31 de março de 2017

O establishment de Washington busca a guerra com a Rússia?

Eric Zuesse

Strategic Culture Foundation

O que é assustador para o establishment de Washington: um presidente dos EUA que quer chegar a novos acordos com a Rússia, ou um presidente dos EUA que quer substituir todos os aliados da Rússia?

O que temos tido recentemente são apenas presidentes que querem substituir todos os aliados da Rússia - e eles têm tido sucesso nisso:

Nós substituímos Saddam Hussein.

Nós substituímos Muammar Gaddafi.

Nós substituímos Viktor Yanukovych.

Ainda estamos tentando substituir Bashar al-Assad, e também a liderança do Irã.

Há dúvida sobre se o presidente dos EUA, Donald Trump, continuará com essa corda, e muitos na imprensa o consideram muito favorável à Rússia.

Os meios de comunicação tomam partido dos democratas e dos outros neoconservadores e, por isso, Trump está a ser pressionado por ser "o escudeiro de Putin" ou mesmo "candidato de Putin à Manchúria", embora a presunção nessas declarações seja que a Rússia está condenada a ser inimiga da América, A América a conquista inteiramente - e esta é uma presunção de guerra e arrogante para o governo dos EUA a fazer sobre a Rússia, e também está muito longe de ser uma suposição realista sobre a Rússia. A Rússia tolerará que todos os seus aliados sejam derrubados pelos EUA? Quantos mais mísseis nucleares norte-americanos a Rússia aceitará ser colocado perto e em suas fronteiras em países anteriormente aliados que agora estão na OTAN - o clube militar anti-Rússia?

Trump deixou claro durante sua campanha que queria aliar-se à guerra consistente de Putin contra o "terrorismo islâmico radical" - ninguém pode contestar que Putin sempre, e consistentemente, se empenhou intransigentemente em se opor a isso - nunca armar nem treinar jihadistas como os EUA e seu "aliado" saudita, a família Saud, fazem (para derrubar os aliados russos).

Então: qual dos dois é assustador - Hillary Clinton e John McCain multidão, os neocons, que querem esmagar a Rússia; Ou, as poucas pessoas em Washington que (pelo menos até Trump ser eleito) eram inimigos daquela multidão?

Assim que Trump se tornou eleito, seu medo de ser apelidado de 'Putin's Stooge' ou 'Putin's Manchurian candidato' levou-o a nomear uma equipe de segurança nacional que estavam empenhados em substituir os restantes aliados da Rússia, Irã e Síria. Mas mesmo isso não foi suficiente para satisfazer os neoconservadores que dirigem ambas as partes, e os meios de comunicação. Trump tem tentado acomodar as pessoas que estão fazendo tudo o que podem para derrubá-lo, mas não parece ser apaziguá-los. O establishment de Washington o aterrorizou longe de sua promessa de campanha de criar uma aliança com Rússia para côoperar junto em wiping para fora o jihadismo - e o jihadismo é algo que não existe mesmo nos tempos modernos até que os EUA e seus aliados de Saud introduziram-no em Afeganistão 1979 para derrubar o líder secular, soviético-aliado desse país, Nur Muhammed Taraki. Este esforço conjunto com os sauditas criou o jihadismo da era moderna. Zbigniew Brzezinski disse de sua e da realização da CIA e dos Sauds, em uma entrevista de 1998, "pesar o que? Essa operação secreta foi uma excelente idéia. Isso teve o efeito de atrair os russos para a armadilha afegã e você quer que eu me arrependa? "Ele se tornou o modelo para o que eles estão fazendo agora para a Síria.

Trump havia dito que sua principal prioridade na segurança nacional seria contra o jihadismo, não contra a Rússia e seus aliados. Mas até agora, sua política externa a este respeito parece mais como o que havia sido amplamente esperado no caso de uma vitória de Hillary Clinton. (Até mesmo o foco de Trump contra o "terrorismo islâmico radical" é dirigido quase exclusivamente contra sete nações principalmente xiitas que os aliados sauditas da América - que são fundamentalistas sunitas e odeiam os xiitas muçulmanos - desprezam e duas dessas nações xiitas, Irã e Síria, pela Rússia, por isso, Trump poderia simplesmente continuar a política pró-Saud de seu predecessor ali). No entanto, os neoconservadores continuam com as investigações sobre se Trump é um agente secreto russo.

O que o establishment de Washington realmente quer? Qual é sua demanda real? A cabeça de Putin em uma estaca? Ou eles realmente querem a cabeça de Trump em uma estaca, por alguma razão inteiramente diferente? As motivações que estão indicando para querer substituir Trump por seu vice-presidente, Mike Pence - um neoconservador raivoso anti-russo - não fazem sentido, e a "evidência" que estão fundando esta campanha sobre, é, ainda, após meses de tentar, ainda mais esfregaço do que evidência autêntica. Claramente, há motivos ocultos por trás dele. E eles parecem estar ganhando - quaisquer que sejam suas verdadeiras motivações.

Notícias falsas: Venezuela defende o Estado de Direito, mas a imprensa chama isso de ditadura

Maria Paez Victor

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Notícias falsas são há muito tempo utilizadas como ferramenta dos EUA para a guerra, a desestabilização, a promoção de golpe de Estado e para desestabilizar governos que os Estados EUA não aceitam. Nada de novo.

Os poderes e os principais meios de comunicação estão correndo para dizer que a Venezuela está agora sob "a regra de um homem". No entanto, em que democracia moderna um parlamento pode aceitar como membros votantes pessoas que NÃO foram devidamente eleitas porque o processo de votação em seu distrito foi provado ter sido grosseiramente irregular? De que forma as decisões tomadas por esse parlamento em que essas pessoas não eleitas são reconhecidas e participam, são de alguma forma legítimas decisões parlamentares?

Essa é a situação em que se encontra a Assembleia Nacional da Venezuela, com a maioria de oposição.

Em 28 de julho de 2016, a Assembleia Nacional aceitou como deputados da assembléia três pessoas que haviam sido suspensas pelo Supremo Tribunal da Venezuela devido a uma investigação em curso sobre irregularidades grosseiras envolvendo a compra de votos em seu distrito, o estado da Amazônia. Há gravações telefônicas de um funcionário de alto escalão do governo do estado que oferece uma grande quantidade de dinheiro para grupos de pessoas em troca de seus votos para os candidatos da oposição.

A Assembleia Nacional, ignorando e violando a decisão da Suprema Corte, que suspendeu essas pessoas, procedeu como se estivesse funcionando como de costume na legislatura. Por conseguinte, em 28 de março de 2017, o Supremo Tribunal decidiu que assumirá temporariamente as funções da Assembleia Nacional até que esse órgão deixe de ser desobediente, isto é, até que os três deputados infratores sejam removidos. Isso está de acordo com o artigo 336.7 da Constituição da Venezuela que permite ao Supremo Tribunal tomar medidas corretivas no caso de uma omissão parlamentar inconstitucional.

Em 28 de março de 2017, Luis Almagro, diretor da Organização dos Estados Americanos (OEA), pediu que a Venezuela fosse suspensa da OEA, abrindo caminho para a intervenção estrangeira na Venezuela, alegando uma violação dos princípios democráticos. Esta é a mesma OEA que manteve silêncio sobre os golpes de Estado parlamentares no Brasil e no Paraguai, o golpe de Estado em Honduras, que manteve silêncio sobre os horrendos assassinatos de estudantes e jornalistas no México e a multidão de violações de direitos humanos dos sindicalistas na Colômbia.

Os legisladores venezuelanos apoiaram publicamente esta proposta ultrajante. O suposto e ilegítimo presidente da Assembleia Nacional, Julio Borges, apoiando Almagro, declarou publicamente que a Assembleia estava "abertamente em rebelião" e que não reconheceria a Suprema Corte. Almagro fracassou porque não conseguiu que a decisão fosse aprovada na OEA.

A Suprema Corte avisou aos legisladores que eles poderiam ser julgados por traição, pois o artigo 132 do Código Penal venezuelano proíbe os cidadãos de solicitarem intervenção externa na política nacional venezuelana. Além disso, lembrou-lhes que, de acordo com a lei, eles não têm imunidade parlamentar enquanto a Assembleia estiver desprezando o Supremo Tribunal.

O que aconteceria na Grã-Bretanha, no Canadá ou nos EUA se as suas legislaturas desafiasse abertamente a Suprema Corte e insistisse em jurar pessoas que não foram devidamente e legitimamente eleitas e que fossem objeto de uma investigação criminal? A imprensa diria então que haveria uma ditadura nesses países? O que acontece com o Estado de Direito quando as decisões de um Supremo Tribunal são ignoradas pelo Legislativo?

Esses processos legais estão sendo ignorados por gente como Almagro e os governos de direita da região que descaradamente executam ordens de Washington e vilipendiam a Venezuela. Na verdade, a Suprema Corte da Venezuela tentou fazer com que a Assembleia Nacional cooperasse com o Executivo para tentar, conjuntamente, resolver a grave situação econômica do país.

A Venezuela deve ser louvada por defender o Estado de Direito, não alcatroada com maliciosas notícias falsas. Mas seu governo está em cima das maiores reservas de petróleo do Hemisfério e repudia as políticas do capitalismo neoliberal canibal. Assim, para o Departamento de Estado dos EUA e seus aliados subservientes e corporações gananciosas, a Venezuela deve ser desafiada, deposta e difamada.

Notas:


28 de março de 2017

Navalny, um democrata made in USA

Manlio Dinucci


Tradução / Um policial arromba a porta de uma casa com um um porrete, outro entra com a pistola apontada e criva de balas um homem que, ao despertar sobressaltado, agarra um taco de basebol, enquanto outros policiais apontam armas para um menino que já está com as mãos para o alto: trata-se de uma cena de habitual violência “legal” nos Estados Unidos, documentada há uma semana com imagens de vídeo pelo New York Times, que fala do “rastro de sangue” dessa “perseguição” efetuada por um ex-militar recrutado pela polícia, com as mesmas técnicas de ataque aplicadas no Afeganistão e no Iraque.

Isto a nossa grande mídia não mostra, a mesma que publica nas primeiras páginas notícias sobre a polícia russa prendendo Aliexey Navalni em Moscou por realizar manifestações não autorizadas. Uma “afronta aos valores democráticos fundamentais”, define o Departamento de Estado dos EUA, que exige firmemente sua imediata soltura e a de outros que foram presos. Também Federica Mogherini, alta representante da política externa da União Europeia, condena o governo russo porque “impede o exercício das liberdades fundamentais de expressão, associação e reunião pacífica”.

Todos unidos, portanto, na nova campanha lançada contra a Rússia com os tons típicos da guerra fria, apoiando o novo paladino dos “valores democráticos".

Quem é Aleixey Navalny? Como se lê em seu perfil oficial, foi formado na universidade estadunidense de Yale como “fellow” (membro selecionado) do “Greenberg World Fellows Program”, um programa criado em 2002 para o qual são selecionados todo ano em escala mundial apenas 16 pessoas com características para se tornar “líderes globais”. Estes fazem parte de uma rede de “líderes empenhados globalmente para tornar o mundo um lugar melhor”, composta atualmente de 291 “fellows” de 87 países, todos em contato entre si e conectados com o centro estadunidense de Yale.

