15 de outubro de 2017

Mudanças estruturais no interior do imperialismo

Prabhat Patnaik


Tradução / Durante longo tempo foi possível classificar as divisas do mundo em três categorias distintas: (i) a divisa principal, tipicamente pertencente à principal potência imperialista, os Estados Unidos, a qual era considerada "tão boa quanto o ouro" pelos possuidores da riqueza do mundo; (ii) outras divisas metropolitanas nas quais os possuidores da riqueza do mundo também mantinham sua riqueza, mas as quais, precisamente por não serem consideradas "tão boas quanto o ouro", tinham de manter um certo valor estável em relação à divisa principal através do prosseguimento de políticas macroeconómicas apropriadas; e (iii) divisas do terceiro mundo as quais, independentemente das políticas macroeconómicas que fossem prosseguidas, geralmente esperava-se que se depreciassem ao longo do tempo no seu valor relativo face aos dois conjuntos de divisas acima, tanto em termos nominais como reais (isto é, mesmo quando as taxas diferenciais de inflação entre aqueles países e as economias metropolitanas fossem consideradas) e nas quais, portanto, detentores de riqueza não gostariam de manter a sua riqueza. Os possuidores locais de riqueza em tais países sem dúvida assim o faziam, mas isto era devido ou à inércia ou à coerção (isto é, à existência de controles de câmbio, os quais colocam restrições à transferência da sua riqueza para fora destes países).

Tais divisas portanto tendiam realmente a depreciar-se ao longo do tempo em relação à divisa principal, o que por sua vez justificava a expectativa de que as mesmas iriam depreciar-se secularmente e portanto estabelecia uma tendência rumo a uma viciosa espiral descendente dos seus valores relativos. A economia capitalista mundial operava assim de uma maneira em que a tendência era para os possuidores de riqueza, incluindo os do terceiro mundo, a transferissem para divisas metropolitanas e localizações metropolitanas se pudessem, isto é, a menor que fossem impedidos de fazê-lo (razão pela qual controles de câmbio eram considerados essenciais para economias do terceiro mundo).

Para ilustrar este ponto, o valor da rupia pouco antes da desvalorização de 1966 na Índia era de 5 rupias por dólar e com aquela desvalorização em particular tornou-se cera de 7,5 rupias. Como a Índia prosseguia uma política de taxa de câmbio fixa apenas com desvalorizações ocasionais, este valor atingir apenas cerca de 13 rupias na véspera da liberalização econômica quando foi desvalorizado para 20 rupias, antes de ser permitido flutuar, até atingir cerca de 65 rupias por dólar. Nenhuma divisa de país avançado é cambiada hoje contra o dólar a treze vezes a que era cambiada há meio século, o que sublinha a diferença entre as situações do terceiro mundo e as divisas do primeiro mundo.

Uma implicação desta tendência rumo à depreciação secular das divisas do terceiro mundo foi que o seu trabalho esteve continuamente a ser depreciado em relação ao trabalho das economias do primeiro mundo. Portanto, ironicamente a transferência de riqueza pelos ricos do terceiro mundo dos seus próprios países para lugares "mais seguros" nos centros metropolitanos teve o efeito de reduzir o valor do trabalho nos seus próprios países em relação àqueles das metrópoles, o que significa um agravamento secular dos preços relativos dos seus produtos. Esta é uma razão pela qual mesmo nos dias de hoje vários governos do terceiro mundo, incluindo a Índia, têm pelo menos algumas restrições residuais sobre a transferência para fora da riqueza dos ricos locais: a rupia por exemplo não é uma divisa plenamente convertível mesmo atualmente.

Contudo, todo este quadro está em mudança. Uma consequência da prolongada crise econômica mundial tem sido o fato de que as taxas de juro nos países capitalistas avançados foram derrubadas para níveis quase zero numa tentativa de ressuscitar aquelas economias; e isto significou um fluxo de capital daquelas economias para certas economias do terceiro mundo, incluindo a Índia, onde as taxas de juro são muito mais elevadas. Tal fluxo assumiu a forma tanto de ações como de empréstimos. Algumas destas tomadas de empréstimos de países do terceiro mundo são contratadas em divisa estrangeira e algumas na divisa local. Da mesma forma, algumas delas foram para governos e outras para corporações do setor privado e público. O que tudo isto significa, entretanto, é que possuidores metropolitanos de riqueza, ao contrário do passado, agora começaram a manter alguma da sua riqueza na forma de divisas do terceiro mundo ou de ativos denominados nestas divisas.

Isto constitui uma importante mudança estrutural no interior do imperialismo porque implica em que possuidores de riqueza metropolitanos não podem ser indiferentes à depreciação de tais divisas do terceiro mundo. Já não são apenas os possuidores locais de riqueza que perdem em termos do valor do dólar da sua riqueza quando a divisa local deprecia, mas também os possuidores metropolitanos de riqueza. E uma vez que, mesmo no caso de uma divisa (como a rupia) não ser plenamente convertível, sob as receitas neoliberais permite-se que os possuidores de riqueza metropolitanos retirem os seus fundos quando quiserem, qualquer depreciação da divisa local desencadeia uma avalanche de fugas de capitais e também um dilúvio de insolvências internas (pois várias firmas locais tomaram empréstimos em divisas estrangeiras para financiar a tomada de controle de ativos em divisa local).

Isto basicamente implica procurar [que a atuação sobre] a taxa de depreciação cambial seja afastada dos governos locais. As divisas destes países do terceiro mundo, dos quais a Índia é um exemplo destacado, assim como as divisas de economias metropolitanos não-líderes como as da Zona Euro e a do Japão, têm de ser mantidas num valor relativo estável face ao US dólar. O fato de que, durante quase toda a última década, o valor da rupia se ter pouco depreciado face ao US dólar, ao contrário do passado, é uma indicação desta mudança de cenário.

Esta mudança tem duas importantes implicações, uma óbvia e outra não tão óbvia. A implicação óbvia é que como o instrumento habitual que os governos empregam quando a economia é confrontada com um problema de balança de pagamentos, nomeadamente uma depreciação da taxa de câmbio, é retirado das suas mãos, eles agora têm de confiar muito mais em outros instrumentos, tais como compressão da procura interna e deflação salarial (isto é, um corte em salários monetários) para alcançar o mesmo resultado. Mas, embora tanto a taxa de depreciação cambial como a deflação salarial tenham o efeito de esmagar os trabalhadores, a primeira atua indiretamente enquanto a última atua diretamente.

Isto implica várias coisas (deixem-me, para maior simplicidade, ignorar aqui qualquer consideração da compressão da procura geral através de outros meios): (i) uma depreciação da taxa de câmbio de 10 por cento não significa necessariamente uma queda de 10 por cento em salários reais dentro de qualquer dado período de tempo, ao passo que uma deflação salarial de 10 por cento assim o faz; (ii) por esta mesma razão, uma depreciação da taxa de câmbio de 10 por cento provoca menos resistência imediata dos trabalhadores quando comparada a uma deflação salarial de 10 por cento; por causa disto a imposição de uma deflação salarial é invariavelmente acompanhada por ataques aos sindicatos a fim de quebrar esta resistência.

Pode-se aqui mencionar uma ilustração histórica famosa. Durante a Primeira Guerra Mundial, a Grã-Bretanha foi expelida do Padrão Ouro (Gold Standard), mas a ele retornou em 1925 com uma paridade anterior à da guerra, sob a pressão dos poderosos interesses financeiros britânicos que desejavam tal paridade. Mas o tipo de apoio colonial que estivera disponível à Grã-Bretanha nos anos que antecederam a Primeira Guerra Mundial já não estavam mais disponíveis após a guerra (o Japão por exemplo estava a retirar à Grã-Bretanha fatias significativas do mercado indiano), de modo que a libra esterlina estava sobre-avaliada à paridade anterior à guerra – e a Grã-Bretanha começou a enfrentar problemas de balança de pagamentos. Em consequência, a Grã-Bretanha tentou impor uma deflação salarial aos seus trabalhadores, a qual tornaria seus bens mais baratos no exterior e também reduziria a absorção interna, melhorando assim sua balança de pagamentos. Isto contudo deu origem à famosa Greve Geral de 1926 na Grã-Bretanha, meses após o seu retorno ao Padrão Ouro. Portanto, se bem que uma depreciação da taxa de câmbio e uma deflação salarial tenham o efeito de esmagar os trabalhadores, esta última é uma medida direta que tem um carácter diretamente político.

A implicação menos óbvia do fato de possuidores metropolitanos de riqueza agora possuírem riqueza em divisas do terceiro mundo, o que descarta depreciações da taxa de câmbio, é que as suas decisões doravante têm uma influência sobre direitos sindicais no terceiro mundo e portanto sobre a democracia no terceiro mundo. Se possuidores metropolitanos de riqueza começarem a transferir a sua riqueza para fora de um país, então o país em causa tem de impor uma deflação salarial através do ataque aos sindicatos (além de seduzir o capital metropolitano a permanecer através da oferta de ativos internos a preço vil, o que constitui um caso de "desnacionalização" de ativos nacionais). Ainda por cima, se os EUA elevarem a sua taxa de juro, então isto também ameaça precipitar uma deflação salarial em países como a Índia a fim de estancar fugas de capitais, com ataques a sindicatos, a direitos democráticos dos trabalhadores e genericamente às estruturas democráticas, torna-se um acompanhamento necessário (além da "desnacionalização" já mencionada).

Esta nova situação difere da anterior em dois aspectos importantes: primeiro, na ausência de qualquer riqueza metropolitana significativa possuída em ativos na divisa local, isto é, quando só os possuidores de riqueza do terceiro mundo mantinham a sua riqueza em ativos da divisa local, eles estavam em certa medida sujeitos a algum grau de controle pelo Estado do terceiro mundo. Mas o Estado do terceiro mundo dentro de um regime neoliberal tem pouco controle, mesmo na ausência de convertibilidade da divisa, sobre possuidores de riqueza metropolitanos. Segundo, a depreciação da taxa de câmbio como instrumento era utilizável anteriormente o que removia num certo grau um ataque direto aos trabalhadores e portanto um assalto direto a sindicatos e a direitos políticos dos trabalhadores. Isto agora torna-se impossível.

Em suma, em países como a Índia as mudanças que ocorrem dentro da estrutura do imperialismo servem para fortalecer o autoritarismo que já é evidente. A exigência da introdução da "flexibilidade no mercado de trabalho", um eufemismo para um ataque aos sindicatos, certamente será acelerada nos dias que estão pela frente e o governo Hindutva, dada a sua inclinação sangrenta e a sua absoluta falta de compreensão das armadilhas do neoliberalismo, é seguro que se torne um instrumento propenso ao cumprimento desta exigência. 

13 de outubro de 2017

A mão invisível de Adam Smith no trabalho

Em um ambiente de trabalho opressivo, todos têm boas razões para pensar que falar é o trabalho de outra pessoa.

Corey Robin

Jacobin

Harvey Weinstein falando no Festival de Cinema de Zurique, 29 de setembro de 2013. Zff2012 / WIkimedia

De todas as frases que li na história de Harvey Weinstein, esta, do New York Times, foi a mais pungente:

As atrizes mais estabelecidas tinham medo de falar porque tinham trabalho; as menos estabelecidas ficaram assustadas porque elas não o fizeram.

Em praticamente todo regime de trabalho opressivo - e outros tipos de regimes opressivos - você vê o mesmo fenômeno. Os estrangeiros, a partir do conforto e facilidade de sua posição, se perguntam por que ninguém dentro do regime fala alto e sai; os insiders sabem que não é tão fácil. Todos dentro do regime - mesmo suas vítimas, especialmente suas vítimas - têm uma ótima razão para se manter em silêncio. Todo mundo tem uma boa razão para pensar que é trabalho de alguém falar.

