31 de março de 2016

A fadiga do desespero

Como a desesperança se tornou entediante

David Graeber


Eleanor Shakespeare

Tradução / É possível ficar entediado com a desesperança?

Há razões para se acreditar que algo assim está começando a acontecer na Grã-Bretanha. Pode chamar de “fadiga do desespero”.

Por quase meio século, a cultura britânica, particularmente à Esquerda, fez do desespero uma forma de arte. Esta é a terra onde “No Future for You” [“Nenhum Futuro para Você”] se tornou o lema de uma geração, e depois de outra, e depois outra. Do desmoronamento de seu império, ao desmoronamento de suas cidades industriais, ao atual desmoronamento de seu Estado de Bem-Estar, o país parecia estar explorando todas as permutações possíveis do desespero: desespero como fúria, desespero como resignação, desespero como humor, desespero como orgulho ou prazer secreto. É quase como se agora o desespero tivesse finalmente se esgotado.

Na superfície, e de longe, a Grã-Bretanha parece estar passando por um dos mais estranhos paroxismos de autodestruição masoquista da história mundial. Desde a vitória dos Conservadores em 2010, primeiro em coalizão com os Liberal-Democratas e agora por conta própria, o governo britânico tem buscado desfazer sistematicamente muito do que torna a vida no país boa e decente. Os líderes conservadores começaram destruindo o uma vez orgulhoso sistema universitário do Reino Unido, enquanto mantinham os olhos na maior fonte de orgulho e dignidade nacional, as garantias de saúde universal do Serviço Nacional de Saúde. Tudo isso está sendo feito em nome de uma doutrina econômica – austeridade, a necessidade imperativa de disciplina fiscal – na qual ninguém acredita genuinamente e cujos resultados quase todos deploram (incluindo o ex-primeiro-ministro David Cameron, que em particular tem denunciado o declínio de seus serviços públicos locais), em resposta a uma crise existencial que não existe.

Como isso aconteceu? Parece que toda a classe política ficou presa na narrativa bizarramente bem sucedida que varreu o caminho dos conservadores para o poder após o colapso de 2008 e que ainda os sustenta muito depois de suas conseqüências ultrapassarem qualquer nível de humanidade ou de senso comum.

Ópera do crescimento e do colapso

Praticamente todos os principais governos foram chutados do poder após o colapso, e a aparência política do governo em questão determinou em grande parte a narrativa popular sobre o que causou a crise. Nos Estados Unidos, foi culpa de George W. Bush, de modo que o ônus popular caiu sobre os CEOs e gestores de fundos hedge [10] que Bush costumava se referir, em eventos de arrecadação de campanha, como sua “base”. Nenhum deles foi processado, mas a maioria dos estadunidenses sentiu fortemente que eles deveriam ter sido. No Reino Unido, onde o Partido Trabalhista de Gordon Brown estava sentado em Downing Street [11], todo mundo aceitou a narrativa da oposição de que a crise britânica resultou de gastos sociais irresponsáveis ​​e déficits governamentais. Na verdade, os Tories descobriram que apelar para uma retórica de sacrifício compartilhado, aperto do cinto e até mesmo sofrimento coletivo ressoou no público britânico. Isso foi talvez mais verdadeiro entre os eleitores da classe trabalhadora. Agora quase totalmente despojados de qualquer sentido de comunidade, vizinhança ou solidariedade no local de trabalho por décadas de engenharia social de Direita, eles viam os tempos difíceis e o racionamento da Segunda Guerra Mundial como a última vez em que os britânicos haviam agido com um propósito comum genuíno.

Os efeitos sociais dos cortes nos gastos – todos visando ostensivamente a redução da dívida supostamente catastrófica pairando sobre o governo – foram devastadores. As universidades britânicas, que há não tantos anos atrás (como na maioria da Europa) eram totalmente gratuitas, passaram a estar entre as mais caras do mundo. A habitação social foi saqueada, subsídios foram cortados, e a ocupação de propriedades residenciais foi tornada ilegal exatamente no momento em que dezenas de milhares estavam sendo “deslocadas” de seus lares. Ser pobre agora significa ser infinitamente avaliado, monitorado e pesquisado, e quase invariavelmente ser considerado um fracasso. Ninguém sabe de verdade quantos milhares de pessoas morreram como resultado da queda-livre no suporte dado pelo governo, mas para termos apenas uma ideia: entre dezembro de 2011 e fevereiro de 2014, o Departamento de Trabalho e Pensões informou que 2.380 britânicos anteriormente recebendo o suporte de deficiência foram encontrados mortos não mais do que seis semanas depois de receberem a notificação de que estavam tendo seus benefícios cortados porque tinham sido avaliados como estando “aptos para trabalhar”.

Uma razão pela qual isso pode ter acontecido é que não tem havido praticamente nenhum debate público sobre a austeridade em si. Por exemplo, nunca um grande portal de notícias de TV recebeu um painel de economistas para discutir se a dívida pública era realmente a causa da crise econômica, ou para debater o que seria uma resposta mais apropriada: se a austeridade no estilo europeu ou o estímulo fiscal no estilo Obama. As únicas questões eram qual deveria ser o tamanho do corte no orçamento e onde os cortes deveriam incidir. [14] Esta confiante narrativa dos Tories reinou inconteste desde os golpes mais rudes no Daily Mail até a mais esculpida eminência da BBC (supostamente socialista), e todas as figuras de autoridade pública se agarraram a ela mesmo depois que os efeitos imediatos dos cortes se mostraram espetacularmente ineficazes. Mesmo quando o “duplo mergulho” virou “mergulho triplo” [15] e o ministro da fazenda dos Tories, George Osborne, dobrou suas apostas, ao fazer promessas cada vez mais estranhas (que todos os futuros governos gerariam um excedente, que a Grã-Bretanha eliminaria completamente sua dívida nacional, etc. [16]), quase nenhum grande “especialista” político, editorialista, ou o comentador de TV quebrou as fileiras. E quando, após anos de miséria abjeta, a economia, inevitavelmente, começou a se agitar um pouquinho, todos proclamaram instantaneamente que Osborne havia sido vingado.

Este consenso, estranhamente, não tem nada a ver com as opiniões dos economistas profissionais. Quase todos os economistas britânicos entendiam que os déficits crescentes de 2008 e 2009 foram causados pela crise bancária, e não o contrário. Da mesma forma, qualquer pessoa que prestasse atenção sabia que os cortes dos serviços públicos para “economizar dinheiro” reduziam a atividade econômica e, assim, as receitas fiscais do governo – e que, portanto, tinham na verdade o efeito de aumentar, não diminuir os déficits. A maioria também entendia que os déficits não eram realmente um problema tão grande, para começo de conversa. Mas mesmo a opinião de economistas conhecidos foi, de repente, excluída do debate público. Chegando em 2012, mesmo o FMI estava emitindo declarações pedindo aos Tories que soltassem a mão. Mas você nunca aprenderia nada disso no Times, no Observer ou na BBC.

Como pode que esse desafio completo à realidade tenha se mantido em um país com uma imprensa formalmente livre e uma população altamente educada? Até certo ponto, é o conhecido “efeito bolha”. Políticos, jornalistas, lobistas, CEOs e burocratas corporativos raramente falam com alguém além de seus pares. Eles constituem um universo intelectual à parte. Dentro deste universo, as políticas econômicas são projetadas principalmente para a comercialização política; a ciência econômica existe em grande parte para fornecer diagramas e equações impressionantes para vendê-las. Frases projetadas em think tanks e grupos focais (“mercados livres”, “criadores de riqueza”, “responsabilidade pessoal”, “sacrifício compartilhado”) são repetidas como encantamentos até que tudo pareça tanto com um senso comum impensado que ninguém nem mesmo chegue a perguntar o que a imagem resultante tem a ver com a realidade social. É verdade, a lógica da bolha só pode ser mantida por uma certa ignorância ilustrada de como a economia realmente funciona. Uma pesquisa de 2014 descobriu, por exemplo, que 90% dos deputados com mandato, com todos os seus inúmeros debates sobre a necessidade de economizar dinheiro, não sabiam de onde o dinheiro vem. (Eles achavam que ele era criado pela Royal Mint.)

O efeito de bolha não é exclusivo da Grã-Bretanha, é claro. O debate político nos Estados Unidos, no Japão ou na Alemanha funciona da mesma maneira. Mas na Grã-Bretanha, as coisas chegaram tão longe que estamos começando a ver um clássico efeito de reforço do tipo “Grande Mentira”. Quando a realidade consensual se torna tão completamente divorciada da realidade realmente existente, quando tantas pessoas inocentes têm sofrido como resultado, e quando qualquer um que aponte isso seja denunciado, de forma consistente e agressiva, como um terra-planista-com-papel-alumínio-na-cabeça (ou um trotskista), quebrar as fileiras significaria admitir que os lunáticos estavam certos. E não há nada que a mídia estabelecida seja mais relutante em fazer.

O divórcio entre consenso e realidade se tornou tão extremo e impraticável que até mesmo os tecnocratas encarregados de executar o sistema começaram a gritar falta. Em 2014, o Banco da Inglaterra – seus economistas aparentemente esgotados por terem de implementar políticas econômicas em um mundo inventado e de ponta cabeça, projetado apenas para beneficiar os ricos – emitiu um relatório sobre “Criação de Dinheiro na Economia Moderna” que efetivamente destruía toda a base teórica para a austeridade. O dinheiro, eles observaram, não é criado pelos governos, nem mesmo pelos bancos centrais, que devem ter cuidado para não fazer muito disso para que não iniciem inflação; é na verdade criado por bancos privados quando fazem empréstimos. Sem dívidas, não haveria dinheiro. Os economistas heterodoxos pós-keynesianos, regularmente denunciados como uma franja lunática por aqueles comentadores dispostos a reconhecer sua existência, estavam certos.

Nenhum grande veículo de notícias considerou isso uma história digna de repercussão; os políticos continuaram a pregar seus contos de moralidade sobre os males da dívida exatamente como antes.
Nada Além de Classe

Então, qual é a base real da economia britânica? Ela é, afinal de contas, a quinta maior do mundo.

É importante lembrar que, apesar de muita retórica em contrário, a economia do Reino Unido, como as de outros países ricos, é em grande medida auto-sustentável. Ainda existem fazendas, fábricas, minas, áreas de pesca e oficinas artesanais, que continuam a atender a maioria das necessidades materiais do país. Muito do sentimento de que a Grã-Bretanha se desindustrializou é devido ao declínio das fábricas gigantes de meados do século XX. Mas estas sempre foram uma anomalia: desde o auge da Revolução Industrial até a era vitoriana, quando a Grã-Bretanha liderava o mundo na produção e na inovação tecnológica, a economia era dominada por uma combinação de altas finanças e pequenas empresas familiares – muito como é hoje.

Ainda assim, em muitos aspectos a Grã-Bretanha se assemelha a uma economia imperial: enquanto exporta maquinário, produtos farmacêuticos, plásticos, gasolina e toda uma variedade de produtos artesanais de alta-qualidade, em termos materiais totais, ela recebe muito, muito além do que envia para outros países. Então, devemos fazer uma pergunta simples: por que outros países continuam a enviar suas coisas para a Grã-Bretanha? Como é que a ilha consegue levar muito mais do resto do mundo do que lhes dá em troca?

A resposta convencional é, claro, “serviços financeiros”. A economia do Reino Unido agora gira em torno de seu centro financeiro, a City de Londres, cujas maiores empresas desempenham um papel enorme na coordenação do comércio internacional. As vantagens da City são, em parte, apenas aquelas do fuso-horário do meridiano de Greenwich: um bilionário no Catar ou Mumbai pode fazer uma chamada para seu corretor em Londres com apenas algumas horas de diferença; em Nova York, ainda mais na Califórnia, é provável que seja o meio da noite. Além disso, o mesmo bilionário pode falar com um corretor com um sotaque familiar e reconfortante de Oxbridge, dando-lhe a sensação agradável de ter agora o neto das ex-autoridades coloniais de seu país à sua disposição.

