30 de novembro de 2016

A CIA e a imprensa: Quando o Washington Post publicou a rede de propaganda da CIA

Jeffrey St.Clair e Alexander Cockburn

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Na semana passada o Washington Post publicou uma indecente peça, de um até agora obscuro repórter sobre tecnologia chamado Craig Timberg, alegando sem a mais ténue prova que os serviços de informação russos estavam a utilizar mais de 200 sítios noticiosos independentes para pôr em circulação propaganda pró-Putin e anti-Clinton no decurso da campanha eleitoral.

Sob o ofegante título de “Peritos afirmam que esforço de propaganda russo ajudou a difundir ‘falsas notícias’ no decurso da campanha eleitoral”, Timberg congeminou a sua história baseado em alegações oriundas de um vaporoso grupo chamado ProporNot, dirigido por gente anônima de origem desconhecida que Timberg (plagiando o livro de estilo de Bob Woodwardi) aceitou citar como fontes anônimas.

O catálogo ProporNot de entidades supostamente controladas por Putin tresanda às calúnias macartistas da época do “terror vermelho”. A lista negra inclui alguns dos mais estimados sítios noticiosos alternativos na rede, incluindo Anti-war.com, Black Agenda Report, Truthdig, Naked Capitalism, Consortium News, Truthout, Lew Rockwell.com, Global Research, Unz.com, Zero Hedge e, sim, CounterPunch, entre muitos outros. Na minha coluna de sexta-feira terei mais alguma coisa sobre Timberg e ProporNot.

Até lá, fica aqui uma breve resenha histórica de como, no auge da Guerra Fria, a CIA criou o seu próprio elenco de escritores, editores e publicistas (que cresceu a ponto de incluir 3000 indivíduos) que pagava para rabiscarem propaganda da agência no quadro de um programa chamado Operação Mockingbird. Essa rede de desinformação era supervisionada pelo falecido Philip Graham, anterior editor do próprio jornal de Timberg, o Washington Post.

A historieta de Graig Timberg, que tem tanta consistência como os desabafos anônimos garatujados na parede de uma instalação sanitária, justificam a suspeita de que o Post pode ainda jogar o mesmo velho jogo que aperfeiçoou nos anos 50 e prosseguiu nas décadas seguintes, culminando com o brutal ataque de 1996 contra o meu velho amigo Gary Webb e o seu imaculado trabalho de investigação sobre o tráfico de drogas levado a cabo pelos contras apoiados pela CIA nos anos 80. O repugnante ataque do Post contra Webb teve em parte como ponta de lança Walter Pincus, o jornalista sobre serviços de informação do jornal, ele próprio um velho agente da CIA.

Provavelmente para Timberg isto foi apenas mais um dia de trabalho: atirar à parede algumas calúnias vermelhas para ver se alguma pega enquanto não chega informação sobre a próxima novidade tecnológica (possivelmente na base de quaisquer tórridas indicações de um par de adolescentes anônimos em Cupertino) em lantejoulas de software no i-Phone 7.

Para os visados por este jornalismo tipo de jornalismo de atropelamento e fuga, a questão é inteiramente diferente. No caso de Webb, os deploráveis e infundados ataques do Post liquidaram a sua carreira de repórter de investigação e desencadearam uma espiral depressiva que o levou a pôr termo à própria vida. Embora o próprio inspetor-geral da CIA, Frederick Hitz, tivesse mais tarde confirmado a investigação de Webb, o Post nunca se retratou das histórias caluniosas que publicou nem pediu desculpa por ter arruinado a vida de um dos melhores e mais corajosos jornalistas do país.

Parece agora que esse jornal regressa a mais uma volta nessa mesma via.

(Este artigo é adaptado do nosso livro End Times: the Death of the Fourth Estate)

A CIA tem tido jornalistas na sua folha de pagamentos praticamente desde a sua fundação em 1947, facto estridentemente reconhecido pela própria Agência quando em 1976 - altura em que G.H.W. Bush assumiu a sua direcção sucedendo a William Colby – anunciou que “a partir deste momento a CIA não assumirá qualquer relação remunerada ou contratual com qualquer correspondente jornalístico, a tempo parcial ou a tempo inteiro, acreditado em qualquer serviço noticioso dos EUA, jornal, periódico, radio, rede ou estação de televisão”.

Embora esse anuncio destacasse que a CIA continuaria a “acolher com simpatia” a cooperação voluntária, gratuita, de jornalistas, não há qualquer razão para acreditar que a Agência cessou efectivamente os pagamentos por baixo da mesa ao Quarto Poder.

A sua prática anterior a 1976 nesta matéria está de algum modo documentada. Em 1977 Carl Bernstein abordou o tema na Rolling Stone, concluindo que mais de 400 jornalistas tinham mantido algum tipo de associação com a Agência entre 1956 e 1972.

Em 1997 o filho de um conhecido alto responsável da CIA nos seus primeiros tempos afirmou enfaticamente - embora off the record – a um membro de CounterPunch que o poderoso e malévolo colunista Joseph Alsop estava, “evidentemente, na folha de pagamentos”.

A manipulação da imprensa foi sempre uma preocupação emblemática para a CIA, tal como para o Pentágono. No seu Secret History of the CIA publicado em 2001, Joe Trento descreveu como em 1948 o agente da CIA Frank Wisner foi nomeado director do Gabinete de Projectos Especiais, em breve renomeado Gabinete de Coordenação de Políticas (Office of Policy Coordination - OPC). Este tornou-se o ramo de espionagem e contra-informação da CIA, e em primeiro lugar na lista de funções que lhe foram atribuídas estava “propaganda”.

Mais tarde no mesmo ano Wisner montou uma operação com o nome de código “Mockingbird” visando influenciar a imprensa doméstica norte-americana. Recrutou Philip Graham do Washington Post para gerir o projecto a partir do interior dessa indústria. Trento escreve que

“Um dos mais importantes jornalistas sob o controlo da Operação Mockingbird era Joseph Alsop, cujos artigos eram publicados em mais de 300 jornais.” Outros jornalistas dispostos a promover os pontos de vista da CIA incluíam Stewart Alsop (New York Herald Tribune), Ben Bradlee (Newsweek), James Reston (New York Times), Charles Douglas Jackson (Time Magazine), Walter Pincus (Washington Post), William C. Baggs (Miami News), Herb Gold (Miami News) and Charles Bartlett (Chattanooga Times). 
Por alturas de 1953 a Operação Mockingbird tinha influência preponderante sobre 25 jornais e agências de notícias, incluindo New York Times, Time, CBS, Time. As operações de Wisner eram financiadas pela transferência de fundos destinados ao Plano Marshall. Algum deste dinheiro era utilizado para subornar jornalistas e editores.”

No seu livro Mockingbird: The Subversion of the Free Press by the CIA, Alex Constantine escreve que nos anos 50s, “uns 3,000 empregados assalariados ou contratados pela CIA estavam de algum modo empenhados em tarefas de propaganda”.

O obituário tendencioso de Fidel Castro no New York Times

Por Matt Peppe

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Depois da morte de Fidel Castro na noite de sexta-feira aos 90 anos, os obituários escritos sobre ele na imprensa americana tipificaram a propaganda do governo dos EUA usada por décadas para demonizar Castro e obscurecer os tremendos avanços sociais e humanitários que a Revolução Cubana conseguiu diante da implacável interferência, subversão e desestabilização. Nenhum foi mais acima do limite em seu viés do que o obituário no New York Times.

Em meras 54 palavras, o parágrafo lede contém uma quantidade surpreendente de desinformação e insinuações:

"Fidel Castro, o ardente apóstolo da revolução que trouxe a Guerra Fria ao Hemisfério Ocidental em 1959..."

É difícil imaginar que qualquer líder ocidental seja chamado de "apóstolo ardente". A frase sugere que Castro foi impulsionado por uma missão irracional e religiosa de empreender a revolução, em vez de recorrer à resistência armada como último recurso após a possibilidade de uma oposição não-violenta por meio de políticas ter sido eliminada. Em 1952, quando Castro era favorito para conseguir um assento na casa dos representantes, Fulgêncio Batista cancelou prontamente as eleições próximas enquanto se tornou desobstruído que não poderia prender o poder em um voto livre e justo. Só depois disso Castro e outros começaram a organizar uma resistência de guerrilha para impedir que o país fosse governado por uma ditadura militar. Chamá-lo de "apóstolo ardente da revolução" é reducionista e maniqueísta.

A segunda parte da sentença é facilmente refutável. A Guerra Fria estava bem encaminhada e ativa no hemisfério ocidental muito antes da Revolução chegar ao poder em 1959. Cinco anos antes, a CIA, a pedido da United Fruit Company e trabalhando em conjunto com o Congresso e a Casa Branca, apoiou a destituição do presidente progressista democraticamente eleito da Guatemala, Jacobo Arbenz, pelos militares guatemaltecos. O motivo foi resumido pelo senador George Smathers, da Flórida, que foi citado em um artigo na revista profissional da CIA, Studies in Intelligence, dizendo: "Com toda a franqueza, devemos admitir que as nações democráticas do hemisfério ocidental não poderiam permitir a continuada existência de uma base comunista na América Latina, tão perto de casa".

Além de deturpar a cronologia da Guerra Fria, a ideia de que Castro foi responsável pelas tensões da Guerra Fria com os Estados Unidos é risível. Castro imediatamente buscou o governo dos EUA após assumir o poder em 1959, e até visitou o país quatro meses depois. Ao chegar, ele foi levado pelo presidente Dwight D. Eisenhower, que decidiu jogar golfe em vez de se encontrar com Castro. No ano seguinte, Eisenhower cancelaria a quota de açúcar de que Cuba dependia para obter receitas de exportação, provocando Cuba a exercer seu direito soberano de nacionalizar propriedades dos EUA. Em contrapartida, o governo dos EUA proibiu a entrega de petróleo à ilha, o que levou Cuba a buscar petróleo da União Soviética.

"... e depois desafiou os Estados Unidos por quase meio século como líder máximo de Cuba..."

É estranho que o compromisso de Castro de não comprometer a soberania de Cuba e seu povo seja visto como suficientemente notável para chamar a atenção para ele de forma tão proeminente. Imagine um obituário russo para Ronald Reagan afirmando que ele desafiou a União Soviética. Tal afirmação pressupõe que o estado natural das coisas seria a subserviência aos ditames de uma potência estrangeira. Os americanos achariam essa noção absurda.

"... acossou 11 presidentes americanos..."

Esta é a forma de afirmar que Castro sobreviveu a mais de 600 tentativas de assassinato autorizadas por vários executivos dos EUA e resistiu à sua guerra econômica criminosa que buscava "causar fome, desespero" e "dificuldades" e até hoje continua negando comida e remédios a crianças.

"... e por pouco não empurrou o mundo à beira da guerra nuclear..."

Um ano e meio antes da Crise dos Mísseis de Cuba, a CIA dirigiu uma invasão mercenária de Cuba que fracassou espetacularmente depois que foi rapidamente repelida. Compreendendo que outra invasão era iminente, Castro procurou mísseis nucleares da União Soviética porque acreditava que seria o único possível dissuasor para outro ataque dos EUA. Enquanto isso, os Estados Unidos tinham mísseis nucleares posicionados em toda a Europa Oriental na União Soviética. Quando Kennedy protestou contra os soviéticos, Kruschev ofereceu retirar os mísseis antes de chegarem a Cuba se os Estados Unidos também retirassem seus mísseis nucleares da Turquia e prometessem não invadir Cuba. Kennedy disse que isso "pareceria um negócio muito justo" para qualquer "homem racional". No entanto, ele ainda não estava satisfeito e, em vez de aceitar, decidiu participar de um jogo de frango que poderia facilmente resultar em um holocausto nuclear. A responsabilização de Fidel Castro pela escalada desta situação é uma distorção grosseira.

"... morreu na sexta-feira. Ele tinha 90 anos."

