29 de fevereiro de 2016

Drones da Itália para a Líbia

Manlio Dinucci


Desempenhando o papel de um Estado soberano, o governo Renzi “autorizou caso a caso” a partida de drones armados dos Estados Unidos desde a base italiana de Sigonella para a Líbia e outros países. Sabe-se que já em 2011 um drone Usa Predator Reaper decolou de Sigonella e foi telecomandado desde Las Vegas para atacar na Líbia o comboio em que se encontrava Kadafi, jogando-o nas mãos dos milicianos de Misurata.

A Itália entra assim no elenco oficial das bases de drones de ataque dos Estados Unidos, sob o controle exclusivo do Pentágono, junto a países como o Afeganistão, a Etiópia, o Níger, a Arábia Saudita, a Turquia.

O ministro das Relações Exteriores, Gentiloni, deixando claro que a utilização das bases não requer uma comunicação específica ao parlamento”, garante que isto “não é o prelúdio de uma intervenção militar” na Líbia.

Quando na realidade a intervenção já começou: forças especiais americanas, britânicas e francesas – como confirmam The Telegraph e Le Monde – estão operando secretamente na Líbia. Desde o hub aeroportuário de Pisa, limítrofe à base estadunidense de Camp Darby, decolam continuamente aviões de transporte C-130 (provavelmente também estadunidenses), levando materiais militares às bases meridionais e talvez ainda a alguma base no Norte da África.

Na base de Istres, na França, chegaram aviões USA KC-135 para o reabastecimento em voo dos caças-bombardeiros franceses. A operação é dirigida não só à Líbia. Istres é a base da “operação Barkhane”, que a França conduz com 3 mil militares na Mauritânia, no Mali, Níger, Chade e Burkina-Faso.

Na mesma área, na Nigéria, operam os Estados Unidos com forças especiais e uma base de drones em Camarões. Sempre com a motivação oficial de combater o chamado Estado Islâmico (EI) e seus aliados.

Simultaneamente, a OTAN deslocou para o Mar Egeu o Segundo Grupo Naval Permanente, sob comando alemão, e aviões radar Awacs (centros de comando voadores para a gestão do campo de batalha), com a motivação oficial de “apoiar a resposta à crise dos refugiados” (provocada pelas guerras dos EUA/Otan contra a Líbia e a Síria). Junta-se a tais operações a “Dynamic Manta 2016”, exercício militar da OTAN no Mar Jônico e no Canal da Sicília com forças aeronavais dos Estados Unidos, da França, Grã Bretanha, Espanha, Grécia, Turquia e Itália, que forneceu as bases de Catânia, Augusta e Sigonella. Prepara-se desse modo a “operação de peacekeeping (manutenção da paz) sob liderança italiana” que, com a motivação de libertar a Líbia do EI, visa a ocupar sua zona costeira, econômica e estrategicamente mais importante. Falta apenas o “convite”, que poderá ser feito por um fantasmagórico governo líbio.

Quem está pressionando para a intervenção na Líbia, desde Washington, é Hillary Clinton, candidata à presidência, que – escreve o New York Times em uma ampla reportagem – tem “a abordagem mais agressiva sobre as crises internacionais”. Foi ela quem em 2011 convenceu Obama a romper as hesitações. “O presidente assinou um documento secreto, que autorizava uma operação clandestina na Líbia e o fornecimento de armas aos rebeldes”, enquanto o Departamento de Estado dirigido pela [Hillary] Clinton os reconhecia como “legítimo governo da Líbia”.

As armas, inclusive os mísseis antitanques Tow e radares anti-bateria, foram enviados pelos Estados Unidos e outros países ocidentais a Bengasi e alguns outros aeroportos. Simultaneamente, a OTAN sob comando estadunidense, realizava ataques aéreos e navais, com dezenas de milhares de bombas e mísseis, desmantelando do exterior e do interior o Estado líbio.

Quando em outubro de 2011 Kadafi foi assassinado, a Clinton vibrou com um “Uau!”, exclamando: “Nós viemos, nós vimos, ele morreu”. Não sabemos que líder citaremos para a segunda guerra na Líbia. Sabemos, no entanto, que será por controle remoto.

Acerto de contas selvagem em Wall Street: Nuvens pairam sobre a reunião do G-20

Mike Whitney

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Os ministros das Finanças e banqueiros centrais de maiores economias do mundo reuniram-se em Shanghai, China no fim de semana para discutir muitos dos problemas para os quais só eles são responsáveis. No primeiro lugar da lista de problemas aparece a inabalável desaceleração do crescimento global a qual, em vasta medida, é resultado das políticas monetárias experimentais que bancos centrais implementaram a partir da recessão em 2009. Surpreendentemente, o grupo admitiu que as estratégias "de alívio" que inventaram ["easing strategies"] não produziram a recuperação duradoura que tanto buscavam, mas, ao mesmo tempo, ninguém fez qualquer esforço para corrigir os próprios erros, nem ninguém cogitou de introduzir as mudanças necessárias para conter a queda do produto global. Adiante, breve recapitulação de Bloomberg:

"Chefes das finanças das maiores economias do mundo prometeram que os respectivos governos farão mais para estimular o crescimento global, entre crescentes preocupações em torno da potência da política monetária. 
Em promessa muito mais fácil de prometer que de cumprir e que pode vir a desapontar investidores à procura de algum plano coordenado de estímulos, o G-20 disse que "usaremos política fiscal flexível para fortalecer o crescimento, a criação de empregos e a confiança". Depois de reunião de dois dias em Xangai, ministros de Finanças e presidentes de bancos centrais também repetiram o que já se ouvira na reunião anterior, que "a política monetária, só ela, não pode levar a crescimento equilibrado."

Isso é conversa fiada completa. Chefes das finanças das principais economias do mundo não comprometeram os respectivos governos a fazer mais para estimular o crescimento global. Bem ao contrário, não moveram um dedo para mudar coisa alguma. Por isso Wall Street vê-se em palpos de aranha, porque não conseguiram o alívio muito aliviado de dinheiro pelo qual tanto ansiavam. Claro. Agora que as ações estão nas cordas e os lucros corporativos só fizeram cair durante dois trimestres consecutivos (sinal de recessão iminente), os rapazes do big money querem é mais favores do Tio Sam, dessa vez no formato de estímulos fiscais e "reformas estruturais", que são codinomes secretos equivalentes a "medidas pró-business" – que sempre significam cortar salários dos trabalhadores e reduzir ainda mais os impostos sobre corporações vorazes – e o fim de qualquer regulação que ainda regule alguma coisa, para que Wall Street possa depenar mais facilmente "Nós, o Povo".

Os mercados, de fato, estavam esperando alguma indicação de que havia mais almoço grátis só para eles, cortesia do governo. Mas os ministros de Finanças não conseguiram entrar em acordo em torno de coisa alguma, o que fez com que toda a conversa de mais e mais "estímulos" fosse frustrada, de vez. Em outras palavras, Wall Street ficou a ver navios. Por isso os rapazes lá estão tão transtornados. Vejam aí, da Financial Review:

"Investidores queimados no torvelinho dos mercados globais procuram por sinais de que os mais altos funcionários das finanças do mundo estão dispostos a tomar medidas para inflar o crescimento e acalmar os movimentos de moedas... Steven Englander, do Citigroup, disse que qualquer desconfiança de que os políticos não falarão, na declaração final, de apoio mais explícito a estímulos fiscais será visto com desagrado pelos investidores. Para Andrew Brenner, diretor de renda fixa na corretora National Alliance Capital Markets em New York, compromisso firmado com a expansão fiscal e clareza sobre a política monetária chinesa farão subir os fundos, semana que vem; e as ações despencarão, se nada se decidir quanto a essas questões...

"Manter os mesmos termos de antes será grave desapontamento, e será visto ou como complacência ou como sinal de paralisia política" – disse Englander, diretor de estratégia monetária para grandes economias desenvolvidas do Citigroup, em relatório de 25 de fevereiro de 2016. Conclamou o G-20 a "criar coragem para dizer aos países membros que a política monetária tem de ser acompanhada por expansão fiscal ("G-20 needs to ‘man up’ to avert more market turmoil, says Citigroup’s Englander", Financial Review)

Você pode ver o que está acontecendo? Todos já aceitam o fato de que a política monetária perdeu a eficácia. Então, agora, Wall Street quer facilidades fiscais. E pouco se importam com como as obtenham. Observem o cuidado de Mr. Englander com as palavras – e a clara ameaça: "Manter os mesmos termos de antes será grave desapontamento, e será visto ou como complacência ou como sinal de paralisia política." Em outras palavras, se Wall Street não conseguir mais ajuda do governo vai bater o pé e ter outro enorme chilique.

Reuters conta a mesma história. Confira:

"Os investidores podem voltar a posições prévias nos fundos, porque o G-20 não está conseguindo conduzir as economias na direção de novas medidas concretas para estimular a economia, disseram os analista... 
"O fato de que o G-20 só fará mais do mesmo será acolhido com bocejo monstro e provável queda no mercado de ações", disse Richard Edwards, diretor-gerente de comércio e pesquisa da firma HED Capital. Outros deram sinais semelhantes de desânimo. 
"Alguns ficarão desapontados se não houver medidas concretas", disse François Savary, chefe de investimentos na firma Prime Partners de investimentos e consultoria com sede em Genebra." (Reuters)

"Algumas pessoas vão se decepcionar", diz Savary?? Bem, foda-se! Quer dizer, quanto tempo é que vamos continuar a moldar a política para que ela atenda às necessidades exclusivas dos sugadores de sangue em Wall Street? É loucura!

Para bancos centrais e chefes de finanças, crescimento e mais empregos não valem, sequer, um rasgo. Não querem nem saber do estado geral da economia. Toda essa conversa é papo furado. É piada. A única coisa que lhes interessa são os lucros e os preços das ações. E só. O resto é só encher linguiça sobre "fazer mais para estimular o crescimento" ou "usar políticas fiscais para aprofundar a criação de empregos e aumentar a confiança. É de vomitar. Aqui, um pequeno excerto do comunicado do G-20:

"A recuperação global prossegue, mas ainda é desigual e não atende nossa ambição de crescimento forte, sustentável e equilibrado... Mesmo reconhecendo esses desafios, ainda assim entendemos que a magnitude da recente volatilidade dos mercados não se refletiu nos fundamentos subjacentes da economia global."

Fundamentos? Que fundamentos? Bancos centrais globais compraram mais de $10 trilhões de portfólios pressionados, desde o fim da recessão em 2009. Alguém aí está pensando que essa redução na oferta pode ter afetado o preço de ações e papéis, um pouquinho só, que fosse? Apenas um pouquinho?

Os investidores sabem que tudo isso é miragem. Sabem que ações cujos preços vão à estratosfera são mantidas em pé com goma de mascar e fita isolante. Por isso, todos saltam rapidamente para fora, e pedem resgates, ao primeiro sinal de confusão. E é isso que faz das confabulações do G-20 uma ocasião tão importante para as manchetes, porque os chefões das finanças e os cérebros bancários absolutamente não tinham o que pôr sobre a mesa. Basicamente, mandaram Wall Street "empacotar areia".

Chegaram até a dar as costas a um apelo emocional feito pelo FMI, para que tomassem "ação firme" para estimular o crescimento e evitar maiores danos ao já frágil sistema financeiro.

