31 de maio de 2016

Você está assistindo à morte do neoliberalismo - a partir de dentro

Economistas do FMI publicaram um artigo notável admitindo que a ideologia foi sobrevalorizada

Aditya Chakrabortty


Foto: Dylan Martinez/AFP/Getty Images

Tradução / Com o que se parece quando uma ideologia morre? Tal como acontece com a maioria das coisas, a ficção pode ser o melhor guia. Em Red Plenty, seu magnífico e prazeroso romance histórico da União Soviética, Francis Spufford desenha como o sonho comunista de construção de uma sociedade melhor, mais justa, se desfez.

Mesmo enquanto censuravam os próprios pensamentos dos seus cidadãos, os comunistas sonharam grande. O herói de Spufford é Leonid Kantorovich, o único Soviético a ganhar um prêmio Nobel de Economia. Chacoalhando no metrô de Moscou, ele fantasia sobre quanta abundância trará para seus empobrecidos companheiros de jornada: "As roupas das mulheres todas se tornando de seda acolchoada, os uniformes militares tornando-se, sob medida, em cinza e prata; e rostos, olha a extensão do vagão, relaxando, perdendo as linhas de preocupação e os olhares famintos e todas as variadas marcas de dentes da necessidade".

Mas a realidade faz um trabalho rápido em tais castelos de areia. Os números são cada vez mais desobedientes. Os belos planos só podem ser realizados através da trapaça, e os planejadores o sabem melhor do que quaisquer dissidentes. Esta é uma das ideias fundamentais de Spufford: que muito antes de quaisquer protestos públicos, os insiders abrem o caminho murmurando sua inquietação. Sussurro por sussurro, nota por nota, o regime está constantemente sendo minado por dentro. Sua derrubada final ocorre décadas além do final do romance, mas já pode ser notada.

Quando o Red Plenty foi publicado em 2010, estava claro que a ideologia subjacente ao capitalismo contemporâneo estava falhando, mas não que ela estava morrendo. No entanto, um processo semelhante ao descrito no romance parece estar acontecendo agora, em nosso capitalismo em constante crise. E são os tecnocratas responsáveis pelo sistema que estão lentamente, relutantemente, admitindo que ele está fracassando.

"Você o ouve quando Mark Carney, do Banco da Inglaterra, soa o alarme sobre um equilíbrio com 'baixo crescimento', 'baixa inflação', 'baixas taxas de juro'". Ou quando o Bank of International Settlements, o banco central dos bancos centrais, adverte que "a economia global parece incapaz de retornar ao crescimento sustentável e equilibrado". E você o viu mais claramente na última quinta-feira, do próprio FMI.

O que torna a intervenção do fundo tão notável não é o que está sendo dito - mas quem está dizendo isso e quão abruptamente. Na principal publicação do FMI, três dos seus principais economistas escreveram um ensaio intitulado "Neoliberalism: Oversold?".

O próprio título provoca uma sacudida. Por tanto tempo economistas de prestígio e os responsáveis políticos têm negado a existência de uma tal coisa como o neoliberalismo, descartando-o como um insulto inventado por descontentes banguelas que não entendem nem a economia, nem o capitalismo. Agora, aqui vem o FMI, descrevendo como uma "agenda neoliberal" se espalhou por todo o mundo nos últimos 30 anos. O que eles querem dizer é que mais e mais estados têm refeito suas instituições sociais e políticas em cópias pálidas do mercado. Dois exemplos britânicos, sugere Will Davies - autor de Limites do Neoliberalismo - seriam o NHS e as universidades, "onde as salas de aula estão sendo transformadas em supermercados". Desta forma, o setor público é substituído por empresas privadas, e a democracia é suplantada por mera competição.

Os resultados, os pesquisadores do FMI admitem, tem sido terríveis. O neoliberalismo não entregou o crescimento econômico - ele só fez algumas pessoas muito mais ricas. Ele provoca falhas épicas que deixam para trás destroços humanos e custam bilhões de dólares para limpar, uma descoberta com a qual a maioria dos moradores do banco de alimentos, na Grã-Bretanha, concordariam. E enquanto George Osborne poderia justificar a austeridade como "consertar o telhado, enquanto o sol está brilhando", a equipe do Fundo a define como "reduzir o tamanho do estado... um outro aspecto da agenda neoliberal". E, dizem, os seus custos "podem ser grandes - muito maiores do que os benefícios".

Duas coisas precisam estar em mente aqui. Em primeiro lugar, este estudo vem da divisão de pesquisa do FMI - não daqueles funcionários que voam por países falidos, regateando os termos do empréstimo com os governos que precisam de dinheiro e administram o transbordamento fiscal. Desde 2008, uma grande lacuna se abriu entre o que o FMI pensa e o que ele faz. Em segundo lugar, enquanto os pesquisadores vão muito mais longe do que os observadores do fundo poderiam ter acreditado, eles deixam opções de saída em algumas cláusulas muito importantes. Os autores ainda defendem a privatização como levando a "prestação mais eficiente de serviços" e menos gastos do governo - para a qual a única resposta deve ser a de oferecer-lhes um passeio de trem através de Hinkley Point C.

Mesmo assim, esta é uma violação extraordinária do consenso neoliberal pelo FMI. A desigualdade e a inutilidade de muito das finanças modernas: esses temas tornaram-se "brinquedos regulares de mastigar" para economistas e políticos, que preferem tratá-los como aberrações da norma. Finalmente uma grande instituição está indo atrás não só dos sintomas, mas da causa - e está nomeando essa causa como política. Não é de admirar que o principal autor do estudo diga que esta investigação não teria sequer sido publicada pelo fundo, cinco anos atrás.

Desde a década de 1980 a elite política tem refutado a noção de que eles estavam agindo ideologicamente - apenas estavam fazendo "o que funciona". Mas você só pode seguir com essa reivindicação se o que você está fazendo está realmente funcionando. Desde o crash, os banqueiros centrais, políticos e correspondentes de televisão têm tentado tranquilizar o público que este chiado ou esses bilhões fariam o truque e colocariam a economia novamente em ordem. Eles têm folheado cada página do manual e além - salvamentos bancários, cortes de gastos, congelamento de salários, injeção de bilhões nos mercados financeiros - e o crescimento ainda permanece anêmico.

E quanto mais a crise segue, mais o público cai em si de que não só o crescimento tem sido mais fraco, mas os trabalhadores comuns têm desfrutado muito menos de seus benefícios. No ano passado o centro de ideias dos países ricos, a OCDE, fez uma concessão notável. Ela reconheceu que a parcela do crescimento econômico do Reino Unido que beneficia os trabalhadores está agora em seu nível mais baixo desde a Segunda Guerra Mundial. Ainda mais notável, ela disse que o mesmo ou pior aplica-se aos trabalhadores em todo o Ocidente capitalista.

Red Plenty termina com Nikita Khrushchev andando fora de sua dacha, para onde ele foi violentamente aposentado. "Paradise," ele exclama, "é um lugar onde as pessoas querem acabar, não é um lugar de onde querem fugir. Que tipo de socialismo é esse? Que tipo de merda é essa, quando você tem que manter as pessoas em correntes? Que tipo de ordem social? Que tipo de paraíso?"

Os economistas não falam como os romancistas, o que é uma pena, mas o que você está testemunhando em meio a todos os gráficos e linguagem técnica é o início de uma longa morte de uma ideologia.

30 de maio de 2016

Os socialistas não são pacifistas? Algumas guerras não são justificadas?

Socialistas querem erradicar a guerra por que ela é brutal e irracional. Mas nós pensamos que existe uma diferença entre a violência dos oprimidos e a dos opressores.

por Jonah Birch


Ilustração por Phil Wrigglesworth

Em junho de 1918, Eugene Debs fez um discurso que o colocaria na prisão. Falando em Canton, Ohio, o líder do Partido Socialista denunciou o presidente Woodrow Wilson e a Primeira Guerra Mundial para a qual ele guiou os Estados Unidos.

Para Debs, a matança em massa que havia assolado toda a Europa por quatro anos sangrentos era um conflito travado em nome dos interesses dos capitalistas, mas combatido por trabalhadores. Em cada país era o rico quem havia declarado guerra e se mantinha lucrando à partir dela; mas eram os pobres quem eram enviados para lutar e morrer aos milhões.

Isso, Debs disse à sua audiência, era como sempre foi, enquanto exércitos têm sido enviados para batalharem uns aos outros em nome de reis ou países. “As guerras através da história têm sido travadas para conquista e pilhagem,” ele disse. “A classe dominante tem sempre declarado as guerras; a classe dominada tem sempre lutado as batalhas. A classe dominante tem tido tudo a ganhar e nada a perder, enquanto a classe dominada não tem tido nada a ganhar e tudo a perder – especialmente suas vidas.”

A mensagem de Debs aos trabalhadores era simples: seu inimigo não eram as pessoas da Alemanha, os soldados da classe trabalhadora que eles estavam sendo embarcados para assassinar; eram os dominadores, em ambos os lados, que ordenaram suas tropas rumo a batalha. Eram os capitalistas e seus representantes nos governos americano e alemão, cuja riqueza e poder lhes deu controle sobre os destinos de milhões.

O discurso de Debs foi demais para as autoridades nos Estados Unidos – eles os prenderam sob uma nova lei de restrição da liberdade de expressão, o Ato de Espionagem de 1917, e o sentenciaram a dez anos de prisão. Notavelmente, nas eleições de 1920, Debs concorreu para presidente na cédula Socialista enquanto permanecia em uma penitenciária federal em Atlanta, e ainda conseguiu conquistar quase 1 milhão de votos.
Tornando o Mundo Seguro Para o Capitalismo

No exemplo de Debs, podemos ver as principais ideias que têm sustentado a abordagem do movimento socialista para a questão da guerra. Socialistas têm sempre visto a propensão do Capitalismo para guerras de conquista e pilhagem como a expressão definitiva da brutalidade do sistema. Na organização da violência de Estado em uma escala sem precedentes, nós vemos a tendência do Capitalismo de subordinar as necessidades humanas à lógica do lucro e do poder. No intervalo entre a promessa de igualdade democrática e a realidade da opressão de classe que a guerra expressa, vemos a injustiça fundamental que define nossa ordem social.

Sob o Capitalismo, a exploração ocorre na maior parte do tempo através do mercado. É a relação contratual ostensivamente não-coercitiva entre trabalhadores e empregadores que mascara as desigualdades de classe mais profundas subjacentes. Mas o poder de fazer a guerra dos Estados Capitalistas ainda é essencial para o funcionamento saudável do sistema. Capitalistas em países como Estados Unidos ainda dependem dos militares de seus próprios governos, tanto para fazer cumprir “as regras do jogo” na Economia Global e para ajudá-los a competir mais eficientemente contra outras Classes dirigentes.

Contra esse estado de coisas, os Socialistas apoiam a organização de movimentos de massa contra as guerras travadas por nosso governo [1]. Nós participamos [2] na luta contra restrições à liberdade de expressão e outros direitos democráticos que inevitavelmente acompanham essas guerras. Contra os chamados por “unidade nacional”, nós lutamos por solidariedade internacional e organização de classe mais forte para lutar pelos interesses dos trabalhadores. No longo prazo, esperamos traduzir estes movimentos em uma luta mais ampla por uma transformação radical da Sociedade ao longo de linhas democráticas.

Em nenhum lugar essa abordagem é mais importante do que nos Estados Unidos [3] – o mais poderoso país capitalista do mundo. Hoje, os EUA gastam mais com seus militares do que os próximos 7 países que mais gastam nisso combinados. Nosso governo tem cerca de 800 bases militares no estrangeiro. Soldados estadunidenses ou tropas aliadas estão presentes em cada região do globo.

