30 de setembro de 2016

Rússia pode aprender com o destino do Brasil

Paul Craig Roberts e Michael Hudson

counterpunch: Tells the Facts, Names the Names

Tradução / William Engdahl explicou recentemente como Washington usou a elite brasileira corrupta, que responde a Washington, para remover a presidente legal e legitimamente eleita do Brasil, Dilma Rousseff, para representar o povo brasileiro e não os interesses de Washington. Incapazes de ver a propaganda de acusações não provadas, os brasileiros aceitaram a derrubada do governo que os protegia. Assim deram ao mundo mais um exemplo da impotência da democracia.

Todos devem ler o artigo de Engdahl. Ali se explica que parte do ataque contra a presidente Rousseff cresceu sob as imposições de problemas econômicos deliberadamente criados por agências norte-americanas de avaliação de crédito, como parte do ataque para degradar a dívida do Brasil, que desencadeou um ataque contra a moeda brasileira, o real.

A abertura financeira do Brasil fez do país um alvo fácil para o ataque. Deve-se esperar que Vladimir Putin se aperceba e tome nota do alto custo da "abertura econômica". Putin é líder atento e cuidadoso da Rússia, mas não é economista; confia na neoliberal Elvira Nabiulina, escolhida de Washington para presidir o banco central da Rússia. Nabiulina não é especialista em Teoria Monetária Moderna, e o compromisso dela com a "abertura econômica" deixa a economia russa tão exposta quanto a economia brasileira, sem defesas contra a desestabilização do Brasil, promovida por Washington. Nabiuina acredita que o assalto contra o rublo se explicaria por "forças globais de mercado", que são impessoais, não pela ação financeira violenta, de Washington.

Nabiulina, uma doutrinadora e propagandeadora neoliberal, é essencialmente uma serva de Washington, e não está consciente do seu papel como "idiota útil". Ela se delicia com os aplausos que recebe do Consenso de Washington para deixar a economia russa aberta à manipulação de Washington. Sendo uma neoliberal, ela não entende que o banco central da Rússia pode criar a custo zero o dinheiro para financiar projetos produtivos na Rússia. Em vez disso, ela acha que o dinheiro que entra na economia do banco central é inflacionário, mas o dinheiro entra na economia de fontes estrangeiras não é.

O dinheiro é dinheiro, independentemente de saber se é disponibilizado pelo banco central ou por credores estrangeiros. Enquanto o dinheiro, independentemente da sua origem, foi usado de forma produtiva, o dinheiro não é inflacionário.

Há uma enorme diferença entre o dinheiro criado pelo banco central e o dinheiro criado por credores estrangeiros. Dinheiro emprestado por bancos estrangeiros sob a forma de dólares americanos ou euros tem de ser pago com juros na moeda estrangeira na qual o empréstimo for denominado (na mesma moeda na qual o dinheiro foi emprestado). Dinheiro criado pelo banco central para financiar projetos de infra-estruturas públicos não tem de ser reembolsado em tudo, muito menos com interesse e em divisas geradas pelas exportações.

Fundos adquiridos de empréstimos no exterior trazem muitos riscos. O dinheiro pode ser tirado, determinando o colapso do rublo livremente negociado. O juro que tem de ser pago é drenado das reservas russas de moeda estrangeira. Empréstimos externos também traz um risco cambial, que aumenta com sanções econômicas. Se o valor do rublo cair em valor, ou degradado em ataque orquestrado, o custo em rublos do empréstimo tomado no exterior pode crescer dramaticamente.

Nenhum desses riscos e custos estão presentes quando o banco central é a fonte de dinheiro. Usar apropriadamente o banco central russo é criar o dinheiro com o qual financiar projetos públicos e servir como emprestador de último recurso a empresas privadas russas incapazes de obter por elas mesmas o próprio financiamento. Este uso do banco central isola a economia russa de desestabilização orquestrada.

É lamentável para a Rússia que Nabiulina e o primeiro-ministro Dmitry Medvedev acreditam que a dívida da Rússia financiada por estrangeiros hostis é preferível ao dinheiro criado pelo próprio banco central da Rússia. Glazyev é o único dentre os conselheiros de Putin que compreende essa realidade. Suspeitamos que os atlanticistas integracionistas dentro do governo russo riscaram um alvo nas costas de Glazyev, porque o único projeto deles é integrar a Rússia ao Ocidente, independentemente dos custos para a Rússia. Estes russos "Adoradores da América" são o maior problema da Rússia..

Para Washington, a austeridade neoliberal é "apenas um produto de exportação" para países que Washington tem a intenção de transformar em colônias financeiras dependentes. Ao acomodar objetivos de Washington, Nabiulina está envolvida em uma farsa. Os dólares e euros emprestados do exterior não são o dinheiro que vai para os mutuários russos. A moeda emprestada fica guardada no banco central. Nabiulina, em seguida, cria os rublos que financiam os projetos. Não faz sentido algum tomar empréstimo em moeda estrangeira para que sirva como 'lastro' para rublos criados domesticamente. Independentemente de saber se a Rússia toma emprestado no exterior, o banco central deve criar rublos com os quais a financiar os projetos. Portanto, não há nenhum ponto para o endividamento externo.

O governo russo que não compreender isto está em apuros.

28 de setembro de 2016

Shimon Peres não era um pacificador. Nunca vou esquecer a imagem do banho de sangue e dos corpos queimados em Qana

Peres disse que o massacre foi uma "amarga surpresa". Era mentira: a ONU tinha alertado Israel, por diversas vezes, que o campo estava cheio de refugiados

Robert Fisk

The Independent

Tradução / Quando o mundo soube da morte de Shimon Peres, gritou "Pacificador!" Mas quando eu soube que Peres estava morto, pensei em sangue, fogo e massacre.

Eu vi os resultados: bebês dilacerados, refugiados em agonia, corpos fumegantes. Era um lugar chamado Qana e a maioria dos 106 corpos - metade deles de crianças - repousam agora sob o acampamento da ONU onde foram despedaçados por bombas israelenses em 1996. Eu tinha estado num comboio humanitário da ONU nos arredores da aldeia no sul do Líbano. Essas bombas romperam bem acima das nossas cabeças e atingiram o campo de refugiados sobrelotado abaixo de nós. Durou 17 minutos.

Shimon Peres, candidato a primeiro-ministro de Israel - um posto que herdou quando o seu antecessor Yitzhak Rabin foi assassinado - decidiu aumentar as suas credenciais militares antes do dia da votação atacando o Líbano. O cotitular do Prêmio Nobel da Paz usou como desculpa o disparo, pelo Hezbollah, de mísseis Katiusha ao longo da fronteira libanesa. Na verdade, os seus mísseis eram uma forma de retaliação pela morte de um menino libanês por uma mina que suspeitavam ter sido deixada por uma patrulha israelense. Isso não tinha importância.

Alguns dias mais tarde, as tropas israelenses existentes no Líbano foram atacadas perto de Qana e retaliaram abrindo fogo na aldeia. As suas primeiras bombas atingiram um cemitério utilizado pelo Hezbollah; as restantes voaram diretamente para o acampamento do exército das Ilhas Fiji da ONU, onde centenas de civis estavam abrigados. Peres anunciou que "não sabíamos que várias centenas de pessoas estavam concentradas naquele campo. Foi uma amarga surpresa".

Era mentira. Os israelenses tinham ocupado Qana durante anos após a sua invasão em 1982, tinham vídeos do acampamento, utilizaram, inclusive, um drone que sobrevoou o acampamento durante o massacre de 1996 - um fato que negaram até que um soldado da ONU me passou um vídeo com imagens do drone, do qual extraímos frames que publicamos no The Independent. A ONU tinha alertado Israel, por diversas vezes, que o campo estava cheio de refugiados.

Esta foi a contribuição de Peres para a paz libanesa. Ele perdeu a eleição e, provavelmente, nunca pensei muito mais sobre Qana. Mas nunca esqueci.

Quando cheguei aos portões da ONU, o sangue jorrava através deles em torrentes. Podia sentir o seu cheiro. Ele tomou conta dos nossos sapatos e prendeu-se a eles como cola. Havia pernas e braços, bebês sem cabeça, a cabeça de homens velhos sem corpos. O corpo de um homem, dividido em dois, estava pendurado numa árvore em chamas. O que restou dele estava em chamas.

Nos degraus do quartel, estava uma menina a segurar um homem de cabelos grisalhos, com o braço à volta do seu ombro, balançando o corpo para trás e para a frente nos seus braços. Os seus olhos estavam a olhar para ela. Ela estava a lamentar-se e a chorar, repetindo diversas vezes: "Meu pai, meu pai". Se ela ainda estiver viva - e existiu outro massacre em Qana posteriormente, desta vez da força aérea israelense - duvido que a palavra "pacificador" esteja a sair dos seus lábios.

Existiu um inquérito da ONU que, na sua forma branda, assinalou que não é credível que o massacre tenha sido um acidente. O relatório da ONU foi acusado de ser anti-semita. Muito mais tarde, uma corajosa revista israelita publicou uma entrevista com os soldados de artilharia que dispararam contra Qana. Um oficial referiu-se aos aldeões como "apenas um punhado de árabes" ('arabushim' em hebraico). "Alguns Arabushim morreram, não há mal nisso", frisou. O chefe de gabinete de Peres foi quase igualmente despreocupado: "Não conheço quaisquer outras regras do jogo, tanto para o exército [israelense] como para os civis...".

Peres apelidou a sua invasão do Líbano "Operação Vinhas da Ira", que - se não foi inspirada por John Steinbeck - deve ter vindo do Deuteronômio. "Por fora os devastará a espada, e por dentro o terror", lê-se no capítulo 32, "destruirá tanto o jovem como a virgem, a criança ainda a amamentar e o idoso." Poderia haver uma melhor descrição destes 17 minutos em Qana?

Sim, claro, Peres mudou nos últimos anos. Afirmaram que Ariel Sharon - cujos soldados assistiram ao massacre nos campos de Sabra e Chatila em 1982 pelos seus aliados da Falange Libanese (cristãos) - também foi um "pacificador" quando morreu. Pelo menos não recebeu o Prêmio Nobel.

Peres tornou-se mais tarde num defensor de uma "solução de dois estados", mesmo que as colônias judaicas em território palestiniano - que outrora apoiou tão fervorosamente – tenham continuado a crescer.

Agora, temos de chamá-lo de "pacificador". E contar, se pudermos, quantas vezes a palavra "paz" é utilizada nos obituários de Peres ao longo dos próximos dias. E depois contar quantas vezes a palavra Qana aparece.

27 de setembro de 2016

Assistir o debate de Trump e Clinton sobre o EI da minha casa no Médio Oriente foi tão previsível quanto absurdo

Robert Fisk

The Independent

Tradução / Assistir aos dois falando sobre o Oriente Médio como um amanhecer florindo por trás das montanhas libanesas acima de Beirut, me fez achar o show Trump-Clinton uma experiência instrutiva. Nos poucos cem quilômetros ao leste e sul do Líbano, centenas estão morrendo toda semana – na Síria, no Iêmen, no Iraque – e ainda assim tinham os gêmeos terríveis brincando de “eu posso combater o EI melhor do que você”. Foi isso mesmo que o mundo Árabe representou para os participantes do reality show no impronunciável campus de uma universidade em Long Island?

O que foi mesmo que Trump disse para Clinton? “Você esteve combatendo o EI sua vida adulta toda!” E o que Clinton disse? “Bom, ao menos eu tenho um plano para combatê-los!” Depois de uma hora, eu estava rezando para que os libaneses tivessem dormido em meio às montanhas. Por favor Deus, permita que haja um corte na eletricidade em Aleppo, Bagdá e Sanaa – somente por esses 90 minutos, você entende – para que as pessoas vivenciando a tragédia no Oriente Médio não testemunhem como o/a próximo/a presidente dos EUA estava usando seu lar como cenário de filme.

“Ele não tem planos de combater o EI”, disse Clinton. Mas alguém tem? É uma pena, por exemplo, que eles não tenham salientando “planos” de justiça, liberdade e dignidade no Oriente Médio e um fim à política de bombardeio, bombardeio, bombardeio, e mais bombardeio que agora parece se igualar à iniciativa política no mundo Árabe. Mas é claro que não o fizeram, pois tudo isso foi encaixado no último pedaço do show da CNN, o clímax que foi entitulado de “segurança americana”.

Houve uma menção muito breve de Trump a “Bibi Netanyahu” que deve ter deixado muitos norte-americanos desconcertados – exceto os apoiadores de Israel a que, é claro, a menção foi endereçada – mas aquilo foi tudo o que ouvimos sobre outro conflito pequeno no Oriente Médio. Esfregaram clichês e banalidades nas caras uns dos outros. Clinton alegou que Obama havia parado aquelas “centrifugadoras que estavam girando para longe” no Irã – não tenho certeza se centrifugadoras giram, Clinton devia estar falando sobre “dervixes que giram” que também moram na região. E depois Trump veio com a questão da torta de maçã.

