13 de fevereiro de 2017

Relações EUA-Coreia do Norte em tempos de mudança

por Gregory Elich

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Os próximos meses podem revelar que direção vão tomar as relações entre os EUA e a Coreia do Norte sob a administração Trump. Após oito anos de "paciência estratégica" e reequilíbrio da Ásia, essas relações agora estão no seu ponto mais baixo desde há décadas. Muitas das elites da política externa dos EUA expressam frustração pelo fracasso de Washington em impor a sua vontade à República Popular Democrática da Coreia (RPDC), vulgarmente designada como Coreia do Norte. Há um crescente apelo a uma mudança na política, mas que tipo de mudança têm em mente os diversos protagonistas nos EUA? Talvez estejamos na altura de uma grande transição.

O Presidente Trump tem dado sinais contraditórios sobre a Coreia do Norte que vão desde dizer que está aberto ao diálogo a insistir que a Coreia do Norte não pode possuir armas nucleares e que ele poderia resolver esta disputa com uma simples chamada para a China. É justo dizer que qualquer mudança no sentido da política é possível, embora interesses profundamente arraigados possam influir na resistência a qualquer movimento positivo.

Além da sua frequentemente expressa linha dura em relação à China, Trump pelo contrário ainda não demonstrou muito interesse nos assuntos da Ásia-Pacífico. Isto pode provavelmente significar um adiamento para os seus conselheiros, e que o bom senso possa prevalecer. Quanto maior influência os assessores de Trump tiverem na política com a Coreia do Norte, mais perigosas se tornam as perspectivas.

O conselheiro de Segurança Nacional, Michael Flynn, poderia ser uma figura-chave. Em novembro, ele disse a uma delegação sul-coreana que a questão nuclear norte-coreana seria uma prioridade para a administração Trump.[1] Por volta da mesma época, ele disse a um jornal japonês que o governo norte-coreano não deveria ter permissão para durar muito tempo, e que ele não tem intenção de negociar um acordo.[2]

Flynn escreveu que a Coréia do Norte, Rússia, China, Cuba e Venezuela estão em uma aliança global com o Islã radical, um conceito débil se alguma vez houve um. [3] É um pensamento perturbador que um homem tão desconectado da realidade está ajudando a moldar a política.

Mike Pompeo, Diretor da CIA, acredita que o Irã e a Coreia do Norte cooperaram no que chama de "uma parceria do mal"[1]. Ele também apelou à mobilização do poder econômico e militar contra a RPDC.[2]

Think tanks têm produzido uma série de violentos documentos, cheios de recomendações para a nova Administração. As suas opiniões vão evidentemente cair em ouvidos receptivos entre os conselheiros de Trump. Quanta influência têm na tomada de decisões do Trump é outra questão, porém ele está a ouvir uma única mensagem quer dos que estão ao seu redor quer dos interesses estabelecidos em Washington.

Um tema comum, que aparece nos documentos políticos dos think tanks é a insistência em punir a China pelas suas relações com a RPDC.

O conjunto mais moderado de propostas oferecidas para o governo Trump é o produzido por Joel Wit para o US-Korea Institute, na medida em que pelo menos exige uma fase inicial que Wit chama de "diplomacia coercitiva em fases". Os contatos diplomáticos iniciais deverão "explorar se os acordos que servem os interesses dos EUA são possíveis, enquanto ao mesmo tempo "os EUA deveriam lançar as bases para uma "crescente pressão" sobre a Coréia do Norte. Uma modesta redução dos jogos anuais de guerra dos Estados Unidos poderia ser oferecida como um incentivo à Coréia do Norte, juntamente com as negociações sobre um tratado de paz, enquanto os Estados Unidos acharem que podem ganhar mais com as concessões norte-coreanas.

Ao mesmo tempo, Wit apela para que a nova administração "comunique tenacidade" e implemente uma "campanha de dissuasão de longo prazo". Isso incluiria a transformação dos bombardeiros B-1 e B-52 na Coréia do Sul em uma base regular, juntamente com a colocação de submarinos armados com armas nucleares ao largo da costa coreana

Enquanto as negociações estiverem em andamento, Wit quer que os EUA direcionem uma guerra de propaganda contra a RPDC, aumentando as transmissões de rádio e infiltrando dispositivos de armazenamento portáteis contendo informações destinadas a desestabilizar o governo. O que ele não diz é que tais medidas hostis só podem ter o efeito de descarrilar a diplomacia.

