31 de julho de 2016

Por uma internacional progessista

Yanis Varoufakis

Project Syndicate

Tradução / A política nas economias avançadas do Ocidente está passando por um estremecimento político não visto desde 1930. A Grande Deflação que agora está arrebatando os dois lados do Atlântico está revivendo forças políticas que estavam dormentes desde o final da II Guerra Mundial. A paixão está voltando para a política, mas não do jeito que esperávamos.

A direita se animou com um fervor anti-establishment que era, até recentemente, uma reserva da esquerda. Nos Estados Unidos, Donald Trump, o candidato presidencial dos Republicanos, está desafiando sua oponente Democrata, Hillary Clinton, por seus laços com Wall Street, pela vontade de invadir terras estrangeiras e a prontidão em abraçar acordos de livre-comércio que têm prejudicado o padrão de vida de milhões de trabalhadores. No Reino Unido, o Brexit colocou Thatcheristas ardorosos no papel de defensores entusiastas do Serviço Nacional de Saúde.

Essa mudança não é sem precedentes. A direita populista tradicionalmente adotou retóricas quase de esquerda em tempos de deflação. Qualquer um que tenha estômago para aguentar revisitar os discursos de líderes fascistas e nazistas dos anos 1920 e 1930 irá encontrar apelos – os louvores de Benito Mussolini à seguridade social ou as críticas ferinas de Joseph Goebbels ao setor financeiro – que parecem, a uma primeira vista, indissociáveis de objetivos progressistas.

O que estamos vivenciando hoje é a repercussão natural da implosão de políticas centristas, devido a uma crise do capitalismo global na qual um colapso financeiro levou a uma Grande Recessão e à grande deflação de hoje. A direita está simplesmente repetindo seu velho truque de se aproveitar da raiva e frustração das vítimas para avançar com sua agenda repugnante.

Tudo começou com a morte do sistema monetário internacional estabelecido em Bretton Woods em 1944, que forjou um consenso político no período do pós-guerra, baseado em uma economia “mista” que colocava limites à desigualdade, e forte regulação financeira. Essa “era de ouro” se foi com o chamado choque de Nixon em 1971, quando os Estados Unidos deixou de gerar excedentes que, reciclados internacionalmente, mantinham o capitalismo global estável.

Em especial, a hegemonia norte-americana cresceu nessa segunda fase pós-guerra em paralelo com seus déficits do comércio exterior e orçamentário. Mas para continuar financiando esses déficits, os banqueiros tinham que ser libertados de suas restrições do New Deal e de Bretton Woods. Somente então iriam estimular e gerenciar os fluxos de capital para dentro do país, necessários para financiar seus déficits fiscal e da balança de transações correntes.

A financeirização da economia era o objetivo, o neoliberalismo era sua capa ideológica, o aumento das taxas de juros da era Paul Volcker do Federal Reserve eram seu gatilho e o presidente Bill Clinton era o último a fechar essa barganha faustiana. E o timing não poderia ter sido mais agradável: o colapso do império soviético e a abertura da China geraram a aparição de mão-de- obra para o capitalismo global – um bilhão de trabalhadores a mais – que aumentaram os lucros e contiveram os aumentos do salário em todo o Ocidente.

O resultado da extrema financerização foi uma desigualdade enorme e uma vulnerabilidade profunda. Mas ao menos a classe trabalhadora do Ocidente tinha acesso a empréstimos baratos e preços de moradia inflacionados para compensar o impacto dos salários estagnados e das transferências fiscais em declínio.

Então veio a crise de 2008 que, nos EUA e na Europa, produziu um excesso massivo tanto de pessoas como de dinheiro. Enquanto muitos perdiam seu empregos, suas casas e suas esperanças, trilhões de dólares em poupanças esparramavam-se pelos centros financeiros mundiais desde então, por cima de mais trilhões que foram bombeados pelos desesperados bancos centrais ansiosos por substituir o dinheiro tóxico dos financistas. Com as empresas e os atores institucionais muito assustados para investir na economia real, os preços das ações explodiram (os 0,1% do topo não conseguem acreditar em sua sorte), e o resto assiste sem esperanças enquanto as vinhas da ira estão “engrossando e ficando mais pesadas, crescendo pesadas para a colheita.”

E assim essa grande parte da população na América do Norte e na Europa se tornou muito endividada e muito cara para serem qualquer coisa senão descartados – e prontas para serem manipuladas por Trump através da tática do medo, pela xenofobia de Marine Le Pen líder do Front Nacional Francês, ou pela visão dos adeptos do “Brexit” de um Reino Unido que passaram a dominar novamente. Enquanto eles crescem, os partidos políticos tradicionais estão caindo na irrelevância, suplantados pela emergência de dois novos blocos políticos.

Um bloco representa a velha troika da liberalização, globalização e financeirização. Pode ainda estar no poder, mas seu estoque está se esgotando rapidamente, como podem atestar David Cameron, os democratas socialistas da Europa, Hillary Clinton, a Comissão Européia, e até o governo do Syriza pós-capitulação.

Trump, Le Pen, os adeptos do “Brexit” de direita do Reino Unido, os governos iliberais da Polônia e da Hungria e o presidente russo Vladimir Putin estão formando o segundo bloco. O deles é uma internacional nacionalista – uma criatura clássica em períodos deflacionários – unidos por um desprezo à democracia liberal e à capacidade de mobilizar aqueles que poderiam esmaga-la.

O conflito entre esses dois blocos é real e enganoso. Clinton vs. Trump constitui uma batalha genuína, por exemplo, como é a União Européia vs. os adeptos do “Brexit”; mas os dois combatentes são cúmplices, não adversários, em perpetuar um “looping” interminável de fortalecimento mútuo, com cada lado definido pelo que se opõe – e mobilizando seus apoiadores para isso.

O único jeito de sair dessa armadilha política é um internacionalismo progressista, baseado na solidariedade entre as grandes maiorias ao redor do mundo que estão preparadas para reavivar políticas democráticas em uma escala planetária. Se isso soa utópico, é válido enfatizar que a matéria prima já está disponível.

A “revolução política” de Bernie Sanders nos EUA, a liderança de Jeremy Corbyn do Partido dos Trabalhadores no Reino Unido e o DiEm25 (Movimento “Democracia na Europa”) no continente, estes são os prenúncios de um movimento por uma internacional progressista que pode definir o terreno intelectual sobre o qual cada política democrática precisa ser construída. Mas estamos em um estágio inicial e enfrentamos uma reação negativa da troika global: veja-se o tratamento que teve Sanders pelo Comitê Nacional Democrata, a corrida contra Corbyn por um ex-farmacêutico lobista e a tentativa de me condenarem por ter ousado enfrentar os planos da União Européia para a Grécia.

A Grande Deflação coloca uma grande questão: pode a humanidade produzir e implementar uma nova e avançada Bretton Woods “verde” - um sistema que torne o nosso planeta ecológica e economicamente sustentável – sem a dor em massa e destruição que precederam o Bretton Woods original?

Se nós – internacionalistas progressistas – não respondermos essa questão, quem irá? Nenhum dos dois blocos políticos que estão lutando pelo poder no Ocidente nem querem que isso seja posto.

FMI: confessar o pecado, a fim de repetí-lo

Yanis Varoufakis

Thoughts for the post-2008 world

Você leu sobre a mais recente confissão FMI sobre a sua imolação da Grécia. A pergunta é: Será que é um sinal de mudança nas políticas? Não prenda sua respiração! A história recente está a apontar para uma repetição do crime contra a lógica cometido pela primeira vez em 2012 - uma tática do FMI de confessar o pecado, a fim de repeti-lo impunemente!

Em junho de 2015, Olivier Blanchard, então economista-chefe do FMI, publicou um artigo que à primeira vista parecia razoável: os dois lados (a troika e Atenas) deviam fazer concessões, reconhecer que os dois lados tinham responsabilidades na Grande Depressão da Grécia (a troika por não ter promovido nenhum alívio na dívida; e Atenas por não ter feito reformas suficientes). Exame mais detido daquele artigo, porém, revelou que Blanchard servia-se daquela publicação para alertar que o FMI preparava-se para esmagar a Grécia. Outra vez!

Bill Black respondeu a Blanchard com um artigo cortante intitulado "The FMI 'Defense' of it Actions against the Greeks is an Unintended Confession". A essência do argumento de Bill:

"Ainda que acreditasse nos próprios dogmas e nas próprias 'projeções' estupidamente otimistas, o plano de 2012 da troika foi concebido para deixar a Grécia em situação econômica desastrosa. Só depois de ter condenado o povo grego ao purgatório mais sem sentido, de uma década de desastre, a troika consideraria admitir algum alívio na dívida (...). O único 'alívio da dívida' que se dispõem a discutir é um 'longo reescalonamento de pagamentos com juros baixos'. Isso, segundo os próprios dogmas da troika, encarcerará a Grécia numa armadilha-de-dívidas de longo prazo, que reduzirá materialmente o crescimento da Grécia por décadas, e deixará o país constantemente vulnerável a crises financeiras. É receita de desastre para Grécia, Itália e Espanha (coletivamente, 100 milhões de cidadãos) e para a União Europeia. É loucura financeira – e ignora a instabilidade política que causará, e que obrigará uma nação membro da União Europeia a curvar-se até o chão e assim ficar, por 50 anos."

Impressionantemente, essa descrição de Bill Black, do crime-contra-a-lógica que a troika cometeu em 2012, aplica-se perfeitamente hoje, para descrever o terceiro acordo de resgate imposto ao governo grego, poucas semanas depois de Black responder a Blanchard.

Exatamente como em 2012, novamente a troika, com o FMI perfeitamente engajado a bordo, estão implementando um programa que eles sabem que falhará, ao mesmo tempo em que prometem a Atenas que, em 2018, a Grécia receberá a mesma forma de não alívio que lhe foi prometido (mas nunca entregaram) para o final de 2014 (o tal "longo reescalonamento de pagamentos com juros baixos").

As duas únicas diferenças entre 2012 e 2015 são os seguintes: (A) Em 2015/6 a economia grega está cada vez mais frágil do que estava em 2012, o seu povo mais perto da borda do desespero. E (2) Em 2012, "programa" tóxico, ilógico da troika, estava sendo implementadas por um governo que representa o ancien regime oligárquico e corrupto responsável pela crise. Em 2015/6 "novo" "programa" tóxico, ilógico da troika está a ser implementado por um governo de esquerda, negando assim aos gregos a esperança de que as eleições poderiam parar a dor desnecessária.

29 de julho de 2016

Obama disse que Hillary vai continuar o seu legado e, na verdade, ela vai!

Michael Hudson


Tradução / Pouco antes da convenção do Partido Democrata na segunda-feira, Hillary escolheu o senador Blue Dog Tim Kaine de Virginia como seu vice-presidente. Logo depois o Wikileaks distribuiu os e-mails que mostram que o Comitê Nacional Democrata trabalhou, na verdade, como agente da campanha de Clinton, ao ponto de usar os mesmos advogados da campanha dela, para boicotar a candidatura de Bernie Sanders.

A resposta de todo o espectro neocon Democrata, de Anne Applebaum no Washington Post ao denuncista-provocador Paul Krugman e os programas de entrevistas da TV no domingo, sugeriam que, por trás da divulgação dos e-mails do Comitê Nacional Democrata haveria uma conspiração russa para ajudar a eleger Trump como agente deles. O ex-embaixador dos EUA na Rússia emprestou a própria reputação em farrapos para declarar que Putin "com certeza" teria patrocinado os hackers que levaram ao conhecimento público os truques sujos, contra Bernie, do Comitê Nacional Democrata.