“O Oriente Médio é uma completa bagunça”, e o Irã seria logo uma “grande potência” - como se o Irã já não fosse uma na região, como tem sido por 3.000 anos. Mas qual “bagunça” em particular ele estava falando? A “bagunça” nos hospitais ao leste de Aleppo? A “bagunça” dos direitos humanos no Egito – mesmo eu suspeitando que a versão do presidente-general-brigadeiro al-Sissi satisfaria Trump – ou a “bagunça” deixada para trás pelo bombardeio do hospital dos Médicos sem Fronteiras no Afeganistão? Ou talvez a “bagunça” da Palestina – outra palavra que não foi citada pela dupla que planeja dominar os EUA? “Bibi” não mencionou isso para Trump? Ou a “bagunça” da OTAN, cujos assassinatos de sérvios (e de alguns muçulmanos de Kosovo) em 1999 foram seguidos pelo apoio da Aliança na guerra afegã mas que, de acordo com Trump, “não foca no terror”?

“Temos que nocautear o EI – e temos que fazer isso rápido”, disse o grande homem ao mundo. Bom, claro, mas não estivemos nocauteando o Afeganistão, Iraque, Iêmen, Síria e até o Líbano, e alcançando o renascimento constante de combatentes cada vez mais viciosos que serão acompanhados por uma prole ainda pior do EI? Trump aparentemente acreditava que o EI não existiria se Obama tivesse deixado 10.000 tropas no Iraque – uma estratégia que o EI certamente teria aplaudido – enquanto Clinton reclamava sobre como o governo iraquiano “não iria proteger tropas norte-americanas”.

E aí é que está, eu suponho. É o trabalho do mundo árabe, “proteger” a América do Norte em suas várias ocupações militares, ou – ao menos – a tarefa dos “nossos amigos no Oriente Médio”. E quem eram eles, eu me pergunto? Aqueles sauditas fantásticos que nos deram 15 dos sequestradores do 11/9? O único absurdo deixado intocado por Trump e Clinton foi o fato de que o EI nasceu fora dos EUA. Lá teriam estado em local seguro. Ou será que não? Pelo o que eu suspeito, há um número crescente de árabes que acreditam que o EI, de fato, é um filho nascido nos EUA.

26 de setembro de 2016

Psyop: operação Síria

Manlio Dinucci


Tradução / As “Psyops” (Operações psicológicas), de que são especiais adeptas unidades das forças armadas e dos serviços secretos dos EUA, são definidas pelo Pentágono como “operações planificadas para influenciar através de determinadas informações as emoções e motivações e portanto o comportamento da opinião pública, de governos estrangeiros, de modo a induzir ou fortalecer posicionamentos favoráveis aos objetivos prefixados”.

É exatamente esse o escopo da colossal psyop político-midiática lançada sobre a Síria. 

Depois de cinco anos tentando demolir o Estado sírio, desmantelando-o por dentro com grupos terroristas armados e infiltrados do exterior e provocando mais de 250 mil mortes, agora que a operação militar está falindo, lança-se a operação psicológica para fazer com que apareçam como agressores o governo e todos os sírios que resistem à agressão. Uma ponta de lança da psyop é a demonização do presidente Assad (como se fez com Milosevic e Kadafi), apresentado como um sádico ditador que gosta de bombardear hospitais e exterminar crianças, com a ajuda do amigo Putin (pintado como um neoczar do império russo renascido das cinzas).

Com tal finalidade, será apresentada em Roma no início de outubro, por iniciativa de várias organizações “humanitárias”, uma mostra fotográfica financiada pela monarquia absolutista do Catar e já exposta na ONU e no Museu do Holocausto de Washington por iniciativa dos EUA, da Arábia Saudita e Turquia. A exposição contém parte das 55 mil fotos que um misterioso desertor sírio, de codinome Caesar, disse terem sido tiradas por encargo do governo de Damasco com o objetivo de documentar as torturas e assassinatos dos prisioneiros, ou seja, os próprios crimes. (Veja a foto sobre a fiabilidade do relatório de Sibialiria e l’Antidiplomatico).

É necessário fazer uma outra mostra, para expor toda a documentação que demole as “informações” da psyop sobre a Síria. Por exemplo, o documento oficial da Agência de inteligência do Pentágono, datado de 12 de agosto de 2012 (desarquivado em 18 de maio de 2015 por iniciativa de “Judicial Watch“): este relata que “os países ocidentais, os Estados do Golfo e a Turquia apoiam na Síria as forças de oposição para estabelecer um principado salafista na Síria oriental, algo desejado pelas potências que sustentam a oposição com o objetivo de isolar o regime sírio”. Isto explica o encontro em maio de 2013 (documentado fotograficamente) entre o senador estadunidense John McCain, na Síria, por conta da Casa Branca, e Ibrahim al-Badri, o “califa” à frente do chamado Estado Islâmico.

Explica também por que o presidente Obama autorizou secretamente em 2013 a operação “Timber Sycamore“, conduzida pela CIA e financiada por Riad com milhões de dólares, para armar e treinar os “rebeldes” para infiltrá-los na Síria (New York Times, 24 de janeiro de 2016).

Outra documentação se encontra no e-mail de Hillary Clinton (desarquivado como “case number F-2014-20439, Doc No. C05794498″), no qual, exercendo o cargo de secretária de Estado, escreve em dezembro de 2012 que, devido à “relação estratégica” Irã-Síria, “a derrubada de Assad constituiria um imenso benefício para Israel, e faria também diminuir o compreensível temor israelense de perder o monopólio nuclear”.

Para demolir a “informação” da psyop, é necessário também fazer uma retrospectiva histórica de como os EUA instrumentalizaram os curdos desde a primeira guerra do Golfo em 1991. Naquele momento para “balcanizar” o Iraque, hoje para desagregar a Síria.

As bases aéreas instaladas hoje pelos EUA na área curda na Síria servem à estratégia “divide e impera”, que visa não à libertação mas a submeter os povos, inclusive o curdo.

23 de setembro de 2016

O golpe foi longe demais

Rob Urie

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Um dos aspectos politicamente mais frustrantes da última década no Ocidente é a falta de vontade dos poderes-de-fato para abordar a disfunção radical que é a base da economia política ocidental. De fato, como microcosmo e metáfora, o "escândalo" do banco Wells Fargo criando milhões de contas falsas, cobrando dos seus clientes pelo privilégio e depois mandando às favas os chamados reguladores, é apropriado. Em 2011, quando se diz que o banco teria iniciado essa prática, o Wells Fargo ainda estava sendo ativamente socorrido, medidas "extraordinárias" estavam sendo tomadas para reviver as fortunas dos ricos e bem relacionados, e ainda não havia se tornado totalmente claro que "a mudança que você pode acreditar" significava a completa revitalização do sistema que criou as crises recorrentes das últimas décadas.

A incessante propaganda da recuperação econômica isolou "a economia" do sistema mais amplo de controle político e econômico e impôs um ciclo ascendente fortemente projetado como um novo estado de coisas permanente. Ela também colocou os fatos, tal como vivido por centenas de milhões de pessoas, contra a insistência por parte dos governos e bancos centrais dos EUA, da União Europeia e da Grã-Bretanha de que a recreação das circunstâncias que produziram as anteriores três crises de algum modo produziriam resultados amplamente compartilhados e benevolentes desta vez. O que o "escândalo" Wells Fargo tornou evidente é que o que foi recuperado foi o sistema de finanças predatório que existe com capitalistas institucionalizados colocando-se a serviço de uma pequena mas poderosa plutocracia.


Gráfico: O golpe de Estado capitalista que começou nos anos 1970 foi uma resposta a uma crise real, exposta como taxa de lucro decrescente e/ou declinante controle plutocrático sobre a economia política ocidental. A financeirização alterou o equilíbrio de poder, fazendo-o pender na direção do capital através do sistema monetário. Bancos criam dinheiro contra passivos separáveis [separable liabilities]. Analogia grosseira mas clara é você poder legalmente tomar um empréstimo, dando como garantia a casa de seu vizinho: você (os capitalistas conectados) fica com o dinheiro; e a casa de seu vizinho é tomada pelo credor quando você não pagar o empréstimo. O resultado eventual é que as demandas sobre a produção econômica vão-se concentrando cada vez mais, conforme o sistema econômico torne-se instável. Fonte: St. Louis Federal Reserve.

A luta de classes visível na atual temporada política foi lançada "de cima" nos anos 1970 por capitalistas conectados – riqueza herdada com apoio de uma classe gerencial comprometida, com o objetivo de retomar o poder e o controle sobre a economia política ocidental. A promessa, feita contra os resultados reais de vários séculos de história imperial ocidental, era de prosperidade amplamente partilhada obtido através da auto-realização restrita da democracia capitalista. O resultado real é uma circunstância econômica fortemente declinante para muitas pessoas; uma rala prosperidade para os gerentes burgueses do apoio; e uma nova Era Dourada para a classe que se autoenriquece, executivos das grandes empresas, os que herdam patrimônio e os predadores financeiros.

Aqui, novamente o caso do banco Wells Fargo serve como microcosmo exemplar – um porão de trabalho escravo financeiro para trabalhadores de baixa qualificação, comandado por executivos dedicados ao autoenriquecimento (e "acionistas") cujo modelo de negócio implica usar poder social assimétrico para roubar todos que eles consigam roubar. Inicialmente, só o banco Wells Fargo sabia que o golpe de abrir contas fraudulentas para cobrar taxas ilícitas era sistêmico. Sem saber do que estava acontecendo, clientes individuais acreditavam, de boa fé, que contas abertas fraudulentamente eram erros; tomados um a um, o dinheiro roubado de correntistas era muito pouco e não justificaria contratar advogados com o objetivo de reavê-lo; e em 2011, quando a fraude foi afinal notificada e supõe-se que teria começado, Wall Street já havia conquistado o 'direito', que o governo de Barack Obama garantiu-lhe, de criar documentos falsos e cobrar taxas ilícitas para despejar fraudulentamente milhões de tomadores de empréstimos garantidos por hipotecas.

Apesar de a promessa de prosperidade partilhada ser ainda tida em alta conta e repetida por capitalistas, ecapitalistas, executivos de empresas e seus "idiotas úteis" na academia quando o golpe capitalista foi lançado nos anos 1970, à altura de 2008, as provas já se acumulavam a ponto de já se terem tornado irrefutáveis: o capitalismo, o imperialismo econômico, apresentado como de 'livre escolha', é modo de organização social que existe para gerar catástrofe,  e só beneficia uma ínfima minoria, à custa de todos os cidadãos do planeta. Se se consideram os termos de que se servem os explicadores de academia do capitalismo (economistas), o sistema existente só é plausível durante os breves períodos de respiro entre crises recorrentes. A grande tendência do declínio da economia sugere que o torvelinho e a agitação social só aumentarão, até que se encontre outra solução. Fonte: St. Louis Federal Reserve.

A atual temporada de campanha política mostra duas alas da tungocracia [griftocracy] que disputam uma mesma carcaça. Hillary Clinton e Donald Trump são renomados gerentes da ralé', a saber, dos eleitores, sempre ativos a favor da riqueza e do poder como os temos hoje. O banco Wells Fargo foi empoderado para fraudar e roubar clientes, primeiro pelos Clintons com as leis de desregulação, na sequência por Barack Obama mediante os resgates sem qualquer consequência e os programas para falso alívio da tragédia das famílias despejadas. John Stumpf, presidente do Wells, gerencia seu banco mais ou menos como Donald Trump administra seus negócios, servindo-se sempre do poder econômico assimétrico disfarçado como relações de mercado. Fazendo pose de capitalistas supostos bem-sucedidos, os dois assaltam o dinheiro público que chega até eles sob a forma de resgates, privilégios, redução de impostos, tribunais especiais e, mais importante, mediante o sistema de "livre" empresa, onde defraudar trabalhadores e clientes é uma prática comercial normal.

Esse último ponto foi exposto e defendido com alarido e sem descanso durante os primeiros dias do governo Obama, quando os arquitetos da catástrofe econômica – Timothy Geithner, Larry Summers, Ben Bernanke e sortimento variado de apparatchiks do capitalismo financeiro estavam sendo escalados para enterrar os mortos e arquitetar uma "recuperação" econômica que, não se entende como, talvez por milagre, não viu os que realmente careciam de tudo, e só recuperou o sistema de finanças predatório que os pôs no comando e deu-lhes emprego e poder. Só esse sistema foi recuperado, e tornou os atores específicos em larga medida supérfluos. As diferenças mais notáveis entre Hillary Clinton e Donald Trump aparecem nas respectivas políticas externas. As diferenças mais notáveis ​​entre Hillary Clinton e Donald Trump aparecem através das políticas estrangeiras. É por isso que a história de Hillary como sociopata-pelo-império é tão preocupante. Ambos incorporam o ethos da classe auto-enriquecida por fraudes onde emergem banqueiros como Wells Fargo.

