita deram tão errado.

A etapa final foi em 1978 com a rebelião da Frente Nacional no norte do Iêmen. A rebelião foi o maior esforço para destituir Saleh, que tinha vencido naquele mesmo ano e imediatamente se mudado para consolidar seu poder.

A rebelião foi liderada por várias facções de oposição, e foi apoiada pela República Popular e pela Líbia. Apesar do sucesso inicial na guerra, a rebelião não foi capaz de manter um território significativo, e os movimentos de assistência do Iêmen com um conflito na fronteira em 1979 foi pacificado em um acordo mediado pela Organização de Liberação Palestina.

A Frente Nacional foi finalmente derrotada em 1982 por uma combinação de forças militares e a Irmandade Muçulmana Iemenita. O efeito imediato do conflito foi ajudar a galvanizar a diminuição de elites militantes no Iêmen popular.

O Presidente Abdul Fattah Ismail tinha liderado a criação do partido socialista iemenita em 1978, para substituir a Frente Nacional com representação de todas as facções de esquerda na República Popular. No entanto, ele não pode se prevenir da rápida ascensão de membros do partido que, como resultado das derrotas externas, favorecessem uma política externa menos intervencionista e reformas no estado.

Quando Ismail renunciou a seus cargos (alegando razões médicas, mas que porém é possível que tenha sido alertado de um processo de impedimento) em 1980, passando a presidência para o Primeiro Ministro Ali Nasser Muhammad, foi uma indicação de que um bloco de pessoas não militantes tinha tomado o poder no país.

Isso foi um deleite particular para o bureau político de Brezhnev, que tinha por muito tempo considerado Ismail um irresponsável, por sua falta de vontade em comprometer suas ambições regionais e por sua recusa em até mesmo considerar ser paciente com as monarquias do Golfo, o que estava fora de sincronia com a estratégia externa da União Soviética àquele tempo.

Esse pivô de longe da militância acelerou a situação depois da guerra civil de 1986 entre os apoiadores de Ismail e Muhammad, que levou a morte do ex-presidente em uma batalha naval, o exilio do segundo na República Árabe do Iêmen, e a ascensão do Ministro da Defesa Ali Salim al-Beidh ao poder.

Al-Beidh tinha menos interesse na militância burocratizada de Ismail do que Muhammad, e começou imediatamente a explorar as reservas de óleo enquanto reabria as conversas para a unificação com a Republica Árabe do Iêmen.

O governo radical que ele seguiu, entretanto, não deveria ser endossado. Todas facções que estavam com a República Popular modelaram a si mesmas de uma forma autoritária, de partido único à maneira amplamente adotada pelo bloco socialista. Como resultado, a República Popular foi marcada por uma repressão brutal e por um largo período de sua história, Ismail governou como um ditador.

Entretanto, é importante notar suas conquistas materiais. A República Popular encerrou um século e meio de dominação do Império Britânico que, porém, poderia ter continuado na era pós-colonial. Pela década de 1970, se vangloriava do suporte estatal para o emprego, saúde pública, educação, moradia, incluindo zonas fora da cidade de Áden, em províncias que foram negligenciadas pelos britânicos.

Enquanto a atual nostalgia pela República Popular enfatiza essas conquistas materiais, assim como a sua vitória sobre os britânicos, é importante lembrar que esses ganhos não foram tão impressionantes como poderiam ter sido (embora eles tenham diminuído o que foi feito pela República Árabe do Iêmen, que por exemplo nunca implementou um programa de alfabetização focado nas mulheres como a República Popular fez na década de 1970).

O grande problema é que a República Popular foi refém de tendências históricas fora do controle de Áden. Ao tempo que começaram a implementar suas políticas na década de 1970, a maioria de seus aliados (especialmente do bloco socialista) tinha começado a relaxar os controles estatais e a explorar novas relações com o mercado.

Áden também nunca se recuperou do fechamento do canal de Suez de 1967 à 1975, especialmente porque isso ocorreu ao lado da rápido ascensão das monarquias do golfo como novos centros marítimos e de comércio transnacional.

