31 de outubro de 2016

Relembrando o Partido dos Panteras Negras

Cinquenta anos após a sua fundação, a visão antiracista e anticapitalista do Partido dos Panteras Negras mantém a mesma relevância.

Robert Greene II


Charles Bursey entrega um prato de comida para uma criança como parte do programa de café da manhã gratuito do Partido dos Panteras Negras. Foto cortesia de Pirkle Jones e Ruth-Marion Baruch.

Tradução / Este ano assinala-se o 50º aniversário da expressão “Black Power”, cunhada por Stokely Carmichael, e também da formação do Partido dos Panteras Negras (PPN).

Criado pelos ativistas radicais de Oakland, Huey Newton e Bobby Seale, os Panteras Negras depressa se tornaram a maior manifestação da ideologia “Black Power” após a sus formação em outubro de 1966. No entanto, muito do que se sabe acerca dos Panteras permanece no esquecimento ou foi distorcido, e a iconografia das armas surge à frente de um conhecimento aprofundado dos seus objetivos.

Para pôr a história em pratos limpos, o texto que se segue é um manual sobre o Partido dos Panteras Negras – um grupo que meio século após a fundação ainda tem muito para nos ensinar sobre organização, ideologia e os perigos de defender o socialismo revolucionário nos Estados Unidos.

Origens e objetivos

O Partido dos Panteras Negras seguiu os passos dos grupos negros esquerdistas que o precederam, como a African Blood Brotherhood and o National Negro Congress. Tal como os antecedentes, os Panteras Negras adotaram tanto o nacionalismo negro como o socialismo. Seale e Newton pretendiam criar uma organização que pudesse defender a comunidade negra contra a brutalidade policial, dando ao mesmo tempo uma clara visão anticapitalista.

Ao contrário das principais organizações do Movimento dos Direitos Civis, o PPN tinha a sua base potencial no “Lumpenproletariado Negro Urbano”, como explicou um dos seus primeiros líderes, Eldridge Cleaver, no manifesto On the Ideology of the Black Panther Party.

Para Cleaver e outros líderes do PPN, o lumpenproletariado negro era composto por quem está “perpetuamente na reserva” – os Afro-Americanos, em Oakland e não só, que não conseguiam encontrar trabalho ou obter a formação necessária para competir numa força de trabalho em modernização. Eles dirigiram-se a este segmento da população – em vez do agente tradicional da revolução, a classe operária organizada – para potenciar a sua luta contra a supremacia branca, o imperialismo e o capitalismo.

Nascido em Oakland, cidade com longa história de radicalismo e luta pelos direitos civis, o PPN acabou por formar núcleos por todo o país – de Nova Iorque a Chicago e no Sul, em locais tão distintos como Winston-Salem, Carolina do Norte e New Haven, Connecticut. Nos seus tempos áureos, o PPN anunciava mais de 5.000 militantes a nível nacional. E chegavam a muitos mais através do seu jornal, o Black Panther, que tinha uma circulação de 250.000.

O que dava coerência aos vários núcleos não era forçosamente uma liderança do topo para a base, mas um ethos de Black Power, organização comunitária e o socialismo que canalizava a energia dos jovens Afro-Americanos descontentes com a hipocrisia do liberalismo da Grande Sociedade e com a insensibilidade do conservadorismo da Nova Direita. Surgiram líderes jovens e talentosos a nível local, em especial Fred Hampton, em Chigago.

Na resistência à brutalidade policial em Oakland, os Panteras escolherem a autodefesa armada, uma tática empregada por muitos Afro-Americanos em todo o Sul do país. A ligação geográfica não era uma coincidência. Fundada por dois sulistas (Seale nasceu no Texas, Newton no Louisiana), o PPN partilha o seu símbolo icônico com a Lowndes County Freedom Organization no Alabama (fundada por Carmichael). Ambos os grupos desafiaram diretamente a supremacia branca nas bases.

Mas para o PPN, a luta contra o racismo não ficava completa sem uma luta contra o capitalismo. A sua plataforma em dez pontos de 1966, a mais clara expressão programática da política do grupo, apresentava uma análise crítica tanto da supremacia branca como do capitalismo na América. Entre as suas reivindicações estavam o “pleno emprego”, “habitação digna” e um “plebiscito fiscalizado pelas Nações Unidas” para decidir se os Afro-Americanos desejavam separar-se dos EUA e criar a sua própria comunidade auto-organizada.

Cada um desses objetivos, juntamente com os outros descritos no programa de dez pontos, apontavam para uma organização que já estava juntando os vários eixos do pensamento de esquerda predominantes no final da década de 1960.

As atividades do Partido dos Panteras Negras

Entre as principais atividades dos Panteras estavam os seus serviços sociais, ou “programas de sobrevivência”. O mais famoso era o programa de café da manhã gratuito, que fornecia refeições a muitos jovens Afro-Americanos pobres em Oakland. Outro era o programa local de educação para a saúde, que ajudava os Afro-Americanos sem acesso a cuidados de saúde de qualidade.

Juntos, os mais de sessenta programas de sobrevivência permitiram aos Panteras Negras ganhar o apoio de muitos operários Afro-Americanos em luta, melhorando de imediato a qualidade de vida dos moradores enquanto apontavam a um futuro socialista.

O PPN também ficou conhecido por patrulhar a ação dos agentes policiais de Oakland nas ruas. Armados com shotguns e livros de leis da Califórnia, eles circulavam na cidade e fiscalizavam as blitz policiais, procurando diminuir a brutalidade policial. O uso das armas levou a Assembleia Geral da Califórnia a aprovar, e o então governador Ronald Reagan a promulgar, o Mulford Act de 1967, que proibiu o porte público de armas carregadas.

A polícia também não viu com bons olhos a fiscalização armada dos Panteras. No mesmo ano da aprovação do Mulford Act, uma blitz de trânsito descambou num tiroteio entre Newton e o agente da polícia de Oakland John Frey, que morreu no local. Os julgamentos de Newton que se seguiram tornaram-se causas importantes para a esquerda americana, que tomou o slogan “Free Huey” como o grito contra a opressão, a brutalidade policial e a supremacia branca na sociedade.

A inquietação aumentou nos meios governamentais sobre a ameaça que os Panteras colocavam à segurança nacional. Para além das blitz pontuais e emboscadas policiais, o FBI, sob os auspícios do seu famigerado COINTELPRO (Counter Intelligence Program) abriu guerra aos Panteras. O FBI olhou com especial interesse para os núcleos de Oakland e Chicago, semeando a discórdia entre os membros do PPN e muitas vezes deixando os militantes inseguros sobre em quem confiar.

O assassinato de Hampton e de Mark Clark, líder do Partido dos Panteras Negras no estado do Illinois, durante uma vistoria ao apartamento de Hampton a 4 de dezembro de 1969, mostrou até onde as autoridades locais e nacionais estavam dispostas a ir para acabar com o Partido dos Panteras Negras. Até os programas de café da manhã gratuito – vistos como fonte potencial de radicalização de uma nova geração de Afro-Americanos – foram alvo do FBI e da polícia local.

Sob o peso de uma severa repressão estatal, acabaram por surgir divergências graves acerca das diversas atividades do grupo. No início dos anos 1970, os Panteras Negras haviam se dividido tanto sobre a linha ideológica, como tática.

Huey Newton queria centrar a atenção do PPN no ativismo local, formação e programas de serviço comunitário. Eldridge Cleaver – que chegou a ser o ministro da informação do PPN mas que desde então fugira para Cuba e depois para a Argélia na sequência de uma cilada da polícia de Oakland – pressionava o partido para se preparar para a insurreição armada nos Estados Unidos. O cisma foi colocado à vista de todos em 1971, quando Newton criticou abertamente Cleaver nas páginas do Black Panther.

Quando Elaine Brown se tornou a presidente do partido em 1973 – substituindo Newton, que estava exilado em Cuba –, ela fez o partido regressar em força à sua orientação para as bases. Brown deu destaque ao serviço comunitário, gerindo a Oakland Community School nos anos 1970 e formando nesse processo centenas de crianças Afro-Americanas de Oakland.

Durante o seu mandato, o PPN tornou-se um importante agente político em Oakland e na Califórnia. Bobby Seale fez uma grande campanha para prefeito de Oakland em 1973 e 1975 (acabando em segundo entre nove candidatos após perder no segundo turno), e Brown entrou na disputa para o conselho municipal em 1973 e 1975 (nas duas vezes ficou perto de ganhar). Brown apoiou também a candidatura bem sucedida do Democrata Jerry Brown a governador em 1974 (embora seja menos evidente no que é que esse apoio beneficiou o eleitorado do PPN).

No fim das contas, a visão de Newton para o PPN acabou por triunfar. Mas o seu regresso do exílio em 1976 desencadeou outra luta pelo poder que acabou por destruir o PPN.

A relação com a esquerda

O Partido dos Panteras Negras não se isolou do resto da esquerda. O seu núcleo de Chicago, por exemplo, tinha uma relação de trabalho com os Young Patriots, uma organização composta sobretudo pelos filhos e filhas dos migrantes brancos dos Apalaches. Em 1969, o PPN convidou os Young Patriots e outras organizações de esquerda para virem a Oakland participar na United Front Against Fascism Conference.

A liderança de Hampton era crucial para estabelecer esta ligação. Enquanto líder do núcleo de Chigago, Hampton dirigia-se aos brancos pobres como parte do seu esforço para forjar uma aliança antiracista e anticapitalista dos necessitados. Como explicou Hampton, “Não vamos lutar contra o racismo com racismo, mas sim com solidariedade. Não vamos lutar contra o capitalismo com o capitalismo negro, mas sim com o socialismo”. O seu assassinato em 1969 destruiu o Partido dos Panteras Negras e retirou ao movimento um dos seus líderes mais jovens e promissores.

Os Panteras também estiveram envolvidos no movimento antiguerra, considerando que a sua luta pela libertação negra e a autodeterminação estava ligada aos movimentos de resistência no Vietnã, Argélia e noutros países. Chegaram mesmo a abrir um núcleo na Argélia em 1969. Quando se envolveram no movimento anti-alistamento (“uma das primeiras alianças bem sucedidas que tivemos, sublinhou Seale), os Panteras deixaram claro que os abusos que os Afro-Americanos enfrentavam às mãos da polícia nos EUA eram o reflexo da repressão que os vietnamitas e outros grupos sofriam dos militares norte-americanos.

Os textos de Newton sobre a ideologia do Partido dos Panteras Negras no fim dos anos 1960 mostram uma tendência mais ampla entre os radicais Afro-Americanos – de Martin Luther King, Jr. a Stokely Carmichael – que ligavam o racismo no país ao imperialismo no estrangeiro. Newton, por exemplo, exprimiu muitas vezes o seu apoio à Palestina nos seus artigos, que eram muito lidos.

Nos anos 1970, enquanto membros da esquerda Black Power mais vasta, os Panteras entraram nos debates sobre o caminho a seguir pelos Afro-Americanos após o declínio do Movimento pelos Direitos Civis. Figuras de proa do movimento Black Power como Amiri Baraka (LeRoi Jones antes da sua adesão ao nacionalismo negro no fim dos anos 1960) tornaram-se reconhecidos marxistas e combateram a retórica nacionalista.

Os Panteras, embora com menos nacionalismo negro do que a imaginação popular lhe dá, nunca renegou a sua marca Black Power. Mas gastaram bem mais tempo a refletir sobre a melhor combinação de nacionalismo negro e socialismo – e influenciou a prática de outros grupos de esquerda nesse processo.

