6 de fevereiro de 2017

Provocando o Irã: como Trump arrisca inflamar o Oriente Médio

Patrick Cocburn

countepunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / O presidente Trump está adicionando mais veneno ao ódio sectário que divide o Irã e a Síria com seus últimos tweets. Eles têm um potencial explosivo bem maior do que seus conhecidos choques com países como a Austrália e o México, porque no Oriente Médio ele está lidando com questões de guerra e paz. Nessa complexa região, os EUA terão que pagar um preço alto por mudarem para uma política vagamente beligerante que não leva em consideração a situação real no território.

Em um tweet essa semana, Trump diz que o “Irã está tomando cada vez mais o Iraque mesmo depois de os EUA terem esbanjado três trilhões de dólares lá. Obviamente há um tempo atrás!” De fato, não é óbvio porque não é verdade. O Irã estava em uma posição mais forte no Iraque antes de junho de 2014 quando a ofensiva do Estado Islâmico capturou Mosul, derrotou o exército iraquiano e provocou a queda do governo Nouri al-Maliki que era próximo ao Irã.

A vitória do EI, na época, levou à volta da influência dos EUA no Iraque enquanto o presidente Obama criava uma coalizão aérea liderada pelos EUA que lançou milhares de ataques aéreos contra o EI. Ele enviou pelo menos 5.000 militares dos EUA apoiados por milhares de contratados americanos que lidam com treinamento e logística para o atual ataque do exército iraquiano a Mosul. O ataque é uma operação conjunta Iraque-EUA e se tornou a batalha mais difícil desde a invasão do Iraque pelos EUA em 2003.

Mas Trump não é a única pessoa dizendo que o Iraque é controlado pelo Irã. O EI mantém constantemente que a maioria da comunidade xiita iraquiana, que soma dois terços da população de 33 milhões do país, não é iraquiana mas sim iraniana. O EI sempre demonizou os xiitas iraquianos como hereges religiosos e “sáfidas”, e disse que não são muçulmanos verdadeiros e merecem morrer. A Arábia Saudita, cujo líder teve uma longa conversa com Trump recentemente, possui uma visão quase similar sobre equiparar o islã xiita com o Irã e a necessidade de combater ambos.

A alegação de Trump sobre o crescente controle iraniano do Iraque pode ser descartada como absurdo sem consequências de longo prazo. Mas existem outras flechas apontando na mesma direção: os iraquianos, e outros na região estão apontando para a bizarra lista de sete países cujos cidadãos estão banidos temporariamente de entrarem nos EUA. Isso é supostamente direcionado contra a al-Qaeda e o EI, valendo das lições aprendidas com o 11 de setembro. Mas nenhum dos países dos quais vieram os sequestradores – Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Egito e Líbano – estão sujeitos ao banimento como o Iraque e o Irã. “A lista parece ter uma intenção anti-xiita”, disse um observador em Bagdá e os governos da Arábia Saudita e da Turquia parecem pensar a mesma coisa, já que eles apoiaram ou falharam em condenar a ação dos EUA, mesmo sendo, mais ou menos, abertamente direcionada contra os muçulmanos.

A administração Trump parece pensar em tweets e slogans, então provavelmente é errado falar de uma mudança coerente na política. Mas em suas primeiras semanas no cargo, tem sido bem mais verbal sobre confrontar uma suposta ameaça iraniana do que sobre eliminar o EI. Isso ficou claro na quarta-feira quando o conselheiro nacional de segurança, General Michael Flynn, uma vez chefe da Agência de Inteligência de Defesa até ser demitido por Obama, acusou o Irã de conduzir testes de mísseis nucleares “provocativos” violando uma resolução do Conselho de Segurança da ONU e ajudando os rebeldes Houthi no Iêmen, dizendo “a partir de hoje estamos botando o Irã em alerta”. A frase sobre o Irã foi repetida em um tweet de Trump, indicando uma preocupação maior na Casa Branca sobre o Irã do que sobre o EI e pouco interesse na batalha gigante sendo travada pelo controle de Mosul. Em algum local secreto dessa cidade, o califa alto declarado Abu Bakr al-Baghdadi, pode estar ponderando a mesma questão que os outros líderes do mundo estão absorvendo: o quanto do que Trump fala é só bombástico e até onde se tornará realidade? É cedo para dizer, mas os sinais não são encorajadores.

De qualquer maneira, apenas os bombásticos já são capazaes de reestruturar o cenário politico. Paradoxalmente, as ações da Casa Branca no Oriente Médio estão criando as condições para o Irã afastar a influência dos EUA no Iraque de um modo que Trump pensa erroneamente que já aconteceu. Respondendo ao banimento das viagens, o parlamente iraquiano declarou que os cidadãos dos EUA se propondo a entrar no Iraque nos próximos 90 dias devem ser sujeitados às mesmas restrições. O primeiro ministro Haider al-Abadi recusou a aceitar isso, dizendo que é mais importante manter a cooperação com os EUA enquanto a batalha por Mosul ainda acontece.

Mas não parece que a questão terminará aí, porque a relação dos EUA com o Irã no Iraque sempre foi uma mistura curiosa de rivalidade aberta e cooperação dissimulada, já que partilham um inimigo em comum, o EI, e, anteriormente, a al-Qaeda no Iraque. O poder norte-americano no Iraque cresceu desde 2014 porque é o aliado militar principal do Iraque. Sem os EUA e os ataques aéreos da coalizão, o exército iraquiano não poderia derrotar o EI e nem lutar contra ele. Mas a posição política dos EUA no Iraque está mais fraca do que sua posição military e, graças ao banimento de viagens e os ataques crescente de Trump ao Irã, ainda ficará mais fraca. O banimento é uma “oportunidae de ouro” para o Irã pressionar contra os EUA, disse o ex-oficial senior iraquiano. “Os iraquianos estão muito preocupados”, disse Kamran Karadaghi, um comentarista iraquiano e ex-chefe de gabinete da presidência iraquiana. “Se algo ruim acontece ao Irã por causa de Trump, será terrível para os iraquianos.”

Em busca de uma linha anti-iraniana, a administração Trump está cometendo os mesmos erros que os feitos pelos governos ocidentais depois dos levantes de 2011 no mundo árabe. Eles pensaram em termos de nacionalismo, nacionalidades e nação estado, mas no Oriente Médio, isso conta menos como laços comunitários do que a identidade religiosa. Portanto, o que era essencialmente um levante árabe sunita na Síria seis anos atrás, se transformou no equilíbrio de poder entre os sunitas e os xiitas no Iraque e reiniciou a guerra civil lá. A ameaça ao presidente Bashar al-Assad e seu governo dominado por Alawite só poderia levar aos xiitas no Irã, Iraque e no Líbano batalhando por seu apoio para prevenir sua deposição, porque sentiam que era uma ameaça existencial a eles mesmos.

A administração Trump ainda não realizou erros desastrosos no Oriente Médio, mas, levando em conta suas ações nas últimas semanas, pode realizar logo logo. Há a mesma mistura de falta de informação, arrogância e pensamento ilusório em Washington como quando ocorreu o desastre no Líbano em 1982-83 e no Iraque depos de 2003. As discussões de Trump com a Austrália e o México podem não ter efeitos diretos de longo prazo porque não há sangue sendo derramado. Mas no Oriente Médio, uma zona de guerras, a raiva amadora de Trump pode produzir um desastre.

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