Se a Coréia do Norte se mostrar menos satisfatória em relação às exigências norte-americanas, ou se se preparar para testar um ICBM, Wit aconselha Washington a impor um total de "embargo energético e não alimentar" à Coréia do Norte. Wit argumenta que a China deve aderir às demandas dos EUA no Conselho de Segurança da ONU para o que equivale à guerra econômica na Coréia do Norte, ou então os Estados Unidos devem impor "sanções paralisantes" à RPDC e sanções secundárias à China. Ao atacar a economia chinesa desta maneira, Wit diz que isso iria enviar uma mensagem "de que os Estados Unidos estariam preparados para enfrentar uma grave crise com a China sobre o comportamento norte-coreano". A arrogância é impressionante. Se a China não concordar com as exigências americanas nas Nações Unidas, então será punida com sanções americanas.[6]

Isto é o que passa como a abordagem "moderada" entre o establishment da política externa de Washington.

Wit não está sozinho em sua ânsia de punir a China. Nicholas Eberstadt do American Enterprise Institute acredita que "a próxima rodada de penalidades provavelmente terá de ser aquela que têm algum tipo de colateral para a China ... As sanções estão bem, mais sanções são melhores", diz ele. "Aumentar o custo para a China, eu acho, é o caminho a ser percorrido." [7]

Eberstadt argumenta que a política norte-americana na Coréia do Norte deveria "consistir principalmente, embora não inteiramente, em medidas militares". "É hora de Pequim pagar a conta por todo o seu apoio" à Coréia do Norte, ele declara. "Podemos começar exigindo isso em espaços diplomáticos em todo o mundo."[8] Mostrando a presunção muito típica das elites de Washington, ele não tem nada a dizer sobre como a China pode reagir às suas prescrições políticas hostis. A suposição é que a China deve apenas receber a punição sem queixa. Isso não vai acontecer.

O comandante da Marinha americana, "Skip" Vincenzo preparou um conjunto de recomendações que se mostraram tão populares que foi publicado em conjunto por quatro think tanks. Vincenzo está olhando para frente e planejando como os Estados Unidos e a Coréia do Sul poderiam atacar a RPDC sem sofrer grandes perdas. Ele exorta o governo Trump a conduzir uma guerra de informação para minar a Coréia do Norte. O objetivo seria "convencer as elites do regime de que suas melhores opções" em um conflito "seria apoiar os esforços da aliança República da Coréia-EUA". Ele acrescenta que "os temas de fácil compreensão como 'fique em suas guarnições e você será pago' devem alvejar a base militar." Os comandantes militares norte-coreanos deveriam ser informados de que seriam "recompensados financeiramente" por evitar combater. "O objetivo é levá-los a agir de forma independente quando chegar o momento com a expectativa de que eles vão se beneficiar mais tarde."[9]

Interessante frase, "quando chegar o momento." Vincenzo antecipa que a intervenção militar na Coréia do Norte é apenas uma questão de tempo. Ele claramente prevê um cenário como a invasão dos EUA ao Iraque, quando muitas unidades iraquianas derreteram em vez de lutar. A fantasia de que os EUA poderiam repetir a experiência iraquiana na RPDC baseia-se em um erro de julgamento do caráter nacional coreano. Também não leva em conta que o que se seguiu à invasão do Iraque dificilmente poderia ser interpretado como um desenvolvimento pacífico.

O Brookings Institute, apesar de sua reputação centrista, incentiva Trump a tomar ações que são selvagens e imprudentes. "O novo presidente deve adotar uma abordagem que se concentre no principal objetivo da Coréia do Norte: a sobrevivência do regime... Os Estados Unidos e seus aliados e parceiros devem fazer a Coréia do Norte escolher entre armas nucleares e sobrevivência".

O Brookings Institute pede uma guerra econômica total contra o povo norte-coreano. "Uma abordagem mais robusta", aconselha, "deve ir atrás" da vitalidade financeira do regime norte-coreano de novas maneiras: privando o regime de moeda estrangeira, cortando Pyongyang do sistema financeiro e comercial internacional, apertando suas redes comerciais, proibindo seu comércio e usando meios encobertos e abertos para aproveitar as muitas vulnerabilidades do regime. Uma base sólida de medidas militares deve sublinhar esta abordagem."

