30 de novembro de 2015

Míssel contra o gasoduto

Manlio Dinucci


Tradução / O míssil AIM-120 AMRAAM disparado de um F-16 que voava sob bandeira turca (míssil e avião fabricados nos EUA) não foi dirigido só contra o avião de combate russo que luta na Síria contra o ISIS, mas contra alvo muito mais importante: o "Ramo Turco", gasoduto que traria gás russo para a Turquia e, a partir dali também para a Grécia e outros países da UE.

O "Ramo Turco" foi a resposta de Moscou à proibição, por Washington, de que prosseguisse a construção do "Ramo Sul", que contornaria a Ucrânia e levaria gás russo para Tarvisio (Udine) e para todos nós, na UE, com grandes benefícios para a Itália também em termos de novos empregos. Aquele projeto, lançado pela Gazprom da Rússia e pela italiana Eni, depois expandido para Wintershall da Alemanha e a EDF francesa, já estava em fase avançada de implementação (ENI Saipem tinha contrato de € 2 bilhões, para construir o gasoduto através do Mar Negro), quando, depois de provocar a crise ucraniana, Washington inventou e lançou o que jornal New York Times chamou de "estratégia agressiva de redução do fornecimento do gás russo para a Europa."

Sob pressão dos EUA, a Bulgária bloqueou, em dezembro de 2014, o trabalho de escavação; assim, enterrou o projeto Ramo Sul. Ao mesmo tempo, no entanto, apesar de Ancara e Moscou estarem em campos opostos na questão da Síria e do ISIS, a Gazprom assinou acordo preliminar com a empresa turca Botas, para construírem um duplo gasoduto Rússia-Turquia através do Mar Negro.

Em 19 de junho, Moscou e Atenas assinaram acordo preliminar sobre a extensão do Ramo Turco (ao preço de US $ 2 bilhões, a serem pagos pela Rússia) até a Grécia – convertida em porta de entrada do novo gasoduto em território da União Europeia. Em 22 de julho, Obama telefonou para Erdogan, pedindo que a Turquia se retirasse daquele projeto. Em 16 de novembro, Moscou e Ancara anunciaram novas conversações, mas para relançar o mesmo Ramo Turco, com capacidade ainda maior que a do maior gasoduto através da Ucrânia. Oito dias depois, em 24 de novembro, a derrubada do caça russo levou à suspensão, se não ao cancelamento, de todo o projeto. Não há dúvidas de que Washington festejou a vitória. A Turquia, que importa da Rússia 55% do gás e 30% do petróleo que consome, sofre pesadamente sob sanções russas, além do risco de perder os importantes negócios do Ramo Turco.

Quem, então, na Turquia, teria interesse em deliberadamente derrubar o caça russo, conhecendo as consequências? A declaração de Erdogan ("Gostaríamos que não tivesse acontecido, mas aconteceu. Espero que não volte a acontecer") sugere fortemente que o cenário é muito mais complexo do que sugerem as versões oficiais. Na Turquia estão instalados controles militares importantes, bases de radar e a OTAN sob comando dos EUA: a ordem para derrubar o caça russo foi dada dentro desse quadro de relações.

Qual a atual situação, nesse momento, na "guerra dos gasodutos"? EUA e OTAN controlam o território ucraniano, pelo qual passa o Rússia-UE; mas a Rússia acabou por ficar menos dependente daquele gasoduto (a quantidade de gás que viaja por aqueles dutos caiu, de 90% para 40% do gás russo que chega à Europa), graças a dois corredores alternativos. O Ramo Norte, ao norte da Ucrânia, transporta o gás russo para a Alemanha. A russa Gazprom quer duplicar seus dutos, mas o projeto enfrenta oposição da UE, representada ali pela Polônia e outros governos europeus (mais próximos de Washington que de Bruxelas). O Ramo Azul, operado em pé de igualdade pela Gazprom e pela Eni, passa pela Turquia, e por isso mesmo está também ameaçado. A UE poderia importar gás muito barato do Irã, por um gasoduto já programado através do Iraque e da Síria, mas o projeto está bloqueado (não surpreendentemente) a partir da guerra travada nesses países pela estratégia dos EUA/OTAN.

A pior empresa do mundo

Corporação Vale do Brasil mascara exploração brutal com a linguagem da solidariedade Sul-Sul.

Judith Marshall[*]

Jacobin

Tanto durante quanto depois de seus dois mandatos, o ex-presidente Lula apostou muito do seu legado na cooperação "Sul-Sul" com a África. Em troca, ele é tido pelo continente quase que com a mesma estima que os líderes das lutas de libertação, como o sul-africano Nelson Mandela ou o moçambicano Samora Machel.

Em sua primeira visita presidencial a Moçambique, em 2003, Lula foi recebido como um herói e fez discursos emotivos sobre a importância da solidariedade entre o Sul Global. Ele respondeu com empatia à epidemia de HIV e prometeu apoio brasileiro em um projeto de produção de medicamentos a preços acessíveis para combatê-la.

Mas, talvez, o mais revelador não tenha sido o que Lula disse na África, mas quem ele levou consigo. A comitiva brasileira incluía Roger Agnelli, ex-banqueiro que desempenhou um papel de destaque na avaliação de uma importante empresa estatal, a Companhia Vale do Rio Doce, antes de sua privatização em 1997.

Posteriormente, Agnelli tornou-se o primeiro presidente executivo da Vale, liderando a corporação nomeada a "pior empresa do mundo" em 2012 por ativistas devido a suas relações trabalhistas, seus impactos na comunidade e suas pegadas ambientais.

Não que isso tenha manchado a reputação de Agnelli. Impulsionado pelo "superciclo das commodities" com aumentos médios de 150% entre 2002 e 2012, pela aparente infinita demanda chinesa por minério de ferro e pelo abundante capital do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Agnelli parecia ter o toque de Midas. O tempo em que ele esteve no comando da Vale foi caracterizado por uma expansão global agressiva e por lucros e retornos fabulosos aos acionistas.

A equipe de relações públicas de Agnelli na Vale trabalhou duro para projetar um espírito de cooperação Sul-Sul em sincronia com a retórica de Lula, alegando que os investimentos em mineração do Brasil no Sul Global trariam empregos e desenvolvimento econômico, diferentemente das empresas do "Norte" imperialista.

Porém, ao rastrear a trajetória da Vale, seja em Moçambique, onde ela iniciou um investimento pioneiro em mineração de carvão, ferrovias e um complexo portuário, ou no Canadá, onde ela adquiriu operações de níquel já estabelecidas, ou dentro do Brasil, surge uma figura bem diferente, caracterizada pela dissonância clara entre a retórica da empresa e as realidades no terreno em todas as suas operações globais.

Como parte da equipe do fundo internacional de desenvolvimento dos trabalhadores, criado pela United Steelworkers (Trabalhadores do Setor de Metais Unidos, em tradução livre), o principal sindicato a representar os mineiros do Canadá, eu tive a oportunidade de monitorar essa desconexão durante a última década, tanto no Canadá, depois que a Vale comprou a Inco, a maior mineradora do país, quanto em Moçambique, onde o sindicato possui vínculos de longa data através de seus programas de formação sindical.

O histórico da Vale mostra que as práticas e atitudes de corporações multinacionais sediadas nos países-membros do BRICS não são diferentes das empresas internacionais de mineração ligadas aos países do centro capitalista.

Ao chegar no Canadá, a Vale gabou-se de sua experiência em gestão corporativa, das suas credenciais de Wall Street e da sua habilidade em lidar com sindicatos intrometidos. A empresa insistiu em grandes concessões como condições prévias até mesmo da mesa de negociação, provocando greves do sindicato de 11 e 18 meses, uma longa queda-de-braço na qual a Vale ganhou grande parte do que queria.

Tito Martins, um executivo da empresa, deixou bem claras as intenções da Vale ao fim da primeira greve numa reportagem intitulada "Vale comemora redução do poder do sindicato no Canadá", publicada no jornal Valor Econômico:

"O que era importante para a Vale nessa negociação era conseguir o alinhamento dos empregados do Canadá como um todo ao tipo de relação que a empresa mantém com seus funcionários no resto do mundo, que envolve três pontos cruciais: plano de pensão, bônus e linha de comando entre empregador e empregado sem intervenção direta do sindicato."

Desde 2011, a empresa viu acontecerem cinco mortes no país: uma em Thompson, no estado canadense de Manitoba, e quatro em Sudbury, Ontário, além de mais duas numa operação contratada a um braço de distância da Vale. Como um trabalhador disse: "Seja no subterrâneo ou na fundição e refinaria, a Vale tornou tudo mais perigoso do que era antes".

Mas a empresa deixou um legado ainda pior na África, onde é menos restringida por leis do governo. No entanto, é lá onde a Vale alega estar ajudando milhares de pessoas.

Vale na África
Diz a lenda que Lula apresentou Agnelli e a Vale a Moçambique, encorajando o então presidente Armando Guebuza a rejeitar a oferta chinesa pelos depósitos de carvão moçambicanos, porque os chineses levariam seus próprios trabalhadores, em vez de contratarem mão-de-obra local.

Seja qual for o envolvimento de Lula, Agnelli foi convidado pouco depois da visita do presidente brasileiro em 2003 para tornar-se membro do conselho consultivo internacional de Guebuza. Pouco depois, a Vale foi a primeira empresa multinacional a ganhar licença para desenvolver as principais reservas de carvão de Moçambique.

Semelhante à visita de 2003, durante seu retorno a Moçambique em 2012, Lula transmitiu mensagens contraditórias de solidariedade, por um lado, e propagandeou o investimento de empresas brasileiras, por outro. Mas dessa vez ele chegou com o sucessor de Agnelli, Murilo Ferreira.

Durante a viagem, o ex-presidente deu uma conferência pública intitulada "A luta contra a desigualdade social", apresentado por Graça Machel, viúva do primeiro presidente moçambicano, Samora Machel, e uma figura pública bem conhecida pelos seus próprios atos. Ela definiu Lula como um herói do povo, assim como Samora. Lula, por sua vez, falou sobre a experiência do Brasil sob o governo do Partido dos Trabalhadores (PT), caracterizando-o como um de crescimento e ao mesmo tempo de divisão do bolo econômico, além de garantir a criação de empregos e de programas sociais de redistribuição de renda que poderiam aliviar a pobreza.

Ele incitou empresas brasileiras a investirem em Moçambique para contribuir com a luta contra a desigualdade, em nome da justiça social. Porém, pouco depois da palestra, Lula uniu-se ao novo presidente da Vale numa campanha de lobby junto à ministra do trabalho de Moçambique, Helena Taipo, para reduzir as restrições aos trabalhadores estrangeiros nas operações da mineradora brasileira no país.

A revista Veja falou sobre o caso:

"A Vale foi uma das patrocinadoras do tour que Luiz Inácio Lula da Silva fez há duas semanas pela África. O presidente da empresa, Murilo Ferreira, viajou no mesmo jatinho do ex-presidente até Moçambique. Lá, eles se reuniram com a ministra do Trabalho, Helena Taipo, que vem colocando barreiras para a exploração de carvão pela empresa brasileira na mina de Moatize, uma das maiores do mundo. Na reunião, Lula tentou, sem sucesso, convencê-la a derrubar a exigência de empregar 85% de mão de obra moçambicana no empreendimento."

A pressão brasileira para reduzir o controle moçambicano sobre os trabalhadores estrangeiros não é novidade. Num encontro com trabalhadores de Canadá e Brasil em 2011, nos reunimos com o diretor de trabalho da província Tete e fomos informados de que a Vale constantemente pressiona as autoridades para que permitam à empresa exceder as cotas de trabalhadores estrangeiros anteriormente negociadas.

A fase de construção do projeto da mina incluiu não apenas um grande número de trabalhadores brasileiros, como também trabalhadores de construção das Filipinas. Muitos destes foram contratados pela Kentz Engineers and Contractors, uma empresa que opera em quase trinta países e comanda uma das maiores refinarias de níquel e cobalto do mundo, em Madagascar.

A Kentz emprega mais de 2.500 trabalhadores filipinos fora de seu país em suas operações globais. Depois que muitos filipinos trabalhando pela Kentz em Madagascar foram repatriados no fim de 2010, eles abriram denúncias junto à Administração Filipina de Emprego em País Estrangeiro (Philippines Overseas Employment Administration, ou POEA) alegando práticas de trabalho injustas pela Kentz, incluindo atrasos de pagamentos, alojamentos superlotados, falta de alimentos e atendimento médico inadequado.

A Kentz foi uma das muitas empreiteiras contratadas pela Vale Moçambique conforme esta construía em suas concessões de carvão em Moatize, no noroeste do país. Inspetores do departamento encontraram trabalhadores no canteiro de obras que tiveram negadas as férias, os fins de semana e o vestuário de proteção adequado. A Kentz também não registrou seus trabalhadores moçambicanos na previdência social.