Certamente há algo de verdade nisso. Mas não pode ser toda a explicação. A escala é simplesmente grande demais. As pessoas no Brasil ou na Coréia realmente enviam inúmeros navios com contêineres cheios de aço, carros ou computadores para a Grã-Bretanha porque estão encantados com os acentos de Oxbridge ou impressionados com suas habilidades com a papelada? Porque a papelada, afinal de contas, é tudo o que os “serviços financeiros”, em última instância, são, e há muitas pessoas no Brasil e na Coréia que são extremamente boas em lidar com papelada também.

Outro argumento, comum nos círculos esquerdistas, é que a Grã-Bretanha está apenas colhendo os benefícios da sua posição como leal tenente do império norte-americano. O “sistema financeiro” patrocinado pelos EUA é, conforme economistas como Michael Hudson tem argumentado, em grande parte um sistema de extorsão, um meio de extrair algo que, se não for idêntico, então é muito parecido com um tributo imperial sobre o resto do mundo. A Grã-Bretanha, assim entendida, poderia então ser vista como facilitando o processo dentro de seus próprios antigos territórios imperiais – talvez com um olho encoberto para lançar suas fidelidades para a China e a Índia, quando chegar o momento delas. Sem dúvida há algo de verdade nisso também, mas, de novo, dificilmente é a explicação completa. No Reino Unido, a “finança” está baseada acima de tudo no setor imobiliário, e a bolha imobiliária que sustenta a City se sustenta no fato de que praticamente todos os bilionários do mundo sentem que precisam manter pelo menos um apartamento, e frequentemente uma casa maior, em uma parte elegante de Londres. Por quê? Há muitas outras cidades modernas e bem equipadas no mundo, a maioria das quais possuem um clima decididamente mais aprazível. No entanto, ainda mais do que, digamos, Nova York ou São Francisco, o setor imobiliário de Londres se tornou algo como os títulos do Tesouro dos EUA, uma moeda básica dos ricos internacionais.

É quando se faz perguntas como essas que a economia e a política se tornam indistinguíveis. Aqueles que têm investigado a situação acham que o apelo de Londres – e, por extensão, da Grã-Bretanha – depende de dois fatores. Em primeiro lugar, oligarcas russos ou princesas sauditas sabem que podem obter praticamente tudo o que quiserem em Londres, desde candelabros antigos e dispositivos de espionagem de alta tecnologia, até babás no estilo Mary Poppins para seus filhos, lagostas frescas entregues de bicicleta ainda de madrugada, e toda variedade concebível de serviços sexuais, música e comidas exóticos. Além disso, tudo será entregue por uma população de classe trabalhadora alegre, criativa e subserviente que, com base em séculos de tradição, sabe exatamente como ser serviçais. O segundo fator é a segurança. Se alguém é um novo rico, magnata da construção civil ou um comerciante de diamantes de Hong Kong, Deli ou Bahrein, estará bem consciente de que em casa algo ainda pode dar terrivelmente errado: uma revolução, uma reviravolta súbita das políticas do governo, expropriação, agitação violenta. Nada disso poderia acontecer em Notting Hill ou Chelsea. Qualquer mudança política que afetaria significativamente os mais ricos foi efetivamente retirada da mesa desde a Revolução Gloriosa de 1688.

Em outras palavras, a histórica derrota e humilhação das classes trabalhadoras britânicas é agora o principal produto de exportação da ilha. Ao organizar toda a economia em torno da bolha imobiliária resultante, os Tories asseguraram que a maior parte da população britânica saiba, pelo menos em algum nível tácito, que é precisamente o apelo global do sistema inglês de classes – indo até (e incluindo) o sorriso desdenhoso dos graduados da Oxbridge no parlamento abafando risos com a remoção iminente dos benefícios da habitação – que está mantendo o fluxo de tênis esportivos, de cerveja e de eletrônicos de consumo acessíveis para o país. É um dilema impossível. Não é surpreendente, então, que tantos se voltem para os cínicos populistas de direita como o UKIP, que manipulam a indignação resultante ao fomentar a fúria contra trabalhadores poloneses de construção civil em vez de oligarcas russos, contra motoristas de Bangladesh em vez de príncipes do Qatar, contra porteiros das Índias Ocidentais em vez de magnatas brasileiros do aço.

Este marketing da subordinação de classe é a essência da estratégia econômica Tory. A indústria pode ser derrotada e o sistema universitário se tornar (novamente) um parquinho para os ricos, mas mesmo que isso leve a um colapso da tecnologia e da economia do conhecimento, o resultado final apenas selará mais firmemente o sistema de classes que produz políticos Tory: a Inglaterra literalmente não terá nada mais para vender.

As políticas do “Novo Trabalhismo” de Tony Blair (que, apesar de ser financiado por uma base de classe trabalhadora, representava essencialmente a sensibilidade das classes de profissionais liberais), tentaram forjar uma visão alternativa. Para os Blairistas, o futuro do Reino Unido estava no que eles chamavam de “indústrias criativas”. O Reino Unido não havia, regularmente desde os anos sessenta, produzido ondas de música e cultura juvenil popular que haviam varrido o mundo, trazendo bilhões em receita direta e indireta? Pode ter parecido uma jogada plausível na década de noventa, mas fracassou porque os Blairistas estavam operando com uma compreensão completamente falsa de onde a criatividade cultural vem.

Eles ingenuamente assumiram que a criatividade era basicamente um fenômeno de classe média, o produto de pessoas como eles próprios. De fato, quase tudo que vale a pena vindo da cultura britânica durante o século passado, desde o music hall, até os kebabs de rua, a comédia de stand-up, o rock and roll e a cena rave, tem sido principalmente fenômenos da classe trabalhadora. Essencialmente, essas eram as coisas que a classe trabalhadora criava quando não estavam trabalhando “de verdade”. O surgimento da cultura popular britânica dos anos sessenta foi inteiramente um produto do Estado de Bem-Estar Social do Reino Unido, à época muito generoso. Há uma razão para que, nas gírias das rimas Cockney, a palavra para o “seguro desemprego” seja “rock and roll” (“he got the sack, he’s on the rock ‘n’ roll again” [“ele foi mandado pra rua, está na base do rock ‘n’ roll novamente”): uma proporção surpreendente de grandes bandas que mais tarde varreriam o mundo passaram pelo menos alguns dos seus anos formativos no auxílio-desemprego. Os Blairistas foram estúpidos o suficiente para combinar a promoção de sua “Cool Britannia” [“Bretanha Descolada”] com reformas maciças no sistema de bem-estar social, o que efetivamente assegurava que o projeto todo desabasse espetacularmente, uma vez que forçaram que praticamente qualquer um com o potencial para se tornar o próximo John Lennon passasse o resto de suas vidas empilhando caixas na Tesco local como parte das novas condições para receber os programas de bem-estar.

No final, tudo o que os Blairistas conseguiram produzir foi um setor de marketing de nível mundial (já que é nisso que pessoas da classe média são realmente boas); tirando isso, eles não teriam nada mais para exibir para si mesmos.

O retorno do futuro

Tudo isso pode parecer irremediavelmente sombrio. Ainda mais surpreendente, então, que a principal reação à esquerda, começando timidamente com o movimento estudantil de 2010 e agora explodindo em todos os lugares, esteja sendo uma onda de otimismo quase insolente e um retorno (reconhecidamente hesitante) a visões utópicas. É por isso que comecei a falar de “fadiga do desespero”. Há uma percepção – ainda pequena, mas crescente – de que se a Grã-Bretanha vier a voltar a entrar para a história, se for existir qualquer tipo de visão grande e positiva para o seu futuro, essa visão só pode vir da esquerda.

Ao fim e ao cabo, as visões dos Tories e do Novo Trabalhismo não são visões de verdade. De fato, no tempo de Thatcher e, até certo ponto mesmo no de Tony Blair, os reformadores de mercado deram um jeito de se apresentarem, de certo modo, como os verdadeiros revolucionários. Não mais. O mesmo tipo de apoio insincero é dado à idéia de que os entusiastas do mercado são jovens, entusiasmados e expertos em tecnologia, e que aqueles que defendem os restos do Estado de Bem-Estar Social são um bando de velhos amargos que se queixam no pub. Este simulacro também está se tornando cada vez mais vazio. Tendo estabelecido sua realidade consensual, a única coisa que sobrou para as classes políticas é defendê-la. Todos sabem que os Conservadores mantém as rédeas precisamente porque conseguiram convencer o público de que são conservadores; sua “competência” fabulosa se resume ao argumento de que só eles conseguiriam manter as coisas juntas, mais ou menos como existem atualmente, antes do advento de alguma catástrofe inevitável, cujos contornos precisos não podemos saber.

Enquanto isso, nas ruas e nos municípios, a Grã-Bretanha está sofrendo uma mudança radical, um verdadeiro florescimento da resistência. É muito difícil conhecer a sua escala real porque, ao contrário do que aconteceu em gerações anteriores, a mídia se recusa a falar sobre isso. Talvez porque quando eles falam, os resultados raramente são o que esperavam. Em 9 de maio de 2015, o dia após a vitória da eleição Tory ser declarada, antes que a inevitável nova rodada de cortes pudesse ser anunciada, houve uma pequena revolta na frente dos escritórios do primeiro ministro em 10 Downing Street. Centenas de estudantes ativistas enfrentaram a polícia; vários deles, sendo socados e chutados por oficiais uniformizados, realmente revidaram; bombas de tinta foram jogadas, chamas começaram e o memorial das Mulheres da Segunda Guerra Mundial foi pintado com o slogan familiar “Fuck Tory Scum” [“Foda-se a Escória Tory”]. Os editores do tablóide de Direita, o Daily Mail, decidiram que o clima público era tal que seria possível reportar isso, e publicaram uma enorme tiragem com imagens impressionantes sob a manchete “Anarchist Mob Planning Summer of Thuggery” [algo como “Gentalha Anarquista Planejando Verão de Baderna”]. Dentro de vinte e quatro horas eles ficaram horrorizados ao descobrir que na seção de comentários, a opinião entre seus próprios leitores estava em algo como cinco contra um à favor da baderna anarquista. Mesmo a “profanação” do memorial não escandalizou tanto quanto imaginavam. Afinal, a maioria dos britânicos está bem ciente de que a primeira coisa que os veteranos fizeram, ao retornar da guerra, foi expulsar o governo Tory de Churchill e votar em um que prometeu presidir a criação de um moderno Estado de Bem-Estar Social, precisamente o trabalho que os inquilinos atuais da Downing Street estão tentando desmantelar. Os manifestantes estavam simplesmente defendendo o legado desses veteranos e anunciando o que eles, se vivos, provavelmente diriam.

Entre ocupações de estudantes, ocupações habitacionais, ações de rua e um ressurgimento do sindicalismo radical, tem havido um aumento da resistência sem precedentes. Mas ainda mais importante, isso começou, mesmo que de forma hesitante, a assumir um espírito muito diferente das ações desesperadas e de retaguarda dos anos anteriores. Afinal, até mesmo as lendárias revoltas do “imposto de votação” que desalojaram Thatcher eram ou apontavam para o passado ou eram, alternadamente, amargos e niilistas. Os slogans de Guerra de Classes (“The Royal Question: Hanging ou Shooting?” [algo como “a questão da realeza: enforcamento ou fuzilamento?”]) eram talvez provocadores, mas dificilmente utópicos.

É aqui que entra a noção de fadiga do desespero.

Pode-se argumentar que seus inícios já estavam visíveis na cultura popular. Testemunham o surgimento da escola socialista escocesa de ficção científica, que, após o distopianismo implacável dos anos setenta, oitenta e noventa [25], liderou o caminho para uma tendência mais ampla, ao brincar com futuros redentores uma vez mais. Depois, havia Steampunk [algo como “punk-à-vapor”], certamente a mais peculiar das tendências de contra-cultura, uma espécie de futurismo vitoriano desajeitado, cheio de computadores e aeronaves alimentados a vapor, ciborgues de cartola, cidades flutuantes alimentadas por bobinas Tesla e uma infinita variedade de tecnologias que nunca apareceram realmente. Lembro de assistir a uma conferência acadêmica sobre o assunto e me perguntar: “Ok, eu entendo a parte do vapor, é óbvia, mas... O que exatamente isso tem a ver com o punk?” E então me caiu a ficha. Não há futuro! A era vitoriana foi a última vez que a maioria das pessoas neste país acreditou genuinamente em um futuro tecnológico que levaria a um mundo não apenas mais próspero e igualitário, mas na verdade mais divertido e emocionante do que o deles. Então, é claro, veio a Primeira Guerra Mundial, e descobrimos como seria o século XX, com a sua alternância monótona de terror e tédio nas trincheiras. O que é o Steampunk se não uma maneira de dizer: “não podemos simplesmente voltar atrás, ignorar todo o século passado como um pesadelo e começar de novo?”

