8 de dezembro de 2017

A decisão do presidente Trump sobre Jerusalém arrisca unir todo o mundo árabe contra os EUA

O reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel tornará mais fácil para Teerã convocar todos os muçulmanos, xiitas e sunitas, para que se juntem em defesa dos palestinos e dos locais sagrados

Patrick Cockburn


Manifestante palestino lança pedras enquanto gás lacrimogênio é disparado por tropas israelenses. Mussa Issa Qawasma / Reuters

Tradução / O presidente Trump e o governo de Israel com certeza previram, mas subestimaram, o "dia de fúria" palestina, com protestos de muçulmanos em todos os cantos do mundo, na sequência do reconhecimento de Jerusalém, pelos EUA, como "capital de Israel" e planos de transferir para lá a embaixada dos EUA. Com certeza entendem que a fúria logo se dissipará, porque aliados dos EUA, como os governantes da Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Egito se darão por satisfeitos com breves protestos formais, e os palestinos são fracos demais para qualquer coisa além de manifestações que nada mudam.

EUA e Israel podem ter errado gravemente nessas avaliações: quando vivi em Jerusalém aprendi que muitos eventos dramáticos em Israel, como tiroteios e bombas, quase sempre têm repercussão interna muito menor do que o mundo externo poderia esperar. Mas qualquer coisa, seja o que for, que envolva diretamente Jerusalém, e sobretudo os lugares santos dos muçulmanos que lá estão, sempre tem impacto muito maior do que alguém que viva longe de lá possa imaginar.

A consequência imediata da ação de Trump é que os EUA se tornam ainda mais fracos, porque tomaram mais uma iniciativa que absolutamente todo o mundo desaprova. Uma superpotência no auge do próprio poder poderia talvez insistir nesse movimento. Mas não os EUA de hoje, politicamente divididos, cuja influência está em maré vazante na sequência dos fracassos militares no Iraque e no Afeganistão. O movimento de Trump é tão obviamente contrário aos interesses da política externa dos EUA que acabará de convencer outros líderes mundiais de que Trump é aliado impossível.

Mas o movimento pode ter também outras consequências perigosas. Há um mito segundo o qual a luta israelenses-palestinos seria questão distante das preocupações de Osama bin Laden ou que não tenha tido qualquer influência na ascensão da al-Qaeda. Verdade é que os discursos e escritos de bin Laden estão cheios de referências aos palestinos – e suas primeiras manifestações públicas, na década de 1980, foram conclamações para que os árabes boicotassem produtos norte-americanos, por causa do apoio dos EUA a Israel.

A conexão entre a questão palestina e o 11/9 foi sempre diminuída e apagada à época, especialmente nos veículos e think-tanks a serviço dos neoconservadores que garantiam que os EUA poderiam ignorar a questão e manter política de agressão ao Iraque, sem que isso comprometesse a segurança do país. É verdade que o 11/9 prejudicou os palestinos, porque foram marginalizados quando EUA e aliados iniciaram uma sequência de guerras durante as quais a causa palestina praticamente sumiu da pauta Ocidental de notícias.

Mas com as guerras no Iraque e na Síria chegando ao fim, o foco volta a recair sobre israelenses e palestinos. O Estado Islâmico (EI) e a al-Qaeda foram derrotados nos seus esforços para derrubar governos e 'mudar o regime' em Bagdá e Damasco. Se aqueles grupos pretendem sobreviver e angariar apoios no mundo muçulmano, terão de definir um novo inimigo. Por destroçados que talvez estejam, com certeza aqueles grupos têm hoje muito mais recursos e ativistas do que bin Laden tinha à época do 11/9. A declaração de Trump sobre Jerusalém joga uma boia salva-vidas aos movimentos tipo al-Qaeda, bem quando tentam sobreviver à mais completa derrota.

Trump herdou de Obama a guerra para eliminar o autoproclamado "Califato", e deu-lhe andamento sem qualquer mudança. Muitas decisões sobre o conflito foram tomadas, sem dúvida, pelo Pentágono, não pela Casa Branca. Até agora, a maior modificação na política dos EUA na região foi o esforço para pôr fim à détente de Obama com o Irã, substituindo-o por esforço na direção oposta, para construir uma coalisão anti-Irã. Agora, isso também se torna trabalho ainda mais difícil.

Em outubro, Trump rejeitou o acordo nuclear com o Irã, demonizando os iranianos como se fossem fonte e causa de toda a instabilidade na região. Trump e seu governo tendem a misturar iranianos e xiitas, mais ou menos como fazem a Arábia Saudita e os monarcas sunitas do Golfo. O Conselheiro de Segurança Nacional de Trump, H R McMaster disse no final de outubro que "o mais importante, não só para os EUA, mas para todas as nações, é enfrentar os flagelos que são o Hezbollah, os iranianos e o Corpo de Guardas da Revolução Islâmica."

Ainda não se pode ver com clareza até onde essa retórica beligerante será efetivamente convertida em ação militar. Se Trump quer confrontar o Irã e o eixo de estados e organizações paramilitares que o Irã lidera, então chegou tarde demais. O lado xiita iraniano já venceu a guerra na Síria e no Iraque contra uma resistência predominantemente sunita, que era apoiada por Arábia Saudita, Qatar e Turquia. O papel do Hezbollah e o grupo paramilitar xiita Hashd al-Shaabi será naturalmente reduzido, porque já não há guerra a combater e os governos centrais em Bagdá e Damasco vão-se tornando mais fortes.

O reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel tornará ainda mais fácil para Teerã conclamar todos os muçulmanos, xiitas e sunitas, a defenderem juntos o povo palestino e os lugares santos na Palestina. E tornará ainda mais difícil, se não impossível, para a Arábia Saudita e aliados no Golfo agir ao lado dos EUA, aproximarem-se de Israel e pintar o Irã como se fosse a principal ameaça na região.

Há uma consequência ainda mais ampla, dessa mudança na política dos EUA: há cerca de 1,5 bilhão de muçulmanos no mundo que são maioria em cerca de 50 estados e constituem 22% da população do mundo. Nenhum deles aprovará o mais recente movimento de Trump. A população de muitos daqueles países, inclusive alguns dos maiores como a Turquia (80 milhões) e o Paquistão (193 milhões), já era muito fortemente anti-norte-americana, mesmo antes de Trump ser eleito. Em 2012, pesquisas mostraram que 74% dos paquistaneses consideravam os EUA como país inimigo. E esse número, já muito alto, é ainda maior na Turquia, onde 82% dos turcos disseram, nesse verão, que têm impressão desfavorável dos EUA. Divididos em praticamente todas as questões, os turcos estão unidos contra os EUA, o que tornará ainda mais difícil qualquer movimento dos EUA contra o Irã.

O presidente Putin deve visitar Istambul na segunda-feira para falar com o presidente Erdogan sobre Jerusalém e a Síria, um sinal de que pode ser difícil isolar a questão da capital israelense de outros conflitos.

Todos esses importantes desenvolvimentos estão em curso, mas nada mudou de fato em campo: Israel já tratava Jerusalém como sua capital, e o chamado processo de paz com os palestinos está há anos em estado de total confusão. Os EUA já não podem sequer fingir que seriam mediador equilibrado, o que, na verdade e sobretudo, jamais foram.

Ao reconhecer Jerusalém como capital de Israel, Trump e Israel podem ter quebrado uma regra política que ensina que não é recomendável mexer em situações de fato que outros já tenham acabado por aceitar, mesmo que informalmente. É movimento que pode ter consequências desastrosas inesperadas. Bom exemplo disso se viu há menos de três meses, quando o presidente Masoud Barzani promoveu um referendum que declarou a independência formal do Curdistão Iraquiano, apesar de os curdos iraquianos já viverem em situação de fato bem próxima da independência desde 2003. Os governos do Iraque, da Turquia e do Irã, que durante anos aceitavam a situação anterior, reagiram furiosamente; e em três semanas os curdos perderam o controle sobre Kirkuk e grande parte de seu território. É provável que o presidente Trump e Israel logo descubram que apostaram mais alto do que recomendava a prudência e terão de pagar preço mais alto do que esperavam ao formalizar o controle israelense sobre Jerusalém.

Estado de medo: Como a campanha de bombardeameto mais mortal da história criou a crise de hoje na Coréia

Ted Nace

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / No momento em que o mundo observa com preocupação o crescimento de tensões e a retórica belicosa entre os Estados Unidos e a Coreia do Norte, um dos aspectos mais notáveis da situação é a ausência de qualquer reconhecimento público da razão subjacente para os temores norte-coreanos – ou, como foi chamado pela embaixadora nas Nações Unidas, Nikki Haley, o "estado de paranóia" – nomeadamente a horrenda campanha de bombardeamento incendiário efetuada pela US Air Force durante a Guerra da Coreia e a mortandade sem precedentes que dela resultou.

Os fatos totais nunca serão conhecidos, mas a evidência disponível aponta para a conclusão de que o bombardeamento incendiário de cidades e aldeias da Coreia do Norte provocaram mais mortes civis do que qualquer outra campanha de bombardeamento da história.

O historiador Bruce Cumings descreve a campanha de bombardeamento como "provavelmente um dos piores episódios de desenfreada violência americana contra outro povo, mas certamente poucos americanos sabem disso".

A campanha, executada de 1950 a 1953, matou dois milhões de norte-coreanos, segundo o general Curtis LeMay, o chefe do Strategic Air Command e o organizador do bombardeamento incendiário de Tóquio e de outras cidades japonesas. Em 1984, LeMay disse ao Gabinete de História da Força Aérea que o bombardeamento da Coreia do Norte "matou 20 por cento da população".

Outras fontes mencionam um número um pouco mais baixo. Segundo um conjunto de dados preparados por investigadores do Centre for the Study of Civil War (CSCW) e do International Peace Research Institute (PRIO), de Oslo, "a melhor estimativa" de mortes civis na Coreia do Norte é de 995 mil, com uma estimativa baixa de 645 mil e uma estimativa alta de 1,5 milhão.

Apesar de a estimativa de LeMay ser a metade da estimativa da CSCW/PRIO de 995 mil mortes ainda assim excede a mortandade de civis de qualquer outra campanha de bombardeamento, incluindo o bombardeamento incendiário dos Aliados de cidades alemãs na II Guerra Mundial, a qual foi estimada em 400 a 600 mil vidas. O bombardeamento incendiário e nuclear de cidades japonesas, provocou uma estimativa de 330 mil a 900 mil mortes; o bombardeamento da Indochina de 1964 a 1973, causou globalmente 121 a 361 mil mortes durante as operações Rolling Thunder , Linebacker e Linebacker II (Vietname); Menu e Operação Freedom Deal (Camboja) e Barroll Roll (Laos).

A fortíssima mortandade do bombardeamento da Coreia do Norte é especialmente notável considerando a população relativamente modesta do país: apenas 9,7 milhões de pessoas em 1950. Para comparação, havia 65 milhões de pessoas na Alemanha e 72 milhões no Japão no fim da II Guerra Mundial.