Aqueles no fundo do regime, essas atrizes menos estabelecidas que precisam mais, olham para cima e se perguntam por que as pessoas acima delas, aquelas atrizes mais estabelecidas que precisam menos, não falam contra uma injustiça: os mais estabelecidos têm poder, por que não o usam, do que eles tem medo?

Aqueles acima da escada, aquelas atrizes mais estabelecidas, desprezam os que estão no fundo e se perguntam por que não falam contra essa injustiça: não têm nada a perder, do que têm medo?

Nenhum é errado; ambos estão refletindo com precisão e agindo sobre suas situações e interesses objetivos. Esta é uma das razões pelas quais a ação coletiva contra a injustiça e a opressão é tão difícil. É a Mão Invisível de Adam Smith no trabalho (em ambos os sentidos), sem o final feliz: todos perseguem seus interesses individuais como indivíduos; o resultado é uma catástrofe social.

12 de outubro de 2017

Thomas Sankara, a possibilidade de uma África emancipada

Em 15 de outubro de 1987, em Uagadugu, uma experiência revolucionária exaltante chegava ao fim sob o crepitar das kalachnikovs. O presidente de Burkina Faso, Thomas Sankara, era assassinado, com doze de seus companheiros.

Rosa Moussaoui

Alto Volta. Uagadugu. 06/08/1983 Manifestação de apoio a Sankara. Créditos: Archives Afrique-REA

Tradução
/ Ele se recusava a ver a África estagnar na condição de “mundo atrasado de um Ocidente saciado”. Este compromisso lhe custou a vida. Em 15 de outubro de 1987, por ocasião do golpe de Estado perpetrado por seu “irmão” Blaise Comparoé, o presidente de Burkina Fasso, Thomas Sankara foi assassinado por um comando de militares do regimento da segurança presidencial.

No atestado de óbito oficial desse homem de 37 anos, que algumas semanas antes temia “uma morte violenta”, pode-se ler esta inverossímil menção”: “morte natural”. Sob a rajada dos kalachnikovs, um nome, outro mais, era acrescentado à longa lista dos revolucionários da África eliminados com a cumplicidade das capitais ocidentais: Patrice Lumumba no Congo, Amílcar Cabral, o combatente da independência da Guiné Bissau e de Cabo Verde, Ruben Um Nyobé, Félix Moumié e Ernest Ouandié de Camarões, Mehdi Ben Marka, o oposicionista marroquino, e tantos outros. Thomas Sankara tinha clareza sobre todas essas possibilidades aniquiladas. “Uma vez que aceitemos, trata-se de uma questão de tempo. Isto ocorrerá mais cedo ou mais tarde”, previa.

O “Che africano” sonhava ser médico

O assassinato desse dirigente carismático mexeu com todo o continente, destruindo a esperança de emancipação à qual ele deu corpo em Burkina Fasso, o Alto Volta, por ele rebatizado como “País dos homens íntegros”. Filho de um combatente da Segunda Guerra Mundial convertido ao catolicismo, Thomas Isidore Sankara foi destinado por seus parentes ao seminário. Ele sonhava ser médico. Finalmente, por uma confluência de circunstâncias, ele se junta ao Comando Militar de Kadiogo, em Uagadougu.

Diplomado, integra uma formação de oficiais na Academia Militar de Antsirabe, em Madagascar. A Grande Ilha encontra-se então em plena efervescência revolucionária, uma experiência determinante para o jovem Sankara. De retorno ao país, ele se dedica a organizar a jovem geração de oficiais formados no exterior sob os grilhões de um exército sempre enquadrado pelos antigos colonialistas. Oficiais como Henri Zongo, Boukary Kaboré, Jean-Baptiste Lingani paticipam desse ativismo clandestino no seio do exército. Durante um curso de formação militar no Marrocos, em 1976, Thomas Sankara faz amizade com Blaise Compaoré. Juntos, formam o Agrupamento de oficiais que desempenhará um papel de primeiro plano no desencadeamento da revolução democrática e popular, em 1983. Sankara assume o controle do Centro Nacional de Treinamento de Comando em Pô, a 150 quilômetros da capital.

No mesmo ano de 1983, ele se torna presidente do Alto Volta

Desde a independência (em 1960, Nota do Tradutor), o Alto Volta jamais conhecera verdadeiramente a estabilidade política. Civis ou militares, os regimes se sucederam, todos mais ou menos autoritários. Em 7 de novembro de 1982, um novo golpe de Estado leva ao poder Jean-Baptiste Ouédraogo, um médico militar. Dois meses mais tarde, aproveitando uma correlação de forças favorável ao campo progressista no seio do exército e devido à sua crescente popularidade, Thomas Sankara torna-se primeiro-ministro. Sua eloquência, seu ardor revolucionário, a visita que faz a Muamar Kadafi não agradam o Palácio do Eliseu (sede da Presidência da República da França. Nota do Tradutor).

Guy Penne, o “senhor África” de François Mitterrand, é despachado a Uagadugu. O primeiro- ministro é imediatamente demitido e preso. Começa uma insurreição popular que abre caminho aos militares. Em 4 de agosto de 1983, os comandos de Pô, tomados por Blaise Compaoré, conquistam Uagadugo, com o apoio de civis. Thomas Sankara torna-se presidente do Alto Volta. Imediatamente ele conclama a população a criar os Comitês de Defesa da Revolução (CDR). É o começo de uma experiência revolucionária tão efêmera quanto exaltante, alimentada por um profundo desejo de independência. Sankara é um apaixonado pela paz e a justiça social, feminista convicto, ecologista antes do tempo e anti-imperialista. Em apenas quatro anos, fato inédito, ele conseguiu levar um país do Sahel à autossuficiência alimentar. Muito ligado ao mundo rural, ele não hesitou em lutar frontalmente contra os feudais.

Seus objetivos? “Recusar o estado de sobrevivência mínima, aliviar as pressões, libertar nossos campos de um imobilismo medieval ou de uma regressão, democratizar nossa sociedade, abrir os espíritos para um universo de responsabilidade coletiva para ousar inventar o futuro. Quebrar e reconstruir a administração através de uma outra imagem do funcionário público, mergulhar nosso exército no povo pelo trabalho produtivo e lembrar incessantemente que, sem formação patriótica, um militar não passa de um criminoso em potencial”. Inimigo da dívida odiosa que mantém as ex-colônias em situação de sujeição às ex-metrópoles, Sankara quer curar seu país da dependência das “ajudas” externas. “A dívida não pode ser paga, primeiramente porque, se não pagarmos, nossos fornecedores de fundos não morrerão, estejamos seguros disto. Ao contrário, se pagarmos, somos nós que vamos morrer. Estejamos igualmente seguros disto!” – dizia na tribuna da Organização de Unidade Africana (OUA), em Addis-Abeba, em 29 de julho de 1987, conclamando a “produzir na África, transformar na África e consumir na África”. Em Burkina Fasso, novos circuitos de distribuição foram criados para favorecer as produções locais e os funcionários foram instados a se vestir de Fasso dan fani, a vestimenta tradicional fabricada nas tecelagens locais. Desde 1983, foram instituídos tribunais populares revolucionários para julgar os responsáveis políticos acusados de desfalque de fundos públicos e de corrupção. As penas consistiam na maioria das vezes no reembolso dos valores desviados e os funcionários ficavam sujeitos à suspensão ou à demissão.

Nos setores da educação, meio ambiente, agricultura, reforma do Estado, cultura, libertação das mulheres, da responsabilização da juventude, sucediam-se os programas a ritmo desenfreado, suscitando às vezes dissensões com os sindicatos e mesmo no campo revolucionário.

No cenário internacional, Sankara logo se afirmou como uma grande voz do continente africano e mesmo além, uma voz dos povos oprimidos ou mantidos sob tutela. Ele era franco, convicto, inflexível. No outono de 1986, quando François Mitterrand o visita em Uagadugu, ele não hesita, numa cena memorável, em criticar diante das câmeras sua complacência com o regime do apartheid na África do Sul. O velho socialista francês se esquiva saudando “a agudeza de uma bela juventude”. A implicação das redes franco-africanas na eliminação de Thomas Sankara é indubitável. Na época, reinavam nos círculos dominantes personagens sombrios como Jacques Foccart, lembrado por Jacques Chirac após seu retorno ao Matignon. O eixo dessas manobras franco-africanas? A Costa do Marfim, sobre a qual ainda reina o velho Félix Houphouët-Boigny…

Hoje, trinta anos após o assassinato de Thomas Sankara, no momento em que as potências imperialistas intensificam a ofensiva política, econômica e militar sobre o continente para perpetuar sua pilhagem, o legado do dirigente burquinense é ainda mais precioso do que nunca. “Ele deixa como herança uma imensa esperança para a África. A de completar a descolonização para permitir que os povos conquistem direitos, progresso e liberdade”, afirma Dominique Josse, responsável do Partido Comunista Francês pela África.

Há um sonho que Thomas Sankara não realizou. Exatamente um ano antes de seu assassinato, por ocasião de uma visita oficial na União Soviética, ele foi convidado à Cidade das Estrelas onde são formados e treinados os cosmonautas. A descoberta de uma cápsula Soyouz, das estações Saliout e Mir causa-lhe grande impressão. Ele se inclina diante da estátua de Yuri Gagarin, assina o livro de ouro e, antes de partir, saindo do protocolo, interpela os anfitriões. Ele conta : “Eu disse não, não é tudo, camaradas, esperem! Está tudo bem, estamos contentes. Nós os felicitamos, trata-se de um progresso científico. E quando tudo isto estiver a serviço dos povos, será realmente um bem. Mas eu queria perdir-lhes uma coisa … Duas vagas. É preciso que vocês reservem duas vagas, para formar burquinenses. Nós também queremos ir à Lua … Nós também vamos chegar lá! Então, a cooperação deve começar. E nós somos sérios. Nós queremos enviar pessoas à Lua, haverá americanos, soviéticos, pessoas de outros países… Mas haverá também de Burquina Fasso”.

9 de outubro de 2017

A história de Colombo

Este Dia de Colombo nos propicia um momento para construir algo em que Colombo se manteve firmemente contra: uma sociedade baseada na humanidade fundamental de todos.

Marley-Vincent Lindsey

Cristóvão Colombo e sua equipe deixam o porto de Palos, Espanha, para o "Novo Mundo". Biblioteca do Congresso

Lá se foram os dias em que um historiador como Howard Zinn poderia simplesmente apontar que os europeus exploravam, saqueavam e escravizavam os nativos americanos em busca de ouro, especiarias e uma conexão com a Ásia.

Agora, muitas concepções populares insistem que o que aconteceu é mais complicado. Eles argumentam que ambientes, doenças e tecnologia - em vez da avareza expansionista de Colombo e seu bando de exploradores rapaces - devem ser identificadas como as principais causas do extermínio dos índios americanos. E quando eles introduzem a agência humana em suas análises, muitas vezes é em nome de atores de elite.

Em Guns, Germs e Steel de Jared Diamond, ganhador do Prêmio Pulitzer, por exemplo, os fatores ambientais são elevados à "causalidade final" ao explicar por que Colombo e outros europeus varreram o continente.