Gráfico: o golpe de Estado capitalista, que começou na década de 1970, usou financiamento como mecanismo de concentração de créditos sobre a produção econômica em poucas mãos. A taxa declinante da produção econômica no ocidente desenvolvido (parte média do gráfico) coincide com crises de magnitude crescente, ligadas à jogatina financeira. Habitação, como arte e outros "ativos" tangíveis, foram financeirizados e comercializados [commodified] para facilitar a propriedade, agora concentrada, de todos esses ativos. A fungibilidade dos ativos é uma função da "liquidez", o aspecto pelo qual as demandas sobre a produção econômica são realizadas socialmente. É o que dá conteúdo político às políticas do Federal Reserve que economistas de academia pretendem que seriam neutras. Método: Ln (h) + Ln (s) = Ln (h*s) = Soma de Todas as Bolhas. Fonte: St. Louis Federal Reserve.

Como ficou claro depois da última crise, a economia política recuperada funciona mediante o emprego do poder social para esmagar trabalhadores e fraudar consumidores. Acrescentem-se colonialismo e neocolonialismo, e temos o imperialismo ocidental dos últimos vários séculos. Nenhum dos candidatos dos grandes partidos americanos cuidarão de modo significativo da questão do aquecimento global, nem de reduzir as armas nucleares nem de reconstruir o poder do trabalho. Só promoverão os interesses dos grandes capitalistas interconectados, sob a máscara de que estariam cuidando do interesse público. O "escândalo" Wells Fargo é bom para uma ou duas rodadas de postura política insípid, para assegurar que o resultado seja o apoio contínuo ao sistema que produziu. Que Marx e Lenin bem identificaram essas disfunções do capitalismo mais de um século atrás sugere o poder dos quadros analíticos que estão disponíveis para ser aplicados quando necessário.

Finalmente, e é relevante para qualquer economista que tenha lido até aqui, bolhas financeiras tem consequências distribucionais (Gráfico 1) e também são economicamente desestabilizantes. O modelo de "fundos aplicáveis" que relaciona empréstimos bancários aos depósitos mediante taxas de juros perdeu o poder descritivo-explicativo em relação à financeirização da economia dos anos 1970 em diante. (Nunca foi mecanicamente preciso) O paradoxo criado por juros baixos na era atual é que eles motivam uma alavancagem financeira sempre crescente, que amplia a instabilidade econômica. Pode implementar uma gestão keynesiana da demanda mediante políticas fiscais, sem a necessidade de juros perpetuamente baixos. Como o golpe do banco Wells Fargo sugere, como ponta visível do iceberg, o sistema hoje existente de capitalismo de finanças tem de ser posto abaixo, para que a reconciliação social seja possível.

20 de setembro de 2016

Missão desonesta: O pentágono bombardeou o exército sírio para impedir o cessar-fogo?

Mike Whitney

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

"Tudo indica que o ataque... foi deliberadamente cometido por forças de dentro do governo dos Estados Unidos hostis ao cessar-fogo. ... Afirmar que os combatentes norte-americanos não tinham conhecimento de quem eles estavam bombardeando simplesmente não é crível, e é categoricamente contrariado por outros relatos dos meios de comunicação..."
– Alex Lantier, World Socialist Web Site

Tradução / Um racha entre o Pentágono e a Casa Branca foi convertido em rebelião declarada no sábado, quando dois jatos F-16 e dois aviões de combate A-10 dos EUA bombardearam posições do Exército Árabe Sírio (EAS) em Deir al-Zor matando no mínimo 62 soldados regulares sírios e ferindo outros 100. Os EUA assumiram responsabilidade direta pelo incidente, que chamaram de "um erro", mas o momento em que o massacre ocorreu fez crescer as especulações de que o ataque foi tentativa desesperada, no último segundo, para fazer gorar a implementação do frágil acordo de cessar-fogo contra o qual os líderes do Pentágono posicionaram-se abertamente. Muitos analistas trabalham hoje para tentar definir se os ataques são mesmo indicação de que o Departamento de Defesa infestado de neoconservadores estaria ativamente sabotando a política do presidente Obama para a Síria, o que implicaria que o Pentágono estaria sob comando de rebeldes antidemocráticos que rejeitam a autoridade constitucional civil. O massacre do sábado passado sugere fortemente que cresce um motim dentro do Departamento de Guerra.

O cisma que emergiu entre os falcões do Pentágono e membros mais conciliadores do governo Obama já gerou críticas vindas tanto dos principais jornais nos EUA (The New York Times) como dos mais altos membros do gabinete russo. No sábado, em conferência de imprensa de emergência na ONU, o embaixador russo Vitaly Churkin referiu-se ao que já apareceu como uma luta de poder que se trava em Washington, em termos duros:

"A grande pergunta que se tem de fazer é 'Quem manda em Washington? A Casa Branca ou o Pentágono?' (...) Porque ouvimos comentários vindos do Pentágono que desmentem completamente o que ouvimos de Obama e Kerry…" (https://www.youtube.com/watch?v=bID01gIEIOY. Ver – 10:15 segundos)

Churkin não é o único que tem notado a diferença entre Obama e seus generais. Um artigo recente no New York Times também destacou as divisões que parecem estar aumentando, enquanto a situação na Síria continua a deteriorar-se. Aqui está um trecho do New York Times:

(SECDEF Ash) "Carter estava entre os funcionários do governo que se opôs ao acordo..., embora o presidente Obama claramente aprovasse o esforço. Na terça-feira no Pentágono os comandantes não aceitavam sequer que se decidisse que, se a cessação da violência se mantivesse por sete dias – parte inicial do acordo –, o Departamento de Defesa implementaria a parte dele do acordo, no oitavo dia... 
'Não estou dizendo nem sim nem não', disse o tenente-general Jeffrey L. Harrigian, comandante do Comando Central das Forças Aéreas dos EUA, em vídeo conferência com jornalistas. 'Seria prematuro dizer que vamos saltar diretamente dentro desse acordo.'" (Detalhes do Pacto na Síria amplia a rixa entre John Kerry e o Pentágono, New York Times).

Pense nisso por um minuto: O tenente-general Harrigian parece estar dizendo que ele não pode seguir uma ordem do Comandante-em-Chefe, se não for do seu agrado. Quando exatamente líderes militares começam a acreditar que as ordens são opcionais ou que o DOD tem um papel a desempenhar na formulação de políticas? Aqui está mais do NYT:

"A divisão entre os senhores Kerry e Carter reflete o conflito inerente da política do senhor Obama para a Síria. O presidente se colocou politicamente sob fogo crescente por ter-se recusado a intervir com mais força na guerra civil (sic) que já dura cinco anos, que a ONU diz que já matou mais de 400 mil pessoas, converteu mais de seis milhões em sem-teto e levou a grave crise de refugiados na Europa. Mas manter longe da Síria forças norte-americanas de solo também gerou espaço para que a Rússia assumisse ali papel muito maior, tanto no campo de batalha como na mesa de negociações... 
O resultado é que, em tempo em que EUA e Rússia estão nas respectivas posições mais combativas desde o final da Guerra Fria, os militares norte-americanos são informados de que, no prazo de uma semana, terão de começar a partilhar inteligência com um de seus maiores adversários para que, juntos, os dois ataquem forças do Estado Islâmico e da Frente Nusra na Síria. 
'Mantenho-me cético quanto a fazer qualquer coisa com os russos' disse o general Philip M. Breedlove que deixou recentemente o posto de supremo comandante aliado da OTAN, na segunda-feira, numa entrevista. 'Há muita preocupação sobre o que fazer lá, onde está o nosso pessoal.'" (New York Times).

Assim sendo, o Falcão Supremo pró-guerra, Ash Carter, e seus colegas russófobos querem intensificar o conflito, expandir a presença militar dos EUA em solo sírio e confrontar diretamente a Rússia. Não aprovam a política do presidente dos EUA, e, assim sendo, estão fazendo de tudo para torpedear o acordo de cessar-fogo. Mas por que, afinal, só hoje, posto que o acordo de cessar-fogo já está vigente há cinco dias? Se Carter & Co. viram a cessação de hostilidades como ameaça tão grave, por que não agiram antes?

Há uma explicação simples para isso. O perigo real não era o cessar-fogo em si, mas as partes do acordo que exigiam que o exército dos EUA trabalhassem em colaboração com a Força Aérea Russa para derrotar as organizações terroristas que operam na Síria, ou seja, al-Nusra e ISIS. Essa é a parte do acordo à qual o Pentágono opõe-se abertamente; e essa é a parte do acordo que começaria a ser implementada dia 19 de setembro, menos de 48 horas depois dos ataques do sábado passado. Hoje, o futuro do acordo já está por um fio, precisamente o que Carter e seus generais queriam. Adiante, um pouco mais do contexto, nos comentários de Churkin, no sábado:

"Muito significativo, e não por acaso, que [o ataque] tenha acontecido apenas dois dias antes da data em que os acertos entre russos e norte-americanos deveriam ser postos em operação... 
O objetivo do grupo conjunto de implementação do acordo é permitir coordenação expandida entre EUA e Rússia. Participantes do acordo devem trabalhar juntos para derrotar al-Nusra e ISIL no contexto de reforçar a cessação de hostilidades e em apoio à transição política delineada na UNSC 2254. Eram arranjos muito importantes os quais – em nossa opinião – poderiam realmente mudar o jogo e contribuir muito positivamente para complementar nossos esforços para derrotar al-Nusra e ISIS, ao mesmo tempo em que criam melhores condições para o processo político... 
O dia marcado para a implementação do decidido no acordo de cessar-fogo era 19 de setembro; assim sendo, se os EUA quisessem atacar ISIS ou al-Nusra, poderiam ter esperado dois dias e coordenado os ataques, de modo a assegurar que estariam atacando o alvo certo.... A única conclusão possível é que o ataque aéreo foi executado para fazer desandar a operação do Grupo Conjunto de Implementação e realmente impedir que começasse a operar" (Assista o vídeo inteiro: https://www.youtube.com/watch?v=bID01gIEIOY)

A razão pela qual Moscou vê a "coordenação expandida entre EUA e Rússia" como capaz de "mudar o jogo" é que nem Putin nem seus conselheiros creem que essa guerra possa ser vencida militarmente. Por isso, em dezembro, Putin reduziu a presença militar russa na Síria. Queria reduzir tensões e criar oportunidades para negociações. Moscou sabe que não haverá jamais acordo que ponha fim ao conflito, a menos que os principais participantes entrem em acordo para uma solução política. Por isso Putin está fazendo tudo que está ao alcance dele para levar os EUA a um acordo pelo qual Moscou e Washington partilhem as responsabilidades de segurança. Esse é o objetivo do cessar-fogo: criar uma situação na qual as duas superpotências estejam numa mesma equipe, envolvidas no mesmo processo e trabalhando para o mesmo objetivo.

Infelizmente, os falcões belicistas do Pentágono e seus aliados no establishment político dos EUA, e a comunidade de inteligência, não aceitam nada disso. Os objetivos dos falcões belicistas, dos liberais intervencionistas e dos neoconservadores são idênticos, como sempre foram, desde o início. Querem derrubar al-Assad, rachar a Síria em vários pedaços, instalar um fantoche dos EUA em Damasco, controlar os corredores de oleodutos e gasodutos críticos do Qatar até a Turquia, e infligir derrota humilhante à Rússia. Para esse grupo, qualquer envolvimento ou cooperação com a Rússia só faz minar o principal objetivo deles, de escalar o conflito, aumentar o poder deles no Oriente Médio e fazer recuar a influência russa.

Isso é o que torna o ataque sem precedentes a posições do Exército Sírio tão suspeito: porque tem tudo para ser um derradeiro esforço, por rebeldes desesperados dentro do Pentágono, para pôr fim ao cessar-fogo e impedir Washington de fazer qualquer tipo de parceria com Moscou na luta contra o terrorismo e o extremismo militante. Sejam os ataques "intencionais" ou não, o analista militar Pat Lang postou essa dica iluminadora, no sábado, em sua página Sic Semper Tyrannis:

"O Exército Árabe Sírio já estava ocupando essas posições há cerca de seis meses. Pode-se prever que as câmeras fotográficas e de vídeo e todos os analistas de Inteligência tenham estado a olhar para aqueles soldados o tempo inteiro, produzindo mapas e mais mapas detalhados, onde qualquer um os poderia identificar. Esses documentos sempre estariam acessíveis para muitos, especialmente para unidades aéreas e os especialistas em definir alvos e miras. Jamais antes a coalizão dos EUA atacou qualquer posição na área de Deir al-Zor."

 Assim sendo, sim, os ataques podem ter sido "um erro", mas as chances de que tenha acontecido assim são ínfimas. A explicação mais provável é que as ordens de ataque partiram dos mais altos níveis do comando central, provavelmente do próprio Ash Carter, cuja determinação em fazer gorar o acordo Obama-Putin para o cessar fogo pode ter sido o ímpeto que levou ao banho de sangue que se viu em Deir al-Zor no sábado.