Eu não tenho problemas com isso.

O resto do obituário está cheio de outras imprecisões e floreios retóricos que, previsivelmente, ecoam décadas de propaganda do governo dos EUA.

O New York Times afirma que Castro "cedeu grande parte de seu poder a seu irmão Raúl". Na realidade, Fidel renunciou à sua posição de Presidente da Nação em 2006. Ele não entregou pessoalmente o poder a seu irmão em uma exibição ditatorial de nepotismo. Raúl era o vice-presidente da época, tendo sido eleito no processo estipulado pela Constituição cubana. Da mesma forma, de acordo com a Constituição, como Vice-Presidente assumiu o papel de Presidente com a renúncia do atual Presidente. Não é diferente de como a sucessão funcionaria nos Estados Unidos.

O texto continua a fazer alegações infundadas de auto-engrandecimento de Castro ("ele acreditava ser o messias de sua pátria") e lançar manchas sem evidências sobre seu abuso de poder ("ele exercia o poder como um tirano, controlando todos os aspectos da existência da ilha").

Ninguém na história recente tem sido objeto de uma propaganda tão vitriólica e politicamente tendenciosa emanada do governo dos EUA como Fidel Castro. Não é surpreendente que o auto-declarado "jornal de referência" dos Estados Unidos reproduzisse a mesma retórica maliciosa em vez de tentar avaliar objetivamente a vida daquele que é, sem dúvida, o indivíduo mais importante do século XX com base em fatos documentados colocados em contexto histórico.

Votando sob o socialismo

Vai ser mais significativo – mas esperamos que não envolva assembleias sem-fim.

Peter Frase

Jacobin

Tradução / Depois de assistir meses de cobertura na mídia, você vai para as urnas por alguns minutos e deposita seu voto para alguém te representar... E então acabou. Isso é o que “democracia” significa hoje.

Certamente, conquistar mesmo esta forma limitada de democracia eleitoral foi uma importante vitória da classe-trabalhadora. E o acesso às urnas permanece uma questão importante. Conservadores continuam seus esforços para reverter direitos de voto de pessoas negras nos Estados Unidos. Outras populações, tais como condenados, residentes sem a condição de cidadãos e adolescentes com menos de 18 anos estão inteiramente por fora dessa concessão.

A questão permanece, porém, se estas são algo mais do que batalhas táticas, formas de conquistar vantagens na luta contra o capital. Em um mundo melhor, democracia não significaria mais do que isso? Que tipo de organização política é adequada para uma sociedade socialista?

Historicamente, socialistas tem argumentado que a democracia deveria ser estendida para algumas das partes menos democráticas da sociedade capitalista: a economia e o espaço de trabalho. Nós já temos instituições como sindicatos que fazem isso de uma maneira limitada. Mas como poderíamos democratizar a economia como um todo?

Alguns advogam pela democracia direta, em que as próprias pessoas desenvolvem e votam em iniciativas, ao invés de escolher representantes baseadas em plataformas gerais e garantindo a eles o direito de estabelecer políticas.

Um dos argumentos recentes mais influentes por uma democracia direta pós-capitalista é o livro de Michael Albert e Robin Hahnel, Parecon: Life After Capitalism. Nele, os autores concebem um mundo em que cada possível tarefa é classificada em termos de seu nível de força necessária para que o fardo do trabalho seja distribuído igualmente. Além disso, todo mundo registra suas preferências de consumo e de tempo de trabalho a fim de garantir que recebam uma alocação ótima de tempo e de bens.

Mas como muitos críticos têm apontado, este sistema implica numa quantia absurda de esforço e de tempo para sua implementação. O sistema de alocação de empregos iria requerer reuniões, comissões e análises sem fim, enquanto o sistema de alocação de bens imporia imensos requisitos burocráticos sobre os indivíduos. Democracia direta pode ser ideal para, digamos, uma cooperativa pequena, mas não faz sentido como uma forma de conduzir uma sociedade inteira.

Algum tipo de sistema representativo será necessário, tanto em organizações quanto em sabe-se-lá-que-tipo-de-estado possa existir após o capitalismo. Porém, ele deve ser tão pequeno e simples quanto possível. Governos modernos com eleições constantes para todo tipo de funcionários menores e oficiais locais seriam, à sua maneira, tão incômodos e impraticáveis para as pessoas participar quanto no Parecon.

Esperamos que um dia todos viveremos em um futuro de energia ilimitada e produção automatizada, e assim os muitos aspectos de nossos governos que são dedicados tanto para proteger quanto para redistribuir riqueza serão desnecessários. Mas ainda existirão grandes questões sendo levantadas. Construiremos aquele trem de alta velocidade? Tentamos salvar a Terra ou nos mudamos para Marte?

Nesse caso pode ser útil ter instituições representativas em alguma forma altamente atenuada, que possam organizar e focar opiniões sobre questões enormes e complicadas, concentrando-as em plataformas e partidos ideológicos que serão mais democráticos e participativos do que a maioria dos que temos hoje.

Mas ainda não terminamos. Mesmo no capitalismo, existe um outro sistema, nem democracia representativa e nem direta, que às vezes é oferecido como uma alternativa a ambas.

“Libertários” de direita frequentemente defendem o mercado como uma forma superior de democracia. A democracia representativa, eles afirmam, é falha por que permite que maiorias imponham sua vontade sobre minorias, e porque ela permite que eleitores desinformados deem suporte para políticas “irracionais”.

Em contraste, estes “libertários” consideram o mercado como um mecanismo democrático perfeito. “Vote com seus dólares,” e a mão-invisível fará o resto, garantindo resultados ótimos para todos.

Dada essa proveniência, muitos esquerdistas são rápidos para repudiar qualquer coisa que tenha a ver com mercado como necessariamente antitético para a democracia. Mas ao invés de nos apressarmos para esse julgamento, deveríamos parar e considerar o que exatamente torna a forma “libertária” de democracia de mercado tão impalatável.

O problema não vem principalmente do ato de troca no mercado – ou seja, usar dinheiro como um meio para comprar e vender. Ao invés, são as dotações desiguais que precedem essa troca. Nós nos opomos ao fato de que uns poucos comandem quantias enormes de dinheiro – e, assim, um poder enorme no mercado – enquanto uma vasta maioria tenha pouco dinheiro, e poucas maneiras de obtê-lo além de vender sua própria força de trabalho.

O problema não está restrito a mercados de trocas privadas. Em uma sociedade capitalista, também afeta a própria democracia representativa. Enquanto esse sistema é formalmente baseado no princípio de “uma pessoa, um voto,” os ricos invariavelmente encontram maneiras de corromper o processo a seu favor.

O resultado, em cada democracia capitalista, fica em algum lugar entre o puro “uma pessoa, um voto” e o ideal oligárquico -”libertário” de “um dólar, um voto”. Reformas no financiamento de campanha podem mover as coisas para longe da democracia-de-dólares e rumo à democracia-de-pessoas, mas a única forma de superar totalmente o poder dos ricos é remover seu controle sobre a riqueza social.

Mas se nós fôssemos capazes de fazer isso – expropriar a classe dominante e superar o capitalismo – onde isso deixa o mercado? Se a desigualdade de recursos iniciais é apagada, o mercado pode de fato servir como um mecanismo de coordenação democrática. Seus dólares podem ser seus votos.

O problema da conservação de recursos fornece um jeito de pensar sobre isso. Suponha que vivemos em uma sociedade socialista democrática em que o trabalho já foi, em sua maior parte, abolido, e todos têm recursos iguais. O único embaraço é que ainda vivemos em um mundo com severos limites de recursos, então temos de encontrar uma forma justa de evitar que as pessoas usem materiais demais.

Em alguns casos, alguns tipos de regulação centralizada ou planejamento podem ser necessários. Mas nós não queremos ter de soletrar em detalhes o quanto de cada bem de consumo que cada pessoa terá direito – nesse caminho está a distopia do Parecon das reuniões sem-fim.

Então, ao invés disso, imagine atribuir a todas as pessoas um número igual de créditos para gastar em bens cujos preços estejam vinculados aos seus respectivos impactos ambientais. No caso mais simples, esse poderia ser o custo de carbono, mas poderia incluir muitos materiais e recursos. Dessa forma, se eu não tiver os créditos para conseguir tanto um novo computador quanto uma viagem transatlântica, eu posso escolher qual eu quero, sem precisar participar de qualquer assembleia ou solicitar através de um escritório governamental, e o “preço” de recursos escassos específicos se ajustaria baseado na demanda de toda a sociedade por ele.

Essa é uma vasta simplificação, é claro. Mas o ponto geral é que em qualquer sociedade futura concebível nós precisaremos de uma variedade de diferentes métodos para coordenar nossa vida em comum – em outras palavras, diferentes formas de democracia.

29 de novembro de 2016

Quando o público se torna privado, como Trump quer: O que acontece?

por Diane Ravitch

The New York Review of Books

Education and the Commercial Mindset
por Samuel E. Abrams
Harvard University Press, 417 pp., $39.95
School Choice: The End of Public Education?
por Mercedes K. Schneider
Teachers College Press, 204 pp., $35.95 (impresso)

William Eggleston: Sem título, cerca de 1983-1986; da exposição "The Democratic Forest", em exibição na David Zwirner Gallery, Nova York, até 17 de dezembro de 2016.

O New York Times publicou recentemente uma série de artigos sobre os perigos da privatização de serviços públicos, o primeiro dos quais foi intitulado "Quando você liga 911 e Wall Street atende". Ao longo dos anos, o New York Times publicou outras reportagens sobre serviços privatizados, como hospitais, cuidados de saúde, prisões, ambulâncias e pré-escolas para crianças com deficiência. Em algumas cidades e estados, mesmo as bibliotecas e a água foram privatizadas. Nenhum serviço público está imune a aquisições por corporações que dizem que podem fornecer qualidade comparável ou melhor a um custo menor. O New York Times disse que, desde a crise financeira de 2008, as empresas de private equity "têm cada vez mais assumido uma ampla gama de serviços cívicos e financeiros que são centrais para a vida americana".

Privatização significa que um serviço público é assumido por uma empresa com fins lucrativos, cujo objetivo mais elevado é o lucro. Os investidores esperam um lucro quando uma empresa se move para um novo empreendimento. A nova corporação que opera o hospital ou a prisão ou o corpo de bombeiros reduz custos por todos os meios para aumentar os lucros. Quando possível elimina os sindicatos, eleva os preços para os consumidores (chega até mesmo a cobrar os proprietários por apagar incêndios), corta os benefícios dos trabalhadores, expande o horário de trabalho e demite funcionários veteranos que ganham mais. As conseqüências podem ser perigosas para os cidadãos comuns. Médicos em hospitais privatizados podem realizar cirurgias desnecessárias para aumentar as receitas ou evitar tratar pacientes cujos cuidados podem ser muito caros.

O Federal Bureau of Prisons concluiu recentemente que as prisões privatizadas não eram tão seguras quanto as administradas pela própria agência e eram menos propensas a fornecer programas eficazes de educação e treinamento para reduzir a reincidência. Conseqüentemente, o governo federal começou a eliminar gradualmente prisões administradas privadamente, que detêm cerca de 15 por cento dos prisioneiros federais. Essa decisão foi baseada em uma investigação feita pelo inspetor geral do Departamento de Justiça, que citou uma revolta de maio de 2012 em um centro de correções do Mississippi, no qual uma dezena de pessoas ficaram feridas e um oficial correcional foi morto. Duzentos e cinquenta internos participaram do motim para protestar contra a má qualidade dos alimentos e dos cuidados médicos. Desde a eleição, o preço das ações de prisões com fins lucrativos tem disparado.