O legado dos Panteras

A importância do trabalho dos Panteras Negras permanece ainda hoje, por muitas razões. Primeiro, recordam-nos que o problema da brutalidade policial está connosco há muito tempo (Martin Luther King, Jr. até o mencionou no seu muito citado, e muitas vezes mal interpretado, discurso do “I Have a Dream”. De fato, os protestos que se seguiram à morte de Denzil Dowell em North Richmond, uma localidade perto de Oakland, em abril de 1967, tiveram um papel determinante no crescimento do PPN, que passou de uma pequena organização de quadros a uma grande força política e social.

Em segundo lugar, o PPN mostra-nos um bom modelo de ativismo de base e de ideologia em ação. Enquanto o grupo era dilacerado pelos conflitos entre Newton e Cleaver nos anos 1970, os Panteras continuaram a fazer um importante trabalho no terreno em Oakland. Os seus “programas de sobrevivência” dirigiram-se a Afro-Americanos na pobreza que não conseguiam apoio da administração local. E sobretudo, eles ligaram o seu programa de educação e café da manhã gratuito a um projeto político mais amplo. Enquanto mistura genial da prática com o visionário, o trabalho comunitário do PPN foi o trabalho mais revolucionário que fizeram.

O Partido dos Panteras Negras foi também um importante campo de treinamento para as mulheres ativistas Afro-Americanas, como Kathleen Cleaver e Elaine Brown. Tal como no Movimento pelos Direitos Civis, as mulheres fizeram boa parte do trabalho básico do PPN.

Isto não quer dizer que o PPN fosse um exemplo no que toca aos direitos das mulheres. Quando Seale e Newton formaram o grupo, dirigiram o seu apelo aos “irmãos do bairro” Em Noutras ocasiões, a sua retórica foi bastante progressista: em agosto de 19760, Newton tornou-se um dos primeiros líderes Afro-Americanos de qualquer estirpe ideológica a exprimir solidariedade com os gays e lésbicas norte-americanos. Mesmo durante o mandato de Brown na presidência do PPN; a direção do grupo permaneceu esmagadoramente masculina e as mulheres Panteras eram sujeitas a abusos verbais e físicos.

Ainda assim, Brown e outras mulheres Panteras Negras conquistaram o seu espaço e deram um contributo imenso para a organização.

Finalmente, o legado do Partido dos Panteras Negras pode ser visto hoje no movimento Black Lives Matter. As suas reivindicações por justiça econômica, poder comunitário e compensações fazem lembrar a plataforma de dez pontos do Partido dos Panteras Negras. E tal como os movimentos Black Power e dos Direitos Civis, o movimento Black Lives Matter teve de enfrentar repetidamente a cobertura noticiosa negativa e a crítica de muitos liberais norte-americanos para “irem mais devagar”.

Agora que passam cinquenta anos desde a sua fundação, os Panteras devem ser recordados por mais do que as suas boinas negras e as shotguns. Apesar das suas falhas, eles combinaram a urgência e a transformação numa ideia política poderosa, defendendo uma aliança multirracial contra o racismo, o capitalismo e o imperialismo que resultou em ganhos tangíveis para os mais explorados. Essa ideia continua hoje a ser tão inspiradora como então.

Como votar Não às armas nucleares

Manlio Dinucci

Il Manifesto

“Obrigado, presidente Obama. A Itália prosseguirá com grande determinação o empenho pela segurança nuclear”: assim escreveu o premiê Renzi em uma histórica mensagem pelo Twitter. Seis meses depois, nas Nações Unidas, votou Sim às armas nucleares. Indo a reboque dos EUA, o governo italiano se alinhou contra a Resolução, aprovada por grande maioria no primeiro comitê da Assembleia Geral, que pede a convocação em 2017 de uma conferência das Nações Unidas para “negociar um instrumento legalmente vinculante para proibir as armas nucleares, que leve à sua total eliminação”. Assim, o governo italiano renegou aquilo que tinha prometido à Conferência de Viena, há dois anos, aos movimentos antinucleares “exigentes”, assegurando-lhes sua vontade de atuar pelo desarmamento nuclear desempenhando um “papel de mediação com paciência e diplomacia”.

Desse modo, cai no vazio o apelo “Exigimos o desarmamento nuclear total”, no qual se pede ao governo o “compromisso coerente do empenho e da luta pelo abandono das armas nucleares”, por meio de um caminho “humanitário e jurídico rumo ao desarmamento nuclear”, no qual a Itália poderia desempenhar “um papel mais do que ativo, possivelmente dirigente”. Por conseguinte, caem no vazio também as moções parlamentares com o mesmo tom. Os apelos genéricos ao desarmamento nuclear são facilmente instrumentalizáveis: basta pensar que o presidente dos EUA, artífice de um rearmamento nuclear da ordem de um trilhão de dólares, ganhou o Prêmio Nobel da Paz por “sua visão de um mundo livre das armas nucleares”. O modo concreto através do qual na Itália podemos contribuir para o objetivo do desarmamento nuclear, enunciado na Resolução das Nações Unidas, é o de libertar nosso país das armas nucleares estadunidenses. Isso não requer um apelo ao governo, mas a exigência de que este respeite o Tratado de não proliferação (TNP), assinado e ratificado pela Itália, cujo Artigo 2º estabelece: “Todo Estado militarmente não nuclear, que seja Parte do Tratado, se compromete a não receber de quem quer que seja armas nucleares ou outros dispositivos nucleares explosivos, nem a exercer o controle sobre tais armas e dispositivos explosivos, direta ou indiretamente”.

Deve-se exigir que a Itália deixe de violar o TNP e peça aos Estados Unidos para remover imediatamente todas as suas armas nucleares do nosso território e não instalar as novas bombas B61-12, ponta de lança da escalada nuclear dos EUA-OTAN contra a Rússia, nem outras armas nucleares. Deve-se exigir que os pilotos italianos não sejam mais treinados para o uso de armas nucleares sob o comando dos EUA. É este o objetivo da campanha lançada pelo Comitê Não à Guerra, Não à OTAN, e outros temas (para obter documentos, digitar no Google “Change Nato”). A campanha obteve um primeiro resultado importante: em 26 de outubro, no Conselho Regional da Toscana, foi aprovada por maioria uma moção do grupo Sim, Toscana de Esquerda, que “compromete o poder local a exigir que o Governo respeite o Tratado de não Proliferação das Armas Nucleares e fazer com que os Estados Unidos removam imediatamente qualquer arma nuclear do território italiano e renunciem a instalar as novas bombas B61-12 e outras armas nucleares”. Através desta e de outras iniciativas se pode criar uma ampla frente que, com uma forte mobilização, imponha ao governo o respeito ao Tratado de não Proliferação. Há seis meses pedíamos nas páginas do Manifesto que alguém no Parlamento se mostrasse disposto a exigir, com base no TNP, a imediata remoção da Itália das armas nucleares estadunidenses. Ainda agora esperamos a resposta.

28 de outubro de 2016

Por dentro do governo invisível: guerra, propaganda, Clinton & Trump

por John Pilger

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

O jornalista norte-americano, Edward Bernays, é frequentemente descrito como o homem que inventou a propaganda moderna.

Sobrinho de Sigmund Freud, o pioneiro da psicanálise, foi Bernays que cunhou o termo "relações públicas" como um eufemismo para volteio e seus enganos.

Em 1929, ele persuadiu feministas a promoverem cigarros para mulheres por fumar no desfile de Páscoa em Nova York – comportamento então considerado estranho. Uma feminista, Ruth Booth, declarou: "Mulheres! Acendam outra tocha da liberdade! Derrubem mais um tabu sexista!"

A influência de Bernays estendeu-se muito além da publicidade. Seu maior sucesso foi seu papel em convencer o público americano a aderir ao massacre da Primeira Guerra Mundial. O segredo, segundo ele, era a "engenharia do consentimento" popular, a fim de "controlar e dirigir de acordo com a nossa vontade, sem seu conhecimento sobre o assunto".

Ele descreveu isso como "o verdadeiro poder dominante em nossa sociedade" e chamou-lhe "governo invisível".

Atualmente, o governo invisível nunca foi mais poderoso e menos compreendido. Na minha carreira como jornalista e cineasta, eu nunca conheci um momento em que a propaganda insinuasse nossas vidas como faz agora e passasse em branco.

Imagine duas cidades.

Ambas estão sob cerco pelas forças do governo desse país. Ambas as cidades são ocupados por fanáticos, que cometem atrocidades terríveis, tais como a decapitação de pessoas.

Mas existe uma diferença fundamental. Em um cerco, os soldados do governo são descritos como libertadores por repórteres ocidentais incorporados com eles, que entusiasticamente relatam suas batalhas e ataques aéreos. Há nas primeiras páginas dos jornais imagens destes heroicos soldados que fazem o sinal da vitória. Há pouca menção de baixas civis.

Na segunda cidade - em outro país vizinho - quase exatamente o mesmo está acontecendo. As forças do governo estão sitiando uma cidade controlada pela mesma raça de fanáticos.

A diferença é que esses fanáticos são apoiados, financiados e armados por "nós" - Estados Unidos e Grã-Bretanha.  Eles ainda têm um centro de mídia que é financiado pelos Estados Unidos e Grã-Bretanha.

Outra diferença é que os soldados do governo que mantêm esta cidade sob cerco são os maus, condenados por agredir e bombardear a cidade - que é exatamente o que os bons soldados fazem na primeira cidade.

Confuso? Na verdade não. Tal é o duplo padrão básico que é a essência da propaganda. Refiro-me, naturalmente, ao cerco atual da cidade de Mosul pelas forças do governo do Iraque, que são apoiadas pelos Estados Unidos e Grã-Bretanha e ao cerco de Aleppo pelas forças do governo da Síria, apoiados pela Rússia. Um é bom; o outro é ruim.

O que raramente é relatado é que ambas as cidades não seriam ocupadas por fanáticos e devastada pela guerra se a Grã-Bretanha e os Estados Unidos não tivessem invadido o Iraque em 2003. Esse empreendimento criminoso foi lançado sob mentiras notavelmente semelhantes à propaganda que agora distorce nossa compreensão do guerra civil na Síria.

Sem essa propaganda apresentada como notícia, o monstruoso Daesh, a Al-Qaida, a al-Nusra e o resto da gangue jihadista poderia não existir, e o povo da Síria não precisaria estar lutando por suas vidas hoje.

Alguns podem lembrar, em 2003, uma sucessão de repórteres da BBC voltando-se para a câmera e dizendo que Blair foi "vingado" pelo que acabou sendo o crime do século. As redes de televisão norte-americanas produziu a mesma validação para George W. Bush. Fox News evocou Henry Kissinger para efundir sobre fabricações de Colin Powell.

No mesmo ano, logo após a invasão, filmei uma entrevista em Washington com Charles Lewis, o renomado jornalista investigativo americano. Perguntei-lhe: "O que teria acontecido se os meios de comunicação mais livres do mundo tivessem desafiado seriamente o que acabou por ser propaganda bruta?"

Ele respondeu que se os jornalistas tivessem feito seu trabalho, "há uma muito, muito boa chance de que não teriam ido para a guerra no Iraque".

Foi uma declaração chocante, e apoiada por outros jornalistas famosos a quem eu coloquei a mesma pergunta - Dan Rather da CBS, David Rose do Observer e jornalistas e produtores da BBC, que preferiram o anonimato.