Evidentemente o ataque contra Trump visava a atingir Sanders. De início, não decolou. Muitos delegados ameaçavam vaiar a presidente do Comitê Nacional Democrata (e lobbyista diarista) Debbie Wasserman Schultz, se se atrevesse a aparecer no palanque da convenção. O escândalo ameaçaria o mote "Todos Unidos", e ela foi obrigada a renunciar. Mas Hillary recompensou aquela fidelidade toda e a nomeou presidenta honorária da própria campanha presidencial! Se você é cúmplice leal, faz jus a gorda indenização. O Comitê Nacional Democrata teria feito o que deveria mesmo fazer. Desnecessária qualquer reforma.

A máquina Democrata orquestrou uma campanha "midiática" para desviar a atenção dos cidadãos, e atribuiu os vazamentos a um complô dos russos para minar a democracia americana (como se os próprios e-mails já não mostrassem suficientemente o quão democraticamente operara o Comitê Nacional Democrata, quando viciara os resultados das primárias). Votar contra Hillary seria votar a favor de Trump – e votar em Trump seria votar a favor de Putin. E, como Hillary ensinara há tempos, Putin = Hitler. A mesma mídia, seus veículos, jornalistas e colunistas cuidaram de "informar" que atacar Wasserman Schultz – e, por extensão, as políticas neoconservadoras de Hillary – equivalia a confessar cumplicidade com a Rússia. Esse tema deu o tom de toda a semana da convenção.

Na noite de segunda-feira, endossando a conversa da necessidade de eleger Hillary, Sanders uniu-se ao coro segundo o qual, em novembro, o Bem disputaria todas as almas dos EUA contra o Mal – ou, nas palavras de Ray McGovern no programa Cross Talk, de RT, no mínimo Netanyahu as disputaria contra Putin. O senador Chuck Schumer de Wall Street foi à TV para ali deixar sair um suspiro de alívio por o partido estar realmente unido.

Muitos apoiadores de Sanders não se sentiram obrigados a respeitar essa "orientação", levantaram-se e saíram depois que ele fechou a relação de pedidos, estado por estado, para que todos apoiassem Clinton. Outros cantaram "metam ela na cadeia".

Vice-presidente Kaine será presidente, se Hillary for indiciada ou declarada inelegível

Os potenciais "Republicanos pró-Hillary", que estão se afastando de Trump – em cujas fileiras alinham-se Mike Bloomberg, a família neocon, Robert e Victoria Nuland, e William Kristol – são muito mais numerosos que os apoiadores de Sanders, que podem ficar em casa ou, se quiserem, que votem Jill Stein da lista do Partido Verde. Hillary vê um número maior de votos (e mais contribuições de campanha e, no futuro, mais "remuneração por palestra") da banda dos Irmãos Koch, George Soros, Wall Street, Arábia Saudita e da corporativa Câmara de Comércio.

Kaine recentemente empenhou-se para "libertar" bancos pequenos e médios do jugo Consumer Financial Protection Agency. Há muito tempo apoia a Parceria Trans-Pacífico, a desregulação de Wall Street e praticamente tudo contra o que Sanders opõe-se. Foi nomeado presidente do CND pelo presidente Obama em 2008, ele desmontou a estratégia dos 50 estados de Howard Dean e nem se incomodou com lutar contra os Republicanos no sul e em outros estados solidamente Republicanos. O movimento dele deixou que aqueles estados elegessem governadores, os quais redesenharam os próprios distritos eleitorais a favor deles mesmos depois do censo de 2010.

O Comitê Nacional Democrata designou esses estados "negligenciados" para realizarem as primeiras primárias presidenciais. Nessas, Hillary venceu. Sanders venceu a maioria dos estados oscilantes e nos que mais provavelmente votam com os Democratas. Assim se tornou o aspirante mais forte dentro do partido à indicação – o que obrigou o Comitê Nacional Democrata a manobrar para tirá-lo da disputa. As críticas de Sanders aos grandes doadores e ao Cidadãos Unidos ameaçam fazer secar a fonte de dinheiro, não só para Hillary, mas para o próprio Comitê Nacional Democrata. Então, saíram à cata do dinheiro – cujos principais provedores são Wall Street, empresários neoliberais e os neoconservadores da Nova Guerra Fria.

A campanha de Bernie tomou por alvo Wall Street e a desregulação do comércio (que é a essência das parcerias Trans-Pacífico e Trans-Atlântico), como chaves para o processo pelo qual o 1% monopoliza a renda e a riqueza desde que Obama optou, depois de 2008, por sacrificar a economia no altar do resgate de bancos e seus acionistas. Por isso a Classe Doadora da Wall Street que controla a máquina do Partido Democrata não tem interesse algum em estimular o alistamento de eleitores e o comparecimento às urnas. O que eles menos querem é grande número de novos eleitores a exigir reforma real. A geração da virada do milênio é mais progressista, nascida de uma geração que já não conseguiu nem emprego nem moradia tão fácil como os pais. Assim sendo, é melhor manter os independentes fora das eleições, favorecendo os eleitores mais velhos, de confirmada lealdade aos Democratas.

Demonizar Trump por dizer o que Bernie Sanders disse todos os dias da campanha

Trump falou sobre Rússia em um evento que, na verdade, foi eloquente e divertida conferência de imprensa. Os jornalistas e veículos tiraram de contexto o que ouviram, para noticiar que Trump teria pedido que os russos se pusessem a hackear nossos e-mails. O que ele realmente disse foi que se Rússia – ou China ou "qualquer um que senta na mesma cama" – realmente leu sobre os negócios do Departamento de Estado de Hillary e da Fundação Clinton, prestaria grande favor ao mundo se distribuísse os e-mails para revelar as negociatas de favorecimento da candidata.

Trump acerta ao dizer que nenhum "Cinturão da Ferrugem" recuperou-se, e que os 99% tampouco melhoraram de vida. Hillary vangloria-se de que a economia neoliberal de Obama teria ajudado os assalariados, apesar da deflação da dívida bloquear qualquer sinal de recuperação. E promete manter as mesmas políticas (apoiadas pelos mesmos doadores da campanha dele e da campanha dela).

Parece estratégia perdedora para a eleição desse ano – a menos que os Democratas consigam controlar as máquinas eletrônicas de votar, especialmente em Ohio. Mas os Republicanos podem decidir dar a eleição a Hillary, que tem a sorte de ter Donald Trump como opositor. Demonizado como "o candidato siberiano" de Putin,  ele tornou-se força unificadora dos democratas: "Hillary não é Trump."

Isso é o que significa eleger "o mal menor". A mensagem de Hillary é: "Apesar de apoiarmos a Parceria Trans-Pacífico e uma Nova Guerra Fria, pelo menos haverá uma mulher na presidência. Seja como for, o outro lado é muito pior!" A lógica dela é que (1) quem critica Hillary, apoia Trump; (2) Trump é o candidato siberiano; logo (3) criticar Hillary, a escalada da Nova Guerra Fria da OTAN ou os tratados anti-trabalho e a desregulação financeira da Parceria Trans-Pacífico é atitude pró-russos e, portanto, anti-americana.

Tudo que os estrategistas a serviço do 1% têm a fazer é garantir o dinheiro necessário para que se construa uma plataforma partidária ainda pior para a direita dos Democratas. Assim, a escolha será entre o Mal A (o mal econômico com tolerância étnica e sexual) e o Mal B (sem essa tolerância).

Não tem de ser assim. Mas Sanders desistiu, porque não se sentiu suficiente para a magnitude da tarefa. Tendo zombado do socialismo de Sanders, Hillary em seguida age como o Joe McCarthy da década de 2010 e mobiliza uma onda de feroz anti-comunismo contra o seu adversário Republicano.

Na manhã de segunda-feira da Convenção, o canal do Partido Democrata MSNBC só fez exibir lado a lado imagens de Trump e de Putin. Criticar a posição neocons de Hillary no apoio ao golpe militar nazista na Ucrânia é apresentado como se fosse apoio à Rússia. – E outros analistas acompanharam o mote do presidente Obama, para quem criticar a Parceria Trans-Pacífico implica transformar a China em nova nação-líder da Ásia. A mensagem é que criticar o aventureirismo da OTAN expõe quem critique ao risco de ser acusado de fantoche soviético, quero dizer, fantoche russo.

Dilema do Bernie - e de outros supostos reformadores do Partido Democrata

Lá atrás, na década de 1950 e 1960, ouvi líderes trabalhistas perguntarem se haveria algum lugar para onde caminhar, que não fosse o Partido Democrata. Praticamente todos que caminharam naquela direção foram cooptados. Em vez de empurrar o Partido Democrata para a esquerda, a máquina da liderança Democrata corrompeu os trabalhistas, e, com o tempo, corrompeu também o movimento antiguerra e os socialistas que se haviam incorporado na esperança de arrastar os Democratas para a esquerda.

Qual, então, é o plano de Bernie, para salvar seus seguidores de serem obrigados a fazer uma concessão depois de outra, sem parar? A máquina do partido demoniza as políticas das quais os neocons de Hillary discordam, e exige apoio à escalada da OTAN e apoio subterrâneo à Parceria Trans-Pacífico de Obama (e de Hillary e Kaine), sob o pretexto de que alguém estaria ajudando, não matando, os trabalhadores. Hillary detonou a medicina socializada de Bernie, que ela declarou utópica (como se Canadá e Eurozona fossem utopias anti-capitalistas).

Enquanto Trump distribui twitter e dá entrevistas sobre o quanto e como Hillary e Debbie ferraram os apoiadores de Bernie, Bernie não fez qualquer tentativa paralela de perguntar por que os Democratas progressistas não aplaudiram as propostas de Trump, de reduzir a animosidade contra a Rússia, de que a OTAN é obsoleta e tem de ser restruturada, e de oposição à Parceria Trans-Pacífico. Bernie não aproveitou a oportunidade para mobilizar o apoio não partidarizado para a crítica que ele construiu contra as políticas econômicas neoliberais. Apostou suas fichas em Hillary – contradizendo o que ele próprio disse nas primárias (que ela não é qualificada para a presidência dos EUA).

Depois que Sanders fechou a noite da segunda-feira, de início da Convenção, declarando apoio a Hillary Clinton, as equipes de reportagem da MSNBC saíram às ruas para entrevistar apoiadores de Sanders. Perguntaram sofregamente à primeira pessoa que encontraram, em que votaria depois de ouvir que Bernie apoiará Hillary. "Em Jill Stein", disse a senhora, explicando que em nenhum caso, de nenhum modo, votaria em Hillary.

A entrevista seguinte produziu resultado similar. "Simplesmente não confio nela", disse o apoiador de Bernie. Mais uma entrevista, e resposta idêntica. O âncora da MSNBC então resolveu resumir que todos os entrevistados daquela vez responderam que votarão em Hillary. Mas soou oco. Desconfio que os telespectadores confiam tanto naquele canal de televisão, quanto em Hillary.

O problema que os rivais de Hillary enfrentam é que ela chega envolta no legado do presidente Obama. Dado que evitam qualquer crítica ao presidente, Sanders e apoiadores facilitam o que pode vir a ser sessão de governo Pato Manco com a lotação esgotada, depois das eleições de novembro. Meu medo é que Obama tente "salvar seu legado", unindo-se aos Republicanos para implantar a Parceria Trans-Pacífico; e também pode escalar a Nova Guerra Fria dele contra Rússia e China, de modo a facilitar a entrada em cena de Hillary, pela trilha já aberta.