Há um debate em curso sobre se a Veterans Administration deve privatizar os cuidados de saúde para veteranos militares. Os republicanos propuseram a privatização da Previdência Social e do Medicare. O presidente George W. Bush costumava apontar para o Chile como uma nação modelo que tinha privatizado com êxito a Segurança Social, mas o New York Times informou recentemente que a privatização das aposentadorias no Chile foi um desastre, deixando muitas pessoas mais velhas empobrecidas.


Nos últimos quinze anos, as escolas públicas da nação têm sido um alvo primário para a privatização. Sem o conhecimento do público, aqueles que pretendem privatizar as escolas públicas se chamam de "reformadores" para disfarçar seu objetivo. Quem poderia se opor à "reforma"? Hoje em dia, aqueles que se autodenominam "reformadores da educação" provavelmente serão gestores de fundos de hedge, empresários e bilionários, e não educadores. O movimento pela "reforma" proclama em voz alta o fracasso da educação pública americana e busca entregar o dinheiro público a empresários, cadeias corporativas, operações familiares, organizações religiosas e quase qualquer outra pessoa que queira abrir uma escola.

No início de setembro, Donald Trump declarou seu compromisso com a privatização das escolas públicas da nação. Ele realizou uma conferência de imprensa em uma charter school de baixo desempenho em Cleveland, administrada por um empreendedor com fins lucrativos. Ele anunciou que se eleito presidente, ele iria transformar US $ 20 bilhões em despesas de educação federal existentes em uma concessão em bloco para os estados, que eles poderiam usar para cupons para escolas religiosas, charter school, escolas privadas ou escolas públicas. Estes são os fundos que atualmente subsidiam as escolas públicas que inscrevem um grande número de alunos pobres. Como a maioria dos republicanos, Trump acredita que a "escolha da escola" e a competição produzem uma melhor educação, mesmo que não haja evidência para essa crença. Como presidente, Trump irá incentivar a concorrência entre os prestadores públicos e privados de educação, o que irá reduzir o financiamento para as escolas públicas. Nenhuma nação de alto desempenho no mundo privatizou suas escolas.

Os motivos para o movimento pela privatização são vários. Alguns privatizadores têm um compromisso ideológico com o capitalismo de livre mercado; eles condenam as escolas públicas como "escolas governamentais", prejudicadas pelos sindicatos e pela burocracia. Alguns estão certos de que as escolas precisam ser administradas como empresas, e que as pessoas com experiência em negócios podem gerenciar as escolas muito melhor do que os educadores. Outros têm um motivo de lucro e esperam ganhar dinheiro na crescente "indústria educacional". Os adeptos da abordagem empresarial opõem-se aos sindicatos e à estabilidade, preferindo empregados sem qualquer proteção adequada ao trabalho e remuneração por mérito atrelada aos resultados das avaliações. Eles nunca dizem: "Queremos privatizar as escolas públicas". Dizem: "Queremos salvar as crianças pobres de escolas que fracassaram." Portanto, "Devemos abrir charter schools privadas para dar às crianças uma escolha" e "Devemos fornecer cupons para que as famílias pobres possam escapar das escolas públicas".

O movimento pela privatização tem um lobby poderoso para promover sua causa. A maioria dos que apoiam a privatização são conservadores políticos. Os think tanks de direita produzem regularmente apresentações brilhantes de charter e vouchers schools, juntamente com relatos brilhantes sobre o seu sucesso. O American Legislative Exchange Council (ALEC), uma organização de direita financiada por grandes corporações e composta por cerca de dois mil legisladores estaduais, elaborou um modelo de lei de charter school, que seus membros introduzem em suas legislaturas estaduais. Cada governador e legislador republicano aprovou legislação para charter e vouchers. Cerca de metade dos estados promulgaram legislação sobre vouchers ou créditos fiscais para escolas não públicas, embora em alguns desses estados, como Indiana e Nevada, a constituição estadual proíba explicitamente o gasto de fundos estaduais em escolas religiosas ou qualquer outra coisa que não seja escolas públicas.


Se o movimento pela privatização fosse confinado a republicanos, poderia haver um debate político vigoroso sobre a sabedoria de privatizar as escolas públicas da nação. Mas o governo Obama tem ficado tão entusiasmado com as charter schools privadas como os republicanos. Em 2009, seu próprio programa de reforma educacional, Race to the Top, ofereceu um prêmio de US $ 4,35 bilhões pelo qual os estados poderiam competir. Para serem elegíveis, os estados tiveram que mudar suas leis para permitir ou aumentar o número de charter schools, e eles tiveram que concordar em fechar as escolas públicas que tinham resultado em avaliações de desempenho continuamente baixos.

Em resposta ao estímulo do governo Obama, quarenta e dois estados e o Distrito de Columbia atualmente permitem charter schools. Quando milhares de escolas públicas comunitárias foram fechadas, as charter schools foram abetas para ocupar seu lugar. Hoje, existem cerca de sete mil financiadas por fundos públicos, as charter schools de gestão privada, matriculando cerca de três milhões de alunos. Algumas são administradas com fins lucrativos. Algumas são escolas à distância, onde os alunos sentam em casa e recebem suas aulas em um computador. Algumas operam em shoppings. Algumas são administradas por personagens sem escrúpulos com a expectativa de ganhar dinheiro. Charters abrem e fecham com frequência perturbadora; de 2010 a 2015, mais de 1.200 charter schools foram fechadas devido a dificuldades acadêmicas ou financeiras, enquanto outros abriram.

Charter schools têm várias vantagens sobre as escolas públicas regulares: elas podem admitir os alunos que querem, excluir aqueles que não querem, e expulsar aqueles que não cumprem seus padrões acadêmicos ou comportamentais. Mesmo que algumas escolas públicas tenham admissões seletivas, o sistema escolar público deve registrar cada estudante, em qualquer período do ano escolar. Normalmente, charter schools têm menor número de alunos cuja língua nativa não é o inglês e menor número de alunos com deficiências graves, em comparação com escolas públicas comunitárias. Ambas as charter e vouchers schools drenam e afastam recursos das escolas públicas, mesmo quando deixam os estudantes mais necessitados, os mais caros, para as escolas públicas educarem. A concorrência das charter e vouchers schools não melhoram as escolas públicas, que ainda matriculam 94 por cento de todos os alunos; a concorrência as enfraquecem.

As charter schools muitas vezes se autodenominam "charter schools públicas", mas quando foram desafiadas em um tribunal federal ou estadual ou perante o Conselho Nacional de Relações Laborais, as corporações fundadoras insistem que são empreiteiras privadas, e não "atores estatais" como as escolas públicas, portanto, não são obrigados a seguir as leis estaduais. Como corporações privadas, elas estão isentas de cumprir as leis trabalhistas estaduais e das leis estaduais que governam as políticas pedagógicas. Cerca de 93 por cento das charter schools são desestruturadas, como o são praticamente todas as voucher schools. Na maioria das charter schools, os professores jovens trabalham cinquenta, sessenta, ou setenta horas por semana. A rotatividade dos professores é alta, dadas as horas e a intensidade do trabalho.

Nos últimos vinte anos, sob os presidentes Clinton, Bush e Obama, o governo federal gastou bilhões de dólares para aumentar o número de charter schools privadas. As charter schools foram abraçadas por gestores de fundos de hedge; financiadores muito ricos criaram inúmeras organizações - como Democrats for Education Reform, Education Reform Now e Families for Excellent Schools - para fornecer muitos milhões de dólares para apoiar a expansão das charter schools. As elites que apoiam charters também financiam campanhas políticas de candidatos simpáticos e para consultas estaduais aumentar as chartes. Na recente eleição, os doadores de fora do estado, incluindo os Waltons de Arkansas, gastaram US $ 26 milhões em Massachusetts na esperança de expandir o número de charter schools; a questão foi derrotada em uma votação por uma margem ressonante de 62-38 por cento. Na Geórgia, o governador republicano tentou fazer uma mudança na constituição do estado para permitir que ele assumisse escolas públicas de baixa pontuação e convertê-las em charter schools; ele também foi derrotado, por um voto de 60-40 por cento.

Além de gastar em campanhas políticas, alguns dos mesmos bilionários têm usado suas fundações filantrópicas para aumentar o número de charter school. Três das maiores fundações da nação subsidiam seu crescimento: a Fundação Bill e Melinda Gates, a Walton Family Foundation e a Fundação Edythe e Eli Broad. Além destes três, as charters também receberam doações da Fundação Família Bloomberg, a Fundação Susan e Michael Dell, a Fundação Laura e John Arnold (ex-Enron), a Fisher Family Foundation (lojas The Gap), Reed Hastings (Netflix), Jonathan Sackler (Purdue Pharmaceutical, fabricante de Oxycontin), a família DeVos de Michigan (Amway), e muitos mais dos cidadãos mais ricos da nação. Eli Broad está financiando um programa para colocar metade dos estudantes em Los Angeles (o segundo maior distrito escolar da nação) em carteiras administradas de forma privada.

A Walton Family Foundation, por si só, gasta US $ 200 milhões anuais para charters, e reivindica o crédito por lançar uma de cada quatro charter school da nação. A família Walton de Arkansas vale cerca de US $ 130 bilhões, graças às lojas Walmart, e eles são veemente anti-União. Para eles, as charters constituem uma maneira conveniente de minar os sindicatos de professores, um dos últimos e maiores pilares do movimento sindical organizado. Bill Gates gastou pessoalmente o dinheiro para aprovar a legislação da patente charter em seu estado de origem de Washington. Três referendos estaduais sobre charters fracassaram em Washington e o quarto aprovou com menos de 1,5 por cento dos votos em 2012. O objetivo de Gates foi bloqueado, no entanto, quando o mais alto tribunal do estado decidiu que as charter schools não são escolas públicas porque seus conselhos não são eleitos. Na eleição recente, Gates e seus aliados apoiaram opositores que disputaram contra os juízes da Suprema Corte estadual que decidiram contra o financiamento público de charter schools privadas, mas os eleitores os reelegeram.


Dada a quase total ausência de informação pública e debate sobre o esforço furtivo de privatizar as escolas públicas, este é o momento certo para o surgimento de dois novos livros sobre o assunto. Samuel E. Abrams, um professor e administrador veterano, escreveu uma análise elegante do funcionamento das forças do mercado na educação em seu livro Education and the Commercial Mindset. Abrams é agora diretor do Study of Privatization in Education no Teachers College, Columbia University. O outro livro, School Choice: The End of Public Education?, foi escrito por Mercedes K. Schneider, um professor do ensino médio em Louisiana com um doutorado em métodos de pesquisa e estatística que deixou o ensino universitário para ensinar adolescentes.

Education and the Commercial Mindset analisa com profundidade a história do Projeto Edison, um ambicioso plano de negócios criado pelo empresário Chris Whittle. Whittle anunciou seu programa em 1991 no National Press Club em Washington, D.C. Ele disse que pretendia revolucionar a educação pública, abrindo uma cadeia de escolas privadas em toda a nação em que a taxa de matrícula seria menor do que o custo do governo das escolas públicas, mas o desempenho dos alunos seria superior. As escolas conteriam custos, colocando os alunos para trabalhar como tutores, auxiliares de escritório e funcionários da cafeteria. As escolas teriam as últimas tecnologias e estariam abertas oito horas por dia, onze meses por ano. "Whittle previu um crescimento dramático: 200 escolas com 150.000 estudantes em 1996 e 1.000 escolas com 2 milhões de estudantes até 2010." O Projeto Edison supunha ser a vanguarda de uma emergente nova industria da educação. Whittle voltou-se para investidores privados para levantar os US $ 2,5 a US $ 3 bilhões que ele disse que precisava para os investimentos iniciais.

