30 de março de 2016

Isto é luta de classes?

Mike Whitney

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Há uma conspiração para impedir que salários subam, ou se trata da boa e velha luta de classes?

Examinem esses gráficos, de um recente relatório do Deutsche Bank e veja o que lhes parece:

(Feeling Underpaid, Zero Hedge)

Ora, o que já se sabe? Por toda parte o cartel global de bancos tem seus tentáculos, e os salários ou andam de lado ou caem.

"Coincidência", você diz?

De modo algum, eu digo. Ou várias cabeças de estado e respectivos bancos centrais sentam-se para coordenar ações, ou as elites ricas assumiram secretamente as alavancas de comando do poder e impuseram seu dogma neoliberal num momento em que ninguém estava vendo. De um modo ou de outro, é fácil ver os efeitos, sobre os salários, de uma "extraordinária acumulação monetária". Absolutamente nada se faz, razão pela qual a inflação permaneceu controlada. Porque, se os salários não aumentam, a inflação permanece baixa, o que dá aos banqueiros centrais o pretexto perfeito para lançar mais um de seus programas QE de trilhão de dólares que cada vez mais enriquecem os amigos escroques que os banqueiros mantêm em Wall Street.

Oba! Mais dinheiro grátis para Wall Street e a classe dos investidores!

Viram como funciona?

E o que acontece com a produtividade? Por que os salários não estão subindo junto com a produtividade?

(What Killed the Middle Class, Zero Hedge)

Parece bastante óbvio que se os salários não sobem com a produtividade, nesse caso o consumo pessoal cai e a economia afundará. Se for esse o caso, então impulsionar os salários deveria ser prioridade máxima para os políticos e governantes democráticos, certo?

Mas não é. A prioridade para a maioria dos políticos é fazer o que mandam seus patrões do setor privado, que pagam pelas campanhas deles e cuidam para que tenham um emprego confortável, quando afinal tiverem completado seus anos de serviço servil. Não é assim que em geral funciona, para esse tipo de chamados "servidores públicos". Eles não fazem as leis que são mandados fazer pelos seus eleitores gatos-gordos? E em seguida, não passam a contar os dias até a próxima recompensa também gorda? Claro que sim.

A questão é que essa política econômica não é pensada para melhorar as condições de vida do povo trabalhador comum. Sequer é pensada para fortalecer a economia. Se fosse assim, haveria algum esforço para contratar mais empregados para empresas públicas, para estimular a atividade econômica, promover o investimento em negócios e fortalecer o crescimento. Seria o remédio óbvio contra a estagnação da economia que se vê hoje, certo? Pois o caso é que Obama fez exatamente o oposto de tudo isso. Cortou o déficit em cerca de três trilhões inteiros de dólares e despachou mais de 500 mil servidores do estado para casa e para as chinelas cor-de-rosa. Resultado, a economia foi contida e já anda à velocidade cortada ao meio há quase uma década. Obrigado por nada, Barry. Não deixe a porta empurrá-lo você para fora.

Agora confiram o gráfico de "destruição de empregos pelo governo", no blog Streetlight:

(Government Job Destruction, Streetlight blog)

E a coisa não fica por aí, porque todo esse infindável apertar de cintos reduziu a demanda de consumo, que já forçou as empresas a reduzir a quantidade de capital que reinvestem nos respectivos negócios. Quer dizer: assim como os salários foram comprimidos em todos os países desenvolvidos e em todo o mundo, também os investimentos foram furiosamente reduzidos praticamente por todo o mundo, eliminando outra fonte crítica de estímulos. Confiram esse clip do Daily Reckoning:

"A divulgação ontem de valores relativos às despesas de capital nacional (capex) foi bem triste de ver. Nos três meses até setembro, o investimento em negócios caiu quase inacreditáveis 9,2%. ... 
À luz dos gastos domésticos, é boa a oportunidade para refletir sobre o que está acontecendo com os Gastos de Capital (capex, de Capital Expenditures) pelo mundo. Assim como a Austrália, todo o mundo enfrenta um grande problema de investimento. E não se vê nem sinal de que as coisas melhorem, não, no curto ou no médio prazo. ... 
Fora dos EUA, é como se todo o mundo decidisse renunciar de vez ao investimento. O investimento em negócios caiu 6% nos EUA; acima de 20% na Europa; 15% na China e Japão. Para o resto do mundo, Austrália inclusive, o capex caiu impressionantes 28%" (Australia’s Capex Collapse is Part of a Global Disease, Daily Reckoning)

Ok, então as empresas não estão investindo em seus negócios porque os salários estão baixos e a demanda está fraca. Isso é realmente um grande negócio?

Sim, é um grande negócio, porque há tantas e tantas fontes de gasto na economia, e quando empresas, governos e consumidores reduzem seus gastos, ao mesmo tempo, a economia retarda a um rastejamento e permanece assim até que algo mude. Infelizmente, nada mudou e é por isso que o PIB ainda está oscilando em torno de 2 por cento oito anos após o Lehman Brothers explodir.

Mas por que? Será que os formuladores de políticas de repente esqueceram como a economia funciona ou o que alavancas fiscal puxar para o arranque do crescimento?

Claro que não. Todos eles simplesmente se recusam a fazer o que tem de ser feito. Em vez de tentar avançar, o Congresso usou a crise para delegar todo o controle do sistema aos bancos centrais e aos seus corretores e agentes operantes no estado profundo. Agora, para qualquer lado que você olhe, só se veem políticos sentados esfregando as mãos, enquanto o BC dita a política. É uma loucura. É como uma mudança de regime, sem todo o sangue.

E como é que este golpe de Estado afeta o povo trabalhador?

Tem sido terrível. Enquanto o preço das ações quase triplicou e os especuladores passaram a mão em trilhões, a renda familiar média caiu mais de 7,2%, rendas despencam, salários são achatados cada vez mais e as pessoas mal se seguram pendurados, agarrados aos próprios cabelos.

Você sabia que 85 por cento dos americanos dizem que é mais difícil manter um padrão de vida de classe média hoje do que era há 10 anos atrás? (Pew Research Center) Ou que "77 por cento de todos os americanos vivem de salário em salário, pelo menos por algum tempo", ou que "um em cada quatro trabalhadores nos EUA levam para casa salários iguais ou abaixo do nível de pobreza federal", ou que "47 milhões de americanos vivem de cupons de alimentos", ou que "40,4% da força de trabalho dos EUA é hoje composta por trabalhadores temporários", principalmente trabalhadores contratados e de trabalho a tempo parcial?

Seja como for, vocês entenderam o quadro geral. Pagar as contas e chegar ao fim do mês é a cada dia mais e mais difícil. Mas por que elites ricas apoiariam políticas tão obviamente destrutivas para os trabalhadores e para a economia como um todo?

Por dinheiro, é por isso. Muito dinheiro. Confira:

"Entre 2009 e 2012, segundo dados atualizados de Emmanuel Saez (...) o 1% viu a própria renda real aumentar 34,7%, enquanto os 99% só a viram crescer 0,8%, o que significa que o 1% capturou 91% de toda a renda real ... 
A renda do trabalho continua sendo arrochada. Os salários cresceram apenas 1,7 por cento no ano passado, o ritmo mais lento desde pelo menos a década de 1960. Não porque os trabalhadores americanos estejam ficando frouxos. Nessa mesma década inteira de salários estagnados ou encolhendo, a produtividade do trabalhador americano aumentou quase 25%. 
Ao mesmo tempo, o mercado de ações vem atingindo níveis recordes, o que na maior parte ajuda os ricos que têm muito mais probabilidade de possuir ações, agravando a desigualdade de renda. Os lucros das empresas também atingiram recordes e aumentaram os salários dos executivos, sem escorrer para os trabalhadores." (The 1 Percent Have Gotten All The Income Gains From The Recovery, Think Progress)

Mas pode ter um grande engano, não poderia? Quer dizer, talvez os bancos centrais realmente não sabiam que as suas políticas iriam funcionar da maneira que funcionaram.

Fala sério. Você realmente acha que esta infindável cachoeira de dinheiro para cima até os magnatas super-ricos ("95% dos ganhos de renda entre 2009-2012 foi para o top 1% da população") é um erro, que é apenas a consequência não intencional de bem-intencionadas políticas monetárias que foram projetadas para estimular empréstimos e reforçar o crescimento, mas, por puro acaso, saiu pela culatra e desencadeou a maior redistribuição de riqueza para vorazes plutocratas não fazem nada na história?

É isso que você acha?

Você não precisa ser Leon Trotsky para descobrir o que realmente está acontecendo aqui. Heck, mesmo Warren Buffett acertou em cheio quando disse: "Não há guerra de classe, tudo bem, mas é a minha classe, a classe rica, que esta a... ganhar."

Tens razão, Warren.

Revelado: como a Associated Press colaborou com os nazistas

Historiador alemão mostra como a agência de notícias manteve o acesso na década de 1930 com a promessa de não pôr em causa a força de regime de Hitler

Philip Oltermann

The Guardian

O livreto nazista Os judeus nos EUA usou uma fotografia da Associated Press do prefeito de Nova York, Fiorello LaGuardia

Tradução / A agência de notícias Associated Press participou, com uma colaboração formal, do regime de Hitler na década de 1930, fornecendo aos jornais americanos material diretamente produzido e selecionado pelo Ministério de Propaganda nazista. Os arquivos foram descobertos e revelados por um historiador alemão.

Quando o partido nazista tomou o poder na Alemanha em 1933, um de seus objetivos era o de cooptar não só a imprensa nacional, como também a internacional. Um ano depois, o jornal The Guardian já havia sido proibido e em 1935 mesmo as maiores agências de notícias britânicas e americanas, como a Keystone e a Wide World Photos, foram obrigadas a fechar seus escritórios depois de serem atacadas por empregar jornalistas judeus.

A Associated Press, que se descreveu a si própria como os “fuzileiros navais do jornalismo” (“sempre a primeira a entrar e a última a sair”) foi a única agência de notícias ocidental que ficou aberta na Alemanha de Hitler e continuou funcionando até a entrada dos Estados Unidos na guerra, em 1941. Encontrou-se, então, na situação presumivelmente vantajosa de ser o principal canal para reportagens e fotografias fora do Estado totalitário.

Em um artigo publicado pelo jornal acadêmico Estudos de História Contemporânea, a historiadora Harriet Scharnberg mostra que a Associated Press (AP), só conseguiu conservar seu acesso às informações participando de uma colaboração mutuamente benéfica com a regime nazista.

A agência, com sede em Nova York, abriu mão do controle de sua produção ao assinar o chamado Schriftleitergesetz (lei do editor), prometendo não publicar qualquer tipo de material “destinado a enfraquecer a força do Reich no exterior e em seu país”. Essa lei exigia que a AP contratasse repórteres que também trabalhavam para a divisão de propaganda do partido nazista. Um dos quatro fotógrafos empregados pela Associated Press na década de 1930, Franz Roth, era membro da divisão de propaganda da unidade paramilitar das SS e suas fotografias eram pessoalmente escolhidas por Hitler. A AP retirou as fotos de Roth de seu website desde que Harriet Scharnberg publicou suas descobertas, embora miniaturas das imagens continuem visíveis devido a “problemas de software”.

A AP também permitiu que o regime nazista utilizasse seus arquivos de fotografias para sua venenosa literatura de propaganda antissemita. Entre as publicações ilustradas com fotografias da AP estão o panfleto Der Untermensch (“O subumano”) e o livreto Jie Juden in USA [Os judeus nos EUA], que pretendiam mostrar a decadência dos judeus americanos – o último, com uma foto do prefeito de Nova York, Fiorello LaGuardia, comendo com as mãos.

Vindo à tona pouco antes do 170º aniversário da Associated Press, que ocorre em maio, as informações recentemente descobertas levantam não só questões difíceis sobre o papel desempenhado pela AP ao permitir que a Alemanha nazista escondesse sua verdadeira cara durante os primeiros anos de Hitler no poder, mas também sobre as relações da agência com regimes totalitários contemporâneos.