Em outras palavras, se os jornalistas tivessem feito o seu trabalho, se tivessem desafiado e investigado a propaganda ao invés de amplificá-la, centenas de milhares de homens, mulheres e crianças estariam vivas hoje, e não haveria ISIS e nem o cerco de Aleppo ou Mosul.

Não teria havido nenhuma atrocidade no metrô de Londres em 7 de julho de 2005. Não teria havido nenhum voo de milhões de refugiados; não haveria acampamentos miseráveis.

Quando a atrocidade terrorista aconteceu em Paris em novembro passado, o presidente François Hollande enviou imediatamente aviões para bombardear a Síria - e mais terrorismo seguiu-se, previsivelmente, o resultado da grandiloquência de Hollande sobre a França estar "em guerra" e não "mostrar nenhuma clemência". Que a violência estatal e violência alimentam jihadistas longes um do outro é a verdade que nenhum líder nacional tem a coragem de falar.

"Quando a verdade é substituída pelo silêncio", disse o dissidente soviético Yevtushenko, "o silêncio é uma mentira."

O ataque ao Iraque, o ataque à Líbia, o ataque à Síria aconteceu porque o governo em cada um desses países não era um fantoche do Ocidente. O histórico de direitos humanos de um Saddam ou de um al-Gaddafi era irrelevante. Eles não obedeceram ordens e entregaram o controle de seu país.

O mesmo destino aguardava Slobodan Milosevic uma vez que ele se recusou a assinar um "acordo" que exigia a ocupação da Sérvia e sua conversão para uma economia de mercado. Seu povo foi bombardeado, e ele foi processado em Haia. Independência deste tipo é intolerável.

Como a WikLeaks revelou, foi apenas quando o líder sírio, Bashar al-Assad, em 2009, rejeitou um oleoduto, que atravessaria o seu país do Qatar para a Europa, é que ele foi atacado.

A partir desse momento, a CIA planejou destruir o governo da Síria com fanáticos jihadistas - os mesmos fanáticos que atualmente dominam o povo de Mosul e do leste de Aleppo

Por isso não é notícia? O ex-funcionário da chancelaria britânica Carne Ross, que era responsável pela manutenção de sanções contra o Iraque, disse-me: "Nós alimentávamos os jornalistas com factoides de inteligência higienizada, ou nós os deixávamos congelados de fora. É assim que funcionava."

O cliente medieval Ocidente, a Arábia Saudita - à qual os EUA e a Grã-Bretanha vendem bilhões de dólares em armas - está atualmente destruindo Iêmen, um país tão pobre que, no melhor dos casos, metade das crianças estão desnutridas.

Procure no YouTube e você vai ver o tipo de bombas maciças - "nossas" bombas - que os sauditas usam contra aldeias miseráveis e contra casamentos e funerais.

As explosões se parecem com pequenas bombas atômicas. Os bombardeadores na Arábia Saudita trabalham lado a lado com os oficiais britânicos. Este fato não está no noticiário da noite.

A propaganda é mais eficaz quando o nosso consentimento é projetado por aqueles com uma boa educação - Oxford, Cambridge, Harvard, Columbia - e com carreiras na BBC, The Guardian, The New York Times, The Washington Post.

Estas organizações são conhecidos como a mídia liberal. Eles se apresentam como iluminados, tribunas progressistas do zeitgeist moral. Eles são anti-racistas, pró-feministas e pró-LGBT.

E eles amam a guerra.

Enquanto eles falam em defesa do feminismo, eles apoiam as guerras de rapina que negam os direitos das inúmeras mulheres, incluindo o direito à vida.

Em 2011, a Líbia, então um estado moderno, foi destruída com o pretexto de que Muammar al-Gaddafi estava prestes a cometer genocídio contra seu próprio povo. Essa foi a notícia incessante; e não houve evidência. Era uma mentira.

Na verdade, a Grã-Bretanha, Europa e os Estados Unidos queriam o que eles gostam de chamar de "mudança de regime" na Líbia, o maior produtor de petróleo da África. A influência de al-Gaddafi no continente e, acima de tudo, a sua independência eram intoleráveis.

Assim, ele foi assassinado com uma faca em suas costas por fanáticos, apoiado pelos Estados Unidos, Grã-Bretanha e França. Hillary Clinton aplaudiu sua morte horrível para a câmera, declarando: "Nós viemos, nós vimos, ele morreu!"

A destruição da Líbia foi um triunfo da mídia. À medida que os tambores de guerra foram espancados, Jonathan Freedland escreveu no Guardian: "Embora os riscos sejam muito reais, o necessidade de intervenção continua a ser forte."

Intervenção - é uma palavra educada, benigna, do Guardian, cujo significado real, para a Líbia, era a morte e destruição.

De acordo com os seus próprios registos, a OTAN lançou 9.700 "missões de ataque" contra a Líbia, dos quais mais de um terço foram destinadas a alvos civis. Elas incluíam mísseis com ogivas de urânio. Olhe para as fotografias dos escombros de Misurata e Sirte, e as valas comuns identificadas pela Cruz Vermelha. O relatório da UNICEF sobre as crianças mortas diz, "a maioria [delas] com idade inferior a dez anos".

Como consequência direta, Sirte tornou-se a capital do Daesh.

A Ucrânia é outro triunfo da mídia. Jornais liberais respeitáveis, como o New York Times, o Washington Post e The Guardian, e as emissoras tradicionais, como a BBC, NBC, CBS, CNN têm desempenhado um papel fundamental no condicionamento seus telespectadores para aceitar uma nova e perigosa guerra fria.

Todos têm deturpado os acontecimentos na Ucrânia como um ato maligno pela Rússia quando, na verdade, o golpe na Ucrânia em 2014 foi o trabalho dos Estados Unidos, ajudado pela Alemanha e pela OTAN.

Esta inversão da realidade é tão difundida que a intimidação militar da Rússia por Washington não é novidade; é suprimida por trás de uma campanha de difamação e susto do tipo que eu cresci com ela durante a primeira guerra fria. Mais uma vez, os Ruskies estão vindo nos pegar, liderado por outro Stalin, a quem The Economist descreve como o diabo.

A supressão da verdade sobre a Ucrânia é um dos apagões de notícias mais completos que me lembro. Os fascistas que projetaram o golpe em Kiev são a mesma raça que apoiou a invasão nazista da União Soviética em 1941. De todos os sustos sobre a ascensão do fascismo anti-semita na Europa, nenhum líder nunca menciona os fascistas na Ucrânia - exceto Vladimir Putin, mas ele não conta.

Muitos na mídia ocidental tem trabalhado duro para apresentar a população étnica de língua russa da Ucrânia como estranhos em seu próprio país, como agentes de Moscou, quase nunca como ucranianos que pretendem uma federação dentro Ucrânia e como cidadãos ucranianos resistindo a um golpe estrangeiro orquestrada contra seu governo eleito.

Esta é quase o joie d'esprit de uma reunião de classe de belicistas.

O batedores de tambor do The Washington Post que incitam a guerra com a Rússia são os mesmos editorialistas que publicaram a mentira de que Saddam Hussein tinha armas de destruição em massa.

Para a maioria de nós, a campanha presidencial norte-americana é um freak show de mídia, em que Donald Trump é o vilão.

Mas Trump é odiado por aqueles com poder nos Estados Unidos por razões que pouco têm a ver com o seu comportamento e suas opiniões detestáveis. Para o governo invisível, em Washington, imprevisível Trump é um obstáculo para o projeto de América para o século 21.

Isso é, manter o domínio dos Estados Unidos e subjugar a Rússia, e, se possível, a China.

Para os militaristas em Washington, o problema real com Trump é que, em seus momentos de lucidez, ele parece não querer uma guerra com a Rússia; ele quer dialogar com o presidente russo, não lutar com ele; ele diz que quer dialogar com o presidente da China.

No primeiro debate com Hillary Clinton, Trump prometeu não ser o primeiro a introduzir armas nucleares em um conflito. Ele disse: "Eu certamente não faria o primeiro ataque. Uma vez que a alternativa nuclear acontece, acabou." Isso não era novidade.

O que será que ele realmente quer dizer isso? Quem sabe? Muitas vezes ele se contradiz. Mas o que está claro é que Trump é considerado uma séria ameaça ao status quo mantido pela vasta máquina de segurança nacional que é executado nos Estados Unidos, independentemente de quem está na Casa Branca.

A CIA o quer derrotado. O Pentágono o quer derrotado. A mídia o quer derrotado. Mesmo seu próprio partido o quer derrotado. Ele é uma ameaça para os governantes do mundo - ao contrário de Clinton, que não deixou nenhuma dúvida de que ela está preparada para ir para a guerra com armas nucleares com Russia e China.

Clinton tem a forma, como muitas vezes ela se vangloria. Na verdade, seu registro é comprovado. Como senadora, ela apoiou o banho de sangue no Iraque. Quando ela concorreu contra Obama em 2008, ela ameaçou "obliterar totalmente" o Irã. Como secretário de Estado, ela foi conivente com a destruição de governos na Líbia e Honduras e colocou em marcha confrontos com a China.

Ela já se comprometeu a apoiar um No Fly Zone na Síria - uma provocação direta para a guerra com a Rússia. Clinton pode muito bem se tornar a presidente mais perigosa dos Estados Unidos durante a minha vida - uma distinção para o qual a concorrência é feroz.

Sem um fiapo de prova, Clinton pôs-se a acusar a Rússia de apoiar Trump e de ter hackeado seus emails. Divulgados pela WikiLeaks, esses emails revelam que tudo que Clinton diz no privado, em discursos e "palestras" compradas por ricos e poderosos é o exato oposto do que ela diz publicamente.

Por isso é tão importante silenciar e ameaçar furiosamente Julian Assange. Como editor da WikiLeaks, Assange conhece a verdade. E deixem-me esclarecer desde já e tranquilizar os muitos que se preocupam: Assange está bem; e a WikiLeaks está operando a pleno vapor.

Hoje, a maior acumulação de forças americanas lideradas desde a Segunda Guerra Mundial está em curso - no Cáucaso e na Europa Oriental, na fronteira com a Rússia, na Ásia e no Pacífico, onde a China é o alvo.

Tenha isso em mente quando o circo da eleição presidencial chegar a seu final em 8 de novembro. Se o vencedor for Clinton, um coro grego de comentadores tolos vão comemorar sua coroação como um grande passo em frente para as mulheres. Nenhum vai mencionar as vítimas de Clinton: as mulheres da Síria, as mulheres do Iraque, as mulheres da Líbia. Ninguém vai mencionar os exercícios de defesa civil que está sendo realizado na Rússia. Ninguém vai lembrar as " tochas da liberdade" de Edward Bernay.

O porta-voz de George Bush certa vez chamou a mídia de "facilitadores cúmplices".

Vindo de um alto funcionário em uma administração cujas mentiras, habilitadas pela mídia, causaram aquele sofrimento, essa descrição é um aviso da história.

Em 1946, o promotor do Tribunal de Nuremberg disse da mídia alemã: "Antes de cada grande agressão, eles iniciaram uma campanha de imprensa calculada para enfraquecer suas vítimas e para preparar o povo alemão psicologicamente para o ataque. No sistema de propaganda, foi a imprensa diária e o rádio que foram as armas mais importantes."