Em 18 de novembro de 2011, o Ministério do Trabalho de Moçambique finalmente respondeu, expulsando 115 trabalhadores, a maioria da África do Sul e das Filipinas, ilegalmente levados ao país pelos subcontratados da Vale. A Kentz Engineers foi multada em quase 34 milhões de meticais (cerca de 1,1 milhão de dólares) e recebeu 30 dias para acertar as irregularidades.

Os trabalhadores com base em Tete que participaram nos intercâmbios internacionais indicaram que a fase operacional da mina de carvão de hoje emprega não apenas o número máximo da cota, ou mais, de trabalhadores brasileiros, como também muitos outros estrangeiros, com ou sem status de residência legal, vindos de países vizinhos e de fala inglesa, como Zimbábue, Zâmbia e Malawi. Filhos e sobrinhos de figuras do poderoso governo moçambicano e de empresários na capital nacional, Maputo, também ganham empregos cobiçados na Vale.

Além disso, o desenvolvimento mais amplo prometido pelo Partido dos Trabalhadores e pelos funcionários da Vale é incerto. Apesar de serem os mais impactados pelo crescimento da mineração — e de serem quem lida com a poluição, a escassez de moradias e de outros serviços, o trânsito, o barulho e o aumento do custo de vida —, as pessoas nas comunidades locais ao redor da mina e os nativos da cronicamente subdesenvolvida província Tete têm visto raros empregos novos e poucos benefícios a partir do projeto.

As poucas oportunidades de emprego geradas pelas operações de mineração e as drásticas desigualdades nos salários e benefícios entre estrangeiros e cidadãos nacionais criam uma indignação generalizada. Um trabalhador da Vale comentou: "Trabalho ao lado de estrangeiros, mas eles ganham quatro vezes mais do que eu". Outro disse: "Os operadores de máquinas moçambicanos trabalham junto aos brasileiros, alguns dos quais possuem menos treinamento do que os moçambicanos, mas o brasileiro é automaticamente o supervisor".

Estes sentimentos foram expressos numa pesquisa realizada em 2012 para determinar se as experiências dos trabalhadores da Vale no Brasil eram semelhantes às vividas pelos trabalhadores da empresa em Moçambique e no Canadá. Esses comentários expressam o vazio das promessas da Vale de criar postos de trabalho para moçambicanos, e também demonstram a força do sentimento antibrasileiro, que não é muito diferente dos sentimentos antiamericanos ou antibritânicos nos lugares onde se estabelecem empresas desses países.

Moçambique, assim como outros governos africanos, não possui os meios ou a vontade política de usar megaprojetos em mineração como pilares estratégicos para uma tática industrial mais ampla. Projetos de mineração tendem a se tornar enclaves, articulados globalmente, mas desconectados de seu próprio país.

Embora não haja estudos sistemáticos para analisar, o sentimento geral em Moçambique sugere que a Vale está, na verdade, diminuindo os empregos. Reassentamentos forçados para dar espaço às minas deixaram famílias rurais sem terra ou água para suas atividades agrícolas, e sem acesso aos mercados locais.

Um estudo recente realizado por Antonio Jone para o Observatório do Meio Rural moçambicano concluiu que famílias enviadas para reassentamentos rurais em Cateme foram afetadas negativamente. A aderência tão elogiada da Vale a todas as recomendações do Banco Mundial sobre reassentamentos forçados está, na verdade, longe da realidade.

Nos relatórios oficiais de sustentabilidade da Vale e em seus vídeos de Relações Públicas, os reassentamentos moçambicanos são considerados modelos de excelência. Mas o "relatório de insustentabilidade" preparado pela Articulação Internacional dos Atingidos pela Vale vai além da agitação para capturar as vozes dos reassentados que contam a história da falta de terra, da falta de água e de casas com rachaduras nas paredes e fundações desintegrando-se depois da primeira estação chuvosa.

O estudo mais recente de Antonio Jone, sobre "segurança alimentar" nos reassentamentos da Vale, confirma que eles têm sido tudo, menos uma história de sucesso, e, na verdade, deixaram as condições dos produtores camponeses muito piores do que estavam antes da remoção. Além disso, os artesãos das áreas afetadas pela concessão de mineração, como os que fazem tijolos, por exemplo, ficaram sem lugar para venderem.

Nos últimos anos eles têm realizado atividades de lobby agressivas direcionadas tanto ao governo moçambicano quanto à Vale. Adotando uma prática da cartilha corporativa, os artesãos argumentam que sofreram perdas permanentes de seus meios de subsistência através dos quais poderiam esperar uma renda vitalícia em torno de 350 mil dólares, em vez dos 2 mil que a Vale lhes pagou a princípio.

Em junho de 2013, a Vale declarou que a questão estava definitivamente fechada. Ela foi forçada a reabrir as discussões sobre a compensação, no entanto, pois os fabricantes de tijolos continuaram exigindo suas demandas com barricadas que pararam a mineração, apesar da prisão de seus líderes. O governo moçambicano respondeu com contínuas expressões de preocupação com os lucros perdidos por seu "parceiro no desenvolvimento", a Vale.

Vale no Brasil
As ações da Vale também fizeram com que a empresa ganhasse inimigos em casa. A expansão agressiva da corporação nos anos desde a sua privatização transformou-a na terceira maior mineradora do mundo, com operações em 13 estados brasileiros e em 27 países em seis continentes.

Apesar de suas origens como uma empresa estatal próxima ao governo brasileiro, a ascendência da Vale para seu status atual de empresa global foi caracterizada, assim como qualquer outra corporação capitalista, por uma devoção desmedida e obstinada aos altos lucros e generosos dividendos para seus diretores e acionistas.

Muitos brasileiros estão particularmente indignados com a forma com que esse ícone nacional passou para as mãos privadas em 1997 como parte do padrão global de privatizações sob programas de ajustes estruturais. Nos anos antes da chegada do Partido dos Trabalhadores ao poder, o BNDES assumiu a responsabilidade de promover privatizações. A venda da Vale é considerada o episódio de privatização mais escandaloso na história do Brasil.

A empresa foi vendida por cerca de 3,3 bilhões de dólares num período de paridade entre o real e o dólar. Uma apresentação de 2004 ao Tribunal Regional Federal (TRF) em Brasília apontou uma série de irregularidades que provavam que a Vale foi subavaliada. Algumas minas foram ignoradas nos cálculos, e outras, incluindo o setor florestal, depreciadas. Incontáveis ativos de valores enormes (tecnologias, patentes e conhecimento técnico relacionado à geologia e engenharia de minas) não foram nem sequer considerados e a participação acionária da Vale em outras empresas foi ignorada.

A lista de irregularidades é enorme. O Bradesco, banco responsável pela avaliação, tomou o controle da Vale um ano depois, e, não por acaso, o primeiro presidente da Vale, Roger Agnelli, era um ex-diretor executivo do banco.

Até mesmo uma década depois, um plebiscito informal pela renacionalização da Vale, organizado por sindicatos, estudantes e o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) em 2007 conseguiu mobilizar três milhões de votos. Apesar de o presidente Lula aparentemente não dar atenção às demandas do plebiscito, ele pressionou publicamente a Vale durante a crise econômica global que se seguiu.

A Vale tentou tirar vantagem da crise de 2008 para realizar demissões em massa e suspender investimentos planejados na indústria siderúrgica brasileira. Lula usou o sentimento popular contrário à privatização expressado através do plebiscito para justificar uma bronca pública que deu em Agnelli. Ele sugeriu que, para uma empresa tão próxima do governo quanto a Vale, havia uma obrigação de responder ao momento de turbulência global desempenhando um papel estabilizador.

Durante o ano de 2009, a visão do governo brasileiro sobre o papel que a Vale deveria assumir e a visão de Agnelli estavam abertamente desalinhadas. Por volta de setembro, a revista brasileira Exame sugeria que o governo planejava destituir Agnelli. Numa reportagem intitulada "Lula critica Agnelli e articula saída do presidente da Vale", o jornalista Rafael Souza Ribeiro reportou:

"Não é de hoje a vontade do governo em elevar sua participação no controle administrativo da Vale. Só este ano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva já falou algumas vezes que a mineradora precisa investir mais no Brasil para proporcionar emprego à população. Desde que demitiu mais de mil funcionários no ano passado em decorrência da crise econômica, Roger Agnelli, presidente da Vale, caiu em desencanto nos bastidores do governo."

É verdade que o uso da crise global por Agnelli para justificar a demissão de 1.300 trabalhadores e recuar nos seus compromissos de investimento na produção de aço no Brasil voltou para assombrá-lo quando o mandato de Lula terminou em 2011. A nova presidente do Brasil, Dilma Rousseff, orquestrou uma tentativa de mudança na liderança da Vale entre os blocos de acionistas da empresa próximos ao governo.

Murilo Ferreira assumiu o posto como novo presidente em 2011 e logo depois começou a visitar as operações da Vale por todo o mundo. A mudança na liderança de Agnelli para Ferreira e as promessas da Vale de uma gestão mais humana e de redução do estresse trouxeram esperança de mudança, mas as expectativas levantadas foram rapidamente frustradas pelo desprezo demasiado de Ferreira em relação aos líderes sindicais ao longo de sua turnê inaugural. No entanto, em resposta às críticas, ele concordou em se encontrar com 14 presidentes de sindicatos das operações da Vale ligadas à mineração no Brasil em setembro de 2011.

De acordo com um relatório de Valério Vieira, presidente do Sindicato Metabase Inconfidentes, que representa duas minas da Vale no estado de Minas Gerais, a maioria dos líderes sindicais presentes estavam felizes em comprar a ideia de Ferreira de uma Vale mais boazinha e amável e louvavam sua prontidão em dialogar. Eles elogiaram sua aparente emoção durante a discussão sobre as mortes no local de trabalho.

Mas Vieira – que, entre idas e vindas, trabalhou na Vale por 25 anos – não estava convencido. Em seu relatório para a Metabase, compartilhado com ativistas da Vale em outros países, Vieira contou que disse a Ferreira que o presidente levaria bem mais do que três meses para mudar o curso da Vale depois de uma década sobre a liderança de Agnelli. Além disso, demandaria um nível de vontade política que ainda não tinha sido demonstrada.

O relatório de Vieira da reunião identificou oito características do trabalho da Vale no Brasil: 1) A Vale é reconhecida por ser fortemente oposta aos sindicatos; 2) Um trabalhador da Vale tende a ganhar menos do que trabalhadores em lugares semelhantes; 3) Os gerentes da Vale constantemente constrangem os trabalhadores; 4) A Vale impõe metas de produção extremamente distantes da realidade; 5) Trabalhadores da Vale vivem sob ameaças constantes de serem demitidos sem justa causa; 6) Supervisores da Vale impõem medidas disciplinares arbitrárias frequentemente; 7) Trabalhar na Vale significa trabalhar em condições perigosas porque a Vale coloca a produção acima de todo o resto e muitas vezes encobre incidentes de saúde e segurança; 8) A Vale regularmente tenta comprar os sindicatos e os líderes do governo oferecendo veículos, viagens, cartões de crédito e outros privilégios.

Em 2012, um pequeno grupo de trabalhadores da Vale no Canadá, em Moçambique e no Brasil foram questionados sobre essas oito características do trabalho na Vale identificadas por Vieira para responderem se elas eram aplicáveis às suas realidades. Embora as situações em cada país sejam diferentes, a resposta esmagadora à pesquisa foi que a caracterização do trabalho na Vale feita por Vieira ressoava profundamente com outros países.

Por trás do marketing
Apesar dessas contradições, a Vale lidera as corporações brasileiras que alcançaram o status de "competidoras mundiais". Empresas como a Vale projetam uma imagem de si mesmas como "motores do desenvolvimento" tanto no Brasil quanto nos países onde investem, gerando emprego e crescimento econômico, um símbolo do "Brasil global".

Em contrapartida, o Estado brasileiro atribui grande importância ao apoio que dá a essas empresas. As grandes quantias de crédito concedidas pelo BNDES e outras políticas públicas criadas para apoiar e facilitar os investimentos globais das multinacionais brasileiras são vistas como plenamente justificadas e as atividades das empresas são retratadas como vantajosas para o Brasil como um todo.

O argumento é que através dessas "competidoras globais" o Brasil irá aumentar a entrada de capital estrangeiro (através dos depósitos dos lucros), aumentar as exportações, ampliar sua inserção nas cadeias de inovação global e beneficiar seus fornecedores, que também aumentam sua produção.

Esta narrativa está enquadrada no paradigma neoliberal: um país que quer ganhar uma posição hegemônica globalmente precisa de grandes empresas. Embora sejam tomadas por interesses privados e pela priorização aberta dos grandes lucros e retornos altos aos diretores e acionistas, as grandes empresas brasileiras e suas expansões globais são tratadas como sinônimos dos "interesses nacionais" brasileiros. A resistência dos trabalhadores e da comunidade às operações dessas empresas, seja em seu país natal ou no exterior, é prontamente vista como criminosa.

