31 de maio de 2017

Rancière, democracias em marcha

Esperar a Grande Noite? Ou reorganizar aqui e agora outros mundos comuns e tornar visível as habilidades e a inteligência daqueles que o habitam? Isto pode ser, de acordo com o filósofo francês, o sentido inovador da emancipação. 

Robert Maggiori

Libération

Tradução / Henri Bergson não estava errado em dizer que todo grande filósofo não quis no fundo enunciar senão uma só coisa e que empregou toda sua vida para o fazer. Para os pensadores clássicos, nós chegamos a extrair essa ideia central, prenhe de inúmeras outras, que durante séculos fecundaram o pensamento. É mais arriscado praticar o mesmo exercício com os filósofos contemporâneos cujas obras estão em progresso e suscetíveis ainda de criar o novo. Se tratando de Jacques Rancière, não é no entanto insensato afirmar que essa “coisa” se trata da maneira pela qual ele pensou as relações entre estética e política, e ao sentido inovador que ele deu à “velha” ideia da emancipação.

Jacques Rancière publica, sob a forma de uma conversação (por escrito) com Eric Hazan, uma curta obra, En quel temps vivons-nous? (Em que tempo nós vivemos?), que, se inscrevendo inteiramente no quadro geral de seu pensamento, se revela ligada diretamente com, justamente, as questões de nosso tempo, aquelas que a atualidade política obriga a colocar, e que foram colocadas no curso da recente campanha para eleição presidencial (no momento em que a obra foi impressa, a vitória de Marine Le Pen não estava excluída): qual definição nós podemos dar ainda do “povo”? E sobre o sistema de “representação”? O que “representa” um eleito, quando ele não saiu do território, de uma história política enraizada na realidade local, mas escolhido entre as “pessoas” (da sociedade civil) para “se juntar” a um conjunto composto que se constitui durante o caminho (“em marcha”), ou “eleito” via uma plataforma informática e “formado” durante rápidos estágios de administração e comunicação?

Insurreição e revolução

Jacques Rancière é um dos filósofos franceses mais influentes de hoje, que nós poderíamos inscrever, a despeito de abissais diferenças, na mesma constelação que Alain Badiou, Slavoj Zizek, Giorgio Agamben, Ernesto Laclau (a referência teórica do Podemos), Chantal Mouffe, Toni Negri ou Michael Hardt -, mas que está na verdade a frente de uma obra (uma quarentena de obras) dificilmente classificáveis, que suscitaram um número considerável de estudos críticos e comentários.

Nascido em 1940 na Argélia, professor emérito da universidade Paris – VIII, e professor de filosofia na European Graduate School de Saas-Fee (Suíça), Rancière fez seus estudos na Ecole Normale Supérieure, então governada ideologicamente por Louis Althusser. Com Althusser, Etienne Balibar, Roger Stablet e Pierre Macherey, ele participou da redação de Lire le Capital (1965) [Ler o Capital], mas a onda profunda de Maio de 68 o conduziu a posições distantes daquelas do gigante da rua Ulm, cujas próprias bases ele crítica – um marxismo erigido em ciência – em La Leçon d’Althusser, publicado em 1974, ano em que ele funda a revista Révoltes Logiques [Revoltas Lógicas]. Contra o “teoricismo” ambiente, Rancière considera que os trabalhadores são perfeitamente capazes de compreender sua própria opressão e de se emancipar eles mesmos sem a necessidade de uma elite intelectual que os guiem. É para demonstrar isso, e fundamentar o postulado de uma igualdade das inteligências, que ele empreende uma série de estudos sobre a emancipação dos trabalhadores no século XIX, de onde nasceram La Parole Ouvrière (com Arlette Farge, 1975) [A palavra trabalhadora], La Nuit des Prolétaires (1981) [A noite dos proletários], Le Philosophe et ses Pauvres (1983) [O filósofo e seus Pobres], Louis-Gabriel Gauny – Le philosophe plébéien (1985) [Louis-Gabriel Gauny – O filósofo plebeu], ou Le Maître Ignorant (1987) [O Mestre Ignorante]. Se interessando também pelo cinema, ele não cessará de se interrogar sobre as noções de povo, de insurreição, de revolução, de democracia, como também sobre as regras “que permitem a um sistema representativo se declarar democrático”. Em La Haine de la Démocratie (2005) [O ódio a democracia], ele havia sublinhado a oposição entre “a lógica democrática e a lógica representativa” e lembrado “um certo número de princípios” suscetíveis de injetar “mais democracia nas instituições”, por exemplo “o sorteio, os mandatos curtos, não cumulativos e não renováveis.”

E a este problema que ele retorna em En quel temps vivons-nous? [Em qual tempo nós vivemos?], onde ele avança que “a decomposição do sistema representativo” é na verdade “uma velha lua”, que “sustenta desde os anos 1880 as esperanças e as ilusões de uma esquerda “radical” sempre pronta para ver nas fracas taxas de participação a tal ou qual eleição parcial a prova de um desinvestimento massivo do sistema eleitoral.”Ter a representação por agonizante, é na realidade estimar que seu princípio é mesmo a democracia. Ora, precisa o filósofo, “a democracia não é a escolha dos representantes, ele é o poder daqueles que não são qualificados para exercer o poder.”A “doxa dominante” vê a representação como “movimento que parte debaixo”, na qual “o povo está como um corpo coletivo que escolhe para si os representantes”. Mas não é assim que funciona, segundo Rancière. “Um povo político, não é um dado preexistente, é um resultado. Não é povo que se representa mas a representação que produz um certo povo.”

Manifestação de Igualdade

No espírito da daqueles que inventaram o sistema representativo, existia a ideia, implícita, de que uma parte da sociedade é “naturalmente apta, pela sua posição, para representar os interesses gerais da sociedade.” Isso criou não somente a “ilusão democrática”, pela qual “as pessoas se submetem a um poder do qual elas imaginam serem a fonte”, mas faz com que a representação produza uma profissão exercida por uma classe de políticos que, “pelo essencial, se auto-reproduz e faz validar essa auto-reprodução pela forma específica de povo que ela produz, a saber, o corpo eleitoral.”Mas como desindexar o princípio democrático do princípio da representação? Ora, concebendo de outra forma a democracia: não como forma de governo mas como manifestação, imprevisível e conflitiva, da igualdade, da ação igualitária que quebra, mesmo que por um momento, o trabalho de governo (isso que Rancière chama de polícia, em oposição à política) ou a organização hierárquica, inegualitária, das posições, dos lugares, da divisão social e das funções, abrindo outros campos de possibilidades e de oportunidades de vida em comum. As oligarquias governamentais, as castas dos profissionais do poder e a “lógica hierárquica de reprodução dos representantes legítimos” não se impõe e não perduram de fato senão em razão da ausência, independentemente do sistema representativo, de “poderes democráticos autônomos e poderosos que construíssem um outro povo, um povo igualitário em movimento.” Tal é a tarefa que se impõe aos “tempos em que nós vivemos”: “construir outras formas de vida”, “outros olhares sobre os problemas que nos propõe a ordem dominante.” Tal é a tarefa estética da política.

Estética da política

Os terrenos onde a política e a estética se sobrepõem já foram cultivados, notadamente por Adorno ou Benjamin. Mas Rancière não situa as relações entre a arte e a política nem na estetização da política, ou sua transformação em espetáculo da gestão e da “comunicação” dos poderes, nem na politização da arte, mas naquilo que esses dois domínios “compartilham”, a saber, o status da visibilidade. Se a estética e a política necessariamente se abraçam, é que o mesmo “gesto” as definem, que é aquele de organizar o espaço da percepção de tal maneira que aquilo não era visível de repente o se torna. Nós concebemos para a obra de arte que, se ela é “grande”, inventa linguagens (musicais, pictóricas, literárias. ….) para as quais ainda não há dicionário, e “mostram” que existe ali alguma coisa que era ainda despercebida ou inédita. Mas isso serve também para a política, que compartilha o espaço coletivo, reorganiza o tempo da ação, cria outros mundos comuns e tornam “visíveis” as capacidades dos sujeitos que os habitam.

Os exemplos são numerosos. O movimento protestante de 2013 no Park Gezi de Istambul, as “primaveras arábes”, Ocuppy Wall Street, os Indignados de la Puerta del Sol em Madrid, os ajuntamentos na praça Syntagma em Atenas, Nuit Debout, etc., todos eles, a despeito daquilo que lhes distinguem do ponto de vista cultural, ideológico e histórico, revelam outras maneiras de estar em conjunto, de agir, de sentir, de compreender , de pensar a hierarquia e a representação, e mostrar como uma comunidade se torna política tomando posse de “um espaço e de um tempo próprios”,criando um “outro mundo em comum”. “Na arte como na política, escreve Rancière, o comum se dá hoje como qualquer coisa a ser construída com materiais e formas heterogêneas e não com a afirmação de recursos próprios em unidades constituídas, quer se trate de classes sociais, de organizações especializadas ou de artes definidas.”

Ganhos de Justiça e Liberdade

Certamente, à lógica “movimentista”, falta uma “força unitária”. As lutas nascidas de circunstâncias específicas – “uma forma de dominação, um tipo de injustiça” – e conduzidas para defender “os direitos dos pobres que eles querem caçar em suas terras ou dos camponeses que eles querem expulsar de suas terras”, se opor a um “projeto que ameaça o equilíbrio ecológico”, acolher “aqueles que tiveram de fugir de seu país”, oferecer os “meios de expressão aquele que não os tem”, permitem “a tal ou qual categoria de ser humano inferiorizado por essa ou aquela razão – de sexo, de origem, de capacidade física, etc. – impor uma regra de igualdade”, e se efetuam fora da “ideia de fusão orientada por uma visão de história e do futuro”. Elas não visam nenhuma “Grande Noite”, mas são como as manhãs do mundo, pois elas permitem a cada vez desenvolver as “formas de secessão relativamente aos modos de percepção, de pensamento, de vida e de comunidade propostas pela lógicas inegualitárias”. Nós certamente pensamos diferente, antigamente, a “revolução”. Mas o tempo em que nós vivemos – onde o capitalismo, “mais que um poder”, se tornou “um mundo” – não exclui em nada os ganhos de justiça e liberdade se, seguindo Jacques Rancière, nós concebemos a emancipação como “a invenção aqui e agora de formas do comum” e como “maneira de viver no mundo do inimigo na posição ambígua daquele ou daquela que combate a ordem dominante mas que também é capaz de nele construir lugares à parte onde ele escapa da sua lei.”

Terror na Grã-Bretanha: O que é que a primeira-ministra sabia?

John Pilger

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / O indizível na campanha eleitoral britânica é isto. As causas da atrocidade de Manchester – na qual 22 pessoas, jovens na maior parte, foram assassinadas por um jihadista – estão a ser omitidas a fim de proteger segredos da política externa britânica.

Questões críticas – tais como porque o serviço de segurança MI5 manteve "ativos" terroristas em Manchester e porque o governo não advertiu o público da ameaça em seu meio – permanecem sem resposta, desviadas pela promessa de uma "revisão" interna.

O alegado suicida, Salman Abedi, fazia parte de um grupo extremista, o Libyan Islamic Fighting Group (LIFG), que prosperou em Manchester e foi cultivado e utilizado pelo MI5 durante mais de 20 anos.

O LIFG está proscrito na Grã-Bretanha como uma organização terrorista que pretende um "estado islâmico linha dura" na Líbia e "faz parte de um movimento extremista global mais vasto, inspirado pela al Qaida".

A "arma fumegante" é que quando Theresa May foi secretária do Interior permitiu aos jihadistas da LIFG viajarem desembaraçadamente por toda a Europa e foram encorajados a empenharem-se na "batalha": primeiro para remover Muammar al-Gaddafi da Líbia, a seguir para juntarem-se a grupos filiados à al Qaida na Síria.