23 de outubro de 2016

Desenvolver "infraestrutura"

por Prabhat Patnaik


Tradução / O termo "infraestrutura" abrange toda espécie de coisas, desde portos até estradas, canais, pontes, construção de linhas ferroviárias. Porque ele abrange uma tão grande amplitude de coisas, muitas das quais parecem ser úteis, a maior parte das pessoas encara o desenvolvimento de "infraestruturas" como algo indubitavelmente desejável sob todas as circunstâncias. Poucas perguntas são formuladas acerca da sua validade quando o governo atribui grandes recursos para o setor das "infraestruturas", ou quando recomenda a bancos do setor públicos que deem maiores empréstimos para o desenvolvimento da "infraestrutura".

O conceito de infraestrutura tem uma dimensão de classe

Contudo, este modo de encarar a "infraestrutura" é extremamente enganoso. Aquilo que é abrangido por essa palavra varia tipicamente com a trajetória de desenvolvimento que está a ser seguida. A "infraestrutura" que a trajetória indiana de desenvolvimento dirigista enfatizava antes da "liberalização econômica" e aquela que a trajetória de desenvolvimento neoliberal enfatiza hoje não são idênticas. Não se pode encarar a infraestrutura isoladamente da trajetória de desenvolvimento e dar carta branca a despesas com o desenvolvimento de infraestruturas que corresponde a uma trajetória particular de desenvolvimento e, ao mesmo tempo, ser crítico dessa trajetória devido à sua natureza anti-popular. Dito de modo diferente, uma vez que o conceito do que constitui infraestrutura é muito significativamente específico a uma trajetória de desenvolvimento, e uma vez que qualquer trajetória de desenvolvimento implica um padrão particular de modificação do equilíbrio das forças de classe, o conceito de infraestrutura tem uma dimensão de classe.

Karl Marx estava bem consciente disto e exprimiu-se claramente sobre a questão quando se referiu às "ferrovias" construídas na Índia sob o domínio britânico como sendo "inúteis" para os indianos. Ele não queria dizer com isso que os indianos nunca utilizariam as ferrovias; o que pretendia dizer era que os britânicos estavam utilizando recursos indianos para uma finalidade que tinha uma alta prioridade do seu ponto de vista, especificamente a de explorar a economia, mas uma baixa prioridade do ponto de vista dos indianos. Ele estava, em suma, colocando esta infraestrutura dentro de uma trajetória de desenvolvimento; estava revelando que o desenvolvimento das ferrovias não era um ato imparcial e benevolente destinado a beneficiar o povo indiano, mas sim um ato empreendido para servir interesses britânicos.

Quando alguém pensa no [império] Mughal da Índia, o conceito de infraestrutura cobre principalmente estradas, hospedarias ao longo delas, mercados em cidades onde cereais pudessem ser comprados e vendidos e assim por diante. Na "Índia britânica", quando o país era arrastado a um relacionamento comercial significativo com a metrópole, proporcionando um mercado e matérias-primas para os produtos da metrópole, o desenvolvimento de portos e de instalações de transporte do interior para os portos, adquiriu primazia. Antigas cidades como Agra, que anteriormente tinha uma reputação mundial, minguaram em significância; e as facilidades de transporte entre tais cidades tornaram-se matéria de importância secundária. O conceito de infraestrutura, em suma, adquiriu significado totalmente novo. Ferrovias foram construídas por companhias privadas, cujas taxas de retorno eram garantidas a partir do orçamento do governo, para servirem as necessidades da exploração colonial. Na verdade, McPherson, historiador econômico de Cambridge, argumentou que a extração de matérias-primas da economia indiana era a motivação primária por trás do padrão particular da rede ferroviária que foi construída no país. A observação de Marx sobre as ferrovias serem "inúteis" para os indianos tem de ser entendida neste contexto.

Muitos observadores contrastam os aeroportos de má qualidade que o país tinha durante o período dirigista com os luxuosos que agora surgiram em vários lugares – e vêem nestes últimos um sinal de "desenvolvimento". O que lhes escapa é que a trajetória de desenvolvimento sob o regime neoliberal, o qual está associado a um nível mais alto, e em crescimento constante, da riqueza e das desigualdades de desenvolvimento, provoca um enorme crescimento da procura por viagens aéreas e portanto provoca congestão em aeroportos, a qual só pode ser ultrapassada através do investimento em "infraestrutura" na forma de aeroportos. Além disso, com o constante fluxo de executivos estrangeiros de negócios vindo para o país sob o atual regime de fluxos de capital muito mais livres, cuja sensação de "sentirem-se em casa" na Índia torna-se uma condição necessária para atrair investimento estrangeiro, o qual é considerado essencial sob a administração neoliberal, tornava-se obrigatório que aeroportos indianos devessem ser mais ou menos indistinguíveis dos metropolitanos.

De facto, o fenômeno da globalização requer que todos os aeroportos por todo o globo deveriam ser indistinguíveis uns dos outros. Em conformidade com isto, mesmo os avisos públicos no aeroporto de Delhi são feitos com uma pronúncia nitidamente inglesa. Se um nome de cidade indiana como Udaipur é habitualmente pronunciado como"You-dei-pore" no sistema de avisos públicos do aeroporto da capital do país, a razão para isto repousa nas características específicas da globalização contemporânea.

O antecedente tem uma implicação importante. Uma vez que a distribuição do rendimento num regime de globalização muda continuamente afastando-se do povo trabalhador e em direção à oligarquia corporativo-financeira e a um estrato da classe média que também se constitui como beneficiário da globalização, há um perpétuo excesso de procura pela espécie específica de "infraestrutura" destinada a estes beneficiários. (Isto não aconteceria naturalmente em períodos de crise, mas esse é um assunto que examinaremos depois).

Portanto, deixando de lado os períodos de crise, descobrimos que mesmo aeroportos recém construídos em breve tornam-se insuficientes, à medida que o número de passageiros se multiplica porque a crescente desigualdade de rendimento coloca mais dinheiro nas mãos dos ricos; estradas recém construídas em breve revelam-se inadequadas para evitar congestionamentos, porque o aumento na desigualdade de rendimento implica cada vez mais carros sendo comprados pelos ricos; e assim por diante. O crescimento da desigualdade coloca portanto pressão contínua sobre a infraestrutura disponível para utilização dos ricos. Em consequência, a espécie de "infraestrutura" destinada aos ricos suga recursos que os afastam de outras utilizações; e não importa quanto destes recursos é afastada, a "infraestrutura" para a sua utilização ainda permanece insuficiente.

Esta insuficiência sem dúvida desaparece em períodos de crise quando acontece o oposto. Vários itens da infraestrutura permanecem inutilizados por falta de procura. Casas construídas prevendo a continuação do boom ficam vazias; edifícios de escritórios e de apartamentos permanecem desocupados. Cidades e estradas fantasmas testemunham a transitoriedade do boom. Mas mesmo durante uma crise, quando não há excesso de procura por infraestrutura, a renovação da mesma continua a verificar-se. Isto acontece porque os ricos locais desejam macaquear os estilos de vida dos ricos metropolitanos e, quando se verificam inovações de produtos nos países metropolitanos e mudanças nos estilos de vida dos ricos metropolitanos, os ricos locais também querem segui-los. Isto é verdadeiro não só para mercadorias como também para infraestrutura. Portanto, no caso de bens manufaturados e infraestrutura, mesmo quando existe capacidade não utilizada é empreendido investimento adicional para dar uma nova aparência a itens de infraestrutura como aeroportos a fim torná-los ainda mais atualizados. Novos aeroportos são construídos incorporando os mais recentes gadgets mesmo quando os velhos aeroportos não estavam sendo plenamente utilizados. Tal investimento adicional nunca é suficiente para retirar a economia da crise, mas mesmo assim é efetuado.

Necessidade de racionamento

A necessidade de gastar em "infraestrutura" é habitualmente mencionada como razão para não efetuar investimento suficiente em saúde e educação, para não gastar o suficiente em programas como o MGNREGS [Mahatma Gandhi National Rural Employment Guarantee Scheme] (apesar de este ser orientado pela procura) e para não poupar recursos suficientes a fim de proporcionar pensões adequadas a idosos. O fato de o país encontrar recursos para construir aeroportos pretensiosos mas não para pensões de idosos ou escolas para a educação é sintomático da trajetória de desenvolvimento do capitalismo neoliberal. Mas isto não significa que simplesmente se critique esta trajetória de desenvolvimento e se espere pelo dia em que isso possa mudar. Nem tão pouco significa que apenas se procure mudanças na distribuição de rendimento num sentido igualitário com o argumento de que a distribuição de recursos, se devesse ser no sentido de construir aeroportos ou bons edifícios para escolas de gestão pública, está em última análise dependente da distribuição do rendimento. Ou seja, com o argumento de que uma vez que a distribuição de recursos depende do padrão de procura que é determinado pela distribuição do rendimento, este deveria ser o objetivo da intervenção. Alguém também terá de dizer, como Karl Marx, que um bom acordo quanto ao que é gasto como investimento em "infraestrutura" é "inútil" do ponto de vista do povo, que tais investimentos deveriam ser restringidos e que a "infraestrutura" em causa deveria ser racionada.

A indicação de qual racionamento tem de ser exercido tem naturalmente de ser escolhida adequadamente. Por exemplo: o congestionamento de estradas é uma forma de racionamento – uma vez que o espaço da estrada é limitado relativamente ao número de carros, cada carro tem de se mover vagarosamente. Mas ao invés de o racionamento assumir a forma de congestionamento de tráfego, ele podia assumir a forma de limitação do número de carros sobre as estradas, assegurando por exemplo que deveria haver um número mínimo de ocupantes por carro.

Esta espécie de racionamento existe em muitos países, inclusive em alguns do terceiro mundo, mas não na Índia. Mas a insistência sobre o racionamento é também um meio de intervir na distribuição do rendimento. Assim como o racionamento da distribuição de cereais a baixos preços é um meio de intervir na distribuição do rendimento num sentido igualitário – além de forçar racionamento da "infraestrutura" pedida pelos ricos, ao invés de divergir recursos rumo ao atendimento desta procura a expensas de outras necessidades socialmente prementes – é também um meio de intervir na distribuição do rendimento. É importante que não tratemos todo investimento em "infraestrutura" indiscriminadamente, como se constituísse uma prioridade social.

21 de outubro de 2016

O retorno da crítica reprimida aos rentistas: Veblen sobre o capitalismo rentista do século 21

Em 2012 foi realizada uma conferência sobre Thorstein Veblen em Istambul. Ela foi patrocinado por uma entidade sindical socialista, a Câmara de Engenheiros Elétricos. Fomos questionados por que não nos concentrávamos em Marx? Minha resposta foi que Marx tinha sido de uma geração anterior, sendo que a maior crítica do capitalismo financeiro foi realizada por Veblen. Este livro, Propriedade ausente e seus descontentes: Ensaios críticos sobre o legado de Thorstein Veblen, (a partir do qual minhas observações seguintes foram extraídas) é uma série de ensaios, inclusive por mim e outro amigo, Michael Perelman.

por Michael Hudson

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names


Tradução / Simon Patten recordou em 1912 que a sua geração de economistas norte-americanos - a maioria dos quais estudou na Alemanha na década de 1870 - foi ensinada que o livro de 1848 de John Stuart Mill Princípios de Economia Política era o ponto alto do pensamento clássico, e era necessário nacionalizar os monopólios ou regular seus preços para refletir os custos reais de produção. No entanto, Patten acrescentou, a filosofia reformista de Mill acabou por ser "não é um objetivo, mas um meio-termo" para com as reformas da era progressiva, acima de tudo, nacionalizar a terra ou tributá-la totalmente e nacionalizar os monopólios ou pelo menos regular os seus preços para colocá-los de acordo com os custos de produção reais. Mill foi "um pensador que se tornou socialista sem ver o que a mudança realmente queria dizer", concluiu Patten. "A época do século XIX termina não com as teorias de Mill, mas com os sistemas mais lógicos de Karl Marx e Henry George." Mas George era apenas um jornalista sensacionalista e anti-acadêmico, de modo que a abordagem clássica da economia política evoluiu sobretudo através Thorstein Veblen.