Será que essa tão anunciada ascensão dos BRICS a um grupo de elite de potências globais realmente abrange os interesses nacionais de todos os cidadãos do Brasil? Será que todos brasileiros veem o sucesso da Vale como uma "competidora global" como motivo para celebração? Será que pensam que a habilidade da Vale em entrar para a competição feroz entre as gigantes globais num mundo de grandes minerações significa que o Brasil "chegou lá", que agora pode ficar em pé, levantar a cabeça, ocupando orgulhosamente seu lugar no G20 entre os países "desenvolvidos" do Norte?

Assumir o sucesso da Vale e os interesses nacionais do Brasil como sinônimos é operar dentro de um velho discurso sobre desenvolvimento que vê a transição do estado-nação de uma sociedade agrária para industrial como o objetivo, com o Estado como o principal ator. Além disso, a sociedade nacional é considerada como o principal alvo de planejamento do desenvolvimento, e investidores estrangeiros diretos são apontados como a principal fonte de capital para realizar as metas de desenvolvimento de empregos, modernização e crescimento econômico.

Talvez compreenda-se melhor as corporações multinacionais dos BRICS ao sair desse velho discurso sobre desenvolvimento baseado em territórios, e situá-las, em vez disso, como agentes num novo discurso global baseado em fluxos. Este é um mundo onde há uma economia transnacional plenamente articulada em fluxos de capital, informação, tecnologia, equipamento e até mesmo terra, trabalho e forças de segurança particulares. Toda essa economia global opera fora da lógica e muito fora das regulações em jurisdições nacionais.

Uma grande mineradora tem responsabilidade mínima pelo território — e pelos cidadãos — no qual acontecem suas operações de mineração, atuando, em vez disso, através de cadeias de fornecimento globais e de fluxos altamente articulados que hoje caracterizam a economia global.

Corporações usam instrumentos de marketing para “pintar de verde” sua imagem com forte linguajar de sustentabilidade ou "pintá-la de azul", envolvendo-se no linguajar legitimador do Pacto Global das Nações Unidas. O que é apresentado ao público como necessidade de uma licença social para operar é, de fato, considerado internamente um exercício de gestão de riscos de segurança. Empresas são guiadas fundamentalmente por suas preocupações de controle de riscos, e veem qualquer pessoa, política ou instituição que entra no seu caminho como um risco de segurança e, consequentemente, um inimigo da corporação.

André Almeida, ex-diretor do Departamento de Inteligência e Segurança Corporativa da Vale, entregou recentemente um grande número de documentos a um promotor do Estado brasileiro que apontavam o envolvimento da Vale em uma ampla rede de espionagem e infiltração focada em pessoas e organizações consideradas pela empresa como inimigas. Entre estes estão jornalistas respeitados, advogados e ativistas de direitos humanos, assim como organizações, como Justiça nos Trilhos e Articulação Internacional dos Atingidos pela Vale.

Por mais perturbador que possa ser o comportamento da Vale, ele não é diferente das divisões de classe tanto dentro do Brasil quanto fora. As forças sociais da elite brasileira e de outros BRICS que pretendem tornar seus países competitivos na economia global são parte de uma nova classe transnacional de vencedores produzidos pela globalização. Através de suas corporações multinacionais, como a Vale, eles aspiram um consumo de classe mundial.

O desejo do governo e dos líderes empresariais nos BRICS em alcançar status global, medido por triunfos como receber as Olimpíadas e a Copa do Mundo, pode genuinamente incluir um componente de recuperação de orgulho, dignidade e respeito depois de séculos de humilhação colonial. A visão buscada, no entanto, não oferece nenhuma outra alternativa à ordem mundial atual de produção exploradora e consumo para poucos. As práticas dos capitalistas emergentes do Brasil, da Índia, da África do Sul ou da China distinguem-se muito pouco do saque de seus competidores globais ligados aos velhos centros imperiais da Europa e da América do Norte.

A visão dos BRICS exclui os pobres dentro de suas próprias nações e ignora o impacto ambiental do modelo de crescimento que aspiram ter. O desejo dos BRICS em serem agentes no sistema global mundial e consumidores de "classe mundial" reforça as disparidades existentes e inflige mais danos ao ambiente, transformando-os em importantes perpetradores de instabilidade e injustiça global.

[*] Judith Marshall se aposentou recentemente após vinte anos no sindicato dos metalúrgicos canadenses, onde coordenou projetos do Steelworkers Humanity Fund no sul da África e organizou programas de intercâmbio global.

David Cameron, não existem 70.000 combatentes moderados na Síria — e quem já ouviu falar de um moderado com uma Kalashnikov, em todo o caso?

Os deputados trabalhistas blairristas vão votar com Dave porque eles detestam Corbyn mais do que o ISIS

Robert Fisk

The Independent

Tradução / Nunca mais, desde que Hitler ordenou que o general Walther Wenck enviasse um inexistente 12º Exército para resgatá-lo do Exército Vermelho em Berlin, se teve notícia de líder europeu que acreditasse mais firmemente em fantasias militares como ferramenta de Relações Públicas, que Dave Cameron, semana passada. Falar na Câmara dos Comuns dos 70 mil combatentes "moderados" alocados na Síria não foi apenas mentir, no sentido das mentiras que Tony Blair mentia sempre – porque Blair se persuadiu, até acreditar firmemente na próprias mentiras –, mas algo que se aproximava bem mais do burlesco.

Foi coisa ensaiada no capricho – ridícula, cômica, grotesca, caricata. Chegou perto de uma forma esquisita de pantomima trágica. A certa altura, semana passada, um dos satrapas de Cameron já chamava o tal exército fantasma de "tropas de infantaria". Duvido que haja 700 combatentes "moderados" na Síria – e estou sendo muito generoso, porque o número certo deve estar mais próximo de 70 – mas nunca 70 mil. E os curdos sírios não vão acabar com o ISIS por nós; estão já ocupados demais tentando sobreviver aos ataques de nossos aliados turcos. Além do mais, "moderados" não costumava ser aquele pessoal que detesta armas? Quem, algum dia ouviu falar de moderado armado de Kalashnikov?

O exército do regime sírio – que são soldados de infantaria de verdade e nunca se preocuparam com rebeldes "moderados", porque quanto mais moderado, mais depressa fogem – é a única força regular ativa na Síria. E graças a Vladimir Putin, não a Dave, o "Relações Públicas", eles estão conseguindo começar a recuperar território sírio perdido. Mas, depois de ter perdido pelo menos 60 mil soldados – mortos a maioria pelos terroristas do ISIS e Frente al-Nusra – o exército sírio dificilmente conseguiria resistir a assalto contra Damasco feito pelos 70 mil "moderados" de Dave Cameron. Se esse exército fantasma existisse, já teria tomado Damasco e derrubado o governo.

Pois na Câmara dos Comuns, semana passada, queriam que acreditássemos nessa bobagem – tudo em nome de disparar dois ou três jatos bombardeiros contra o ISIS na Síria. Não nos tornará mais vulneráveis, disse Dave. O fato é que já estávamos vulneráveis, porque bombardeamos o ISIS no Iraque. Mas Dave sabe – e todos nós sabemos, não é? – que o ISIS quase com certeza cometerá uma atrocidade na Grã-Bretanha, para vingar a mais recente ideia tosca-ginasiana de Dave, o aventureiro intrépido. Depois – à moda Blair depois do 7/7 – Dave insistirá que o ISIS nos mata porque odeia nossos "valores". E na sequência virá o inevitável vídeo de um suicida-matador dizendo que matou nossos inocentes porque Dave Cameron mandou seus aviõezinhos miniatura bombardear o ISIS.

Estranho, nisso tudo, é que a maioria dos britânicos com os quais cruzo e a maioria dos árabes com que falo no Oriente Médio – sabem perfeitamente de tudo que escrevi acima. O Partido Trabalhista também sabe. Mas os deputados blairitas do Partido Trabalhista votarão com Dave, porque por mais eles detestam o culto maligno de ISIS, eles odeiam o culto maligno de Corbyn ainda mais. Será que eles também acreditam – como todos deveríamos acreditar – que o chamado Comitê Conjunto de Inteligência está dizendo a verdade sobre os míticos 70 mil "moderados"? E esse indizivelmente valoroso Comitê será estúpido a ponto de não ter contado a Dave sobre o papel do culto da morte regido pelos sauditas wahabistas, que é a direta inspiração religiosa e sectária para o ISIS? E se o Comitê contou tudo a Dave, por que Dave não falou sobre os sauditas na Câmara dos Comuns, semana passada?

Não, não estamos "em guerra". ISIS pode estar massacrando nossos inocentes, mas não está invadindo a gente aqui. ISIS nunca capturará Paris ou Londres – como nós e os americanos capturamos Bagdá e Mosul em 2003. Nada disso. O que ISIS deseja é nos convencer a nos destruirmos, nós mesmos. ISIS deseja que odiemos nossas minorias muçulmanas. ISIS quer guerra civil na França entre as elites e os muçulmanos privados de todos os direitos, muitos dos quais de origem argelina. ISIS quer que os belgas odeiem os muçulmanos de lá. Quer que os britânicos odiemos nossos muçulmanos. ISIS deve ter ficado ofendido pelos milhares de bons europeus que acolheram com amor o milhão de muçulmanos refugiados que chegaram à Alemanha. Os muçulmanos deveriam estar marchando rumo ao novo Califato – nunca fugindo dele! Então, agora, ISIS quer nos pôr contra os refugiados.

Para conseguir isso, ISIS terá de implicar nas suas atrocidades centenas de milhares de refugiados muçulmanos inocentes. Terá de forçar nossas nações da União Europeia a implantar o Estado de Emergência, suspender as liberdades civis, invadir casas de muçulmanos. ISIS quer destruir a própria União Europeia. Quer atacar no coração do ideal europeu, liquidando a pedra basilar da união: nos convencendo a rasgar o acordo Schengen e a fechar todas as fronteiras. E é exatamente o que estamos fazendo. Estaremos nós, em uma espécie de autopânico, trabalhando realmente a favor de ISIS? Se essa instituição maldita não proibisse bebidas alcoólicas, seus membros estariam brindando com champanhe à vacuidade, às mentiras, aos sofismas de nossos líderes políticos, ao medo abjeto que, agora, eles tentam regularmente injetar em nós, sob o perigoso velho grito de "Unificar a nação".

Vladimir Putin compreende tudo isso. Sabe que a Turquia está ajudando ISIS – razão pela qual ele destruirá a rota de contrabando de petróleo que leva à Turquia – e, como ex-oficial da KGB, Putin também compreende o cinismo que rege todas as crises. Se um avião americano tivesse invadido espaço aéreo turco – Putin perguntou na conferência de imprensa no Kremlin, ao lado de François Hollande semana passada –, será que alguém acredita que a Turquia teria assassinado a tiros um piloto americano? Todos sabemos a resposta a essa pergunta. Se a Turquia quer destruir ISIS, por que bombardeia os curdos inimigos do ISIS? Por que mete na cadeia dois jornalistas turcos, porque noticiaram como o serviço turco de inteligência contrabandeia armas para terroristas islamistas na Síria? E Putin nada terá a objetar, se a União Europeia for empurrada pelo medo ao suicídio.

Nesse quadro real, surfa Dave, o "Relações Públicas". E por que não? Depois de ter grudado na lapela um papoula falsa que fez no Photoshop, para assim homenagear os britânicos mortos na guerra por que Dave Cameron não faz lá uns 70 mil "moderados" falsos de Photoshop e gruda num mapa da Síria?

Rumo ao domínio corporativo global

Prabhat Patnaik

Peoples Democracy

Tradução / Os Estados Unidos estão implementando uma nova arquitetura de domínio empresarial global através de uma série de tratados de investimento que, neste momento, estão negociando com vários países. Quando todos esses tratados entrarem em vigor, a extensão da sua jurisdição cobrirá 80% do PIB global, ou seja, praticamente toda a economia mundial. Estes tratados incluem um conjunto de Tratados Bilaterais de Investimento (TBIs), a Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (TTIP) e a Parceria Trans-Pacífico (TPP). Como a Índia está sendo pressionada para aderir a estes tratados, é importante que estudemos cuidadosamente a sua arquitetura.

Três características significativas

Há, pelo menos, três características significativas nestes tratados. Dessas três, a mais significativa é o mecanismo ISDS, o mecanismo de resolução de conflitos investidor-estado. Segundo ele, os investidores privados poderão processar um estado soberano em um tribunal arbitral privado. Por outras palavras, o estado soberano prescinde do seu direito de agir livremente no interesse público para restringir as operações de um investidor estrangeiro. Caso o faça, não será levado a um tribunal que esteja situado no seu país e que funcione de acordo com a sua Constituição; será levado a um tribunal que funcione de acordo com o tratado em questão e esteja mandatado para “proteger” o investidor privado de ser prejudicado pelo estado.

