30 de abril de 2017

Lutas ideológicas no capitalismo contemporâneo

por Prabhat Patnaik


Tradução / A globalização provocou sofrimento agudo para os trabalhadores de todo o mundo. Este sofrimento não se limita apenas ao período da crise pós bolha imobiliária, nem apenas aos trabalhadores dos países capitalistas avançados. A descoberta de Joseph Stiglitz de que o salário médio real de um trabalhador masculino americano em 2011 era algo mais baixo do que em 1968 sugere claramente que este sofrimento tem tido uma longa duração. Da mesma forma, a presunção de que o sofrimento aflige apenas os trabalhadores de países capitalistas avançados cujas oportunidades de emprego contraíram-se porque o capital metropolitano tem relocalizado a atividade econômica em países do terceiro mundo com baixos salários, e que os trabalhadores destes últimos consequentemente tem sido os beneficiários da globalização, é completamente falsa: esta relocalização, longe de reduzir as enormes reservas de trabalho do terceiro mundo, foi pelo contrário acompanhada por um aumento da dimensão relativa de tais reservas e, portanto, por um esmagamento das taxas de salários reais. Isto tem sido assim, dentre outras razões, devido ao assalto maciço ao setor da micro produção nestes países, e o despojamento de micro produtores, que a globalização implicou.

Tal sofrimento está a despertar um forte ressentimento entre os trabalhadores de todo o mundo, o qual é mais claramente visível, como agora, nos países capitalistas avançados. E em face desta oposição estão a emergir pelo menos três diferentes posições ideológicas nestes países. Uma destas é uma posição de Esquerda, a qual comentarei depois. As outras duas são posições dentro do próprio campo burguês, cuja principal característica é que elas não visualizam qualquer coisa para além do capitalismo.

Destas duas, uma que emergiu com força gritante é aquela da ultra-direita. Se bem que as posições de Donald Trump dos EUA, de Marine Le Pen de França e de Nigel Farage na Grã-Bretanha, e de seus equivalentes em outros países europeus, não sejam idênticas, no entanto pode ser detectado um certo elemento comum entre elas. Eles encaram a globalização como implicando uma pioria das condições dos trabalhadores, devido à imigração de trabalhadores estrangeiros e à emigração de capital produtivo, nomeadamente para destinos com baixos salários. Portanto, esta posição vê o problema básico como decorrente da competição de trabalhadores de outros países – e a panaceia para isso é restringir tal competição através do impedimento da imigração, da proteção contra bens estrangeiros e da penalização do capital que tenta emigrar para o exterior a fim de se relocalizar em países de baixos salários. Contudo, em tudo isto há pouco reconhecimento do papel do capital financeiro, do fato de que a procura global na economia mundial, à qual podem ter acesso todos os países em conjunto, não pode ser aumentada por causa de hegemonia do capital financeiro. O capital financeiro globalizado, confrontando Estados-nação, os quais quer queiram quer não têm de aceder às suas exigências, insiste por toda a parte em manter a dimensão do défice orçamental dentro de limites. Igualmente, o outro possível meio de financiar maiores gastos do governo para ampliar a procura agregada, especificamente através de impostos sobre capitalistas, é também impedido por ele. (Maiores gastos do governo financiado por impostos sobre os trabalhadores, os quais consomem o grosso dos seus rendimentos, não ajudam a aumentar a procura agregada). 

É significativo que Trump, que tem proposto agressivamente uma política protecionista de "empobreça meu vizinho", chegando ao ponto de penalizar investimento direto estrangeiro por firmas americanas para atender o mercado interno dos EUA, não tenha uma palavra a dizer sobre restrições ao capital financeiro globalizado. (Isto tem levado alguns autores a afirmarem mesmo que as suas políticas são anti-capital manufatureiro, mas favoráveis à finança; isto entretanto é um exagero uma vez que ele também está ansioso por reduzir impostos corporativos em geral).

Em relação a esta oposição, há a posição neoliberal habitual, totalmente aprovada pela finança globalizada, a qual atribui o sofrimento dos trabalhadores não à globalização mas a toda espécie de outros fatores e que afirma mesmo que protecionismos de qualquer espécie simplesmente não podem melhorar a condição dos trabalhadores. Em suma, nada deveria ser feito para alterar o presente cenário de globalização. Se algo precisa ser feito, então tem de ser em outras áreas e não em relação ao atual regime de globalização. Christine Lagard, a atual diretora-administradora do FMI, articulou esta oposição explicitamente em oposição à administração Trump e desde então muitos comentaristas financeiros têm reflectido seus pontos de vista. De fato, o FMI acaba de lançar um documento argumentando em favor desta posição.

Esta posição está em tamanha bancarrota intelectual que a adesão a ela pela assim chamada "burguesia liberal" só está a servir para reforçar o apelo da ultra-direita, a qual pelo menos tem o mérito de tomar conhecimento do sofrimento do povo. Sua bancarrota pode ser ilustrada pelo exame de um artigo de Martin Wolf, um influente jornalista que escreve regularmente no The Financial Times, de Londres. Seu argumento é que o protecionismo ao elevar a produção e o emprego em setores competitivos importadores só afastará recursos dos setores exportadores. Isto abaixaria mesmo as exportações quando reduz importações, deixando intacto o défice comercial e portanto, por implicação, o nível da procura agregada e do emprego.

A falácia deste argumento está no fato de que um aumento na produção por substituição de importações será a expensas da produção de exportação só numa economia onde haja pleno emprego de recursos (de modo que um setor da produção possa ascender só a expensas de outro), não numa economia que tenha simultaneamente desemprego e capacidade não utilizada. Segue-se portanto que o autor está a argumentar que o protecionismo não pode aumentar o emprego, só através da assunção de que não existe nenhum desemprego de modo algum. É a crueldade destes comentadores "liberais", exibida através de tais ideias absurdas e logicamente falaciosas, que faz os trabalhadores voltarem-se para os partidos da ultra-direita a expensas dos partidos "liberais burgueses", comprometidos com a ortodoxia do capital financeiro, que tais comentadores favorecem. 

Exatamente o mesmo raciocínio falacioso está subjacente a outra proposição de Wolf. Começando pelo truísmo de que o défice em conta corrente de um país deve ser igual ao excesso dos bens e serviços que ele absorve em relação ao que produz, ele argumenta que o atual défice corrente dos EUA nunca poderá ser ultrapassado a menos que a sua absorção de bens e serviços do resto do mundo seja reduzida. Isto é absurdo porque um excesso de absorção sobre o produto pode decorrer não só por a absorção ser demasiado alta como também porque o produto é demasiado baixo e, na verdade, esta última hipótese deve ser o caso numa economia afligida pela crise. O protecionismo neste caso reduzirá o défice corrente e aumentará a produção interna e o desemprego. (Isto não acontecerá se já houver pleno emprego na economia, o qual é o que Wolf deve estar implicitamente a assumir mesmo em meio a uma crise ).

O argumento de que o protecionismo da espécie que Trump está a promover não pode logicamente elevar o emprego e a produção está obviamente errado. Mas ele pode promover o emprego só se os outros países não retaliarem contra o protecionismo dos EUA. Uma vez que o protecionismo "exporta desemprego" para outros países, ele pode certamente "funcionar" se os outros países estiverem desejosos de importar desemprego. Mas se não estiverem, o que naturalmente é o cenário provável, então o protecionismo cessa de funcionar e o protecionismo competitivo pode mesmo agravar a condição de todos tomados em conjunto.

A terceira posição, que é a posição da Esquerda, toma pleno conhecimento do papel do capital financeiro na globalização contemporânea. Ela gostaria de uma globalização despida da hegemonia da finança, na qual governos democraticamente eleitos são capazes de controlar a finança ao invés de serem por ela controlados. Há sérias diferenças dentro da Esquerda sobre o grau em que um país deveria desligar-se da globalização se a hegemonia da finança não for vencida. No contexto europeu este dilema toma a forma de se um país deveria permanecer na União Europeia se as suas tentativas de se livrar das cadeias da finança não derem fruto. O Syriza na Grécia decidiu permanecer na UE apesar de não conseguir livrar-se da "austeridade" imposta pela finança sobre o povo grego. Nas últimas eleições francesas Melenchon, o candidato da esquerda apoiado pelo Partido Comunista exigiu uma renegociação do acordo da UE e controle político sobre o Banco Central Europeu, enquanto deixava aberta a questão de abandonar a UE (presumivelmente até o resultado das negociações de todas estas questões).

Como o trumpismo e a ultra-direita em geral fracassam, uma vez que não enfrentam a questão básica da hegemonia da finança, e como a esquerda adquire maior clareza sobre a necessidade do desligamento da globalização no caso de a hegemonia da finança continuar a persistir, a bancarrota da posição "liberal burguesa" levará cada vez mais trabalhadores a apoiar a esquerda. Isto já está a acontecer com a ascensão de figuras como Corbyn, Sanders e Melenchon; isto aumentará de ímpeto se a esquerda abandonar sua ambivalência residual sobre a globalização.

O engano, a traição e a esquerda: O prêmio "Traidor do Ano"

por James Petras

The Official James Petras Website

Tradução / Enquanto a direita apoia fielmente as políticas e interesses dos seus apoiadores da classe dominante, a esquerda tem traído sistematicamente as promessas da sua plataforma política e enganado a classe trabalhadora, os empregados assalariados, os pequenos negócios e os seus apoiadores regionais.

Inversões históricas têm acontecido em rápida sucessão por parte de líderes de esquerda, incluindo maior controle oligárquico sobre a economia, dominação política mais ditatorial pelas potências imperiais (EUA, UE), aumento de desigualdades e pobreza e apoio "de esquerda" a guerras imperiais.

Em alguns casos líderes de esquerda foram além dos seus oponentes de direita ao aprovarem políticas reacionárias ainda mais extremas depois de assumir o poder.

Neste ensaio identificaremos alguns dos vira-casacas de esquerda: Os "Campeões da Traição".

A seguir faremos a revisão das suas inversões políticas e as consequências para a sua classe trabalhadora e apoiadores rurais.

Em terceiro lugar, apresentaremos um estudo de caso do pior traidor "de esquerda" do mundo de hoje: Alexis Tsipras, primeiro-ministro da Grécia.

Na seção final, discutiremos algumas das possíveis explicações para a tendência de reversões políticas de líderes de esquerda.

"Esquerdistas" vira-casaca do princípio do século XXI
Há numerosos exemplos de antigos movimentos de guerrilha, regimes de esquerda e líderes políticos que obtiveram apoio popular de massa com a promessa de transformações radicais de estrutura e que deram meia volta para abraçar os interesses dos seus adversários oligárquicos e imperiais.

Uma geração inteira de radicais, das décadas de 1960 e 1970, começou à esquerda e, durante os anos 80 e 90 acabaram em regimes "centristas" e de direita – tornando-se até colaboradores da extrema-direita e da CIA.

Antigos combatentes guerrilheiros, que acabaram como centristas e direitas, tornaram-se ministros ou presidentes no Uruguai, Brasil, Peru, Equador e Chile.

O comandante da guerrilha de El Salvador, Joaquin Villalobos, posteriormente colaborou com a CIA e proporcionou "aconselhamento" aos "esquadrões da morte" do presidente da Colômbia.

A lista dos traidores do fim do século XX é longa e lúgubre. Suas traições políticas provocaram grande sofrimentos à massa dos seus apoiantes os quais sofreram perdas sócio económicas, repressão política, prisões, torturas, morte e uma profunda desconfiança em relação a intelectuais e líderes políticos "de esquerda", assim como às suas "promessas".

O século XXI: Começar à esquerda e acabar à direita
A primeira década do século XXI testemunhou uma revitalização de regimes e partidos políticos de esquerda na Europa e na América Latina.

As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), conduzidas pelo grande líder camponês Manuel Marulanda, tinham 20 mil combatentes e milhões de apoiantes. Em 1999, ela havia avançados para os arrabaldes da capital, Bogotá. A realidade hoje é uma inversão dramática.

Em França, o Partido Socialista adoptou um programa de esquerda e em 2012 elegeu François Hollande como presidente. Ele prometeu aumentar os impostos sobre os ricos para 75% a fim de financiar um programa maciço de empregos. Ele prometeu estender a legislação progressista do trabalho e defender as indústrias nacionais. Hoje a sua credibilidade está próxima do zero.

Por toda a América Latina, gente de esquerda foi eleita para encabeçar governos, incluindo o Brasil, Argentina, Peru, Uruguai, Bolívia, Venezuela, Equador e El Salvador. Com a possível excepção da Bolívia e do Equador, eles foram removidos pelos seus parceiros ou oponentes de direita.

Em Espanha, Portugal e Grécia emergiram novos partidos radicais de esquerda com promessas de acabar com os brutais programas de austeridade impostos pela União Europeia e lançar profundas transformações estruturais, com orientação de classe. Aqui a história está a repetir-se com outra série de traições.

As FARC: Da revolução à rendição
Em Junho de 2017 a liderança das FARC desarmou seus combatentes, abandonando milhões de apoiantes camponeses em regiões anteriormente sob o seu controle. A assinatura das FARC do Pacto de Paz com o regime Santos não leva nem à paz nem a um pacto real. Dúzias de activistas já estão a ser assassinados e centenas de pessoas de esquerda e camponeses fogem para salvar a vida devido aos esquadrões da morte ligados ao regime Santos. Verificaram-se assassinatos ao logo do processo de negociação e posteriormente. Combatentes da guerrilha que depuseram as suas armas agora enfrentam julgamentos em processos farsa (kangaroo trials), enquanto camponeses que pedem a reforma agrária são expulsos das suas terras. Combatentes rasos e militantes das FARC são abandonados na selva com suas famílias sem lares, empregos e segurança em relação aos esquadrões da morte. As bases militares dos EUA e seus conselheiros permanecem. A totalidade do sistema sócio-económico está intacta. Só aos "líderes" da guerrilha que estão em Cuba é garantida segurança, duas confortáveis poltronas no Parlamento – as quais foram recusadas – e o louvor do governo estado-unidense.