A premissa não dita do Projeto Edison era que o Congresso autorizaria vouchers para a matrícula dos estudantes. Sem vouchers, o plano não funcionaria. Por que os pais pagariam US $ 8.000 para enviar seu filho para uma escola Edison quando eles poderiam ir para a escola pública local de graça? Whittle prometeu transformar a educação em um negócio e medir o aprendizado dos alunos com precisão, assim como a Federal Express controla seus pacotes. Ele convidou Benno Schmidt, que era o presidente da Universidade de Yale, para ser o CEO do Projeto Edison, e ele reuniu uma "equipe de design" de sete pessoas para planejar o currículo e o programa do protótipo da escola, apenas um dos quais já tinha sido um educador K-12, aponta Abrams.

Whittle imediatamente encontrou dois bloqueios. O Presidente George H.W. Bush foi derrotado por Bill Clinton em 1992, e não haveria vouchers para os estudantes pagarem pelas escolas Edison. Quando Whittle começou a levantar o dinheiro dos investidores, suas expectativas de bilhões começaram a se desfazer. A Time Warner investiu US $ 22,5 milhões; a Phillips Electronics of Holland investiu US $ 15 milhões; um grupo de jornal britânico acrescentou US $ 14,4 milhões; e Whittle e seus amigos acrescentaram US $ 8,1 milhões. Isso era menos de 10% do que ele esperava.

Whittle abandonou o plano original de abrir escolas privadas e passou a subcontratar dos distritos escolares locais para dirigir escolas problemáticas e charter schools. Por um tempo, isso parecia promissor. Em 1999, Edison operava sessenta e uma escolas com 37.500 estudantes em dezessete estados. Naquele ano, recebeu quase US $ 250 milhões de investidores, e se tornou aberta. Suas ações abriram a US $ 18 por ação; dois anos mais tarde, negociou em $ 38.75 por ação. Merrill Lynch ficou otimista sobre o futuro da privatização educacional, prevendo uma indústria prospera e rentável. Analistas independentes previam que Edison seria o McDonald's da educação.

Mas à medida que se expandia, Edison enfrentava dois problemas persistentes: não conseguiu os lucros previstos e não conseguiu o resultado em desempenho previsto. Whittle continuou a prometer que os resultados precisavam de apenas alguns anos de espera. As margens de lucro eram tão finas que Edison se voltou para filantropos favoráveis ​​à privatização para subsidiar suas operações. Ser uma empresa de capital aberto criou outros problemas para a Edison. Quando analistas financeiros revelaram que a Edison estava exagerando suas receitas, suas ações caíram para US $ 1,01 por ação no final de junho de 2002.

Edison teve um caminho difícil em Baltimore, onde perdeu eventualmente seu contrato para controlar escolas. E teve uma situação ainda mais difícil na Filadélfia. O governador da Pensilvânia, Tom Ridge, deu a Edison um contrato de US $ 2,7 milhões para estudar as necessidades do distrito. Sua maior necessidade era dinheiro; o distrito em grande parte negro e pobre foi dramaticamente sub-financiado pelo Estado (e ainda é). Edison esperava que fosse contratado para administrar o distrito, bem como para controlar quarenta e cinco escolas. Em vez disso, a experiência de privatização encontrou um muro de oposição por grupos de direitos civis locais, clérigos e sindicatos de professores. Edison não ganhou o contrato para dirigir o distrito, e tomou a carga de somente vinte escolas.

Enquanto Edison estava lutando contra manifestantes na Filadélfia, funcionários da escola na Geórgia, Texas, Massachusetts e Michigan encerrou contratos com o Edison antes da hora por causa do desempenho sem brilho. Com cada revés, o preço das ações do Edison caiu. Em outubro de 2002, caiu para catorze centavos por ação e quase foi retirada da lista pelo NASDAQ. Em julho seguinte, a empresa deixou de ser aberta, comprando de volta suas ações. Ele voltou sua atenção para a obtenção de lucros na pós-escola e programas de verão, bem como serviços como desenvolvedor profissional e software de computador.

O sonho de Whittle de revolucionar a educação pública americana aplicando a disciplina de mercado acabou. Em 2012, a equipe de Edison arrecadou US $ 75 milhões em financiamento privado para abrir escolas privadas de elite com fins lucrativos em todo o mundo, com o objetivo de [abrir] vinte campi. Sua primeira escola, Avenues, foi aberta no bairro Chelsea da cidade de Nova York em um grande espaço renovado a um custo de US $ 60 milhões, com a mais recente tecnologia e um pessoal contratado de algumas das melhores escolas privadas do país. Por razões inexplicáveis, Chris Whittle saiu deste empreendimento na primavera de 2015.

Donald Trump com alunos e educadores da Cleveland Arts and Social Sciences Academy, uma escola charter com fins lucrativos, antes de dar um discurso sobre a escolha da escola, setembro de 2016. Créditos. Evan Vucci/AP Images:


Abrams também volta-se para o Knowledge Is Power Program (KIPP), uma importante cadeia de fretamento que opera como uma organização sem fins lucrativos. Ele tem duzentas escolas em todo o país, que na maioria das vezes obtêm notas altas em testes padronizados. Graças à lei do Presidente George W. Bush, No Child Left Behind, o teste padronizado é considerado a única medida de educação, embora tais testes sejam pobres proxies para uma educação genuína. As escolas do KIPP impõem padrões comportamentais estritos e ensinam o cumprimento incontestável. Elas são chamados de escolas "sem desculpas", uma vez que não pode haver "nenhuma desculpa" para o fracasso. Muitos outros charters tentam replicar os métodos KIPP e pontuações em testes. A desvantagem de escolas como as do KIPP, aponta Abrams, é que elas têm alta rotatividade com o esgotamento dos professores, e altos índices de atrito, à medida que os alunos saem e não conseguem satisfazer suas expectativas.

KIPP também tem uma grande vantagem financeira. Em 2011, mostra Abrams, o KIPP arrecadou quase US $ 130 milhões para complementar o financiamento federal, estadual e local. Isso equivale a um adicional de $ 3.800 por aluno, em comparação com as escolas públicas. O KIPP continua a ser o destinatário de grandes doações de fundações simpatizantes da privatização. Os filantropos aparentemente acreditam que uma disciplina rígida permitirá que as crianças pobres obtenham as atitudes e os valores para sair da pobreza. No entanto, um estudo recente sobre os graduados das charter schools do Texas pelos economistas Will Dobbie e Roland Fryer - ambos apoiadores da "escolha" - descobriram que esses jovens não obtiveram nenhuma vantagem nos ganhos pós-escolares.

Abrams analisa a experiência da Suécia e do Chile, que abraçou a privatização das escolas sob a liderança conservadora. Em ambos os países, o desempenho escolar diminuiu, e a segregação por raça, classe, religião e renda cresceu. O resultado da escolha da escola não foi o aumento da qualidade escolar, mas o aumento da desigualdade social.

Em seus capítulos finais, Abrams nos mostra a Finlândia como uma nação que escolheu um caminho diferente e evitou escolhas escolares. Ela tem bom desempenho em testes internacionais, mesmo que seus alunos raramente encontrem testes padronizados. Seu objetivo nacional é fazer de cada escola uma boa escola. O ensino é uma profissão altamente respeitada, que exige cinco anos de educação e preparação. Enquanto muitas escolas americanas abandonaram o recesso para ganhar mais tempo para testes, escolas finlandesas oferecem recesso após cada aula. Enquanto os estudantes americanos começam a aprender suas letras e números no jardim de infância ou mesmo no pré-jardim de infância, os estudantes finlandeses não começam a instrução formal na leitura e na matemática até que alcancem a idade de sete. Até então, o foco na escola está em jogo. As escolas enfatizam a criatividade, a alegria na aprendizagem, as artes e a educação física. A pobreza infantil é baixa e as crianças recebem cuidados médicos gratuitos. Os professores têm autonomia para elaborarem seus próprios testes. Os críticos dizem que a sociedade americana é muito diversa para copiar uma nação que é homogênea, mas é difícil entender por que a diversidade racial e social anula o valor de qualquer coisa feita nas escolas finlandesas para tornar as crianças mais saudáveis, felizes e mais engajadas na aprendizagem.


O livro de Mercedes Schneider examina as contradições da escolha da escola, que é agora o grito de guerra para aqueles que se chamam reformadores. Ela documenta a história dessa ideia, começando com o ensaio de 1955 do economista Milton Friedman, que defende os cupons escolares. Apareceu por acaso no imediato rescaldo da decisão da Suprema Corte dos EUA contra Brown v. Conselho de Educação declarando a segregação racial legalmente sancionada inconstitucional. Se os políticos brancos do sul leram ou não Friedman, o fato é que eles se transformaram nos principais proponentes da escolha da escola. Depois de um período de insistência em que eles diziam que nunca iriam cumprir com a decisão de Brown, eles se tornaram defensores abertos da escolha da escola, esperando que as crianças brancas ficassem em escolas totalmente brancas e crianças negras ficassem com medo de procurar admissão nas escolas brancas. A escolha da escola foi sua estratégia para evadir a segregação.

Schneider relata a ideia original de charter schools, como foi desenvolvido pela primeira vez em 1988 por Albert Shanker, presidente da Federação Americana de Professores, e Ray Budde, professor da Universidade de Massachusetts. Esperavam permitir maior participação dos professores na tomada de decisões e menos burocracia. Shanker usou sua plataforma nacional para propor charter como escolas dentro da escola, equipadas por professores sindicalizados, livres para tentar novos métodos para educar alunos relutantes e desinteressados e incentivados a compartilhar o que aprenderam com a escola pública de acolhimento. Em 1993, Shanker percebeu que sua ideia tinha sido adaptada por empresas que pensavam que poderiam administrar escolas públicas e lucrar. Nesse ponto, Shanker renunciou às charters e declarou que eram uma ameaça para as escolas públicas, como os vouchers.

O primeiro estado a aprovar a legislação sobre charter foi Minnesota em 1991. O que começou como uma medida bipartidária logo se tornou algo central dos políticos conservadores, que perceberam que eles poderiam substituir "escolas públicas" pelaa gestão privada e, ao mesmo tempo, livrar-se de sindicatos. Como resultado do estímulo financeiro do programa Race to the Top do presidente Obama, quase todos os estados agora autorizam charter school privadas. Em alguns estados, como Nevada e Ohio, charter schools estão entre as escolas de menor desempenho no estado. Poucos desses estados estabeleceram qualquer processo de supervisão ou prestação de contas, de modo que milhares de charters surgiram, desregulamentadas e sem responsabilidade perante as autoridades públicas. Em Michigan, cerca de 80 por cento das charters operam com fins lucrativos. Em geral, elas não funcionam melhor do que as escolas públicas, e de acordo com uma pesquisa de um ano realizada pela Detroit Free Press, elas compõem uma indústria publicamente subsidiada US $ 1 bilhão por ano, sem responsabilização.

Schneider documenta o estímulo fornecido pelas administrações de George W. Bush e Barack Obama para o crescimento da indústria charter. E segue o rastro do dinheiro, mostrando os milhões derramados na proliferação de charters pelos Waltons e por outros bilionários. Os defensores das charters dizem que eles apoiam as charters porque querem "resgatar" alunos pobres e pertencentes a minorias de escolas públicas "que fracassam". Walmart sozinho emprega um surpreendente 1,4 milhões de pessoas nos Estados Unidos, a muitos dos quais são pagos menos do que o salário mínimo. O Waltons causa um impacto mais dramático sobre o bem-estar das crianças, pagando aos seus trabalhadores um salário mínimo de US $ 15 por hora, do que causa abrir ao charter schools e enfraquecendo as escolas públicas da comunidade.


Por que Wall Street está disposta a gastar milhões de dólares para promover charter schools? Como Schneider mostra, charters podem ser um negócio muito rentável. Ao contrário do Projeto Edison, que primeiro apostou em vouchers, e então entrou em contratos com distritos escolares para administrar escolas públicas de baixo desempenho, as charters recebem dinheiro público, e elas começam do começo, livres para excluir os alunos que não querem. Estas são enormes vantagens.