Ter escolhido Tim Kaine para seu vice-presidente significa mais do mesmo roteiro neoliberal, pró-TPP. Hillary nunca se opôs à Parceria Trans-Pacífico. Apenas afiou a retórica: disse que "a meta" é elevar salários. O esforço de pouco adiantou, e a maioria dos eleitores provou ser mais espertos do que a candidata previa, o suficiente para saber que o resultado será exatamente o oposto.

Pois com tudo isso, Sanders declarou apoio a ela. Evidentemente conta com manter sua posição na presidência da Comissão da Minoria do Senado, de Orçamento, enquanto simultaneamente tenta promover uma revolução fora do Partido Democrata. Lembrei-me de um provérbio chinês: se o caminho se bifurca, quem tentar seguir pelas duas trilhas cai sentado.

Essa dificuldade pode ter feito Sanders perder sua maior chance de fazer a diferença. Está tentando seguir pelas duas trilhas ao mesmo tempo, continuando a concorrer como senador Independente, ao mesmo tempo em que trabalha nos cáucuses Democratas, sem conseguir bloquear a Parceria Trans-Pacífico e novas concessões a Wall Street e mais favoritismo para o 1% que ele tão eloquentemente denunciou. Revoluções são questão de oportunidade. Como ex-membro da Liga dos Jovens Socialistas, Sanders bem podia lembrar o que aconteceu quando Trotsky evitou compor-se com Stálin depois da morte de Lênin em janeiro de 1924. Pouco depois já era tarde demais, e começou o expurgo dos que se opunham a Stálin. Deixou passar a oportunidade.

Bernie foi efetivo catalisador da campanha eleitoral esse ano. Mas, como na química, o catalisador não é realmente parte da equação. Ele apenas ajuda a coisa a acontecer. Sanders não disse "Graças a Deus que Wilileaks existe. Acertou em cheio e é prova de que o CND tem de passar por reforma radical." Deixou que os apoiadores erguessem os cartazes anti-TPP. Sua nova mensagem foi "confiem em Hillary". Pois nem assim ela perdoará que antes de ser a favor dela, ele foi contra ela. Podem bem acabar marginalizado em 2017.

Eu tinha esperanças de que, na Convenção, Sanders diria que seu objetivo não havia sido apenas eleger um presidente, mas mudar as equipes no Congresso, todos os funcionários. Poderia falar dos que está apoiando, a começar pelo candidato que disputa contra Wasserman Schultz (candidata apoiada por Obama e também por Hillary), na disputa pelo assento na Assembleia Estadual da Flórida.

Os apoiadores de Bernie que deixaram o salão da Convenção na terça-feira radicalizaram o que havia para radicalizar. Mas Bernie, ele mesmo, parece um Alex Tsipras americano. Tsipras supôs que sair da eurozona fosse ainda pior que capitular ante a austeridade; Sanders supõe que afastar-se dos Democratas e apoiar um realinhamento político – talvez mesmo elegendo Trump no período de transição – seria pior que a agenda pró-Wall Street de Hillary, prima-irmã da agenda de Obama.

As coisas não melhoraram quando Bill Clinton ofertou uma biografia hagiográfica de Hillary, enfatizando seu trabalho de assistência jurídica para proteger as crianças, sem mencionar como a reforma do bem-estar de 1994 cortou drasticamente a ajuda a crianças dependentes. Madeline Albright garantiu que Hillary manterá os EUA seguros, sem mencionar o quanto Hillary promoveu a desestabilização da Líbia, e todo o apoio que garantiu à Al-Quaeda contra o governo sírio, o que gerou uma onda de milhões de refugiados para a Europa, todos, como Hillary e Albright, tentando viver sob condições de mais segurança.

Os muitos cartazes contra a Parceria Trans-Pacífico que os delegados de Sanders ergueram na quarta-feira foram testemunhas de que Hillary disse que se oporá à TPP "na versão atualmente redigida". Foi como jogar uma migalha aos trabalhadores e desempregados – um remendo retórico, antes dela repetir que a meta da coisa é elevar os padrões de vida. Mostrou simplesmente mais uma vez o quanto Hillary é cheia de truques, e abriu uma saída da qual, com certeza, muito se servirão ela mesma e Tim Kaine, conhecido pregador a favor da TPP.

A brilhante demagogia de Obama deixou muitos boquiabertos de admiração. Ninguém é melhor em fingir sinceridade, ao mesmo tempo em que mente tão desavergonhadamente, que Obama. Poucos provavelmente captaram a ameaça assustadora que Obama deixou no ar, sobre um plano de Hillary para que as empresas partilhem os lucros com os empregados. Para mim, é o mesmo plano de Pinochet, para privatizar a Seguridade Social entregando-a a Employee Stock Ownership Programs, da mais deslavada exploração. A ideia é reter parte do salário, a ser convertido em ações da empresa – uma aposta, não investimento. No final, os empregados recebem um saco vazio, como aconteceu recentemente com o Tribune de Chicago. Essa parece ser a grande "reforma" para "salvar" a Seguridade Social em que trabalham hoje em Wall Street os patrões de Hillary.

Seria de esperar que os Democratas vissem o governo Obama como uma jiboia a enforcá-los, mais ou menos como Bill Clinton enforcava Al Gore em 2000. Gore não queria que Bill mostrasse a cara em sua campanha. Pois Hillary apresenta-se como continuadora das políticas de Obama, nos "negócios, como sempre", como se a presidência dela viesse a ser um terceiro mandato dele.

Os eleitores sabem que Obama salvou os bancos, não a economia; e que a campanha de Hillary é paga por Wall Street. Esse ano portanto bem poderia ter sido ocasião propícia para iniciar algum processo realmente alternativo. Ninguém confia em Hillary, e a desconfiança já está contagiando também a máquina do Partido Democrata – especialmente depois que os Irmãos Koch e conhecidos apoiadores de candidatos Republicanos derrotados dão sinais de estar vendo a luz nos olhos de Hillary. Um terceiro partido Verde/Socialista poderia ter decolado – se Sanders tivesse contido a tempestade Trump, se tivesse tomado dele a crítica contra a Parceria Trans-Pacífico, contra o livre comércio, contra a OTAN, somada ao dinheiro de Wall Steet e Cidadãos Unidos no financiamento de campanha.

Os debates presidenciais do próximo outono

Hillary e também Bernie garantiram à Convenção Democrata, repetidas vezes, o quanto o presidente Obama deu nova vida à economia, arrancando-a da "confusão" que Bush deixou. Trump, que pode centrar seu desprezo na TPP (mais ou menos como nocauteou Jeb Bush ao dizer que a invasão do Iraque não passou de "grande erro"), pode conseguir outro nocaute, se responder aos "sucessos econômicos de Obama" com uma pergunta simples: "Mas que sucessos? Algum americano realmente se sente "recuperado" do que sofreu em 2008?"

Hillary e outros oradores na Convenção Democrata criticaram Trump por dizer que "as coisas vão mal". Mas segundo pesquisa de 13 de julho, de NBC/WSJ, 73% dos eleitores declaram que "o país está na trilha errada". Se Trump mudar o que diz, deixar aquele simples "Hillary Escroque", por slogan mais nuançado "Wall Street Escroque e sua candidata Hillary Escroque", com certeza melhorará nas pesquisas.

A inflação de dívida e os mercados que só encolherão nos dois próximos anos não dão muita esperança de aumento no salário mínimo – que nem significará, mesmo, grande coisa, se ninguém consegue emprego! Lá por 2018, a estagnação continuada do 99% pode levar a demissão em massa de Democratas nas eleições de meio de mandato (assumindo que Hillary derrote Trump esse ano), catalisando o surgimento de partido alternativo (assumindo que Hillary não exploda o mundo em sua escalada militar neocon para colar-se às fronteiras de Rússia e China).

O problema com Trump não é que não seja confiável; é que ninguém sabe que políticas promoverá. A mídia lhe dá o mesmo tratamento de silêncio sepulcral que deu a Bernie, ao mesmo tempo em que o acusa de estar na gaveta de Putin. Ele já admitiu ter vendido alguns imóveis a cidadãos russos. Talvez esses ganhos alimentem sua campanha eleitoral...

A solução não é salvar o Partido Democrata, mas substituí-lo. O debate me faz lembrar a discussão sobre a União Soviética nos anos 1950: será estado de trabalhadores que degenerou, ou mutação stalinista burocrática, que anda na direção oposta do socialismo real?

Fico pensando quantos anos faltam para Hillary ser vaiada com tanta força, vaia tão alta, que ela terá de se esgueirar dos hotéis e outros locais de palestra pela porta dos fundos, mais ou menos como Lyndon Johnson, presidente, tinha de fugir das vaias dos militantes antiguerra, antes da eleição de 1968.

28 de julho de 2016

A arte da política

O debate durante a ascensão de Margaret Thatcher pode nos dizer muito sobre como responder ao nosso momento político.

Asad Haider

Jacobin

A polícia espera para esvaziar um acampamento anti-guerra em Washington, DC, em 1970. Washington Area Spark.

Tradução / O espetáculo de um Partido Democrata em crise em sua Convenção Nacional de 2016 levou Donald Trump a tweetar, em um exemplo habilidoso de apropriação da retórica de esquerda pela direita: “Enquanto Bernie [Sanders] abandonou completamente a luta pelo povo, nós damos boas vindas a todos os eleitores que desejam um futuro melhor para nossos trabalhadores”.

A responsabilidade por este cenário despenca sobre os ombros dos liberais americanos que, escandalizados pelas investidas de Trump, consolidaram a profecia autorrealizável de que um populismo de esquerda nunca seria capaz de derrota-lo. A última areia sob o caixão foi jogada pelo próprio Sanders durante a convenção democrata, quando desafiou seus apoiadores a pavimentar o caminho para um candidato cuja percepção pública é caracterizada pela corrupção, pelo segredo e pelo oportunismo.

Na semana anterior, enquanto aceitava sua nomeação na Convenção Nacional Republicana, Trump declarou a si mesmo como “o candidato da lei e da ordem” e prometeu que “a segurança será restaurada” por sua presidência. No dia seguinte, um angustiado editorial do Washington Post declarou Trump “uma ameaça única à democracia”.

Mas as memórias oficiais são muitas curtas – todo momento na representação da política americana parece como a exceção à regra. Não faz muito tempo que a esquerda liberal dos Estados Unidos declarou George W. Bush como uma inflexão sistêmica no sentido de uma monarquia satânica, inaugurando uma era de vigilância, desigualdade e guerra. Barack Obama, em contraste, ofereceu um momento excepcional de esperança: um líder charmoso, erudito e cosmopolita que tranquilamente nos orienta para esferas ainda mais baixas de vigilância, desigualdade e guerra.

Neste momento a temporada eleitoral confronta a raivosa supervisão militar estratégica de Obama com um bilionário sociopata, desequilibrado e com uma mente perspicaz para o marketing. Nesta eleição às avessas, passou a ser tolice prever qualquer coisa, mas pode ser razoável perguntar algo até aqui ignorado: se oito anos de Bill Clinton nos legou George W. Bush e oito anos de Obama nos deixou Trump, o que oito anos de Hillary Clinton pode oferecer?