Os líderes e negociadores chefe das FARC, Ivan Marquez e Timoleon Jimenez, são claros competidores ao "Prémio Traidor do Ano".

Presidente Hollande da França: Um colaborador imperial despejado pela sanita abaixo
O mandato do presidente François Hollande não foi muito além da traição da FARC. Ao ser eleito presidente da França em 2012 pelo Partido Socialista, prometeu "tributar os ricos" em 75%, estender a aprofundar direitos dos trabalhadores, reduzir o desemprego, reviver indústrias em bancarrota, impedir a fuga capitalista e acabar com a intervenção militar da França em países do Terceiro Mundo.

Após um breve namoro com a sua retórica de campanha, o presidente Hollande avançou violentamente em favor dos negócios e do militarismo, contra os seus eleitores.

Primeiro, ele desregulamentou as relações dos negócios com o trabalho, tornando mais fácil e mais rápido despedir trabalhadores.

Em segundo lugar, reduziu a tributação dos negócios em €40 mil milhões.

Em terceiro, impôs e depois ampliou um draconiano estado de emergência a seguir a um incidente terrorista. Isto incluiu a proibição de greves de trabalhadores a protestarem contra a legislação anti-trabalho e a taxa de desemprego com dois dígitos.

Em quarto, Hollande lançou ou promoveu uma série de guerras imperiais no Médio Oriente e na África do Norte e Central.

A França sob François Hollande iniciou o bombardeamento da NATO da Líbia, o assassínio do presidente Kadafi, a destruição total daquele país e o desenraizamento de milhões de líbios e trabalhadores da África sub-saariana. Isto levou a uma inundação maciça de refugiados aterrorizados através do Mediterrâneo e para dentro da Europa com dezenas de milhares a afogarem-se neste processo.

O projecto neo-colonial do presidente Hollande administrou a expansão de tropas francesas no Mali (desestabilizado pela destruição da Líbia) e na República Centro-Africana.

Como claro promotor do genocídio, Hollande vendeu armas e enviou "conselheiros" para apoiar a grotesca guerra da Arábia Saudita contra o empobrecido Iémen.

O presidente Hollande aderiu à invasão mercenária dos EUA na Síria, permitindo a alguns dos mais puros jihadistas da França juntarem-se à carnificina. Suas ambições coloniais resultaram na fuga de milhões de refugiados para a Europa e outras regiões.

No fim do seu mandato, em 2017, a popularidade de Hollande havia declinado para 4%, o mais baixo nível de aprovação eleitoral de qualquer presidente na história francesa! O único movimento racional que ele fez em todo o seu regime foi não procurar a reeleição.

Primeiro-ministro grego Alexis Tsipras: "Traidor do ano"
Apesar da árdua competição de outros infames traidores da esquerda por todo o mundo, o primeiro-ministro grego Alexis Tsipras vence o prémio "Traidor global do ano".

Tsipras merece o título de "Traidor global" porque:

1) Fez a viragem mais rápida e mais brutal da esquerda para a direita do que qualquer dos seus venais competidores.

2) Apoiou a subjugação da Grécia aos ditames dos oligarcas de Bruxelas quanto a exigências de privatizações, concordando em vender todo o seu património nacional, incluindo sua infraestrutura, ilhas, minas, praias, museus, portos, transportes, etc.

3) Ele decretou a mais brutal redução de pensões, salários e salários mínimos da história europeia, enquanto aumentava drasticamente o custo de cuidados de saúde, hospitalização e remédios. Ele aumentou o IVA (imposto sobre o consumo) e impostos sobre importações e sobre o rendimento agrícola enquanto "olhava para o outro lado" em relação a impostos de evasores ricos.

4) Tsipras é o único lider eleito a convocar um referendo sobre as duras condições da UE, recebe um mandato maciço para rejeitar o plano da UE e então dá meia volta e trai os eleitores gregos em menos de uma semana. Ele até aceitou condições mais severas do que as exigências originais da UE!

5) Tsipras reverteu suas promessas de se opor às sanções da UE contra a Rússia e retirou o apoio histórico da Grécia aos palestinos. Ele assinou um acordo de mil milhões de dólares sobre petróleo e gás com Israel, o qual capturou campos petrolífero no offshore de Gaza e na costa libanesa. Tsipras recusou opor-se ao bombardeamento da Síria pelos EUA-UE, assim como da Líbia, ambos antigos aliados da Grécia.

Tsipras, como líder do supostamente partido de "esquerda radical" SYRIZA, saltou da esquerda para a direita num piscar de olhos.

A primeira e mais reveladora indicação da sua viragem para a direita foi o apoio de Tsipras à continuação da Grécia como membro da União Europeia (UE) e da NATO durante a formação do SYRIZA (2004).

A "esquerda" do SYRIZA balbucia as platitudes habituais que acompanham a condição de membro da UE, levantando "questões" e "desafios" vazios enquanto fala de "lutas". Nenhuma destas frases "semi-grávidas" faz sentido para qualquer observador que entenda o poder que os oligarcas dirigidos pelos alemães têm em Bruxelas e sua adesão rígida à austeridade imposta pela classe dominante.

Em segundo lugar, o SYRIZA tem desempenhado um papel menor, na melhor das hipóteses, nas numerosas greves gerais e movimentos de trabalhadores e estudantes que conduziram à sua vitória eleitoral em 2015.

O SYRIZA é um partido eleitoral da classe média baixa, conduzido por políticos que querem subir na vida e que têm poucas, se é que algumas, ligações ao chão da fábrica e às lutas agrárias. Suas maiores lutas parecem revolver-se em torno de guerras internas de facção sobre assentos no Parlamento!

O SYRIZA era uma colecção frouxa de grupos e facções briguentas, incluindo "movimentos ecológicos", seitas marxistas e políticos tradicionais que flutuaram sobre o moribundo e corrupto Partido Socialista Pan Helénico (PASOK). O SYRIZA expandiu-se como partido no princípio da crise financeira de 2008 quando a economia grega entrou em colapso. De 2004 a 2007 o SYRIZA aumentou sua presença no Parlamento de 3,5% para apenas 5%. Sua falta de participação nas lutas de massa e suas querelas internas levaram a um declínio nas eleições legislativas de 2009 para 4,6% dos assentos.

Tsipras assegurou que o SYRIZA pemaneceria na UE, mesmo sua auto-designada "ala esquerda", a Plataforma de Esquerda, liderada pelo "académico marxista" Panagiotis Lafazanis, prometeu "manter uma porta aberta para a saída da UE". Alexis Tsipras foi eleito primeiramente para o conselho da municipalidade de Atenas, onde atacou publicamente colegas corruptos e demagogos enquanto tomava lições privadas de poder da parte da oligarquia.

Em 2010, o direitista PASOK e o partido de extrema-direita Nova Democracia concordaram com um bail-out da dívida ditado pela UE que levou a perdas maciças de empregos e cortes de salários e pensões. O SYRIZA, que estava fora do poder, denunciou o programa de austeridade e fez elogios verbais aos protestos maciços. Esta postura permitiu ao SYRIZA quadruplicar sua representação no parlamento, passando a 16% na eleição de 2012.

Tsipras saudou [a entrada] de membros corruptos e conselheiros financeiros do PASOK para dentro do SYRIZA, incluindo Yanis Varoufakis, que passava mais tempo a andar de motocicleta para bares de luxo do que a apoiar nas ruas os trabalhadores desempregados.

Os "memorandos" da UE ditavam a privatização da economia, bem como cortes mais profundos na educação e saúde. Estas medidas foram implementadas em ondas de choque desde 2010 até 2013. Como partido da oposição, o SYRIZA aumentou suas cadeiras em 27% em 2013 ... uns escassos 3% atrás do partido governante Nova Democracia. Em Setembro de 2014, o SYRIZA aprovou o Programa Salónica prometendo reverter a austeridade, reconstruir e estender o estado de bem-estar social, restaurar a economia, defender empresas públicas, promover justiça fiscal, defender a democracia (democracia directa, nada menos!) e implementar um "plano nacional" para aumentar o emprego.

Todo o debate e todas as resoluções revelaram-se como uma farsa teatral! Uma vez no poder, Tsipras nunca implementou uma única das reformas prometidas no Programa. Para consolidar o seu poder como chefe do SYRIZA, Tsipras dissolveu todas as facções tendências em nome de um "partido unificado" – o que estava longe de ser um passo rumo a maior democracia!

Sob o controle do "Querido Tio Alexis", o SYRIZA tornou-se uma máquina eleitoral autoritária apesar da sua postura de esquerda. Tsipras insistiu em que a Grécia permaneceria dentro da UE e aprovou um "orçamento equilibrado" contradizendo toda as suas falsas promessas de campanha de investimentos públicos para "ampliar o estado de bem-estar social"!

Um novo bail-out da UE foi seguido por um salto no desemprego de mais de 50% entre a juventude e de 30% de toda a força de trabalho. O SYRIZA venceu as eleições parlamentares de 25 de Janeiro de 2015 com 36,3% do eleitorado. Faltando um único voto para assegurar uma maioria no parlamento, o SYRIZA fez uma aliança com o partido de extrema-direita ANEL, ao qual Tsipras deu o Ministério da Defesa.

Imediatamente depois de tomar posse, o primeiro-ministro Alexis Tsipras anunciou seus planos para renegociar com a oligarquia da UE e o FMI o bail-out da Grécia e o "programa de austeridade". Este falso posicionamento não podia ocultar sua impotência. Uma vez que o SYRIZA estava comprometido a permanecer na UE, a austeridade continuaria e outro oneroso bail-out se seguiria. Durante "reuniões internas", membros da "Plataforma de Esquerda" do SYRIZA no gabinete ministerial apelaram ao abandono da UE, ao repúdio da dívida e a forjar laços mais estreitos com a Rússia. Apesar de estarem totalmente ignorados e isolados, eles permaneceram como um impotente "sinal esquerdista" no gabinete ministerial.

Com Tsipras agora liberto para impor políticas de mercado neoliberais, milhares de milhões fluíram para fora da Grécia e os seus próprios bancos e negócios permaneceram em crise. Tanto Tsipras como a "Plataforma de Esquerda" recusaram-se a mobilizar a base de massa do SYRIZA, a qual havia votado em favor da acção e exigiu um fim à austeridade. O impertinente dos media, o ministro das Finanças Varoufakis, simulou um espectáculo com grandes gestos teatrais de desaprovação. Estes foram abertamente descartados pela oligarquia UE-FMI como travessuras de um impotente palhaço mediterrânico.

Superficiais como sempre, académicos de esquerda canadianos, estado-unidenses e europeus estavam amplamente inconscientes da história política do SYRIZA, da sua composição oportunista, da sua demagogia eleitoral e ausência total da luta de classe real. Eles continuaram a palrar acerca do SYRIZA como governo da "esquerda radical" da Grécia e cumpriram suas funções de relações públicas. Quando o SYRIZA abraçou flagrantemente os cortes mais selvagens contra os trabalhadores gregos e seus padrões de vida afectando a vida diária, os bem pagos e distintos professores finalmente falaram os "erros" do SYRIZA e serviram a "esquerda radical" deste ensopado de oportunistas! Suas grandes excursões oratórias à Grécia estavam acabadas e eles voaram para longe a fim de apoiar outras "lutas".

Ao aproximar-se o Verão de 2015, o primeiro-ministro Tsipras tornou-se ainda mais próximo de toda a agenda de austeridade da UE. O "querido Alexis" despediu o ministro das Finanças Varoufakis, cujo histrionismo havia irritado o ministro das Finanças da Alemanha. Euclid Tsakalotos, outro "radical" de esquerda, substituiu-o como ministro das Finanças, mas revelou-se ser um maleável subordinado de Tsipras, desejoso de implementar toda e qualquer das medidas de austeridades impostas pela UE sem as travessuras.

Em Julho de 2015, Tsipras e o SYRIZA aceitaram um duro programa de austeridade ditado pela UE. Isto rejeitava todo o Programa de Salónica do SYRIZA, proclamado no ano anterior. A totalidade da população e os membros da base do SYRIZA estavam cada vez mais irados, exigindo um fim à austeridade. Apesar de aprovarem um "cinturão de austeridade" para a sua base eleitoral de massa durante o Verão de 2015, Tsipras e sua família viviam no luxo numa villa generosamente emprestada por um plutocrata grego, longe das filas da sopa e barracas dos desempregados e pobres.

O primeiro-ministro Alexis Tsipras implementou políticas merecedoras do prémio "Traidor do Ano". A sua estratégia foi dúplice. Em 5 de Julho de 2015 ele convocou um referendo sobre a aceitação das condições do bail-out da UE. Pensando que os seus apoiantes "favoráveis à UE" votariam "Sim", ele tencionava utilizar o referendo como um mandato para impor novas medidas de austeridade. Tsipras julgou mal o povo: A sua votação foi um repúdio esmagador ao duro programa de austeridade ditado pelos oligarcas de Bruxelas.