Os ataques da US Air Force contra a Coreia do Norte utilizaram táticas de bombas incendiárias que foram desenvolvidas no bombardeamento da Europa e do Japão na II Guerra Mundial: explosivos para destruir edifícios, napalm e outros produtos incendiários para atear incêndios maciços e metralhamento para impedir que equipes de bombeiros extinguissem as chamas.

A utilização destas táticas não era inevitável. De acordo as políticas dos Estados Unidos em vigor no início da Guerra da Coreia, o bombardeamento incendiário contra populações civis era proibido. Um ano antes, em 1949, uma série de almirantes da US Navy haviam condenado tais táticas em depoimento antes de audiências no Congresso. Durante esta "Revolta dos almirantes", a Marinha opusera-se aos seus colegas da Força Aérea, sustentando que ataques executados contra populações civis eram contraproducentes e violavam normas morais globais.

Apresentados no momento em que os tribunais de Nuremberg haviam elevado a consciência pública acerca de crimes de guerra, as críticas dos almirantes da Navy encontram uma recepção simpática no tribunal da opinião pública. Consequentemente, atacar populações civis era algo proibido na política dos EUA no princípio da Guerra da Coreia. Quando o general da Força Aérea George E. Stratemeyer solicitou permissão para utilizar os mesmos métodos de bombardeamento incendiário sobre cinco cidades norte-coreanas que "puseram o Japão de joelhos", o general Dougla MacArthur recusou a permissão mencionando a "política geral".

Depois de cinco meses de guerra, com forças chinesas intervindo ao lado da Coreia do Norte e de forças da ONU em retirada, o general MacArthur mudou a sua posição, concordando com o pedido do general Stratemeyer em 3 de novembro de 1950, de incendiar a cidade norte-coreana de Kanggye e várias outras cidades. "Incendeia se quiser. Não só aquela, Strat, mas incendeie-a e destrua-a como lição para qualquer outras destas cidades que considere de valor militar para o inimigo". Na mesma noite, o chefe do Estado-Maior de MacArthur disse a Stratemeyer que o bombardeamento incendiário de Sinuiju também fora aprovado. No seu diário, Stratemeyer resumiu as instruções como se segue: "Toda instalação e aldeia na Coreia do Norte agora torna-se um alvo militar e tático". Stratemeyer enviou ordens ao Quinto Comando de Bombardeiros da Força Aérea para "destruir todos os meios de comunicações e toda instalação, fábrica, cidade e aldeia".

Se bem que a Força Aérea fosse direta nas suas próprias comunicações internas acerca da natureza da campanha de bombardeamento – incluindo mapas que mostravam a percentagem exata de cada cidade que havia sido incinerada – as comunicações para a imprensa descreviam a campanha de bombardeamento como dirigidas unicamente a "concentrações de tropas inimigas, depósitos de abastecimento, fábricas de guerra e linhas de comunicações".

As ordens dadas ao Quinto Comando da Força Aérea eram mais claras: "Aviões sob o controle do 5º Comando destruirão todos os outros alvos incluindo todos os edifícios capazes de dar abrigo".

Menos de três semanas após o assalto inicial a Kanggye, dez cidades haviam sido incineradas, incluindo Ch'osan (85%), Hoeryong (90%), Huich'on (75%), Kanggye (75%), Kointong (90%), Manp'ochin (95%), Namsi (90%), Sakchu (75%), Sinuichu (60%) e Uichu (20%).

Em 17 de novembro de 1950, o general MacArthur disse ao Embaixador dos EUA na Coreia, John J. Muccio: "Infelizmente, esta área será deixada como um deserto". Por "esta área" MacArthur queria dizer toda a área entre "nossas posições atuais e a fronteira".

À medida que a Força Aérea continuava a incinerar cidades, ela mantinha um cuidadoso registo dos níveis de destruição resultantes:

  • Anju – 15%
  • Chinnampo (Namp'o) – 80%
  • Chongju (Chongju) – 60%
  • Haeju – 75%
  • Hamhung (Hamhung) – 80%
  • Hungnam (Hungnam) – 85%
  • Hwangju (Hwangju County) – 97%
  • Kanggye – 60% (reduced from previous estimate of 75%)
  • Kunu-ri (Kunu-dong) – 100%
  • Kyomipo (Songnim) – 80%
  • Musan – 5%
  • Najin (Rashin) – 5%
  • Pyongyang – 75%
  • Sariwon (Sariwon) – 95%
  • Sinanju – 100%
  • Sinuiju – 50%
  • Songjin (Kimchaek) – 50%
  • Sunan (Sunan-guyok) – 90%
  • Unggi (Sonbong County) – 5%
  • Wonsan (Wonsan) – 80%

Em maio de 1951, uma equipe internacional para averiguação de fatos declarou: "Os membros, em todo o decorrer da sua jornada, não viram uma cidade que não houvesse sido destruída e havia muito poucas aldeias não danificadas".

Em 25 de junho de 1951, o general O'Donnell, comandante do Far Eastern Air Force Bomber Command, testemunhou numa resposta a pergunta do senador Stennis ("... a Coreia do Norte foi virtualmente destruída, não foi?"):

"Oh, sim; ... eu diria que toda, quase toda a Península Coreana está numa terrível confusão. Está tudo destruído. Não há nada valioso em pé para mencionar ... Pouco antes de os chineses entrarem estávamos enraizados. Não havia mais alvos na Coreia".

Em agosto de 1951 o correspondente de guerra Tibor Meray declarou que testemunhara "uma completa devastação entre o Rio Yalu e a capital". Ele disse que "não havia mais cidades na Coreia do Norte". E acrescentou: "Minha impressão era de que estava a viajar na lua porque havia apenas devastação... Toda cidade era uma coleção de chaminés".

Vários fatores combinaram-se para intensificar a mortalidade dos ataques com bombas incendiárias. Como fora ensinado pela II Guerra Mundial, ataques incendiários podiam devastar cidades com incrível rapidez: as bombas incendiárias da Royal Air Force no ataque a Würzburg, Alemanha, nos meses finais da II Guerra Mundial exigiram apenas 20 minutos para envolver a cidade numa tempestade de fogo com temperaturas estimadas de 1500-2000º C.

Outro fator que contribuiu para a letalidade dos ataques foi a severidade do inverno norte-coreano. Em Pyongyang, a baixa temperatura média em janeiro é de 8º Fahrenheit [-13º Celsius]. Como o bombardeamento mais severo teve lugar em novembro de 1950, aqueles que escaparam à morte imediata pelo fogo foram relegados ao risco de morte pela exposição [ao tempo] nos dias e meses que se seguiram. Sobreviventes criaram abrigos improvisados em desfiladeiros, caves e adegas abandonadas. Em Maio de 1951 uma delegação da Federação Internacional de Mulheres Democráticas (WIDF) que visitou a cidade bombardeada de Sinuiju relatou:

"A maioria esmagadora dos habitantes vivem em covas feitas de terra escoradas por madeira recuperada. Algumas destas covas têm tetos feitos de telha e madeira, recuperada de edifícios destruídos. Outros estão a viver em adegas que permaneceram após o bombardeamento e outros ainda em tendas cobertas de palha na estrutura de edifícios destruídos e em choças feitas de tijolo sem argamassa e de entulho".

Em Pyongyang, a delegação descreveu uma família de cinco membros, incluindo uma criança de três anos e um bebê de oito meses, a viveram num espaço subterrâneo medindo dois metros quadrados em que só se podia entrar rastejando através de um túnel de três metros.

Um terceiro fator de mortalidade foi a utilização extensiva do napalm. Desenvolvido na Universidade de Harvard em 1942, a substância pegajosa e inflamável foi utilizada primeiro na II Guerra Mundial. Ela tornou-se uma arma chave durante a Guerra da Coreia, na qual 32.557 toneladas foram utilizadas, sob uma lógica que o historiador Bruce Cumings caracterizou assim: "Eles são selvagens, então isso nos dá o direito de despejar napalm sobre inocentes". Muito tempo após a guerra, Cumings descreveu um encontro com um sobrevivente idoso:

"Numa esquina havia um homem (pensei que era um homem ou uma mulher com ombros largos) que tinha uma crosta púrpura peculiar sobre todas as partes visíveis da sua pele – espessa nas suas mãos, fina nos seus braços, cobrindo totalmente toda a sua cabeça e face. Ele era careca, não tinha orelha ou lábios e os seus olhos, faltando pálpebras, eram um branco acinzentado, sem pupilas... Esta crosta púrpura resultou do encharcamento com napalm, após o qual corpo não tratado da vítima foi deixado para de algum modo curar-se a si próprio".

Durante as conversações do armistício, na conclusão do combate, comandantes dos EUA haviam esgotado as cidades para alvejar. A fim de pressionar as negociações, agora viravam os bombardeiros rumo às grandes barragens da Coreia. Como informou o New York Times, a inundação provocada pela destruição de uma barragem "escavou totalmente" 27 milhas [43 km] do vale do rio e destruiu milhares de hectares de arroz recém plantado.

Na sequência das campanhas de bombardeamento incendiário contra a Alemanha e o Japão durante a II Guerra Mundial, um grupo de investigação do Pentágono com mais de 1000 membros efetuou uma avaliação exaustiva conhecida como United States Strategic Bombing Survey. A USSBS publicou 208 volumes para a Europa e 108 volumes para o Japão e o Pacífico, incluindo contagens de baixas, entrevistas com sobreviventes e análises econômicas. Estes relatórios indústria-por-indústria foram tão pormenorizados que a General Motors utilizou os resultados para processar com êxito o governo dos EUA por US$32 milhões de danos em fábricas alemãs [de sua propriedade].

Após a Guerra da Coreia, nenhum exame (survey) do bombardeamento foi efetuado além dos próprios mapas internos da Força Aérea mostrando a destruição cidade-por-cidade. Estes mapas foram mantidos secretos nos vinte anos seguintes. No momento em que os mapas foram silenciosamente desclassificados, em 1973, o interesse da América na Guerra da Coreia há muito que se havia desvanecido. Só em anos recentes o quadro completo começou a emergir em estudos de historiadores como Taewoo Kim do Korea Institute for Defense Analyses, Conrad Crane da Academia Militar dos EUA, e Su-kyoung Hwangof da Universidade da Pennsylvania.

Na Coreia do Norte, a memória está viva. De acordo com o historiador Bruce Cumings , "foi a primeira coisa que o meu guia chamou a minha atenção". Cumings escreve: "A maquinaria desimpedida de bombardeamento incendiário visitou o Norte durante três anos, produzindo uma terra devastada e um povo a sobreviver como toupeiras que haviam aprendido a amar o abrigo de caves, montanhas, túneis e fortificações, um mundo subterrâneo que se tornou a base da reconstrução de um país e um recordatório que produziu um ódio brutal em toda a população".