Os lucros vêm em muitas formas. Primeiro, há créditos fiscais federais para aqueles que investem em charter schools. Sob o New Markets Tax Credit, os investidores em construção de charter schools podem receber um crédito fiscal federal de 39 por cento ao longo de sete anos. É um bom retorno. Investidores estrangeiros em charter schools podem ganhar vistos Eb-5 para si e suas famílias investindo em escolas charter. Os operadores de chartes desenvolveram um truque limpo em que compram um edifício, alugam para si próprios em valores elevados, e ficam ricos com seus bens imobiliários. Outros administradores de charters, empresários e advogados, abrem charter schools e fornecem todos os bens necessários e serviços para as escolas, cobrando milhões de dólares em lucros. O ex-tenista Andre Agassi entrou em uma lucrativa parceria com um investidor de capital para construir e abrir charter schools em todo o país, embora a charter schools de Las Vegas que leva seu nome seja uma das escolas de menor desempenho no estado de Nevada.

Com tanto incentivo para ganhar dinheiro e tão pouca regulamentação ou supervisão, a fraude e o enxerto são inevitáveis. Apenas no verão passado, o fundador da Pensilvânia Cyber Charter School admitiu que tinha roubado US $ 8 milhões da empresa para seu próprio uso. Cyber charters são surpreendentemente lucrativos e não supervisionados. A maior delas, a K12 Inc., foi fundada pelo ex-financista Michael Milken e está listada na Bolsa de Valores de Nova York. Seus resultados acadêmicos são pobres, mas é muito rentável. Cada aluno recebe um computador e um professor on-line. A empresa cobra a taxa de matrícula completa do estado, mesmo que não tenha nenhuma das despesas de uma escola real, como guardas, transporte, uma biblioteca, um assistente social, jardineiros, aquecedor ou outros utilitários.

Uma charter cibernética com fins lucrativos em Ohio - a Electronic Classroom of Tomorrow (ECOT) - é conhecida por seu desempenho muito ruim. Tem a taxa de graduação mais baixa de qualquer escola secundária na nação (20 por cento), e recentemente lutou no tribunal e perdeu, tentando impedir o estado de auditar suas taxas de freqüência, que foram grosseiramente infladas. O estado agora está tentando recuperar pelo menos US $ 60 milhões da escola para os alunos que nunca fizeram logon em seus computadores domésticos. O proprietário do ECOT é um dos maiores doadores do estado para funcionários eleitos que controlam o governo estadual e, até agora, nunca foi responsabilizado pelo não comparecimento ou pela qualidade da educação que oferece.

Schneider escreve que a maior ameaça representada pela escolha da escola é a "destituição sistemática da escola pública administrada pela administração local em favor de charter schools sub-reguladas". Embora a maioria das charter schools sejam tecnicamente sem fins lucrativos, ele acredita que o motivo de lucro é o principal motor por trás do movimento charter. Ela oferece uma proposta simples para aqueles que querem parar a "acepção de charter schools" e resistir ao "desperdício parasita do dinheiro dos contribuintes em nome da escolha de charters".

Sempre que uma charter school falhar por causa de um escândalo financeiro, ela propõe, a escola deve perder sua autorização e ser restaurada para o distrito escolar local. Se a charter falhar em cumprir suas promessas acadêmicas, ou se houver uma população estudantil que não é típica de sua vizinhança, ela deve ter mais uma chance, e então perder sua autorização e ser devolvida à diretoria escolar local se falhar novamente. Um recomeço apenas.

No momento, os defensores da escolha da escola têm a vantagem porque eles são apoiados por algumas das pessoas mais ricas da nação, cujas doações de campanha lhes dão uma voz desmesurada na formulação de políticas públicas. A questão que o público americano deve resolver nas eleições locais e estaduais, bem como nas eleições nacionais, é se os eleitores preservarão e protegerão o sistema escolar público, ou permitirão que ele seja atacado e controlado pelo um por cento e pelas elites financeiras.

Como demonstram estes dois excelentes livros, não há evidência da superioridade da privatização na educação. A privatização divide as comunidades e diminui o compromisso com o que chamamos de bem comum. Quando existe um sistema de ensino público, os cidadãos são obrigados a pagar impostos para apoiar a educação de todas as crianças da comunidade, mesmo que não tenham filhos nas próprias escolas. Investimos na educação pública porque é um investimento no futuro da sociedade.

Como o recente retorno das eleições estaduais em Massachusetts, Geórgia e Estado de Washington sugerem, a maré pode estar se voltando contra a privatização na medida em que o público reconhece o que está em jogo. Esta mudança da opinião pública foi certamente avançada pela NAACP nacional em outubro, que pediu uma moratória sobre novas charter schools até que sejam mantidas com os mesmos padrões de transparência e prestação de contas que as escolas públicas, até que elas parem de expulsar os alunos que as escolas públicas são obrigados a educar, até que deixem de segregar os alunos mais bem sucedidos de outros, e até que "os fundos públicos não sejam desviados para as charter schools em detrimento do sistema de ensino público".

Quaisquer que sejam as suas falhas, o sistema escolar público é uma marca distintiva da democracia, de portas abertas a todos. É uma parte essencial do bem comum. Deve ser melhorado para todos os que atende e paga por todos. A privatização de partes dela, como Trump quer, minará o apoio público e não proporcionará nem equidade nem melhor educação.

De chefe de Estado a escritor, transição sem trauma de Fidel

Este artigo foi publicado originalmente em counterpunch em agosto de 2013.

por Nelson P. Valdés

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Em 13 de agosto de 2013, Fidel Castro fez 87 anos. Ele está fora do poder desde que ficou muito doente em 2006 e se aposentou em 2008. Sete anos se passaram. A mídia mundial nos disse que Raúl Castro não tinha os meios para governar. E, no entanto, não houve nenhum desafio político ou social para a transição bem sucedida. De fato, Cuba tem sido mais estável do que muitos países da Europa. Além disso, a influência e a expansão dos laços com o mundo aumentaram. E Raúl Castro poderia até ter mais legitimidade do que o esperado.

Contrário à sabedoria convencional, Fidel está fazendo muito bem também - considerando sua idade e os problemas médicos. O que é notável é que um líder carismático viveu o suficiente e conseguiu transferir seu poder/autoridade para as instituições. Isso é inédito, sociologicamente falando. Normalmente, governantes carismáticos morreram e outros tiveram que estabelecer um novo regime. O cenário imaginado promovido pelos meios de comunicação de massa, pelos think tanks norte-americanos e europeus e pelos governos estrangeiros foi: morte rápida, luta de poder no topo do poder, guerra civil, possível intervenção dos EUA e retorno ao ancien régime. Nada disso aconteceu. Os futurologistas anti-Castro não viram muito do futuro enquanto nos martelavam em relação à Cuba como um Parque Jurássico do Caribe e Fidel como o dinossauro em chefe.

Como é que os torsos falantes, redatores editoriais e pensadores iludidos poderiam estar tão enganados com uma publicação sobre Fidel ou uma publicação sobre a Cuba de Castro?

Uma razão básica é que não foi dada atenção aos desenvolvimentos reais na ilha. O pensamento e a mentira dominaram o debate. Em segundo lugar, não houve qualquer referência, então ou agora, ao fato de que Cuba tem instituições, uma história e uma cultura política. Em terceiro lugar, o quadro crítico que o cubano médio exibiu foi interpretado por pessoas de fora como significando que o "sistema totalitário" estava em declínio e em ruínas. Supunha-se que as críticas abertas, por si só, não eram permitidas e subversivas. No entanto, Raúl Castro clama muitas vezes o povo a criticar abertamente o que precisa ser mudado.

Embora seja reconhecido que os cubano-americanos são um dos pilares da economia cubana por meio de remessas; as implicações não foram totalmente compreendidas ou apreciadas. Assim, as próprias pessoas que se supunha serem os adversários tinham sido um fator importante na estabilização da sociedade da ilha.

Na verdade, o governo cubano está tão confiante que agora os cubanos têm permissão para viajar livremente para o exterior - algo que ao cidadão americano não é oferecido em troca. Além disso, as características sociais do antigo refugiado político econômico se transformaram em migrantes econômicos que se recusam a romper os laços com o país de origem.

O que tudo isso nos diz? Estávamos errados ao supor que o sistema político cubano estava simplesmente dependendo da personalidade de um homem, enquanto os milhões de cubanos estavam envergonhados. Assumimos que compreendemos a realidade e a dinâmica do sistema social, econômico e político - contudo, nem uma única e devaneada previsão de especialistas e jornalistas superou o teste do tempo.

A instituição da família cubana não parece reconhecer os limites políticos e ideológicos que se supunham limitá-la. Além disso, muitos assumiram nos Estados Unidos que o mundo compartilhou as opiniões e expectativas dos políticos e decisores políticos dos EUA sobre o que fazer em relação ao governo cubano; hoje nem mesmo o governo conservador do Partido Popular na Espanha se une aos EUA, nem à União Européia. Os votos anuais nas Nações Unidas demonstram esse erro.

De fato, Cuba avançou em seus laços com a esquerda, centro e governos conservadores na América Latina e em outros lugares. Os programas cubanos de assistência médica e educacional chegaram até Vanuatu e Timor Leste. Apenas algumas semanas atrás, os cubanos foram convidados a Suva, pelo secretário-geral do Fórum das Ilhas do Pacífico. Cuba é um membro líder como parceiro promotor do desenvolvimento econômico e social na região. Os cubanos, na verdade, são convidados a ajudar os paquistaneses, os sauditas, os hondurenhos e até mesmo os países europeus que querem lidar com a questão do analfabetismo. O programa Yo Si Puedo é encontrado em mais de 30 nações, incluindo México e Austrália.

Mas, e Fidel? Fidel continua a ter uma dupla influência - entre o público em geral e dentro das instituições que detêm o poder. Ele favorece um grupo contra outro? Duvidoso. De 1959 até o século XXI, a revolução cubana passou por muitas e diferentes fases. Mas Fidel liderou todas as reviravoltas. Conseqüentemente, se necessário, sempre se pode encontrar um comentário ou uma afirmação a favor ou contra: centralização, recompensas materiais, abertura ou fechamento de algo, para ou contra o igualitarismo. Seja qual for a facção, seu nome será usado para legitimar isso. Pois Fidel tem sido um homem de princípios, bem como um realista que compreendeu quando avançar e quando mudar. O governo dos Estados Unidos, no entanto, tem uma política sobre Cuba, independentemente do contexto e das circunstâncias.

Existem diferenças entre os dois irmãos? Mesmo antes de 1959 houve uma divisão de trabalho entre Fidel e Raul. Um deles se baseava na mobilização de massa, nos discursos carismáticos e na agitação. O irmão mais novo, por outro lado, tinha a responsabilidade de organização, a educação diária de revolucionários e de quadros - e mais tarde de burocratas. Tratava do público em geral e das organizações de massas; o outro preocupava-se com as organizações, a divisão do trabalho, o comando e o controle, e a eficiência. Cada um precisava do outro. O carisma e a rotinização, no caso cubano, têm trabalhado juntos. A nova Cuba que está emergindo busca eficiência, produtividade e preservação de ganhos sociais e nacionais.

Fidel Castro conseguiu representar e integrar o pensamento de José Martí e Simón Bolívar - líderes revolucionários do século XIX. O revolucionário cubano, com a ajuda de muitos, moldou uma política externa e um movimento nacional em torno do conceito fundamental de soberania nacional, mas desprovido de qualquer nacionalismo egocêntrico. Esta forma única de autodeterminação nacional incorporou outros países em pé de igualdade. De fato, a soberania nacional e a solidariedade tinham precedência sobre a ideologia. Cuba tem ajudado os países, apesar das diferenças econômicas e políticas que eles podem ter.

Hoje, Fidel pode comentar assuntos contemporâneos, mas não enuncia nem faz política - estrangeira ou doméstica. Surpreendentemente, ele manobrou bem em uma transição sem trauma. Quando ele morrer, é altamente duvidoso que haverá qualquer grande agitação; exceto um grande funeral com cubanos compartilhando seus sentimentos com representantes de todos os países e cantos do mundo.