Mais de 61% do povo grego votou "não" ao passo que apenas 38% votaram a favor das condições do bail-out. Isto não se limitou a Atenas. A maioria em todas as regiões do país rejeitou os ditames da UE – um resultado sem precedente! Mais de 3,56 milhões de gregos exigiram um fim à austeridade. Tsipras estava "confessadamente surpreendido" ... e desapontado! Ele secretamente e estupidamente pensava que o referendo lhe daria carta branca para impor austeridade. Quando os resultados da votação foram anunciados afixou a sua habitual cara risonha.

Menos de uma semana depois, em 13 de Julho, Tsipras renunciou aos resultados do seu próprio referendo e anunciou o apoio do seu governo ao bail-out da UE. Talvez para punir os eleitores gregos, Tsipras apoiou um esquema de austeridade ainda mais duro do que aquele rejeitado no seu referendo! Ele cortou drasticamente pensões públicas, impôs maciças altas regressivas de impostos e cortou US$12 mil milhões de serviços públicos. Tsipras concordou com o infame "memorando Judas" de Julho de 2015, o qual aumentavam o regressivo imposto geral sobre o consumo (IVA) para 23%, um imposto de 13% sobre alimentos, um aumento agudo nos custos médicos e farmacêuticos e de taxas de instrução, além de adiar a idade de reforma em cinco anos, para a idade de 67.

Tsipras continuou a sua violência "histórica" sobre o sofredor povo grego ao longo de 2016 e 2017. O seu regime privatizou mais de 71.500 propriedades públicas, incluindo o património histórico. Só a Acrópole foi poupada do leilão em bloco.. por enquanto! O desemprego resultante levou mais de 300 mil gregos educados e qualificados a emigrarem. Pensões cortadas para 400 euros levaram à desnutrição e a um triplicar de suicídios.

Apesar destas grotescas consequências sociais os banqueiros alemães e o regime de Angela Merkel recusaram-se a reduzir os pagamentos da dívida. A abjecção de Tsipras não teve efeito.

Altas agudas de impostos sobre combustíveis agrícolas e transporte para ilhas turísticas levaram a manifestações constantes e greves em cidades, fábricas, campos e auto-estradas.

Em Janeiro de 2017 Tsipras perdeu metade do seu eleitorado. Ele respondeu com repressão: asfixiando com gás e espancando gregos idosos que protestavam contra suas pensões de pobreza. Três dúzias de sindicalistas, já absolvidos pelos tribunais, foram reprocessados pelos promotores de Tsipras num vicioso "julgamento espectáculo". Tsipras apoiou os ataques dos EUA-NATO à Síria, as sanções contra a Rússia e os acordos de energia e militares de mil milhões de dólares com Israel.

Excepto durante a ocupação nazi (1941-44) e a guerra civil anglo-grega (1945-49), o povo grego não havia experimentado um declínio tão precipitado dos seus padrões de vida desde o tempo dos otomanos. Esta catástrofe ocorreu sob o regime Tsipras, vassalo da oligarquia de Bruxelas.

Turistas académicos de esquerda da Europa, Canadá e EUA têm "aconselhado" o SYRIZA a permanecer na UE. Quando as consequências desastrosas dos seus "conselhos políticos" se tornaram claros... eles simplesmente voltaram-se ao aconselhamento de outras "lutas" com os seus falsos "fóruns socialistas".

Conclusões
As traições de líderes "de esquerda" e "esquerdistas radicais" são devidas parcialmente às suas práticas comuns como políticos a fazerem acordos pragmáticos nos parlamentos. Em outros casos, antigos líderes extra-parlamentares e guerrilheiros foram confrontados com isolamento e pressão de regimes "de esquerda" vizinhos para submeterem-se a "acordos de paz" imperiais, como no caso das FARC. Enfrentando o fortalecimento maciço dos exércitos dos oligarcas, abastecidos e aconselhados pelos EUA, eles dobraram-se e traíram seus apoiantes de massa.

O quadro eleitoral dentro da UE encorajou a colaboração de esquerda com classes inimigas – especialmente banqueiros alemães, potências da NATO, militares dos EUA e o FMI.

Desde as suas origens, o SYRIZA recusou-se a romper com a UE e sua estrutura autoritária. Desde o seu primeiro dia de governo, ele aceitou mesmo as dívidas pública e privadas mais comprovadamente ilegais acumuladas pelos regimes corruptos do PASOK e da Nova Democracia. Em consequência, o SYRIZA foi reduzido a mendigar.

Inicialmente o SYRIZA poderia ter declarado a sua independência, salvado seus recursos públicos, rejeitado dívidas ilegais dos seus antecessores, investido suas poupanças em novos programas de emprego, redefinido suas relações comerciais, estabelecido uma divisa nacional e desvalorizado o dracma para tornar a Grécia mais flexível e competitiva. A fim de romper as cadeias de vassalagem e da oligarquia estrangeira que impuseram a austeridade, a Grécia precisaria sair da UE, renunciar à sua dívida e lançar uma economia socialista produtiva baseada em cooperativas auto-administradas.

Apesar do seu mandato eleitoral, o primeiro-ministro grego Tsipras seguiu o caminho destrutivo do líder soviético Mikhail Gorbachov, traindo seu povo a fim de continuar debaixo de uma aliança cega de submissão e decadência.

Se bem que vários líderes ofereçam árdua competição para o "Prémio Traidor do Ano", a traição de Alexis Tsipras tem sido mais longa, mais profunda e continua até os dias de hoje. Ele rompeu mais promessas e reverteu mais mandatos populares (eleições e referendos) mais rapidamente do que qualquer outro traidor. Além disso, nada excepto uma geração permitirá aos gregos recuperar sua esquerda política. A esquerda tem sido devastada pelas mentiras monstruosas e a cumplicidade dos antigos "críticos de esquerda" de Tsipras.

As obrigações de dívidas acumuladas pela Grécia exigirão pelo menos um século para terminarem – se o país puder mesmo sobreviver. Sem dúvida, Alexis Tsipras é o "Traidor do Ano" por unanimidade!!!

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Jonathan Cook

The National

Marwan Barghouti, o mais importante líder palestino preso, está em greve de fome. Sua influência política preocupa Mahmoud Abbas. Ammar Awad/Reuters

O presidente palestino, Mahmoud Abbas, deve se reunir com Donald Trump na Casa Branca na quarta-feira para discutir a revitalização do cadáver frio do processo de paz.

Em casa, as coisas estão esquentando. Há cólera na Cisjordânia, tanto nas ruas quanto nas fileiras do movimento Fatah de Abbas. O gatilho é uma greve de fome de duas semanas de duração realizada por prisioneiros palestinos.

Na quinta-feira passada, os palestinos fecharam seus negócios em uma demonstração de solidariedade, e no dia seguinte os jovens se chocaram com o exército israelense em um "dia de raiva".

Aproximadamente um quarto dos 6.500 prisioneiros políticos mantidos por Israel - quase todos em território israelense, violando o direito internacional - estão recusando alimentos em protesto por seu tratamento degradante. Eles querem reformas no sistema industrial de Israel de encarceramento. Cerca de 800.000 palestinos - 40% dos homens - passaram pelas células de Israel desde 1967.

Israel espera quebrar o espírito dos prisioneiros. O país encerrou os líderes em confinamento solitário, negou aos detentos atingidos acesso a um advogado, tirou rádios, e na semana passada começou a confiscar rações de sal - o único sustento juntamente com a água que os prisioneiros estão tomando.

A greve é ​​liderada por Marwan Barghouti, o líder palestino mais importante na cadeia - e o mais popular, de acordo com pesquisas.

Abbas apoia publicamente os grevistas, mas, em particular, diz-se que ele quer que o protesto termine o mais rápido possível. Relatórios no fim de semana revelou que ele havia exortado o presidente do Egito, Abdel Fattah el-Sisi, a interceder junto à América e Israel para ajudar.

Em parte, Abbas teme a influência de Barghouti, um homem muitas vezes descrito como o palestino Nelson Mandela e visto como o provável sucessor de Abbas. Notavelmente, o presidente palestino tem repetidamente marginalizado-o dentro Fatah.

Mas Abbas também está preocupado com o fato de que a greve de fome provoque violentos confrontos na Cisjordânia com as forças de segurança israelenses, prejudicando seus esforços para persuadir Trump a apoiar sua campanha diplomática pelo estado palestino.

Em vez disso, ele quer provar que pode apagar qualquer sinal do que Trump poderia ver como "terrorismo". Isso requer uma estreita cooperação em matéria de segurança com Israel.

A visita a Washington e a greve de fome colocaram em relevo a maior falha no movimento nacional palestino.

A estratégia de Abbas é estritamente de cima para baixo. Seu ponto de partida é que os estados ocidentais - aqueles que traíram consistentemente o povo palestino ao longo de muitas décadas - agora podem ser confiáveis ​​para ajudá-los a atingir um estado.

Desta assunção duvidosa, Abbas procurou suprimir qualquer coisa que jogue mal nas capitais ocidentais. A pressão só se intensificou sob Trump.

Por outro lado, a "batalha de estômagos vazios" é evidência de uma florescente estratégia de baixo para cima , uma resistência não violenta maciça. Nessa ocasião, as demandas se limitam à reforma das prisões, mas o impacto da greve pode se espalhar.

Não menos importante, o modelo de protesto, se houvesse sucesso, poderia sugerir sua relevância para um público palestino desiludido com a abordagem de Abbas. Eles também estão vivendo em células de planejamento de Israel, mesmo que maiores, ao ar livre.

É mais difícil do que nunca ignorar a lógica totalmente diferente dessas duas estratégias.

Para ter uma esperança de conquistar o governo Trump, Abbas deve persuadi-lo de que ele é a única voz dos palestinos.

Isso significa que ele deve colocar uma tampa sobre a greve de fome, encorajando-a a fracassar antes de os prisioneiros começarem a morrer e a fúria palestina irromper nos territórios ocupados. Sua aproximação é relatada como capaz de criar severas tensões dentro do Fatah.

Desejando apenas aumentar essas dificuldades, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu exigiu na semana passada que Abbas suspenda a ajuda financeira às famílias dos prisioneiros, chamando-a de compensação pelo terrorismo.

Abbas também se sente compelido a afirmar-se contra seus rivais do Hamas em Gaza. É por isso que na semana passada ele parou de financiar o combustível necessário para gerar eletricidade lá, tendo recentemente cortado serviços médicos e salários para os funcionários públicos de Gaza.

Sua esperança é que, ao girar os parafusos, o Hamas seja derrubado ou forçado a se submeter ao seu governo.

Mas, mais provavelmente, a fissura com o Hamas vai se aprofundar, forçando o movimento islâmico encurralado a outro confronto sangrento para se libertar do bloqueio de uma década de Israel. Essas divisões, a maioria dos palestinos compreendem cada vez mais, enfraquecem em vez de fortalecer sua causa. A resistência não-violenta em massa, como a greve de fome, por outro lado, tem o potencial de reunir Fatah e Hamas na luta e re-capacitar uma população palestina cansada.

Relatórios sugeriram que Barghouti chegou a um acordo com líderes do Hamas presos comprometendo-se a tal luta nos territórios ocupados, uma vez que Abbas tenha partido.

Uma luta popular de não-violência - bloqueando estradas de assentamento, marchando para Jerusalém, derrubando muros - seria difícil de caracterizar como terrorismo, mesmo para Trump. É o cenário do pesadelo do exército israelense, porque é o único confronto para o qual não tem resposta adequada.

Essa campanha de desobediência civil, no entanto, não tem chances de sucesso, desde que Abbas esteja lá para miná-la - e insistir em obedientemente perseguir ilusões em Washington.

28 de abril de 2017

Rojava, um projeto imperial popular

Judith Bello

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Jovens ativistas estão saindo em apoio à independência curda na Síria. Eles veem-se como "sujeitos" de um império inexorável e procuram maneiras de promover algum bem. É claro que nós, anciãos, não queremos nos ver como "súditos do império", mas a juventude atual não cresceu com as mesmas ilusões daqueles de nós que eram adolescentes no pós-guerra da Segunda Guerra Mundial nos anos cinquenta e sessenta. A maioria de nós não tinha noção sobre os horrores impostos ao mundo por nosso país até que a guerra do Vietnã interrompeu nossas vidas devido ao projeto. Mesmo assim, sentimo-nos capacitados dentro do nosso próprio país. Nossas vidas pessoais não foram limitadas por ela do jeito que eles são. Os jovens de hoje são cercados por império em todos os lados e eles não veem qualquer saída fácil. Então, eles se adaptam. Se eles não podem ser capacitados contra o império, talvez eles podem usá-lo para promover um objetivo positivo. Esse é o declive escorregadio, mas é real e compreensível.

Nós anciãos evitamos a realidade, mesmo quando os nossos melhores escritores dizem uma e outra vez o que um poder brutal do nosso país está na cena mundial. Embora a juventude pareça muito pronta para se adaptar (na minha opinião), muitos de nós mais velhos nem sequer agora reconhecemos a verdade do que os EUA são. Nós temos sido exatamente onde os jovens estão hoje. Apoiamos a criação e o crescimento de Israel. Nós nos opusemos à China de Mao e à União Soviética e não notamos muito as coisas horríveis que os EUA estavam fazendo no sul global da época. Nós, os EUA temos tido muita dificuldade em deixar outras pessoas se desenvolvem por sua própria conta, cometer seus próprios erros e crescer à sua própria maneira a partir de suas próprias raízes. Nosso sentido de nossa própria benevolência e poder nos atrai para os mesmos erros que as gerações anteriores cometeram.