Nos dias de hoje, o bombardeamento incendiário de cidades e aldeias da Coreia do Norte permanece virtualmente desconhecido do público geral e não reconhecido na discussões dos meios de comunicação sobre a crise, apesar da óbvia relevância para a busca de um dissuasor nuclear por parte da Coreia do Norte. Mas sem conhecer e confrontar estes fatos, o público americano não podem começar a compreender o medo que jaz no cerne das atitudes e ações da Coreia do Norte.

6 de dezembro de 2017

Corpus Separatum?

Mouin Rabbani


Tradução / Por setenta anos, os EUA, pelo menos formalmente, alinharam sua posição sobre Jerusalém com a da comunidade internacional e o direito internacional. De acordo com a Resolução 181 da ONU, que recomenda a divisão da Palestina, aprovada pela Assembléia Geral em 29 de novembro de 1947, a Cidade Santa ficou “estabelecida como um corpus separatum sob um regime internacional especial”. A conquista de Jerusalém Oriental por Israel durante a guerra árabe-israelense de 1948 e, sem seguida, a anexação pela Jordânia a em 1950 nunca foram reconhecidas. Israel ocupou Jerusalém Oriental em 1967; em 1980, o Knesset [parlamento israelense] aprovou uma lei afirmando que “Jerusalém, completa e unida, é a capital de Israel”. A Resolução 478 do Conselho de Segurança declarou a medida “nula e sem efeito”.

Em outras palavras, enquanto aguarda-se o estabelecimento de uma administração internacional conforme determinado na resolução de divisão ou um arranjo alternativo (como um acordo de paz) aprovado pela ONU, o princípio fundamental da abordagem da comunidade internacional sobre Jerusalém desde 1947 é o não reconhecimento de qualquer reivindicação de soberania sobre a cidade, no todo ou em parte. O princípio foi aprovado e aplicado por todos os governos dos EUA desde 1948. É a razão pela qual a maioria dos estados, incluindo os EUA, estabeleceram suas embaixadas para Israel em Tel Aviv em vez de Jerusalém.

Os candidatos presidenciais dos EUA nas últimas décadas proclamaram habitualmente sua intenção de reconhecer a soberania israelense sobre a Cidade Santa e de mudar a embaixada dos EUA para Jerusalém, mas tais discursos até agora não sobreviveram ao contato com a realidade. Uma ruptura tão dramática com sete décadas de política dos EUA e, de fato, global, buscando reescrever unilateralmente o direito internacional e pré-determinar o resultado de eventuais negociações israelenses-palestinas, constituem ato premeditado de caráter incendiário, com consequências imprevistas locais, regionais e globais.

Há uma reviravolta adicional: em 1989, Israel alugou um terreno para os EUA construírem sua embaixada em Jerusalém. Uma pesquisa extensiva do historiador Walid Khalidi demonstrou não só que ao menos 70% da terra foi confiscada de refugiados palestinos, mas igualmente que muitos dos herdeiros dos proprietários originais são hoje cidadãos dos EUA.

O Congresso dos EUA aprovou em 1995 uma lei reconhecendo Jerusalém como a capital de Israel e determinando que o governo lá instalasse a embaixada dos EUA. Exortados por Binyamin Netanyahu (então líder da oposição de Israel) e pela AIPAC, a entidade do lobby israelense nos EUA, ambos dispostos a detonar os acordos de Oslo, a medida passou com um apoio bipartidário esmagador. A crise atual existe porque a Casa Branca é obrigada a assinar uma renúncia formal a cada seis meses, adiando a mudança da embaixada – desta vez Trump não fez isso.

Dado o atual nível de caos e conflito no Oriente Médio, não é fácil prever como os vários governantes reagirão, se — como esperado — eles falharem, individual e coletivamente, em oferecer uma resposta imediata, vigorosa e enérgica. Os apelos frenéticos a Trump de seus aliados árabes mais próximos indicam que eles estão realmente com medo.

O reconhecimento americano da soberania israelense sobre Jerusalém envia um sinal inconfundível de que Washington rejeita não apenas o paradigma dos dois Estados, mas também o direito palestino à autodeterminação, em favor de uma dominação permanente de Israel — e da expropriação palestina. Também indica que Washington apoia apenas os judeus e rejeita os direitos dos cristãos e muçulmanos para a Cidade Santa. O lado bom da história é que isso pode levar ao encerramento da infrutífera diplomacia Israel-Palestina sob os auspícios dos EUA, que tem servido apenas para consolidar o controle israelense sobre os territórios ocupados.

Quanto à resposta palestina no nível popular, há aparentemente o desejo de que os líderes anulem os acordos de Oslo, retirem o reconhecimento de Israel de 1993 e separem as relações com Washington e Israel. Se Mahmoud Abbas [o presidente da Autoridade Palestina] quiser evitar o confronto político ou ordenar às forças de segurança que impeçam os palestinos de rebelarem-se, isso pode custar-lhe caro. No entanto, poucas pessoas esperam que ele rompa definitivamente com os EUA ou Israel.

O impacto sobre o “processo de paz”, no entanto, será insignificante, pelo simples motivo de que ele deixou de existir — e não há indícios sérios de seu retorno. O suporte de Trump a seu genro e czar de tudo, Jared Kushner, até agora resultou em nada. Talvez o mais esclarecedor sobre o que eles e seu time — patrocinadores ativos das colônias de Israel nos territórios palestinos ocupados — parecem acreditar é que essa mudança de política levará a uma versão do Concerto da Europa no Oriente Médio.

5 de dezembro de 2017

Salvando a economia do neoliberalismo

Enquanto simplesmente nos esquivarmos do neoliberalismo, correremos o risco de jogar fora algumas das suas ideias úteis.

Dani Rodrik

Boston Review

Ronald Reagan e Margaret Thatcher em 1984. The White House Photographic Office

Tradução / Como até seus críticos mais severos admitem, o neoliberalismo é difícil de caracterizar. Em termos gerais, denota uma preferência pelos mercados em vez do governo, incentivos econômicos em lugar das normas sociais ou culturais e empreendedorismo privado em substituição a ações coletivas ou comunitárias. Tem sido usado para descrever um amplo espectro de fenômenos – de Augusto Pinochet a Margaret Thatcher e Ronald Reagan, dos Democratas de Clinton e do Novo Trabalhismo da Grã-Bretanha à abertura econômica na China e à reforma do Estado de Bem-Estar Social na Suécia.

O termo é usado como designação genérica para qualquer coisa que remeta a desregulamentação, liberalização, privatização ou austeridade fiscal. Hoje é um impropério rotineiramente utilizado como atalho para se referir às ideias e às práticas que produziram insegurança e desigualdade econômicas crescentes, levaram à perda de nossos valores e ideais políticos e até precipitaram a forte reação populista atual.

Vivemos na era do neoliberalismo, pelo visto. Mas quem são os adeptos e disseminadores do neoliberalismo - os neoliberais? Curiosamente, você quase teria que voltar ao início dos anos 80 para encontrar alguém que abraçasse explicitamente o neoliberalismo. Em 1982, Charles Peters, o editor de longa data do The Washington Monthly, publicou um ensaio chamado "Manifesto de um Neoliberal". Verifica-se uma leitura interessante trinta e cinco anos depois, já que o neoliberalismo que descreve tem pouca semelhança com o alvo de escárnio de hoje. Os políticos que Peters nomeia como exemplo do movimento não são Thatcher e Reagan, mas Bill Bradley, Gary Hart e Paul Tsongas. Os jornalistas e acadêmicos que ele lista incluem James Fallows, Michael Kinsley e Lester Thurow. Os neoliberais de Peters são liberais (no sentido da palavra nos EUA) que abandonaram seus preconceitos a favor dos sindicatos e do governo e contra os mercados e os militares.

O uso do termo "neoliberal" explodiu na década de 1990, quando foi associado estritamente a dois desenvolvimentos. Um foi a desregulamentação financeira, que culminaria na crise financeira de 2008 – a primeira que os Estados Unidos experimentaram desde o período entreguerras – e na ainda persistente debilidade da Zona do Euro. A segunda foi a globalização econômica, que se acelerou graças aos fluxos livres de finanças e a um novo e mais ambicioso tipo de acordo comercial. A financeirização e a globalização tornaram-se as manifestações mais evidentes do neoliberalismo no mundo de hoje.

O fato de o neoliberalismo ser um conceito escorregadio e mutante, sem um lobby explícito de defensores, não significa que seja irrelevante ou irreal. Quem se atreveria a negar que o mundo experimentou uma mudança decisiva em relação aos mercados a partir da década de 1980? Ou que os políticos de centro-esquerda – democratas nos Estados Unidos, socialistas e social-democratas na Europa – aprovaram com entusiasmo alguns dos credos centrais do Thatcherismo e do Reaganismo, como a desregulamentação, a privatização, a liberalização financeira e a empresa individual? Grande parte da nossa discussão política contemporânea continua infundida com normas e princípios supostamente fundamentados no homo economicus.

Mas a frouxidão do termo neoliberalismo significa também que a sua crítica muitas vezes perde a referência. Não há nada de errado com os mercados, o empreendedorismo privado ou os incentivos – quando implantados adequadamente. Seu uso criativo está por trás das realizações econômicas mais significativas do nosso tempo. Enquanto nos esquivarmos simplesmente do neoliberalismo, correremos o risco de jogar fora algumas das suas ideias úteis.

O problema real é que a economia dominante se camufla muito facilmente em ideologia, restringindo as escolhas que aparentemente temos e fornecendo soluções convencionais. Uma compreensão adequada da economia que está por trás do neoliberalismo nos permitiria identificar – e rejeitar – a ideologia quando se disfarça de ciência econômica. Mais importante ainda, isso nos ajudaria a desenvolver a imaginação institucional da qual nós realmente precisamos para reformular o capitalismo para o século XXI.

***

O neoliberalismo é tipicamente entendido como baseado em princípios-chave da ciência econômica predominante. Para ver esses princípios, sem a ideologia, considere uma experiência mental.

Um economista bem conhecido e altamente considerado desembarca em um país que ele nunca visitou e do qual nada sabe. Ele é convocado para um encontro com os principais responsáveis políticos do país. "Nosso país está com problemas", eles dizem a ele. "A economia está estagnada, o investimento é baixo e não há crescimento à vista". Eles se voltam para ele com expectativa: "Diga-nos o que devemos fazer para que nossa economia cresça".

O economista invoca a ignorância e explica que ele sabe muito pouco sobre o país para fazer recomendações. Ele precisaria estudar a história da economia, analisar as estatísticas e viajar ao redor do país antes de poder dizer qualquer coisa. Mas seus anfitriões são insistentes. "Nós entendemos sua reticência e nós desejaríamos que você tivesse tido tempo para tudo isso", dizem eles. "Mas a economia não é uma ciência, e você não é um dos seus praticantes mais distinguidos? Mesmo que você não conheça muito sobre a nossa economia, certamente há algumas teorias gerais e prescrições que você pode compartilhar conosco para orientar nossas políticas e reformas econômicas ".