Embora o acordo feito pela AP tenha tornado possível aos países ocidentais ter uma ideia da sociedade repressiva que, de outra forma, permaneceria totalmente oculta – o que permitiu que o correspondente em Berlim Louis P. Lochner ganhasse um prêmio Pulitzer em 1939 –, o acordo também permitiu que os nazistas encobrissem parte de seus crimes. Harriet Scharnberg, que é historiadora e trabalha na Universidade Martin Luther da cidade de Halle, argumenta que a colaboração da AP com a regime de Hitler permitiu que os nazistas “descrevessem uma guerra de extermínio como uma guerra convencional”.

Em junho de 1941, tropas nazistas invadiram a cidade de Lviv, na Ucrânia ocidental. Ao depararem com provas de matança em massa promovida por tropas soviéticas, as forças de ocupação alemãs organizaram pogroms de “vingança” contra a população judaica da cidade. As fotografias de Franz Roth de corpos mortos dentro das prisões de Lviv foram selecionadas por ordem pessoal de Hitler e distribuídas à imprensa americana via Associated Press. “Ao invés de imprimir fotografias dos pogroms de Lviv, que duraram vários dias e tiveram milhares de judeus como vítimas, a imprensa americana só recebeu fotografias mostrando as vítimas da polícia soviética e os ‘selvagens’ criminosos de guerra do Exército Vermelho”, disse Harriet Scharnberg ao The Guardian. “Nesse contexto, é justo dizer que essas fotos desempenharam um papel ao disfarçar o verdadeiro caráter da guerra dirigida pelos alemães”, disse a historiadora. “Os acontecimentos que se tornaram visíveis e os que permaneceram invisíveis no fornecimento de fotos da AP obedeciam aos interesses alemães e à narrativa da guerra alemã.”

Ao lhe serem apresentadas essas alegações, a Associated Press disse, numa declaração, que o relatório de Harriet Scharnberg “descreve indivíduos e suas atividades, antes e durante a guerra, que eram desconhecidos de AP” e que a agência está neste momento revendo documentos, em e para além de seus arquivos, “para um conhecimento mais profundo do período”.

Um porta-voz da AP disse ao The Guardian: “Continuamos a pesquisar o assunto, mas a AP descarta qualquer ideia de que tenha ‘colaborado’ deliberadamente com o regime nazista. Uma descrição correta é a de que a AP e outras organizações jornalísticas estrangeiras foram submetidas a uma intensa pressão por parte do regime nazista desde o ano em que Hitler chegou ao poder, 1932, até a expulsão da AP da Alemanha, em 1941. A direção de AP resistiu à pressão e trabalhou para coletar informações corretas, vitais e objetivas durante um período negro e perigoso.”

As novas descobertas poderiam não ter tido senão o interesse dos historiadores, porém esta não foi a primeira vez que se examinam as relações de AP com regimes totalitários. Desde janeiro de 2012, quando a Associated Press foi a primeira agência de notícias ocidental a abrir uma filial na Coreia do Norte, a produção do escritório de Pyongyang tem sido constantemente questionada no que se refere à neutralidade.

Em 2014, o website NK News, com sede em Washington, disse que executivos do alto escalão de AP tinham, em 2011, “concordado em distribuir propaganda norte-coreana produzida pelo Estado em nome de AP” de forma a garantir o acesso ao mercado, altamente lucrativo, de distribuir material fotográfico para fora do Estado totalitário. A República Popular Democrática da Coreia é o penúltimo país no atual Índice de Liberdade de Imprensa Mundial.

O rascunho de um acordo que vazou mostrava que a Associated Press aparentemente estava disposta a deixar a Agência Central de Notícias Coreana (KCNA, na sigla em inglês) escolher um redator e um fotógrafo de sua unidade de agitação e propaganda para trabalhar em seu escritório. A AP disse ao The Guardian que “seria pretensioso pensar que ‘o rascunho’ tivesse qualquer importância”, mas se recusou a dar qualquer outra informação sobre o acordo final.

Acontecimentos importantes, divulgados pela mídia internacional, não tiveram cobertura por parte da filial da Associated Press em Pyongyang, como o desaparecimento público do líder norte-coreano Kim Jong-un em setembro e outubro de 2014, a interferência em um vídeo da Sony Entertainment em novembro de 2014 que teria sido orquestrada por uma agência de guerra cibernética norte-coreana e reportagens sobre a fome na província de Hwanghae do Sul em 2012.

Quando a agência de notícias francesa Agence France-Presse assinou um acordo para abrir uma filial em Pyongyang, em janeiro deste ano, a ex-chefe da filial da Associated Press em Pyongyang, Jean Lee, comentou que isso era um sinal da “crescente confiança do regime em sua capacidade de manter jornalistas estrangeiros sob controle”.

O porta-voz da Associated Press negou que a agência se tenha submetido à censura. “Nós não enviamos nossas matérias à Agência Central de Notícias Norte-Coreana ou a qualquer outra autoridade governamental antes de as publicarmos. Paralelamente, as autoridades têm a liberdade de conceder ou recusar acesso e entrevistas.”

Nate Thayer, o ex-correspondente da Associated Press no Camboja que divulgou o vazamento do rascunho do acordo, declarou ao The Guardian: “Parece que a AP aprendeu muito pouco com sua própria história. Reivindicar, como faz a agência, que a Coreia do Norte não controla sua produção é ridículo. É evidente que há o argumento de que qualquer acesso a segredos de Estado é importante. Mas, no final do dia, o que importa é se você diz a seus leitores que o que você está publicando tem como base fontes independentes e neutras.”

29 de março de 2016

A estrada de Damasco, ruínas, sangue e lágrimas

Michel Raimbaud

Afrique Asie

Tradução / Après cinq ans de guerre totale contre la Syrie, le pays a plié sans rompre. Ceux qui avaient parié sur sa reddition en auront été pour leurs frais.

Conçue dans les années 1980 et appliquée sans faiblir depuis le 11-Septembre par les néoconservateurs américains pour reconfigurer la région en plusieurs micro-États faibles et dépendants, la théorie du chaos donne aujourd’hui la pleine mesure du désastre. Retour sur des décennies de carnage en Irak, Libye et Syrie. Un chaos qui s’étend désormais à ses initiateurs, les États-Unis et leurs alliés européens et moyen-orientaux.

O conflito da Síria entrou no sexto ano. Qual será o seu resultado, quando se defrontam o campo da guerra a qualquer preço, os da paz custe o que custar e os partidários duma solução justa e moral ? Ainda hoje há ingênuos que pretendem convencer-se e convencer a opinião pública de que haveria opositores moderados entre os terroristas, « democratas » no meio dos dois mil grupos jihadistas recenseados, nobres patriotas sem mácula entre os mercenários de uma centena de nacionalidades que semeiam a morte e a destruição na Síria, no Iraque, na Líbia e noutros locais. Nos meios que se encantaram com as « primaveras » cor de jasmim ou de malva, o desnorte perante os impasses do passado condicional leva à evocação infindável e comovida dos pioneiros da ciber-revolução do inverno de 2010-2011, mas a ignorar o caos generalizado que vai conquistando o conjunto do Grande Oriente Médio país atrás de país. Não é que desagrade aos ideólogos neo-conservadores (neo-cons) americanos que, desde os anos 90, excitados pelo triunfo sobre o Eixo do Mal comunista, resumiam à atenção dos europeus a sua ideia sobre a divisão de tarefas: "Enquanto vocês analisam e comentam o passado, nós fazemos História..."

A fórmula é cínica, mas bem vista : enquanto nos nossos institutos e outros « tanques de ideias » os intelectuais de França e Navarra filosofam sobre as primaveras árabes, vendo aí uma sucessão de encontros falhados com a democracia, os seus colegas dos think tanks anglo-americanos abastecem de argumentos, ideias e projetos o empreendimento de desconstrução e deslocação lançado pelo Império atlântico sobre o mundo árabe e muçulmano, desde que o desaparecimento da URSS deixou campo livre ao Eixo do Bem.

Barack Obama, um neo-conservador que não se conhece

Barack Obama iniciou a sua última caminhada. O seu « testamento », publicado nestes últimos dias sob a forma de entrevistas com o jornalista americano Jeffrey Goldberg, faz grande efeito designadamente com as suas frasezinhas. Erdogan é um « falhado », um « tirano » ou um « autoritário » (à escolha do tradutor). A Arábia Saudita é um aliado ? Obama responde com a pirueta «É complicado », antes de lembrar que os terroristas do 11 de setembro são « sauditas não iranianos » e que um « país moderno não pode avançar quando oprime metade da sua população ». Provocação máxima : « A Arábia Saudita e o Irã devem dividir os papéis no Oriente Médio e instaurar entre si uma paz fria. » No fundo, Obama parece não ter grande estima pelos seus « aliados » reis do petróleo e a sua primeira preocupação não parece ser a democracia : sonha apenas com « autocratas inteligentes ».

Apesar destes pormenores picantes, o discurso do Nobel da paz não é essencialmente diferente do dos seus antecessores, republicanos ou democratas... O historiador canadense Michael Jabara Carley, que ensina na universidade de Montreal, perguntava-se prosaicamente há pouco tempo se ainda haverá um piloto na Casa Branca. Avançava três hipóteses suscetíveis de esclarecer a ambígua abordagem de Obama em matéria de política estrangeira : deve-se imputá-la à fraqueza de quem se vai embora face aos governos que ficam, a uma certa incompetência ou a uma postura maquiavélica que consiste em fazer a guerra sem o parecer?

Apresentado como o homem mais poderoso do mundo, Obama não é o homem mais poderoso dos Estados Unidos. Reconhece-se-lhe grande inteligência e inspira simpatia mesmo àqueles que constatam as suas fraquezas e insuficiências. Contudo, no « testamento », estas últimas aparecem diluídas e misturadas nos meandros de uma visão estratégica à qual nenhum presidente consegue escapar, democrata ou republicano, visto que se trata do « poder profundo » americano, desde há mais de trinta anos sob a batuta neo-conservadora. Esta visão remete-nos para a « lógica do caos », maquiavélico por definição.

O presidente americano Obama está desiludido com o seu aliado turco Erdogan, que trata de autocrata numa entrevista à revista americana « The Atlantic ».

Esta lógica dá conta do hipócrita jogo duplo que muitas vezes se censura a Washington. Barack Obama faz seus todos os princípios fundamentais dos seus antecessores. A América é portanto o melhor país do mundo e o seu papel é por definição benéfico. Constata o caos que reina em todos os estados onde quis impor a sua democracia de mercado, mas ignora arrogantemente que está na origem desse caos, deplorando apenas que este « ensombre o balanço do trabalho desenvolvido pela América » e a « desvie das suas outras prioridades ». Na Líbia, os Estados Unidos planificaram cuidadosamente a intervenção militar e financiaram a formação da coligação, mas o país é « uma catástrofe », espanta-se Obama, julgando contudo « ter impedido uma guerra civil prolongada e sangrenta » (sic). Resignado perante o caos, por exemplo na Líbia e na Síria, consola-se afirmando que o preço da ação (intervenção direta) seria mais elevado do que o preço da inação (a recusa de intervir que lhe é censurada). É o raciocínio próprio dos entusiastas do « caos criador » : é mais fácil manter o domínio de uma situação caótica criada intencionalmente do que construir a todo o custo uma ordem « americana » improvável numa zona extensa, longínqua e estrangeira.

Com efeito, inspirada pelo filósofo judeu alemão Leo Strauss (1899-1973), a teoria em questão assenta num postulado : « É pela destruição de toda a resistência e não pela construção que o poder se exerce », ou « é mergulhando as massas (os países vulneráveis) no caos que as elites (os países dominantes) podem aspirar à estabilidade da sua posição ». Léo Strauss especifica : « É nesta violência que os interesses imperiais dos Estados-Unidos se confundem com os do estado judaico. » Estes princípios serão adotados à letra pelos estrategistas que, produto histórico de uma simbiose entre sionismo e calvinismo, irão dar à luz o pensamento neo-conservador. A doutrina toma corpo no início dos anos 80, quando o artista do neo-liberalismo selvagem, o cowboy Ronald Reagan (no poder entre 1981 e 1989), põe termo ao degelo para regressar à tensão (os soviéticos no Afeganistão) e à « dupla tensão » (o Iraque de Saddam Hussein contra o Irã de Khomeiny). Os neo-cons, em muitos casos com dupla nacionalidade israelo-americana, irão desenvolver os seus enviesados planos com vista à remodelação do Grande Oriente Médio de acordo com as obsessões de Washington e de Tel-Aviv : o controle das zonas ricas em hidrocarbonetos supõe uma redefinição das fronteiras, dos Estados e dos regimes políticos. O plano Yinon, tornado público em 1982, preparado por um estrategista israelita para o governo do Likud de Menahem Begin, definiu assim « a estratégia para Israel nos anos 80 ». Propõe sem ambiguidades « desconstruir todos os Estados árabes existentes e remodelar o conjunto da região em pequenas unidades frágeis, maleáveis e incapazes de afrontar os israelenses ».