Um problema imediato é o conceito de que precisamos usar o poder do império de maneira benevolente e apoiar esse ou aquele movimento. Assim que fazemos isso, cedemos todo o poder ao império e a Síria é mais um caso em que essa ideologia tem sido usada contra o povo da região repetidamente. O destino dos curdos no Iraque é desconsiderado, mas eles foram abertamente atacados pelo governo iraquiano durante a guerra Irã/Iraque durante os anos 80. Mesmo assim, em 2009, muitos jovens curdos me disseram que eram cidadãos iraquianos. Eles estavam prontos para tentar novamente. Mas a velha liderança não estava com eles.

Hoje, os curdos no Iraque não estão indo tão bem. Eles estavam ótimos durante a guerra porque a guerra não estava acontecendo lá. Mas, agora, como um protetorado dos EUA, eles estão pagando suas dívidas. Jalal Talabani, que foi presidente do Iraque por um longo tempo, cujo partido costumava equilibrar o governo local curdo de Masoud Barzani para que parecesse uma democracia, se foi. No seu lugar está o partido 'Change' que foi educado na democracia através de viagens da USAID aos parlamentos europeus e que reivindica o manto da "democracia" só para si. O 'Change'; partido, que foi formado a partir de uma ruptura hostil do PUK de Talabani enquanto ainda estava no poder em Bagdá, não tem raízes, nem raízes locais nem nacionais. Agora, o Curdistão é uma ditadura emergente administrada por um chefe tribal que ultrapassou seu oponente significativo, mas não mudou seu ethos.

A liderança do Curdistão iraquiano tem metas irrealistas. Eles falam sobre democracia e liberdade, mas nunca abordaram de forma realista as questões da pobreza e da diversidade. E agora, a oportunidade está diminuindo. Eles obtiveram melhores acordos com os EUA e a Turquia, de modo que o KRG (Governo Regional Curdo) se recusou a pagar suas dívidas ao governo federal do Iraque. Agora eles estão despejando seu petróleo barato na Turquia através do mesmo canal que o ISIS usa e eles não podem obter seu subsídio do governo federal do Iraque. O que vai volta, como dizem. Os curdos têm forças americanas usando seu país como base, como o Kosovo, a Coreia do Sul, as Filipinas, Honduras, Djibuti e muitos outros países ao redor do mundo. E a Peshmerga funciona como uma extensão das forças imperiais. Mas o que eles estão realmente obtendo de volta?

A Turquia, um importante aliado da OTAN está a bombardear o Curdistão iraquiano numa base diária, tal como foi em 2009. Dizem que estão a atacar os campos do PKK, mas mataram muitos civis e destruíram grande parte das terras produtivas do Curdistão e envenenaram o país. Montes de onde vem a água. Os curdos iraquianos querem fazer tudo em curdo, mas há poucos livros escritos em curdo, então eles trocaram o árabe pelo inglês como a linguagem contextual através da qual interagem com o vasto mundo. Quando eu estava lá eles estavam falando sobre a união com os curdos de Rojava, e deixando de escrever a sua língua em script árabe.. Os curdos ocidentais usam o alfabeto turco. Mas a Turquia e as guerras tiraram essa oportunidade da mesa por enquanto.

A classe média curda que estava crescendo em uma enorme onda de esperança quando eu estava lá em 2009, está perdendo seus mentores e seus recursos e as conexões que sustentavam suas aspirações. Eles estão sendo inundados com refugiados do Iraque maior, ameaçados pelo ISIS e estão ficando ficando sem dinheiro. No entanto, seu governo ainda está forçando para tomar mais território do Iraque para a sua nação curda. Mas eles não podem cuidar ou ser adequadamente responsivo à população pela qual já são responsáveis.

Foi uma terrível vergonha que os curdos perderam a oportunidade de ter seu próprio país com a dissolução do Império Otomano. Mas os Estados Unidos tiveram uma mão nessa decisão também. A decisão foi tomada para autorizar Attaturk, um general europeu nascido do Império Otomano que planejava "modernizar" (ler "ocidentalizar") a Turquia. Esse tempo passou e as circunstâncias mudaram. Os países que atualmente existem no Oriente Médio podem ou não sobreviver, mas nós aqui decidirmos seu destino é a continuação de uma flagrante violação imperial dos direitos do povo daquela região. Quando vamos aprender?

Não podemos decidir qual força nessas regiões devastadas pela guerra é realmente a que será melhor para as pessoas de lá com base em nossas suposições sobre sua realidade. É por isso que temos de nos retirar do campo em vez de tentar determinar o que é melhor para as pessoas e gerir os eventos para que isso aconteça. Não podemos controlar o império. Só podemos resistir a isso. Para nós decidir o que é melhor para as pessoas é como pessoas religiosas que pensam que podem apreender Deus e a vontade de Deus de uma maneira particular. Nossa imaginação não é grande o suficiente para abarcar Deus. Nós não podemos agir como Deus e tomar decisões para estas regiões onde os decisores imperiais têm sido como abelhas causando estragos por dois séculos.

Rojava é um interessante exemplo desse fenômeno. A campanha por um Curdistão/Rojava livre foi criada pelo império dos sonhos de um império perdido. Os líderes do movimento de Rojava são imigrantes curdos turcos cujas famílias chegaram à Síria há algumas décadas para escapar de pogroms turcos contra curdos. Não são curdos sírios. Eles não são a maioria na região que cobiçam o controle. Há muitos cristãos sírios de diferentes raias vivendo lá e outros árabes, juntamente com os curdos sírios que estabeleceram as comunidades lá que existem há milênios, e têm sido parte da Síria desde a queda do Império Otomano.

Os YPG são bons lutadores e aconselhados pelo PKK turco porque são uma extensão do PKK. Até hoje, a maioria dos curdos e das terras curdas está na Turquia. A opressão curda na Turquia precisa acabar, mas ninguém está sequer abordando essa questão. Curdos na Turquia estão sendo abatidos atualmente com impunidade, sacrificados ao aperto paranoico do presidente Erdogan sobre o poder de lá. Mesmo assim, a possibilidade de independência foi cedida e há um entendimento de que de alguma forma os curdos devem se tornar uma parte respeitada da sociedade turca.

A independência de Rojava é apoiada por uma minoria de pessoas no norte da Síria e o YPG era aliado do governo sírio até que os americanos vieram e os convenceram de que eles poderiam ter seu próprio país, assim como eles convenceram a Irmandade Muçulmana e outras facções extremistas na Síria que lutariam apenas se os EUA a) certificasse que ganhariam e b) entregar-lhes-ia o poder sobre o país como aliados dos EUA, Turquia, Israel, Emirados Árabes Unidos etc. A negociação vazada entre o secretário de estado John Kerry e os representantes da "oposição" síria à margem de uma conferência no ano passado torna isso muito claro. A reação turca à expansão curda durante a guerra é a prova de que Rojava independente é um não-iniciante no tabuleiro de xadrez internacional.

Os Curdos de Rojava falam sobre a democracia na liberdade, mas, apresentam-se como marxistas, e estão tomando a terra das pessoas que há muito tempo vivem lá e dividindo-a entre os pobres, eles próprios. Muitas das antigas famílias curdas estão representadas entre a classe média e média alta em Damasco. Os refugiados curdos na Síria não viveram em qualquer tipo de pobreza única. A Síria sempre foi um espaço amigável para os refugiados. A razão pela qual os curdos turcos não receberam a cidadania síria até logo após a guerra começar está relacionada ao fato de que nenhum dos muitos refugiados que se estabeleceram na Síria desde as primeiras ondas de palestinos que chegaram há mais de 50 anos têm cidadania.

Concordo que este é um problema, mas na região não tem sido a prioridade principal com o povo ou o governo - exceto os curdos que vieram para o norte da Síria nos anos 80. Isso porque, durante um século, o governo turco da sua terra natal lhes recusou a cidadania plena. Ao mesmo tempo, os refugiados na Síria viveram bem, participaram da sociedade síria, receberam benefícios indiscriminados do Estado, incluindo educação e assistência médica, e o direito de participar na economia sem as limitações específicas que existem em muitos países vizinhos. A maioria dos curdos que haviam imigrado para o norte da Síria da Turquia receberam a cidadania síria em 2012 sob a iniciativa tomada então de unir o país e atender às demandas das forças dissidentes que estavam sendo atraídas para a guerra contra seu próprio país naquela época.

Agora os americanos querem dar-lhes o seu próprio país em uma região que não é nem sua pátria tradicional nem nossa para dar. A conversa sobre Democracia e Liberdade é uma grande aspiração e eles podem trabalhar nela em uma Síria reunida dentro de suas próprias comunidades, se a Síria puder sobreviver a esta guerra sem ser despedaçada. Não é nosso direito decidir se isso deve acontecer ou não mais do que o nosso direito de decidir se o governo sírio deve alistar aliados internacionais para ajudar a sua resistência a uma guerra de agressão internacional contra a República Árabe Síria.

Não podemos controlar a evolução! Pensar que podemos é simplesmente abraçar outro sabor de império e alcance colonial que nos parece melhor do que as alternativas imperiais que entendemos. Podemos sentir-nos capazes de acreditar que podemos utilizar as forças do império para algum bem percebido, mas sempre haverá conseqüências não intencionais. Permitir que os povos da região tomem suas próprias decisões internas lhes dá a liberdade de expressar suas aspirações em um contexto local e lidar com suas próprias conseqüências não intencionais; para se relacionar com o mundo ao seu redor livremente em vez de ser usado pelos poderosos para os fins dos poderosos.

Palestina e vozes judaicas devem desafiar conjuntamente o passado de Israel

Ramzy Baroud

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Israel recorreu a três estratégias principais para suprimir os pedidos palestinos de justiça e direitos humanos, incluindo o direito de retorno para os refugiados.

Uma é dedicada a reescrever a história; outra tenta distrair totalmente das realidades presentes e uma terceira visa a reivindicação da narrativa palestina como essencialmente israelense.

A reescrita da história aconteceu muito mais cedo do que alguns historiadores assumiriam. A máquina hasbará ("explicação") israelense entrou em movimento quase simultaneamente com o Plano Dalet (Plano D), que viu a conquista militar da Palestina e a limpeza étnica de seus habitantes.

Mas o discurso real sobre a 'Nakba' - ou a 'Catástrofe' - que aconteceu ao povo palestino em 1947-48 foi constituído nos anos 50 e 60.

Shay Hazkani revelou o fascinante processo de como o primeiro-ministro de Israel, Ben Gurion, trabalhou em estreita colaboração com um grupo de estudiosos judeus israelenses para desenvolver uma versão dos eventos para descrever o que aconteceu em 1947-48: a fundação de Israel e a destruição da Palestina.

Ben-Gurion queria propagar uma versão da história que fosse consistente com a posição política de Israel. Ele precisava de "evidência" para apoiar essa posição.

A "evidência" acabou se tornando "história", e nenhuma outra narrativa foi permitida desafiar a perspectiva de Israel sobre a 'Nakba'.

"Ben-Gurion provavelmente nunca ouviu a palavra 'Nakba', mas logo no início da década de 1950, o primeiro primeiro-ministro de Israel compreendeu a importância da narrativa histórica", escreveu Hazkani.

O líder israelense atribuiu a acadêmicos do Serviço Civil a tarefa de formular uma história alternativa que continua a permear o pensamento israelense até hoje.

Distrair-se da história - ou a realidade atual da ocupação terrível da Palestina - tem estado em movimento por quase 70 anos.

A partir dos primeiros mitos da Palestina sendo uma "terra sem pessoas para um povo sem terra", à afirmação de hoje de que Israel é um ícone da civilização, tecnologia e democracia cercado por selvagens árabes e muçulmanos, as distorções oficiais de Israel são implacáveis.

Assim, enquanto os palestinos estão se preparando para comemorar a guerra de 5 de junho de 1967, que levou à ocupação militar de tão longe, 50 anos, Israel está lançando uma grande festa, uma grande "celebração" de sua ocupação militar dos palestinos.

O absurdo não está escapando de todos os israelenses, é claro.

"Um estado que comemora 50 anos de ocupação é um estado cujo senso de direção se perdeu, sua capacidade de distinguir o bem do mal, arruinada", escreveu o comentarista israelense Gideon Levy no Haaretz.

"O que exatamente há para comemorar, israelenses? Cinqüenta anos de derramamento de sangue, abuso, desinteresse e sadismo? Só as sociedades que não têm consciência celebram esses aniversários".

Levy argumenta que Israel ganhou a guerra de 1967, mas que "perdeu quase tudo o mais".

Desde então, a arrogância de Israel, a detestação do direito internacional, "o desprezo contínuo pelo mundo, o boato e o bullying" alcançaram alturas sem precedentes.

O artigo de Levy intitula-se: "Nossa Nakba".

Levy não está tentando recuperar a narrativa palestina, mas está registrando sucintamente que os triunfos militares de Israel foram uma aflição, especialmente porque não foi seguido por qualquer senso de reflexão nacional ou tentativa de corrigir as injustiças do passado e do presente.

No entanto, o processo de reivindicar o termo "Nakba" tem sido perseguido astutamente por escritores israelenses por muitos anos.

Para os estudiosos, "a Nakba Judaica" refere-se aos judeus árabes que chegaram ao recém-independente Israel, em grande parte baseados nas exigências de líderes sionistas para que os judeus em todo o mundo "retornem" à pátria bíblica.

Um editorial do "Jerusalem Post" reclamou que "a propaganda palestina persuadiu a opinião pública mundial de que o termo 'refugiado' é sinônimo do termo 'palestino'".

Ao fazer isso, os israelenses que tentam sequestrar a narrativa palestina esperam criar um equilíbrio no discurso, que é, naturalmente, inconsistente com a realidade.