Não é este o momento necessário de formatar antes de tentarmos imaginar com o que um século XXI genuinamente revolucionário poderia se parecer?

Em frente para o corbofuturismo

Os primeiros movimentos vieram, de forma apropriada, da Escócia, onde, em 2015, o Partido Nacional Escocês virtualmente varreu os assentos parlamentares possíveis, concorrendo sobre uma plataforma explicitamente socialista e anti-austeridade e surrando um Partido Trabalhista morno sem vontade de desafiar fundamentalmente a agenda Conservadora (basicamente, ninguém na Escócia vota Tory). Mas o verdadeiro terremoto ocorreu alguns meses depois, com a ascensão aparentemente inexplicável de Jeremy Corbyn e seu “chanceler à sombra”, John McDonnell, à chefia do próprio Partido Trabalhista em Westminster. Aos olhos de uma absolutamente e incondicionalmente hostil à nova equipe dos Trabalhistas – mesmo veículos ostensivamente de Esquerda como o Guardian -o sucesso deles é em si mesmo um produto de desespero político: aqueles velhos reclamões dos pubs desistiram até mesmo de tentar ganhar eleições e cuspiram na cara de todo o sistema ao eleger um deles. E isso é verdade; a nova liderança trabalhista é constituída por radicais genuínos. Corbyn e McDonnell representam a ala militante do Partido Trabalhista – até recentemente, uma facção de fato muito pequena, composta na melhor das hipóteses de uma meia dúzia de deputados. Eles têm sido apoiadores regulares e até participantes das mobilizações de rua.

Não estou me referindo aqui apenas a falar em comícios. Posso dar meu testemunho pessoal. Quando, no verão de 2014, os ativistas do movimento “Pessoas Com Deficiência Contra os Cortes” estavam se acorrentando no “gramado do santuário” na Abadia de Westminster em uma tentativa vã de chamar a atenção da mídia para o fechamento do Fundo de Vida Independente, o que resultaria na morte de ainda mais pessoas com deficiências, McDonnell e eu fazíamos parte da equipe que levava baterias sobressalentes para as suas cadeiras de rodas. Tanto McDonnell como Corbyn apoiam abertamente uma filosofia que insiste em que a mudança social nunca pode vir só da política eleitoral, mas apenas de uma combinação de mobilização política, organização sindical e, como McDonnell colocou uma vez, carinhosamente, “o que antigamente costumávamos chamar de “insurreição”, embora hoje em dia a chamemos polidamente de ‘ação direta’”. Dá para imaginar o horror que se seguiu dentro do establishment político quando essas pessoas foram repentinamente catapultadas para cargos de liderança dentro de um dos dois principais partidos do país. Do ponto de vista deles, não é como se Bernie Sanders assumisse o Partido Democrata. É mais como se tivesse sido anexado por uma combinação de Noam Chomsky com Abbie Hoffman.

Como isso aconteceu? No sentido imediato, a ascensão de Corbyn foi precisamente um produto da estranha bolha conceitual em que a classe política britânica opera. Os picaretas Blairistas que dominam o Partido Trabalhista estavam dispostos a quebrar qualquer poder remanescente dos sindicatos e estavam tão convencidos de que seu senso comum fabricado era, de fato, realmente comum a todo mundo, que decidiram que a melhor maneira de fazer isso seria mudar as regras e permitir que o líder do partido fosse eleito pelo voto popular. Parece nunca ter lhes ocorrido que uma porcentagem significativa de membros de um partido político ainda ostensivamente de esquerda pudesse realmente responder positivamente a valores de esquerda. Na sequência da vitória Tory, McDonnell, pelo menos assim diz a história, conseguiu convencer um número suficiente de deputados Blairistas a apoiar um candidato de esquerda radical à chefia do partido para “ampliar o debate”, o que seria equilibrado do outro lado pela sua própria candidata de Direita pró-negócios, Liz Kendall – uma das favoritas dos “especialistas” ingleses, notoriamente sem-noção. Então, os mesmos delegados assistiram, de queixo-caído, Corbyn obter 59,5% dos votos em uma disputa entre quatro candidatos, o resultado mais avassalador já conquistado por qualquer candidato a lídera trabalhista. (Kendall ficou em último lugar, com 4,5%).

Em um nível, os “especialistas” provavelmente estavam certos: a Corbynmaniaera apenas uma maneira de mandar um foda-se para o establishment. O apelo do sujeito reside em grande parte em uma completa ausência de carisma convencional. Corbyn não tem nenhum talento retórico. Ele simplesmente diz o que pensa. Em um campo político tão corrupto que muitas vezes parece que o espectro moral para as figuras públicas vai mais ou menos do cínico calculista até o molestador infantil, a idéia de que um homem genuinamente honesto poderia concorrer com sucesso para cargos públicos foi uma espécie de revelação. Corbyn está enraizado na tradição socialista, mas lhe faltava qualquer ideologia ou agenda específica. Votar nele era simplesmente votar em um conjunto de valores. Aqueles que o apoiavam sabiam que só depois das eleições começaria o verdadeiro trabalho, de descobrir como (ou mesmo, se) seria possível para políticos e ativistas de rua sinergizar seus esforços sem cooptar ou destruir uns aos outros; que tipo de modelo econômico a esquerda poderia contrapor ao marketing da subordinação de classe dos Conservadores; e como seria a cara de uma “nova política” baseada na participação popular na tomada de decisões. Isso ainda está em disputa, e todo o projeto pode muito bem acabar naufragando terrivelmente, deixando a esquerda totalmente derrotada por muitos anos por vir. Certamente, toda a mídia e o establishment do partido deixaram claro que estão dispostos a fazer quase qualquer coisa para reverter os resultados da eleição de liderança. Mas três coisas dão razão para a esperança.

Primeiro, se um realinhamento geral da política britânica realmente estivesse acontecendo, provavelmente se pareceria com isso. O papel do Banco da Inglaterra é crucial aqui: eles sempre se viram como meio que seguindo à frente dos outros. Entre meados e o final dos anos setenta, o abraço repentino e inesperado do Banco da Inglaterra de modelos econômicos monetaristas abriu o caminho para a revolução thatcherista; e Thatcher, devemos lembrar, era considerada uma insurgente ultrajante dentro de seu próprio partido na época, como Corbyn é considerado agora. Portanto, é possível que um estranho paralelismo estranho esteja em operação.

Em segundo lugar, a nova liderança Trabalhista tem uma rota bastante clara para o poder. A economia atual do Reino Unido está baseada em uma bolha imobiliária mantida artificialmente, e as bolhas invariavelmente estouram. Os Trabalhistas têm quatro anos antes das próximas eleições. A chance de não haver algum tipo de crise econômica nesses quatro anos é infinitesimal. Para os Corbynistas, a tarefa é dupla: primeiro, criar uma narrativa sobre os perigos da dívida privada da mesma maneira que os Tories fizeram sobre a dívida pública, para que os Conservadores sejam firmemente marcados com a culpa (mais fácil, talvez – ou talvez não – porque essa narrativa realmente será verdadeira); e segundo, e mais difícil, permanecer na liderança do Partido Trabalhista, resistindo a qualquer golpe interno dos Blairistas, até que a crise inevitável ocorra.

Finalmente, o próprio fato de que Corbyn tenha algo de tabula rasa inspirou uma investida de visões em disputa, uma concatenação ardente de novos modelos econômicos e políticos disputando por atenção, o que tem começado a revelar quão ricas e diversas podem ser, na verdade, as visões de futuro possível na esquerda. Não é apenas a chegada previsível dos luminares da economia para compor a corte do novo chanceler à sombra – todo mundo, de Joseph Stiglitz e Ann Pettifor, passando por Yanis Varoufakis e Thomas Piketty. Idéias verdadeiramente radicais estão sendo debatidas e propostas. A esquerda deveria perseguir o “aceleracionismo”, forçando as contradições do capitalismo para a frente com um rápido crescimento e desenvolvimento, ou deveria visar uma mudança total de valores e um decrescimento radical? Ou deveríamos avançar na direção do que a Novara, a iniciativa de mídia que emergiu do movimento estudantil de 2010, começou a se referir alegremente como FALC – ou “Fully Automated Luxury Communism” [“Comunismo Luxuriante Totalmente Automatizado”] – encorajando tecnologias como a impressão 3D para buscar um mundo de replicadores no estilo Star Trek onde tudo é grátis? O Banco Central deveria implantar “flexibilização quantitativa para as pessoas”, ou uma política de Renda Cidadã Universal, ou deveríamos seguir o caminho da Teoria Monetária Moderna e de garantias universais de emprego?

Tudo isso está sendo realizado com o conhecimento de que os paradigmas econômicos existentes – mesmo na medida em que não estejam simplesmente sendo mobilizados para justificar políticas projetadas com propósitos puramente políticos – não são mais relevantes para os problemas que a humanidade enfrenta na realidade, na Grã-Bretanha ou em qualquer outro lugar. É verdade, a maioria dos economistas da linha dominante são capazes de ver através de absurdos óbvios, como as justificativas propostas para a austeridade fiscal. Mas a disciplina ainda está tentando resolver o que é essencialmente um problema do século XIX: como alocar recursos escassos de forma a otimizar a produtividade para atender a crescente demanda dos consumidores.

Os problemas do século XXI provavelmente serão totalmente diferentes: como, em um mundo de produtividade potencialmente disparando até o céu e de demanda decrescente por mão-de-obra, será possível manter uma distribuição equitativa sem, ao mesmo tempo, destruir a Terra? O Reino Unido poderia ser o pioneiro para uma tal nova configuração econômica? A nova liderança Trabalhista está fazendo os movimentos iniciais: exigindo novos modelos econômicos (“socialismo com um iPad“) e buscando aliados potenciais na indústria de alta tecnologia. Se realmente estamos caminhando para um futuro de produção descentralizada, em pequena escala, de alta tecnologia e robotizada, é bem possível que as tradições peculiares do Reino Unido da pequena empresa e da ciência amadora – o que nunca a tornou particularmente suscetível aos gigantes conglomerados burocratizados que se desenvolveram tão bem nos Estados Unidos e na Alemanha, nas suas manifestações capitalistas ou socialistas – pode se revelar incomumente apta. É tudo uma aposta colossal. Mas é assim que são as mudanças históricas.

30 de março de 2016

Isto é luta de classes?

Mike Whitney

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Há uma conspiração para impedir que salários subam, ou se trata da boa e velha luta de classes?

Examinem esses gráficos, de um recente relatório do Deutsche Bank e veja o que lhes parece:

(Feeling Underpaid, Zero Hedge)

Ora, o que já se sabe? Por toda parte o cartel global de bancos tem seus tentáculos, e os salários ou andam de lado ou caem.

"Coincidência", você diz?

De modo algum, eu digo. Ou várias cabeças de estado e respectivos bancos centrais sentam-se para coordenar ações, ou as elites ricas assumiram secretamente as alavancas de comando do poder e impuseram seu dogma neoliberal num momento em que ninguém estava vendo. De um modo ou de outro, é fácil ver os efeitos, sobre os salários, de uma "extraordinária acumulação monetária". Absolutamente nada se faz, razão pela qual a inflação permaneceu controlada. Porque, se os salários não aumentam, a inflação permanece baixa, o que dá aos banqueiros centrais o pretexto perfeito para lançar mais um de seus programas QE de trilhão de dólares que cada vez mais enriquecem os amigos escroques que os banqueiros mantêm em Wall Street.