No último século e meio, o Estado Estadunidense tem travado guerras brutais em nome de um império crescente, desde a guerra hispano-americana de 1898 até as recentes invasões do Afeganistão e Iraque. Interveio de novo e de novo na África, Ásia, América Latina para proteger os interesses dos negócios e chutar os movimentos que pudessem ameaçar seu controle sobre recursos-chave ou minar a estabilidade do sistema global capitalista.

Frequentemente estas aventuras foram descritas como sendo necessárias para trazer liberdade e democracia para países oprimidos, ou para proteger cidadãos estadunidenses do perigo. O registro histórico, entretanto, conta uma história diferente.

Mesmo na época da Guerra Hipano-Americana de 1898, considerada por muitos como sendo a alvorada do imperialismo estadunidense moderno, o governo estadunidense estava invadindo Cuba, Porto Rico e as Filipinas em nome da libertação de seus povos do jugo do colonialismo espanhol. Quando, depois da vitória ter sido assegurada, Washington decidiu fazer daqueles três territórios protetorados estadunideses (ou, no caso de Porto Rico, uma colônia por completo), eles garantiram que tinham apenas as intenções mais benevolentes. E quando os residentes desses países levaram essas promessas de liberdade e democracia muito literalmente, os Estados Unidos decidiram que não tinham escolha além de esmagar as lutas por independência que emergiram. Nas Filipinas, uma insurreição nacionalista que irrompeu em 1899 foi suprimida às custas de várias centenas de milhares de vidas filipinas.

Em cada guerra entre aquela época e agora o padrão tem sido o mesmo. O governo estadunidense entrou na Primeira Guerra Mundial em 1917 (depois que Wilson venceu as eleições de 1916 na base de suas promessas anti-guerra) para “tornar o mundo seguro para a democracia,” enquanto enviava Marines por toda a América Latina na defesa dos interesses econômicos e políticos do Capital. Lutou a Segunda Guerra Mundial para “livrar o mundo da tirania,” mas gastou os anos do pós-guerra manipulando eleições na Itália, patrocinando uma perversa guerra civil na Grécia e escorando o xá do Irã. Enviou milhões para o túmulo na Coréia e no Sudeste Asiático para “salvar” as pessoas de lá do Comunismo, enquanto instalava ditaduras brutais tanto no Vietnã do Sul quanto na Coreia do Sul. Enquanto isso, os decisores políticos dos EUA secretamente organizaram a derrubada de governos populares e democráticos por todo o mundo – desde Mohammad Mosaddegh no Irã, passando por Patrice Lumumba no Congo e Salvador Allende no Chile.

Para justificar estas campanhas, os oficiais estadunidenses têm muitas vezes recorrido ao perverso racismo. O General William Westmoreland uma vez justificou a brutalidade das forças que ele liderava no Vietnã dizendo que “os orientais não colocam o mesmo valor na vida como faz um ocidental… Nós valorizamos a vida e a dignidade humana. Eles não se importam com a vida e a dignidade humana.”

A cada turno o governo estadunidense tem mostrado [4] seu compromisso com a democracia e a liberdade no estrangeiro como sendo tão superficial quanto o seu compromisso com a igualdade em casa. Vez após outra, tem provado que seu temor pelo controle democrático sobre os recursos do mundo corre mais fundo que sua retórica pró-Democracia. Como Henry Kissinger, que serviu como um consultor em políticas estrangeiras a três presidentes, disse dos esforços da administração de Nixon para tombar o governo socialista eleito no Chile, “não vejo por que nós devemos ficar parados e assistir um país se tornar comunista por causa da irresponsabilidade de seu próprio povo.” O mesmo se deu nos anos 80 nas tentativas de minar os governos esquerdistas na pequena Nicarágua e na menor ainda Granada.

Mais recentemente, esse padrão tem se repetido no Oriente Médio – agora o campo de batalha central para os EUA e seus competidores imperiais, por causa de seu papel como o centro da produção global de petróleo.

Se as guerras no Iraque e no Afeganistão foram inicialmente justificadas como necessárias para defender vidas estadunidenses, detruir a Al-Qaeda, e erradicar o terrorismo, elas não atingiram nenhum desses objetivos. Nem resultaram em governos democráticos em nenhum desses países. Ao contrário, as centenas de milhares de vidas perdidas nestas guerras apenas desestabilizaram a região e intensificaram as divisões sectárias. Ao invés de dar suporte a movimentos democráticos, os EUA tem apoiado regimes ditatoriais no Egito e no Bahrein, e ajudado a fortalecer as monarquias mais cruéis e reacionárias na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes Unidos.

Os Estados Unidos têm também permitido a Israel escalar sua violência diária (com assaltos semi-regulares de matança em massa em Gaza), ocupação e expansão de assentamentos às custas de palestinos. E têm assistido enquanto os lados em enfrentamento na guerra civil síria tem dirigido um massacre que afogou as lutas sírias por democracia no sangue de centenas de milhares de seus cidadãos.

Dados o escopo e a escala da violência imperial estadunidense, é crucial que os Socialistas nos Estados Unidos se oponham às intervenções militares de seu governo. Tal posição é necessária para qualquer solidariedade genuína da classe trabalhadora. Toda vez que o governo dos EUA explode uma festa de casamento afegã ou ajuda a proteger um esquadrão da morte no Iraque; toda vez que ele envia alguém para apodrecer em uma prisão no Afeganistão ou na Baía de Guantánamo; toda vez que ele permite que a CIA torture um prisioneiro; torna a solidariedade de classe através das fronteiras mais remota.

Por que trabalhadores em outros países deveriam se aliar àqueles nos EUA, em nome de quem eles são bombardeados e ocupados? Na medida em que estadunidenses compram o nacionalismo que inevitavelmente segue as maquinações estrangeiras de seu governo, tornam a emergência de um movimento de classe contra a opressão e a exploração impossíveis.

Enquanto isso, a posição dos trabalhadores estadunidenses apenas se deteriora mais. Quando centenas de bilhões de dólares são gastos atacando países ao redor do globo, não estão disponíveis para programas de Bem-Estar Social que poderiam ajudar aqueles em casa. O desperdício de sangue e recursos, o racismo, e os levantes reacionários que acompanham as guerras no estrangeiro ricocheteiam para detrimento dos trabalhadores nos EUA. Em um tempo em que milhões de estadunidenses estão sofrendo com o desemprego e a pobreza, os mais de $2 trilhões gastos na invasão e ocupação do Iraque parecem cada vez mais obscenos.

Tudo isso significa que o movimento trabalhista estadunidense tem um incentivo material para se opor os desejos de guerra de seu próprio governo. É por esta razão que os Socialistas pensam que um movimento internacional da classe trabalhadora contra a guerra e o imperialismo não é apenas necessário, mas também possível.
O Inimigo em Casa

Entretanto, se Socialistas em um país como os EUA se opõem às guerras travadas por seus governos, não significa que eles são pacifistas. – ou seja, que eles se opõem a todas as guerras ou tem uma posição baseada em princípios contra qualquer tipo de violência. A questão é quem está travando a guerra e em nome de quais interesses e políticas.

Como o teórico militar do século XIX Carl von Clausewitz disse, “Guerra é a continuação da política por outros meios.” Clausewitz queria dizer que para entender o caráter de uma dada guerra, você tem de entender quem estava lutando e por quais propósitos. É claro, Clausewitz, um general prussiano nas guerras napoleônicas, não era bem um radical de Esquerda, mas seu ponto básico é um importante para os Socialistas compreenderem.

O movimento socialista quer erradicar a guerra por que ela é brutal e irracional – um desperdício de vida humana e recursos sociais que produz uma devastação enorme. Mas em um mundo cheio de exploração e opressão, é preciso diferenciar entre a violência daqueles lutando para manter a injustiça e aqueles lutando contra a injustiça.

Uma pessoa não pode, por exemplo, misturar a violência do apartheid sul-africano com aquela dos elementos armados do Congresso Nacional Africano de Nelson Mandela. O mesmo vale para a violência dos militares estadunidenses na Guerra do Vietnã – uma guerra que eventualmente matou 3.5 milhões de pessoas – e aquela da Frente de Libertação Nacional Vietnamita, que lutou para libertar o Vietnã da dominação estadunidense e francesa.

Para o movimento socialista, a máxima de Clausewitz aponta para a necessidade de pesar qualquer guerra na base dos interesses a que ela serve. Não é coincidência que socialistas como Marx e Engels apoiaram a União na Guerra Civil estadunidense, reconhecendo que apesar da fala de Lincoln de que sua intenção era reunir o país sem acabar com a escravidão, uma guerra [5] contra os Confederados se tornaria necessariamente uma guerra contra a classe dos proprietários das plantations [6]. De fato, como Lincoln – que nos anos 1840 se opôs à Guerra Mexicana-Estadunidense por que a via como um esforço para expandir a escravidão para novos territórios – veio a reconhecer, o Norte só poderia ter sucesso mobilizando os escravos em uma batalha por sua própria liberdade.

Nada disso é para sugerir que os Socialistas possuem uma abordagem puramente instrumental para com a violência – que nós pensamos, como tão comumente afirmam, que “os fins justificam os meios.” Em nossos esforços para atingir o tipo de mudança que procuramos, a violência só pode minar a nossa causa no longo prazo; nós nunca podemos esperar igualar a capacidade para a violência do Estado Capitalista, e nosso movimento somente será enfraquecido enquanto a luta pelo Socialismo for transformada de um conflito social e político em um militar.

Também não apoiamos necessariamente governos apenas por que acontece deles estarem em conflito com o nosso: não perdoamos a violência imperial, por exemplo, da Rússia e da China apenas por que eles estão ocasionalmente discordando dos nossos próprios dominadores.

Mais fundamentalmente, é importante deixar claro que nosso suporte por grupos lutando contra sua opressão, nas mãos do governo dos EUA ou de qualquer outro, não significa que seremos sempre acríticos com essas forças. Alguém precisa apenas olhar para os níveis crescentes de desigualdade e a penetração cada vez maior do Capitalismo Global na África do Sul desde a queda do Apartheid, ou no Vietnã desde a libertação, para ver que mesmo lutas vitoriosas não precisam produzir um resultado realmente justo. De fato, enquanto expressam solidariedade com movimentos desafiando a opressão, os Socialistas precisam estar dispostos a criticar aqueles que travam estas lutas, sempre que necessário – seja esta crítica feita em termos políticos, estratégicos ou mesmo morais.

Mas também não tratamos todos os lados em um conflito particular como se eles fossem o mesmo. Acima de tudo, nós nos opomos ao papel de nosso próprio governo na propagação de guerras, ou na expansão de sua influência militar e política, às custas das classes trabalhadoras do mundo. Como o revolucionário alemão Karl Liebknecht colocou em seu discurso durante a Primeira Guerra Mundial, nós entendemos que “o principal inimigo está em casa.”

Sobre esta base, nós esperamos forjar um movimento internacional que possa não apenas desafiar uma intervenção imperial específica, mas que possa representar uma ameaça às próprias fundações de um sistema que cria guerra e violência de massa numa escala sem-precedentes na História.
Além do Imperialismo

Hoje, a Esquerda é fraca demais para atingir esse objetivo. Nos Estados Unidos, o movimento trabalhista carece de capacidade para atividade sustentada contra a guerra. Mas o que o exemplo de Eugene Debs nos mostra é que existe uma longa história de oposição radical ao imperialismo [7] da qual nós podemos tirar esperança e inspiração.