O editorial coloca o número de "refugiados judeus" da "Nakba Judaica" em 850.000, um pouco acima do número de refugiados palestinos que foram expulsos pelas milícias sionistas sobre a fundação de Israel.

Felizmente, tais afirmações falsas são cada vez mais desafiadas por vozes judaicas, também.

Algumas vozes - mas significativas - entre intelectuais israelenses e judeus em todo o mundo ousam reexaminar o passado de Israel.

Eles estão confrontando corretamente uma versão da história que foi aceita em Israel e no Ocidente como a verdade incontestada por trás do nascimento de Israel em 1948, a ocupação militar do que restava da Palestina em 1967 e outras conjunções históricas.

Esses intelectuais estão deixando uma marca no discurso Palestina-Israel onde quer que eles vão. Suas vozes são particularmente significativas ao desafiar os truísmos oficiais israelenses e os mitos históricos.

Caluniando o populismo: Um hábito arrepiante da mídia

por Paul Street

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Eu imagino que não sou o único observador político e midiático enojado com a referência habitual dos meios empresariais dominantes (“mainstream”) aos políticos xenófobos, de direita, brancos-nacionalistas e neofascistas como Donald Trump, Geert Wilders, Nigel Farage, e Marine Le Pen como "populistas". O populismo bem entendido é sobre a oposição popular e democrática ao domínio do poder monetário - ao reino da riqueza concentrada. Surgiu da luta dos agricultores radicais pela justiça social e econômica e pela democracia contra a plutocracia dos capitalistas Barões Ladrões da nação durante o final do século XIX. Era um movimento da esquerda. Como observa o autor e jornalista de esquerda Harvey Wasserman:

"Os Morgans, Rockefellers e seus semelhantes capturaram a revolução industrial que dominou os EUA após a Guerra Civil. Os agricultores do Sul e do Oeste lutaram com um movimento social de base... Eles formaram o Partido Popular. Suas plataformas socialistas exigiam a posse pública das principais instituições financeiras, incluindo bancos, ferrovias, serviços públicos de energia e outros monopólios privados que esmagavam o bem-estar público. 
Em suas convenções nacionais em Omaha, em 1892, e em St. Louis, em 1896, e em outros lugares, eles exigiram o fim da propriedade de terra de empresas e estrangeiros. Eles queriam uma moeda nacional baseada em alimentos em vez de ouro e prata. Eles endossaram cuidados médicos universais acessíveis, educação pública gratuita e uma garantia geral do básico da vida para todos os seres humanos. Eles exigiram direitos iguais para as mulheres, incluindo o voto... Eles também pregavam a unidade racial, especialmente entre os agricultores negros e brancos no Sul, e entre os trabalhadores nativos e imigrantes nas cidades".

Os populistas contemporâneos dignos do rótulo são esquerdistas. Eles defendem "direitos humanos, democracia social, paz e sanidade ecológica" (Wasserman). Apoiam a igualdade racial e étnica e a unidade no interesse da solidariedade da classe trabalhadora e a luta de baixo para cima. Eles querem que o governo sirva a grande maioria da população da classe trabalhadora da população e o bem comum, não poucas empresas ricas e financeiras.

Os meios dominantes às vezes têm a decência de distinguir entre o "populismo de esquerda" (socialismo democrático) de um Evo Morales, um Jean-Luc Melenchon (candidato presidencialista eco-socialista francês) ou um Jeremy Corbin (líder do Partido Trabalhista Britânico) por um lado e o "populismo de direita" de um Trump, Le Pen, Wilders, ou Steve Bannon, por outro lado. Mas os criadores desta distinção não entendem que "populistas da direita" são fascistas. "Seu objetivo", escreveu Wasserman, "tem uma definição clara, como proposto pelo autor do termo, Benito Mussolini: "Controle corporativo do Estado". Além disso:

"Quando tomam o poder, eles se tornam nacional-socialistas, usando o governo para enriquecer as corporações e os ricos, ao invés de socialistas democratas, ou social-democratas, usando o Estado para servir o povo. Os fascistas apoiam o enriquecimento dos ricos e o inferno para o resto de nós. Eles são racistas, misóginos, anti-ecológicos, militaristas e autoritários. Eles odeiam a democracia, a liberdade de expressão e uma mídia aberta. Tomam o poder fomentando ódio e a divisão. Le Pen, agora na direção da liderança da França, é uma fascista clássica..."

Trump não é populista. Seu plano fiscal divulgado na última quarta-feira pelos veteranos da Goldman Sachs e funcionários da Casa Branca, Gary Cohn e Steven Mnuchin, reduziria as alíquotas de imposto de renda para os negócios de 35% para 15%. O sistema Trump inclui um corte de impostos "pass-through" sobre o rendimento do negócio, que é atualmente tributado às taxas de imposto de renda individual dos proprietários de negócios, em vez da taxa corporativa.

Chamando a proposta de Trump como "um passo muito grande exatamente na direção errada", Josh Bivens e Hunter Blair, do Economic Policy Institute, afirmam que o corte de impostos "ajudará os gestores de private equity e pessoas como o presidente Trump: pessoas ricas que agora serão capazes de reconfigurar seus impostos reclassificando-se como contratados independentes. "

Outra parte regressiva do plano de Trump seria liquidar o imposto mínimo alternativo, que se destina a impedir os super-ricos de usar brechas para escapar de toda a responsabilidade tributária. O trunfo aprofundaria ainda mais a desigualdade ao revogar o imposto sobre a propriedade da riqueza transferida de pessoas falecidas para seus herdeiros.

Robert Weissman, presidente da Public Citizen, chama o plano tributário de Trump de "populismo Goldman Sachs".

Como os jornalistas podem continuar a chamar o bilionário e os bilionários do presidente Trump um "populista" à luz de tais iniciativas políticas oligárquicas é uma questão interessante.

Claro, Trump é algo pior do que apenas um não-populista. Ele é um neofascista que espera reunir apoio branco da classe trabalhadora para sua agenda plutocrática falsamente-populista com uma bebida tóxica de hipermilitarismo, nativismo de imigração, racismo de lei e ordem, sexismo e anti-intelectualismo. Como Hilter no início dos anos 30, Trump espera usar o bode expiatório de outros demonizados e estrangeiros - muçulmanos, imigrantes mexicanos, "China" e outros alvos (exportadores madeireiros canadenses!) - para desviar a atenção popular de seu serviço para os ricos e poderosos.

Às vezes, os jornalistas tradicionais não fazem nenhum esforço para distinguir entre as variantes "direita e esquerda" do populismo. Em uma recente reflexão intitulada "Populismo Ocidental pode estar entrando em uma adolescência inábil", os repórteres do The New York Times Max Fisher e Amanda Taub apagam completamente a versão de esquerda. Fisher e Taub proclamam que "uma onda de eleições recentes parecia oferecer evidências contraditórias sobre se o populismo está avançando ou retrocedendo. Ele triunfou na votação britânica para deixar a União Européia e na corrida presidencial americana [vitória de Trump], ficou aquém das eleições holandesas [a derrota do nacionalista holandês Geert Wilders] conquistou seu maior sucesso na primeira rodada presidencial da França [21% de Le Pen]..."

Não importa que todos os políticos e partidos que Fisher e Taub chamam de "populistas" sejam na realidade neofascistas. Combinam a lealdade a um modelo feio e autoritário do capitalismo com o nacionalismo branco, a imigração, o racismo, o sexismo e um apelo aos "valores tradicionais".

Enquanto isso, a mídia tradicional exclui políticos mais próximos do populismo real - líderes de esquerda como Corbin e Melenchon - como "a extrema esquerda".

Suponho que é demais esperar que a mídia corporativa dos EUA reconheça que um neofascista se senta na Casa Branca como representante de um dos dois principais partidos capitalistas da nação. Poder-se-ia pelo menos esperar que eles pudessem usar a palavra F (fascismo) para descrever os grupos de milícias brancas-nacionalistas mais abertamente fascistas que têm visto arrepiantes ganhos de adesão sob Obama e Trump. Até agora, esses grupos também evitaram uma descrição precisa como fascistas pelas autoridades de notícias "mainstream" dos EUA (veja isto de "P"BS, por exemplo) - um fato perturbador. Não é um bom presságio.

O NAFTA precisa ser substituído, não renegociado

Jim Goodman

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

O Acordo de Livre Comércio da América do Norte deve ser substituído por um acordo comercial transparente que garanta que os agricultores dos três países, Canadá, México e Estados Unidos, recebam preços justos pela sua produção, garantindo aos consumidores o direito de conhecer o conteúdo e a origem de seus alimentos e que proteções ambientais fortes sejam postas em prática para proteger a sustentabilidade das comunidades rurais.

Embora a atual estrutura do NAFTA tenha aumentado o comércio entre o Canadá, o México e os Estados Unidos, as margens de lucro das fazendas não aumentaram. Os comerciantes multinacionais de grãos fizeram grandes lucros com dumping de milho subsidiado dos EUA sobre o México, esmagando grande parte da economia agrícola do México ao ponto de que os bispos católicos mexicanos dissessem que o NAFTA estava levando à "morte cultural" de sua nação. Os acordos comerciais devem promover o comércio justo que apoie os agricultores de todos os países, não apenas os interesses financeiros das corporações multinacionais do agronegócio.

Para dar apenas um exemplo recente de como as comunidades rurais sofrem com as políticas comerciais imprudentes que promovem o lucro das empresas à custa dos agricultores, a Grassland Dairy Products, a maior fabricante de manteiga da nação, informou 75 produtores de leite de Wisconsin que, a partir de 1º de maio, seu leite não seria mais necessário, pois, devido a mudanças no sistema de preços do leite no Canadá, compradores canadenses cancelaram contratos para importar o equivalente a um milhão de libras de leite por dia.

A administração da Grassland estava ciente das mudanças próximas no sistema canadense do preço do leite por ao menos diversos meses, mas a Grassland deu a seus fazendeiros o grito de advertência mínimo e deixou-os com muito poucos opções do marketing.

Os processadores dos EUA, como Grassland, estavam explorando uma brecha no acordo comercial que lhes permitia enviar leite ultrafiltrado para as fábricas de queijos canadenses, desde que fosse classificado como um "ingrediente" na fronteira. Uma vez que chegou às plantas sua classificação foi alterada para "laticínios" para cumprir legalmente padrões de produção de queijo canadense.

O Canadá não impôs novos impostos ou tarifas sobre as importações de produtos lácteos dos EUA, eles simplesmente criaram uma nova "classe" de leite que é fixada ao preço do mercado mundial, assim como as importações dos EUA. Dada esta equalização de preços, os produtores de queijo canadenses agora podem comprar leite canadense.

Os canadenses querem "comprar canadense" assim como Trump diz que devemos "comprar americano". Atualmente, o Canadá importa produtos lácteos norte-americanos no valor de cinco vezes o valor de suas exportações leiteiras para os EUA. Processadores e produtores dos EUA assumiram que o NAFTA lhes prometeu um mercado sem fim para sua política de excesso de produção - política comercial imprudente.

Como observam os canadenses, o verdadeiro problema com a indústria láctea dos EUA é a superprodução maciça.

Porque as explorações leiteiras dos EUA continuam a expandir-se e a empurrar para uma produção sempre maior, em algum ponto, (agora) não há nenhuma sala no mercado, o mercado está saturado e os fazendeiros sofrerão. Processadores, como a Grassland no entanto estão. Eles censuram o Canadá cancelando seu contrato, mas não têm problema em fazer o mesmo com seus fazendeiros.

Ironicamente, a Garassland também tem financiado a expansão da fazenda de 5 mil vacas da Cranberry Creek Dairy em Dunn County para inundar ainda mais o mercado de leite doméstico. E, como observou Darin Von Ruden, presidente do Wisconsin Farmers Union, a Grassland estava cortando suas compras de leite como parte do plano para construir esta empresa de propriedade de 5.000 vacas leiteiras.

Os acordos comerciais como o NAFTA prosperam em especulações de commodities que estimulam os lucros corporativos, ao mesmo tempo em que deixam de lado os agricultores familiares, prejudicam os consumidores e destroem o meio ambiente.

O NAFTA deve ser substituído por um novo acordo de Comércio Justo, que garanta que os agricultores recebam preços que, no mínimo, cumpram seus custos de produção mais um salário digno. Os agricultores não devem ser confrontados uns com os outros em uma corrida para o fundo. Eles merecem ter acesso aos seus próprios mercados domésticos e ser protegidos de produtos importados que têm preços injustamente abaixo do custo de produção (dumping). Além disso, as pessoas de todos os países participantes não devem estar sujeitas a regras comerciais que restrinjam o seu direito de: rejeitar importações que não satisfaçam as suas preferências sobre o teor de OGM, uso de pesticidas, etiquetas de alimentos ou proteger os seus sistemas alimentares locais.

Os direitos humanos fundamentais dos trabalhadores agrícolas: salários justos e condições de trabalho devem ser protegidos por regras comerciais que apoiem o emprego e o desenvolvimento rural nos três países.

O alimento é um direito humano. A soberania alimentar não pode ser comprometida por acordos comerciais concebidos por interesses corporativos. Todas as nações têm o direito de decidir o que comerão, como será cultivado e quem o controlará. Ninguém deve ser forçado a aceitar produtos agrícolas que eles não querem.

The H-Word de Perry Anderson - siga o líder

Uma história da hegemonia mostra que há limites rígidos para o poder suave

Adam Tooze

Financial Times

Um relevo em mármore do século 5º a.C. do Parthenon, Atenas, localizado agora no museu britânico. Bridgeman Images.