No ano passado, o FBI confirmadamente colocou Abedi numa "lista de terroristas a observar" e advertiu o MI5 de que o seu grupo estava à procura de um "alvo político" na Grã-Bretanha. Por que não foi ele detido e a rede em torno dele impedida de planejar e executar a atrocidade de 22 de maio?

Estas questões levantam-se por causa de uma fuga do FBI que demoliu a interpretação do "lobo solitário" apresentada após o ataque de 22 de maio – daí o pânico e o ultraje não característico de Londres em relação a Washington e as desculpas de Donald Trump.

A atrocidade de Manchester põe em causa a política externa britânica ao revelar a sua aliança faustiana com o Islão extremista, especialmente a seita conhecida como Waabismo ou Salafismo, cujo principal guardião e banqueiro é o reino petrolífero da Arábia Saudita, o maior cliente de armas da Grã-Bretanha.

Este casamento imperial remonta à Segunda Guerra Mundial e aos primeiros dia da Fraternidade Muçulmana no Egipto. O objectivo da política britânica era travar o pan-arabismo. Estados árabes desenvolviam então um laicismo moderno, afirmando sua independência em relação ao ocidente imperial e controlando seus recursos. A criação de um Israel voraz destinava-se a apressar isto. O pan-arabismo foi então esmagado, o objectivo agora é a divisão e conquista.

Em 2011, segundo o Middle East Eye , o LIFG em Manchester era conhecido como os "rapazes de Manchester". Implacavelmente opostos a Muammar Kadafi, eles eram considerados de alto risco e um certo número deles estava sobcontrol orders do Ministério do Interior – prisão domiciliar – quando estalaram as manifestações anti-Kadafi na Líbia, um país forjado a partir de uma miríade de inimizades tribais.

Subitamente as control orders foram levantadas. "Permitiram-me ir, sem fazerem perguntas", disse um membro da LIFG. O MI5 devolveu seus passaportes e a polícia anti-terrorismo no aeroporto de Heathrow foi instruíd para que os deixassem embarcar nos seus voos.

O derrube de Kadafi, que controlava as maiores reservas de petróleo da África, fora planeado há muito em Washington e Londres. Segundo a inteligência francesa, o LIFG fez várias tentativas de assassinato de Kadafi na década de 1990 – financiadas pela inteligência britânica. Em Março de 2011, a França, Grã-Bretanha e EUA agarraram a oportunidade de uma "intervenção humanitária" e atacaram a Líbia. Eles foram acompanhados pela NATO sob a cobertura de uma resolução da ONU para "proteger civis".

Em Setembro último, um inquérito do Comité Especial de Negócios Estrangeiros da Câmara dos Comuns concluiu que o então primeiro-ministro David Cameron havia levado o país à guerra contra Kadafi com base numa série de "suposições erróneas" e que o ataque "levara à ascensão do Estado Islâmico na África do Norte". O comité da Câmara dos Comuns citou a chamada descrição "concisa" de Barack Obama quanto ao papel de Cameron na Líbia: um "espectáculo de merda"("shit show").

De facto, Obama foi um actor principal no "espectáculo de merda", pressionado pela sua belicista secretária de Estado Hillary Clinton e pelos media que acusavam Kadafi de planear "genocídio" contra o seu próprio povo. "Sabemos... que se esperarmos mais um dia", disse Obama, "Bengazi, uma cidade da dimensão de Charlotte, poderia sofrer um massacre que teria repercutido por toda a região e manchado a consciência do mundo".

A estória do massacre foi fabricada pelas milícias salafistas que se defrontavam com a derrota diante das forças do governo líbio. Eles disseram à Reuters que seria "um banho de sangue real, um massacre como o que vimos em Ruanda". O comité da Câmara dos Comuns relatou: "A proposta de que Muammar Kadafi teria ordenado o massacre de civis em Bengazi não era confirmada pelas evidências disponíveis".

A Grã-Bretanha, a França e os Estados Unidos efectivamente destruíram a Líbia como um estado moderno. Segundo os seus próprios registos, a NATO lançou 9.700 "incursões de bombardeamento", das quais mais de um terço atingiram alvos civis. Eles incluíram bombas de fragmentação e mísseis com ogivas de urânio [empobrecido]. As cidades de Misurata e Sirte sofreram bombardeamento em tapete. A UNICEF, a organização das Nações Unidas para a Infância, informou que uma alta proporção das crianças mortas "tinham menos de dez anos de idade".

Mais do que "provocar a ascensão" do Estado Islâmico – o ISIS já havia fincado raízes nas ruínas do Iraque após a invasão de Blair e Bush em 2003 – estes supremos medievalistas agora tinham todo o Norte da África como base. O ataque também desencadeou uma debandada de refugiados a fugirem para a Europa.

Cameron foi celebrado em Tripoli como um "libertador", ou imaginou que era. As multidões a aplaudirem-no incluíam aqueles SAS abastecidos e treinados pela Grã-Bretanha e inspirados pelo Estado Islâmico, tais como os "rapazes de Manchester".

Para os americanos e britânicos, o verdadeiro crime de Kadafi era a sua independência iconoclasta e o seu plano de abandonar o petrodólar, um pilar do poder imperial americano. Ele audaciosamente havia planeado financiar uma divisa comum africana apoiada pelo ouro, estabelecer um banco para toda a África e promover uma união econômica entre países pobres com recursos valiosos. Quer isto pudesse ou não acontecer, a própria ideia era intolerável para os EUA quando se preparavam para "entrar" na África e subornar governos africanos com "parcerias" militares.

O ditador caído escapava. Um avião da Royal Air Force localizou seu comboio e nas ruínas de Sirte ele foi sodomizado com uma faca por um fanático descrito nos noticiários como "um rebelde".

Tendo saqueado o arsenal de US$30 mil milhões da Líbia, os "rebeldes" avançaram para o Sul, aterrorizando cidades e aldeias. Ao atravessarem o Mali sub-saariano, destruíram a frágil estabilidade daquele país. Os sempre-ansiosos franceses enviaram aviões e tropas à sua antiga colônia "para combater a al Qaida", ou a ameaça que haviam ajudado a criar.

Em 14 de Outubro de 2011, o presidente Obama anunciou que estava a enviar tropas de forças especiais para o Uganda para ingressar na guerra civil dali. Nos meses seguintes, tropas de combate dos EUA foram enviadas para o Sul do Sudão, Congo e República Centro-Africana. Com a Líbia garantida, uma invasão americana do continente africano estava em curso, amplamente não noticiada.

Em Londres, uma das maiores feiras de armas do mundo foi encenada pelo governo britânico. O burburinho nos stands era o "efeito demonstração na Líbia". A Câmara de Comércio e Indústria de Londres efetuou uma apresentação prévia intitulada "Médio Oriente: Um vasto mercado para companhias de defesa e segurança do Reino Unido". O hospedeiro era o Royal Bank of Scotland, um grande investidor em bombas de fragmentação (cluster), as quais foram utilizadas extensamente contra alvos civis na Líbia. A publicidade das armas feitas pelo banco louvava as "oportunidades sem precedentes para companhias de defesa e segurança do Reino Unido".

No mês passado, a primeira-ministra Theresa May esteve na Arábia Saudita, a vender mais de £3 bilhões de armas britânicas que os sauditas têm utilizando contra o Iêmen. Baseados em salas de controle em Riad, conselheiros militares britânicos assistem os sauditas nos raids de bombardeamento, os quais mataram mais de 10 mil civis. Há agora sinais claros de fome ali. Uma criança iemenita morre a cada 10 minutos de doenças evitáveis, afirma a UNICEF.

A atrocidade de 22 de maio em Manchester foi o produto deste estado de violência implacável em lugares distantes, muitos deles com patrocínio britânico. As vidas e os nomes das vítimas quase nunca são por nós conhecidos.

Esta verdade custa a ser ouvida, assim como custa a ser ouvida quando o Metro de Londres foi bombardeado em 7 de Julho de 2005. Ocasionalmente, um membro do público rompe o silêncio, tal como o londrino do Leste que se postou frente à câmara e ao repórter da CNN e disse: "Iraque! Nós invadimos o Iraque. O que esperávamos nós? Vão em frente".

Numa grande assembleia dos media a que compareci, muitos dos importantes hóspedes diziam "Iraque" e "Blair" como uma espécie de catarse do que não ousavam dizer profissionalmente e publicamente.

Contudo, antes de invadir o Iraque, Blair foi advertido pelo Joint Intelligence Commitee de que "a ameaça da al Qaida aumentará desde o princípio de qualquer ação militar contra o Iraque... A ameaça mundial de outros grupos e indivíduos terroristas islâmicos aumentará significativamente".

Assim como Blair trouxe para a Grã-Bretanha a sua violência e o banho de sangue de George W Bush, também David Cameron apoiado por Theresa May agravou o seu crime na Líbia e a suas horrendas consequências, incluindo aqueles mortos e estropiados na Manchester Arena em 22 de Maio.

Não surpreendentemente, as consequências retornam. Salman Abedi atuou sozinho. Ele era um pequeno criminoso, não mais do que isso. Desvaneceu-se a rede extensa revelada na semana passada pela fuga americana. Mas as perguntas não.

Como é que Abedi foi capaz de viajar livremente através da Europa até a Líbia e voltar a Manchester só poucos dias antes de cometer seu crime terrível? Foi Theresa May informada pelo MI5 que o FBI o havia rastreado como fazendo parte de um planeamento de célula islâmica para atacar um "alvo político" na Grã-Bretanha?

Na atual campanha eleitoral, o líder trabalhista Jeremy Corbyn fez uma referência cautelosa a uma "guerra ao terror que fracassou". Como ele sabe, isto nunca foi uma guerra ao terror mas sim uma guerra de conquista e subjugação. Palestina, Afeganistão, Iraque, Líbia, Síria. Dizem que o Irã será a seguir. Antes disso haverá uma outra Manchester, quem terá a coragem de dizer isso?

29 de maio de 2017

A “ordem” do G7 é a mesma da OTAN

Manlio Dinucci


Tradução / “Uma ordem internacional baseada nas normas, que promova a paz entre as nações, salvaguarde a soberania, a integridade territorial e a independência política de todos os Estados e assegure a proteção dos direitos humanos”: é o que dizem querer os líderes do G7 realizado em Taormina, ao lado da base de Sigonella, centro estratégico no Mediterrâneo para a guerra e operações secretas dos EUA e da OTAN que destruíram o Estado líbio e tentaram fazer o mesmo na Síria, aumentando o trágico êxodo de migrantes por cujos direitos humanos o G7 se diz preocupado. As declarações reproduzem a da Cúpula da OTAN de Bruxelas: o G7 é formado pelos seis maiores países da OTAN mais o Japão, principal aliado dos EUA e da OTAN na Ásia. Não faltam as divergências econômicas e políticas, camufladas pelas posições divergentes sobre o clima e os migrantes.

Na Cupula da OTAN Trump irritou Merkel e outros, recordando que “os EUA gastam com a defesa mais do que todos os demais países da OTAN juntos”. Exigiu em tom peremptório que todos os aliados mantenham o compromisso que assumiram em 2014 com o presidente Obama, de destinar ao setor militar ao menos 2% do PIB.

Até agora, além dos EUA, somente a Grécia, a Estônia, a Grã Bretanha e a Polônia superaram esse piso. A Itália, calcula o Instituto Internacional de Pesquisas sobre a Paz de Estocolmo (Sipri, sigla em inglês) gasta com o setor militar 1,55% do PIB, ou seja, cerca de 70 milhões de euros por dia. Chegando ao nível da Grécia (2,36%, apesar da crise econômica), despenderia mais de 100 milhões ao dia; se chegasse ao nível dos EUA (3,61%), gastaria mais de 160 milhões de euros por dia. 2%, insiste Trump, é insuficiente para os crescentes compromissos da Aliança.