O complemento operacional do caos criador é a « teoria do louco » de Nixon, preconizando que a América seja dirigida por « alucinados de comportamento imprevisível, dispondo de uma enorme capacidade de destruição, a fim de criar ou reforçar o temor dos adversários ». Obama refere-se a esta teoria sem nela ver malícia...

Desde a implosão da URSS e do bloco comunista (1989-1991), os Estados Unidos, que « conservam a responsabilidade de proteger o mundo », têm mais do que nunca uma obsessão (Brzezinski em O Grande Tabuleiro, 1997) : abafar a emergência de qualquer potência suscetível de contrariar as suas ambições, conforme a « doutrina do domínio em espetro total » elaborada pelo Pentágono. Esta última incarna o sonho dos neo-cons e seus émulos infiltrados nos arcanos dos « estados profundos » do universo ocidental : os grandes e pequenos da comunidade internacional, bancos, empresas trans-nacionais ou ONG’s.

Inspirando-se da teoria do caos e aplicada de acordo com a teoria do louco, a política imperial do momento unipolar americano (a partir de 1991) será baseada nos seguintes preceitos : fazer seja o que fôr, praticar um « dois pesos, duas medidas » sistemático, pregar moral e agir de modo imoral, usar um discurso irracional, violar os princípios do direito internacional e contornar as decisões do Conselho de Segurança das Nações Unidas quando elas incomodarem. Segundo Noam Chomski, « este desprezo pela primazia do direito está profundamente enraizado na cultura e nas práticas americanas ».

O resultado não será triste. A lógica do caos não tem a ver com o direito, conforme se suspeitava, mas sim com uma opção estratégica ditada pela geopolítica. Para ela, o planeta está dividido em três zonas concêntricas : ao centro, a « heartland » euro-asiática (China, Rússia) que detém as chaves de domínio do mundo ; na periferia, as terras « offshore » onde estão as bases dos impérios do mar ambicionando a hegemonia ; entre os dois, uma « rimland » que em grande parte é ocupada por uma « cintura verde muçulmana » e constitui um espaço rico e estratégico que é preciso controlar. O cocktail das duas teorias, a do caos e a do louco, vai-se verificar explosivo para os povos desta « muslim green belt » (cintura verde muçulmana).

Numa selva em que tudo é mentira, pretender combater movimentos terroristas para cuja criação se contribuíu (Al-Qaeda, Daech) e a quem sem grandes rebuços se dá apoio não passa de simples pecadilho. Que dizer então da iniquidade das sanções, arma favorita dos ocidentais com a sua pretensão de punir os autores dos « massacres » e os « regimes », mas na realidade visando humilhar, esfomear, desesperar as populações, roubando dinheiro do seu país e, coisa que não é pouca, dispensando-se de respeitar os compromissos assumidos ?

Sanções: arma de destruição massiva ou golpe de misericórdia 

Ainda que a eficácia testada das defesas russo-sírias tenha pesado sem dúvida junto com as reservas do Congresso na sua decisão, Obama evitou o pior em agosto de 2013 ao renunciar a lançar ataques punitivos (?) sobre a Síria, a seguir à questão das armas químicas. De fato, esta decisão de "romper com as regras do jogo" parece ter sido inspirada, não por uma lógica de justiça, mas pela vontade de afirmar o seu poder face aos estados-maiores, aos serviços e aos "think tanks". Estes são influenciados e financiados pela Arábia e por outros países do Oriente Médio – segundo Goldberg, isto é bem sabido na Casa Branca – e a maior parte trabalha para os seus patrões árabes e pró-israelenses. C.Q.D.... Nada no entanto que possa incitar os povos do Grande Oriente Médio a contradizer Paul Craig Roberts, antigo secretário adjunto do Tesouro americano, quando escreve no seu estilo corrosivo (blog da resistência, 12 janeiro 2016): "Único entre todos os países da Terra, o regime dos EUA é a organização criminosa mais acabada da história humana."

Ao comentar os acontecimentos dos anos passados, Ahmed Ben Saada, investigador e politólogo argelino instalado no Canadá, lembra no seu livro Arabesco$ que "não geraram mais do que caos, morte, ódio, exílio e desolação [...]". O levantamento que faz de um recente balanço sobre "as primaveras árabes" faz estremecer: 1 milhão e meio de mortos e feridos (número a rever em alta), mais de 15 milhões de refugiados e deslocados (de fato, 18 ou 19 milhões incluindo as guerras do Iraque). Teriam custado ao conjunto dos países árabes perdas brutas de 833 bilhões de dólares, dos quais mais de metade em infraestruturas diversas e em sítios arqueológicos ou históricos. Os países da "zona África do Norte - Oriente Médio (ANMO) teriam perdido mais de 100 milhões de turistas". Juntemos a estas devastações faraônicas financiadas pelos estados petrolíferos a golpes de dezenas de bilhões de dólares outras centenas "congeladas" pelas sanções, quer dizer, pura e simplesmente roubados. Só para a Síria, estimativas recentes avaliam em 300 bilhões o custo das destruições e pilhagens e há quem avance o valor de 1 bilhão para os danos e juros que poderia ser pedidos por esse país (cf. infra).