Para afastar os poderosos persas no século V a.C., os estados da cidade grega formaram a Liga de Delos. A líder da Liga era Atenas. Mas qual era a natureza da preeminência ateniense? Era uma superioridade imposta pelo poder, comandando apenas aquiescência forçada, ou a liga acabou por ser fundada no apego e no consentimento? Os contemporâneos não chegaram a um consenso, nem os historiadores. Mas o termo-chave cunhado no decorrer desse argumento ecoou nos próximos milênios. O que primeiro Atenas e depois Esparta exerciam, Aristóteles nos diz, era hegemonia.

O termo ficou fora de uso com os romanos - para eles, a República e o Império bastaram. Mas como Perry Anderson mostra em sua fascinante história, The H-Word, a discussão sobre hegemonia foi revivida em meados do século XIX por aqueles que achavam que na Alemanha fraturada e pós-napoleônica, a Prússia poderia desempenhar o papel que Atenas já teve na Grécia. Desde então, falar de hegemonia nunca mais foi abandonado. O termo foi usado pelos marxistas revolucionários, teóricos das relações internacionais, cientistas políticos e economistas. Hoje, a hegemonia é o pão com manteiga das páginas de opinião. Com a ascensão de Trump acabou a hegemonia do liberalismo estilo Davos? A Alemanha de Angela Merkel surgirá como a nova hegemonia liberal, ou o manto da liderança global passou para Pequim? Para Anderson, desde a década de 1960 uma das principais vozes na esquerda acadêmica, questões semelhantes estão presentes no seu trabalho que vai desde as Linhagens do Estado Absolutista (1974) até a história intelectual da política externa americana moderna de 2015.

Dos gregos em diante, a questão foi: a hegemonia simplesmente colocou o brilho do consentimento sobre formas de dominação mais nuas? Em retrospectiva, parece óbvio que a hegemonia do século 19 foi a Grã-Bretanha. A Grã-Bretanha era um império. Na Índia, o coração desse império, governou principalmente pela força. Como Ranajit Guha, pai da Escola de Estudos Subalternos da história de baixo e um dos heróis de Anderson, descreveu, o Raj assegurou o domínio, mas sem hegemonia. Apoiou-se na força e não na persuasão. Mas isso não era típico do papel mais amplo da Grã-Bretanha, que combinava o poder de fogo e o alcance da Royal Navy com formas de influência mais sutis. O império informal da Grã-Bretanha apoiou-se menos na diplomacia da canhoneira do que na tecnologia, dinheiro e idéias. A rede global de cabos, o "sistema de Westminster", o direito comum, a religião do livre comércio, a visão da modernidade oferecida pelo Palácio de Cristal e a Grande Exposição de 1851: todas estas coias juntas definiram sua hegemonia.

Uma das coisas impressionantes reveladas pela pesquisa de Anderson é que a discussão aberta sobre o papel da persuasão no exercício do poder tende a ser um sinal de seu comprometimento fraco. Como Anderson mostra, foi precisamente quando a preeminência da Grã-Bretanha vitoriana desapareceu no final do século 19 que proliferou o uso do termo hegemonia. Quando estados desafiadores, como Japão, Alemanha e Itália, apareceram em cena, a hegemonia tornou-se um termo não de aprovação, mas de crítica. A Alemanha do Kaiser ameaçou a hegemonia no continente. Os marxistas russos adotaram o termo para descrever como a classe trabalhadora levaria as massas camponesas à revolução. De uma cela da prisão na Itália fascista, Antonio Gramsci, líder do comunismo italiano, invocou a hegemonia para conceituar como o burguês manteve o controle sobre o poder.

Para Gramsci, ficou claro que a hegemonia no século 20 ainda falaria inglês, mas com um sotaque americano. Ele foi um dos primeiros a descrever uma nova era de riqueza produzida em massa, o que ele chamou de Fordismo. A América também deu ao mundo Woodrow Wilson e sua promessa de autodeterminação. Hollywood era a fábrica de sonhos do mundo.

Nas décadas de 1920 e 1930, a influência americana estava em todo lugar. O mundo estava à espera do poder americano. Mas, como observou um contemporâneo perspicaz, a guerra entre os dois países manteve-se como "presença ausente". Ela exerceu uma enorme influência, mas fez isso indiretamente. À medida que surgiu uma nova onda de insurgentes - Alemanha nazista, Japão imperial - o que foi revelado foi os dolorosos défices de hegemonia sem dominância, influência e persuasão sem o respaldo do compromisso político ou os meios de dissuasão ou coerção.

Seria preciso uma segunda guerra mundial para que os EUA emergissem como um poder disposto e capaz de impor uma ordem na Europa e na Ásia Oriental. A Europa testemunharia no Plano Marshall o que o historiador econômico Charles Kindleberger chamaria a era da hegemonia americana de pleno direito. No Massachusetts Institute of Technology na década de 1970, Kindleberger deu a pesquisa da história que deu forma a uma geração inteira de cientistas políticos e economistas americanos. A economia mundial, argumentou Kindleberger, funcionou bem quando tinha uma âncora. Gemeu e deslizou quando não.

Mais uma vez, no momento em que foi teorizada, a hegemonia estava em crise. À medida que o sistema monetário de Bretton Woods entrou em colapso, a estagnação se estabeleceu. Esse foi um efeito colateral inevitável da perda de liderança dos Estados Unidos? A economia mundial realmente precisa de um centro dominante? Com a Europa recuperada da destruição da guerra e com o crescimento do Japão, a cooperação e a coordenação não podem ser suficientes? É precisamente o que Ronald Reagan e Margaret Thatcher e seus seguidores na Europa - Helmut Kohl, Bettino Craxi e, eventualmente, François Mitterrand também - entregariam. À medida que a posição da América era relativizada, o que surgiu não foi o caos, mas algo mais abrangente: a hegemonia liberal renasceu sob a forma de revolução do mercado ou, como aprendemos a chamá-la, neoliberalismo.

Em 1989, a nova hegemonia parecia estar pronta para declarar a vitória final, nada menos do que o fim da história. Como sabemos agora, isso era prematuro. Lemos Anderson porque nenhum comentador histórico tomou mais a sério a estrutura intelectual do poder liberal e ninguém a criticou de forma mais eficaz. Nós lemos Anderson hoje com uma atenção ainda maior, porque os 10 anos desde o início da crise financeira global em 2007 deram uma esmagadora reivindicação da predição básica do marxismo acadêmico: a hegemonia liberal não é auto-sustentável. É ameaçado por crise, assombrada pela incerteza radical e infinitamente produtiva de inimigos dentro e fora.

Na verdade, dado os eventos de 2016, podemos ter chegado ao ponto em que, para citarr uma frase de Donald Trump, a esquerda intelectual "está cansada de ganhar". The H-Word terminou em outubro de 2016 e podemos perceber que Anderson estava afiando suas armas críticas para lidar com a coroação de Hillary Clinton. Em vez disso, como todos os outros, enfrenta o desafio de dar sentido a uma presidência muito diferente. Como o principal crítico da hegemonia liberal responderá ao deslumbrante deslocamento do melífluo Barack Obama pelo poderoso ataque de Trump e sua comitiva? Como é comum observado, Trump está deixando a comédia fora do negócio. Ele fará o mesmo com o sofisticado esquerdismo intelectual? Dada a evidente ameaça da direita e sua própria fraqueza política, a esquerda deveria convir como s apelos centristas para a unidade, formando uma espécie de Frente Popular do século XXI? Pode-se imaginar que Anderson concorda. No seu pico, a hegemonia liberal estava muito feliz em declarar, "não há alternativa". Seria dolorosamente irônico se essa declaração hegemônica exigisse uma força prática ainda maior em meio à decomposição simbólica do liberalismo.

27 de abril de 2017

Afinal em que é que os franceses votaram? A União Europeia contra a Nação Francesa

Dimitris Kazakis


Tradução / Macron ganhou com 23.75% dos votos, enquanto Le Pen atingiu apenas 21.53%, de acordo com os resultados oficiais. O republicano François Fillon e o candidato da esquerda independente, Jean-Luc Mélenchon, alcançaram 19,91% e 19,64%, respectivamente, enquanto o ex-candidato do Partido Socialista, Benoit Hamon ficou-se apenas pelos 6,35% dos votos. Os restantes 8,82% dos votos foram partilhados pelos restantes 6 candidatos à Presidência francesa.

O colapso do bipartidismo tradicional
O que mostram estes resultados? Em primeiro lugar, um colapso impressionante do bipartidismo tradicional, dos dois partidos alternantes que dominaram o poder presidencial durante muitas décadas. Por um lado, o partido de centro-direita, que se originou da antiga direita de Gaulle, e que em 2002 deu origem, sob a então liderança do presidente Jacques Chirac, à UMP (União para um movimento popular). Após a derrota imposta por Hollande a Sarkozy nas eleições presidenciais de 2012 e a turbulência em que entrou o centro-direita graças a este petit Napoléon – como Sarkozy gostava de ser chamado pelos média e pelos amigos, sem talvez saber quem era Louis Bonaparte que costumava ser referido pelo mesmo apelido por aqueles que o ridicularizaram quando se autoproclamou imperador Napoleão III em 1852 -, a UMP mudou o nome para Les Républicains (os republicanos), para ver se salvava. Mas em vão. Pela primeira vez, desde a época de De Gaulle, o partido do centro-direita nem sequer conseguiu chegar à segunda volta das eleições presidenciais.

Por outro lado, o Partido Socialista, que – não nos esqueçamos – trouxe esta figura grotesca, François Hollande, para a Presidência francesa em 2012, com 28,63% dos votos na primeira volta. Nestas eleições presidenciais, o seu candidato, Hamon, conseguiu recolher apenas 6,35% dos votos. Menos do que Mélenchon, que em 2012 também se quedou pelo quarto lugar com 11,10% dos votos.

Se este colapso do bipartidarismo tradicional ocorrer também nas eleições parlamentares, que também serão em duas voltas, a 11 e a 18 de Junho, ficará claro que a França entrou numa situação política completamente nova e altamente volátil. E, como em todas as transições, veremos novas correlações de poder a sucederem-se, tanto na política como na sociedade. As linhas divisórias serão reposicionadas e redefinidas.

A UE nomeou diretamente o seu próprio candidato.

Nestas eleições presidenciais, Macron venceu à primeira volta. Quem é Macron? Um candidato independente vindo do nada. Sem um partido estruturado, ou partidos que o apoiem. E isso é algo que nunca tinha acontecido na política francesa do pós-guerra.

Mas, na verdade, Macron era o candidato menos independente de todos os que se apresentaram às eleições. Não foi apoiado por nenhum partido, porque foi nomeado diretamente e apoiado por toda a máquina da União Europeia, pelos bancos, e pelos mercados financeiros, que controlam a maior parte do sistema de comunicação social na França. É a primeira vez, num país europeu avançado, que um candidato ao cargo mais alto foi nomeado pelo cartel que governa a União Europeia. É um vislumbre de, como no futuro, se fará política nos países que estiverem sob o jugo da UE.

Dezenas de milhares de milhões de euros foram gastos pelo cartel bancário e pela União Europeia para que o seu candidato independente entrasse em casa de cada francês. E Macron não escondeu que ele é o candidato celebrado pela União Europeia. Também não escondeu que tem o apoio de Berlim. Além disso, ele deixou isso claro quando escolheu visitar a chanceler Merkel, em meados da campanha pré-eleitoral.

A máquina da UE e de Berlim chegaram ao ponto de atacar diretamente os candidatos que poderiam ter ameaçado o seu protegido. Foi o caso do escândalo de Fillon e do escândalo de Le Pen, em pleno período pré-eleitoral.

O cartel da UE ordenou literalmente que as autoridades judiciais e policiais francesas interviessem contra os dois candidatos. Isto foi feito publicamente contra Fillon pelas autoridades, investigando algo que poderia certamente ser investigado sem ser publicitado, pelo menos até que houvesse provas que justificassem uma acusação criminal. A qual, por estranho que pareça, ainda ninguém viu. Até porque, o que consta estar em causa, é um delito menor, a saber a sinecura da mulher por ele nomeada para um cargo público.

O mesmo aconteceu com Le Pen, onde, para além das acusações lançadas pelas autoridades da UE, vimos ataques policiais aos seus escritórios. Por quê? Porque, como acusou Bruxelas, ela usou o dinheiro da UE para financiar as políticas internas de seu partido. Algo que, literalmente, todos os partidos que estão representados no Parlamento Europeu fazem. Sem exceção. É até prática da própria Comissão Europeia financiar qualquer evento partidário dos partidos com presença no Parlamento Europeu, sem considerar se se trata ou não de questões europeias. Uma declaração oficial do partido é suficiente para a CE e é aceite sem qualquer hesitação ou confirmação adicional.

Se não tivesse havido intervenção da UE e sem a atmosfera de escândalo contra Fillon e Le Pen, promovida pelos média controlados, teria sido altamente improvável que Macron chegasse à segunda volta. Isto prova o elevado grau de penetração da UE-Berlim na situação em França.

Por outro lado, Le Pen decidiu encontrar-se com Putin no Kremlin – como reação ao encontro de Macron com Merkel -, a fim de obter sua unção oficial. Os média da UE criaram uma enorme campanha, dizendo que Putin se estava a envolver nos assuntos internos da França e da UE ao reunir-se com Le Pen.