A escala dessa transformação foi tão rápida e imensa que é praticamente impossível lembrar a importância econômica e estratégica que Áden tinha para os britânicos. Depois de uma geração, isso foi quase totalmente substituído por cidades como Dubai, Manama, e Doha, que agora possuem muito mais importância devido a produção e exportação de petróleo.

Não é coincidência que o firme declínio – socialmente e economicamente – do sul do Iêmen coincidiu com um ressurgimento de uma memória popular favorável da República Popular. De fato, o atual movimento de independência do sul tem suas raízes em maio de 2007 quando ex-pensionistas demandaram mais generosidade na assistência de Sana ‘a.

Seus pequenos protestos rapidamente explodiram em amplas reivindicações por autonomia e secessão, principalmente porque em suas demandas por igualdade e maior auxilio do estado, eles galvanizaram um amplo senso de descontentamento da sociedade do sul do Iêmen. Esse senso de impaciência é impossível de ser compreendido sem observar a realidade política e econômica da vida desde a unificação.

O nacionalismo emergente

A atual nostalgia pela República Popular explica muito sobre a presente situação do Iêmen, uma situação pintada pelo descontentamento com os termos da reunificação iemenita e, especialmente desde 2007, com a emergência de um nacionalismo sul-iemenita como uma articulação ideológica de injustiças de longo tempo com a falta de direitos democráticos e econômicos em um país.

Desde a unificação com a República Árabe de Saleh, o sul tem sido subjugado por vários problemas que são resultado da adoção súbita do livre mercado na economia. As tensões sobre a privatização se tornaram graves o suficiente para os líderes do sul tentarem separar o país recém unificado de uma vez.

Sana'a reestabeleceu o controle sobre o sul durante a guerra civil iemenita de 1994, e continuou sua imposição de políticas impopulares apoiado por poderes como os EUA e a Arábia Saudita, assim como por credores internacionais como o FMI.

Os subsídios foram retirados, a moeda foi desvalorizada, o setor público foi dilacerado com horrendas consequências para a habitação, saúde e educação, a rede de eletricidade e de água foi negligenciada e muitas pensões foram cortadas.

A unificação também levou a mais empoderamento das elites do norte, que foram capazes de comprar propriedade, ganhando o controle de industrias importantes como petróleo e turismo, e dominaram as universidades e o mercado de trabalho qualificado.

Saleh também começou rapidamente a implementar políticas culturais no sul que ele tinha usado previamente para neutralizar os dissidentes no norte. Essencialmente, o modo de Saleh era mediar diversas elites em um estado fraco, com ênfase particular destinada a empoderar os reacionários tribais para controlar os beduínos iemenitas.

Enquanto Saleh e seus apoiadores insistiam que isso era necessário devido às várias divisões da sociedade iemenita, era obvio para muitos sulistas que o propósito verdadeiro era prevenir que se juntasse muito poder em qualquer outra área do país, onde ele poderia ser usado para produzir um desafio significante a Sana'a.

Parte dessa estratégia se destinava a abastecer o crescimento da retórica religiosa dos sunitas Wahhabi que crescia em popularidade no Golfo. O renascimento da doutrina religiosa, da forma que foi disseminado pelas elites reacionárias ligadas às monarquias do golfo, serviu adiante para neutralizar o pensamento de esquerda na região.

As consequências foram particularmente severas em países como o Iêmen, onde eles prepararam o terreno para políticas religiosas reacionárias. Após anos de inquietação, eles também começaram a criação de novas formas de militarismo religioso, embora os iemenitas rejeitem amplamente grupos como Al-Qaeda e o IS na península árabe.

Esse é um ponto importante para observadores internacionais entenderem, particularmente da Amarica do Norte e da Europa Ocidental, porque isso desafia as narrativas da hesitação iemenita e a recepção que muitos militantes islâmicos receberam no país.

Muito das atuais disfunções sociais do Iêmen, então, não são um resultado inerente de problemas da sociedade iemenita; eles foram ventilados por Saleh e seus aliados de modo a silenciar a insurreição que um dia dominou o país, e que ameaçou contagiar toda a península, nas décadas anteriores ao seu governo. Sua hegemonia será impossível de ser suplantada sem se abrir espaço para ideologias e plataformas que foram meticulosamente suprimidas da sociedade iemenita.