Vejamos o que isto significa. Na Índia, no início dos anos 70, foi aprovada a Lei Regulamentadora do Mercado Cambial (LRMC), que estipulava uma série de restrições às empresas estrangeiras. Se a Índia tivesse assinado nessa altura este tratado de investimento, as empresas estrangeiras poderiam ter levado o governo a um tribunal privado, com poderes de jurisdição sobre o e Estado, e acima da Constituição, para contestar qualquer redução dos seus direitos e, muito provavelmente, teriam ganho o processo. E, claro, dada essa hipótese muito provável, o governo nem se atreveria a aplicar a LRMC, porque teria visto a inutilidade de o fazer.

O que se segue, portanto, é que qualquer governo que suceda ao que entrou num contrato destes, fica preso ao que o governo anterior assinou; e o tribunal que decide sobre a propriedade de qualquer ação desse governo posterior não está obrigado a cumprir a Constituição desse país, ou seja, de acordo com o espírito a ela subjacente (o que certamente levaria a decidir a favor do governo, com base em que estava servindo o interesse público, de acordo com a Constituição), mas com a letra instituída no tratado. Por outras palavras, um tratado de investimento destes não só representa uma grosseira intromissão na soberania do estado-nação, mas impede em princípio a capacidade de o Estado cumprir o seu mandato constitucional.

Nem é preciso dizer, representa também uma grosseira violação do princípio da soberania do povo que é o fundamento da democracia. O povo pode eleger um governo que tome medidas para melhorar as suas dificuldades econômicas, mas o governo ficará impossibilitado de tomar essas medidas, se elas colidirem, seja por que forma for, com os interesses dos investidores estrangeiros. É difícil imaginar qualquer medida econômica significativa que não tenha nenhum efeitos, quer imediatamente quer potencialmente, nos investidores estrangeiros. Até a redistribuição de terras ficará excluída com um tratado destes, porque provavelmente significará uma apropriação de terras de investidores estrangeiros que as possuam, ou, no mínimo, a impossibilidade de eles poderem adquiri-las.

Os investidores sempre pretenderam que o Estado não coloque restrições à “proteção” dos seus interesses, atenuando a possibilidade da afirmação democrática do povo. Encurralar o país no vórtice dos fluxos financeiros globalizados tem sido uma forma óbvia de garantir isso; porque qualquer Estado que tome ação contra investidores estrangeiros corre o risco da fuga de capitais. Mas esta “salvaguarda” não parece ser suficiente para os investidores estrangeiros. Vale a pena assinalar que, em 2004, quando o governo de Vajpayee foi derrubado, The Wall Street Journal comentou que a decisão de escolher um governo não devia ser deixada apenas ao eleitorado do país, mas a todo o grupo de “acionistas” desse país, incluindo os investidores estrangeiros. Os tratados fomentados pelos EUA destinam-se a garantir que, mesmo que o eleitorado escolha um novo governo, os investidores estrangeiros estão protegidos de quaisquer possíveis efeitos adversos dessa mudança.

A segunda característica destes tratados é que se por acaso o governo recuperar a propriedade de investidores estrangeiros fica obrigado a dar uma compensação “imediata, adequada e eficaz”. Os tratados normalmente especificam que essa compensação deve ser feita à taxa preponderante do mercado, e não apenas a uma taxa “justa”. Mesmo que o investidor estrangeiro tenha inicialmente obtido uma faixa de terreno a um preço de saldo, se esse terreno tiver que ser entregue ao governo, a compensação terá que ser feita à “taxa do mercado”.

Isto torna muito difícil para o governo adquirir quaisquer terras ou propriedades, visto que, habitualmente, não tem os recursos para pagar uma compensação elevada. Recuperar terras de plantações de estrangeiros para redistribuição entre os sem-terra, por exemplo, será impossível em qualquer país amarrado a um tratado destes, porque os recursos financeiros para pagar as compensações dificilmente estarão dentro das disponibilidades do governo.

Para além disso, qualquer redistribuição de ativos, pela própria definição, deve significar apropriar-se dos ativos de uns com o objetivo de os distribuir para outros. Por outras palavras, tem que significar uma redução na posse dos ativos de uns e um aumento na posse dos ativos por outros. Se todas as situações de apropriação de ativos tiverem que ser acompanhadas por uma compensação ao valor do mercado, não há redução na posse dos ativos para os abastados, mas apenas uma mudança na forma da posse do ativo: um ativo sob a forma de terras converte-se em dinheiro, sem que o seu proprietário sofra qualquer redução no seu valor. Em resumo, a redistribuição de ativos fica excluída, pelo menos no que se refere ao capital estrangeiro, em qualquer país que assine um tratado destes.

A terceira característica destes tratados, que, por exemplo, caracteriza o TPP, é que os investidores estrangeiros devem ser tratados em pé de igualdade com os investidores nacionais, sob todas as formas, incluindo a questão da posse de terras e de recursos minerais de um país. Como o termo “investidores estrangeiros” aqui também inclui os investidores do setor público, isso significa que, nestes tratados, fica excluída qualquer tentativa de fomentar a autonomia, dando preferência às unidades do setor público. Um país não pode exprimir preferência pela tecnologia desenvolvida internamente, em relação à que o investidor estrangeiro tem; não pode atingir a autonomia tecnológica; não pode fazer qualquer tentativa para preservar as divisas estrangeiras, restringindo a repatriação de dividendos para os donos de uma empresa estrangeira, de pagamentos de juros a credores estrangeiros, ou de pagamento de royalties e emolumentos à companhia mãe das filiais estrangeiras que funcionam no país.

Serve para perpetuar a desigualdade

Dado o fato de que o mundo já se caracteriza pelo controle monopolista da tecnologia pelos países capitalistas avançados; por uma tendência por parte dos ricos na periferia para enviar a sua riqueza para a metrópole; e pelas relações de poder desigual entre os países metropolitanos, por um lado, e a periferia, por outro; o que esta condição significa basicamente é que a dicotomia entre os dois segmentos do mundo será perpetuada.

Em resumo, os tratados que estão a ser impostos pelos EUA a uma série de países do terceiro mundo, insistindo na igualdade de tratamento entre investidores nacionais e estrangeiros, servem na verdade para perpetuar a desigualdade que existe entre os dois segmentos do mundo.

O capital exige, sempre que funciona, o apoio e a proteção do Estado. Quando o capital funciona globalmente, normalmente exige uma proteção global. Mas os estados-nações individuais não estão em posição de proporcionar essa proteção global. Nem mesmo o mais poderoso dos estados-nações, os Estados Unidos, estão numa posição de proporcionar essa proteção, porque isso acarretaria empenhar níveis de mão-de-obra e de recursos extremamente altos, por todo o mundo, o que não se pretende. Não há no horizonte nenhum estado-nação, nem sequer um consórcio de estados capitalistas avançados, que possam assumir o papel de proteção do capital globalizado. Além disso, mesmo que existisse esse consórcio, seria necessário para os seus objetivos um qualquer aparelho legal, um qualquer quadro de regulamentações acordadas, para poder atuar.

Os tratados de investimento que estão a ser implementados pelos EUA destinam-se a criar esse aparelho; representam uma transição para um conjunto de instituições acima dos estados-nações que servirão as necessidades do capital globalizado, oferecendo a sua “proteção” onde quer que funcionem. Mas o que é de assinalar é o fato de que não são instituições de qualquer consórcio de estados-nações (como, por exemplo, o Tribunal Internacional de Justiça); são instituições privadas. Por outras palavras, não estamos assistindo a uma transição para instituições governamentais acima de estados-nações; estamos assistindo, por intermédio destes tratados, ao nascimento de um conjunto de instituições privadas acima dos estados-nações. A globalização do capital está gerando atualmente uma tendência para o domínio empresarial global.

28 de novembro de 2015

Edward Snowden recebe Arundhati Roy e John Cusack: "Ele era pequeno e ágil, como um gato de casa"

A escritora indiana recorda um encontro extraordinário em um hotel de Moscou com o denunciante da NSA

Arundhati Roy

The Guardian

Tradução / O que aconteceu em Moscou não foi uma entrevista formal. Tampouco foi um encontro secreto entre super-heróis mascarados. Fato é que John Cusack, Daniel Ellsberg (que vazou documentos do Pentágono durante a Guerra do Vietnam) e eu recebemos o cauteloso e diplomático Edward Snowden. E, infelizmente, as brincadeiras e as discussões que tiveram lugar no quarto 1001 não podem ser reproduzidas. A conferência que se deu ali não pode ser descrita em todos os seus detalhes. Na verdade, ela definitivamente não pode ser descrita. O mundo é uma centopeia que avança sobre as patas de milhões de conversas reais. E aquela certamente foi uma conversa real.

O que importava mesmo, talvez até mais do que foi conversado ali, era a atmosfera daquele quarto. Havia um Edward Snowden que, depois do 11/09, estava endossando Bush e se alistando para a Guerra do Iraque. E havia aqueles como nós que, após 9/11, tinham feito exatamente o contrário. Já era tarde para essa conversa, é claro. O Iraque foi completamente destruído. E agora o mapa do que condescendentemente chamamos de "Oriente Médio" está sendo brutalmente redesenhado (mais uma vez). E ainda assim lá estávamos nós, todos nós, conversando entre si em um hotel esquisito na Rússia.

O lobby opulento do Moscow Ritz-Carlton estava repleto de milionários bêbados, ébrios pela fortuna nova e pelas lindas mulheres jovens, meio camponesas, meio supermodels, laçadas nos braços de senhores bajuladores - gazelas em seu caminho para a fama e para a fortuna, pagando suas dívidas aos sátiros que irão carregá-las. Nos corredores, você passa por algumas brigas sérias, cantando alto e tranquilo, enquanto os garçons conduziam carrinhos com torres de comida e talheres, para dentro e para fora dos quartos. No quarto 1001, nós estávamos tão perto do Kremlin que, se você colocasse sua mão para fora da janela, poderia quase tocá-lo. Nevava lá fora. Estávamos profundamente mergulhados no inverno russo - nunca reconhecido suficientemente por seu importante papel na Segunda Guerra. Edward Snowden era muito menor do que eu imaginei. Pequeno, ágil e puro, como um gato. Ele cumprimentou Dan em êxtase e nos saudou calorosamente. "Eu sei porque você está aqui", ele me disse, sorrindo. "Por quê?" "Para me fazer radicalizar." Eu ri.

Nos estabelecemos nos vários bancos e cadeiras e na cama de John. O Dan e o Ed pareceram muito satisfeitos em se conhecer e tinham tanto a conversar, que até ficou difícil de se intrometer no assunto deles. Às vezes eles falavam em algum tipo de linguagem em código: "(...) TSSCI" "Não, porque, como eu disse, este não é DS, este é da NSA. Na CIA, ele é chamado COMO". PRISEC ou PRIVAC?" (...) “TS, SI, TK, GAMMA-G (…)" etc.

Demorou um pouco até que eu me sentisse à vontade para interrompê-los. Snowden desarmou minha pergunta sobre ser fotografado segurando a bandeira americana revirando os olhos e dizendo: "Ah, cara. Não sei. Alguém simplesmente me entregou uma bandeira e tirou a foto. "E quando eu perguntei por que ele se inscreveu pra Guerra do Iraque, enquanto milhões de pessoas do mundo todo se opunham ao conflito, ele respondeu de maneira igualmente desconcertante: "Eu fui enganado pela propaganda".

Dan falou um pouco sobre como era incomum aos americanos que atuavam no Pentágono e na Agência Nacional de Segurança [NSA] terem lido alguma coisa sobre o Excepcionalismo americano e sobre sua história de guerra. (E, depois de terem entrado, era pouco provável que o assunto lhes interessasse). Ele e o Ed tinham observado isso ao vivo, em tempo real, e ficaram horrorizados o suficiente para arriscar suas vidas e sua liberdade quando decidiram ser denunciantes. O que os dois claramente tinham em comum era uma forte e quase corpórea sensação de força moral - de certo e errado.

Um senso de justiça que, obviamente, funcionava não apenas quando eles decidiam denunciar aquilo que eles consideravam moralmente inaceitável, mas também na época em que eles se inscreveram para os seus empregos - Dan para salvar seu país do comunismo, Ed para salvá-lo do terrorismo islâmico. E o que eles fizeram, quando veio a desilusão, foi tão eletrizante e tão dramático, que passaram a ser identificados por esse único ato de coragem.