Diamond nunca pergunta por que as reuniões iniciais entre europeus e nativos americanos levaram à violência e à escravização. Supondo que encontros entre dois grupos distintos de pessoas inevitavelmente produzam conflitos, ele se concentra nos tipos de culturas, animais e recursos geograficamente disponíveis para as populações euro-asiáticas (em oposição às populações americanas e africanas). Com base em antigas vantagens, ele argumenta que obtemos uma espécie de imperialismo igualitário: qualquer grupo de pessoas que começasse na Eurásia, a longo prazo, se sairiam muito melhor e provavelmente dominariam qualquer outro grupo de pessoas que começasse na não-Eurasia.

Para ser justo, o livro de Diamand ataca o papel pretendido do determinismo biológico na formação de eventos históricos. No entanto, ele ainda se recusa a ver os seres humanos como sujeitos políticos, tratando-os como agentes de profecia ambiental. Onde estava a invasão de Colombo, as motivações políticas das pessoas envolvidas aparentemente não tinham influência.

Uma tendência semelhante está em ação no livro do jornalista Charles Mann, de 1491, que narra uma história sobre os nativos americanos moldando os ambientes em que viviam. Enquanto sua intenção é mostrar que as civilizações das Américas eram muito mais avançadas do que imaginadas popularmente, Mann é ainda mais forte em sua rejeição de cumplicidade moral pela violência e destruição que os europeus logo realizaram.

Examinando os dados demográficos, Mann conclui que a taxa de morte coincidente - por meio de doenças que os europeus não conseguiram controlar - ultrapassou em muito a taxa de morte por violência deliberada. "Como eles podem", Mann pergunta, "ser culpado por isso (as mortes de centenas de milhares)".

Diamond e Mann fazem parte de uma onda de escritores que abraçaram as explicações relacionadas ao meio ambiente e à doença, precisamente quando os historiadores concluíram que o registro escrito havia confirmado as delitentes feridas de Colombo e seus confederados.

Para esses contrários, 1492 marcou o início de uma era em que grupos de pessoas em todo o mundo começaram a criar um sistema mundial global. Ou pelo menos as classes dominantes o fizeram. A antiga narrativa de conquista, violência e atrocidade foi assim transformada em uma história em que as elites fizeram a modernidade, e as lutas populares contra elas recuaram para o fundo.

Alterar as percepções sobre as sociedades nativas americanas desempenhou um papel interessante no desenvolvimento desta narrativa da globalização.

Até meados do século XX, a falta de interesse na história dos nativos americanos ajudou a perpetuar mitos sobre a sociedade e a cultura indígenas como um Eden romântico, posteriormente corrompido pelos pecados da Europa.

No entanto, as sociedades indígenas eram bastante estratificadas - especialmente as dos astecas e dos incans. Longe dos paraísos igualitários, tais sociedades possuíam uma clara classe de elite que explorava grupos subordinados.

Os mitos sobre um Éden nativo americano vieram menos dos escritos de pessoas que viviam em 1492 e mais de naturalistas, filósofos e cientistas do século XIX, que pintaram uma imagem bem-vinda do "índio" como inelutavelmente em sintonia com a natureza, perdida para aqueles que eram "civilizados".

Mas, à medida que aquela visão cor-de-rosa começava a desmoronar, as representações mais feias ocuparam seu lugar. Agora, alguns historiadores descrevem os astecas como uma "cultura obcecada com a morte". Mesmo historiadores mais astutos confundem as ações grotescas e os comportamentos da classe dominante da elite como representantes das sociedades nativas americanas como um todo.

Ao mesmo tempo, aos espanhóis cruzados são cada vez mais oferecidos uma apologética, ou mesmo saudados por sua ostensiva benevolência.

O principal exemplo é Bartolomé de las Casas - "Defensor das Índias". Enquanto de las Casas libertou seus escravos - e dedicou quase meio século a lutar pelos nativos americanos nos tribunais de Valladolid, Barcelona e Sevilha - manteve suas críticas de empreendimentos coloniais confinados a surtos violentos. Ele ainda se apegava a uma crença na autoridade cristã, cuja supremacia os nativos americanos desafiaram quando perguntaram por que as cruzes vieram com os estoques de armas. Mesmo o historiador mais responsável pelo nosso conhecimento atual e pesquisador de de Las Casas - Lewis Hanke - viu o Bispo representar os elementos mais benevolentes da conquista hispânica.

Em resumo, em vez de fornecer uma visão mais matizada da conquista espanhola, a recuperação dos escritos intelectuais de Las Casas tem obscurecido as questões de brutalidade real.

Termos humanos, participações políticas

Se a narrativa prevalecente é falha, qual seria, então, a descrição mais precisa?

Deixe-me oferecer uma contra-síntese: em 1492, Cristóvão Colombo navegou pelo Caribe, com a intenção de parar na parte mais rica da Ásia. Achando erroneamente que ele havia cumprido sua tarefa, Columbo informou que era apenas uma questão de tempo até que a Coroa pudesse cobrar seu investimento.

Em sua jornada de retorno, Colombo trouxe de volta seis escravos nativos americanos, inaugurando uma rede de escravidão nativa americana em todo o mundo espanhol (e replicando o que os europeus fizeram no Mediterrâneo por séculos).

Percebendo que os espanhóis pretendiam estabelecer uma presença permanente e explorá-los brutalmente, grupos nativos americanos como o Taíno e os caribes combateram, unidos por escravos africanos trazidos para o Caribe. O fracasso em encontrar ouro na Hispaniola, agravado pela crescente dívida e um abastecimento cada vez mais escasso, levou os colonos ao desespero. E os nativos americanos pagaram o preço. Enquanto as doenças exacerbavam o número de baixas, a principal causa de morte para os nativos americanos, especialmente entre 1492 e 1550, foi a escravização, a fome e a exaustão.

Este poderia ter sido o fim da história: uma falha em colonizar o Caribe. Mas Hernan Cortés, desafiando o governador cubano Diego Velázquez, navegou do Caribe para Veracruz, onde ancorou - e depois afundou - os navios que trouxeram sua equipe. Com apenas um caminho a seguir, o grupo de Cortés, flanqueado e subsumido por um exército independente tlaxcalteca, invadiu Tenochtitlan. O coração do império asteca caiu sob o domínio espanhol.

Mais do que prováveis, as sociedades asteca e inca foram elas próprias baseadas na estratificação social entre as classes de elite e comuns, com as últimas pagando impostos e tributos às primeiras. Essa estrutura foi em grande parte cooptada pelos espanhóis, que se tornaram benfeitores do sistema.

Embora a conexão direta desse momento com o desenvolvimento de um sistema mundial de capital seja difícil, a luta violenta entre conquistadores e intelectuais espanhóis e ingleses indubitavelmente sustentou os países em suas guerras no continente europeu. Além disso, essa exploração deu à Europa o tempo e o espaço necessários para finalmente alcançar regiões como a China e afastar as cidades nativas como Tenochtitlan e Cuzco. O custo, no entanto, foi milhões de vidas nativas americanas e um regime de escravidão expansiva e racializada, como a que o mundo nunca tinha visto.

Partes dessa narrativa são discutíveis; não é para ser a história das Américas. Mas é uma narrativa discutível em termos humanos, com participações políticas. A doença, os ambientes e a tecnologia fazem parte da história, mas cada uma exige uma vontade política particular para aspectos serem potentes.

É uma narrativa de culpa moral e motivações políticas. E se ela leva a discussões políticas modernas, isso acontece somente quando perguntamos quais as decisões tomadas pelos humanos para ajudar ou prejudicar um ao outro.

Feliz dia de Colombo. Doe seu tempo e energia hoje para construir algo em que Columbo permaneceu firmemente contra: uma sociedade baseada na humanidade fundamental de todos.

O que acabou com a promessa do comunismo muçulmano?

Os ativistas bolchevistas e islâmicos juntaram forças após a Primeira Guerra Mundial para construir o maior movimento de massas no Sudeste Asiático. Não durou.

John T. Sidel

The New York Times

Corbis, via Getty Images

Por um breve momento após as revoltas bolcheviques de 1917, parecia que a revolução poderia ser travada em vastas partes do mundo sob a bandeira conjunta do comunismo e do islamismo. 

O Pan-Islamismo surgiu nas últimas décadas do Império Otomano, com os esforços do sultão Abdulhamid II para reivindicar o título de califa entre os muçulmanos. Novas formas de escolaridade islâmica e associações começaram a surgir em todo o mundo árabe e além. Do Egito e do Iraque à Índia e ao arquipélago indonésio, o Islã tornou-se um chamado de protesto contra o colonialismo e o imperialismo europeus.

O poder de mobilização do Islã atraiu ativistas comunistas nas décadas de 1910 e 1920. Os bolcheviques, que careciam de infra-estrutura organizacional nas vastas terras muçulmanas do antigo império russo, aliaram-se com reformadores islâmicos nessas áreas. Eles criaram um Comissariado especial para os Assuntos Muçulmanos sob o controle do bolchevique tártaro Mirsaid Sultan-Galiev, prometendo estabelecer um "comunismo muçulmano" distinto no Cáucaso e na Ásia Central. Durante o Congresso de 1920 dos Povos do Oriente em Bacu, no atual Azerbaijão, o presidente do Comintern, Grigory Zinoviev, um judeu ucraniano, conclamou a se travar uma guerra "sagrada" contra o imperialismo ocidental.

Mas, como sabemos agora, o comunismo e o islamismo não conseguiram unir-se em uma aliança duradoura. No início da Guerra Fria, eles pareciam irrevogavelmente opostos. Diferentes pontos de vista sobre o comunismo dividiram os muçulmanos em toda a Ásia, África e Oriente Médio em suas lutas pela independência e emancipação durante a segunda metade do século XX. Uma jihad anti-comunista rejeitou fundamentalmente o Afeganistão na década de 1980 e ajudou a preparar o cenário para o surgimento da Al Qaeda e de uma nova forma de terrorismo islâmico.

No entanto, em torno da época da Revolução Russa, as perspectivas do comunismo e do Islã que juntaram forças pareciam muito brilhantes. Elas talvez não fossem mais brilhantes do que no arquipélago indonésio, então sob o domínio holandês: em 1918-21, os organizadores sindicais de esquerda atuando em conjunto com intelectuais islâmicos e comerciantes muçulmanos piedosos construíram o maior movimento de massas no Sudeste Asiático.

Ao longo da década anterior, ativistas sindicais indonésios já haviam estabelecido uma forte união representando os trabalhadores na extensa rede ferroviária que atendia a vasta economia de plantação de Java e Sumatra. Em 1914, a Indische Sociaal-Democratische Vereeniging, ou União Social-Democrática dos Indígenas, expandiu-se da organização sindical entre trabalhadores ferroviários para formas mais amplas de ativismo social e ação política contra o domínio colonial.

Em particular, os membros começaram a se juntar ao Islã Sarekat, uma organização fundada em 1912 como uma associação muçulmana de comerciantes de batik que se transformou em um movimento popular mais amplo e estava organizando manifestações em massa e ataques em Java. A influência socialista no islamismo de Sarekat já havia ficado evidente no congresso do movimento em 1916, onde o Profeta Muhammad foi proclamado "pai do socialismo e pioneiro da democracia" e "o socialista por excelência".

A Revolução Russa inspirou ainda mais o Islã Sarekat. No final de 1917, ativistas da União Social-Democrata das Índias começaram a agitar e a se organizar entre as fileiras inferiores das forças armadas holandesas nas Índias. Tomando emprestado as táticas bem-sucedidas dos bolcheviques na Rússia, foram recrutados centenas de marinheiros e soldados na esperança de desencadear motins e revoltas. As autoridades coloniais holandesas imediatamente detiveram e prenderam os ativistas e ordenaram sua expulsão das Índias.