A tradição anti-imperialista de Esquerda sobreviveu depois que o próprio Debs morreu. Se ela perdeu força durante os anos de Guerra Fria de repressão macartista após a Segunda Guerra Mundial, ela reviveu durante os anos 60 e 70. Figuras como Martin Luther King Jr. se tornaram vozes cada vez mais críticas da Guerra do Vietnã. Mesmo que ele seja frequentemente pintado como um moralista anódino, um precursor para o liberalismo multicultural, King foi na verdade um visionário cuja política se tornou cada vez mais radical em conjunto com o movimento que ele liderava. Nada expressava melhor esse radicalismo crescente do que sua decisão de se opor publicamente à Guerra do Vietnã – um movimento que mesmo seus conselheiros mais próximos recomendaram que ele não fizesse por causa de suas potenciais consequências políticas.

Ignorando seus conselhos, em 4 de abril de 1967, exatamente um ano antes de seu assassinato, King proferiu o discurso mais controverso de sua carreira. Falando para a Igreja Riverside de Nova Iorque, ele se abriu contra a Guerra do Vietnã e cobrou a administração de Johnson para que parasse sua campanha de bombardeio sem precedentes e iniciasse a retirada de meio milhão de tropas estadunidenses do Sudeste Asiático.

Denunciando a “loucura” da política da administração Democrata, King se focou na incrível brutalidade que as pessoas comuns no Vietnã encaravam nas mãos dos militares estadunidenses. “Eles devem ver os estadunidenses como estranhos libertadores,” ele concluiu, quando essa suposta libertação envolvia apoiar governos corruptos e anti-democráticos, destruir vilas inteiras, desflorestar o interior com napalm e Agente Laranja, e matar mulheres, crianças e idosos.

Uma estimativa conservadora das mortes civis geradas pela guerra é de 2 milhões, apenas entre Sul-Vietnamitas, de uma população de 19 milhões. Uma taxa análoga de baixas civis nos Estados Unidos hoje seria próxima de 33 milhões.

E sobre os soldados estadunidenses, na maioria esmagadora das vezes jovens tirados de comunidades rurais indigentes e guetos urbanos segregados? Notando o número desproporcional de afro-estadunidenses que haviam sido enviados para matar e morrer nos pântanos do Vietnã, King castigava a administração por “tirar os jovens negros que tinham sido acorrentados pela nossa sociedade e os enviar 8000 milhas para longe, para garantir liberdades no Sudeste Asiático que eles não haviam encontrado em Georgia ou no Harlem Leste.

King apontou que as esperanças de um esforço real para combater a pobreza nos EUA que haviam sido inspiradas pelo programa da “Grande Sociedade” de Johnson haviam sido destruídas pela escalada no Vietnã. Uma campanha genuína para erradicar a pobreza em casa seria impossível, ele havia concluído, “enquanto as aventuras como no Vietnã continuarem a sugar homens e talentos e dinheiro como um demoníaco tubo de sucção de destruição.”

Dado tudo isso, King disse que não poderia mais ficar em silêncio, apesar da forte pressão de seus supostos aliados na administração Johnson para evitar a crítica pública da política do governo para o Vietnã. Comparando a escala incrível de violência no Vietnã com a relativamente pequena destruição causada por uma série de revoltas que estouraram em muitas cidades grandes dos EUA – que haviam causado muita gritaria na mídia sobre a ameaça representada por “extremistas negros” – King descreveu sua percepção de “que eu não poderia nunca mais levantar minha voz contra a violência dos oprimidos nos guetos sem ter primeiro falado claramente do maior fornecedor de violência no mundo hoje: meu próprio governo.” Alguns dias depois, ele marchou em um protesto de massa contra a guerra no Central Park em Nova Iorque.

O discurso de King, conhecido pela posteridade como “Além do Vietnã,” fez com que ele ganhasse a ira mesmo de figuras antes simpatizantes no establishment progressista. Ele foi desconvidado de uma visita planejada com Johnson na Casa Branca. Um dos conselheiros do presidente escreveu privadamente que King havia “feito sua jogada com os ‘comunas’” [8]. Enquanto isso, ele foi atacado em editoriais que apareceram no dia seguinte em 168 jornais de maior circulação. O New York Times escreveu que sua denúncia da guerra era “um desperdício e auto-destrutiva.” O Washington Post fez ainda melhor, dizendo que King “diminuiu sua utilidade para sua causa, seu país e seu povo.”

O que King veio a entender [9] foi que o racismo e a desigualdade dentro do país, e a guerra no exterior, estavam interligados. Este reconhecimento o colocou em desacordo com seus antigos apoiadores progressistas, cujas vontades de desafiar o status quo acabaram – como é tão comum para o establishment progressista – quando a posição dos EUA como o maior poder imperial mundial entrou em questão.

Assim, ao confrontar estas questões e desafiar seus antigos amigos, King estava lidando com um conjunto de problemas que qualquer movimento social de massa que faça sérios avanços nos EUA vai ter de encarar, uma hora ou outra: você não pode falar sobre mudança social em seu país enquanto ignora a carnificina gerada pela política externa estadunidense. Para a Esquerda dos EUA, e especialmente qualquer futuro movimento socialista por aqui, essa é uma lição a ser aprendida.

29 de maio de 2016

Pobreza mundial

por Prabhat Patnaik


A Organização Internacional do Trabalho (OIT) publica todos os anos o World Employment and Social Outlook. O relatório deste ano, divulgado em 18 de maio, tem o sub-título "Transformar empregos para acabar com a pobreza". Ali se apresentam estimativas do nível da pobreza mundial e do montante das transferências de rendimento para os pobres necessário para acabar com a pobreza mundial.

Antes de ir a estas estimativas, vale a pena discutir como a OIT define pobreza. Ela utiliza a mensuração do Banco Mundial do ano 2011 de que viver abaixo dos US$1,90 por pessoa por dia é a definição de "pobreza extrema" e viver entre US$1,90 e US$3,10 por pessoa por dia constitui "pobreza moderada" em "países emergentes e em desenvolvimento". Estas linhas de pobreza são convertidas para as divisas locais destes países através da utilização das "paridades de poder de compra" (PPC) de 2011 e não das taxas de câmbio nominais.

A diferença entre estas duas taxas de câmbio pode ser entendida como se segue. A taxa de câmbio nominal entre a rúpia e o US dólar é aproximadamente cerca de 67 rúpias por dólar, mas se adotarmos um cabaz de bens e serviços, digamos que o cabaz consumido pelos grupos de rendimento mais baixos, então aquele cabaz não custa 67 vezes em rúpias indianas em comparação com o que custa em US dólares. Ele pode custar, digamos, 20 vezes em rúpias quanto custa em dólares, caso em que a taxa de câmbio PPC é de Rs20 por dólar e não Rs67. A taxa PPC utilizada na conversão da linha de pobreza de dólares para rúpias é, como já foi dito, aquela que prevaleceu em 2011.

Números como US1,90 e US$3,10 são eles próprios alcançados considerando as várias linhas de pobreza nacionais em 2011, convertendo-as em US dólares às taxas PPC de 2011 e a seguir fazendo uma média destas diferentes linhas de pobreza em dólares. Isto é então reconvertido para divisas nacionais às taxas PPC de 2011 para descobrir a partir de dados nacionais quantas pessoas vivem abaixo destes números. A população total a viver abaixo da linha de pobreza é assim estimada para o ano base 2011. Alguém pode então calcular números para os anos seguintes, isto é, para os anos depois de 2011, avançando a linha de pobreza de 2011 com um índice de preços.

A OIT descobriu que, para o ano 2012, dois bilhões de pessoas, ou 36,2 por cento da população total de "países emergentes e em desenvolvimento", era afligida por pobreza extrema ou moderada. Destes, 15 por cento eram afligidos por pobreza extrema e o resto por pobreza moderada. Tomando a população mundial como um todo, a qual era cerca de sete bilhões naquela data, aqueles afligidos por pobreza extrema ou moderada só nos países emergentes e em desenvolvimento (para os países desenvolvidos a pobreza é definida e estimada de uma maneira completamente diferente e tem estado a ascender ultimamente, mas ignoraremos esta pobreza por enquanto), constituem cerca de 30 por cento da população mundial.

A OIT afirma naturalmente que esta pobreza tem estado a declinar, mas uma vez que a linha de pobreza utilizada pela OIT (e obtida do Banco Mundial) deriva em última análise das linhas de pobreza nacionais, e visto que na base destas linhas de pobreza nacionais países como a Índia têm apregoado um declínio significativo na pobreza, não é surpreendente que a OIT também reflita esta afirmação. Por outras palavras, não se pode dar mais crédito à afirmação da OIT sobre o declínio da pobreza nos "países emergentes e em desenvolvimento" como um todo do que se dá à afirmação do governo indiano quanto ao declínio da pobreza neste país. Uma vez que esta última afirmação é completamente insustentável, e que a verdade acontece ser exatamente o oposto, exatamente o mesmo pode ser dito da afirmação da OIT.

Vamos entretanto deixar esta questão de lado por um momento. A OIT estima o que ela chama o "fosso do rendimento" ("income gap") o qual é a soma, tomando todas as pessoas pobres em conjunto, da diferença entre despesas de consumo per capita (ou de rendimento, se houver dados disponíveis sobre o rendimento) e a linha de pobreza. Por outras palavras, este é o montante de moeda que, se transferido para os pobres, de acordo com [o critério de] quanto o rendimento de cada pessoa pobre está aquém da linha de pobreza, eliminará toda a pobreza. O número que é exigido para eliminar tanto a pobreza extrema como a moderada chega a US$600 bilhões em 2012, o qual é 0,8 por cento do PIB mundial naquele ano.

Se dividirmos US$600 bilhões pelo número dos pobres, o qual é dois bilhões, obtemos então US$300 por ano, o que equivale a US$0,82 por dia. A pessoa pobre média nos países emergentes e em desenvolvimento do mundo, por outras palavras, tinha uma despesa diária que ficavam aquém da linha de pobreza dos US$3,10 em 82 centavos, ou apenas cerca de um quarto da linha de pobreza. Se este montante fosse disponibilizado para a pessoa pobre média todos os dias ou como transferência direta de rendimento ou através de medidas de proteção social, então os pobres do mundo seriam erguidos para fora da pobreza.

É claro que uma mera transferência pode não ser o melhor caminho para eliminar a pobreza; é sempre preferível assegurar que empregos de melhor qualidade fiquem disponíveis para os pobres. Mas a questão não é qual é o caminho ideal de eliminar a pobreza; a questão é quão pouco é preciso para eliminar a pobreza da face da terra. Uns meros 0,8 por cento do rendimento mundial é tudo quanto é preciso entregar ao mundo dos pobres para elevá-los acima da pobreza. E ainda assim a coisa notável é que nenhumas vozes se levantaram no sentido de efetuar tal transferência. Mesmo o relatório da OIT, tendo mencionado o nível minúsculo do fosso de rendimento em relação do PIB mundial, imediatamente passa a comparar este fosso não com o PIB do mundo como um todo mas só com os dos países emergentes e em desenvolvimento, como se só a estes últimos devesse ser deixada a responsabilidade de eliminar a pobreza no interior das suas economias.

Haveria sem dúvida alguma base para sugerir que os países afligidos pela pobreza são os únicos que deveriam arcar com o fardo da sua remoção se os diferentes países do mundo não estivessem conectados uns com os outros, se cada um fosse uma ilha separada. Contudo, isto obviamente não é o caso. Os "países emergentes e em desenvolvimento" são precisamente aqueles que foram subjugados como colônias e semi-colônias, com suas economias sistematicamente drenadas do excedente durante séculos, com o seu artesanato local destruído através das importações de bens metropolitanos, fabricando uma população excedente a partir das massas de artesãos e trabalhadores manuais e, dessa forma, engendrando a moderna pobreza em massa. Mesmo nos dias de hoje estão a ser acorrentados através da "globalização", suas economias abrem-se aos saqueios da finança especulativa, seus recursos naturais lançados abertamente para corporações multinacionais e seu campesinato e pequenos produtores sujeitos a um processo de acumulação primitiva por parte de corporações metropolitanas e das oligarquias corporativo-financeiras locais em que estão integradas. Mesmo o mais ligeiro esforço por parte destes países para dar quaisquer benefícios em favor dos pobres enfrentaria resistência e dispararia fugas de capitais. E controles de capital para restringir tais fugas convidariam a sanções e braços de ferro da parte de potências metropolitanas.