O economista está agora em um beco sem saída. Ele não quer imitar aqueles gurus econômicos que há muito criticou por vender seus conselhos de política favorita. Mas ele se sente desafiado pela questão. Existem verdades universais na economia? Pode dizer algo válido (e possivelmente útil)?

Então ele começa. A eficiência com que os recursos de uma economia são alocados é um determinante crítico do desempenho da economia, diz ele. A eficiência, por sua vez, exige alinhar os incentivos das famílias e das empresas com custos e benefícios sociais. Os incentivos voltados aos empresários, investidores e produtores são particularmente importantes quando se trata de crescimento econômico. O crescimento precisa de um sistema de direitos de propriedade e execução de contratos que garanta que aqueles que investem possam manter os retornos de seus investimentos. E a economia deve estar aberta a ideias e inovações do resto do mundo.

Mas as economias podem descarrilar por causa da instabilidade macroeconômica, ele continua. Os governos devem, por conseguinte, prosseguir uma política monetária sólida, o que significa restringir o crescimento da liquidez ao aumento da demanda monetária nominal a uma inflação razoável. Eles devem garantir a sustentabilidade fiscal, de modo que o aumento da dívida pública não exceda a renda nacional. E eles devem estabelecer uma regulamentação prudencial dos bancos e outras instituições financeiras para evitar que o sistema financeiro assuma riscos excessivos.

Agora ele está preparado para a lição. A economia não é apenas sobre eficiência e crescimento, acrescenta. Os princípios econômicos também se aplicam à equidade e à política social. A economia tem pouco a dizer sobre a quantidade de redistribuição que uma sociedade deve buscar. Mas diz-nos que a base tributária deve ser a mais ampla possível e que os programas sociais devem ser concebidos de forma a não encorajar os trabalhadores a abandonarem o mercado de trabalho.

Quando o economista para, parece que ele estabeleceu uma agenda neoliberal de pleno direito. Um crítico na audiência terá ouvido todas as palavras-chave: eficiência, incentivos, direitos de propriedade, dinheiro sólido, prudência fiscal. No entanto, os princípios universais que o economista descreve são de fato bastante abertos. Eles presumem uma economia capitalista - uma em que as decisões de investimento são feitas por particulares e empresas -, mas não muito além disso. Eles admitem - de fato, eles exigem - uma variedade surpreendente de arranjos institucionais.

Então, o economista acabou de entregar um discurso neoliberal? Nós estaríamos equivocados ao pensar assim, e nosso erro consistiria em associar cada termo abstrato - incentivos, direitos de propriedade, dinheiro sólido - com uma contrapartida institucional particular. E nisso reside a presunção central e a falha fatal do neoliberalismo: a crença de que os princípios econômicos de primeira ordem se enquadram em um conjunto único de políticas, aproximado por uma agenda de estilo Thatcher-Reagan.

Considere, entretanto, os direitos de propriedade. Eles são importantes na medida em que proporcionam retornos sobre os investimentos. Um sistema ótimo distribuiria direitos de propriedade para aqueles que fizessem o melhor uso de um bem e proporcionaria proteção contra aqueles que mais provavelmente expropriariam os seus retornos. Os direitos de propriedade são bons quando protegem os inovadores dos parasitas, mas são ruins quando os protegem da concorrência. Dependendo do contexto, um regime legal que fornece os incentivos apropriados pode parecer bastante diferente do regime-padrão de direitos de propriedade privada dos EUA.

Isso pode parecer firula semântica com pouca importância prática, mas o fenomenal sucesso econômico da China deve-se em grande parte ao seu processo institucional que desafia a ortodoxia. A China voltou-se para os mercados, mas não copiou práticas ocidentais em direitos de propriedade. Suas reformas produziram incentivos baseados no mercado por meio de uma série de arranjos institucionais inusuais que se adaptaram melhor ao contexto local. Por exemplo, em vez de se mover diretamente da propriedade estatal para a privada, que teria sido obstruída pela fraqueza das estruturas legais vigentes, o país confiou em formas mistas de propriedade que proporcionavam direitos de propriedade mais efetivos para os empreendedores na prática. O Programa de Empresas de Municípios e de Aldeias (Township and Village Enterprises - TVEs), que liderou o crescimento econômico chinês durante os anos 1980, era de propriedade coletiva e controlado pelos governos locais. Embora fosse de propriedade pública, os empresários recebiam a proteção de que precisavam contra a expropriação. Os governos locais tinham participação direta nos lucros das empresas e, portanto, não queriam matar o ganso que botava ovos de ouro.

A China contou com uma série de inovações, cada uma inserindo os princípios econômicos de ordem superior do economista em arranjos institucionais desconhecidos. O preço de dupla via, que manteve as entregas obrigatórias de grãos no estado, mas permitiu que os agricultores vendessem o excesso de produtos em mercados livres, ofereciam incentivos do lado da oferta, isolando as finanças públicas dos efeitos adversos da liberalização total. O chamado Sistema de Responsabilidade Doméstica deu aos agricultores o incentivo para investir e melhorar a terra em que trabalhavam, evitando a necessidade de privatização explícita. As zonas econômicas especiais proporcionaram incentivos à exportação e atraíram investidores estrangeiros sem remover a proteção das empresas estatais (e, portanto, salvaguardar o emprego doméstico). Em vista de tais desvios de planos ortodoxos, chamar as reformas econômicas da China de uma mudança neoliberal, como os críticos estão inclinados a fazer, distorce mais do que revela. Se quisermos nomear esse neoliberalismo, devemos certamente olhar mais gentilmente para as idéias por trás da redução dramática da pobreza na história.

Alguns poderiam alegar que as inovações institucionais da China foram puramente transitórias. Talvez tivessem de convergir para as instituições de estilo ocidental, para que o seu progresso econômico fosse sustentável. Mas essa linha de pensamento comum negligencia a diversidade dos arranjos capitalistas que ainda prevalecem entre as economias avançadas, apesar da considerável homogeneização do nosso discurso político.

Mas o que são, afinal, instituições ocidentais? A importância do setor público, por exemplo, no clube dos países ricos da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) varia de um terço da economia na Coreia para quase 60% na Finlândia. Na Islândia, 86% dos trabalhadores são membros de um sindicato; o número comparável na Suíça é de apenas 16%. Nos Estados Unidos, as empresas podem demitir trabalhadores quase à vontade; as leis trabalhistas francesas exigem que os empregadores passem por várias etapas primeiro. Os mercados de ações cresceram para quase uma vez e meia a renda nacional nos Estados Unidos; na Alemanha, eles são apenas quase um terço, representando a metade da renda nacional.

A ideia de que qualquer um desses modelos de tributação, relações trabalhistas ou organização financeira seja inerentemente superior às demais é desmentida pelos diversos resultados econômicos que cada uma dessas economias experimentou nas últimas décadas. Os Estados Unidos passaram por sucessivos períodos de angústia, em que suas instituições econômicas foram julgadas inferiores às da Alemanha, Japão, China e agora possivelmente às da Alemanha, mais uma vez. Certamente, níveis comparáveis de riqueza e produtividade podem ser obtidos sob modelos muito diferentes de capitalismo. Podemos até dar um passo adiante: os modelos prevalecentes de hoje provavelmente não chegam perto de esgotar o alcance do que pode ser possível (e desejável) no futuro.

O economista visitante em nosso experimento mental sabe tudo isso e reconhece que os princípios que ele enunciou precisam ser preenchidos com detalhes institucionais antes de se tornarem operacionais. Direitos de propriedade? Sim, mas como? Moeda forte? Claro, mas como? Talvez seja mais fácil criticar sua lista de princípios por ser vazia do que denunciá-la como um discurso neoliberal.

Ainda assim, esses princípios não são inteiramente livres de conteúdo. A China e, de fato, todos os países que conseguiram se desenvolver rapidamente, demonstram sua utilidade uma vez que estão devidamente adaptados ao contexto local. Por outro lado, muitas economias foram arruinadas pela cortesia de líderes políticos que optaram por violá-los. Não precisamos procurar mais do que populistas latino-americanos ou regimes comunistas da Europa Oriental para apreciar o significado prático de moeda forte, sustentabilidade fiscal e incentivos privados.

***

Claro a economia vai além de uma lista de amplos e abstratos princípios do senso comum. Grande parte do trabalho dos economistas consiste em desenvolver modelos estilizados de como funcionam as economias reais e, em seguida, confrontar esses modelos com evidências. Os economistas tendem a pensar no que eles fazem como algo que progressivamente refina sua compreensão do mundo: seus modelos devem melhorar e melhorar quando são testados e revisados ao longo do tempo. Mas o progresso na economia acontece de forma diferente.

Os economistas estudam uma realidade social que é diferente do universo físico dos cientistas naturais. É completamente criada pelo homem, altamente maleável e opera de acordo com diferentes regras ao longo do tempo e do espaço. A economia avança não por meio do estabelecimento do modelo certo ou da teoria correta para responder a tais questões, mas melhorando a nossa compreensão da diversidade de relações causais. O neoliberalismo e seus remédios habituais – sempre mais mercados, sempre menos governo – são de fato uma perversão da economia dominante. Os bons economistas sabem que a resposta correta para qualquer questão em economia é: depende.

Um aumento no salário mínimo diminui o emprego? Sim, se o mercado de trabalho é realmente competitivo e os empregadores não têm controle sobre o salário que devem pagar para atrair trabalhadores; mas não necessariamente de outra forma. A liberalização do comércio aumenta o crescimento econômico? Sim, se aumentar a rentabilidade das indústrias onde a maior parte do investimento e inovação ocorre; mas não de outra forma. Mais gastos do governo aumentam o emprego? Sim, se houver folga na economia e os salários não aumentarem; mas não de outra forma. O monopólio prejudica a inovação? Sim e não, dependendo de uma série de circunstâncias do mercado.

Em economia, novos modelos raramente suplantam modelos mais antigos. O modelo básico de mercado competitivo que remonta a Adam Smith foi modificado ao longo do tempo pela inclusão, em ordem histórica, de monopólio, externalidades, economias de escala, informações incompletas e assimétricas, comportamento irracional e muitas outras características do mundo real. No entanto, os modelos mais antigos permanecem tão úteis como sempre. Compreender o funcionamento do mercado real exige lentes diferentes em momentos diferentes.

Talvez os mapas ofereçam a melhor analogia. Assim como os modelos econômicos, os mapas são representações altamente estilizadas da realidade. Eles são úteis precisamente porque eles abstraem de muitos detalhes do mundo real que ficariam no caminho. Mapas realistas em grande escala seriam artefatos irremediavelmente impraticáveis, como Jorge Luis Borges descreveu em uma breve história que continua a ser a melhor e mais sucinta explicação do método científico. Mas a abstração também implica que precisamos de um mapa diferente dependendo da natureza da nossa jornada. Se estivermos viajando de bicicleta, precisamos de um mapa de trilhas para bicicletas. Se quisermos ir a pé, precisamos de um mapa de caminhada. Se um novo metrô for construído, precisamos de um mapa de metrô, mas não descartamos os mapas mais antigos.