Mas em 1920, a União Social-Democrata das Índias se renomeou como União Comunista das Índias, tornando-se o primeiro partido comunista na Ásia a se juntar ao Comintern. Novos sindicatos foram formados em Java e Sumatra. Aldeões camponeses se mobilizaram contra os proprietários. Um ataque ferroviário paralisou paralisou o cinturão de plantação no leste de Sumatra.

Foi nesse contexto que a lendária figura de Tan Malaka apareceu pela primeira vez. O descendente de uma família aristocrática do oeste de Sumatra, Tan Malaka passou a Primeira Guerra Mundial como estudante na Holanda. Ele entrou em contato com ativistas e ideias socialistas e testemunhou a revolução Troelstra de curta duração no final de 1918, durante a qual os social-democratas holandeses tentaram brevemente imitar uma revolta revolucionária em curso na Alemanha. No início de 1919, Tan Malaka voltou para a Indonésia, onde logo foi levado à organização sindical. Ele se juntou ao embrionário Partido Comunista local, ascendendo rapidamente à sua liderança - antes que o governo colonial o forçasse a se exiliar de volta aos Países Baixos, no início de 1922.

E foi assim com a experiência inicial do potencial revolucionário de combinar comunismo e islamismo que Tan Malaka apareceu no Quarto Congresso do Comintern em Moscou e Petrogrado em 1922. Lá, ele apresentou um discurso memorável sobre as semelhanças entre o Pan-Islamismo e o Comunismo. O Pan-Islamismo não era religioso per se, argumentou, mas sim "a fraternidade de todos os povos muçulmanos e a luta de libertação não só do árabe, mas também do índio, dos javaneses e de todos os povos muçulmanos oprimidos".

"Esta fraternidade", acrescentou, "significa luta de libertação prática não só contra o holandês, mas também contra o capitalismo inglês, francês e italiano, portanto, contra o capitalismo mundial como um todo".

O registro oficial dos procedimentos observa que o apaixonado apelo de Tan Malaka para uma aliança entre o comunismo e o Pan-Islamismo foi recebido com "aplausos animados". Mas suas memórias recordam que depois de três dias de acalorado debate após seu discurso, ele foi formalmente proibido de continuar contribuindo para o processo. As conclusões oficiais do quarto Congresso das províncias, incluindo as "Teses sobre a questão oriental", são particularmente ambíguas na questão do Pan-Islamismo e surpreendentemente silenciosa sobre a Indonésia, embora o movimento tenha sido muito mais bem sucedido do que qualquer outra mobilização comunista no chamado Oriente na época.

Uma aliança entre comunismo e islamismo não poderia se dar, nem na Indonésia nem em outros lugares. A força do comunismo, como movimento, foi a sua capacidade de mobilizar trabalhadores para lutar por melhores salários e condições de trabalho através de sindicatos, seja nas torres de petróleo de Bacu ou nas plantações de Java e Sumatra. Mas, como forma de governo, o comunismo significava o controle do partido único, uma economia de comando com agricultura coletivista e controle partidário de todas as esferas da vida social - incluindo a religião.

O islamismo, ao contrário, era uma base muito mais ampla e persistentemente mais aberta e ambígua para o engajamento político. Em Java e em outros lugares, o "Islã" proporcionou uma bandeira para os comerciantes muçulmanos contestar a invasão econômica por não-muçulmanos e construir uma infra-estrutura para a organização no campo, principalmente através de escolas islâmicas. Politicamente, era uma noção flexível: intelectuais e ativistas islâmicos poderiam ser para o colonialismo, o comunismo ou o capitalismo.

Na Indonésia, as tensões entre comunistas e líderes islâmicos já começaram a dividir o Islã Sarekat no início da década de 1920. Os comunistas pediram a escalada de greves e protestos, enquanto os líderes islâmicos defendiam a acomodação com as autoridades coloniais holandesas. O Islã Sarekat se dissolveu diante da repressão holandesa após rebeliões fracassadas em 1926-7.

No final da década de 1940, partidos islâmicos se opuseram ao Partai Komunis Indonesia (P.K.I.), ou ao Partido Comunista Indonésio, durante a luta pela independência. Os partidos islâmicos ficaram desconfortáveis com a insistência dos comunistas de que a independência do domínio colonial holandês também suspenderia os privilégios aristocráticos e provocaria o estabelecimento de formas de propriedade socialistas sobre a terra e a indústria. Esse conflito se estendeu até o início do período pós-independência. As organizações islâmicas participaram ativamente dos pogroms anticomunistas de 1965-66, que destruíram o P.K.I. e deixaram centenas de milhares de vítimas na Indonésia.

Por essa altura, o padrão de antagonismo estava bem estabelecido em todo o mundo muçulmano e persistiu durante toda a Guerra Fria. Os limites institucionais e ideológicos do comunismo e do islamismo se endureceram, provocando perspectivas de experiências renovadas na construção de alianças políticas.

Nas áreas muçulmanas da União Soviética, o Estado-partido reprimiu instituições de culto, educação, associação e peregrinação islâmicas, que eram vistos como obstáculos à transformação ideológica e social de acordo com a orientação comunista. Onde os estados islâmicos foram estabelecidos, a política de esquerda foi freqüentemente associada à blasfêmia e proibida. Em países como Sudão, Iêmen, Síria, Iraque e Irã, os partidos comunistas e outros partidos de esquerda encontraram-se em uma amarga competição pelo poder com os islâmicos.

Um dos efeitos do fracasso das forças revolucionárias em se mobilizar sob a bandeira conjunta do comunismo e do islamismo foi dividir profundamente os muçulmanos, enfraquecendo sua capacidade de lutar contra o colonialismo durante a primeira metade do século 20 e depois resistir ao surgimento do autoritarismo em todo o mundo muçulmano. Outro efeito foi estimular novas formas de mobilização islâmica anti-soviética durante a Guerra Fria - incluindo alguns que se transformaram em grupos terroristas anti-ocidentais virulentos que definem parcialmente o mundo de hoje.

As divisões entre esquerdistas e islâmicos no Egito após a queda do presidente Hosni Mubarak em 2011 também ajudaram a preparar o cenário para o retorno do país ao governo militar em meados de 2013. Tensões semelhantes dividiram a oposição ao presidente Bashar al-Assad na Síria, preparando o caminho para a caída do país em uma guerra civil há mais de seis anos. Um século inteiro após a Revolução Russa, a fraca aliança entre comunismo e islamismo continua a moldar a política do mundo muçulmano.

* John T. Sidel é o professor Sir Patrick Gillam de Política Internacional e Comparada na London School of Economics and Political Science e o autor do livro a ser lançado em breve "Republicanismo, Comunismo, Islamismo: Origens Cosmopolitas da Revolução no Sudeste Asiático".

Um poder revolucionário para curar

Cinquenta anos após a morte do Che, as ideias que mantêm sua lenda viva

Vijay Prashad

The Indu

Em 9 de outubro de 1967, no sul da Bolívia, perto da estéril e desolada vila de La Higuera, o exército boliviano, sob instruções do governo dos EUA, aprisionou a isolada coluna de guerrilha liderada por Ernesto Che 'Guevara. Che, um herói da Revolução Cubana de 1959, acreditava que Cuba, a apenas 90 quilômetros de distância do continente americano, ficaria vulnerável a menos que outras revoluções tivessem sucesso no mundo. Sua reação ao violento bombardeio dos EUA contra o Vietnã foi semelhante, não é suficiente defender o Vietnã, ele havia dito, mas era necessário "criar dois, três, muitos Vietnã". O fracasso na revolução no Congo levou o Che a Bolívia, onde o exército o prendeu. Ele finalmente foi capturado e levado para uma escola. Mario Terán Salazar, um soldado, foi encarregado do assassinato. Che olhou para aquele homem tremendo. "Acalme-se e fique bem", disse ele. "Você vai matar um homem." Che morreu sob seus pés.

Do homem, Ernesto Guevara (b.1928) tornou-se um mito. É difícil não se sentir tocado com a vida desse médico argentino que se tornou revolucionário.

Radicalizado pela realidade

Sua tutela no pensamento revolucionário surgiu de suas experiências entre os pacientes com lepra da Venezuela e os mineiros de estanho da Bolívia, entre os revolucionários da Argentina e o golpe de 1954 na Guatemala. A realidade o radicalizou. Só mais tarde ele contaria que ele tinha sido influenciado pela, como ele disse, "a doutrina de San Carlos", sua súbita referência a Karl Marx.

Em 1953, no México, Guevara conheceu Hilda Gadea, uma revolucionária da peruana APRA (Aliança Popular Revolucionária Americana). Gadea escolarizou Guevara na teoria marxista e nas correntes radicais, inflamando a região. Eles se mudaram para a Guatemala em setembro de 1954, que estava no meio de uma grande luta contra o governo dos EUA e as corporações dos Estados Unidos. Um governo democraticamente eleito liderado por Jacobo Árbenz tentou realizar reformas de terra básicas, que afrontaram a United Fruit Company. Guevara ficou marcado pelo papel dessa corporação no governo da Guatemala.

Para sua tia Beatriz, ele escreveu: "Eu tive a oportunidade de atravessar os domínios da United Fruit, e isso me convenceu uma vez mais da vilania desses estuários capitalistas. Eu jurei diante de um antigo retrato do velho e cansado camarada Stalin não descansar até que este polvo capitalista fosse aniquilado. Eu melhorarei na Guatemala e me tornarei um verdadeiro revolucionário".

Quando os EUA iniciaram o golpe contra o governo de Arbenz, Guevara saiu às ruas. Não deu certo. Guevara e Gadea fugiram para o México. Foi lá que eles, graças a Gadea, conheceram Raúl Castro e, eventualmente, seu irmão Fidel. Pouco depois, Guevara embarcava em um barco raquítico, o Granma, com os Castros e outros 79 para lançar a Revolução Cubana. Quando seu barco chegou em Cuba, os militares mataram 70 dos revolucionários. Os sobreviventes apressaram-se para o interior, e com pura areia começaram a construir o exército camponês que eventualmente acabou com o ditador Fulgencio Batista, no final de 1959.

Os jovens revolucionários herdaram um país falido. Batista havia transferido US $ 424 milhões de reservas cubanas para bancos dos EUA. Os empréstimos não estavam disponíveis. Em uma reunião tardia, Castro perguntou se havia um economista entre eles. Che levantou a mão. Ele se tornou o ministro da economia. Mais tarde, quando Castro perguntou sobre suas credenciais, Che respondeu que achava que Castro havia perguntado: "Quem é comunista?" Che assumiu sua tarefa com energia e determinação. Os EUA estabeleceram um embargo contra a ilha em 1962. Isso sufocou Cuba. O jornalista uruguaio Eduardo Galeano entrevistou Che em 1964. "Não quero que todos os cubanos desejem que sejam um Rockefeller", disse Guevara. Ele queria construir o socialismo, um sistema que "purificou as pessoas, os afastou do egoísmo, os salvou da concorrência e da ganância". Foi uma tarefa assustadora, dificultada pela pobreza do tesouro e da população; embora o espírito do povo cubano o tenha levado a oferecer seu trabalho para construir seus recursos.