Oba! Mais dinheiro grátis para Wall Street e a classe dos investidores!

Viram como funciona?

E o que acontece com a produtividade? Por que os salários não estão subindo junto com a produtividade?

(What Killed the Middle Class, Zero Hedge)

Parece bastante óbvio que se os salários não sobem com a produtividade, nesse caso o consumo pessoal cai e a economia afundará. Se for esse o caso, então impulsionar os salários deveria ser prioridade máxima para os políticos e governantes democráticos, certo?

Mas não é. A prioridade para a maioria dos políticos é fazer o que mandam seus patrões do setor privado, que pagam pelas campanhas deles e cuidam para que tenham um emprego confortável, quando afinal tiverem completado seus anos de serviço servil. Não é assim que em geral funciona, para esse tipo de chamados "servidores públicos". Eles não fazem as leis que são mandados fazer pelos seus eleitores gatos-gordos? E em seguida, não passam a contar os dias até a próxima recompensa também gorda? Claro que sim.

A questão é que essa política econômica não é pensada para melhorar as condições de vida do povo trabalhador comum. Sequer é pensada para fortalecer a economia. Se fosse assim, haveria algum esforço para contratar mais empregados para empresas públicas, para estimular a atividade econômica, promover o investimento em negócios e fortalecer o crescimento. Seria o remédio óbvio contra a estagnação da economia que se vê hoje, certo? Pois o caso é que Obama fez exatamente o oposto de tudo isso. Cortou o déficit em cerca de três trilhões inteiros de dólares e despachou mais de 500 mil servidores do estado para casa e para as chinelas cor-de-rosa. Resultado, a economia foi contida e já anda à velocidade cortada ao meio há quase uma década. Obrigado por nada, Barry. Não deixe a porta empurrá-lo você para fora.

Agora confiram o gráfico de "destruição de empregos pelo governo", no blog Streetlight:

(Government Job Destruction, Streetlight blog)

E a coisa não fica por aí, porque todo esse infindável apertar de cintos reduziu a demanda de consumo, que já forçou as empresas a reduzir a quantidade de capital que reinvestem nos respectivos negócios. Quer dizer: assim como os salários foram comprimidos em todos os países desenvolvidos e em todo o mundo, também os investimentos foram furiosamente reduzidos praticamente por todo o mundo, eliminando outra fonte crítica de estímulos. Confiram esse clip do Daily Reckoning:

"A divulgação ontem de valores relativos às despesas de capital nacional (capex) foi bem triste de ver. Nos três meses até setembro, o investimento em negócios caiu quase inacreditáveis 9,2%. ... 
À luz dos gastos domésticos, é boa a oportunidade para refletir sobre o que está acontecendo com os Gastos de Capital (capex, de Capital Expenditures) pelo mundo. Assim como a Austrália, todo o mundo enfrenta um grande problema de investimento. E não se vê nem sinal de que as coisas melhorem, não, no curto ou no médio prazo. ... 
Fora dos EUA, é como se todo o mundo decidisse renunciar de vez ao investimento. O investimento em negócios caiu 6% nos EUA; acima de 20% na Europa; 15% na China e Japão. Para o resto do mundo, Austrália inclusive, o capex caiu impressionantes 28%" (Australia’s Capex Collapse is Part of a Global Disease, Daily Reckoning)

Ok, então as empresas não estão investindo em seus negócios porque os salários estão baixos e a demanda está fraca. Isso é realmente um grande negócio?

Sim, é um grande negócio, porque há tantas e tantas fontes de gasto na economia, e quando empresas, governos e consumidores reduzem seus gastos, ao mesmo tempo, a economia retarda a um rastejamento e permanece assim até que algo mude. Infelizmente, nada mudou e é por isso que o PIB ainda está oscilando em torno de 2 por cento oito anos após o Lehman Brothers explodir.

Mas por que? Será que os formuladores de políticas de repente esqueceram como a economia funciona ou o que alavancas fiscal puxar para o arranque do crescimento?

Claro que não. Todos eles simplesmente se recusam a fazer o que tem de ser feito. Em vez de tentar avançar, o Congresso usou a crise para delegar todo o controle do sistema aos bancos centrais e aos seus corretores e agentes operantes no estado profundo. Agora, para qualquer lado que você olhe, só se veem políticos sentados esfregando as mãos, enquanto o BC dita a política. É uma loucura. É como uma mudança de regime, sem todo o sangue.

E como é que este golpe de Estado afeta o povo trabalhador?

Tem sido terrível. Enquanto o preço das ações quase triplicou e os especuladores passaram a mão em trilhões, a renda familiar média caiu mais de 7,2%, rendas despencam, salários são achatados cada vez mais e as pessoas mal se seguram pendurados, agarrados aos próprios cabelos.

Você sabia que 85 por cento dos americanos dizem que é mais difícil manter um padrão de vida de classe média hoje do que era há 10 anos atrás? (Pew Research Center) Ou que "77 por cento de todos os americanos vivem de salário em salário, pelo menos por algum tempo", ou que "um em cada quatro trabalhadores nos EUA levam para casa salários iguais ou abaixo do nível de pobreza federal", ou que "47 milhões de americanos vivem de cupons de alimentos", ou que "40,4% da força de trabalho dos EUA é hoje composta por trabalhadores temporários", principalmente trabalhadores contratados e de trabalho a tempo parcial?

Seja como for, vocês entenderam o quadro geral. Pagar as contas e chegar ao fim do mês é a cada dia mais e mais difícil. Mas por que elites ricas apoiariam políticas tão obviamente destrutivas para os trabalhadores e para a economia como um todo?

Por dinheiro, é por isso. Muito dinheiro. Confira:

"Entre 2009 e 2012, segundo dados atualizados de Emmanuel Saez (...) o 1% viu a própria renda real aumentar 34,7%, enquanto os 99% só a viram crescer 0,8%, o que significa que o 1% capturou 91% de toda a renda real ... 
A renda do trabalho continua sendo arrochada. Os salários cresceram apenas 1,7 por cento no ano passado, o ritmo mais lento desde pelo menos a década de 1960. Não porque os trabalhadores americanos estejam ficando frouxos. Nessa mesma década inteira de salários estagnados ou encolhendo, a produtividade do trabalhador americano aumentou quase 25%. 
Ao mesmo tempo, o mercado de ações vem atingindo níveis recordes, o que na maior parte ajuda os ricos que têm muito mais probabilidade de possuir ações, agravando a desigualdade de renda. Os lucros das empresas também atingiram recordes e aumentaram os salários dos executivos, sem escorrer para os trabalhadores." (The 1 Percent Have Gotten All The Income Gains From The Recovery, Think Progress)

Mas pode ter um grande engano, não poderia? Quer dizer, talvez os bancos centrais realmente não sabiam que as suas políticas iriam funcionar da maneira que funcionaram.

Fala sério. Você realmente acha que esta infindável cachoeira de dinheiro para cima até os magnatas super-ricos ("95% dos ganhos de renda entre 2009-2012 foi para o top 1% da população") é um erro, que é apenas a consequência não intencional de bem-intencionadas políticas monetárias que foram projetadas para estimular empréstimos e reforçar o crescimento, mas, por puro acaso, saiu pela culatra e desencadeou a maior redistribuição de riqueza para vorazes plutocratas não fazem nada na história?

É isso que você acha?

Você não precisa ser Leon Trotsky para descobrir o que realmente está acontecendo aqui. Heck, mesmo Warren Buffett acertou em cheio quando disse: "Não há guerra de classe, tudo bem, mas é a minha classe, a classe rica, que esta a... ganhar."

Tens razão, Warren.

Revelado: como a Associated Press colaborou com os nazistas

Historiador alemão mostra como a agência de notícias manteve o acesso na década de 1930 com a promessa de não pôr em causa a força de regime de Hitler

Philip Oltermann

The Guardian

O livreto nazista Os judeus nos EUA usou uma fotografia da Associated Press do prefeito de Nova York, Fiorello LaGuardia

Tradução / A agência de notícias Associated Press participou, com uma colaboração formal, do regime de Hitler na década de 1930, fornecendo aos jornais americanos material diretamente produzido e selecionado pelo Ministério de Propaganda nazista. Os arquivos foram descobertos e revelados por um historiador alemão.

Quando o partido nazista tomou o poder na Alemanha em 1933, um de seus objetivos era o de cooptar não só a imprensa nacional, como também a internacional. Um ano depois, o jornal The Guardian já havia sido proibido e em 1935 mesmo as maiores agências de notícias britânicas e americanas, como a Keystone e a Wide World Photos, foram obrigadas a fechar seus escritórios depois de serem atacadas por empregar jornalistas judeus.

A Associated Press, que se descreveu a si própria como os “fuzileiros navais do jornalismo” (“sempre a primeira a entrar e a última a sair”) foi a única agência de notícias ocidental que ficou aberta na Alemanha de Hitler e continuou funcionando até a entrada dos Estados Unidos na guerra, em 1941. Encontrou-se, então, na situação presumivelmente vantajosa de ser o principal canal para reportagens e fotografias fora do Estado totalitário.

Em um artigo publicado pelo jornal acadêmico Estudos de História Contemporânea, a historiadora Harriet Scharnberg mostra que a Associated Press (AP), só conseguiu conservar seu acesso às informações participando de uma colaboração mutuamente benéfica com a regime nazista.

A agência, com sede em Nova York, abriu mão do controle de sua produção ao assinar o chamado Schriftleitergesetz (lei do editor), prometendo não publicar qualquer tipo de material “destinado a enfraquecer a força do Reich no exterior e em seu país”. Essa lei exigia que a AP contratasse repórteres que também trabalhavam para a divisão de propaganda do partido nazista. Um dos quatro fotógrafos empregados pela Associated Press na década de 1930, Franz Roth, era membro da divisão de propaganda da unidade paramilitar das SS e suas fotografias eram pessoalmente escolhidas por Hitler. A AP retirou as fotos de Roth de seu website desde que Harriet Scharnberg publicou suas descobertas, embora miniaturas das imagens continuem visíveis devido a “problemas de software”.

A AP também permitiu que o regime nazista utilizasse seus arquivos de fotografias para sua venenosa literatura de propaganda antissemita. Entre as publicações ilustradas com fotografias da AP estão o panfleto Der Untermensch (“O subumano”) e o livreto Jie Juden in USA [Os judeus nos EUA], que pretendiam mostrar a decadência dos judeus americanos – o último, com uma foto do prefeito de Nova York, Fiorello LaGuardia, comendo com as mãos.

Vindo à tona pouco antes do 170º aniversário da Associated Press, que ocorre em maio, as informações recentemente descobertas levantam não só questões difíceis sobre o papel desempenhado pela AP ao permitir que a Alemanha nazista escondesse sua verdadeira cara durante os primeiros anos de Hitler no poder, mas também sobre as relações da agência com regimes totalitários contemporâneos.

Embora o acordo feito pela AP tenha tornado possível aos países ocidentais ter uma ideia da sociedade repressiva que, de outra forma, permaneceria totalmente oculta – o que permitiu que o correspondente em Berlim Louis P. Lochner ganhasse um prêmio Pulitzer em 1939 –, o acordo também permitiu que os nazistas encobrissem parte de seus crimes. Harriet Scharnberg, que é historiadora e trabalha na Universidade Martin Luther da cidade de Halle, argumenta que a colaboração da AP com a regime de Hitler permitiu que os nazistas “descrevessem uma guerra de extermínio como uma guerra convencional”.

Em junho de 1941, tropas nazistas invadiram a cidade de Lviv, na Ucrânia ocidental. Ao depararem com provas de matança em massa promovida por tropas soviéticas, as forças de ocupação alemãs organizaram pogroms de “vingança” contra a população judaica da cidade. As fotografias de Franz Roth de corpos mortos dentro das prisões de Lviv foram selecionadas por ordem pessoal de Hitler e distribuídas à imprensa americana via Associated Press. “Ao invés de imprimir fotografias dos pogroms de Lviv, que duraram vários dias e tiveram milhares de judeus como vítimas, a imprensa americana só recebeu fotografias mostrando as vítimas da polícia soviética e os ‘selvagens’ criminosos de guerra do Exército Vermelho”, disse Harriet Scharnberg ao The Guardian. “Nesse contexto, é justo dizer que essas fotos desempenharam um papel ao disfarçar o verdadeiro caráter da guerra dirigida pelos alemães”, disse a historiadora. “Os acontecimentos que se tornaram visíveis e os que permaneceram invisíveis no fornecimento de fotos da AP obedeciam aos interesses alemães e à narrativa da guerra alemã.”