Em suma, uma vez que vivemos num mundo de "globalização" e supõem que nos devemos sentir gratos por este fato, a própria pobreza deveria ser encarada como um problemas global e a sua remoção como uma responsabilidade global. O que a OIT sugere é que esta responsabilidade representa quando muito um "fardo" minúsculo.

Entretanto, isto de fato não constitui um fardo para todos. Uma vez que a economia mundial está numa crise, os 0,8 por cento do PIB mundial que tem de ser disponibilizado para preencher o "fosso de rendimento" não tem de vir através da redução da absorção [do consumo] de quaisquer outros. Pode simplesmente produzir-se este montante extra colocando em uso o trabalho desempregado existente e o equipamento não utilizado. E além disso, se 0,8 por cento da produção existente for transferida para o mundo dos pobres como uma dádiva, então não só este montante virá da capacidade que atualmente permanece ociosa como um múltiplo dele será produzido a partir da utilização da capacidade ociosa.

Um exemplo tornará claro este ponto. Vamos assumir que a atual produção mundial é 100. Agora, se 0,8 unidades de bens forem produzidas, elas gerariam um montante equivalente de rendimento, uma parte do qual será gasto, gerando nova produção e rendimento, e uma parte poupada. Esta produção em suma gerara uma cadeia de despesas, e portanto de produção, através do que é chamado o "processo multiplicador". Se, digamos, um quarto do rendimento gerado é poupado habitualmente, então, para tornar 0,8 unidades disponíveis para os pobres do mundo, a produção mundial tem de aumentar em 3,2, da qual as poupanças seriam 0,8 (a qual o(s) governo(s) podiam tomar emprestado para financiar transferências para os pobres do mundo) e 2,4 de consumo adicional pelos não-pobres do mundo. Por outras palavras, a eliminação da pobreza mundial, longe de exigir uma restrição do consumo dos não-pobres, realmente permitirá um aumento no consumo dos não-pobres do mundo.

Naturalmente, uma vez que o mundo não tem apenas um governo mas sim muitos, como exatamente os 0,8 por cento da produção mundial devem ser contribuídos pelos diferentes governos tem de ser calculado. Mas, em princípio, nenhum sacrifício da parte de ninguém está implicado para ultrapassar a pobreza mundial. Ao contrário, ao assim fazer deixará outros em melhor situação.

O que impede a superação da pobreza mundial não é nem a relutância dos não-pobres a fazer sacrifícios (uma vez que nenhum sacrifício é necessário), nem mesmo os problemas de logística decorrentes do fato de haver muitos governos (estes também poderiam ser ordenados). O que impede é o próprio capitalismo, cuja ética, nas palavras de Kalecki, "exige 'Você ganhará o seu pão com suor' — a menos que aconteça ter meios privados". Fechar os fossos de rendimento é anátema para o capitalismo. E é um sintoma da atual hegemonia desta ética que — ao contrário de décadas atrás quando a Comissão Brandt pediu aos países desenvolvidos para contribuírem com um por cento do PIB para a "ajuda" aos países subdesenvolvidos, um pedido social-democrata, enraizado no "Keynesianismo Global" — hoje em dia já não esteja a ser proclamada. 

27 de maio de 2016

Silenciando a América, que se prepara para a guerra

por John Pilger

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Retornando aos Estados Unidos num ano eleitoral, estou impressionado pelo silêncio. Já cobri quatro campanhas presidenciais, a principiar pela de 1968; eu estava com Robert Kennedy quando ele foi alvejado e vi o seu assassino, a preparar-se para matá-lo. Foi um batismo no estilo americano, juntamente com a violência salivante da polícia de Chicago na convenção amanhada do Partido Democrático. A grande contra-revolução havia começado.

O primeiro a ser assassinado naquele ano, Martin Luther King, ousara ligar o sofrimento dos afro-americanos e o do povo do Vietname. Quando Janis Joplin cantava, "Liberdade é apenas outra palavra para nada deixar a perder", ela talvez falasse inconscientemente aos milhões de vítimas da América em lugares remotos.

"Perdemos 58 mil jovens soldados no Vietnã e eles morreram a defender a tua liberdade. Agora não os esqueça". Assim dizia um guia do Serviço de Parques Nacionais quando na semana passada filmei o Lincoln Memorial, em Washington. Ele dirigia-se a um grupo escolar de adolescentes em brilhantes t-shirts laranjas. Como que automaticamente, ele inverteu a verdade acerca do Vietnã convertendo-a numa mentira incontestada.

Os milhões de vietnamitas que morreram e foram mutilados e envenenados e desalojados pela invasão americana não têm lugar histórico nas mentes jovens, para não mencionar os estimados 60 mil veteranos que deram cabo das suas próprias vidas. Um amigo meu, um fuzileiro naval (marine) que ficou paraplégico no Vietname, era muitas vezes indagado: "A qual lado se opunha?"

Uns anos atrás comparecei a uma exibição popular chamada "O preço da liberdade" na venerável Smithsonian Institution, em Washington. Às filas de pessoas comuns, sobretudo crianças arrastadas numa caverna santa de revisionismo, era administrada uma vasta variedade de mentiras: o bombardeamento atômico de Hiroshima e Nagasaki salvou "um milhão de vida"; o Iraque foi "libertado [por] ataques aéreos de precisão sem precedentes". O tema era infalivelmente heroico: só americanos pagam o preço da liberdade.

A campanha eleitoral de 2016 é notável não só pela ascensão de Donald Trump e Bernie Sanders como também pela resiliência de um silêncio permanente acerca de um mortífero [estatuto] auto-concedido de divindade. Um terço dos membros das Nações Unidas já sentiu a bota de Washington, derrubando governos, subvertendo democracias, impondo bloqueios e boicotes. A maior parte dos presidentes responsáveis foram liberais –Truman, Kennedy, Johnson, Carter, Clinton, Obama.

O recorde sensacional de perfídia é tão mutante na mente do público, escreveu o falecido Harold Pinter, que ele "nunca aconteceu ... Nada alguma vez aconteceu. Mesmo quando estava a acontecer não estava acontecendo. Isso não importava. Não tinha interesse. Pouco importava...". Pinter exprimia uma admiração simulada pelo que chamava "uma manipulação bastante clínica do poder à escala mundial ao mesmo tempo que era mascarada como uma força para o bem universal. É brilhante, mesmo genial, um ato de hipnose com grande êxito".

Tome-se Obama. Quando ele se prepara para deixar o gabinete, começou outra vez toda a bajulação . Ele é "cool".Como um dos presidentes mais violentos, Obama deu rédea solta ao aparelho de fabricação de guerras do seu desacreditado antecessor. Ele perseguiu mais denunciantes – os que contavam verdades – do que qualquer outro presidente. Ele declarou Chelsea Manning culpada antes de ela ser examinada. Hoje, Obama dirige uma campanha mundial sem precedentes de terrorismo e assassinato através de drones.

Em 2009 Obama prometeu ajudar a "livrar o mundo de armas nucleares" e recebeu o Prêmio Nobel da Paz. Nenhum presidente americano construiu mais ogivas nucleares do que Obama. Ele está a "modernizar" o arsenal da America para o juízo final, incluindo uma nova "mini" arma nuclear, cuja dimensão e tecnologia "inteligente", disse um general proeminente, assegura que a sua utilização "já não é mais impensável".

James Bradley, o autor do best-seller Flags of Our Fathers e filho do fuzileiro naval dos EUA que asteou a bandeira sobre Iwo Jima, disse: "Um grande mito que estamos a assistir é esse de Obama como uma espécie de rapaz pacífico que está a tentar livrar-nos de armas nucleares. Ele é o maior belicista nuclear que há. Está a comprometer-nos numa corrida ruinosa de gastos de um milhão de milhões de dólares com mais armas nucleares. De certo modo, as pessoas vivem nesta fantasia de que como ele dá notícias vagas em conferências e discursos e aparece bem em fotografias isso de algum modo está ligado à política real. Não está".

Com Obama, uma segunda guerra fria está a caminho. O presidente russo é um vilão de pantomina; os chineses ainda não estão de volta à sua sinistra caricatura de macacos – quando todos os chineses forem banidos dos Estados Unidos – mas os guerreiros dos media trabalham para isso.

Nem Hillary Clinton nem Bernie Sanders mencionaram algo disto. Não há risco nem perigo para os Estados Unidos e todo nós; para eles, a maior acumulação militar nas fronteiras da Rússia desde a Segunda Guerra Mundial não aconteceu. No dia 11 de Maio a Romênia aceitou uma base de "defesa de mísseis" da Nato que aponta mísseis americanos de primeiro ataque ao coração da Rússia, a segunda potência nuclear do mundo.

Na Ásia, o Pentágono está a enviar navios, aviões e forças especiais para as Filipinas a fim de ameaçar a China. Os EUA já cercam a China com centenas de bases militares que se encurvam num arco desde a Austrália até a Ásia e através do Afeganistão. Obama chama a isto um "eixo central" ("pivot").

Como consequência direta, a China confirmadamente mudou sua política de armas nucleares do não-primeiro-uso para o alerta máximo e lançou ao mar submarinos com armas nucleares. A escada rolante está a acelerar.

Foi Hillary Clinton quem, como secretária de Estado em 2010, elevou as reivindicações territoriais que competiam por rochas e recifes no Mar do Sul da China a uma questão internacional. Seguiu-se a histeria da CNN e da BBC. A China estava a construir pistas de pouso nas ilhas disputadas. Num jogo de guerra gigante em 2015, a Operation Talisman Sabre, os EUA e a Austrália experimentaram "engasgar" os Estreitos de Málaca pelos quais passa a maior parte do petróleo e do comércio da China. Isto não foi noticiado.

Clinton declarou que a América tinha um "interesse nacional" naquelas águas. As Filipinas e o Vietname foram encorajados e subornados para prosseguirem com suas reivindicações e velhas inimizades contra a China. Na América, o povo está a ser intoxicado a fim de encarar qualquer posição defensiva chinesa como ofensiva e, assim, o terreno fica preparado para uma escalada rápida. Uma estratégia semelhante de provocação e propaganda é aplicada à Rússia.

Clinton, a "candidata das mulheres", deixa um rastro de golpes sangrentos: nas Honduras, na Líbia (mais o assassínio do presidente líbio) e na Ucrânia. Este último é agora um parque de diversões da CIA enxameado de nazis e a linha de frente de uma acenada guerra com a Rússia. Foi através da Ucrânia – literalmente, terra de fronteira – que os nazis de Hitler invadiram a União Soviética, a qual perdeu 27 milhões de pessoas. Esta catástrofe gigantesca permanece presente na Rússia. A campanha presidencial de Clinton tem recebido dinheiro de todas excepto uma das dez maiores companhias de armamento do mundo. Nenhum outro candidato se aproxima.

Sanders, a esperança de muitos jovens americanos, não é muito diferente de Clinton na sua visão de proprietário do mundo para além dos Estados Unidos. Ele apoiou o bombardeamento ilegal da Sérvia promovido por Clinton. Ele apoiou o terrorismo de Obama com drones, a provocação da Rússia e o retorno de forças especiais (esquadrões da morte) ao Iraque. Ele nada tem a dizer sobre os tambores de guerra com ameaças à China e quanto ao agravamento do risco de guerra nuclear. Ele concorda em que Edward Snowden deveria ser submetido a julgamento e chama Hugo Chavez – um social-democrata, como ele – de "ditador comunista morto". Ele promete apoiar Clinton se esta for nomeada.