Como Marx e a crescente agitação socialista, as ideias de Veblen ameaçaram o que ele chamou de "os interesses escusos". O que tornava tão perturbadora a análise de Veblen era o muito que ele conservava do passado. A economia política clássica tinha usado a teoria do valor-trabalho para isolar os elementos do preço que não tinham contraparte em custos necessários de produção. Renda econômica – o excesso do preço, acima de seu "custo real" – era rendimento de capital. É um sobrepreço pelo acesso à terra, minérios ou outros recursos naturais, crédito bancário ou outras necessidades básicas que são monopolizadas. Esse conceito de rendimento do capital como elemento não necessário do preço levou Veblen a se concentrar sobre o que hoje se conhece como engenharia financeira, especulação e alavancagem de dívida. A percepção de que uma proporção crescente de renda e riqueza era "almoço grátis" não justificado foi o ponto de decolagem para que Veblen pusesse a propriedade imobiliária e o esquema de financiamento no centro de sua análise, num tempo em que os economistas mainstream estavam abandonando essas áreas de estudo. A exclusão de Veblen do currículo de hoje, é parte da reação contra o programa de reforma social da economia política clássica. No tempo em que começou a publicar, nos anos 1890, a economia acadêmica estava no meio de uma contra-revolução patrocinada por proprietários de terra, banqueiros e monopolistas negando que houvesse qualquer coisa como os rendimentos de capital. A nova corrente pós-clássica aceitava os direitos existentes e os privilégios de propriedade como um "dado". Em contraste com o argumento de Veblen, para quem a economia só tratava da organização de esquemas predatórios, aquela abordagem culminou com a Escola de Chicago de Milton Friedman e a defesa que ali se construiu do argumento pró-rentista: "Não existe almoço grátis." Essa negação abrupta rejeitou os três séculos precedentes da teoria clássica do preço e valor, junto com as suas conclusões políticas que promoviam a taxação da terra e de outros recursos naturais e a reforma financeira.

Saiu de cena também o excesso rentista na forma de modalidades predatórias e não produtivas de buscar riqueza. O mainstream pós-clássico trata todos os rendimentos como "ganho", incluindo o de rentistas. Sem os conceitos clássicos de trabalho, crédito ou investimento não produtivo, os manuais de hoje descrevem a renda como uma recompensa pela contribuição de cada um à produção, e a riqueza é "salva" como resultado de esforço de investimento produtivo de alguém, não como não justificado, não como almoço grátis, expropriado ou predatório. Esta mudança na teoria moldou a aparentemente empírica National Income and Product Accounts para que entrasse em um raciocínio circular que trata os bnefciários de renda e lucros como se prestassem algum serviço, uma contribuição econômica igual ao que quer que os rentistas recebam como "ganhos". Não há categorias para os rendimentos de capital ou ganhos nos preços de ativos especulativos.

Veblen descreveu os maiores setores da economia, onde se fazem fortunas rápidas, como setores que só têm a ver com organizar oportunidades para obter renda sem custo real. Ele via a utilidade psicológica como um caráter social. Em contraste, para alimento ou outras necessidades corporais saciáveis caracterizadas por utilidade marginal decrescente – por exemplo, comer e ficar saciado –, seu conceito de consumo conspícuo enfatizava os impulsos insaciáveis para ascender no status social. O desejo de consumir bens é caracterizado por modismos, desejo por bens mais caros como troféus a serem exibidos da própria riqueza. O resultado foi a vulgaridade mercenária dos Babbitts, que fazem da cultura uma arena para modas mutáveis, tudo para impressionar outros que têm as mesmas sensibilidades ocas ou rasas. O fator principal para definir o status era o bairro onde o lar da família se localizava. A habitação não era simplesmente espaço básico para viver, como "valor de uso". Estabelecia sua posição na sociedade, devidamente reforçada por ufanismo cívico, subsídio público e os gastos com infraestrutura.

"O Grande Jogo Norte-americano": Imobiliário

Descrevendo o imobiliário como sendo "o grande jogo norte-americano", Veblen focou o modo como preços futuros eram aumentados sobre os valores presentes mediante publicidade e promoção. "O mercado imobiliário é uma empresa em 'futuros', criada para arrancar alguma coisa do nada dos incautos, e pessoas experientes dizem que "nasce um por minuto"." Fazendeiros e outras famílias do meio rural das terras circundantes sonham "com o tempo quando a comunidade, satisfazendo todas as necessidades, permitirá que eles realizem os valores inflados de sua propriedade", quer dizer, encontrem um otário "que acredite em qualquer coisa que eles digam e torne-se devedor deles, na quantia de dinheiro que eles digam que o imóvel vale." Toda a operação, das propriedades individuais à cidade como um todo, é "uma empresa de vendas", com a conveniência sendo a regra.

Os varejistas em pequenas cidades conspiram para explorar agricultores, prática que só foi arranhada com a disseminação dos catálogos para vendas pelo correio. Mas o poder de monopólio é alcançado mais rigorosamente no setor bancário local. A maioria dos empréstimos existem para que as hipotecas inflacionem os preços da terra. "E o banqueiro tem a necessidade – 'necessidade interna', como dizem os hegelianos – de conseguir tudo o que pode e proteger-se contra todos os riscos, à custa de qualquer um ao qual a coisa interesse, por quantas obrigações e cláusulas sejam necessárias para assegurar seu ganho líquido em qualquer caso."

Os preços da terra estavam subindo em cidades maiores como resultado da prosperidade global e da disponibilidade fácil de financiamento hipotecário, enquanto os gastos públicos em estradas, sistemas de metrô e ônibus, parques, museus e outras atividades de prestígio eram organizadas para melhorar os valores da vizinhança. Tais práticas levaram Veblen a criticar Clark e também Marshall por ignorar a dimensão financeira "pecuniária" da vida. Este foi um flagrante erro de omissão no novo mainstream, juntamente com os monopólios e grandes fraudes imobiliárias iniciadas nos tempos coloniais, com destaque para a fraude de terras Yahoo no início da República, e cobertas pelas concessões de terras para ferrovias. Henry Liu descreve como Veblen enfatizou o papel predatório da alta finança: "Veblen introduziu uma distinção básica entre a produtividade da 'indústria' dirigida por engenheiros capacitados, que fabrica bens de real utilidade, e o parasitismo do 'business', que existe só para gerar lucros para uma classe ociosa que se dedica ao 'consumo conspícuo'. A única contribuição econômica que a classe ociosa faz é 'lixo econômico', atividades que contribuem negativamente para a produtividade. Por via de consequência, Veblen viu a economia dos EUA transformada em ineficaz e corrupta por homens do 'business' que se põem perversamente numa posição indispensável na sociedade."

Veblen contra a academia tornada negócio

Veblen criticou os economistas de academia por se terem tornado objeto de "incapacidade treinada", resultado de se terem convertido em factótuns para defender os interesses rentistas. Escolas de business pintavam um quadro "feliz" irreal da economia, ensinando técnicas financeiras, mas deixando de fora da conta a necessidade de reformar as práticas e instituições da economia. Em uma conclusão em que relembra Higher Education in America de Veblen, Herman Kahn descreve o modo como "a pressão pelos pares leva especialistas a não aceitar explicações que desviam dos conceitos aceitos: a incapacidade educada muitas vezes faz referência a uma incapacidade adquirida ou aprendida para compreender ou, mesmo, para perceber um problema, muito menos alguma solução. A expressão original "incapacidade treinada" vem do economista Thorstein Veblen, que a usou para se referir, dentre outras coisas, à incapacidade de pessoas com training de sociologia, para compreender certas questões que as mesmas pessoas seriam capazes de compreender, se não tivessem tido aquela formação."

Kahn acrescenta que este fenômeno ocorre especialmente "nas principais universidades nos Estados Unidos - em particular nos departamentos de psicologia, sociologia e história, e em certa medida nas ciências humanas em geral. Indivíduos formados neste ambiente muitas vezes têm dificuldade com graus relativamente simples de teste da realidade. "O problema é maior na economia, é claro.

De Marx a Veblen

O socialismo inicial (e quase todo não marxista) visava a alcançar maior igualdade, sobretudo por taxar a renda rentista e manter sob domínio público os recursos naturais e os monopólios. O foco marxista na luta de classes entre os empregadores e os trabalhadores da indústria relegou a crítica contra os rentistas a uma posição secundária, deixando essa luta para reformadores mais burgueses. Poupança financeira era tratada como uma acumulação de lucros industriais, não como o fenômeno autônomo que o próprio Marx enfatizou no Vol. 3 de O Capital. A começar por Lênin, seguidores de Marx discutiram o capital financeiro principalmente em referência aos impulsos do imperialismo. A ruína de Pérsia e Egito era notória, e credores instalaram coletores de impostos nas aduanas das colônias europeias na América Latina. O grande problema antecipado foi a guerra estimulada por rivalidades comerciais no processo de esculpir o mundo de então. E coube a Veblen enfrentar o papel corrosivo, mas cada vez mais dominante dos rentistas, que extraem sua riqueza pela imposição de cargas abusivas ao restante da sociedade. A campanha pela taxação da terra e até a reforma financeira sumiram da discussão popular, com socialistas e outros reformadores tornando-se cada vez mais marxistas e, portanto, cada vez mais focados na exploração industrial do trabalho. Veblen descreveu como as classes rentistas estavam em ascensão – em vez de serem reformadas, taxadas até ficarem inviáveis, ou socializadas. Seu Theory of Business Enterprise (1904) enfatizou a divergência entre capacidade produtiva, o valor contábil dos ativos da empresa e seu preço no mercado de ações (o que hoje se conhece como a razão Q do preço de mercado para o valor registrado). Viu o crescente excesso financeiro como fator que estava levando à falência e à liquidação de empresas. A indústria ia se tornando financeirizada, pondo os ganhos financeiros à frente da produção. Os gestores financeiros de hoje usam os lucros não para investir, mas para comprar ações da sua empresa (aumentando assim o valor de suas opções de ações) e pagar como dividendos, e até mesmo pedem dinheiro emprestado para pagar a si próprios. Os fundos hedge tornaram-se notórios por depenar patrimônio e carregar as empresas de dívidas, deixando só ruínas e bancarrota pelo caminho, no que George Ackerlof e Paul Romer caracterizaram como "saqueio". Ao enfatizar o modo como a "predação" financeira estava sequestrando o potencial tecnológico da economia, a visão de Veblen foi tão materialista e culturalmente ampla quanto a dos marxistas, e igualmente adversária do status quo. A inovação tecnológica estava reduzindo os custos, mas alimentando monopólios, com os setores Finance, Insurance and Real Estate (FIRE) [Finanças, Seguros e Propriedade Imobiliária] unindo forças para criar uma simbiose financeira cimentada por acordos políticos costurados dentro dos governos – e uma trivialização da teoria econômica, porque opera para não enfrentar o fracasso das sociedades, que nunca realizam a seu favor o próprio potencial tecnológico. Os frutos da produtividade crescente são usados para financiar "barões ladrões" que não têm melhor uso a dar à sua riqueza que reduzir grandes obras de arte ao status de troféus de propriedade; e que alcançam o status de classe ociosa ao financiarem escolas de negócio e universidades para erigir um retrato autocongratulatório mas enganoso do seu comportamento de agarrar-riqueza.