Eis o que disse o FMI:

"O G20 deve planejar agora para oferecer suporte coordenado à demanda usando o espaço fiscal disponível para estimular o investimento público e complementar reformas estruturais... É necessária abordagem abrangente, para reduzir a super-dependência em relação à política monetária. Em particular, política fiscal de curto prazo [near-term fiscal policy] deve garantir maior suporte onde apropriado e desde que haja espaço fiscal... A economia global precisa de ações multilaterais de peso para estimular o crescimento e conter os riscos."

Isso é uma reviravolta para os promotores de austeridade do FMI, você não acha?

Mas o Fundo está apenas sendo pragmático. Agora que a política monetária deu com os burros n'água, estímulo fiscal é o único jogo aberto na cidade. As coisas são como são. Ou os ministros das finanças aceitam esse fato e empurram para gastos adicionais do governo em programas de infra-estrutura e similares, ou ações e os lucros vão enfrentar um acerto de contas selvagem. É simples assim.

O socialismo e o feminismo não entram às vezes em conflito?

Em última análise, os objetivos do feminismo radical e do socialismo são os mesmos – justiça e igualdade para todas as pessoas.

por Nicole M. Aschoff

Jacobin

Ilustração por Phil Wrigglesworth
Socialismo e feminismo têm uma relação longa, e por vezes pesada.

Socialistas são muitas vezes acusados de enfatizarem demais a questão de classe – de colocar a divisão estrutural entre aqueles que precisam trabalhar em troca de um salário para sobreviver e aqueles que possuem os meios de produção no centro de cada análise. Até pior, eles ignoram ou inferiorizam o quão centrais outros fatores – como sexismo, racismo ou homofobia – são na formação de hierarquias de poder. Ou eles admitem a importância destas normas e práticas negativas, mas defendem que elas somente poderão ser extirpadas depois que a gente se livrar do capitalismo.

Ao mesmo tempo, socialistas acusam feministas hegemônicas de se focar demais em direitos individuais ao invés da luta coletiva, e ignorar as divisões estruturais entre as mulheres. Eles acusam as feministas hegemônicas de se alinharem com projetos políticos burgueses que diminuem a capacidade de ação de mulheres trabalhadoras, ou de pressionar por demandas de classe média que ignoram as necessidades e desejos de mulheres pobres, tanto no Norte Global quanto no Sul.

Estes debates são antigos e datam da metade do século XIX e da Primeira Internacional, e giram em torno de questões políticas profundas sobre poder e as contradições da sociedade capitalista.

Turvando ainda mais as águas está a forma com que as políticas do feminismo são complicadas pela natureza histórica do Capitalismo – a forma como o sexismo está integrado tanto no processo de lucro quanto no de reprodução do sistema capitalista como um todo é dinâmico.

Este dinamismo é muito aparente hoje, quando uma mulher candidata à presidência, Hillary Clinton, é a principal escolha entre os milionários estadunidenses. Mas a divisão entre Socialismo e Feminismo é, em definitivo, desnecessária.
Por que Socialistas deveriam ser Feministas

A opressão às mulheres, tanto na sociedade dos EUA quanto globalmente, é multi-dimensional – divisões de gênero nas esferas política, econômica e social sublinham por que, para nos libertar das tiranias do Capital, os Socialistas precisam ser também Feministas.

A possibilidade de uma mulher finalmente se tornar presidenta dos EUA joga luz sobre a rígida falta de lideranças femininas, tanto nos EUA quanto ao redor do mundo. Apesar de mulheres poderosas como Angela Merkel, Christine LeGarde, Janet Yellen e Dilma Rousseff, o equilíbrio de gênero nos mundos político e corporativo permanece altamente enviesado. Apenas 4% dos CEOs nas empresas da Fortune 500 são mulheres e a maioria das mesas diretoras de corporações têm poucos membros femininos, quando têm algum.

Globalmente, 90% dos Chefes de Estado são homens, e no Fórum Econômico Mundial de 2015 apenas 17% dos 2500 representantes eram mulheres, enquanto 2013 marcou a primeira vez que as mulheres conquistaram 20 cadeiras no Senado dos EUA.

Diferente de muitos países, as mulheres nos Estados Unidos possuem, a grosso modo, direitos igualitários e proteção legal, além de tanto acesso a educação, nutrição e cuidados de saúde quanto os homens. Mas as divisões de gênero são aparentes através da sociedade.

As mulheres se saem melhor que os homens na educação superior, mas elas não atingem níveis comparáveis de sucesso ou riqueza e permanecem estereotipadas e sub-representadas na mídia popular. Ataques aos direitos reprodutivos femininos [2] continuam sem diminuir e, depois de uma longa e contínua queda nos anos 90, as taxas de violência contra as mulheres não se movem desde 2005.

Ao mesmo tempo, decisões sobre como balancear a vida doméstica e de trabalho, diante de custos sempre crescentes de moradia e cuidado infantil, são tão difíceis quanto sempre foram. Nos 50 anos desde a passagem do Ato de Pagamento Igualitário de 1963 as mulheres penetraram na força de trabalho em massa; hoje 60% das mulheres trabalham fora de casa. Mães solteiras e casadas têm mais chance de trabalhar, incluindo 57% de mães de crianças de menos de 1 ano.

Mas mulheres que trabalham em jornada completa ainda ganham apenas 81% do que os homens ganham – um número inflado pelo declínio mais rápido nos salários de homens nos últimos anos (com exceção dos que possuem diploma superior) nos anos recentes.

Diferenças de pagamento são comparáveis às divisões de gênero no trabalho. Os setores de varejo, serviços e alimentação – o centro do crescimento de novos empregos – são dominados por mulheres, e a feminização do trabalho de “assistência” é ainda mais pronunciado. Apesar de ganhos recentes, como a extensão do Ato de Padrões Justos de Trabalho aos trabalhadores domésticos, trabalho de assistência [3] ainda é visto como trabalho de mulher e sub-valorizado. Números desproporcionais de empregos de cuidados são contingentes, pagam pouco e onde humilhações, assédio, agressões sexuais e roubo de salário são comuns.

Em adição a estas diferenças claras entre as experiências de homens e mulheres nos EUA, existem efeitos mais perversos e de longo alcance do sexismo. Feministas como bell hooks argumentam que o sexismo e o racismo impregnam todos os cantos da sociedade e que narrativas dominantes de poder glorificam visões de vida brancas e heteronormativas.

Desde o nascimento, meninos e meninas são tratados diferentemente e estereótipos de gênero são introduzidos em casa, na escola, e na vida cotidiana e perpetuados através das vidas das mulheres, dando forma às suas identidades e escolhas de vida.

O sexismo também exerce um papel menos óbvio, mas crítico, na criação de lucros. Desde o começo, o Capitalismo tem dependido de trabalho não-pago fora do mercado de trabalho (principalmente no lar) que provê ingredientes essenciais para a acumulação de capital: trabalhadores – que precisam ser criados, vestidos, alimentados, socializados e amados.

Este trabalho não-pago é altamente marcado pelo gênero. Enquanto mais homens tomam parte nas tarefas domésticas e na educação infantil do que no passado, a reprodução social ainda cai primariamente sobre as mulheres, de quem se espera que carreguem nos ombros o fardo mais pesado no trabalho doméstico. A maioria das mulheres também faz trabalho pago fora de casa, tornando o seu trabalho em casa um “segundo turno.” Desta forma, mulheres são duplamente oprimidas – exploradas no espaço de trabalho e não-reconhecidas como trabalhadoras na reprodução social da força de trabalho.

Por que feministas deveriam ser socialistas

Estas divisões de gênero que atravessam as classes e persistem – nas esferas política, econômica e social – dão combustível ao ponto de vista feminista dominante de que o sexismo é uma coisa separada do Capitalismo, algo com que precisamos lidar separadamente.

Através de numerosas ondas de luta feminista, ativistas tem perseguido uma variedade de estratégias no combate ao sexismo e a divisões de gênero. Hoje, feministas hegemônicas gravitam rumo a um foco em colocar a mulher no poder – tanto na esfera política quanto econômica – como um caminho para resolver a série de problemas que as mulheres encaram, tais como desigualdade salarial, violência, equilíbrio entre vida e trabalho e socialização sexista.

Eminentes porta-vozes femininas [4] como Sheryl Sandberg, Hillary Clinton, Anne-Marie Slaughter e muitas outras defendem esta estratégia feminista de “tomada de poder.” Sandberg – uma das mais influentes defensoras desta estratégia – argumenta que as mulheres precisam parar de ter medo e começar a “desbaratar o status quo.” Se elas fizerem isso, ela acredita que esta geração pode diminuir a lacuna de lideranças e, ao fazer isso, tornar o mundo um lugar melhor para todas as mulheres.

O impulso do argumento de tomada de poder é que se as mulheres estivessem no poder elas, diferente dos homens, iriam dar conta de implementar políticas que beneficiariam mulheres e aquela divisão de gênero que atravessa classes nas esferas econômica, política e cultural somente será eliminada se as mulheres mantiverem um número de posições de liderança igual ao dos homens.

A ênfase em avanços individuais como o caminho para atingir os objetivos do Feminismo não é nova, e tem sido criticada por numerosas feministas, incluindo Charlotte Bunch e Susan Faludi, que questionam a noção de solidariedade entre irmãs como um remédio para divisões de gênero muito enraizadas. Como Faludi diz, “Você não pode mudar o mundo para as mulheres apenas inserindo rostos femininos no topo de um sistema intacto de poder social e econômico.”

Feministas-Socialistas como Johanna Brenner também apontam para como o feminismo hegemônico encobre tensões profundas entre mulheres:

“Nós podemos generosamente caracterizar como ambivalentes as relações entre mulheres da classe trabalhadora/pobres e as mulheres profissionais de classe média cujos trabalhos são erguer e regular aqueles que vêm a serem definidos como problemáticos – os pobres, os não-saudáveis, os que não se encaixam culturalmente, os sexualmente não-conformistas, os pouco-educados. Estas tensões de classe vazam nas políticas feministas, enquanto feministas de classe-média afirmam representar as mulheres trabalhadoras.”

Então, enquanto é certamente necessário reconhecer o quão dividida por gênero a sociedade contemporânea permanece, também é necessário manter os olhos abertos sobre como superar essas divisões e, igualmente importante, reconhecer as limitações de um Feminismo que não desafia o Capitalismo.

O Capital se alimenta sobre normas existentes de sexismo, compondo a natureza exploradora do trabalho assalariado. Quando as ambições e desejos das mulheres são silenciados ou sub-valorizados, é mais fácil de tomar vantagem delas. O sexismo é parte da caixa de ferramentas da companhia, permitindo às empresas pagar menos para as mulheres – particularmente negras – e discriminá-las de outras maneiras.

Mas mesmo se nós extirparmos o sexismo, as contradições inerentes ao Capitalismo vão persistir. É importante e necessário que as mulheres assumam posições de poder, mas apenas isso não vai mudar a divisão fundamental entre trabalhadores e proprietários – entre mulheres no topo e mulheres na base. Não vai mudar o fato de que a maioria das mulheres se encontra em empregos precários, de baixo salário, que representam uma barreira bem maior ao avanço e a uma vida confortável que o sexismo na esfera econômica ou política. Não vai mudar o poder da busca pelo lucro e a compulsão das companhias por dar às trabalhadoras e trabalhadores tão pouco quanto as normas econômicas, sociais e culturais permitirem.

É claro, a sociedade não é redutível a relações salariais e as divisões de gênero são reais e persistentes. Levar a questão de classe a sério significa ancorar a opressão feminina dentro das condições materiais em que elas vivem e trabalham, enquanto reconhecendo o papel do sexismo na formação das vidas das mulheres tanto no trabalho quanto em casa.