Relatórios para todos os gostos preenchiam todos os tabloides e os jornais mais importantes dos médiamainstream, reportando o envolvimento direto da Rússia através de hackers e de financiamento a favor de Le Pen. Tudo isto criou uma atmosfera mórbida com objetivos muito obscuros. É o clima político adequado para que o cartel oficial do governo possa acusar oficialmente qualquer um que os média mainstream apontem como sendo um peão de Putin. Desta forma, o cartel pode mesmo anular – se julgar necessário -, uma eleição desfavorável a Bruxelas e Berlim. A desculpa oficial já existe. O envolvimento ativo de uma potência estrangeira (Rússia) nos assuntos internos da França.

Obviamente, que a mesma lógica não é aplicada à Sra. Merkel, que tão proeminentemente apoiou Macron por todos os meios necessários. O Estado francês reconhece oficialmente que a Sra. Merkel e a Alemanha têm todo o direito de ter voz e de se envolver nos assuntos políticos do país. Em nome da integração europeia. E isto é inédito e nunca aconteceu, pelo menos esta amplitude em França, desde o regime de Vichy.

O Estado-nação emergiu como uma questão dominante
Mas, o mais importante, é que as eleições presidenciais em França elucidaram claramente a questão política predominante do nosso tempo e do futuro próximo. Defender o Estado-nação, ou destruí-lo em favor de uma Europa supranacional, em favor de um governo global. Nunca esta questão foi apresentada de maneira tão direta e profunda desde os tempos da Nova Ordem dos nazis.

E, desta vez, a preservação ou o fracasso do Estado-nação diz respeito a todos os sistemas políticos. Vimos isso acontecer no Reino Unido com o Brexit e, definitivamente, vamos ver o tema a dominar as próximas eleições parlamentares. Vimo-lo também a dominar as últimas eleições presidenciais nos EUA. Donald Trump convenceu uma grande parte do público americano de que é ele o campeão e o defensor do Estado-nação contra a globalização. Foi isso que o levou à Casa Branca. E agora, três meses depois de assumir o cargo, ele tem a menor popularidade que algum Presidente dos Estados Unidos já teve, desde 1945.

De acordo com uma pesquisa do Washington Post-ABC News, o presidente Donald Trump viu a sua popularidade, após os primeiros 100 dias na Casa Branca, ter uma queda recorde de 42%. Doze de seus predecessores tiveram uma média de 61% durante o mesmo período de tempo na Casa Branca. Tal deve ser interpretado, não como tendo sido causado pelas políticas que Trump preconizou no período pré-eleitoral, mas, pelo contrário, porque se está a provar que ele sempre esteve identificado com o tipo de políticas que denunciou anteriormente. O único aumento da popularidade de Trump regista-se apenas nos média mainstream que, de seus inimigos jurados, se transformaram em seus entusiásticos admiradores. Especialmente depois do ataque contra a Síria e Rússia.

As eleições presidenciais em França são as primeiras a demarcar tão claramente a linha divisória entre os inimigos jurados do Estado-nação e aqueles que defendem a necessidade de que ele exista, a fim de poder existir uma democracia para o povo. Especialmente para a França, a questão-chave é a seguinte: um novo regime de Vichy com vista à assimilação da França pela EU, ou não? Esta questão básica será, a partir de agora, a questão central de todos os acontecimentos sociais e políticos em França. E isso não só devastará o sistema político em França, mas literalmente esmagará todos os partidos ou forças políticas que se recusem a responder, aberta e claramente, a essa questão básica.

Deste modo, a França fecha definitivamente o círculo histórico da chamada Quinta República, que nasceu através de um golpe de Estado parlamentar realizado por Charles de Gaulle com a publicação da Constituição francesa de 4 de Outubro de 1958. E, assim, o país inteiro volta atrás. Volta às questões fundamentais que não resolveu, nem respondeu após o colapso do antigo regime de Vichy e a sua libertação do nazismo.

A União Europeia contra a nação francesa
O deslizar oficial da França, em primeiro lugar para uma política de conciliação com o fascismo e o nazismo e, em seguida, para uma cooperação com a Alemanha nazi foi baseado na procura de uma Europa unida. A política de conciliação foi expressa principalmente pelo plano de Aristide Briand para a construção de uma Federação Europeia, que foi apresentado, pela primeira vez, num discurso proferido em 5 de setembro de 1929, durante a décima Assembleia Geral da Sociedade das Nações, em Genebra.

O povo francês, e especialmente os trabalhadores franceses, bem como os camponeses pobres, responderam com massivas mobilizações, greves e ocupações de fábricas, para reivindicar a unidade não da Europa, mas da Nação Francesa, com base numa social-democracia segundo as reivindicações revolucionárias de 1789, 1848 e 1871. Queriam livrar-se, de uma vez por todas, da Terceira República, que se erguera sobre as ruínas da Comuna de Paris e sobre os cadáveres de dezenas de milhares de Comuneiros executados em 1871.

Joseph Barthélemy, jurista e político proeminente, escreveu em 1924 que:

“A Constituição democrática de 1875 foi o produto de uma Assembleia Monárquica”, que criou um sistema político com todas as características do absolutismo, onde as eleições eram meramente um meio de legitimar a arbitrariedade do poder. Enquanto o “povo não tinha nada a ver” com o governo, com a formulação e revisão da Lei e da Constituição.

O soberano não era o povo, mas o executivo e os dois órgãos legislativos, pois, mesmo quando violavam a Constituição com leis e decisões, tudo o que um cidadão podia fazer era obedecer totalmente. A Lei acima de tudo, mesmo que ela contradiga completamente a Constituição existente. (Ver Joseph Barthélemy, O Governo da França, Londres: George Allen & Unwin, 1924, pp. 17-24)

O próprio Joseph Barthélemy justificou plenamente a filosofia política da Terceira República quando se sentiu obrigado a servir como ministro da Justiça no regime de Vichy. Em nome da continuidade do Estado francês de facto e, naturalmente, da preservação da Lei e da Ordem!

A Terceira República sufocou literalmente as massas populares. As pessoas foram consideradas como sujeitos e não propriamente como cidadãos. A Nação era representada pelas instituições do poder, pelo Estado e pelas suas Leis. Assim, quando o governo enviou as pessoas para o matadouro da Primeira Guerra Mundial para lutar, e depois da guerra condenou os trabalhadores, camponeses e pequenos e médios empresários a uma situação de incrível pobreza e dívida, as massas disseram basta. Não queremos mais tal República.

Os ventos da grande Revolução Francesa começaram a soprar de novo. A Nação não é o Presidente e o governo. Nem a legislatura nem as instituições do poder. A Nação somos nós, o povo. E consequentemente, o Estado e as suas instituições deveriam servir ao povo e não o contrário. A Terceira República estava a enfrentar um colapso total. O Plano Briand para uma Federação Europeia foi a resposta dada pelas classes dominantes da Terceira República, a esta terrível perspetiva. Resposta dada ao regresso do período revolucionário à nação francesa.

Em 1936, um slogan abalava os locais de trabalho e as províncias rurais pobres: “Viva a união da nação francesa – contra as 200 famílias que saquearam a França” (Daily Worker, 27 de abril de 1936). Este slogan tornou-se o grito de guerra da Frente Popular (Front Populaire, uma cooperação política de comunistas, socialistas e radicais) que acabou por ser governo.

Desde a sua fundação, em 1806, que o Banco de França (Banque de France) estava sob o controle de um conselho eleito pelos seus 200 maiores acionistas privados. Esses acionistas, dominados pela renomada família dos irmãos Rothschild e quejandos, foram corretamente identificados pelos pobres, como sendo os responsáveis ​​pelas desgraças que os atingiam. Assim, criou-se o slogan popular das “200 famílias que controlam a França”. Já que os pobres, à época, sabiam por experiência o que muitos líderes partidários, mormente à esquerda, ainda hoje se recusam a compreender. Quem, na prática, possui o banco central e emite a moeda, objetivamente controla toda a economia. E assim as “200 famílias” personificaram, para as pessoas simples, toda a praga de problemas que sobre elas tinham caído, como as dívidas esmagadoras e a recessão de longo prazo.

A vitória da Frente Popular nas eleições de 3 de maio de 1936, com 64% dos votos, privou as “200 famílias”, as instituições que as apoiaram e a extrema-direita nacionalista, do direito de falar em nome da Nação Francesa. A razão de Estado deixou de ser com as “200 famílias”, mas passou a ser com os operários, com os camponeses pobres e com os pequenos empresários, que sofriam sob o jugo da oligarquia financeira e o estado arbitrário da Terceira República. A Nação exigia democracia, cancelamento da dívida, pão, paz e trabalho.

Mas, como a Frente Popular era uma coligação de líderes, sem uma organização independente que surgisse do seio do próprio povo, ela dependia quase inteiramente de compromissos ao nível do topo. As grandes greves, as ocupações das fábricas, a mobilização das aldeias, desencadeadas pelo surgimento da Frente Popular, não só aterrorizaram a classe dominante, mas também as lideranças dos partidos integrantes da própria Frente. Eles não tinham confiança na iniciativa e na dinâmica das massas populares, de modo que se limitaram a uma política de conciliação entre as massas – que, instintivamente, sabiam muito bem que, se não se livrassem das “200 famílias”, nada no essencial iria mudar -, e a classe dominante. Deste modo, o governo da Frente permitiu à oligarquia manter as posições-chave que mantinha no sistema de poder.

As “200 famílias” não perderam o controlo do Banco da França, de modo que afogaram o governo de Bloom, o governo da Frente Popular, em dívidas, dinheiro gerador de inflação. A oligarquia sabia que, mantendo nas mãos a criação de dívidas e dinheiro, mesmo que todos os meios de produção fossem nacionalizados ou socializados – como preferiam os socialistas radicais – isso não teria consequências práticas. O verdadeiro poder ainda estaria nas suas mãos. Assim, os aumentos salariais, os direitos dos trabalhadores e outras intervenções do governo Bloom em favor do operariado foram varridos muito rapidamente.

A União Europeia contra os povos
Apesar do fracasso final e do colapso da Frente Popular, os sentimentos de pavor da classe dominante permaneceram. Em 1936, sob a ameaça da Frente Popular, numa reunião de um grupo de reflexão francês, com grande influência nos círculos burgueses da França, a Ligue dos Direitos Humanos, um dos participantes descrevia o seguinte cenário:

Imaginemos o pior, de uma forma simplista, até mesmo improvável, de que uma só nação conquista todas as outras. Imaginemos a Europa conquistada pela Alemanha. Bem, sugiro que uma Alemanha desse modo alargada a toda a Europa deixaria de ser a Alemanha que conhecemos…seria a Europa sob um nome diferente: uma Europa unificada. Ou melhor, não seria nem a Europa de hoje, nem a Alemanha de hoje, mas outra coisa; A confederação europeia do futuro. (Citado por M.L. Smith, Introduction: European Unity and the Second World War, M.L. Smith and Peter MR Stirk, eds., Making the New Europe: European Unity and the Second World War, (London and New York: Pinter Publishers, 1990), p. 16).

Foi esta a perspetiva que passou a dominar a ordem oficial da Terceira República, a perspetiva de uma Europa unida – mesmo sob o poder militar do hitlerismo – e que criou o fundamento sobre o qual foi construída a colaboração com o fascismo e o nazismo.

Assim, a colaboração da França com o Eixo, entre 1938 e 1945, centrou-se na conceção da unidade europeia. As ideologias dos que colaboraram com o Eixo, bem como as suas visões europeias, variaram – da esquerda radical à extrema-direita nacionalista, podendo ser agrupadas em três grandes categorias: europeísta, nacionalista e fascista pura.

Os europeístas, defensores da colaboração com o Eixo, como Marcel Deat, Jean Luchaire e Raymond De Becker, eram geralmente ex-federalistas europeus de inspiração socialista que achavam que Hitler criaria uma Nova Ordem Europeia transnacional que incorporaria muitos dos ideais pré socialistas. O facto de o Eixo erradicar a demarcação nacional entre os Estados-nação na Europa – mesmo que de forma bárbara -, para o benefício de uma Europa transnacional, constituía para os europeístas, especialmente para os de esquerda, um objetivo a prosseguir. E, por conseguinte, os europeístas, mesmo sendo de extrema-esquerda, tinham que trabalhar em conjunto para assegurar a transformação no socialismo de amanhã do novo ordenamento transnacional da Europa.

Colaboradores nacionalistas, como o Marechal Pétain, Alexander Gkalopin e Robert Poulet, consideraram que a cooperação com a Alemanha nazi era do interesse nacional da França, a fim de evitar o risco de a ordem estabelecida ser perturbada, com a plebe exigindo uma democracia onde o cidadão anónimo e as pessoas de todas as classes sociais desempenhariam um papel dominante. Para os nacionalistas, a Nova Ordem era apenas a União Europeia que asseguraria conjuntamente, em cada país, a Lei e o Estado, as instituições, os únicos traços que representam a Nação. Por vezes, contra as pessoas quando estas se mostrassem indisciplinadas, ou fossem fonte de agitação.

Os colaboracionistas fascistas, como Jacques Doriot e Leon Degrelle, assumiram a unidade europeia em termos de solidariedade racial entre os estados fascistas e nazis.

Estas três tendências, tendo em comum a imposição de uma União Europeia supranacional, abriram o caminho para a derrota ignominiosa da França, em face do ataque relâmpago da Alemanha nazi, lançado em 10 de maio de 1940. Em 22 de junho, o segundo armistício foi assinado em Compiègne entre a França e a Alemanha, o que levou à divisão da França. A Alemanha ocupava o Norte e o Oeste, a Itália ficou com o controle de uma pequena zona de ocupação no sudeste da França. Enquanto no sul, foi criada uma zona livre, que passou a ser controlada por um governo oficialmente neutro, em Vichy, liderado pelo Marechal Philippe Pétain.