Perguntei ao Ed Snowden o que ele achava da capacidade de Washington para destruir países e sua incapacidade para vencer guerras (apesar da vigilância de massa). A pergunta foi formulada de um jeito grosseiro - algo como: "Quando foi a última vez que os EUA venceram uma guerra?" Discutimos se as sanções econômicas e a posterior invasão do Iraque poderiam ser classificadas como genocídio. Conversamos sobre o papel da CIA - que se preparava - em um mundo onde a guerra não se travava apenas entre países, mas funcionava através de guerras internas, no qual seria necessário controlar as populações com vigilância de massa. E sobre como os exércitos estavam se transformando em forças policiais para administrar os países invadidos e ocupados, enquanto a polícia - mesmo em lugares como a Índia e o Paquistão ou Ferguson, Missouri, nos Estados Unidos - estava sendo treinada para operar como exército e acabar com insurreições internas.

Ed falou por algum tempo sobre vigilância. E aqui eu vou citar coisas que ele havia dito muitas vezes antes: "Se não fizermos nada, seremos sonâmbulos em um estado de vigilância total, uma espécie de super-Estado com capacidade ilimitada para aplicar a força bruta e para saber (sobre as pessoas) - e isso é uma combinação muito perigosa. Esse é o futuro sombrio. O fato de que eles sabem tudo sobre nós e nós não sabemos nada sobre eles - porque eles são secretos, eles são privilegiados, eles são uma classe separada... são uma elite, a classe política, a classe que tem acesso aos recursos - não sabemos onde eles vivem, não sabemos o que eles fazem, nós não sabemos quem são seus amigos. Eles têm a capacidade de saber tudo sobre nós. Esse é o futuro, mas eu acho que há esperança."

Eu perguntei ao Ed se a NSA não estava apenas fingindo se irritar com suas revelações, e secretamente ficando satisfeita por ser reconhecida como essa agência onisciente que tudo vê - afinal isso ajuda a manter as pessoas com medo, fora de equilíbrio, sempre olhando por cima dos ombros e fáceis de gerenciar. Dan falou sobre como, mesmo nos EUA, ainda faltava outro 9\11 para que chegássemos em um estado policial: "Nós não vivemos em um estado policial agora, ainda não. Eu estou falando do que pode vir a acontecer. Veja bem: pessoas brancas, de classe média, com acesso a educação, como eu, não estão vivendo em um estado policial; mas as pessoas negras e pobres estão vivendo essa realidade. A repressão começa com o semi-branco, aquele do Oriente Médio, incluindo seus aliados, e daí em diante só piora. Mais um 9/11 e então teremos centenas de milhares de detenções. Pessoas do Oriente Médio ou muçulmanos serão colocados em campos de detenção ou deportados. Depois do 9/11, tivemos milhares de pessoas presas sem acusação. Mas eu estou falando do futuro. Eu estou falando sobre algo à nível dos japoneses nos EUA durante a Segunda Guerra Mundial. Eu estou falando de centenas de milhares em campos de concentração ou deportados. E a vigilância é muito relevante para isso. Eles saberão quem perseguir - os dados já foram recolhidos." (Quando ele disse isso, eu me perguntei como tudo seria diferente se Snowden não fosse branco.)

Nós conversamos sobre guerra e ganância, sobre terrorismo e sobre qual seria sua definição mais precisa. Falamos sobre países, bandeiras e sobre o sentido do patriotismo. Nós conversamos sobre a opinião pública e sobre o quão inconstante poderia ser seu conceito de moralidade, tão facilmente manipulável. Não era uma conversa só de perguntas. Estávamos em uma reunião incongruente. Ole von Uexküll da Fundação Right Livelihood, na Suécia, eu e três norte-americanos problemáticos. John Cusack, que organizou tudo, vem também de uma excelente tradição - de músicos, escritores, atores, atletas que se recusam a engolir toda essa baboseira e, no entanto, são muito bem tratados.

O que será de Edward Snowden? Será que ele vai poder voltar pros EUA? Suas chances não parecem boas. O governo dos EUA, bem como ambos os principais partidos políticos - querem puni-lo pelo enorme dano que causou, na percepção deles, às políticas de segurança. (Também Chelsea Manning e os demais denunciantes). Se não for possível matar ou prender Snowden, ele tendem a usar tudo que puderem para limitar os danos que ele causou e continua a causar. Uma das formas é tentar conter, cooptar e manobrar o debate em torno das denúncias. E, em certa medida, eles conseguem fazer isso.

No debate da Segurança Pública vs. Vigilância de Massa que está ocorrendo nos meios de comunicação ocidentais tradicionais, o objeto de amor são os EUA. Os EUA e suas ações. Eles são morais ou imorais? Eles estão certos ou errados? São os denunciantes patriotas ou traidores americanos? Dentro dessa matriz de moralidade limitada, outros países e culturas - mesmo quando são vítimas de guerra dos norte-americanos - geralmente aparecem apenas como testemunhas no julgamento principal. Eles reforçam tanto o ultraje dos acusadores quanto a indignação da defesa.

O julgamento, quando efetuado nesses termos, serve para reforçar a ideia de que é possível existir uma superpotência moderada e moral. Será que nós não estaríamos testemunhando sua existência e ação? Sua mágoa? Sua culpa? Seus mecanismos de auto-correção? Sua mídia? Seus ativistas que não aceitam cidadãos americanos comuns (inocentes) sendo espionados por seu próprio governo? Nesses debates, que muitas vezes parecem ferozes e inteligentes, palavras como público, segurança e terrorismo são atiradas a esmo, mas elas continuam, como sempre, vagamente definidas e são usadas muito frequentemente na forma como o Estado norte-americano gostaria que fossem usadas.

É chocante que Barack Obama tenha aprovado uma "lista de morte" com 20 nomes. Mas é mesmo chocante? Que tipo de lista resumiria os milhões de mortos por todas as guerras americanas? Nesse contexto, Snowden, em seu exílio, deve permanecer estratégico e tático. Ele se encontra na posição impossível de ter de negociar os termos de sua anistia com as próprias instituições dos EUA que se sentem traídas por ele e, ao mesmo tempo, negociar os termos de sua estadia na Rússia com Vladimir Putin, não exatamente uma referência em humanitarismo. Assim as superpotências mantêm Snowden em uma posição difícil, na qual ele deve ser extremamente cuidadoso sobre como utiliza os holofotes que conquistou e o que diz publicamente.

Deixando de lado o que não pode ser dito, a conversa em torno da denúncia foi emocionante - com direito a uma boa dose de Realpolitik - atarefada, importante e cheia de juridiquês. Ela envolve espiões e caçadores de espiões, aventuras, segredos e denunciantes. É um universo, digamos, muito particular e perigoso. Que, no entanto, abriu margem para considerações políticas mais amplas, mais radicais, como a conversa que Daniel Berrigan, padre jesuíta, poeta e opositor à guerra (contemporâneo de Daniel Ellsberg) queria ter quando disse que "cada Estado-nação tende ao imperialismo - esse é o ponto”.

Fiquei contente de ver quando Snowden fez sua estréia no Twitter (ultrapassando meio milhão de seguidores em menos de um segundo) e disse: "Eu costumava trabalhar para o governo. Agora eu trabalho para o público". O implícito nessa frase é a perspectiva de que o governo não atua em função da população. E esse é o início de uma conversa subversiva e inconveniente. Por "governo", naturalmente, ele se refere ao governo dos EUA, seu antigo empregador. Mas o que ele quer dizer com "público"? O público norte-americano? Que parte do público dos EUA? Ele terá que decidir ao longo do caminho. Nas democracias, a separação entre um governo eleito e um "público" nunca é muito clara. A elite geralmente é fundida com o governo de forma homogênea. Visto por uma perspectiva internacional, se realmente existe tal coisa como "o público norte-americano", seria ele um público muito privilegiado. O único "público" que eu conheço é um labirinto complicado.

Estranhamente, quando penso sobre a reunião no Moscou Ritz-Carlton, a memória que lampeja é uma imagem do Daniel Ellsberg. Dan, depois de todas essas horas de conversa, deitado de costas na cama, com os braços abertos, semelhante a um Cristo, chorando por que os EUA se transformou em um país cujas "melhores pessoas" precisam ir para a prisão ou para o exílio. Fiquei comovida e preocupada com suas lágrimas - porque eram as lágrimas de um homem que viu a máquina de perto. Um homem que esteve lado a lado com as pessoas que a controlavam e que friamente contemplavam a ideia de aniquilar a vida na Terra. Um homem que arriscou tudo para denunciar esses absurdos. Dan conhece todos os argumentos. Ele freqüentemente usa a palavra imperialismo para descrever a história e a política externa dos EUA. E ele sabe que agora, 40 anos depois de tornar públicos os documentos do Pentágono, que mesmo se esses indivíduos em específico tiverem ido embora, a máquina continua a funcionar.

As lágrimas de Daniel Ellsberg me fizeram pensar sobre o amor, sobre a perda, sobre os sonhos - e, acima de tudo, sobre o fracasso. Que tipo de amor é esse que temos por países? Algum país virá um dia a viver de acordo com os nossos sonhos? Que tipo de sonhos são estes que foram arruinados? Não seria a grandeza das grandes nações diretamente proporcional à sua capacidade de ser cruel e genocida? Não seria razoável afirmar que a altura do "sucesso" de um país geralmente acompanha as profundezas de seu fracasso moral? E o que dizer sobre o nosso fracasso? Escritores, artistas, radicais, anti-nacionais, independentes, descontentes - o que dizer sobre o fracasso da nossa imaginação? O que dizer sobre a nossa incapacidade de substituir a ideia das bandeiras e dos países por um objeto de amor menos letal? Os seres humanos parecem incapazes de viver sem guerra, mas eles também são incapazes de viver sem amor. Então a questão que se coloca é: a que devemos devotar nosso amor?

Escrever esse texto num momento em que os refugiados inundam a Europa - resultado de décadas de intervenção norte-americana e europeia no "Oriente Médio" - me faz pensar: quem é um refugiado? Edward Snowden é um refugiado? Certamente ele é. Por causa do que ele fez, ele não pode mais voltar para o lugar que ele considera seu país (embora possa continuar a viver onde ele fica mais confortável - na internet). Os refugiados de guerras no Afeganistão, no Iraque e na Síria fogem da guerra enquanto modo de vida. Mas os milhares de pessoas em países como a Índia, que estão sendo presas e mortas por esse mesmo estilo de vida, os milhões que estão sendo expulsos de suas terras e fazendas, exilados de tudo o que jamais conheceram - sua língua, sua história, a paisagem que os formou - esses não são refugiados. Afinal, enquanto sua miséria estiver contida dentro de fronteiras arbitrariamente traçadas, dentro do seu "próprio" país, então eles não serão considerados refugiados. Mas eles são refugiados. Embora, certamente, em termos numéricos, essas pessoas sejam a grande maioria no mundo atual. Infelizmente, nas imaginações limitadas por bandeiras e fronteiras, eles não fazem parte desse recorte.

Talvez o mais famoso dos refugiados desse modo de vida em guerra seja Julian Assange, o fundador e editor do WikiLeaks, que atualmente está servindo seu quarto ano consecutivo como hóspede fugitivo em um quarto da embaixada equatoriana em Londres. Até recentemente, a polícia permanecia estacionada em um pequeno lobby do lado de fora da porta da frente. Havia atiradores no telhado, com ordens para prendê-lo, alvejá-lo e arrastá-lo para fora caso ele colocasse ao menos um dedo do pé para fora da porta, o que para todos os efeitos legais é uma fronteira internacional. A embaixada equatoriana fica na rua em frente ao Harrods, a loja de departamentos mais famosa do mundo.

No dia em que conhecemos Julian, a Harrods estava cheia de frenéticos compradores de Natal. Aquela rua de Londres cheirava a opulência e a excesso, mas também a encarceramento e a medo de um Mundo Livre, com verdadeira liberdade de expressão. Naquele dia (na verdade, naquela noite) nós nos encontramos com Julian, e não fomos autorizados pela segurança a levar telefones, câmeras ou quaisquer dispositivos de gravação para o quarto. E assim, sem registro, manteremos também a conversa que ali se travou.

Apesar das probabilidades jogarem contra seu fundador e editor, o WikiLeaks continua com seu trabalho, tão fresco e despreocupado como sempre. Recentemente, ele ofereceu um prêmio de US$100.000 para qualquer um que pudesse fornecer "documentos fortes" sobre o Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (APT), um acordo de livre comércio entre a Europa e os Estados Unidos que visa dar a corporações multinacionais o poder de processar governos soberanos que impactarem negativamente os lucros de suas empresas. Por “atos criminosos” poderíamos incluir governos que aumentam o salário mínimo dos trabalhadores, que não são vistos reprimindo os aldeões "terroristas" que impedem o trabalho das empresas de mineração, ou, digamos, que tem a ousadia de recusar as sementes geneticamente modificadas e patenteadas pelas corporações da Monsanto. O APT é apenas mais uma das armas, como a vigilância intrusiva ou o urânio empobrecido, que são utilizados para garantir esse modo de vida baseado na guerra.