Ao lhe serem apresentadas essas alegações, a Associated Press disse, numa declaração, que o relatório de Harriet Scharnberg “descreve indivíduos e suas atividades, antes e durante a guerra, que eram desconhecidos de AP” e que a agência está neste momento revendo documentos, em e para além de seus arquivos, “para um conhecimento mais profundo do período”.

Um porta-voz da AP disse ao The Guardian: “Continuamos a pesquisar o assunto, mas a AP descarta qualquer ideia de que tenha ‘colaborado’ deliberadamente com o regime nazista. Uma descrição correta é a de que a AP e outras organizações jornalísticas estrangeiras foram submetidas a uma intensa pressão por parte do regime nazista desde o ano em que Hitler chegou ao poder, 1932, até a expulsão da AP da Alemanha, em 1941. A direção de AP resistiu à pressão e trabalhou para coletar informações corretas, vitais e objetivas durante um período negro e perigoso.”

As novas descobertas poderiam não ter tido senão o interesse dos historiadores, porém esta não foi a primeira vez que se examinam as relações de AP com regimes totalitários. Desde janeiro de 2012, quando a Associated Press foi a primeira agência de notícias ocidental a abrir uma filial na Coreia do Norte, a produção do escritório de Pyongyang tem sido constantemente questionada no que se refere à neutralidade.

Em 2014, o website NK News, com sede em Washington, disse que executivos do alto escalão de AP tinham, em 2011, “concordado em distribuir propaganda norte-coreana produzida pelo Estado em nome de AP” de forma a garantir o acesso ao mercado, altamente lucrativo, de distribuir material fotográfico para fora do Estado totalitário. A República Popular Democrática da Coreia é o penúltimo país no atual Índice de Liberdade de Imprensa Mundial.

O rascunho de um acordo que vazou mostrava que a Associated Press aparentemente estava disposta a deixar a Agência Central de Notícias Coreana (KCNA, na sigla em inglês) escolher um redator e um fotógrafo de sua unidade de agitação e propaganda para trabalhar em seu escritório. A AP disse ao The Guardian que “seria pretensioso pensar que ‘o rascunho’ tivesse qualquer importância”, mas se recusou a dar qualquer outra informação sobre o acordo final.

Acontecimentos importantes, divulgados pela mídia internacional, não tiveram cobertura por parte da filial da Associated Press em Pyongyang, como o desaparecimento público do líder norte-coreano Kim Jong-un em setembro e outubro de 2014, a interferência em um vídeo da Sony Entertainment em novembro de 2014 que teria sido orquestrada por uma agência de guerra cibernética norte-coreana e reportagens sobre a fome na província de Hwanghae do Sul em 2012.

Quando a agência de notícias francesa Agence France-Presse assinou um acordo para abrir uma filial em Pyongyang, em janeiro deste ano, a ex-chefe da filial da Associated Press em Pyongyang, Jean Lee, comentou que isso era um sinal da “crescente confiança do regime em sua capacidade de manter jornalistas estrangeiros sob controle”.

O porta-voz da Associated Press negou que a agência se tenha submetido à censura. “Nós não enviamos nossas matérias à Agência Central de Notícias Norte-Coreana ou a qualquer outra autoridade governamental antes de as publicarmos. Paralelamente, as autoridades têm a liberdade de conceder ou recusar acesso e entrevistas.”

Nate Thayer, o ex-correspondente da Associated Press no Camboja que divulgou o vazamento do rascunho do acordo, declarou ao The Guardian: “Parece que a AP aprendeu muito pouco com sua própria história. Reivindicar, como faz a agência, que a Coreia do Norte não controla sua produção é ridículo. É evidente que há o argumento de que qualquer acesso a segredos de Estado é importante. Mas, no final do dia, o que importa é se você diz a seus leitores que o que você está publicando tem como base fontes independentes e neutras.”

29 de março de 2016

Trump e Clinton: Censurando o intragável

por John Pilger


Uma censura virulenta, ainda que familiar, está prestes a abater-se sobre a campanha eleitoral estado-unidense. Como o selvagem caricato, Donald Trump, parece quase certo que ganhe a nomeação do Partido Republicano, Hillary Clinton está a ser consagrada como a "candidata das mulheres" e a campeã do liberalismo americano na sua luta heroica contra Satã.

Isto é disparate, naturalmente. Hillary Clinton deixa um rastro de sangue e sofrimento por todo o mundo e um recorde claro de exploração e cobiça no seu próprio país. Dizer isto, no entanto, está a tornar-se intolerável na terra da liberdade de expressão.

A campanha presidencial de Barack Obama em 2008 deveria ter alertado até o observador mais desatento. Obama baseou sua campanha da "esperança" quase totalmente no facto de um afro-americano aspirar dirigir a terra da escravidão. Ele também era "anti-guerra".

Obama nunca foi anti-guerra. Ao contrário, como todos os presidentes americanos, era a favor da guerra. Ele votou pelo financiamento da carnificina de George W. Bush no Iraque e planeava escalar a invasão do Afeganistão. Nas semanas em que fez o juramento presidencial, aprovou secretamente um assalto israelense a Gaza, o massacre conhecido como Operação Chumbo Derretido. Prometeu encerrar o campo de concentração de Guantánamo e não o fez. Jurou que ajudaria a tornar o mundo "livre de armas nucleares" e fez o oposto.

Como uma nova espécie de gestor de marketing do status quo, o untuoso Obama foi uma escolha inspirada. Mesmo no fim da sua presidência coalhada de sangue, com a sua assinatura para drones a propagarem infinitamente mais terror e morte em todo o mundo do que o desencadeado por jihadistas em Paris e Bruxelas, Obama é bajulado como um "tipo fixe" (the Guardian).

Em 23 de Março, a Counterpunch publicou meu artigo "Uma guerra mundial começou – rompa o silêncio" . Como tem sido minha prática durante anos, difundi então esta peça através de uma rede internacional, incluindo Truthout.com, o sítio web liberal americano. Truthout publica algum jornalismo importante, inclusive excelentes revelações de Dahr Jamail.

Truthout rejeitou a [minha] peça porque, disse um editor, ela havia aparecido no Counterpunh e havia quebrado "linhas de orientação". Respondi que isto nunca fora um problema ao longo de muitos anos e que nada sabia de linhas de orientação.

À minha recalcitrância foi então atribuído um outro significado. O artigo seria liberado desde que eu o submetesse a uma "revisão" e concordasse com mudanças e apagamentos feitos pelo "comitê editorial" de Truthout. O resultado foi adoçar e censurar minha crítica a Hillary Clinton e o distanciamento dela em relação a Trump. Foi cortado o seguinte:

Trump nos meios de comunicação é uma figura odiosa. Isto só por si deveria despertar nosso ceticismo. As visões de Trump sobre migração são grotescas, mas não mais grotescas do que as de David Cameron. Não é Trump o Grande Deportador dos Estados Unidos, mas sim o vencedor do Prêmio Nobel da Paz Barack Obama... O perigo para todos nós não é Trump, mas Hillary Clinton. Ela não é independente (maverick). Ela corporifica a resiliência e violência de um sistema... Quando o dia da eleição presidencial se aproximar, Clinton será louvada como a primeira mulher presidente, apesar dos seus crimes e mentiras – tal como Barack Obama foi louvado como o primeiro presidente negro e liberais engoliram sua insensatez acerca de "esperança".

O "comitê editorial" quis claramente diluir minha argumentação de que Clinton representa um comprovado perigo extremo para o mundo. Como toda censura, isto era inaceitável. Maya Schenwar, que dirige o Truthout, escreveu-me [a dizer] que minha relutância em submeter meu trabalho a um "processo de revisão" significava que ela tinha de retirar a sua "publicação da agenda". Este é o modo de falar do guardião.

Na raiz deste episódio está uma resistência indizível. Esta é a necessidade, a compulsão, de muitos liberais nos Estados Unidos a aceitar um líder a partir de dentro de um sistema que é comprovadamente imperial e violento. Tal como a "esperança" de Obama, o gênero de Clinton não é mais do que uma fachada conveniente.

Isto é uma compulsão histórica. No seu ensaio de 1859, Sobre a liberdade, ao qual liberais modernos parecem prestar homenagem incansável, John Stuart Mill descreveu o poder do império. "Despotismo é um modo legítimo de governo ao tratar com bárbaros", escreveu ele, "desde que a finalidade seja a sua melhoria e os meios justificados para realmente cumprir aquele fim". Os "bárbaros" eram grandes secções da humanidade às quais era exigida "obediência implícita".

"É um mito lindo e conveniente que os liberais são pacificadores e o conservadores belicistas", escreveu em 2001 o historiador britânico Hywel Williams, "mas o imperialismo do modo liberal pode ser mais perigoso por causa da sua natureza ilimitada – sua convicção de que representa uma forma de vida superior [enquanto nega a dos outros] conduz ao fanatismo farisaico". Ele tinha em mente um discurso de Tony Blair na sequência dos ataques de 11/Set, no qual Blair prometia "reordenar este mundo em torno de nós" de acordo com o seus "valores morais". O resultado foi a carnificina de um milhão de mortos no Iraque.

Os crimes de Blair não são inabituais. Desde 1945, uns 69 países – mais de um terço dos membros das Nações Unidas – sofreram alguns ou todos dos seguintes males. Foram invadidos, seus governos derrubados, seus movimentos populares suprimidos, suas eleições subvertidas e seus povos bombardeados. O historiador Mark Curtis estima a número da morte em milhões. Com a morte dos impérios europeus, este tem sido o projeto do liberal transportador de chamas, o "excepcional" Estados Unidos, cujo celebrado presidente "progressista", John F. Kennedy, segundo nova investigação, autorizou o bombardeamento de Moscou durante a crise cubana em 1962.

"Se temos de utilizar força", disse Madeleine Albright, secretária de Estado dos EUA na administração liberal de Bill Clinton e hoje uma apaixonada ativista de campanha pela sua esposa, "é porque nós somos a América. Nós somos a nação indispensável. Nós encaramos de frente. Nós vemos mais longe no futuro".

Um dos mais horrendos crimes de Hillary Clinton foi a destruição da Líbia em 2011. Por sua insistência, e com apoio logístico americano, a OTAN, lançou 9.700 "incursões de ataque" contra a Líbia, segundo seus próprios registos, dos quais mais de um terço foram destinados a alvos civis. Elas incluíam mísseis com ogivas de urânio. Ver as fotografias das ruínas de Misurata e Sirte, e as sepulturas em massa identificadas pela Cruz Vermelha. Ler o relatório da UNICEF sobre as crianças mortas, "a maior parte [delas] com menos de dez anos".

No mundo acadêmico anglo-americano, seguido servilmente pelos meios de comunicação liberais de ambos os lados do Atlântico, teóricos influentes conhecidos como "realistas liberais" têm desde há muito ensinado que imperialistas liberais – uma expressão que eles nunca utilizaram – são os mediadores da paz mundial e administradores de crises, ao invés de causa de crises. Eles evacuaram a humanidade do estudo das nações e congelaram-na com um jargão que serve o poder belicista. Preparando todas as nações para a autópsia, identificaram "estados fracassados" (países difíceis de explorar) e "estados vilões" (países resistentes à dominação ocidental).

Se o regime alvo é ou não uma democracia ou ditadura é irrelevante. No Oriente Médio, colaboradores do liberalismo ocidental desde há muito têm extremistas islâmicos, ultimamente a al-Qaeda, ao passo que noções cínicas de democracia e direitos humanos servem como cobertura retórica para a conquista e a destruição – como no Iraque, Afeganistão, Líbia, Síria, Iêmen, Haiti, Honduras. Ver o cadastro público destes bons liberais Bill e Hillary Clinton. O cadastro deles é um padrão ao qual Trump mal pode ambicionar.