Felizmente Trump nos dá uma sugestão. Ao reviver os slogans de Reagan e Nixon, e apresentar sua candidatura como uma reação ao conflito social ao redor da violência policial racista, ele deixou sua linhagem evidente. Enquanto a esquerda americana ainda precisa compreender a sequência que parte de Nixon para Reagan, Bush e Trump, o intelectual britânico nascido na Jamaica, Stuart Hall devotou boa parte de sua carreira lutando para entender a emergência inquietante de Margaret Thatcher no contexto do debate no interior da esquerda britânica, de maneira que antecipa o que agora se passa no contexto dos Estados Unidos.

“O que o país precisa” – falou Thatcher em sua campanha de 1979 – “é menos taxas e mais lei e ordem”. Para Hall, o sucesso deste slogan não era surpreendente. Um ano antes de Thatcher assumir como Primeira Ministra, ele havia se engajado em pesquisar o clima social no qual esta retórica poderia se conectar à mentalidade pública e se concentrara no “pânico moral” ao redor dos crimes de assalto à mão armada.

Primeiro editor da revista New Left Review, Hall foi designado como diretor do Centro de Estudos Culturais Contemporâneos da Universidade de Birmingham no final dos anos 1960 por seu fundador, Richard Hoggart. Ao lado de colegas no Centro ele publicou, em 1978, Policing the Crisis: Mugging, the State, and Law and Order.

O estudo estava, inicialmente, centrado nas representações midiáticas do crime, mas este era na verdade um componente de uma análise mais ampla do declínio da socialdemocracia britânica e a queda da fábula do “consenso do pós-guerra”, que prevalecia desde 1945 quando o Partido Trabalhista formou um governo de maioria.

No período imediatamente posterior à Segunda Guerra Mundial, o Estado assumiu indústrias falidas, empregou uma grande proporção do trabalho, regulou a demanda e o emprego, assumiu a responsabilidade pelo bem-estar social, expandiu a educação para alcançar os requisitos de um desenvolvimento tecnológico, aumentou seu envolvimento na comunicação midiática e trabalhou para harmonizar o comércio internacional.

Apesar do compromisso declarado do Partido Trabalhista com o socialismo, a estabilização da economia no pós-guerra não alterou fundamentalmente o sistema econômico subjacente. Ela foi, ao contrário, capaz de construir um Estado de bem-estar tendo como base um “período de crescimento produtivo sem precedentes” e, como Policing the Crisis explica, a democracia representativa do pós-guerra se desenvolveu na base do “papel protuberante do Estado nos assuntos econômicos”.

Mas a participação britânica no boom econômico do pós-guerra foi feita de fraquezas importantes, causadas pelos efeitos debilitantes do legado imperial e por uma estrutura industrial ruidosa e resistente à inovação. Ela não conseguia se equiparar à afiada competição internacional, às flutuações na taxa de lucro e ao aumento da inflação. Ainda assim, o Partido Trabalhista pintou uma imagem de si no beco, afirmando a “ausência de estratégia alternativa para administrar a crise econômica”.

As condições econômicas desfavoráveis não eram apenas obstáculo ao desafio da preservação da ordem existente. O Estado precisaria confrontar, ainda, “uma forte, ainda que frequentemente corporativa, classe trabalhadora com expectativas materiais crescentes, tradições fortes de barganha, resistência e luta”. Consequentemente, “cada crise do sistema adquiriu a forma aberta de uma crise de administração estatal”. Seguindo as pistas de Antonio Gramsci e Nicos Poulantzas, Hall e seus colegas chamaram esta situação por “crise de hegemonia”.

O Estado passou a cumprir mais e mais o papel de atacar as “barganhas” da classe trabalhadora, engana-la por meio da mediação do movimento de trabalhadores organizados e cujas instituições haviam “sido progressivamente incorporadas na administração da economia”. Neste contexto, no qual a classe trabalhadora parecia se confrontar com o Estado diretamente, preservar o consenso como meio primordial da regra democrática ao invés da coerção, tornou-se um problema central.

A sociedade de consumo havia apresentado fontes potenciais para uma solução: o uso crescente das mídias de massa pelo Estado dirigido para moldar e transformar um “consenso em valores”. Mas durante a crise de hegemonia, o consenso não pode mais ser garantido; a crise se constitui “um momento de ruptura profunda na vida política e econômica de uma sociedade, um acúmulo de contradições (...) quando toda a base da liderança política e autoridade cultural se expõe e é contestada”.

E esta era a crise que se desdobrava. Ao final dos anos 1960, uma variedade de pânicos morais sobre a cultura jovem e a imigração estouravam na superfície da educada sociedade britânica. Um conjunto amplo de fenômenos, do protesto e contracultura à permissividade e crime, passou a se apresentar como parte de uma única e surpreendente ameaça às fundações da ordem social. Ao mesmo tempo, a economia presenciou “o retorno ao estágio histórico da luta de classes, de maneira visível, aberta e em escalada”:

“Uma sociedade que sai dos trilhos por meio da ‘permissividade’, ‘participação’ e ‘protesto’ no sentido ‘da sociedade alternativa’ e ‘anarquia’ é uma coisa. Outra, completamente diferente, é o momento em que a classe trabalhadora mais uma vez assume a ofensiva em um clima de militância ativa (...). A tentativa de um governo socialdemocrata administrar o Estado por meio de uma versão organizada do consenso finalmente se exauriu e entrou em colapso entre 1964 e 1970, então gradualmente a luta de classes se tornou mais e mais aberta, assumindo uma presença manifesta. Este desenvolvimento é eletrizante”.

As políticas de renda nos anos 1970, que tentaram administrar a inflação ao trocar pequenos aumentos salariais por um constrangimento no aumento dos preços, representaram uma tentativa de “exercer e reforçar as restrições sobre os salários e sobre a classe trabalhadora por meio do consenso”, ao “ganhar os sindicatos para uma colaboração plena com o Estado no processo de disciplina da classe trabalhadora”.

Mas este projeto falhou, em parte pela rebelião contínua das bases e “a mudança massiva do lugar do conflito de classe na indústria das disputas administração-sindicato para aquelas administração-chão de fábrica”. A militância de base e as organizações de chão de fábrica deslocaram a mesa de negociação: “condições locais puderam ser exploradas e vantagens locais aproveitadas em larga escala no ambiente industrial, especialmente na engenharia onde, como consequência das complexas divisões do trabalho, a paralização de dez trabalhadores em uma seção era capaz de travar toda a linha de montagem”.

A ideologia conservadora cumpriu um papel importante na resposta do Estado para esta ameaça. Uma “transição do controle apertado ao final dos anos 1960 para um fechamento plenamente repressivo nos anos 1970” abriu o caminho para “a sociedade da lei-e-ordem”. O pânico moral e a instabilidade econômica legitimaram o esforço do Estado em usar a repressão como forma de administrar a crise, uma “rotina do controle” que fez o policiamento parecer “normal, natural, além de correto e inevitável”.

Esta campanha possuía uma vantagem não evidente: ela ofereceu legitimidade para a iniciativa estatal “em disciplinar, restringir e coagir, para trazer – no enquadramento da lei e ordem – não apenas ativistas, criminosos, viciados em drogas e posseiros, mas mesmo as sólidas fileiras da classe trabalhadora. Esta classe recalcitrante – ou ao menos suas minorias mais desordeiras – também precisava ser conduzida à ordem”.

Em 1971, descompromissados com relação ao trabalho organizado, os conservadores foram capazes de atacar o poder dos sindicatos com o Ato de Relações Industriais. Eles apelaram para a “unidade nacional” e evocaram a “restauração da autoridade do governo”. Mesmo quando o Ato era repelido sob o governo do Partido Trabalhista que se seguiu, com seus “Contratos Sociais” centristas, seu efeito já era evidente no horizonte da classe trabalhadora. A crise representara uma mudança estrutural profunda no caráter do Estado capitalista do pós-guerra.

Todos estes elementos estavam sob consideração no Centro em Birmingham, assim como a ascensão de sentimentos racistas anti-imigrantes anunciados por parlamentares como Enoch Powell e os neofascistas do Fronte Nacional, em resposta às redefinições da identidade britânicas por rastafáris e os “rude boys” jamaicanos. Hall e seus colegas abordaram estas discordâncias culturais por meio do estudo do aumento percebido do crime violento.

A representação midiática do assalto à mão armada nos anos 1970 possuía uma característica particular, que persiste ainda hoje: uma associação deliberada e rígida do crime com a juventude negra. A polícia tem se engajado em “controlar e conter” a população negra desde o início dos anos 1970, mas depois da turbulência política e do colapso econômico da metade desta década, que resultou em cortes nas políticas bem estar, educação e suporte social, o impacto sobre a população negra concentrada nas cidades foi o mais grave.

Além disso, parte do efeito das revoltas dos anos 1960 tem sido introduzir uma nova sensibilidade de resistência no interior das cidades, e o que agora emergia era uma situação explosiva: “um setor da população, já mobilizado em termos de consciência negra, era agora também o setor mais exposto ao processo de aceleração da recessão econômica”.

A consequência foi “nada menos do que a sincronização dos aspectos de raça e classe da crise”, escreveram os acadêmicos de Birmingham. “Policiar os negros ameaçou o problema do policiamento dos pobres e dos desempregados: todos os três estavam concentrados precisamente nas mesmas áreas urbanas”. “Policiar os negros” tornou-se “sinônimo de policiar a crise”.

Aqui Policing the Crisis apresentou um slogan bastante citado: “raça é a modalidade na qual a classe é vivida”. Para membros negros da classe trabalhadora, é primeiramente por meio da experiência da “raça” que eles podem “chegar a uma consciência de sua subordinação estruturada”: “É por meio da modalidade da raça que negros compreendem, lidam e começam a resistir à exploração que é uma característica objetiva de sua situação de classe”. O poeta de dub raggae, Linton Kwesi Johnson cantou esta chegada à consciência, E a classe trabalhadora?:

“E a classe trabalhadora?
Nada de culpar a classe trabalhadora negra, Sr. Racista
A culpa é da classe dominante
A culpa é do patrão capitalista
A gente paga o custo, a gente perde”

As forças da reação foram rápidas e decisivas. A eleição de Margaret Thatcher como líder da oposição, em 1975, representou o movimento de uma direita radical saída das margens para o centro, erigida na ideologia da lei e da ordem para avançar uma estratégia de fuga em relação ao consenso do pós-guerra.

Esta estratégia assumiria lugar central à medida em que a administração da crise da socialdemocracia chegou a um inevitável impasse: “a Grã-Bretanha nos anos 1970 é um país para cuja crise não existe uma solução capitalista viável restante e, ainda, não existe uma base política para uma estratégia socialista alternativa. É uma nação presa em um dilema mortal: uma condição de declínio capitalista incontrolável”.

A dominação de classe assumiria novas formas, registradas principalmente “na inclinação da operação do Estado em se afastar do consenso e se aproximar do polo da coerção”. O pânico moral sobre o assalto violento, então, era “uma das formas aparentes de uma crise histórica profundamente enraizada”; ele cumpriu um papel importante na estabilização do Estado.

A percepção do aumento do crime era “uma das principais formas de consciência ideológica por meio da qual uma ‘maioria silenciosa’ é vencida para dar seu apoio às medidas crescentemente coercitivas por parte do Estado, e emprestar legitimidade para um uso do exercício do controle ‘mais do que o usual’”. Em 1977, a banda The Clash gravou em seu álbum de estreia um cover do músico jamaicano Junior Murvin, Police and Thieves, em que a descrição da polícia jamaicana se assemelhava muito à descrição de Londres.