A Cúpula de Bruxelas anunciou que a OTAN entra na “Coalizão global para derrotar o ISIS” (sob comando dos EUA como da OTAN), de que já são membros os 28 países da Aliança. A OTAN fornecerá aviões Awacs e forças especiais para operações que, com a motivação de combater o Isis (na realidade funcional à estratégia dos EUA e da OTAN de destruir Estados), visam a penetrar na Síria para desmembrar seu território e cercar o Irã.

A Cúpula também anunciou um aumento das tropas da OTAN no Afeganistão, que hoje totalizam 13 mil homens. Na Europa a OTAN continua sua expansão para o Leste: entra como o 29° membro, já convidado à Cúpula, Montenegro, que apesar de sua pequena dimensão, é importante por sua posição geoestratégica e pelos seus bunkers, para os quais a OTAN deslocará enormes quantidades de armas, provavelmente também nucleares, e caças-bombardeiros. A OTAN – declarou na Cúpula o secretário geral Stoltenberg – “deve reagir”, porque tem diante de si uma “Rússia que usa a força militar para mudar as fronteiras na Europa com as suas ações agressivas contra a Ucrânia, anexando ilegalmente a Crimeia e continuando a desetabilizar a Ucrânia oriental”.

Ultrapassando o próprio Trump, que falou em geral das “ameaças provenientes da Rússia às fronteiras orientais da OTAN”, a Cúpula relançou a acusação à Rússia de pretender mudar as fronteiras na Europa com um uso agressivo da força militar. Acusação que renova a da velha guerra fria, prevendo um cenário de tanques de guerra russos invadindo a Europa. A promessa eleitoral de Trump de abrir uma negociação com Moscou se arrebenta na parede, invisível mas possante, dos círculos dominantes estadunidenses e europeus que, apontando para uma nova guerra fria, bloqueiam toda tratativa com Moscou ameaçando o próprio Trump de impeachment sob a acusação de conivência com o inimigo. A sombra da derrotada Clinton persegue Trump, sentando-se como uma convidada de pedra nas Cúpulas da OTAN e do G7.

Crédito excessivo, capital rentista e crises

Michael Roberts

Tradução / Steve Keen tem um novo livro: Can We Avoid Another Financial Crisis? Steve Keen é professor de economia da Universidade de Kingston, no Reino Unido. Seu livro anterior (Debunking Economics) é uma exposição brilhante das suposições falaciosas e conclusões da economia geral, ou seja, "competição perfeita"; equilíbrio geral e "expectativas racionais" dos "agentes" econômicos.

O fracasso da economia para prever a quebra financeira global e a Grande recessão que se seguiu está agora bem documentado - veja minha própria cobertura aqui. Esse fracasso levou vários economistas convencionais a desautorizar sua utilidade. Um desses foi Paul Romer, um antigo professor universitário de Nova York e agora economista-chefe do Banco Mundial. No outono passado, antes de tomar posse no Banco Mundial, Romer escreveu um documento acusando seus colegas macroeconomistas de formarem uma comunidade intelectual monolítica, que se submetem à autoridade, ignoravam as opiniões dos que estavam fora do grupo e ignoravam fatos indesejáveis. Eles se comportaram mais como membros de culto do que cientistas genuínos. Romer comparou a macroeconomia moderna com a teoria das cordas, descrita como "nem mesmo errada".

Isso não caiu bem. E agora houve uma rebelião entre os seus 600 economistas (sim, 600!) no Banco Mundial. Eles insistiram para que ele não mais se encarregasse de gerenciá-los, depois que ele exigiu que eles deixassem de usar o jargão econômico de longo prazo e adotassem um estilo de prosa mais simples. Romer respondeu ironicamente a essa queda de seu poder no Banco Mundial, "Aparentemente, a palavra está fora de moda, quando pedi às pessoas que escrevessem com mais clareza, não foi legal. E que eu abati gatinhos no meu escritório".

Mas eu divago. O principal desta história de Romer é mostrar que aqueles que contestam os pressupostos e as conclusões da apologia econômica dominante não são suscetíveis de obter muita audiência. Como eu disse no meu post sobre a crítica de Romer, ele não terá sucesso na busca "da economia voltada à realidade". E assim se provou.

Steve Keen, no entanto, continua sua tentativa de fornecer uma alternativa mais próxima da realidade econômica. E seu novo livro também faz uma previsão: que outro “crash” está chegando e até mesmo escolhe alguns candidatos onde provavelmente isto ocorra. Agora, os leitores deste blog sabem que eu acho que o trabalho da economia, se realmente se vê como uma ciência, não é só apresentar teorias e testá-las empiricamente, mas também fazer previsões. Isso é parte do método científico. Então a abordagem de Keen parece promissora.

Mas tudo depende, é claro, se sua teoria está certa. Keen reitera a principal tese de seu trabalho anterior: que, na economia capitalista moderna o crédito é necessário para garantir o investimento e o crescimento. Mas, uma vez que o crédito está no processo econômico, não há nada para detê-lo, o que não corresponde à demanda e à oferta. Crises de crédito excessivo aparecerão e podemos prever quando, adicionando o nível de crédito à renda nacional. Nas principais economias capitalistas, antes da crise de 2007, o crédito do setor privado atingiu níveis recordes, só nos EUA, mais de 300% do PIB. Essa bolha de crédito tinha que explodir e, assim, causou a Grande Recessão. E isso vai acontecer de novo. "Uma economia capitalista não pode evitar outra crise financeira melhor do que um cão pode evitar pegar pulgas - é apenas uma questão de tempo".

Então, e a próxima crise? Com o olho no crescimento do crédito, Keen vê a China como um caso terminal. A China expandiu o crédito a uma taxa anualizada de cerca de 25 por cento nos anos recentes. A dívida do setor privado excede 200% do PIB, fazendo com que a China se assemelhe às economias sobre-endividadas da Irlanda e da Espanha antes de 2008, mas obviamente muito mais significativa para a economia global. "Essa bolha tem que estourar", escreve Keen.

Ele também tem pouca esperança para a sua Austrália natal, cujas bolhas de crédito e habitação não explodiram em 2008 graças, em parte, a medidas governamentais para apoiar o mercado imobiliário, menores taxas de juros e investimentos minerais maciços para satisfazer a demanda insaciável da China por matérias-primas. No ano passado, o crédito do setor privado australiano também avançou acima de 200% do PIB, subindo mais de 20 pontos percentuais desde a crise financeira global. A Austrália mostra, diz Keen, que "você pode evitar uma crise da dívida hoje, mas estará apenas adiando-a".


Essa ideia de que é o nível de crédito e o ritmo de seu aumento, seja o principal critério para avaliar a probabilidade de uma queda na produção capitalista, também está por trás da visão de outro economista heterodoxo, Michael Hudson, em seu livro Killing the Host: How Financial Parasites and Debt Bondage Destroy the Global Economy. A principal afirmação de Hudson é que a economia FIRE (em inglês: finance, insurance, and real estate) - finanças, seguros e imóveis - paralisa a economia "real" e está lentamente reduzindo a maioria de nós à escravidão da dívida.

Hudson vai mais longe. Para ele, o antigo sistema de capitalismo industrial - contratação de mão-de-obra, investimento em plantas e equipamentos e criação de riqueza real respaldada por bens e serviços tangíveis - foi eclipsado pelo domínio emergente de uma classe neo-feudal parasita. É essa elite, não capitalistas industriais, que são a base da maioria dos nossos problemas econômicos. A crise de 2008 não foi um boom típico e um acidente de pouso do capitalismo, mas a conclusão lógica de parasitas financeiros que sangram lentamente a maioria de nós. "O neoliberalismo de hoje transforma o significado original do livre mercado na sua cabeça. Os neoliberais redefiniram os 'mercados livres' para significar uma economia livre para os que procuram renda, ou seja, 'livre' de regulamentação governamental ou tributação da renda não aproveitada (rendas e retornos financeiros)".

Para mim isto significa que não é o capitalismo do passado, a concorrência e a acumulação de capital para o investimento, que são o problema e as causas das crises, mas o mundo “neoliberal” do capital “rentista”, parasitas “feudais” e “financiarização". Isso sugeriria que as crises poderiam ser resolvidas se o capitalismo voltasse ao seu papel anterior, como Adam Smith o considerou, como uma expansão da produção através da divisão do trabalho e da concorrência.

Além disso, para Hudson, o problema do capitalismo não é de rentabilidade e esforço para extrair o valor excedente da força de trabalho produtiva, mas a extração de “rendas” fora da indústria por “latifundiários” e financiadores. "Os trabalhadores ('consumidores') e a indústria são obrigados a pagar uma proporção crescente de seus rendimentos sob a forma de aluguel e juros para o setor financeiro e imobiliário para ter acesso a direitos de propriedade, poupança e crédito. Isso deixa salários e lucros insuficientes para sustentar a demanda do mercado de bens de consumo e investimentos nos novos meios de produção (bens de capital). As principais causas de austeridade econômica e polarização são a deflação de aluguel (pagamentos a proprietários e monopolistas) e deflação da dívida (pagamentos a bancos, detentores de títulos e outros credores)." (Hudson)

Assim, temos um modelo de capitalismo onde as crises resultam de "imperfeições" no modelo capitalista, seja devido à falta de concorrência e ao crescimento dos rentistas financeiros (Hudson) ou devido ao crédito excessivo (Keen). Além disso, as crises são o resultado de uma falta crônica de demanda causada pela redução dos salários e aumento do nível de endividamento das famílias. A última tese não é nova - como muitos economistas convencionais argumentaram de forma semelhante e domina como causa de crises à esquerda. Como Mian e Sufi diziam: "As recessões não são inevitáveis - não são atos misteriosos da natureza que devemos aceitar. Em vez disso, as recessões são um produto de um sistema financeiro que promove muito a dívida doméstica".

A omissão chave nesta visão de crises é a função de lucro e lucratividade - que veio depois de todo o núcleo da análise de Marx sobre o capitalismo - não precisa de um modo de produção para o lucro. Falta lucro na análise da Keen. De fato, Keen considera a teoria do valor de Marx como errada ou ilógica, aceitando a interpretação padrão neo-ricardiana e a lei de Marx sobre a tendência da taxa de lucro a cair como irrelevante para uma teoria das crises. Hudson não tem nada a dizer sobre as ideias fundamentais de Marx.
Os pós-keynesianos dependem da equação de Keynes-Kalecki, a saber, que os lucros = investimento, mas é o investimento que impulsiona ou gera lucros, não vice-versa, como Marx sugeriu. Esta visão atingiu recentemente o seu extremo em outro livro relativamente novo, o Capitalism as Oligarchy, de Jim O'Reilly, onde, semelhante à visão do líder pós-keynesiano, Engelbert Stockhammer, afirma que a crescente desigualdade é decisiva para as crises e não a rentabilidade de capital, O'Reilly argumenta que "a desigualdade não é um efeito colateral de algo que chamamos de 'capitalismo', mas é o núcleo do sistema".

Segundo O'Reilly, os lucros não provêm do trabalho não remunerado da classe trabalhadora, mas são "criados" pelos capitalistas pela venda de bens e serviços ao consumidor. Os lucros vêm de explorar o consumidor, não o trabalhador. "De onde vem o lucro? Não pode ser dos trabalhadores, já que eles não podem gastar mais do que o salário recebido (!! – MR). Os salários são uma fonte de receita através de vendas, mas também são um custo. Para o sistema como um todo, eles deveriam tender a zero - os trabalhadores simplesmente não são lucrativos. "Somente os capitalistas têm mais renda do que gastam, então eles criam seus próprios lucros (hmm... MR).