A « democratização » americana inclui a instalação em residência do Daech. É evidente que esta devastação incomensurável – a pior das catástrofes que podia abater-se sobre os árabes e muçulmanos – não poderia ter sido levada a cabo sem a colaboração dos aliados do Império atlântico no Médio-Oriente, demasiado conhecidos para que seja necessário mencioná-los de novo. Porém, neste início da época 2016, não se trata apenas de fazer o balanço das « primaveras árabes ». É um quarto de século de « democratização » americana, à força de bombardeamentos humanitários, massacres, efeitos colaterais e estratégia do caos aquilo que nos contempla do alto das pirâmides de ruínas do Grande Médio-Oriente. Desordem e anarquia instalaram-se em numerosos países como dados permanentes e as visões à Yinon já não parecem delirantes, desenhando-se progressivamente uma nova geografia de acordo com as intenções dos estrategas neo-conservadores, americanos ou israelitas. Esta cartografia, evocada pelos políticos, integra a instalação em residência do Daech (organização do Estado islãmico). Enfim – e não é a menor das alterações na paisagem geopolítica do Grande Médio-Oriente – perfila-se rapidamente uma evolução antes ou jamais impensável na confusa atmosfera das « revoluções com aspas » : durante muito tempo discreto, mas vigilante e omnipresente nos meios e grupos de pressão dos « opositores armados », o Estado hebreu já não esconde a sua cumplicidade com a Arábia wahhabita e as monarquias do Golfo. A ideia de uma normalização generalizada entre Tel-Aviv e a maioria das capitais árabes faz o seu caminho. Esse é certamente um dos êxitos mais gritantes da estratégia neo-conservadora e a mais humilhante para os árabes. A recapitulação sumária à qual nos limitaremos aqui respeita a três países em que o caos se mostrou particularmente inovador e criador : o Iraque, que não pára de se partir e contar os mortos desde há mais de um quarto de século, a Líbia destruída em nove meses e tornada tão plural que agora encontramos várias, e a Síria que paga desde há anos o custo de um encarniçamento sádico. De entre os pontos comuns, notam-se estes: regimes republicanos sem charia, interesses de petróleo e gás em confronto, três « politicídios » incluindo a destruição de instituições, infrastruturas, economias e exércitos, derrube dos regimes e instalação de um caos permanente marcado por tentativas de desmontagem em entidades com base étnica ou religiosa, e implantação do Daesh numa parte dos territórios destes três estados. Um empreendimento bem sucedido : a destruição do Estado-nação iraquiano Em agosto de 1990, Saddam Hussein, acabado de sair de uma longa guerra contra o Irão e « encorajado » por uma ambiguidade de linguagem da embaixadora americana, invadiu o Kuwait que recusa « pagar a sua dívida » a Bagdad. Washington e Londres decretam que o Iraque ao ter violado o direito internacional é um « estado pária ». A URSS já não é mais do que um estado em perdição e Saddam vai encontrar-se sozinho, diplomática e militarmente, face à América triunfante e à sua « coligação ». O Iraque será o primeiro objetivo da vindicta do eixo do Bem, iniciando – coisa que os iraquianos ainda não sabem – um calvário que dura há vinte e cinco anos. Em janeiro de 1991, a operação Tempestade do Deserto é lançada sob mandato da ONU pelos EUA com a colaboração de uma grande « coligação » arábico-ocidental, destinada a punir a agressão contra o Kuwait e a sua anexação. Três meses mais tarde, as hostilidades terminaram. O « castigo » do Iraque apenas começou. A década 1991-2001 será marcada por um encarniçamento maníaco visando abafar o país e quebrar o seu povo à força de embargos, bloqueios e sanções. Tratando-se de um « estado pária », a busca de armas de destruição massiva vai substituir as violações do direito internacional. As exigências de Washington e do Conselho de Segurança vão multiplicar as provocações que procuram limitar a soberania do estado iraquiano através da criação de zonas de exclusão aérea (em nome da responsabilidade por proteger) e das inspeções da UNSCOM. É também a vergonhosa operação « petróleo contra alimentos », procurando humilhar e esfomear as populações. Logo após os atentados de 11 de setembro de 2001, os reforçados neo-conservadores vão convencer Bush junior, que diz querer « vingar o papá » (sic), a lançar uma nova agressão para acabar com Saddam Hussein, se necessário com a cobertura legal de uma resolução do Conselho de Segurança. Os relatórios de peritos de espionagem, dirigidos à Casa Branca depois do escandaloso discurso de Colin Powell no Conselho de Segurança em 5 de fevereiro de 2003, foram ignorados. As « minutas de Downing Street » dirigidas pelo chefe do Serviço de Informações (depois de contacto com o seu colega da CIA) informam Tony Blair em julho de 2003 que George Bush decidiu desembaraçar-se de Saddam Hussein através de uma ação militar. Esta será justificada pelas armas de destruição massiva, apesar dos sucessivos anos de inspeção, e pelo terrorismo (a cooperação com a Al-Qaeda, criada no Afeganistão nos anos 80 com a colaboração dos Estados-Unidos, dos paquistaneses e dos sauditas para combaterem os soviéticos). Em março de 2003, passando por cima da oposição da França, da Alemanha, da Rússia e da China, os Estados-Unidos e seus aliados invadem o Iraque, decididos a fazer regressar este país à Idade da Pedra. A tomada de Bagdad e a rendição do exército marcam o início da destruição do Estado baathista sob a direção de um pró-consul americano perdido nesse país desconhecido. Ignorante, Paul Bremer desencadeia o desmantelamento das instituições e do exército, a instalação de um poder xiita e « curdo » em vez e no lugar do regime derrubado. Será duramente reprimida uma contra-insurreição « sunita » de base tribal, à qual se juntaram numerosos baathistas do exército dissolvido e combatentes islamistas próximos da Al-Qaeda. Foi a prisão em que os insurretos islamistas e oficiais baathistas se conheceram que será o cadinho do Daech. A captura e tratamento iníquo reservado a Saddam Hussein, os seus processos e a sua execução em direto no dia da Festa muçulmana, assim como as abjetas práticas da soldadesca americana sobre os presos iraquianos vão figurar no balanço moral do eixo do Bem. O Iraque irá escapar às « primaveras árabes » na sua forma clássica, mas, em 2011, teve já a sua dose de primavera. Vinte e cinco anos após o início de um calvário que prossegue até aos dias de hoje sob formas sempre renovadas, não é cedo demais para fazer o balanço dos feitos da « democratização » americana desse grande país moderno que foi o Iraque. A criação de três comunidades (curda, sunita e xiita) a partir de critérios em si mesmos caóticos, meio étnicos, meio religiosos, permite traçar a divisão do Iraque. A destruição do tecido nacional e institucional vai traduzir-se pela sedição étnica entre curdos e árabes, designadamente a rápida e encorajada afirmação do Curdistão iraquiano, coqueluche dos ocidentais, e a sedição confessional. Neste ponto, a marginalização dos sunitas tem por contrapartida a promoção da maioria xiita, acompanhada de ferozes lutas entre clãs. O povo iraquiano irá ser abandonado a uma empresa impune com toques de genocídio : de acordo com os números normalmente aceites, haverá pelo menos milhão e meio de mortos, dos quais meio milhão de crianças, sem contar com as sequelas sanitárias ou genéticas das armas químicas e dos bombardeamentos com urânio empobrecido (cancros, malformações) e o exílio massivo de vários milhões de iraquianos de todas as religiões (Síria, Líbano, Europa). A pilhagem do património arqueológico e histórico (sítios e museus) será banalizada e aberta ao público, por assim dizer. Trata-se de destruir a memória deste povo muito antigo. A tarefa será perpetuada um pouco mais tarde pelo Daech. Soldados americanos derrubam em 2003 a estátua de Saddam Hussein em Bagdad. O potencial económico não será cuidado, quando as infrastruturas sofreram durante anos bombardeamentos e golpes dos « amigos do Iraque ». A pilhagem dos recursos petrolíferos seguirá o seu caminho, mas sob contrôle : o ministério do Petróleo terá sido, segundo se diz, a única parte da administração protegida pelos esbirros de Bremer. Ponhamos no inventário « o dinheiro de Saddam Hussein », isto é, do Iraque, que terá conhecido a sorte habitual na matéria. Politicamente, a redistribuição das cartas no plano nacional provocará uma mutação imprevista e contudo previsível no plano estratégico : é o Irão, e não a América, que se tornará o interlocutor privilegiado do « poder xiita », onde a Arábia não vai ganhar nada com o assunto. Finalmente, como produto direto da invasão americana e gozando da proteção da Turquia, do Qatar e da Arábia saudita, o Daech instala-se no norte do Iraque em junho de 2014, abrindo uma nova fase na perturbação da geografia iraquiana. Protegido por Washington mais do que inimigo a abater, a organização « Estado Islâmico » vai trabalhar para a destruição do Estado iraquiano e estender-se rapidamente para a vizinha Síria. A «nova era democrática» prometida pelo ocupante traduz-se por um regime que generaliza a prática da tortura, como na prisão de Abu-Ghraib. Desmantelamento, partilha, pilhagem e caos na Jamahiriya As mensagens de e-mail (pirateadas) de Hillary Clinton confirmam o que já se sabia : a eliminação de Kadhafi não tem nada a ver com uma vontade de democratizar a Líbia. Inspirou-se em interesses estratégicos, económicos e petrolíferos e na existência dos « milhões de Kadhafi ». De acordo com a banca mundial e com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), a Líbia dispõe no início de 2011 do « índice de desenvolvimento humano mais elevado do continente africano », com um crescimento do PIB de 7,5% ao ano, um rendimento por habitante record (10.000 dólares americanos por ano), instrução primária e secundária para todos e acesso ao ensino superior para um em cada dois alunos. Mais de 2 milhões de imigrados africanos encontram trabalho na Jamahiriya. Fator de estabilidade e desenvolvimento no norte de África, a Líbia multiplicou investimentos com o objetivo de dotar a União Africana de autonomia financeira e moeda independente. Algo de inaceitável para os Estados-Unidos e para a França, a acreditar nos e-mails de Hillary Clinton. Teria Kadhafi feito outros « investimentos » na Europa ? O Ocidente desconfia. Os « revolucionários » líbios não esperam muito para apelarem por socorro contra Kadhafi que « massacra o seu povo ». Rapidamente são satisfeitos. As primeiras sanções diplomáticas são o resultado da Resolução 970 adotada pelo Conselho de Segurança nos finais de fevereiro de 2011 : proibição de viajar, embargos de armas e… congelamento de bens, decreta o Tribunal Penal Internacional. A Resolução 1973 de 17 de março de 2011 confirma e reforça as sanções anteriores (acrescentando a exclusão aérea), ao mesmo tempo que dá luz verde a uma intervenção militar a título da « responsabilidade de proteger ». Enganadas (segundo se diz, pela França), a China e a Rússia abstêm-se em vez de oporem um veto, assim como a Alemanha. A NATO, investida do trabalho pelos ocidentais em violação do mandato da ONU, desencadeia imediatamente os bombardeamentos. É posta de lado qualquer diplomacia. A França será um dos ferros de lança da aventura. Milhares de raides atingirão não apenas objetivos militares e centros de comando, mas também e sobretudo zonas residenciais, zonas industriais e objetivos civis. Jamais se irá conhecer o balanço exato : milhares e sem dúvida dezenas de milhares de mortos e feridos, mas poucos combatentes, porque quase não houve confrontos militares. De facto, a intervenção « humanitária » visa mudar o regime : Kadhafi será torturado e assassinado em direto, diante das câmaras de televisão no fim de outubro de 2011. Kadhafi foi torturado e assassinado diante das câmaras de televisão. A Líbia será destruída, as suas infrastruturas devastadas, o exército desmantelado e os homens desmobilizados irão alimentar o fluxo de mercenários e jihadistas em todo o Sahel, incluindo o Mali. Mergulhada num caos generalizado e posta ao alcance de várias centenas de milícias armadas, a Líbia está já dividida em três ou quatro entidades e o poder é disputado entre dois ou três governos. O terreno é propício à instalação do Daech, que encontrará aí o seu terceiro ponto de ancoragem. A situação líbia é preocupante para a segurança e estabilidade de toda a região, nomeadamente para a Argélia, a Tunísia, o Sahel. Ela gera um buraco negro securitário entre o sul da Líbia e o norte do Chade. No meio deste desastre, as primeiras sanções terão sido rapidamente esquecidas. Se o « congelamento dos bens », sanção clássica, não desperta a atenção de toda a gente, apresenta um interesse maior para alguns. Não será legítimo « apanhar o dinheiro de Kadhafi » ? De facto, os « 500 mil milhões de Kadhafi » recenseados em março de 2011 são simplesmente os 500 mil milhões de bens líbios investidos no mundo (250 na América e 250 na Europa e resto do mundo ocidental), entre bancos e empresas. E nem se fala dos investimentos (50 mil milhões) efetuados pelo Guia no continente africano e na pilhagem futura do petróleo líbio. Jamais se saberá deles, com exceção dos 11 a 34 mil milhões restituídos ao Conselho Nacional de Transição (CNT) pela NATO e pelos ocidentais (inquérito de Pascal Henry : Piéces à conviction na France 3, em 29/01/204). Quanto ao restante, que esteja congelado ou descongelado, ninguém saberá dizer onde estão, exceto que de certeza não foram perdidos por toda a gente. A sorte de todos os bens congelados ao abrigo do capítulo 7 (da Carta da ONU – N.T.) é a de serem postos a recato algures (incluindo em França). Cinco anos depois, o caos é tal que se aprontam para intervir de novo para pôr fim ao caos. Sinal de que o colonialismo está de volta é a Itália estar à frente do empreendimento, tal como a França na Síria… A Síria destruída em parte e o Estado sírio não derrotado, mas sempre ameaçado Após cinco anos de uma guerra de uma violência extrema, e ainda que tenha servido de terreno de experiências para todos os recursos da estratégia do caos, a Síria continua. O estado sírio não se desmoronou. Paga vencimentos e pensões aos seus funcionários sem falhar e as suas instituições estão no sítio. O exército resistiu face a uma agressão aliando as grandes potências ocidentais aos regimes fundamentalistas do Médio-Oriente. Desde outubro de 2011, está afastado o espetro de um cenário à líbia, já que Moscovo e Pequim quebraram pelo seu veto a unanimidade dos membros permanentes do Conselho de Segurança. Dedos acusadores apontam para « certos países que não jogam o jogo », uma vez que Rússia e China recusam « juntar-se à comunidade internacional » (sic) como queriam Juppé e Hague. Mas, esta mutação não vai evitar uma escalada contínua da guerra universal imposta à Síria. O envio massivo de mercenários jihadistas com as suas agendas próprias vai perpetuar o caos, « abrindo caminho à organização do Estado Islâmico, constituído com ex-oficiais do exército iraquiano irradiados por Paul Bremer em 2003, com armas americanas e com o apoio considerável de fundos sauditas ». Nestas condições, para que servem as sanções, tornadas tão banais para os países ocidentais que lhes passam despercebidas, tanto mais que nada sofrem com elas ? Cinco anos de encarniçamento terão esgotado a Síria, já devastada pela guerra, acabando por asfixiar a sua economia e condenando o povo sírio a viver de agora em diante em condições terríveis. As sanções clássicas de « normalização » são tomadas pela União Europeia (UE) em maio de 2011 : dizem respeito à proibição de viajar (fim dos visas) e ao congelamento dos bens de 150 personalidades do « regime sírio ». Uma cinquentena de sociedades « apoiantes do regime » ficam sujeitas a boicote, das quais cinco organismos militares, de acordo com o embargo « sobre as exportações de armas e de material suscetível de ser utilizado para fins de repressão ». A partir de julho de 2011, a Síria é alvo regular de medidas de represália da parte da « comunidade internacional ». É necessário « punir e asfixiar economicamente o regime de Bachar al-Assad, que reprime com sangue os opositores ». A 10 de agosto de 2011, o governo americano adota sanções contra as sociedades de telecomunicações sírias e os bancos ligados a Damas, impedindo os cidadãos americanos de fazer negócios com os bancos sírios ou Syriatel. Os bens destas sociedades nos Estados-Unidos são congelados, ou seja, roubados. Hillary Clinton anuncia um embargo total sobre as importações de produtos petrolíferos sírios. Imitando logo os seus professores, a União Europeia decide sanções suplementares, incluído um embargo sobre o petróleo. Como os Estados-Unidos, o Canadá, a Austrália, a Suissa, a Turquia e a Liga Árabe (sequestrada pelo Qatar e pelos regimes do Golfo), Bruxelas vai renovar e reforçar as sanções sem descanso, por dezassete vezes apenas no ano de julho de 2011 a julho de 2012. O encerramento da Syrianair em Paris e a proibição de qualquer ligação aérea entre a França e a Síria serão decididos no verão de 2012, do mesmo modo que o fim dos voos entre as capitais europeias e Damasco. As sanções diplomáticas são decididas a partir do outono de 2011, depois do veto russo-chinês. Os Estados-Unidos chamaram o seu embaixador agitador em Damas, vários estados da UE chamam os seus e o ministro francês dos Negócios Estrangeiros Alain Juppé chama também o seu, primeiro a 17 de novembro de 2011 e depois definitivamente em fevereiro de 2012. Nomeado em maio de 2012, Fabius fará melhor : apenas entronizado, vai expulsar a embaixadora da Síria, embora esta, representante junto da UNESCO, não possa ser expulsa. As « grandes democracias » e seus aliados do Médio-Oriente estão sempre de serviço. Os prejuízos são imensos e um país anteriormente próspero, autosuficiente e sem dívidas está em ruínas, com as infrastruturas devastadas e os serviços sociais frequentemente danificados. Com mais de 300.000 mortos (100.000 dos quais membros do exército regular), 1 milhão de deficientes e 14 milhões de refugiados ou deslocados (mais de um sírio em cada dois), o tecido nacional fica fragilizado pela proliferaão de grupos armados e minado pela invasão de mercenários vindos para a jihad, assim como por certas reivindicações étnicas. Foram necessários muitos esforços da parte dos « amigos da Síria » para instalar mês após mês este caos que reina numa boa parte da Síria, « mãe da nossa civilização ». Bernard Cornut, especialista do Médio-Oriente, escreve a justo título em 11 de março de 2016 : « Visto que cada vez é mais conhecido e verificado que vários países apoiaram e financiaram grupos rebeldes armados com o objetivo afirmado e partilhado de mudar o regime, e nomeadamente fazer partir o presidente, países que incluem a França, os Estados-Unidos, a Grã-Bretanha e claro o Qatar, a Arábia, a Turquia e outros conhecidos da Síria, todos eles em diversos graus são corresponsáveis pelos prejuízos provocados na Síria e recentemente estimados em 1 milhão de milhões de dólares. » E concluindo : « Deverão portanto enfrentar ações judiciais internacionais por parte da Síria para que obtenha indemnizações de guerra legítimas. » Com o fim de as financiar, propõe a criação de uma taxa sobre o petróleo e o gás, a qual seria afeta a « um fundo de indemnização das vítimas e de reconstrução da Síria em todos os planos, a gerir pela ONU ». Conforme constatado por Jeffrey Sachs, diretor do Earth Institute na Universidade Colúmbia de Nova Iorque e consultor junto do secretário-geral das Nações Unidas, « a política americana foi um falhanço enorme e terrível ». Assad não partiu e não foi vencido, graças à ajuda da Rússia e do Irão. A perspetiva neo-conservadora ficou comprometida. Daí a fúria dos « amigos da Síria », a sua fuga em frente e a sua violência louca… diante do avanço do exército sírio em todas as frentes. Não haverá mais « primaveras ». Resta que o caos é omnipresente, do Iraque à Síria, da Tunísia ao Egipto, da Líbia ao Iémen, da Palestina ao Líbano. Salvo que há uma novidade : os cúmplices e agentes do Médio-Oriente da estratégia imperial ficam de agora em diante às voltas com essa desordem e essa selvajaria que contribuíram para propagar. A Arábia saudita, a Turquia tornaram-se um alvo para os grupos extremistas e terroristas que apadrinharam e protegeram. Pesares, pesares… Que aconteceu aos responsáveis ocidentais pela « democratização » ? Colin Powell, o homem que deu a cara no Conselho de Segurança, afirmou-se mal informado pelos serviços americanos : exprime o seu pesar alguns anos depois dos factos. Madeleine Albright, para quem as centenas de milhares de crianças iraquianas mortas eram o « preço a pagar pela democratização do Iraque » ou Condoleeza Rice que via nas convulsões do Líbano em 2006 as « contrações do nascimento da democracia » dedicam-se certamente às suas boas obras. Bush goza de uma reforma pacífica e pinta bonitos carneirinhos no seu rancho : terá Alzheimer ?... Blair e Bush : depois da mentira e do horror, reformas douradas… Tony Blair faz conferências pagas principescamente. O ex-primeiro ministro britânico exprime também o seu pesar onze ou doze anos depois dos factos. De acordo com Jeremy Corbin, na sua candidatura à direção do partido Trabalhista, ele deve ser levado à justiça por crimes de guerra, « devido à invasão ilegal do Iraque, uma guerra catastrófica que custou muito dinheiro e vidas humanas, de que ainda hoje se vêm as consequências ». Quanto a Hillary Clinton a mulher do « veni, vidi, vici », que escarnecia do assassínio de Kadhafi em direto (« um dia feliz para a humanidade »), é assediada por certos jornalistas americanos. Jeffrey Sachs (22 de fevereiro de 2016) acusa-a de ter contribuido para provocar e manter o banho de sangue na Síria, tendo assim pesada responsabilidade pela carnificina. « Perigo para a paz mundial », terá que « responder por muita coisa referente à guerra da Síria », conclui. Candidata à investidura democrata para a presidência, deve pensar mais vezes em Donald Trump do que em Kadhafi. Se, por um capricho da sorte (qualquer máquina de votar com os buracos entupidos, por exemplo), a machona da diplomacia fosse eleita, os sírios até agora poupados pela guerra só teriam que se cuidar. E quanto à França e aos seus dirigentes de todos os bordos que se felicitavam pelo balanço da grande cavalgada líbia e pontificavam – continuam sempre a pontificar – sobre o futuro da Síria e o destino do seu presidente ? Não deviam temperar a sua arrogância de ignorantes e a sua impudência de privilegiados ? Em vez de continuarem a atirar planos viciosos com ar enjoado, não precisariam antes de se interrogar sobre a sua esmagadora responsabilidade pelas desgraças do povo sírio e a baixeza da diplomacia francesa ? O futuro da Síria não tem nada a ver com eles. O maior serviço que podem prestar à « mãe da civilização », à « segunda pátria de qualquer ser civilizado » alvo do seu encarniçamento, é deixá-la em paz, em todos os sentidos da palavra.