A eleição de Trump ou de Clinton é a velha ilusão da escolha que não é escolha: dois lados da mesma moeda. Transformando minorias em bodes expiatórios e prometendo "tornar a América grande outra vez", Trump acaba por ser um populista interno de extrema direita; mas o perigo da Clinton pode ser mais letal para o mundo.

"Só Donald Trump não disse nada de significativo e crítico acerca da política externa dos EUA", escreveu Stephen Cohen, professor emérito de História Russa nas Universidades de Princeton e Nova York, um dos poucos peritos em Rússia nos Estados Unidos a falar acerca do risco de guerra.

Numa entrevista à rádio, Cohen referiu-se a questões críticas que só Trump levantou. Dentre elas: por que os Estados Unidos estão "por toda a parte do globo"? O que é a verdadeira missão da OTAN? Por que os EUA procuram sempre mudanças de regime no Iraque, Síria, Líbia, Ucrânia? Por que Washington trata a Rússia e Vladimir Putin como inimigos?

A histeria nos media liberais acerca de Trump serve a uma ilusão de "debate livre e aberto" e de "democracia a funcionar". Suas visões sobre imigrantes e muçulmanos são grotescas, mas o deportador-chefe de pessoas vulneráveis da América não é Trump e sim Obama, cujo legado é a traição às pessoas da sua cor: basta ver a acumulação nas prisões de uma população principalmente negra, agora mais numerosa do que no gulag de Stalin.

Esta campanha presidencial pode não ser acerca do populismo mas sim do liberalismo americano, uma ideologia que se vê a si própria como moderna e portanto superior e o único caminho consagrado. Aqueles à sua direita comportam-se como os cristãos imperialistas do século XIX, com um dever divino de converter ou cooptar ou conquistar.

Na Grã-Bretanha, isto é o blairismo. O criminoso de guerra cristão Tony Blair avançou com a sua preparação secreta para a invasão do Iraque em grande medida porque a classe política e os media liberais caíram no seu "orgulho britânico" ("cool Britannia"). No Guardian, o aplauso era ensurdecedor; ele foi chamado de "místico". Uma ilusão conhecida como política de identidade, importada dos Estados Unidos, acomodou-se facilmente aos seus cuidados.

A história foi declarada ultrapassada, a classe foi abolida e o gênero promovido como feminismo; montes de mulheres tornaram-se deputadas do New Labour. Desde o primeiro dia no Parlamento elas votaram pelo corte de benefícios a famílias monoparentais, sobretudo mulheres, como lhes foi instruído. A maioria votou por uma invasão que provocou 700 mil viúvas iraquianas.

O equivalente nos EUA são os politicamente corretos belicistas do New York Times, Washington Post e redes de TV que dominam o debate político. Era claro, disseram eles, que a um homem como aquele não podia ser confiada a Casa Branca. Nenhumas questões foram levantadas. Nada acerca dos 80 por cento de americanos cujo rendimento colapsou para os níveis da década de 1970. Nada sobre a deriva para a guerra. A sabedoria corrente parece ser "cuide do seu nariz" e vote por Clinton: qualquer um excepto Trump. Desse modo, você trava o monstro e preserva um sistema que silencia [a preparação de] uma nova guerra.

25 de maio de 2016

Eu estava lá

Uri Avnery


Tradução / “Por favor não escreva sobre Yair Golan!” – um amigo me pediu – “Qualquer coisa que um esquerdista como você escrever apenas irá piorar a situação dele!”.

Então, abstive-me por algumas semanas. Mas não posso mais manter o silêncio.

O general Yair Golan, Vice Chefe do Estado Maior do exército israelense, fizera um discurso no Dia de Memória do Holocausto. Vestindo seu uniforme, leu um texto preparado que desencadeou um terremoto que ainda não acabou.

Dezenas de artigos foram publicados em seguida, alguns o condenando e outros aplaudindo. Ninguém ficou indiferente.

A principal frase foi: “Se existe algo que me amedronta sobre as memórias do Holocausto, é o conhecimento dos horríveis processos que aconteceram na Europa em geral, e na Alemanha em particular,70, 80 e 90 anos atrás. E o surgimento de traços deles aqui em nosso meio, hoje, em 2016.”

O inferno desabou. O que??? Traços de nazismo em Israel? Uma semelhança entre o que os nazistas nos fizeram com o que estamos fazendo com os palestinos?

Há 90 anos era 1926, um dos últimos anos de república alemã. 80 anos atrás era 1936, três anos após os nazistas chegarem ao poder; 70 anos atrás era 1946, logo após o suicídio de Hitler e o fim da Reich nazista.

Eu me sinto compelido a escrever sobre o discurso do general porque, além de tudo, eu estava lá.

Quando criança fui testemunha ocular dos últimos anos da República de Weimar (assim chamada porque sua constituição tomou forma em Weimar, a cidade de Goethe e Schiller). Como menino politizado, assisti à Machtergreifung (“tomada de poder”) nazista e aos primeiros 6 meses de domínio nazista.

Eu conheço aquilo do que Golan estava falando. Apesar de pertencermos a gerações diferentes, partilhamos da mesma formação. Nossas duas famílias vieram de pequenas cidades da Alemanha Ocidental. O pai dele e eu devemos ter muito em comum.

Existe um mandamento estrito em Israel: nada pode ser comparado ao Holocausto. O Holocausto é único, aconteceu conosco, judeus, porque somos únicos (um judeu religioso acrescentaria: “Porque Deus nos escolheu”).

Eu quebrei este mandamento. Pouco antes de Golan nascer, publiquei (em hebraico) um livro chamado “A Swastika“, no qual recontei minhas memórias de infância e delas tentei tirar conclusões. Foi às vésperas do julgamento de Eichmann e fiquei chocado com a falta de conhecimento da era nazista entre a juventude israelense daquele tempo.

Meu livro não tratou do Holocausto, que se deu quando em já vivia na Palestina. Mas uma questão me perturbou pelos anos e até agora: como pôde acontecer que a Alemanha, talvez a nação mais culta do planeta naquele tempo, a pátria de Goethe, Beethoven e Kant, elegeu democraticamente um psicopata transtornado, como Adolf Hitler, para ser seu líder?

O último capítulo do livro era intitulado “Isso Pode Acontecer Aqui! ”. O título foi tirado de um livro do romancista americano Sinclair Lewis, ironicamente chamado “Isto Não Pode Acontecer Aqui”, no qual ele descrevia uma tomada dos Estados Unidos pelos nazistas.

Nesse capítulo, eu discutia a possibilidade de um partido judeu semelhante ao nazista chegar ao poder em Israel. Minha conclusão foi de que um partido nazista pode chegar ao poder em qualquer país do mundo, se houverem as condições certas. Sim, também em Israel.

O livro foi ignorado pelo grande público em Israel, que naquele tempo estava tomado pela tempestade de emoções evocadas pelas terríveis revelações do julgamento de Eichmann.

E agora vem o General Golan, um soldado profissional estimado, e diz a mesma coisa.

E não num comentário improvisado, mas numa ocasião oficial, vestindo seu uniforme de general, lendo um texto pensado.

A tempestade despencou e ainda não acabou.

Os israelenses têm um hábito de autoproteção: quando confrontados com verdades inconvenientes, fogem do argumento principal e se desviam para um aspecto secundário e pouco importante. De todas as dezenas e dezenas de reações na imprensa escrita, na TV ou em plataformas políticas, quase ninguém enfrentou os dolorosos argumentos do general.

Não, o debate furioso que irrompeu limitou-se às questões: É permitido a um oficial de alto escalão do exército manifestar-se sobre assuntos pertinentes ao establishment civil? E fazê-lo num uniforme militar? Numa ocasião oficial?

Deve um oficial do exército manter-se calado sobre suas convicções políticas? Ou faze-lo apenas em sessões fechadas – “em fóruns relevantes”, como vociferou um furioso Binyamin Netanyahu?

O general Golan goza de um alto grau de respeito entre os militares. Como Vice-Chefe do Estado Maior ele, até agora, era um candidato certo ao posto de Chefe do Estado Maior.

O cumprimento deste sonho, partilhado por qualquer oficial, tornou-se remoto. Na prática, Golan sacrificou qualquer futura promoção quando manifestou seu alerta, dando-lhe a maior ressonância possível.

Só há que se respeitar tal coragem. Acredito que nunca me encontrei com o general Golan e não conheço suas ideias políticas. Mas admiro o seu ato.

(Por alguma razão, recordei um artigo publicado na revista inglesa Punch, antes da 1ª Guerra Mundial, quando um grupo de recrutas publicou um manifesto se opondo à política do governo na Irlanda. A revista dizia que, mesmo desaprovando a opinião expressada pelos soldados, admirava muito o fato desses jovens soldados se mostrarem dispostos a sacrificar suas carreiras por suas próprias convicções).

A marcha nazista rumo ao poder começou em 1929, quando uma terrível crise mundial atingiu a Alemanha. Um partido de ultradireita frágil e ridículo tornou-se, subitamente, uma força política a ser combatida. Dali, levaram apenas quatro anos para se tornar o maior partido do país e assumir o governo (ainda que precisassem de uma coalizão).

Eu estava lá quando isso aconteceu. Um menino numa família na qual a política se tornara o principal assunto na mesa de jantar. Vi como a República foi destruída, gradual e lentamente, passo a passo. Vi os amigos da nossa família pendurando a bandeira da swastika. Eu vi meu professor do colégio estendendo seu braço ao entrar na sala, dizendo “Heil Hitler” pela primeira vez (e me assegurando em privado que nada havia mudado).

Eu era o único judeu de todo o ginásio. Quando as centenas de meninos – todos mais altos do que eu – levantaram seus braços para cantar o hino nazista e eu não, ameaçaram quebrar meus ossos caso isso acontecesse de novo. Poucos dias depois, deixamos a Alemanha.

O general Golan foi acusado de comparar Israel à Alemanha nazista. Nada disso Uma leitura cuidadosa do seu texto mostra que ele comparou os recentes acontecimentos em Israel aos eventos que levaram à desintegração da República de Weimar. E esta é uma comparação válida.

Os fatos que estão acontecendo em Israel, especialmente desde a última eleição, têm uma ameaçadora semelhança com esses eventos.

Mas o processo é bem diferente. O fascismo germânico surgiu da rendição humilhante da Alemanha na 1ª Guerra Mundial, da ocupação do Ruhr pela França e Bélgica de 1923 a 1925, da terrível crise econômica de1929 e a miséria de milhões de desempregados.

Por sua vez, Israel tem sido vitorioso em suas frequentes ações militares. Vivemos vidas confortáveis. Os perigos que nos ameaçam são de naturezas bem diferentes. Originam-se de nossas vitórias, não de derrotas,

Na verdade, as diferenças entre o Israel de hoje e a Alemanha de então são bem maiores do que as similaridades.

Mas essas similaridades existem sim. E o general estava certo ao apontá-las.

A discriminação contra os palestinos, em praticamente todas as esferas da vida, pode ser comparada ao tratamento dos judeus na primeira fase da Alemanha nazista (a opressão dos palestinos nos territórios ocupados lembra mais o tratamento dos tchecos no “protetorado” após a traição de Munique).