O consenso do pós-guerra de um Estado de bem-estar benevolente abria caminho para um consenso autoritário, um desenvolvimento que o sociólogo britânico Ralph Miliband havia sugerido em 1969. Ele concluíra seu livro O Estado na sociedade capitalista com uma descrição de uma certa dialética entre reforma e repressão.

O Estado enfrenta a pressão social por meio da reforma, mas não pode nunca fazer isso de maneira plena: “na medida em que a reforma se revela incapaz de subjugar pressão e protesto, então se dá a mudança de ênfase no sentido da repressão, coerção, poder policial, lei e ordem”. Mas a repressão também engendra oposição, e “ao longo deste caminho está a transição de uma ‘democracia burguesa’ para um ‘autoritarismo conservador’”. Isto não necessariamente significa fascismo. Na verdade, o exemplo de Miliband vinha da esquerda:

“Sempre que lhes foi dado oportunidade, os líderes socialdemocratas rapidamente se projetaram na administração do Estado capitalista: mas esta administração requer sempre e mais o fortalecimento do Estado capitalista, objetivo com o qual – de um ponto de vista conservador – estes líderes deram valorosa contribuição”.

Este fortalecimento do Estado, no entanto, deixara a socialdemocracia em uma situação de “vulnerabilidade crescente aos ataques da direita (...) o caminho se tornou mais suave para os candidatos a salvadores populares cujo conservantismo extremo esta cuidadosamente localizando sob uma retórica demagógica de renovação nacional e redenção social, alimentado de maneira sutil por um apelo a preconceitos raciais e outros tipos de preconceitos vantajosos”. Miliband concluiu que “o movimento socialista alcançou uma posição de comando de tal forma” que “pode ser tarde demais para as forças do conservadorismo assumir uma opção autoritária com alguma chance real de sucesso”.

Apesar disso, para Hall o governo Thatcher foi um exemplo de extraordinário sucesso do autoritarismo. Policing the Crisis mostrava como a administração socialdemocrata da crise capitalista havia criado contradições que abriam espaço para novas estratégias de direita, e como o consenso popular com a autoridade começava a se tornar assegurando por novas formas de luta ideológica.

O que agora emergia era uma estratégia antiestatal de direita – ou melhor, uma que se representava como antiestatal para ganhar o consenso do populacho descontente, ao mesmo tempo em que detinha uma abordagem altamente centralista em relação ao governo.

Esta estratégia funcionou ao se aproveitar o descontentamento popular e neutralizar a oposição, fazendo uso de certos elementos da opinião popular para modular uma nova forma de consenso. Em 1979, Hall elaborou sobre esta nova estratégia em um artigo chamado “O show do grande movimento à direita”. O texto foi publicado na revista Marxism Today, uma revista teórica experimental do Partido Comunista da Grã-Bretanha, meses antes da eleição de Thatcher como primeira ministra.

As raízes de sua ascensão, insistia Hall, estavam “na contradição no interior da socialdemocracia”, que havia “efetivamente desorganizado a esquerda e a resposta da classe trabalhadora para a crise”. Sintetizando a dinâmica que revisara historicamente em Policing the Crisis, Hall explicou que a contradição começava com os esforços da socialdemocracia em ganhar poder eleitoral, o que exigia a “maximização de suas exigências como a representação politica dos interesses da classe trabalhadora e do trabalho organizado” capaz de “administrar a crise” e “defender – dentro dos constrangimentos impostos pela recessão – os interesses da classe trabalhadora”.

Esta não era uma “entidade política homogênea, mas uma formação política complexa”, não uma expressão da classe trabalhadora no governo, mas “os meios principais de representação da classe”. “Representação”, como uma função política na democracia parlamentar, “precisa ser entendida como uma relação ativa e formativa”, que “organiza a classe e a constitui como uma força política” – uma força política socialdemocrata – ao mesmo momento em que se constitui.”

Uma vez que a social democracia entra no governo, no entanto, “se compromete em encontrar soluções para a crise que são capazes de alcançar apoio de setores-chave do capital, desde que estas soluções sejam enquadradas em seus limites”. Isto exige o uso da “conexão indissolúvel” com as lideranças sindicais, “não para avançar, mas para disciplinar a classe e organizações que representa”.

Esta função gira ao redor do Estado, e a socialdemocracia deve se apoiar “em uma interpretação neutra e benevolente do papel do Estado como encarnação do interesse nacional acima da luta de classes”. Ela toma por sinônimos a expansão do Estado e o socialismo, “sem referencia alguma à mobilização de poderes democráticos efetivos em níveis populares” e usa o intervencionismo alargado do aparelho do Estado para “administrar a crise capitalista de maneira favorável ao capital”.

O Estado termina “inscrito em todo aspecto e característica da vida social”: “a socialdemocracia não tem alternativa estratégica viável, especialmente para o grande capital (e o grande capital não possui uma estratégia alternativa viável para si mesmo) que não envolva o apoio massivo do Estado”.

Este é o pano de fundo para a direita radical, que opera no mesmo espaço da socialdemocracia e explora suas contradições. Ela “toma os elementos que já existiam construídos no espaço, os desmantela, reconstitui em nova lógica e articula o espaço de uma nova maneira, polarizando-o à direita”.

É possível apelar para a desconfiança no estatismo, para frustração com a administração socialdemocrata da crise capitalista e avançar uma agenda aparentemente antiestatal neoliberal. O thatcherismo visou valores coletivistas, mas também o estatismo real que havia contaminado o Partido Trabalhista desde o início – ele tirou vantagem da distancia que a liderança reformista havia tomado em relação as suas bases, e demonstrou o caráter irreconciliável entre valores coletivistas e o desafio de administrar a crise capitalista.

A realização mais admirável do thatcherismo foi sua habilidade de ligar as filosofias econômicas abstratas do liberalismo austríaco, desenvolvidas por heróis libertários como Ludwig von Mises e Friedrich Hayek, aos sentimentos populares no que diz respeito a “nação, família, dever, autoridade, padrões, autoconfiança”, motores ideológicos poderosos no contexto de mobilização política por lei e ordem.

Esta “mistura rica” Hall apelidou por “populismo autoritário” e seus operadores ideológicos não poderiam ser reduzidos à mera farsa – em fato, eles haviam operado sobre “contradições genuínas”, com “conteúdo racional e material”: “Seu sucesso e efetividade não está na capacidade de enganar algum popular desavisado, mas em endereçar problemas reais, experiências reais e vividas, contradições reais – e ainda ser capaz de representa-las por meio de um discurso lógico que as impulsiona sistematicamente na direção de políticas e estratégias de classe da direita”.

A revista Marxism Today era, acima de tudo, um projeto inusitado e de longo alcance, com o estilo visual de uma revista comercial e uma carapuça de cultura popular que procurou intervir na consciência da sociedade de consumo – provocando o repúdio do companheiro de Miliband, John Saville, que cuidadosamente e desdenhosamente documentou as páginas do periódico dedicadas ao mundo da moda.

No entanto, talvez a critica mais influente tenha sido realizado pelo próprio Miliband em O grande revisionismo na Grã-Bretanha, publicado na New Left Review em 1985. Este “novo revisionismo”, argumentou Miliband, era uma repetição da primeira onda representada por Hugh Gaitskell – que havia usado o termo na revista Parliamentary Socialism.

No centro estava o debate das questões estratégicas que o Partido Trabalhista enfrentava e que Miliband não achava que poderiam ser adequadamente capturadas pelas teorias do populismo autoritário. Ele relembrava que o declínio do apoio eleitoral da classe trabalhadora ao Partido Trabalhista já existia desde 1951, resultando de suas próprias contradições.

Como documentamos acima, Hall havia cuidadosamente analisado este fenômeno e, na verdade, feito dele a base para sua teoria sobre o thatcherismo. Mas, para Miliband, Hall ainda sobrevoava questão, condenando a suspeita da direção diante da “autoativação da classe trabalhadora”, apontando sua análise constantemente em termos das possibilidades de “renovação” do partido, mesmo que fosse cético quanto às suas possibilidades.

A principal preocupação de Miliband, por sua vez, era a de refutar a nova tendência revisionista que rejeitava a “política de classe”, entendida como “insistência no ‘primado’ do trabalho organizado em desafiar o poder capitalista, e o desafio de criar uma ordem radicalmente diferente”. Miliband defendia este primado: “nenhum outro grupo, movimento ou força na sociedade capitalista é remotamente capaz de se impor como desafiante efetivo e formidável às estruturas atuais de poder e privilégio como o poder do trabalho organizado”.

Existiam dois ângulos nos quais este primado poderia ser defendido, o primeiro relacionado às mudanças no processo de produção e horizonte social nos países de capitalismo avançado; André Gorz e seu Farewell to the Working Class Adeus à classe do trabalho foi nomeado um influente precursor do “revisionismo”.

Miliband aceitava que “a classe trabalhadora experimentou nos anos recentes um processo acelerado de recomposição, com o declínio de setores industriais tradicionais e um crescimento considerável dos trabalhadores de colarinho branco, de distribuição, serviços e setores técnicos”. Mas ele não aceitava que isto significasse que as coordenadas clássicas da política socialista deveriam mudar. Afinal, os assalariados continuavam a compor a maior parte da população dos países capitalistas avançados, e continuavam capazes de desenvolver uma consciência socialista.

O segundo desafio era aquele relativo aos novos movimentos sociais. Miliband começou com uma lembrança razoável de que “a classe trabalhadora incluía um grande número de pessoas que são membros dos ‘novos movimentos sociais’, ou que são parte do público que estes movimentos querem alcançar”. Mas ele também argumentou que seria uma erro para estas pessoas entender suas experiências de opressão pode meio das identidades.

De fato, a categoria de “política de classe” dera o compasso dos novos movimentos sociais na medida em que o trabalho organizando não lutou por seus fins economicistas e corporativos, “mas por toda a classe trabalhadora muito além dela”. Ainda que esta luta “requeira um sistema de alianças populares”, Miliband sustentou que “é apenas a classe trabalhadora organizada que pode formar a base deste sistema”.

A pergunta sobre “como” a classe trabalhadora pode se organizar, porém, ficou sem resposta. Como Robin Blackburn afirmou recentemente, “1985 marcou o começo de praticamente três décadas de desmobilização e desmoralização de classe” e Miliband “subestimou os efeitos da recomposição de alcance global do capital e trabalho no fim do século”. Sua discussão sobre os novos movimentos sociais se manteve especulativa, sem investigação séria das questões levantas sobre o caráter da política da classe trabalhadora.

Em contraste, a análise de Hall da raça como “modalidade” por meio da qual os trabalhadores negros se tornam conscientes de sua posição de classe estava baseada em uma análise da composição da classe trabalhadora negra, a história da cultura migrante, e a organização política das lutas negras – por meio da qual ele foi capaz de construir e identificar formas potenciais de atividade política que possuíam relevância geral para a classe, na medida em que o racismo era parte da maneira como as populações trabalhadoras eram estruturas pelo capital.

Este impasse estratégico afetou diretamente a conjuntura política com a experiência da greve dos mineiros em 1984-1985. A ferocidade desta luta tornou qualquer discussão carregada emocionalmente. Hall havia sido bastante crítico da greve – do sofrimento intenso e do risco implicado em fazer a greve em um período de austeridade e declínio industrial, e da decisão não democrática de fazer a greve sem uma votação.