Trump e Clinton: Censurando o intragável

por John Pilger


Uma censura virulenta, ainda que familiar, está prestes a abater-se sobre a campanha eleitoral estado-unidense. Como o selvagem caricato, Donald Trump, parece quase certo que ganhe a nomeação do Partido Republicano, Hillary Clinton está a ser consagrada como a "candidata das mulheres" e a campeã do liberalismo americano na sua luta heroica contra Satã.

Isto é disparate, naturalmente. Hillary Clinton deixa um rastro de sangue e sofrimento por todo o mundo e um recorde claro de exploração e cobiça no seu próprio país. Dizer isto, no entanto, está a tornar-se intolerável na terra da liberdade de expressão.

A campanha presidencial de Barack Obama em 2008 deveria ter alertado até o observador mais desatento. Obama baseou sua campanha da "esperança" quase totalmente no facto de um afro-americano aspirar dirigir a terra da escravidão. Ele também era "anti-guerra".

Obama nunca foi anti-guerra. Ao contrário, como todos os presidentes americanos, era a favor da guerra. Ele votou pelo financiamento da carnificina de George W. Bush no Iraque e planeava escalar a invasão do Afeganistão. Nas semanas em que fez o juramento presidencial, aprovou secretamente um assalto israelense a Gaza, o massacre conhecido como Operação Chumbo Derretido. Prometeu encerrar o campo de concentração de Guantánamo e não o fez. Jurou que ajudaria a tornar o mundo "livre de armas nucleares" e fez o oposto.

Como uma nova espécie de gestor de marketing do status quo, o untuoso Obama foi uma escolha inspirada. Mesmo no fim da sua presidência coalhada de sangue, com a sua assinatura para drones a propagarem infinitamente mais terror e morte em todo o mundo do que o desencadeado por jihadistas em Paris e Bruxelas, Obama é bajulado como um "tipo fixe" (the Guardian).

Em 23 de Março, a Counterpunch publicou meu artigo "Uma guerra mundial começou – rompa o silêncio" . Como tem sido minha prática durante anos, difundi então esta peça através de uma rede internacional, incluindo Truthout.com, o sítio web liberal americano. Truthout publica algum jornalismo importante, inclusive excelentes revelações de Dahr Jamail.

Truthout rejeitou a [minha] peça porque, disse um editor, ela havia aparecido no Counterpunh e havia quebrado "linhas de orientação". Respondi que isto nunca fora um problema ao longo de muitos anos e que nada sabia de linhas de orientação.

À minha recalcitrância foi então atribuído um outro significado. O artigo seria liberado desde que eu o submetesse a uma "revisão" e concordasse com mudanças e apagamentos feitos pelo "comitê editorial" de Truthout. O resultado foi adoçar e censurar minha crítica a Hillary Clinton e o distanciamento dela em relação a Trump. Foi cortado o seguinte:

Trump nos meios de comunicação é uma figura odiosa. Isto só por si deveria despertar nosso ceticismo. As visões de Trump sobre migração são grotescas, mas não mais grotescas do que as de David Cameron. Não é Trump o Grande Deportador dos Estados Unidos, mas sim o vencedor do Prêmio Nobel da Paz Barack Obama... O perigo para todos nós não é Trump, mas Hillary Clinton. Ela não é independente (maverick). Ela corporifica a resiliência e violência de um sistema... Quando o dia da eleição presidencial se aproximar, Clinton será louvada como a primeira mulher presidente, apesar dos seus crimes e mentiras – tal como Barack Obama foi louvado como o primeiro presidente negro e liberais engoliram sua insensatez acerca de "esperança".

O "comitê editorial" quis claramente diluir minha argumentação de que Clinton representa um comprovado perigo extremo para o mundo. Como toda censura, isto era inaceitável. Maya Schenwar, que dirige o Truthout, escreveu-me [a dizer] que minha relutância em submeter meu trabalho a um "processo de revisão" significava que ela tinha de retirar a sua "publicação da agenda". Este é o modo de falar do guardião.

Na raiz deste episódio está uma resistência indizível. Esta é a necessidade, a compulsão, de muitos liberais nos Estados Unidos a aceitar um líder a partir de dentro de um sistema que é comprovadamente imperial e violento. Tal como a "esperança" de Obama, o gênero de Clinton não é mais do que uma fachada conveniente.

Isto é uma compulsão histórica. No seu ensaio de 1859, Sobre a liberdade, ao qual liberais modernos parecem prestar homenagem incansável, John Stuart Mill descreveu o poder do império. "Despotismo é um modo legítimo de governo ao tratar com bárbaros", escreveu ele, "desde que a finalidade seja a sua melhoria e os meios justificados para realmente cumprir aquele fim". Os "bárbaros" eram grandes secções da humanidade às quais era exigida "obediência implícita".

"É um mito lindo e conveniente que os liberais são pacificadores e o conservadores belicistas", escreveu em 2001 o historiador britânico Hywel Williams, "mas o imperialismo do modo liberal pode ser mais perigoso por causa da sua natureza ilimitada – sua convicção de que representa uma forma de vida superior [enquanto nega a dos outros] conduz ao fanatismo farisaico". Ele tinha em mente um discurso de Tony Blair na sequência dos ataques de 11/Set, no qual Blair prometia "reordenar este mundo em torno de nós" de acordo com o seus "valores morais". O resultado foi a carnificina de um milhão de mortos no Iraque.

Os crimes de Blair não são inabituais. Desde 1945, uns 69 países – mais de um terço dos membros das Nações Unidas – sofreram alguns ou todos dos seguintes males. Foram invadidos, seus governos derrubados, seus movimentos populares suprimidos, suas eleições subvertidas e seus povos bombardeados. O historiador Mark Curtis estima a número da morte em milhões. Com a morte dos impérios europeus, este tem sido o projeto do liberal transportador de chamas, o "excepcional" Estados Unidos, cujo celebrado presidente "progressista", John F. Kennedy, segundo nova investigação, autorizou o bombardeamento de Moscou durante a crise cubana em 1962.

"Se temos de utilizar força", disse Madeleine Albright, secretária de Estado dos EUA na administração liberal de Bill Clinton e hoje uma apaixonada ativista de campanha pela sua esposa, "é porque nós somos a América. Nós somos a nação indispensável. Nós encaramos de frente. Nós vemos mais longe no futuro".

Um dos mais horrendos crimes de Hillary Clinton foi a destruição da Líbia em 2011. Por sua insistência, e com apoio logístico americano, a OTAN, lançou 9.700 "incursões de ataque" contra a Líbia, segundo seus próprios registos, dos quais mais de um terço foram destinados a alvos civis. Elas incluíam mísseis com ogivas de urânio. Ver as fotografias das ruínas de Misurata e Sirte, e as sepulturas em massa identificadas pela Cruz Vermelha. Ler o relatório da UNICEF sobre as crianças mortas, "a maior parte [delas] com menos de dez anos".

No mundo acadêmico anglo-americano, seguido servilmente pelos meios de comunicação liberais de ambos os lados do Atlântico, teóricos influentes conhecidos como "realistas liberais" têm desde há muito ensinado que imperialistas liberais – uma expressão que eles nunca utilizaram – são os mediadores da paz mundial e administradores de crises, ao invés de causa de crises. Eles evacuaram a humanidade do estudo das nações e congelaram-na com um jargão que serve o poder belicista. Preparando todas as nações para a autópsia, identificaram "estados fracassados" (países difíceis de explorar) e "estados vilões" (países resistentes à dominação ocidental).