Navalny é ao mesmo tempo co-fundador do movimento “Alternativa democrática”, um dos beneficiários da National Endowment for Democracy (NED), poderosa “fundação privada sem fins lucrativos” estadunidense que com fundos fornecidos também pelo Congresso, financia, abertamente ou por debaixo do pano, milhares de organizações não governamentais em mais de 90 países para “fazer avançar a democracia”.

A NED, uma das sucursais da CIA para as operações clandestinas, foi e continua particularmente ativa na Ucrânia. Esta fundação apoiou (segundo os seus próprios escritos) “a Revolução de Maidan que abateu um governo corrupto que impedia a democracia”. O resultado foi a instalação em Kiev, com o golpe da Praça Maidan, de um governo ainda mais corrupto, cujo caráter democrático é representado pelos neonazistas que nele ocupam posições chave.

Na Rússia, onde são proibidas as atividades das “organizações não governamentais indesejáveis”, a NED, contudo, não cessou a sua campanha contra o governo, acusado de conduzir uma política externa agressiva para submeter à sua esfera de influência todos os Estados que outrora faziam parte da União Soviética. Acusação que serve de base à estratégia dos EUA e da OTAN contra a Rússia.

A técnica, já consolidada, é a mesma das “revoluções laranjas”: amplifica casos reais ou inventados de corrupção e outras causas de descontentamento para fomentar uma rebelião contra o governo, de modo a debilitar por dentro o Estado, enquanto externamente cresce sobre este a pressão militar, política e econômica.

É nesse quadro que se insere a atividade de Alexey Navalny, especializado em Yale como advogado defensor dos fracos contra os abusos dos poderosos.

24 de março de 2017

Banco Mundial declara-se acima da lei

por Pete Dolack

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

O Banco Mundial deixou durante décadas um rastro de miséria humana. A destruição do meio ambiente, os abusos maciços dos direitos humanos e o deslocamento em massa foram ignorados em nome do "desenvolvimento" que contribui trabalha para intensificar a desigualdade neoliberal. Em resposta às tentativas legais de responsabilizá-lo, o Banco Mundial se declarou acima da lei.

Pelo menos um tribunal de primeira instância dos EUA já concordou que o banco não pode ser tocado e, portanto, o mais recente processo movido contra ele, tentando obter alguma medida de justiça para os agricultores hondurenhos deslocados, enfrenta um grande desafio. Independentemente do resultado final dos processos legais, no entanto, milhões de pessoas em todo o mundo têm pago preços horríveis pela busca implacável de lucro.

Seguiu-se ao Banco Mundial um rastro de despejos, deslocamentos, violações graves de direitos humanos (incluindo estupro, homicídio e tortura), destruição generalizada de florestas, financiamento de projetos de combustíveis fósseis com gases de efeito estufa e destruição de fontes de água e alimentos.

A última tentativa de responsabilização é uma ação movida pelo tribunal federal norte-americano em Washington pela EarthRights International, uma organização não-governamental de direitos humanos e ambiental, acusando o Banco Mundial de fazer vista grossa aos abusos sistemáticos associados às plantações de óleo de palma em Honduras que financiou. O processo, Juana Doe v. Corporação Financeira Internacional, alega que

"Desde meados da década de 1990, a Corporação Financeira Internacional [uma divisão do Banco Mundial] investiu milhões de dólares em empresas hondurenhas de óleo de palma do falecido Miguel Facussé. Essas empresas - que hoje existem como Dinant - estiveram no centro de uma campanha de captura de terras longeva e sangrenta na região de Bajo Aguán, em Honduras. 
Por quase duas décadas, cooperativas de agricultores desafiaram as afirmações de Dinant sobre dezesseis plantações de óleo de palma... que realizou na região do Bajo Aguán. De acordo com informações e crenças, o ex-proprietário de Dinant, Miguel Facussé, tomou essa terra das cooperativas de agricultores por meio de fraude, coerção e violência real ou ameaçada. As cooperativas de agricultores têm se envolvido em ações judiciais, advocacia política e protestos pacíficos para desafiar o controle e uso de Dinant da terra. E Dinant respondeu a esses esforços com violência e agressão".

O próprio pessoal do Banco cita falhas

A EarthRights International alega que o Banco Mundial "forneceu repetidamente e consistentemente fundos importantes a Dinant, sabendo que Dinant estava realizando uma campanha de violência, terror e desapropriação contra os agricultores e que o seu dinheiro seria usado para ajudar a cometer graves abusos contra os direitos humanos". O arquivamento do processo cita "fontes do governo dos EUA" para alegar que mais de 100 agricultores foram mortos desde 2009.

O processo também diz que o próprio ombudsman da Corporação Financeira Internacional disse que a divisão do Banco Mundial "não conseguiu identificar ou deliberadamente ignorou o grave contexto social, político e de direitos humanos". Essas falhas surgiram "dos incentivos do pessoal 'ignorar, deixar de articular, ou mesmo ocultar potencial risco ambiental, social e de conflito' e 'para conseguir dinheiro para fora da porta'". Apesar deste relatório interno, a ação diz que o Banco Mundial continuou a fornecer financiamento e que o ombudsman não tem" autoridade para remediar abusos".

(Os representantes do Banco Mundial não responderam a um pedido de comentário, embora não diretamente uma parte no processo, Dinant descreve as alegações como "absurdo". Em uma declaração em seu site, a empresa disse: "Todas as alegações de que Dinant esta - ou sempre esteve - envolvido em violência sistemática contra os membros da comunidade são sem fundamento.")

A ação da EarthRights International enfrenta um desafio difícil devido a um processo anterior apresentado por ela em nome de agricultores indianos e pescadores que estão sendo expulsos pelo mesmo tribunal quando decidiu que o Banco Mundial está imune a um desafio legal. O banco forneceu US $ 450 milhões ara uma usina de energia que os autores alegaram degradar o meio ambiente e destruir meios de subsistência. O tribunal concordou com a afirmação do Banco Mundial de que tem imunidade ao abrigo da Lei de Imunidades de Organizações Internacionais. (A organização recorreu da decisão.)

A Lei de Imunidades das Organizações Internacionais prevê que "as organizações internacionais, suas propriedades e seus bens, onde quer que estejam localizados e quem quer que seja, gozarão da mesma imunidade de processo e de toda forma de processo judicial de que gozam os governos estrangeiros". Foi declarado o equivalente a um Estado soberano, e neste contexto é colocado acima de qualquer lei como se possuísse imunidade diplomática.

Esta lei é aplicada seletivamente; os processos judiciais contra Cuba não só são permitidos, mas são consistentemente vencidos pelos demandantes. Estes não são necessariamente os casos mais fortes, como os participantes na invasão da Baía dos Porcos e julgamentos vencedores e uma mulher que estava casada com um cubano que voltou a Cuba ganhando US $ 27 milhões porque o tribunal descobriu que seu casamento a fez uma "vítima de terrorismo"!

Mais de 3 milhões de pessoas deslocadas

Apesar de sua imunidade, um passaporte pode não ser necessário para entrar em um escritório do Banco Mundial, mas pode-se argumentar que a organização de empréstimo usa seu imenso poder sabiamente? Isso seria um algo muito difícil de argumentar.

Um relatório de 2015 do International Consortium of Investigative Journalists descobriu que 3,4 milhões de pessoas ficaram fisicamente ou economicamente deslocadas por projetos financiados pelo Banco Mundial. Terra foi tomada, as pessoas foram forçadas a partir de suas casas e seus meios de subsistência danificados. Alguns dos outros resultados do relatório, sobre os quais trabalham mais de 50 jornalistas de 21 países:

  • De 2009 a 2013, o Banco Mundial bombeou US $ 50 bilhões em projetos classificados como o maior risco para impactos sociais ou ambientais "irreversíveis ou sem precedentes" - mais do dobro do que os cinco anos anteriores.
  • O banco regularmente deixa de cumprir suas próprias políticas que visam proteger as pessoas prejudicadas por projetos que financia.
  • O Banco Mundial e seu braço de empréstimos Corporação Financeira Internacional financiaram governos e empresas acusados de violações de direitos humanos, tais como estupro, homicídio e tortura. Em alguns casos, eles continuaram a financiar esses mutuários após surgir a evidência de abusos.
  • As autoridades etíopes desviaram milhões de dólares de um projeto apoiado pelo Banco Mundial para financiar uma campanha violenta de despejos em massa, de acordo com ex-funcionários que realizaram o programa de reassentamento forçado.

Um dos artigos que é parte deste relatório investigativo disse que o banco rotineiramente ignora suas próprias regras que exigem planos detalhados de reassentamento e que os funcionários enfrentam forte pressão para aprovar grandes projetos de infra-estrutura. O relatório diz:

"O Banco Mundial muitas vezes negligencia a devida revisão dos projetos antes do tempo para garantir que as comunidades estão protegidas e muitas vezes não tem ideia do que acontece com as pessoas depois de serem removidas. Em muitos casos, continuou a fazer negócios com governos que abusaram de seus cidadãos, enviando um sinal de que os mutuários têm pouco a temer se eles violarem as regras do banco, de acordo com os atuais e antigos empregados do banco. 
'Muitas vezes não havia intenção dos governos de cumprir - e muitas vezes não havia intenção da parte da administração do banco de fazer cumprir", disse Navin Rai, ex-funcionário do Banco Mundial que supervisionou as proteções do banco para os povos indígenas de 2000 a 2012. "Foi assim que o jogo foi jogado." ... 
Funcionários atuais e antigos do banco dizem que o trabalho de reforçar esses padrões tem sido muitas vezes subcotado por pressões internas para ganhar a aprovação de projetos grandes e chamativos. Muitos gerentes de banco, os insiders dizem, definem o sucesso pelo número de ofertas de financiamento. Eles muitas vezes empurram de volta contra as exigências que acrescentam complicações e custos. "

Financiamento que facilita o aquecimento global

Incrivelmente, um dos resultados da Cúpula do Clima de Paris foi que os líderes dos países do G7 emitissem um comunicado de que iriam buscar fundos "de investidores privados, instituições de financiamento do desenvolvimento e bancos multilaterais de desenvolvimento". Esses líderes propõem que o Banco Mundial seja usado para combater o aquecimento global, apesar de ser um dos principais contribuidores para projetos que aumentam as emissões de gases de efeito estufa, incluindo o fornecimento de bilhões de dólares para financiar novas plantas de carvão em todo o mundo. O banco teve mesmo a hipocrisia monumental de emitir um relatório em 2012 que conclamava a retardar o aquecimento global ignorando seu próprio papel.

Espera-se que você, caro leitor, não caia da sua cadeira em choque, mas o papel do Banco Mundial em facilitar o aquecimento global só aumentou desde então.

Financiamento de projetos que facilitam o aquecimento global já estava em ascensão. Um estudo preparado pelo Institute for Policy Studies e outras quatro organizações descobriram que os empréstimos do Banco Mundial para carvão, petróleo e gás atingiram US $ 3 bilhões em 2008 - um aumento de seis vezes em relação a 2004. No mesmo ano, apenas US $ 476 milhões foram destinados a fontes de energia renováveis. Oil Change International (citando números um pouco mais baixos em dólares) estima que o financiamento do Banco Mundial para combustíveis fósseis dobrou de 2011 para 2015.