Em grande eufemismo, o Instituto admite que "tal abordagem traz riscos". Na verdade, sim, e é o povo coreano que suportaria esse custo, enquanto as elites de Washington não enfrentariam nenhuma das conseqüências de suas ações. O que o Instituto Brookings está pedindo é o estrangulamento econômico da Coréia do Norte, que provocaria o colapso dos meios de subsistência das pessoas e a fome em massa.

Como outros think tanks, o Brookings Institute defende a extensão à China, pedindo a imposição de sanções secundárias a "empresas chinesas, bancos e empresas estatais" que fazem negócios com a Coréia do Norte.[10] O objetivo seria cortar a Coreia do Norte de todo o comércio com a China.

Walter Sharp, ex-comandante das Forças da Coréia dos EUA, diz que os Estados Unidos devem lançar um ataque preventivo se a Coréia do Norte se preparar para lançar um satélite ou testar um míssil balístico. "O míssil deve ser destruído", declara. É fácil imaginar a resposta violenta dos Estados Unidos, se uma nação estrangeira atacasse um de seus mísseis na plataforma de lançamento. É delirante esperar que a Coréia do Norte não só não responda de alguma maneira, mas não teria o direito de fazê-lo. Mas Sharp defende a "força esmagadora" se a Coréia do Norte retaliar, porque, como ele diz, Kim Jong-un deve saber "que há muito mais a caminho, algo que ele temerá."[11] Se isso soa como um prescrição para a guerra, é porque é isso que é.

É uma medida de como décadas de política externa militarizada degradaram o discurso público neste país a tal ponto que essas noções lunáticas não só são levadas a sério, mas os defensores são procurados para conselhos e tratados com respeito.

Com sugestões como essa, não é de estranhar que Walter Sharp foi convidado a se juntar à força-tarefa que produziu um conjunto de recomendações em nome do Conselho de Relações Exteriores. O grupo de trabalho pede que os estágios iniciais das negociações se concentrem em um congelamento nuclear, limitações às forças convencionais norte-coreanas e desenvolvimento de mísseis, e inspeção de instalações nucleares. Obrigações sobre a Coréia do Norte seriam levadas em frente, com absolutamente nada oferecido em troca. A promessa de um tratado de paz e a normalização gradual das relações estariam atrasadas, dependendo do pleno desarmamento, da melhoria dos direitos humanos e da possibilidade de os meios de comunicação dos EUA e da Coreia do Sul saturarem a RPDC. Certamente, essa última demanda seria um não-inicio, na medida em que é impossível imaginar que a Coréia do Norte concordaria em permitir que seu espaço de mídia seja dominado por entidades estrangeiras hostis.

Essa abordagem unilateral não tem chance de alcançar uma solução diplomática. Como solução, o Conselho recomenda que os Estados Unidos intensifiquem continuamente as sanções durante o processo de negociação.

O Conselho de Relações Exteriores pede que os EUA, a Coréia do Sul e o Japão construam a capacidade de interceptar lançamentos de mísseis norte-coreanos, "se eles forem declarados como testes de mísseis balísticos ou veículos civis de lançamento espacial". Ele aconselha os três aliados a derrubar mísseis norte-coreanos assim que são lançados. Isso seria um ato de guerra. E como o Conselho de Relações Exteriores imagina que a Coréia do Norte responderia à interceptação de um lançamento de satélite? Não diz.

Segundo o Conselho, o desenvolvimento do programa nuclear da Coréia do Norte exigiria "medidas diplomáticas e militares mais assertivas, inclusive algumas que ameaçam diretamente os programas nucleares e de mísseis do regime e, portanto, o próprio regime".

"Os Estados Unidos devem apoiar operações de informação melhoradas" contra a Coréia do Norte, acrescenta o Conselho, para minar o governo e "fortalecer as forças de mercado emergentes". Previsivelmente, defende uma "pressão econômica severa" sobre a Coréia do Norte, para obter ações legais contra nações e empresas que fazem negócios com a Coréia do Norte.

Não é a diplomacia que o Conselho de Relações Exteriores procura, mas a mudança de regime, e seu documento está cheio da linguagem do valentão.

Bruce Bennett é analista sênior de defesa da Rand Corporation. Ele adverte que o desejo da Coréia do Norte de um tratado de paz é um ardil. "Na realidade", diz ele, "ao insistir em um tratado de paz, a Coréia do Norte provavelmente não está buscando a paz, mas a guerra". Ele continua afirmando que um tratado de paz pode levar à retirada das forças norte-americanas, após a qual o Norte poderia ser usado para invadir a Coréia do Sul. Os apelos a um tratado de paz, acrescenta, "devem ser encarados como um engano enganoso que pode levar à devastação da Coréia do Sul, um aliado dos Estados Unidos".[13] Este é um argumento que outros analistas também fazem e é claramente delirante. Mas serve como um bom exemplo de como, na mentalidade intermitente dos analistas políticos de Washington, a asserção não fundamentada toma o lugar de qualquer senso de realidade.