O significado de Veblen hoje

Como herdeiros da economia política clássica e da escola histórica alemã, os institucionalistas norte-americanos conservaram a teoria do rentismo e sua ideia corolário de renda de capital. Mais que qualquer outro institucionalista, Veblen enfatizou a dinâmica dos bancos financiando a especulação imobiliária, e Wall Street manobrando para organizar monopólios e trustes. No entanto, apesar da popularidade de seus escritos entre o público leitor, sua contribuição permaneceu isolada das correntes acadêmicas mainstream, e Veblen não deixou "escola". A estratégia rentista tem sido tornar invisível a extração de renda de capital, tirá-la do centro das atenções que ocupou na economia política clássica. Mal se vê hoje o quanto o lucro extraído pelo rentismo e seguradoras já ultrapassa todos os custos de produção, ainda que os preços assim gerados estejam jogando as economias financeirizadas para fora dos mercados mundiais.

O estreitamento do monetarismo ao estilo de Chicago e do neoliberalismo deixou a disciplina econômica em grande parte do estado que Max Planck aplicou à física de Maxwell para Einstein: O progresso ocorre, um funeral de cada vez. Os velhos conservadores vão morrendo, abrindo caminho para que sucessores mais progressistas assumam o timão. Mas o que torna diferente a economia de hoje, é que realmente ajuda olhar para trás, para a época antes de o setor financeiro e seus interesses rentistas aliados terem sequestrado a disciplina. A análise mais sistemática desse processo foi o de Veblen há quase um século. Ela permanece suficientemente relevante para que os marxistas e os críticos mais heterodoxos incorporaram sua teoria em sua visão de mundo.

18 de outubro de 2016

Mosul se prepara para o próximo capítulo sangrento após ter sido devastada por 13 anos de guerra

Apesar da provável derrota do Daesh, ódios sectários e étnicos são profundas e as pessoas da cidade enfrentam um futuro assustador e incerto

Patrick Cockburn

The Independent

Tradução / Mossul é um lugar perigoso desde a invasão liderada pelos Estados Unidos de 2003. É a maior cidade árabe sunita do Iraque, durante uma época em que os sunitas perderam a sua antiga predominância e têm lutado contra os governos dominados pelos xiitas em Bagdá e governantes curdos vizinhos no Curdistão iraquiano.

É uma batalha que ainda está em curso, com o exército iraquiano e paramilitares xiitas avançando pelo sul, enquanto os peshmerga curdos vêm do leste. O caminho está aberto em ambas as direções pelos ataques aéreos, predominantemente pela força aérea dos Estados Unidos, que atacam combatentes do Daesh entrincheirados em povoados em ruínas escondidos em túneis profundos.

Se as forças anti-Daesh, em última análise, tiverem sucesso em recapturar Mossul, será a quinta vez que a cidade muda de mãos ao longo de 13 anos de guerra. A primeira vez foi em abril de 2003, quando o exército iraquiano dispersou e rendeu-se e os Peshmerga curdos irromperam na cidade. Houve saques numa escala massiva, que os árabes atribuíram aos curdos e vice-versa, mas, na verdade, ambos participaram. Vi multidões saquearem a mansão do governador, o Banco Central e a universidade.

Os árabes, três quartos da população da cidade de dois milhões, ficaram horrorizados com a incursão curda. Eu visitei o maior hospital de Mossul, onde o diretor Dr. Ayad Ramadani me disse que "as milícias curdas estão saqueando a cidade. Hoje, a principal proteção é de civis organizados pelas mesquitas”. Pela entrada para o hospital, uma família estava carregando o corpo de um parente falecido na parte traseira de um caminhão, quando se fez sentir uma rajada de metralhadora. Isso assustou o motorista de caminhão que fugiu deixando o corpo para trás e a família com raiva agitando os punhos atrás dele.

As relações entre árabes e curdos não ficou muito melhor ao longo dos anos seguintes. O Governo Regional do Curdistão (KRG) reivindicou partes da província de Nineveh ao redor de Mossul que reclamou ter uma maioria curda ou que historicamente pertencia aos curdos. Mossul fica no coração de um mosaico étnico e sectário fascinante mas confuso, composto por árabes, curdos, Shabak, Yazidis e cristãos de diferentes dominações. Poucas dessas comunidades tinha qualquer simpatia pelas outras.

A incursão curda foi seguida pelos americanos e, durante os restantes meses de 2003, o General David Petraeus comandou a 101ª Divisão Aerotransportada na cidade. Ele apercebeu-se como a campanha de "desbaathificação" mandatada pelas autoridades dos EUA em Bagdá estava afastando ex-oficiais do Exército iraquiano e oficiais que estavam agora sem trabalho. Uma grande proporção do corpo de oficiais do exército sempre tinha vindo de Mossul e, de acordo com esta tradição militar, o ministro da Defesa no governo de Saddam Hussein era da cidade. Petraeus emitiu certificados de "desbaathificação" com a sua própria autoridade, para que esses oficiais desempregados fossem, pelo menos, elegíveis para um emprego.

Não foi suficiente. Com a sua excessiva confiança, os norte americanos reduziram as suas tropas e, em seguida, retiraram o restante para participar na recaptura de Fallujah. Em novembro de 2004, combatentes armados da oposição iraquiana correram para a cidade, o exército iraquiano recém-reformado fugiu e os rebeldes capturaram arsenais de armas. Retiraram-se depois de alguns dias e Bagdá, apoiado pelos EUA, recuperou um controle instável.

Mas o governo de Bagdá sempre foi contestado entre 2004 e 2014. Registaram-se sucessivos ataques da guerrilha. Eu viajei de Irbil em KRG para visitar o vice-governador curdo cujo escritório bem fortificado estava do outro lado do rio Tigre. Mas ora tivemos de conduzir muito rápido ou ir mais devagar em comboios defendidos por tropas e veículos blindados.

A Al-Qaeda no Iraque não perdeu totalmente a sua influência em Mossul, mesmo quando estava no seu ponto mais baixo no pré 2011. As empresas locais tinham que pagar dinheiro por proteção, fechar ou enfrentar o assassinato. Um empresário turco com vários contratos de construção de grande dimensão em Mossul recordou mais tarde que teve que pagar 500.000 dólares por mês e, quando este valor foi aumentado e se recusou a pagar, um dos seus funcionários foi morto. Ele parou de trabalhar, retirou a sua equipe para a Turquia e queixou-se ao governo em Bagdá. Mas a única proposta foi que ele pagasse o dinheiro de proteção e adicionasse essa soma ao seu preço de contrato.

O governo reunia muita antipatia em Mossul, mas, ainda assim, a captura do Daesh da cidade em junho 2014 foi uma vitória surpreendente de alguns milhares de combatentes contra uma guarnição que era suposto ter 60.000 e pode ter chegado a cerca de 20.000 soldados e policias. A diferença entre os dois números devia-se aos "soldados fantasmas" que não existiam ou que nunca chegaram a ir para os quarteis, mas cujos salários eram apreendidos por oficiais. Muitos outros soldados tinham simplesmente ido em licença para Bagdá e nunca mais voltaram, à medida que a situação de segurança se deteriorou. Quando o Daesh atacou, o exército e a polícia dissolveram-se.

O Daesh nunca foi popular em Mossul, mas reprimiu ferozmente todos os dissidentes. Expulsaram os cristãos e assassinaram e escravizaram os yazidis. Explodiram monumentos emblemáticos como o túmulo de Jonas. A população podia não gostar do Daesh, mas não havia muito que pudesse fazer.

O Daesh também beneficiou-se do medo entre os sunitas na cidade sobre o que aconteceria se o exército iraquiano e as milícias xiitas paramilitares voltassem. Eles sabem que a população árabe sunita do Iraque, de cinco ou seis milhões, um quinto da população de 33 milhões, está sob ameaça e cerca de um terço foi deslocado. Na guerra sectária em Bagdá, em 2006-7, os sunitas no Iraque tinham sido expulsos em vários enclaves, principalmente no lado oeste da cidade, que diplomatas dos EUA descreveram como "ilhas de medo". Isso está agora acontecendo no resto do Iraque. Outros iraquianos podem vê-los como cúmplices de crimes do Daesh e reivindicar vingança. Quaisquer que sejam as declarações conciliatórias de líderes iraquianos, os ódios sectários e étnicos são profundos e a população da cidade enfrenta um futuro assustador e incerto.

14 de outubro de 2016

Trump e as mulheres: uma crítica marxista

Pode-se dizer que trumpismo e feminismo corporativo são dois lados da mesma moeda.

por Sam Miller

Jacobin

Ivanka Trump na Pensilvânia. Michael Vadon / Flickr

Tradução / Todos nós sabemos que Donald Trump é misógino. Mas isso não é o fim da história. Trump usa as mulheres de forma calculada para promover sua imagem política e seu império de negócios.

Esta promoção faz parte de uma dinâmica mais ampla, em que a construção da feminilidade é exercida como um cimento ideológico para os capitalistas: as mulheres são necessárias no mundo dos negócios e da política a fim de manter uma imagem de suavidade, de ternura assistencialista na aparência externa, ao mesmo tempo em que é preciso ser dura, brutal e cortadora-de-cabeças no trato interno para chegar ao topo. A maneira pela qual Donald Trump se associa a mulheres em sua vida profissional e pessoal é um microcosmo de tendências maiores. A filha de Trump, Ivanka, e sua adversária política (e ex-amiga) Hillary Clinton, ambas representam o mesmo feminismo corporativo.

Em “The Art of the Deal”, Trump descreve seu pai como arrojado, implacável e trabalhador; sua mãe, por outro lado, é descrita como “a dona de casa perfeita”, que “cozinhava, limpava, remendava meias e fez trabalho de caridade no hospital.” De acordo com Donald, sua mãe era glamourosa, solidária e bonita – como muitas mulheres na vida de Trump, Mary era subordinada a um marido dominador e apenas desempenhou um um papel acessório na família.

É claro que Trump internalizou a dinâmica de seus pais, que ele carregou para seu primeiro casamento com Ivana Zelníčková, uma imigrante da Checoslováquia. Ivana relata um incidente com o pai de Donald, Fred, no jantar, em que este insistiu em controlar as escolhas de menu dela: “’Eu gostaria do peixe”, disse ao garçom, e Fred disse: ‘Não, Ivana não vai querer peixe. Ela vai querer bife’. Eu disse, ‘Não, eu vou querer o meu peixe.”” Donald insistiu para Ivana que Fred estava agindo por “amor”.

Fred Trump era contra a contratação de mulheres para posições gerenciais, que ele considerava ser “trabalho de homem”. Mesmo que Donald tenha rompido com a atitude de seu pai mediante a contratação de mulheres, ele ainda as explora e prepara a seu gosto. Quando Donald contratou Ivana como presidente do Plaza Hotel ele disse aos repórteres: “Minha esposa, Ivana, é um gestora brilhante. Vou pagar-lhe um dólar por ano e todos os vestidos que ela puder comprar!” Ivana sentiu-se humilhada.