Os economistas tendem a ser muito bons para traçar mapas, mas não são bons o suficiente para escolher o mais adequado à tarefa em questão. Quando confrontados com questões de política do tipo que o economista visitante enfrenta, uma quantidade excessiva deles recorre a modelos de referência que favorecem o laissez-faire. As soluções intuitivas e a arrogância substituem a riqueza e a humildade da discussão travada nas salas de seminários. John Maynard Keynes definiu a economia como a “ciência do pensamento em termos de modelos unida à arte de escolher modelos que são relevantes”. Os economistas normalmente têm problemas com a parte “arte”.

Eu tenho ilustrado isso com uma parábola. Um jornalista pede a um professor de economia sua opinião sobre se o livre comércio é uma boa ideia. O professor responde entusiasmado com a afirmativa. O jornalista então se imiscui como estudante no seminário de pós-graduação avançada do professor sobre o comércio internacional. Ele coloca a mesma pergunta: o comércio livre é bom? Desta vez, o professor está bloqueado. "O que você quer dizer com" bom? ", ele responde. "E bom para quem?" O professor então lança uma extensa exegese que acabará por culminar em uma declaração fortemente coberta: "Então, se a longa lista de condições que acabei de descrever está satisfeita e assumindo que podemos tributar os beneficiários para compensar a perdedores, o comércio mais livre tem o potencial de aumentar o bem-estar de todos ". Se ele estiver em um estado de espírito expansivo, o professor pode acrescentar que o efeito do livre comércio na taxa de crescimento de longo prazo de uma economia também não é claro e dependerá do conjunto de total de requisitos diferentes.

Este professor é bastante diferente do que o jornalista encontrou anteriormente. Na gravação, ele exala autoconfiança, e não reticência, sobre a política apropriada. Existe um e apenas um modelo, pelo menos no que diz respeito à discussão pública, e há uma única resposta correta, independentemente do contexto. Curiosamente, o professor considera o conhecimento que ele confere a seus alunos avançados como inadequados (ou perigosos) para o público em geral. Por quê?

As raízes de tal comportamento estão arrraigadas na sociologia e na cultura da profissão econômica. Mas um motivo importante é o zelo em exibir as joias da coroa da profissão de forma imaculada – eficiência do mercado, mão invisível, vantagens comparativas – e em blindá-las do ataque dos bárbaros egoístas, a saber, os protecionistas. Infelizmente, esses economistas geralmente ignoram os bárbaros do outro lado da questão – financistas e corporações multinacionais cujos motivos não são mais puros e que estão todos prontos para sequestrar essas ideias em seu próprio benefício.

Como resultado, as contribuições dos economistas para o debate público são muitas vezes tendenciosas em uma direção, a favor de mais comércio, mais finanças e menos governo. É por isso que os economistas desenvolveram uma reputação como líderes de torcida do neoliberalismo, mesmo que a economia geral esteja muito longe de ser um hino ao laissez-faire. Os economistas que deixaram correr solto o seu entusiasmo pelos mercados livres na verdade não estão sendo fiéis à própria disciplina.

***

Como, então, devemos pensar sobre a globalização para libertá-la das práticas neoliberais? Precisamos começar pela compreensão do potencial positivo dos mercados globais. O acesso aos mercados mundiais em bens, tecnologias e capital tem desempenhado um papel importante em praticamente todos os milagres econômicos do nosso tempo. A China é o exemplo mais recente e poderoso dessa verdade histórica, mas não é o único caso. Antes da China, milagres similares foram realizados pela Coreia do Sul, Taiwan, Japão e alguns países não asiáticos, como o Chile e as Ilhas Maurício. Todos esses países abraçaram a globalização em vez de virar as costas para ela, e se beneficiaram generosamente.

Os defensores da ordem econômica existente apontarão rapidamente esses exemplos quando a globalização for questionada. O que eles deixarão de dizer é que quase todos esses países se juntaram à economia mundial, violando restrições neoliberais. A China protegeu o seu grande setor estatal da concorrência global, estabelecendo Zonas Econômicas Especiais onde empresas estrangeiras poderiam operar com regras diferentes das do resto da economia. Coreia do Sul e Taiwan subsidiaram fortemente seus exportadores, o primeiro país por meio do crédito e o último com incentivos fiscais. Todos eles acabaram removendo a maioria de suas restrições de importação, muito depois de o crescimento econômico ter decolado. Mas nenhum, com a única exceção do Chile na década de 1980 sob Pinochet, seguiu a recomendação neoliberal de uma rápida abertura às importações. O experimento neoliberal do Chile produziu a pior crise econômica em toda a América Latina. Embora os detalhes sejam diferentes em cada país, em todos os casos, os governos desempenharam um papel ativo na reestruturação da economia e na sua defesa em um ambiente externo volátil. As políticas industriais, as restrições aos fluxos de capital e os controles cambiais – tudo isso proibido na cartilha neoliberal – foram desenfreados.

Em contrapartida, os países que se aproximaram mais do modelo neoliberal da globalização ficaram muito decepcionados. O México fornece um exemplo particularmente triste. Após uma série de crises macroeconômicas em meados da década de 1990, o país adotou a ortodoxia macroeconômica, liberalizou amplamente sua economia, liberou o sistema financeiro, reduziu consideravelmente as restrições à importação e assinou o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta). Essas políticas produziram estabilidade macroeconômica e um aumento significativo no comércio exterior e no investimento interno. Mas naquilo que conta – na produtividade geral e no crescimento econômico – o experimento falhou. Desde a realização das reformas, a produtividade geral no México estagnou e a economia tem um desempenho inferior, mesmo pelos padrões modestos da América Latina.

Esses resultados não são uma surpresa da perspectiva dos fundamentos econômicos. Eles são mais uma manifestação da necessidade de que as políticas econômicas respondam aos fracassos aos quais os mercados são propensos e sejam adaptadas às circunstâncias específicas de cada país. Nenhum modelo único se encaixa.

***

Antes de a globalização rumar para o que poderíamos chamar de hiperglobalização, as regras eram flexíveis e isso era admitido. Keynes e seus colegas viam o comércio internacional e o investimento como meios para alcançar os objetivos econômicos e sociais domésticos – pleno emprego e prosperidade ampla –, quando projetaram a arquitetura econômica global em Bretton Woods, em 1944. No entanto, a partir da década de 1990, a globalização tornou-se um fim em si mesmo. Os arranjos econômicos globais foram então impulsionados pelo foco único na redução das restrições aos fluxos de bens, capital e dinheiro através das fronteiras nacionais – embora isso não tenha acontecido em relação aos fluxos de trabalhadores, onde os ganhos econômicos de fato teriam sido muito maiores.

Essa perversão de prioridades revelou-se na forma como os acordos comerciais começaram a chegar através das fronteiras e a refazer as instituições domésticas. Os regulamentos de investimento, as normas de segurança e saúde, as políticas ambientais e os sistemas de promoção industrial tornaram-se passíveis de eliminação, se fossem considerados obstáculos ao comércio e ao investimento estrangeiro. As grandes empresas internacionais, brindadas com um grau de liberdade inédito pelas novas regras, adquiriram privilégios especiais. Os impostos sobre as empresas deveriam ser reduzidos para atrair investidores (ou impedi-los de sair). As empresas estrangeiras e os investidores receberam o direito de processar governos nacionais em tribunais offshore especiais, quando as mudanças nas regulamentações nacionais ameaçassem reduzir seus lucros. Em nenhum aspecto o novo acordo foi mais prejudicial que na globalização financeira, que não produziu maiores investimentos e crescimento, como prometido, mas uma crise dolorosa atrás da outra.

Assim como a economia necessita ser salva do neoliberalismo, a globalização precisa ser salva da hiperglobalização. Uma globalização alternativa, mais sintonizada com o espírito de Bretton Woods, não é difícil de imaginar: reconhece a multiplicidade de modelos capitalistas e, portanto, permite aos países moldar seus próprios destinos econômicos. Em vez de maximizar o volume do comércio e de investimento estrangeiro e harmonizar as diferenças regulatórias, tem foco nas regras que gerenciam a interface de diferentes sistemas econômicos. Assim, abre espaço político para os países avançados e para aqueles em desenvolvimento também — os primeiros para que eles possam reconstruir suas barganhas sociais através de melhores políticas sociais, fiscais e de mercado de trabalho, e estes para que possam seguir a reestruturação de que precisam para o crescimento econômico. Isso exigiria mais humildade por parte dos economistas e tecnocratas políticos sobre prescrições apropriadas e, portanto, uma disposição muito maior para experimentar.

***

Como o manifesto inicial de Peters atesta, o significado de neoliberalismo mudou consideravelmente ao longo do tempo, pois o rótulo adquiriu conotações mais linha-dura em relação à desregulamentação, financeirização e globalização. Mas há um fio que liga todas as versões do neoliberalismo, e essa é a ênfase no crescimento econômico. Peters escreveu em 1982 que a ênfase era justificada porque o crescimento é essencial para todos os nossos fins sociais e políticos - comunidade, democracia e prosperidade. O empreendedorismo, o investimento privado e a remoção de obstáculos (como a regulamentação excessiva) que impedem o caminho são todos instrumentos para alcançar o crescimento econômico. Se um manifesto neoliberal semelhante fosse publicado hoje, sem dúvida, apresentaria o mesmo argumento.

Os críticos muitas vezes apontam que essa ênfase na economia degrada e sacrifica outros valores importantes, como igualdade, inclusão social, deliberações democráticas e justiça. Os objetivos políticos e sociais, obviamente, são de grande importância e, em alguns contextos, eles são os mais importantes. Não podem, nem sempre, ser alcançados por meio de políticas econômicas tecnocráticas; a política deve desempenhar um papel central.

Mas os neoliberais não estão errados quando argumentam que os nossos ideais mais apreciados são mais prováveis de ser alcançados quando a nossa economia é vibrante, forte e está crescendo. Onde eles estão errados é em acreditar que existe uma receita única e universal para melhorar o desempenho econômico ao qual eles têm acesso. A falha fatal do neoliberalismo é que ele nem sequer é portador da economia correta. Ele deve ser rejeitado nos seus próprios termos pelo simples motivo de que é uma economia ruim.

27 de novembro de 2017

O engodo e o dinheiro do engodo

Pierre Lévy


Tradução A surpresa é total, a informação inédita, o furo é incrível: a fraude e a evasão fiscais vicejariam nos quatro cantos do planeta, por meio dos paraísos fiscais. Foi preciso nada menos que um consórcio de 96 media internacionais e de 400 jornalistas para apoiar uma tal revelação, doravante conhecida sob a expressão (forçosamente) inglesa de "Paradise papers".