28 de março de 2016

A estratégia secreta do terror

Manlio Dinucci


“O inimigo obscuro que se esconde nos cantos sombrios da terra” (como o definiu em 2001 o presidente Bush) continua a fazer vítimas, as mais recente em Bruxelas e em Lahore. O terrorismo é um “inimigo diferente daquele até agora enfrentado”, que se revelou ao mundo em 11 de setembro, com as imagens apocalípticas das torres que tombavam. Para eliminá-lo, ainda está em curso aquela que Bush definiu como “a colossal luta do Bem contra o Mal”. Mas cada vez que se corta uma cabeça da Hidra do terror, surgem outras.

Que devemos fazer? Antes de tudo, não acreditar naquilo que nos contaram durante quase 15 anos. A partir da versão oficial do 11 de setembro, que entrou em colapso sob o peso de provas técnico-científicas, que Washington, não podendo refutar, liquida como “conspiração”.

Os maiores ataques terroristas no Ocidente têm três características. Primeiramente, a pontualidade. O ataque de 11 de setembro ocorre no momento em que os Estados Unidos já tinham decidido (como informava o New York Times em 31 de agosto de 2001) deslocar para a Ásia o foco da sua estratégia para se opor à reaproximação entre a Rússia e a China: menos de um mês depois, em 7 de outubro de 2001, com a motivação de caçar Osama Bin Laden, mandante do 11 de setembro, os EUA começam a guerra no Afeganistão, a primeira de uma nova escalada bélica. O ataque terrorista em Bruxelas ocorre quando os EUA e a OTAN se preparam para ocupar a Líbia, com a motivação de eliminar o ISIS, que ameaça a Europa.

Em segundo lugar, o efeito terror: a matança, cujas imagens desfilam repetidamente aos nossos olhos, cria uma vasta opinião pública favorável à intervenção armada para eliminar a ameaça. Piores massacres terroristas, como em Damasco há dois meses, inversamente, passam quase desapercebidos.

Em terceiro lugar, a assinatura: paradoxalmente “o inimigo obscuro” sempre assina os atentados terroristas. Em 2001, quando Nova York ainda estava envolta pela fumaça das torres demolidas, foram divulgadas as fotos e as biografias dos 19 autores do atentado, membros da Al Qaeda, muitos deles já conhecidos pelo FBI e pela CIA.

O mesmo se deu em Bruxelas, agora em 2016: antes de identificar todas as vítimas, identificam-se os autores do atentado já conhecidos pelos serviços secretos.

É possível que os serviços secretos, a partir da tentacular “comunidade de inteligência” estadunidense formada por 17 organizações federais com agentes em todo o mundo, sejam totalmente ineficientes? Ou, ao invés disso, são eficientíssimos instrumentos da estratégia do terror? Não falta mão de obra: é a dos movimentos terroristas islâmicos, armados e treinados pela CIA e financiados pela Arábia Saudita, para destruir o Estado líbio e fragmentar o Estado sírio com o apoio da Turquia e de cinco mil foreign fighters europeus que afluíram à síria com a cumplicidade de seus governos.

Nesta grande bacia se pode recrutar seja terroristas suicidas, convencidos a se imolarem por uma causa santa, seja o profissional da guerra, ou o pequeno delinquente que na ação é “suicidado”, deixando que sua carteira de identidade seja encontrada (como no ataque ao Charlie Hebdo), ou fazendo explodir a carga antes que se afaste.

Pode-se também facilitar a formação de células terroristas, que autonomamente alimentam a estratégia do terror criando um clima de estado de sítio, como ocorre nos países europeus da OTAN, que justifique novas guerras sob o comando dos EUA.

Ou se pode recorrer à falsidade, como as provas sobre as armas de destruição em massa mostradas por Colin Powell ao Conselho de Segurança da ONU em 5 de fevereiro de 2003. Provas que depois se revelaram falsas, fabricadas pela CIA para justificar a “guerra preventiva” contra o Iraque.

27 de março de 2016

Ontem, hoje, amanhã, Viva a Comuna! – 18 de março de 2016: 145 anos da Comuna de Paris

Há um cento e quarenta e cinco anos, recusando-se a entregar ao capitulador de Versalhes Thiers os canhões da guarda nacional, os trabalhadores parisienses que defenderam Paris contra as forças prussianas sitiantes, desencadearam a insurreição da Comuna de Paris

Georges Gastaud e Jean-Pierre Hemmen

Le Grand Soir

A Comuna de acordo com a história nacional

A Comuna de 1871 não saía do nada. Trazia dentro de si a ardente memória da Comuna revolucionária de 1793, que tinha sido a ala de vanguarda da Revolução francesa e o último bastião robespierrista quando o incorruptível foi abatido pelos corruptos conjurados do Thermidor. E, ainda que a Comuna de 1871, obra do proletariado emergente e anunciadora das revoluções proletárias futuras, tenha sido um acontecimento irredutivelmente novo, o eco longínquo das insurreições populares parisienses do passado continuava nela a ressoar profundamente, o eco de fevereiro de 1848 (elemento desencadeador da Primavera dos Povos da Europa) e das barricadas operárias afogadas no sangue de junho de 1848, mas também das Três Gloriosas de 1830 (celebradas pelo quadro de Delacroix A Liberdade Guiando o Povo), sem esquecer, para além de Gracchus Babeuf e a sua Conspiração pela Igualdade (1796), as jornadas revolucionárias do 14 de julho de 1789 e do 10 de agosto de 1792 (Tomada das Tulherias pelos Sans Culottes parisienses e pelos Federados marselheses). E como não evocar a Fronda do Povo, que agitou a monarquia absoluta do século XVII e, bem mais longe ainda, a primeira revolução parisiense de 1357 (conduzida por Etienne Marcel e seus "chaperons" azuis e vermelhos, em aliança com a Grande Jacquerie do norte dirigida por Guillaume Carle), ou as comunas medievais que, de Laon a Beauvais, por vezes em aliança com o poder real (Bouvines) e por vezes contra ele, desafiavam do alto dos respetivos Beffrois os privilégios arrogantes dos nobres e prelados.

Da Comuna às revoluções do século XX

Disseram-se tantas coisas sobre a Comuna, que nos contentamos de remeter aqui para dois livros maiores: A Guerra Civil em França, em que Marx mostra o que é para um comunista, ou nas suas palavras um "materialista prático", a assimilação crítica da herança revolucionária, a igual distância entre o culto religioso e a ingratidão pseudo-"modernista". Principal fundador e dirigente da Primeira Internacional operária (de que fazia parte o operário “communard” Eugène Varlin) e exilado em Londres, Marx impulsionou a solidariedade internacional com os “communards”. Fortalecido por esta legitimidade concreta que se prolongou por inumeráveis esforços após a impiedosa repressão versalhesa, Marx soube no mesmo texto celebrar a ousadia dos “communards” "subindo ao assalto do Céu", fustigar o "sangrento minorca" Thiers e os seus imundos carrascos versalheses, e apontar imparcialmente as fraquezas políticas da direção comunária, não pelo prazer de denegrir camaradas de luta que ele venerava, mas para tirar da sua derrota ensinamentos suscetíveis de ajudar as revoluções futuras a vencer resistindo.

Foi exatamente ao deparar-se com as ilações críticas tiradas por Marx da derrota sofrida que Lenin escreveu por sua vez em 1917, em plena Revolução de Outubro, a impressionante brochura O Estado e a Revolução. O chefe de fila dos bolcheviques mostra aí de forma concreta como se articulam na teoria marxista da transição para o comunismo a questão do duplo poder, das alianças de classes para isolar a reação, da conquista política do poder de Estado pelo proletariado, da conexa instalação da ditadura do proletariado e da democracia dos sovietes de operários, camponeses e soldados ("a mais larga democracia para as massas populares e uma ditadura implacável sobre as forças contra-revolucionárias", escreve Lenin para definir o conteúdo de classe da "ditadura do proletariado"), tudo isso na perspetiva final da socialização dos meios de produção desembocando a longo prazo no "desaparecimento do Estado", ele próprio tornado possível pela progressiva extinção das classes sociais e pela transição por ela permitida entre o atual "poder sobre as pessoas" e a futura "administração das coisas", conforme disse Saint-Simon. Todas estas concepções estavam já certamente a operar de uma maneira ainda confusa e esparsa (e não podia ser de outra maneira enquanto o jovem proletariado, ainda muito restrito à oficina artesanal e à loja, não tinha ainda edificado um Partido de vanguarda seu) nas lutas heroicas dos proletários parisienses do século XIX e dos seus camaradas lioneses, marselheses, etc. (porque a Comuna de Paris teve fortes prolongamentos "provinciais"), esses iluminadores da futura revolução mundial.

Entre os numerosos ensinamentos que se podem tirar da experiência da Comuna, permita-se-nos insistir em quatro pontos que têm particular importância para a nossa atualidade militante, enquanto o grande movimento da luta dos Goodyear e dos defensores do Código do Trabalho rendem indireta homenagem à Comuna neste 17 de março, apelando ao povo trabalhador e à juventude para ocuparem a rua sob a palavra de ordem tipicamente "communard" lançada pelos militantes do Pôle de Rennaissance Communiste en France (PRCF) durante as lutas pelas reformas de 2003: "não é o patronato que faz a lei, a verdadeira democracia está aqui !".

Ensinamentos para hoje e amanhã

Em primeiro lugar, é absurdo opor a verdadeira democracia, a democracia proletária e popular, à ditadura do proletariado. É contudo o que fazem não apenas os dirigentes euro-reformistas do PCF, que desde 1976, há quarenta anos, denigrem este conceito estratégico do marxismo e lhe opõem uma nevoenta "democracia" sem fronteiras que mal disfarça a sua adesão à democracia burguesa em plena decrepitude fascizante e maastrichtiana. Em uníssono com os deputados "socialistas", estes mesmos reformistas em ruptura com o marxismo não têm aliás medo de votar em unanimidade pelo estado de urgência que podiam perceber servir menos para combater o terrorismo fanático do que para intimidar e ameaçar o movimento popular. É aliás ao mesmo tipo de renúncia que procederam os dirigentes do Nouveau Parti Anticapitaliste (NPA), o qual com a gritaria dos seus megafones também repudiaram solenemente a referência marxista a este conceito marxista fundador. A experiência histórica da Comuna mostra pelo contrário que é ao mesmo tempo que devem ser exercidas a mais vasta democracia proletária (a mais direta possível, com controle dos deputados do povo, proibição de ganharem mais do que um salário de operário, possibilidade de revogação no decurso do mandato se este não for respeitado, etc.) e a luta intransigente contra as manobras contra-revolucionárias. Marx censurou aos dirigentes "communards", na verdade bastante divididos, o não terem tomado medidas mais severas para amordaçarem a contra-revolução e, especialmente, para expropriarem o Banco de França cujos haveres eram de fato produto desviado do trabalho proletário. A opção não é pois entre uma revolução gentil, ignorando as rigorosas medidas a tomar contra os seus inimigos mortais, e a "malvada" ditadura do proletariado. Se não forem tomadas com determinação medidas rigorosas pelo poder revolucionário saído do povo, então sem dúvida que, como diz o poeta "communard" Jean-Baptiste Clément,

Os castigos da bandeira vermelha
São substituídos pelo terror
De todos os patifes de esguelha
Criados de reis e do Imperador

Porque os chefes reacionários safam muito cristãmente a pele... mas vingam-se muito "pagamente" durante a Semana Santa:

Batem, prendem, fuzilam
Tudo o que encontram ao calhas
A mãe ao pé da filha
A criança ao colo do velho,

escrevia ainda Clément. E não são os militantes chilenos da Unidade Popular, torturados por Pinochet e o seu tutor yankee prêmio Nobel da paz Henry Kissinger, que poderão infelizmente vir afirmar o contrário, nem o milhão de comunistas indonésios esmagados por Suharto em 1965 sob os aplausos da imprensa "democrática" americana e na total indiferença do "Figaro" e da ORTF de então...