O movimento feminista – tanto sua encarnação de “Bem-Estar Social” quanto a radical contemporânea – tem tido ganhos significativos. O desafio agora é duplo: defender essas duras vitórias e tornar possível a todas as mulheres realmente aproveitá-las; e pressionar adiante por demandas novas e concretas que lidem com as relações complexas entre o sexismo e a busca por lucro.

Não há resposta simples sobre como atingir estes objetivos gêmeos. No passado, mulheres tiveram os maiores ganhos ao lutar tanto por direitos das mulheres quanto direitos dos trabalhadores simultaneamente – ligando a luta contra o sexismo à luta contra o Capital.

Como Eileen Boris e Anelise Orleck argumentam, durante os anos 70 e 80 “feministas sindicalistas ajudaram a revitalizar o movimento das mulheres que deflagrou novas demandas de direitos femininos em casa, no trabalho e dentro de sindicatos.” Aeromoças, trabalhadoras do setor têxtil, da igreja e domésticas desafiaram os movimentos sindicais dominados por homens (uma mulher não sentou na mesa executiva da AFL-CIO até os anos 80) e no processo forjaram um novo Feminismo, mais expansivo.

Mulheres sindicalistas criaram um novo campo de possibilidades ao demandar não apenas salários mais altos e oportunidades iguais, mas também creches, escalas de trabalho flexíveis, licença-maternidade, e outros ganhos normalmente negligenciados e subvalorizados por seus irmãos sindicalistas.

Esta é a direção em que tanto Socialistas e Feministas deveriam estar se orientando – rumo a lutas e demandas que desafiem tanto as tendências do Capital quanto as normas arraigadas do sexismo que estão enraizadas tão fundo sob o Capitalismo.

Lutas e demandas que atingem isso são concretas e estão atualmente sendo travadas. Por exemplo, a luta por um sistema público e gratuito de saúde – que proveria cuidados de Saúde como um Direito para toda pessoa, do berço ao túmulo, independente de sua capacidade de pagar – é uma demanda que mina ambos o sexismo e o poder do Capital de controlar e reprimir a ação trabalhadora. Há muitas outras demandas concretas de curto-prazo que misturam os objetivos do Feminismo e do Socialismo também, incluindo Educação Superior gratuita, creches gratuitas, e uma Renda Básica Universal combinados com uma rede robusta de segurança social.

Estas reformas estabeleceriam as bases para objetivos mais radicais que iriam longe na extirpação do sexismo, da exploração e da mercantilização da vida social. Por exemplo, projetos para aumentar o controle coletivo e democrático sobre instituições centrais para nossas vidas em casa, na escola ou no trabalho – escolas, bancos, espaços de trabalho, prefeituras, agências estatais e locais – dariam a todas as mulheres e homens mais poder, autonomia e a possibilidade de uma vida melhor.

Esta estratégia anticapitalista é uma que contém a possibilidade de mudanças radicais de que as mulheres precisam.

Em última análise, os objetivos do Feminismo radical e do Socialismo são os mesmos – justiça e igualdade para todas as pessoas, não simplesmente oportunidades iguais para as mulheres ou participação igual por mulheres em um sistema injusto.

28 de fevereiro de 2016

G-20 e as soluções convencionais para a desaceleração global

Michael Roberts

The Next Recession

Foi desanimador o encontro que reuniu, no último final de semana, os ministros das finanças das vinte maiores economias do mundo em Xangai, na China. Antes do encontro, o FMI apresentou um quadro sombrio da situação da economia global. No relatório Global Prospects and Policy Challenges, os economistas do FMI alertaram que reduziriam, novamente, suas previsões para o crescimento econômico global em 2016.

Durante o encontro, foram apresentados os dados relativos ao comércio mundial em 2015, mostrando a maior retração desde a Grande Recessão de 2008-9. Segundo o Observatório de Comércio Global do Serviço Holandês de Análise de Politica Econômica, o valor em dólares das mercadorias que cruzaram fronteiras internacionais no último ano caiu 13,8% – a primeira contração desde 2009.

O índice Baltic Dry, que mede o comércio global de mercadorias a granel (bulk commodities), está se aproximando dos seus níveis históricos mais baixos. A China, que desde 2014 ultrapassou os Estados Unidos como o país de maior comércio no mundo, declarou quedas de dois dígitos referentes a janeiro tanto em suas exportações, quanto em suas importações. No Brasil, país que passa agora por sua pior recessão em mais de um século, as importações chinesas colapsaram. Segundo a maior empresa de frete marítimo do mundo, a Maersk Line, as exportações chinesas enviadas por containers para o Brasil, incluindo desde carros até têxteis, caíram 60% em janeiro, comparadas com o mesmo mês de 2015, enquanto as importações via containers caíram pela metade, naquela que é a maior economia da América Latina.

Quando medido em volume, a situação não é tão sombria, com o comércio global crescendo 2,5%. Mas tal crescimento ficou abaixo do crescimento econômico geral, de 3,1%, corroborando uma tendência depressiva na economia global. Antes da crise de 2008, o comércio mundial cresceu por décadas a taxas até duas vezes maiores que a da produção global. Entretanto, desde 2011 o crescimento no comércio desacelerou, mantendo-se no nível, ou mesmo abaixo, do crescimento geral da economia mundial, o que levantou dúvidas sobre a possibilidade da globalização, tão característica das últimas décadas, ter chegado ao seu teto.

E, se a China for excluída, as economias do assim chamado mundo em desenvolvimento estão crescendo agora mais lentamente que as do mundo desenvolvido pela primeira vez desde 1999. Os mercados emergentes, excluindo a China, geraram um crescimento da produção de apenas 1,92% no último ano, de acordo com dados do FMI, isto é, abaixo mesmo do hesitante crescimento do mundo desenvolvido, onde a produção subiu 1,98%.

Este desempenho ruim dos mercados emergentes frente aos países desenvolvidos é ainda mais marcado em termos de produção per capita, pois o crescimento populacional é mais rápido nos primeiros. De fato, o último censo no Japão mostrou que o país perdeu um milhão de habitantes nos últimos dez anos.

Um economista do Citibank comentou: “Isto é o que se chama de falta de convergência. Teoricamente, os mercados emergentes deveriam estar crescendo mais rapidamente que os desenvolvidos, se aproximando destes, mas eu penso que o mundo emergente está provavelmente passando por um pouco de recessão agora... O futuro de bilhões de pessoas dependerá de saber se esta reversão da tendência à convergência se mostrará um acidente de percurso, ou se a performance vigorosa dos países emergentes de 2000 a 2014 se revelará como uma anomalia”.

Por outro lado, como argumentei anteriormente em meu blog, não podemos confirmar uma nova queda econômica global a não ser que a economia dos Estados Unidos também comece a se contrair. O que não está acontecendo ainda. Nos dados do último trimestre de 2015, o PIB real dos Estados Unidos cresceu a um ritmo anual de 1%, fechando um crescimento para 2015 de 2,4%, similar ao resultado do Reino Unido. Mas o crescimento americano está desacelerando, devido à diminuição do ritmo do investimento privado e às perdas no comércio exterior.

O quadro não é bom. Como economistas do Citibank puseram: “É provável, em nossa visão, que o crescimento global seja fraco novamente este ano, e o risco de uma recessão do crescimento global (crescimento abaixo de 2%) é grande e está crescendo. Se a economia americana esmorecer, será difícil identificar qualquer outra grande economia que poderia servir de motor de crescimento para o mundo a curto prazo. E a previsão de crescimento nos Estados Unidos em 2016 já caiu de 3.0%, em janeiro de 2015, para 2.0% mais recentemente.”

O FMI, em seu G20 Surveillance Note, concluiu que “há pouco espaço para complacência agora. Governantes (policymakers) podem e devem agir rapidamente para estimular o crescimento e planejar contenção de riscos. Igualmente urgente é a coordenação de medidas pelo G20 em uma forte resposta. O G20 deve planejar agora e identificar proativamente políticas que possam ser postas em ação rapidamente, se os riscos de queda econômica se materializarem.” No encontro do G20, o diretor do Banco da Inglaterra (o mais bem pago diretor do mundo), Mark Carney, declarou que “a economia global corre o risco de ficar presa numa situação de equilíbrio de baixo crescimento, baixa inflação e baixa taxa de juros.” Os ministros do G20 fizeram esforço para parecerem confiantes em seu comunicado conjunto: “A recuperação global continua, mas se mantém desigual e aquém de nosso desejo por crescimento forte, sustentável e balanceado.”

Então qual a saída para esta desaceleração global que ameaça se converter em nova recessão? A busca por novas medidas de política econômica para evitar nova queda já se iniciou. Bancos centrais têm zerado as taxas de juros para encorajar empresas e indivíduos a pegarem mais dinheiro emprestado, dinheiro tem sido emitido e dado aos bancos (quantitative easing) e, agora, estamos vendo taxas de juros negativas (cobrando encargos dos bancos que não emprestam seu dinheiro para a economia real). Mas estas medidas não estão funcionando.

De fato, no encontro do G20 o diretor Carney, do Banco da Inglaterra, despejou água fria sobre a solução oferecida por vários bancos centrais para a desaceleração, as taxas de juros negativas. Estas ações dos bancos centrais de determinar as taxas de juros abaixo de zero podem criar um ambiente de “meu pirão primeiro” (beggar thy neighbor), que poderia aprisionar a economia global em crescimento baixo. Taxas negativas de juros significam que clientes de fato pagam uma tarifa para deixarem depositado dinheiro nos bancos, então cidadãos japoneses estão começando a acumular ienes, de acordo com o Wall Street Journal, e precisam de algum lugar para guardá-los. A venda de cofres duplicou desde o ano anterior na cadeia de lojas Shimachu, de acordo com o Wall Street Journal. Já se esgotou nas lojas um modelo, custando 700 dólares. Outros poupadores consideram lugares menos convencionais. “Em resposta à taxa negativa de juros, pessoas idosas pensam em guardar seu dinheiro embaixo do colchão.” Então, as pessoas estão guardando seu dinheiro, ao invés de gastá-lo.

O G20 pondera: “Políticas monetárias vão continuar apoiando a atividade econômica e garantindo a estabilidade dos preços... mas política monetária sozinha não pode conduzir a crescimento balanceado.” E, como os economistas do FMI disseram: “política monetária acomodativa, ainda que muito necessária, não basta. É necessário uma abordagem compreensiva, que inclua política fiscal (onde há espaço para tal) e redução do endividamento (balance sheet repair).”

Se nada for feito, uma nova crise financeira global é inevitável, e, sem reformas, é provável que aconteça logo, de acordo com o antecessor de Carney, o antigo diretor do Banco da Inglaterra, Mervyn King, ao promover seu novo livro (“O fim da alquimia, a economia global e o futuro do dinheiro”). King, que era diretor quando o sistema financeiro mundial quase colapsou em 2008-09, disse que somente repensando desde os fundamentos o sistema monetário e bancário seria possível evitar uma nova crise. “Sem reforma do sistema financeiro, outra crise é certa, e o fracasso... em atacar o desequilíbrio na economia mundial torna provável que não demore a acontecer.”