No longo prazo, Donald reverteu em direção a algumas das atitudes de seu pai em relação às mulheres, dizendo que seu maior erro com Ivana tinha sido “tirá-la do papel de esposa e permitir que ela gerenciasse um dos meus casinos em Atlantic City.” Donald preferiria voltar para casa depois de um longo dia para uma mulher pronta para discutir “os temas mais suaves da vida”, em vez de uma mulher que tratasse o seu trabalho a sério. Como ele disse: “Eu nunca mais vou dar a uma esposa qualquer responsabilidade dentro do meu negócio.”

Ao longo de seus livros, Trump entra em detalhes sobre suas várias “façanhas” sexuais. O que torna essas passagens tão perturbadoras é o modo pelo qual ele projeta sua bizarrice predatória sobre as mulheres. Um exemplo é contado em “The Art of the Comeback” (1997), relativa a um jantar com uma mulher não nomeada, com poder e prestígio:

“De repente eu senti sua mão no meu joelho, então na minha perna. Ela começou a me acariciar de todas as maneiras diferentes… Ela então me pediu para dançar, e eu aceitei. Enquanto estávamos dançando ela se tornou muito agressiva, e eu disse: “Olha, nós temos um problema. Seu marido está sentado naquela mesa, bem como minha esposa”. “Donald”, ela disse, “eu não me importo. Eu simplesmente não me importo. Eu tenho que ter você, e eu tenho de tê-lo agora”.”

Trump caracteriza as mulheres como enganadoras, manipuladoras e cruéis. “As espertas agem de modo muito feminino e carente, mas por dentro são verdadeiras assassinas. A pessoa que veio com a expressão ‘sexo frágil’ ou era muito ingênuo ou devia estar brincando. Eu vi mulheres manipularem homens com apenas uma contração de seus olhos – ou talvez outra parte do corpo.” Para Trump, mulheres bem sucedidas nunca perdem seu exterior “feminino”, que esconde seu núcleo frio e astuto.

Trump define sua personalidade como parte empresário e parte showman, e apresenta Ivana e sua segunda esposa, Marla Maples, como representando dois extremos diferentes de sua personalidade. Ambas são “loira e bonita”, mas Ivana é retratada como uma mulher de negócios “durona”, enquanto Marla é a “performer e atriz.” Seu casamento com Marla também falhou, uma vez que os negócios eram a maior prioridade. “Uma coisa que eu aprendi [sobre relacionamentos]: há a alta manutenção, há baixa manutenção. Eu não quero nenhuma manutenção.” Desta vez, com Marla, Trump fez com que o acordo pré-nupcial perfeitamente claro e sem complicações. Ele não queria uma repetição da disputa legal de seu divórcio anterior.

Trump comprou o concurso Miss Universo por $10 milhões, e levou de brinde o Miss EUA e Miss Teen EUA, “a tríplice coroa da beleza”. Trump reivindica que estes concursos tratam sobre “diversão” e “beleza, a beleza suprema – a de uma mulher”. Em uma entrevista a Howard Stern, Trump se gabou de o concurso ser o seu acesso final às mulheres, grosseiramente brincando que elas devem ser “obrigadas” a dormir com ele como o proprietário da organização. O comportamento de Trump causou estragos emocionais na primeira Miss Universo, Alicia Machado, a quem ele envergonhou e humilhou. Trump descreveu sua constante pressão sobre Machado para que perdesse peso como “cavalheiresca”. Seu controle sobre ela deixou no caminho cicatrizes psicológicas profundas e ela sofrendo de distúrbios alimentares como resultado.

Se o Miss Universo era mais sobre a beleza exterior, por sua vez “O Aprendiz” focava nos instintos assassinos das mulheres nos negócios. “O Aprendiz” durou por quatorze temporadas, com Trump como o juiz de mais de uma dúzia de empresários concorrendo ao prêmio de gerenciar uma das empresas de Trump. De acordo com Scott McLemee, “O Aprendiz” transforma “as condições normalmente precárias de emprego sob o neoliberalismo em entretenimento de um jogo de alto risco”. Trump termina cada episódio em sua sala de reuniões, gritando “você está despedido!” ao competidor desclassificado.

As mulheres, no show de TV, foram pegas em um dilema, onde agir de modo “feminino” ou “masculino” poderia ser prejudicial, dependendo da situação. Como Trump afirmou, “negociação é uma arte muito delicada. Às vezes você tem que ser duro; às vezes você tem que ser doce como torta – a depender com quem você está lidando”. No decorrer do show, comportamentos estereotipicamente “masculinos”, como insultar e interromper os outros, atacar e colocar as pessoas para baixo, e dominar a conversa foram preferidos em detrimento dos chamados “femininos”: afastar-se do conflito, falar minimamente, enfatizar relacionamentos interpessoais e fornecer “feedbacks” construtivos. O próprio Trump definiu o tom “masculino” e descreveu a si mesmo como o “ditador” do show. Era imperativo para as mulheres no show que adotassem uma mentalidade calculada para manipular os outros e ganhar. Com efeito, elas precisavam de internalizar o próprio estilo empresarial de Trump.

Se Ivana foi uma mulher “de negócios demais” para que Trump lidasse com ela como esposa, e Marla resistiu à negligência de Trump para com a sua vida familiar, sua terceira esposa, Melania, uma modelo nascida eslovena, parece preencher a lacuna e a função do jeito que Donald espera. Melania é quieta: ela suporta seu marido, tolera sua ética de trabalho e se alegra em assumir a responsabilidade de criar seu filho de dez anos, Barron.

Mas mesmo Melania teve que condenar os comentários lascivos de seu marido em 2005 sobre apalpar mulheres. Trump fez esses comentários enquanto Melania estava grávida de Barron, mas eles não são um desvio em relação a outras piadas cruéis que ele fez às custas de Melania. Por exemplo, Howard Stern perguntou a Trump durante uma entrevista de rádio se ele iria ficar com Melania se ela sofresse um terrível acidente de carro ficando incapacitada. Trump respondeu: “Como é que estão os seios?” “Os seios estão bem,” Stern respondeu. Trump respondeu em seguida com certeza, “porque isso é importante.” Não é nenhum segredo que a aparência física de Melania importa para seu marido. Quanto à sua vida profissional, Melania pode ter sua própria linha de joias, mas o seu negócio e seu estilo de vida não são ameaças para as ambições do marido.

As perturbadoras ofensas sexistas não terminam com as esposas de Trump: ele tem sido conhecido ao longo do tempo por sexualizar publicamente sua filha Ivanka. Quando ela tinha apenas dezesseis anos, Trump disse ao New York Times: “Não acha a minha filha gostosa? Ela é gostosa, certo?” A coisa fica ainda mais assustadora: em uma gravação, em 1994, de Trump com sua então esposa, Marla Maples, o entrevistador Robin Leach perguntou sobre sua filha de um ano, Tiffany, ao que Trump respondeu: “Bem, eu acho que ela puxou muito a Marla, ela é realmente um lindo bebê, e ela é, uh, ela tem as pernas de Marla. Não sabemos se ela puxou ou não essa parte ainda”, disse Trump, apontando para seu peito “mas o tempo dirá”.

Quando confrontada com as observações obscenas de seu pai, Ivanka recusou-se a criticá-lo, descartando as alegações de que ele é um misógino e, em vez disso fazendo a discussão se tornar sobre quantas mulheres ele contratou para a construção e desenvolvimento ao longo dos anos.

Com a idade de trinta e quatro anos, Ivanka Trump é vice-presidente executiva de desenvolvimento e aquisições na Trump Organization e tem a sua própria linha de artigos de moda. Ela também é casada e tem três crianças. Ela fala frequentemente sobre a interligação entre a vida profissional e pessoal, com forte ênfase nos negócios. Ela é uma forte defensora de um feminismo de estilo corporativo, cunhando a hashtag #WomenWhoWork (MulheresQueTrabalham) como parte da campanha de sua marca para promover o empreendedorismo feminino. Ivanka está cumprindo o papel que seu pai havia previsto para os seus filhos no livro de 1990, “Surviving at The Top”: o de seguidor gerencial.

“Talvez eu esteja apenas sendo um pai superprotetor, mas se eu tiver alguma influência na questão, os meus filhos podem muito bem ser os gestores, não empreendedores. Me daria uma grande alegria saber que eles estavam apenas vivendo uma boa vida e mantendo o império Trump – seja lá o que este acabar por ser quando esta minha estranha aventura estiver concluída”.

Ironicamente, Ivanka remete à ética profissional de sua mãe Ivana como sua principal fonte de inspiração – a mesma ética profissional que Donald Trump detestava durante o casamento. Para Trump, a diferença entre Ivana e Ivanka é que Ivana aparecia como uma competidora para Donald, enquanto Ivanka foi preparada como sua sucessora, motivo pelo qual ela não representa uma ameaça. O feminismo corporativo de Ivanka não é de forma alguma exclusivo dela. Na verdade, vemos em seus discursos os mesmos jargões neoliberais de outras mulheres de topo no mundo dos negócios, como Sheryl Sandberg – mulheres que endossaram Hillary Clinton. Na verdade, sem o acidente do nascimento, poderia-se imaginar Ivanka Trump como sendo ela mesma uma firme apoiadora de Hillary. A sua mensagem de empoderamento feminino em uma sociedade profundamente estratificada é uníssono ao feminismo apoiado por Wall Street de Hillary Clinton.

A mensagem é simples: “dê um gás” em seu local de trabalho; “use a incerteza em sua vantagem;” “se levante e seja notada”; “tire o máximo proveito de qualquer negociação”. Em seu livro “O Cartão Trump”, Ivanka cita Arianna Huffington e Russell Simmons como inspirações: duas firmes partidárias de Clinton.

Mas tal feminismo desprovido de classe não está tão longe assim daquele de seu pai. Suas vulgaridades podem ser chocantes mas, em sua prática comercial diária, ele definiu a dialética deste feminismo como algo entre o “doce por fora”, mas implacável por dentro. Pode-se dizer que o trumpismo e feminismo corporativo são dois lados da mesma moeda. No feminismo corporativo, o patriarcado celebra o seu domínio como feminino.

O ódio da classe dominante por Trump é diferente do seu

Paul Street

counterpunch: Tell the Facts, Names the Names

Muito, talvez a maior parte, do institucionalismo empresarial, financeiro e imperialista da nação despreza Donald Trump. Quando foi a última vez que um dos moderadores dos meios de comunicação no debate presidencial argumentou efetivamente com u dos dois maiores concorrentes presidenciais, como fez a jornalista da endinheirada ABC News, Martha Raddatz (enraivecida pela falta de entusiasmo de Trump com um confronto militar entre os Estados Unidos e a Rússia na Síria) no último domingo?

Mais de cinquenta republicanos da “elite” da “segurança nacional” juntaram-se a vários titulares de cargos públicos republicanos de topo, a um grande número de conselhos de redação de jornais tipicamente republicanos e aos editores “liberais” do New York Times na proclamação de Trump como demasiado estúpido, sexista, juvenil, racista, volátil, ignorante e vicioso para lhe serem confiadas as chaves da Casa Branca.