Aparentemente, Rosa Luxemburg estava no caso ... "Sua visão de que o lucro tinha que vir de uma fonte além do trabalhador era correta, mas ela errou ao aceitar a sabedoria monetária convencional de que o "objetivo e meta do capitalismo é o lucro sob a forma de dinheiro e acumulação de capital". Nesta teoria, os lucros não são o motor do capitalismo, mas o resultado do investimento e do consumo.

O argumento de que o crédito desempenha um papel fundamental no capitalismo; e "crédito excessivo" faz isso em crises foi explicado pela primeira vez por Marx. Como Marx escreveu no Volume 3 do Capital, "em um sistema de produção onde toda a interconexão do processo de reprodução se baseia no crédito, uma crise deve inevitavelmente acontecer se o crédito for retirado de repente e somente o pagamento em dinheiro for aceito... à primeira vista, portanto, a crise completa se apresenta como simplesmente uma crise de crédito e monetária". (p.621) Mas isso é "à primeira vista". Atrás da crise financeira está a lei da rentabilidade: "a crise real só pode ser deduzida do movimento real da produção capitalista" (TSV2, p.512).

Procurar uma causa é científico. Mas dialeticamente pode haver causas em diferentes níveis, a última (essência) e a próxima (aparência). O melhor é encontrado a partir dos eventos reais e, em seguida, fornece uma explicação para o próximo. A crise de 2008-9, como outras crises, teve uma causa subjacente baseada nas contradições do capitalismo entre acumulação de capital e a tendência da taxa de lucro a cair. Essa contradição surgiu porque o modo de produção capitalista é a produção de valor não para uso. O lucro é o objetivo, não a produção ou o consumo. O valor é criado apenas pelo esforço do trabalho (por cérebro e músculo). O lucro vem do valor não remunerado criado pelo trabalho e apropriado pelos proprietários privados dos meios de produção.

A contradição subjacente entre o acúmulo de capital e a queda da taxa de lucro (e depois uma queda de lucro) é resolvida pela crise, que assume a forma de colapso em valor, tanto de valor real quanto fictício. De fato, onde quer que a expansão fictícia do capital tenha se desenvolvido é onde a crise começa, Tulipas, mercados de ações, dívida de habitação, dívida corporativa, dívida bancária, dívida pública, etc. O setor financeiro é muitas vezes onde a crise começa; mas um problema no setor produtivo é a causa.

Sem dúvida, o aumento do crédito excessivo nas principais economias capitalistas foi uma característica do período anterior à crise. E seu próprio tamanho significava que a crise seria correspondentemente mais severa, já que o setor capitalista viu o valor desse capital fictício destruído.

Mas é realmente correto dizer que o crédito excessivo é a causa das crises capitalistas? Marx argumentou que o crédito fica fora de rumo porque os capitalistas acham que a rentabilidade está caindo e eles procuram aumentar a massa de lucros ao ampliar o crédito.

É uma ilusão ou um fetiche considerar o crédito como a principal ou única causa de crise. Em uma economia capitalista, o lucro é a regra. Se você negar isso, você está negando que o capitalismo é o termo certo para descrever a economia moderna. Talvez seja melhor falar sobre uma economia de crédito e credores de crédito ou criadores e não capitalistas. Pensar apenas no crédito, como o Keen faz, leva-o a concluir que a China será o desencadeador mais provável da próxima crise global. Mas isso já foi refutado pela experiência do ano passado.

Devemos começar com lucro, o que leva ao dinheiro, investimento e à acumulação de capital e depois ao emprego e aos rendimentos. E há uma série de evidências empíricas de que a lucratividade e os lucros levam ao investimento, e não vice-versa.

Além disso, por que as dívidas e as rendas financeiras se tornaram "excessivas" no chamado período neoliberal? A explicação marxista é que a rentabilidade do capital produtivo diminuiu na maioria das economias modernas entre meados da década de 1960 e início da década de 1980, e houve um aumento do investimento em finanças, propriedade e seguros (FIRE), juntamente com outros contadores neoliberais, como medidas contra a legislação antisindical, leis trabalhistas, privatização e globalização. O objetivo era aumentar a rentabilidade do capital, o que se conseguiu até certo ponto do fim dos anos 90.

Mas, à medida que a rentabilidade começou a recuar, o boom do crédito foi acelerado no início dos anos 2000, levando eventualmente ao choque financeiro global, à crise do crédito e à Grande Recessão. Como a rentabilidade na maioria das principais economias capitalistas não retornou aos níveis do início dos anos 2000, o investimento em setores produtivos e o crescimento da produtividade continuam deprimidos. Entretanto, o boom dos mercados de crédito e de ações retornou. O capital fictício expandiu-se novamente - como mostra Keen. E o capital rentista domina - como mostra Hudson.


Se o crédito excessivo sozinho é culpado por crises capitalistas e não por falhas no modo de lucro, então a resposta é o controle do crédito. Se o capital do rentista é culpado da pobreza dos trabalhadores e das crises, a resposta é controlar o financiamento. Na verdade, Keen argumenta que a melhor receita política é manter o crédito do setor privado em cerca de 50% do PIB nas economias capitalistas. Em seguida, as crises financeiras poderiam ser evitadas. Hudson recomenda a anulação das dívidas não pagáveis das famílias. E Hudson recomenda um sistema bancário nacionalizado que ofereça crédito básico.

Estas são, sem dúvida, reformas importantes que um governo ou administração pró-trabalhista deveria implementar se tivesse tal poder para fazê-lo. Mas isso não iria parar as crises do capitalismo, se a maioria dos setores produtivos continuasse sendo de propriedade privada e investindo apenas com fins lucrativos. Como Hudson diz: "Apenas para ser claro, livrar-se de parasitas financeiros e rentistas não vai inaugurar uma utopia econômica. Mesmo sob um sistema puramente industrial, os problemas econômicos irão abundar. Gigantes, como a Apple, continuarão a transferir seu lucros para paraísos offshore, empresas como a Chipotle continuarão a roubar os salários dos trabalhadores, e outras grandes empresas ainda engolirão subsídios, ao mesmo tempo em que não aceitam nenhum tipo de regulamentação governamental. As divisões de classe continuarão a ser um problema sério".

28 de maio de 2017

O pequeno livro vermelho para crianças

Jacob Blumenfeld*

The New York Times

Kyle Platts

Para o desânimo dos pais em todos os lugares, o MIT Press publicou recentemente um pequeno livro vermelho e branco intitulado "Comunismo para Crianças". Ele ensina aos filhos a administrar gulags, imitar ditadores genocidas, louvar Satanás e praticamente destruir a civilização ocidental - tudo por um preço razoável de US $ 12,95. A autora aprova orgulhosamente Barack Obama, Joseph Stalin, Bernie Sanders, Mao, Fidel Castro e milhões de outros comunistas que assassinaram 80 bilhões de pessoas, ao mesmo tempo que espalha subrepticiamente valores judeus, queer e anti-americanos para a próxima geração de jovens que buscam a liberdade. Pelo menos, essa é mais ou menos a história de acordo com Breitbart, National Review, American Conservative, The Daily Beast, The Daily Signal, Alex Jones, Rush Limbaugh, Milo Yiannopoulos, Steven Crowder, The Blaze, Pamela Geller, The Christian Truther, The Washington Free Beacon e Fox News. Para não mencionar as dezenas de milhares de tweets, postagens do Facebook, vídeos do YouTube e avaliações da Amazon que concordam virulentamente com isso.

Há apenas um pequeno problema: nada disso é verdade.

Quem lê além do título escandaloso reconhecerá imediatamente que o livro é uma crítica da história do comunismo. Mas é uma crítica imanente, que começa por aceitar as premissas do que procura criticar.

Ao contrário do exército de revisores de fantoches de meia, eu sei disso porque eu realmente li o livro. Na verdade, eu tive que lê-lo muitas vezes porque, juntamente com Sophie Lewis, eu traduzi o livro do alemão para o inglês. A autoa é Bini Adamczak, uma acadêmica de Berlim que escreveu extensivamente sobre a história comunista da União Soviética e suas muitas tragédias. A ideia por trás do livro é que se pode falar com sinceridade e pungência sobre a filosofia política e a história econômica do capitalismo e do comunismo em linguagem muito mais simples do que a dos economistas, cientistas políticos e especialistas em política.

Para fazer isso, a Sra. Adamczak conta um conto de camponeses que sobrevivem à transição do feudalismo para o capitalismo, uma história sobre os trabalhadores que se adaptam às demandas de produtividade do mercado de capitalista e uma parábola sobre diferentes e fracassadas tentativas de proletários e desempregados para melhorar suas condições econômicas através da organização coletiva. Coisa assustadora, eu sei. Embora a narrativa esteja cheia de sofrimento, derrota e fracasso, o verdadeiro escândalo do livro reside no seu otimismo, e espera que outro mundo ainda seja possível no útero do antigo. Mais escandalosa, essa esperança não pode ser decretada do alto por políticos, líderes ou empresários, mas apenas criada a partir de baixo por pessoas que lutam por um modo de vida justo, digno e livre.

Muito antes de a União Soviética esmagar todas as tendências políticas que favoreciam uma forma de socialismo mais libertária, o nome para esse modo de vida livre da miséria do trabalho assalariado era chamado de comunismo. No epílogo filosófico de seu livro, Adamczak confronta explicitamente o problema de como falar sobre o comunismo após um século de desastres cometidos em seu nome. Como ela deixa bem claro, não é fácil.

E, no entanto, isso não nos deixa fora do gancho. A única maneira de compreender verdadeiramente as falhas do comunismo é levar a sério as motivações, desejos e ideais daqueles que o defendiam. Mas, para fazer isso, primeiro devemos entender o capitalismo.

É aqui que fica muito confuso para a maioria dos críticos do comunismo, porque o próprio Karl Marx elogiou a produtividade, a eficiência e o poder da economia de mercado. Se pudermos aproveitar a energia do capitalismo sem seus efeitos de exploração, muitos comunistas ponderaram, então certamente podemos criar uma sociedade melhor para todos. Ou: se apenas os trabalhadores pudessem possuir as próprias fábricas, certamente poderíamos desencadear a força produtiva da sociedade. Ou melhor: se ao menos tivéssemos especialistas econômicos para gerenciar melhor o mercado, certamente poderíamos satisfazer as necessidades de todos. Ou mesmo: se apenas mais máquinas cuidassem do nosso trabalho, certamente todos os nossos problemas seriam resolvidos.

Aliás, a história do comunismo está cheia de tentativas fracassadas dos comunistas de serem melhores no capitalismo do que os próprios capitalistas. Como argumenta a Sra. Adamczak, isso ocorre porque a maioria das críticas comunistas ao capitalismo pega um aspecto idealizado da sociedade capitalista e coloca-o contra os outros, perpetuando involuntariamente o quadro que o comunismo pretende abolir. Esta receita para o desastre se repete ao longo da história, e a única maneira de pará-lo é que todos aprendam sobre as tentativas mal sucedidas de revolução, para não repetir esses erros nas lutas atuais. Por isso, "Comunismo para Crianças".

No vasto mar de besteira que inundou a mídia conservadora depois que o livro apareceu em inglês, o mesmo falando de conversação de detritos flutuavam à superfície uma e outra vez: o livro doutrina crianças com propaganda; promove uma ideologia maligna que levou à morte de milhões; é publicado por uma universidade de prestígio que deveria ter conhecido melhor; é hipócrita, porque custa dinheiro; e é fundamentalmente anti-americano, anti-cristão e anti-familiar (e, por implicação, é estrangeiro, judeu e queer). Um crítico até o chamou de "livro mais perigoso sobre economia já escrito para crianças".