A opinião majoritária no Federal Reserve (Banco Central dos Estados Unidos) não é tão pessimista. O vice-presidente Stanley Fischer ainda espera que economia americana se acelere. Fischer declarou: “Se os recentes desenvolvimentos no mercado financeiro conduzirem a uma deterioração durável das condições financeiras, eles podem apontar uma desaceleração do crescimento global que poderá afetar o crescimento e a inflação nos Estados Unidos. Mas temos visto outros momentos similares de volatilidade nos anos recentes – incluindo a segunda metade de 2011 – que deixaram poucas marcas visíveis na economia, e ainda é cedo para julgar as ramificações do aumento da volatilidade dos mercados nas primeiras sete semanas de 2016.” Seria, então, um erro promover uma taxa de juros negativa nos Estados Unidos. “A política monetária deve buscar evitar tais riscos e manter a expansão num caminho sustentável.”

De todo modo, as previsões de catástrofe entre economistas e governantes estão ficando mais fortes. Se fala agora então em “dinheiro de helicóptero” (dar dinheiro às famílias para que gastem) e/ou estímulo fiscal (maior gasto governamental e corte de impostos). Eu comentei antes sobre a natureza do “dinheiro de helicóptero”, batizado assim a partir da ideia originalmente promovida pelo economista monetarista Milton Friedman e seu discípulo, o antigo presidente do Federal Reserve Ben Bernanke, de que autoridade monetárias poderiam simplesmente despejar pilhas de dinheiro de helicópteros para serem gastas. O dinheiro (literalmente!) caído do céu levaria a um grande aumento na demanda dos consumidores, o que mobilizaria vendas, salários e lucros. Esta ideia, que, evidentemente, seria implementada por depósitos nas contas bancárias dos cidadãos, ganhou maior peso quando Adair Turner, antigo chefe da autoridade regulatória do Reino Unido, a promoveu em seu livro “Entre a dívida e o diabo”.

Esta “solução” é agora promovida como a última cartada por pessoas como Martin Wolf e Gavyn Davies, os colunistas keynesianos do Financial Times britânico. Temos um argumento similar dos assessores da campanha presidencial de Bernie Sanders nos Estados Unidos (e também dos assessores da oposição trabalhista de Corbyn e McDonnel no Reino Unido). Dê dinheiro diretamente ao povo e isto estimulará a demanda dos consumidores, e a economia dará um salto para frente pois há uma grande demanda reprimida pronta a ser liberada.

Esta abordagem vem da premissa keynesiana que o que há de errado com as economias capitalistas neste momento é que existe uma “falta crônica de demanda”. Como Martin Wolf explica: “Por trás de tudo isto há uma simples realidade: o excesso de poupança – a tendência à poupança desejada crescer mais do que o investimento desejado – está aumentando e, portanto, a ‘síndrome crônica de deficiência de demanda’ está piorando.” O problema com o capitalismo agora seria que “a demanda também está fraca em comparação com um crescimento desacelerante da oferta. No plano mundial, o crescimento da oferta de trabalho e da produtividade do trabalho caiu de forma aguda desde a metade da última década. Um crescimento menor do potencial de produção por ele mesmo enfraquece a demanda, pois diminui o investimento, sempre um motor importante do gasto numa economia capitalista.”

Portanto, uma demanda fraca causaria investimento menor, que, por sua vez, causaria crescimento menor. Mas é mesmo esta a ordem de causalidade? Em meu blog, eu argumentei de forma consistente com as evidências que a premissa keynesiana é errada: a falta de demanda agregada numa economia nacional ou global é o resultado de uma desaceleração ou de uma queda, não a causa. A queda vem do colapso no investimento (especialmente do investimento privado) e isto ocorre quando não é mais lucrativo investir. Quem escolhe a música é o lucro, não a “demanda”.

Recentemente, Alan Freeman, também um economista marxista como eu, apresentou um artigo defendendo que Marx e Keynes teriam muito em comum na suas análises econômicas das crises no capitalismo e nas prescrições de política econômica para combatê-las (senão na política em geral). Bom, eu discordo. Não creio que as ideias teóricas de Keynes e Marx possam ser fundidas. No meu blog, enfatizei as diferenças econômicas, assim como neste artigo. (The contributions of Keynes and Marx to understanding the crisis and finding solutions)

A questão-chave agora na desaceleração global é a análise keynesiana de que o problema é a falta de demanda agregada, e de que um aumento no gasto público poderia evitá-la, por meio do multiplicador de demanda keynesiano. Mas a análise marxista diz que é a lucratividade do investimento que é decisiva nas economias dominadas pelo capitalismo, e que é o multiplicador marxista da lucratividade que é capaz de resolver esta situação. O problema da última solução é que a lucratividade somente pode ser restaurada pela destruição de valor, paralisando investimento, liquidando antigo capital e lançando milhões no desemprego. Esta é a contradição do capitalismo que Keynes não reconheceu, assim como todos os economistas ortodoxos.

Este é o motivo pelo qual o plano de Bernie Sanders, admirável em seu intento de prover empregos, salários e serviços públicos, incluindo saúde e educação, não irá ser bem-sucedido sob o capitalismo. Um apoiador de Sanders, o economista americano Gerald Friedman, causou comoção entre economistas tradicionais quando defendeu que “as políticas propostas pelo senador Sanders resultariam em crescimento anual da produção de 5,3% pela próxima década, com uma média de geração de empregos perto de 300.000 por mês. Consequentemente, a produção em 2026 seria 37% maior, e o emprego, 16%, do que seriam sem estas políticas”.

A ideia é que impulsionar a demanda com gasto governamental e aumentar os salários significativamente traria crescimento sustentável que pagaria por si mesmo. Esta ideia até mesmo ganhou apoio de um antigo diretor regional do Federal Reserve, Narayana Kocherlakota. Ele considera que o crescimento dos Estados Unidos poderia ser muito maior que as taxas medíocres projetadas para os próximos anos. Ele sugere que a economia americana poderia crescer entre 4 e 5% por ano pelos próximos quatro anos, mesmo se o crescimento (total) de produtividade não se recupere. “Neste perfil alternativo, [capital, trabalho e produção econômica] seriam [todos] (um pouco mais de) 10% maiores do que atualmente é projetado para 2020”.

Conseguir isto envolveria aumentar salários e taxas de juros, diz ele, mas somente até “níveis historicamente normais”. Então, dê às pessoas mais salários para que gastem mais e a demanda irá explodir. Há muita ociosidade na economia dos Estados Unidos: pessoas sem emprego e empresas prontas a investir. De fato, maiores salários forçariam empresas a investir em novas tecnologias para poupar trabalho e promover crescimento da produtividade, que atualmente repousa em baixa recorde.

Os argumentos de Friedman foram submetidos a uma crítica clinicamente precisa pelos economistas ortodoxos Christine e David Romer. (Senator Sander's Proposed Policies and Economic Growth) Seu principal argumento é que impulsionar a demanda na maneira como Sanders e Friedman defendem não resultaria em crescimento, porque a economia capitalista não teria esta “lacuna de demanda” (demand gap) e a “capacidade produtiva” da economia dos Estados Unidos estaria fraca demais. Em outras palavras, a economia capitalista dos Estados Unidos só poderia crescer a 5% por ano em termos reais pelo futuro previsível se fosse capaz de expandir investimentos e aumentar a produtividade do trabalho pelos próximos dez anos. E um aumento da demanda não poderia promover isso. Claro, os dois Romer não apresentaram nenhuma alternativa à sua crítica das propostas de Sanders.

De todo modo, governantes de todo o mundo estão se recusando a lançar tais programas de gasto fiscal, mesmo que o gasto com infraestrutura na Europa e nos Estados Unidos esteja no ponto mais baixo dos últimos 30 anos, e pontes, estradas e ferrovias estejam desabando a olhos vistos. De acordo com o relatório de 2013 da Associação Americana de Engenheiros Civis, os Estados Unidos precisam seriamente investir mais de 3,4 trilhões de dólares até 2020 em infraestrutura, incluindo US$1,7 trilhão em estradas, pontes e trânsito, US$736 bilhões em eletricidade e energia, US$391 bilhões em escolas, US$134 bilhões em aeroportos, US$131 bilhões em hidrovias e projetos relacionados. Mas o investimento federal em infraestrutura caiu pela metade nas últimas três décadas, de 1% do PIB para 0,5%.

Por que governos se recusam a introduzir tais políticas de maneira significativa? Bem, porque gasto governamental significa mais impostos sobre o setor empresarial e/ou sobre domicílios, ou então significa aumentar o endividamento do setor público quando este já está em níveis recordes. E significa a intervenção do Estado no setor capitalista justamente quando a lucratividade está em queda.

Soluções monetaristas para a desaceleração global já falharam, as soluções fiscais keynesianas não estão sendo aplicadas nem funcionariam a longo prazo, de qualquer maneira. A única saída é outro colapso.

26 de fevereiro de 2016

Os Clintons e Wall Street: 24 anos enriquecendo-se uns aos outros

Richard W. Behan

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Nos últimos vinte e quatro anos, os Clintons estão envolvidos em uma relação conjugal com Wall Street, de imenso benefício financeiro para ambas as partes. Eles receberam $68,72 milhões dos bancos de Nova York em contribuições de campanha e outros $8,85 milhões em honorários de palestras. Em contrapartida, os bancos lucraram centenas de bilhões de dólares em práticas que anteriormente eram proibidas, mas que a administração Clinton conseguiu legalizar.

A extraordinária ambição das carreiras de Bill e Hillary Clinton desafiam qualquer tentativa de descrição. Eles passaram boa parte das suas vidas adultas solicitando dinheiro dos outros para seu próprio benefício. Um artigo de 2014 na revista Time dizia:

"Poucos na história americana foram beneficiados com tantos recursos de tantas maneiras distintas durante tanto tempo... Os Clinton receberam pelo menos $1,4 bilhões em contribuições..."

A Time não cavou a fundo. Uma investigação mais exaustivamente detalhada no Washington Post, apenas um ano depois, dobrou essa estimativa para $3 bilhões.

Essa ambição impiedosa, que colocou Bill Clinton na Casa Branca duas vezes e que enviou Hillary Clinton duas vezes ao Senado, mais uma vez se precipita sobre a presidência americana. Ela também fez dos Clintons um dos casais mais ricos do país.

Hillary Clinton detém um patrimônio líquido de $45 milhões de dólares; Bill Clinton detém $80 milhões. Se mensurado pela riqueza da família, isso coloca o casal no top 1% dos lares americanos por um fator de 16 (US $ 7,88 milhões é o limite).

A ambição dos Clintons é reforçada pela arrogância. Seu comportamento no caso Monica Lewinsky é apenas o exemplo mais gritante. Sexual frivolities while holding office are scarcely unusual, having spiced the lives of public figures for centuries, but if the dalliance is exposed, the scarlet official typically resigns in shame and scuttles into obscurity. Recall Gary Hart or John Edwards in modern times. But the Clintons rejected that time-honored code of decency. In the glare of public scorn they besmirched the office of the Presidency by barricading themselves in the White House, shamelessly arrogant.

Os Clinton reconfiguraram o Partido Democrata a serviço próprio, antes defensor dos trabalhadores, agora mero cãozinho de Wall Street e das grandes corporações. Inteligentemente, os Clinton ainda apelam ao seu eleitorado tradicional; mas, para servir a sua nova clientela, o partido abandonou os estratos menos favorecidos da sociedade americana, especialmente as comunidades negras.

Bill Clinton teve grande importância no Democratic Leadership Council (Conselho da Liderança Democrata) e se tornou o primeiro presidente eleito em seus moldes.