Projetos destrutivos de exploração madeireira no Sul Global, financiados pelo Banco Mundial, aceleraram nos anos 90. Apesar do relatório interno de janeiro de 2000 ter descoberto que suas práticas de empréstimo não haviam freado o desmatamento ou reduzido a pobreza, o Sudeste Asiático viu uma continuação da exploração madeireira ilegal e concessões de terras e mortes prematuras de pessoas locais.

Semelhante ao seu relatório sobre a contenção do aquecimento global que ignora seu próprio papel, o Banco Mundial descaradamente emitiu um relatório em 2012 pedindo medidas de aplicação da lei internacional contra a exploração madeireira ilegal. Talvez o que é ilegal sejam apenas aquelas operações não financiadas pelo banco?

Empréstimos para pagar dívidas criam mais dívidas, repetidamente

A ideologia desempenha um papel crítico aqui. Organizações de empréstimos internacionais, como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional, impõem consistentemente austeridade. Os empréstimos do FMI, destinados a empréstimos a governos para pagar dívidas ou estabilizar moedas, sempre vêm com os mesmos requisitos para privatizar ativos públicos (que podem ser vendidos muito abaixo do valor de mercado para corporações multinacionais à espera de atacar); cortar as redes de segurança social; reduzir drasticamente o âmbito dos serviços governamentais; eliminar as regulamentações; e abrir as economias para o capital multinacional, mesmo que isso signifique a destruição da indústria local e da agricultura. Isso resulta em mais dívidas, o que dá então às corporações multinacionais e ao FMI, que reforça os interesses corporativos, ainda mais alavanca para impor mais controle, incluindo a capacidade aumentada de enfraquecer as leis ambientais e trabalhistas.

O Banco Mundial estimula isso financiando projetos de infraestrutura maciça que tendem a beneficiar enormemente investidores internacionais profundamente encaçapados, mas ignoram os efeitos sobre a população local e o meio ambiente.

O Banco Mundial emprega um grande contingente de cientistas e técnicos, que lhe conferem um verniz de autoridade enquanto prossegue uma política de implacável pilhagem corporativa. Observando que o banco possui "uma enorme capacidade de pesquisa e geração de conhecimento", a organização ambiental e de justiça social ASEED Europe relata:

"O Banco Mundial é a instituição com um dos maiores orçamentos globais de pesquisa e não tem rival no campo da economia de desenvolvimento. ... Um número de pesquisadores e estudiosos questionaram a confiabilidade da pesquisa encomendada pelo Banco Mundial. Alice Amsdem, uma das principais estudiosos das economias do Leste Asiático, argumenta que, uma vez que o Banco Mundial fracassa continuamente em provar cientificamente suas conclusões, suas justificativas políticas são "essencialmente políticas e ideológicas". Stern, professor de economia de Oxford e ex-economista-chefe do Banco Mundial, diz que muitos dos números utilizados pelo Banco provêm de fontes altamente duvidosas ou foram construídos de forma que nos deixam céticos quanto à sua utilidade." (Citações omitidas)

A ideologia capitalista baseia-se no conceito de "mercados" serem tão eficientes que devem ser autorizados a trabalhar sem intervenção humana. Mas o que é um mercado? Sob o capitalismo, não é nada mais do que os interesses agregados dos maiores e mais poderosos e financiadores e industriais. Não é de admirar que os "mercados" "decidam" que a austeridade neoliberal deve ser implacavelmente imposta - são aqueles que estão no topo das grandes instituições corporativas que se beneficiam das decisões que o Banco Mundial e instituições similares fazem consistentemente.

Os mercados não se situam nas nuvens, além do controle humano, como algum mecanismo perfeito. Eles impõem a vontade daqueles com mais que não podem nunca ter o suficiente. Os mercados não são ordenados por algum poder superior - tudo da criação humana pode ser desfeito pelas mãos humanas. Nosso sistema mundial atual não é exceção.

Falência moral nas Nações Unidas

por Lawrence Davidson

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Falência moral

Tradução / Em 15 de março de 2017 a Comissão Econômica e Social para a Ásia ocidental (ESCWA na sigla em inglês) das Nações Unidas, publicou um relatório sobre o comportamento e as políticas de Israel relacionadas à Palestina. Usando como parâmetro Lei Internacional o relatório chega à “conclusão definitiva de que o Estado de Israel é culpado de praticar o Apartheid.” O termo “apartheid” usado no relatório não tem um sentido meramente “pejorativo”. Foi usado para descrever a realidade de um comportamento, escorado em fatos e evidências que tornam aceitável o significado legal do termo.

O tumulto que o relatório causou imediatamente nos Estados Unidos e em Israel foi tão grande que o Secretário Geral da ONU, Antônio Guterres, em um momento de decadência moral, ordenou que o relatório fosse retirado. A presidente da ESCWA, a diplomata jordaniana Rima Khalaf, decidiu que não poderia fazer isso e ficar em paz com sua consciência, e preferiu apresentar sua renúncia.

Reportagem

A cobertura inicial do jornal New York Times sobre o incidente não chamou atenção, embora a acurácia da reportagem que, se lida atentamente, poderia ao menos ter mostrado aos leitores do jornal as reais condições dos palestinos sob a dominação de Israel. Em vez disso, o New York Times chamou a atenção dos envolvidos na produção da reportagem. Por exemplo: o jornal informou a seguir que “o relatório provocou indignação de Israel e Estados Unidos”. A embaixadora dos EUA para a ONU, Nikki R. Haley, foi citada como tendo declarado que “quando alguém produz relatórios falsos e difamatórios em nome da ONU, deve mesmo renunciar.” Em nenhum lugar do relato, o NEW York Times informa que o que é falso são as declarações de Haley, não o relatório da ESCWA. O New York Times tentou consertar os danos com outra cobertura sem conseguir muito.

O New York Times deveria prestar atenção o fato de que, entre os autores do relatório, está o antigo investigador para direitos humanos Richard Falk. Ele serviu seis anos como relator especial das Nações Unidas nos territórios ocupados. De acordo com o New York Times sua presença deixou muitos israelenses “irritados” já que consideram que Falk é “anti semita”. Há algo de errado com um jornal que, mesmo pensando ser o parâmetro universal do jornalismo profissional, dá voz a essas calúnias sem avaliá-las apropriadamente. Richard Falk, que por sinal é judeu, tem um histórico acadêmico e profissional impecável obtido no serviço púbico. Sua reputação de honestidade e dedicação à causa dos direitos humanos exemplifica de forma admirável a prática dos valores judeus. Assim ele tem razão ao afirmar que “fui vilipendiado no esforço feito para desacreditar o relatório” – um estudo que “tentou fazer as coisas da melhor forma possível com as evidência encontradas e com a análise legal em nível profissional”.

O comportamento de Israel

Uma consideração objetiva do comportamento de Israel torna difícil escapar à brutal realidade de suas práticas oficialmente toleradas.

Em 17 de março de 2017, ao mesmo tempo em que se forçava a retirada do relatório da ESCWA, o Departamento de Estado dos Estados Unidos divulgou um relatório sobre “as graves violações contra crianças palestinas” que vivem sob ocupação israelense. Trata-se do “relatório do país sobre condutas relacionadas aos direitos humanos” que é divulgado anualmente pelo Departamento. Entre os problemas citados estão condutas de Isarel como detenção à revelia da lei, confissões forçadas e uso excessivo da força, como a tortura e assassinato.

Normalmente, todo ano o Departamento de Estado torna público o relatório. Este ano, Rex Tillerson, Secretário de Estado de Trump, ainda não deu as caras. Claro que Trump também não publicou nenhum de seus característicos tweets sobre a questão do comportamento bárbaro de Israel.

No início do ano, em 08 de fevereiro, foi relatado que “Israel proibiu a entrada de gás anestésico na Faixa de Gaza. Neste momento já se acumulam em 200 os pacientes em Gaza que necessitam de cuidados médicos impossibilitados pela proibição israelense.

Uma semana mais tarde, em 14 de fevereiro de 2017, relatou-se que oficiais israelenses estavam chantageando pacientes palestinos que pedem permissão para entrar em Israel para tratamento médico urgente. Para um jovem de 17 anos de idade, Gazan, que sofre de doença cardíaca congênita e necessitava do implante de uma válvula no coração, foi dito explicitamente que para que ele deixasse Gaza e tivesse sua operação, deveria forçosamente que cooperar com as forças de segurança e fazer trabalho de espionagem para Israel. Ele se recusou e morreu a seguir. Ocorre que essa tática não é nova e sempre foi usada pelos israelenses.

Chantagear tudo em volta

A falência moral das Nações Unidas, desnudada pela chantagem que obrigou à retirada do relatório da ESCWA, é resultado da negação da realidade pelo Secretário Geral Guterres – a realidade de que Israel pratica sim, o Apartheid.

Por outro lado, a aceitação canina de Guterres das ordens americanas e israelenses pode vir da dependência financeira que as Nações Unidas têm em relação a Washington ao lado da, aparente ameaça da falência financeira da ONU. Isto, por sua vez, é uma forma de chantagem (financeira). Ironicamente, a dependência financeira da ONU em relação aos Estados Unidos imita o que o lobby sionista faz nos corredores do Congresso dos EUA.

Claro que a ONU, para enfrentar os políticos dos EUA, necessitariam de uma fonte alternativa de renda, da mesma forma que os políticos do Congresso dos EUA. Minha esposa Janet certa vez sugeriu que a ONU deveria ter o direito de explorar financeiramente todos os seus recursos submarinos. Não se trata de uma má ideia. Da mesma forma, os políticos (norte)americanos deveriam receber para o financiamento de campanha apenas os recursos provenientes do governo e não ser forçados a se colocar à venda como fazem.

No entanto essas mudanças não estão à vista. A realidade como a percebemos agora na Palestina vêm do fato de que os líderes políticos (norte)americanos e israelenses dizem que não se podem dar ao luxo de mudar seus pontos de vista corrompidos até a medula.

23 de março de 2017

O grande salto da China para a frente

James Petras

The Official James Petras Website

Introdução

Tradução / De seus lânguidos pântanos, editoriais de periódicos acadêmicos e financeiros estadunidenses, os meios de comunicação de massa e os "especialistas da Ásia" contemporâneos, os políticos ocidentais progressistas e conservadores criam em uníssono o colapso ambiental e iminente da China.

Invariavelmente dizem que (1) a economia da China está em declínio; (2) a dívida é monstruosa; há uma bolha imobiliária chinesa pronta a explodir; (3) o país está tomado pela corrupção e envenenado pela poluição; e (4) trabalhadores chineses estão organizando greves paralisantes e protestos em meio à crescente repressão - o resultado da exploração e da acentuada desigualdade de classe. As rãs financeiras coaxam que a China seria iminente ameaça militar à segurança dos EUA e de seus parceiros asiáticos. Outras rãs saltam tentando pegar as moscas no céu – e clamam que os chineses hoje ameaçam todo o universo!

Os especialistas em "fim da China", sempre com antolhos, veem realidade sistematicamente distorcida, inventam fábulas para se consolar e pintam cenários os quais, na verdade, são reflexo das próprias sociedades onde vivem.