Pelo contrário, a ditadura do proletariado não é um fim em si mesmo, nunca deve perder de vista que o seu objetivo é construir uma sociedade em que, através da extinção das classes sociais, o Estado de classe se torna progressivamente obsoleto e a sua tarefa em cada momento é promover a atividade política das massas, alargar sem cessar a democracia popular e a intervenção dos cidadãos-trabalhadores, para fazer de maneira que, como dizia ainda Lenin, "a cozinheira possa governar o Estado".

Do mesmo modo, é aberrante opor o internacionalismo proletário ("Proletários de todos os países, uni-vos !") ao patriotismo popular. Os "communards" eram ao mesmo tempo ardentes patriotas franceses que recusavam capitular perante Bismarck e magníficos internacionalistas que levaram a ter responsabilidades imigrados progressistas famosos como Léo Frankel (húngaro), Dombrowski (herói da independência polaca, que defendeu Paris admiravelmente), não falando do revolucionário italiano Garibaldi, que foi então eleito deputado francês, ou Elisabeth Dmitrieva que, ao lado da parisiense Louise Michel ou da bretona Nathalie Le Mel, desempenhou um papel maior no recrutamento revolucionário das indomáveis mulheres parisienses. Conforme não deixamos de lembrar, a verdadeira cisão de classe não é a que separa os patriotas dos internacionalistas, como quereriam em conjunto fazê-lo crer os partidários nacionalistas dos Le Pen ou os adeptos neoliberais da UE supranacional e da OTAN: quando a luta de classes endurece, opõe invariavelmente de um lado da barricada social os partidários do cosmopolitismo capitalista aliados aos nacionalistas burgueses (aquilo a que o PRCF, nas condições presentes, chama U.M.-Pen-S., mostrando as convergências dos dois processos reacionários que são em França a fascização xenófoba e a euro-desintegração das nações soberanas) e do outro lado dessa mesma barricada, os partidários do patriotismo republicano e os defensores da solidariedade internacional de classe. E isso é ainda mais verdade nos nossos dias do que em 1871, visto que o capitalismo tomou a forma de imperialismo, de esmagamento dos países livres pelo capital financeiro, ou mesmo de vassalização dos países dominantes em declínio por outros, como se vê com a odienta UE dominada pelo imperialismo alemão e seus neocolaboracionistas "franceses" do grande patronato e do Partido Maastrichtiano Único (PS e ex-UMP). É por isso aliás que a palavra de ordem da Terceira Internacional já não era apenas "Proletários de todos os países uni-vos", mas "Proletários de todos os países e povos oprimidos do mundo inteiro, uni-vos", tendo no horizonte a palavra de ordem largamente unificadora e defendida por Lenin do "direito de todas as nações a disporem de si próprias". Concretamente, isso traduz-se pela necessidade para os verdadeiros herdeiros dos "communards" de apelarem ao povo francês, não para esperar tontamente pela impossível "Europa social" cara a Pierre Laurent, mas a exigir que a França saia pela esquerda, numa dinâmica revolucionária de ruptura com o capitalismo assassino de nações, com a mortífera UE atlântica e com o seu destrutivo euro.

Verificação histórica desta dialética materialista do patriotismo popular e do internacionalismo proletário é o facto de ser sempre a classe dominante que, desde a Idade Média (o bispo Cauchon entregando Jeanne Darc à fogueira inglesa) até aos nossos dias, se aliou à dominação estrangeira para se resguardar do povo e preservar os seus privilégios, enquanto que pelo contrário o povo trabalhador defendeu o solo nacional, como se viu durante a Grande Revolução, quando os soldados do Ano II saídos do Faubourg Antoine salvavam a França republicana, enquanto os emigrados nobres de Koblenz traíam o país combatendo nas fileiras inglesas e austríacas. E em 1871, enquanto Thiers suplicava ao vitorioso Bismarck a libertação dos soldados franceses feitos prisioneiros em Sedan jurando por escrito ao chefe do Segundo Reich alemão que os ditos soldados não seriam «utilisados a não ser contra Paris», os internacionalistas presentes em Paris defendiam a França ocupada, tal como os franco-atiradores e os resistentes da mão-de-obra imigrada, os Manouchian, os Epstein e Roger Landini, permaneciam fiéis à França dos direitos do homem o mesmo tempo que os Louis Renault produziam tanques para a ocupação nazi. Quem não se lembra da palavra do escritor gaulista Mauriac declarando, a propósito dos mineiros vermelhos do norte que aguentaram dois meses de greve debaixo da bota alemã em 1941, que « apenas a classe operária ficou fiel à França profanada» ?

É suicidário opor a democracia proletária de massas ao partido de classe e de vanguarda. Este partido comunista, que tanta falta fez aos « communards », entre os quais dominavam ainda as ideias pequeno-burguesas e anarquisantes hostis à organização, tinham-no os bolcheviques construído e temperado no fogo das lutas da Revolução russa de 1905, não opondo-o, mas apoiando-o nessa criação espontânea das massas operárias russas em movimento que eram os sovietes (conselhos) de operários e camponeses. Sem o partido bolchevique, sem a sua disciplina de ação baseada no centralismo democrático (a mais larga democracia antes da tomada de decisão e aplicação da decisão maioritária por todos, incluindo a minoria), não teria havido revolução proletária vitoriosa em outubro de 17, porque como seria possível unir e disciplinar o esforço de um povo-continente face a uma reação feudal-burguesa unida e armada até aos dentes, sem dispor desse elemento indispensável a todo o exército que quer ganhar e não apenas «dar testemunho» que é um Estado-Maior político ? E inversamente, que seria de um partido autoproclamado de vanguarda, um grupúsculo declarando-se « o » partido, sem manifestar a menor preocupação por federar os revolucionários e tornar-se a vanguarda efetiva do movimento popular aqui e agora ?

É aliás conjugando a construção do partido comunista (ao qual Lénine escolheu a denominação de origem francesa em tripla referência à Comuna, ao objetivo final comunista e não socialista do partido e também ao que ele chamava o «Estado-Comuna», o Estado visando a sua própria extinção, por muito longínqua que fosse) e a dinâmica própria dos sovietes de operários, camponeses e soldados, que a Revolução de Outubro triunfou, como o atesta de forma grandiosa o livro-reportagem de John Reed sobre Os Dez Dias que Abalaram o Mundo, porque Outubro não foi apenas uma insurreição militar vitoriosa do proletariado e da guarnição vermelha de Petrogrado. A própria insurreição, que entregou imediatamente todo o poder aos sovietes (onde os bolcheviques tinham ganho democraticamente a maioria), foi sobretudo necessária para que se lançasse um imenso debate, ganho pelos bolcheviques em cada fábrica, cada caserna, cada aldeia em que foi necessário pronunciar-se sobre os três primeiros decretos do novo poder soviético : o Decreto sobre a paz dos povos, o Decreto sobre a terra para os camponeses e o Decreto sobre o contrôle operário nas fábricas.

É por isso que é aberrante ver alguns comunistas atuais, que acreditam no entanto opor-se à direção do PCF-PGE (Partido Comunista Francês – Partido da Esquerda Europeia – N.T.), tratarem por alto a « matriz leninista do comunismo » à maneira do primeiro euro-mutante caído do céu, sonharem voltar hoje à Primeira Internacional saltando por cima da experiência da Internacional Comunista e do primeiro campo socialista da história que, durante décadas, fez frente ao imperialismo construindo uma sociedade certamente imperfeita, mas sem desemprego, sem exploração capitalista e sem traficantes de canhões. Se se quer analisar como marxistas e não como derrotistas e pequeno-burgueses lamurientos as causas da derrota provisória do socialismo (tarefa que não é o objeto deste curto artigo), há melhor a fazer do que armar em bem-pensantes arrependidos, renegar o passado comunista, autoflagelar-se para agradar ao adversário, e sonhar com o regresso às formas antigas pré-bolcheviques do poder proletário, enquanto o capitalismo está mil vezes mais agressivo, destruidor, fascizante, exterminista até do que ainda não o podia ser o capitalismo do séc. XIX. Como dizia o poeta Arthur Rimbaud, «é preciso ser resolutamente moderno: aguentar o passo dado!» e não praticar o que já Lénine fustigava, essa dança do ventre própria dos elementos mencheviques que se traduz pelo tristemente famoso «um passo em frente, dois passos atrás !». Isto, a não ser que se queira perder eternamente os combates face a um inimigo de classe mais determinado que nunca e numa situação em que, mesmo no coração dos nossos países imperialistas em crise, a deterioração e a miséria de massas ameaçam muito diretamente os trabalhadores e a parte inferior das assim chamadas « classes médias » !...

Finalmente, é desonesto opor a construção multissecular da nação e depois a instalação revolucionária da República una, laica, soberana, social legada por Robespierre, à descentralização democrática popular, ou parcialmente popular, que historicamente foi trazida não apenas pela Comuna de 1871, mas pelos insurretos medievais das «comunas de jurados» da Idade Média. São historicamente o Primeiro e o Segundo Império e não os «sans culottes», nem por maioria de razão os «communeux»**, quem suspendeu as liberdades comunais ao passarem à nomeação dos « maires » e imporem um super-presidente para Paris, Pelo contrário, a nação francesa e as comunas, apesar de muitas atribulações, foram contruídas a par. Foi o processo, historicamente progressista numa primeira fase, de construção de um Reino de França centralizado que viu os capetianos, desejosos de conjurarem as frondas feudais, aliarem-se às milícias comunais : em Bouvines (1214), a batalha contra a coligação entre o rei inglês, o Imperador alemão, o conde flamengo e diversos grandes feudatários rebeldes, foi ganha por Phillipe-Auguste e pelos seus aliados comunalistas aos gritos de «Comuna, Comuna !» e essa vitória permitiu a Paris consolidar o seu papel de capital política do Reino. Foi igualmente uma opção política real que tem a ver com alianças de classe a que inspirou François I quando escolheu erigir o francês (quer dizer, a língua falada pela burguesia e pelo povo, pelo menos na Ile-de-France) a língua administrativa e jurídica, afastando o latim caro aos eclesiásticos (sem por isso proibir as línguas periféricas). Quanto à República una e indivisível, criada pelos horríveis « centralizadores » jacobinos, os Marat, Robespierre, Saint-Just, Couthon, etc., ela liquidou as velhas províncias étnicas herdadas da feudalidade em proveito dos novos departamentos, mas nem por isso deixou de confirmar a eleição dos « maires » e conselhos comunais sem melindrar as suas prerrogativas, o que reduz a nada a atual contra-reforma territorial de inspiração maastrichtiana. Em resumo, antes de dizer tontamente que « em geral, o centralismo opõe-se à intervenção política local », é preciso verificar o conteúdo de classe do centralismo e da proclamada « descentralização », porque o centralismo nacional não se opõe à democracia local quando em todo o território francês é a classe progressista, ontem a burguesia jacobina, hoje o proletariado virtualmente « communard », que conduzem a iniciativa histórica. Mais uma vez, que diferença marcante com a nossa sinistra época contra-revolucionária em que, tudo de uma vez, sob a égide da grande burguesia agora oligárquica, temos o reagrupamento autoritário dos territórios confortando as « metrópoles » em detrimento das comunas, temos as super-regiões à custa dos departamentos, temos o Império europeu berlino-formatado e a União transatlântica centrada na América, ambos apoiados pelo poder planetariamente devastador da NATO, mil vezes mais perigosa para o futuro da humanidade do que nunca o foram os «reiters» de Bismarck ou os hussardos do duque de Brunswick !

Haveria mil outras lições a tirar da experiência cultural e humana sem precedentes que foi a Comuna sob a direção dos heróicos Varlin, Flourens, Ferré e Courbet, nomeadamente pela maneira pela qual separou claramente, pela primeira vez em França, o Estado republicano das Igrejas, coisa que outros historiadores do laicismo e das Luzes já disseram cem vezes melhor do que saberíamos fazê-lo.