Nem o sociólogo alemão Max Weber que escreveu sobre o carisma nem a CIA que tentou assassiná-lo, jamais imaginaram tal resultado. Em 2007, Saul Landau escreveu que "Fidel exala o mesmo senso de praticidade astuta - um abraço devastadoramente frio na realidade - combinado com um otimismo aparentemente inesgotável".¹ Mais recentemente, Landau acrescentou que a "coragem e a determinação de Fidel de mudar de vocação - de chefe de estado a escritor sábio" é original e inspirador.²

Notas:

¹ Saul Landau, “Filming Fidel: A Cuban Diary, 1968” Monthly review (New York), 1º de julho de 2007.

² Marta Rojas, “An interview with Saul landau” Progreso Weekly (Miami), 8 de setembro de 2010.

De Cuba para Gaza: Fidel, Presente!

por Julia Webb-Pullman

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

A morte de Fidel Castro é a de um bastião, não apenas de uma vida. Os valores que representou e os ideais pelos quais lutou e em muitas áreas conquistou, não morrerão com ele, mas continuarão a avançar, não só em Cuba, mas em todos os lugares.

Fidel não era motivado por dinheiro ou poder, mas por uma busca insaciável por justiça social e dignidade humana. Ele percebeu que a própria essência humana estava no centro de qualquer luta revolucionária, como José Martí antes dele.

Martí, pai da independência cubana, e luz orientadora do processo revolucionário cubano, disse em 1882:

“Tempos desprezíveis: quando a única arte que prevalece é a de empilhar os próprios celeiros, sentados em um assento de ouro e vivendo todos em ouro, sem perceber que a natureza humana nunca variará e o único resultado de cavar ouro externo é viver sem ouro dentro!”

A prática de poder de Fidel, baseada em princípios, assentava na supremacia do ser humano em vez de materialista.

O serviço de inteligência dos EUA informou que Castro:

“... atribui especial importância à manutenção de uma política externa ‘com princípios’ ... e sobre questões de importância fundamental, como o direito e o dever de Cuba de apoiar os movimentos revolucionários nacionalistas e os governos amigáveis ​​no Terceiro Mundo, Castro não permite nenhum comprometimento dos princípios por razões de conveniência econômica ou política.”

Fidel percebeu que somos humanos somente na medida em que reconhecemos e apoiamos a humanidade dos outros e que não há fronteiras para a humanidade - todos nós estamos interligados e temos que reconhecer e agir com a nossa humanidade comum não apenas no nosso próprio país, mas com outras pessoas em todos os lugares.

A conversão de uma base naval russa em uma escola de medicina que treinou centenas de médicos de dezenas de países ao redor do mundo e apoiou as lutas de liberdade no Congo, Palestina e Angola confirmam esta abordagem totalmente baseada em princípios.

Com a Faixa de Gaza sob o assédio israelense, Fidel Castro não escolheu o bloqueio norte-americano de Cuba, que causou dificuldades imensuráveis ​​ao povo cubano e danos imensuráveis ​​à sua economia.

Apesar deste bloqueio, rejeitado pela esmagadora maioria do mundo como demonstram as sucessivas votações das Nações Unidas, Fidel Castro liderou seu país através de quase 50 anos de progresso social e político que de alguma forma beneficiou cada cidadão cubano, analfabetos, doentes e afetados por catástrofes em numerosos outros países.

Além, contra todas as probabilidades, Fidel Castro liderou seu país e seu povo através de um "período especial", quando poucos esperavam que Cuba sobreviveria, em condições muito piores do que aquelas que derrubaram muitos regimes menores.

A razão pela qual Fidel Castro sobreviveu como Presidente, que ele e seu país passaram por dificuldades tão sem precedentes, é que ele tinha o apoio da grande maioria dos cubanos. Por quê?

Não era apenas que ele permanecesse firme contra o imperialismo, independentemente do custo, sendo por vezes o único líder mundial a fazê-lo. Foi também por causa da humanidade do homem, sua empatia pelos vulneráveis, os pobres e os sofredores, e seu compromisso de lutar pela dignidade de todos.

Alguns exemplos simples, mas pouco conhecidos da vida diária: Fidel fez como uma de suas primeiras ações a criação de sorveterias no meio das grandes cidades, com preços subsidiados, para que cada família pudesse ter recursos para levar seus filhos lá para um deleite.

Outro era garantir um bolo de aniversário do estado para cada criança até seis anos - uma magnífica confecção coberta de gelo que se vê quase diariamente em Havana sendo entregues em bicicleta, moto ou a pé.

Para aqueles toques muito pessoais podem ser adicionados os numerosos avanços populacionais em educação, saúde e outras áreas que serão, sem dúvida, cobertas por outros.

Mas para mim é a humanidade de Fidel, o seu reconhecimento de que a essência da luta contra a injustiça é a verdadeira consciência de nós mesmos e dos outros, que é o seu maior legado.

"Estamos ganhando a batalha pelas idéias... Eles descobriram 'armas inteligentes', mas descobrimos algo mais poderoso, ou seja, a ideia que os humanos pensam e sentem", disse Fidel em 1999 em Caracas.

Este é o "ouro interior" que Fidel dedicou a sua vida à descoberta e à transmissão.

Embora a morte de Fidel seja sem dúvida uma grande perda para Cuba e para o mundo, este bastião está sendo levado por aqueles em todos os lugares que acreditam que um mundo melhor para todos é possível.

Já chegou em Standing Rock. Fidel, presente.

Hasta Siempre, Fidel Castro

por Marc Becker

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

A morte de Fidel Castro é um desses eventos que destaca uma profunda divisão que separa os Estados Unidos da maior parte do mundo.

Enquanto os principais meios de comunicação nos Estados Unidos relatam desde a linha de frente de Miami, onde exilados celebram nas ruas a morte de quem eles caracterizam como um ditador autoritário, pêsames e tributos fluem do resto do mundo para o líder revolucionário.

Castro era um "ditador brutal", como o presidente eleito Donald Trump twittou, ou um herói?

Depende, naturalmente, da nossa perspectiva.

Aqueles que deixaram Cuba depois da revolução de 1959 se beneficiaram de um sistema político desigual, repressivo e excludente. Mais de meio século depois, eles ainda sonham em retornar às suas vidas de luxo e privilégio.

Castro, em contraste, liderou sua revolução em favor dos oprimidos que não tinham ganho com esse sistema.

Uma vez no poder, Castro liderou uma transformação da sociedade cubana. Ele acreditava que a propriedade não deveria ser vista como um direito, mas deveria servir a uma função social. O governo nacionalizou indústrias de propriedade estrangeira, expropriou grandes propriedades e distribuiu terras a camponeses. Os revolucionários quiseram refazer o país para que os recursos da ilha beneficiassem o povo cubano e não as empresas capitalistas estrangeiras.

O resultado dessas políticas revolucionárias foi uma redistribuição radical da riqueza. O novo governo revolucionário reduziu os aluguéis e as utilidades, e prestou serviços sociais gratuitos ao público. Os salários dos trabalhadores aumentaram 40 por cento, o poder de compra subiu 20 por cento, e o desemprego desapareceu quando todo mundo teve assegurado um emprego.

O governo transformou os quartéis militares em escolas e hospitais. Uma campanha de alfabetização enviou estudantes para o campo para ensinar quase um milhão de pessoas a ler e a escrever. A campanha elevou os níveis de alfabetização de 76% antes da revolução para 96% em 1962, o maior da América Latina e um nível que rivalizava com o dos países industrializados ricos.

Todas as escolas cubanas eram agora públicas e gratuitas, assim como os cuidados de saúde. Pela primeira vez em suas vidas, muitos cubanos foram capazes de ver um médico. O governo também abriu praias privadas e clubes sociais para o público em geral.

Cuba era para os cubanos - não para uma pequena classe dominante rica, e especialmente para os estrangeiros.

A disposição de Fidel Castro em se defender dos Estados Unidos lhe valeu respeito e admiração em toda a América Latina. O sofrimento prolongado sob o polegar imperial de seu vizinho ao norte, os apelos de Castro ao nacionalismo e ao anti-imperialismo lhe rendeu o apoio através do hemisfério, mesmo daqueles que poderiam não suportar de outra maneira sua ideologia comunista.

Cuba se uniu à causa dos movimentos revolucionários e anticoloniais em todo o mundo. Particularmente na África, os cubanos apoiaram a Frente de Libertação Nacional da Argélia na sua luta contra o colonialismo francês, uma luta revolucionária no Congo e a independência angolana que levou ao fim do apartheid na África do Sul.

Não é de admirar que as pessoas em grande parte do mundo admiravam os revolucionários cubanos e queriam imitar seus sucessos em seus próprios países.

Por causa desses ganhos e do que representa a Revolução Cubana, agora declaramos, Hasta Siempre, Fidel Castro!

28 de novembro de 2016

Fidel Castro: líder revolucionário carismático que desafiou as probabilidades

Este obituário é adaptado de um verbete sobre Castro por Peter Mayo na Enciclopédia do Pensamento Político Moderno, CQ Press (Sage), 2013.

por Peter Mayo

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Fidel Alejandro Castro Ruz (90), falecido na semana passada, era filho de um imigrante espanhol da Galícia, Espanha. Uma personalidade mundial significativa na segunda metade do século XX, Castro era considerado, ame-o ou odeio-o, como um excelente lutador, atleta, estrategista e orador (alguns de seus discursos duraram horas). Ele é amplamente considerado como tendo sido dotado de extraordinária inteligência. Ele também viveu uma vida encantada, tendo evitado a bala em numerosas ocasiões. Há relatos de inúmeros atentados contra sua vida envolvendo o planejamento da CIA.

Depois de ter sido educado no colégio De Lasalle em Santiago de Cuba, depois por jesuítas no Colegio de Dolores na mesma cidade e no Colegio de Belen, Castro se formou na Universidade de Havana como advogado e passou a se tornar o arquiteto carismático de uma revolução que derrubou o regime ditatorial de Fulgencio Batista e estabeleceu um Estado socialista. Ele manteve o poder até recentemente, quando as rédeas presidenciais foram entregues a seu irmão Raul Castro, agora com 85 anos, que prometeu demitir-se em 2018. Enquanto estudante na escola e universidade, Fidel Castro se destacou no esporte, mas também estava envolvido em ativismo política muitas vezes em apoio ao partido ortodoxo liderado por Eduardo Chibás. A situação era volátil. Mortes ocorreram e gangues de estudantes desempenharam um papel proeminente.

Em 1947, ele participou de uma expedição fracassada para derrubar o ditador da República Dominicana, Rafael Leonidas Trujillo Molina. Enquanto participava de um congresso estudantil no ano seguinte, ele estava envolvido em um levante em Bogotá, na Colômbia, conhecido como o "bogotazo". Em um país que era praticamente um playground americano e bem conhecido por interesses da máfia, Castro logo se esforçou para mudar o status quo representado pelo regime de Batista. Juntamente com outros, incluindo seu irmão Raul, ele encenou um ataque abortivo no Quartel Moncada com vista a pavimentar o caminho para uma revolução. A data era 26 de julho de 1953, que era para se tornar um momento importante; Castro insistiria mais tarde em que fosse identificado como o início da revolução cubana. O ataque falhou e Castro, juntamente com muitos outros, foi apanhado e preso. Enquanto alguns de seus companheiros foram executados, Castro foi preso por quinze anos. Ele teve muita sorte em que o Tenente que o tomou prisioneiro, Pedro Sarria, simplesmente se recusou a mandar fuzilá-lo ou a entregar ao comandante do quartel que de outra forma o teria matado depois de tê-lo submetido à tortura mais horrível, ao tipo de tortura mencionado nas cartas da prisão de Castro.