Os anos de Cuba

"Cuba nunca será uma vitrine do socialismo", Guevara disse a Galeano, "mas sim um exemplo vivo". Era muito pobre para se tornar um paraíso. No entanto, poderia exalar o amor por seu próprio povo e pelo mundo. Para Guevara, o amor era tudo, a chave de sua ideia de socialismo. Em uma carta aos seus cinco filhos escritos em rota para a Bolívia, Guevara disse: "Sempre seja capaz de sentir profundamente dentro de seu ser todas as injustiças cometidas contra qualquer um, em qualquer lugar do mundo. Esta é a qualidade mais bonita que um revolucionário pode ter ".

O despacho

Quanto ao destino daqueles que mataram Guevara há 50 anos, o ditador boliviano René Barrientos morreu um ano depois, quando seu helicóptero explodiu em chamas. O general Joaquín Zenteno Anaya, que liderou a operação contra o Che, foi morto a tiros nas ruas de Paris. O Major Andrés Selich Chop, que liderou os Rangers para capturar o Che, foi morto pela ditadura de Hugo Banzer. Monika Ertl, membro do Exército de Libertação Nacional da Bolívia, matou o coronel Roberto Quintanilla Perez, que havia anunciado a morte do Che ao mundo, em Hamburgo.

Mario Terán Salazar, o soldado que atirou no Che, ficou escondido. Muitos anos depois, em 2006, o governo cubano operou o assassino de Che para remover uma catarata de seus olhos sem acusação. O legado do Che não era vingança. Continua a ser o amor de um médico pela humanidade.

* Vijay Prashad é o Editor Chefe da LeftWord Books. Ele está trabalhando em um livro sobre o comunismo no Terceiro Mundo

8 de outubro de 2017

Wolfgang Schäuble adverte sobre a crise financeira global da dívida

As políticas do banco central aumentam a ameaça de bolhas, diz o ministro alemão das finanças

Guy Chazan

Financial Times

Wolfgang Schäuble está se mudando para um novo emprego como orador do Bundestag alemão.

Wolfgang Schäuble advertiu que os níveis crescentes de dívida global e liquidez representam um grande risco para a economia mundial, em seu discurso de despedida como ministro das finanças da Alemanha.

Em uma entrevista ao Financial Times, o Eurófilo que liderou uma das maiores economias do mundo nos últimos oito anos, disse que havia o perigo de formação de "novas bolhas" devido aos trilhões de dólares que os bancos centrais bombearam nos mercados.

O Sr. Schäuble também advertiu sobre os riscos para a estabilidade na zona do euro, particularmente dos balanços bancários sobrecarregados pelo legado pós-crise de empréstimos inadimplentes.

Um forte defensor da retidão fiscal, o Sr. Schäuble dominou a resposta política da Europa à crise da dívida da zona do euro e foi vilipendiado em países como a Grécia como arquiteto de austeridade.

Mas ele será lembrado principalmente como o político mais ardentemente pró-europeu no gabinete da chanceler alemã Angela Merkel, hábil em vender os benefícios do euro e de uma integração européia mais profunda a um público alemão, muitas vezes cético.

O Sr. Schäuble disse ao FT que o voto do Brexit no ano passado tinha demonstrado quão "tolo" era ouvir "demagogos que dizem... estamos pagando demais pela Europa".

A esse respeito deram um grande contributo para a integração Europeia, disse ele. Mas creio que a curto prazo isso não vai ser bom para a Grã-Bretanha".

O Sr. Schäuble deve mudar para um novo emprego como integrante do Bundestag alemão, em meio à preocupação sobre como a legislatura será afetada pela chegada de 92 deputados da Alternativa para a Alemanha [Alternative für Deutschland (AfD)], um partido populista de direita que surpreendeu o establishment político conquistando 12,6 por cento dos votos na eleição do mês passado.

O Sr. Schäuble, que participará da sua última reunião dos ministros das finanças do eurogrupo na segunda-feira, procurou tranquilizar os aliados da Alemanha de que o surpreendente sucesso da AfD não afetaria de modo algum o compromisso do país com a democracia liberal.

"Não há chance de a Alemanha recair no nacionalismo", disse ele.

Os eleitores do AfD estavam insatisfeitos, sentido-se excluídos, estavam irritados com a percepção de injustiça e preocupados com a mudança do mundo. "Mas não há motivos para acreditar que a democracia e o estado de direito estejam em perigo", afirmou.

No entanto, ele advertiu que o mundo está em perigo de "encorajar a formação de novas bolhas".

Economistas do mundo inteiro estão preocupados com o risco da acumulação de cada vez mais liquidez e da subida da dívida pública e privada. Eu também estou”, afirmou.

Seus comentários são feitos um dia depois de Christine Lagarde, chefe do Fundo Monetário Internacional, ter dito que o mundo estava desfrutando de seu melhor impulso de crescimento desde o início da década. Ela advertiu, no entanto, de "ameaças no horizonte" como "altos níveis de dívida em muitos países, a rápida expansão do crédito na China e a tomada excessiva de riscos nos mercados financeiros".

O ponto de vista do Sr. Schäuble é compatível com os do Bank for International Settlements (BIS), que há muito argumentou que a flexibilização monetária agressiva dos bancos centrais estava alimentando bolhas nos preços dos ativos.

O BIS advertiu no mês passado que o mundo tornou-se tão acostumado a crédito barato que as taxas de juros mais altas poderiam descarrilar a recuperação econômica global.

O Sr. Schäuble defendeu a austeridade, que era "estritamente falando, uma maneira anglo-saxônica de descrever uma política financeira sólida que não vê necessariamente mais ou déficits mais elevados como algo bom".

O boom econômico atual da Alemanha, com o aumento da demanda doméstica e do investimento e a menor taxa de desemprego desde a reunificação, resulta de uma política econômica que priorizava "aderir às regras" e evitar déficits. Sob sua administração, o país administra orçamentos equilibrados desde 2014.

"O Reino Unido sempre se divertiu com o capitalismo da Renânia", disse ele, contrastando o modelo de mercado social liderado pelo consenso da Alemanha com os mercados livres anglo-americanos e a desregulamentação."[Mas] vimos que as ferramentas da economia de mercado social foram mais eficazes em lidar com a crise [financeira]... do que nos lugares onde a crise surgiu ".

O Sr. Schäuble elogiou as "iniciativas vigorosas" de Emmanuel Macron para reformar a UE, sem abordar diretamente as propostas do presidente francês para a reforma da zona do euro. Ele disse apenas que a principal tarefa que enfrentava a área da moeda única é "reduzir os riscos, que ainda são muito elevados", pense nos balanços bancários em muitos Estados membros da UE ".

"Temos de garantir que seremos suficientemente resistentes para enfrentar uma nova crise econômica", acrescentou. "Nós não teremos sempre tempos econômicos tão positivos quanto agora".

6 de outubro de 2017

A ascensão da "nova política" da Grã-Bretanha

John Pilger

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names 

Delegados à recente conferência do Partido Trabalhista em Brighton, cidade do litoral inglês, pareceram não notar um vídeo apresentado no átrio principal. Nele, o terceiro maior fabricante de armas do mundo, a BAe Systems, fornecedor da Arábia Saudita, promovia as suas armas, bombas, mísseis, navios de guerra e aviões caça.

Parece um símbolo pérfido para um partido no qual milhões de britânicos agora investem suas esperanças políticas. Outrora caça guardada de Tony Blair, o Partido Trabalhista agora é liderado por Jeremy Corbyn, cuja carreira tem sido muito diferente e é rara na política do establishment britânico.

A discursar na conferência, a ativista Naomi Klein descreveu a ascensão de Corbyn como "parte de um fenômeno global. Vimos isto na histórica campanha de Bernie Sanders nas primárias dos EUA, impulsionada pela nova geração sabedora de que a política centrista não lhes oferece qualquer espécie de futuro seguro".

Na realidade, no fim das eleições primárias dos EUA no ano passado Sanders levou os seus seguidores para os braços de Hillary Clinton, uma belicista liberal vinda de uma longa tradição no Partido Democrata.

Como secretária de Estado do presidente Obama, Clinton presidiu a invasão da Líbia em 2011, a qual levou a uma fuga avassaladora de refugiados para a Europa. Ela regozijou-se com o assassínio abjeto do presidente da Líbia. Dois anos antes, Clinton avalizou um golpe que derrubou o presidente democraticamente eleito das Honduras. Que ela tenha sido convidada para ir a Gales em 14 de outubro a fim de receber um doutoramento honorário da Universidade de Swansea por ser [considerada] "sinônimo de direitos humanos" é algo inconcebível.

Tal como a Clinton, Sanders é um guerreiro frio e um "anti-comunista" obsessivo com uma visão de proprietário do mundo [que está] para além dos Estados Unidos. Ele apoiou o assalto ilegal à Iugoslávia de Bill Clinton e Tony Blair em 1998, apoiou as invasões do Afeganistão, Síria e Líbia, assim como a campanha de terrorismo de Barack Obama por meio de drones. Ele apoia a provocação à Rússia e concorda em que o denunciante Edward Snowden deveria ser submetido a julgamento. Ele chamou o falecido Hugo Chavez – um social-democrata que venceu múltiplas eleições – de "um ditador comunista morto".

Enquanto Sanders é um dos habituais políticos liberais americanos, Corbyn pode ser um fenômeno, com o seu apoio infatigável a vítimas das aventuras imperiais americanas e britânicas e a movimentos de resistência popular.

Exemplo: nas décadas de 1960 e 1970 os habitantes das ilhas Chagos foram expulsos do seu lar, uma colônia britânica no Oceano Índico, por um governo trabalhista. Toda uma população foi sequestrada. O objetivo era dar lugar a uma base militar dos EUA na ilha principal de Diego Garcia: um acordo secreto pelo qual os britânicos foram "compensados" com um desconto de US$14 milhões no preço de um submarino nuclear Polaris.

Tive muito a ver com os ilhéus das Chagos e filmei-os no seu exílio na ilha Maurícia e nas Seychelles, onde sofreram e alguns deles "morreram de tristeza", como me disseram. Eles encontraram um campeão político em um membro trabalhista do Parlamento, Jeremy Corbyn.

Assim o foi com os palestinos. E da mesma forma com iraquianos aterrorizados pela invasão do seu país em 2003 por um primeiro-ministro trabalhista. Assim o fizeram outros que lutaram pela libertação da teia do poder ocidental. Corbyn apoiou os amigos de Hugo Chavez, os quais trouxeram mais do que esperança a sociedades subvertidas pela grande besta estado-unidense.

E ainda assim, agora que Corbyn está mais próximo do poder do que alguma vez poderia ter imaginado, a sua política externa permanece um segredo.

Por segredo quero dizer que tem havido retórica e pouco mais. "Devemos colocar nossos valores no cerne da nossa política externa", disse ele na conferência trabalhista. Mas o que são estes "valores"?

Desde 1945, tal como os conservadores, os trabalhistas britânicos têm sido um partido imperial, obsequioso para com Washington: um registo exemplificado pelo crime nas ilhas Chagos.

O que mudou? Estará Corbyn a dizer que o Partido Trabalhista se desligará da máquina de guerra dos EUA, do aparelho de espionagem estado-unidense e dos bloqueios económicos dos EUA que marcam a humanidade?

Seu secretário sombra para a política externa, Emily Thornberry, diz que um governo Corbyn "colocará os direitos humanos outra vez no cerne da política externa britânica". Mas os direitos humanos nunca estiveram no cerne da política externa britânica – só os "interesses", tal como Lord Palmerston declarou no século XIX: os interesses daqueles no cume da sociedade britânica.

Thornberry citou o falecido Robin Cook o qual em 1997, como primeiro secretário da política externa de Tony Blair, prometeu uma "política externa ética" que "faria outra vez da Grã-Bretanha uma força para o bem no mundo".