Se o regime alvo é ou não uma democracia ou ditadura é irrelevante. No Oriente Médio, colaboradores do liberalismo ocidental desde há muito têm extremistas islâmicos, ultimamente a al-Qaeda, ao passo que noções cínicas de democracia e direitos humanos servem como cobertura retórica para a conquista e a destruição – como no Iraque, Afeganistão, Líbia, Síria, Iêmen, Haiti, Honduras. Ver o cadastro público destes bons liberais Bill e Hillary Clinton. O cadastro deles é um padrão ao qual Trump mal pode ambicionar.

28 de março de 2016

A estratégia secreta do terror

Manlio Dinucci


“O inimigo obscuro que se esconde nos cantos sombrios da terra” (como o definiu em 2001 o presidente Bush) continua a fazer vítimas, as mais recente em Bruxelas e em Lahore. O terrorismo é um “inimigo diferente daquele até agora enfrentado”, que se revelou ao mundo em 11 de setembro, com as imagens apocalípticas das torres que tombavam. Para eliminá-lo, ainda está em curso aquela que Bush definiu como “a colossal luta do Bem contra o Mal”. Mas cada vez que se corta uma cabeça da Hidra do terror, surgem outras.

Que devemos fazer? Antes de tudo, não acreditar naquilo que nos contaram durante quase 15 anos. A partir da versão oficial do 11 de setembro, que entrou em colapso sob o peso de provas técnico-científicas, que Washington, não podendo refutar, liquida como “conspiração”.

Os maiores ataques terroristas no Ocidente têm três características. Primeiramente, a pontualidade. O ataque de 11 de setembro ocorre no momento em que os Estados Unidos já tinham decidido (como informava o New York Times em 31 de agosto de 2001) deslocar para a Ásia o foco da sua estratégia para se opor à reaproximação entre a Rússia e a China: menos de um mês depois, em 7 de outubro de 2001, com a motivação de caçar Osama Bin Laden, mandante do 11 de setembro, os EUA começam a guerra no Afeganistão, a primeira de uma nova escalada bélica. O ataque terrorista em Bruxelas ocorre quando os EUA e a OTAN se preparam para ocupar a Líbia, com a motivação de eliminar o ISIS, que ameaça a Europa.

Em segundo lugar, o efeito terror: a matança, cujas imagens desfilam repetidamente aos nossos olhos, cria uma vasta opinião pública favorável à intervenção armada para eliminar a ameaça. Piores massacres terroristas, como em Damasco há dois meses, inversamente, passam quase desapercebidos.

Em terceiro lugar, a assinatura: paradoxalmente “o inimigo obscuro” sempre assina os atentados terroristas. Em 2001, quando Nova York ainda estava envolta pela fumaça das torres demolidas, foram divulgadas as fotos e as biografias dos 19 autores do atentado, membros da Al Qaeda, muitos deles já conhecidos pelo FBI e pela CIA.

O mesmo se deu em Bruxelas, agora em 2016: antes de identificar todas as vítimas, identificam-se os autores do atentado já conhecidos pelos serviços secretos.

É possível que os serviços secretos, a partir da tentacular “comunidade de inteligência” estadunidense formada por 17 organizações federais com agentes em todo o mundo, sejam totalmente ineficientes? Ou, ao invés disso, são eficientíssimos instrumentos da estratégia do terror? Não falta mão de obra: é a dos movimentos terroristas islâmicos, armados e treinados pela CIA e financiados pela Arábia Saudita, para destruir o Estado líbio e fragmentar o Estado sírio com o apoio da Turquia e de cinco mil foreign fighters europeus que afluíram à síria com a cumplicidade de seus governos.

Nesta grande bacia se pode recrutar seja terroristas suicidas, convencidos a se imolarem por uma causa santa, seja o profissional da guerra, ou o pequeno delinquente que na ação é “suicidado”, deixando que sua carteira de identidade seja encontrada (como no ataque ao Charlie Hebdo), ou fazendo explodir a carga antes que se afaste.

Pode-se também facilitar a formação de células terroristas, que autonomamente alimentam a estratégia do terror criando um clima de estado de sítio, como ocorre nos países europeus da OTAN, que justifique novas guerras sob o comando dos EUA.

Ou se pode recorrer à falsidade, como as provas sobre as armas de destruição em massa mostradas por Colin Powell ao Conselho de Segurança da ONU em 5 de fevereiro de 2003. Provas que depois se revelaram falsas, fabricadas pela CIA para justificar a “guerra preventiva” contra o Iraque.

27 de março de 2016

Ontem, hoje, amanhã, Viva a Comuna! – 18 de março de 2016: 145 anos da Comuna de Paris

Há um cento e quarenta e cinco anos, recusando-se a entregar ao capitulador de Versalhes Thiers os canhões da guarda nacional, os trabalhadores parisienses que defenderam Paris contra as forças prussianas sitiantes, desencadearam a insurreição da Comuna de Paris

Georges Gastaud e Jean-Pierre Hemmen

Le Grand Soir

A Comuna de acordo com a história nacional

A Comuna de 1871 não saía do nada. Trazia dentro de si a ardente memória da Comuna revolucionária de 1793, que tinha sido a ala de vanguarda da Revolução francesa e o último bastião robespierrista quando o incorruptível foi abatido pelos corruptos conjurados do Thermidor. E, ainda que a Comuna de 1871, obra do proletariado emergente e anunciadora das revoluções proletárias futuras, tenha sido um acontecimento irredutivelmente novo, o eco longínquo das insurreições populares parisienses do passado continuava nela a ressoar profundamente, o eco de fevereiro de 1848 (elemento desencadeador da Primavera dos Povos da Europa) e das barricadas operárias afogadas no sangue de junho de 1848, mas também das Três Gloriosas de 1830 (celebradas pelo quadro de Delacroix A Liberdade Guiando o Povo), sem esquecer, para além de Gracchus Babeuf e a sua Conspiração pela Igualdade (1796), as jornadas revolucionárias do 14 de julho de 1789 e do 10 de agosto de 1792 (Tomada das Tulherias pelos Sans Culottes parisienses e pelos Federados marselheses). E como não evocar a Fronda do Povo, que agitou a monarquia absoluta do século XVII e, bem mais longe ainda, a primeira revolução parisiense de 1357 (conduzida por Etienne Marcel e seus "chaperons" azuis e vermelhos, em aliança com a Grande Jacquerie do norte dirigida por Guillaume Carle), ou as comunas medievais que, de Laon a Beauvais, por vezes em aliança com o poder real (Bouvines) e por vezes contra ele, desafiavam do alto dos respetivos Beffrois os privilégios arrogantes dos nobres e prelados.

Da Comuna às revoluções do século XX

Disseram-se tantas coisas sobre a Comuna, que nos contentamos de remeter aqui para dois livros maiores: A Guerra Civil em França, em que Marx mostra o que é para um comunista, ou nas suas palavras um "materialista prático", a assimilação crítica da herança revolucionária, a igual distância entre o culto religioso e a ingratidão pseudo-"modernista". Principal fundador e dirigente da Primeira Internacional operária (de que fazia parte o operário “communard” Eugène Varlin) e exilado em Londres, Marx impulsionou a solidariedade internacional com os “communards”. Fortalecido por esta legitimidade concreta que se prolongou por inumeráveis esforços após a impiedosa repressão versalhesa, Marx soube no mesmo texto celebrar a ousadia dos “communards” "subindo ao assalto do Céu", fustigar o "sangrento minorca" Thiers e os seus imundos carrascos versalheses, e apontar imparcialmente as fraquezas políticas da direção comunária, não pelo prazer de denegrir camaradas de luta que ele venerava, mas para tirar da sua derrota ensinamentos suscetíveis de ajudar as revoluções futuras a vencer resistindo.

Foi exatamente ao deparar-se com as ilações críticas tiradas por Marx da derrota sofrida que Lenin escreveu por sua vez em 1917, em plena Revolução de Outubro, a impressionante brochura O Estado e a Revolução. O chefe de fila dos bolcheviques mostra aí de forma concreta como se articulam na teoria marxista da transição para o comunismo a questão do duplo poder, das alianças de classes para isolar a reação, da conquista política do poder de Estado pelo proletariado, da conexa instalação da ditadura do proletariado e da democracia dos sovietes de operários, camponeses e soldados ("a mais larga democracia para as massas populares e uma ditadura implacável sobre as forças contra-revolucionárias", escreve Lenin para definir o conteúdo de classe da "ditadura do proletariado"), tudo isso na perspetiva final da socialização dos meios de produção desembocando a longo prazo no "desaparecimento do Estado", ele próprio tornado possível pela progressiva extinção das classes sociais e pela transição por ela permitida entre o atual "poder sobre as pessoas" e a futura "administração das coisas", conforme disse Saint-Simon. Todas estas concepções estavam já certamente a operar de uma maneira ainda confusa e esparsa (e não podia ser de outra maneira enquanto o jovem proletariado, ainda muito restrito à oficina artesanal e à loja, não tinha ainda edificado um Partido de vanguarda seu) nas lutas heroicas dos proletários parisienses do século XIX e dos seus camaradas lioneses, marselheses, etc. (porque a Comuna de Paris teve fortes prolongamentos "provinciais"), esses iluminadores da futura revolução mundial.

Entre os numerosos ensinamentos que se podem tirar da experiência da Comuna, permita-se-nos insistir em quatro pontos que têm particular importância para a nossa atualidade militante, enquanto o grande movimento da luta dos Goodyear e dos defensores do Código do Trabalho rendem indireta homenagem à Comuna neste 17 de março, apelando ao povo trabalhador e à juventude para ocuparem a rua sob a palavra de ordem tipicamente "communard" lançada pelos militantes do Pôle de Rennaissance Communiste en France (PRCF) durante as lutas pelas reformas de 2003: "não é o patronato que faz a lei, a verdadeira democracia está aqui !".

Ensinamentos para hoje e amanhã

Em primeiro lugar, é absurdo opor a verdadeira democracia, a democracia proletária e popular, à ditadura do proletariado. É contudo o que fazem não apenas os dirigentes euro-reformistas do PCF, que desde 1976, há quarenta anos, denigrem este conceito estratégico do marxismo e lhe opõem uma nevoenta "democracia" sem fronteiras que mal disfarça a sua adesão à democracia burguesa em plena decrepitude fascizante e maastrichtiana. Em uníssono com os deputados "socialistas", estes mesmos reformistas em ruptura com o marxismo não têm aliás medo de votar em unanimidade pelo estado de urgência que podiam perceber servir menos para combater o terrorismo fanático do que para intimidar e ameaçar o movimento popular. É aliás ao mesmo tipo de renúncia que procederam os dirigentes do Nouveau Parti Anticapitaliste (NPA), o qual com a gritaria dos seus megafones também repudiaram solenemente a referência marxista a este conceito marxista fundador. A experiência histórica da Comuna mostra pelo contrário que é ao mesmo tempo que devem ser exercidas a mais vasta democracia proletária (a mais direta possível, com controle dos deputados do povo, proibição de ganharem mais do que um salário de operário, possibilidade de revogação no decurso do mandato se este não for respeitado, etc.) e a luta intransigente contra as manobras contra-revolucionárias. Marx censurou aos dirigentes "communards", na verdade bastante divididos, o não terem tomado medidas mais severas para amordaçarem a contra-revolução e, especialmente, para expropriarem o Banco de França cujos haveres eram de fato produto desviado do trabalho proletário. A opção não é pois entre uma revolução gentil, ignorando as rigorosas medidas a tomar contra os seus inimigos mortais, e a "malvada" ditadura do proletariado. Se não forem tomadas com determinação medidas rigorosas pelo poder revolucionário saído do povo, então sem dúvida que, como diz o poeta "communard" Jean-Baptiste Clément,

Os castigos da bandeira vermelha
São substituídos pelo terror
De todos os patifes de esguelha
Criados de reis e do Imperador

Porque os chefes reacionários safam muito cristãmente a pele... mas vingam-se muito "pagamente" durante a Semana Santa:

Batem, prendem, fuzilam
Tudo o que encontram ao calhas
A mãe ao pé da filha
A criança ao colo do velho,

escrevia ainda Clément. E não são os militantes chilenos da Unidade Popular, torturados por Pinochet e o seu tutor yankee prêmio Nobel da paz Henry Kissinger, que poderão infelizmente vir afirmar o contrário, nem o milhão de comunistas indonésios esmagados por Suharto em 1965 sob os aplausos da imprensa "democrática" americana e na total indiferença do "Figaro" e da ORTF de então...