Mais ainda do que nos casos anteriores (Primavera 2016, Outono 2016), foi desencadeada uma torrente editorial listando os segredos das multinacionais mencionadas, cobrindo de opróbrio os bilionários implicados. A seguir a grande mídia, os responsáveis políticos, com todas as tendências confundidas – em França e alhures – foram prontos e (quase) unânimes a indignarem-se.

Os ministros das Finanças dos 28 de imediato comprometeram-se a reforçar a luta contra as "práticas fiscais agressivas", ainda que legais. A Comissão Europeia apontou com meias palavras os Estados membros que arrastam os pés como suspeito de um dumping fiscal deselegante (Malta, Irlanda, Luxemburgo...). Em Bruxelas, bons espíritos oportunamente aproveitaram a ocasião para martelar que a regra da unanimidade que subsiste apenas no campo do domínio fiscal – para preservar um dedo de soberania nacional – estava decididamente obsoleta. 

Face a um tal consenso, convém preservar o espírito crítico. E em primeiro lugar sublinhar que a indignação face a práticas "chocantes" substitui o terreno da política pelo da moral – o que é o meio mais seguro de enganar os povos.

Em seguida, a insistência recorrente quanto à necessidade combater este "rumo da globalização" põe a pergunta: será mesmo do "rumo" que se trata? No fundo, a mensagem subliminar dirigida à plebe é a seguinte: se apenas chegássemos a limitar e a civilizar a "cupidez" das grandes firmas e a "avidez" dos bilionários, poderíamos finalmente lucrar com uma globalização feliz.

Ora, é preciso recordar esta verdade que nunca provoca manchetes: a evasão fiscal não poderia existir de modo algum, pelo menos nesta escala, se a livre circulação dos capitais não tivesse sido erigida em artigo de fé, em particular nos tratados europeus. Quem se lembra que antes da década de 1980 todo movimento de capitais era estritamente regulamentado e devia ser declarado? A União Europeia dinamitou este "arcaísmo".

Portanto, a indignação oficial contra a evasão fiscal poderia ser uma espécie de engodo, obscurecendo deliberadamente a verdadeira natureza do fenômeno: uma escolha política de "liberdade", que os oligarcas globalizados pretendem manter a todo custo.

Por outro lado, dão-nos a entender, tudo poderia correr bem melhor se as multinacionais e os hiper-ricos contribuíssem razoavelmente para os orçamentos públicos através dos impostos. Mas há uma questão que nunca é colocada: como se constituem os milhares de milhões de lucros e de fortunas? Para citar apenas um exemplo, o riquíssimo Xavier Niel, proprietário de Free (e acionista de referência do Monde) é coberto de vergonha porque ele teria abrigado suas pequenas economias nos trópicos. Mas quando um documentário revelou recentemente a verdadeira origem da sua fortuna – a exploração pura e dura de milhares de assalariados, verdadeiros escravos modernos – a repercussão midiática foi ligeiramente mais modesta... E não é de admirar: este é o próprio fundamento do sistema.

Pois o problema não é em primeiro lugar o que revertem – ou não – os detentores de capitais, mas a capacidade destes de prosperar unicamente na base da exploração do trabalho daqueles que não têm senão os seus braços e a sua cabeça para viver. Colocar o projetor da indignação na consequência pode constituir o meio mais seguro de escamotear a natureza profunda do problema. Na Opera dos três vintens, de Bertold Brecht, um dos seus heróis dizia: "o que é o assalto a um banco comparado à fundação de um banco?" .

Enfim, aqui e ali, alguns dão a entender e explicam: se não limitarmos a evasão fiscal dos oligarcas, corremos o risco de o "populismo" se desenvolver ainda mais. Mas tentar surfar sobre a cólera popular para melhor distrair do essencial não será, precisamente, uma boa definição do "populismo"?

À força de brincar com o fogo (da indignação), os aprendizes de feiticeiros midiáticos poderiam um dia ter algumas surpresas. 

O neoliberalismo funciona para o mundo?

Michael Roberts

The Next Recession

Noah Smith é um regular blogueiro de economia da popular persuasão Keynesiana que agora escreve regularmente para o site Bloomberg. Um recente texto dele se intitulava “Mercados livres melhoraram mais vidas do que qualquer coisa”. E ele deu agora usual argumento que o capitalismo na verdade tem tido um grande sucesso em dar melhores condições de vida para bilhões comparado com qualquer anterior modo de produção e organização social e, até onde ele vê, vai continuar sendo o ‘líder do mercado’ para os seres humanos.

Smith quer muito refutar a ‘economia mista’, ideias anti comércio-livre que vem se mostrando na economia mainstream desde a Grande Recessão, nominalmente, que o ‘neoliberalismo’ e os mercados livres são ruins para as condições de vida. Em vez disso, uma pequena dose de protecionismo no comércio (Rodrik) e intervenção e regulação estatal (Kwak) ajudam o capitalismo a trabalhar ainda mais.

Mas não, diz Smith. Neoliberalismo funciona melhor. Ele cita o fenômeno de crescimento da China como seu principal exemplo! Na China, “a mudança de uma rígida economia de comando-e-controle para uma que misturou estado e mercado se aproxima – e a liberalização do comércio – foi sem dúvidas uma reforma neoliberal. Apesar das mudanças de Deng serem feitas em ad-hoc, numa maneira senso comum, ele até convidou o famoso economista neoliberal Milton Friedman para lhe dar algum conselho.”

Ele então adiciona a Índia ao seu argumento: “Uma década depois que a China começou seu experimento, a Índia seguiu o mesmo rumo. Em 1991, depois de uma grande recessão, o primeiro-ministro Narasimha Rao e o Ministro das Finanças Manmohan Singh adotaram um grande sistema de licenças para negócios, facilitaram o investimento estrangeiro, acabaram com vários monopólios sancionados pelo estado, abaixaram as tarifas e fizeram um monte de outras coisas neoliberais.”

Rapaz, ele realmente morde a bolacha. A economia da China é um exemplo de sucesso de uma política econômica neoliberal!? Em vários posts mostrei como que a China não é mesmo uma economia de mercado livre e talvez nem possa ser descrita como capitalista. A economia do país é mantida pelo estado e controlada com investimentos e produção orientadas para o estado, com o lucro secundário ao objetivo principal que é o crescimento. Realmente, os dados do FMI sobre o tamanho do investimento público e das ações financeiras globais colocam a China em uma liga diferente comparada com qualquer outra economia no mundo.


Para a Índia, o setor estatal continua significante, algo que continua a incomodar o Banco Mundial e os economistas neoliberais. As medidas econômicas da década de 90 dificilmente podem ser usadas como uma explicação para o crescimento econômico da Índia. Durante os anos 90, a produtividade cresceu em todas as grandes ‘economias emergentes’ – apenas para cair novamente na Grande Recessão (2008). A globalização e o capital estrangeiro eram os motores em todos os lugares.

De qualquer forma, não é realmente verdade que a política governamental da Índia é neoliberal – pelo contrário. Em contraste, a clara mudança chocante para o capitalismo neoliberal na Rússia pós-governo soviético e suas oligarquias foi um desastre total (Smith chama de um ‘sucesso misto’!). Crescimento, condições e expectativa de vida colapsaram. Realmente, a conclusão que se pode desenhar é que não foram as ‘reformas neoliberais’ que dirigiram o relativo sucesso econômico da China e da Índia nos últimos 30 anos, mas sim a resistência contra tais políticas.

O outro principal argumento apresentado por Smith para o sucesso do capitalismo é o suposto declínio na pobreza mundial desde que Marx escreveu O Capital, 150 anos atrás. “Todas as evidencias acima sugerem que a população vivendo em extrema pobreza tem caído substancialmente nos últimos 200 anos ao redor do mundo. Como notamos, agregadamente, a população global vivendo em extrema pobreza foi de 80% em 1820 para 10% nas últimas estimativas.”


Agora, Marx foi o primeiro a notar o tremendo impulso dado a produção que o modo de produção capitalista desenvolveu comparado aos antigos modos. Mas como mostrei em posts anteriores, há um outro lado para os primeiros anos do capitalismo: a “imizeriação” da classe trabalhadora. E isso é uma realidade diferente das afirmações de Smith.

Em 2013, o Banco Mundial lançou um documento que reportava que havia 1,2 bilhão de pessoas vivendo com menos de 1,25 dólar, sendo que um terço delas eram crianças. O Banco Mundial aumentou a sua linha da pobreza para 1,90 dólar e Smith se refere as suas fontes baseado nessa linha. Isso meramente ajustou a antiga figura de 1,20 dólar para mudanças no poder de compra da moeda americana. Mas significou também que a pobreza global foi reduzida em 100 milhões de pessoas da noite para o dia.

E, como Jason Hickel aponta, esse $1,90 é ridiculamente baixo. Uma linha mínima para se viver seria $5 por dia, como o Departamento e Agricultura dos EUA calculou, que seria o mínimo necessário para comprar comida suficiente para alguém. E isso sem contar outros requerimentos, como moradia e vestuário. Hickel mostra que na Índia, crianças vivendo com $1,90 por dia ainda tem 60% de chance de ficarem desnutridas. No Níger, bebês vivendo com $1,90 por dia tem uma taxa de mortalidade 3 vezes maior que a média global.

Num artigo de 2006, Peter Edward da Universidade de Newcastle usou uma “linha da pobreza ética” que calcula que, em ordem para atingir uma expectativa de vida de mais de 70 anos, as pessoas precisariam de 2,7 a 3,9 vezes a atual linha da pobreza. No passado, isso era de $5 por dia. Usando os novos cálculos do banco mundial, o número agora é de $7,40 por dia. Isso nos dá uma figura de 4,2 bilhões de pessoas abaixo desse nível hoje em dia; ou um aumento de 1 bilhão de pessoas nos últimos 35 anos.

Alguns argumentam que a razão que há mais pessoas na pobreza é porque há mais pessoas! A população mundial tem crescido nos últimos 25 anos. Você precisa olhar para a proporção mundial de pessoas na pobreza, com o corte de $1,90, assim a proporção abaixo dessa linha caiu de 35% para 11% entre 1990 e 2013. Então Smith está correto, apesar de tudo. Mas isso é falso, para dizer o mínimo.

O número absoluto de pessoas na pobreza, mesmo nesse limiar ridiculamente baixo de $1,25 por dia, tem aumentado, mesmo que não tanto quanto a população total nos últimos 25 anos. E, mesmo assim, toda essa evidência otimista de experts baseia-se realmente na melhoria dramática nos rendimentos médios na China (e, em menor medida, na Índia).

Smith diz que “a redução global da pobreza tem sido substancial até quando nos não colocamos na conta a redução da pobreza na China. Em 1981, quase um terço (29%) da população não-chinesa mundial estava vivendo na extrema pobreza. Em 2013, essa porcentagem caiu para 12%.”