É impossível exagerar a importância do embate entre o DOD e da Casa Branca. A resistência contra a política de Obama para a Síria escalou repentinamente e converteu-se em motim aberto, de um lado dissidentes da hierarquia militar, de outro representantes eleitos pelo povo. O bombardeio trágico em Deir al-Zor é provavelmente apenas a primeira escaramuça nessa nova guerra. Devem-se esperar mais confrontações nos próximos dias.

Celebrando o um por cento: A desigualdade é realmente boa para a economia?

Michael Hudson

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Parafraseando Mark Twain, todo mundo reclama da desigualdade, mas ninguém faz nada em relação a ela.

A única coisa que se vê é gente que usa "desigualdade" como ponto de partida para projetar seus próprios pontos de vista sobre como tornar a sociedade mais próspera e, ao mesmo tempo, mais igual. Essas visões dependem de como cada um vê o 1%: como inovador, esperto e criativo, gente que enriqueceu de tanto que todos eles ajudaram a sociedade. Ou, se o veem, como escreveram os grandes economistas clássicos, como o estrato mais rico da população, constituído de rentistas, que extraem dos 99% a própria renda e a própria riqueza, vivendo como latifundiários ociosos ou banqueiros monopolistas e predadores.

Estatísticas econômicas mostram que a desigualdade prospera praticamente em todo o mundo. Depois de um pico nos anos 1920, as reformas da Grande Depressão ajudaram a tornar mais equitativa e estável a distribuição de renda desde 1980.¹ Depois, no nascimento do thatcherismo na Grã-Bretanha e da reaganomics nos EUA, a desigualdade realmente decolou. E decolou, em grande parte, com o setor financeiro (especialmente quando as taxas de juros encolheram dos 20% em 1980, criando o maior boom no mercado de ações de toda a história). A propriedade imobiliária e a indústria foram financeirizadas, quer dizer, alavancadas com dívidas.

A desigualdade aumentou sem parar até o crash financeiro global de 2008. Desde então, porque banqueiros e grandes acionistas foram salvos, eles, não a economia, o 1% do topo passou a tocar ainda mais furiosamente adiante o resto da economia. Enquanto isso, os 25% do patamar mais baixo da economia viam deteriorar o próprio patrimônio líquido e a própria renda relativa.

Desnecessário dizer, os ricos têm seus próprios agentes de relações públicas, apoiados pela usual falange de idiotas professores de academia úteis. Na verdade, já há um século a economia mainstream converteu-se em celebração da classe rentista rica. E, com a desigualdade cada vez maior e crescendo, os celebradores do 1% descobriram a premente necessidade dos serviços daquela falange.

Caso em destaque é o economista escocês Angus Deaton, autor de Fugindo do Inferno: Saúde, Riqueza e as Origens da Desigualdade (2013). Eleito presidente da AEA em 2010, em 2015 recebeu o Prêmio Nobel de Economia por analisar tendências de consumo, distribuição de renda, pobreza e bem-estar em termos que de modo algum ofendesse os ricos; de fato, tratou os tatus quo de desigualdade crescente como perfeitamente natural, com um tipo próprio, especial, de equilíbrio matemático (esse tipo de raciocínio matemático em círculos é, hoje em dia, o critério para aferir boa política econômica).

O livro dele toma o filme Fugindo do Inferno como metáfora. Em tom sarcástico destaca que ninguém jamais teria dado ao filme o título de "Os prisioneiros esquecidos lá atrás". Fala dos fugitivos como inovadores brilhantes, assume que o 1% mais rico, como aqueles homens, teriam sido espertos e criativos o suficiente para romper os elos do pensamento da caixa e inovar. Os fundadores de Apple, Microsoft e outras empresas de TI têm lugar especial, porque existem para tornar mais rica a vida do restante da humanidade. E a economia em geral conheceu ascensão mais ou menos regular até o topo, sobretudo com a indústria da saúde que ampliou a expectativa de vida, descobriu a cura de doenças e com a inovação na indústria farmacêutica.

Recentemente, partilhei com o professor Deaton o mesmo cenário, em Berlin, ao lado do meu amigo David Graeber. Nós três tivemos livros traduzidos ao alemão, que serão lançados nesse outono, pelo maravilhoso editor Klett-Cotta, que organizou o evento na Feira de Literatura de Berlin em meados de setembro.

Em certo sentido, a analogia de Deaton com o filme Fugindo do Inferno é até adequada. Os ricos escaparam. Mas a questão importante é de onde fugiram. Fugiram das leis reguladoras, de ter de pagar impostos (graças aos enclaves bancários offshore e ao trabalho de reescrever as leis para transferir toda a carga fiscal para as costas do trabalho e da indústria). Principalmente, os banqueiros de Wall Street escaparam de ser processados criminalmente. Não há necessidade de escapar da prisão se você pode evitar ser capturado e condenado, em primeiro lugar!

Um grande número de livros recentes – ecoados semanalmente na página editorial de Wall Street Journal – atribuem ao 1% mais rico o pressuposto de que eles têm necessariamente de ser mais espertos que a maioria das pessoas. Pelo menos, suficientemente mais espertos para frequentar as mais caras escolas de administração de empresas e conseguir MBAs que lhe ensinam a financeirizar as corporações com zaitech ou outro tipo de alavancamento por dívidas, e recolher (na verdade, para fazer por merecer e conquistar) gordos bônus.

O fato é que ninguém precisa ser inteligente para fazer muito dinheiro. Só precisa cobiçar muito. E isso não se aprende em escolas de gestão. De fato, quando fui trabalhar como analista de balanço de pagamentos no Chase Manhattan em 1964, disseram-me que os melhores corretores de moeda saíam das favelas do Brooklyn ou de Hong Kong. Toda a vida deles era devotada a fazer dinheiro, para ascender até a classe dos proverbiais Babbitts do nosso tempo: nouveau riches sem qualquer cultura real e/ou qualquer curiosidade intelectual.

Claro que, para banqueiros que se aventurem a "esticar o envelope" [stretch the envelope] (eufemismo usado pelos fraudadores para "infringir a lei", como fez o Citigroup em 1999 quando se fundiu com Travelers’ Insurance, antes de o governo Clinton cancelar a Lei Glass-Steagall), é indispensável ter advogados sabidos. Mas também nesse caso, Donald Trump já explicou o segredinho que aprendeu Roy Cohn, advogado com especialização em gangsteres: a lei nem é tão importante; importante é o juiz que você consiga. E as cortes dos EUA foram privatizadas mediante o processo de eleger juízes cujos doadores de campanha e de fundos em geral apoiam desreguladores e não-procuradores. Assim, os ricos nunca têm de responder a lei alguma. E os tribunais norte-americanos foram privatizadas pelos juízes eleitos cujas contribuidores de campanhas volta desreguladores e não-promotores. Então, os ricos escapam de estar sujeitos à lei.

Embora nenhum frequentador de cinemas quisesse ver os heróis de Fugindo do Inferno capturados e devolvidos ao campo de prisioneiros, muita gente há que gostaria de ver na cadeia os escroques de Wall Street (do Citigroup, Bank of America e outros fraudadores de hipotecas podres) junto com Angelo Mazilo do Countrywide Financial. Ninguém ama os lobbyistas políticos desses sujeitos, como Alan Greenspan, o advogado geral Eric Holder, Lanny Breuer e seus paus mandados que se recusaram a processar fraudes financeiras.

Deaton realmente cita "rentistas" [rent seekers] – mas no sentido em que falava seu predecessor no catálogo dos Prêmios Nobel, Buchanan, para quem "rentistas" seriam sempre o estado e o governo, não os exploradores de propriedade imobiliária, monopólios como o farmacêutico e o da tecnologia da informação, seguros-saúde, companhias de televisão a cabo e alta finança. Quer dizer, a culpa pela pobreza é ou do Estado e governo, ou de quem não paga as contas, nem o aluguel ou prestações da casa, dos desempregados e malnascidos que são as principais vítimas da economia rentista de hoje.

Fugindo do Inferno de Deaton vê alguns problemas, mas não são problemas do próprio sistema econômico – não há problema algum nas dívidas, no monopólio, na crise das hipotecas podres ou na fraude nas finanças. Fala do aquecimento global como problema principal, mas não do problema político da indústria do petróleo. Para ele a questão é a educação que se deve dar aos 99% para que não poluam, mas sem falar do empréstimo para pagar os estudos, dos aleijões que são as universidades privadas que vendem educação, mas continuam a ser mantidas com empréstimos de dinheiro público.

Ele mede a grande melhoria no bem-estar pelo PIB (Produto Interno Bruto). Lloyd Blankfein, do Goldman Sachs descreveu notoriamente gestores e parceiros de seu banco de investimento como os indivíduos mais produtivos nos Estados Unidos por ganharem US $ 20 milhões por ano (não incluindo bônus) –, tudo registrado como parte da contribuição do setor financeiro para o PIB. Não há nem ideia, aí, de que tudo isso é o que os economistas chamam de atividade de soma-zero – quer dizer, que os salários de Goldman Sachs podem ser improdutivos, parasitários, predatórios.

Esses pensamentos não ocorrem nas visões cor-de-rosa promovidas pelo 1%. O hino com que Deaton homenageia as elites pressupõe que todos ganhem exatamente o que valem, desde que tenham função produtiva, não extrativa.

Uma negação ainda mais flagrante do rentismo é um novo livro de um dos fundadores da Bain Capital (empresa de Mitt Romney), Edward Conard, O Lado Bom da Desigualdade, que ataca os "demagogos" e "propagandistas" que afirmam que os ganhos do um por cento são em grande parte inapropriados. Curiosamente não inclui Adam Smith, David Ricardo ou John Stuart Mill entre esses "propagandistas". E são autores clássicos do pensamento da economia de livre mercado: libertar as economias das garras da renda injusta e dos aumentos do preço da terra que os proprietários promovem "enquanto dormem", na expressão de John Stuart Mill. Esse livro de propaganda, pois, distorce o programa que os fundadores da economia tanto trabalharam para promover: a propriedade pública ou coletiva da renda da terra, dos recursos naturais e operação púbica de monopólios naturais, encabeçados pelo setor financeiro.

Para Conard, o que faz crescer alucinadamente a riqueza do 1% não é alguma causa financeira, exploração da propriedade imobiliária ou outras vias para extrair renda de monopólios, mas as maravilhas da economia da informação. É a "destruição criativa" de Josef Schumpeter da tecnologia menos produtiva, pelo trabalho duro e dedicado de inovadores, cuja criatividade faz aumentar o nível de riqueza de todos. Assim sendo, a riqueza do 1% é medida da marcha de toda a sociedade rumo ao futuro, não um excesso predatório extraído de toda a economia.

A conclusão política de Conard é que regulações e impostos atravancam a marcha das economias rumo à prosperidade liderada pelo 1%. Nos termos em que uma resenha laudatória que o Wall Street Journal oferece desse livro resume essa mensagem: "redistribuição - seja obtida através da tributação, restrições regulamentares ou normas sociais, parece", ele afirma, "ter grandes efeitos prejudiciais sobre a tomada de riscos, inovação, produtividade e crescimento a longo prazo, especialmente em uma economia em que a inovação produzida pela assunção de riscos empresarial por talentos devidamente treinados impulsiona cada vez mais o crescimento."² Sua solução é baixar os impostos sobre os ricos!

Meu amigo Dave Kelley assinala a mensagem política que está sendo repetida ad nauseum nos dias de hoje: a afirmação de que "movimentos progressistas como tributação acabam prejudicando a economia ao invés de ajudá-la". Este 'eu gostaria de alimentá-lo, mas você pode tornar-se dependente disso' é central para mostrar como sociedades de consumo como a nossa estão voltando rapidamente a distribuições de riqueza feudais." Essa parece ser exatamente a proposta política dos três principais candidatos à presidência dos EUA – na moderna sociedade norte-americana pós-Citizens United, na qual se compram eleições, praticamente do mesmo modo como os cônsules compravam seus consulados nos dias finais da República Romana.

Notas

¹ Anthony B. Atkinson, autor de Desigualdade: O que pode ser feito? cunhou a frase "a vez da desigualdade" para descrever quando a desigualdade econômica começou a aumentar por volta de 1980. Ele foi mentor de Thomas Piketty, e juntos eles trabalharam com Saez para criar uma base de dados históricos sobre top rendimentos.

² Richard Epstein, "A necessidade dos ricos", Wall Street Journal, 15 de setembro de 2016. A única crítica do revisor libertário é hilariante: "Mr. Conard desconsidera um vasto número de reformas possíveis. Ele nunca discute, por exemplo, o enfraquecimento da lei de patentes (um inibidor real da inovação), ou a cultura árdua de cumprimento que cresceu na esteira da Dodd-Frank e ObamaCare, ou como leis de zoneamento, estabilização do aluguel e habitação acessível estrangulam o mercado imobiliário. Ao ignorar a ameaça que a regulamentação impõe cada vez mais para a economia, a sua defesa das vantagens da desigualdade é muito mais frágil do que deveria ser."