Cem por cento dessas críticas baseiam-se em um mal-entendido do título, uma negação básica do fato de que todas as commodities custam dinheiro no capitalismo e uma visão errônea de como funciona a publicação acadêmica. Nada disso diz respeito ao conteúdo real do livro.

Isso não impediu o enxame de internet, a expressão adequada da comunicação digital hoje, como o filósofo Byung-Chul Han diz. A edição alemã original da Sra. Adamczak foi intitulada de "Comunismo: uma pequena história sobre como tudo pode ser diferente". Na verdade, não é um livro para crianças, mas um livro escrito para todos em uma linguagem que, em sua maior parte, as crianças também podem entender. O título que escolhemos para a edição americana foi uma maneira elegante de transmitir esse aspecto do livro. Não há propaganda, não há lavagem de cérebro e não há histórias cor-de-rosa de benfeitores comunistas abnegados para enganar as crianças a beberem o Ki-Suco marxista.

Quando o livro apareceu pela primeira vez na Alemanha, há mais de uma década, não houve tal raiva. Então, o que há sobre a palavra "comunismo" que assusta tanto os americanos da esquerda à direita? O Red Scare já acabou? Penso, sim, que, na América, o medo da palavra "comunismo" está vinculado ao medo da palavra "capitalismo", outra palavra não pronunciável no discurso educado. É fácil conversar sobre os mercados, a indústria, a classe média, os criadores de emprego, start-ups, a globalização e a gig economia, mas identificar a nossa sociedade como capitalista e chamar o nosso sistema econômico capitalismo é sugerir a possibilidade de uma organização alternativa da vida. E isso é perigoso, não americano, talvez até comunista.

Nomear o problema pode ser o primeiro passo para curar a doença, mas ainda não nos diz como proceder. Para isso, precisamos de idéias, experiências e sonhos. É sábio sonhar com utopia enquanto vivemos na distopia do presente?

O filósofo judeu alemão Theodor Adorno, conhecido por sua postura negativa em relação ao mundo após a experiência de Auschwitz, proclamou notoriamente: "Não há vida correta no erro". Isso geralmente é interpretado como significando que nenhuma mudança ética do estilo de vida individual pode corrigir os problemas sociais que resultam sistematicamente da estrutura política e econômica da sociedade. Os indivíduos atuam dentro de papéis sociais predeterminados, com pouca influência sobre o conteúdo de suas vidas, exceto por uma escolha de máscara de personagem. Os agentes reais da sociedade não são pessoas, mas coisas, commodities cuja música e dança no mercado devemos observar e respeitar de perto, sob pena de fome, falta de abrigo e morte. A mensagem sombria de Adorno não era destinada a seus contemporâneos, mas para o futuro - isto é, para o nosso presente, para que possamos entender como as falhas do passado da revolução destruíram qualquer possibilidade concreta de esperança para outro modo de vida.

Há outra leitura da observação de Adorno. Talvez não possamos viver uma vida errada com razão, mas podemos parar de viver erroneamente. Fazer isso exige uma profundidade de imaginação social, a coragem da luta coletiva e uma fonte de desejo político que parece quase evaporada no momento presente. O "Comunismo para Crianças" não é uma mensagem em uma garrafa para algum público futuro imaginado; é mais uma coleção de fragmentos quebrados de futuros perdidos ainda presos no presente. É um grito de trás da cortina da história para corrigir as injustiças do passado atendendo ao sofrimento do presente. Sugiro que prestemos atenção.

* Jacob Blumenfeld, escritor e tradutor, é pesquisador em filosofia na New School for Social Research.

26 de maio de 2017

O estado profundo é o Estado

Ron Jacobs

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

O estado profundo não é alguma entidade enigmática que opera fora do governo dos EUA. É o próprio Estado dos EUA. Como todos os elementos desse estado, o chamado estado profundo existe para reforçar a supremacia econômica do capitalismo norte-americano. Ele o faz principalmente através das forças policiais domésticas e internacionais secretas, como o FBI, a CIA e outras agências de inteligência. As operações destas agências vão da gama de vigilância a propaganda a ações militares encobertas e abertas. Naturalmente, este chamado estado profundo opera de acordo com suas próprias regras; regras que assegurem, em última análise, a sua existência e relevância. Embora possa ser argumentado que foi a Diretriz de Segurança Nacional de 1950, conhecida como NSC-68, juntamente com o Projeto de Lei do Congresso criando a Agência Central de Inteligência que lançou o "estado profundo", como nós o entendemos. Uma compreensão mais ampla do "estado profundo" coloca sua gênese talvez um século antes dessa data. Em outras palavras, uma estrutura projetada para manter a dominação econômica e política de certos poderosos capitalistas dos EUA existia bem no século XIX. No entanto, a centralização desse poder começou seriamente nos anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial.

Para aqueles que não sabem o que realmente foi o NSC-68, foi essencialmente uma diretriz que militarizou o conflito entre o capitalismo dos EUA e o comunismo soviético. Baseava-se na compreensão correta de que o capitalismo norte-americano exigia acesso livre aos recursos e mercados de todo o planeta e que a União Soviética representava a maior ameaça a esse acesso. Não só isso significava que as forças armadas dos EUA cresceriam em tamanho, mas também garantiu que o poder do setor de inteligência se expandisse tanto em termos de alcance como de orçamento. Quando se recorda que esse período na história dos EUA também foi um período em que o FBI e o Congresso dos Estados Unidos estavam indo atrás de esquerdistas e progressistas em nome de uma certa pureza ideológica de direita, o poder da polícia secreta dos EUA torna-se bastante evidente..

À medida que a década de 1950 se transformava em 1960, o poder do chamado estado profundo continuava a crescer. Algumas de suas manifestações mais conhecidas incluem a tentativa fracassada de invadir a Cuba revolucionária que conhecida como Baía dos Porcos, o uso de drogas psicoativas em indivíduos inocentes como parte de um estudo de controle mental e inúmeras tentativas de subverter governos considerados anti-americanos. Entre as últimas ações, pode-se incluir operações secretas contra as forças de independência vietnamitas e o assassinato do presidente congolês Patrice Lumumba. Em termos das operações domésticas do "estado profundo", este período viu a intensificação de espionagem e desorganização de vários grupos envolvidos na organização de direitos civis e anti-guerra. Muitos elementos da operação doméstica seria conhecido como COINTELPRO e foram dirigidos pelo FBI.

Embora as agências do chamado estado profundo operem como parte do estado dos EUA, isso não significa que essas agências sejam de uma só mente. De fato, como qualquer estrutura de poder, existem várias facções representadas. Isso significa que há desacordos sobre políticas, prioridades, direção e pessoal. A única certeza é que todos os seus membros concordam com a necessidade de manter a supremacia do capital dos EUA no mundo. Às vezes, o poder aparentemente absoluto da CIA e do FBI fizeram com que o Poder Executivo dos EUA tentasse criar outros meios e métodos para contornar esse poder. Dois exemplos disso vêm rapidamente à mente: a criação da Agência de Inteligência de Defesa (DIA) pelo governo Kennedy em 1961-1962 e a tentativa fracassada (conhecida como o plano de Huston após seu criador Tom Huston) da Casa Branca de Nixon de centralizar a direção de todas as operações de inteligência do governo dos EUA na Casa Branca.

Não há nenhum golpe suave ocorrendo em DC. Todos os governos foram propriedade de grandes empresas e da indústria bancária há mais de um século, se não desde a sua criação. Essa propriedade foi dominada pelo complexo militar-industrial desde aproximadamente a mesma época em que as agências acima mencionadas foram criadas. Isso não é coincidência. Entretanto, seu papel no atual alvoroço sobre a Rússia e Michael Flynn não é porque eles estão assumindo o governo. É porque sua liderança atual representa as facções do establishment dos EUA que foram removidas do poder em novembro de 2016.
Donald Trump não é contra o chamado estado profundo. Ele é contra ele sendo usado contra si mesmo e suas coortes. No mundo do poder capitalista, as facções que Trump representa não são as mesmas facções representadas pelos presidentes que o ex-diretor do FBI, Comey, serviu - as facções representadas por Bush e Obama. Ele entende que se ele puder instalar pessoas em posições-chave no FBI, CIA, DHS e outras agências de segurança e militares, ele e seus aliados ficarão mais do que felizes em usar o poder dessas agências contra seus oponentes. Na verdade, ele provavelmente aumentaria muito o poder dessas agências, fazendo mais uma zombaria da Constituição dos Estados Unidos. Se Trump é capaz de fazer com que as agências do estado profundo trabalhem para as facções que ele representa - substituindo aqueles leais a outros não nomeados por Trump pela persuasão ou coagindo-os a mudar sua lealdade - ele pensará que o estado profundo é um grande coisa. Desta forma, ele não é diferente de qualquer outro presidente dos EUA. Ele entende que quem controla o estado profundo controla os EUA. A luta que estamos testemunhando entre o FBI e a Casa Branca de Trump White é parte de uma luta de poder entre as elites de poder dos EUA.

Quando a classe dominante está em crise, como é agora, o trabalho da esquerda não é escolher um lado ou o outro. Nem é aceitar a narrativa fornecida por uma ou outra facção dos governantes, especialmente quando essa narrativa apóia o estado policial. Em vez disso, é dever da esquerda ir à raiz da crise e organizar resistência à própria classe dominante.

24 de maio de 2017

As mulheres de 1917

As mulheres não eram apenas a centelha da revolução russa, mas o motor que a conduzia para frente.

Megan Trudell


Mulheres reivindicam o aumento das rações em uma manifestação ao longo da Nevskii Prospekt após o Dia Internacional da Mulher, 23 de fevereiro de 1917. Arquivo Central de Filmes, Fotos e Documentos Sonoros do Estado, São Petersburgo.

Tradução
/ No Dia Internacional das Mulheres em 1917, mulheres tecelãs no distrito de Vyborg, em Petrogrado, entraram em greve, saíram das fábricas e se dirigiram às centenas, de fábrica em fábrica, chamando operárias e operários para a greve e se envolvendo em violentos confrontos com a polícia e com os soldados.

Sem qualificação, com baixa remuneração, trabalhando de doze a treze horas por dias em condições de higiene precárias e insalubres, as mulheres exigiram solidariedade e ação por parte dos homens, especialmente daqueles que trabalhavam com engenharia qualificada e em fábricas metalúrgicas, que eram tidos como os politicamente mais conscientes e a força de trabalho socialmente mais poderosa da cidade. As mulheres jogaram paus, pedras e bolas de neve nas janelas das fábricas e forçavam sua entrada nos lugares de trabalho, pedindo pelo fim da guerra e pelo retorno de seus homens que estavam no front.

De acordo com muitos contemporâneos e historiadores, essas mulheres que se revoltaram pelo pão – usando métodos tradicionais e “primitivos” de protesto social para demandas puramente econômicas, agindo a partir da emoção ao invés da formação teórica – inadvertidamente deram início à tempestade que varreu o czarismo, antes de desaparecerem por de trás dos batalhões de trabalhadores e de seus partidos políticos dominados por homens.

Já no início das greves de fevereiro, foram tecidas palavras de ordem políticas contra a guerra em meio aos protestos. A audácia, determinação e os métodos das mulheres deixaram claro que elas compreendiam a raiz de seus problemas, assim como a necessidade de uma unidade entre os trabalhadores e de convencer os soldados que estavam longe, protegendo o Estado czarista, a apoiar a revolta. Mais tarde, Trotsky registrou:

“As mulheres trabalhadoras desempenham um importante papel na relação entre trabalhadores e soldados. Elas sobem até os cordões com mais coragem do que os homens, agarram os rifles, suplicam, praticamente ordenam: “Abaixem suas baionetas – juntem-se a nós”. Os soldados estão empolgados, envergonhados, trocam olhares ansiosos, vacilam; alguém se decide primeiro e as baionetas se levantam com ares de culpa por cima dos ombros da multidão que avança”.