Pelo contrário, a ditadura do proletariado não é um fim em si mesmo, nunca deve perder de vista que o seu objetivo é construir uma sociedade em que, através da extinção das classes sociais, o Estado de classe se torna progressivamente obsoleto e a sua tarefa em cada momento é promover a atividade política das massas, alargar sem cessar a democracia popular e a intervenção dos cidadãos-trabalhadores, para fazer de maneira que, como dizia ainda Lenin, "a cozinheira possa governar o Estado".

Do mesmo modo, é aberrante opor o internacionalismo proletário ("Proletários de todos os países, uni-vos !") ao patriotismo popular. Os "communards" eram ao mesmo tempo ardentes patriotas franceses que recusavam capitular perante Bismarck e magníficos internacionalistas que levaram a ter responsabilidades imigrados progressistas famosos como Léo Frankel (húngaro), Dombrowski (herói da independência polaca, que defendeu Paris admiravelmente), não falando do revolucionário italiano Garibaldi, que foi então eleito deputado francês, ou Elisabeth Dmitrieva que, ao lado da parisiense Louise Michel ou da bretona Nathalie Le Mel, desempenhou um papel maior no recrutamento revolucionário das indomáveis mulheres parisienses. Conforme não deixamos de lembrar, a verdadeira cisão de classe não é a que separa os patriotas dos internacionalistas, como quereriam em conjunto fazê-lo crer os partidários nacionalistas dos Le Pen ou os adeptos neoliberais da UE supranacional e da OTAN: quando a luta de classes endurece, opõe invariavelmente de um lado da barricada social os partidários do cosmopolitismo capitalista aliados aos nacionalistas burgueses (aquilo a que o PRCF, nas condições presentes, chama U.M.-Pen-S., mostrando as convergências dos dois processos reacionários que são em França a fascização xenófoba e a euro-desintegração das nações soberanas) e do outro lado dessa mesma barricada, os partidários do patriotismo republicano e os defensores da solidariedade internacional de classe. E isso é ainda mais verdade nos nossos dias do que em 1871, visto que o capitalismo tomou a forma de imperialismo, de esmagamento dos países livres pelo capital financeiro, ou mesmo de vassalização dos países dominantes em declínio por outros, como se vê com a odienta UE dominada pelo imperialismo alemão e seus neocolaboracionistas "franceses" do grande patronato e do Partido Maastrichtiano Único (PS e ex-UMP). É por isso aliás que a palavra de ordem da Terceira Internacional já não era apenas "Proletários de todos os países uni-vos", mas "Proletários de todos os países e povos oprimidos do mundo inteiro, uni-vos", tendo no horizonte a palavra de ordem largamente unificadora e defendida por Lenin do "direito de todas as nações a disporem de si próprias". Concretamente, isso traduz-se pela necessidade para os verdadeiros herdeiros dos "communards" de apelarem ao povo francês, não para esperar tontamente pela impossível "Europa social" cara a Pierre Laurent, mas a exigir que a França saia pela esquerda, numa dinâmica revolucionária de ruptura com o capitalismo assassino de nações, com a mortífera UE atlântica e com o seu destrutivo euro.

Verificação histórica desta dialética materialista do patriotismo popular e do internacionalismo proletário é o facto de ser sempre a classe dominante que, desde a Idade Média (o bispo Cauchon entregando Jeanne Darc à fogueira inglesa) até aos nossos dias, se aliou à dominação estrangeira para se resguardar do povo e preservar os seus privilégios, enquanto que pelo contrário o povo trabalhador defendeu o solo nacional, como se viu durante a Grande Revolução, quando os soldados do Ano II saídos do Faubourg Antoine salvavam a França republicana, enquanto os emigrados nobres de Koblenz traíam o país combatendo nas fileiras inglesas e austríacas. E em 1871, enquanto Thiers suplicava ao vitorioso Bismarck a libertação dos soldados franceses feitos prisioneiros em Sedan jurando por escrito ao chefe do Segundo Reich alemão que os ditos soldados não seriam «utilisados a não ser contra Paris», os internacionalistas presentes em Paris defendiam a França ocupada, tal como os franco-atiradores e os resistentes da mão-de-obra imigrada, os Manouchian, os Epstein e Roger Landini, permaneciam fiéis à França dos direitos do homem o mesmo tempo que os Louis Renault produziam tanques para a ocupação nazi. Quem não se lembra da palavra do escritor gaulista Mauriac declarando, a propósito dos mineiros vermelhos do norte que aguentaram dois meses de greve debaixo da bota alemã em 1941, que « apenas a classe operária ficou fiel à França profanada» ?

É suicidário opor a democracia proletária de massas ao partido de classe e de vanguarda. Este partido comunista, que tanta falta fez aos « communards », entre os quais dominavam ainda as ideias pequeno-burguesas e anarquisantes hostis à organização, tinham-no os bolcheviques construído e temperado no fogo das lutas da Revolução russa de 1905, não opondo-o, mas apoiando-o nessa criação espontânea das massas operárias russas em movimento que eram os sovietes (conselhos) de operários e camponeses. Sem o partido bolchevique, sem a sua disciplina de ação baseada no centralismo democrático (a mais larga democracia antes da tomada de decisão e aplicação da decisão maioritária por todos, incluindo a minoria), não teria havido revolução proletária vitoriosa em outubro de 17, porque como seria possível unir e disciplinar o esforço de um povo-continente face a uma reação feudal-burguesa unida e armada até aos dentes, sem dispor desse elemento indispensável a todo o exército que quer ganhar e não apenas «dar testemunho» que é um Estado-Maior político ? E inversamente, que seria de um partido autoproclamado de vanguarda, um grupúsculo declarando-se « o » partido, sem manifestar a menor preocupação por federar os revolucionários e tornar-se a vanguarda efetiva do movimento popular aqui e agora ?

É aliás conjugando a construção do partido comunista (ao qual Lénine escolheu a denominação de origem francesa em tripla referência à Comuna, ao objetivo final comunista e não socialista do partido e também ao que ele chamava o «Estado-Comuna», o Estado visando a sua própria extinção, por muito longínqua que fosse) e a dinâmica própria dos sovietes de operários, camponeses e soldados, que a Revolução de Outubro triunfou, como o atesta de forma grandiosa o livro-reportagem de John Reed sobre Os Dez Dias que Abalaram o Mundo, porque Outubro não foi apenas uma insurreição militar vitoriosa do proletariado e da guarnição vermelha de Petrogrado. A própria insurreição, que entregou imediatamente todo o poder aos sovietes (onde os bolcheviques tinham ganho democraticamente a maioria), foi sobretudo necessária para que se lançasse um imenso debate, ganho pelos bolcheviques em cada fábrica, cada caserna, cada aldeia em que foi necessário pronunciar-se sobre os três primeiros decretos do novo poder soviético : o Decreto sobre a paz dos povos, o Decreto sobre a terra para os camponeses e o Decreto sobre o contrôle operário nas fábricas.

É por isso que é aberrante ver alguns comunistas atuais, que acreditam no entanto opor-se à direção do PCF-PGE (Partido Comunista Francês – Partido da Esquerda Europeia – N.T.), tratarem por alto a « matriz leninista do comunismo » à maneira do primeiro euro-mutante caído do céu, sonharem voltar hoje à Primeira Internacional saltando por cima da experiência da Internacional Comunista e do primeiro campo socialista da história que, durante décadas, fez frente ao imperialismo construindo uma sociedade certamente imperfeita, mas sem desemprego, sem exploração capitalista e sem traficantes de canhões. Se se quer analisar como marxistas e não como derrotistas e pequeno-burgueses lamurientos as causas da derrota provisória do socialismo (tarefa que não é o objeto deste curto artigo), há melhor a fazer do que armar em bem-pensantes arrependidos, renegar o passado comunista, autoflagelar-se para agradar ao adversário, e sonhar com o regresso às formas antigas pré-bolcheviques do poder proletário, enquanto o capitalismo está mil vezes mais agressivo, destruidor, fascizante, exterminista até do que ainda não o podia ser o capitalismo do séc. XIX. Como dizia o poeta Arthur Rimbaud, «é preciso ser resolutamente moderno: aguentar o passo dado!» e não praticar o que já Lénine fustigava, essa dança do ventre própria dos elementos mencheviques que se traduz pelo tristemente famoso «um passo em frente, dois passos atrás !». Isto, a não ser que se queira perder eternamente os combates face a um inimigo de classe mais determinado que nunca e numa situação em que, mesmo no coração dos nossos países imperialistas em crise, a deterioração e a miséria de massas ameaçam muito diretamente os trabalhadores e a parte inferior das assim chamadas « classes médias » !...

Finalmente, é desonesto opor a construção multissecular da nação e depois a instalação revolucionária da República una, laica, soberana, social legada por Robespierre, à descentralização democrática popular, ou parcialmente popular, que historicamente foi trazida não apenas pela Comuna de 1871, mas pelos insurretos medievais das «comunas de jurados» da Idade Média. São historicamente o Primeiro e o Segundo Império e não os «sans culottes», nem por maioria de razão os «communeux»**, quem suspendeu as liberdades comunais ao passarem à nomeação dos « maires » e imporem um super-presidente para Paris, Pelo contrário, a nação francesa e as comunas, apesar de muitas atribulações, foram contruídas a par. Foi o processo, historicamente progressista numa primeira fase, de construção de um Reino de França centralizado que viu os capetianos, desejosos de conjurarem as frondas feudais, aliarem-se às milícias comunais : em Bouvines (1214), a batalha contra a coligação entre o rei inglês, o Imperador alemão, o conde flamengo e diversos grandes feudatários rebeldes, foi ganha por Phillipe-Auguste e pelos seus aliados comunalistas aos gritos de «Comuna, Comuna !» e essa vitória permitiu a Paris consolidar o seu papel de capital política do Reino. Foi igualmente uma opção política real que tem a ver com alianças de classe a que inspirou François I quando escolheu erigir o francês (quer dizer, a língua falada pela burguesia e pelo povo, pelo menos na Ile-de-France) a língua administrativa e jurídica, afastando o latim caro aos eclesiásticos (sem por isso proibir as línguas periféricas). Quanto à República una e indivisível, criada pelos horríveis « centralizadores » jacobinos, os Marat, Robespierre, Saint-Just, Couthon, etc., ela liquidou as velhas províncias étnicas herdadas da feudalidade em proveito dos novos departamentos, mas nem por isso deixou de confirmar a eleição dos « maires » e conselhos comunais sem melindrar as suas prerrogativas, o que reduz a nada a atual contra-reforma territorial de inspiração maastrichtiana. Em resumo, antes de dizer tontamente que « em geral, o centralismo opõe-se à intervenção política local », é preciso verificar o conteúdo de classe do centralismo e da proclamada « descentralização », porque o centralismo nacional não se opõe à democracia local quando em todo o território francês é a classe progressista, ontem a burguesia jacobina, hoje o proletariado virtualmente « communard », que conduzem a iniciativa histórica. Mais uma vez, que diferença marcante com a nossa sinistra época contra-revolucionária em que, tudo de uma vez, sob a égide da grande burguesia agora oligárquica, temos o reagrupamento autoritário dos territórios confortando as « metrópoles » em detrimento das comunas, temos as super-regiões à custa dos departamentos, temos o Império europeu berlino-formatado e a União transatlântica centrada na América, ambos apoiados pelo poder planetariamente devastador da NATO, mil vezes mais perigosa para o futuro da humanidade do que nunca o foram os «reiters» de Bismarck ou os hussardos do duque de Brunswick !

Haveria mil outras lições a tirar da experiência cultural e humana sem precedentes que foi a Comuna sob a direção dos heróicos Varlin, Flourens, Ferré e Courbet, nomeadamente pela maneira pela qual separou claramente, pela primeira vez em França, o Estado republicano das Igrejas, coisa que outros historiadores do laicismo e das Luzes já disseram cem vezes melhor do que saberíamos fazê-lo.