Olhando para Julian Assange do outro lado da mesa, pálido e desgastado, sem ter tido cinco minutos de sol nos últimos 900 dias, e ainda assim se recusando a desaparecer ou capitular, como seus inimigos gostariam, eu sorri com a ideia de que ninguém pensa nele como um herói australiano ou um traidor australiano. Para seus inimigos, Assange traiu muito mais do que um país. Ele traiu a ideologia dos poderes dominantes. E, por isso, eles o odeiam ainda mais do que odeiam Edward Snowden. E isso quer dizer muita coisa.

Nos dizem, com bastante frequência, que nós estamos à beira do abismo enquanto espécie. Será possível que nossa inflada inteligência tenha superado nosso instinto de sobrevivência e que não haja mais uma estrada de volta? Nesse caso, não há mais nada a ser feito. Mas se houver algo a ser feito, então uma coisa é certa: aqueles que criaram o problema não serão os mesmos que apresentarão uma solução. Criptografar nossos e-mails vai ajudar, mas não muito. Recalibrar a nossa compreensão do que significa o amor, o que significa felicidade - e, sim, o que significa países - poder. Recalibrar nossas prioridades pode.

Uma antiga floresta, uma cadeia de montanhas ou o vale de um rio são certamente mais importantes e, certamente, mais amáveis do que qualquer país jamais será. Eu poderia chorar por um vale de rio, e eu tenho feito isso. Mas por um país? Ah, cara, sei lá.

Esta é a parte final do Things That Can And Cannot Be Said, uma série de John Cusack e de Arundhati Roy. Uma versão mais longa deste artigo aparece na revista Outlook, na Índia. Arundhati Roy é autora do premiado romance The God Of Small Things. Seu mais recente trabalho de não-ficção é Capitalism: A Ghost Story.

27 de novembro de 2015

Alain Badiou, pensar os assassinatos de massa

Alain Badiou


Tradução / Para ajudar que os massacres de massa da sexta-feira 13, em Paris e St Denis, sejam pensados para além dos seus indispensáveis afetos: horror, barbárie, estupefação.

Para que nenhuma propaganda possa se opor fiticiamente para se servir de forma real.

Para avaliar a impostura e a ameaça daqueles que visivelmente se alegram, na França ou fora, de que possamos enfim gritar: “a guerra! É a guerra! Todos em guerra!”.

Para que os desprezíveis assassinos de massa não possam se glorificar de ter eles sós mais importância e valor midiático e estatal que todas as pesquisas racionais de uma política nova, todas as experiências do pensamento e da prática em direção das verdades por vir.

Para que os povos do mundo, e singularmente a sua juventude, não sejam encurralados entre uma escolha opressora entre um fascismo radical-religioso e o vazio agressivo da dominação ocidental, do capitalismo mundializado e dos Estados que são seus servos.

Para ultrapassar a falsa e mortal contradição aparente do mundo que é o nosso: entre a modernidade monetária e mercantil de um lado e as diferentes variantes de banditismo tradicionalista de outro.

Para que saia da sombra e transformada em força a verdadeira contradição, que opõe dois termos cuja identificação é a entrada obrigatória para todo pensamento que se implica para mudar o mundo:

  1. o casal guerreiro dos Estados dominantes e os Bandidos fascistas, que possuem um interesse comum para difundir no mundo inteiro uma subjetividade de guerra,
  2. os portadores, pela sua aliança à construir, do comunismo que vem: proletários internacionais e nômades, intelectuais livres, jovens à procura de uma vida que seja grande e verdadeira.

23 de novembro de 2015

Stalin e Hitler: Irmãos gêmeos ou inimigos mortais?

Domenico Losurdo

Crisis and Critique

1. Eventos históricos e categorias teóricas

Tradução / Quando os filósofos investigam eventos históricos, eles tentam discutir ao mesmo tempo as categorias com as quais os acontecimentos históricos são reconstruídos e descritos. Hoje se compreende a partir da categoria de “totalitarismo” (a ditadura terrorista de apenas um partido político e o culto à personalidade) Stalin e Hitler como duas personificações extremas desta praga, como dois monstros que possuem características tão semelhantes que se pensa neles como dois irmãos gêmeos. Não por menos - como argumentam - ambos se uniram por quase dois anos através de um pacto vergonhoso. De fato, após este pacto, seguiu uma guerra impiedosa, mas dois gêmeos a travaram, mesmo que eles fossem bastante controversos.

É uma conclusão obrigatória? Vamos voltar nossos olhares para a Europa brevemente. Gandhi também se convencia de que Hitler tinha algum tipo de irmão gêmeo. Mas este não era Stalin, que ainda em setembro de 1946, era considerado pelo líder indiano como um “grande homem” à frente de “um grande povo”. Não, o irmão gêmeo de Hitler era na verdade Churchill, ao menos a julgar por duas entrevistas dadas em abril de 1941 e abril de 1946 respectivamente: “Asseguro que na Índia também temos um governo Hitleriano, no entanto um disfarçado que possa ser mais moderado”. E depois: “Hitler foi o pecado da Grã-Bretanha. Hitler foi apenas uma resposta ao imperialismo Britânico”.

Talvez a primeira das duas explicações seja a mais sugestiva. Ela ocorreu em um momento, onde o tratado de não-agressão entre a Alemanha e a União Soviética ainda estava em vigor: O líder Indiano do movimento independentista não parece se ofender com isso. No movimento anticolonial as políticas de frente popular encontraram as maiores dificuldades. A razão para isso é explicada por um importante historiador afro-americano de Trinidad, admirador entusiasta de Trotsky, nomeadamente C.L.R. James, que mesmo em 1962 descreve o desenvolvimento de outro militante da causa da emancipação negra, também de Trinidad, dessa forma: “Quando esteve nos Estados Unidos, ele se tornou um comunista atuante. Se mudou para Moscou para liderar o Departamento de Propaganda e Organização dos negros. Neste cargo, ele se tornou o mais conhecido e mais confiável dos agitadores pela Independência Africana. Em 1935, buscando alianças, o Kremlin separou a Inglaterra e a França como ‘imperialismos democráticos’ da Alemanha e a França, os ‘imperialismos fascistas’, o principal alvo da propaganda russa e comunista. Isto reduziu a atividade pela emancipação africana: Alemanha e Japão não tinham colônias na África. Padmore rompeu instantaneamente com o Kremlin”.

Stalin não foi criticado e condenado como irmão gêmeo de Hitler, mas porque ele se recusou a reconhecer neste último o irmão gêmeo dos líderes do imperialismo britânico e francês. Para importantes personalidades do movimento anticolonial, não foi fácil entender que, entretanto, o Terceiro Reich assumiu a liderança da contrarrevolução colonial (e escravista): O debate habitual sobre o tratado de não-agressão sofre claramente de eurocentrismo.

O quão duvidoso possa ser colocar Churchill como próximo a Hitler, como Gandhi faz (e outros proponentes do movimento anticolonial fizeram mais indiretamente), não deixa de ser compreensível: Hitler não declarou várias vezes que iria construir uma Índia Alemã no Leste Europeu? E Churchill também não prometeu defender a Índia britânica a qualquer custo? Na verdade, em 1942 o Primeiro-Ministro Britânico teve que reprimir o movimento por independência, “usou de medidas extremas, como o uso da força aérea, para atirar com metralhadoras à massa dos protestos”. A ideologia que reside na raiz desta repressão é particularmente sugestiva. Vamos ouvir do próprio Churchill: “Eu odeio indianos. Eles são um povo bestial com uma religião bestial”; com sorte um número sem precedentes de “soldados brancos” garante a manutenção da ordem. A tarefa é enfrentar uma raça “protegida por sua mera pululação [reprodução muito rápida] da ruína que é”; Marechal Arthur Harris, protagonista dos bombardeios na Alemanha, foi bem aconselhado a “enviar algumas das bombas que sobraram para destruí-los”.

Vamos voltar da Ásia para a Europa. Em 23 de Julho de 1944, Alcide de Gasperi, o líder católico que estava para se tornar o primeiro-ministro da Itália libertada do fascismo, deu um discurso onde enfaticamente ele proclamou:

“Quando eu vejo como Hitler e Mussolini perseguiram seres humanos por conta de sua raça e inventaram esta assustadora legislação anti-judaica que conhecemos, e quando ao mesmo tempo eu vejo como os russos compostos de 160 etnias buscam uma união delas, quando vejo os esforços para unificar a sociedade humana, deixe-me dizer: isto é cristão, isto é eminentemente universalista no sentido do Catolicismo.”

O ponto de partida formado neste caso é a categoria de racismo, uma praga, que encontrou sua maior expressão na Itália de Mussolini e na Alemanha de Hitler. Bom, o que foi a contrapartida a tudo isso? Devido a um motivo já mencionado não poderia ser a Grã-Bretanha. Mas também não poderia ser os Estados Unidos, onde - ao menos onde se concentra o Sul - reinava a supremacia branca. No que tange este regime, um importante historiador estadunidense (George M. Fredrickson) recentemente escreveu: “O esforço de garantir a ‘pureza racial’ no Sul americano antecipou aspectos da perseguição oficial nazista dos judeus nos anos 30”; quando também se considera de acordo com a lei de que no Sul dos Estados Unidos uma gota de sangue impuro era suficiente para ser excluído da comunidade branca, se tem que concluir: “a definição nazista de judeu nunca foi tão estreita quanto a da ‘regra de uma gota’ que dominava na categorização de negros nas leis de pureza racial do Sul dos Estados Unidos”. Portanto, não pode ser surpreendente que De Gasperi visse na União Soviética a grande antagonista real da Alemanha de Hitler. Os irmãos gêmeos, de quem a categoria de totalitarismo fala, aparecem de acordo com as categorias de racismo e colonialismo como inimigos mortais.

2. A maior guerra colonial da história

Então que categoria deveríamos usar? Vamos dar as palavras para as personalidades em questão. Quando Hitler se dirigiu aos industriais de Dusseldorf (e da Alemanha) em 27 de janeiro de 1932 e ganhou o apoio deles para chegar ao poder, ele explicou sua concepção de história e política da seguinte maneira. Em toda a história do século XIX, os “povos brancos” conquistaram um domínio incontestável, e isto como conclusão de um processo que começou com a conquista da América e se desenvolveu sob o signo do “sentimento absoluto, inato do domínio da raça branca”. O Bolchevismo, ao colocar o sistema colonial em cheque e levando a e piorando a “confusão do pensamento branco europeu”, traz um perigo mortal à civilização. Se quiserem confrontar essa ameaça, se deve reforçar a “convicção da supremacia e com isso o direito da raça branca” e se tem que incondicionalmente defender a “posição de tutelagem da raça branca sobre o resto do mundo”, mesmo com a “crueldade mais brutal”: Um “direito de tutelagem extraordinariamente brutal” é necessário. Está além da dúvida: Hitler apresenta sua candidatura à liderança em um dos países mais importantes da Europa se comportando como pioneiro da Supremacia Branca, a qual ele queria defender mundialmente.

O apelo de defender e mobilizar a raça branca encontrou grande eco na Alemanha na I Guerra Mundial e especialmente depois dela. O recurso da entente e, particularmente, das tropas miscigenadas da França causou escândalo e indignação. Ademais, estes soldados não-brancos eram representados nas tropas de ocupação em Renânia e estupraram mulheres alemãs: Isto era a vingança inexorável dos vencedores, que tentaram de alguma forma humilhar o inimigo derrotado e ainda tentaram “contaminar” seu sangue para atingir sua “mulatização”. De qualquer forma a “ameaça negra” não apenas reside no Sul dos Estados Unidos, onde a Ku-Klux Klan é muito vigilante, mas também na Alemanha (e Europa): Neste sentido, na época, argumentava o público em geral na Alemanha. E este clima ideológico influenciou fortemente a formação dos principais líderes nazistas.

Em 14 de Junho de 1922, Heinrich Himmler participou de um protesto de massas em Munique organizado pela “Deutsche Notbund gegen die Schwarze Schmach”(Vergonha Negra), que - como um jornal local informou a “ocupação da Renânia por pessoas de cor como um crime bestialmente concebido que visa esmagar-nos como uma raça e, finalmente, destruir-nos". Em seu diário, Himmler notou: “Muitas pessoas. Todas gritaram: ‘Vingança’, me impressionou muito”. Mas eu já havia participado em eventos mais aprazíveis e mais emocionantes deste tipo”. Com sorte, a Inglaterra não tinha familiaridade com a irresponsabilidade racial da França. Isto é o que pensava Alfred Rosenberg, que defendia a “Federação dos dois povos brancos” ou melhor dos três povos brancos, se formos investigar a luta contra a “negrotização” em nível global e também, além da Alemanha e Grã-Bretanha, dos Estados Unidos. Mesmo no fim de 1942 - o Terceiro Reich e Japão estão do mesmo lado na guerra - Hitler, ao invés de ser agradecido pelos sucessos de seus aliados amarelos, lamenta as “perdas pesadas que os brancos tiveram que sofrer no Leste asiático”: Isto é registrado em um diário do Joseph Goebbels, que por sua vez denuncia Churchill como o “verdadeiro coveiro do Império Inglês”.