O medo e desprezo da classe dominante por Trump – um dos seus, mais ou menos – pode ser detectado na elite empresarial que normalmente apoia os republicanos. Uma recente reportagem no Wall Street Journal revela que nem um único executivo da Fortune 100 apoiou Trump ou efetuou donativos à sua campanha. Hillary Clinton aceitou fundos de contribuições para a campanha de 11 destes capitães corporativos. Há quatro anos, apenas 5 CEO da Fortune 100 doaram a Obama, pouco a pouco, quase um terço do doado a Mitt Romney.

Em um recente editorial da Times, o executivo da Wall Street, Steve Ratter (o viscoso financeiro que Obama colocou como responsável do seu amigável autorresgate financeiro na Wall Street) sublinhou o “paradoxo” da total impopularidade do superrico magnata Trump nos da sua exclusiva e própria classe:

“Passou toda a sua carreira entre empresários e, ainda assim, estes mandantes estão a votar com muito dinheiro para que ele não seja presidente... não há memória de qualquer esperança presidencial republicana ter sido tão impopular na comunidade empresarial... Em uma reunião de administradores, há duas semanas, conversei separadamente com dois proeminentes proeminentes homens de negócios homens de negócios republicanos. Um, o presidente executivo de uma empresa cotada na Fortune 100, disse que nunca tinha votado num democrata, mas não suporta Trump. O outro, um investidor de capital privado, que havia votado nos democratas apenas uma vez, afirmou que tinha tanto medo de presidência Tru, que doou ‘cada centavo possível’, de acordo com as regras do financiamento das campanhas, a Hillary Clinton” (S. Rattner, “Trump, The Next Big Short”, NYT, 10 de outubro de 2016, A21).

É óbvia, nos dados do financiamento das campanhas, a preferência do grande capital pela neoliberal e republicana moderada Hillary sobre Trump, e também no mercado de ações global. “À medida que se tornou evidente o predomínio da Sr.ª Clinton no primeiro debate presidencial”, afirmou Rattner, “os investidores aplaudiram: os mercados, por todo o mundo, subiram e o dólar fortaleceu-se... [analistas confiáveis estimam] que uma vitória de Trump causaria a perda de 7% nos mercados, enquanto uma vitória de Clinton levaria a um aumento de 4%”.

Também odeias Donald Trump, meu caro amigo de esquerda (eu assumo que este abrangente termo descritivo cobre cerca de 90% das pessoas que leem este ensaio) e por algumas boas razões. Eu não sou exceção. Qualquer pessoa que duvide da minha antipatia por Trump – que não se confunda com admiração ou mesmo tolerância do “mal menor” com Hillary Clinton (devidamente descrita como “fanática de direita” e “belicista neoliberal latente”, mesmo por pensadores de esquerda que apelam ao voto dos progressistas nela, com base no “mal menor”) – podem ler um artigo recente na teleSur English, no qual atribuí a subida de Trump, em grande parte, à “viciosa cultura neoliberal da idiotice massiva”.

Existe, contudo, uma grande diferença entre o nosso desdém por Trump e o desprezo elitista do institucionalismo pelo nomeado presidencial republicano. Provavelmente existem poucos membros da classe dominante dos Estados Unidos que estejam genuinamente ofendidos por alguns ou todos os piores atributos de Trump: racismo, nativismo, sexismo, negação das alterações climáticas e autoritarismo. Ainda assim, a maior parte dos indivíduos das ditaduras não eleitas e interrelacionadas do dinheiro e do império na nação estariam dispostas, certamente, a aguentar as perspetivas de uma presidência cruel de um Trump sexista, racista e classista se não pensassem que seria mesmo mau para o negócio, para o poder global dos EUA e para a legitimação da autoridade americana, domesticamente e no exterior. Não seriam eles as maiores vítimas de uma presidência Trump; apesar de tudo, e é um grande exercício, pensar que alguns, mas um pequeno punhado, poderiam interessar-se por aqueles que mais sofreriam sob uma (improvável) administração americano-Trump.

Ao mesmo tempo, Trump ganhou igual, senão maior desdém, por parte da classe dominante dos bipartidários ricos e da elite do poder, por dizer algumas coisas curiosamente precisas e mesmo sensíveis, com as quais progressistas de esquerda têm razões para concordar. Aqui estão algumas das afirmações em relação às quais Trump não pode ser perdoado por uma superclasse financeira e imperialista que nunca o aceitou como membro, apesar da sua riqueza:


  • O "comércio livre" (direitos globais dos investidores realmente sem entraves), como o Acordo Norte Americano de Comércio Livre (NAFTA), de Bill Clinton e o Tratado Transpacífico (TPP), de Barack Obama custou o sustento de inúmeros americanos da "esquecida" massa da classe trabalhadora, seus meios de subsistência.
  • O sistema político americano está "falido" por interesses específicos do grande capital que enfraquecem e distorcem a democracia - algo que Trump diz conhecer bem por causa da própria história como um grande financiador de políticos, incluindo dos Clinton.
  • A nação está em um estado pavoroso,  sob a governação de corruptos, democratas e republicanos, cheios de dólares do “comércio livre”.  Por exemplo, a maioria das infraestruturas do país está ruindo. A América Negra Urbana está em um estado terrível, seja qual for a cor da pele do atual presidente dos EUA, aqui nascido.
  • Hillary não fez nada, ou quase nada, ao longo de 30 anos de um não tão “serviço público” para proteger os cidadãos ordinários dos EUA contra os tempos duros – precisamente o oposto, de fato.
  • A “malvada Hillary” Clinton é apoiada pelas elites financeiras milionárias que, naturalmente, esperam que ela cumpra as suas ordens, mesmo que enganadoramente afirme querer servir o povo contra a minoria rica.
  • Hillary fala como amiga da classe operária na sua campanha, mas afirma à sua elite apoiadoras em privado que as suas posições políticas atuais e “privadas” são muitas vezes bastante diferentes e amigas do sistema do que as suas posições (caciqueiras) “públicas”.
  • Hillary tem por grande parte da população branca da classe trabalhadora e da classe média da nação um absoluto desprezo aristocrático, chamando a muitas dessas pessoas “deploráveis” e “irremediáveis”.
  • O corrupto Goldman Sachs, apoiador da campanha de Clinton e o Comitê Democrático Nacional usou truques sujos para menorizar e derrotar Bernie Sanders.
  • Hillary liderou um jogo corrupto “uma mão lava a outra” com nações e investidores estrangeiros e multinacionais, através da Fundação Clinton, durante o seu tempo na liderança no Departamento de Estado dos EUA. Hillary “Rainha Caos” Clinton (da liderança do think tank da classe dominante dos EUA, o Conselho das Relações Internacionais) tem sido um desenfreado desastre imperial da política externa, com o seu apoio à desastrosa invasão do Iraque, para mudança do regime, a sua liderança do ataque para uma alteração calamitosa do regime na Líbia, o seu determinado avanço para uma loucura de alteração sangrenta (assim o espera) do regime na Síria, o seu (e de Obama) avanço do Estado Islâmico e a sua desatenta subida da fasquia no confronto geopolítico com a Rússia nuclear na Europa de leste e na Síria.
  • Os políticos que falavam a sério sobre a vontade de derrotar o Estado Islâmico e outros bárbaros radicais jihadistas islâmicos no Oriente Médio recuaram na sua fanfarronice contra a Rússia e a Síria, que estão decididos a “esmagar o EI”.

Para ser certo, as minhas citações das afirmações mais sensíveis e assertivas de Trump soam mais coerentes do que são. Duvido que Trump se incomode na leitura de mais do que uma página do livro indispensável da analista de esquerda da política externa, Diana Johnstone, Queen of Chaos: The Misadventures of Hillary Clinton [Rainha do Caos: as desventuras de Hillary Clinton] (AK Press, 2015). É esperar demasiado de Trump que este inclua as Honduras (ver o capítulo introdutório de Johnston para uma história útil) na lista das nações que Hillary ajudou a arruinar. Ainda assim, os pontos essenciais referidos acima são suficientemente próximos do que realmente disse neste ciclo eleitoral, para os verdadeiros donos da nação (os verdadeiros mestres atrás do teatro de marionetes das políticas eleitorais) o odiarem – isto, por razões diferentes do desdém por Trump dos esquerdistas informados. Mesmo que demonstrem publicamente e de forma politicamente correta os problemas de sexismo, racismo, rudeza e o temperamento de Trump, aquilo que o institucionalismo acha mais repreensível em Trump é o seu pendor imperdoável para contar histórias verdadeiras fora da escola da classe dominante – histórias que muitos de nós, na esquerda, temos vindo a contar em posições menos privilegiadas e sem o veneno nacionalista branco e sexista que sai da boca e da personalidade nociva de Trump. Os terríveis aspectos de Trump que achamos mais horrendos são diferentes daqueles que a classe dominante acha mais indesculpáveis – apesar de ter que se acrescentar que as elites inteligentes entendem que o seu sexismo, racismo, nativismo e bufonaria ameaçam incendiar levantamentos populares e desdém internacional, que não servem a elite empresarial e os interesses imperialistas. Estes últimos são um ponto-chave. Uma presidência Trump poderia bem incendiar rebeliões e resistências que a classe dominante preferiria evitar.

Será que Trump fala a sério quando diz coisas que coincidem com as críticas da esquerda a Hillary Clinton e à ordem doméstica e imperial mais abrangente dos EUA? Não faço ideia do que se passa no cérebro sociopata de “o Donald”. A direita fascizante (e Trump pode mesmo ser em parte neofascista, em determinados níveis) tem uma longa história de mimetizar algumas partes da retórica de esquerda (afinal, os nazistas promoveram o nacional “socialismo”) para ganhar o interesse das massas. Alguma da retórica aparentemente de esquerda de Trump parece-me parte de uma estratégia bem calculada para cativar os fãs descontentes de Bernie, juntamente com os votos da classe operária. Outra fonte poderá ser o rancor pela elite, uma elevada amargura pessoal numa aristocracia da Ivy League, que nunca aceitou verdadeiramente o menino rude Donald Trump nos seus círculos mais íntimos e elevados. Qualquer que seja a motivação por detrás dos seus ataques à elite dominante e às suas políticas imperialistas, uma classe dominante americana que ainda está muito longe de abraçar o fascismo, mesmo de uma forma suave e Trumpesca, não vai perdoar Trump por dar uma voz crua a tais críticas, de dentro do topo dos 1% e num vasto palco público.

Entretanto, Trump – agora 11 pontos atrás da realmente Hillary malvada nas sondagens nacionais e apenas com a hipótese de vitória de 1 para seis – é útil à classe dominante de uma forma curiosa e escura. Quase três meses após a previsível (e prevista) rendição da campanha de Bernie Sanders, de certa forma sinceramente populista e social democratizante, Trump ajuda e instiga o antigo projeto de populismo difamatório da cultura reinante na política e nos meios de comunicação corporativos e o instinto reacionário e atrasado das massas tontas e ignorantes – o “rebanho desorientado”.

Os comentadores de elite adoram gozar e marginalizar o pensamento infantil daqueles que pensam que as pessoas comuns (a “ralé”) deveriam efetivamente ser responsáveis pelos seus assuntos sociais e político-econômicos (imagine-se!) e assim privar as elites do seu suposto direito natural a governar. Ligar tal populismo a cretinos de direita como Donald Trump – um hábito recorrente em locais como o New York Times e a CNN – é uma das formas em que a difamação está mais avançada, ajudando a desbravar caminho para os neoliberais mais politicamente corretos, como Barack Obama e Hillary Clinton, tomarem as rédeas do poder executivo, pelo menos em Washington.