Entretanto, Peter Edward descobriu que havia 1,139 bilhão de pessoas ganhando menos que 1 dólar por dia em 1993 e esse número caiu para 1.093 bilhão em 2001, uma redução de 85 milhões. Mas a redução da China nesse período foi de 108 milhões (sem mudanças na Índia), então, toda a redução nos números da pobreza foi por causa da China. Exclua a China e a pobreza total continua sem mudar na maioria das regiões, enquanto cresce significativamente na África Subsaariana. E, de acordo com o Banco Mundial, em 2010, a pessoa pobre “média” em um país com baixa renda vivia com 78 centavos por dia em 2010, comparado com 74 centavos em 1981, dificilmente uma mudança. Mas essa melhora foi toda na China e na Índia. Na Índia, a renda média das pessoas pobres subiu para 96 centavos em 2010, comparado com 84 centavos em 1981, já na China aumentou em 95 centavos em 2010, comparado com 67 centavos em 81.

E mais, os níveis de pobreza não devem ser confundidos com a desigualdade de renda ou riqueza. Sobre o último, há evidência que o nível da desigualdade de riqueza global vem aumentando, muito bem registrado. O último relatório anual do Credit Suisse sobre riqueza pessoal global descobriu que os principais 1% dos detentores de riqueza pessoal em todo o mundo agora possuem mais de 50% da riqueza mundial – de 45% dez anos atrás. Na verdade, a maioria das pessoas nas principais economias capitalistas avançadas estará entre os 10% dos detentores de riqueza porque bilhões de pessoas não têm riqueza!


O Credit Suisse descobriu que a riqueza global aumentou 6,4% no ano passado – o mais rápido desde 2012 – graças ao aumento dos mercados compartilhados e dos preços das casas. Mas o crescimento mais fraco foi na África, a região mais pobre, onde a riqueza familiar aumentou apenas 0,9%. Considerando as mudanças populacionais, a riqueza por adulto caiu 1,9% em África. O crescimento mais rápido foi na América do Norte, onde aumentou 8,8% por adulto.

E nas tendências atuais, a desigualdade aumentará ainda mais. A perspectiva para o segmento milionário parece muito melhor do que para o fundo da pirâmide de riqueza (menos de US $ 10.000). O primeiro deverá aumentar em 22%, de 36 milhões de milionários hoje para 44 milhões em 2022, enquanto o grupo que ocupa o nível mais baixo da pirâmide deverá diminuir apenas 4%. Nos EUA, as três pessoas mais ricas dos EUA – Bill Gates, Jeff Bezos e Warren Buffett – possuem tanta riqueza quanto a metade inferior da população dos EUA, ou 160 milhões de pessoas.

Quanto a renda, se você tirar a China dos números, a desigualdade global, de qualquer jeito você a mede, cresceu nos últimos 30 anos. A desigualdade global “elefante” apresentada por Branco Milanovic descobriu que as 60 milhões de pessoas que constituem o maior dos 1% dos rendimentos do mundo viram os seus rendimentos aumentar em 60% desde 1988. Cerca de metade deles são os 12% mais ricos americanos. O resto do top 1% é composto pelos principais 3-6% dos britânicos, japoneses, franceses e alemães, e os 1% superiores de vários outros países, incluindo a Rússia, o Brasil e a África do Sul. Essas pessoas incluem a classe capitalista mundial – os proprietários e controladores do sistema capitalista e os estrategistas e decisores políticos do imperialismo.

Mas Milanovic também descobriu que aqueles que ganharam mais renda nos últimos 20 anos foram os que ficam no “meio global”. Essas pessoas não são capitalistas. Essas são pessoas principalmente da Índia e China, antigos camponeses ou trabalhadores rurais que migraram para cidades para trabalhar nas lojas e nas fábricas da globalização: seus rendimentos reais subiram de uma base muito baixa, mesmo que suas condições e direitos não tenham subido também. Os maiores perdedores são os mais pobres (principalmente os agricultores rurais Africanos) que não ganharam nada em 20 anos.

A evidencia empírica suporta a visão de Marx que, sob o capitalismo, a pobreza (como definida) e a desigualdade de renda e riqueza não tem realmente melhorado sob ele, sob o neoliberalismo ou qualquer outro parecido. Qualquer melhora na pobreza em níveis globais, seja como foi medida, é explicada em grande parte pela China controlada pelo seu estado e qualquer melhora na qualidade e longevidade da vida vem da aplicação da ciência e conhecimento através do gasto do estado na educação, no saneamento básico, na água limpa, na prevenção e proteção de doenças, na construção de hospitais e melhor desenvolvimento para crianças. Essas são coisas que não vem do capitalismo, mas sim da vontade comum.

Então, a previsão de 150 anos atrás de Marx, que o capitalismo levaria a maior concentração e centralização da riqueza, em particular, dos meios de produção e finanças, tem se comprovado. Contrário ao otimismo e a apologia de economistas mainstream como Smith, a pobreza para bilhões ao redor do mundo continua a norma, com poucos sinais de melhora, enquanto a desigualdade dentro das maiores economias capitalistas aumenta ao capital ser acumulado e concentrado em grupos ainda menores.

25 de novembro de 2017

O presidente do Egito, Al-Sisi, enfrenta sérias questões sobre estratégia para controlar a província do Sinai, sob controle do ISIS

Civis, policiais e forças de segurança têm sido repetidamente alvo nos últimos anos

Robert Fisk

The Independent

Tradução / O massacre na mesquita do Sinai prova o que muitos já suspeitam há meses no Egito: que o ISIS – mesmo que ainda não haja uma reivindicação direta – está controlando a península, mirando cada vez mais nos membros do governo e na polícia do presidente Abdel Fattah al-Sisi. E provando assim que a derrota tática no Iraque e na Síria significa uma simples mudança geográfica.

A "queda" do Sinai – talvez se estendendo até Sharm e-Sheikh, o resort turístico supostamente "seguro" – só enfraqueceria ainda mais as afirmações audaciosas de al-Sisi que, após ter dado um golpe de Estado, afirmou que acabaria com o "terrorismo" no Egito.

Esta suposta batalha levou à prisão de 60.000 prisioneiros políticos egípcios – supostos "terroristas", mas muitos deles jovens revoltados com o autoritarismo de al-Sisi – e a um número indeterminado de assassinatos e desaparecimentos. Mas o mundo, como de costume, apenas envia condolências pelas vítimas inocentes dos inimigos de al-Sissi. Previsivelmente, as vítimas do regime foram esquecidas, enquanto o atentado "malvado e covarde" de pelo menos 235 fiéis na mesquita al-Rawda, perto de Al-Arish, foi condenado pela OTAN e por uma série de outros líderes ocidentais.

Em seguida, na reunião do gabinete de emergência de Al-Sisi – e há cada vez mais encontros "de emergência" do governo no Cairo – será perguntado como os assassinos, com bombas e armas de fogo, conseguiram matar tantos civis, muitos deles próximos das forças de segurança. Poderia ser um "trabalho interno"? A pergunta deve ser feita uma vez que os últimos assassinatos no Sinai, que deixaram oficialmente mais de 30 mortos (embora o número possa ser muito maior), incluíram uma emboscada a mais de dez generais seniores da polícia e do exército que estavam, eles mesmos, supostamente preparando uma emboscada contra o ISIS.

Esse é, talvez, o elemento mais sério da atual insurreição do Sinai, que já tirou a vida de milhares de outras pessoas, incluindo membros da minoria cristã, soldados e policiais. Há mais de um ano, o exército egípcio vem usando ataques aéreos contra insurgentes – seguindo assustadoramente o padrão do início da guerra civil síria. Mais de dois anos atrás, al-Sisi enviou homens de sua segurança para discutir com o governo sírio como lidar com seus oponentes. Quem sabe quando as autoridades sírias serão convidadas a enviar seus próprios oficiais para aconselhar os egípcios?

Para o Ocidente, é claro, o aumento de ações ligadas ao ISIS no Sinai abala as afirmações – do Irã e também dos americanos e britânicos – de que o grupo foi vencido. O Egito é, evidentemente, o próximo alvo. Desde os ataques a igrejas no Cairo, Alexandria e outras cidades a oeste do Nilo, está claro que o ISIS já "atravessou o rio". Ninguém está seguro no Sinai – nem no Cairo.

Nem é preciso dizer que o Egito receberá agora ainda mais apoio militar do Ocidente – a expedição de compras militares de al-Sisi na França no início deste mês será, sem dúvida, repetida. E o aumento do armamento vai fortalecer as forças militares egípcias; possibilitando, assim, ao governo de al-Sisi prender ou torturar ainda mais oponentes políticos. O ISIS certamente também deve saber que a popularidade de al-Sisi é cada vez menor no Egito: suas promessas de recuperação econômica após um período de austeridade se mostraram falsas até agora. E as eleições são iminentes.

A única coisa que as autoridades egípcias têm a seu favor é que a mídia foi praticamente proibida de cobrir a guerra do Sinai. Assim, o número de mortos – que pode ser muito maior do que o divulgado – foi amplamente ignorado, ou descartado como "falso" pelos militares. O massacre do Sinai foi o mais sangrento da atual guerra islamista contra o governo no Cairo. Mas não será o último.

21 de novembro de 2017

Cartoons e luta de classes

Em 1941, os animadores da Disney abandonaram o trabalho para exigir que o New Deal fosse levado para o Reino Mágico.

Kenneth Bergfeld e Mark Bergfeld

Jacobin

Impressionantes piquetes de animadores em 1941. Coleções de Bob Cowan. 

Tradução / Todo americano cresceu assistindo aos filmes da Disney, mas quantas pessoas ouviram falar da “guerra civil na animação”?

As análises culturais sobre a Disney e seus produtos são comuns, e os efeitos sociológicos de sua dominação multimídia foram discutidos ad infinitum. Mas pouca atenção foi dada à greve dos animadores de 1941 que quase terminou com o “Reino Mágico”. Nunca, antes ou depois, o trabalho por trás dos filmes que moldaram bilhões de infâncias foi tão fortemente iluminado. À medida que as novas lutas dos trabalhadores surgem por toda a indústria do entretenimento, essa história é mais relevante hoje do que nunca.

Trabalhando para Walt


Walt Disney não podia contar com seu próprio talento artístico para construir seu império. Ele era conhecido nem por ser um bom artista nem um bom desenhista. Os Simpsons até o satirizaram por plagiar o Mickey Mouse e o Oswald the Lucky Rabbit de seu criador original, Ub Iwerks.

Seu sucesso, ao invés disso, ativou sua capacidade de transformar o trabalho incrivelmente intensivo do processo de animação. Grandes expansões tecnológicaspermitiram que Disney sincronizasse imagem e som, empurrando a animação para além de seus começos rudimentares. Este avanço trouxe a animação – e com isso, o Reino Mágico – das margens do cinema para o seu mainstream.