A raça branca já devia ser defendida na Europa. Seu principal inimigo era a União Soviética, que incitava as raças “menores” a se rebelarem e que ela mesma pertencia ao mundo colonial. Esta concepção era bastante divulgada na Alemanha na época: Após a tomada do poder pelos Bolcheviques - Osvald Spengler escreveu em 1933 - a Rússia havia tirado a “máscara branca para se tornar novamente uma superpotência mongol”, agora uma parte integral de “toda a população de cor da terra” e cheia de ódio contra a “humanidade branca”. A grande ameaça era ao mesmo tempo uma grande oportunidade: À frente da raça branca e da Alemanha um imenso espaço colonial havia se aberto. Era uma espécie de Faroeste. O “Mein Kampf” já havia exaltado a “incrível força” do modelo americano de expansão colonial, um modelo que deve se imitar para construir um Reich territorialmente compacto na Europa Central e Oriental. Em seguida, após o lançamento do projeto Barbarossa, Hitler comparou várias vezes sua guerra contra os “Povos indígenas” do Leste Europeu com a “Guerra Indiana”, com as “batalhas indígenas na América do Norte”: Em ambos os casos a “raça mais forte” será “vitoriosa”. Em seus discursos secretos que não eram feitos para o público, Himmler também declarou de forma especialmente explícita um aspecto adicional do programa colonial do Terceiro Reich: É necessário incondicionalmente “raças escravas estrangeiras”, da qual a “raça superior” nunca perderia sua “tutelagem” e jamais deveriam se misturar. “Se não enchermos nossos campos com escravos - nesta sala eu afirmo as coisas muito explicitamente e claramente - com escravos a trabalhar, que independentemente de quaisquer perdas, construirão nossas cidades, nossas vilas, nossas fazendas”, o programa de colonização e germanização da terra conquistada no Leste Europeu não pode ser realizado.

No final: Os “indígenas” do leste europeu eram por um lado os pele-vermelhas, que precisavam ser privados de sua terra, deportados e dizimados; do outro lado eles eram os negros que eram destinados a trabalhar como escravos a serviço de sua raça superior, enquanto os judeus, que eram postos lado a lado dos bolcheviques como responsáveis pelo incitamento das raças inferiores, deveriam ser aniquilados.

Claro, a União Soviética não poderia compartilhar desta concepção de vítimas predestinadas que estava em primeira ordem. É interessante notar que Stalin já entre fevereiro e outubro de 1917 chamava a atenção para o fato de que a Rússia, cansada da guerra sem fim estava correndo risco de se transformar em “uma colônia da Inglaterra, América e França”. A entente ao tentar de qualquer forma levar a cabo a continuação da Guerra na Rússia como se fosse a “África Central”. A Revolução Bolchevique também foi necessária para afastar esse perigo. Após Outubro, Stalin via no Poder Soviético o pioneiro da “conversão da Rússia de uma colônia em um país livre e independente”.

Hitler havia desde o começo planejado assumir novamente a tradição colonial e a implementar no leste europeu, especialmente na Rússia, “barbarizada” pela vitória do Bolchevismo; do outro lado, desde o começo Stalin chamou seu país para enfrentar o perigo da subjugação colonial e interpretada precisamente deste ponto de vista a Revolução Bolchevique.

Mesmo sem qualquer ideia simples, Stalin começou a reconhecer as características essenciais do milênio, que havia acabado de começar. Na onda da Revolução de Outubro, Lenin esperava que o principal ou exclusivo objeto do Século XX seria a batalha entre o capitalismo de um lado e o socialismo/comunismo do outro: O mundo colonial neste meio tempo estava completamente ocupado pelas potências capitalistas e cada nova partilha seguia a iniciativa dos países derrotados ou “em desvantagem” levaria à nova Guerra Mundial e representaria um avanço maior na direção da definitiva destruição do sistema capitalista: A conquista da nova ordem socialista está imediatamente na ordem do dia. Mas Hitler deu um passo inesperado: Ele reconheceu no Leste Europeu e especialmente na Rússia Soviética o espaço livre colonial que estava à disposição do Reich Alemão ainda a ser erguido. De forma similar se comportou o Império Japonês que invadiu a China e a Itália Fascista que (com exceção da Etiópia) mirou os Balcões e a Grécia. Stalin começou a perceber que o século XX seria marcado, contra todas as expectativas, por uma disputa entre o colonialismo e o anticolonialismo (apoiado e promovido pelo movimento comunista) na Europa.

Atualmente foi enfatizado corretamente: “A guerra de Hitler por Lebensraum foi a maior guerra colonial da história”. A Guerra Colonial que foi lançada primeira contra a Polônia. As instruções do Fuhrer na tarde anterior à agressão diziam: A “eliminação das forças vitais” do povo polonês é necessária. Se chama pela “ação brutal”, sem serem inibidos por “empatia”; “o mais forte tem o direito”. Semelhantes são as diretivas que mais tarde a Operação Barbarossa dá: Após o encarceramento dos comissários políticos, os quadros do Exército Vermelho, do Estado Soviético e do Partido Comunista deve ser imediatamente exterminado; no Leste deve se tomar medidas extremas e “duras” e os oficiais alemães e os soldados devem superar suas ressalvas e escrúpulos morais. Por conduzirem de volta os povos de uma velha cultura à situação dos pele-vermelhas (para serem expropriados e dizimados) e dos negros (para serem escravizados) “todos os representantes da intelligentsia polonesa devem ser mortos;” o mesmo tratamento, é claro, a que os russos e a inteligência soviética devem ser submetidos; “isto parece pesado, mas esta é a lei da vida.” É assim que se explica o destino do clérigo católico, dos quadros comunistas na URSS e em ambas as situações, dos judeus, que eram bem representados nas camadas intelectuais e eram suspeitos de inspirarem e apoiarem o Bolchevismo. Hitler foi bem-sucedido em jogar a Polônia contra a União Soviética, mas ele previa o mesmo destino para ambos; mesmo que sob um caminho tortuoso e trágico, a guerra de resistência nacional do povo polonês e a Grande Guerra Patriótica são finalmente relacionadas uma com a outra. O ponto de viragem da "maior guerra colonial da história" é Stalingrado. Se Hitler foi o instigador da contrarrevolução colonial, Stalin foi o instigador da revolução anticolonial que de maneira inesperada encontrou seu centro na Europa.

3. Stalin, Hitler e as minorias nacionais

A definição de Stalin que eu apresentei se contrasta com as políticas que ele levou a cabo no que tange às minorias nacionais? Está além da dúvida que não existe espaço para o direito de retrocesso na concepção de Stalin. Como se confirma na conversa com Dimitrov em 7 de novembro de 1937: “Qualquer um que lance um ataque ao Estado Socialista com seus feitos ou pensamentos será aniquilado sem misericórdia”. Ainda assim são punidos: É uma definição extraordinariamente efetiva mas completamente involuntária de totalitarismo!

Do outro lado, Stalin dá boas vindas e apoia o renascimento cultural das minorias nacionais do Leste Europeu que foram reprimidas por muito tempo. São esclarecedoras as observações feitas por ele no X Congresso do Partido Comunista Russo em 1921: “Cerca de cinquenta anos atrás todas as cidades húngaras tinham um caráter alemão”. Agora se ‘magiarizaram’; os Bielorrussos também tiveram uma experiência de um ‘despertar’. É um fenômeno que se supõe capturar toda a Europa: Da ‘cidade alemã’ que era Riga agora se tornará uma ‘cidade letona’; as cidades da Ucrânia serão ‘ucranizadas’ e farão o elemento russo que anteriormente era dominante, como secundário. E constantemente Stalin polemiza contra os ‘assimilacionistas’, sejam os ‘assimilacionistas turcos’, os ‘prusso-alemães germanizantes’, ou os ‘russificadores czaristas-russos’. Esta posição é portanto particularmente importante porque é ligada à uma elaboração teórica de caráter universal. Em suas polêmicas contra o Kautsky, Stalin enfatiza que o socialismo de nenhuma maneira significa o desaparecimento das línguas nacionais e demais particularidades mas leva a seu maior desenvolvimento e evolução. Qualquer “política assimilacionista” portanto deveria ser condenada como “antipopular” e “contrarrevolucionária”: É particularmente “fatal”, por não compreender o “poder colossal de estabilidade que detém as nações”, “declarar guerra” à cultura nacional” é uma “defesa da colonização.” Quão dramática possa ser a discrepância entre as declarações políticas e as políticas concretamente praticadas, estas declarações nunca são nada e não podem ser nada em um regime político o qual a educação e mobilização ideológica de funcionários e militantes do Partido e doutrinação de massas desempenhou um papel muito relevante.

E novamente o contraste com Hitler se torna aparente. Ele também começa a assumir a Eslavização e a “degermanização” no leste europeu. Mas para ele, isto é um processo que deve ser revertido de qualquer forma. Não é suficiente conter a assimilação linguística e cultural que na verdade representam o “começo da bastardização” e, portanto, de uma “aniquilação dos elementos germânicos”, a “aniquilação de precisamente das propriedades que permitiram aos povos conquistadores de serem vitoriosos”. É preciso germanizar a terra sem nunca germanizar as pessoas. Isso só é possível se a pessoa segue um modelo muito preciso: Para além do Atlântico, a raça branca deve se disseminar pelo Oeste americanizando a terra, mas certamente não os pele-vermelhas: neste sentido os Estados Unidos permaneceram um “estado nórdico-germânico” sem o perigo de caírem em uma “salada de povos internacionais”. O mesmo modelo deve ser seguido pela Alemanha no leste europeu.

4. O papel da Geografia e da Geopolítica

No que tange a atitude em relação à questão nacional, o contraste entre a Rússia Soviética e o Terceiro Reich se confirma. Chegamos a conclusões inteiramente diferentes, no entanto, se nos concentrarmos nas práticas de governo dos dois regimes, que certamente podemos comparar na base da categoria de totalitarismo. E ainda seria enganoso interpretar o terror, a brutalidade, e até a exigência de controlar pensamentos de uma forma psicopatológica.

Não devemos esquecer da doutrina de método que foi desdobrada por um clássico do Liberalismo. No ano de 1787 Alexander Hamilton declarou, às vésperas da passagem a uma nova constituição federal, que a limitação de poder e a introdução do Estado de Direito em dois Estados com caracteres insulares (Grã-Bretanha e Estados Unidos), que são protegidos pelo mar contra qualquer ameaça de potências inimigas, tem sido bem-sucedida. Se o projeto de uma federação tivesse falhado e se sobre suas ruínas tivesse que se destacar os contornos de um sistema de Estados, que se assemelha a aquele, que podemos encontrar no continente Europeu, então mesmo na América haveria fenômenos como de um exército permanente, de um forte poder central e mesmo de absolutismo. “Assim, deveríamos, em escasso tempo, ver estabelecido em cada parte deste país os mesmos mecanismos de despotismo que foram o flagelo do Velho Mundo”. De acordo com Hamilton, se deveria primeiramente possuir campos geográficos e geopolíticos em mente para explicar a permanência ou o desaparecimento das instituições liberais.

Se formos investigar as grandes crises históricas, veremos que todas elas - mesmo se em diferentes medidas - levaram a uma concentração de poder nas mãos de uma personalidade mais ou menos autocrática: A primeira Revolução Inglesa terminou com o poder pessoal de Cromwell, a Revolução Francesa primeiro levou ao poder de Robespierre e em seguida de Napoleão, o resultado da revolução dos escravos negros de São Domingo foi primeiro a ditadura militar de Toussaint Loverture e depois de Dessalines; a Revolução Francesa de 1848 levou ao poder pessoal de Louis Napoleão, ou de Napoleão o Terceiro. A categoria de totalitarismo é de uso em uma comparação analítico das práticas de governo aplicadas em situação mais ou menos aguda de crise. Mas se formos esquecer o caráter formal desta categoria e se a absolutizarmos-na, os irmãos gêmeos correm o risco de se tornarem muito grandes e uma família muito heterogênea.