Ele seguiu criticando o aspecto “familial e masculinista” da mobilização dos mineiros, “como homens que possuem um dever de se levantar e lutar”. O enquadramento como política de classe do momento, fixo em uma identidade de classe específica, havia impedido os mineiros de “generalizar sua luta em uma dimensão social mais ampla”.

Aspectos desta análise estavam provavelmente corretos. Mas ela provocou um afastamento compreensível de Miliband. Chegou um momento em que muitos, especialmente aqueles afiliados ao Marxism Today, passaram a associar a greve com uma prática teimosa e antiquada de uma “esquerda dura”.

O termo não está totalmente deslocado; qualquer um que tenha participado de um movimento social já se encontrou aqueles que se intitulam “guardiões das consciências de esquerda, como garantidas políticas, o teste limite da ortodoxia”. Mas em retrospecto, usado contra os que defendiam os sindicatos no contexto de um ataque capitalista implacável, este apelido era inadequado.

Por outro lado, o argumento de Miliband perdia as questões substanciais que estas críticas de fato levantavam. De acordo com a biografia de Michael Newman, ele foi criticado por sua esposa Marion Kozaks, que considerava que o artigo sobre o novo revisionismo “superestima o primado da classe e falha ao não dar peso suficiente aos movimentos sociais, os quais vê como divisores ao invés de potenciais aliados para os movimentos classistas – como, por exemplo, os grupos de mulheres que apoiam os mineiros”.

Estas linhas de aliança inesperadas foram recentemente dramatizadas no filme Pride, que mostra os esforços de arrecadação de recursos do Apoio de Lésbicas e Gays aos Mineiros, um gesto de solidariedade que foi devolvida pela participação de grupos de mineiros galeses na Marcha do Orgulho Gay de Londres, em 1985 e pelo apoio decisivo da União Nacional dos Mineiros para uma resolução interna do Partido Trabalhista em favor dos direitos LGBTs.

Conforme escreveram Doreen Massey e Hilary Wainwright em comentário sobre os grupos feministas de apoio à greve, “não é uma questão de ação industrial ou novos movimentos sociais, tampouco é uma questão de soma-los (...) Novas instituições podem ser construída para que ‘a política de classe’ possa ser vista como algo mais que simples militância industrial mais representação parlamentar”. Era justamente a urgência por estas novas instituições, e a dificuldade de construí-las, que estava por baixo do pessimismo de Hall:

“A greve foi então condenada a ser travada e perdida como algo velho e não como uma nova forma de política. Para aqueles de nós que sentimos isto desde o início, foi duplamente insuportável porque – na solidariedade que ela alcançou, nos níveis gigantescos de apoio que engendrou, com o envolvimento sem paralelos de mulheres nas comunidades mineiras, presença feminista na greve, a quebra de barreiras entre diferentes interesses sociais que ela pressagiou – a greve dos mineiros carregava instintivamente a política da novidade, ela foi um grande enfrentamento com o thatcherismo que deveria marcar a transição para a política do presente e do futuro, mas foi travada e perdida, aprisionada nas categorias e estratégias do passado.”

Se cada lado do debate tinha um ponto, não está claro que todos os participantes entendessem o que a derrota catastrófica dos mineiros representava verdadeiramente. Apesar da clareza de Hall a respeito dos efeitos poderosos do populismo autoritário, sua teoria não parecia antecipar o quão drasticamente esta derrota mudaria o campo e o quão completa ela seria.

Este momento não foi adequadamente apreciado como uma derrota também para os novos movimentos sociais. Ao longo da vida das coalizões “arco-íris”, multiculturalismo, e políticas de identidade, sua sobrevivência indicaria a separação crescente em relação às formas organizacionais de base e aos movimentos militantes com os quais poderiam forma alianças antissistema permanentes. E apesar de sua oposição anterior sobre o novo revisionismo, não está claro que a abordagem de Miliband o teria conduzido a uma alternativa política.

Apesar das desventuras que envolvem o nome Miliband, é Hall que é frequentemente acusado de ter pavimentado o caminho para o Novo Trabalhismo. Isto de alguma forma confunde o funcionamento da dinâmica: foi o thatcherismo que pavimentou o caminho para o Novo Trabalhismo, e Hall foi uma das pessoas que descreveu com grande clareza o thatcherismo como um modo de operação. Não há razão para duvidar que Miliband teria criticado o giro dramático à direita engendrado por Tony Blair se estivesse vivo.

Hall, por sua vez, execrou Blair em uma edição única de “retomada” da Marxism Today em 1997 (não circulava desde 1991), em um artigo chamado “O grande show da movimentação para o nada”. Enquanto documentou as capitulações do Novo Trabalhismo ao neoliberalismo, e os novos sujeitos sociais que delas se manifestavam (“homem econômico ou como ela/ele gosta de ser chamado, O Sujeito Empreendedor e o Consumidor Soberano”), ele não apresentou uma análise política do fenômeno comparável ao que havia feito com o thatcherismo.

Obviamente Blair estava seguindo os passos de Bill Clinton, cujo mandato presidencial não apenas trouxe o Tratado de Livre Comércio das Américas (NAFTA), a lei do crime e a reforma da lei do bem-estar, mas também estava empenhado em um estilo cultural, direcionado por grupos focais e imagens de consultoria, que jogavam com a diversidade dos novos tempos, levando Toni Morrison ao famoso comentário de que Clinton era o “primeiro presidente negro”.

Um termo além do “populismo autoritário” seria necessário para descrever este fenômeno, que mostrou, por um lado, que a estratégia hegemônica da direita era bem sucedida a ponto de absorver a esquerda conhecida e facilitar a consolidação da desigualdade econômica e a reversão seguinte das reformas condensadas no Estado; e, por outro lado, que o pluralismo, a celebração da mídia popular e olhar para a cultura jovem não necessariamente constituem, na ausência de mobilizações revolucionárias viáveis, uma força de oposição, como as campanhas de base para o verdadeiro primeiro presidente americano negro mostraram desde então.

É precisamente no frustrante desenvolvimento de um agente antagonista que a discussão sobre a cultura e a ideologia deve ser situada – não como uma explicação de mecanismos complexos e viradas da política eleitoral. Muito tempo depois de Thatcher e Reagan uma indústria de comentadores pergunta por que a classe trabalhadora americana vota contra “seus interesses”, nos convidando a opor Kansas e Connecticut, estado vermelho e estado azul. Mas na verdade é na decomposição e desorganização da classe trabalhadora que devemos procurar a explicação para a emergência da direita – não na consciência, falsa ou o que seja.

As evidencias empíricas mostram que a classe trabalhadora nos Estados Unidos, medida por renda, possui uma preferencia de voto consistente no Partido Democrata, e isso é verdadeiro mesmo se restringimos os dados para a classe trabalhadora branca. Mas ao contrário da lógica mercadológica “dos interesses”, esta prática de voto nunca aumentou o poder da classe trabalhadora, e portanto o éter indeterminado da opinião pública americana termina subordinado ao poder de vanguardas de direita. Se o populismo autoritário mudou as ideias das pessoas, ou não, é uma questão inútil.

O seu papel na transformação neoliberal foi atacar a possibilidade de alianças estratégicas entre os novos movimentos sociais e a organização no lugar de produção. Ideologias tradicionalistas de família, igreja e nação foram ataques preventivos contra uma potencial barreira política de acumulação que estas linhas de aliança poderiam impor a partir de baixo.

“Nossa convenção ocorre no momento de crise de nossa nação” disse Donald Trump na convenção republicana. Ele está certo; e a crise é também da esquerda. Nosso discurso muitas vezes se reduz a disputas mesquinhas, por uma lado uma absorção a-histórica em posturas espetaculares de rebelião sem direção e narcisismo identitário, por outro a ortodoxia indigesta e pouco atraente. Neste contexto, a arte da política não pode ser encontrada – com exceção talvez do delírio de direita, uma realidade que Hall também descreveu:

“Eu me lembro do momento na eleições de 1979 em que o Sr. Callaghan, em sua última corrida política por assim dizer, disse com verdadeira surpresa sobre a ofensiva da Srª. Thatcher: ‘Ela parece arrancar a sociedade pelas raízes’. Esta era uma ideia impensável para o vocabulário socialdemocrata: um ataque radical no status quo.” 
A verdade é que ideias tradicionalistas, as ideias de respeitabilidade social e moral, tem penetrado tão profundamente na consciência socialista que é comum encontrar pessoas comprometidas com um programa político radical e sustentadas por sentimentos e sensações totalmente tradicionais.” 

Nossa crise nos impediu de levar adiante uma tarefa urgente que Hall colocou com precisão: “como forças diferentes podem, juntas, conjunturalmente, criar um novo terreno no qual uma política diferente possa se formar”. Está colocado para nós inventar uma política diferente – ou Trump será o único a fazê-lo.

27 de julho de 2016

A questão central na campanha presidencial dos EUA

Eric Zuesse

The Vineyard of the Saker

Tradução / A questão central na campanha presidencial nos EUA não pode sequer ser discutida na mídia de notícias nos EUA, porque a mesma mídia é toda ela, quase uniformemente, cúmplice do crime de ocultar da opinião pública dos EUA a informação factual crucialmente decisiva para que a população possa votar de modo inteligente e confiavelmente bem-informado sobre aquela questão. Nenhum veículo da mídia de notícias quer ver noticiada a própria cumplicidade em crime algum; assim sendo, a cobertura, de fato o encobrimento, continua inalterado. Essa cobertura/encobrimento ativo tem vida própria, que empurra o mundo cada vez para mais perto de uma situação que pode fazer bilhões de mortos, porque quanto mais se mantiver o encobrimento, mais fora de controle tornam-se as coisas. E por isso persiste o ciclo de mentiras virtualmente uniformes, apesar do perigo sempre crescente. Esse artigo terá de ser relativamente longo, porque o público-americano só ouve mentiras e vive exposto a quantidade gigantesca de mentiras sobre todas as coisas importantes – todas elas associadas à questão nacional central para os EUA –, questão ainda maior que o terrorismo, que o aquecimento global, que a desigualdade econômica crescente e que a sempre crescente corrupção, mas questão que permanece virtualmente ignorada. Esse artigo foi concebido para ser como um desentupidor-desinfetante de um sistema político que está literalmente afogado nas tantas mentiras que lhe são inseridas, e que agora já estão sendo lançadas diretamente na arena política. Ou bem desinfetamos e descartamos a imundície que ameaça nos afogar, ou – e quando menos esperarmos – ela nos matará todos.

A questão central é se o governo dos EUA mantém ou não o mesmo plano, que vem desde o fim do Pacto de Varsóvia em 1991, para ampliar a OTAN – o velho clube militar anti-Rússia – até junto às fronteiras russas, cercando a Rússia com mísseis nucleares da OTAN postos à distância de cinco minutos de voo de Moscou; e, simultaneamente, se o governo dos EUA constrói ou não uma "Defesa de Mísseis Balísticos" ou sistema de "Mísseis Antibalísticos" (ing. BMD ou ABM) que anule os mísseis russos de retaliação, no caso de ataque não anunciado de EUA-OTAN para dominar – se não para varrer do mapa do mundo – a Rússia e sua capacidade de resistir contra o poder dos EUA. Essa operação é uma feia realidade, mas é a realidade liderada pelos EUA. E o resultado das eleições presidenciais de 2016 nos EUA nos levará ao estágio final da montagem, ou porque porá um fim à operação, ou porque a levará à mais terrível culminação. São resultados drasticamente diferentes, mas um lado ou outro acabará por prevalecer naquela disputa eleitoral. Esse artigo indica vários importantes links onde se reúnem informações de que os eleitores dos EUA precisarão ter conhecimento para poder decidir. Ao mesmo tempo, mostra não só que os eleitores só ouviram mentiras, mas, também, como e porque lhes mentiram tanto. É documentação importante, especialmente porque os fatos aqui documentados foram ocultados, com notável sucesso, por muito tempo. O que aqui se lê não é realidade que os americanos desejem saber, mas, principalmente, é um mundo que os poucos norte-americanos que realmente estão no comando não querem que os cidadãos americanos e a opinião pública americana conheçam. É uma combinação tóxica – opinião pública ignorante, e ignorância que os que mandam querem perpetuar –, mas é tragicamente real (como se comprova nos documentos aqui listados).