Por ora, enquanto Hollande rasteja diante dos neo-versalheses do MEDEF (Movimento das Empresas de França – N.T.) e que o dito MEDEF aceita alegremente dissolver a República soberana, a língua francesa, a herança das Luzes e a de 1936 e do CNR (Conselho Nacional da Resistência – N.T.) nas águas geladas da UE maastrichtiana e do todo-inglês « transatlântico », os verdadeiros sucessores dos « communards » assumem orgulhosamente a herança dos heróicos proletários e artesãos parisienses que abriram ao mundo inteiro a era provisoriamente interrompida das revoluções socialistas. Sem opor Outubro de 1917 à breve primavera vermelha de 1871, a hora mais do que nunca é a da resistência popular, da contra-ofensiva de todos em conjunto e em simultâneo com os Goodyear, com os outros assalariados do público e do privado, com os reformados, os estudantes, os professores, os camponeses e os artesãos em luta, para que o nosso país volte a ser o que nunca devia ter deixado de ser, o país das Luzes comuns.

25 de março de 2016

Bernie Sanders e o fardo do império

Rob Urie

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Créditos: Juli Hansen / Shutterstock.

Um dos principais desafios para as políticas econômicas de esquerda é que toda a infra-estrutura ocidental foi arquitetada para servir aos objetivos do imperialismo capitalista. Hillary Clinton ou Ted Cruz podem encaixar seus programas nos quadros nacionais e globais do capitalismo militarizado, porque afinal eles se enquadram nestas lógicas e formas de organização. Poucos dos adeptos das campanhas de um ou de outro esperariam, após eleição vitoriosa, que um cenário de justiça econômica de repente prevalecesse, que as guerras por recursos diminuiriam, que a defesa do meio ambiente seria priorizada frente aos ganhos econômicos concentrados ou que a reconciliação racial seria finalmente priorizada.

Em um sentido muito pragmático, a luta se dá entre o otimismo coerente e a sombria resignação diante da ideia de que a morte, a ganância e destruição são fundamentos inexoráveis da existência humana. O pano de fundo institucional não é, em qualquer sentido, um árbitro neutro. É, na verdade, o produto de uma identidade ocidental fundada sobre guerras e conflitos, como se fossem fatos da natureza, ao invés de uma determinação humana. Essa identidade se alimenta do medo fabricado, reflexivamente se opõe à perspectivas sociais alternativas e, com isso, confronta os esforços para forjar um caminho diferente para a humanidade. A escolha política, assim, se estabelece entre trabalhar dentro deste conjunto estabelecido de restrições sociais ou lutar por uma auto-determinação humana que busque nova direção e que provenha de fora do status-quo.

Como dispositivo das relações sociais estabelecidas, a política eleitoral reflete as escolhas que suportam essas relações. Estrategicamente, o momento para o programa de Bernie Sanders seria 2009, não 2016. O sucesso dos poderes estabelecidos, que apenas evidencia a natureza defensiva da identidade ocidental, foi ter evitado um colapso total (seja lá o que isso signifique) depois de 2008. A crise social foi resolvida através de uma recuperação dos mesmos mecanismos que fabricaram a própria crise. A conclusão? Qualquer programa que realmente pretenda produzir mais do que reformas superficiais (que rapidamente se reverteriam nas prerrogativas institucionais existentes) deve enfrentar não apenas as prerrogativas, mas as próprias instituições que fundamentam essas prerrogativas.

Uma das tensões abstratas em evidência é a representação contra a participação, que podem ser entendidas enquanto formatos de democracia concorrentes. Em ambos os casos, é necessário destacar qual a população política de interesse. Hillary Clinton e os republicanos prometem representação competente, enquanto Bernie Sanders oferece um "processo" participativo que alude a uma população mais ampla, embora ainda apenas parcialmente definida. A política econômica que todos pretendem alavancar é um sistema de apadrinhamento que funcione como um artefato de organização “natural” das intersecções entre Estado e economia. E as deficiências de todas estas campanhas giram em torno do seu papel imperial e em como ele se relaciona com determinadas comunidades, de acordo com as concepções apresentadas por cada candidato.

Em termos menos abstratos, quando Hillary Clinton recentemente abordou o AIPAC (Comitê de Assuntos Públicos EUA-Israel) ela sinalizou que representa a pequena comunidade de apoiadores do Estado de Israel, o que apenas mostra sua afinidade com as últimas quatro décadas de política externa norte-americana, com a história imperial ocidental, com o militarismo dos Estados Unidos e com os interesses estreitos da extrema-direita israelense. Clinton está se colocando a frente enquanto representante dos interesses do império, independente se a história vai ou não concordar com ela. Populações significativas de Chicago, de Detroit, da Filadélfia e de outras grandes cidades americanas encontram-se do lado errado deste alcance imperial tanto quanto os palestinos que vivem sob a ocupação israelense. Bernie Sanders atravessa este paradoxo sem explicitamente definir o alcance da sua ”comunidade” imperial.

Este paradoxo é expresso como uma contradição política em torno do que é proposto (e, de forma limitada, realizado) por Sanders, entre as políticas nacionais e sua política externa imperialista. No caso da democrata Hillary Clinton, observamos uma junção entre os interesses da Goldman Sachs e do Bank of America com os de regimes de extrema-direita em todo o mundo, incluindo Israel. Neste contexto, não é coincidência que o democrata Barack Obama tenha orquestrado o maior aumento na venda de armas desde a Segunda Guerra Mundial, além de ter apoiado Wall Street através de garantias e resgates maciços. Assim, temos que os interesses de classe que são debatidos dentro de limites nacionalistas não passam de nacionalismo econômico. E os capitalistas globais se beneficiam do nacionalismo econômico, pois eles mantém os interesses da classe trabalhadora transnacional escondidos atrás de fronteiras artificiais.

Seja ou não “pragmática” a escolha de Bernie Sanders por concorrer pelo partido democrata, tudo depende de quais são seus objetivos finais. É quase um cliché afirmar que o capital internacional prefere ambientes politicamente repressivos a fim de manter trabalhadores enfraquecidos e dependentes. O lado menos óbvio é o pronto fornecimento de clientes para os armamentos militares e técnicas de repressão que o imperialismo oferece. Simplesmente não é possível separar política interna de política externa em um mundo no qual as relações entre economias e Estados são globalizadas. Hillary Clinton é uma dedicada imperialista e os supostos “progressistas” que a apoiam precisam fazer um acordo com o diabo quando tentam dissociar o apoio de Hillary a Wall Street de sua política externa predatória e de suas políticas carcerárias oportunistas (e estruturalmente racistas). O esforço de Bernie Sanders para manter suas opções em aberto não apenas subestima a influência da interrelação entre Estado e poder econômico sobre a política interna, mas também implica notório paradoxo no que tange às suas políticas externas.

Este problema foi enquadrado por liberais que criticavam o purismo ideológico da esquerda, destacando a importância de um olhar global sobre as relações econômicas. Os tratados comerciais que o establishment democrata têm sido tão eficaz em promulgar servem para proteger seu poder econômico por meio de acordos legais assimétricos, como tribunais de investidores que solidificam patentes e outros mecanismos jurídicos para garantir a extração de renda econômica. Democratas desse establishment argumentam que os tratados beneficiam as corporações “norte-americanas”, partindo do pressuposto de que essas corporações ganham mais explorando o trabalho e os mercados em outros lugares do mundo.

Bancos norte-americanos "criam" dinheiro através de empréstimos, o que os coloca na intermediação da distribuição capitalista e lhes confere controle sobre o que é financiado. A substância "política" desta relação pode ser vista mais diretamente através de programas do FMI como a tomada da Grécia por credores corruptos. Uma estratégia relacionada pode ser observada nas recompras de ações que são financiadas pela dívida. Corporações pedem emprestado a fim de comprar ações que elevam seu preço para que os executivos possam vender seu próprio estoque a um preço superior. Quando a conta chega, os executivos têm os recursos em seus bolsos, enquanto o trabalho é comprimido para pagar a dívida.

Sanders articula sobre as dimensões de classe "nacionais" deste sistema de apadrinhamento, isto é, o Estado como expressão dos interesses capitalistas, mas sem expandir de forma eficaz uma análise do capitalismo global. A criação de um império "mais gentil", deixando intactas as principais alavancas do imperialismo capitalista (como as corporações multinacionais e a atividade bancária capitalista) significa ignorar como elas se tornaram centrais para a economia política ocidental em primeiro lugar. Não foi a natureza que as trouxe. Elas cresceram através da integração do Estado e do poder econômico. Essas relações se tornam mais visíveis no programa de Hillary Clinton, em que se observa um militarismo reforçado combinado com um corporativismo de Estado que se implementa através de um sistema de alianças internacional e garante uma extensa rede de repressão. Os EUA lideram a "comunidade internacional" da repressão carcerária.

A questão de por que esses poderes político-econômicos globais concordariam com a vontade política do eleitorado norte-americano é deixada sem solução. Fica em aberto como Sanders seguiria com seu programa. Em 2009, Barack Obama estava em posição de ressurgir com um estilo New Deal de “gestão” do capitalismo, do tipo que Sanders agora sugere, mas ele dedicou seus esforços a reconstruir o sistema de clientelismo que fundamenta o establishment democrata e reconstruiu a infra-estrutura de base do imperialismo capitalista.

Em contraste com Hillary Clinton e com os candidatos republicanos, Bernie Sanders é a última e melhor esperança de reviver o modelo FDR de New Deal capitalista. O argumento pragmático de tornar progressivamente melhor a vida dos trabalhadores (norte-americanos) ignora soluções mais abrangentes e contempla o coração do programa de Sanders. Com lapsos notáveis como a discriminação racial nas políticas de habitação e de educação, FDR mitigou os entraves econômicos da população nacional, enquanto o imperialismo americano corria solto por cima das vidas de seus súditos imperiais ao redor do globo. Além disso, o amálgama pragmático que FDR estabeleceu exigia marcos históricos como a existência de uma alternativa plausível para o capitalismo (sob a forma de uma robusta União Soviética) e, simultaneamente, uma população norte-americana pronta para levar suas ações até as últimas consequências caso FDR não tivesse tocado as reformas necessárias.

Isto não significa sugerir que Sanders é tão míope que não possa entender, de um modo geral, toda esta situação. No entanto, em contraste com as lendas de um capitalismo mitológico, a realocação de riqueza tem desempenhado um papel de igual ou maior importância na acumulação capitalista do que objetivamente a mera “criação” de riqueza. Aquele capitalismo “fictício” resume “riqueza” a produção econômica através do sistema monetário. Mas os capitalistas norte-americanos sabem já há algum tempo que a rota mais fácil de “aquisição” de riqueza real na forma de produto econômico passa pelo imperialismo econômico apoiado por recursos estatais. Assim, sabe-se que grande parte da generosidade americana "partilhada" que firmou o capitalismo sob o New Deal de Roosevelt só foi possível através de políticas externas imperialistas. O boom econômico do "pós-guerra" se deu em grande parte porque os "vencedores" das Guerras Mundiais passaram a exercer controle sobre os recursos econômicos que antes motivaram as próprias guerras. Nesse sentido, acabar com a cultura do consumo de bens supérfluos é um passo fundamental para unir os interesses de classe para além das fronteiras nacionais.

O programa de Sanders poderia funcionar, mas não tal qual é atualmente concebido. Para seu crédito, Sanders parece se entender mais como um veículo para a re-emergência política da esquerda do que como seu protagonista de fato. A resistência necessária contra o imperialismo capitalista é um movimento mundial dos trabalhadores, que exigiria de Sanders uma abordagem mais ampla das dimensões imperiais de seu programa econômico populista. Não existe a perspectiva de um movimento desse tipo no horizonte. E é improvável qualquer tipo de capitulação voluntária das forças do capitalismo global sem um movimento como tal. Um ponto de partida poderia ser a persistência e o crescimento de um movimento de esquerda global depois que Sanders for derrotado pelo establishment democrata. É interessante notar que a jogada mais inteligente desse establishment seria deixar Sanders vencer e, em seguida, neutralizar seu programa através de "reformas". Mas as probabilidades indicam que não é isso que tende a acontecer.