19 de setembro de 2016

Os e-mails explosivos de Hillary Clinton

Imediatamente após a demolição do Estado Líbio, os EUA e a OTAN começaram, junto com as monarquias do Golfo, a operação secreta para destruir o Estado sírio, infiltrando-se no interior das forças especiais e grupos terroristas que deram vida ISIS

Manlio Dinucci


De tempos em tempos, para fazer um pouco de “limpeza moral” com objetivos político-midiáticos, o Ocidente tira alguns esqueletos do armário. Uma comissão do parlamento britânico criticou David Cameron pela intervenção militar na Líbia quando ele era premiê em 2011: não o criticou, porém, pela guerra de agressão que demoliu um Estado soberano, mas porque foi desencadeada sem uma adequada “inteligência”, nem um plano para a “reconstrução”.

O presidente Obama fez o mesmo quando, em abril passado, declarou ter cometido na Líbia o seu “pior erro”, não por tê-la destruído com as forças da OTAN sob comando estadunidense, mas por não ter planificado o “day after”. Ao mesmo tempo, Obama reafirmou seu apoio a Hillary Clinton, hoje candidata à presidência: a mesma que, na condição de secretária de Estado, convenceu Obama a autorizar uma operação clandestina na Líbia (inclusive o envio de forças especiais e o armamento de grupos terroristas), na preparação do ataque aeronaval dos EUA /OTAN.

Os e-mails de Hillary Clinton, que vieram sucessivamente à luz, provam qual era o verdadeiro escopo da guerra: bloquear o plano de Kadafi de usar o fundo soberano líbio para criar organismos financeiros autônomos da União Africana e uma moeda africana em alternativa ao dólar e ao franco CFA. Logo depois de ter demolido o Estado líbio, os EUA e a OTAN iniciaram, juntamente com monarquias do Golfo, a operação secreta para demolir o Estado sírio, infiltrando nele forças especiais e grupos terroristas que deram vida ao chamado Estado Islâmico (EI). Uma mensagem de e-mail de Hillary, uma das tantas que o Departamento de Estado desarquivou depois do clamor suscitado pelas revelações do Wikileaks, demonstra qual é um dos escopos fundamentais da operação ainda em curso. Na mensagem, desarquivada como “case number F-2014-20439, Doc No. C05794498”, a secretária de Estado Hillary Clinton escreve em 31 de dezembro de 2012: “É a relação estratégica entre o Irã e o regime de Bashar Assad que permite ao Irã minar a segurança de Israel, não através de um ataque direto mas por meio de seus aliados no Líbano, como o Hezbolá”. Sublinha, portanto, que “a melhor maneira de ajudar Israel é ajudar a rebelião na Síria que já dura mais de um ano”, ou seja desde 2011, sustentando que para dobrar Bashar Assad, é necessário “o uso da força”, a fim de “pôr em risco a sua vida e a da sua família”.

E Hillary Clinton conclui: “A derrubada de Assad constituiria não só um imenso benefício para a segurança de Israel, mas também faria diminuir o compreensível temor israelense de perder o monopólio nuclerar”. A então secretária de Estado admite, portanto, o que é oficialmente silenciado: o fato de que Israel é o único país do Oriente Médio a possuir armas nucleares. O apoio da administração Obama a Israel, para além de alguns dissensos mais formais do que substanciais, foi confirmado pelo acordo, assinado em 14 de setembro em Washington, com o qual os Estados Unidos se comprometem a fornecer a Israel os mais modernos armamentos por um valor de 38 bilhões de dólares em dez anos, por meio de um financiamento anual de 3,3 bilhões de dólares, mais meio milhão para a “defesa de mísseis”.

Enquanto isso, depois que a intervenção russa bloqueou o plano de destruir a Síria por dentro com a guerra, os Estados Unidos obtêm uma “trégua” (imediatamente por eles violada), lançando ao mesmo tempo uma nova ofensiva na Líbia, camuflada de operação humanitária na qual a Itália participa com seus “paramédicos”. Enquanto Israel, na sombra, reforça o seu monopólio nuclear tão caro a Hillary Clinton.

17 de setembro de 2016

Enganados novamente…

Chris Hedges

Information Clearing House

Tradução / A esperança ingênua dos apoiadores de Bernie Sanders — construir um movimento político de bases, mudar o partido democrático por dentro e empurrar Hillary Clinton para a esquerda — fracassaram. Hillary Clinton, ciente de que as camadas liberais e a esquerda não irão exercer uma genuína resistência, prossegue tendo Mitt Romney como instrumento. As elites empresariais em todo o espectro político, republicano e democrata, uniram-se alegremente para consagrar o seu Presidente. Tudo o que resta da "revolução" Sanders é um modo de obter isenção de impostos projetado para arrecadar dinheiro, incluindo de doadores anônimos, ricos, para garantir que ele será um senador vitalício. Como Karl Marx ironizou, os grandes acontecimentos históricos acontecem duas vezes, primeiro como tragédia e depois como farsa.

A extravagância de bilhões de dólares do nosso circo eleitoral é parte da cortina de fumaça que cobre a devastação em curso promovida pela globalização: desindustrialização, acordos de comércio como a Parceria do Transpacífico (TPP), guerras sem fim, alterações climáticas e a intrusão em cada recanto das nossas vidas pela segurança e vigilância do Estado. A nossa democracia está morta.

Clinton e Donald Trump não têm o poder ou o interesse em reaviva-la. Eles ajoelham-se diante da máquina de guerra, que consome bilhões de dólares para travar guerras inúteis e exibir um poder militar exagerado. Desafiar a força do Estado é suicídio político, porém para a Wall Street os políticos não passam de cortesãos. Os candidatos enchem a boca de frases feitas sobre justiça, melhorias na igualdade de renda e escolhas democráticas, mas é um jogo cínico. Assim que termina, os vencedores vão para Washington trabalhar com lobistas e elites financeiras levando a cabo os verdadeiros processos de decisão.

Embora haja uma diferença no temperamento dos dois principais candidatos presidenciais, essa diferença influi apenas na forma como o veneno nos será ministrado. As personalidades da política servem os centros do poder empresarial global, não os controlam. Barack Obama ilustra isto mesmo.

Para os neoliberais tudo e todos são descartáveis. Os Estados fracassados que criaram em todo o Médio Oriente, África, Cáucaso e Ásia com o fim da guerra fria representam o que há a esperar de um mundo neoliberal, impulsionado pela ganância, corrupção, violência e desespero.

Os traficantes de drogas, contrabandistas, piratas, sequestradores, jihadistas, gangues criminosas e milícias que vagueiam em enormes áreas de território onde a autoridade central desapareceu são os verdadeiros rostos da globalização. Estes niilistas constituem o Estado islâmico, assim como constituem o Estado das transnacionais. A corrupção pode estar mais à vista e ser mais rudimentar no Afeganistão ou no Iraque, mas tem seu paralelo na venda dos políticos e partidos políticos que dominam nos Estados Unidos e na Europa. O bem comum – a construção de comunidade e solidariedade – foi substituído por décadas de doutrinação a favor da empresa privada com apelos para se acumular tudo o que se puder para si próprio e deixar os outros a sangrar na beira da estrada.

Será a Goldman Sachs, que manobra os preços futuros de arroz, trigo, milho, açúcar e gado para os fazer subir no mercado global, deixando as pessoas pobres e vitimas da fome na África, Ásia, Oriente Médio e América Latina, moralmente menos repugnante do que o traficante de drogas? Serão os pilotos de F-16 que incineram famílias em Raqqa moralmente distintos dos jihadistas que queimaram numa gaiola um piloto jordaniano capturado? Será a tortura num dos nossos locais secretos ou em colônias penais offshore menos bárbara que a tortura às mãos do estado islâmico? Será a decapitação de crianças por drones militares mais defensável do que a decapitação de trabalhadores egípcios numa praia da Líbia por autodesignados guerreiros sagrados? É Heather Bresch, o administrador executivo da Mylan, que aumentou os preços do salva-vidas EpiPen em 400% ou mais, e que passou desde 2007 a auferir mais 600% – acima de 18 milhões de dólares por ano – menos venal do que um traficante que envia um barco sobrecarregado e seus ocupantes para a morte ao largo da Líbia.

Há uma nova ordem mundial. Está baseada na exploração nua e crua. Não na democracia, é o que nós temos exportado em todo o globo. E isto se parece muito com o Estado anárquico que Hobbes temia. As gangues que entregam os migrantes para a Europa fazem aproximadamente 100 milhões de dólares por mês pelo seu trabalho. Exploram o tráfego de seres humanos como apenas os altamente pagos executivos das grandes empresas fazem.

Os Estados fracassados do Iraque, da Síria e da Líbia, um resultado direto da globalização, têm a sua contrapartida em Detroit, St Louis, Oakland, Memphis, Baltimore, Atlanta, Milwaukee e o lado sul de Chicago. Eles são as nossas versões de Mogadíscio, com ilegalidade, mortes sem sentido, bandos armados, fome generalizada, medo, uma população que se abandona no abraço entorpecente de opiáceos, crescente pobreza, instituições de um Estado disfuncional, o crescimento de empresas de segurança privadas para protegerem as elites e violência indiscriminada da polícia que cria um reinado de terror visando os pobres.

Quanto mais as forças do capitalismo transnacional extraem de nós em nome da austeridade e da maximização do lucro, mais zonas dos EUA vão decair para versões domésticas dos Estados fracassados no exterior. O mesmo sistema existe aqui e no exterior. E tem o mesmo resultado aqui e no exterior. Pode aparecer primeiro na Somália, Mali, Guiné-Bissau e Líbia, mas em breve virá a caracterizar grande parte da América. A proliferação de armas fará na nossa sociedade o que tem feito em todos ou outros Estados falhados onde houve acesso descontrolado aos arsenais – entregar o poder àqueles com pendor para a violência.

Escreveu Elias Canetti em Multidões e Poder (Crowds and Power):

"Quem queira governar os homens tem primeiro que tentar humilhá-los, enganá-los acerca dos seus direitos e sua capacidade de resistência, até que eles se tornem tão impotentes como animais. Ele depois usa-os como animais e, mesmo que não lhes diga isso, sabe muito claramente que significam muito pouco para ele; quando fala aos seus mais próximos chamará os outros de carneiros ou gado. Seu objetivo final é incorporá-los em função dos seus interesses e sugar-lhes toda a substância. O que resta deles depois, não importa. Quanto pior os tratou mais os despreza. Quando não têm mais utilidade, descarta-os como faz com excrementos, bastando saber que não envenenam o ar da sua casa".

A História demonstrou amplamente como isto vai acabar. A persistente exploração por uma elite descontrolada, o aumento dos níveis de pobreza e insegurança, desencadeará uma legítima revolta entre os desesperados. Eles vão perceber o que se passa para além das mentiras e da propaganda das elites. Vão exigir redistribuição de rendimentos. Voltarão para aqueles que expressam o ódio que sentem pelos poderosos e pelas instituições que foram projetadas para dar-lhes voz, mas que agora servem para os enganar. Buscarão não reformas, mas a destruição de um sistema que os traiu. Estados fracassados – a Rússia czarista, a República de Weimar, a antiga Iugoslávia – podem dar origem a monstruosidades políticas. Connosco não será diferente.

Formas de fascismo já tomaram conta de duas nações da UE, a Hungria e a Polônia. Partidos de extrema-direita, reagindo à vaga de mais de 1 milhão de migrantes que caiu sobre a Europa no ano passado, estão a ganhar terreno na França, Áustria, Suécia, Alemanha e Grécia. O nacionalismo, alimentado por uma deificação das forças armadas, será usado para compensar a impotência individual e a perda da identidade nacional. Nos EUA a dissidência tornar-se-á "antiamericana", uma forma de traição. Os inimigos internos vão ser vilipendiados juntamente com os inimigos externos. E isto levará a mais guerras no Oriente Médio. Os partidos políticos de extrema-direita da Europa Oriental alardeiam uma retórica de conflito militar com a Rússia. Devido à sua associação com a OTAN, os EUA seriam obrigados a apoiar quaisquer hostilidades.

Votar em Hillary Clinton não irá interromper este deslize para o apocalipse. Só vai acelerá-lo. Donald Trump pode desaparecer do cenário político, mas alguém ainda mais venal e provavelmente mais inteligente, vai tomar seu lugar. Nosso trabalho é desmontar os mecanismos que estão nos empurrando para o abismo. E isto significa sustentada e maciça desobediência civil, como se tornou evidente pelos protestos na Reserva de Sioux Rock e pelas interrupções de trabalho de sexta-feira passada realizadas pelos presos de toda a nação. Significa fazer todo o possível para não cooperar com os elementos da autoridade. Significa interromper os mecanismos do poder. Significa superar o medo. Significa não acreditar nas mentiras que nos são ditas.