Por ora, enquanto Hollande rasteja diante dos neo-versalheses do MEDEF (Movimento das Empresas de França – N.T.) e que o dito MEDEF aceita alegremente dissolver a República soberana, a língua francesa, a herança das Luzes e a de 1936 e do CNR (Conselho Nacional da Resistência – N.T.) nas águas geladas da UE maastrichtiana e do todo-inglês « transatlântico », os verdadeiros sucessores dos « communards » assumem orgulhosamente a herança dos heróicos proletários e artesãos parisienses que abriram ao mundo inteiro a era provisoriamente interrompida das revoluções socialistas. Sem opor Outubro de 1917 à breve primavera vermelha de 1871, a hora mais do que nunca é a da resistência popular, da contra-ofensiva de todos em conjunto e em simultâneo com os Goodyear, com os outros assalariados do público e do privado, com os reformados, os estudantes, os professores, os camponeses e os artesãos em luta, para que o nosso país volte a ser o que nunca devia ter deixado de ser, o país das Luzes comuns.

25 de março de 2016

Bernie Sanders e o fardo do império

Rob Urie

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Créditos: Juli Hansen / Shutterstock.

Um dos principais desafios para as políticas econômicas de esquerda é que toda a infra-estrutura ocidental foi arquitetada para servir aos objetivos do imperialismo capitalista. Hillary Clinton ou Ted Cruz podem encaixar seus programas nos quadros nacionais e globais do capitalismo militarizado, porque afinal eles se enquadram nestas lógicas e formas de organização. Poucos dos adeptos das campanhas de um ou de outro esperariam, após eleição vitoriosa, que um cenário de justiça econômica de repente prevalecesse, que as guerras por recursos diminuiriam, que a defesa do meio ambiente seria priorizada frente aos ganhos econômicos concentrados ou que a reconciliação racial seria finalmente priorizada.

Em um sentido muito pragmático, a luta se dá entre o otimismo coerente e a sombria resignação diante da ideia de que a morte, a ganância e destruição são fundamentos inexoráveis da existência humana. O pano de fundo institucional não é, em qualquer sentido, um árbitro neutro. É, na verdade, o produto de uma identidade ocidental fundada sobre guerras e conflitos, como se fossem fatos da natureza, ao invés de uma determinação humana. Essa identidade se alimenta do medo fabricado, reflexivamente se opõe à perspectivas sociais alternativas e, com isso, confronta os esforços para forjar um caminho diferente para a humanidade. A escolha política, assim, se estabelece entre trabalhar dentro deste conjunto estabelecido de restrições sociais ou lutar por uma auto-determinação humana que busque nova direção e que provenha de fora do status-quo.

Como dispositivo das relações sociais estabelecidas, a política eleitoral reflete as escolhas que suportam essas relações. Estrategicamente, o momento para o programa de Bernie Sanders seria 2009, não 2016. O sucesso dos poderes estabelecidos, que apenas evidencia a natureza defensiva da identidade ocidental, foi ter evitado um colapso total (seja lá o que isso signifique) depois de 2008. A crise social foi resolvida através de uma recuperação dos mesmos mecanismos que fabricaram a própria crise. A conclusão? Qualquer programa que realmente pretenda produzir mais do que reformas superficiais (que rapidamente se reverteriam nas prerrogativas institucionais existentes) deve enfrentar não apenas as prerrogativas, mas as próprias instituições que fundamentam essas prerrogativas.

Uma das tensões abstratas em evidência é a representação contra a participação, que podem ser entendidas enquanto formatos de democracia concorrentes. Em ambos os casos, é necessário destacar qual a população política de interesse. Hillary Clinton e os republicanos prometem representação competente, enquanto Bernie Sanders oferece um "processo" participativo que alude a uma população mais ampla, embora ainda apenas parcialmente definida. A política econômica que todos pretendem alavancar é um sistema de apadrinhamento que funcione como um artefato de organização “natural” das intersecções entre Estado e economia. E as deficiências de todas estas campanhas giram em torno do seu papel imperial e em como ele se relaciona com determinadas comunidades, de acordo com as concepções apresentadas por cada candidato.

Em termos menos abstratos, quando Hillary Clinton recentemente abordou o AIPAC (Comitê de Assuntos Públicos EUA-Israel) ela sinalizou que representa a pequena comunidade de apoiadores do Estado de Israel, o que apenas mostra sua afinidade com as últimas quatro décadas de política externa norte-americana, com a história imperial ocidental, com o militarismo dos Estados Unidos e com os interesses estreitos da extrema-direita israelense. Clinton está se colocando a frente enquanto representante dos interesses do império, independente se a história vai ou não concordar com ela. Populações significativas de Chicago, de Detroit, da Filadélfia e de outras grandes cidades americanas encontram-se do lado errado deste alcance imperial tanto quanto os palestinos que vivem sob a ocupação israelense. Bernie Sanders atravessa este paradoxo sem explicitamente definir o alcance da sua ”comunidade” imperial.

Este paradoxo é expresso como uma contradição política em torno do que é proposto (e, de forma limitada, realizado) por Sanders, entre as políticas nacionais e sua política externa imperialista. No caso da democrata Hillary Clinton, observamos uma junção entre os interesses da Goldman Sachs e do Bank of America com os de regimes de extrema-direita em todo o mundo, incluindo Israel. Neste contexto, não é coincidência que o democrata Barack Obama tenha orquestrado o maior aumento na venda de armas desde a Segunda Guerra Mundial, além de ter apoiado Wall Street através de garantias e resgates maciços. Assim, temos que os interesses de classe que são debatidos dentro de limites nacionalistas não passam de nacionalismo econômico. E os capitalistas globais se beneficiam do nacionalismo econômico, pois eles mantém os interesses da classe trabalhadora transnacional escondidos atrás de fronteiras artificiais.

Seja ou não “pragmática” a escolha de Bernie Sanders por concorrer pelo partido democrata, tudo depende de quais são seus objetivos finais. É quase um cliché afirmar que o capital internacional prefere ambientes politicamente repressivos a fim de manter trabalhadores enfraquecidos e dependentes. O lado menos óbvio é o pronto fornecimento de clientes para os armamentos militares e técnicas de repressão que o imperialismo oferece. Simplesmente não é possível separar política interna de política externa em um mundo no qual as relações entre economias e Estados são globalizadas. Hillary Clinton é uma dedicada imperialista e os supostos “progressistas” que a apoiam precisam fazer um acordo com o diabo quando tentam dissociar o apoio de Hillary a Wall Street de sua política externa predatória e de suas políticas carcerárias oportunistas (e estruturalmente racistas). O esforço de Bernie Sanders para manter suas opções em aberto não apenas subestima a influência da interrelação entre Estado e poder econômico sobre a política interna, mas também implica notório paradoxo no que tange às suas políticas externas.

Este problema foi enquadrado por liberais que criticavam o purismo ideológico da esquerda, destacando a importância de um olhar global sobre as relações econômicas. Os tratados comerciais que o establishment democrata têm sido tão eficaz em promulgar servem para proteger seu poder econômico por meio de acordos legais assimétricos, como tribunais de investidores que solidificam patentes e outros mecanismos jurídicos para garantir a extração de renda econômica. Democratas desse establishment argumentam que os tratados beneficiam as corporações “norte-americanas”, partindo do pressuposto de que essas corporações ganham mais explorando o trabalho e os mercados em outros lugares do mundo.

Bancos norte-americanos "criam" dinheiro através de empréstimos, o que os coloca na intermediação da distribuição capitalista e lhes confere controle sobre o que é financiado. A substância "política" desta relação pode ser vista mais diretamente através de programas do FMI como a tomada da Grécia por credores corruptos. Uma estratégia relacionada pode ser observada nas recompras de ações que são financiadas pela dívida. Corporações pedem emprestado a fim de comprar ações que elevam seu preço para que os executivos possam vender seu próprio estoque a um preço superior. Quando a conta chega, os executivos têm os recursos em seus bolsos, enquanto o trabalho é comprimido para pagar a dívida.

Sanders articula sobre as dimensões de classe "nacionais" deste sistema de apadrinhamento, isto é, o Estado como expressão dos interesses capitalistas, mas sem expandir de forma eficaz uma análise do capitalismo global. A criação de um império "mais gentil", deixando intactas as principais alavancas do imperialismo capitalista (como as corporações multinacionais e a atividade bancária capitalista) significa ignorar como elas se tornaram centrais para a economia política ocidental em primeiro lugar. Não foi a natureza que as trouxe. Elas cresceram através da integração do Estado e do poder econômico. Essas relações se tornam mais visíveis no programa de Hillary Clinton, em que se observa um militarismo reforçado combinado com um corporativismo de Estado que se implementa através de um sistema de alianças internacional e garante uma extensa rede de repressão. Os EUA lideram a "comunidade internacional" da repressão carcerária.

A questão de por que esses poderes político-econômicos globais concordariam com a vontade política do eleitorado norte-americano é deixada sem solução. Fica em aberto como Sanders seguiria com seu programa. Em 2009, Barack Obama estava em posição de ressurgir com um estilo New Deal de “gestão” do capitalismo, do tipo que Sanders agora sugere, mas ele dedicou seus esforços a reconstruir o sistema de clientelismo que fundamenta o establishment democrata e reconstruiu a infra-estrutura de base do imperialismo capitalista.

Em contraste com Hillary Clinton e com os candidatos republicanos, Bernie Sanders é a última e melhor esperança de reviver o modelo FDR de New Deal capitalista. O argumento pragmático de tornar progressivamente melhor a vida dos trabalhadores (norte-americanos) ignora soluções mais abrangentes e contempla o coração do programa de Sanders. Com lapsos notáveis como a discriminação racial nas políticas de habitação e de educação, FDR mitigou os entraves econômicos da população nacional, enquanto o imperialismo americano corria solto por cima das vidas de seus súditos imperiais ao redor do globo. Além disso, o amálgama pragmático que FDR estabeleceu exigia marcos históricos como a existência de uma alternativa plausível para o capitalismo (sob a forma de uma robusta União Soviética) e, simultaneamente, uma população norte-americana pronta para levar suas ações até as últimas consequências caso FDR não tivesse tocado as reformas necessárias.

Isto não significa sugerir que Sanders é tão míope que não possa entender, de um modo geral, toda esta situação. No entanto, em contraste com as lendas de um capitalismo mitológico, a realocação de riqueza tem desempenhado um papel de igual ou maior importância na acumulação capitalista do que objetivamente a mera “criação” de riqueza. Aquele capitalismo “fictício” resume “riqueza” a produção econômica através do sistema monetário. Mas os capitalistas norte-americanos sabem já há algum tempo que a rota mais fácil de “aquisição” de riqueza real na forma de produto econômico passa pelo imperialismo econômico apoiado por recursos estatais. Assim, sabe-se que grande parte da generosidade americana "partilhada" que firmou o capitalismo sob o New Deal de Roosevelt só foi possível através de políticas externas imperialistas. O boom econômico do "pós-guerra" se deu em grande parte porque os "vencedores" das Guerras Mundiais passaram a exercer controle sobre os recursos econômicos que antes motivaram as próprias guerras. Nesse sentido, acabar com a cultura do consumo de bens supérfluos é um passo fundamental para unir os interesses de classe para além das fronteiras nacionais.

O programa de Sanders poderia funcionar, mas não tal qual é atualmente concebido. Para seu crédito, Sanders parece se entender mais como um veículo para a re-emergência política da esquerda do que como seu protagonista de fato. A resistência necessária contra o imperialismo capitalista é um movimento mundial dos trabalhadores, que exigiria de Sanders uma abordagem mais ampla das dimensões imperiais de seu programa econômico populista. Não existe a perspectiva de um movimento desse tipo no horizonte. E é improvável qualquer tipo de capitulação voluntária das forças do capitalismo global sem um movimento como tal. Um ponto de partida poderia ser a persistência e o crescimento de um movimento de esquerda global depois que Sanders for derrotado pelo establishment democrata. É interessante notar que a jogada mais inteligente desse establishment seria deixar Sanders vencer e, em seguida, neutralizar seu programa através de "reformas". Mas as probabilidades indicam que não é isso que tende a acontecer.