A cada informação sem fundamento que é refutada, as rãs alteram a cantoria: quando predições de colapso iminente não se confirmam, acrescentam um ano, ou até uma década, ao cronômetro da bola de cristal. Quando seus alertas contra tendências negativas no campo social, econômico e estrutural são desmentidos por evidências de tendências positivas, eles recalibram o alcance e a profundidade da crise, citando revelações anedóticas que só iniciados conheceriam (recolhidas de conversas com o taxista, do aeroporto ao hotel).

Com as previsões de fracasso inapelável já velhas e ainda não concretizadas, os especialistas questionam as estatísticas oficiais da China.

O pior de tudo é que os especialistas e acadêmicos ocidentais sobre a Ásia tentam "inverter papéis": enquanto as bases e os navios dos EUA cercam cada vez mais a China, os chineses se tornam os agressores e os belicosos imperialistas dos EUA reclamam da vítima.

Operando contra o pântano dessa desinformação construída, esse ensaio visa a delinear balanço alternativo, mais objetivo, da atual realidade política e socioeconômica da China.

China: ficção e fato

Repetidas vezes se lê sobre a economia de "baixos salários" e exploração brutal de trabalhadores escravizados, por oligarcas bilionários e funcionários públicos corruptos. Na China, o salário médio no setor de manufatura triplicou, nessa década. A força de trabalho na China recebe salários superiores aos dos países latino-americanos, com uma exceção muito duvidosa. Os salários chineses aproximam-se agora dos países da União Europeia. No mesmo período, os regimes neoliberais sobre pressão da União Europeia e dos EUA reduziram os salários à metade, como na Grécia; e muito significativamente no Brasil, México e Portugal. Os salários na China, ultrapassam hoje os da Argentina, Colômbia e Tailândia. Embora não seja alto, pelos padrões de EUA e UE, os salários na China em 2015 mantiveram-se em $3,60/hora – melhorando os padrões de vida de 1,4 bilhão de trabalhadores. Durante o período em que a China triplicou o salário de seus operários, o salários dos indianos permaneceu estagnado em $0,70/hora; e os salários sul-africanos caíram, de $4,30/hora, para $3,60/hora.

Esse aumento espetacular nos salários do trabalhador chinês deve-se ao crescimento explosivo da produtividade do país, resultado de aprimoramento sustentado na saúde, educação e treinamento técnico, bem como de pressão sustentada dos trabalhadores organizados e da luta de classes. A bem-sucedida campanha conduzida pelo presidente Xi Jinping para rapidamente demitir e prender centenas de milhares de funcionários corruptos e exploradores e de comandantes de fábricas, fez aumentar o poder do trabalhador chinês. Rapidamente os trabalhadores chineses vão superando a diferença de salário mínimo em relação aos EUA. Ao ritmo atual de crescimento, essa diferença, que diminuiu, de 1/10 para 1/3 do salário mínimo dos EUA em dez anos, logo desaparecerá.

A China deixou de ser mera economia de trabalho intensivo, não qualificado, mal remunerado, simples linha de montagem de produtos para exportação. Hoje há 20 mil escolas técnicas, das quais saem milhões de trabalhadores qualificados. Fábricas de produtos de alta tecnologia estão incorporando a robótica em escala massiva, para compensar a carência de trabalhadores qualificados. O setor de serviços cresce, com vistas a atender à demanda do consumo interno. Confrontada com a crescente hostilidade política e militar dos EUA, a China já diversificou seu mercado para exportação, redirecionando-o, dos EUA, para UE, Ásia, América Latina e África.

Apesar desses impressionantes avanços objetivos, o coro de "agourentos mal intencionados" não se cansa de repetir sempre as mesmas previsões anuais, de ininterrupto declínio e decadência da economia chinesa. Nada altera esses 'diagnósticos': nem o crescimento de 6,7% no PIB da China em 2016 – agora mudaram, da previsão de 'encolhimento', para a constatação de crescimento real... como prova de colapso iminente! Mas, sem nunca se deixar convencer pela realidade, o coro de mal intencionados de Wall Street festeja loucamente quando os EUA anunciam crescimento (duvidoso!), de 1% para 1,5% do PIB!

A China reconheceu seus sérios problemas ambientais, e é líder no mundo em investimentos (2% do PIB) para reduzir a emissão de gases de efeito estufa – fechando fábricas e minas. São esforços que excedem em muito o que se vê nos EUA e na União Europeia.

A China, como o resto da Ásia, e como os EUA, precisa aumentar muito os investimentos na reconstrução da infraestrutura, ou degradada ou não existente. O governo chinês é o único, em todo o mundo que atende e até supera as necessidades atuais de transporte da população – gastando $800 bilhões por ano em ferrovias para trens de alta velocidade, portos marítimos, aeroportos, metrôs e pontes.

Enquanto EUA rejeitam tratados de comércio e investimentos multinacionais com 11 países do Pacífico, a China promoveu e financiou tratados comerciais e de investimento com mais de 50 países do Pacífico Asiático (exceto Japão e os EUA), além de países africanos e europeus.

A liderança chinesa sob o presidente Xi Jinping lançou campanha efetiva, em larga escala, contra a corrupção, que levou à prisão ou demissão de mais de 200 mil empresários e funcionários públicos, incluídos bilionários e alguns dos mais altos membros do Politburo e do Comitê Central do PCC. Como efeito dessa campanha nacional as compras de artigos de luxo declinaram consideravelmente. A prática de usar fundos públicos em elaborados jantares de vários pratos, e o ritual de trocar presentes está em declínio.

Verdade é que, apesar das campanhas políticas para "drenar o pântano" e do sucesso de plataformas populistas, nada nem remotamente assemelhado ao que se vê na China, como campanha anticorrupção, acontece nos EUA ou no Reino Unido, apesar de incontáveis matérias nos jornais e televisões, envolvendo centenas de grandes bancos de investimento no mundo anglo-norte-americano. A campanha anticorrupção que a China conduziu pode também ter contribuído para reduzir as desigualdades. Com certeza obteve amplo apoio dos operários e camponeses chineses.

Jornalistas e acadêmicos, que gostam de ludibriar os generais anglo-americanos e da OTAN, alertam que o programa militar da China representa uma ameaça direta à segurança dos Estados Unidos, da Ásia e do resto do mundo.

Essas rãs padecem de amnésia histórica. Já ninguém lembra como o pós-II Guerra Mundial invadiu e destruiu Coreia e Indochina (Vietnã, Laos e Cambodia) matando mais de nove milhões de habitantes, civis e soldados e guerrilheiros que se defendiam. Os EUA invadiram, colonizaram e neocolonizaram as Filipinas na virada do século 20, matando mais de um milhão de habitantes. E continuaram a construir e expandir sua rede de bases militares para cercar a China. Recentemente transferiram poderosos mísseis THADD armados com ogivas nucleares para a fronteira da Coreia do Norte, de onde podem atacar cidades da China e até da Rússia. Os EUA são os maiores exportadores de armas do mundo, ultrapassando a produção e venda, somadas, dos cinco outros maiores mercadores de morte.

Em contraste, a China não atacou unilateralmente, invadiu ou ocupou qualquer país, já há séculos. Não instalou mísseis nucleares junto à costa ou às fronteiras dos EUA. Não tem nenhuma, nem uma, base militar no exterior. As próprias bases militares, no Mar do Sul da China, lá estão para proteger suas rotas marítimas vitais, contra piratas e contra a marinha militar armada dos EUA, cada dia mais provocadora. O orçamento militar chinês, que aumentará apenas 7% em 2017, mesmo assim é inferior a ¼ do orçamento militar dos EUA.

Por seu lado, os EUA promovem as mais agressivas alianças militares, apontam mísseis guiados por satélite e radar contra China, Irã e Rússia, e ameaça destruir a Coreia do Norte. O programa militar chinês sempre foi e continua a ser defensivo. A ampliação é efeito da incansável provocação pelos EUA. O interesse da China pelo império norte-americano é função de uma estratégia global de negócios e mercado; Washington só tem estratégia militar imperialista concebida e executada para impor pela força a dominação norte-americana global.

Conclusão

As rãs da intelligentsia ocidental coaxam sem parar, alto e há muito tempo. Pavoneiam-se e fazem pose de caçadores infalíveis de todas as moscas universais – mas nada produzem de aproveitável, em termos de análise objetiva.

A China enfrenta problemas sociais, econômicos e estruturais sérios, mas cultiva a boa prática de sempre enfrentá-los sistematicamente. Os chineses estão decididos a aprimorar sua sociedade, sua economia e seu sistema político, seguindo seus próprios termos. Procuram resolver problemas imensamente desafiadores, e recusam-se a sacrificar a própria soberania nacional e o bem-estar do próprio povo.

No confronto contra a China como competidor mundial capitalista, a política oficial dos EUA é cercar a China com bases militares e ameaçar quebrar a economia chinesa. Como parte dessa estratégia, a mídia-empresa ocidental e os ditos 'especialistas' amplificam os problemas da China e minimizam os próprios problemas.

Diferente da China, os EUA já caíram para menos de 2% de crescimento anual. Os salários estagnaram por décadas; salários reais e padrões de vida decaem sem parar. Os custos de educação e saúde explodem rumo à estratosfera, e a qualidade desses serviços vitalmente importantes declinam dramaticamente. Os custos crescem, o desemprego cresce e a taxa de suicídio entre os trabalhadores já começou a aumentar. É absolutamente vital que o Ocidente reconheça os avanços impressionantes da China para aprender, pedir emprestado e promover um padrão semelhante de crescimento positivo e equidade. A cooperação entre a China e os EUA é essencial para promover a paz e a justiça na Ásia..

Infelizmente, o ex-presidente Obama e o atual presidente Trump escolheram, ambos, a via da confrontação militar e da agressão. Os dois mandatos de Obama marcaram o recorde absoluto de guerras fracassadas, crises financeiras, prisões abarrotadas e padrões de vida doméstica das famílias sempre em declínio. Fato é que, por mais barulho que façam, ainda que coaxem orquestradamente e em uníssono, as rãs ocidentais não mudarão o mundo real.

22 de março de 2017

Rússiagate e o Partido Democrata são estúpidos

Paul Street

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / O freakshow tingido de laranja que é Donald Trump deveria ser removido da casa branca e enviado para algum calabouço imundo, infestado por ratos, com uma sentença de Vida sem Twitter. O mesmo vale para o restante de sua administração racista, ecocida, arquiplutocrática e chocantemente fascista cristã. Eles devem ser forçados a trabalhar até o pôr-do-sol em um campo de trabalho de montagem de painéis solares no deserto do Arizona.

Mas Trump e sua equipe devem ser defenestrados por quais crimes e para qual alto propósito? Para pôr no poder outro subdemocrata tipo Bill Clinton, Hillary Clinton ou Barack Obama? Deus nos livre! Claro que não! Chegamos a esse horrendo momento Trump por causa da ideologia neoliberal do 'livre mercado', que os Democratas sempre exatamente igual ao que dizem os Democratas, ao longo de toda a última geração e mais. O poder econômico há muito tempo converteu o Partido Democrata em poodle sem serventia democrática das grandes instituições financeiras, grandes multinacionais e do vasto império militar que são os EUA. Tudo isso deprime e desmobiliza grande parte dos pobres e da cidadania trabalhadora/classe trabalhadora, convertendo milhões em não eleitores, ou em eleitores do Partido Republicano mais direitista, branco-nacionalista que a história jamais vira.