Depois de uma vitória esmagadora pelos republicanos em 1984, alguns líderes democratas propuseram uma guinada ao centro, isto é, uma postura mais conservadora para o partido. Seria uma política menos ameaçadora para interesses empresariais e poderia inclusive atrair apoio financeiro das corporações. O Conselho da Liderança Democrata nasceu para promover essa nova visão dentro do partido e gradualmente conquistou influência, até que a presidência de Bill Clinton tornou o centrismo conservador dos democratas uma postura quase definitiva.

Como governador do Arkansas, Bill Clinton presidiu o Conselho da Liderança Democrata de 1990 a 1991, cortejando empresas americanas que mais tarde lhe serviriam muitíssimo bem. Amparado por $11,17 milhões em contribuições de campanha de Wall Street, Clinton tornou-se o primeiro presidente do DLC em 1993. Hillary Clinton estava ao seu lado como ministra de fato, embora sem-pasta.

Aquele era o "Novo Partido Democrata", disse o presidente Clinton. E ele logo demonstraria o quão longe para a direita ele direcionaria sua agenda.

Alegando que "a era do grande governo acabou", o presidente Clinton prometeu "acabar com o Estado de bem-estar social como o conhecemos". E assim ele fez, mediante assinatura do Personal Responsibility and Work Opportunity Reconciliation Act. A lei prejudicou severamente as famílias de baixa renda, sobretudo as comunidades negras. Clinton também se orgulhou do Violent Crime Control and Law Enforcement Act, que vertiginosamente culminou no encarceramento em massa contemporâneo e gerou o atual complexo prisional privado com fins lucrativos. Mais uma vez, uma lei que impactou profundamente sobre as comunidades negras e latinas.

Era hora, então, de favorecer a América corporativa.

O presidente Clinton promoveu vigorosamente o "livre comércio", assinando o Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (NAFTA) e apoiando fortemente a Organização Mundial do Comércio. Esse “livre comércio" foi extremamente benéfico para as grandes corporações americanas. Entre as exportações do país, durante os anos Clinton, incluem-se os postos de trabalho industrial de 9,2 milhões de trabalhadores americanos.

O amplo favorecimento a Wall Street veio em seguida.

Em janeiro de 1995, Clinton nomeou Robert Rubin, o co-presidente da Goldman-Sachs, como seu secretário do Tesouro. Rubin trabalhou arduamente em duas leis de estupendo valor para os bancos de Nova York, mas o primeiro mandato do presidente Clinton terminou antes que pudessem ser promulgadas.

Diante da necessidade de garantir a reeleição de Clinton, Wall Street quase triplicou suas contribuições de campanha, de $11,17 milhões em 1992 para $28,37 milhões em 1996.

Prosseguindo com sua pasta, o secretário Rubin triunfou com a aprovação da Lei de Modernização dos Serviços Financeiros de 1999, que revogou a legislação de Glass-Steagall (1933). Agora era mais uma vez legal que as instituições financeiras combinassem bancos comerciais, bancos de investimento e seguradoras; em essência, permitiu a utilização dos fundos dos depositantes para negociações do próprio banco no mercado de ações.

Um ano mais tarde, o Presidente Clinton assinou a Commodity Futures Modernization Act. Esta lei acabou com a regulamentação sobre os derivativos, liberando Wall Street para fabricar títulos lastreados em hipotecas e vendê-los sem restrições. Esses derivativos complexos iriam alimentar a fraude do "subprime" que explodiria em breve.

Enquanto isso, no Departamento de Justiça de Clinton, um vice-procurador-geral nomeado Eric Holder, em 1999, escreveu um memorando intitulado Bringing Criminal Charges Against Corporations. Essa tornou-se a Doutrina Holder, que depois da crise financeira de 2008 seria de valor incalculável para os bancos de Wall Street. Ao deixar a Administração, Holder entrou na Covington Burling, o maior escritório de advocacia em Washington, DC. Entre seus clientes, estavam Morgan Stanley, Citigroup, JP Morgan Chase, UBS, Bank of New York Mellon, Deutsche Bank, Wells Fargo e o Bank of América.

Now, perhaps, the shameless intransigence of the Clintons barricaded in the White House can be understood. If they scuttled into obscurity, they would forego the rewarding expressions of gratitude, the return favors they could expect from Wall Street. (Obscurity would have terminated as well any presidential ambitions Hillary Clinton might have harbored.)

A gratidão de Wall Street rapidamente encontrou sua expressão. Quando os Clinton deixaram a Casa Branca, eles compraram uma residência de 7 cômodos perto do Embassy Row em Washington, com uma hipoteca no valor de $1,995 milhões. Deve ter sido um protótipo de "subprime", porque os Clintons "(...) não apenas estavam falidos, mas tinham uma grande dívida", como o Sr.Clinton recordou mais tarde. Robert Rubin, no entanto, tinha saído do Departamento do Tesouro e entrado para o Citigroup, onde os quase $2 milhões em crédito foram rapidamente concedidos.

Os Clintons deram conta dos pagamentos da hipoteca. Dezesseis dias depois de deixar a Casa Branca, Bill Clinton fez uma palestra para um das empresas de Wall Street, Morgan Stanley, em que recebeu $125 mil dólares. Esse foi apenas o primeiro de muitos discursos que proferiu aos bancos de Wall Street nos anos seguintes. Até maio de 2015, o Sr. Clinton tinha recebido $1,69 milhão da UBS, $1,55 milhão da Goldman Sachs,, $1,075 milhão do Bank of America, $770 mil do Deutsche Bank e $700 mil do Citigroup. No total, $5.91 milhões.

Mas Hillary Clinton ainda embarcaria em sua própria carreira política.

Ao deixar a Casa Branca, os Clintons não ocuparam sua casa em Washington de imediato. Ao invés disso, mudaram-se para uma casa de 5 quartos em Chappaqua, Nova York, no valor de $1,7 milhões de dólares. Por que Nova York? Os últimos seis ex-presidentes haviam retornado para seus estados de origem, tranquilamente fora do olhar público. Mas Hillary Clinton queria concorrer ao Senado, e de Nova York, não do Arkansas. Será que a simpatia de Wall Street era muito gratificante para terminar?

Certamente que sim. Os bancos de Wall Street subscreveram a ambição senatorial da Sra Clinton, contribuindo com $2,13 milhões para sua campanha. Entre os agradáveis bancos estavam Citigroup, Goldman Sachs, UBS, JP Morgan Chase, CIBC e Credit Suisse.

Com o novo século se desenrolava o esquema das hipotecas subprime habilitado pelas leis de "modernização" do Clinton e se inflava uma bolha épica nos preços dos imóveis. Em 2008, a bolha estourou. Os valores de propriedade caíram, seguidos pela economia americana. $13 trilhões em riqueza das famílias americanas desapareceram. Nove milhões de trabalhadores perderam seus empregos. Cinco milhões de famílias foram expulsas de suas casas. Isto é o que “Novo Partido Democrata” de Bill Clinton acarretou. Os trabalhadores como um todo foram prejudicados, com destaque para as comunidades negras.

Muitos bancos de Nova York enfrentaram insolvência, com carteiras inchadas de títulos lastreados em hipotecas quase sem valor - os chamados "ativos problemáticos".

No entanto, os bancos tinham um campeão. O presidente George Bush, seguindo a linha de Bill Clinton, também nomeou um CEO da Goldman Sachs como seu secretário do Tesouro. Henry Paulson não perdeu tempo em obrigar os contribuintes americanos a cobrir as perdas dos bancos nova-iorquinos - a sua própria perda enquanto Goldman Sachs e a do restante dos vigaristas. A Lei de Estabilização Econômica Emergencial de 2008 - o "Troubled Asset Relief Program" - foi promulgada em 01 de outubro pelo presidente Bush. A lei destinou $700 bilhões para que Paulson comprasse títulos depreciados dos bancos.

A senadora Clinton votou a favor do projeto de lei, dizendo a uma emissora de rádio de Nova York no dia seguinte: "Eu acho que os bancos de Nova York... provavelmente são os maiores vencedores nesta situação...".

Paulson começou a comprar ativos problemáticos imediatamente e a observação da senadora Clinton se mostrou correta. Um painel de supervisão do Congresso mais tarde descobriu que Paulson estava superfaturando o pagamento aos bancos: o Tesouro, por exemplo, comprou um pacote de "ativos problemáticos" por $254 bilhões, cujo valor de mercado era de $176 bilhões; o Tesouro pagou ao Citigroup $25 bilhões por títulos no valor de $15,5 bilhões. E assim se deram tantos outros casos. Um partidário dos democratas poderia dizer: "O que mais você esperava da administração de Bush?"

Mas a campanha presidencial de 2008 já estava em andamento. A lista dos candidatos democratas incluíam Hillary Clinton e Barack Obama. Wall Street se impressionou com ambos os candidatos. A Goldman Sachs contribuiu com $1.035 milhão para a campanha de Obama; a JP Morgan Chase, com $847,855 mil; o Citigroup, com $755.057 mil; o UBS, com $534.166 mil; e a Morgan Stanley, com $528.182 mil. Foram $3,7 milhões de dólares no total. Mas Wall Street estava mais impressionada com a senhora Clinton: os bancos lhe ofereceram $14,6 milhões.

Barack Obama tomou posse como outro "Novo Democrata", infundido pelo legado da presidência de Bill Clinton. Os $3,7 milhões de Wall Street não seriam esquecidos.

Nunca foi debatida na campanha do Obama (ou na de Hillary), no entanto, a transformação do partido democrata que Bill Clinton engendrou. Os bancos de Wall Street, que despejaram cerca de $18,3 milhões nas campanhas presidenciais, seriam recompensados pela Administração Obama de uma forma verdadeiramente espetacular, e naturalmente o eleitorado histórico das famílias trabalhadoras dos EUA e as suas comunidades negras seriam largamente ignorados. E, assim, o eleitorado tradicional votou no Obama, com um entusiasmo sem precedentes no caso das comunidades negras.

Os dois postos mais importantes do gabinete, para os interesses de Wall Street, foram o Tesouro e a Justiça. O presidente Obama indicou os ex-nomeados Clinton: Timothy Geithner para chefiar o Departamento do Tesouro e o Eric Holder para a procuradoria-geral. Assim, a continuidade do favoritismo para Wall Street estava assegurada.

Timothy Geithner foi uma exigência de Wall Street, então presidente do Federal Reserve Bank of New York no momento da sua nomeação. Eric Holder veio direto do Covington Burling, escritório de advocacia dos gigantes de Wall Street.

Hillary Clinton tornou-se Secretária de Estado. O investimento da Wall Street nela tampouco seria desperdiçado.

Agora era a vez do Geithner de administrar o programa de apoio aos ativos depreciados. Ele não foi menos eficaz do que o Paulson em regar Wall Street com dinheiro dos contribuintes.

Neil Barofsky, um promotor federal, foi nomeado Inspetor Geral Especial do programa. Seu trabalho consistia em auditar a execução da lei, a fim de inibir fraudes, e em garantir a responsabilidade dos bancos. Sendo repetidamente frustrado pelo secretário Geithner, Barofsky finalmente renunciou em desgosto e escreveu uma exposição intitulada “Bailout: An Inside Account of How Washington Abandoned Main Street While Rescuing Wall Street”. A contra-capa do livro diz o seguinte:

“Barofsky revela como, ao servir os interesses dos bancos, o secretário Geithner... compactuou com executivos de Wall Street para projetar programas que canalizassem vastos recursos do contribuinte para suas empresas, permitindo que jogassem com os mercados e fizessem enormes quantidades de dinheiro, com quase nenhuma responsabilidade... enquanto repetidamente burlavam os esforços de Barofsky para instituir as proteções necessárias contra fraude.”