Enquanto estava na prisão, Castro escrevia um formidável tratado: "A História me absolverá", sua autodefesa no julgamento que, mais tarde, teria ampla circulação por toda a Cuba. Ele leu vorazmente e ajudou a montar uma escola na prisão. Foi libertado em 1955 como resultado de uma anistia e finalmente foi ao México onde conheceu o médico argentino convertido em revolucionário, Ernesto "Che" Guevara. Um número de potenciais revolucionários cubanos e outros se juntaram ao seu movimento clandestino - o Movimento 26 de Julho. Viajando para Cuba a bordo de um velho iate, o Granma, este grupo de revolucionários desembarcou na ilha em 2 de dezembro de 1956. Eles foram organizados em diferentes colunas. Eles foram dispersos pela ação inimiga e muitos perderam suas vidas. Do grupo original de 82, apenas onze permaneceram e retiraram-se para a Sierra Maestre, de onde lançaram seus ataques. Gradualmente, seu número aumentou à medida que mais moradores se juntaram às suas fileiras. Seguindo a capturas de diferentes localidades, Castro e seus companheiros finalmente marcharam em Havana em 8 de janeiro de 1959. Nessa época, Batista havia fugido do país. Fidel foi nomeado primeiro Comandante das Forças Armadas e depois Primeiro-Ministro. Uma reforma agrária foi logo posta em prática, que separou grandes propriedades para redistribuição entre camponeses, alguns dos quais organizados em cooperativas.

Depois de ter visitado os EUA, Castro assinou um acordo comercial com a União Soviética. Seguiu-se uma série de sanções pelos EUA, especialmente após a liquidação de muitos de seus ativos cubanos e a nacionalização de várias de suas refinarias de petróleo. Quando em NYC para se dirigir à ONU, Castro e a delegação cubana ficaram no Harlem, onde foram estabelecidas ligações entre a luta cubana e a dos oprimidos em outras partes do mundo, especialmente os afro-americanos. Os Estados Unidos romperam as relações diplomáticas com Cuba e também planejaram, por intermédio da CIA, em conjunto com exilados cubanos e patrões da máfia, uma invasão, com um desembarque desastrado na Baía dos Porcos. Foram realizados inúmeros atentados contra a vida de Castro.

Com Cuba virando mais fortemente para a órbita soviética, conflitos com os EUA vieram à tona, especialmente quando Khrushchev foi autorizado a implantar mísseis na ilha ameaçando a Flórida, em retaliação aos mísseis dos EUA na Turquia e outros lugares ameaçando a União Soviética. Esta situação tensa foi resolvida pelas duas superpotências por trás das costas de Castro. O presidente dos EUA, John Fitzgerald Kennedy, havia ordenado o bloqueio econômico de Cuba, que foi mantido até muito recentemente e até mesmo consolidado após o colapso da URSS em 1991. Castro também rompera relações com a Igreja Católica por causa de suas supostas conexões com o regime de Batista, mas a situação com o Vaticano descongelou significativamente no final dos anos 90, marcada pela visita do Papa João Paulo II ao país. Naquele momento a Igreja tinha sido permitida de volta. Apesar de todas as dificuldades econômicas, o país, sob Castro, conseguiu grandes avanços em educação, medicina, ciência, esporte, relações de intercâmbio internacional e desenvolvimento sustentável.

A revolução cubana serviu como uma promissora fonte de esperança não só para os povos empobrecidos da América Latina, mas também para o resto do Mundo Tricontinental. O termo foi usado em 1960 durante a visita de Castro à ONU e posteriormente ao Harlem em Nova York. A noção de "tricontinental" de Castro se aplicava às populações exploradas e colonizadas da América Latina, Ásia e África. Uma conferência tricontinental foi realizada em Havana em 1966. Ofereceu uma versão militante da aliança do "terceiro mundo" contra os projetos imperialistas ocidentais, uma aliança que deve sua origem à Conferência de Bandung, realizada onze anos antes. O termo "tricontinental" captou uma característica significativa da revolução cubana - seu ethos internacional de cooperação e solidariedade "Sul-Sul". Cuba desempenhou um papel significativo no desmantelamento do Apartheid na África do Sul, um ponto que Nelson Mandela sublinhou. A visão radical de Cuba de "tricontinental" não foi, no entanto, determinada apenas por fronteiras geográficas. A ligação com a situação dos afro-americanos sugere que Castro e seus colaboradores estavam plenamente conscientes da existência do "terceiro mundo" no "primeiro mundo". Em 2004, Castro ofereceu ajuda aos "miseráveis ​​e oprimidos" dos EUA. Os americanos oprimidos, nessa ocasião, eram os empobrecidos de Nova Orleans.

Isso ocorreu logo após o furacão Katrina. Castro ofereceu-se para dar acesso à provisão sem fim de médicos e profissionais de saúde de alta qualidade para ajudar aqueles cuja casa e comunidades foram devastadas pela tempestade. Alguns interpretaram o gesto humanitário como o último insulto de Castro a seu poderoso vizinho; e, de fato, os líderes americanos devem ter considerado isso, recusando prontamente a oferta. Este gesto foi interpretado como sinalizando o compromisso de Cuba com o sul global, definido amplamente. Sob a liderança de Castro, Cuba colocou suas instalações educacionais e médicas ao serviço não só de seu próprio povo e celebridades, mas também do povo comum da África, Ásia e muitas outras partes do mundo. Surgiu uma série de acordos bilaterais, trilaterais ou multilaterais no contexto da cooperação Sul-Sul, o que contrastava com os modelos mais globais e dominantes de relações hierárquicas Norte-Sul, muitas vezes denunciadas pela manutenção de colônias antigas em colônias. Como exemplo desse processo de "desvinculação", o petróleo venezuelano a preços baixos e taxas de juros foram trocados, durante os anos de Chávez e Maduro, por professores, médicos e trabalhadores da saúde cubanos. Cuba tinha professores venezuelanos de alfabetização treinados no método pedagógico "Si, yo puedo" criado pela educadora cubana Leonela Realy. Como resultado, Cuba ajudou o governo da Venezuela a capacitar um milhão e meio de pessoas a aprender a ler e a escrever. Há aqueles que expressaram preocupações de direitos civis sobre se o pessoal qualificado escolhido para essas trocas tinha a opção de recusar atribuições de trabalho no exterior.

Como a Nicarágua mais tarde, Cuba foi forçada a lutar contra obstáculos esmagadores em seus esforços para servir como um modelo revolucionário para outros países dentro da esfera de influência intercontinental dos EUA nas Américas. Apesar de tudo isso, Cuba registrou realizações notáveis, especialmente em saúde preventiva e educação. A Universidade de Havana, embora não seja reconhecida no alto escalão do agora amplamente referido ranking universitário mundial, tem uma escola de medicina que é considerada entre as melhores do mundo. Muitos estudantes ambiciosos da antiga colônia britânica do Caribe dizem-se esforçar-se duramente para aprender o espanhol a fim ganhar a admissão a esta escola.

O mesmo se aplica aos centros de ciência de Cuba, um deles elogiado, no final dos anos 80, como uma instituição de pesquisa notável de seu tipo. Em 2000, o ex-campeão argentino de futebol Diego Armando Maradona, como outros, escolheu ir a Cuba para a reabilitação de uma doença que ameaçava a sua vida, relacionada a drogas.

Segundo um relatório da WWF (World Wildlife Federation) de 2006, Cuba é o único país do mundo com desenvolvimento sustentável. Combinou elevados padrões de desenvolvimento humano (altos índices de alfabetização e saúde) com baixa pegada ecológica; isto inclui a taxa de eletricidade consumida e o dióxido de carbono emitido per capita. Ao fazer uso de carros antigos e outros produtos, que são podem funcionar graças a alguns mecânicos e técnicos soberbos, a Cuba de Castro tem militado contra a "ideologia da cultura de consumo" em que predomina a obsolescência com seus devastadores efeitos planetários.

Algumas organizações contrariam essas conquistas e as estatísticas envolvidas, apontando para a fraca posição de Cuba no índice de direitos humanos. Isto dá origem a vários argumentos a respeito da extensão de permitir liberdades civis num estado de sítio envolvendo um inimigo gigante juramentado deitado ao lado. Cuba não deve ser romantizada. Existe grande pobreza. A prostituição, por exemplo, foi abordada inicialmente pelo governo revolucionário, por meio de medidas educacionais e de reabilitação, como escolas para prostitutas. Ressurgiu, especialmente em áreas turísticas (semelhante a outros países), apesar de sua ilegalidade.

Cuba operou uma estrita política de controle sobre a partida e chegada de cidadãos do exterior. Isso foi recentemente sujeito a revisão, uma vez que a situação mudou drasticamente desde os primórdios da revolução, quando Cuba perdeu uma porcentagem enorme de seu cérebro - médicos e outros profissionais - para os EUA. De qualquer forma, a pequena nação agora proativamente exporta tal poder.

Há também uma superprodução de pessoas qualificadas sem investimentos econômicos recíprocos para integrá-las. Argumentou-se que não devemos identificar a culpa disso unicamente pelo infame bloqueio. Na opinião de muitos, o bloqueio não tinha justificação nos últimos tempos, uma vez que a "ameaça" soviética para os EUA era inexistente. Recentemente levantado, o bloqueio foi condenado por várias figuras mundiais. Um deles, o falecido Papa João Paulo II, foi ele mesmo um firme opositor do comunismo soviético e amplamente percebido como tendo sido um catalisador para seu derrube. O levantamento do bloqueio, para o qual mesmo o Papa Francisco fez lobby fortemente, aconteceu recentemente, na sequência da normalização das relações entre os dois países. Resta saber se o governo de Donald Trump irá respeitar o legado de Obama em relação às relações EUA-Cuba.

A mitologia do aparelhamento das eleições

por Steve Martinot

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Vamos estabelecer a diferença entre Trump e Clinton fora do comum, para que possamos olhar para a eleição como tal. Clinton representa o establishment corporativo como uma comunidade de entidades centradas em torno da globalização das finanças que exerce o controle político sobre as nações estrangeiras através da coordenação centralizada do comércio internacional e a manipulação informatizada de fatores financeiros, como taxas de juros e taxas de câmbio. Trump representa uma forma de capitalismo marginalizado que, em sua pequenez e sua institucionalidade orientada para o turismo, ainda se orgulha de um desprezo pela sua própria classe operária. Quando se apresenta como um herói impetuoso de brancos que de alguma forma se sentem despossuídos, não os representa como vítimas da exploração corporativa, mas sim do governo (na pessoa de Clinton) que trocou a brancura pela multiracialidade. Quer conscientemente ou não, ele representa a tradição histórica das patrulhas de escravos, os sindicatos brancos exclusivos de artesanato, os executores paramilitares de Jim Crow (agora na forma de um Tea Party). Vemos isso na violência de sua retórica. Os brancos foram capazes de seguir Trump, onde eles não tinham sido capazes de seguir o Tea Party, porque Trump percorreu uma estrada aberta e o Tea Party tinha apenas a sua oposição a Obama como seu cartão de visita.

Clinton representa o que está agora no controle, e Trump representa o que não está. Ela representa as tentativas da Estrutura Política Transnacional para formar um governo de e para a comunidade de corporações multinacionais. Trump só conhece casinos e pedras angulares. Ele provavelmente nunca compreenderá os pontos finos de criar fome em massa através da proclamação presidencial, ou através dos sutis esquemas financeiros do FMI. Ele não precisa. Ele fará com que o Conselho de Relações Exteriores o faça por ele, como fariam para Clinton.

Sua eleição não mudará nada. Se as finanças internacionais decidissem quebrá-lo, eles simplesmente comprariam ações de controle de ações em suas corporações, e depois as despejariam, colocando-o em crise de liquidez e seus hotéis em falência.