O Center for a New American Security (CNAS) fincou profundas raízes no establishment dos EUA. Ashton Carter, secretário de defesa na administração Obama, expressou o nível de respeito e influencia que o CNAS mantem em Washington. "Por quase uma década agora", disse Carter, "o CNAS tem sido um motor para as idéias e o talento que moldaram a política externa e política de defesa americana". Carter acrescentou que "em reunião após reunião, em questão após questão", ele trabalhou com membros do CNAS.[14] Seus comentários revelam que esta é uma organização que tem acesso constante aos salões do poder.

O CNAS produziu um conjunto de documentos políticos destinados a influenciar a administração Trump. Não surpreendentemente, ele favorece o Reequilíbrio para a Ásia que foi iniciado pelo presidente Obama, e defende uma maior expansão das forças militares dos EUA na Ásia.[15] Ele também quer ver um maior envolvimento da OTAN na Ásia-Pacífico em apoio ao exército dos EUA.[16]

Patrick Cronin é diretor sênior do Programa de Segurança da Ásia-Pacífico no CNAS e, como tal, exerce influência considerável sobre a política dos EUA. Cronin afirma que "Trump vai querer sanções duras e empreender uma repressão séria" sobre as operações financeiras da Coréia do Norte, mas essas etapas devem ser de importância secundária. Trump deve "dobrar" o acúmulo militar norte-americano na região, diz ele, e a estratégia da aliança deve enviar a mensagem a Kim Jong-un de que armas nucleares ameaçam sua sobrevivência. Lá está novamente: a proposta de ameaçar a sobrevivência da Coréia do Norte se não abandonar seu programa nuclear.

Independentemente do progresso diplomático, Cronin acredita que os EUA e seus aliados devem conduzir uma guerra de informação contra a Coréia do Norte "tanto em nível de elite quanto de base".[17]

A China não deve ser ignorada, e Cronin acha que Trump precisará integrar uma "diplomacia mais dura" com sanções econômicas contra a China.[18]

Está para ser visto em que medida Trump prestará atenção a tais conselhos. Mas a totalidade do establishment da política externa e os meios de comunicação de referência estão unidos numa firme oposição a qualquer resolução genuinamente diplomática da disputa. Trump exprimiu um ceticismo saudável quanto aos relatórios de inteligência da CIA. Se esse ceticismo será estendido também aos conselhos provenientes dos think tanks de Washington é uma questão em aberto.

Se o objetivo destas propostas é provocar a desnuclearização da Península Coreana, então elas são receitas para o fracasso. Mas se a intenção é impor adversidades econômicas ao povo da Coreia do Norte, ao mesmo tempo que aproveita a questão nuclear como pretexto para dominar a região, então estes think tanks sabem o que estão a fazer. Como sempre, considerações humanas nada significam quando se trata de servir interesses corporativos e imperiais, e se forem plenamente cumpridas não será surpresa se tiverem êxito em trazer à Península Coreana o mesmo caos e destruição que provocaram no Oriente Médio. Só se pode desejar que vozes mais razoáveis prevaleçam durante a formulação política. 

O que nenhum dos documentos políticos trata é o papel que a Coreia do Sul tem de desempenhar. É simplesmente assumido que o status quo continuará e que a Coreia do Sul acompanhará qualquer ação que os EUA optem por adotar, não importando quão dura ou perigosa. Na mente do establishment de Washington, trata-se de um relacionamento mestre-servo e nada mais.

Que coreanos, do norte e do sul, possam ter os seus próprios objetivos e interesses não é considerado. Os realmente espantosos protestos em massa contra a presidente da Coreia do Sul, Park Geun-hye, os quais levaram ao seu impeachment, abriram um mundo de possibilidades. Seja o que for que aconteça nos meses pela frente, não será como o habitual. Decisores políticos dos EUA estão em pânico com a perspectiva de um governo mais progressista e independente tomar o poder após a próxima eleição na Coreia do Sul e isto é o que está por trás dos planos para apressar a instalação de uma bateria THAAD antes do programado. Mas num certo sentido, pode já ser demasiado tarde. Park Geun-hye, e implicitamente suas políticas, foi totalmente desacreditada. Pode bem acontecer que quanto mais duras as medidas que Washington queira impor à RDPC, menos possam contar com a cooperação da Coreia do Sul. E poderia ser isto a impedir os Estados Unidos de temerariamente mergulharem a Península Coreana no caos ou mesmo na guerra.