A enxurrada de leis racistas no Knesset, já aprovadas ou em tramitação, lembra fortemente as leis adotadas pelo Reichstag no início do regime nazistas. Alguns rabinos clamam pelo boicote a lojas árabes. Como então. Os gritos de “Morte aos árabes” (“Judah verrecke”?) é regularmente ouvido em jogos de futebol. Um membro do parlamento está propondo a separação entre os recém-nascidos judeus e os árabes nos hospitais. Um Rabino Chefe declarou que os Goyim (não judeus) foram criados por Deus para servir os judeus. Nossos ministros de Educação e Cultura estão ocupados em submeter as escolas, o teatro e as artes às ideias da extrema-direita. Algo conhecido na Alemanha como Gleichschaltung. A Suprema Corte, o orgulho de Israel, é incessantemente atacada pelo ministro da Justiça. A Faixa de Gaza é um grande gueto.

Claro que ninguém em sã consciência iria comparar, mesmo remotamente, Netanyahu ao Fuehrer. Mas existem aqui partidos políticos que emitem um forte cheiro de fascismo. Alguns membros do governo de Netanyahu encontrariam facilmente um lugar no primeiro governo nazista.

Um dos principais slogans do atual governo é de substituir a “velha elite”, considerada liberal demais, por uma nova. Um dos principais slogans nazistas era substituir “das System”.

Quando os nazistas chegaram ao poder, quase todos oficiais do primeiro escalão eram antinazistas convictos. Até consideraram um golpe contra Hitler. Seu líder político foi executado sumariamente um ano depois, quando Hitler liquidou os opositores no próprio partido.

Fomos informados de que o general Golan está agora protegido por um guarda-costas pessoal, algo que nunca aconteceu a um general nos anais de Israel.

O general não mencionou a ocupação e os assentamentos, que estão sob domínio militar. Mas mencionou o episódio que ocorreu poucos dias antes do seu discurso e que ainda está estremecendo Israel: Na Hebron ocupada, sob domínio do exército, um soldado matou um palestino ferido deitado no chão com um tiro na cabeça, a queima-roupa.

A vítima tinha tentado atacar soldados com uma faca, mas não representava mais nenhuma ameaça para ninguém. Foi uma clara contravenção às regras militares vigentes. O soldado foi submetido a uma corte marcial.

Um clamor percorreu o país: o soldado é um herói! Ele deve ser condecorado! Netanyahu telefonou para o pai dele, garantindo o seu apoio. Avigdor Lieberman entrou no salão da Corte lotado para exprimir sua solidariedade ao soldado. Poucos dias depois, Netanyahu nomeou Lieberman como Ministro da Defesa, o segundo principal cargo em Israel.

Antes disso, o general Golan recebera apoio robusto, tanto do Ministro de Defesa, Moshe Ya’alon, quanto do Chefe do Estado-Maior, Gadi Eisenkot. Provavelmente esta foi a razão imediata para a demissão de Ya’alon e a nomeação de Lieberman para o seu lugar. Pareceu um golpe.

Parece que Golan é não apenas um oficial corajoso, mas também um profeta. A inclusão do partido de Lieberman para a coalizão de governo confirma os piores temores de Golan. Este é um golpe fatal na democracia israelense.

Estou eu condenado a assistir ao mesmo processo pela segunda vez na minha vida?

24 de maio de 2016

Coisas que a esquerda precisa fazer direito

O deslize do comunismo em todo o mundo é devido à sua ambivalência em relação à globalização e democracia. A Esquerda Indiana tem demonstrado essa ambivalência, mas não tem nenhuma estratégia concreta de desenvolvimento alternativo.

Prabhat Patnaik


Graffiti de Lenin em Thrippunithura, Kerala. Foto: Thulasi Kakkat

Tradução / Exatamente a um século atrás, Vladimir Lenin estava em Zurique concluindo um manuscrito que mais tarde se tornaria o mais consequente livro do século vinte. Imperialismo, o estágio mais alto do capitalismo pode não ser a obra mais lida dos trabalhos de Lenin, mas é certamente a mais importante.

Ela arguia que uma era de revoluções havia chegado, desde a entrada do capitalismo no estágio onde guerras para a repartição de um já repartido mundo entre monopólios rivais se combinam, cada um aliado a um estado poderoso, e então deixariam aos trabalhadores optar entre matar colegas trabalhadores ao longo das trincheiras ou transformar a guerra imperialista em guerra civil para superar o sistema. E tendo em vista que o imperialismo era visto como uma cadeia que poderia ser quebrada em seus elos mais fracos, a obra incorporou conceitualmente problemas de libertação do terceiro mundo no processo de uma revolução mundial.

Declínio do comunismo

Imperialismo trouxe a revolução mundial para a agenda, e desenvolveu o marxismo em uma teoria da revolução mundial ao invés de ser uma mera teorização Europeia. Ela proveu bases conceituais para uma nova Internacional, do tipo nunca visto pelo mundo, onde delegados da Alemanha, França, Rússia e Itália estiveram juntos com os da China, Índia, Vietnam e México.

Eventos subsequentes confirmaram o prognóstico de Imperialismo em graus elevados. A Primeira Guerra Mundial, a Revolução Russa, os levantes revolucionários pós-guerra ao longo da Europa, a ascensão do fascismo, a Guerra Civil Espanhola, a ascensão do militarismo japonês, o ataque do Japão à China, a Segunda Guerra Mundial, a marcha do Exército Vermelho pela Europa para estabelecer regimes comunistas, e a onda revolucionária nascente na Ásia, onde todas as partes do cenário estavam em conformidade com o que Lênin tinha desenhado. Mas já ao final da Segunda Guerra Mundial, o mundo tem começado a mover-se para longe do que alguém poderia chamar de “conjuntura-leninista”. O mais estrondoso sucesso do comunismo era também ironicamente o começo de seu declínio.

O capitalismo fez três grandes “concessões” para afastar a ameaça comunista: descolonização, a instituição da democracia baseada em sufrágio universal e intervenção estatal no “gerenciamento da demanda” para manter altos índices de emprego (o que na Europa significou índices de “estado de bem-estar social” sob a Social Democracia). O fato de a democracia baseada no sufrágio universal ser um fenômeno pós-guerra em geral não é apreciado. Em verdade, ele chegou à Grã-Bretanha em 1928 quando as mulheres passaram a votar (não obstante algumas restrições residuais baseadas na propriedade); mas na França a primeira eleição baseada no sufrágio universal ocorreu apenas em 1945.

A intervenção do Estado no “gerenciamento da demanda” manteve agregados demanda e emprego em economias de capitalismo avançado, com o que facilitou altos níveis de investimento, crescimento externo e crescimento da produtividade do trabalho. O grande aumento da produtividade a seu turno levou ao incremento rápido e real em salários desde que índices de emprego estavam altos e os sindicatos consequentemente fortes. Uma intervenção desse tipo capta em síntese o que foi chamado de “Era de Ouro” do capitalismo, o período do começo dos anos cinquenta ao início dos anos setenta. Ironicamente, a “Era de Ouro” do capitalismo ocorreu não por conta do capitalismo, mas apesar dele, dentro de um regime que foi erigido contra seus desejos (pois ele tinha se oposto ao “gerenciamento de demanda” pelo Estado antes, e hoje novamente faz o mesmo), e como uma concessão isso teria de extirpar a ameaça comunista.

Em complemento, o período pós-guerra também assistiu a emergência dos EUA como líder inquestionável do mundo capitalista, e um abafador de rivalidades inter-imperialistas, inicialmente porque a Segunda Guerra Mundial tinha enfraquecido todos os protagonistas, exceto os EUA, e depois por causa da emergência do capital financeiro internacional ou globalizado que viu todo o particionamento do mundo como estando no caminho de sua liberdade de mover-se globalmente. A era de disputas para a repartição do mundo entre monopólios nacionalmente baseados rivais combinada estava acabada, desde que essa combinação não mais ocupava espaço central. Em resumo, a conjuntura Leninista foi superada; as guerras obviamente continuaram, mas elas não mais expressam rivalidade inter-imperialista, nem aproximadamente.

A frequentemente repetida questão, por que o comunismo entrou em colapso tão repentinamente tem, acredito, uma resposta simples: porque a premissa sobre a qual se fundava não mais se mantinha, a premissa de uma revolução mundial iminente. Com o recuo dessa iminência, o comunismo teve que se reinventar e reestruturar, para vir a termo com a conjuntura pós-leninista, para manter-se viável. Isso era suficientemente difícil; e tornou-se ainda mais difícil pela comum mas indesejável tendência entre revolucionários de colocar a moral puritana acima da prática política e de negar a não iminência da revolução.

Embora a conjuntura leninista tenha terminado com a guerra, esse fato não ficou aparente imediatamente. Além disso, o prestígio e o afeto adquiridos pelo comunismo (mesmo entre muitos que de outro modo o considerariam inaceitável) por conta da intensa luta contra o fascismo, camuflou por algum tempo o fato da sua perda de território. (Professor Joan Robinson, de Cambridge, quando alguém era muito crítico da União Soviética, costumava dizer: “Não esqueça de que sem a União Soviética não estaríamos sentados aqui como estamos”, referindo-se ao papel da União Soviética na derrota de Hitler.) Isso teve um efeito paradoxal: durante os anos da “Era de Ouro” quando se esperaria que o apelo do comunismo diminuísse, isso não ocorreu, enquanto na era da globalização quando as misérias das pessoas trabalhadoras se acumulam em qualquer lugar e o capitalismo está atenuando a democracia e o estado de bem-estar social, o comunismo, longe de ganhar terreno, aparentemente está em perda.

A incapacidade do comunismo lidar com uma conjuntura pós-leninista revela-se acima de tudo na sua ambivalência com relação à globalização. O que é verdade para a Esquerda Europeia em geral, e exibido mais recentemente pelo Syriza na Grécia: não importa o quão desagradável lhe pareça a hegemonia do capital financeiro que caracteriza a globalização, ele não pode contemplar o abalo dessa hegemonia desligando-se da globalização, pois enxerga qualquer tipo desse desligamento como uma retomada do “nacionalismo” que abomina. Os partidos comunistas sem dúvida são menos contidos por considerações como estas, e mais diretos na defesa do desligamento. Mas ainda que nominalmente seja este o caso, a eles também falta qualquer estratégia concreta de resposta à globalização. O Partido Comunista Grego (KKE) fez oposição maciça ao Syriza e criticou acidamente a sua capitulação ao financiamento da Alemanha; mas quase não tinha uma alternativa crível e concreta própria.

A incapacidade de o comunismo manter-se viável numa conjuntura pós-leninista também tem raízes na ambivalência que tradicionalmente ostentou diante da democracia. Do dito por G.V. Plekhanov’s, aceito por Lenin, de que em qualquer situação de conflito entre a revolução proletária e as instituições democráticas existentes, um revolucionário deve escolher a primeira, comunismo tendeu a ver instituições democráticas, muito mais fortes no mundo pós-guerra, como sendo secundárias na revolução que eles acreditavam ser iminente. Graças a esse legado ele cedeu o espaço de defensor primário das instituições democráticas sob ataque do capital financeiro na era da globalização para um segmento da social democracia (não-Blairista).

O caso da Esquerda Indiana

Em países onde os comunistas demonstraram sua ambivalência tanto na oposição à globalização quanto na defesa da democracia, eles mantiveram-se como uma força formidável; e a Índia é um desses países. Alguns contestariam a afirmação, citando o apoio do Partido Comunista da Índia à Emergência, o Partido Comunista da Índia (Marxista) impedindo Jyoti Basu de se tornar Primeiro Ministro, e a retirada dos dois partidos do apoio ao programa de governança da Aliança Progressiva Unida sobre o acordo nuclear com a os EUA. Cada um desses episódios, eles argumentariam, reforçou a Direita Hindu e constituiu evidência de que os comunistas não tomaram a sério o fortalecimento das instituições democráticas. Mas a culpa dos comunistas sobre estas questões dificilmente pode ser oposta a eles. O PCI tem sido autocrítico sobre o seu papel durante a Emergência; o PCI(M) apoiou a formação do governo da Frente Unida sem Jyoti Basu; e sobre o acordo nuclear o argumento mais persuasivo é que o erro da esquerda foi em primeiro lugar ter permito que a APU fosse à Agência Internacional de Energia Atômica.