Enquanto Geithner distorcia o programa para beneficiar os bancos, o Departamento de Justiça protegia seus executivos de qualquer tipo de sanção, fossem multas ou encarceramento.

Não há dúvida de que os bancos de Nova York agiram criminosamente, mas o procurador-geral apenas reafirmou a diretiva que ele havia escrito oito anos atrás, na administração Clinton. A Doutrina Holder levou o Departamento de Justiça a considerar "consequências colaterais" em seus processos. Se essas consequências fossem suficientemente graves, acusações criminais deveriam ser rejeitadas em favor de outras remediações.

O departamento de Holder escolheu, portanto, negociar com cada banco uma sanção financeira, em vez de avançar com um processo penal. Os acordos não exigiam admissão de culpa ou continuidade da acusação. E a documentação da conduta ilegal foi permanentemente lacrada.

As sanções foram pagas com fundos das empresas. (A multa da Goldman Sachs foi de $550 milhões, que poderiam ser recuperados tranquilamente em cerca de três semanas de negócios). Nenhum executivo foi preso, nenhum registro pessoal de comportamento doloso foi estabelecido, nenhuma sanção pessoal foi cobrada, nenhum salário foi reduzido, nenhum bônus foi negado. Em abril de 2015, após autorizar todas as ilegalidades de Wall Street, Holder deixou a administração de Obama e voltou para o Covington Burling.

Hoje os bancos são maiores e mais poderosos do que nunca.

A Administração Obama ainda concedeu mais um pequeno favor pra indústria financeira. Algumas semanas após a tomada de posse, a secretária de Estado Clinton foi chamada à Suíça pelo ministro de Relações Exteriores do país. Eles discutiram uma ação movida pela Receita Federal americana contra o UBS, o gigante internacional bancário suíço (com 761 unidades nos EUA). De volta a Washington, a secretária Hillary Clinton intercedeu. O impacto da ação foi reduzido em 90%.

Nos anos seguintes, o UBS pagou Bill Clinton em $1,5 milhão por suas palestras. Hillary Clinton recebeu $225 mil por um discurso. Também nos anos subsequentes, o UBS contribuiu com $540 mil para a Fundação Clinton.

A secretária Clinton renunciou no final do primeiro mandato do presidente Obama, provavelmente para preparar terreno e levantar recursos para sua campanha presidencial.

Desde então, ela recebeu $2,9 milhões em palestras para Goldman Sachs, Bank of America/ Merrill Lynch, Morgan Stanley, Deutsche Bank, Ameriprise, Apollo Management Holdings, CIBC, Fidelity Investments, Golden Tree Asset Management e UBS.

Hillary Clinton anunciou sua candidatura presidencial em 12 de abril de 2015. Até 30 de setembro, os bancos de Wall Street haviam contribuído para sua campanha com um total de $6,42 milhões.

Durante os 24 anos das últimas três administrações de Washington, Wall Street floresceu enquanto vandalizava a economia americana, os contribuintes e a justiça.

Com um secretário do Tesouro de Wall Street, a administração Clinton aprovou leis que permitiam aos bancos que lançassem foguetes financeiros. A administração Bush, também com um secretário do Tesouro de Wall Street, cobriu as perdas com dinheiro dos contribuintes quando esses foguetes caíram por terra. A administração de Obama, novamente com um secretário do Tesouro de Wall Street (e também com um procurador-geral de Wall Street) concedeu grandes favores financeiros para os bancos e absolveu suas condutas criminosas.

Durante todos esses anos, os Clintons se beneficiaram imensamente com as contribuições políticas de Wall Street: $11,17 milhões para a campanha de Bill de 1992; $28,37 milhões para sua reeleição em 1996; $2,13 milhões para o financiamento de Hillary (Senado, 2000); $6,02 milhões para sua reeleição em 2006; e $14,61 milhões para sua primeira campanha presidencial. Sem contar os $8,85 milhões pagos pela indústria financeira em palestras.

A interação íntima da ambição e da cobiça entre os Clinton e Wall Street continuou por quase um quarto de século. É uma história de mau gosto, ignorada ou banalizada pelos Clintons, que anseiam por obscurecer esse debate.

Mas agora, com uma nova infusão dos bancos de Nova York no valor de de $6,42 milhões (por enquanto), Hillary Clinton está concorrendo à presidência mais uma vez.

Em 13 de julho de 2015, ela disse o seguinte:

"Nosso sistema bancário ainda é demasiado complexo e arriscado... Embora as instituições tenham pagado pesadas multas... muitas vezes pareceu que os seres humanos responsáveis saiam com consequências limitadas - ou mesmo nenhuma, mesmo quando tinham embolsado os ganhos. Isso é errado e, na minha administração, isso vai mudar”.

Aparentemente, Hillary Clinton espera que acreditemos nela.

25 de fevereiro de 2016

O estupro do Timor Leste: "Parece divertido"

John Pilger


Tradução / Documentos secretos encontrados nos Arquivos Nacionais Australianos fornecem um relance sobre como foi executado e encoberto um dos maiores crimes do séc. XX. Ajuda-nos também a compreender como e a favor de quem o mundo funciona.

Os documentos referem-se a Timor oriental, agora conhecido como Timor Leste, e foram escritos por diplomatas da embaixada da Austrália em Jacarta. A data é novembro de 1976, menos de um ano após o ditador indonésio general Suharto tomar a então colônia portuguesa na ilha de Timor.

O terror que se seguiu tem poucos paralelos: nem mesmo Pol Pot conseguiu matar proporcionalmente tantos cambojanos como Suharto e os seus amigos generais mataram em Timor oriental. De uma população de quase um milhão, um terço desapareceu.

Foi o segundo holocausto do qual Suharto foi responsável. Uma década antes, em 1965, Suharto tomou o poder na Indonésia com um banho de sangue que eliminou mais de um milhão de vidas. A CIA referiu: "Em termos de número de mortos, os massacres estão entre os piores assassinatos em massa do século XX."

Este acontecimento foi saudado na imprensa ocidental como “um raio de luz na Ásia” (Time). O correspondente da BBC no Sudeste Asiático, Roland Challis, descreveu mais tarde o encobrimento dos massacres como um triunfo da cumplicidade e silêncio da mídia, A “linha oficial” era que Suharto tinha “salvo” a Indonésia de um assalto comunista.

"Evidentemente que as minhas fontes britânicas sabiam qual o plano americano”, disse-me. “Havia corpos retirados dos relvados do consulado britânico em Surabaya e navios de guerra britânicos escoltaram um barco cheio de tropas indonésias para tomarem parte neste holocausto terrível. Só muito mais tarde soubemos que a embaixada americana estava fornecendo nomes [a Suharto] e a abatê-los na lista à medida que eram eliminados. Houve um acordo. Do estabelecimento do regime de Suharto fazia parte o envolvimento do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial [dominados pelos EUA]. Foi esse o acordo."

Entrevistei muitos dos sobreviventes de 1965, incluindo o aclamado escritor indonésio Pramoedya Ananta Toer, que testemunhou um sofrimento épico "esquecido" no ocidente só porque Suharto era "o nosso homem". Era quase inevitável um segundo holocausto em Timor oriental, rico em recursos e colônia indefesa.

Em 1994, filmei clandestinamente em Timor oriental. Encontrei uma terra de cruzes e inesquecível sofrimento. No meu filme, "Morte de um Povo", há uma sequência filmada a bordo de um avião australiano voando sobre o mar de Timor. Decorre uma reunião. Dois homens de fato fazem saúdes com champanhe. "É um momento verdadeiramente histórico", balbucia um deles, "verdadeira e unicamente histórico."

É o ministro das Relações Exterior da Austrália, Gareth Evans. O outro é Ali Alatas, o principal porta-voz de Suharto. Estamos em 1989 e estão fazendo um voo simbólico para celebrar um acordo de pirataria a que chamam "tratado". Foi isto que permitiu à Austrália, à ditadura de Suharto e às companhias petrolíferas internacionais dividirem os despojos dos recursos em petróleo e gás de Timor Leste.

Graças a Evans, ao então primeiro-ministro da Austrália, Paul Keating – que encarava Suharto como uma figura paternal – e a uma quadrilha que conduzia a política externa da Austrália, este país distinguiu-se como o único país ocidental a reconhecer formalmente a conquista genocida de Suharto. O preço, disse Evans, foram "montanhas" de dólares.

Membros desta quadrilha voltaram a aparecer há dias em documentos encontrados nos Arquivos Nacionais por dois investigadores da Universidade de Monash em Melbourne, Sara Niner e Kim McGrath. Funcionários superiores do Departamento das relações Exteriores relatam pela sua própria mão violações, tortura e execuções de timorenses de leste por tropas indonésias. Em anotações rabiscadas num apontamento que refere atrocidades num campo de concentração, um diplomata escreveu: "parece divertido". Outro escreveu: "a população parece extasiada."

Relativamente a um relatório da resistência indonésia Fretilin que descreve a Indonésia como um invasor "impotente", outro diplomata zombava: "Se o inimigo era 'impotente', conforme lá está dito, como é que conseguem violar todos os dias a população capturada? Ou será que se deve a isto?"

Os documentos, diz Sarah Niner, são "prova evidente da falta de empatia e de preocupação pelos abusos de direitos humanos no Timor Leste" no Departamento de Relações Exteriores. "Os arquivos mostram que esta cultura de encobrimento está intimamente ligada à necessidade de o DNE reconhecer a soberania indonésia, para iniciar as negociações sobre o petróleo no mar do Timo Leste."

Tratou-se de uma conspiração para roubar o petróleo e o gás do Timor-Leste. Em telegramas diplomáticos divulgados de agosto de 1975, o embaixador australiano em Jacarta, Richard Woolcott, escreveu para Camberra: "Parece-me que o Departamento [de Minerais e Energia] poderia ter interesse em resolver a atual diferença na fronteira marítima acordada e isso poderia ser muito melhor negociado com a Indonésia... do que com Portugal ou com o Timor português independente." Wolcott revelou que tinha sido informado sobre os planos secretos da Indonésia para uma invasão. Telegrafou para Camberra que o governo devia “ajudar à aceitação pública na Austrália” e contrariar "o criticismo contra a Indonésia".

Em 1993, entrevistei C. Philip Liechty, um antigo funcionário de operações senior da CIA na embaixada de Jacarta durante a invasão do Timor Leste. Disse-me ele: "Foi dada luz verde a Suharto [pelos EUA] para fazer o que fez. Fornecemos-lhe tudo o que precisava [desde] espingardas M16 [até] apoio logístico militar dos EUA... talvez 200 mil pessoas morreram, a maior parte não-combatentes. Quando as atrocidades começaram a surgir nos relatórios da CIA, a maneira que arranjaram de tratar do assunto foi encobri-las o máximo de tempo possível e quando já não podiam mais ser encobertas foram apresentadas de forma atenuada e em termos gerais, de modo que as nossas próprias fontes foram sabotadas."

Perguntei a Liechty o que teria acontecido se alguém tivesse denunciado. "A sua carreira teria terminado", respondeu. Disse-me que esta entrevista comigo era uma forma de reparação pelo "mal que senti".