A história não se compadece com a nostalgia imperial. A divisão da Índia pelo governo trabalhista, em 1947, recentemente comemorada, – com uma fronteira desenhada às pressas por um advogado em Londres, Gordon Radcliffe, o qual nunca estivera na Índia e a ela nunca retornou – levou a um banho de sangue numa escala genocida.

Trancado numa mansão solitária, com polícia noite e dia
A patrulhar os jardins para manter à distância os assassinos,
Ele dava toda atenção à tarefa de estabelecer o destino
De milhões. Os mapas à sua disposição estavam ultrapassados
E os Resultados do Censo quase certamente incorrectos,
Mas não havia tempo para verificá-los, nem tempo para inspeccionar
Áreas contestadas. O clima era horrivelmente quente,
E um acesso de disenteria mantinha-o constantemente ocupado,
Mas em sete semanas estava tudo feito, as fronteiras decididas,
Um continente, para o melhor ou o pior, dividido. 
— W.H. Auden, Partição.

Foi o mesmo governo trabalhista (1945-51), liderado pelo primeiro-ministro Clement Attlee – um "radical" pelos padrões de hoje – que despachou para Saigão o general Douglas Gracey, do exército imperial britânico, com ordens de rearmar os japoneses derrotados fim de impedir os nacionalistas vietnamitas de libertarem o seu próprio país. Assim foi ateada a mais longa guerra do século.

Foi um secretário trabalhista de assuntos externos, Ernest Bevin, cuja política de "mutualidade" e "parceria" com alguns dos mais odiosos déspotas do mundo, especialmente no Médio Oriente, que forjou relacionamentos que perduram até hoje, muitas vezes contornando e esmagando os direitos humanos de comunidades e sociedades inteiras. Por causa de "interesses" britânicos – petróleo, poder e riqueza.

Na "radical" década de 1960, o secretário trabalhista da Defesa, Denis Healey, estabeleceu a Defence Sales Organisation (DSO) especificamente para promover o comércio de armas e fazer dinheiro com a venda ao mundo de armas letais. Healey disse no Parlamento: "Apesar de concedermos a mais alta importância a alcançar progressos no campo do controle de armas e do desarmamento, devemos também adoptar passos práticos para que possamos garantir que este país não deixe de assegurar a sua fatia legítima deste mercado valioso".

O pensamento duplo era essencialmente trabalhista. Quando posteriormente perguntei a Healey acerca do "mercado valioso" ele afirmou que a sua decisão não fazia diferença para o volume das exportações militares. De facto, ela levou a uma quase duplicação da fatia britânica no mercado de armas. Hoje, a Grã-Bretanha é o segundo maior vendedor de armas da terra, vendendo armas e aviões caça, metralhadoras e veículos de "controle de tumultos" para 22 dos 30 países que na lista do próprio governo britânico eram violadores dos direitos humanos.

Será que isto vai cessar com um governo Corbyn? O modelo favorecido – a "política externa ética" de Robin Cook – é revelador. Tal como Jeremy Corbyn, granjeou reputação como deputado obscuro e crítico do comércio de armas. "Sempre que são vendidas armas", escreveu Cook, "há uma conspiração tácita para ocultar a realidade da guerra" e "é um truísmo que toda guerra nas últimas duas década foi combatida por países pobres com armas fornecidas por países ricos".

Cook destacou a venda de caças Hawk britânicos à Indonésia como "particularmente perturbadora". A Indonésia "é não só repressiva como realmente está em guerra em duas frentes: no Timor Leste, onde talvez um sexto da população tenha sido massacrada ... e na Papua Ocidental, onde confronta um movimento indígena de liberação".

Como secretário de assuntos externos, Cook prometeu "uma revisão completa das vendas de armas". O então Prémio Nobel da Paz, o bispo Carlos Belo de Timor-Leste, apelou directamente a Cook: "Por favor, imploro-lhe, não apoie nem mais um minuto um conflito o qual sem estas vendas de armas nunca poderia ter sido prosseguido e não por muito mais tempo".

Ele referia-se ao bombardeamento indonésio de Timor-Leste com Hawks britânicos e ao massacre do seu povo com metralhadoras britânicas. Não recebeu resposta.

Na semana seguinte Cook convocou jornalistas ao Foreign Office para anunciar sua "declaração de missão" em favor de "direitos humanos num novo século". Este evento de relações públicas incluiu os habituais briefings privados para jornalistas seleccionados, incluindo a BBC, no qual responsáveis do Foreign Office mentiram ao dizer que "não havia evidência" de que caças Hawk britânicos tivessem sido utilizados em Timor Leste.

Poucos dias depois, o Foreign Office divulgou os resultados da "revisão completa" da política de vendas de armas de Cook. "Não era realista ou prático", escreveu Cook, "revogar licenças que eram válidas e estavam em vigor no momento da vitória eleitoral do Partido Trabalhista". O ministro da Defesa de Suharto, Edi Sudradjat, disse que já estavam encaminhadas conversações com a Grã-Bretanha para a compra de mais 18 caças Hawk. "A mudança política na Grã-Bretanha não afectará nossas negociações", disse ele. Estava certo.

Hoje, substitua Indonésia por Arábia Saudita e Timor-Leste por Iémen. Aviões militares britânicos – vendidos com a aprovação tanto do governo Conservador como do Trabalhista e construídos pela firma cujo vídeo promocional teve lugar de destaque na conferência de 2017 do Partido Trabalhista – estão a extirpar a vida do Iémen, um dos mais empobrecidos países do mundo, onde metade das crianças está desnutrida e há a maior epidemia de cólera dos tempos modernos.

Hospitais e escolas, casamentos e funerais foram atacados. Em Riad, noticia-se, pessoal militar britânico treina os sauditas na selecção de alvos.

No manifesto actual do Partido Trabalhista, Jeremy Corbyn e seus colegas prometem que "o Labour exigirá uma investigação abrangente, independente, conduzida pela ONU, às alegadas violações ... no Iémen, incluindo ataques aéreos a civis pela coligação lideradas pelos sauditas. Suspenderemos imediatamente quaisquer novas vendas de armas para utilização no conflito até que a investigação esteja concluída".

Mas a evidência dos crimes da Arábia Saudita no Iémen já está documentada pela Amnistia e outros, nomeadamente pela corajosa reportagem da jornalista britânica Iona Craig . O dossier é volumoso.

O Labour não promete travar as exportações de armas para a Arábia Saudita. Ele não diz que a Grã-Bretanha retirará seu apoio a governos responsáveis pela exportação do jihadismo islamita. Não há compromisso para desmantelar o comércio de armas.

O manifesto descreve um "relacionamento especial [com os EUA] baseado em valores partilhados ... Quando a actual administração Trump preferir ignorá-los ... não teremos medo de discordar".

Como sabe Jeremy Corby, não se trata meramente de "discordar" ao lidar com os EUA. Os EUA são uma potência predadora, perigosa, que não deve ser encarada como um aliado natural de qualquer estado que defenda direitos humanos, tanto faz que seja Trump o presidente ou outro qualquer.

Quando Emily Thornberry, no discurso da conferência, ligou a Venezuela às Filipinas como "regimes cada vez mais autocráticos" – slogans destituídos de factos e que ignoram o papel subversivo dos EUA na Venezuela – ela estava conscientemente a jogar a favor do inimigo: uma táctica com a qual Jeremy Corbyn será familiar.

Um governo Corbyn dará o direito de retorno aos ilhéus das Chagos. Mas o Labour nada diz acerca de renegociar a renovação do acordo por 50 anos que a Grã-Bretanha acaba de assinar com os EUA e que lhe permite utilizar a base de Diego Garcia de onde bombardearam o Afeganistão e o Iraque.

Um governo Corbyn reconhecerá "imediatamente o estado da Palestina". Mas há silêncio sobre se a Grã-Bretanha continuará a armar Israel, continuará a anuir com o comércio ilegal nos "colonatos" ilegais de Israel e tratará Israel simplesmente como uma parte combatente, ao invés de um opressor histórico com a imunidade dada por Washington e Londres.

Sobre o apoio britânico aos actuais preparativos de guerra da NATO, o Partido Trabalhista vangloria-se de que "o último governo trabalhista gastou mais do que a referência de 2 por cento do PIB" com a NATO. Ele diz: "Os gastos dos conservadores colocaram a segurança da Grã-Bretanha em risco" e promete promover as "obrigações" militares britânicas.

De facto, a maior parte dos £40 mil milhões que a Grã-Bretanha gasta actualmente com os militares não é para a defesa territorial do Reino Unido mas sim para propósitos ofensivos a fim de reforçar "interesses" britânicos tal como definidos por aqueles que tentaram enlamear Jeremy Corbyn como não patriótico.

Se os inquéritos de opinião forem confiáveis, a maior parte dos britânicos está bem à frente dos seus políticos, conservadores e trabalhistas. Eles aceitariam impostos mais altos para pagar por serviços públicos; querem o Serviço Nacional de Saúde restaurado plenamente. Querem empregos, salários, habitação e escolas decentes; não odeiam estrangeiros mas ressentem-se com trabalho explorador. Eles não têm uma memória afectuosa de um império no qual o Sol nunca se põe.

Opõem-se à invasão de outros países e encaram Blair como um mentiroso. A ascensão de Donald Trump recordou-os da ameaça que os Estados Unidos podem ser, especialmente com o seu próprio país a reboque.

O Partido Trabalhista é o beneficiário deste estado de espírito, mas muitas das suas promessas – certamente em política externa – estão ressalvadas e comprometidas, o que sugere, para muitos britânicos, mais do mesmo.

Jeremy Corbyn é ampla e adequadamente reconhecido pela sua integridade; opõe-se à renovação das armas nucleares do Trident; o Partido Trabalhista apoia isto. Mas ele concedeu posições no gabinete sombra a deputados pró guerra que apoiam o blairismo, que tentaram livrar-se dele e que o maltrataram como "inelegível".

"Agora somos a corrente política principal" disse Corbyn. Sim, mas a que preço?

Sargento sênior das Forças de Defesa de Israel: Israel enfrentará "derrota catastrófica" se a próxima guerra com o Hezbollah exceder dez dias

Franklin Lamb

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução /Palavras dessa semana, vindas da Síria, oferecem mensagens conflitantes de amigos e de inimigos de Israel e do Hezbollah:

"Lamentamos, claro, que grande parte do Líbano será destruída. Perguntem ao Irã por que acontecerá assim. Mas cuidado para que a coisa não dure 34 dias, como da outra vez (julho de 2006). Todos os civis devem abandonar áreas controladas pelo Hezbollah." 27/9/2017 - Auxiliar do presidente Avi Dichter da Comissão de Assuntos Internos e de Defesa do Parlamento de Israel, que pediu para não ser identificado.

"Netanyahu e seus líderes militares não sabem até onde uma guerra pode levá-los, no caso de eles a iniciarem, e não têm qualquer noção realista de o que os espera na próxima guerra. Conclamo os judeus não sionistas a deixar a Palestina ocupada e voltar aos países de onde saíram, para que não venham a ser usados como bucha de canhão na próxima guerra, caso não tenham tempo suficiente, depois, para partir". 1/10/2017 - Hassan Nasrallah do Hezbollah, em discurso no sul de Beirute, nas comemorações do 10º dia da Ashoura.

A avaliação de muitos analistas na liderança militar dos EUA e de Israel, e também de grande parte do lobby israelense no Congresso dos EUA, é que Israel precisa assegurar-se de que a próxima guerra seja curta. Quanto mais curta, melhor, por várias razões. Uma delas é que Washington não dará 'luz verde' para guerra prolongada, com grande número de civis mortos no Líbano. Outra, que nem políticos nem a opinião pública israelense aceitarão alto número de baixas israelenses, militares ou civis.