Vamos imaginar que um governo mais progressista tome o poder na Coreia do Sul, empenhando-se no diálogo com o seu vizinho do Norte e assinando acordos sobre cooperação econômica. Se os EUA estivessem assim inclinados, poderiam trabalhar em conjunto com um tal governo na Coreia do Sul para reduzir tensões e desenvolver laços econômicos com a RDPC. Ligações ferroviárias e de gás poderiam cruzar a Coreia do Norte, conectando o Sul com a China e a Rússia, e proporcionando um impulso econômico para toda a região. A Coreia do Norte e do Sul poderiam desviar recursos de necessidades militares para civis e começar a desmantelar estruturas nacionais de segurança do estado. A questão nuclear deixaria de importar. Todas estas coisas poderiam ser feitas, mas exigiriam uma mudança de mentalidade em Washington e uma disposição para desafiar todo o establishment.

Infelizmente, é muito mais provável que tensões continuem a ser agravadas. A confrontação de longo prazo com a Rússia e a China tem sido a nota chave da política estadunidense, levando ao cerco daquelas nações por um anel de bases militares e sistemas de mísseis anti-balísticos. O reequilíbrio para a Ásia tem como objetivo reforçar o poder militar em torno da China. A Coreia do Norte, neste contexto, serve como justificação conveniente para a dominação militar e econômica dos EUA da Ásia Pacífico.

Por que o programa de armas nucleares da Coreia do Norte é considerado uma ameaça inaceitável, enquanto o de outras nações não é? Por que não vemos os Estados Unidos imporem sanções ao Paquistão pelo seu programa nuclear, por conduzir jogos de guerra no Oceano Índico ou invadir a Índia? Por que não ouvimos apelos à mudança de regime em Israel devido ao seu programa nuclear?

Em vez disso, o Paquistão é o quinto maior receptor de ajuda americana, estando previsto receber 742 milhões de dólares este ano, a Índia recebe um décimo dessa quantia, e os EUA assinaram recentemente um acordo de cooperação militar com o Paquistão.[16] Relativamente a Israel os Estados Unidos comprometeram-se a fornecer 28 bilhões de dólares de ajuda militar ao longo dos próximos dez anos.[17]

Que se passa no seu programa de armas nucleares que faz com que a Coreia do Norte seja sancionada e ameaçada, enquanto os EUA calorosamente abraçam outros? Índia, Paquistão e Israel têm programas nucleares que são muito mais avançados que os da Coreia do Norte, com consideráveis arsenais e bem testados mísseis balísticos. A grande diferença é que a Coreia do Norte é a única destas quatro nações que enfrenta uma ameaça existencial dos Estados Unidos e, portanto, tem a maior necessidade de uma força de dissuasão nuclear.

Não há nenhuma ameaça da Coreia do Norte aos EUA. Ainda não foi testado um míssil de reentrada na atmosfera e portanto não pode ser dito que tem os meios de colocar uma arma nuclear nos EUA. Além disso, a Coreia do Norte nunca terá mais do que um pequeno arsenal em relação ao tamanho do possuído pelos EUA, pelo que as suas armas nucleares só podem ter um papel dissuasor.

A "ameaça" que apresenta o programa nuclear da Coreia do Norte é duplo. Uma vez que a Coreia do Norte tenha conseguido completar o desenvolvimento do seu programa, os EUA perderão qualquer possibilidade realista de atacá-lo. Quer os EUA exerçam essa possibilidade ou não, desejam manter em aberto essa opção.

O outro aspecto da "ameaça" é que se a RPDC tiver êxito no estabelecimento de um programa eficaz de armas nucleares, outras pequenas nações que enfrentam a hostilidade dos EUA podem sentir-se encorajados a desenvolver programas nucleares, reduzindo assim a capacidade dos Estados Unidos imporem a sua vontade sobre outros povos.