A quadrilha da embaixada australiana em Jacarta parece não sentir tal angústia. Um dos escribas dos documentos, Cavan Hogue, declarou ao Sydney Morning Herald: "Parece a minha caligrafia. Se fiz tal comentário, sendo eu o cínico filho-da-mãe que sou, teria certamente sido com espírito de ironia e sarcasmo. Isso referia-se ao comunicado de imprensa [da Fretilin] e não aos timorenses." Hogue declarou que houve "atrocidades de todos os lados".

Como pessoa que relatou e filmou as provas do genocídio, acho esta última observação especialmente profana. A "propaganda" da Fretilin que ele ridiculariza era rigorosa. O relatório subsequente das Nações Unidas sobre Timor Leste descreve milhares de casos de execução sumária e violência contra mulheres pelas forças especiais Kopassus de Suharto, muitas delas treinadas na Austrália. "Violação, escravatura sexual e violência sexual foram instrumentos usados como parte da campanha programada para infligir uma profunda experiência de terror, impotência e desespero nos apoiadores pró-independência", diz a ONU.

Cavan Hogue, o brincalhão e "cínico filho-da-mãe" foi promovido a embaixador sênior e mais tarde reformado com generosa pensão. Richard Woolcott foi promovido a chefe do Departamento das Relações Exteriores em Camberra e, na reforma, ensinou como um "respeitado intelectual diplomata."

Foram despejados jornalistas na embaixada australiana em Jacarta, especialmente empregados de Rupert Murdoch, que controla quase 70% da imprensa da capital. O correspondente de Murdoch na Indonésia era Patrick Walters, que noticiou como «impressionantes» os «êxitos econômicos» de Jacarta no Timor Leste e «generoso» o desenvolvimento daquele território empapado de sangue. Quanto à resistência timorense oriental, estava «sem líder» e derrotada. De qualquer modo, «ninguém é agora preso sem os procedimentos legais apropriados».

Em dezembro de 1993, um dos empregados mais antigos de Murdoch, Paul Kelly, na altura editor-chefe do The Australian, foi nomeado pelo ministro do Exterior Evans para o Instituto Austrália-Indonésia, uma instituição fundada pelo governo australiano para a promoção dos "interesses comuns" de Camberra e da ditadura de Suharto. Kelly levou um grupo de editores de imprensa a Jacarta para uma audiência com o assassino de massas. Há uma fotografia de um deles que se está curvando.

Timor Leste conquistou a independência em 1999 com o sangue e a coragem da sua gente vulgar. A pequena e frágil democracia foi imediatamente sujeita a uma implacável campanha de assédio pelo governo australiano, que procurou manobrar para lhe retirar o direito legal de propriedade sobre a exploração das reservas submarinas de petróleo e gás. Para o atingir, a Austrália recusou reconhecer a jurisdição do Tribunal Internacional de Justiça e a Lei do Mar e alterou unilateralmente a fronteira marítima a seu favor.

Em 2006, foi finalmente assinado um acordo do tipo mafioso, em grande parte segundo os termos da Austrália. Pouco depois, o primeiro-ministro Mari Alkitiri, um nacionalista que tinha feito frente a Camberra, foi efetivamente deposto naquilo que ele chamou uma «tentativa de golpe» por «estrangeiros». Os militares australianos, que tinham tropas de «manutenção de paz» no Timor Leste, tinham treinado os oposicionistas.

Nos 17 anos desde que o Timor Leste conquistou a independência, o governo australiano apropriou-se de cerca de 5 bilhões de dólares em petróleo e gás, dinheiro que pertence ao seu pobre vizinho.

A Austrália tem sido chamada o "vice-xerife" da América no Pacífico Sul. Um dos homens com crachá é Gareth Evans, o ministro do Exterior filmado a erguer a taça de champanhe para saudar o roubo dos recursos naturais de Timor-Leste. Hoje, Evans é um frequentador de púlpitos fanático que promove uma marca belicista conhecida por "RTP" ou "Responsabilidade para Proteger". Como co-presidente de um tal "Global Centre" sediado em Nova Iorque, dirige um grupo de influência apoiado pelos EUA que pressiona a "comunidade internacional" para atacar países onde "o Conselho de Segurança rejeita ou não aceita propostas de solução em tempo razoável". O homem indicado, conforme os timorenses podem confirmar.

24 de fevereiro de 2016

Eleições presidenciais de 2016 nos EUA: A revolta das massas

James Petras

The Official James Petras Website

As eleições presidenciais de 2016 têm várias características únicas que desafiam a sabedoria comum acerca das práticas políticas na América do século XXI.

Claramente, a maquinaria política estabelecida – elites partidárias e seus apoiantes corporativos – perderam (em parte) o controle político do processo de nomeação e confrontam-se com candidatos "não desejados" que estão a fazer campanha com programas e pronunciamentos que polarizam o eleitorado.

Mas há outros fatores mais específicos, os quais excitaram o eleitorado e falam à história recente dos EUA. Estes fatores auguram e refletem um realinhamento da política estado-unidense.

Neste ensaio, esboçaremos estas mudanças e suas consequências mais vastas para o futuro da política americana.

Examinaremos como estes fatores afetam cada um dos dois principais partidos.

Política do Partido Democrata: O contexto do realinhamento

A "ascensão e declínio" do presidente Obama fez grave mossa no apelo à "política de identidade" – a ideia de que "identidades" enraizadas na etnia, raça e gênero podem modificar o poder do capital financeiro (Wall Street), dos sionistas e dos responsáveis do "estado policial". O desencanto claramente manifestado do eleitor para com "políticas de identidade" abriu a porta para políticas de classe, de uma espécie específica.

O candidato Bernie Sanders apela diretamente aos interesses de classe dos trabalhadores e empregados assalariados. Mas a "questão de classe" emerge dentro do contexto de uma polarização eleitoral e, como tal, ela não reflete uma verdadeira "polarização de classe", ou ascensão da luta de classe nas ruas, fábricas ou escritórios.

De fato, a polarização "de classe" eleitoral é um reflexo das recentes derrotas de grandes sindicatos no Michigan, Wisconsin e Ohio. A confederação sindical (AFL-CIO) quase desapareceu como fator social e político, representando apenas 7% dos trabalhadores do setor privado. Os eleitores da classe trabalhadora estão bem conscientes de que líderes sindicais de topo, que recebem em média US$500 mil por ano em salários e benefícios, são profundamente protegidos na elite do Partido Democrata. Enquanto trabalhadores individuais e sindicatos locais são apoiadores ativos da campanha de Sanders, eles agem assim como membros de um movimento eleitoral multi-classista amorfo e não como um "bloco dos trabalhadores" unificado.

O movimento eleitoral de Sanders não teve origem num movimento social nacional. O movimento da paz está virtualmente moribundo, os movimentos de direitos civis são fracos, fragmentados e localizados; o movimento "Black Lives Matter" atingiu o pico e declinou enquanto o "Occupy Wall Street Movement" é uma memória distante.

Por outras palavras, estes movimentos recentes, na melhor das hipóteses, proporcionam alguns ativistas e algum ímpeto à campanha eleitoral de Sanders. Sua presença destaca algumas das questões que o movimento eleitoral de Sanders promove na sua campanha.

De fato, o movimento eleitoral de Sanders não resultou de movimentos de massa existentes, em curso. Em certa medida ele preenche o vácuo político resultante da sua morte. A insurgência eleitoral reflete as derrotas de responsáveis sindicais aliados aos atuais políticos democratas, bem como as limitações das tácticas de "ação direta" dos movimentos "Black Lives Matter" e "Occupy".

Uma vez que o movimento eleitoral de Sanders não desafia diretamente e de imediato os lucros capitalistas e as alocações do orçamento público ele não tem sido sujeito à repressão estatal. Autoridades repressivas calculam que esta "agitação" de atividade eleitoral perdurará apenas por uns poucos meses e a seguir recuará para dentro do Partido Democrata ou da apatia do eleitor. Além disso, eles são constrangidos pelo fato de dezenas de milhões de apoiadores de Sanders estarem dispersos por todos os estados e não concentrados em alguma região.

O movimento eleitoral de Sanders agrega centenas de milhares de micro-lutas locais e permite exprimir a insatisfação de milhões com o sofrimento de classe, sem risco ou custo (como da perda de emprego ou de repressão policial) para os participantes. Isto está em absoluto contraste com a repressão nos lugares de trabalho ou nas ruas das cidades.

A polarização eleitoral reflete polarizações sociais horizontais (de classe) e verticais (intra-capitalistas).

Abaixo dos 10% da elite, e especialmente entre a classe média jovem, a polarização política favorece o movimento eleitoral de Sanders. Os patrões sindicais, os membros do Black Congressional Caucus e o establishment latino abraçam a ungida escolha da elite política do Partido Democrata: Hilary Clinton. Apesar disso, latinos jovens, mulheres trabalhadoras e sindicalistas da base apoiam o movimento eleitoral insurgente. Setores significativos da população afro-americana, os quais deixaram de progredir (e realmente regrediram) sob o democrata presidente Obama ou viram a repressão policial expandir-se sob o "Primeiro presidente negro", estão a voltar-se para a campanha insurgente de Sanders. Milhões de latinos, desencantados com os seus líderes, os quais estão ligados à elite democrata e nada fizeram para impedir as deportações maciças sob o governo Obama, são uma base potencial de apoio para "Bernie".

Entretanto, o setor social mais dinâmico no movimento eleitoral de Sanders é o dos estudantes, os quais estão excitados pelo seu programa de educação superior gratuita e de fim da servidão da dívida após a licenciatura.

O mal-estar destes setores encontra sua expressão na "revolta respeitável da classe média": uma rebelião de eleitores, os quais temporariamente mudaram para a esquerda o eixo do debate político dentro do Partido Democrata.

O movimento eleitoral de Sanders levanta questões fundamentais de desigualdade de classe e de injustiça racial no sistema legal, policial e econômico. Ele destaca a natureza oligárquica do sistema político – mesmo quando o movimento liderado por Sanders tenta utilizar as regras do sistema contra os seus possuidores. Estas tentativas não têm tido muito êxito dentro do aparelho do Partido Democrata, onde os patrões do Partido já atribuíram a Clinton centenas dos chamados "mega-delegados", "não eleitos" – apesar dos êxitos de Sanders nas primárias iniciais.

A própria força do movimento eleitoral tem uma fraqueza estratégica: é da natureza de movimentos eleitorais aglutinarem-se para eleições e dissolverem-se após a votação.

A liderança de Sanders não tem feito qualquer esforço para construir um movimento social de massa e nacional que possa continuar as lutas de classe e sociais durante a após as eleições. De fato, a promessa de Sanders de apoiar a liderança estabelecida do Partido Democrata se perder a nomeação em favor de Clinton levará a uma profunda desilusão política entre os seus apoiantes e uma fragmentação do movimento eleitoral. O cenário pós-convenção, especialmente no caso de "super-delegados" coroarem Clinton apesar de uma vitória popular de Sanders nas primárias individuais, será muito destrutivo.

Trump e a "Revolta à direita"

A campanha eleitoral de Trump tem muitas das características de um movimento nacionalista-populista latino-americano. Tal como o movimento peronista argentino, ele combina protecionismo, medidas econômicas nacionalistas que apelam aos pequenos e médios fabricantes e operários industriais deslocados com o populista e de direita "chauvinismo da grande nação".

Isto reflete-se nos ataques de Trump à "globalização" – um substitutivo do "anti-imperialismo" peronista.

O ataque de Trump à minoria muçulmana nos EUA é um abraço tenuemente velado ao fascismo clerical de direita.