12 de setembro de 2016

A bomba foi autorizada

Manlio Dinucci


A B61-12, a nova bomba nuclear dos Estados Unidos destinada a substituir a B-61 instalada na Itália e outros países europeus, foi “oficialmente autorizada” pela National Nuclear Security Administration (NNSA, sigla em inglês), dedicada a “reforçar a segurança nacional através da aplicação militar da ciência nuclear”.

Depois de quatro anos de projetos e experimentações, a NNSA deu luz verde à fase de execução de engenharia que prepara a produção em série.

Os muitos componentes da B61-12 estão sendo produzidos e testados nos laboratórios nacionais de Los Alamos e Albuquerque (Novo México), e Livermore (Califórnia), e produzidos (utilizando em parte os da B-61) em uma série de plantas no Missouri, Texas, na Carolina do Sul, Tennessee. Acresce-se a isto a cauda de guia de precisão, fornecida pela Boeing. A bomba B61-12, cujo custo previsto é de 8 a 12 bilhões de dólares para 400 a 500 bombas, começarão a ser fabricadas em série no ano fiscal de 2020, que se inicia em 1º de outubro de 2019. A partir daí a bomba B-61 começará a ser substituída.

Segundo estimativas da Federação de Cientistas Americanos (FAS, na sigla em inglês), os Estados Unidos mantêm hoje 70 bombas nucleares B-61 na Itália (50 em Aviano e 20 em Ghedi-Torre), 50 na Turquia, 20 respectivamente na Alemanha, Bélgica e Holanda, num total de 180. 

Ninguém sabe, porém, com exatidão quantas são efetivamente: existem em Aviano 18 bunkers em condições de estocar mais 70. Nessa base e em Ghedi já foram efetuadas modificações, como mostram fotos de satélites publicadas pela FAS. Semelhantes preparativos estão em curso em outras bases na Europa e Turquia.

A NNSA confirma oficialmente que a B61-12, definida como “elemento fundamental da tríade nuclear dos EUA” (terrestre, naval e aérea), substituirá as atuais bombas B61-3, B61-4, B61-7 e B61-10. Confirma, portanto, tudo o que já tínhamos documentado. A bomba B61-12 não é uma simples versão modernizada da precedente, mas uma nova arma: há uma ogiva nuclear com quatro opções de potência, com uma potência média comparável a quatro bombas de Hiroshima; um sistema de guia que permite lançá-la com distância do objetivo; e capacidade de penetrar no terreno para destruir o bunker dos centros de comando em um ataque nuclear de surpresa.

A nova bomba, que os EUA se preparam para instalar na Itália e em outros países europeus no quadro da escalada contra a Rússia, são armas que reduzem o limiar nuclear, ou seja, tornam mais provável o lançamento de um ataque nuclear. 

A 31ª Fighter Wing, a esquadrilha de caças-bombardeiros USA F-16 instalada em Aviano, está pronta para um ataque nuclear 24 horas por dia. Mesmo pilotos italianos, demonstra a FAS, estão sendo treinados para um ataque nuclear sob o comando dos EUA com os caças-bombardeiros Tornado instalados em Ghedi.

A aeronáutica italiana está aguardando a chegada dos caças F-35 nos quais, anuncia a Força Aérea dos EUA, “será integrada a bomba B61-12”. A primeira esquadrilha de F-35, instalada na base Hill no Utah, foi oficialmente declarada “combat ready” (prontidão para o combate). 

A Força Aérea dos EUA disse não prever quando a esquadrilha de F-35 será “combat proven” (provada em combate), mas que “é provável sua instalação em ultramar no início de 2017”.

A ministra italiana da Defesa, Roberta Pinotti, espera que seja instalada na Itália, já “escolhida” pelos EUA para a instalação do Sistema Móvel Objetivo (MUOS, na sigla em inglês), que “outras nações queriam”. 

Com a B61-12, os F-35 e o MUOS sobre seu território, a Itália também será escolhida, pelo país atacado, como alvo prioritário de uma represália nuclear.

11 de setembro de 2016

Cessar-fogo sírio: O acordo EUA-Rússia é importante e pode levar a uma trégua?

Os vencedores e perdedores e as ramificações do acordo histórico

Patrick Cockburn

The Independent

Este acordo é importante?

Ele é muito significativo dentro e fora da Síria porque é entre os Estados Unidos e a Rússia, os principais atores do conflito sírio, que podem pressionar os seus aliados a cumpri-lo. Também é importante porque é um sinal de mudança no panorama político internacional: a Russia volta a ser uma superpotência – certamente no Oriente Médio e talvez globalmente – pela primeira vez desde a queda da União Soviética em 1991. A intenção dos EUA e Rússia de cooperarem numa campanha aérea conjunta contra o Daesh e Jabhat al-Nusra, o ramo sírio da al-Qaeda agora chamado Jabhat Fateh al-Sham, não tem precedentes.

Irá o governo sírio de Bashar al-Assad manter o cessar-fogo?

Sim, porque já disse que o faria e está dependente do apoio aéreo e do fornecimento de armas da Rússia. Mas, igualmente importante, tem interesse em fazê-lo porque os EUA e a Rússia terão como alvo o al-Nusra, movimento salafista-jihadista que é a principal força armada do movimento rebelde que não integra o Daesh. Ele tem estado na linha da frente de todas as ofensivsa rebeldes bem sucedidas. Se a oposição armada perder o al-Nusra e o Daesh, então ficará substancialmente castrada no que toca a combater o exército sírio e seus aliados. Isto é um ganho importante para Assad.

De imediato, um cessar-fogo que congele as atuais linhas de batalha também é do seu interesse, pois as suas forças voltaram a cercar os rebeldes no leste de Aleppo, tomaram a praça-forte rebelde de Daraya em Damasco e estão a avançar noutras frentes. O exército sírio deve julgar que pode passar por um período de consolidação e será capaz de concentrar as suas forças contra um Daesh enfraquecido e ganhar território no leste de Aleppo.

Poderá o Irã, o Hezbollah e o eixo xiita estragar estes planos?

Os iranianos já saudaram o acordo, já que o seu objetivo principal é manter Assad no poder, pelo que é do seu interesse, tal como do dele, alinhar com este acordo.

Então quem perde com o acordo e o que pode fazer sobre isso?

É uma má notícia para o Daesh, porque a coligação contra si ficará ainda maior. Mas neste momento já existem mais aviões e drones no céu da Síria e do Iraque do que alvos a atacar. O ataque militar aéreo contra o Daesh pode não se tornar mais pesado, mas o exército sírio estará mais livre para atacar no leste de Aleppo e noutros lados. Não há muito que o Daesh possa fazer quanto a isso.

E como irá o al-Nusra reagir a ser atacado como o Daesh?

Esta é uma das debilidades do acordo. A oposição armada não-Daesh na Síria é há muito dominada por islamistas, mas os grupos combatentes islamistas são dominados pelo al-Nusra. A sua disciplina, moral elevado, experiência, popularidade e, talvez mais importante, capacidade de colocar grande quantidade de homens-bombas, tornam-no na espinha dorsal da oposição armada. Mas os EUA e a Rússia preveem que a oposição “moderada” se distancie geograficamente do al-Nusra, que será então bombardeado pelos norte-americanos e russos. Mas por que há-de o al-Nusra ficar à espera que tal aconteça? Para eles, o plano de paz assinado em Genebra é um plano de guerra dirigido contra si. Por outras palavras, eles não têm nada a ganhar com o cessar-fogo e, mesmo quando apoiados por ataques aéreos dos EUA e Rússia, não há combatentes da oposição moderada que tenham a força para substitui-los. Alguns líderes do al-Nusra podem pensar que se vão passar a ser tratados como o Daesh, então será melhor reforçar os laços com esta organização – embora seja difícil para eles esquecerem a guerra civil interjihadista de 2013-14.

Irá a ajuda da ONU chegar às cidades sitiadas?

Sim, essa é uma parte essencial do acordo – em particular a ajuda para o leste de Aleppo sob controlo rebelde. No turbilhão obscuro das várias crises que constituem a crise síria, um aspeto que impressionou o mundo foi o das pessoas passando fome enquanto são cercadas pelos inimigos. Isso acontece, mas não à escala que as pessoas imaginam. 250 mil das 275 mil pessoas no leste de Aleppo ainda não ficaram sem comida – embora seja cara – porque a ONU tinha colocado mantimentos que estão asendo consumidos, mas precisam ser reabastecidos. O outro grande enclave rebelde, o leste de Ghouta, a leste de Damasco, tem várias carências, como sementes e maquinaria agrícola, mas é uma área fértil que produz boa parte da sua alimentação. Mas há áreas onde as pessoas estão literalmente a passar fome, como Madaya e Moadamiya. Todas estas deverão ver chegar a ajuda, embora possa haver dificuldades em Kefraya e Foua, duas localidades xiitas pró-governamentais a oeste de Aleppo cujo destino está ligado ao de Madaya e Zabadani, a oeste de Damasco, sob controle rebelde.

Irá parar o bombardeamento a zonas civis por parte da força aérea síria?

Sim, porque a opinião pública estrangeira está muito atenta a isso e a força aérea síria não será autorizada a agir nessas zonas. Em qualquer caso, esses bombardeamentos nunca ajudaram Damasco no plano militar. O seu objetivo era obrigar ao êxodo massivo da população em qualquer área ocupada pela oposição.

A guerra vai acabar?

Não, porque o acordo EUA-Rússia contém um plano de paz e um plano de guerra. A guerra será dirigida ao Daesh e ao al-Nusra, mas não está claro de onde virão as tropas terrestres.

Poderá o acordo fracassar?

Sim, porque nem todo mundo está agindo no seu interesse – este é um bom acordo para a Rússia, Irã e o governo sírio – mas é prejudicial para a oposição. Numa palavra, ela não tem uma força militar credível capaz de substituir o al-Nusra e o Daesh como oposição ao governo sírio.

10 de setembro de 2016

Proxies dos EUA e rivalidades regionais

James Petras

The Official James Petras Website

Tradução / A construção do império dos EUA depende de apoio dos regimes regionais, especialmente no Oriente Médio, Ásia e América Latina. Estes regimes de procuração desempenham funções militares valiosas para assegurar o controle sobre as regiões vizinhas, populações e território.

Nos últimos tempos, porém, testemunhamos os mesmos procuradores desenvolver a sua própria tendência para políticas expansionistas - em busca de seus próprios mini-impérios.

Regimes clientes dos EUA, com ambições locais ou regionais apresentam a Washington sempre novos pontos de disputa. Num momento em que o império dos EUA viu-se forçado a retroceder ou retirar-se, dadas as prolongadas e repetidas perdas militares que vem sofrendo, emergiram inúmeros importantes novos conflitos. As zonas de guerra pós-imperiais são o novo foco Com frequência, regimes clientes do império tomam a iniciativa e confrontam, eles mesmos seus adversários regionais. Em outros casos, prepostos separados entre eles por velhas rixas, dispensam a 'orientação' de 'mentores' norte-americanos e passam a cuidar, eles mesmos, de fazer avançar as próprias ambições territoriais.

A dissolução no império dominado pelos EUA, longe de pôr fim a guerras e conflitos, quase com certeza levará a muitas outras guerras locais sob o pretexto de alguma 'autodeterminação' ou 'autodefesa' ou para proteger o grupo étnico de um ou outro – como a repentina preocupação de Ankara com os turcomenos na Síria.

Vamos examinar alguns dos estudos de caso mais óbvios.

O Oriente Médio: Conflito turco-curdo-sírio

Ao longo dos últimos anos, o regime turco tem estado na linha de frente da guerra para derrubar o governo secular e nacionalista de Bashar al-Assad na Síria.

Os turcos agiram como procuradores dos EUA – garantindo bases militares, suprimentos, treinamento e proteção, além de uma porta de entrada para a Síria para terroristas mercenários islamistas a serviço das ambições imperiais de Washington.

Com a ameaça islamista 'independente' (ISIS) ganhando território e atacando interesses dos EUA, Washington cada vez mais buscou seus aliados, principalmente seculares, combatentes curdos. Os procuradores curdos de Washington ganharam território tanto contra islamistas anti-EUA como contra o governo nacional sírio – como parte da própria antiga agenda etnonacionalista dos curdos.

A Turquia viu as vitórias curdas no norte da Síria como ponto de atração que concentraria forças curdas autonomistas também dentro da Turquia. O presidente Erdogan interveio militarmente – enviou tanques, aviões e dezenas de milhares de soldados para a Síria, onde iniciou uma guerra de extermínio contra os sírios curdos procuradores dos EUA! A invasão turca avançou, tomando território sírio, sob o falso pretexto de que estaria combatendo algum ‘ISIS’. De fato, a Turquia criou uma ampla 'zona protegida' colonial para controlar os curdos.