Henry de Montherlant, proeminente figura da intelectualidade do regime da Terceira República, e poeta bastante popular nos círculos oficiais antes e durante o período de Vichy, descreveu a guerra nazi para a imposição de uma Europa unida como uma “luta heroica da nova civilização europeia contra os europeus de baixa estirpe” e celebrou a conquista da França pela Alemanha no seu livro Le solstice de Juin. O solstício de junho foi a capitulação da França perante os alemães nazis, em junho de 1940. (Ver Philippe Burrin, France Under the Germans: Collaboration and Compromise, (New York: New Press, 1996), pp. 344-346.)

As características da aliança entre europeístas, nacionalistas da extrema-direita e fascistas incondicionais, com o objetivo comum de criar uma Europa unida, ficaram bem retratadas em caricaturas.

Esta caricatura foi publicada em 20 de dezembro de 1941 na capa da revista colaboracionista francesa Je suis partout. A caricatura mostra a França pronta para juntar-se à família europeia, guardada pela Itália fascista e pela Alemanha nazi e cercada por uma série de outros países europeus sob ocupação.

A França queria juntar-se à família europeia, mas três mãos escuras e robustas ainda a agarravam pelo braço. Os judeus, com a emblemática estrela de David. Os maçons, com os seus compassos opostos, e os franceses livres que lutavam contra os nazis e contra o regime de Vichy com a cruz característica da Resistência nacional francesa.

O produto mais fecundo desta aliança para uma Europa unida foi o euronazismo, uma tendência que ajudou os nazis a formar as divisões da Waffen SS recorrendo a recrutamentos forçados em toda a França e em toda a Europa ocupada. O seu principal grito de guerra era a luta por uma Europa unida. E, leal a este lema, a divisão francesa da Waffen SS, Charlemagne, lutou até ao último homem para defender o Reichstag e o bunker de Hitler contra o Exército Vermelho. Isto, no momento em que até a Wehrmacht já tinha deposto as armas.

Se estivéssemos em condições semelhantes às vividas durante o Terceiro Reich, tenha o leitor a certeza de que, nas frentes de batalha da divisão Waffen SS da França, encontraria facilmente gente como Macron. Além disso, só graças aos comunicadores profissionais fornecidos pelos chefes da UE para a campanha Macron, foram vistas nos seus comícios bandeiras francesas ao lado de bandeiras da União Europeia. Macron, ele próprio, gostaria muito de ter usado apenas as bandeiras da UE, mas o eleitor francês médio ainda não está preparado para aceitar isso. Assim, foi com relutância que ele repetiu na noite da vitória, Vive la France! Exatamente com a mesma pronúncia com que outros como ele, e antes dele, gritaram o mesmo slogan para reconhecer o regime colaboracionista de Vichy. Eles queriam dizer o que Macron quer dizer hoje. A França pertence inteiramente ao cartel da UE.

O regime de Vichy reina e conquista em França
Os franceses, lutando com bravura, e a luta da Resistência aniquilaram os planos da Europa unida. O legado mais imediato e duradouro da Resistência para a França do pós-guerra foi o programa de reforma social e económica, subscrito pelo Conselho Nacional de Resistência (CNR) em março de 1944. Foi a manifestação explícita da Nação francesa real, contra a Nação colaboracionista.

Este programa, que ficou conhecido como o “Mapa da Resistência” tinha o propósito imediato de intensificar a luta pela independência nacional e um objetivo de longo prazo de manter a independência nacional da França após a guerra. Aos planos de uma Europa unida, o CNR e a totalidade dos grupos de resistência, partidos políticos e sindicatos que se uniram à sua volta, responderam com a independência nacional e soberania da nação francesa, o que, à época, era consensual para todos, e estava de acordo com a vontade do povo francês.

A independência nacional era determinada, não apenas em termos de política externa convencional, mas também em termos de políticas económicas e sociais internas. Daí que o próprio Estado tivesse que ser libertado dos monopólios económicos e políticos, que dominavam a Terceira República. Para tal, deveriam ser nacionalizados os monopólios naturais, como a energia e os combustíveis, e as principais instituições de crédito e seguros. A começar pelo Banco de França.

Tal iria facilitar a expansão da produção interna, que resultaria de um plano elaborado através da consulta a todos os envolvidos no processo de produção. Da mesma forma, as mulheres deveriam deixar de ser escravas face ao trabalho, à sociedade e à política, pelo que o direito de voto lhes foi atribuído pela primeira vez. As reformas sociais incluíam o direito garantido ao trabalho e ao tempo livre, um padrão de vida mínimo garantido e a restauração das liberdades sindicais que tinham sido suprimidas pelo governo de Vichy. Tudo isto, ancorado naturalmente num sistema de segurança social abrangente.

Os trabalhadores da agricultura deveriam ter os mesmos direitos e condições de trabalho que os trabalhadores da indústria. Tal seria alcançado principalmente por meio de uma política de preços baseada na Agência Nacional do Trigo, criada pelo governo da Frente Popular em 1936.

Finalmente, todos esses direitos políticos, económicos e sociais, não só deveriam ser implantados na França metropolitana, mas em todos os países e territórios do antigo Império Francês. O facto de todas forças políticas, exceto os de Vichy, terem assinado este programa fez do mapa da CNR um documento único na história francesa. Inigualável até hoje.

O único problema é que ele nunca se destinou a ser aplicado. Ficou para lembrar a visão das forças de unidade democráticas da nação francesa, surgindo como o resultado da guerra e da resistência nacional, não só contra o nazismo, mas também contra os planos para uma Europa unida.

Charles de Gaulle, com seu predomínio na cena política francesa, não só “esqueceu” toda a Carta da Resistência, que assinara, mas também fez todos os esforços para preservar o espírito e o significado do regime de Vichy. Ele assumiu o nacionalismo do Marechal Pétain como a ideologia dominante de seu próprio governo. A única diferença em relação ao nacionalismo de Pétain era a vocação imperial do próprio Charles de Gaulle. Ele acreditava que, estando a sua França entre os vencedores da guerra, era mais fácil para ele dominar a evolução futura do percurso para uma Europa unida. Uma Europa unida que, não só poderia expandir a esfera de influência colonial e política de De Gaulle, mas também expandir o âmbito do prestígio imperial do seu regime entre os europeus. Em vez de se arrastar atrás da Alemanha, como Vichy fizera durante a guerra.

Em consequência, o colaboracionismo europeísta do regime de Vichy sobreviveu nos planos de Monnet e Schumann para uma Europa unida. A verdadeira causa da Segunda Guerra Mundial para os nazis – a criação de uma União Europeia contra os Estados-nação da Europa -, tornou-se o álibi para os novos planos para a construção da União Europeia. E, em primeiro lugar, para o surgimento do novo eixo franco-alemão.

Especialmente depois da imposição da Constituição de 4 de outubro de 1958, em que o Presidente francês, como instituição, passou a acumular tantos poderes nas suas mãos, como aqueles que permitiram que o Presidente eleito da República, Louis Bonaparte, se proclamasse Imperador em 1852, dissolvendo o parlamento. Desta forma, o Presidente declarou ser o espírito da nação e, portanto, todas as manifestações de absolutismo e arbitrariedade da sua parte seriam devidas à preservação do próprio espírito nacional. Elas decorreriam da própria existência da nação, nação que mais uma vez passou a estar divorciada do povo francês.

O novo regime de Vichy pode ser derrubado?
Hoje, a mentira em que a Quinta República se fundou chegou ao fim. As máscaras caíram. O europeísmo já não tenta mais manter o espírito de Vichy na clandestinidade, espírito esse sempre omnipresente no próprio tecido do regime presidencial, quer sob o disfarce do gaullismo ou – o seu alter-ego -, o Mitterandismo. Hoje em dia, o europeísmo está, às claras, a tentar reviver o próprio regime de Vichy em França. Com um consenso bipartidário semelhante entre a direita e a esquerda tradicional. Primeiro, e principalmente, através dos candidatos propostos como Macron que, se eleito presidente, devido ao consenso europeísta bipartidário, porá à prova ao máximo a coerência da nação francesa. De uma forma nunca antes vista na sua história.

E pode Le Pen ser um antídoto contra o novo regime de Vichy? Nem de perto nem de longe. E não é só pelo facto de ela apenas estar a tentar voltar à era de Gaulle. A Quinta República, que produziu a França contemporânea, está já morta e enterrada. Ninguém pode ressuscitá-la. A não ser como farsa ou como tragédia deplorável para a nação francesa. Hoje, os resquícios institucionais e políticos que ainda sobrevivem da Quinta República, só ajudam a obscurecer os verdadeiros problemas e são usados pelas forças que querem ver a nação francesa desaparecer no crisol europeu, à custa de um mortal processo reacionário. Como o que foi planeado pelos nazis.

A França oficial já capitulou perante o cartel bancário e a oligarquia financeira do país depende totalmente nos seus negócios, lucros e existência da União Europeia. A prova disso é a análise da posição líquida do investimento internacional da França. Em comparação com a Alemanha e com o Reino Unido.

A França está irrevogavelmente transformada numa anfitriã do capital estrangeiro. Especialmente depois de entrar na zona do euro. E essa entrada líquida de capitais depende em larga medida da Alemanha, que se tornou numa das principais economias exportadoras de capital. Graças principalmente à criação da zona euro.

A França não tem sequer os atributos dos britânicos para reverter essa tendência. O Reino Unido tem um dos principais mercados financeiros globais. Além do próprio peso da Grã-Bretanha na economia global por causa da Commonwealth e das suas relações próximas com os EUA. É por isso que, a partir de 2014, assistimos a uma reversão radical de tendência no Reino Unido. E, de uma economia importadora líquida de capitais, o Reino Unido, em 2016, converteu-se num país exportador líquido de capitais. Algo que não foi irrelevante, no fortalecimento da posição entre a elite britânica, da decisão de deixar a UE.

Ora, tal não pode ocorrer em França, sem uma reconstrução radical do Estado e da economia. A conversão da França num país importador líquido de capitais, com a Alemanha à cabeça, favoreceu uma terrível hiperinflação da dívida, principalmente privada. O rácio dívida privada / PIB em França aumentou de 225,5% para 228,9% entre 2014 e 2015. O rácio dívida privada / PIB em França situou-se no valor médio de 193,1% no período entre 1995 e 2015, atingindo um valor recorde em 2015, quando em 1995 era apenas de 162,8%, o valor recorde em termos de limite mínimo.

Isto significa que a economia privada francesa não pode funcionar sem acumular enormes dívidas. E isso, por sua vez, leva a que o sistema financeiro em França tenha uma dimensão desmesurada. De acordo com os dados mais recentes da Federação Bancária Europeia (EBF), o sector bancário em França é o maior da UE, sem contar com o Reino Unido. Em 2016, o total dos ativos bancários em França ascendeu a mais de 8,1 triliões de euros. O PIB da França, no mesmo ano, ascendeu a preços correntes a um pouco mais de 2,1 triliões de euros.

Dito de outro modo, o setor bancário em França é quatro vezes maior do que o produto agregado anual de toda a economia francesa. Isto significa que a principal “indústria” da economia francesa é a usura bancária. Para manter esta hiperinflação bancária não é suficiente aumentar a dívida pública e privada. A França é obrigada a manter-se como país anfitrião dos fundos da Alemanha e da UE, logo como economia da área do euro. A UEM é absolutamente necessária para uma economia parasitária baseada principalmente na usura. Porque nunca a França pode dar-se ao luxo de resgatar sozinha esta monstruosa expansão do sistema bancário.

É por isso que a França não pode deixar a zona euro sem deixar os grandes bancos irem à falência, sem qualquer compensação para os investidores e para os banqueiros. A França não pode deixar a zona euro sem um haircut nas dívidas públicas e privadas. E qual é a proposta de Le Pen? Nenhuma. Fecho-ecler. Nem uma palavra. Em vez disso, ela diz que a transição da França para o franco permitirá fortalecer os bancos e pagar dívidas com a nova moeda nacional. Algo que não pode ser feito sem a França se expor à mórbida extorsão dos investidores e dos banqueiros.

A proposta de Le Pen, que consiste em pagar as dívidas e pagar aos bancos com o novo franco, indicia àqueles que conhecem a economia política do problema, que a FN não é séria quando propõe que a França deixe o euro e a UE. Está a usar o slogan de “deixar euro” como um bicho-papão para assustar Bruxelas e Berlim. Está a fazer como De Gaulle, que se lembrava da soberania da nação francesa sempre que tinha um momento difícil no percurso da integração europeia. Le Pen acredita que, agitando o slogan do bicho-papão, pode trazer o cartel do euro para a mesa, a fim de renegociar uma relação especial com a zona do euro e com UE, em benefício da França imperial. Algo que, aparentemente, os sobreviventes do velho regime e do estado gaullista desejam atingir. O problema é que, hoje, tal não é realizável.

Em suma, qual é o significado de tudo isto? Algo extremamente simples. A própria sobrevivência da França, especialmente da nação francesa e do próprio povo, depende do regresso à Carta da Resistência. Dentro do labirinto de problemas resultantes do processo de assimilação de um Estado soberano como a França pela União Europeia, apenas novas forças políticas que tenham como ponto de partida a Carta da Resistência podem ter futuro. Poderão, uma vez unidas, trabalhar essencialmente entre os trabalhadores e os intelectuais, para tentar impor à oligarquia financeira os termos da independência nacional e da democracia de acordo com as tradições revolucionárias da nação francesa. Esta é a única saída para o povo simples, para o povo trabalhador.