Onde Peron fazia campanha contra "oligarquias financeiras"e a invasão de "ideologias estrangeiras", Trump desdenha das "elites" e denuncia a "invasão" de imigrantes mexicanos.

O apelo de Trump tem raízes na profunda raiva amorfa de classe média em movimento descendente, a qual não tem ideologia... mas está cheia de ressentimento com o seu declínio de status, estabilidade em desintegração e famílias afligidas pela droga (como testemunham as preocupações abertamente manifestadas por eleitores brancos na recente primária de New Hampshire).

Trump projeta poder pessoal para trabalhadores os quais estão travados por sindicatos impotentes, grupos cívicos desorganizado e associações locais de negócios marginalizadas, todos incapazes de conter a pilhagem, o poder e a corrupção em grande escala dos trapaceiros financeiros que circulam entre Washington e a Wall Street com impunidade total.

Estas classes "populista" obtêm estímulos indiretos do espetáculo de Trump destroçando e esbofeteando políticos de carreira e elites econômicas afins, mesmo quando ele apregoa seus êxitos capitalistas.

Eles apreciam seu desafio simbólico à elite política quando ostenta suas próprias credenciais capitalistas.

Para muitos dos seus apoiadores suburbanos ele é o "Grande Moralizador", o qual no seu excesso de zelo, ocasionalmente, comete gaffes "perdoáveis" devido à sua exuberância – um "Oliver Cromwell" bruto do século XXI.

Na verdade, também pode haver um apelo étnico-religioso menos aberto na campanha de Trump: Sua identidade branco-anglo-saxão-protestante (WASP) apela a estes mesmos eleitores face à sua aparente marginalização. Estes "trumpistas" não são cegos para o fato de que nem um único juiz WASP senta-se no Supremo Tribunal e há poucos WASPs, se é que algum, entre os responsáveis econômicos de topo no Tesouro, Comércio ou no Fed (Lew, Fischer, Yellen, Greenspan, Bernacke, Cohen, Pritzker etc.). Apesar de Trump não ostentar a sua identidade, ela facilita seu apelo ao eleitor.

Entre os eleitores WASP, os quais ressentem silenciosamente os salvamentos (bailouts) da Wall Street e a visível posição privilegiada de católicos, judeus e afro-americanos na administração Obama, a condenação pública e direta de Trump do presidente Bush por deliberadamente desencaminhar a nação ao invadir o Iraque (e a implicação de traição), foi um grande feito.

O apelo nacional-populista de Trump combina-se com o seu militarismo belicoso e autoritarismo truculento. A sua defesa pública da tortura e de controles da polícia de estado (para "combater o terrorismo") apela a uma direita pró militar. Por outro lado, suas aberturas amistosas ao presidente Putin, da Rússia, ("um sujeito duro desejoso de enfrentar outro") e o seu apoio ao fim do embargo cubano apelam às elites de negócios voltadas para o comércio. Sua defesa da retirada de tropas estadunidenses da Europa e da Ásia apela a eleitores da "fortaleza América", ao passo que a sua defesa do "tapete de bombas" para o ISIS apela aos extremistas nucleares. Curiosamente, o apoio de Trump à Segurança Social e ao Medicare, bem como a sua defesa de cobertura médica para os indigentes e o seu reconhecimento aberto de serviços vitais de Paternidade Planejada para mulheres pobres, apela a cidadãos mais velhos, conservadores compassivos e independentes.

Trump faz a amalgama esquerda-direita: Apelos protecionistas e pró negócios, propostas anti-Wall Street e a favor do capitalismo industrial, defesa dos trabalhadores estadunidenses e ataques a trabalhadores latinos e imigrantes muçulmanos romperam as fronteiras tradicionais entre políticas populares e de direita do Partido Republicano.

O "trumpismo" não é uma ideologia coerente, mas sim uma mistura volátil de "posições improvisadas", adaptadas a apelar a trabalhadores marginalizados, classes médias ressentidas (WASPs marginalizados) e, acima de tudo, àqueles que se sentem não representados pelos republicanos da Wall Street e por políticos liberais dos democratas baseados em políticas de identidade (negros, hispânicos, mulheres e judeus).

O movimento de Trump é baseado num culto da personalidade: este tem enorme capacidade para convocar reuniões de massa sem organização de massa ou uma ideologia social coerente.

Sua força fundamental é a sua espontaneidade, novidade e o foco hostil sobre elites estratégicas.

Sua fraqueza estratégica é a falta de uma organização que possa ser mantida após o processo eleitoral. Há poucos quadros e militantes "trumpistas" entre os fãs que o adoram. Se Trump perder (ou for defraudado na sua nomeação por um "candidato de unidade" empurrado pela elite do Partido) sua organização será dissipada e fragmentada. Se Trump vencer a nomeação republicana ele extrairá apoio da Wall Street, especialmente se confrontado com uma candidatura democrata de Sanders. Se vencer a eleição geral e se tornar presidente, procurará fortalecer o poder executivo e avançar para uma presidência "bonapartista".

Conclusão

A ascensão de um movimento social-democrata dentro do Partido Democrata e a ascensão de um movimento nacional-populista de direita sui generis no Partido Republicano reflete o eleitorado fragmentado e as profundas fissuras verticais e horizontais que caracterizam a estrutura etno-classista dos EUA. Comentadores super-simplificam grosseiramente quando reduzem a revolta a expressões incoerentes de "raiva".

O estilhaçamento do controle da elite estabelecida é um produto de ressentimentos de classe e étnicos profundamente sentidos, de antigos grupos privilegiados que experimentam uma mobilidade declinante, de homens de negócios locais que experimentam a falência devido à "globalização" (imperialismo) e do ressentimento de cidadãos quanto ao poder do capital financeiros (os bancos) e do seu controle esmagador de Washington.

As revoltas eleitorais à esquerda e à direita podem dissipar-se mas terão plantado as sementes de uma transformação democrática ou de uma revitalização nacionalista-reacionária.

22 de fevereiro de 2016

Não podemos confiar em nosso governo, por isso temos de confiar na tecnologia

A batalha da Apple com o FBI não é sobre privacidade versus segurança, mas um conflito criado pelo fracasso dos EUA para supervisionar legitimamente seu serviço de segurança pós Snowden

Yochai Benkler

The Guardian

Foto: Mandel Ngan/AFP/Getty Images

Tradução / O confronto entre a Apple e o FBI (Federal Bureau of Investigation) não é, como muitos sustentam, um conflito entre privacidade e segurança. É um conflito sobre legitimidade.

As agências de segurança nacional dos Estados Unidos insistem em exercer um poder sem controle juntamente com o discurso “confie em nós, nós somos os caras bons”, mas a maioria dos usuários não tem essa confiança. O terrorismo é real, e a vigilância pode às vezes ajudar a preveni-lo, mas o único caminho para a acomodação sustentável entre tecnologias de sigilo e o policiamento adequadamente informado é por meio de uma reforma profunda nos freios e contrapesos do sistema nacional de segurança.

O princípio mais importante que o governo Obama e o Congresso americano precisam considerar nesse conflito é: “Médico, cura-te a ti mesmo”.

O FBI, para recapitular, está exigindo que a Apple desenvolva um software que lhe permita acessar os dados protegidos do telefone de trabalho de um dos autores do ataque de San Bernardino.

A Apple recusou-se a fazê-lo, argumentando que, para construir a habilidade de acessar um telefone, estaria efetivamente criando um “backdoor” que tornaria vulneráveis todos os seus telefones.

O debate está sendo enquadrado publicamente pelos dois lados como um profundo conflito entre segurança e liberdade; entre direitos civis dos usuários para garantir sua privacidade e os fins legítimos da aplicação da lei e da segurança nacional. No entanto, essa é a maneira errada de pensar sobre isso.

O problema fundamental é a quebra de confiança nas instituições e organizações. Em particular, a perda de confiança na supervisão da estrutura de segurança nacional americano.

É importante lembrar que a decisão inicial da Apple de redesenhar seus produtos de modo que a própria Apple seja incapaz de obter os dados de um usuário foi uma resposta direta às revelações de Snowden. Aprendemos com ele que o sistema de segurança nacional americano passou os anos após o 11 de setembro esvaziando o sistema de supervisão delegada que limitou a vigilância da segurança nacional após o escândalo Watergate e a denúncia de abusos de órgãos de inteligência nos anos 1960 e 70.

A criação, pela Apple de um sistema operacional impermeável até mesmo a seus eventuais esforços para quebrá-lo foi uma resposta à perda global de confiança nas instituições de supervisão da vigilância. Ela encarnou uma ética que dizia: “Você não precisa confiar em nós; você não precisa confiar nos processos de supervisão de nosso governo. Você simplesmente precisa ter confiança na nossa matemática”.

Muitas pessoas que conheço e admiro estão preocupadas com o presente impasse. Afinal, e se você realmente precisar de informações de um terrorista prestes a agir, ou um sequestrador com uma criança de refém? São preocupações reais e legítimas, mas nós não vamos resolvê-las olhando para os lugares errados. A dependência do FBI no All Writs Act de 1789 diz: “Eu sou o governo e você deve fazer o que é ordenado!”. De acordo com tal lógica, é irrelevante saber se os atos do governo são legítimos ou ilegítimos – porque o dever dos cidadãos é obedecer uma ordem legalmente emitida.

O problema com a abordagem do FBI é que ela trai exatamente a mentalidade que nos colocou na bagunça em que estamos agora. Sem comprometimento do governo americano com a transparência e a supervisão democrática com instituições que funcionem efetivamente, os usuários irão escapar para a tecnologia. Se a Apple for forçada a abrir seus sistemas, os usuários irão para outros produtos. As empresas americanas não possuem o monopólio sobre a matemática.

Nos dias tumultuosos após as revelações de Snowden, houve diversos comitês e forças-tarefa criados para propor reformas. Até mesmo um grupo de revisão formado por ex-funcionários da Casa Branca e da Agência de Segurança Nacional (NSA) propuseram reformas estruturais extensivas sobre como a vigilância operava e com era supervisionada. Nem o governo nem o Congresso conseguiram implementar de forma significativa qualquer uma dessas reformas.

A tecnologia da Apple é uma resposta à sede dos usuários por tecnologias que possam garantir privacidade e autonomia, em um mundo onde eles não podem confiar em qualquer instituição, seja do governo ou do mercado.

Por isso, é do interesse vital da segurança nacional dos EUA construir um sistema institucional de supervisão robusta e prestação de contas da vigilância e dos poderes investigativos. Precisamos de restrições significativas sobre a coleta e uso dos dados; precisamos de mecanismos de avaliação verdadeiramente independentes, com completo acesso à informação necessária e capacidade técnica proficiente para exercer tal avaliação.

Talvez mais importante, precisamos pôr fim à cultura de impunidade que protege as pessoas que dirigem programas ilegais e continuam a prosperar em suas carreiras depois de serem expostas, mas persegue vingativamente os whistleblowers que expõem tais ilegalidades.

Somente um sistema assim, que oferece supervisão significativamente transparente e consequências reais para aqueles que violam a confiança, possui qualquer chance de ser confiável o suficiente para remover a reivindicação global por plataformas que preservem a privacidade do usuário e segurança mesmo às custas do enfraquecimento das capacidades de policiamento e das agências nacionais de segurança.

O caso da Apple tem a ver com o equilíbrio entre liberdade e segurança; mas com a confiabilidade das instituições ou tecnologias que independem de confiança. Não será possível resolver tal caso passando um rolo compressor na tecnologia a serviço de instituições não confiáveis.