O governo Obama em Washington reclamou, mas absolutamente não queria intervir, nem quando os turcos arrastaram os curdos para fora de seus lares tradicionais no norte da Síria no que foi uma massiva campanha de limpeza étnica. Assim eclodiu a guerra turcos-curdos-sírios, e os termos, as condições e os resultados já ultrapassavam em muito qualquer possibilidade de os EUA controlarem qualquer coisa.

Fracassou completamente a luta dos EUA para implantar um regime fantoche na Síria: em vez de regime fantoche, a Turquia roubou terra síria, os curdos resistiram contra os turcos em nome de defender sua autodeterminação nacional, em vez de expulsarem mercenários islamistas; e Damasco enfrenta hoje mais uma ameaça contra sua soberania nacional.

Essa brutal guerra regional, iniciada quase totalmente por EUA e Arábia Saudita, está deixando à vista a extensão do fracasso do Império EUA-Oriente Médio.

Ásia: conflito Japão, Vietnã, Filipinas e China

O Império EUA-Ásia tem assistido à criação e destruição dos procuradores dos EUA. Depois da II Guerra Mundial, os EUA incorporaram Japão, Paquistão, Coreia do Sul, Taiwan, as Filipinas, Austrália e Nova Zelândia como seus procuradores, no esforço para estrangular e conquistar China, Coreia do Norte e Vietnã.

Mais recentemente, Índia, Vietnã e Myanmar aderiram ao novo esquema militarista dos EUA para cercar a China.

Elemento crucial para o 'Pivô para a Ásia' de Obama-Clinton é a Parceria Trans-Pacífico [Pacific Partnership (TPP)], um singular esforço para 'unificar' as nações asiáticas controladas pelos EUA, com o objetivo de isolar a China e reduzir seu papel na Ásia.

Os prepostos originais dos EUA de depois da II Guerra Mundial, Coreia do Sul, Filipinas e Japão garantiram bases militares, tropas, apoio material e logístico. Vietnã, o mais novo preposto 'no quarteirão', recebe armas do Pentágono apontadas contra a China – apesar dos milhões de vietnamitas mortos durante a guerra dos EUA na Indochina.

Por mais que os prepostos dos EUA na Ásia continuem a discursar a favor da 'agenda sinofóbica' de Washington, muitos deles o fazem nos seus próprios termos: não querem provocar a ira econômica da China ante a política de confrontação direta de Washington.

Durante a recente Conferência da Associação de Nações do Sudeste da Ásia [ASEAN, na sigla em inglês] no Laos (2016), vários países resistiram à pressão de Washington para que denunciassem a posição da China (que não considera o que uma 'corte internacional' teria 'decidido' sobre as reivindicações de Pequim sobre o Mar do Sul da China). Mas a capacidade dos EUA para influenciar eventos mediante 'sentenças' de seus 'tribunais internacionais' operantes na Europa parece ter evanescido.

O governo dos EUA tampouco consegue implementar sua estratégia de 'bloqueio' econômico trans-pacífico (TPP), por causa de forte resistência tanto dentro dos EUA como nos países alvos. Contudo, novos procuradores começaram a emergir.

Os procuradores-patetas em Tóquio enfrentam o povo japonês, que cada dia mais claramente se opõe à condição subalterna do Japão, reduzido a procuradores dos EUA; ao Japão reduzido ao papel de base aérea dos EUA. Efeito disso tudo é que Tóquio segue atentamente sua própria estratégia nacional anti-China, construindo laços econômicos mais profundos com estados procuradores dos EUA, mas mais recentes ou de menor expressão na Indochina: as Filipinas e Myanmar. Ao tempo em que desenvolve relações mais sólidas com esses regimes procuradores mais fracos, o Japão, de fato, está lançando as bases para políticas econômicas e militares autônomas, independentes dos EUA.

Notavelmente, o novo governo do presidente Duterte nas Filipinas está trabalhando para pacificar as relações de seu país com a China, por mais que as velhas relações neocoloniais das Filipinas como estado procurador dos EUA ainda se mantenham. O carnaval que a mídia ocidental tem tentado criar em torno da linguagem 'estranha' e de políticas 'criativas' a favor dos direitos humanos do presidente Duterte serve exclusivamente para mascarar o desconforto e a desaprovação imperial, por Washington, ante a política externa independente e pró-China, de Duterte.

Quanto à Índia, ao mesmo tempo em que tece laços mais próximos com os EUA, e até oferece cooperação militar com o Pentágono, Modi assina acordos ainda maiores com os chineses, de investimentos e comércio – ansiosos que estão os empresários indianos, para entrar no enorme mercado da China.

Em outras palavras, os procuradores de Washington na Ásia (1) ou ampliaram eles mesmos as respectivas próprias áreas de influência nacional; ou (2) definiram esferas autônomas de ação ou (3) rebaixaram o peso relativo dos EUA para impor acordos comerciais.

Sintomático da decadência do "poder procurador" dos EUA é a "relutância" entre os clientes de Washington para expressar hostilidade aberta a Pequim. Em frustração, os porta-vozes financeiros de Washington-Nova Iorque (New York Times, Washington Post, Wall Street Journal) fornecem púlpitos de intimidação para os personagens mais obscuros, marginais, incluindo um político menor de Hong Kong, um exilado tibetano 'homem santo' Tibetan decrépito e uma bando de terroristas uigures!

Procuradores efémeros de Washington na América Latina

Um dos aspectos mais marcantes da construção do império norte-americano é a facilidade com a qual garantiu procuradores na América Latina... e a rapidez com que são prejudicados!

Ao longo das últimas três décadas os EUA apoiaram regimes militares de procuradores, que foram derrubados e substituídos por governos independentes na última década. Estes estão atualmente sendo substituídos por uma nova onda de procuradores neo-liberais - uma coleção heterogênea de bandidos corruptos e palhaços da elite incapazes de estabelecer uma região imperial centrada sustentável.

Um império baseado em procuradores é uma contradição em termos. Os procuradores latino-americanos dos EUA dependem de apoio externo, não conseguem criar raízes internas nem têm a indispensável popularidade local. As próprias políticas neoliberais deles são fracas e incapazes de realmente estimular o desenvolvimento industrial sem o qual não há desenvolvimento possível. Os procuradores latino-americanos dos EUA são meros predadores, sem as indispensáveis competências históricas para empreender japonesas e da disciplinada ideologia nacionalista dos turcos.

Nesse sentido, os procuradores latino-americanos com que os EUA são obrigados a contar parecem-se mais com a oligarquia reinante nas Filipinas: pregam a submissão e alimentam a subversão. Por todos os lados o que se vê é instabilidade crescente e mudança políticas que emergem como forças poderosas a desafiar o império dos EUA – sejam os chineses na Ásia ou conflitos internos nacionais - como o fenômeno Trump nos EUA.

Conclusão

As guerras imperiais continuam... mas também continuam a sempre crescente instabilidade dentro dos EUA, a rejeição em massa às políticas imperiais, os conflitos regionais e as guerras nacionais. O declínio do império ameaça abrir as portas para uma era de guerra entre os procuradores dos EUA – múltiplos conflitos que podem beneficiar o império, mas também podem agravar o quadro. A guerra dos poucos contra os muitos está se transformando em guerra de muitos contra muitos. Mas quais as escolhas, ante essas mudanças históricas?

Só o surgimento de movimentos de massa organizados verdadeiramente com consciência de classe podem oferecer uma resposta positiva para a vinda do dilúvio.

7 de setembro de 2016

Colin Kaepernick e a morte da democracia americana

Thomas S. Harrington

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / O sapo da democracia norte-americana não está mais fervendo, está morto. Como eu sei? Observando a resposta pública às ações realizadas na semana passada pelo quarterback do São Francisco 49ers, Colin Kaepernick.

O fato de que certo setor do nosso país fica triste ao menor sinal de crítica contra os policiais e/ou militares, não é novidade. A adoração aos uniformizados tem uma longa história nesse país, especialmente nos anos desde a II Guerra Mundial quando nosso governo decidiu ceder sem nenhuma pretensão de preferir o republicanismo democrático ao império, e como parte integral dessa transformação, lançou um programa de gerenciamento de consenso produzido para normalizar e exaltar as virtudes de ceder prerrogativas individuais aos sempre “responsáveis” e “benevolentes” homens de azul e verde.

Mas mesmo durante os momentos mais terríveis desse período pós-guerra, havia quase sempre um considerável grupo de pessoas, em ambas esquerda e direita, que resistiam à lógica hierárquica dessa adoração porque entendiam ser incompatível com a dignidade diária da cidadania e com a busca cidadã pela democracia real.

Mas esse não parece ser mais o caso. Claro, houve muitas pessoas que vociferaram seu apoio ao direito de Kaepernick de fazer o que fez e dizer o que disse.

Mas quase cada uma das defesas que ouvi ou li na mídia tradicional estava acompanhada por longas qualificações feitas para garantir que ninguém nunca seja capaz de questionar o respeito e veneração profundos e persistentes dos defensores de Kaepernick por tudo aquilo que “nossos heróis de uniforme” fizeram por nós.

É, como muitas – tristemente, maioria liberal – posições do nosso tempo, uma pose evasiva. É produzida para fazer o defensor do atleta parecer com princípios sem ter que confrontar os problemas estruturais da nossa cultura civil pela presença de uma casta altamente armada de pessoas uniformizadas que, se formos julgar pelas declarações feitas por seu porta-voz oficial, claramente acreditam que vivem em um universo mais ético e moral do que o resto de nós.

Tomemos, por exemplo, a carta recente do líder da Associação de Policiais de São Francisco, Martin Halloran, ao presidente do São Francisco 49ers, Jed York, e ao comissário da NFL, Roger Goodell, demandando que pedissem desculpas aos inúmeros policiais que Kaepernick “desrespeitou”.

O Sr. Halloran e o povo que representa são, como têm nos lembrado pelos últimos 15 anos, servidores públicos. Isso significa que eles trabalham para nós, e são, na análise final, sujeitos à nossa disciplina, e se acharmos necessário, à nossa crítica.

Sr. Halloran, sem dúvidas encorajado pela propaganda pós 11/9 que glorifica tudo o que tem a ver com exército e polícia, mudou essa lógica democrática em sua cabeça. Como um lord medieval, convencido de seu status superior ante Deus, ele demanda que os sujeitos desarmados ajoelhem-se perante ele, e se alguns desses vassalos criticarem as sempre limpas ações do lord, que exijam perdão do mestre.

Isso é bullying, claro e simples.

O grande problema não é que existe. Parafraseando a grande professora de Galileu, “os valentões, sempre estarão com você”. O que realmente importa é como a grande massa da população, especialmente os setores mais seguros e confortáveis, escolhem responder às artimanhas de tais pessoas.

Os resultados até então não são encorajadores. Temos uma provável maioria do país a favor de punição ou silenciamento de Kaepernick. Ao seu lado, está um grupo menor, porém considerável que apoia seu direito técnico de se expressar, mas também sentem que ele não deveria ter criticado os lords tão diretamente, ou, ainda pior, apoiam sua crítica mas tem medo de dizer isso diretamente.

O grande ensaísta italiano, Indro Montanelli, uma vez alegou que para se ter uma democracia funcionando, deve-se primeiro ter democratas. Ser um democrata implica em muita coisa. Talvez o mais básico seja entender, e acreditar, que nenhuma pessoa ou grupo de pessoas, especialmente aquelas trabalhando explicitamente com a confiança pública, são fundamentalmente mais valiosas que outras.

Seja um resultado do medo, ou o complexo da nossa mídia-governo de propaganda pró-autoritarismo, parece, infelizmente, que somente uma pequena minoria dos norte-americanos ainda entende esse traço fundamental da mente democrática.

O levante dos “inorganizáveis”

Greves espontâneas nos setores informais estão desafiando os pressupostos sindicais sobre onde e quem organizar.

por Tomasz Frymorgen


Folhetos em Londres, Inglaterra, incentivando um boicote ao Deliveroo e exigindo um salário mínimo. Russell Davies / Flickr

Tradução / No dia 11 de agosto, rodeado por 150 motoristas grevistas do Deliveroo, um militante sindical leu uma lista de concessões arrancadas pelos entregadores britânicos, todos organizados com o sindicato dos Trabalhadores Independentes da Grã-Bretanha (IWGB).

Os trabalhadores de entregas conquistaram um aumento de 28%; os trabalhadores da CitySprint arrancaram 17% – seu primeiro aumento em 10 anos. Na Mach1, os motociclistas conquistaram maiores salários, uniformes pagos pela companhia e o fim da cobrança de taxas pelo aluguel de equipamentos.

Apenas algumas semanas antes, os trabalhadores da limpeza haviam encerrado a maior greve da história de Londres – 61 dias – após assegurar o salário mínimo londrino (atualmente £9.40 por hora), organizado sob o Vozes Unidas do Mundo (UVW). Em fevereiro deste ano, o UVW conquistou licença remunerada para o caso de doenças ocupacionais para os trabalhadores de contratos intermitentes em segurança e limpeza, em uma campanha pública massiva em oposição à empresa Sotheby’s.