Ao mesmo tempo, a doutrina neoliberal reinante entre os democratas e republicanos - "duas asas da mesma ave de rapina" (Upton Sinclair, 1904) - despojou o governo americano de sua capacidade e força de vontade para desempenhar funções sociais e democráticas positivas . O neoliberalismo mata o que o sociólogo francês Pierre Bourdieu chamou de "a mão esquerda do Estado" - as partes do setor público que atendem às necessidades sociais e democráticas da maioria não-rica. Ao mesmo tempo, alimenta a "mão direita" regressiva e repressiva do Estado, as partes do governo que distribuem riqueza e poder ao mesmo tempo que punem as classes trabalhadoras e baixas e todos os que resistem às ditaduras não-eletivas e inter-relacionadas do dinheiro e do império.

É um processo mortal em vários níveis. Quanto menos a classe governante confia na luva de veludo do bem-estar estatista de cooptação para manter a hierarquia, mais ela confia na mão de ferro e repressão bruta da polícia do Estado. Com governo-Estado famigerado, quando se trata de só atender sobretudo às necessidades dos poucos mais ricos, o caminho está escancarado para que qualquer demagogo se aproprie dos ressentimentos populares e entre em cena, a clamar que ele, e só ele, pode corrigir todos os problemas do país e torná-lo "grande outra vez". Quando as instituições burguesas e as elites liberais "normais" são vistas (muitas vezes muito acertadamente) como igualmente patéticas e nefandas, o vácuo aspira para dentro da cena política qualquer manipulador populista carismático. Ali, o nefando encontra seu nicho para prometer qualquer restauração de perdidas grandezas nacionais.

Foi o gambito de Hitler na Alemanha nos anos 1930. É uma das grandes cartas-trunfos com que contou Herr Donald ano passado.

Agora, Trump e os 34 governadores Republicanos nos EUA puseram-se a aplicar os sempre crescentes poderes do estado-polícia contra uma nação cuja população perdeu a fé em praticamente todas as grandes instituições dos EUA, exceto duas: o exército e a polícia. É um Estado policial militarizado que os democratas ajudaram a criar.

Nesse ponto, sempre acontece de um "Democrata progressista" entrar em cena e esclarecer que não precisa ser sempre assim, porque o Partido Democrata pode ser orientado para uma direção eleitoralmente vencedora social-democrática de esquerda. Ouço os democratas a repetir isso desde que nasci para a vida política consciente. É tolice. É fantasia ingênua e desesperadamente frustrante.

Os progressistas com inclinação à esquerda são há muito tempo objeto do mais desdenhoso desprezo que lhes dedicam as elites do Partido Democrata. Escrevo sobre isso há anos – sobre Democratas que compreendem muito bem que seu primeiro serviço, antes e acima de todos os demais, é impedir que surja oposição de esquerda realmente séria e ela chegue a posições no Estado das quais possa controlar o poder da classe governante nos EUA. O principal dever do Partido da Oposição Não Autêntica [Inauthentic Opposition Party, IOP] (como o falecido cientista social Sheldon Wolin chamava os Democratas) é manter a verdadeira resistência popular, bem distante dos Parlamentos.

Esse desprezo ativado contra a esquerda mantém-se intacto até hoje, e absolutamente não arrefeceu ante o colapso eleitoral dos Democratas neoliberais. Até o doce progressismo levemente social-democrata do "socialista" pró-guerra Bernie Sanders tem de ser marginalizado a qualquer custo, no que diga respeito às cúpulas dos Democratas. Mas... e se o tipo de progressismo de Sanders for uma via para fazer reviver e novamente levar à vitória um partido que se tornou ainda mais impopular que os universalmente execrados Republicanos e Trump? Como Trevor Trimm do Guardian escreveu recentemente:

"Se se consideram os números, Bernie Sanders é o político mais popular nos EUA – com ampla vantagem. Mesmo assim, bizarramente, o Partido Democrata – expulso do poder em todo o país e cada dia mais irrelevante – ainda se recusa a acolhê-lo e a acolher sua mensagem ... a ala establishment do partido continua a resistir contra ele praticamente todos os dias, e não largam mão da ideia de que não precisam mudar de atitude para recuperar o apoio de vastas porções do eleitorado em todo o país... Essa semana, Politico publicou matéria sobre reação de Democratas ante o fato de que apoiadores de Sanders podem fazer gorar todos os esforços deles para retomar o governo nos estados do sul; aqueles Democratas sugeriam insistentemente que seus candidatos abraçassem as políticas populistas de Sanders – dado que obviamente Sanders dá-se muito bem também em alguns daqueles estados. ... A ala establishment do partido agressivamente indicou candidato próprio para concorrer contra Keith Ellison, indicado por Sanders para dirigir o Comitê Nacional Democrata, aparentemente com o objetivo básico de manter o partido bem longe da influência de Sanders. ... Recusaram-se firmemente a assumir a causa das grandes corporações nas aparições na esfera pública e aprovarão para esse ano uma regra da era Obama que excluiu dinheiro dos lobbys do financiamento do Comitê Nacional Democrata, rescindida ano passado. E apesar da grande popularidade que o governo alcançou com garantir atenção à saúde para todos, ainda não fizeram qualquer movimento a favor de um plano de Medicare-para-todos, que Sanders cobra há muito tempo, como reação contra o movimento dos Republicanos para desmantelar o Obamacare".

Mas o que há de "bizarro" nisso? A recusa dos Democratas a tomar a trilha de Sanders só parece doida e estúpida se você pensa que o principal trabalho do Partido Democrata fosse vencer eleições e promover avanços sociais e melhor democracia... Nada mais idiota. A tarefa mais urgente Partido da Oposição Não Autêntica, é servir ao poder financeiro-corporativo, o que significa manter longe do poder até os social-democratas de salão como Sanders, o defensor do Jato F35 Fighter. Que ninguém se engane: a liderança do Partido Democrata sempre preferiu que "a belicista neoliberal e mentirosa" Hillary Clinton derrotasse Sanders (mesmo que pelas vias mais imundas) e depois fosse derrotada por Trump, a qualquer cenário no qual Sanders derrotasse Hillary e depois atropelasse Trump (como todas as pesquisas importantes já indicavam que aconteceria)

Claro que os Democratas reinantes sabem que eles e o sistema que representam têm interesse em que o partido deles conserve alguma importância eleitoral e se distancie do patético status que tem hoje. Sem querer abraçar a "revolução" excessivamente esquerdista (para eles e para o big money que lhes dá suporte) de Sanders, os Democratas reinantes supõem que possam desestabilizar a besta de cabelos cor-de-laranja com, simplesmente, atá-lo ao Kremlin, com acusações enlouquecidas, baseadas em matérias vagas de jornalismo, vindas das mais nebulosas fontes "na inteligência". E sonham que essas duvidosas missivas anti-Trump, vindas da inteligência e da mídia-empresa liberal, possam "servir de combustível... para um frenesi russo"... o qual, nas palavras de Masha Gessen, "crie uma nuvem de suspeitas suficientemente escura em torno de Trump, para que o Congresso consiga mobilizar vontade e provas para derrubá-lo por impeachment".

Mas é provável que o verdadeiro truque de cartas russas seja aplicado, não contra Trump, mas contra os progressistas e liberais. Não há chance de as acusações russas destronarem Trumpenstein. Como Gessen escreveu recentemente na New York Review of Books, "Ele sacrificará mais gente sua, como já sacrificou Flynn, se novos vazamentos o desacreditarem. As investigações devem arrastar-se por meses, deslocando outras questões, muito mais urgentes. No fim, os Republicanos do Congresso concluirão que seus eleitores não dão tanta importância aos laços russos de Trump, a ponto de aceitarem que o presidente Republicano seja derrubado por impeachment".

Ainda que os Democratas venham a conseguir derrubar Trump com o estratagema russo, só o farão se pagarem pesado preço em decência e dignidade democráticas. E terão metido o pé ainda mais fundo nos perigosos pântanos de notícias falsas e "fatos alternativos".

Mas o maior preço democrático do Rússiagate já está sendo pago. A Loucura da Rússia enfoca a atenção pública em algo que Trump não é, uma ferramenta do Kremlin, e não o que ele realmente é: um inimigo arqui-plutocrático pré-fascista, racista e sexista e super-militarista dos pobres e da classe trabalhadora. Enquanto Gessen reflete sobre o que ela chama de "armadilha da conspiração da Rússia":

"... as acusações não derrubarão Trump. Enquanto a Rússia continuam a dominar as páginas dos jornais, Trump continuará a fazer guerra aos imigrantes, cortar orçamento de tudo que não sejam os militares, construindo seu gabinete de deploráveis... para levar a efeito o que Steve Bannon chama de 'desconstrução do estado administrativo'. ... no seu primeiro discurso como procurador-geral [, Jeff Sessions] prometeu cortar a aplicação dos direitos civis e ele já abandonou um caso do Departamento de Justiça contra uma lei discriminatória de identificação de eleitores do Texas.. Mas só a mentira dele sobre 'Rússia' chegou e plantou-se nas grandes manchetes. ... Imaginem se o mesmo tipo de atenção pudesse ser treinada e mantida para outras questões – como muçulmanos proibidos de viajar. ... Trump está nada menos que destruindo as instituições e princípios norte-americanos ao converter a presidência em máquina para gerar lucros para sua família; envenenando a cultura política com retórica de ódio, mentirosa, de subliteratura, minando a esfera pública com ataques à imprensa e aos manifestantes e iniciando o real serviço de desmantelar cada uma e todas as partes do governo federal que exista para qualquer outra finalidade que não seja fazer guerra.O Rússiagate está ajudando-o - tanto distraindo de questões reais, documentáveis e documentadas, e promovendo uma teoria da conspiração xenófoba a fim de remover um teórico xenófobo da conspiração do ofício."

Gessen dá a Trump muito crédito prejudicial.. O que ela chama de "destruição dos princípios e das instituições democráticas norte-americanas" nunca passou de projeto de uma classe dominante distribuída por dois Partidos controlados, que está em andamento desde, no mínimo, os anos 1970. (Ao mesmo tempo, Gessen tem de saber que a Casa Branca de Trump não quer desmantelar outras funções de Estado que interessam à direita, além dos militares. Um exemplo, aqui, dentre muitos: a Casa Branca de Trump apoiará a capacidade do Departamento de Segurança Nacional para monitorar, invadir, desmontar e reprimir por todas as vias possíveis os ativistas ambientalistas e lutadores a favor de justiça social.)

Apesar disso, o argumento de Masha Gessen é muito bem sacado. O esquema da conspiração russa é armadilha perigosa para políticos de esquerda. Não vai derrubar Trump, mas distrai as pessoas dos crimes reais e mais substantivos e ultrajes da administração Trump.