É difícil ver a razão pela qual a Coreia do Norte desistiria do seu programa nuclear. Por um lado, de acordo com estimativas do Departamento de Estado dos EUA, a Coreia do Norte está a gastar entre 15 a 24% do seu PIB nas suas Forças Armadas.[18] Isto é insustentável para uma economia em recuperação, e as armas nucleares são baratas em comparação com as despesas de forças armadas convencionais. A Coreia do Norte está a colocar grande ênfase no desenvolvimento econômico, e um programa de armas nucleares permite-lhe transferir mais recursos para a economia civil.[19]

A História recente também mostrou que uma pequena nação que dependa de forças militares convencionais não tem hipóteses de se defender contra um ataque dos Estados Unidos. Para uma nação como a Coreia do Norte, as armas nucleares representam o único meio de defesa.

A Coreia do Norte atribui grande importância à assinatura de um Tratado de Paz. Após mais de seis décadas, desde o fim da guerra da Coreia, um Tratado de Paz é um objetivo digno e há muito devido. Mas se a RPDC imagina que um Tratado de Paz lhe proporciona uma medida de segurança, acho que é um erro. Os EUA estavam oficialmente em paz com cada uma das Nações que atacaram e arruinaram.

Que tipo de garantias os Estados Unidos podem possivelmente dar à Coreia do Norte, para garantir a sua segurança em troca do desarmamento? Poderia ser assinado um acordo, mas as promessas feitas não significam nada. A Líbia deve ser recordada: assinou um acordo de desarmamento nuclear com uma administração dos EUA, apenas para ser bombardeada pela seguinte. Nenhuma promessa verbal ou escrita pode fornecer qualquer medida de segurança.

O registro unilateral dos negociadores dos EUA dificilmente se torna um incentivo para a Coreia do Norte efetuar qualquer medida de desarmamento. Por exemplo, logo após os Estados Unidos terem assinado em setembro de 2005 um acordo conjunto com a Coreia do Norte, o negociador americano Christopher Hill procurou tranquilizar o Congresso dizendo que os Estados Unidos não estavam prestes a começar a normalização das relações com a Coreia do Norte, mesmo que isso fosse precisamente o que o acordo obrigava a fazer.

A normalização das relações, explicou ao Congresso, estaria "sujeita à resolução das nossas preocupações de longo prazo. Por isso, entendo que como parte necessária do processo que conduza à normalização, devemos discutir questões importantes, incluindo os direitos humanos, programas de mísseis balísticos, armas químicas e biológicas, proliferação de armas convencionais, terrorismo e outras atividades ilícitas." A Coreia do Norte "teria que se comprometer com normas internacionais e provar as suas intenções." O objectivo de Christopher Hill foi claro. Mesmo que a Coreia do Norte se desnuclearize totalmente, as relações mesmo assim não se moveriam em direção à normalização. A Coreia do Norte seria confrontada com uma série de exigências adicionais.[23]

Com efeito, longe de começar a normalizar as relações, dias após a assinatura do acordo de setembro de 2005, o Departamento do Tesouro designou o Banco Delta Ásia sediado em Macau como uma das "preocupações principais quanto a lavagem de dinheiro" apesar da ausência de qualquer evidência para apoiar esta afirmação. As empresas financeiras dos Estados Unidos foram obrigadas a cortar relações com o banco, o que levou a uma onda de saques por clientes em pânico e o encerramento do banco. O objetivo do Departamento do Tesouro foi encerrar uma das principais instituições que a Coreia do Norte usava para conduzir comércio internacional normal. Esta ação matou o acordo.

O acordo nuclear líbio fornece o modelo que Washington espera que a Coreia do Norte siga. Esse acordo compeliu a Líbia a desmantelar o seu programa nuclear, como condição prévia para receber qualquer recompensa, e só depois desse processo estar completo muitas das sanções contra a Líbia foram levantadas. Demorou contudo mais de dois anos para tirar a Líbia da lista de patrocinadores do terrorismo e restabelecer relações diplomáticas.

Após uma análise mais aprofundada, essas "recompensas" parecem antes uma redução do castigo. Pode dizer-se que a redução de sanções é uma recompensa? Se alguém está batendo e depois promete reduzir o número de espancamentos, será isso uma "recompensa" para alguém? 