O que é verdade, porém, é que mesmo os comunistas indianos, malgrado oporem-se à globalização e políticas neoliberais associadas, não traçou uma estratégia de desenvolvimento concreta. Sua oposição tomou a forma de identificar partidos específicos como neoliberais e negar qualquer relação com eles, o que tem dificultado lutas unificadas para a defesa do secularismo e da democracia. Mas a união com os outros nas lutas, nas plataformas, e até mesmo no governo, contra o Hindutva e forças semi-fascistas e com base em uma agenda alternativa concreta ao neoliberalismo, vai servir melhor ao povo.

23 de maio de 2016

Estratégia do golpe global

Manlio Dinucci


Que ligação existe entre entre sociedades geográfica, histórica e culturalmente distantes, do Kosovo à Líbia e a Síria, do Iraque ao Afeganistão, da Ucrânia ao Brasil e a Venezuela? O traço comum é serem sociedades arrastadas à estratégia global dos Estados Unidos, exemplificada pela “geografia” do Pentágono. 

O mundo inteiro se encontra dividido em “áreas de responsabilidade”, cada uma confiada a um dos seis “comandos combatentes unificados” dos Estados Unidos: o Comando Norte cobre a América do Norte, o Comando Sul a América do Sul, o Comando Europeu a região que compreende a Europa e a Rússia, o Comando África o continente africano, o Comando Central Oriente Médio e Ásia, e o Comando Pacífico a região da Ásia/Pacífico.

Aos seis comandos geográficos se somam três operando em escala mundial: o Comando estratégico (responsável pelas forças nucleares), o Comando para as operações especiais e o Comando para o transporte. À frente do Comando Europeu se encontra um general ou um almirante nomeado pelo presidente dos Estados Unidos, que assume automaticamente o encargo de Comandante supremo aliado na Europa.

A OTAN é assim inserida na cadeia de comando do Pentágono, ou seja, opera fundamentalmente em função da estratégia estadunidense. Esta consiste na eliminação de todo Estado ou movimento político-social que ameace os interesses políticos, econômicos e militares dos Estados Unidos que, embora sendo ainda a primeira potência mundial, estão perdendo terreno em face da emergência de novos sujeitos estatais e sociais.

Os instrumentos dessa estratégia são múltiplos: da guerra aberta – ver os ataques aéreos e terrestres na Iugoslávia, no Afeganistão, Iraque e Líbia – às operações secretas conduzidas nesses como em outros países, ultimamente a Síria e a Ucrânia. Para essas operações o Pentágono dispõe de forças especiais, cerca de 70 mil especialistas que “cada dia operam em mais de 80 países em escala mundial”. O Pentágono dispõe também de um exército na sombra de contratados (mercenários): no Afeganistão, segundo documenta a revista Foreign Policy, os mercenários do Pentágono são cerca de 29 mil, ou seja, três para cada soldado estadunidense; no Iraque, cerca de oito mil, dois em cada soldado estadunidense.

Aos mercenários do Pentágono se acrescentam aqueles que fazem parte da tentacular Comunidade de inteligência (informação) compreendendo, além da CIA, 15 outras agências federais. 

Os mercenários são duplamente úteis: eles podem assassinar e torturar, sem que isso seja atribuído aos EUA, e quando eles são assassinados, seus nomes não aparecem na lista dos mortos. Além disso, o Pentágono e os serviços secretos dispõem de grupos que eles armam e treinam, como os grupos islamitas utilizados para atacar de dentro da Líbia e da Síria, e os grupos neonazistas utilizados para o golpe de Estado na Ucrânia.

Outro instrumento da mesma estrategia são as “organizações não-governamentais” que, dotadas de enormes meios, são utilizadas pela CIA e pelo Departamento de Estado para ações de desestabilização interna e em nome da “defesa dos direitos dos cidadãos”.

No mesmo quadro entram a ação do grupo de Bilderberg – que o magistrado Ferdinando Imposimato denuncia como “um dos responsáveis da estratégia da tensão e dos massacres” na Itália, e a da Open Society do “investidor e filantropo George Soros”, artesão das “revoluções coloridas”.

No campo de visão da estratégia golpista de Washington encontram-se hoje o Brasil, para minar por dentro os BRICS, e a Venezuela, para minar a Aliança Bolivariana para as Américas (AlBA). Para desestabilizar a Venezuela – indica o Comando Sul em um documento descoberto recentemente – é necessário provocar “um cenário de tensão que permita combinar ações de rua com o emprego dosado da violência armada”.

22 de maio de 2016

União Europeia: bater a porta ou "renegociar tratados"? Um debate sem tabus!

Por um “independentismo” consequente

Georges Gastaud


Tradução / O tom dos discursos de Jean-Luc Mélenchon sobre a UE é cada vez mais denunciador e feliz: com francos acentos republicanos, o ex-candidato presidencial da Frente de Esquerda em 2012 denuncia vigorosamente a dominação do grande capital, de Berlim e dos EUA. sobre a UE; nos últimos tempos, ele faz fortemente a ligação –ao contrário dos estados-maiores do PCF-PGE e da CGT! – entre a lei El Khomri e o diktat que Bruxelas enviou à França em matéria da desregulamentação do mercado de trabalho.

No entanto, uma diferença de dimensão, que as forças progressistas devem discutir fraternalmente, separa a posição clara do PRCF, que se resume na expressão quatro saídas (do euro, da UE, da OTAN e do capitalismo), da posição defendida até agora por Jean-Luc Mélenchon. Dizendo isto nós não temos principalmente em vista as diferenças tradicionais que opõem reformadores e revolucionários sobre a ruptura revolucionária com o capitalismo: seria inútil, de fato, pedir a J-LM para se tornar, de repente, marxista-leninista dizendo, como o PRCF não deixou de fazer, que nenhuma alternativa à desintegração da nação pode emergir “se (não?) acreditamos na caminhada para o socialismo” (Lenin): um socialismo que sempre envolve a conquista do poder pela classe operária, o afastamento do grande capital e das forças contra-revolucionárias e a socialização dos meios de produção. A este respeito, o PRCF volta-se naturalmente para as forças verdadeiramente comunistas do nosso país, onde quer que elas militem, para a classe operária em luta (na Goodyear, Air France...) e para os sindicalistas “vermelhos” que compreenderam a natureza 100% regressiva do turbo-capitalismo atual: reconstruir um partido comunista de combate decorre na realidade da responsabilidade exclusiva dos militantes comunistas que devem reaprender a militar juntos, independentemente do PCF, cuja direção não é mais que um satélite da União Europeia (que subsidia o PGE presidido por P. Laurent) e uma força de apoio do PS (ver a proposta liquidatária de P. Laurent de dissolver o que resta do PCF nas primárias).

Não pedindo mais ao presidente fundador do Partido da Esquerda para se tornar comunista do que iriamos querer que exigisse de nós o contrário, desafiamos portanto cordialmente J.-L.M. a propósito da sua “saída dos tratados europeus”. Para nós, esta proposta que parece radical não visa mais que “reconstruir” a UE, não pode ser suficiente, quer para “gancho” da classe trabalhadora - força motriz essencial de uma possível ruptura progressista - nem para unir o nosso povo face à tenaz mortífera de U.M.-Pen-S nem a permitir, se fosse colocadas em prática após a ascensão ao poder da verdadeira esquerda, consolidar a mudança e contrariar a inevitável contra-ofensiva fascista da reação.

O PRCF: sair o mais cedo possível para evitar “lá ficar”!

Qual é então a proposta estratégica do PRCF? Ela parte de uma ideia simples, não sendo necessário ser marxista para a compartilhar: é de fato Jean-Jacques Rousseau que demonstra no Contrato Social que a soberania do povo é inalienável, não tem que se negociar, que ela se afirma desde o início, em toda a sua força irruptiva... ou não é nada. Irmã gêmea da soberania popular, a soberania da nação não é negociável: ela toma-se. Sair da UE, do euro, da OTAN, as três principais amarras supranacionais e atlânticas de onde derivam todas as outras grilhetas que nos estrangulam não poderia portanto, em princípio, estar sujeito a negociação; o simples fato de negociar sobre isso já significa que a França... não existe, que depende de outros... para ser independente, e que, na melhor das hipóteses é uma província recalcitrante do império europeu a um passo de se tornar a “União Transatlântica”; em suma, que a falecida República Francesa fundada por Robespierre e refundada pelo CNR não passa de um país menor, desprovido de dignidade nacional. Ora não podemos mais ser “semi-independentes“, como não se pode dizer que se é meio virgem... Pelo contrário, proclamar que “o povo soberano avança”, sem pedir ou implorar, à imagem da Marianne de Delacroix rodeada pelo combatente trabalhador, dos intelectuais em armas e do juvenil Gavroche, é levar totalmente a sério a desobediência, a insubordinação, em suma, a independência política das pessoas e seus componentes combativos: assalariados em luta, intelectuais progressistas, juventude em rebelião, mas também camponeses e artesãos unindo-se sob os emblemas conjuntos da bandeira tricolor e do barrete frígio vermelho. Declarar aqui e agora que estamos dispostos a bater com a porta da UE atlântica é chamar as forças do trabalho e do progresso à luta sem tréguas, é impedir o avanço lamentável das retrações de um Tsipras, as ridículas de um “Não Podemos” repetindo um Iglésias, é renunciar ao futuro, não ao nobre compromisso ecológico, mas às alianças sem futuro com euro-federalistas “verdes”; é também cortar rente a sempiterna indecência do hollando-Maastrichtiano PS querido da direção do PCF, unicamente preocupado em salvar as suas posições parlamentares, caucionando o primado socialista...

Da euro-renegociação ao atolamento

Suponhamos, pelo contrário, que uma vez eleito o candidato dos franceses rebeldes enceta uma saída dos tratados, mas não do euro, da UE e da OTAN, em suma, que ele propõe a “renegociação dos tratados ” europeus no quadro da UE. Ei-lo imediatamente por longos meses à mercê dos proprietários do euro, portanto incapaz de realmente decidir o orçamento nacional sempre sujeito ao BCE (ou seja, a Merkel). Ei-lo ameaçado de ser levado a qualquer momento nas aventuras bélicas da OTAN (isto é, do imperialista chefe Trump ou Clinton). Ei-lo incapaz de parar nas fronteiras as grandes fortunas que terminam migrando para o Panamá e de parar o reembolso da “dívida” aos mercados usurários. Porque para tudo isso são precisos instrumentos (políticos, econômicos, militares, diplomáticos...) NACIONAIS, e isto é tanto verdade que mais vale partir armado para a guerra que esperar pela batalha para se armar. Incapacidade também para (re) nacionalizar francamente - sem indenizações para os grandes acionistas saqueadores - os setores estratégicos da economia, banca, indústria pesada, comércio, infra-estruturas, e impotência para proibir as deslocalizações que, evidentemente, iriam acelerar da noite para o dia, ou mesmo simplesmente para proteger a nossa língua nacional engolida pelo “tudo-inglês transatlântico”, visto que qualquer medida de proteção linguística ou cultural chocará imediatamente com enormes emendas europeias (em nome do "mercado único") e o disparar de alertas jurídicos perante as instâncias supranacionais.