O presidente dos EUA Barack Obama tem dito, repetidas vezes, que os EUA seriam "a única nação indispensável", e que qualquer país que se negue a capitular ante a supremacia americana global é um país inimigo. Aplica-se especialmente a Rússia e China – duas nações que foram comunistas. Implica dizer que a Guerra Fria já foi retomada, e que a indústria de armas nos EUA volta a sonhar com grandes dias, mesmo que já não haja hoje a desculpa ideológica de antes ("a ameaça vermelha", o comunismo).

Por exemplo, Obama disse aos cadetes que se formaram na Academia Militar de West Point, dia 28 de maio de 2014:

"Os Estados Unidos é e continua a ser a única nação indispensável. Isso foi verdade no século passado e vai ser verdade no século vindouro. ... A agressão russa contra ex-estados soviéticos enerva capitais na Europa, enquanto a ascensão econômica e militar da China preocupa seus vizinhos. Do Brasil à Índia, classes médias em ascensão competem conosco, e governos querem ter voz mais forte em fóruns globais. ... Será tarefa da geração de vocês responder a esse novo mundo. A questão que enfrentamos, a questão que cada um de vocês enfrentará, não é se os EUA liderarão, mas como lideraremos – não para garantir paz e prosperidade só para nós, mas também para estender paz e prosperidade por todo o globo."

Obama dizia aos formandos de West Point naquele dia que a concorrência econômica pode ser causa para os EUA irem à guerra, e que seria serviço deles fazer valer a supremacia global dos EUA.

Obama colocou isso em um quadro moralizante, como sempre tão habilmente faz  (Obama tem talento terrível para a propaganda), dizendo àqueles cadetes:

"A disposição dos EUA para usar a força em todos e quaisquer pontos do mundo é a derradeira salvaguarda contra o caos. Se os EUA deixarem de agir contra a brutalidade síria ou as provocações russas, não apenas violaremos nossa consciência, mas estaremos também induzindo a escalada futura da violência. ... No século 21, o isolacionismo americano não é opção. Não temos a escolha de ignorar o que acontece além de nossas fronteiras. ... Com a guerra civil síria a respingar sobre as fronteiras, só aumenta a capacidade de grupos endurecidos em muitos combates, para nos atacar. Agressão regional que seja deixada sem resposta – seja no sul da Ucrânia ou no Mar do Sul da China, ou onde for no mundo – sempre acabará por ter impacto sobre nossos aliados e pode atrair nossos militares. Não podemos ignorar o que acontece além de nossas fronteiras. E, acima desses raciocínios estreitos, creio que temos empenho real, um interesse nosso que nos obriga a assegurar que nossos filhos e nossos netos cresçam em um mundo onde meninas não sejam sequestradas nas escolas e indivíduos não sejam massacrados por causa de tribo ou religião ou convicção política. Creio que um mundo de maior liberdade e mais tolerância não é só um imperativo moral, mas também nos ajuda a nos manter em segurança."

Ele declara que se render ante a imposição do controle pelos EUA significaria "mundo de maior liberdade e mais tolerância", rendição que "nos ajuda a nos manter em segurança". Foi o que se viu e foi o que os EUA fizeram... no Iraque? E quanto à Líbia? O que fizeram os EUA pela Ucrânia? Estarão talvez fazendo algo semelhante a isso na Síria? E quanto aos refugiados que jorram de todos esses países? Estão talvez sendo salvos pela política de Obama... a mesma política dos EUA já há décadas, que jamais foi desafiada e é política dos dois grandes partidos americanos, exceto pelo palavreado das mentiras de uns e outros, enquanto tentam justificar isso?

O predecessor de Obama no cargo, George W. Bush, também trabalhava no mesmo plano, quando invadiu o Iraque em 2003. Suas alegações – de que tinha certeza de que Saddam Hussein estaria reconstruindo seu programa de armas atômicas, sempre a repetir contra "o programa de Armas de Destruição em Massa de Saddam" que "há um relatório da Atômica... da agência IAEA que diz que faltam seis meses para terem pronta uma arma. Não sei que mais provas temos de esperar..." Tudo isso eram apenas mentiras deslavadas dele, porque tudo isso era falso, e ele sabia que era falso. Ele sabia que não havia tal relatório '' AIEA ''. E a imprensa nem sequer o desafiou sobre isso, ao invés de apenas repetiram mentiras do presidente, como se eles devessem ser automaticamente tomadas como verdades. (E a mesma mídia também ajudou a ocultar o imediato desmentido, pela IAEA, que declarou oficialmente que jamais existira o tal relatório). Está acontecendo de novo, mas as apostas neste momento são ainda mais perigosas.

Estamos indo para uma eleição presidencial, em que um candidata Hillary Clinton claramente quer continuar a política que está em vigor desde 1990 (e na qual o marido dela teve um papel de destaque), e em que o outro candidato, Donald Trump, quer parar com ela - ele diz que devemos acabar com isso. É o diz sem meias palavras, que os EUA devem pôr fim à política das muitas guerras por todo o mundo. Por isso, é acusado de ser agente soviético. A mesma aristocracia proprietária das empresas, redes e veículos de notícias controla também os dois principais partidos políticos americanos e está, ela também, ameaçada pelo projeto de Trump de repudiar a plataforma dos dois grandes partidos. Para tanto, servem-se de lições de moral – moralismos de direita, ao gosto dos Republicanos, e moralismo liberal, ao gosto dos Democratas –, para condenar Trump. Mas a verdadeira razão pela qual Republicanos e Democratas estão obcecados com derrotar Trump é porque o veem como obstáculo para que possam manter a mesma guerra deles todos (pelo lado dos EUA), que realmente jamais foi guerra contra o comunismo; sempre foi guerra global de conquista, para chegar ao controle global. Guerras sempre foram o instrumento preferencial de controle de que se serviram os que controlam os EUA pelo menos desde 1990. E que querem continuar a controlar. E porque querem continuar, estão arrastando os EUA rumo ao desastre.


Alguns dos principais membros do Congresso responsáveis por questões da política externa recusam-se até a ouvir falar das provas de que os EUA mentem em todos esses assuntos. Elizabeth Murray mostrou-se chocada ao descobrir que funcionários do governo dos EUA recusam-se deliberadamente a tomar conhecimento das provas. Murray trabalhou como vice-diretora de Inteligência Nacional para o Oriente Médio no Conselho de Segurança Nacional antes de aposentar-se com 27 anos de trabalho no governo dos EUA (era cogitada para dirigir a CIA.) Em 24 de julho de 2016, em um artigo intitulado "Deputado Rick Larsen Baseia em Mitos a Política para a Rússia", ela narra os próprios esforços para informar o deputado Larsen sobre a realidade da operação dos EUA na Ucrânia. Na Wikipédia lê-se: "Richard Ray "Rick" Larsen é deputado no Congresso dos EUA do 2º Distrito Congressional e membro do Partido Democrata. ... Larsen é membro da Comissão das Forças Armadas e da Comissão de Transportes e Infraestrutura da Câmara de Representantes. ... Serviu formalmente como diretor de questões públicas na Associação Dental do Estado de Washington e como lobbyist de associações profissionais de dentistas. ... O 2º Distrito foi representado pelo futuro senador dos EUA Henry M. "Scoop" Jackson de 1941 a 1953." (Jackson posteriormente ganhou fama como "o senador da Boeing," primeiro dos neoconservadores do Partido Democrata.)

Murray escreveu (os links abaixo foram acrescentados por mim):

"Mencionei deputado Larsen que eu tinha acabado de voltar da Rússia com uma delegação EUA, e que todas as pessoas na Rússia com que eu tinha falado - incluindo professores, estudantes, jornalistas, médicos, empresários e veteranos de guerra - não tinha desejo de uma guerra nuclear com os Estados Unidos, mas em vez disso expressaram o desejo de que as relações pacíficas, normalizadas... Durante o tempo que permanecemos em Yalta, organizei um evento de "natação pela paz" com veteranos de guerra norte-americanos e russos nadando juntos no Mar Negro, que obteve grande repercussão na mídia em idioma russo. Expliquei ao deputado Larsen o que me parecia que fosse a explicação de por que a opinião pública russa desconfia dos movimentos dos EUA na região (baseada no que ouvi das pessoas naquele país), e por que eles sempre temerão os EUA, quando se tratar de movimento unilateral de construção de confiança na direção do desarmamento nuclear. Os russos tinham em mente a gravação de Youtube em que Nuland fala de "Yats" (na qual se ouve claramente a voz de Victoria Nuland dizendo ao embaixador dos EUA na Ucrânia Geoffrey Pyatt que "Yats é o homem", pouco antes da mudança de regime pela qual Arseniy Yatsenyuk recebeu o cargo de primeiro-ministro, e que implicou os EUA diretamente no golpe ucraniano), sentem-se ameaçados pelas manobras da recente OTAN/Operação Anakonda que aconteciam ao mesmo tempo que nossa visita, e estavam muito preocupados com as ações de provocação dos EUA na região, incluídas as sanções econômicas contra Rússia e Crimeia, essas últimas impostas depois que a maioria dos cidadãos crimeanos votaram em plebiscito a favor de serem reintegrados à Rússia, em resposta ao que viam como interferência externa nos assuntos da Ucrânia. 
Larsen respondeu imediatamente com rejeição e negativas, disse claramente que não acreditava que os EUA tivessem qualquer participação nos eventos ucranianos – que o que eu lhe dizia "não era o que ouvi por aí' – e continuou a repetir como os Estados Bálticos sentiam-se ameaçados pela Rússia, etc. Não sabia o que era "Operação Anakonda" e parecia desconhecer completamente que as maiores manobras de todos os tempos da OTAN desde a II Guerra Mundial haviam acontecido há poucos dias, junto às fronteiras da Rússia. Ofereci para enviar ao gabinete dele mais informações sobre o assunto e sobre os eventos na Ucrânia – oferecimento que o deputado ignorou."

A trilha pela qual andamos só terminará em um de dois pontos finais: ou a mídia de notícias nos EUA cai na realidade e começa a noticiar as realidades cruciais em andamento (como o fato de que a agressão na Ucrânia nada teve a ver com Putin tomar a Crimeia, mas com o golpe acontecido imediatamente antes – e com a ação de limpeza étnica que se seguiu – feita por contratados de Obama, os quais começaram a ser organizados pelos americanos já em 1º de março de 2013, organização que culminou quase um ano depois). Essa é a realidade crucialmente decisiva que contradiz as mentiras oficiais e assim pode (se tivermos muita sorte) forçar o governo dos EUA a reverter o atual curso; não sendo assim, haverá um ataque relâmpago, ataque surpresa, ou de EUA-OTAN contra a Rússia, ou de Rússia contra EUA-OTAN. Quanto mais perto chegamos do impasse total, menos provável que se confirme a primeira hipótese, e mais inevitável que se confirme a segunda – ataque relâmpago (ou contra a Rússia, ou contra os EUA, pouca diferença faz). Essa é a realidade.