Não pareceu assim para os líbios, que muitas vezes se queixaram de que autoridades dos EUA não os haviam recompensado pelo cumprimento do acordo.[24]

O que os EUA ofereceram à Líbia, foram mais exigências. Logo no início, o subsecretário de Estado John Bolton disse a funcionários líbios que teriam de suspender a cooperação militar com o Irã a fim de concluir o acordo de desnuclearização.[25] Em pelo menos uma ocasião, um responsável dos EUA pressionou a Líbia a eliminar o comércio militar com a Coreia do Norte, Irã e Síria. [26]

Responsáveis dos EUA exigiam que a Líbia reconhecesse a independência unilateral do Kosovo, uma posição a que Líbia consistentemente se opôs.[27] Isto foi seguido por uma nota diplomática dos EUA à Líbia, ordenando-lhe votar contra uma resolução do governo sérvio nas Nações Unidas, que pedia uma decisão do Tribunal Internacional de Justiça sobre a independência do Kosovo.[28] 

Dadas as circunstâncias, a Líbia preferiu estar ausente na votação, ao invés de se unir aos EUA e a três outras nações contra a medida.

Os Estados Unidos conseguiram, no entanto, obter o voto da Líbia para sanções da ONU contra o Irã.[26] Em resposta às diretivas dos EUA, a Líbia aconselhou repetidamente a Coreia do Norte a seguir o seu exemplo e proceder à desnuclearização. Sob pressão dos EUA, a Líbia lançou também um programa de privatizações e abriu oportunidades para as empresas dos EUA.

As autoridades dos EUA instaram muitas vezes os norte-coreanos a tomar nota do acordo com a Líbia e aprender com o seu exemplo. Hoje em dia, esse exemplo parece bastante diferente, dado o bombardeamento da Líbia com aviões de guerra dos EUA e mísseis. Pela sua cooperação com os Estados Unidos o Coronel Kadhafi foi recompensado com espancamento, empalado com uma baioneta e assassinado. Há de fato uma lição neste caso, e os norte-coreanos tomaram devida nota disso. 

É tempo de desafiar a narrativa ocidental estandardizada.

Sob a lei internacional sobre o espaço, cada nação tem o direito de lançar um satélite em órbita, apenas à Coreia do Norte é negado esse direito e condenada. Os Estados Unidos, com mais de mil testes nucleares,[30] reagem com indignação a cinco da Coreia do Norte.

Citando o analista político Tim Beal, "a construção da Coreia do Norte como um pária internacional é uma expressão do poder americano ao invés de, como geralmente é reivindicado, resultado de uma violação do direito internacional. Na verdade, as acusações discriminatórias contra a Coreia do Norte são uma violação das normas do direito internacional e da igual soberania dos Estados."[31]

Desde 1953, a Coreia do Norte nunca esteve em guerra.

Durante este mesmo período, para listar apenas uma amostra das intervenções, os EUA derrubaram o governo da Guatemala; enviaram um exército de mercenários para invadir Cuba; o Vietnã foi invadido e bombardeado, com o custo de 2 milhões de vidas. Bombardearam o Camboja e o Laos; enviaram tropas para a República Dominicana; apoiaram o golpe militar na Indonésia, na qual meio milhão de pessoas foi morta; organizaram um golpe militar no Chile; apoiaram extremistas islâmicos em seus esforços para derrubar um governo laico no Afeganistão. Os EUA invadiram Granada, minaram portos e armaram grupos contra o governo da Nicarágua; armaram a guerrilha de direita em Angola e Moçambique; armaram e treinaram as forças croatas e forneceram cobertura aérea para a expulsão de 200 mil pessoas de suas casas na Krajina; bombardearam metade da Bósnia; armaram e treinaram o Kosovo Liberation Army, atacaram a Iugoslávia; invadiram o Iraque; apoiaram a derrubaram os governos da Iugoslávia, Ucrânia, Geórgia, Honduras e muitas outras nações, bombardearam a Líbia, armaram e treinaram os jhiadistas na Síria.

E mesmo assim ainda dizem que é a Coreia do Norte que ameaça a paz mundial.

O ano de 2017 pode ser crucial para a península coreana. Uma população revigorada está a trazer mudanças na Coreia do Sul. Devemos juntar-nos e exigir mudanças nos Estados Unidos, também. É tempo de resistir aos sucessivos apelos para uma política externa militarista e temerária

Notas:

[1] Jesse Johnson, “Trump National Security Pick Tells South Koreans that North’s Nuke Program will be Priority,” The Japan Times, November 19, 2016.
[2] Chang Jae-soon, “Trump Names Former DIA Chief Mike Flynn as his National Security Advisor,” Yonhap, November 19, 2016.
[3] Edward Wong, “Michael Flynn, a Top Trump Adviser, Ties China and North Korea to Jihadists,” New York Times, November 30, 2016.
[4] Press Release, “Pompeo on North Korea’s Nuclear Test,” U.S. Congressman Mike Pompeo, January 16, 2016.
[5] Chang Jae-soon, “Trump’s Foreign Policy Lineup Expected to be Supportive of Alliance with Seoul, Tough on N.K.,” December 13, 2016.
[6] Joel S. Wit, “The Way Ahead: North Korea Policy Recommendations for the Trump Administration,” U.S.-Korea Institute at the Johns Hopkins School of Advanced International Studies (SAIS), December 2016.
[7] FPI Conference Call: North Korea’s Dangerous Nuclear Escalation,” The Foreign Policy Initiative, September 15, 2016.
[8] Nicholas Eberstadt, “Wishful Thinking has Prevented Effective Threat Reduction in North Korea,” National Review, February 29, 2016.
[9] Commander Frederick ‘Skip’ Vincenzo, “An Information Based Strategy to Reduce North Korea’s Increasing Threat: Recommendations for ROK & U.S. Policy Makers,” Center for a New American Security, U.S.-Korea Institute, National Defense University, Georgetown University School of Foreign Service Center for Security Studies,” October 2016.
[10] Evans J.R. Revere, “Dealing with a Nuclear-Armed North Korea: Rising Danger, Narrowing Options, Hard Choices,” Brookings Institute, October 4, 2016.
[11] Richard Sisk, “Former US General Calls for Pre-emptive Strike on North Korea,” Defense Tech, December 1, 2016.
[12] Mike Mullen and Sam Nunn, chairs, and Adam Mount, project director, “A Sharper Choice on North Korea: Engaging China for a Stable Northeast Asia,” Independent Task Force Report No. 74, Council on Foreign Relations, 2016.
[13] Bruce W. Bennett, “Kim Jong-un is Trolling America Again,” The National Interest, May 17, 2016.
[14] Ashton Carter, “Networking Defense in the 21st Century”, Remarks at CNAS, Washington, DC, Defense.gov, June 20, 2016.
[15] Mira Rapp-Hooper, Patrick M. Cronin, Harry Krejsa, Hannah Suh, “Counterbalance: Red Teaming the Rebalance in the Asia-Pacific,” Center for a New American Security, November 2016.
[16] Julianne Smith, Erik Brattberg, and Rachel Rizzo, “Translatlantic Security Cooperation in the Asia-Pacific,” Center for a New American Security, October 2016.
[17] Patrick M. Cronin, “4 Ways Trump Can Avoid a North Korea Disaster,” The Diplomat, December 13, 2016.
[18] Patrick M. Cronin and Marcel Angliviel de la Beaumelle, “How the Next US President Should Handle the South China Sea,” The Diplomat. May 2, 2016.
[19] “Foreign Assistance in Pakistan,” foreignassistance.gov
Rama Lakshmi, “India and U.S. Deepen Defense Ties with Landmark Agreement,” Washington Post, August 30, 2016.
[20] “U.S. Foreign Aid to Israel,” everycrsreport.com, December 22, 2016.
[21] U.S. Department of State, “World Military Expenditures and Arms Transfers 2016,” December 2016.
[22] Bradley O. Babson, “After the Party Congress: What to Make of North Korea’s Commitment to Economic Development?” 38 North, May 19, 2016.Elizabeth Shim, “Kim Jong Un’s Economic Plan Targets Foreign Investment,” UPI, May 19, 2015.
[23] “The Six-Party Talks and the North Korean Nuclear Issue: Old Wine in New Bottles?” Hearing Before the Committee on International Relations, House of Representatives, October 6, 2005.
[24] “Libya Nuclear Chronology,” Nuclear Threat Initiative, February 2011.
[25] U.S. Department of State cable, “U/S Bolton’s July 10 Meeting with Libyan Officials, August 11, 2004.
[26] William Tobey, “A Message from Tripoli, Part 4: How Libya Gave Up its WMD,” Bulletin of the Atomic Scientists, December 7, 2014.
[27] U.S. Embassy Tripoli cable, “Libya/UNSC: 1267, Iran and Kosovo, July 1, 2008.
[28] U.S. Embassy Tripoli cable, “Kosovo ICJ Resolution at UNGA — Libya,” October 6, 2008.
[29] “Libya Nuclear Chronology,” Nuclear Threat Initiative, February 2011.
[30] List of nuclear weapons tests of the United States
[31] Tim Beal, “The Korean Peninsula within the Framework of US Global Hegemony,” The Asia-Pacific Journal, November 15, 2016.

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