No final de 23 de fevereiro, soldados que faziam guarda nos depósitos de bondes foram convencidos pelas trabalhadoras do setor a se juntarem a elas dentro do prédio, e os bondes foram virados para serem usados como barricadas contra a polícia. Conquistar os soldados não foi simplesmente um resultado do crescente fardo da guerra contra as tropas ou da infecciosa “espontaneidade” dos protestos. Desde 1914, tecelãs relacionavam-se com o grande número de soldados, principalmente os de origem camponesa em Petrogrado. Homens em quartéis e mulheres em fábricas, vindos das mesmas regiões para a cidade, conversavam e estreitavam relações, esmaecendo as divisões entre trabalhadora e soldado e fornecendo às trabalhadoras uma clara compreensão da necessidade de apoio armado.

As trabalhadoras estavam firmes na vanguarda da Revolução de Fevereiro, que culminou na destruição do czarismo. As mulheres não foram meramente uma “centelha”, mas a força motriz que a impulsionou – apesar da desconfiança inicial de muitos trabalhadores e revolucionários homens.

Geralmente, a Revolução de Fevereiro é descrita como “espontânea” e, em certo sentido, isso é verdade: ela não foi planejada e executada por revolucionários. Mas espontaneidade não era o mesmo que falta de consciência política. As experiências das mulheres que invadiram as fábricas em Petrogrado, tanto como trabalhadoras quanto como chefes de famílias forçadas a permanecerem por horas em filas para alimentar suas famílias, acabaram com a distinção entre a demanda “econômica” pelo pão e a pressão política para por fim à guerra. As circunstâncias materiais colocaram a culpa pela fome e a pobreza aonde ela pertencia: na guerra e nos políticos que a conduziam. Tais demandas não poderiam ser alcançadas sem mudanças políticas sísmicas.

Além disso, as mulheres bolcheviques eram fundamentais para a greve, tendo trabalhado arduamente para organizar as trabalhadoras sem qualificação ao longo dos anos, apesar da postura dos homens de seu próprio partido. Para eles, a organização das mulheres era, no mínimo, uma distração da luta contra o czarismo e, na pior das hipóteses, jogar o jogo das feministas da elite, que afastariam as mulheres para longe da luta de classes.

Muitos homens no movimento revolucionário sentiam que os protestos do Dia Internacional da Mulher eram prematuros e que as mulheres trabalhadoras deveriam ser freadas até que os trabalhadores qualificados estivessem prontos para agirem decisivamente. Foram as mulheres membras do partido, minoria dentro dele, que defenderam uma reunião no distrito de Vyborg, chamando as trabalhadoras para discutirem a guerra e a inflação e as mulheres ativistas, que chamaram por uma manifestação contra a guerra para o Dia Internacional da Mulher. Uma delas foi Anastasia Deviatkina, bolchevique e operária que organizou um sindicato para as esposas de soldados após a Revolução de Fevereiro.

Depois de fevereiro, as mulheres desaparecem da maioria dos relatos sobre o desenvolvimento da Revolução ao longo de 1917. As exceções são algumas mulheres revolucionárias bastante conhecidas, como Alexandra Kollontai, Nadezhda Krupskaia e Inessa Armand, muitas vezes discutidas tanto por sua vida privada como esposas e amantes, quanto por sua atividade prática e contribuições teóricas.

As mulheres estavam ausentes principalmente dos órgãos administrativos que emergiam das cinzas do czarismo. Poucas eram representantes nos conselhos das aldeias, delegadas na Assembléia Constituinte ou mesmo como delegadas do Soviete de Petrogrado. As eleições para os comitês de fábricas eram dominadas por homens, que eram eleitos delegados até em indústrias onde as mulheres trabalhadoras eram maioria. Havia duas razões para isso e elas se relacionavam: as mulheres ainda tinham a tarefa de alimentar suas famílias em circunstâncias precárias e, além disso, careciam de confiança e de educação, bem como de tempo, para se colocarem à frente nos altos níveis de atividade política, ou mesmo para se manter neles. As maneiras como as mulheres trabalhadoras viviam na Rússia durante séculos, a realidade material de sua opressão, limitaram sua capacidade em combinar o inquestionável aumento de sua consciência política com o seu engajamento político

A Rússia de antes de 1917 era uma sociedade predominantemente camponesa; a autoridade total do czar era consagrada e reforçada pela Igreja e se refletia na instituição da família. O casamento e o divórcio estavam sob controle religioso; as mulheres eram legalmente subordinadas, consideradas como propriedades e menos do que humanas. Provérbios russos comuns incluíam formulações como: “Pensei ter visto duas pessoas, mas era apenas um homem e sua esposa”.

O poder masculino sobre a unidade doméstica era total e esperava-se das mulheres que aceitassem condições brutais, passadas de pai para marido e que as fazia frequentemente alvo de violência sancionada. As mulheres camponesas e operárias enfrentavam um trabalho penoso e árduo nos campos e fábricas, com o considerável fardo adicional de cuidar das crianças e das responsabilidades domésticas, isso numa época em que o parto era difícil e perigoso, que a contracepção era inexistente e que a mortalidade infantil era elevada.

No entanto, o envolvimento político das mulheres em 1917 não veio do nada. A Rússia era uma contradição: ao lado da profunda pobreza, opressão e tirania sofrida pela maioria de seu povo, a economia russa crescera nas décadas anteriores a 1905. Enormes e modernas fábricas produziam armas e tecidos, ferrovias conectavam cidades que cresciam rapidamente e investimentos e técnicas vindas da Europa levaram a enormes aumentos da produção de ferro e de petróleo.

Essas dramáticas mudanças econômicas geraram uma imensa transformação social nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial: um crescimento no número de mulheres camponesas migrando para as fábricas urbanas, impelidas pela pobreza e encorajadas por patrões cuja intensa mecanização fabril gerava ainda mais empregos não qualificados. A preferência deles por trabalhadores “submissos” levou a um gigantesco crescimento no número de mulheres trabalhando na produção de linho, seda, algodão, lã, cerâmica e papel.

As mulheres haviam participado das greves nas fábricas têxteis em 1896, em protestos contra o recrutamento militar antes da guerra russo-japonesa e – de maneira decisiva – na Revolução de 1905, quando trabalhadoras não qualificadas de fábricas têxteis, de tabaco e de doces, juntaram-se às trabalhadoras domésticas e de lavanderia, entrando em greve e tentando formar seus próprios sindicatos como parte da revolta maciça que ocorria.

O impacto da Primeira Guerra Mundial foi decisivo para aumentar o peso econômico e político das mulheres. A guerra destruiu famílias e suspendeu a vida das mulheres. Milhões de homens estavam ausentes, lutando no front, ou mesmo feridos ou mortos. As mulheres, por sua vez, se viram forçadas a trabalhar a terra sozinhas, chefiar os lares e integrar a força de trabalho urbana. As mulheres eram 26,6% da força de trabalho em 1914; e quase metade (43,4%) em 1917. Mesmo em áreas que exigiam qualificação, a participação das mulheres aumentou significativamente. Em 1914, as mulheres somavam apenas 3% dos trabalhadores da metalurgia; em 1917, o número subiu para 18%.

Na situação da divisão de poder entre o governo provisório e o Soviete, após a Revolução de Fevereiro, os protestos das mulheres não desapareceram, mas passaram a fazer parte do processo que viu o apoio dos trabalhadores mudar do governo para o Soviete e, no interior do Soviete, da liderança socialista moderada da coalizão Mencheviques-Socialistas Revolucionários para os Bolcheviques em setembro.

As expectativas de trabalhadoras e trabalhadores de que suas vidas melhorariam com a queda do czar foram frustradas pelo governo e pela continuidade da guerra por parte da liderança do Soviete. Em maio, os protestos contra a guerra haviam forçado a dissolução do primeiro governo provisório e os líderes Mencheviques-SR haviam formado um governo de coalizão com os liberais – que ainda estavam dedicados à guerra. A desilusão dos trabalhadores levou a novas greves, novamente lideradas por mulheres. Cerca de quarenta mil trabalhadoras de serviços de lavanderia, membras de um sindicato liderado pela bolchevique Sofia Goncharskaia, entraram em greve por melhor pagamento, jornada de oito horas e melhorias nas condições de trabalho: melhores condições de higiene no trabalho, benefícios de maternidade (era comum que as trabalhadoras escondessem a gravidez até darem à luz no chão da fábrica) e fim ao assédio sexual. Como descrevem as historiadoras Jane McDermid e Anna Hillyer:

“Junto com outras militantes do sindicato, Goncharskaia ia de lavanderia em lavanderia persuadindo as mulheres a participarem da greve. Elas enchiam baldes com água fria para apagar os fornos. Em uma lavanderia, o proprietário atacou Goncharskaia com um pé-de-cabra; ela foi salva pelas lavadeiras que o agarraram pelas costas”.

Em agosto, diante das tentativas do general Kornilov de esmagar a revolução, as mulheres se uniram à defesa de Petrogrado, construindo barricadas e organizando a assistência médica. Em outubro, as mulheres do partido Bolchevique se envolveriam na prestação de assistência médica, nas comunicações cruciais entre as localidades, algumas inclusive tinham a responsabilidade de coordenar o levante em diferentes áreas de Petrogrado e havia também mulheres membras da Guarda Vermelha. McDermid e Hillyer descrevem o envolvimento de outra mulher bolchevique em outubro:

“A condutora de bonde, A.E. Rodionova, tinha escondido 42 rifles e outras armas em seu depósito quando o Governo Provisório tentou desarmar os trabalhadores após os dias de julho. Em outubro, ela foi responsável por garantir que dois bondes com metralhadoras partissem do depósito para o assalto ao Palácio de Inverno. Ela teve de garantir o funcionamento do serviço de bondes durante a noite de 25 para 26 de outubro para auxiliar na tomada do poder e verificar os postos da Guarda Vermelha por toda a cidade”.

A trajetória da revolução ampliou o fosso entre as trabalhadoras – para quem a guerra foi a causa de suas dificuldades e cujos apelos à paz cresceram mais com o passar do ano – e as feministas – que continuaram a apoiar o derramamento de sangue. Para a maioria das feministas liberais da elite, a igualdade perante a lei e na educação, assim como a reforma social, seriam conquistadas se permanecessem leais ao novo governo e ao esforço de guerra. Demonstrar patriotismo seria o caminho para ganhar um assento na mesa.

A Revolução de Fevereiro conduziu a uma renovada campanha feminista pelo sufrágio universal, um significativo passo à frente quando ele foi concedido, em julho de 1917. Para a maioria das mulheres, no entanto, o direito ao voto fazia pouca diferença em suas vidas, ainda dominadas pela escassez, pelas longas jornadas de trabalho e por batalhas para manterem suas famílias unidas. Como escreveu Kollontai em 1908:

“Apesar das demandas aparentemente radicais, não se deve perder de vista que as feministas não podem, devido a sua posição de classe, lutar pela transformação fundamental da estrutura econômica e social contemporânea da sociedade, sem a qual não pode haver libertação plena das mulheres”.