Então, é uma estratégia Democrática maluca, certo? Não tão depressa. Não esqueçamos que as questões que "Rússiagate" marginaliza, incluindo racismo, classismo, ecocídio e o esvaziamento da esfera pública, são todas áreas problemáticas para os Democratas corporativos e imperiais. Os tediosos Democratas encharcados de dólares foram sempre profundamente cúmplices dos Republicanos no serviço de criar uma deriva liberal de direita na política dos EUA nos últimos 40 anos. Não se pode esquecer nem por um segundo que a primeira e principal função dessa gente (sempre a serviço de ditadores não eleitos em todos os cantos do mundo e de ditaduras nas quais se casam muito dinheiro e o poder do Império Anglo-sionista) é manter sempre marginalizadas as forças e os sentimentos da esquerda. O Rússiagate fazem perfeito sentido para os Democratas do establishment nos mais variados níveis, inclusive no modo como os absolve por terem detonado as eleições de 2016 (porque "Rússia interferiu e Comey é culpado"), envenenadas por campanha eleitoral horrível, vergonhosa, na qual o establishment só ofereceu candidatos idênticos entre eles, todos com a mesma suja cara neoliberal.

Mas há outra questão macabra a ser abordada aqui. E se os democratas tivessem tomado um caminho progressista e social-democrata "vencedor" nas eleições de 2018 e 2020? É, pelo menos, questionável que os republicanos da Era Trump consentissem a remoção através de eleição. Qual foi a alegação absurda do governo de Bannon-TrumPence de ter vencido o voto popular de 2016 (em até 5 milhões de cédulas!), but an advance impeachment of voter repudiations they might face in coming elections? As íngremes barreiras eleitorais ao nível estadual, provocadas pela proliferação republicana e pela supressão de eleitores (legais e ilegais) são bastante ruins. Eles serão complementados, se necessário, por falsas acusações de fraude eleitoral e a perspectiva muito real de violência (legal e extra-legal). Os fascistas nacionalistas brancos não consentem a ser removidos do cargo por simples eleitores. Pode parecer uma coisa chocante a se dizer, mas eu não vejo o lote atual de republicanos no poder aceitar resultados de eleições que eles não gostam. Não é como eles operam. Não é sobre o que eles estão. Eles só podem ser derrubados através de uma grande revolta popular de baixo e além das extravagâncias eleitorais quadrienais que funcionaram há muito tempo como um método potente para a marginalização da cidadania como eleitorado.

Rússiagate e os democratas são para estúpidos liberais e progressivos. Então, talvez, agora as eleições também sejam.

20 de março de 2017

Sicília, base de ataque dos EUA/OTAN

Manlio Dinucci


Tradução / Realiza-se desde 12 de março, até o dia 24, em frente à costa mediterrânea da Sicília, o exercício naval da OTAN denominado Dynamic Manta em que participam as marinhas militares dos Estados Unidos, Canadá, Itália, França, Espanha, Grécia e Turquia. A ponta de lança das 16 unidades navais mobilizadas é o submarino nuclear estadunidense de ataque rápido Califórnia SSN-781. Armado de torpedos e mísseis de cruzeiro para ataque a alvos terrestres, faz parte da Task Force 69, responsável pelas operações de guerra dos EUA na Europa e África. 

Além do submarino de ataque, a U.S. Navy participa no exercício com o contratorpedeiro lança-mísseis Porter e aviões de patrulhamento marítimo, com a estação do Sistema de Comunicação por Satélite (MUOS, na sigla em inglês) de Niscemi e a base aeronaval de Sigonella. A Dynamic Manta 2017 se desenvolve na área do Comando da força conjunta aliada (cujo quartel general fica em Lago Pátria, Nápoles), sob as ordens da almirante estadunidense Michelle Howard, que comanda ao mesmo tempo as forças navais dos EUA na Europa e na África. A Itália, além de participar no exercício com unidades próprias, desenvolve aquilo que o contra-almirante De Felice, comandante do Comando Marítimo da Sicília, define como “um papel fundamental”, porque fornece todo o suporte logístico. Particularmente importante é Augusta, “ponto estratégico para reabastecimento de combustíveis, munições e suporte para as unidades navais que provenham de países de ultramar”. 

É relevante também o porto de Catânia, disponível para hospedar nove navios de guerra. Simultaneamente, estão em curso desde fevereiro os exercícios com fogo das forças especiais estadunidenses no polígono de Pachino. Esta área foi oficialmente concedida para “uso exclusivo dos Estados Unidos”, com base num acordo assinado com o Pentágono em abril de 2006, durante o terceiro governo de Berlusconi.

Nesse mesmo acordo foram concedidas aos Estados Unidos para uso exclusivo uma área no interior da base de Sigonella, para estacionamento aeronaval, e uma em Niscemi, para o centro de transmissões de rádio e a estação terrestre do MUOS. Nessas áreas é especificado com todas as letras que “o Comandante dos EUA exerce pleno comando militar sobre o pessoal, equipamentos e operações estadunidenses”, com a única obrigação de “notificar antecipadamente ao Comandante italiano todas as atividades estadunidenses significativas”. Quanto às despesas da estação aeronaval estadunidense, com base no acordo só é financiada exclusivamente pelos EUA a NAS I, área administrativa e recreativa, enquanto a NAS II, das unidades operativas e portanto a mais custosa, é financiada pela Otan, ou seja, também pela Itália.

A situação da Sicília, emblemática da situação nacional, deveria ser um dos temas centrais da mobilização de 25 março, o dia seguinte à conclusão da Dynamic Manta. Não se pode pensar em libertar-se dos poderes representados pela União Europeia (UE) sem libertar-se do domínio e da influência que os EUA exercem sobre a Europa diretamente e através da Otan. Hoje, 22 dos 28 países da UE, com mais de 90% da população da União, fazem parte da Otan, reconhecida pela UE como “fundamento da defesa coletiva”.

A Otan, sob comando dos EUA, está preparando novas guerras, depois da Iugoslávia em 1999, do Afeganistão em 2001, Iraque, 2003, Líbia, 2011, Síria, desde 2011, Ucrânia, desde 2014. É o que confirma a Dynamic Manta, que seguramente testou também a capacidade de ataque nuclear no exercício de guerra submarina. Notícia que ficou submersa na grande “informação”.

18 de março de 2017

Acordos de paz ou rendição política? América Latina, Oriente Médio e Ucrânia

James Petras

The Official James Petras Website

Introdução

Tradução / Há mais de trinta anos, um experiente líder camponês colombiano disse-me: "Sempre que leio a palavra 'acordos de paz' ouço o governo afiar suas facas".

Ultimamente falou-se muito de acordos de paz em todo o mundo. Em quase todas as regiões ou países que sofrem com uma guerra ou invasão, falou-se da possibilidade de negociar acordos de paz. Em muitos casos, estes chegaram a assinar-se e ainda não se conseguiu acabar com os assassínios e com o caos provocado pela parte beligerante apoiada pelos Estados Unidos.

Vamos analisar novamente algumas destas negociações do passado e do presente para compreender as dinâmicas dos processos de paz e os subsequentes resultados.

O processo de paz

Atualmente estão em andamento diversas negociações supostamente desenhadas para alcançar acordos de paz. Entre elas podemos citar: as discussões na Ucrânia entre a Junta, sediada em Kiev e apoiada pela OTAN e os EUA, e a direção da região de Donbass, situada no leste do país e contrária ao golpe e à OTAN; na Síria, entre a coligação Saudita-EUA-OTAN-terroristas armados e o governo sírio e os seus aliados russos, iranianos e do Hezbollah; na Palestina, entre o regime colonial israelense apoiado pelos EUA e as forças que lutam pela independência palestina na Cisjordânia e na Faixa de Gaza; e na Colômbia, entre o regime do presidente Santos apoiado pelos EUA e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC).

Há ainda outras negociações de paz em andamento que não receberam atenção pública.

Resultados de acordos de paz do passado e do presente

Ao longo do último quarto de século, vários acordos de paz foram assinadas - o que levou à rendição virtual de protagonistas anti-imperialistas armados e movimentos populares de massa.

Na América Central, os acordos assinados em Salvador e na Guatemala levaram ao desarme unilateral do movimento de resistência, à consolidação do controlo da economia pela oligarquia e o crescimento e proliferação desmedida de bandos de narcotráfico e esquadrões de morte com os auspícios governamentais. Em consequência disso verificou-se uma escalada do terror interno. Os líderes da resistência conseguiram votos, entraram nos parlamentos como políticos e, no caso de Salvador, ocuparam altos cargos. As desigualdades mantiveram-se ou até se agravaram, talo como os assassínios, que ultrapassaram as cifras anteriores ao período prévio aos acordos de paz. Um grande número de emigrantes, frequentemente refugiados que fugiam da violência dos bandos armados, entrou ilegalmente nos EUA. Este país consolidou as suas bases e as suas operações militares na América Central, enquanto a população continua em sofrimento.

As negociações de paz israelo-palestinas não alcançaram acordo algum, mas serviram para proporcionar uma leve cortina ao aumento da anexação de terras palestinas para construir enclaves racistas exclusivamente judeus, provocando assentamentos ilegais a mais de meio milhão de colonos judeus. Os Estados Unidos apoiaram totalmente a farsa do processo de paz, financiaram os líderes-vassalos corruptos palestinos e proporcionaram apoio diplomático, militar e político incondicional a Israel.

Estados Unidos-União Soviética: o acordo de paz

Supunha-se que os acordos de paz entre Reagan-Bush e Gorbatchov acabariam com a Guerra Fria e alcançariam a paz global. Mas, em vez disso, os Estados Unidos e a União Europeia (UE) estabeleceram bases militares e regimes clientelares por toda a Europa, no Báltico e nos Balcãs, saquearam recursos nacionais e apropriaram-se das economias desnacionalizadas. As elites com sede nos EUA dominaram o regime vassalo de Boris Yeltsin e despojaram literalmente a Rússia dos seus recursos e da sua riqueza. Aliados com oligarcas-gangsters afundaram a sua economia.

O regime pós-soviético de Yeltsin concorreu nas eleições, promoveu uma multiplicidade de partidos e ele próprio presidiu a um país desolado e cada vez mais cercado; pelo menos a eleição de Vladimir Putin serviu para descolonizar o aparelho do Estado e reconstruir parcialmente a economia do país e a sociedade.

As negociações de paz da Ucrânia

Em 2014, um golpe de Estado violento, patrocinado pelos Estados Unidos uniu fascistas, oligarcas, generais e simpatizantes da União Europeia, que tomaram o controlo de Kiev e da parte ocidental da Ucrânia. As regiões orientais pró-democracia de Donbass e da península da Crimeia organizaram a resistência ao regime golpista. A Crimeia votou unanimemente a união com a Rússia. Os centros industriais do Este da Ucrânia (Donbass) formaram milícias populares para resistirem ao às forças armadas e aos paramilitares neonazis da Junta apoiada pelos EUA. Depois de alguns anos de caos e tendo-se chegado a uma situação de impasse iniciou-se um processo de negociação que não impediu que o regime de Kiev continuasse a bombardear Donbass. A tentativa de paz converteu-se na base do Acordo de Minsk, negociado pela França, Rússia e Alemanha, através do qual a junta de Kiev pretendia o desarmamento do movimento de resistência, a recuperação de Donbass e da Crimeia e a eventual destruição da autonomia cultural, política, económica e militar do Este da Ucrânia, de maioria étnica russa. Como consequência, o Acordo de Minsk foi pouco mais que um plano fracassado para conseguir a rendição. Entretanto, o saque massivo da economia da nação perpetrado pela junta de Kiev converteu a Ucrânia num Estado falhado em que 2,5 milhões de habitantes se mudaram para a Rússia e muitos outros mil emigraram para o Ocidente para cavar batatas na Polónia ou foram recrutadas para os bordéis de Londres e Telavive. A restante juventude desempregada ficou apenas com a opção de vender os seus serviços às tropas de choque dos paramilitares fascistas de Kiev.