Interessante é que a repercussão de sua repressão motivou a criação de diversas facções agora em guerra umas contra as outras. Os Houthis começaram como o renascimento da organização cultural xiita Zaydi chamada Juventude Crente, que cresceu em reação direta ao caráter cada vez mais sunita fundamentalista da sociedade iemenita.

As tribos nortenhas reagiram ao clima sociocultural se voltando a identidade xiita que pareceu ter sido destronada com a criação da Republica Árabe do Iêmen. E no sul, o nacionalismo para a agora defunta República Popular começou a crescer ao passo que a política secular cultural foi manifestamente desvendada, com graves consequências particularmente para as mulheres do sul.

Essa tendência atual não pode ser confundida com um desejo de se reestabelecer a República Popular em todos seus aspectos. Há mais ou menos um consenso que o regime anterior era impiedosamente opressor. Antes, de 1994 em diante, o nacionalismo se tornou seguramente uma grande articulação para várias injustiças na sociedade local, que são entendidas amplamente como uma consequência do controle nortenho de Saleh.

As nascentes tendências ideológicas se solidificaram em 2007 quando uma revolta dos oficiais militares aposentados que buscavam suas pensões se espalhou pelo sul, finalmente se amalgamando no Al-Hirak, conhecido internamente como “o movimento do sul”.

Os comitês locais do Al-Hirak variam em suas posições, de desejar abertamente a independência, a autonomia local, a aumentar o federalismo no estado mais amplo. De qualquer forma, eles estão unificados pela nostalgia da República Popular.

Apesar de seu autoritarismo, havia um grau de redistribuição, proteção estatal, e mais importante, estabilidade econômica que foi perdida com sua derrubada. A existência da República Popular também proveio pelo menos esperança de que alternativas sérias ao capitalismo autoritário e monárquico poderiam tomar conta da península arábica.

Isso é precisamente o que fez do Al-Hirak, definitivamente um dos movimentos mais democráticos do país, tão assustador a grandes poderes da região. Os militantes religiosos dominam as novas estórias e trabalham pesadamente em considerações estratégias, em parte porque eles são úteis em marginalizar a força potencial da política democrática no país.

A Primavera Árabe foi um momento no qual a sociedade iemenita começou a reviver brutalmente ideologias reprimidas e movimentos políticos em resposta a novas condições. Foi como que se possibilidades revolucionárias que foram cuidadosamente suprimidas da sociedade iemenita desde que o inicio do período pós-colonial voltou à tona, com consequências particularmente fortes para movimentos de juventude como o Al-Hirak.

Críticas aos bombardeios dos EUA e da Arábia Saudita estão servindo apenas para fragmentar a sociedade iemenita, e subvertendo essas novas possibilidades ao empoderar os jihadistas, perdem o ponto. O rei saudita Salman sempre teve interesse em ver tal desfecho. Movimentos como o Al-Hirak são construídos na memória cultural dos iemenitas, particularmente nos do sul, pressionando por políticas genuinamente democráticas que países como a Arábia Saudita não tem absolutamente nenhum interesse em ver sendo realizadas em suas fronteiras.

É mais palatável para eles ver uma aliança potencial entre forças diversas como aquelas que se engajaram na Conferência de Diálogo Nacional, que incluiu os Houthis, revolucionários tribais, o Al-Hirak, e vários líderes da sociedade civil, que e impossível por uma guerra imposta. A alternativa seria outra República Popular exportando potencialmente ao Conselho de Cooperação do Golfo.

Aquelas armas britânicas no mercado negro iemenita podem ser uma relíquia de uma guerra que ocorreu antes que muitos de nós tivéssemos nascido, mas certamente a dinâmica não mudou. Como era o caso há quarenta e oito anos atrás, ninguém tem nenhum interesse em ver a democracia iemenita vingando e influenciando seus vizinhos. A questão então é como movimentos como o Al-Hirak garantirão seus objetivos contra os desejos de grandes poderes como a Arábia Saudita e os EUA.

A lamentável tendência da história iemenita aponta para mais conflito e não se sabe quão prolongada a guerra continuará a moldar as forças no terreno. Alternativas progressistas permanecem elusivas.