Significativamente, contra a sua eleição, as pessoas saíram às ruas, indignadas com o resultado. Alguns estão marchando porque Clinton não ganhou. A maioria está marchando para protestar contra a xenofobia desenfreada de Trump, sua misoginia explícita, sua supremacia branca e desprezo geral pelas pessoas. Em certo sentido, os manifestantes que protestam contra a eleição de Trump estão escandalizados de que seu projeto de uma sociedade mais igualitária, justa e menos violenta tenha sido derrotado. Afinal, se a democracia depende da igualdade, da justiça e do diálogo, em vez da segregação, da exclusão, do segredo e da guerra, eleger o que representa o último é totalmente oxímorico - o processo democrático agindo contra si mesmo.

Mas a maioria dos manifestantes só parece protestar contra a pessoa, não a cultura de racismo, misoginia e xenofobia que ele representa. Se Clinton tivesse vencido, não haveria marchas, embora ela fosse então a presidente de uma cultura misógina, supremacista branca e xenófoba. Caso contrário, os manifestantes teriam de apelar a um boicote total às eleições baseadas na falácia e propor que apenas o desenvolvimento de uma cultura igualitária tornaria viável um sistema democrático. Eles estariam dizendo, nenhum processo democrático real é possível em uma sociedade que odeia, discrimina, explora, denigre, marginaliza, exclui e desumaniza parte ou toda a sua constituição política. Uma vez que nenhum tal chamado por uma cultura digna da democracia nunca conseguiu atração, os manifestantes só estavam dizendo que preferiam um "rosto bonito" representando o chauvinismo e o racismo do presente.

Mas se é somente a Trump que eles se opõem, em vez da cultura que ele representa, eles estão sugerindo tristemente que eles estão bem com o racismo e a xenofobia? Eles estão afirmando que, mesmo numa cultura que subsiste na desigualdade, nas injustiças das exclusões da supremacia branca e das explorações capitalistas, ela ainda pode ser uma democracia? Que tipo de democracia poderia ser? Como você facilita a democracia em uma cultura que despreza a igualdade, que se orgulha de suas injustiças (segregação, assassinatos policiais, encarceramento em massa, prisioneiros políticos), que prefere o empobrecimento a um governo que assumiria a responsabilidade universal pelo bem-estar de seu povo?

Bem, seria uma democracia em que a participação política tenha sido reduzida a nada mais do que o "voto". Seria uma política que se concentrasse em personalidades ao invés de questões políticas reais. Soa familiar?

Suspeita-se que os manifestantes tenham esquecido que o sistema de dois partidos foi criado por causa da existência da escravidão durante os primeiros 90 anos de vida da nação (Há oitenta e sete anos atrás...?). Embora houvesse muitas posições sobre a escravidão durante esse tempo, quando eles finalmente se fundiram em dois partidos polarizadores, a favor e contra, ambos entenderam que, para ter uma presença nacional, teriam de suprimir o que realmente acreditavam porque não podia ser defendido em todas as seções do país. O partido anti-escravidão não poderia apresentar essa posição no sul, por exemplo, e obter quaisquer votos. E vice-versa. Assim, o discurso político foi reduzido a conveniência ou posições pragmáticas, livres de ideologia ou princípio. E tem sido assim desde então.

O que isso significa é que a política não é feita no nível do partido. Os partidos cuidam dos candidatos em exercício, mas a política nacional, na medida em que se baseia na ideologia (industrialismo versus agronegócio, por exemplo, ou "New Deal" versus impunidade corporativa), deve ser feita em outros lugares. Na verdade, o que aprendemos com a administração Obama é que o presidente não faz política. Ele apenas administra. É por isso que se chama uma administração. Obama promoveu as mesmas políticas que Bush tinha antes dele, usando retórica diferente, mas com alguns dos mesmos membros do gabinete. Se o presidente não faz política, então não participamos da redação do roteiro que a administração do presidente decreta. Contrariamente à mitologia, o nosso voto não determina o futuro da nação. Outras pessoas fazem, pessoas de quem não ouvimos falar e não escolhemos.

Se o princípio, a ideologia e a política real forem excluídos do processo eleitoral, será que importa que a eleição tenha sido fraudada? Quando Trump disse isso, ninguém imaginou que ele queria dizer que foi manipulado a seu favor. Se foi manipulada, foi para fazer a cultura da supremacia branca, chauvinismo masculino, xenofobia e viés a face da nação. Ao opor esse "rosto", o que os manifestantes mostram que querem é o mito da nação, não a sua realidade.

A realidade é que mesmo Trump perdeu quando falou de "manipulação". Quando votamos, nossos votos são contados por scanners ópticos, executados por computadores que coletam e compilam os dados. Esses computadores são proprietários, usando software proprietário e, portanto, compilando contagens proprietárias. Como propriedade, o público não tem acesso a eles. Isso é bem conhecido, e testado pelos tribunais. Em vez de usar software de fonte aberta, em que o processo de contagem pode ser observado, o governo prefere que não tenhamos acesso e que não haja responsabilidade. Se não houver acesso às contas reais antes que o software atue sobre elas, então não pode haver suposição de validade. Só podemos concluir que são os engenheiros de software, e aqueles que os pagam, que determinam o resultado. Em outras palavras, a única postura ética que se pode tomar é assumir a fraude.

Você se opõe? Veja se você pode provar esta análise errada. (Ou melhor ainda, leia Bev Harris, "Black Box Voting", ou "Code Red", de Jonathan Simon). A única maneira de obter uma recontagem das cédulas de papel é mostrando a um tribunal que havia uma avareza óbvia e existente. O software faz seu trabalho em segredo.

Nenhuma questão política foi resolvida por esta eleição. Elas nunca são. As questões reais estão além da jurisdição de uma eleição. Trata-se de representação. As pessoas que aplaudiram Trump fizeram isso por causa de sua misoginia, não apesar disso. Nada demonstra a profundidade da existência cultural da misoginia neste país mais do que dois fatos comumente conhecidos. A primeira é a bem conhecida correlação entre o superbowl e o abuso do cônjuge. A segunda é a relação da guerra e o assassinato de mulheres. Durante os 15 anos em que os EUA estiveram no Vietnã, perdendo cerca de 58.000 GIs na tentativa de impedir que a antiga colônia francesa se libertasse, aqui nos Estados Unidos, durante os mesmos 15 anos, o número de mulheres que foram assassinadas por namorados ou maridos foi também 58.000 (de acordo com pesquisa feita por NOW).

Os nacionalistas brancos torcem por Trump por causa de sua xenofobia, não apesar disso. Eles querem que todos os que não são brancos "voltem de onde vieram" - até os nativos americanos.

Mas seu elogio da vitória permanece vazio. O que os misóginos e supremacistas brancos ainda não sabem é se sua tentativa de votar em Trump é o que o colocou no cargo. Se ele estava certo e a eleição foi manipulada (em seu favor), então alguém o colocou no cargo. Ninguém pode dizer com certeza. Mas tampouco os manifestantes, cujas frustrações e gritos apenas ecoam os elogios dos nacionalistas brancos. Eles não têm meios de protestar contra a supremacia branca, ou a brutalidade masculina contra as mulheres, porque esses são fenômenos culturais. Como você protesta contra uma cultura? Um tipo diferente de pergunta precisa ser formulado.

Vivemos em uma sociedade de direita, com uma cultura de direita. Este tem sido sempre o caso. As ideologias de direita obtêm fácil aceitação, apesar de seu caráter reacionário, seu amor pela desigualdade e pelo nexo policial-prisão que hoje restabelece a Jim Crow. As ideologias de esquerda têm de lutar continuamente por um lugar no palco. Para a direita, todas as relações sociais são hierárquicas. As hierarquias se mantêm degradando e marginalizando outros. Aqueles que a supremacia branca racializa como não brancos dão aos brancos seu senso de direito e hegemonia. Mas também os torna contra qualquer programa governamental que dê passos rumo à igualdade de oportunidades. Os Tea Party orgulharam-se em sua disposição para pagar seguro de saúde corporativo, em vez de participar de um plano de saúde "universal".

Quando Bush proclamou que o governo dos Estados Unidos não tinha nenhuma responsabilidade de prover o bem-estar do povo, pensamos que ele estava apenas sendo venal, ou hiper-individualista. Mas agora, vemos que o governo, ao abjurar tal responsabilidade, estava levando a recusa da supremacia branca à universalidade ao extremo. Hoje em dia, em todo o país, cidades, universidades e igrejas estão cercando e reforçando suas capacidades e organizando de santuários para proteger os seres humanos contra a xenofobia dessa supremacia branca.

Mas ainda assim, quando os manifestantes gritam invectivas contra Trump, com sinais que dizem que "as vidas negras são importantes", eles ainda não sabem como perguntar por que há "vidas negras" em primeiro lugar. Quando eles dizem, "pare o ódio", eles não acrescentam que a supremacia branca ainda seria uma atrocidade se Clinton tivesse vencido. Ao protestar contra a eleição de Trump, os manifestantes estão apenas demonstrando seu patriotismo. Para eles, o país merece uma insígnia melhor que este bufão. É a partir desse sentido profundo de patriotismo que exigem que a face do país não seja de violência criminosa contra as mulheres, nem a violência inerente da supremacia branca.

Mas isso significa apenas que temos dois patriotismos diferentes, anti-Trump e pró-Trump. E se ele foi manipulado, foi para colocá-los uns contra os outros, Trump com o escritório e nenhum mandato, e Clinton com a margem de slim popular e sem poder. Sabemos o que a guerra civil faz. Destrói a infra-estrutura social e permite que o investimento corporativo reine sem contestação por movimentos populares ou alternativas democráticas.

Ambos os nacionalismos representam a mesma mitologia, a história de que esta é uma democracia porque temos um voto, e nosso voto determina o futuro da nação. É uma mitologia que diz, depois de cada eleição, que o povo se expressou. Mas nesse caso, a eleição não é nada melhor do que uma pesquisa de opinião nacional. Não nos diz o que "o povo" pensa.

Na verdade, nossa única alternativa para discernir o que as pessoas realmente pensam e sentem politicamente é a existência de movimentos reais de caráter popular. E o que Trump e Sanders fizeram, agindo em conjunto, foi trazer esses movimentos sob a ala dos dois partidos. Trump trouxe os movimentos populistas de direita para o Partido Republicano e Sanders fez o mesmo para os movimentos populistas de esquerda em relação aos democratas.

Em suma, o papel essencial da eleição, depois de toda a campanha, foi dizer ao povo do país quem são e o que pensam, transferindo-os para a palma das mãos dos dois partidos. Esse é o seu trabalho mitológico. Além da mitologia da política presidencial, e além da mitologia da participação popular democrática na política, há a mitologia de dois partidos que disputam o poder político. O verdadeiro papel dos partidos é o controle do pensamento e da atividade, não uma luta pelo poder entre duas ideologias diferentes. E funciona porque a realidade nunca foi capaz de derrotar essa mitologia.

Quando os manifestantes se opõem a ser defraudados de sua democracia através do anátema de um demogogo antidemocrático eleito, eles estão se opondo à coisa errada. Não poderíamos ser defraudados da democracia. Nós não tínhamos nada a perder. Tudo o que tínhamos era a mitologia. E as pessoas estão na rua defendendo a mitologia, embora cegas ao que elas realmente enfrentam. Em vez do rosto de Trump, elas querem a máscara que representa o mito. A face nua da cultura dos EUA e sua história de escravos incomoda tanto que eles estão dispostos a invadir vias expressas e parar o tráfego, a fim de obter a máscara de volta.

E atrás da cena, e atrás da cortina, enquanto esta eleição sem competição é contestada, um processo insidioso começa a se desenrolar. A polícia iniciou uma campanha (ainda sob Obama) de ataque, derrogação e assédio contra o Movimento por Vidas Negras, contra o "Black Lives Matter", com a alegada "força" por trás do fato de que, em todo o país, as pessoas estão começando a atirar de volta contra a polícia, matando alguns deles.