No que concerne o século XX, houveram inúmeras crises no período de entre a primeira e a Segunda Guerra Mundial que levaram a erigir ditaduras de um homem só. Em um olhar mais atento, este é ainda o destino de quase todos os países da Europa Continental. Com exceção dos países “Ilha-Estado” que Hamilton mencionou. No entanto, embora estes tivessem uma tradição liberal no fundo e desfrutassem de uma situação geográfica e geopolítica particularmente favorável, eles também tinham uma tendência de concentração de poder, de reforçar o poder executivo sobre o poder legislativo, de limitar o Estado de Direito: Nos EUA, um mandado de execução por Franklin Delano Roosevelt foi o suficiente para encarcerar os cidadãos norte-americanos de origem japonesa. Isto significa que a investigação sobre no que a categoria de totalitarismo é fundamentada toca mesmo os países mais discretos

5. "Totalitarismo" e "Autocracia racial global"

Vamos mudar nossa atenção da prática de governo para os objetivos políticos. Mesmo sobre as políticas domésticas, Hitler olhou para os EUA. “Mein Kampf” e ”Hitler’s Zweites Buch” repetidamente alertaram: Na Europa, não é apenas a Rússia Soviética que incita todas as raças de cor à lutarem contra a supremacia branca que é inimigo jurado da civilização e da dominação branca; não devemos perder de vista a França, que subjugou um país branco como a Alemanha à ocupação por tropas de cor. Também devemos olhar diretamente para a “bastardização”, da “negrotização”, da “pretização universal” que está sendo realizada na França, ou mais precisamente no “Estado Mulato afro-europeu” que se expandiu “do Reno para o Congo”. Esta desgraça é positivamente contida no exemplo da “América do Norte” onde os “germânicos” evitaram a “mistura sanguínea de arianos com povos inferiores” e a “desgraça sanguínea” e permaneceram “racialmente puros e não mistos”, razão a qual torna eles capaz de dominarem todo o continente.

O regime de “Supremacia Branca” dominante no Sul dos Estados Unidos é um modelo, já carrega a cultura reacionária que posteriormente levou ao Nazismo. Em uma visita aos EUA no final do século XIX, Friedrich Ratzel, um grande teórico da geopolítica, esboça uma imagem característica: Quando as nuvens de fumaça da ideologia, com sua fidelidade aos princípios de “justiça”, desaparecem o que aparece é a realidade da “aristocracia racial”, tais como a lei de linchamentos contra os negros, “a repressão e a destruição dos indígenas” e a perseguição que os imigrantes do Leste enfrentam. Nos EUA, surge uma situação que “evita a forma da escravidão, mas adere à essência da subordinação, da estratificação social das raças”. Houve uma “regressão” no que tange as ilusões aprazíveis dos abolicionistas e defensores da democracia multirracial dos anos da “Reconstrução”. Tudo isto, que Ratzel compreende com uma visão perspicaz, terá consequências que vão além da república norte-americana: “Apenas vemos o nascimento das repercussões que esta regressão terá na Europa e até mais na Ásia”.

Posteriormente, o vice-cônsul da Áustria-Hungria em Chicago também aponta para a contrarrevolução em curso nos EUA e ao seu caráter caritativo e instrutivo. A Europa aqui tem um atraso, porque aqui os negros das colônias são bem-vindos como uma “iguaria”: Que diferença do comportamento do “orgulho americano da pureza de sua raça”, que evita o contato com não-brancos usando critério para estes como aqueles que em cujas veias passem apenas “uma gota de sangue negro”! Bem, “se a América pode em alguma coisa ensinar a Europa, é na questão negra e racial”.

Como ambos dos autores citados aqui previram, a contrarrevolução racista que pôs um fim à democracia multirracial dos anos da “Reconstrução” nos EUA, na verdade atravessa o Atlântico. Alfred Rosenberg por exemplo saudou os Estados Unidos como o “maravilhoso país do futuro”: Ao limitarem os direitos civis aos brancos e fortalecendo em todos os níveis e de todas as formas a “Supremacia Branca”, merecem o mérito de terem formulado a feliz “nova ideia de Estado-racial”: Sim, “a questão negra está na vanguarda de todas as outras questões nos EUA;” e se for abandonado o princípio absurdo de igualdade para os negros, então se desenharia no cenário “as consequências necessárias disso para os amarelos e judeus”.

Apenas à primeira vista, está é uma explicação surpreendente. No começo do século XX, nos anos de formação do movimento Nazi na Alemanha, a ideologia dominante nos Estados Sulistas dos EUA encontrou sua expressão nos “Jubileus da Supremacia Branca”, onde pessoas armadas de uniforme marchavam, inspirados pelo “credo racial do povo sulista”. Aqui está a formulação deles: “1. O sangue dará a resposta. 2. A raça branca deve dominar. 3. Os povos Teutônicos defendem a pureza racial. 4. O negro é inferior e permanecerá assi,. 5. Este é um país do homem branco. 6. Sem igualdade social. 7. Sem igualdade política. 8. Sobre os direitos civis, dar ao homem branco, diferente do homem de cor, o benefício da dúvida; e sob nenhuma circunstância interferir no prestígio da raça branca. 9. Em política educacional, deixar o negro ter as migalhas que caem da mesa do homem branco. 10. Deixar ter uma educação industrial para os negros de forma que faça ele servir melhor ao homem branco. [...]14. Deixar o homem branco na menor posição social contar por mais do que o negro na mais alta posição. 15. As declarações acima indicam a direção da Providência."

Sem dúvida aqui isso nos leva a uma proximidade com o Nazismo. Principalmente porque no Sul dos EUA comprometido com este catecismo, que expressivamente exigem “para o Inferno com a Constituição”, apenas para levar a cabo na teoria e prática a absoluta “superioridade os Arianos” e para fugir da “HEDIONDA, ALARMANTE, AMEÇA NACIONAL” dos negros. Aterrorizado como está, “o negro não fará nenhum mal”, algumas vozes críticas ocasionais e ainda assim, as gangues racistas estão prontas “para mata-lo e fazê-lo desaparecer da face da terra; estão decididas a fazer erigir uma “autocracia racial global”, com a “identificação absoluta da raça mais forte com a própria existência do Estado”.

O que nomeia mais adequadamente o Terceiro Reich: a categoria de “totalitarismo” (que aproxima Hitler de Stalin) ou a categoria de “autocracia racial global” (que se refere ao regime de “Supremacia Branca” que reinava nos Estados do Sul dos EUA mesmo na época da tomada do poder de Hitler na Alemanha)? Uma coisa é clara: não se pode entender o vocabulário nazista adequadamente se olharmos apenas para a Alemanha. O que é a “desgraça sanguínea” da qual o ‘Mein Kampf’ alerta - como vimos - se não a “miscigenação” que é condenada também pelos instigadores da “Supremacia Branca”? Mesmo o termo-chave da ideologia nazista “subhumano” [Untermensch] é uma tradução do termo dos Estados Unidos “Under Man”!

Isto é enfatizado em 1930 por Alfred Rosenberg que expressa sua admiração pelo autor estadunidense Lothrop Stoddard: Este último teve o mérito de ser o primeiro a cunhar a noção em questão que surge como um subtítulo ("A Ameaça do sub-humano”) de seu livro que apareceu em Nova York em 1922 e três anos mais tarde, em uma tradução alemã em Munique (“The Drohung des Untermenschen”). O “Subhumano”, respectivamente o Untermensch é o que ameaça a civilização e para evitar este perigo precisamos de uma “autocracia racial global”! Se partirmos daqui ao invés da categoria de totalitarismo, é auto sugestivo que se considera não Stalin e Hitler, mas ao invés deles, os supremacistas brancos dos Estados Sulistas dos EUA e os nazistas alemães como irmãos gêmeos. E Stalin se opõem a ambos, que não por menos foi algumas vezes foi saudado por militantes afro-americanos como o “novo Lincoln”.

6. Duas guerras para restaurar a dominação colonialista e escravista

Certamente o Pacto Ribbentrop-Molotov ainda deve ser explicado. A URSS se esforça não como a primeira, mas como a última a fazer um acordo com o Terceiro Reich. Mas aqui, eu, como um filósofo que é conduzido da análise das categorias políticas para a comparação histórica, gostaria de fazer uma consideração diferente. Quase um século e meio antes da guerra lançada por Hitler para subjugar e escravizar os povos do leste europeu, certamente havia outra grande guerra em outro contexto histórico cujo objetivo era a restauração da dominação colonial e da escravidão. Foi a campanha comandada por Napoleão e confiada a seu irmão-de-lei, Charles Leclerc, contra San Domingo, a ilha governada pelo líder da revolução vitoriosa dos escravos negros, Toussaint Louverture. Mesmo após 29 de agosto de 1793, o dia em que L.F. Sonthonax, o representante da França revolucionária proclamou a abolição da escravidão na ilha, Loverture continuou a lutar ao lado da Espanha; porque ele era suspeito na França, o líder negro que colaborou por muito tempo com um país detentor de escravos do Ancien Régime, que levou uma guerra contra a República Jacobina e o poder abolicionista, que ao mesmo tempo havia se estabelecido em São Domingo. Mesmo em 1799, ele teve que, para salvar o país do colapso econômico, começar a fazer relações comerciais com a Grã-Bretanha que se jogou em uma guerra contra a França e uma possível vitória da Inglaterra acabaria por ter efeitos bastante negativos no projeto abolicionista. E ainda assim, Toussaint Loverture sempre permaneceu o grande protagonista das revoluções anticolonial e abolicionista e o antagonista de Leclerc (e de Napoleão). Apesar da situação histórica completamente transformada, um século e meio depois, não há nenhuma razão para se abordar Stalin de forma diferente: a tortuosidade dos processos históricos não deve nos fazer perder de vista o essencial.

Mesmo antes da invasão francesa e prevendo-a, Toussaint Loverture impôs uma ditadura produtivista implacável e reprimiu com mão de ferro todos os desafios e ataques a seu poder; depois, a chegada das tropas francesas lideradas por Leclerc foi o começo de uma guerra que no final se tornou uma guerra de extermínio em ambos lados. O que deveríamos dizer sobre uma interpretação desta guerra que categoriza Louverture e Leclerc sob a categoria de “totalitarismo” para contrapor ambos aos liberais e à liderança democrática dos EUA? Por um lado, esta caracterização seria banal: O terror é óbvio em um conflito que no final se torna uma guerra racial; do outro lado seria extremamente distorcido: seria colocar os inimigos da escravidão e os donos de escravos no mesmo nível e omitir que os donos de escravos encontraram inspiração e apoio nos EUA onde a escravidão negra vivia e muito bem. A categoria de totalitarismo não se torna mais convincente se for empregada como único critério de interpretação para um conflito gigantesco entre a revolução anticolonial e a contrarrevolução colonial, defendendo a escravidão, que se desencadeou na primeira metade do século XX. É evidente que este é um capítulo da história que necessita investigação profunda de todos os tipos e torna inevitável interpretações controversas; mas não há nenhuma razão para ainda transformar dois inimigos mortais em irmãos gêmeos.

Notas:

1 Tendulkar 1990, p.210

2 Gandhi 1969-2001, Vol. 80, p. 200 (Answers to Questions, 25. April 1941) and vol. 86, p. 223 (Interview with Ralph Coniston in April 1945).

3 James 1963, p. 310 (Addition of 1963 to the original edition of 1938).

4 Torri 2000, p. 598.

5 In Mukerjee 2010, p. 78 and pp. 246-47).

6 De Gasperi 1956, p. 15-16.

7 Fredrickson 2002, p. 2 and p. 124.

8 Trans. German Emergency League against the Disgrace of the Blacks.

9 Longerich 2008, p. 66/Longerich 2012, p. 51

10 Ibid.

11 Goebbels 1992, pp. 1747-48.

12 Spengler 1933, p. 150.

13 Hitler 1939, pp. 153-54.

14 Hitler 1980, p. 377 and p. 334 (Conversations of the 30th August of 1942 and of 8th August of 1942).

15 Trans. Herrentum,

16 Himmler 1974, p. 156 and p. 159.

17 Stalin 1917.

18 Stalin 1917a.

19 Stalin 1920.

20 Olusoga, Erichsen 2011, p. 327

21 Hitler 1965, see the speeches from the 22th of August 1939, from the 28th of September 1940 and from the 30the March and 8th November 1941.

22 Dimitroff 2000, p. 162

23 Stalin 1921.

24 Stalin 1927.

25 Hitler, 1939, p. 82 and pp. 428-29.

26 Hitler, 1961, p. 131-32.

27 Hamilton 1987.

28 Hitler 1961, p. 52; Hitler 1939, p. 730.

29 Hitler 1939, pp. 313-14.

30 Rosenberg 1937, p. 673 and pp. 668-69.

31 In Woodward 2013, p. 350 and pp. 355-56.

32 In Woodward 2013, p. 352-53.

33 What concerns Ratzel, the vice consul in Chicago and Stoddard, see Losurdo 2007b, p. 164-65 and pp. 159.

34 Losurdo 2012, chapter 6, § 8.

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