Para a maioria das mulheres operárias e camponesas, opressão e igualdade não eram questões abstratas, mas emergiam concretamente do processo de luta por melhorias em suas vidas e nas de seus homens e crianças. Aquelas que voltarem-se para a política e eram mais confiantes, muitas vezes membras do Partido Bolchevique, assim tornaram-se como resultado de sua própria ação coletiva contra a guerra e os políticos – ação centrada na oposição à fome, à guerra e à propriedade privada da terra. Robert Service argumenta que:

“O programa político Bolchevique mostrou-se cada vez mais atraente para a massa de operários, soldados e camponeses à medida que a turbulência social e a ruína econômica atingiram o clímax no final do outono. Mas o programa, por si só, não era suficiente para levar à Revolução de Outubro”.

Essas experiências foram vividas tanto pelas mulheres operárias, camponesas e esposas de soldados quanto suas contrapartes masculinas. Sem o apoio das trabalhadoras não qualificadas em Petrogrado, a insurreição de Outubro não teria ocorrido.

O apoio aos bolcheviques não era cego, mas sim o resultado, nas palavras de Trotsky, de “uma cautelosa e dolorosa tomada de consciência” por milhões de trabalhadoras e trabalhadores. Em outubro, tudo já havia sido tentado: o Governo Provisório e os Mencheviques os traíram, as manifestações trouxeram repressão ou ganhos limitados que já não satisfaziam as esperanças de uma vida melhor e, de maneira crucial, a tentativa de golpe de Estado de Kornilov deixou clara a ameaça: vá em frente ou seja esmagado. Um trabalhador colocou nos seguintes termos: “Os Bolcheviques sempre disseram: ‘Não somos nós que vamos persuadi-lo, mas a própria vida’. E agora os Bolcheviques triunfaram porque a vida provou que suas táticas são corretas”.

Foram os bolcheviques que tomaram a questão da mulher com tanta seriedade. Embora, do ponto de vista de hoje, as mulheres estivessem bastante sub-representadas, foi feito um esforço rigoroso para desenvolver e organizar as mulheres trabalhadoras. Mas o fato dos Bolcheviques terem feito mais do que outros partidos socialistas, no que dizia respeito às trabalhadoras, não foi necessariamente por terem um maior compromisso com os direitos das mulheres.

Tanto Mencheviques quanto Bolcheviques entendiam a necessidade de se comprometer com as mulheres como parte da classe operária, mas os Bolcheviques podiam vincular a luta pela igualdade entre homens e mulheres a uma estratégia de classe contra o governo e a guerra, enquanto os partidos envolvidos com a continuidade do conflito e com as negociatas com os privilegiados e os patrões poderiam fazer pouco mais do que informar sobre as greves das mulheres e falar sobre direitos políticos, sem apresentar soluções concretas para as pressões materiais das vidas das mulheres.

Os Bolcheviques assumiam cada vez mais a organização e a politização das mulheres – em parte, aprendendo com os começos explosivos de fevereiro; mas também, devido à tenacidade das próprias mulheres do partido.

Lideranças dentre as Bolcheviques, tais como Kollontai, Krupskaia, Armand, Konkordiia Samoilova e Vera Slutskaia, entre outras, argumentavam há muito que o partido deveria fazer esforços especiais para organizar as trabalhadoras e desenvolver sua formação política. Elas lutaram para convencer seus camaradas homens de que as mulheres trabalhadoras não qualificadas eram de importância central à revolução, e não um obstáculo passivo, conservador e “atrasado”. O jornal bolchevique Rabotnitsa (A Mulher Trabalhadora), publicado pela primeira vez em 1914 e relançado em maio de 1917, trazia artigos sobre a importância de creches, berçários e legislação protetiva para o trabalho das mulheres, e destacou repetidamente a necessidade de igualdade e da “questão feminina” ser assumida por todos os trabalhadores.

O papel das mulheres trabalhadoras na Revolução de Fevereiro e sua contínua importância como parte da classe operária de Petrogrado ajudaram a mudar a visão de muitos homens Bolcheviques, que acreditavam que focar nas “questões femininas” era ceder ao feminismo e que a revolução seria liderada pelos trabalhadores (homens) mais qualificados e politicamente conscientes. No entanto, essa era uma batalha ingrata; quando Kollontai propôs um núcleo de mulheres no partido em abril, ela estava quase isolada, embora tivesse o apoio de Lenin, cujas Teses de Abril não foram recebidas com muito entusiasmo pela liderança Bolchevique – da mesma forma, Kollontai era a única apoiadora de Lenin no comitê central.

Nos meses seguintes, no entanto, ficou claro que tanto o argumento de Lenin sobre dar continuidade à revolução por meio dos sovietes, quanto a convicção de Kollontai sobre a importância das mulheres trabalhadoras que brotava da dinâmica da revolução, poderiam impulsioná-la adiante. Os jornais Bolcheviques, além do Rabotnitsa, passaram a argumentar que atitudes sexistas arraigadas ameaçavam a unidade de classe e o partido trabalhava para que as mulheres fossem representadas em comitês de fábricas, desafiando as atitudes dos homens que consideravam as trabalhadoras como uma ameaça, buscando convencer os trabalhadores homens a votar em mulheres – especialmente em indústrias onde elas eram maioria – e a tratá-las com respeito enquanto colegas de trabalho, representantes e camaradas.

Seis semanas após a Revolução de Outubro, o casamento foi substituído pelo registro civil e o divórcio tornou-se disponível a pedido de qualquer uma das partes. Essas medidas foram elaboradas um ano mais tarde no Código da Família, que tornou as mulheres iguais perante a lei. O controle religioso foi abolido, removendo de um só golpe séculos de opressão institucionalizada; o divórcio poderia ser obtido por qualquer uma das partes sem necessidade de qualquer razão; as mulheres tinham direito ao seu próprio dinheiro e nenhum dos parceiros tinha direitos sobre os bens do outro. O conceito de ilegitimidade foi erradicado – se uma mulher não sabia quem era o pai, todos os seus parceiros sexuais anteriores recebiam a responsabilidade coletiva pela criança. Em 1920, a Rússia tornou-se o primeiro país a legalizar o aborto mediante solicitação.

A Revolução de 1917 foi iniciada e moldada pelas mulheres e, ao longo do ano, muitas concepções antigas que tratavam as mulheres como inferiores, como propriedade, como passivas, atrasadas, conservadoras, inseguras e fracas foram desafiadas, talvez até mesmo obliteradas, pela ação das mulheres e por seu comprometimento político.

Mas a Revolução Russa não aboliu a dominação masculina nem libertou as mulheres – as privações catastróficas da Guerra Civil e as subseqüentes distorções do governo soviético tornaram isso uma impossibilidade. As desigualdades permaneciam. Poucas mulheres ocuparam posições de autoridade, poucas eram eleitas para órgãos administrativos e as idéias sexistas não podiam simplesmente desaparecer na adversidade extrema que se seguiu a outubro.

Durante a revolução, as mulheres não participaram de maneira igual aos homens nem contribuíram de forma significativa nos níveis mais elevados do processo político, mas, de acordo com as possibilidades de suas vidas, desafiaram as expectativas e moldaram o curso da revolução. Como McDermid e Hillyer afirmam:

“É verdade que a divisão do trabalho entre homens e mulheres permaneceu, mas em vez de concluir que as mulheres falharam em desafiar a dominação masculina, consideremos como elas agiram dentro de sua esfera tradicional e o que isso significou para o processo revolucionário”.

As mulheres foram parte integrante da Revolução de 1917, fazendo história ao lado dos homens – não como espectadoras passivas ou cifras apolíticas, mas como participantes corajosas, cujo engajamento foi ainda mais significativo se considerarmos a opressão arraigada que essas mulheres rejeitaram. Ver a revolução através dos seus olhos dá uma leitura mais rica daquele que permanece sendo o momento histórico mais transformador para a vida das mulheres.

23 de maio de 2017

As greves gerais

Marcelo Badaró Mattos

A história das greves gerais no Brasil mostra por que a do mês passado - a maior do país até agora - foi tão vital.

Jacobin

Multidão em São Paulo, Brasil, em 28 de abril de 2017. Créditos: Pedro Maia Veiga

Em 28 de abril, as imagens transmitidas pelas mídias sociais brasileiras de pneus queimados em dezenas de estradas - bloqueadas em todo o país antes do amanhecer por grupos de trabalhadores organizados - de garagens de ônibus, estações de transporte fluvial, acesso ao aeroporto, todos fechados por grupos carregando cartazes e bandeiras vermelhas, afirmando o poder das pessoas que vivem da sua força de trabalho: greve geral! Imagens que ilustravam as notícias de fábricas fechadas, lojas e serviços. Houve uma paralisia total do transporte urbano na maioria das capitais e em muitas pequenas cidades do norte e nordeste do Brasil, bem como nas capitais do sul.

A principal metrópole do Brasil, São Paulo, estava totalmente paralisada; o Rio de Janeiro e outras capitais ficaram parcialmente paralisadas. Podemos dizer, sem maiores investigações, que o Brasil foi amplamente afetado pela greve de 28 de abril. Os protestos maciços no final do dia só reforçaram esta observação.

Entre a nova geração de militantes - responsáveis pelo dilúvio de imagens e postagens relacionadas à greve em toda a mídia social - que não testemunharam a última greve geral bem sucedida, em 1989 (ou mesmo as duas tentativas limitadas nos anos 90), a alegria de compartilhar essas imagens e notícias evocava os melhores sentimentos da luta socialista. Os mesmos sentimentos que se sentiram cem anos atrás, durante a Revolução Russa, onde a greve geral desempenhou um papel importante.

Em 23 de fevereiro de 1917, as trabalhadoras das fábricas de tecidos, contra o conselho de líderes socialistas, lançaram uma greve que se espalhou por Petrogrado e outras cidades industrializadas, levando milhares de trabalhadores a abandonar seus locais de trabalho. Este confronto entre os grevistas e as forças repressivas do czar foi o primeiro momento da revolução. A greve geral não representava todo o processo revolucionário; o povo russo ainda teria de passar por outros momentos de disputa de poder, no Governo Provisório e nos sovietes. Ainda assim, teve um papel importante no processo revolucionário.

Nem todas as greves gerais lideram o caminho da revolução, embora tenham sempre um impacto sólido sobre o equilíbrio de forças num determinado período. Os exemplos na história do Brasil são significativos.

Em agosto de 1903, trabalhadores de uma fábrica de confecções do Rio de Janeiro pararam o trabalho, exigindo uma jornada de oito horas e um aumento salarial de 40%. Ao longo de vinte e seis dias, a greve espalhou-se pelas fábricas de vestuário e em outros setores, reunindo cerca de quarenta mil trabalhadores (vinte e cinco mil da indústria de tecidos). Suas reivindicações foram apenas parcialmente satisfeitas e a repressão foi brutal. Centenas de grevistas foram despedidos e as federações dos trabalhadores foram fechadas. Apesar disso, a ação dos trabalhadores produziu um resultado positivo com a criação de vários sindicatos durante e após a greve.

Logo depois, foi criada uma federação sindical, que mais tarde se tornaria a Federação dos Trabalhadores do Rio de Janeiro (1905), uma organização que promoveu o Congresso Brasileiro dos Trabalhadores em 1906. Este congresso fundou a Confederação Brasileira de Trabalhadores (COB), o embrião da primeira federação sindical do país. Em 1906, outra greve geral paralisaria Porto Alegre, na época relativamente industrializada. Em 1917 ocorreu a maior greve do período; iniciada nas fábricas de confecção e espalhada para vários setores, paralisou cerca de setenta mil trabalhadores em São Paulo (naquela época já a maior cidade industrial do país) por vários dias. As autoridades e os empregadores foram obrigados a negociar uma agenda apresentada por uma comissão de representação dos trabalhadores (formada através da greve), aceitando algumas das reivindicações dos trabalhadores em troca da suspensão da greve.