Quando Disney fez o Branca de Neve, os animadores ainda desenharam figuras à mão em painéis de celulóide claros, que eram então postos acima de uma ou duas camadas de fundo estático pintadas em papel. Para criar a ilusão do movimento, os animadores tiveram que produzir vinte e quatro imagens por segundo. Para o Branca de Neve, os trabalhadores fizeram 130 mil desenhos de movimento, para não mencionar os painéis de fundo.

Para simplificar esse processo, Disney colocou mais de oitocentos artistas em uma linha de montagem de produção em escala industrial. Seu método para controlar os trabalhadores nesta operação massiva consistiu em táticas psicológicas retiradas de estudos da época. Ele escolheu favoritos, roubou o crédito dos trabalhadores e pagou salários diferentes pelo mesmo emprego. Por exemplo, animadores selecionados recebiam vagas de estacionamento e assentos reservados em testes de exibição internos, enquanto outros tinham que lutar pelos assentos restantes ou ficar longe juntos.

Os salários variavam de US$ 12 a US$ 300 por semana. Se um animador surgisse com uma piada enquanto trabalhava em um curta, eles recebiam um bônus de US$ 3,50.

Walt Disney acreditava que uma empresa eficiente era construída pelo “trabalho em equipe” e pela “voz dos funcionários”. Para difundir o crescente descontentamento entre os animadores, ele lançou a Federação de Cartunistas de Tela da Disney, um sindicato da empresa que ele esperava que iria conter as demandas de seus trabalhadores.

Os animadores atacam de volta


Os animadores fizeram Branca de Neve, Fantasia e Pinóquio ao mesmo tempo. Eles trabalharam longas horas sob pressão extrema, e muitos ficaram sem pagamento por meses. Walt disse que eles iriam receber um pagamento bônus quando Branca de Neve se gerasse lucro – uma promessa vazia, muito familiar entre os trabalhadores criativos hoje. Na medida em que o salário nunca se materializou, provocou um senso de injustiça entre os animadores.

Surpreendentemente, Art Babbitt, animador chefe e presidente do sindicato da empresa, se simpatizou com a força de trabalho com baixos salários. Ele inicialmente ingressou na Federação de Cartunistas de Tela da Disney para lutar contra a corrupta Aliança Internacional dos Funcionários de Estágio Teatral (IATSE), que estava ligada ao crime organizado. Mas Babbitt logo passou a exigir um aumento de dois dólares para incursores.

Mal sabia ele o que o esperava. Babbitt imediatamente teve que enfrentar o advogado de Disney, Gunther Lessing. Numa vida anterior, Lessing colaborou com o revolucionário presidente do México Francisco Madero e defendeu os radicais no tribunal. Agora, trabalhando para Disney, Lessing não deu nem um centímetro aos sindicatos.

Havia também o irmão de Walt, Roy, diretor de finanças da empresa. Ele recorreu a ameaças físicas, dizendo a Babbitt para manter o nariz fora de seus negócios ou então eles iriam “cortá-lo”.

Não demorou muito para que Babbitt percebesse que a Federação de Cartunistas de Tela da Disney foi projetada para impedir que os trabalhadores se envolvessem com o sindicalismo da indústria. Depois que uma das incursoras desmaiou porque não podia comprar o almoço, Babbitt juntou-se à Associação dos Cartunistas de Tela de Herbert Sorrell, um local do Sindicato de Pintores e Decoradores.

Naquele momento, Herbert Sorrell já havia experienciado uma quantidade tremenda de lutas. Com doze anos de idade, ele se juntou a uma planta de canalização de esgoto de Oakland, onde colegas de trabalho rotineiramente batiam nele. Isso terminou quando ele decidiu derrubar um deles sobre a cabeça com uma pá. Após a Primeira Guerra Mundial, ele se tornou um pugilista profissional premiado e depois se mudou para Los Angeles para trabalhar como pintor nos estúdios. Depois que ele foi demitido da Universal por ser membro do sindicato, ele canalizou sua energia para o ativismo trabalhista.

Disney foi o jogador-chave da indústria. Sua loja estabeleceria os salários e as condições para todos os estúdios de animação. Sorrell estava empenhado em transformar o Reino Mágico em uma “tigela de poeira” se a empresa não cedesse.

O dragão relutante


A disputa estava fervilhando durante um tempo quando, em fevereiro de 1941, Walt Disney chamou seus trabalhadores juntos para abordar “a verdadeira crise que estamos enfrentando”. No estilo das reuniões de audiência cativa de hoje, ele explicou como havia lutado contra os preconceitos e estabelecido o desenho animado como uma forma de arte. Ele regalou seus trabalhadores mal pagos com histórias dos anos de fome, dívidas e hipotecas. O discurso falhou. Em 10 de maio de 1941, o artigo da Nation afirmou: “Este discurso recrutou mais membros para a Associação dos Cartunistas de Tela do que um ano de campanha”.

Cada movimento que Disney fazia exacerbava o descontentamento dos trabalhadores. Em um ponto, foi registrado que ele teria dito: “Se vocês firmarem com o sindicato. . . Eu vou. . . Eu nunca vou deixar vocês nadarem na minha piscina novamente!”. Ao qual Al Dempster, um animador chefe, respondeu: “Walt, nadar na sua piscina não alimenta meus filhos nem paga meu aluguel!”.

O sindicato reuniu 400 cartões sindicais de 560 trabalhadores elegíveis. Entre eles, o avô paterno de Naomi Klein, que trabalhava na Disney como ilustrador e acabaria por acampar fora do estúdio de L.A. por vários meses. Após negociações mal sucedidas, a equipe votou por uma greve indefinida a partir de 26 de maio.

Walt Disney permaneceu intransigente e até mesmo demitiu Babbitt e outros animadores chefes em retaliação. À medida que a greve estava prestes a começar, Disney apelou ao Conselho Nacional de Relações Trabalhistas (NLRB) para reconhecer o sindicato da empresa visto que os trabalhadores “são livres para participar do que [eles] desejam”.

Disney esperava que o NLRB levasse sua estatura em conta, governasse a seu favor e entregasse o direito à negociação coletiva para o sindicato preferido da empresa. Mas para o desânimo de Walt, a greve começou como planejado, e a Associação dos Cartunistas de Tela trouxe 550 trabalhadores para as linhas de piquete.

Disney respondeu com uma campanha de intimidação. Ele contratou fotógrafos para documentar os trabalhadores em greve. Pior ainda, ele demitiu dezenove funcionários, e rumores circulavam que haveria mais duzentos.
Uma mãozinha

Os grevistas escolheram combinar a escalação e começaram a bloquear os caminhões de entrar no estúdio.

Mas o músculo industrial não seria suficiente. Esta era uma luta pelo futuro da indústria, e ambos os lados sabiam disso. Como em outras disputas trabalhistas, o poder da greve tinha que ser expandido tanto horizontalmente para a comunidade quanto verticalmente no modelo comercial da empresa.

Os trabalhadores distribuíram panfletos nos cinemas exigindo que os gerentes dos teatros e o público boicotassem os filmes de Disney. Eles também apelaram para o resto do movimento trabalhista por doações de alimentos para que pudessem permanecer em greve.

Verticalmente, eles fizeram pressão nos fornecedores. Em meados de julho, os trabalhadores convenceram a Technicolor de boicotar a Disney, parando a entrada de filmes no estúdio e de serem processados no caminho de saída. Williams e British Pathé – duas outras empresas – também suspenderam o processamento de filmes da Disney.

Em 5 de julho, o NLRB reconheceu oficialmente a greve e enviou um conciliador para arbitrar entre os sindicatos e a Disney. Nove sindicatos da AFL voltaram a trabalhar, mas mesmo isso não conseguiu parar os animadores. O advogado de Disney, Lessing, enviou um telegrama para Washington culpando os comunistas pela parada do trabalho em curso.

Rachaduras começaram a aparecer no edifício da greve. Escrevendo em nome “daqueles que voltaram a trabalhar”, o animador R.F. Fredericks argumentou que ser anti-sindicalista era “o American way” e que quaisquer diferenças com a empresa deveriam ser tratadas dentro da organização e não através de um agente externo.

Essa tática de chefe comumente usada iguala as demandas dos trabalhadores com uma força externa, permitindo ao empregador recuperar a hegemonia através das palavras da maioria silenciosa do local de trabalho.

O New Deal finalmente havia chegado ao Reino Mágico.

Derrota ou vitória?


No entanto, as divisões entre ex-grevistas e as cicatrizes foram profundas, e Walt Disney não perdoou aqueles que se rebelaram. É por isso que Tom Sito chama a greve de “Guerra Civil na Animação” em seu livro Drawing the Line: The Untold Story of the Animation Unions de Bosko to Bart Simpson. Em novembro de 1941, Disney demitiu mais trabalhadores, sublinhando sua posição intransigente.

Apesar do recuo anterior no NLRB, Walt aprendeu a usar a mudança de clima político e o macartismo para desencorajar a organização dos trabalhadores em seu crescente império. Em várias ocasiões, ele prestou declarações na Casa das Atividades Não-Americanas, denunciando os participantes da greve e os sindicatos como comunistas e acusando-os de ter laços com a União Soviética.

Graças ao seu testemunho, muitos animadores e escritores enfrentaram o desemprego, a lista negra, a perseguição política e o estigma social, incluindo o proeminente roteirista e vencedor do Oscar, Dalton Trumbo.

Podemos rastrear as atuais relações trabalhistas, o fracasso dos sindicatos e as atividades de prevenção na Disney voltando à greve. A estratégia de recursos humanos de Disney é o antepassado direto das relações de trabalho contemporâneas, em que as queixas são individualizadas e os custos são externalizados para os trabalhadores.

Com a inovação tecnológica, as estratégias de evasão sindical tornaram-se comuns em toda a indústria da animação. Por exemplo, a empresa de produção Titmouse, Inc., responsável pela próxima série da Disney, Motorcity, recentemente dividiu-se em duas empresas separadas. A segunda entidade pode subcontratar trabalho para lojas não-sindicalizadas onde os salários são muito menores.

Artistas subcontratados ganharão apenas quatrocentos dólares por semana, a taxa de salário mais baixa (ajustada pela inflação) já obtida por um artista americano trabalhando em uma produção de animação da Disney. Seus colegas do sindicato ganham quase três vezes mais.

Enquanto isso, a administração continua a intimidar os animadores. Os produtores de Robot Chicken afirmam que a sindicalização aumentaria os custos de produção em 20 a 25%, o que potencialmente levaria ao cancelamento do show. O co-criador de Rick e Morty, Justin Roiland, foi mais explícito quando declarou “foda-se o sindicato” depois que seus animadores e artistas se juntaram à Associação de Animação em 2014.

Em 1931, Walter Benjamin notou de maneira precisa: “Relações de propriedade no filme de Mickey Mouse; aqui, pela primeira vez, o próprio braço de alguém, de fato, o próprio corpo de alguém pode ser roubado”.

Isto aplica-se não só ao público de massa colado em seus assentos, mas também aos trabalhadores que produzem esses filmes.