Eis que, pelo contrário, o novo governo progressista, após vários meses de “renegociação” dos tratados (se de renegociação se trata!), não pronto a agir e a mudar a vida como esperavam legitimamente dezenas de milhões de franceses que vivem mal, mas a um passo de organizar um referendo sobre o resultado das negociações com... uma nova campanha eleitoral nos braços: é, na verdade, o que se propõe fazer o Sr. David Cameron na Grã-Bretanha, sobre as bases de direita que são as suas, e o que – ao serviço de uma política ultra-reacionária diametralmente oposta àquela proposta por JL Mélenchon - recentemente proposta por Marion Le Pen ao matinal France-Inter. Recordemos além disso que em 29 de maio de 2005 o povo francês disse não à constituição supranacional e não ao “renegociar tratados fundadores”. Mais do que reconstituir a mortífera UE sobre improváveis bases progressistas, a saída da UE apelaria, ao contrário, ao restaurar a nação republicana, una, laica, indivisível e social: o que não deveria assustar um apoiante consequente da 6ª República .

Fraqueza mobilizadora

Certamente que JL Mélenchon guarda debaixo do braço um “plano B”, que é a saída pura e simples do euro e da UE, se Berlim, de quem medimos o sentido de diálogo desde Atenas a Madrid, não nos ouvisse. Além de que dentro das relações de forças inter-imperialistas atuais, a mastodôntica ” República de Berlim, “sustentada por Washington, tem um prazer perverso em humilhar aqueles que querem negociar no QUADRO ARMADILHADO da UE / Euro / OTAN, se está mesmo a ver que este plano B se arrisca a vir tarde demais, a ser torpedeado de cem maneiras pela parte mais moderada da esquerda popular inclinada a “renegociar” o euro, em suma, a atuar plenamente fora de época e quando o nosso país já foi posto financeiramente de joelhos pela conjugação do euro-cartel de Bruxelas e das forças oligárquicas que todos os dias estão destruindo o nosso país a partir de dentro?

Pode certamente dizer-se que, taticamente, pode ser útil demonstrar aos franceses progressistas que ainda duvidam que a ruptura vem da UE e não da França e que, na realidade, a “saída dos tratados” leva automaticamente à saída simplesmente. Mas se for esse o caso ainda que não se diga e, neste caso, cultivamos a ambiguidade, a divisão, a vacilação, e no final, a decomposição do campo progressista; ainda que se proclame: neste caso, não há nenhum plano A nem plano B e, não sendo a classe trabalhadora mais estúpida do que a oligarquia, devemos preparar-nos e prepará-la para a acção imediata: o que é sempre mais fácil se for dita a verdade do que se a envolvermos em centos de cláusulas desmoralizantes. Não só este posicionamento FRANCO E DIRECTO não iria prejudicar o reagrupamento popular maioritário, como iria criar o confronto de que as classes populares precisam para se engajar, expandir as lutas sociais e atrair as classes médias; porque até agora estas últimas dão o tom à esquerda conduzindo o campo progressista a ceder á FN o campo do radicalismo patriótico (falso!), sem efectivamente ter eficácia no terreno do progresso social e da cooperação internacional.

Unilateralismo progressista

Vejamos além disso os países sul-americanos da ALBA: eles exigiram a renegociação dos tratados neoliberais e supranacionais que os ligavam a Wall Street? Não, eles recuperaram a sua soberania de forma unilateral pela aplicação de acções de luta, através de medidas sociais imediatas, pelo estabelecimento de cooperação internacional, Estado a Estado, à “economia de mercado “aberta ao mundo onde a concorrência é livre e não falseada” (Maastricht). E se alguns países latino-americanos recentemente recuaram perante a ofensiva conjunta da ultra-direita e de Washington, é porque se mantiveram muito fiéis a este programa de ruptura ou porque, pelo contrário, por falta de suficiente influência dos partidos comunistas locais, a classe trabalhadora não pode (ainda) conduzir honestamente o processo de ruptura? Progresso social, democracia popular de massas, independência nacional, cooperação internacional, tudo isso requer o confronto com o grande capital e é por isso que - dizemos nós como comunistas sem forçar ninguém a ir tão longe, é a experiência quem vai decidir - o processo de ruptura franco com a ordem neoliberal euro-atlântica, ou então não podem ter, segundo nós, uma saída.

Dialogar para reagrupar

Significa isso quebrar as pontes entre aqueles que, de maneira consequentemente republicana como o PRCF, usam o slogan “para sair, é preciso sair! (da UE atlântica) “- e os republicanos não-comunistas que caminham pouco a pouco em direcção a essa palavra de ordem - tornar-se-á difícil para qualquer um, milhares de vezes experimentada a nocividade da UE - defender a não-encontrada “Europa social” das esquerdas reformistas, ou a impossível e chauvinista “Europa à francesa”, do “soberanismo” direitista?

De modo nenhum! O que propomos em vez disso, não só ao cidadão Mélenchon, mas a todos aqueles que querem construir o FR.AP.PE (Frente Antifascista, Patriótica, Popular e Ecológica) para reabrir á França o caminho do progresso, é discutir conjuntamente, fraternalmente e publicamente, sobre o “como” da emancipação popular: façamos de maneira que todas as oportunidades sejam boas, lutas reivindicativas e lutas cívicas, resistências anti-imperialistas, mobilizações antifascistas, anti-racistas. Dias e noites a pé, desaires eleitorais diversos, para ABRIR FINALMENTE PÚBLICAMENTE O DEBATE SEM TABU E SEM EXCLUSIVO sobre a ruptura com a UE atlântica e o seu funesto euro.

19 de maio de 2016

Sementes do suicídio

por Vandana Shiva

The Asian Age

Tradução / O 22 de maio foi declarado Dia Internacional da Biodiversidade pela ONU. Isso oferece oportunidade de tomar consciência da rica biodiversidade desenvolvida por nossos agricultores, como cocriadores junto à natureza. Também permite tomar conhecimento das ameaças que as monoculturas e os monopólios de Direitos de Propriedade representam para nossa biodiversidade e nossos direitos.

Assim como nossos Vedas e Upanishads não possuem autores individuais, nossa rica biodiversidade, que inclui as sementes, desenvolveu-se cumulativamente. Tais sementes são a herança comum das comunidades agrícolas que as lavraram coletivamente. Estive recentemente com tribos da Índia Central, que desenvolveram milhares de variedades de arroz para o seu festival de “Akti”. Akti é uma celebração do convívio entre a semente e o solo, e do compartilhamento da semente como dever sagrado para com a Terra e a comunidade.

Além de aprender sobre as sementes com as mulheres e os camponeses, tive a honra de participar e contribuir com leis nacionais e internacionais sobre biodiversidade. Trabalhei junto ao governo indiano nos preparativos para a Cúpula da Terra Rio-92, quando a Convenção sobre Biodivesidade da ONU (CBD) foi adotada pela comunidade internacional. Os três compromissos-chave da CBD são a proteção dos direitos soberanos dos países sobre sua biodiversidade, do conhecimento tradicional das comunidades, e da biossegurança, no contexto de alimentos geneticamente modificados.

A ONU indicou-me para integrar o painel de especialistas encarregado de pensar o protocolo de biossegurança, adotado como Protocolo de Cartagena sobre Biossegurança. Fui indicada como membro do grupo de especialistas que desenhou a Lei Nacional sobre Biodiversidade, assim como a Lei sobre Variedade de Plantas e Direitos dos Agricultores, na Índia. Em nossas leis, garantimos o reconhecimento dos direitos dos agricultores. “Um agricultor deve ser considerado capaz de conservar, usar, semear, ressemear, trocar, compartilhar ou vender seus produtos agrícolas, incluindo as sementes de variedades protegidas por esta lei, do mesmo modo que estava autorizado antes da vigência dela”, diz o texto.

Trabalhamos nas últimas três décadas para proteger a diversidade e a integridade de nossas sementes, os direitos dos agricultores, e resistir e desafiar os monopólios de propriedade intelectual ilegítimos de empresas como a Monsanto, que faz engenharia genética para exigir patentes e royalties.

Patentes de sementes são injustas e injustificáveis. Uma patente ou qualquer direito de propriedade intelectual é um monopólio garantido pela sociedade em troca de benefícios. Mas a sociedade não se beneficia de sementes tóxicas e não renováveis. Estamos perdendo biodiversidade e diversidade cultural, estamos perdendo nutrição, sabor e qualidade em nossos alimentos. Sobretudo, estamos perdendo nossa liberdade fundamental de decidir quais sementes plantaremos, como iremos cultivar nosso alimento e o que iremos comer.

De bem comum, as sementes transformaram-se em commodities de empresas privadas de biotecnologia. Se elas não forem protegidas e colocadas novamente nas mãos de nossos agricultores, corremos o risco de perdê-las para sempre.

Em todo o mundo, as comunidades estão armazenando e trocando sementes de diversas maneiras, conforme cada contexto. Estão criando e recriando liberdade – para a semente, para os protetores das sementes, para a vida e para todas as pessoas. Quando conservamos uma semente, também renovamos e restauramos o conhecimento – o conhecimento da reprodução e da conservação, o conhecimento do alimento e da agricultura. A uniformidade tem sido usada como medida pseudocientífica para criar monopólios de propriedade intelectual sobre sementes. Uma vez que uma empresa tem patente sobre sementes, ela empurra para os agricultores suas produções patenteadas para receber royalties.

A humanidade tem se alimentado de milhares (8.500) de espécies de plantas. Hoje estamos condenados a comer milho e soja geneticamente modificados de diferentes formas. Quatro culturas principais – milho, soja, canola e algodão – têm sido todas cultivadas às custas de outros cultivos, porque geram royalties por cada hectare plantado. A Índia, por exemplo, cultivava 1.500 tipos diferentes de algodão, e agora 95% são Algodão Bt, geneticamente modificado, pelo qual a Monsanto recebe royalties. Mais de 11 milhões de hectares de terra são empregados no cultivo de algodão. Destes, 9,5 milhões são usados para cultivar a variedade Bt da Monsanto.

Uma pergunta comum é: por que razão os agricultores adotam o algodão Bt, já que os prejudica? Mas os agricultores não escolhem o algodão Bt. Eles são obrigados a comprá-lo, uma vez que todas as outras alternativas estão destruídas. O monopólio de sementes é imposto pela Monsanto através de três mecanismos:


  • Fazer com que os agricultores desistam das velhas sementes, o que no jargão da indústria é chamado de “substituição de semente”.
  • Influir junto às instituições públicas para deter a reprodução das sementes tradicionais. O Instituto Central de Pesquisa do Algodão (CCIR, na sigla em inglês) da Índia não liberou variedades de algodão para a região de Vidharba, depois que a Monsanto entrou com suas sementes de algodão Bt.
  • Manter as empresas indianas presas a acordos de licenciamento.


Esses mecanismos coercitivos, corruptos estão agora caindo por terra. A rede Navdanya criou bancos de sementes comunitários aos quais os agricultores têm acesso para obter sementes nativas orgânicas e polinizadas. O CCIR, sob a liderança do Dr. Keshav Kranti, está desenvolvendo variedades nativas de algodão. Finalmente, o governo também interveio para regular o monopólio da Monsanto. Em 8 de março, baixou uma ordem de controle do preço da semente sob a Lei de Commodities Essenciais.

A Monsanto e a indústria de biotecnologia desafiaram a ordem do governo. Entramos com uma ação na corte superior do estado de Karnataka. Em 3 de maio, a Justiça de Bopanna baixou uma ordem reafirmando que o governo tem o dever de regular os preços das sementes e a Monsanto não tem o direito ao seu monopólio. A biodiversidade e os pequenos agricultores são a base da segurança alimentar, e não corporações como a Monsanto, que estão destruindo a biodiversidade e levando os agricultores ao suicídio. Esses crimes contra a humanidade precisam parar. Essa é a razão pela qual em 16 de outubro, Dia Internacional do Alimento, vamos organizar em Haia um Tribunal da Monsanto para “julgar” a corporação por seus vários crimes.