Colômbia: Acordo de paz ou cemitério?

Se examinarmos as suas encarnações passadas e a presente experiência é prematuro celebrar o acordo de paz das FARC colombianas e do presidente Juan Santos.

Nas últimas quatro décadas, os regimes oligárquicos colombianos apoiados pelo exército, esquadrões da morte e Washington promoveram inúmeras negociações de paz, abriram negociações com as FARC e romperam-nas para relançarem guerras em grande escala, recorrendo a negociações de paz como um pretexto para dizimar e desmoralizar os activistas políticos.

Em 1984, o presidente Belisário Betancourt assinou um acordo de paz com as FARC; conhecido pelo Acordo Uribe, com o que milhares de activistas e simpatizantes das FARC desmobilizaram, fundaram um partido político, a União Patriótica (UP), e entraram no jogo eleitoral. Nas eleições de 1986, candidatos da UP foram eleitos senadores, congressistas, alcaides e conselheiros e o seu candidato presidencial mais de 20% dos votos. Nos quatro anos seguintes, de 1986 a 1989, mais de 5.000 dirigentes, eleitos para cargos políticos e candidato presidencial da UP foram assassinados durante uma campanha nacional de terror. Dezenas de milhares de camponeses, trabalhadores do petróleo e assalariados das plantações foram assassinados, torturados e empurrados para o exílio. Os esquadrões paramilitares da morte e os exércitos privados dos latifundiários, aliados com as Forças Armadas da Colômbia assassinaram milhares de líderes sindicais, jornalistas trabalhadores e familiares. A estratégia paramilitar do exército foi desenvolvida nos anos sessenta pelo general estado-unidense William Yarborough, comandante do centro especial de guerra do exército estado-unidense e criador do centro especial da guerra estado-unidense e criador das forças especiais conhecidas como boinas verdes.

Cinco anos após a sua criação, a União Patriótica tinha desaparecido: os seus membros sobreviventes exilaram-se ou passaram à clandestinidade.

Em 1990, o recém-eleito presidente, César Graviria, proclamou início de novas negociações de paz com as FARC. Poucos meses depois do seu anúncio, o presidente ordenou o bombardeamento da Casa Verde, onde se alojavam dirigentes das FARC e uma equipa de negociadores. Felizmente, escaparam antes do traiçoeiro ataque.

O presidente Andrés Pastrana (1998-2001) pediu novas negociações com as FARC que teriam lugar numa zona desmilitarizada. As conversações iniciaram-se na região selvática de El Cáguan, em Novembro de 1998. O presidente Pastrana tinha negociado com as FARC e activistas sociais numerosas promessas, concessões e reformas mas, ao mesmo tempo, tinha negociado um acordo milionário de ajuda militar por dez naos com o presidente Clinton, conhecido como Plano Colômbia. Esta prática de relações duplas culminou com o início de uma política de terra queimada, por parte das Forças Armadas da Colômbia contra as zonas desmilitarizadas, sob as ordens do recém-eleito presidente Álvaro Uribe, que estava relacionado com os esquadrões da morte. Ao longo dos 8 anos seguintes, o presidente Uribe empurrou para um exílio interno cerca de quatro milhões de camponeses colombianos. Graças a um financiamento de Washington de centenas de milhões de dólares, Uribe pôde duplicar o volume os efectivos das Forças Armadas até superarem os 350.000 homens, ao mesmo tempo que incorporava membros dos esquadrões da morte no exército. Apesar disso, supervisou a formação de novos grupos paramilitares. Até 2010, o número de guerrilheiros das FARC tinha descido de 18.000 combatentes a menos de 10.000, tinham-se dado centenas de baixas civis e milhões de pessoas perderam as suas casas.

Em 2010, o antigo ministro de Uribe, Juan Manuel Santos, foi eleito presidente. Em 2012, Santos iniciou outro processo de paz com as FARC, que foi por fim assinado em 2016. Segundo este novo acordo negociado em Cuba, centenas de oficiais implicados em torturas, assassínios e deslocamentos forçados de camponeses foram considerados imunes, enquanto os guerrilheiros das FARC serão julgados. O governo prometeu uma reforma agrária e o direito de regresso aos camponeses deslocados e às suas famílias. Apesar disso, quando os camponeses regressavam para reclamar as suas terras eram expulsos e, inclusive, assassinados.

Os dirigentes das FARC aceitaram a desmobilização e o desarmamento unilateral que terá de verificar-se até Junho de 2017. O exército e os seus aliados paramilitares conservarão as armas e obterão o controlo total sobre as zonas previamente libertadas pelas FARC.

O presidente Juan Santos assegurou que o acordo de paz incluirá uma série de decretos presidenciais para privatizar os recursos minerais e petrolíferos do país e converter as quintas familiares em plantações para a agro-exportação. Aos camponeses rebeldes desmobilizados foi-lhes dado parcelas de terra estéril e marginal, não receberam apoio do governo nem fundos para caminhos
Utensílios, sementes, fertilizantes, nem sequer para construir escolas ou casas, tudo necessidades para esta fase de transição. Ainda que alguns dos líderes das FARC tivessem obtido lugares no Congresso e a liberdade de se apresentarem às eleições sem serem perseguidos, as bases jovens da guerrilha e os camponeses ficaram sem muitas alternativas, a não se a de se ligaram aos paramilitares ou ao narcotráfico.

Resumindo, esta volta pela história demonstra que sucessivos presidentes e regimes colombianos violaram sistematicamente todos os acordos de paz, assassinaram rebeldes que os assinaram e mantiveram o controlo da economia e da mão-de-obra nas mãos das elites. Antes da actual eleição, Juan Santos foi, como ministro da Defesa de Uribe, responsável pela década mais mortífera da Colômbia.

Pela sua intermediação para alcançar a paz dos cemitérios para dezenas de milhares de camponeses e activistas colombianos, o presidente Juan Santos foi galardoado com o Prémio Nobel da Paz.

Em Havana, os líderes e negociadores das FARC receberam os elogios do presidente cubano Raúl Castro, do presidente Obama, do presidente Maduro e da grande maioria de dirigentes progressistas e de direita da América do Norte, Da América do Sul e da Europa.

A sangrenta história da Colômbia, com os seus assassínios generalizados de activistas dos direitos humanos e líderes camponeses continuou, inclusive quando se estavam a assinar os documentos dos acordos de Paz. Durante o primeiro mês de 2017, os esquadrões da morte ligados à oligarquia e o exército assassinaram cinco activistas dos direitos humanos. Em 2015, quando as FARC negociavam várias cláusulas dos acordos, mais de 120 camponeses e activistas foram assassinados pelos grupos paramilitares que continuaram a actuar livremente nas zonas controladas pelo exército às ordens de Juan Santos. A máquina propagandística dos meios de comunicação de massas continua a repetir a mentira que mais de 200.000 pessoas perderam a vida às mãos da guerrilha e do exército, quando a esmagadora maioria dos assassínios foram cometidos pelo governo e pelos seus aliados, os esquadrões da morte; uma calúnia que os líderes da guerrilha não souberam desmontar. O proeminente investigador jesuíta Javier Giraldo documentou minuciosamente o facto de mais de três quartos das ditas mortes terem sido obra do exército e dos paramilitares.

É-nos pedido que acreditemos que os regimes presidenciais que assassinaram mais de 150.000 trabalhadores, camponeses, líderes indígenas e profissionais colombianos, e que continuam a assassinar, se converteram da manhã para a tarde em parceiros amantes da justiça para alcançar a paz. Nos três primeiros deste ano, activistas e defensores dos acordos de paz com as FARC continuam a ser o alvo e continuam a ser assassinados pelos paramilitares supostamente desmobilizados.

Os líderes dos movimentos sociais denunciam um aumento da violência por parte das forças do exército e dos seus aliados. Inclusivamente, os monitores dos acordos de paz e do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos admitem que a violência estatal e paramilitar está a destruir qualquer estrutura pensada pelo presidente Juan Santos para implementar as reformas. À medida que as FARC se retiram das regiões sob controlo popular, os camponeses que pretendem integrar-se na reforma agrária convertem-se em alvos dos exércitos privados. O regime de Juan Santos está mais interessado em proteger as massivas apropriações de terras pelos grandes consórcios mineiros.

Enquanto os assassínios dos partidários das FARC e activistas dos direitos humanos se multiplicam o presidente Juan Santos e Washington tentam aproveitar-se de uma guerrilha desarmada e desmobilizada, os históricoa acordos de paz convertem-se num grande engano desenhado para expandir o poder imperial.

Conclusão: epitáfio para os acordos de paz

Em todo o mundo, sempre as negociações e os acordos de paz orquestrados pelo Império tiveram um só objectivo: desarmar, desmobilizar, derrotar e desmoralizar os lutadores da resistência e os seus aliados.

Tal como os conhecemos, os acordos de paz servem para rearmar e reagrupar as forças apoiadas pelos Estados Unidos depois dos contratempos tácticos da luta de guerrilhas. O seu objectivo é dividir a oposição (a chamada táctica do salame) e facilitar a conquista. A retórica da paz utilizada nestas negociações de paz significa, basicamente, o desarmamento unilateral dos lutadores da resistência, a rendição do território e o abandono dos simpatizantes civis. As denominadas zonas de guerra que contêm terras férteis e valiosas reservas minerais são pacificadas quando são absorvidas pelo regime que se diz amante da paz. Os desenvolvimentos da paz negociada são supervisionados pelas autoridades estadunidenses, que elogiam o tecem loas aos líderes rebeldes quando assinam os acordos de paz que serão implementados por regimes vassalos do poder imperial. Este último assegurará que não se verifique nenhum realinhamento em política externa nem qualquer alteração socioeconómica estrutural.

Alguns acordos de paz permitem que os antigos dirigentes guerrilheiros compitam, em alguns casos que ganhem eleições como representantes marginais, mas a sua base de apoio é dizimada.

Na maior parte dos casos durante o processo, especialmente depois da assinatura do acordo de paz, as organizações e movimentos sociais e os seus seguidores no campesinato e entre a classe trabalhadora acabam, bem como os activistas pelos direitos humanos, sendo objectivo a abater pelo exército e pelos esquadrões da morte paramilitares que operam em conivência com as bases militares do governo.

Frequentemente, os aliados internacionais dos movimentos de resistência animaram-nos a negociar acordos de paz para demonstrar aos Estados Unidos que são responsáveis, esperançados em melhorar as relações diplomáticas e comerciais. Não é preciso dizer que as negociações responsáveis serviram simplesmente para reforçar a determinação do poder imperial de pressionar futuras concessões e estimular agressões militares e novas conquistas.

Os acordos de paz justos baseiam-se no desarmamento mútuo, no reconhecimento territorial e na autoridade da administração insurgente local sobre as reformas agrárias acordadas, ao mesmo tempo que mantêm os direitos sobre os recursos minerais e o controlo da segurança militar-pública.

Os acordos de paz deverão ser o primeiro passo para de uma agenda política implementada sob o controlo do exército rebelde independente e monitores civis.

O desastroso resultado do desarmamento unilateral é a consequência da não implementação de uma política externa e mudanças estruturais progressistas e independentes.