Diagrama, cortesia de Maher Allouch. 22/9/2017. O diagrama mostra os bombardeios de Israel contra o Líbano, ao longo de 2006. O que mais Israel tentará?

As forças do Hezbollah têm longa história de usar refinadas técnicas de combate, de alto risco e alta exigência de disciplina, apesar de pagarem preço alto com seus muitos mártires. Em 2/10/2017, segundo a Haharnet do Líbano, o Hezbollah anunciou a morte de pelo menos mais 11 de seus combatentes, com mais de 30 feridos. Farão novamente coisa parecida. E estão preparados – e preferem e planejam-se para – guerra mais longa. Do ponto de vista do Hezbollah, quanto mais longa a guerra, melhor, e por várias razões. Uma das razões é que os dois lados sabem perfeitamente que guerra longa, com o Hezbollah saturando Israel sob aproximadamente 2 mil mísseis por dia, causará dano inimaginável a bases militares israelenses, bem como à infraestrutura, áreas e população civil em geral. E que, a menos que se consiga negociar algum efetivo cessar-fogo, a guerra não terminará, nem mesmo depois de as áreas do Hezbollah estarem destruídas, como aconteceu em 2006. Tampouco acabará quando já não houver nem Israel nem Líbano – a menos que massivos protestos de rua tomem conta das ruas em Israel e invadam o Parlamento – porque o Conselho de Segurança da ONU estará desgraçadamente paralisado, como parece ser seu destino final.

Por várias razões, Israel não consegue e provavelmente não conseguirá impedir que chegue ao Hezbollah a maior parte das armas enviadas pelo Irã, que as retira da Síria e envia-as para onde quer posicioná-las ou onde possam ser armazenadas perto do Líbano ou, segundo fonte em Daraa, Sul da Síria, próximas das Colinas do Golan controladas por Israel. Uma das razões determinantes pelas quais Israel não pode deter o embarque das armas são os quase 350 km de fronteira Líbano-Síria, que mais parece uma 'peneira', tantos são os 'furos', e que é usada há séculos por contrabandistas locais de praticamente tudo, nas duas direções, pelas literalmente centenas de trilhas por entre árvores e montanhas que atravessam as fronteiras.

Atualmente nessa região, como sempre aconteceu na história longa de muitos países, não é fácil bloquear contrabandistas experientes, decididos e com muitos recursos. Outro fator no mesmo processo, é que centenas de caminhões de todos os tamanhos e de vários países viajam da Síria para o Líbano todos os dias, e só relativamente poucos dos experientes vigias locais que cobrem essas rotas sabem, por experiência de anos (observam, por exemplo, qualquer mínima diferença na forma dos pneus dos caminhões em movimento), quais transportam mísseis ou algum outro tipo de armamento pesado. Um jovem, mas miliciano já veterano de Majdel – a menos de duas milhas do ponto de passagem em Maznaa na fronteira Líbano-Síria, a quase 50km a leste de Damasco, garante que olha um caminhão e sabe dizer o tipo de mísseis que transporta, só pelo modo como o caminhão balança nas subidas mais fortes!

Até eu mesmo, simples observador e assumidamente incapaz e obtuso em assuntos de guerra, também poderia dar palpites, depois de incontáveis viagens por terra entre Beirute e Damasco ao longo de já muitos anos. Não raras vezes, também sei se um caminhão carrega armamento pesado, por maior que seja a pilha de sacos de batatas, cebolas ou cachos de banana que se vê sobre a carroceria. Principalmente quando conheço o motorista, meu vizinho de bairro, com quem cruzo na rua, nós dois morando há anos em Dahiyeh, Sul de Beirute (Haret Hreik), a casa do Hezbollah.

Pode-se presumir que o Hezbollah tenha planos de dar bom uso às armas que estão chegando. Israel – território menor que New Jersey, o 5º menor estado dos EUA –, é alvo fácil, na avaliação do Hezbollah, porque tem número relativamente pequeno de pontos vitais, que podem ser bem facilmente atacados. Os alvos ali seriam o aeroporto Ben Gurion, portos de mar, estações ferroviárias, prédios chaves do governo, instalações militares e os vários tipos de alvos civis que tantos atacantes vêm destruindo já há anos na Síria, sem poupar escolas, locais de oração, grandes mercados populares, hospitais, etc. Muitos desses alvos serão danificados em qualquer próxima guerra, se não forem totalmente destruídos, como se tem visto acontecer na Síria há sete anos. Em pouco tempo Israel estará pagando preço insustentável em termos de destruição de infraestrutura, e sofrerá centenas de baixas – apesar de tanto fazer planos para guerra curta.

Hezbollah, Irã e Síria parece já terem aceitado, mais ou menos, o fato dos repetidos ataques a carregamentos de armas – ou talvez tenham deixado de responder para evitar qualquer escalada. Apesar dos ataques diretos de Israel a vários comboios Irã- Hezbollah, o Hezbollah assegurou à mídia e a aliados locais que prosseguirá no trabalho de expandir seu arsenal.

Segundo análise das FFAA de Israel, para garantir que a próxima guerra seja curta e suas forças vitoriosas, é preciso atingir também o estado libanês, não apenas o Hezbollah. Os israelense entendem, declaradamente, que o Hezbollah, infraestrutura libanesa e exército libanês podem ser destruídos na primeira semana ou, seja como for, em no máximo dez dias. Todos os preparativos consideram esse cronograma, segundo analistas de Jane's Weekly. Quando a guerra começar, criará massiva pressão internacional para que os dois lados aceitem logo um cessar-fogo, e isso, precisamente, é o que os militares israelenses desejam e para isso se planejam. O Hezbollah, por sua vez, como dito acima, prepara-se para guerra longa.

Entrementes, até que irrompa a guerra, Israel continuará a tentar impedir que o Hezbollah arme-se com armas acuradas.

Israel está divulgando amplamente a mensagem das suas FFAA, segundo a qual: "Líbano e Hezbollah serão os inimigos de Israel na próxima guerra, igualmente atacados" – na esperança de que, com essa ameaça crie-se suficiente força de contenção até que as FFAA israelenses estejam prontas para sua planejada guerra rápida. Além disso, nenhum dos atores chaves na região, Síria, Irã, Arábia Saudita, países do CCG, França, Rússia, EUA e União Europeia, ninguém quer o Líbano destruído, por mais que haja quem acalente o desejo de, sim, ver destruído o Hezbollah.

Há cerca de uma semana, no final do grande exercício militar no norte de Israel, o ministro israelense da Defesa e chefes do exército cuidaram de distribuir rapidamente uma mensagem internacional, de que Israel seria capaz de derrotar rapidamente o Hezbollah e quando a guerra eclodir é importante que estados ocidentais – no mínimo, os EUA – compreendam que Israel optou por essa estratégia porque não tinha outra. Mas há vozes em Israel e em outros pontos que já criticam essa mensagem e insistem que Israel distribua outra mensagem, praticamente o contrário da primeira – o que sugere confusão significativa dentro do governo de Israel sobre a anteriormente muito divulgada Doutrina Gidion. A subcomissão de Supervisão de Defesa e Construção de Forças da Comissão de Assuntos Exteriores e Defesa do Parlamento de Israel distribuiu semana passada um resumo bem suavizado de relatório altamente secreto do governo sobre o Plano Gideão, de cinco anos, para defesa de Israel contra Irã, Hezbollah, Hamas e outros inimigos jurados da entidade sionista. O relatório critica duramente a falta de estratégia coesa de segurança em Israel, que já dura cinco anos, o que, como diz o relatório, levou a vários fracassos militares na Guerra de Gaza em 2014 e continua a enfraquecer, ainda hoje, as FFAA de Israel. O relatório culpa a liderança política por ainda não ter criado orientação estratégica clara para os militares, e enfatiza também várias graves dúvidas quanto à prontidão de Israel, hoje, para guerra contra o Hezbollah. 

Debate cada vez mais intenso em Israel procura resposta, ainda não encontrada, para se as FFAA israelenses estariam devidamente preparadas para a próxima guerra, seja longa seja curta – como não estiveram nas guerras mais recentes. O Parlamento já pergunta abertamente se as FFAA de Israel estariam prontas para guerra amanhã cedo, e também os altos escalões militares. Relatório muito suavizado de uma subcomissão do Parlamento recém divulgado levanta inúmeras questões fundamentais. 

O relatório insiste que o plano quinquenal Gideão, que supostamente prepararia o exército para a próxima guerra, parece ter levado as FFAA de Israel, elas mesmas, a admitir que, ao longo das últimas duas décadas, Israel preparou-se para a guerra errada, contra o Hezbollah. Diz que Israel precisa de outro tipo de preparação; que há necessidade urgente de mudar a estratégia para a próxima vez que o exército enfrente o Hezbollah; e que precisa de um plano que destrua as muitas ameaças vindas do Irã, que o exército prevê que terá de enfrentar mais cedo do que se espera.

A crítica central feita pela subcomissão tem a ver com o fato de que os militares determinaram suas próprias necessidades para o plano multianual, em vez de a liderança política determinar ao exército o que lhe cabe fazer. O relatório foi positivo sobre uns poucos elementos da implementação do Plano Gideão, mas identificou graves problemas nos planos das FFAA de Israel para levar a termo a próxima guerra contra o Hezbollah. O relatório diz que enquanto os militares de Israel conseguiram montar força de combate impressionante, nem sempre se prepararam adequadamente para a missão correta. O relatório diz em parte: "O ritmo da construção de força e armamento é derivado das opções e nem sempre resolve os vácuos em diferentes áreas que a comissão encontrou ao longo de seu trabalho. Há vários campos críticos que exigem ajustes na construção das FFAA, ainda que à custa de outras capacidades."

A subcomissão também constatou outras deficiências no Plano Gideão, especialmente o fato de que não inclui a "mudança tectônica" que é o retorno dos russos à região. "O que podemos fazer, o que queremos, quais nossas opções para a guerra que se aproxima contra o Hezbollah?"

Essas críticas têm aparecido com frequência entre o que se ouve do establishment militar de Israel e entre os principais decisores políticos, que há medidas que têm de ser tomadas com urgência, à luz dos movimentos em rápida evolução no Oriente Médio. Todos sugerem que o Hezbollah e o Irã podem criar outros fronts significativos na Síria, o que forçaria Israel a combater em várias arenas simultaneamente.

Enquanto isso, movidos principalmente pela preocupação com o destino do Líbano, no caso de Israel começar os bombardeios de saturação, vários "líderes" libaneses já visitaram ou em breve visitarão o Reino [saudita], para planejar estratégias para confrontarem o Hezbollah e o Irã. O primeiro é considerado simplesmente uma milícia estrangeira implantada pelo segundo, declarado regime hegemônico em Teerã, e que alguns, no governo do Líbano creem que estaria caminhando a passos largos para iniciar a própria revolução. Até o presente, já visitaram [o Reino] o líder das Forças Libanesas Samir Geagea e o chefe do Partido Kataeb Samir Gemayel (os dois partidos participaram diretamente no Massacre de Sabra-Shatila em 1982), o primeiro-ministro do Líbano Saad Hariri, o líder druso deputado Walid Jumblat, e o ex-ministro anti-Irã/Hezbollah major-general Ashraf Rifi. Outros estão organizando visitas.