Uma onda de greves continuou nos próximos anos; o Estado aumentou a repressão, mas também iniciou uma discussão sobre a necessidade de leis que reconhecessem as demandas dos trabalhadores. Após quase cinquenta anos, ocorreu no Brasil a primeira greve geral com características verdadeiramente nacionais. Foi em 1962, e sua maior demanda foi o "décimo terceiro salário" [como os trabalhadores brasileiros são pagos mensalmente, o "décimo terceiro salário" iria garantir um salário extra no final do ano].

A greve exigiu também um gabinete ministerial nacionalista (após a renúncia de Jânio Quadros, o então vice-presidente João Goulart assumiu a presidência, graças à pressão da esquerda e da classe trabalhadora. No entanto, os partidos governantes limitaram seus poderes e adotaram o sistema parlamentar). O corpo de coordenação da greve posteriormente evoluiu para o Comando Geral dos Trabalhadores, um novo embrião da federação sindical que liderou outras greves antes do golpe militar em 1964.

Portanto, essas greves gerais, embora não conduzissem à revolução, afetaram a correlação de forças na luta de classes em três níveis cruciais. Obtiveram direitos (como o décimo terceiro salário, ganhado em 1962); avançaram vigorosamente para a organização da classe (como se viu indiretamente na greve do Rio de Janeiro em 1903 e diretamente em 1962), e impactaram a política em escala nacional. Cada greve tem um conteúdo político, uma vez que confronta o capital, mas em greves gerais, esse conteúdo é explícito e pode forçar uma mudança de postura pelas autoridades, como foi o caso da greve de 1917.

A greve geral de 1989, mencionada anteriormente, foi a maior greve da história do Brasil, paralisando mais de 70% da população ao longo de quarenta e oito horas e combinando de maneira única os três elementos mencionados acima. A década de 1980 devolveu a greve geral ao reino do possível - quatro delas ocorreram naquela década, em intensidades variadas - devido a uma onda de luta social que culminou com uma reorganização da classe trabalhadora. A ascensão da Central Unica de Trabalhadores (CUT) em 1983 foi a maior conquista desse processo.

A agenda de greve de 1989 incluía, como a maioria das greves na época, o reposição dos salários perdidos devido à inflação e a garantia de salários atrelados à inflação. Além disso, seu conteúdo político era claro. As lutas sindicais desde o final da década de 1970 constituíram o maior desafio ao padrão de transição política, conduzido de cima para baixo, que acabou com a ditadura. A resistência dos trabalhadores também se manifestou no sistema partidário. Através da criação do Partido dos Trabalhadores (PT), em 1980, erigiu um poder capaz de atrair e orientar um amplo grupo de movimentos em torno de um programa vagamente socialista numa disputa institucional que culminou em 1989 com o candidato do PT Luís Inácio Lula da Silva ido para o segundo turno nas eleições presidenciais.

Enquanto escrevo, ainda afetado pelas belas imagens da greve de abril e pelos registros da brutal repressão policial que se seguiu, as federações sindicais anunciaram que 28 de abril, em números absolutos, foi a maior greve geral da história do Brasil, superando os trinta e cinco milhões de trabalhadores que atingiu em 1989. Não é possível prever as consequências desta greve. Mas haverá conseqüências. Nos três níveis mencionados anteriormente, a mudança é inevitável e, embora uma greve geral como a do mês passado tende a provocar retaliações no curto prazo, é em última análise positiva para a classe trabalhadora.

No nível de reivindicações imediatas, a greve geral foi bem-sucedida ao despertar a consciência das terríveis medidas que o Congresso brasileiro aprovou. A reforma trabalhista (aprovada vinte e quatro horas antes da greve), que complementa a lei de terceirização, revoga muitos direitos trabalhistas e quebra os instrumentos de negociação que limitam a exploração de capital dos trabalhadores. Há também a reforma das pensões, cujo objetivo é transformar a aposentadoria (apoiada por fundos públicos) em um privilégio para aqueles que podem sobreviver ao longo de quatro décadas de exploração intensiva. Esta é uma questão de vida ou morte para nossa geração e para a próxima, pois destrói profundamente e rapidamente os direitos da classe trabalhadora.

É por isso que a greve geral foi essencial. Houve muitas dificuldades em organizá-lo, mas as mais significativas vieram das maiores federações sindicais. Depois de transformações graduais que levaram a um sindicalismo de conciliação social na década de 1990, a CUT - para falar sobre a mais importante delas - na década seguinte tornou-se um simples ramo sindical do governo do PT, servindo de amortecedor de conflito em vez de um mobilizador de massas. Mesmo agora, com o PT fora do governo, a CUT hesita em chamar sua base à luta, sempre subordinando essas mobilizações aos objetivos eleitorais de Lula e do PT. Se a greve geral encorajasse a oposição dentro dos maiores sindicatos e impulsionasse os pólos mais combativos do movimento sindical (CSP-Conlutas, Intersindical e outros grupos), isso poderia se tornar um novo marco no processo de reorganização dos sindicatos classe operária.

Quanto aos conflitos com o Estado, esperava-se a violência geral e a repressão policial, pois estamos lutando contra um governo que assumiu o poder por meio de um golpe parlamentar e judicial, que preserva a aparência da democracia institucional apenas para se proteger das reivindicações populares. No Rio de Janeiro, mais de cem mil pessoas tomaram as ruas, apesar da intensa repressão da polícia militar - que, a partir de 2013, continua, apesar de seu atraso de salários, a gastar milhões de reais em bombas e balas de borracha para cada protesto. O governo do Rio de Janeiro é tão corrupto que seu ex-governador e metade de seus secretários estão presos e o ex-vice-governador, agora na presidência, está continuamente associado aos atos criminosos da antiga administração.

O objetivo dessa revolução autocrática e contra-revolucionária do governo brasileiro é precisamente garantir essas contra-reformas, criando as condições para a intensificação da exploração dos trabalhadores, contrabalançando o declínio da taxa de lucro do capital. Além disso, a greve geral desempenha um papel crucial na reconfiguração da organização da classe trabalhadora e na elevação da luta dos "Fora Temer" para outro nível.

A reentrada dos trabalhadores de maneira organizada e combativa na política através da greve geral introduz desafios para os quais a esquerda socialista deve ser preparada: devemos antecipar a expansão das lutas; mover para parar e reverter as contra-reformas, acelerar e reorganizar os movimentos sociais e operários, e superar esse governo ilegítimo. Não é fácil, mas esperamos que as imagens e os acontecimentos de 28 de abril despertem os melhores instintos e sentimentos dos socialistas, para que possamos avançar essas lutas urgentes, das quais a greve geral poderia ser apenas o ponto de partida.

Ataques de Manchester: Qual o preço da hipocrisia?

por John Wight

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

A falta de uma estratégia coerente contra o terrorismo em Washington e, por extensão, no Ocidente, uma vez que os serviços de emergência lidam com as conseqüências devastadoras de mais uma atrocidade terrorista na Europa - desta vez um atentado suicida em um concerto em Manchester, Inglaterra - foi colocada em relevo durante a visita do presidente Trump ao Oriente Médio.

Especificamente, em que planeta o Irã pode ser credivelmente acusado de financiar e apoiar o terrorismo enquanto a Arábia Saudita é considerada um parceiro viável na luta contra o terrorismo? Esta é precisamente a narrativa que estamos sendo convidados a abraçar pelo Presidente Trump no que conta como um afastamento da realidade para os domínios da fantasia, empreendida em serviço não à segurança, mas ao comércio.

Na verdade, aqueles que ainda lutam para entender por que países como os EUA, Reino Unido e França procuram consistentemente legitimar um regime saudita que é apoiado pela doutrina religiosa medieval do wahhabismo, que é quase indistinguível do extremismo religioso medieval e do fanatismo do Daesh e da Frentte al-Nusra na Síria - essas pessoas não precisam olhar mais longe do que as relações econômicas que cada um desses países desfruta com Riade.

O anúncio de que Washington acabou de fechar um gigantesco acordo com seu aliado saudita em vendas de armas - no valor de US $ 110 bilhões imediatamente e US $ 350 bilhões em 10 anos - é todo o incentivo que o establishment político e midiático dos Estados Unidos precisa para olhar para o outro lado quando se trata de decapitações públicas, crucificações, arrancamento de olhos, e outras punições cruéis e bárbaras infligidas no Reino com regularidade.

A pura irrealidade do Rei Salman, da Arábia Saudita, quando esteve ombro a ombro com o Presidente Trump durante a visita de Estado ao país recentemente, lamentando o caos e a carnificina na Síria, que ele descreveu como "um dos países mais avançados" antes do conflito que causou tanta morte e destruição, a pura irrealidade disto está fora da escala - e especialmente considerando o papel que os sauditas têm desempenhado no fornecimento de apoio material, financeiro, ideológico e religioso a grupos engajados na carnificina na Síria como a que acaba de ser desencadeada em Manchester.

Há momentos em que a verdade não é suficiente, quando o será apenas a verdade nua e crua, e na esteira do ataque de Manchester - em relação ao qual, no momento da redação, 22 pessoas foram mortas e 60 feridas - não podemos evitar a conclusão de que nem princípio nem racionalidade está direcionando a política externa ocidental no Oriente Médio, ou no que se refere ao terrorismo.

Em vez disso, está sendo conduzido por uma hipocrisia pura, na medida em que, quando tal carnificina ocorre na Síria, como tem ocorrido permanentemente nos últimos 6 anos, os perpetradores ainda são descritos em alguns círculos como rebeldes e combatentes da liberdade, mas quando ocorre em Manchester, Paris ou Bruxelas, etc, eles são retratados como terroristas. Nem é credível continuar a demonizar os governos que estão na linha de frente contra esta ameaça terrorista - ou seja, o Irã, a Rússia, a Síria - enquanto cortejam e se curvam aos pés dos governos que estão exacerbando - ou seja, a Arábia Saudita, mencionada anteriormente, juntamente com o Qatar, Kuwait e Turquia. Aqui também deve ser mencionada a brutal e contínua injustiça infligida aos palestinos por um governo israelense que compartilha com os sauditas uma doutrina de excepcionalismo religioso e supremacia, que é hostil à paz ou à segurança de seu próprio povo.

Em última análise, é preciso escolher entre segurança e estabilidade ou vantagem econômica e geopolítica, com a bandeira da democracia e dos direitos humanos a perder o seu brilho nos últimos anos precisamente porque a escolha errada foi feita - ou seja, um pacto faustiano com o oportunismo.

À medida que a fumaça desaparece, literal e figurativamente, de outra atrocidade terrorista, somos forçados a considerar como chegamos a esse ponto. E quando o fazemos, não podemos deixar de compreender o papel do extremismo ocidental em dar à luz e alimentar o extremismo salafi-jihadista. Além disso, no meio da dor compreensível e eminentemente justificável que sentimos em eventos com este de Manchester, cabe-nos não esquecer o fato saliente de que os muçulmanos são e continuam a ser as maiores vítimas desta ameaça terrorista, desencadeada em nome da pureza religiosa e do sectarismo, e também que são os muçulmanos que estão fazendo mais para confrontá-la e combatê-la, seja na Síria, no Iraque, na Líbia ou no Afeganistão. Também não devemos escapar à nossa interpretação da questão que o que cada um desses países têm em comum é que todos eles foram vítimas do extremismo ocidental mencionado anteriormente.

É preciso repetir: você não pode continuar a invadir, ocupar e subverter os países muçulmanos e árabes e não esperar conseqüências. E quando essas conseqüências equivalem ao abate e mutilação de seus próprios cidadãos, as mesmas banalidades repetitivas e superficiais com as quais somos ritualmente regalados por políticos e líderes com o intuito de reforçar suas credenciais antiterrorismo e segurança, conseguem pouco, exceto induzir náuseas.

Já é suficiente.