As negociações de paz presentes e passadas, baseadas no reconhecimento da soberania de um Estado independente ligado aos movimentos de massas, sempre terminaram com os Estados Unidos a romperem os acordos. Os genuínos acordos de paz são contrários à meta imperial de conquistar através da mesa de negociações o que não conseguiram ganhar através da guerra.

17 de março de 2017

Entre estudantes e trabalhadores

No auge do movimento anti-guerra dos anos 60, os radicais estudantes realizaram um acalorado debate sobre seu papel nas lutas trabalhistas. Esse debate continua a ser relevante hoje.

Joe Allen

Jacobin

Um protesto estudantil anti-guerra na Universidade de Michigan, em março de 1970. Créditos: Washington Area Spark / Flickr

Em agosto de 1966, delegados de todos os Estados Unidos participaram da anual Convenção da Students for a Democratic Society (SDS) em Clear Lake, Iowa. Localizado no norte-central de Iowa e realizada em um campo metodista, a organização começou a debater o seu futuro.

A SDS estava em uma encruzilhada em 1966. Tinha evoluído para a maior organização estudantil radical nos Estados Unidos e estava passando por uma grande adesão e transformação política, de acordo com historiador da SDS Kirkpatrick Sale.

Para os participantes, a Convenção de Clear Lake, que contou com 350 delegados de 140 capítulos, foi simbólica. A liderança foi transferida dos membros originais da organização para os mais novos; Desde os nascidos nas tradições de esquerda das costas até os ativistas do meio-americano. Era a ascensão do "poder da pradaria".

O maior tópico da convenção era qual a direção que a SDS deveria tomar. A pequena delegação dos Clubes Socialistas Independentes (ISCs, precursor dos Socialistas Internacionais de 1970) fez uma proposta para a convenção.

"A visão socialista da classe trabalhadora como uma classe potencialmente revolucionária baseia-se no fato mais óbvio sobre a classe trabalhadora, de que ela está socialmente situada no coração da indústria básica e, de fato, definidora da indústria", escreveu Kim Moody , Fred Eppsteiner e Mike Pflug em "Towards the Working Class: An SDS Convention Position Paper (TTWC)".

Foi uma das primeiras tentativas de orientar a Nova Esquerda em torno das lutas de base dos trabalhadores norte-americanos. O panfleto de Stan Wier, "USA: The Labour Revolt", era o roteiro que muitos socialistas usavam para entender a crescente rebelião de base que começou em meados da década de 1950, longe do foco da mídia, mas em meados da década de 1960 visível para todos ver. Era notícia de primeira página.

As configurações são muito diferentes, mas são os debates de meio século atrás ainda são relevante hoje?

O ano de 1966 pode ser lembrado como o ano em que, durante a Meredith March Against Fear no Mississippi, o líder do SNCC, Stokely Carmichael (mais tarde conhecido como Kwame Touré) declarou: "O que precisamos é de poder negro". Esse slogan capturou a imaginação de uma geração de jovens revolucionários negros frustrados pelas promessas quebradas do liberalismo norte-americano que exigiam uma transformação radical da sociedade. Muitos outros povos longamente oprimidos - mulheres, chicanos, nativos americanos, gays e lésbicas - seguiram.

Moody, Eppsteiner e Pflug não estavam menos interessados ​​nas questões de poder e libertação. Todos os três eram veteranos do movimento de direitos civis em Baltimore, e ativos em ou em torno do Baltimore SDS na Universidade Johns Hopkins. A Moody também atuou no projeto comunitário da SDS de Baltimore, U-Join (União para Emprego e Renda Agora). Moody e Eppsteiner eram membros do ISC, enquanto Pfug era membro da News and Letters.

O ISC surgiu de uma divisão na ala direita do Partido Socialista. A inspiração política para o ISC foi Hal Draper, veterano socialista revolucionário e autor do popular panfleto "A Mente de Clark Kerr". EraFoi um exame do presidente do sistema da Universidade da Califórnia e suas idéias para a universidade moderna. Tornou-se a Bíblia do Movimento de Liberdade de Expressão em Berkeley.

Mais tarde Draper também popularizou a frase "socialismo de baixo" na revista New Politics, reivindicando o espírito democrático revolucionário da crença de Karl Marx de que o socialismo só poderia ser alcançado através da "auto-emancipação da classe trabalhadora". Uma frase rápida e clara para distinguir a política socialista revolucionária do "socialismo de cima" da social-democracia e do stalinismo. Em uma época em que um revolucionário era considerado um guerrilheiro com um AK-47 lutando nas selvas de um país distante, o apoio a esse tipo de marxismo "clássico" estava indo contra a corrente.

Os autores da TTWC chamavam-se "radicais que apoiam o conceito de poder negro", mas olhavam a questão do poder e da libertação sob um ângulo diferente. "Nós, socialistas e radicais, olhamos para os trabalhadores de base como nossos aliados potenciais", declararam.

Um poderoso exemplo desse potencial citado foi a greve dos operadores que paralisou as viagens aéreas de passageiros pelos Estados Unidos.

Para aqueles que têm dúvidas sobre a disposição dos trabalhadores para lutar por fins progressistas, dê uma olhada na recente greve de companhias aéreas da Associação Internacional de Operadores (IAM). Não somente a greve resistiu às ameaças de uma liminar do Congresso; Mas a base tinha a coragem de rejeitar categoricamente um acordo empurrado pelo próprio Presidente Johnson. Uma luz interessante sobre o lado político é que quatro IAM locais recentemente pediram uma ruptura com o Partido Democrata e a formação de um terceiro partido. 
Tenha em mente que esta foi uma luta que ocorreu sem o benefício de organizadores radicais; Era, em muitos aspectos, um ato espontâneo.

Relativamente ao movimento operário quase exclusivamente como partidários externos tinham seus limites, de acordo com os autores do ISC:

Acreditamos que apoiar greves e organizar trabalhadores para sindicatos independentes ou mesmo sindicatos existentes é bom, mas não é suficiente. Além disso, há uma espécie de hierarquia de valor nessas atividades. Trabalhar em uma equipe de funcionários da união pode fornecer a boa experiência para um estudante ou um ex-estudante, mas não pode ser um lugar a partir do qual o trabalho político possa ser feito.

Eles queriam deixar claro aos delegados que não estavam denegrindo a organização sindical, "mas que não se pode fazer um trabalho político radical sério a partir dessa posição".

Para se engajar nesse "trabalho político radical e sério", os autores argumentavam, seria necessário que os estudantes assumissem uma mudança séria: "A SDS, como organização, e os membros da SDS devem orientar-se para a classe trabalhadora como o setor social decisivo na transformação da sociedade americana ".

O cenário era muito diferente em 1966 para se debater uma perspectiva de base em relação a hoje. Os sindicatos eram instituições importantes - "grande trabalho", como era chamado então - na vida econômica e política dos EUA. A revolta de base entre os trabalhadores inquietos em todo o país estava causando grande preocupação política e uma crise para os líderes entrincheirados dos sindicatos dos EUA.

A capa da revista Life capturou bem o cenário com a manchete "Strike Fever", mostrando a imagem de um grevista com a demonstração negativa com os dois polegares para baixo e uma barra lateral com os dizeres "Líderes Trabalhistas em Dilema" e "Desenfreada Nova Militância".

Apesar das circunstâncias favoráveis, a co-autora do TTWC, Kim Moody, disse-me recentemente: "Nosso papel de posição recebeu pouca atenção, pois o principal negócio subjacente era a transição da liderança da "velha guarda para a "nova geração" que inundava a SDS. Esperávamos influenciar algumas das pessoas mais jovens que entravam na SDS."

"Para a classe trabalhadora" apareceu em New Left Notes na edição de 9 de setembro de 1966 - depois da convenção. A proposta perdeu para a proposta de Carl Davidson para um novo movimento sindicalista estudantil que enfatizava o foco da SDS principalmente nos campi.

Em retrospectiva, provavelmente era errado esperar a SDS reorientar-se completamente em um período tão curto de tempo. Havia ainda uma abundância de razões para um movimento estudantil crescer, especialmente com o florescente movimento anti-guerra nos campi em que a SDS estava situada.

No entanto, não podemos deixar de olhar para trás e sentir que houve uma oportunidade perdida aqui. Quando as várias organizações comunistas e socialistas que emergiram da Nova Esquerda vários anos depois, no final dos anos 60 e início dos anos 70, fizeram uma volta para se organizar na classe operária industrial, já era tarde demais?

Revivendo o debate

Durante as últimas quatro décadas, as mudanças desastrosas para a classe operária industrial enfraqueceram, se não destruíram, os sindicatos industriais, outrora poderosos, em muitas partes da economia industrial dos EUA. A esquerda que tentou construir nos sindicatos industriais permaneceu marginalizada.

No entanto, um dos legados do trabalho político dos socialistas internacionais foi um movimento de reforma dentro dos Teamsters na década de 1970. Os Teamsters para a União Democrática (TDU) desempenharam um papel importante na eleição do primeiro presidente da reforma dos Teamsters em 1991, na greve da UPS em 1997 e na recente e quase derrotada presidência dos Teamsters, James P. Hoffa.

Hoje, mais uma vez, uma nova geração de radicais está discutindo a questão da opressão, do poder e da mudança radical. Como podemos ter um debate semelhante hoje ao que a SDS teve em 1966, mas com um público mais amplo?

Hoje, a economia industrial moderna gira em torno da indústria de logística. Como Kim Moody escreveu no ano passado:

85 por cento dos quase três milhões e meio de trabalhadores empregados em logística nos Estados Unidos estão localizados em grandes áreas metropolitanas - recriando inadvertidamente enormes concentrações de trabalhadores em muitas dessas áreas que deveriam ser "esvaziadas" de trabalhadores industriais. Existem cerca de sessenta desses "clusters" nos Estados Unidos, mas são os principais locais em Los Angeles, Chicago e New York-New Jersey, cada um dos quais emprega pelo menos cem mil trabalhadores e outros, como a UPS Louisville "Worldport" e o cluster Memphis da FedEx que exemplificam a tendência. 

Se a Amazon cumprir sua promessa até 2018, acrescentará mais 100 mil trabalhadores à sua força de trabalho nos EUA, elevando o número total para mais de duzentos mil. Será uma dos maiores empregadoras nos Estados Unidos e uma das maiores empregadoras sem sindicatos.

Uma nova geração de ativistas socialistas tem de aprender a organizar estes locais de trabalho.

Essa geração está começando a se organizar. Uma nova esquerda está surgindo nos Estados Unidos. Os milhões que participaram das grandes manifestações que recepcionaram as primeiras semanas de trabalho de Trump foram o sinal mais visível e espetacular disso. O mesmo ocorre com o rápido crescimento dos socialistas democratas da América (DSA), juntamente com o interesse generalizado pelas idéias socialistas gerais, pela história e pelas organizações. Radicais que são energizados por tudo isso deve ter uma página do livro de Moody, Eppsteiner, Pflug e direcionar a energia para a classe trabalhadora.

Não devemos subestimar os obstáculos que enfrentamos, é claro. A tarefa é assustadora: criar um novo movimento socialista e um novo movimento sindical industrial praticamente a partir do zero. Precisamos iniciar campanhas de defesa de idéias socialistas e organização na indústria de logística em cidades selecionadas.