O mundo monopolar de Obama não passa de ficção, e quanto antes essa Grande Mentira de Obama for desmascarada (pela mídia ocidental para os públicos do ocidente), mais seguro será o mundo. Incômodos e desconfortos entre os que promulgaram e propagandearam a Grande Mentira serão em todos os casos a alternativa menos desastrosa – porque a alternativa mais desastrosa implica destruir o mundo de todos.

Integração econômica e livre mobilidade do trabalho

por Prabhat Patnaik


Tradução / Há uma visão de que o descontentamento entre os trabalhadores ingleses que provocou o voto no Brexit não foi por causa da integração econômica europeia em si, mas por causa da política de livre migração interna que tem acompanhado esta integração; de que se a Europa não houvesse instituído a livre migração dentro da UE, então a sua integração económica teria tido mais êxito. A sua integração econômica teria assim permanecido confinada apenas ao livre movimento de bens e capital mas não ao do trabalho, e que este movimento livre, isto é, apenas de bens e capital, é benéfico para os países a serem economicamente integrados.

A globalização contemporânea, pode-se recordar, também está confinada apenas ao movimento livre de bens e capital e não se estende ao livre movimento do trabalho. Segue-se da afirmação acima, portanto, que esta globalização deve ser benéfica para países capturados na sua teia e que estão errados os que argumentam que integração econômica envolvendo movimento livre de bens e capital é danoso para o povo dos países que estão a ser integrados.

Esta visão foi avançada recentemente (The Hindu, 14 de julho) pelo Dr. C. Rangaraja, o bem conhecido economista e ex-governador do Banco de Reserva da Índia, para contestar aqueles que vêem o próprio fato de estarem presos no movimento livre de bens e capital como a causa subjacente básica da aflição da classe trabalhadora inglesa e interpretam o voto no Brexit como uma revolta não auto-consciente contra isto.

Esta argumentação de que integração econômica envolvendo movimento livre de bens e capital numa certa região é provável que tenha êxito se não for acompanhada pela livre mobilidade do trabalho nessa região, entretanto, vai em sentido contrário aos postulados da teoria econômica convencional ("mainstream") sobre a qual está fundado o próprio projeto da UE.

Gunnar Myrdal, o famoso economista sueco e que recebeu um Prêmio Nobel, argumentou há muito que quando o capital se localiza em um lugar particular ele tende a atrair outros capitais àquele lugar. Segue-se disto que se há liberdade de movimentos de capital e de bens em uma região, então alguns segmentos desta tornar-se-ão "desenvolvidos" ao passo que outros se tornarão "subdesenvolvidos", através do que ele denominou um processo de "causação cumulativa".

Uma tal dicotomia, pode-se pensar, seria auto-negadora, uma vez que, na ausência de mobilidade do trabalho do segmento subdesenvolvido para o desenvolvido, os salários no primeiro cairiam abaixo dos salários dos últimos e que este fato atrairia capital do último para o primeiro. Por outras palavras, o processo de "causação cumulativa", seria enquadrado em algum ponto pelo desenvolvimento de uma diferença salarial entre os dois segmentos.

Mas isto não acontece. A vantagem potencial que o capital obteria localizando fábricas no segmento subdesenvolvido de salários mais baixos pode ser mais do que compensada pela desvantagem de se afastar do segmento desenvolvido onde várias "economias externas" (tal como infraestrutura adequada) estariam disponíveis, especialmente se o custo do trabalho for comparativamente uma pequena parte do custo total de produção (de modo que salários mais baixos não fazem grande diferença).

Pode-se dizer exatamente o mesmo sobre a da depreciação da taxa de câmbio no segmento subdesenvolvido. Mesmo se as taxas salariais nos dois segmentos forem iguais à taxa de câmbio inicial e nada mudar na taxa salarial, a depreciação da taxa de câmbio no segmento subdesenvolvido tem o efeito de baratear seu custo de produção, exatamente do modo como uma queda na sua taxa salarial o faria. Mas se a redução da taxa salarial não pode ultrapassar a "causação cumulativa", então uma depreciação da taxa de câmbio também será ineficaz pela mesma razão. Além disso, dentro de uma área com divisa comum, a questão da depreciação da taxa de câmbio de um segmento particular da área não se coloca.

Mesmo quando os dois segmentos não pertencem a uma área com divisa comum, uma depreciação pode no entanto ser contornada devido às suas consequências inflacionárias (porque inputs importados então custam mais e isto é "transmitido" na forma de preços mais altos). Tais consequências inflacionárias, além de prejudicarem o povo (por causa dos ganhos incertos decorrentes de uma depreciação da taxa de câmbio), em certa medida negam mesmo o efeito da própria depreciação. Se por exemplo houver uma depreciação de 10% da taxa de câmbio em termos nominais e se isto causar, através de efeitos custos a mais, uma ascensão de 6 por cento nos preços, então a depreciação efetiva real já não é mais de 10 por cento e sim de apenas 4 por cento, isto é, 10-6, cujo impacto correspondente na ampliação do nível de atividade no segmento subdesenvolvido fica diminuído.

Finalmente, uma depreciação da taxa de câmbio é sempre contrariada pelos interesses financeiros pertencentes a um segmento particular. Isto acontece porque a confiança dos possuidores de riqueza em manter sua divisa, ou ativos denominados nesta divisa, fica minada se a sua divisa adquirir a reputação de estar sujeita a depreciações, as quais portanto reduzem os negócios dos interesses financeiros localizados naquele segmento. (Isto, diga-se de passagem, é a razão porque a Grã-Bretanha, apesar de não ser uma área com a divisa comum e apesar de ter um défice em conta corrente na balança de pagamentos que atualmente chega a 7 por cento do PIB, nada faz para reduzir o valor da libra esterlina: a City de Londres, onde estão localizados os interesses financeiros britânicos, opõe-se à desvalorização da libra esterlina).

Por todas estas razões, tentativas de integração econômica invariavelmente enfrentam um obstáculo, nomeadamente de que os países que são candidatos à integração temem ficar "subdesenvolvidos" em consequência, especialmente se eles fizerem parte de uma área de divisa comum (de modo que a depreciação da taxa de câmbio é simplesmente impossível). E mesmo que isto possa não acontecer a países como tais, áreas particulares dentro de países podem tornar-se progressivamente cada vez mais "subdesenvolvidas" em consequência da integração econômica do país com uma entidade maior.

O caminho óbvio para ultrapassar este obstáculo é pela instituição da livre mobilidade do trabalho entre os diferentes segmentos que estão a ser integrados. Isto assegura que mesmo que o capital não flua para os segmentos atrasados, a força de trabalho do mesmo não permanece presa dentro de um cenário de "subdesenvolvimento" agravado. Ela escapa à aflição através da migração para o segmento desenvolvido.

Uma condição essencial para o êxito da integração econômica é portanto a livre mobilidade do trabalho na área que está a ser juntada através de tal integração, pois na sua ausência países soberanos ficarão relutantes em entrar na mesma. E a necessidade da livre mobilidade do trabalho é ainda maior quando a integração assume a forma de uma união de divisas, tal como a Eurozona. A mobilidade do trabalho é de fato tão essencial para o êxito da integração econômica que frequentemente economistas julgam as perspectivas de integração verificando se a diversidade cultural e linguística dentro dela dificulta a mobilidade do trabalho.

Portanto, a visão de que a integração econômica tal como aquela que a UE representa teria mais êxito na ausência de mobilidade do trabalho vai contra as conclusões básicas da teoria econômica "convencional". E precisamente devido a tais conclusões a UE instituiu a livre mobilidade do trabalho dentro das suas fronteiras, a qual foi considerada uma nova característica que faria a tentativa de integração um êxito, em contraste com tentativas semelhantes feitas em outras partes do mundo (tais como na América Latina).

A razão porque o projeto europeu esta a fracassar não se deve à livre mobilidade do trabalho (embora este fosse o modo como a direita apresentaria o assunto) mas sim à crise aguda na qual a Europa está atualmente envolvida, a qual afetou também a Grã-Bretanha. De qualquer forma, no âmbito do regime de globalização, houve uma mudança de várias atividades da Europa para países com salários mais baixos como a China e a Índia a qual provocou desemprego e dificuldades econômicas a certas seções da força de trabalho europeia, incluindo a britânica. (Isto à primeira vista pode parecer contradizer o prognóstico de Gunnar Myrdal, pois sugere que salários mais baixos estão a triunfar sobre o processo de "causação cumulativa"; mas as atividades sendo comutadas para fora das metrópoles são de ordem inferior no espectro tecnológico, o qual ainda deixa a tecnologia mais refinada e de atividades mais intensivas na metrópole). A sobreposição da crise nesta situação só fez as coisas piores para a classe trabalhadora europeia e inglesa.

A crise é um produto da globalização por duas razões óbvias: primeiro, a globalização impede a intervenção do Estado na "administração da procura" em estilo keynesiano, uma vez que o capital financeiro globalizado que tem poderes finais opõe-se a qualquer ativismo do Estado exceto para promover os seus próprios interesses. Em consequência, o único possível antídoto para uma crise ou uma tendência incipiente rumo à super-produção é a formação de uma "bolha" de preços de ativos. E uma vez que "bolhas" não podem ser fabricadas por encomenda, crises incipientes desenvolvem-se em crises completas e crises completas mantêm-se persistentemente.

Em segundo lugar, a globalização liga (embora não equalize) os salários mundiais e portanto mantêm-nos restringidos devido à existência das maciças reservas de trabalho do terceiro mundo. Logo, o crescimento de salários por toda a parte fica aquém do da produtividade do trabalho, elevando a fatia do excedente, tanto dentro de cada país como globalmente, precipitando uma crise de super-produção generalizada. Estamos a meio de uma tal crise.

O fim desta crise não está à vista em parte alguma. Isto acontece porque aos Estados-nação individuais falta a autonomia, dentro do regime da globalização, para resistir às pressões da finança globalizada e empreender medidas estimuladoras da procura dentro dos seus próprios países (com política comercial adequada para assegurar que tais medidas não tornem a balança de pagamentos insustentável). Ao mesmo tempo, não existe qualquer Estado supra-nacional ou global que possa em princípio ter a fortaleza para resistir às pressões da finança globalizada e empreender a "administração da procura".

Eis porque a economia mundial, não apenas a Europa ou a Inglaterra, continua a permanecer afundada na crise. Isto também explica porque a classe trabalhadora inglesa não auto-conscientemente votou por se desligar da UE que para ela constitui o teatro da globalização mais próximo. Provavelmente muitas outras revoltas assim se seguirão em outros países. Imaginar que a globalização, juntamente com suas medidas acompanhantes de "austeridade", acabarão por ser benéficas apenas se restrições forem impostas à livre mobilidade do trabalho é aceitar a visão do mundo das forças de direita na Europa que atacam a imigração mas não a "austeridade". Tais restrições na melhor das hipóteses exportam um bocado de aflições de trabalhadores de um segmento da Europa para outro – mas não podem acabar com as próprias aflições, mesmo num país que decida deixar a União Europeia e erguer barreiras contra a imigração, uma vez que isto exigiria que a procura fosse estimulada, isto é, que a "austeridade" deveria ser ultrapassada.