Inspirados pela conclusão vitoriosa da greve do Deliveroo, motoristas do Uber Eats anunciaram que entrariam em greve espontânea até que a companhia concordasse em pagar-lhes o salário mínimo londrino.

Você seria perdoado por pensar que o movimento operário do Reino Unido está finalmente acordando. Desde a formação do Ramo da Limpeza dos Trabalhadores Industriais do Mundo (IWW) em 2011, histórias como essas têm se tornado cada vez mais frequentes e bem-sucedidas. Campanhas militantes, conduzidas pelos próprios trabalhadores, têm se batido contra redes de varejo, centros culturais, instituições educacionais e serviços de entrega, organizando milhares de empregadores precarizados.

Ainda assim, em 2015, apenas 81 mil trabalhadores participaram em greve, e apenas 170 mil dias foram perdidos pelo capital pela iniciativa operária. Esses dados representam o menor número de greves e a segunda menor perda de produtividade desde o começo dos registros, em 1893. O ano passado marcou também o menor nível de sindicalização desde 1995, apenas 24.7%.

Os dissídios dos trabalhadores da limpeza e da entrega representam, portanto, um caso raro de militância operária, não um reviver mais amplo do movimento. Isso, por si próprio, já os tornaria interessantes. Mas por essas ações virem de setores não-tradicionais da classe trabalhadora – sob contrato de trabalho intermitente – que têm sido tradicionalmente considerados inorganizáveis e negligenciados pelos grandes sindicatos, a esquerda deveria prestar atenção para o que eles podem nos ensinar.

Será que eles são realmente inorganizáveis?

Essas campanhas contradizem uma crença de longa data sobre a organização dos trabalhadores precarizados ou intermitentes. Sua frequência e alcance – com crescimento contínuo – e o grande comparecimento às decisões de deflagração das greves indicam uma forte participação proletária.

E, a despeito disso, a maioria dos sindicatos confia em um contraproducente conjunto de critérios organizativos que invisibilizam esses trabalhadores. Os sindicatos do Congresso de Sindicatos (TUC) frequentemente evita os trabalhadores intermitentes por uma série de razões: alguns por falta de habilidade, experiência ou recursas para organizar tais setores. Outros realizaram análises de custo-benefício que indicam que tais campanhas não valem seu tempo. Alguns acreditam até mesmo que trabalhadores intermitentes não contam como trabalhadores de verdade e, por conseguinte, não se enquadram em seu escopo.

Nas raízes da inércia da maior parte dos sindicatos repousa um entendimento estritamente legalista dos trabalhadores, dos direitos dos empregados e da relação empregado-empregador, com os contratos coletivos de trabalho como o ponto central de referência. Trabalhadores intermitentes fogem amplamente a este enquadramento e são, consequentemente, descartados como inorganizáveis. Como resultado, o setor informal tem se tornado esmagadoramente alheio à organização sindical tradicional e sofre sob as piores condições do mercado de trabalho.

Como os grupos do TUC desenvolveram essa dependência legalista é uma longa história. [1] O que importa aqui é que os empregadores aderem a esses mesmos critérios e as batalhas entre patrões e trabalhadores se desenrolam sobre esse terreno.

Nos últimos anos o capital assumiu a ofensiva contra esses trabalhadores. No setor formal as companhias têm se esforçado para reduzir os custos dos processuais trabalhistas e restringir o exercício do direito de greve.

Elas têm também evitado completamente o enquadramento unitário das categorias através da criação de mais postos de trabalho casuais (intermitentes). Esses empregos – que se valem de agências intermediadoras ou terceirizadas para contratar trabalhadores, ou da classificação de alguns trabalhadores como “autônomos” prestadores de serviço, ou baseados em contratos “zero-hora” – arrancar aos seus ocupantes muitas das proteções gozadas por empregados tradicionais, enquanto mantém as condições de trabalho práticas de qualquer relação empregador-empregado.

As práticas empregatícias do Deliveroo demonstram perfeitamente isso. Denominando seus entregadores de “prestadores de serviço independentes” a companhia não é obrigada legalmente a assegurar licença médica, descanso remunerado, recolhimento previdenciário ou mesmo o salário mínimo. Mas esses chamados prestadores de serviços trabalham sob as mesmas obrigações que os empregadores regulares. Ainda mais revoltante é o fato de que eles não podem trabalhar para qualquer outro serviço de entregas, ainda que o Deliveroo se recuse a pagar-lhes um salário mínimo.

Esse modelo de trabalho precários se utiliza das brechas legais da regulação das relações trabalhistas. Os trabalhadores se vêm sob restrições ainda maiores, ao mesmo tempo em que assumem parte dos riscos e custos. Isso tem permitido às companhias extrair lucros maiores com menos investimentos.

Não por coincidência, a tentativa do Deliveroo de substituir o valor pago por hora com um esquema de pagamento por entrega veio à tona apenas algumas semanas após a companhia receber £212 milhões em investimentos e se preparava para encarar seu novo competidor, o Uber Eats. A companhia teve de intensificar sua lucratividade em resposta tanto aos investidores quanto às pressões do mercado.

A externalização dos riscos e custos para os trabalhadores, promovida pelo Deliveroo, reflete não apenas uma mudança de protocolos no padrão de lucratividade, mas também a habilidade do capital para explorar as fragilidades no ordenamento jurídico trabalhista.

Greves sob demanda

Embora a criatividade jurídica permita aos empresários eliminar onerosas obrigações patronais, ela tem um efeito colateral potencialmente custoso: o antagonismo de classes passa a ter como palco um âmbito exterior ao do sistema de arbitramento estatal há muito utilizado para assegurar a pacificação no mundo do trabalho.

“O ordenamento legal opera contra os trabalhadores”, afirma Chris, um organizador da IWW. “É feito sob medida para os gestores, mas também é voltado para a conciliação. Se você rejeita essa estrutura, então você pode atuar de um modo que seja realmente efetivo”.

Com os caminhos legais ou formalmente fechados ou financeiramente inviáveis, os trabalhadores [juridicamente] casuais são forçados a explorar métodos alternativos para melhorar suas condições de trabalho. Tudo o que é preciso é um momento crítico, e – especialmente sob a austeridade britânica – esses momentos surgem facilmente.

Conforme as companhias encontram novos modos de extrair mais-valia, novas fronteiras de conflito classista se abrem. O capital supera limitações prévias, reduzindo custos e riscos de modo mais ou menos legal. A resposta legal apropriada a essa erosão de direitos é proscrita pelas leis trabalhistas existentes e o sistema de arbitramento estatal que limita a atividade sindical. Mas, para além dessas fronteiras, muito é possível.

As greves espontâneas do Deliveroo e do Uber Eats rapidamente paralisaram a oferta de trabalho – um movimento devastador para um negócio essencialmente sob demanda imediata. Em contraste, uma greve legal leva semanas para ser organizada, dando às companhias tempo suficiente para fazer planos de contingencia. Os entregadores do Deliveroo demoraram apenas algumas horas para organizar sua primeira paralização.

De modo similar, os motoristas da companhia rapidamente se reuniram em piquetes ao redor do escritório de recrutamento do Deliveroo quando perceberam que a companhia estava tentando contratar fura-greves. Em um contexto sindical tradicional esse tipo de ação teria que ser previamente aprovada por diversas camadas de burocratas sindicais legalmente sensíveis.

A atual onda de greves lança luz sobre como o capitalismo contemporâneo, com sua velocidade e flexibilidade, demanda igualmente um movimento operário versátil e que responsa rapidamente. Quando o capital põe de lado as proteções trabalhistas, o espaço para tal ação é aberto junto.

O resto da classe

Independentemente do quão revigorantes essas campanhas recentes tenham sido, elas apenas envolvem alguns milhares de trabalhadores em um setor informal de milhões, no interior da força de trabalho britânica dez vezes maior.

Kim Moody recentemente alertou contra os perigos de se fetichizar a economiagig e desafiou a crença amplamente difundida de que contingentes cada vez maiores de trabalhadores estão se deslocando para empregos precários. Ele argumenta que focar em um precariado, cindido do conjunto da classe, obscurece os problemas fundamentais compartilhados por toda a classe trabalhador: notadamente os péssimos empregos que resultam a intensificação do trabalho.

Como Ursula Huws aponta, a precariedade não divide a classe trabalhadora:

“A precariedade”, ela escreve “é a condição normal de todo o trabalho sob o capitalismo – limitada apenas por fortes organizações de trabalhadores sob circunstâncias favoráveis”.

Seguindo a sua análise e da Moody, a precariedade se torna uma ideia útil que revela os padrões comuns unindo o setor formal e o informa da força de trabalho.

Huws alega que as companhias estão instituindo um “novo modelo de gestão do trabalho” em ambos setores. Tarefas de rotina, como agendar viagens, preenches relatórios de gastos e assim por diante são afazeres agora dispersados entre os empregados das empresas, e não mais concentradas em departamentos dedicados exclusivamente a essas funções. Isso constantemente desloca pequenas quantidades de trabalho para os empregados, criando uma “carga cyber-burocrática de ‘trabalho de consumo’ não pago, requerido à sobrevivência cotidiana”.

As companhias crescentemente auditam e monitoram os resultados de seus empregados nesse terreno. Os trabalhadores são julgados com base em normas cada dia mais exigentes, por conta da competição entre os próprios trabalhadores. A futura empregabilidade frente a uma mesma firma se torna dependente nos relatórios das performances mais recentes do trabalhador. Subsequentemente, “a vida dentro das corporações se torna cada vez estreitamente assemelhada à vida fora”, conquanto custos e riscos são descarregados também sob os trabalhadores do setor formal.

Isso também é verdade para os trabalhadores “de colarinho azul”. Por exemplo, trabalhadores sob contratos de poucas horas (abaixo de 10 horas por semana) podem não ser contabilizados como trabalhadores intermitentes por questões jurídicas, como o direito ao pagamento por tempo e outros benefícios. Não obstante, eles passam por problemas semelhantes. Muitos trabalhadores sob contratos de tais tipos prefeririam um contrato de tempo integral. Na falta de garantias, esses contatos acabam parecendo em muito os contatos “zero hora”, conforme os trabalhadores aumentam sua produtividade ou trabalham mais horas de graça, de modo a “ganhar” turnos extras.

Pensando deste modo na precariedade, se torna claro que o setor formal está adotando esquemas de extração de mais-valia comuns ao setor informal. Conforme isso ocorre, novas fronteiras de conflitos de classe se abrirão, pondo em questão a utilidade dos métodos sindicais do TUC.

Moody clama por uma reorientação do foco dos socialistas sob os vastos e novos polos logísticos no coração da economia global, bem como faz Joe Allen. Esses são os pontos de pressão do capitalismo contemporâneo, dependente de um exército de trabalhadores sub-remunerados que os façam funcionar. Aqui poderia haver um enorme potencial para a organização proletária e a reversão do declínio sindical, naquilo que Moody chama de “o novo terreno do conflito de classes”.

Mas o movimento sindical apenas ganhará esse novo terreno se lutar com novos métodos.

Um novo movimento sindical

Para que os trabalhadores respondem de modo eficaz ao aumento da precarização, são obrigados a seguir o capital para além dos limites legais das relações de classe. As atuais campanhas dos trabalhadores intermitentes servem de laboratório para novas formas de antagonismo de classes para além do arbitramento estatal. Onde quer que haja menos proteção legal, encontramos o maior potencial para conflitos de classe inovadores.

Dados os sucessos recentes das ações extralegais – e a estagnação continuada dos sindicatos tradicionais – os trabalhadores podem vir a crescentemente ver mais apelo no terreno não-familiar, mais efetivo que o familiar.

Os novos centros logísticos massivamente se apoiam sobre trabalhadores intermitentes “fornecidos” por empresas de empregos temporários. Não bastará aos sindicatos mirar nessas categorias com métodos antiquados. Ao invés disso, deveriam aplicar as lições aprendidas das lutas recentes dos trabalhadores intermitentes a essa nova iniciativa organizativa.

Alguns esforços se encaminham para lidar com tais desafios, mas eles precisarão ser replicados em uma escala muito maior antes de podermos vislumbrar resultados. O alastramento de greves espontâneas entre os trabalhadores britânicos indica que isso é possível.

As campanhas dos entregadores e trabalhadores da limpeza estão publicamente redefinindo o conceito de organização operária no Reino Unido. Os resultados dos caóticos e calorosos conflitos nas ruas repetidamente comprovam ser preferíveis à invisibilidade dos acordos judiciais “racionais”. A grande ironia é que, graças à organização independente, esses chamados trabalhadores precários estão gozando de uma crescente segurança em seus locais de trabalho, enquanto muitos trabalhadores sindicalizados vislumbram a erosão de suas condições de trabalho e o desaparecimento de sua segurança.

O movimento sindical faria bem em decifrar esse paradoxo e pôr suas lições em prática.