Alguns dos visitantes estão à procura de outra 'coalizão' para confrontar o que dizem que seriam projetos do Irã para controlar a região e suas ameaças à soberania do Líbano. Isso, enquanto esperam persuadir Israel a não destruir o Líbano na tal "guerra curta" planejada para menos de dez dias. Oficiais do Pentágono informaram a membros do Congresso dos EUA que acreditam que essa "guerra curta" começará tão logo militares e governo de Israel cheguem à conclusão de que estão prontos.

5 de outubro de 2017

Referendos: Sim ou Não?

Neal Ascherson

The New York Review of Books

Pessoas acenam uma bandeira separatista catalã após o referendo da independência proibido em Barcelona, 2 de outubro, 2017. Créditos: Susana Vera/Reuters

Tradução / Quando é um referendo, e quando é um plebiscito?

A semana passada nos trouxe duas apaixonadas e dramáticas votações populares pela independência, no Curdistão iraquiano e na Catalunha, na Espanha. Todos, mesmo aqueles que descartaram ambas as votações como ilegais e sem sentido, as chamaram de "referendos". Mas elas eram? Na prática, os dois termos - "referendo" e "plebiscito" - estão irremediavelmente enredados.

Minha jovem amiga Joan (um nome masculino em seu país) acabou de votar Sim para a pergunta: "A Catalunha deveria se tornar uma república independente?" Ela me manda um e-mail: "Eu matei [sic] minha cédula com os olhos umedecidos", e uma foto a mostra sorrindo para conter as lágrimas quando ela coloca seu voto na urna. Isso ela chama de referendo.

Meu antigo e mais velho amigo Willy, que era um estudante alemão em 1921, teve uma baioneta francesa na parte de trás durante um plebiscito. A Alemanha e o estado polonês ressuscitado estavam reivindicando a bacia de carvão e aço da Alta Silésia. Duas revoltas sangrentas não resolveram nada. Assim, os Poderes Aliados em Versalhes organizaram um plebiscito, distrito por distrito, para determinar as fronteiras.

Seria monitorado pelas tropas aliadas. Mas os soldados franceses favoreceram abertamente os polacos. Assim, no auge da campanha do plebiscito, Willy e um grupo de crianças de escola alemãs de Gleiwitz (Gliwice) se burlaram de uma patrulha francesa, que os acusou com baionetas fixas. O resultado do plebiscito foi rejeitado pelos polacos, que reclamaram que centenas de milhares de alemães, com pouca conexão com a Silésia, foram convocados para votar. Foi só depois de uma terceira insurreição e uma brutal batalha em Annaberg que uma nova fronteira, não aceita por ninguém, foi estabelecida.

Na Irlanda, uma votação para aceitar uma nova Constituição é um plebiscito, mas uma votação para modificá-la (como o votação do próximo que vem para eliminar a cláusula anti-aborto da Constituição) é um referendo. Na Austrália, um plebiscito é uma consulta não vinculativa, projetada para testar a opinião pública sobre algumas questões e avaliar se há uma maioria para mudanças. Os australianos estão tendo um plebiscito postal nesse momento sobre o casamento homossexual. Um referendo, ao contrário, é um voto vinculativo sobre uma mudança constitucional.

Mas a maior parte do mundo, hoje em dia, chama qualquer decisão por voto popular direto de um referendo. Os Estados-nação democráticos não gostam deles, sentindo que confessam o fracasso da democracia representativa. A França é um país que tentou domar o referendo. Em primeiro lugar, os republicanos franceses o condenaram como uma ferramenta do bonapartismo, já que foi usado por Napoleão III no século XIX para ignorar os parlamentos e basear sua ditadura no "povo". Mais tarde, os republicanos inseriram a medida em suas curiosas regras para ordenar uma mudança de regime: primeiro uma revolução, então um governo provisório para preparar eleições para uma assembléia constituinte para elaborar uma nova Constituição; em seguida vem um referendo para aprovar a Constituição; e, finalmente, as primeiras eleições parlamentares da nova República.

Alguns sábios pensam que um referendo só deve ser considerado para ratificar ou rejeitar uma decisão já tomada por uma legislatura. Outros, incluindo Adolf Hitler, realizaram os chamados referendos retrospectivos para aprovar algo que já havia sido feito e, certamente, não seria desfeito, seja qual fosse o resultado da votação. Às vezes, o eleitorado é tão cretino e hipnotizado que marcha, cantando e carregando flores, para a mesa de votação, como no referendo nazista para aprovar o Anschluss da Áustria ao Reich em 1938. Às vezes, alguns adversários tiveram que desaparecer e os resultados "ajustados". É muito lembrada é a sátira pré-guerra de David Low de um referendo nazista: "Obtenha seu JA aqui! Coloque seu JA aqui!"

Meu primeiro referendo foi em 1979, realizado para implementar ou rejeitar a proposta de um governo trabalhista por uma Assembléia Escocesa descentralizada. Mas no último momento, o votação foi atrapalhada. Uma emenda hostil decretou que um voto Sim só seria válido se fosse entregue por 40% do eleitorado registrado. Isso era típico das muitas maneiras pelas quais os referendos podem ser torcidos. Pode ser razoável exigir que, digamos, 75 por cento dos que votam devem concordar com uma proposta importante. Mas esse alvo de 40 por cento de todo o eleitorado, calculado em um cadastro eleitoral muito desatualizado, significava que os abstêmios e os mortos, na verdade, votaram Não. No caso, havia uma pequena maioria sim, mas participação estava longe do limiar de 40 por cento. Decorreram décadas de amargura.

O próximo referendo para um Parlamento escocês veio em 1997: feito com imparcialidade e calmamente disputado, ele emitiu um forte veredicto de Sim. Então, em 2014, veio o referendo sobre a independência total. A pesquisa rejeitou a independência, por uma margem de 10%. Mas os nacionalistas catalães ainda o invejam.

Tudo o que o governo espanhol está errando em 2017, o britânico fez certo em 2014. Londres aceitou que os escoceses poderiam deixar o Reino Unido se eles mostrasse inequivocamente que eles queriam. O governo britânico fez uma campanha feroz contra a secessão, mas não contestou o direito final dos escoceses de decidir seu futuro. Um acordo de Edimburgo entre o então primeiro-ministro, David Cameron, e o primeiro ministro escocês, Alex Salmond, legalizaram o referendo e elaboraram os seus termos com antecedência. O resultado do Não foi doloroso para o Partido Nacional Escocês e para o movimento de independência mais amplo, mas ninguém contestou seriamente a justiça do referendo. Não foram enviados "bobbies" ingleses para destruir as assembleias de votação em Edimburgo ou as anciãs senhoras tentando votar.

Por trás dos referendos e dos plebiscitos está a ideia de soberania popular. Mas isso legitima um "direito à autodeterminação", quando é uma votação sobre deixar um Estado-nação existente? Esse direito é, de qualquer forma, um direito coletivo bem parecido, que é quase impossível de definir, e muito menos de impor. Pode-se significar quase qualquer coisa: por exemplo, os "expulsados" alemães do pós-guerra da Europa Central alegaram que isso significava o direito de retornar à sua pátria e expulsar os colonos poloneses e checos que os haviam substituído.

Ainda menos existe um direito geralmente reconhecido de se separar. (Eu acredito que uma das Constituições soviéticas incluiu tal cláusula, mas ninguém teria ousado invocá-la.) Até o Tratado de Maastricht de 1992 introduzir a política regional, convidando os membros da União Europeia a transferir amplos poderes de autogoverno para suas províncias e periferias, alguns membros da união europeia ainda consideravam a autonomia local como um desafio à integridade do Estado. Juristicamente, a maioria dos movimentos de independência equivale a traição.

Mas, é claro, movimentos de independência surgem dentro de estados-nação antigos, e alguns deles são completamente justificados, e alguns deles - o Catalão, de fato - se tornam tão forte que os apelos legais a uma Constituição ou os disparos de balas de borracha não podem suprimi-los. Então, apenas o sóbrio pragmatismo ajuda. Foi realmente tão trágico para a Grã-Bretanha quando a Irlanda ganhou sua independência? Não é o caso que a partida da Eslováquia da Checoslováquia fez as relações entre Praga e Bratislava realmente mais quentes e fáceis do que antes? É difícil imaginar qualquer maneira pior de lidar com o desafio catalão do que o acosso legalista e a contundente repressão adotada pelo primeiro-ministro Mariano Rajoy.

É tentador dizer que os governos britânicos acharam mais fácil lidar com a Escócia porque a Grã-Bretanha não possui uma Constituição. Mas, dois anos depois, veio o desastre do referendo Brexit. Foi chamado por duas razões ruins: resolver as fendas dentro do partido Tory, e porque David Cameron estava confiante de que ele ganharia e a Grã-Bretanha ficaria na União Européia.

Ele perdeu os dois lados. O cisma sobre a Europa ainda aflige seu partido até hoje. E os ingleses, embora não os escoceses, votaram para sair. Deixem. De uma vez, o caiu chão do que se passa por tradição constitucional. A Grã-Bretanha deve operar sobre a arcaica doutrina da soberania parlamentar. Em síntese, no final do século XVII, o poder absoluto foi retirado da monarquia e transferido para o Parlamento: nenhuma lei ou governante pode estar acima da liberdade absoluta do Parlamento para legislar como quiser. Não há sugestão de soberania popular.

Em 2016, a maioria dos membros eleitos do Parlamento britânico era favorável a permanecer na União Européia. Mas, nesse momento, esse resultado inesperado foi referendado, proclamando que a vontade do povo era Deixar e deve ser obedecida. Incrivelmente, ninguém sabia o que era a lei de Estado da Grã-Bretanha. A soberania sagrada do Parlamento deveria prevalecer, ou a doutrina não inglesa da soberania popular expressa através desse referendo modernoso? Mas o pânico moral e intelectual em Westminster foi logo superado pelo pânico político: membros do Parlamento que desafiassem seus eleitores na Europa arriscariam perder seus assentos. Assim, a maioria dos legisladores engoliu seus princípios e respaldaram a marcha da primeiro-ministra Theresa May para o Brexit.

O dogma da soberania parlamentar foi consagrado pelo grande jurista vitoriano A.V. Dicey. Mas, curiosamente, Dicey mudou de ideia sobre referendos no final de sua vida. Ele temia que seus ensinamentos criassem um Leviatã: um gabinete enraizado pela maioria parlamentar que poderia agir sem qualquer controle. Então ele propôs referendos "negativos". Os eleitores não propunham nada, mas poderiam vetar uma medida do governo que os cidadãos não gostassem. Mas ninguém tomou o velho a sério. Eles sugeriram que ele simplesmente queria que a opinião pública bloqueasse duas reformas que ele temia: a autonomia para a Irlanda e votos para as mulheres.

O fator central nos referendos é quem tem o direito de convocá-los. Formalmente, os referendos curdos e catalães eram ambos ilegais porque nem o governo iraquiano nem o espanhol os licenciavam. (Mas a União Européia mostrou uma hipocrisia desprezível ao desprezar os catalães, já que mais da metade dos membros da UE só existem porque se separaram de estados maiores sem permissão ou referendo prévio). Alguns lugares - a Califórnia e a Suíça entre eles - concederam por muitos anos a um mínimo específico de peticionários o direito de convocar um referendo. Mas agora, as mídias sociais globalizadas estão transformando toda a questão da iniciativa de votação. Uma torrente incessante de demandas organizadas de mudança está espalhando o hábito da democracia direta, o que já está ultrapassando as legislaturas tradicionais. Os referendos, vulneráveis ​​a demagogos e mentiras como certamente são, parecem estar preparados para veicular as políticas do futuro.